mulher de um homem só

romance
alex castro

Para Renata, Fernanda, Debbie e Isabel, que me ensinaram tudo o que preciso saber sobre amizade homem mulher.

Não tinha nem me libertado da escola ainda quando casei. Mas boa fedelhacente que era não encampava mais vida na minha casa: foi só Murilo puxar o pedido e eu aceitei, num estrambelho. Quis dar a ele a impressão de já ter ponderado muito o assunto, de que estava apenas esperando sua iniciativa. A verdade é que, até aquele momento, a idéia de casamento nunca me irrompera. Dá vontade de rir: tipógrafa amadora, quem teve a impressão errada fui eu. Troquei todos os tipos, achei que o pedido tinha sido feito com o mesmo desconcerto com que foi aceito. Eu ainda não conhecia Murilo. Mas seu diário já na véspera confessava: “Contas batem. Papai se comprometeu c/empréstimos. Mamãe vai dar apoio comida, lavagem roupas. Ocupar aptº vovô economiza aluguel. Júlia aponta ser provável Carla querer trabalhar e/ou cursar faculdade mesmo tempo .·. renda extra. Não tenho direito considerar essa variável nos cálculos. Hoje finalmente concordamos que as chances de aceitação ultrapassaram 75%. Amanhã faço pedido.” No e/ou, escolhi ou. Murilo não tinha condições de trabalhar – ser estudante de medicina já é trabalho em tempo integral – e eu não queria viver sustentada pelos sogros. Naftalinei meus planos universitários e fui vender roupa de grife: larguei casa por não suportar mais ser criança e, agora, mulher casada, é que eu não ia viver do dinheiro dos outros. Murilo não tinha grandes despesas: estudava em universidade pública, almoçava bandejão e mal jantava. Seu único gasto eram uns poucos livros grossos com ilust- 

rações desagradáveis: a maioria. irmãos insuportáveis. pra mim. Quer dizer. não era certo eu gastar e ele não. em meia hora esbaforida. eu é que não ia assentar em casa. Eu? Cresci menina rica. pros sogros. já estava na década de cinqüenta. Mas Murilo maquina muito. E acho graça que eu só tinha dezoito anos e que nem sabia o que era casamento: fui aprendendo. deviam ser como meus pais. amontoar comissão. mercadear roupa. porque casa que não se usa quase não tem o que se arrumar. Aí eu largava tudo. família era tudo igual. me desabalava pra casa e. mas nem precisava. não tinha porque ela desgostar de uma escrava como eu. avós incontinentes: não tinha nada que eu quisesse menos do que ajuda. Tudo tinha que estar perfeito pro maridão cansado: eu tomava banho. até que eu tinha no que gastar dinheiro. Com o tempo. Aos poucos. Não é engraçado isso? Eu era incapaz de acreditar que queriam ajudar. Cheia de vontade de gastar um dinheiro que não devia. pra mim. ele emprestava do pai. Estudei com  . Por baixo. melhor então marchar pra loja. fui aumentando meu horário. ouvia o galo cantar e nem sabia onde. Sozinha. que eu podia ter sido criada princesinha de mel mas que agüentava a pressão. pro Murilo não achar que eu estava de cerimônia com ele). Que eu era mulher. companhia ou mesmo pensamento positivo da minha família. Também o orgulho: eu sabia que a situação era difícil e acho que era isso que eu mais gostava. Juntamos um bom dinheiro porque eu não parava de trabalhar. Raquel não era nem plano. tinha casa e meu lugar era lá. Eu só não queria perder nem um segundo possível de Murilo. pro mundo. na verdade. Eles ofereciam ajuda mas. O nosso trato era que eu era a primeira chegar e ficava na loja até que Murilo ligasse da cidade universitária dizendo que estava saindo. Mal conseguira fugir de um inferno barulhento de pais tiranos. apenas era prata mais bem lustrada. pra família. Não tinha motivo pra morgar em casa. Queria provar. me amiguei da dona e. não era plano pra mim: os cadernos secretos de Murilo já continham cálculos precisos sobre quando seria viável ter um filho. Só me sinto mal de não ter aproveitado melhor os sogros: eu era garota insegura e burra. Só que Murilo também cresceu em condomínio em frente à praia e não gastava quase nada. me arrumava (mas não muito. E Raquel. deixava alguma coisa meio pronta no fogão pra eu terminar de preparar quando ele chegasse (gostava que ele me visse na cozinha) e dava um retoque geral na casa. Vontade não faltou. tias gosmentas. Se eu ia dividir a vida com ele. pra Dulcinéia do 512. dezoito anos.

Aprendi que. essas eu nunca mais via: passavam as tardes nas suas universidades. descansado e disposto. Não tem lugar mais desolado do que shopping. mas também aprendi que algumas vontades só se controlam depois de satisfeitas. Minhas vontades eu satisfazia no dedo. uma sopa. Algumas histórias me faziam morder o lábio. minha maior amiga talvez tenha sido a Júlia. As velhas amigas de escola. ao contrário do que achava. Parece difícil de acreditar: naquela época. e mostrava o anel. e eu respondia. vindas da cidade toda. muitas vezes a mulher quer mais sexo do que o homem sim e aprendi a detectar os sinais de que Murilo simplesmente estava cansado demais para algo além de sono. realçava minha tão prezada maturidade. viril e aprumado. Não tem em comum nem a vontade de comprar: a maioria é puro caroço. estudando e assistindo a aula. A imagem de esposa ideal de 1956 que tentei passar pro Murilo elas captaram muito bem: até hoje me chamam de amélia e têm sorte que eu nunca soube disso.  . entre outras coisas. gente por tudo quanto é altura e largura. porque sou de briga. algumas bem mais velhas do que eu. que Murilo vivia na década de noventa mesmo e que preferia ter uma esposa contemporânea. no máximo. Aprendi. de noite. A conversa com as outras vendedoras era fútil e monótona: tínhamos todas a mesma idade. Eu até gostava disso: a criancice delas. sem nada em comum. O resto do dia era a solidão do shopping. estóica. toda boba. Me atiçavam para a noite. motivo de chacota. mas lealdade era parte do meu projeto de ser adulta. levei muita bomba e vivia sendo mandada pra sala do diretor. mesma criação. Vinham me falar de homem e de sair pra caçar. Aprendi a controlar a frustração. eu tinha aos fins-de-semana. Mas vidas tão diversas. apesar de saber que eram provavelmente inventadas. Aprendi que. mesma faixa social. preços e lojas. E eram poucos. e que não adiantava cozinhar o que ele não ia comer. ele comia era pão com frutas e. Aquela enormidão de vidros. Tinham as noites livres pra badalar mas aí quem não estava livre era eu. Homem mesmo.afinco. para brincar um pouco e vontade eu tinha. só quer vitrinar. Fui até virando pária. que era casada. errar naqueles ermos. Só não aprendi a ficar sem ele e continuava exigindo que me ligasse da faculdade porque eu não queria perder nenhum momento dos poucos que podíamos ficar juntos.

e queria saber sempre mais. olha. odiava ser repelida com amor em nome do cansaço. Mas Júlia tinha o horário mais livre e uma imagina-  . Em noite de sexo negado. Odiava chegar no meu marido com dengo. no máximo. E vice-versa. Júlia comentava que eu tinha sorte. Faz bem sentir pena de quem a gente não gosta: alimenta e dá viço. sem reservas. eu sei. era espantoso. é engraçado isso mas hoje estou achando tudo muito engraçado. e botava na mesa. precisávamos de alguma coisa?. Ela tentava me dar a impressão de que. Se picavam quase toda noite: ela ligava. Agora. cheio de lógica está. Perguntava da nossa vida. Mas não: sua relação conosco era simbiótica. Duro era. Júlia não tinha horário: aparecia na loja a qualquer hora. Falava tudo. fazia uma incisão no bucho e puxava fora suas vísceras. queria ajudar. se ele não tinha energia pra mim. isso ela não era. Se fosse. Se eu não podia ter o Murilo. Não adianta que a Júlia eu não consegui destrinchar.Fugi da família. pra mim. sumi dos sogros. Uma parasita. ele passar meia hora no telefone com outra mulher. essa aqui sou eu. tirava um bisturizinho do bolso. afastei as amigas. Carla. E eu pensava: posso dizer pra ela aparecer lá. o homem sumia o dia inteiro. sem constrangimento. sanguessugando nosso casamento. ia falar com ele no telefone. não posso? Mas nunca gostei de ser hipócrita. E conversava. mas na minha cabeça. Ela esteve acostumada. E eu. ou senão ele. mas isso dava pra agüentar. Não tem lógica. a vida toda. e por outro lado. E isso me ulcerava por dentro. só que pior: porque a avó grudava em mim e Júlia grudava no meu marido. E batia pena porque. perguntava da minha vida. Júlia tinha vício de Murilo: e satisfazia comigo. também expunha minhas entranhas pra ela. que eu ia ver o Murilo de noite e ela. a ter o Murilo a sua disposição. também. mas já morria de ciúmes. Porque eu sabia o que ela procurava em mim e ela sabia o que eu procurava nela. a necessidade dela o Murilo também tinha: ele se injetava nela e ela se injetava nele. logo pra mim que mal conhecia ela. mostrava. entranhas e órgãos. Júlia era o que de mais próximo havia. como estávamos de dinheiro? e. E enquanto eu tentava me livrar da velha. não devia ter pra ela também. logo depois. querendo conversar. Júlia me lembrava minha avó grudenta. eu odiava Júlia mais do que tudo. às vezes. sobrou quem? Júlia. na loja. o Murilo se grudava de volta. eu até apreciaria mais a pobrezinha. durante o dia. o Murilo era tão fora do alcance dela quanto do meu.

porque um gambá cheira o outro e eu também não sou lá muito diversa. Eu. se amavam do jeito lá deles. Mas tinha receio de Júlia sofrer uma crise de abstinência caso passasse uma tarde sem fumar seu baseado de Murilo. foi direto ao fornecedor. Júlia sabia tudo sobre o Murilo. o passado. trincava os dentes e aceitava aquele peso. blá blá blá. Ela me sugava o presente. e eu. Viu a carapaça e achou que aquilo é que era. E os almoços. Deve ter aprendido muito de medicina. Casou com a rocha. Aos poucos. Não vejo mais o Murilo. dobrava os joelhos. Naquela época. vulnerável e quebradiça. até a mesa onde ele comia. Um era a constante da vida do outro. contando histórias do passado e sugando o futuro. Júlia era tão constante que me fazia sentir a variável e isso me deixava tonta. Mas o fundo é sempre mais embaixo. Carla!. fazendo a mesma coisa com a segunda esposa dele. indo visitar. que me achava sua clínica de reabilitação. ficou confiante: nunca olhou dentro da carapaça. Murilo ia pra aula e Júlia vinha pra loja. o horário das aulas. quem tem sorte é você. Demorou  . assim como fazia comigo quando eu me chegava nele de noite. dia também. mas nenhum dos dois cachorros nunca me disse que almoçavam juntos dia sim. entendia bem demais. eu precisava ir ao banheiro depois: eu imaginava Júlia. E. estava ou na loja comigo ou na universidade com Murilo. logo depois. a mulher dele sou eu. cresceram juntos. outras. se olhavam juntos. ele tentava expulsar Júlia. No começo. Aparecia sempre na universidade. porque assistiu a várias aulas junto com o Murilo. Algumas coisas Júlia não entendia nunca. amanhã. nunca não se conheceram. Sabia o número das salas. E eu fazia o mesmo. se institucionalizou o almoço: todo dia comiam juntos. Eu não desconfiei porque nem todos esses almoços serviam pra nem suavizar o vício de Murilo que Júlia tinha. deixa cair que eu agüento. se satisfez com a rocha e uma rocha era o que esperava que eu fosse. se jogava sobre Murilo de alma inteira e ele espalmava os pés no chão. E eu? Murilo achava que me conhecia bem demais. E eu pensava: o juramento foi comigo. só pra sentar do lado dele e conversar. chorar suas misérias. Júlia. nem eu sei onde.ção malandra: dispensou aviões e subiu o morro. quando não estava trabalhando. achou que já estava tão fundo dentro de mim quanto alguém poderia estar. e lá o Murilo nunca se aventurou. era na verdade sua fornecedora clandestina: ela vinha me ver e fungava cada carreirinha de Murilo que pudesse encontrar.

pra eu juntar coragem de explicar o rodízio da loja. Éramos seis vendedoras, todas roendo comissão. Para evitar que soterrássemos ao mesmo tempo cada cliente que entrasse, havia o tal rodízio: o próximo que entrar é da Carla, depois, da fulana, e por aí vai até chegar em mim de novo. Perdia-se a vez por qualquer desculpa. Se entrasse alguém na minha vez e me perguntasse onde era o banheiro, pronto: minha chance de comissão era só no sexto cliente depois disso. E Júlia, bem, a época da loja foi quando Júlia ganhou muito dinheiro. Ela entrava na loja e vinha papear comigo. E eu perdia a vez, claro. Daqui a pouco, ficava sem graça de estar tomando meu tempo, mas ainda queria conversar mais. Então, ela dava uma volta pelo shopping e entrava na loja de novo, bem a tempo de me fazer perder a vez seguinte também. As outras vendedoras se riam todas, aquelas piranhinhas. Um dia, contei tudo. Que eu lambia e deslambia ela mas que a loja funcionava era assim ó. Que eu e o Murilo precisávamos economizar e que eu já ficara uma tarde inteira sem poder nem olhar pra cliente porque ela não parava de entrar e sair. Júlia não pediu desculpas, de modo algum: por que se desculparia? Não sabia das regras, não tinha como saber. A única desculpa possível seria corrigir o erro. Mas não podia parar de vir, eu era o Murilo das tardes dela. Então, ela vinha, mas vinha entendendo as regras, entendendo bem demais. E Júlia reinava, se divertia. Fazia todas as moças perderem a vez. Perguntava uma coisinha pra cada uma, em seqüência, só de birra. Brigavam comigo depois e eu protestava inocência, que já tinha pedido pra ela parar com isso – e tinha mesmo! Tanto aprontou que tiraram Júlia do rodízio, caso único: se entrasse, eu que me entendesse com ela. Aí ela passou a comprar aos vergalhões. Literalmente, a cada vez que entrava na loja pra me dar oi, levava alguma peça. Durante anos, foi a maior cliente da loja. E as comissões vinham todas pra mim. E eu dizia: Júlia, você está gastando muito, o que é isso? E ela respondia que precisava mesmo de roupas, tinha ganho muito dinheiro, aquela marca era boa, estava ajudando o casamento do amigo, por que não? Cheguei a ler uma nota na imprensa sugerindo que Júlia tinha algum acordo com a loja, porque só aparecia em público vestindo nossa grife. O acordo era Murilo. E o fato de Júlia não ter vaidade: poucas mulheres usariam roupas sempre da mesma marca, todo dia, por melhor que a marca fosse. Júlia usava. Já que tinha comprado, por que não usar? Mas Júlia não estava comprando roupas, estava comprando a mim. Eu tinha capturado seu melhor amigo e ela, então, tinha de ser minha amiga também, precisava 

da minha amizade: no mínimo, da minha neutralidade. Júlia não podia arriscar me ter como inimiga. E foi assim que minha relação com ela acabou se tornando quase tão simbiótica quanto a dela com Murilo, porque minha preocupação era a mesma. Ela conhecia meu marido desde criança, tinha passado por todas as namoradas dele, conhecia facetas do Murilo que eu nem imaginava, ainda era sua maior confidente: se quisesse destruir meu casamento, destruía. Por isso, era essencial que Júlia me considerasse a esposa perfeita. Ela não podia querer que o casamento acabasse, não podia sentir os ciúmes que eu sentia. Júlia tinha de me amar também. E, se penso muito, acabo achando que isso aqui não é uma história, é um catálogo de loja, porque só se quer saber é de comprar. Glicério, por exemplo, desistiu de comprar Júlia, pararam de se falar, cortaram relações, fecharam fronteiras, só não expulsaram embaixadores: Murilo assumiu essa função, e Glicério continua tentando comprar Júlia através dele. Tinha sido ali naquele mesmo shopping, perto de onde havia sido a loja – sem o apoio financeiro Júlia, a loja falira anos antes – que Glicério tentou comprar Murilo pela última vez. E agora me deu vontade de contar logo essa história, do último almoço do Murilo com o Glicério. Essa história me revolta um pouco. Eu entendo o Glicério, até concordo, com pencas de ressalvas, mas me revolta. Vou ter que dar uns pulos no tempo. Estava tudo indo tão bonitinho que fico até chateada de embaralhar as histórias. Comecei do começo lá comecinho mesmo e estava planejando continuar reto até o fim, em ordem cronológica e tudo. Mas aí, e se eu ceder às minhas vontades? Se eu pular até o Glicério, vou ter que pular pra trás depois. E eu sei como é, eu me conheço, gosto de dançar: se começo a saracotear, não paro mais. Deixa pra lá: eu vou, eu volto, não me importo. Pra que a pressa? A história não vai a lugar nenhum. Na verdade, antes ou depois, não faz muita diferença. Tudo aconteceu aos poucos, mas também poderia ter acontecido tudo junto, ao mesmo tempo. Pelo menos, essa é a impressão que dá: a gente olha pra trás e é difícil de conceber uma ordem cronológica para aquele emaranhado de fatos. Para quem já sabe o que aconteceu, para quem viveu, aquilo é tudo uma coisa só, una, indissolúvel, articulada. Essa história é como um corpo humano: ela é composta de várias partes, mãos, pernas, troncos, que se juntam para formar um todo único, mas quem poderia dizer quem veio antes cronologicamente, se o tornozelo ou a testa? O que importa é o todo. 

Depois eu pulo de volta e falo da terceira vernissage. Afinal, se Júlia não tivesse se embebedado e dado tamanho vexame, a coisa toda nem sairia nos jornais e Glicério não ficaria tão preocupado. Mas depois eu falo disso, e depois falo também que ela voltou pra casa com o Murilo – eu tive que voltar sozinha – e que o carro cheirava a vômito, e foi um bom cheiro, eu tive medo que cheirasse a esperma derramado e camisinha nova. E não foi nem dois dias depois disso, tornozelo ou testa, que o Glicério ligou para o consultório de Murilo e perguntou se ele podia almoçar. Murilo não podia, mas pro irmão de Júlia ele fazia tempo. Em menos de uma hora, Glicério já estava no shopping, onde também era o consultório do Murilo, e ambos foram comer ali por perto. Os dois se encontravam uma vez por ano. Não eram amigos faz tempo, nem tinham qualquer assunto: somente Júlia os unia. Quando Glicério podou Júlia de sua vida, seria natural que o vínculo com Murilo apodrecesse também. Só que a natureza é coisa estranha e aconteceu o contrário: brotou, vicejou. Glicério virou a cabeça pro lado, e olhou as criancinhas andando pela praça de alimentação, e disse: – Li os jornais e fiquei preocupado. Murilo não disse nada. Pegou um lápis de cera do copinho e começou a desenhar triângulos na toalha da mesa. – Fiquei preocupado – Especificou Glicério – com as manchetes e com as resenhas. Murilo preferiu não se comprometer: – Achei que tinha sido isso mesmo. O motivo de você me ligar. Glicério era orgulhoso. Tinha rompido com Júlia e não iria falar com ela até que um dos dois pedisse desculpas, mas ainda se preocupava com a irmã caçula. Murilo era o informante perfeito. – Essa seria uma oportunidade ideal pra você falar com ela. – Tentou Murilo. Ele

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Não. mesmo tendo tanto. O que eu sei é que. Então Glicério. se arranjou namorado firme.sempre tentava. mas preciso. todos menos um. mãe. não vou julgar. mas de longe: nessa época. o pai morreu e Júlia e a mãe queriam tirar até as meias da concubina-esposa enquanto Glicério lutou por seus direitos com garganta e pulmões. companheiro de noitadas e símbolo sexual. droga. mas o caso foi que o pai fugiu com outra mulher e a família toda se dividiu: Júlia. que não quero ficar aqui passando a vida dessa cidadã em revista. Ai. Menos pai. quando quer saber de Júlia. ele ainda era só amigo. quase que de uma vez só. Não sei detalhes. quem foi o único mártir que 11 . Murilo defendeu Júlia. eu não sei detalhes. se melhorou da tendinite. se está comendo direito. Como se não bastasse Júlia se jogar sobre Murilo. nem quem estava certo ou errado. Me revoltei de antemão. – Agora pelo menos vocês teriam assunto. pai e irmão. mas agora já me revoltei também. tias. Tudo bem. ainda queriam rapinar uma pobre senhora. e não me importo. primos. a outra ficou com o que já possuía e Glicério rompeu de vez com a mãe e com a irmã. todos os referenciais masculinos foram arrancados de Júlia. – A Júlia é muito teimosa. Eu já desisti. iria perguntar para mais quem? Depois que Júlia alienou todos seus amigos e conhecidos. subitamente promovido a consultor sentimental e amante platônico. aceitou alegremente esse ônus. Ela tinha família. Até cachorro. não é essa ainda a parte que me revolta. Lá pelas tantas. Glicério defendeu o pai. duas hárpias que. que não devia ter nem treze anos. Por que logo Murilo é que tinha de ser o responsável? Júlia não era uma sozinha no mundo. E Murilo. nem quero saber. muito infantil. o irmão também a despejava sobre ele. mas já era bem madura – depois não amadureceu mais – defendeu a mãe. Não tem nada que eu possa fazer por ela. A situação não se resolveu. O pai morreu e foi nessa época que Murilo começou a acumular funções. Tinha irmão.

Murilo alfinetou: – Alguém precisa ficar com ela. sem levantar os olhos. não leu? – É verdade que todos os quadros eram retratos da sua filha? Murilo assentiu silenciosamente. Glicério trocou de assunto: – Você sabe se o Paiva vai mesmo processar a Júlia? – Ela me ligou hoje de manhã e disse que ele resolveu não dar queixa. até a morte. de novo: – fiquei preocupado. 12 . – Observou Glicério. se preciso fosse? Quem é o único que ergue a clava forte e não foge a essa luta? – Murilo. O olho melhorou. Mais um milímetro e o tal do Paiva ficava cego. enquanto desenhava cubinhos na toalha da mesa. – A Júlia não é tão forte assim. – Eu também. – Estava histérica de raiva. – Ele disse. Ninguém gosta de admitir que apanhou de mulher. Precisou eu e mais dois pra segurar Júlia. – Teve algum motivo pra Júlia beber assim? Murilo riscou um a um os triângulos que desenhara: – Você leu as resenhas.sobrou pra defender a causa perdida. Cubinhos meio arredondados nas bordas. – Bom que você estava lá com ela. não vai deixar seqüelas. Mas não quero nem ler a próxima coluna dele.

basta dizer o que leu no jornal. Murilo desenhou mais gotinhas. uma chuva de gotinhas na toalha da mesa. – Nós não temos diálogo nenhum. uma linha vertical de gordas gotas se derramando pela mesa. E um pai. manavam morosas: – Você é médico! – Continuou Glicério – Não se preocupa. como não entender? – Eu não sou e não posso ser o homem da Júlia. seu desenho mais típico. eram gordas e encorpadas e escorriam devagar. – Interrompeu Murilo – Você sabe como pode ajudar. Enfim. Murilo entendeu. – Ela tem homens até demais. E de um pai. Acabou. Se houver algo que eu possa fazer– – Ficar se preocupando a distância não ajuda. mas não pareciam gotas de chuva. respondeu: – Eu sinto muito. Murilo rabiscou gotinhas. empatia zero. E um homem. – Glicério. Não precisa falar de mim. disse: – Você realmente devia falar com ela.Silêncio. ela está na xepa. E ele. Embaixo dos cubinhos de gelo. Murilo. De um homem. A Júlia precisa de um irmão. Glicério disse suavemente: – Ela já tem um irmão. não? 13 .

se Murilo sempre dizia a Glicério o que ele podia fazer pra ajudar. Murilo. E não entendo. viscoso. – Ah não! – Gritou Murilo. tentou com sinceridade. de pura raiva. – Esse estilo de vida dela. – E Glicério tentou. – Eu sei. Estamos na era da aids. Eu me preocupo. sempre digo. – Somos amigos. E ainda tento entender essa relação de vocês dois. O assunto acabara. Condensou-se novo silêncio. se ela estivesse com você. Mas ainda tento entender você. mas. branco.. mas Glicério era daquelas pessoas que nunca se 14 . Mas você. Pegou outro. porque sabia a resposta. uma a uma. A verdade é que. pintou o interior de suas gotas de branco. e não foi um ah não negativo. ploct ploct. por sobre a outra. mas um ah não de cansaço. conhece ela melhor que eu. – Mentiu Murilo – sua irmã é uma mulher muito inteligente. eu ficava tranqüilo. um ah não resignado de já ouvi isso antes. além de ser médico.. Um ah não de não quero ouvir isso de novo. devagar. – Eu já te disse como pode ajudar. de contrariar a afirmação do outro. Glicério também sabia muito bem o que Murilo poderia fazer para realmente ajudar a irmã: – Sabe. Foi então que Glicério me revoltou. mas ninguém queria admitir. tentou com força articular toda a estranheza que sentia. só isso.– Com o quê? – Perguntou Murilo. E a frase ficou no ar. – Estou falando sério. Por quanto tempo vai continuar assim? Ela não me parece o tipo de pessoa que toma precauções. um branco grosso. Sempre que ouço falar da Júlia ela está com um homem diferente... – Glicério. Mesmo sendo a toalha da mesa branca.. Já desisti de entender a Júlia. Seu lápis de cera acabara. – Ela também é uma mulher auto-destrutiva. Aliás. Um ah não de gotas grossas e viscosas pingando..

pouco depois. mas não coçaria a bunda em público. mas era melhor que olhar pra Murilo. senão não faria essa pergunta. – Não. um cara divertido. Júlia também não tinha. já esfarelado.. Teve ou não teve? A moça dos tênis velhos estava olhando uma vitrine. e fez um gesto brusco e o lápis de cera branco voou de sua mão e rolou pelo chão.. Mas não poderia perguntar isso pra Murilo. Não tinha vaidade. que não parou de falar e não ligou pra nada: – Vamos falar de amigos homens então. se vocês se entendem tão bem. eu não sei. eventualmente contasse alguma coisa que ninguém mais saberia. mesmo sabendo que normalmente nunca teria olhado para a moça dos tênis velhos. levado nas reentrâncias da sola de um tênis velho. trocasse figurinha sobre mulher. lá longe.. sem o lápis para secar. conversasse. nos corredores do shopping. o olhar de Glicério seguiu a moça. nos pés de uma moça feinha. e imediatamente sumiu. um amigão em quem você confiasse e pudesse contar. caiu do lado de fora do restaurante. Isso você já deve ter tido. Glicério acompanhou o trajeto do lápis e ficou olhando pra ele. certo? Algum companheiro. por quê. Ou melhor. podia?. viu quando foi pisado pela primeira vez.. vocês dois. com quem você saísse. não teve não. mas se voltou para Murilo e tentou: 15 . se a irmã coçava a bunda em público? O pior é que se alguém sabia era ele. – Cortou Murilo. só pra ele. que não tinha bunda mas tinha costas lisas e bonitas e Glicério a acompanhou. Glicério não saberia.deram muito bem com as palavras: – Se você gosta dela. por uma senhora gorda de mocassim. e viu quando sumiu. se passam tanto tempo juntos. claro. Quer dizer. aquele filho da puta. esmigalhado por dezenas de pés. e coçou a bunda. com uma certa autoridade. e. – Teve ou não teve? Nunca teve um amigo homem? Glicério queria continuar olhando para a moça dos tênis velhos. Glicério? – Já. – Você já teve alguma amiga na sua vida.

. será que ele é. parecia nem ter percebido que falava quase sozinho. ele abraça ela e não sente nada.? E Júlia. mas foi súbita e Glicério se empertigou: – Porque sou homem! E Murilo clarificou: – Por que não sente atração física por homens. Mas se você nunca teve desejos sexuais pelo seu grande amigo aí. se os dois se davam tão bem. Quer dizer.– Acho que todo mundo já t– – A resposta é sim. é isso? – Porque sou homem. Glicério. Júlia queria. estou presumindo que não. desde adolescente. você está insinuando que eu sou veado? – Eu mal te conheço. porque acha que eu teria que ter esses desejos em relação a sua irmã? – Você parece idiotizado. ao menos teoricamente. mesmo assim. será que eles não transam mesmo? Ou então como será que é. não é? – Murilo parecia estar com pressa de sair de seu próprio argumento. minha irmã não queria outra coisa que não dar pra esse puto. se você se sentia tão bem com esse seu amigo. será que nunca tentou nada? Esses anos todos? E ele rejeitou ela? Rejeitou e continuaram amigos? Glicério tentando entender Murilo. dava pra ver.. porque Glicério estava pensando. conviver com alguém. você entende o que é confiar em alguém. ela passa de shortinho e ele não olha de cima a baixo. por que você nunca transou com ele? A pergunta Glicério a ouviu lá do fundo. veja só você que estranho. por detrás de seus próprios pensamentos confusos. ser íntimo de alguém e. – Murilo. – Então. Murilo! A situação é totalmente diferente! A Júlia é mul- 16 . porra! – De qualquer modo. nunca sentir desejo sexual por essa pessoa.

mas foi só por um segundo. mesmo assim. Ponto. Quer dizer que sentiu desejo por toda mulher que já conheceu? Não perdoou nenhuma? Glicério olhou para ele e suspirou. mas luto só boxe. quem é que agüenta ouvir a lógica de Murilo?.her! – Entendo. Você acha que eu tenho – ou teria obrigação de sentir – desejo sexual pela sua irmã só pelo fato dela ser mulher. imperioso: ele te olha não como se estivesse te ouvindo. embora esteja prestando atenção a cada palavra. Sou de briga. procurar algum lápis de cera ou alguma mulher de tênis. Murilo. sua cara é provocadora. que você não sabe nada de nada de porra nenhuma. Não há nada pior do que discutir com o Murilo: – Se já sabe que não tem o direito de falar. suas palavras são afrontantes. Murilo te encara. tenaz. seu tom de voz é insuportável e seus argumentos são exasperantes. pedir a conta outra vez. e. Como se ele não precisasse fazer nada para provar que você está errada. sim. – Disse o outro: – É sério. o homem doce com quem me casei. – Espera. há um mínimo 17 . E eu também sei que você está casado. ofendeu. Me faz desejar que haja uma mulher do tênis por perto. Murilo encarou o homem e rebateu com a sua frieza lógica que eu tanto odeio. Desculpa se ofendeu. Murilo. não fale! Mas Glicério continuou e Murilo teve aquela tentação de olhar pro lado também. Murilo virou pra trás: – Deixa eu pedir logo essa conta. Murilo não é assim.. respeito regras. mas vou falar. e que eu não tenho nenhum direito de falar isso.. e largou suas mãos por cima de todas aquelas gotas desenhadas na toalha da mesa: – Brincar de retórica não ajuda. me faz me sentir o cocô do cavalo do bandido quando me olha assim. Pela sua reação. bem casado. golpes repetidos no fígado ou no rosto. O que não entendi é como se pode ser tão próximo a uma mulher. mas como se estivesse apenas permitindo que você dê corda pra se enforcar... passar tanto tempo junto.

Glicério agüentou. cancerizou raivas: – Não sei. de castozinho. – Você fica aí brincando de melhor amigo. foi isso? – Entendo. – Ela está passando pelos braços de metade dos homens da cidade é por sua causa. o que você sentiu. mas enquanto isso a Júlia te deseja é como homem. Murilo. bom médico que é. digeriu. É recíproco. você sabe por mim. Não tirou os olhos de Glicério. ela quase arrancou o olho de um colunista a dentadas. Você sugere que eu largue minha esposa e minha filha e case com minha melhor amiga. Glicério tremeu um pouco. Ela te amava. mas eu nunca vi Júlia assim. ainda ama. – Glicério. mas não se virou. Ela nunca amou ninguém dessa maneira. não se segurou e soltou: – Ela deu em cima de você e levou o cano. claro que não. Mas conheço minha irmã – ou conhecia. vejo o quanto vocês são próximos. sobreviveu. não ia falar. – Eu nunca duvidei disso. fico olhando pra você. ganhou um pouco do meu respeito e falou: – Não pretendo saber o que houve. não perde tempo com esportes: vai direto pra onde dói. Não sei o que houve. o quanto você se importa com ela. – Cauterizou Murilo – você não troca nem uma palavra com a pessoa em questão há quinze anos. dessa vez. tudo o que você sabe dela. sei que estou sendo agressivo. ela me aparece aí com aids e o culpado é você. Você não tem autoridade nenhuma pra se manifestar sobre o que ela quer ou o que ela acha. vulcanizou o que sentia. E eu só fico pensando. Aliás. Amanhã. não sei. conseguiu pedir a conta. por tudo que sei. Murilo. e eu penso como eu ficaria 18 .de civilização e misericórdia. ela não pode estar bem. e. desculpa. apenas levantou o braço e o garçom veio. Murilo levantou o braço e. Como foi? – E falou. mas falou. – Quem não está entendendo agora é você.

– Ah. deu de costas e apertou o passo. poderiam estar juntos até hoje! Por que não? O que houve? Murilo retribuiu o gesto e voltou seus olhos para Glicério e regougou. Murilo. eu também dei as costas para Glicério e fui embora. apertou tanto que o passo tremia e titubeava. vocês tiveram a vida inteira. agora é tarde. que não conheço e com quem nunca falei. Só isso. quando me dou conta. o soldado verbal que nunca abandonava o campo de batalha até fazer o adversário fugir chorando. – Sua irmã não precisa de babá. Murilo sacou a mão de debaixo da mesa para pagar o garçom e Glicério agarrou a mão. mas. estou falando de seu irmão. quer dizer que nossa amizade está prestes a ser promovida a namoro? Um caso fortuito. talvez? Glicério soltou Murilo e acabou tudo. vocês cresceram juntos. Ele se levantou e foi embora. e assim Murilo gingou até seu consultório. o homem acostumado a liqüefazer interlocutores com seu olhar. apertou-a contra a mesa: – Eu sei que você casou. não tem nada a ver com essa história. De um irmão. E eu. 19 . o implacável regougador. Morto ele está. mas antes. Chega então. azar da Júlia. Glicério. talvez. Não quero mais saber. palavra que aprendi com ele. é sobre a sua tranqüilidade então que estamos falando? Murilo viu o garçom chegando e preparou o dinheiro. passo de quem acha que se não saísse naquele momento não poderia sair mais. pois só Murilo sabe falar assim tão desagradável: – Devo presumir que esse seu gesto de ardor físico. Eu já não queria falar de Júlia. Não quero saber desse homem. que até ela mesma considera morto.mais tranqüilo se você morasse debaixo do mesmo teto que ela. sua mão sobre a minha. Glicério não tem nada a ver comigo.

Confesso que tentei: nesse fronte. concentração. conselhos sinceros. dei meu sangue durante vários anos. de faca ginzu. uma perfuração em alto-mar de desesperos. com carinho e dedicação. segurava as barras de Raquel quando eu precisava. idiota. E tudo isso pra quê? Adiantou alguma coisa? Ninguém passava mais de cinco minutos perto de Júlia sem perceber que ela era um poço de problemas. Oferecia a Júlia sempre minha melhor seleção de conselhos. seu corpo- 20 . Júlia me esvazia. Não perguntei e. tamanha atenção: eu ficava exaurida de ter que descer a espaços tão fundos. Era desgastante tamanha sinceridade. destruí minha mão de tanto insistir. meu esforço servia apenas para me cansar. seria esse. Seu problema hoje era um. aquelas minhas ponderações tão carinhosas. amanhã. eu perdia minha babá. Na época da vernissage. Não tenho essa bondade toda no coração. matutava e considerava. era a madrinha da minha filha. Sou mãe agora: quando quero ouvir histórias de criança. como fazer para mantê-lo. Júlia voltava e seus dilemas eram outros. onde a luz é tão pouca e o ar. No dia seguinte. construí trincheiras e só atirei quando vi o branco dos olhos do inimigo. seu dilema era como gerir sua relação com esse tal príncipe encantado com quem estava saindo. eu já não sabia quais eram seus problemas. rarefeito. pergunto pra Raquel como foi seu dia no jardim de infância. Sua última vernissage apenas serviu para que o Brasil inteiro desco brisse também. pra desgastar em mais uma lasca o bloco da minha boa vontade para com ela. Afinal. Mas não. não é essa a ferida: eu me cavava por Júlia sim. onde cada movimento cansa. Eu explico. pro sumidouro do seu bom-senso. Eu a ouvia com toda a minha atenção. burra. exige amor. Não outros. e amanhã era o mesmo. De novo. Não a melindrosa. Isso tudo eu tinha. dei murro contra murro em ponta de faca. ouviria de soslaio. pro ralo de sua sensibilidade: esvaíam-se meus conselhos. tem outros. e eu mesma polia e lapidava.Glicério é que está certo: eu. Ao contrário de sua mãe. da original e daquelas outras quarenta e nove que vêm de brinde. eu nem pari Júlia nem acredito em carma. brutos. O problema é que tudo ia pro vácuo da inteligência de Júlia. se surtasse. a inconseqüente fazia parte da nossa vida. Um dia. uma mina de ansiedades. porque não sou leviana e levo esses assuntos muito a sério. Desisti. Todo mundo tem um problema hoje e. Mas eu tentei. expliquei mal. cansa. estava disposta ao esforço. que eu minerava lá de dentro de mim. o órgão que reservei pra Júlia é o intestino grosso. disposição. Fiz tudo o que pude para ajudá-la e isso era um esforço enorme para mim. se ela me dissesse. pra me afligir. desculpem. finalmente. E eu pensava e refletia. Ao reverso. e ouvir com atenção dá trabalho.

e seus peitos. será que isso tudo era falta de bom sexo?.. a gente se junta e é como se fosse uma alma em dois corpos. nunca se sabe. minhas queridas. será que estaria procurando alguma coisa que relações casuais. passava os dedos pelos meus cabelos e me olhava com um olhar de pena tão sincero que mal sabe como passou perto de perder um olho: eu não entendia dessas coi- 21 . E. fiz tudo o que podia pra cafetinar Júlia. em especial. mesmo com sexo maravilhoso. conceituada artista plástica. talvez pudesse valer mais uma capa de revista. mas não. não que ela precisasse da minha ajuda.. um nojo. vamos ser honestas. finalmente. menina!. e que estou falando isso só pra pichar Júlia. muito tempo atrás. mulher culta. Carla. Júlia só abanava as mãos: ah. Eu vivia o problema. claro. que na verdade era na semana seguinte. quando chegava em mim querendo ajuda pra manter sua relação com alguém. ou no mês seguinte. que esse homem era sério. você não entende. finalmente. o primeiro relacionamento sério. eram grandes. não pode ser. quem é esse chato que está tentando arruinar a sua relação perfeita com o Raul. sabe. eu tentava articular. a gente se “entende”. ou pior.. E então. que essas coisas mudam muito rápido. Foi ontem! E. me extenuava. parecia que já tinha dado pra todos os homens do Rio.. sua alma gêmea. que com esse não era só sexo. e fazia aquelas aspas com os dedos pra falar que eles se entendiam. e muito expressivos. como se ela precisasse da minha ajuda pra passar vergonha. o homem que a envolveria em uma tamanha overdose de sexo. não sei mesmo. No auge da sua fama.. me dava. eu ficava feliz em apontar. olha lá. mais um minutinho debaixo do holofote e. Júlia era linda. estou falando do Raul mesmo! Mas criatura. já não sei mais o que fazer pra me livrar dele. e ela ia e créu. achavam que ser vistos com Júlia. mais um convite pra festa de debutante. Ela suspirava. mas intensa. Carla. amor e companheirismo que ela largaria meu marido e arranjaria vida própria? Ah. ela passava o rodo nos galãs da televisão.metade? Seria esse. mas eu ajudava. que o coração era volúvel e que eu. o homem dos seus sonhos? Não. a doidelha aparecia lá em casa e reclamava desse homem que não saía do seu pé. era no dia seguinte mesmo. eu ainda perguntava. idiota. será que nunca ninguém comeu ela direito. depois de tudo isso.. aquele fugiu. Torcia por Júlia com sinceridade interessada. mas caso deixasse escapar um. sei que vocês vão achar que estou exagerando. às vezes dava inveja. o Raul é especial. ninguém torcia por ela mais do que eu. quando eu era ingênua. a carreira sempre em contagem regressiva pra acabar. mas enfim. ontem mesmo você não estava me dizendo. sem ser exagerados. ufa! E ué. Nada disso satisfazia seus apetites. no dia seguinte. além disso. quer dizer. fossem lá quais fossem. isso foi há muito tempo. aqueles infelizes de QI zero. não. nunca poderiam lhe dar? Sexo satisfatório ela deve ter tido. eu ainda tinha que ouvir que o tempo é relativo. adulto da vida de Júlia? Seria esse.

o que ela vê nesses homens? O que ela está procurando? E aquilo. me surpreendeu tanto que meu pescoço disparou feito uma mola. topamos com Júlia. beijando. Estou falando de vida aqui: Júlia nunca soube de nada em toda a sua vida. Júlia então me aparecia com seus dilemas de adolescente problemática e eu pensava. E Júlia não percebia! Não percebia ou fingia não perceber. mas estava escuro. eu mergulhava mais uma vez em mim mesma. E era mulher de um homem só tanto quanto eu. Murilo era outro que entendia pouco e intuía nada. e ajudá-la tão bem quanto podia. Júlia passar de pau em pau era 22 . uma perdida dentro de si mesma. e nos afastamos pra não cruzar olhares. quase me deslocou o ombro. ele realmente não fazia idéia. e ela lambendo ele todo. esquecia tudo: no dia seguinte. chupando. não tenho mais idade pra isso.sas porque eu era mulher de um homem só. quase que só pra si mesmo. mas isso nem precisa dizer. não. será que ele estava falando sério?. Não percebia as coisas. deviam estar enfiados em algum lugar. uma perdida em relação a tudo. será que era gênero?. Então. Por fim. vou fazer o quê? Matar. Quem não desistiria? Chega de apnéia: eu era muito funda e eu nem mesmo tinha equipamento de mergulho apropriado. Será que não percebia mesmo? Mas que prazer poderia ter em descascar seus problemas para alguém que claramente não se importava? Aí eu lembro. pagando vexame mesmo. misto de puta desembaraçada com adolescente desesperada. e ele balançava a cabeça e murmurava. em um quiosque da praia. me vêm à cabeça tantas outras julices ao longo dos anos. Algumas coisas ela intuía. mas isso ela também não sabia. aleijar? E causar esse desgosto ao Murilo? Perder a babá de Raquel? E ainda ter a humilhação de contar essa história sórdida toda pros tablóides quando viessem me perguntar por que eu tinha matado a melhor amiga do meu marido? Eu também precisava da Júlia. ou não admitia. e Murilo enrubesceu feito criança e me puxou pelo braço feito homem machão. desisti. mas com a percepção de uma escavadeira. e eu sei a resposta: Júlia era uma perdida na vida. será que ele não sabia mesmo?. pra ninguém ver e pra ninguém saber. tábula rasa. dotado da intuição de um bloco de alumínio. tentava viver na minha cabeça a caótica vida da Júlia. Um dia. lógico e inteligente. eu apagava a véspera da memória. mas só. por um segundo. e nem precisava. o cara com a mão por debaixo da sua saia e não se via movimento de dedos. E aí. ahã. E é fato sabido que quem mergulha muito fundo de apnéia perde a consciência e nunca mais volta. e tentei olhar em seu rosto. ele que não era nem uma coisa nem outra. e só murmurava: ahã. pois no segundo seguinte me dei conta que era com Murilo que eu estava casada. Não sabia nada. tarde da noite. Nunca soube.

algo que o surpreendia. porque não reclamou o prêmio? Afinal. Decidi ficar calada. comungou e se deixou molhar pela água benta. mas acreditava no nosso amor. Hoje. falo as coisas antes da hora e estrago tudo. não queria converter o Murilo a Deus. dez anos de vantagem. me ofereceu o anel. queria apenas convertê-lo a mim. ah. Murilo e eu. porque eu não sou religiosa. eu sei. o que vale é a posse atual. E foi lindo. eu teria seguido. largou na frente e teve. 23 . relutantemente. Azar o dela. sãfuga. de Murilo e eu. que o preocupava. não sou missionária. algo que ele não sabia como explicar. e balançava a cabeça. ela que se contente em garimpar pepitas de Murilo. vou dizer mais o quê? Sempre ouvi que o dia mais feliz é quando nasce nosso filho. o Murilo todo só eu tenho. E Murilo me deu sua mão. e se eu estivesse contando só a minha história e de Murilo. mas como uma prova de amor. Parece piegas dizer que foi o dia mais feliz da minha vida. Murilo é meu. mas eu agora era do Murilo e ele era meu. não que sejamos previsíveis ou submissos ou enfadonhos. mas eu acredito. Não cheguei primeiro. Felicidade mesmo eu senti quando entrei na igreja. eu acredito muito. afinal. é produto artesanal. e ele jurou. Onde estávamos? Preciso me controlar. minha vida estava começando. Júlia é que bagunça qualquer história. abraços e beijinhos sim. o que será que ela está procurando?. finalmente. Se ela é tão boa assim. Azar o dela. que eu nunca mais daria o braço ao meu pai. Azar o dela. nós dois seguimos a ordem das coisas. braço dado com o meu pai. se ajoelhou diante do padre. perdão. e nunca vai encontrar nenhum que tenha o Murilo todo. pequenos veios de murilice em cada homem que lhe cai entre as pernas. um dia você vai entender. Me exalto. juro. sua própria presença é centrífuga. Ah. mas somos normais. mas conquistei. Dane-se o usucapião. pensativo. ele é meu. deixa eu ver. E jurei que aquilo seria um gesto ainda mais simbólico do que já era. e fez o sinal da cruz junto comigo. mas comigo não foi. minha filha. Raquel vem em segundo. que ficaríamos juntos para sempre e aquilo me fazia sentir ainda mais especial. Sim. pais são uma doença incurável. só tem um. ele se perguntava. e por isso ele cedeu. teria sido melhor seguir direitinho a ordem das coisas. e o Murilo. Quero saber é de nós dois. me esperando. esse não acredita em nada. jurou perante Deus. mas se não falar isso. normálfuga. e eu não pensava nisso como um sacrifício. e vi o Murilo lá na frente.

uma das poucas ocasiões sociais em que juntei Murilo com minha família. pra não dizer curiosa – meu pai nem se interessou em saber – e perguntou por quê: – Já na primeira frase. e tenho vontade de castrar o patife. é deficiência imunológica. Esculápio. um nojo!. e me emputeço ainda mais de ter tido vontade de castrá-lo por algo que não fez. Hígia e Panacéia. Qual o sentido de jurar em nome de deuses nos quais ninguém acredita?! Para judeus. Ele idolatra a medicina e ainda assim critica o documento sagrado lá dos médicos. que não respeitava nem Hipócrates? No único natal em que passamos na casa dos meus pais. ele. Minha mãe não era muito culta. Para ateus e agnósticos. pelo menos. uma vez fiquei até com umas manchas vermelhas no pau. que iria se formar no mês seguinte. mas ainda sem entender bem aonde ele queria chegar: – O juramento é uma farsa desde o começo. e fico assim girando em volta de mim mesma. chega de Júlia se intrometendo em minha história! O problema continua: como eu poderia me sentir segura com um médico. e ela se coça o tempo todo. e com todos os outros deuses e deusas como testemunha. mas era religiosa. em um bar qualquer. não é minha culpa. e ela fumando.Penso no que Murilo acredita. o que Júlia sabia das minhas intimidades? Será que sabe da minha tendência a corrimento. é assim que nem uma nata de leite. parece uma macaca. já estava reclamando e criticando. Por isso. – Iluminou Murilo. e Murilo comentando. como sempre. Por detrás daquele sorriso que mostrava mais gengivas que dentes. dizendo que não lhe agradava a idéia de prestar o juramento de Hipócrates. jurar por Apolo e sua turma é sacrilégio. Deuses! Deusas! Minha mãe balançou a cabeça. Nada está livre das críticas do Murilo. um semi-médico naqueles dias. não é minha culpa! Como posso ser feliz no meu casamento perfeito se não sei se Murilo contaria esse tipo de coisa pra ela? Imagino ele rindo. sempre tive tanto medo do que ele poderia falar a Júlia sobre nós. que adoram um deus único. cristãos e muçulmanos. simpatizando com sua indignação. é hipocrisia. mas lembro que ele é inocente. 24 . Arre!. por exemplo? Que vergonha! Não é por falta de higiene. em teoria. e não sei. do alto de sua indignada sapiência – o juramento diz ser feito em nome de Apolo. você nem sabe.

por isso. nós tínhamos acabado de transar e eu estava mexendo nos seus cabelos. porque cama não é lugar pra se debater religiosidade. burra!. nem sabia o que eles achavam. E esse joguinho metafísico que ele joga é um que eu nunca posso prever ou antecipar e. Em nenhum deus. eu não teria tido 25 . enquanto minha mãe devota balançava a cabeça. Murilo só sabe de uma coisa. e por isso muda sempre de opinião. que sacrilégio!. eu estava tonta de felicidade. quem fazia questão de casar na igreja era eu. de ter arroz e buquê. me sentia cada vez menos ligada a eles. – Ele disse: – Porque sem você. ainda mais eu sabendo como ele era com esse assunto de religião. De resto. boba. de esfregar meu marido na cara das amigas. e eu fiquei surpresa. e também porque eu só tinha feito um comentário inocente. ele se sentiria um hipócrita. ao prestar o juramento de Hipócrates. assim só pra dizer alguma coisa. já nessa época eu não me importava com o que eles achavam. como eu disse. então jogava tudo em cima dos pais. que não acredita em Deus. agradeci ele ter aceito casar na igreja. não queria puxar conversa e muito menos debate. (sejam sinceros. e falei. Nossa primeira discussão foi já na lua-de-mel. Não era mentira que eles teriam morrido. pois como se pode discutir com alguém que se dá ao direito de mudar de lado a cada cinco minutos?!: Eu meio que me deitei sobre ele. – Meus pais teriam morrido se eu não casasse na igreja. Murilo não prosseguiu com a frase seguinte e não disse que. E é ainda mais revoltante porque. mas até aí tudo bem: – Quem tem que agradecer sou eu. isso é a linguagem corporal de uma mulher que quer debater religião?). porque ele também não sabe o seu lugar. nunca um sacrílego.Eu já conhecia aquela indignação – ser esposa é ter que ouvir esse tipo de coisa antes de qualquer outro – e chutei Murilo por debaixo da mesa e assim. Foi assim que começou a confusão. aliás boba não. E o Murilo me agradeceu de volta. Murilo não sabe o que é ou onde se situa. – Mas isso também era mentira. mas eu tinha vergonha de falar isso pro Murilo. concordando com ele. Murilo não sabe nada e isso me exaspera. e eu estava me sentindo tão bem. o que é frustrante. e nunca se decide e nunca tem certeza. e espalmei a mão em seu peito. tudo bonitinho. perco sempre. poderiam ter tido um derrame e eu não estava nem aí. mas era importante pra mim. como manda o figurino.

é justo que eu faça as pazes com esse meu lado. a realidade prática do catolicismo está por todo o lado. E eu me pergunto: será que fui eu? Será que a culpa foi minha? Na hora em que Murilo finalmente se assentou. acho que é isso. eu achei que sim. A própria língua portuguesa já nasceu cristã. Se dependesse de mim. Eu exigi que meus pais me tirassem do colégio católico porque achava que estavam enfiando muita religião pela minha goela abaixo. mas logo depois me veio um estranhamento e eu devia aprender a manter a minha boca fechada. mas 26 . do jeito dele – será que fui eu a culpada por expulsá-lo de novo? Na época. que aceitou a religião – pelo menos. E. acho que perdi um pouco da minha identidade. e fiz um círculo com meu indicador em seu peito. e enrosquei seus cabelos em meu dedo. Carla. satisfeito consigo mesmo: – É. não sei. sou homem e sou católico. independente das minhas peregrinações metafísicas. E eu fiquei toda feliz de novo. digo pelo amor de deus porque sou falante de português e essa expressão faz parte do meu vocabulário mais básico. católico histórico. Acho que Jesus não foi cristo mas o natal era o meu dia favorito do ano. – E fez uma pausa. Nem me lembro da última vez em que tinha entrado em uma igreja antes dos ensaios do casamento. Eu. Eu nunca saberia o que tinha perdido. sou médico. uma das tantas coisas que eu sou: sou brasileiro. Entende? Por mais que se fuja da metafísica. – Identidade? – É. Negar deus não implica ignorar toda essa parte importante da minha herança cultural. a me contentar com as pequenas vitórias: – Mas é que você relutou tanto que eu nunca pensei– – Eu fui muito rebelde. como chamam. que tipo de pessoa dá um discurso desses no leito nupcial?!. sem significado. sou carioca. não dá pra ser brasileiro sem ser católico – ou católico cultural. E agora que passei da minha fase de rebeldia. mas nessas rebeldias de final de adolescência. e completou. Meus valores são cristãos. embora não acredite. Me recusei a fazer primeira comunhão com o resto do pessoal. é um dos elementos que me define.um casamento lindo desses. sem simbologia. teria sido só uma besteirinha em um cartório qualquer. Gostei do casamento porque me lembrou que. Obrigado.

E também não era médico. não devia ter falado aquilo naquela hora. nua. e eu quase que não acreditava no que ele tinha dito. e não pode ser carioca se não tem uma escola de samba! Péssimos exemplos. eu realmente não precisava. me olhar com essa cara de tacho e se proclamar católico quando você não acredita nos fundamentos básicos do catolicismo. eu sei. e eu te amo assim mesmo. não torce pela seleção na copa. calmo: – Jesus é o nome enquanto cristo é um título que implica em– – Foda-se! – E me levantei da cama. e retruquei: – Você não é católico. A única acusação que eu não podia dizer. Com o tempo.. eu ainda não conhecia o Murilo. porque mal passara do quinto período de medicina. e não disse o que eu ia dizer. mas isso eu não disse.. assim como você não pode ser brasileiro se. queria atormentar ele um pouco como ele tinha me atormentado. Alguém que faz pouco de religião. claro. como ele tão arrogantemente tinha se declarado. – Nessa hora eu me enfureci. E ele também me olhou como se não acreditasse: – Você não pode deitar aí. como eu sempre digo. mas eu queria era provocar aquele desgraçado frio. alguém que já me disse que acreditar em Deus é superstição e que não é diferente de acreditar em saci-pererê. e só falei: – Você nem mesmo se refere a Jesus como Cristo! – Claro. nem brasileiro e nem carioca. e fiquei olhando.na época. – Ele retrucou. sei lá. e subiu uma coisa. me censurei. mas eu estava irada e falei: – Você não pode ser católico se não acredita no preceito básico do catolicismo. 27 . Quer dizer. mas eu olhei pra ele. ele teria mudado de idéia de novo. hoje tenho certeza disso. Murilo odeia futebol. talvez porque tenha pressentido que isso teria machucado fundo e aquela discussão não justificava atacar tão baixo uma das poucas certezas de Murilo – apesar de sua ojeriza a Hipócrates. era que ele também não era homem. Você pode ser o que for. e naquela época eu estava meio gorda. mas não vem me dizer que você é católico. nunca assiste às partidas da seleção. Eu queria esfregar na cara dele que ele não era católico. e não sabe o nome nem de uma escola de samba sequer. e eu mesmo me interrompi. que cena ridícula!. especialmente depois de passar dois dias na cama com ele.

eu estava possessa. e como eu não sabia nada. fazer bat mitzvah ou peregrinar a Meca. E. o pai do Murilo estava pagando e eu nunca tinha tido uma jacuzzi antes. quase tenho pena do Murilo. argumentei que a menina precisava de padrinhos. e ele. que pensou que eu ficava fumando maconha lá em cima. a dor me deu algo em que focalizar a raiva. ah. como se estivéssemos travando um calmo e ponderado debate intelectual: – Talvez você tenha razão. ela poderia escolher sua fé com calma e teria o resto da vida para ser batizada. chegou nos meus olhos. hoje eu rio. mas eu não queria desligar. esse tempo todo. que amanhã ela estaria brincando com as amiguinhas e seria a única menina do grupo sem uma dinda. mas eu estava lutando pela minha 28 . E eu. eu dei as costas e fui pro banheiro. ele teve padrinhos. e eu tentei me acalmar e não consegui e enquanto isso. o iceberg no casco. eu queria dizer. e nem queria fechar os olhos. e a espuma escorrendo pelo chão do banheiro. e a ardência nos meus olhos até ajudou. o único problema foi ficar com os olhos vermelhos por toda a minha lua-de-mel. e disse. sentindo a pressão do jato d’água nas minhas costas e nas solas dos meus pés. me joguei ali dentro. de olho aberto no meio daquela espuma toda. como quando ele me olhou calmo. porque era uma violência com o bebê comprometê-la com uma religião antes que ela tivesse liberdade de escolha! Mais tarde. isso foi o dedo na sopa. errei a mão. como poderia negar isso à própria filha. crismada. e pareceu estar considerando cuidadosamente tudo aquilo que eu tinha expelido sem nenhum cuidado. imagina!. eu estava enfurecida. Murilo ponderou que eu talvez tivesse razão.mas quase saiu. Quando Raquel nasceu. ele ainda veio me dizer que não queria que ela fosse batizada. e alcançou a minha boca e subiu. tinha uma jacuzzi ótima. e ter que agüentar o risinho do concierge. a espuma subia e subia. e enquanto eu ficava ali. e atirei todos os sais na água. e assim eu fiquei. que nessa época já tinha cinco anos de experiência em ser casada com o Murilo e conhecia todas as manhas do rapaz. E acabou pra mim. esse elemento crucial de brasilidade? Ah. liguei a hidromassagem. E nunca me irritei tanto. que isso fazia parte da cultura brasileira. e não adorava a madrinha até hoje?. ah. era uma massagem boa mas eu mal podia aproveitar de tão perturbada. o quarto do hotel era caríssimo. não teve?.

jeans 29 . teria ido direto pra recuperação e ia ficar dezembro todo na sala de aula. Estavam todos no começo do segundo grau. quem sabe. sou muito passional. porque eu decidi passar a vida com esse homem. algum dia. e ele é o pai da minha filha. muito apegada à vida: uma vida. e isso me assusta. e. O vice-versa. é isso que estão chamando agora?. Apesar do companheirismo todo. dos próximos filhos. como agüentava andar com um chato daqueles. preferir lealdade a algum ideal abstrato do que à vida dos meus filhos. Algumas histórias não sei se teria casado com ele se soubesse. ainda estariam fazendo. Não preciso nem dizer quem foi a madrinha. e também tinham ciúmes dele. o Murilo não passou não. e não entendo como ele pode ser tão frio. E Libeca era daquelas alunas citadas pelos freis mais conservadores para justificar a insensatez de tal medida: só se vestia de preto. como pode colocar idéias antes de gente. me choca de verdade. naturalmente. mas esquece. não passou mesmo. de óculos fundo de garrafa e vocabulário difícil. e finalmente podiam se vestir como quisessem: a obrigatoriedade do uniforme só ia até a oitava série. A primeira vez que esses ideais inconstantes do Murilo foram postos à prova foi com o caso da Libeca e. não vale todas as teorias e argumentações e racionalizações do Murilo. apesar de tanto amor entre eles. não andavam no mesmo grupo: eram a única interseção de dois círculos diferentes. daquela turma toda de gente tão interessante e avançadinha (ou assim eles se consideravam.filha: ele não tinha o que responder e Raquel foi batizada na mesma igreja onde nos casamos. fumava maconha e ouvia rock progressivo. não interessa. se o seu bom senso errático não pode. que andava com Júlia e seus amigos. Se não fosse por mim. ele vai ser o único responsável. estava lá. era verdadeiro. claro. vou contar o que Murilo fez com a Libeca porque isso tem tudo a ver com o que houve depois. Mas acho que sou eu. um minuto a mais de vida que seja. Religiosa ou não. Faziam tudo juntos. E essa história me bota medo. Murilo era a prioridade de Júlia e ela largava tudo para estar com ele. mas vou contar mesmo assim. e se amanhã eu morro. vocês lembram – os dois cresceram juntos. como sempre. porra. Os dois estudaram juntos em um colégio católico – até o Murilo se revoltar e pedir pra sair. nessa prova. porque apesar do grupo e da galera. Júlia. ou ensino médio. Os amigos de Júlia não entendiam o que ela via em Murilo. Mas às vezes ele me choca. caretão e pentelho. e não sei se posso confiar nas decisões dele. claro). como não? E chegamos a Libeca. pichava os banheiros e matava aula de ginástica.

na época. com quem se ama – mesmo sendo aqueles amores fugazes mas faiscantes da adolescência. essas coisas. E. pra não passar vergonha). com quem se é íntimo. pelo mundo afora. que não podia comer doce por causa do 30 . E era – ou se dizia. eles botavam a mão aqui e ali e. mas. e era literata. diria que era mulher liberada e experiente. as meninas mulherzinhas. aos quinze anos: que aliás. que sexo não significava nada. pensando bem. que todo mundo da turma tinha lido e sublinhado – e. botinas velhas. só dedicávamos aos nossos cabelos: cabelos. Enquanto isso. estar inteiras. é a única idade na qual é desculpável se imaginar niilista. essas travessuras que só se faz com quem se confia. nos pareciam uns homenzarrões – e. com eles. e vejam só. não fumávamos e tínhamos o mínimo de decoro. pra mostrar como era sofisticada e culta). se dava a intimidades físicas com todos. por questões ideológicas. toda a força dos valores culturais decadentes da nossa sociedade se fazia sentir e Libeca defendia com fúria aquele ultrapassado e cabeludo conceito de honra que residia ali no meio das suas pernas. mas Libeca se sentia mal com isso. tão literata quanto se pode ser nessa idade: adorava Dostoievski. só ia à escola de ônibus e tinha um orgulho planetário disso – por outro lado. perdíamos a inibição.rasgados. Mas o resto era ou deixar ou voltar aos uniformes. começara Os Irmãos Karamazovi e nunca conseguiu acabar. às terças-feiras. quem visse. uma niilista (palavra que adorava salpicar nas conversas. tinha lido as Notas do Subterrâneo – carregava uma edição sempre em sua bolsa. Os jeans rasgados foram proibidos – assim como os piercings – sob o argumento de que as roupas dos alunos precisavam. e levava escondido um saquinho de pão de mel pra bisavó. e faziam pouco de meninas como eu. ou se pensava – uma rebelde. e ficava mais de duas horas em três ônibus pra chegar no asilo e nunca faltava. aliás. Libeca e suas amigas também gostavam de defender o amor livre. as mulheres lavassem suas próprias calcinhas. seus pais e seus avós nunca iam lá. Libeca cultivava suas enormes olheiras com um cuidado que nós. ficávamos mais seguras com nossos corpos e brincávamos de colocar coisas deliciosas na boca. porque essas coisas não importavam. Libeca se desvencilhava dos amigos em segredo e ia visitar sua bisavó. que essas coisas não tinham importância alguma. Fumava maconha mas nunca sentiu onda (fingia. que éramos direitas e vaidosas. empolgada. Mas muitas dessas minhas amigas tão decorosas já namoravam firme – aqueles calouros universitários que. Libeca sentava no colo dos garotos. que Libeca tinha recado no estilo cadete do exército. pelo menos. nunca havia lhe ocorrido que. que era uma velha muito sozinha que morava em um asilo no subúrbio. Morava em um apartamento de quase mil metros quadrados em frente à praia e tinha um motorista sempre à disposição. Falando em calcinhas. mas quando estava a sós com eles. e nunca fez nada com nenhum dos garotos em cujo colo sentou.

não parou. e não gosto de falar muito porque nessas horas penso na minha filha. acho que o Escaravelho do Diabo. Mas tenho que continuar porque Libeca continuou. ao contrário de quase todos os outros colegas da Júlia.. Não era segredo. apesar de tudo e depois de tudo. E. e em como ela vai crescer. e ficava lá vendo a bisavó quebrar o pão de mel com os lábios porque não tinha mais dentes e deixava a massa derreter na boca. Tinha um assunto pessoal pra falar com a amiga. Murilo e Júlia. se amanhã ela não pode estar falando pra outros jovens da idade dela que a vida não presta. A vida não fazia sentido. acho muito triste uma menininha assim já com tanto amargor na boca. se a seleção tinha chances de levar o tetra no México ou até se a Viúva Porcina devia mesmo era ficar com o Roque. Gosto de me enganar achando que saber do pão de mel teria feito alguma diferença para o Murilo mas não: ele agiria como agiu de qualquer jeito – Júlia talvez levasse o pão de mel em consideração. nossos valores morais eram falsos ícones impostos por uma mídia corrupta e globalizada. além de ler Dostoievski e não entender. nesse dia. a Libeca tolerava o Murilo. estavam os dois. e as duas conversavam. Enfim. também enfrentava o Jornal do Brasil todo dia. apareceu a Libeca e. contou pra ele também. Então. mas que dizia pra Libeca que vida sem pão de mel não valia a pena. quinze anos.seu diabetes. não parou mas 31 . Desculpem o desvio mas é que. e sem razão alguma. o que pensava desse novo Plano Cruzado. nunca tenham sabido quem era essa moça que queria se matar. se era fiscal do Sarney. mas Murilo estava lá e a Libeca não se importou. eu também me sinto mal que Murilo e Júlia. chega! Quem é que já não ouviu esse tipo de conversa? Não tenho estômago de repetir essas besteiras todas. assim como a Libeca se sentia mal com o abandono da bisavó. e Libeca levava. e era bom porque isso forçava Libeca a se informar e. Libeca queria morrer. até gostava dele um pouquinho. a bisavó ouvia a Voz do Brasil todo dia e sempre perguntava pra Libeca suas opiniões. Ah. aproveitando sua meia hora de recreio debaixo da sombra de uma amendoeira: ela fumando e desenhando em um caderninho e ele lendo algum livro da coleção Vagalume. as relações humanas eram regidas por um deus artificial criado para facilitar a dominação dos mais fracos pelos grandes cartéis internacionais.. em um dos seus cantos preferidos do colégio.

em puteiro de segunda – que não conhecia o prazer sexual e que nem queria conhecer. como se aquele ato individual. E tinham razão de levar Libeca a sério porque dessa vez era sério mesmo. estava ali pedindo ajuda daquela maneira tão óbvia. não gostava da sua vida. e que tinha muito prazer sim cada vez que chegava no asilo e sua bisavó ainda estava viva. por isso. Murilo e Júlia. e dizia que não queria mais. aquela calma que assustava. embora ela mesma nunca tenha se dado conta disso. a vida não lhe dava prazer. sentia nojo do menor prazer físico. portanto. eram jovens seríssimos. coitados deles dois. no fundo. que se achavam tão adultos e inteligentes e sofisticados. em sua cabeça. a única coisa que valesse a pena ser feita. ao treze anos. aliás. se masturbava de ódio. por isso mesmo. não gostava do seu corpo. mas porque ela não comprava aquele miseen-scène todo. tão ridícula. levavam tudo muito a sério naquela época. deveriam se comportar de acordo. pois Júlia já sabia. De que adiantava ficar no mundo quando não se gosta de nada? Não tinha vaidade. e Murilo corou. e esses clichês que. não sentia realmente prazer físico algum. até o chuveirinho do bidê doía. aquele único ato não influenciado pelas forças imperialistas que dominavam todos os aspectos de nossas vidas. que absurdo!. não pensava em ninguém. mas agora era pra valer. você tem a vida toda pela frente!. E Libeca esperava que fosse justamente ele quem a cortasse e dissesse o que é isso?. pra surpresa boba do Murilo. inchada. não gostava da sua família. como se essa idéia atentasse contra algum senso de pudor seu. mais adulto que Júlia. Murilo era mais centrado. e ela. misturado com medo. coitada. Mas Murilo e Júlia levaram aquilo a sério. muitas vezes passava a noite inteira se masturbando. Libeca queria mesmo morrer e. não visualizava nada. logo ele que só iria perder a virgindade dali a dois anos. e lá se foi Murilo corar de novo enquanto Júlia nem piscou. tinha medo profundo do dia em que chegaria lá e não houvesse a quem dar o pão de mel. convencidos de uma suposta situação de maturidade precoce e que. tudo era tão falso nesse mundo!. porque. E também não tinha sido à toa que Libeca discutira o assunto na frente do Murilo. já tinha inclusive tentado o suicídio antes. você é tão jovem!. depois ardia pra urinar. que era virgem – virgem!. se masturbava a seco. Menos uma ou outra pequena mentira. fosse. mas só tinham quinze anos mesmo. podem 32 . E. ficava vermelha. salpicados na hora certa.falava com muita calma. não porque Libeca tinha contado. nem se masturbava. E acrescentou. quando se masturbava. Libeca queria morrer: o prazer de encontrar a bisavó era um prazer amargo. e nem desconfiaram que Libeca nunca tinha tentado o suicídio coisa nenhuma e que se masturbava toda noite sim.

E Libeca emudeceu. e ele apenas sacudiu a cabeça. Mas ah!. Emudeceu mesmo. Não só naquela conversa não: ficou calada pelo resto do dia. um silêncio desagradável debaixo da árvore. e precisou esfriar seu temperamento quente antes de abrir a boca. e enquanto isso o tempo ia passando. que corava com masturbações e virgindades. quero deixar bem claro. seria hipócrita dizer que sentiria a falta dela. Pensou um pouco no que falar e acrescentou. sem o menor constrangimento de usar a palavra sagrado: – É seu direito. de dentes perfeitos e no peso certo. queria ter certeza de que. porque ninguém realmente deseja morrer – muito menos uma adolescente sadia. com a seriedade que só uma adolescente extremamente convencida de sua própria importância pode ter. nem precisava falar: estava na presença de dois loquazes filósofos. silêncio de hesitação. isso é que é o pior. nunca haviam debatido suicídio. que se regalasse com aqueles grãos-de-bico de sabedoria. afirmou: Vou sentir muito a sua falta. E nem mesmo foi um quem influenciou o outro. e se lembrou de o quanto realmente gostava de Libeca. E se esfriou e olhou para Libeca e.salvar uma vida. Libeca. porque ela estava chacoalhada por dentro. Sei o que Libeca pensou e não foi isso não. nunca haviam decidido o que fazer se uma situação como aquela se apresentasse. Os dois cretinos nunca tinham conversado sobre isso. o “homem” mais responsável do grupo. Ambos chegaram àquela mesma posição ridícula espontaneamente. A resposta que Júlia deu ela teria dado imediatamente: o tempo de espera foi porque Júlia queria se controlar por dentro. Nada disso. e pensou em alguns bons momentos das duas. a pessoa de quem mais esperava ajuda. Nosso direito sagrado. concordando com Júlia. bastava que ouvisse. Murilo. entretanto. quando falasse. queria fechar os olhos às lágrimas para que não escapulisse nenhuma. permanecia impassível ao suicídio. maduras (quase podres) lições de vida. seria de voz firme. Estava muda mas ainda participava da conversa: virou-se para Murilo. Murilo só não disse as mesmas palavras que Júlia porque mal conhecia Libeca. Libeca continuou muda e ele desenvolveu: 33 . mas ainda demorou um tempo. E foi Júlia a primeira a falar. mas o engraçado é que não era.

Murilo continuou o discurso. mas uma pausa cumplicitória. fruto de seus dezesseis anos incompletos de sabença. Seria uma grande arrogância e uma enorme falta de respeito da nossa parte ter a ousadia de lhe dizer o que fazer com sua vida. – Hesitou um pouco. questionou. Tudo pode ser tirado. E Libeca entendeu. não encontrando mais nada eticamente aceitável para falar. leiloado. Mas nossa vida é só nossa. Por fim.. muito mesmo – E pegou a mão de Libeca. A primeira era fácil: – O suicídio e. Não seria ali que Libeca ouviria os clichês de consolo de que precisava.. E acabou. mas vou dizer de qualquer jeito: eu gosto muito de você. Feliz com sua comparsa. E Murilo fez uma pausa.. Júlia. Pronto.– Na nossa existência. verbalizou: – . Os dois não estavam brincando. esperando que sua amiguelhazinha adivinhasse seu pensamento e completasse seu raciocínio. Murilo havia feito seu discurso. já tendo falado mais do seria fi- 34 . pensou Libeca. Júlia decidiu elaborar: – Acho até filosoficamente errado – Filosoficamente é o caralho!. não tenho nada a ver com sua vida. repetiu: – Vou sentir sua falta. só diz respeito a nós. Júlia entendeu. E Júlia. Libeca. recolhido. confirmou. a cara cheia de cravos e erupções. não uma pausa dramática. só temos dois momentos realmente íntimos.. mas entendeu. formulou uma resposta. Demorou um pouco. e Libeca estava tão anestesiada por aquela palhaçada que nem puxou a mão de volta como queria – e caso essa seja a sua decisão. Dois únicos momentos nos quais uma pessoa fica sozinha consigo mesma e ninguém tem nada a ver com isso. mas continuou calada para ouvir até o fim: – eu falar isso. quero que saiba que vou sentir muito sua falta e vou ficar muito triste.a masturbação. Era sério mesmo. o cabelo penteado em uma franja pra esconder as espinhas da testa: – Nada é realmente nosso.

E eu. Concordavam de tal maneira que a única coisa que poderiam acrescentar eram parabéns mútuos por sua atitude lógica e coerente. A historinha é importante. Mas não. não sei se clichês de CVV teriam salvo sua vida. Libeca passou os dias seguintes odiando aqueles dois putos. Teve um câncer maligno repentino nos ossos e se desmilingüiu em poucos meses. Dado seu rancor contra o mundo naquela época. mas nem isso foi lá grande perda. ainda mais assustador. nem se lembrou de o quanto odiava a si mesma. E não voltou mais. quem me dera ter contado esse caso apenas para exemplificar as esquisitices de Murilo e Júlia. E Libeca. ela morreu. E. pois não se passaram nem doze anos e o diálogo se repe- 35 . ó. não tinha mais o que fazer ali. parou de ler e nunca nem abriu a coletânea de Nietzsche que comprara algumas semanas antes. também se absteve da conversa. três filhos e uma netinha que mal conheceu. entretanto. Enfim. Só soube mesmo o que era orgasmo. E é esse. Por exemplo. também havia passado o impulso. Entrou em outra fase. Foi passar o verão em Araruama. portanto. olha só o que eles fizeram quando tinham quinze anos. minha amigas. Libeca concluiu que realmente não havia mais nada a ser dito. e dali a pouco mudou tudo de novo. Dizer: eles são assim. dentro do pai e da madrinha da minha filha? Estão. um ex-marido. Como quase todas nós. Quando passou o ódio. talvez. Ai.losoficamente correto. Mas aquele choque com certeza a balançou. Não havia o que discutir. o pai da minha filha. se apaixonou por um surfista e deixou o cabelo crescer. com a ajuda de Murilo e Júlia. Foi embora. o que posso dizer mais? Os dois sábios nem mesmo discutiram entre si o assunto depois. trocou piercings por tatuagens e continuou sendo adolescente. Júlia é a madrinha. saiu da minha história. caso algo aconteça conosco. Mas não havia por que parabenizar o outro por não ter feito mais do que sua obrigação de ser humano pensante. Libeca sobreviveu e nunca mais dirigiu palavra a Murilo e. porque passou todo o primeiro casamento achando que estava tendo orgasmos e gostando muito. Deixou um viúvo. Quanto a Libeca. ela conseguiu sobreviver aos seus quinze anos. O mais irônico é que. claramente estão. naturalmente. que tão eticamente aconselharam a Libeca. com o segundo marido. nunca teve. e assim ela foi indo. pois não é a criança o pai do homem? Não estão esse Murilo e essa Júlia. e isso é o que conta.

ele tinha pacientes: não podia ficar cancelando consultas e. Ela até aceitava o piche e as penas que lhe cabiam. retrucou que tudo bem. e eis que liga a estouvada. e ele precisava largar tudo pra ir passar a mão na cabecinha dela. tinha algo importante para falar. e Júlia gostava daquela solidão de almoçar ao ar livre e fumar seus charutos. mas haveria outras. que a arte requer experiência. de mais a mais. justificadíssimo!) E ela esganiçou que dessa vez era urgente. que considerava os sintomas de uma psicopatia relinchante como um tributo à Raquel. acendeu um charuto baratinho que vendiam ali no clube e disse a Murilo que queria morrer. muito em paz. Murilo perguntou se era urgente mesmo. Não riam não. e ficava apreciando o green. era deserto. E Murilo. dizendo que queria almoçar com ele. que isso era realmente muito grave. a não ser pelo golfista ocasional. Murilo voltou ao consultório. não muito longe dali. assunto urgente urgentíssimo. nem sabia se iria conseguir. se ele podia vir agora. Sua afilhada não merecia isso. que achava tudo aquilo muito lisonjeiro. que tem mais. a terceira vernissage tinha sido toda dedicada a ela. o imbecil do Murilo. suas crises existenciais caíam sempre no horário do expediente. (nem mencionou que acabara de voltar de um almoço com o irmão morto). E assim. já. sua contribuição para as artes estava completa. não falava mais. Nos dias de semana. ela adorava fazer isso com ele. se não fosse agora. passavam de duas da tarde. – O quê? Desfiou seu drama: tinha feito tudo o que podia. – Nada mais artístico do que a abelha morrer depois de dar sua ferroada. correndo. muito relaxada. mas o que não suportava era a rejeição à Raquel: afinal. Quanto mais tempo ficasse pra trás. a vernissage não tinha sido lá brilhante. e você queria saber se era fútil por ter terminado com o Piropo só por ele comer feijão com arroz de colher. E Murilo foi. cancelei tudo. gingando ainda do almoço com Glicério. de verdade. 36 . mais sua presença atrapalharia a influência de seu próprio trabalho. (O pior é que Murilo sentenciou que não. alguém tinha alguma dúvida que ele ia? Júlia estava esperando por ele no restaurante de um clube de golfe. matei minha tarde. lembra da última vez?. Júlia colocou os pés sobre a cadeira a sua frente. pedindo ajuda.tia. os ipês floridos e as garças na lagoa.

Mas quem disse que essas dores só podem ser físicas? Será que não existem dores maiores? E a dor de saber que minha carreira acabou? Que não valho nada? Que não tenho nada a contribuir? Isso tudo não é insuportável? Por que devo carregar esse fardo? Júlia queria debater e discutir. argumentar e contra-argumentar. incontroláveis. nisso eram iguais. como se apenas debatendo e argumentando ela se sentisse realmente próxima de Murilo. morrer e não se humilhar mais. mas deixa pra lá. Queria falar sobre a arte e sobre a contribuição do artista. Nem lhe passou pela cabeça. não estava apenas chamando a atenção: naquele momento. os supersticiosos e eu. mas fazer o quê? Não. uma daquelas vontades irreprimíveis. será que as dores da alma. vai. e falar de Deus e do diabo. não são mais insuportáveis que as dores físicas?. mas enfim. assim como Libeca. questionar e polemizar. e queria também meter religião na história. é o seu direito sagrado. e também queria colocar em questão a ética médica. vai em frente. ele pensou. E Júlia se abanou. melhor tentar acalmar a peça. continuou ela. por outro lado. faltavam muitos quadros a pintar. Mas não tinham sido 37 . ferroadas e o escambau. quando era a amiguinha tresloucada dele. e Júlia precisava se sentir próxima de Murilo.Júlia ainda estava começando. e também. o que Júlia mais queria era morrer e descansar. Murilo parecia o próprio voluntário do CVV. queria relembrar a Libeca e o nosso direito sagrado de nos matar. ele era sua esperança porque ela. vamos sentir sua falta. em que circunstâncias ela é justificável?. era o que eles mais gostavam de fazer juntos. estou aqui. dizer o que ambos tinham dito para Libeca. suspirou e disse: – Pensei que você era a favor da eutanásia. típico dela vir com essa de artista e de abelha. Murilo não levou aquilo nada a sério. terminar. o que é eutanásia?. por ser a alma mais sensível que o corpo. e blá blá blá. – E o que uma coisa tem a ver com outra? Não sou eu que sei onde me aperta o sapato?. e dessas quimeras em que acreditam os burros. pois Júlia só sabia que queria era falar. eu perguntaria. Júlia?. precisava fazê-lo entender. mais uma julice. A eutanásia é válida para pessoas que sofrem dores tão fortes que a vida não é mais suportável. queria refletir se para o artista era mais importante a vitalidade do jovem ou a experiência do velho. pode se matar. o cínico. afinal. que alma. Murilo não tinha dito isso?.

Não quero pular de um prédio. e ele sim não era mais o mesmo que da época da Libeca. pra não dar muita coleira: – Vou me matar de qualquer jeito. Hoje à noite. sabe exatamente quais são os pontos fracos da estrutura. sem arrependimentos. Quero um profissional. é tudo verdade. eu gostaria que você realizasse o meu suicídio. sentindo meus ossos todos quebrados. e por isso. Mas não agora. nem mesmo a carreira artística do prédio. Raquel que era seu grande consolo. E Murilo pensou: ela deve estar tão sozinha assim sem Raquel. são os engenheiros. custou mas botei lá minha dose de sal na moleira do homem. seu grande referencial. um horror. Murilo nem quis se sentar. pegar minha medula e eu viver paralítica e imbecil. Não quero sofrer mais do que já estou sofrendo. dormindo. Quero um médico. Antes que se afastasse. O que. ia ser uma tragédia. sem dor. o prédio cairia pra trás. nem mesmo o próprio prédio. bater em uma árvore e demorar duas horas pra morrer. Será que não 38 . Júlia.à toa os oito anos que passei com Murilo. derrubaria outros três. Você não precisa inventar histórias para eu estar ao seu lado. claro. Quero um amigo que segure a minha mão e que se certifique de que eu vou morrer mesmo e em paz. eu passo a mão na sua cabeça. Não quero tentar o suicídio. sabe onde colocar a dinamite pra garantir que o prédio desabe sobre si mesmo. aliás. ah. sua grande companheira. Quero morrer. Mas um engenheiro. esse sim. engatou a terceira e acelerou: quem é que demole prédios? São os economistas? Os químicos? Os filósofos? Não. baixinho: – Não foi por isso que eu liguei. bastava dinamitar uma pilastra errada e pimba. Por quê? Porque só quem constrói um prédio sabe como derrubar um prédio. como meu médico e meu melhor amigo. Eu. ela ganiu. tudo limpo e rápido. Murilo emudeceu. sem dor. estou com uma sala de espera cheia. sem ferir ninguém. não é blefe. Assim como Libeca. Quero morrer na minha cama. que tem a vida toda pela frente e que a crítica é que não entendeu sua arte. se fosse demolir um prédio. digo que você é linda. Não quero dar um tiro na cabeça pra bala dar a volta pelo meu crânio. se levantou: – Olha. Falei de eutanásia porque. rápido. Júlia nem ligou.

nem reconsiderar. muito menos pra mim. mas valeu a pena cada centavo daqueles juros escorchantes pra ter Júlia longe da minha filha. Claro que os quadros da terceira vernissage não causaram impacto na crítica: não foi a crítica quem pariu Raquel. lendo livros das matérias dos semestres seguintes. em relação à Raquel. Aquela necroteca era mais Júlia que a presença da própria Júlia. Eu estava vivendo a época mais amarfanhada da minha vida. Só a idéia de Raquel sozinha com Júlia de novo já me causava vertigens. mas isso ele não podia contar pra ninguém. rá!. ela entra na creche boa. ele um e Júlia. Carla. chega. Nessa eleição. Eu tinha sido obrigada a cancelar todas as minhas aulas da tarde. vade retro. eu tenho dois votos. eu agora saía da universidade todo dia no final da manhã. é melhor que passar a tarde inteira com a doidivana. e ele mesmo se interrompeu. ê julice mais julesca. tão subterrânea. pois Raquel só poderia começar na creche integral em agosto. está impugnada. sabe-se lá o que andavam fazendo. com certas criaturas é sempre melhor minimizar contato. fui pro cheque especial da minha paciência. E. quem quase surtou quando viu aquela mortualhada fui eu. tentando ganhar tempo e me preparar. nenhum. mas. porque ele sabia. as estripulias de Júlia com Raquel me custaram caro. pelo menos por aquele semestre. nessa fase de Júlia. o infeliz do meu marido estava pensando será que não dava 39 . mas só Murilo sabia o quanto Júlia precisava de Raquel. era mais um segredinho entre eles. impichada. nem que chore pitanga!. estudando. horário integral. mas quem mandou eu ser burra e não enxergar o que acontecia debaixo do meu fígado? Por isso. ainda mais depois dessa funebrice dos quadros. é dele também. Carla entenderia. minha filha é minha filha e de mais ninguém. Júlia nem fiscal de partido pode ser. não ia perdoar. os peitos caem e a merda bóia. Chega de Raquel com Júlia: já me bastavam aqueles quadros em nossa parede.posso falar com Carla?. uma hora a firma quebra. E ficava me dizendo: é só por mais alguns meses. daqui a pouco. com certeza. e é claro que isso atrasaria ainda mais minha formatura. pegava Raquel no maternal e passava a tarde com ela. sabe-se lá o que estava aprendendo. Quer dizer. não quero saber. nem nada. será que Carla não. enquanto isso. Quem carregou ela nove meses fui eu. ele sabia que eu não ia. vai ficar o dia inteiro brincando com outras meninas da idade dela. ainda mais com esse negócio agora de suicídio. vai ser ótimo!. conviver com Raquel poderia ser o dedo na balança da vida de Júlia. não ia mesmo.

pra convencer a Carla? E se eu contar pra ela sobre esse desatino desse suicídio. pensam o quê?. inclusive de mim. tenho que resolver isso sozinho. Não me levem a mal. salve salve. Tudo me incendeia nessa história. só eu e Júlia. Não posso aniquilá-los de minha vida. ainda mantenho uma certa atadura com meus pais. E não vão saber. mas quem cresceu em um lar normal não imagina o que é crescer em um lar ensandecido. que não foge à luta. filho teu. Se não de afeto. será que ela não reconsideraria? Mas isso eu não posso fazer. Desculpem a agressividade. mais ninguém. nem teme quem te adora a própria morte. Mas quem é filha sempre sabe. não bloqueio as deles: ajo com frieza e nunca entro em intimi- 40 . Tenho que reconhecer. Outros dizem que me preocupo demais com Raquel e Júlia. se torturando sempre sozinho. é minha mãe. Parece que minha obrigação de cidadã bem ajustada. é amar alguém apenas porque ela me pariu. Então. o que importa é o que vem depois: até as ratazanas da praia dão à luz. Isso nem me incomoda tanto. de mulher e de mãe. Com que direito ela expõe meu marido a esses dilemas?. O contato de uma criança com seus avós é alegre e superficial: nada impede alguém de ser neta de filhos da puta e nunca se dar conta. porém. Que eu posso morrer tranqüila. Que é cisma. Eu também já dei à luz. não. só um despacho ali no chão. longe de tudo. com que direito ela o abandona nessas encruzilhadas escuras. Arre. Outros. tenho que proteger a privacidade de Júlia. Uma mulher primitiva e ignorante. em quem confidenciar?. ó Júlia amada e idolatrada. na verdade. uma certa dívida. que eu deveria ficar feliz de saber que minha filha é tão amada. Não tomo iniciativas. pois não vou contar. avó e tios. Falo isso e sempre alguém me olha anuviado: me enfurece não ter direito de odiar minha família. Raquel está aí que não me deixa mentir. ao menos pecuniária. Raquel também merece avô. pra que lado descambar?. E nem mesmo o vento frio que assola a encruzilhada faz Murilo oscilar. sem grande força moral e nenhum discernimento: senão não ficaria tanto tempo casada com meu pai. carregando o ônus das decisões difíceis de Júlia. e Murilo desamparado. As pessoas – essas moralmente indignadas com minhas palavras – captam apenas meu ressentimento e não sabem nada sobre os dezoito anos de abuso que sofri. não. por causa de Raquel.

Conheço minha filha: Raquel era inflexível. e eu me desbaratinava toda e largava o que iria dizer pelo chão e depois não encontrava mais. claro. Mas falei. esse nunca aparece. sabe que a Raquel odeia a Carla?. dedo no olho e puxão de cabelo. E agora tinha até platéia. eu chegava da universidade. Falar o quê? Que mamãe vai fazer o seu nescau assim mesmo? Que mamãe sabe que você gosta tanto do nescau da mamãe quanto do da dinda? Falar pra quê? Só pra ouvir que não. Com medo. que o da dinda é melhor sim? Dinda isso. o que me tirou um pouco a obrigação da converselha. Raquel anunciou que queria um copo de nescau. você sempre tomou do meu. Sei de gente que fica desconfortável quando estou por perto. Deus. Só Deus sabe como apanhei. Dessa vez. ela já passara o dia inteiro com Raquel e eu também queria ficar um tempo com minha filha. Júlia fez que ia se levantar e eu disse que não. Criança não tem pudor: dão porrada em cima de porrada. Mesmo assim. rá rá. aquela Júlia daria uma mãe melhor que a Carla. o que era humilhante 41 . deixa que a mamãe faz. fofocar. mas falei. Dinda aquilo. porque nesse cartório também tenho firma reconhecida. Ou quase. A presença de minha mãe me confundia. e Júlia. Falei. coitadinha. minha mãe estava lá quando entrei. A dinda está cansada. Ouvi exatamente o que achei que iria ouvir. E acabei perguntando o que já sabia. ficou aqui com você a tarde inteira. Mas minha mulherzinha declarou que só gostava do nescau da dinda. E ouvi. juntas. que passava o dia inteiro lá em casa. ela ia pra casa e eu assumia a menina. a gente conversava um pouco. queria ir com ela pra cozinha. dizem que minha honestidade machuca. Júlia e Raquel a mantinham entretida. Minha mulherzinha. Mas a avó de vez em quando visita a netinha. eu sei que você gosta. Meu pai. sentei com elas. o que não devia ter perguntado. não toma nem o nescau dela. Aconteceu em plena troca da guarda: Júlia passava a tarde com Raquel. Como se eu já não tivesse vontade de matar Júlia antes de Raquel nascer. queísso?.dades. eu ficava imaginando o que ela contaria pro meu pai à noite. Mãe tem que falar. Ah. chute na costela dos outros é refresco: eu não devia falar isso. mas pobre de mim perto de Raquel. Só gosto do nescau da dinda. fazer nescau. pode deixar que eu pego.

calada. claro. morria tranqüila. mas não voltava atrás. 42 . sem graça. a segunda vernissage de Júlia. Se tivesse alguém assim por perto. a loucura de tentar passar no vestibular de odontologia cinco anos depois de terminar a escola e minha gravidez inesperada. E. O normal. E minha doce mãe deu um tapinha em meu braço e disse que eu deveria estar feliz: – Essa Júlia é um tesouro. Ficava sem. E. Eu me lembro que tinha pânico de morrer porque achava que ninguém cuidaria de você e do seu irmão. Não foi humilhação suficiente pra mim. Quem fez cara de cachorro pidão foi Júlia. eu vivia angustiada. Graças a ela. não precisei escolher entre filha e universidade. sorriu. Piscou. De mãos dadas.perguntar: – Você faz alguma coisa de diferente? Júlia. Ah. sacudiu os ombros: – Leite e açúcar. Ela passava as tardes com Raquel. mesmo assim. Cavuquei ainda mais baixo: – Ou toma o da mamãe ou não tem nescau! E lá veio: – Então não quero! Cruzou os braços e sentou. Era uma forte. Mas quem mandou eu querer ter filho logo quando Júlia mais precisava de uma razãozinha pra viver? Tudo aconteceu entulhado: a residência de Murilo. meus últimos meses de loja. Mas a tranqüilidade e Júlia pegavam ônibus diferentes e raramente apareciam juntas. que ninguém os amaria como eu. me poupem! Gesticulei que sim e lá se rebolaram as duas para a cozinha. ele clinicando com o pai pela primeira vez. buscava na escola e dava almoço. puxou os lábios. Não. não.

a decrépita!. e só resta a você cair de barriga na lama e avançar. e expectoravam que aquilo ali é uma guerra mesmo. só usam metáforas militares e agüentei um ano de guerra na cabeça. tinha vinte e dois anos e nunca me senti tão velha e obsoleta. Eu gostava de vender. porque não cabe todo mundo não. Finalmente. eu sustentava a família. e no meio de tudo isso.Meu trato com Murilo era simples: enquanto ele fazia medicina. estudava morbidamente até uma da tarde. Assim que terminasse a faculdade e conseguisse tirar um dinheiro. Não quis largar a loja por completo. quem vai ficar pra trás?. que quem não estudar vinte horas por dia não vai sobreviver: estamos atrasados. depois. ele se formou e. clinicando com o pai e aprendendo como funcionava o consultório que seria dele. um tem ataque dos nervos. No resto do tempo. e aquela loucura é contagiante: você vê os colegas desabando pelo chão como soldados caídos em batalha. mas a verdade é que o bom mesmo era trabalhar no mesmo lugar que Murilo. já no mês seguinte. e aí?. encontrava Murilo pra almoçar – agora era minha vez de almoçar com Murilo – ficava na loja enquanto ele trabalhava e. íamos pra casa juntos. é chato mas vai cair. a gente ainda precisava daqueles trocados. Ele estava fazendo sua residência no hospital universitário. avançar. com sua relação candidato/vaga abaixo de um. um desiste. ia pro cursinho. cercada por menininhas e moleques ambiciosos (e nervosos) de dezesseis. não vai dar tempo de derrotar a matéria toda!. eu precisava de cobertura contra o fogo inimigo. e vocês já atacaram Marília de Dirceu?. verberam o tempo todo sobre a falta de tempo. e eu tinha fobia de que seria eu. ainda mais que o vestibular das federais vai ser mais cedo esse ano. E eu acordava cedo. eu me angustiava sim. e os professores parecem sargentos também. sobre o desespero e sobre a agonia. outro decide que a sua vocação era mesmo filosofia. ele ficava no centro médico. vai cair e vocês não vão passar. putaqueopariu!. não vai dar tempo de enfrentar o modernismo porque já estamos em março e nem encaramos o barroco!. eu me sentia desembarcando nua e sozinha na Normandia. eu diminuí minhas horas na loja e comecei um cursinho pré-vestibular para candidatos a odontologia e medicina. E é. era minha vez de estudar. mas Murilo 43 . são vinte mil candidatos pra só trezentas vagas. a caduca!. dezessete. ninguém aqui vai vencer. um tentando pisar no pescoço do outro. em dezembro. já não suportava mais as metáforas militares. tinha pânico de perder mais um ano estudando. é só um teste. mas tirando os plantões ocasionais – que geravam uma boa renda – ele só aparecia lá umas três vezes por semana. não cabe mesmo.

mais preparados. não faço pouco da piorréia dos outros. mas na época eu achava fofo ele se ofender quando eu me referia às suas pacientes como clientes. E. A loja. Raquel não queria esperar. E a graça era ouvir o Murilo justificando seu trabalho heroicamente. Sou dentista: ninguém morre de uma má oclusão. e o Dr. E eu brincava. e as disfunções glandulares ocasionais. Eu adorava ir visitá-lo no consultório. mas eu não sabia de nada. como se estivesse salvando vidas – ou como se fosse vergonha não estar salvando vidas. o grosso e o largo da clientela eram mesmo as emergentes inchantes. queria fazer Murilo falar mal de suas pacientes. para o Murilo. manobrando e exercitando aquela tropa de um homem só. E daí? Não há vergonha em cuidar de dentes ou ajudar os outros a emagrecer. E eu hoje entendo isso. sempre foi. agora sempre em trânsito. sempre fui péssima aluna. e Murilo pelo menos era seguro de si. Mas pra Murilo parece que havia. cheia de mulheres gordas. eu me pegava pensando. afinal sou dentista. plantão e pacientes. porque não esqueci nem uma pílula sequer. saiu de vez da minha vida: já era difícil estudar para o vestibular com 44 . Era aquela sala de espera enorme. magérrima na comparação. o tempo todo. não menstruei em junho daquele ano. ele também não faria pouco das almas que salvava. mulheres gordas por todo lado. ainda assim. no consultório eu me sentia a magra. e ficamos felizes de saber que nossa filha sabia se virar pra conseguir o que queria. então ele sentia essa necessidade de transformar seu trabalho em uma cruzada. o pai era um sargento pior do que os meus professores. detalhes que dariam boas histórias pra ele dividir com sua mulher. e. imaginava que ele sabia histórias hilariantes de mulheres histéricas e metidas. e então. claro que entendo. isso era o pior!. do centro médico pro hospital universitário. Só que eu estava lá todo dia: tirando um ou outro diabético. então. esses moleques são tão melhores que eu. estávamos travando campanhas diferentes da mesma guerra. mais inteligentes. Se o trabalho de Murilo era uma guerra santa. que ele conhecia detalhes embaraçosos de suas vidas. quem sou eu pra pretender ser dentista?. e eu lá. Mas não. não iria confiar seus pacientes a um filho incompetente. Jader sem dar trégua. estão todos achando que não vão conseguir! Mas foi uma época boa. do hospital universitário pro centro médico.estava mais disperso do que nunca. sabia? Porque ter Murilo ao meu alcance compensava tudo. e era só residência. Se no cursinho eu me sentia a velha. apesar de termos programado que filhos só quando nossa situação financeira se estabilizasse. Parecia um milagre mesmo. mas ali estava ela.

aquela camisa medonha lhe caía super bem!. entrincheirada nas belas artes. Murilo me mostrou um artigo onde o autor defendia Júlia dizendo que. e agora havia mais os enjôos. Saí e. Os jornais (os cadernos bem específicos dos jornais) já meses antes falavam com ansiedade do evento: era inédito o museu de arte moderna dedicar uma exposição dessa magnitude a um artista tão jovem. andando pelo shopping de mãos dadas com o Murilo. A queda da menina-propaganda precipitou a da grife – Júlia. cujo charme era a ingenuidade de quase não saber como era boa? Enquanto meu útero se expandia e meu cérebro implodia. a sonolência e o inchaço. nesse meio tempo. ou algo assim. dobrando roupas e convencendo os clientes que sim. Lidar com fracasso é terrível mas sobreviver ao sucesso prematuro é impossível. Onde estava aquela menina-revelação de vinte anos que. essa sua vulgarização era benéfica: como a fábrica de sabonete pagava absurdamente bem (para compensar o papel humilhante a que submetia o artista). Creditavam a ela um grau de controle e planejamento sobre sua carreira que nunca teve. Júlia adquiria assim um lastro financeiro para garantir sua independência no que realmente importava: suas telas. não sossegava e ia preparando seus quadros para o grande dia. alguns meses depois. Mas não apenas isso. só desfilava por aí com roupas da loja. Ficar horas em pé. de certo modo. Ninguém está preparado pra cair do topo assim tão rápido: foi opinião unânime que a segunda vernissage de Júlia não se comparou à primeira. Participou de campanha de vodca e ilustrou embalagens de sabonete. A crítica desprezava esse tipo de atitude: queriam Júlia só para eles. em suas primeiras obras. Desenhava gravuras para reprodução e depois comparecia aos eventos beneficentes onde colecionadores disputavam os primeiros números. dos documentários. instintivamente. Apesar disso. Que nunca pensou ter. Júlia.aquele barrigão. pôsteres e murais. Pintava murais em fachadas de shoppings e restaurantes e permitia até reprodução de suas obras em roupas. havia subvertido tudo. O dinheiro? Júlia não fa- 45 . a Júlia das gravuras. Havia teorias sobre o assunto. vocês lembram. mesmo entre quem mal sabia quais eram essas tais belas artes. Não conheciam Júlia. talk-shows e pontas em novelas tornara-se tremendamente popular. encontramos um tapume onde havia sido a loja: breve nesse espaço mais uma loja para sua conveniência. Júlia estava no auge: eram os meses logo anteriores à segunda vernissage. isso eu não podia mais fazer.

Raquel já havia nascido e Júlia tinha sido despejada de seu pedestal. Claro que dominava as técnicas todas. Mesmo estudando quinze horas por dia. O sucesso não a afetou: teto de shopping center. Júlia não fez mural pra lanchonete nem obelisco de praça para ficar rica: ela amava a atenção. raciocínio ou mesmo bom senso interferissem em sua arte. Nem sabia quanto tinha. Uma havia sido forçosamente convencida que era a maior coisa a acontecer no cenário das artes plásticas latino-americanas desde Romero Brito. Júlia era muito pouco pretensiosa: sempre foi meio besta. Nunca teve nenhum dos três. isso já faz parte da lenda que a imprensa criou 46 . pode deixar! Eu mereci cada centímetro quadrado daquele tapete vermelho. enquanto ele fazia sua residenciazinha. verdade seja dita. na semana seguinte. aliás. E o que tinha não gastava. não era mais a Júlia da primeira. o bê-a-bá do ofício.zia nada por dinheiro. Em fevereiro. vai ficar tudo bem. eu e o vestibular. quem tinha que aturar os ataques tanto de insegurança quanto de estrelismo de Júlia era eu. A Júlia da segunda vernissage. quem estava ao meu lado quando minha bolsa rompeu foi Júlia. antes disso. entretanto. Júlia me correu pro hospital e também ligou pra Murilo. aquele foi um ano de preparação: Júlia e sua segunda vernissage. ao longo daquele ano frenético de preparação. isso. Mas. rebentou tudo. ela só ficava tranqüila com pincel na mão e tinta no cabelo. E adivinhem o que ela fazia lá em casa? Estava reclamando da reação da imprensa à sua vernissage. mas não sabia o suficiente para se dar conta da própria originalidade: jamais permitiria que detalhes como experiência. o Dr. Na primeira semana de fevereiro. Enfim. embalagem de sabonete ou anúncio de vodca. eu mereci aquele tratamento VIP bem mais do que ele. grávida de nove meses e inchada como um planeta. ao mesmo tempo. era eu quem tinha que abrir espaço no meu horário para dar tapinhas nas costas de Júlia e dizer isso. Raquel e a vida. começaram minhas aulas na universidade e. No final do mês. compareci à vernissage de Júlia no museu de arte moderna. grávida e quase insana. mas besta casual. Murilo e o consultório do pai. Que ela não entendeu seu sucesso. E. Já a outra era apenas uma moleca de vinte anos que gostava de chafurdar em tinta e brincar de pintar. Do seu jeito lá irracional e impulsivo. Eu e Murilo tínhamos acesso preferencial a tudo e. Jáder permitiu que Murilo passasse a tratar os novos pacientes. Afinal.

também não entendeu. eu estava admitida e matriculada em odontologia. Minha vida era esperar. Para explorá-lo. Quem imaginaria que aquela vernissage seria tão importante? Não Júlia. Tinha lá um respeitável círculo de fãs. Júlia perdeu todos os esparsos amigos que fizera na vida. pouco a pouco. Só mais uma menina rica usando suas horas livres pra brincar de pintora. veio Raquel. Ao longo do ano anterior. Sem cerimônias. sem expectativas. ia fazer sua primeira exposição. Júlia estava tão absorvida pela nova exposição que mal reparara na minha gravidez. naquela época eu já estava tranqüila. que era meio maluquelha e metida a artistóide. eu estava lá. E eu. era com ele que se arregaçava e era ele que andava atrás dela. nada: entender as coisas não era o forte de Júlia. quem me dera ela tivesse nascido no auge de Júlia. Minha filha chegou em má hora.a sua volta. Essa falta de senso alienava as pessoas e. saco plástico e pázinha na mão. puxa-sacos. Mas tudo bem. E quando a segunda vernissage foi mal recebida. Se eu ainda estivesse estudando para o vestibular. era fevereiro. mas nada além disso. Mas não. esperar por Raquel nascer e esperar pelo começo das aulas. Ah. tentou se aprumar mas acabou 47 . por tabela. todo jornalista do país parecia ter uma pergunta inconveniente para ela. é preciso antes encontrá-lo. o mundo de Júlia tremeu. Mas deve ter acabado engolindo o que diziam a seu respeito. interesseiros. Eu tinha tempo pra ser boazinha com Júlia. Eu tinha dezoito anos e a melhor amiga do meu futuro marido. eu a teria jogado aos cachorros-do-mato sem hesitação – e com algum gosto. o vestibular acabara. Murilo era o único sobrevivente. Murilo continuava seu tudo e nunca largou dele. disso sou testemunha. a loja era lembrança. sinto muito. assim como não havia entendido o sucesso da primeira. É verdade que o fracasso da vernissage fez o museu encurtar em duas semanas o tempo de exposição? Você tem aids? Vai largar a pintura pra se dedicar à pesca submarina? Já foi abduzida por alienígenas? E Júlia se enfurnou lá em casa e não saía mais. Mas até aí. fez que ia cair. nem na alta nem na baixa: era pra ele que voltava. Não iria perder um ano de vida apenas para dar atenção à amiga demente do meu marido. entretanto. sobrava pra quem? Até que a imprensa encontrasse outra carniça pra se esbaldar. Logo depois disso. de repente. fazendo residência e tentando trabalhar vinte e cinco horas por dia para convencer o pai que era digno de suas infladas e fúteis pacientes. Só que também é verdade: eu sei. então. conhecidos sociais e afins. Murilo nunca esteve tão pouco disponível. E. Júlia.

foi um padrinho ausente – mas no dia do batismo. aturando as bundudas ricas da cidade. Mas agora Murilo passava o dia inteiro ou enfiado no hospital universitário. Ela só iria fazer isso (e Deus sabe que ela precisava ser madrinha de Raquel) se Murilo participasse também. Não freqüentou o curso batismal – esse fizemos só eu. e ainda impôs Júlia como madrinha. Ele acabou cedendo. que seria obrigada a se submeter ao curso de batismo. Durante a faculdade. estava arranhada e ácida. da crítica e dos olhares compreensivos daqueles que. algo para dar sentido a sua vida bunda. E foi logo esse o ano que passei em casa. mas se recusou a comparecer. Apenas conseguir que Raquel fosse batizada já havia sido difícil: precisei manipular Murilo com habilidade. cuidando de Raquel. a descarada estava sempre na universidade. Não iria perder o primeiro ano de minha filha. impingir uma fé sobre uma pessoa antes que ela tivesse chance de escolher e ele não seria testemunha de tamanha violência. Júlia. cercado de diabéticos e obesos mórbidos. Imagina se eu iria insistir: estava achando bom demais poder batizar minha filha. Além disso. que era tão atéia quanto ele. ou em trânsito entre esses dois extremos. rezar e espirrar água benta na cabecinha de Raquel. verdade seja dita. Suportou em heróico silêncio ver as duas mulheres da sua vida torturando a terceira. Quem tem pena de Murilo que coma sal com ele pra ver como é. lá estava o Murilo. Até de Júlia. que. E Murilo cedeu. se esfrangalhou todo. Ele não teria que dizer nada. E Júlia estava lá. que teria que declamar sua profissão de fé. desabou com tanta força que rachou. meses antes. vermelho e envergonhado. almoçando com ele. verdade seja dita. mas ela não precisava ter levado seus deveres tão a sério. Quer coisa melhor do que a filha do seu tudo? Aquele ano eu dediquei a Raquel: passei no vestibular e transferi a matrícula para o ano seguinte. Júlia foi uma boa com- 48 .foi é desmoronando. querendo fugir da imprensa. mas apenas comparecer. o tempo todo. Ela era madrinha. Madrinha é pra ser a mãe postiça. Ah não. Quem insistiu foi Júlia. afirmavam que ela era mais famosa que Aleijadinho. Júlia e meu irmão. As complicações começaram no batizado. e muito menos se humilhar perante a Igreja como ela. O primeiro ano de Raquel foi maravilhoso. e o que ela mais precisava agora era algo em que se apegar. ou no consultório do pai. assistindo às aulas. Júlia não podia alcançá-lo em nenhum desses lugares. mas Murilo continuou desaparecido. Era coação. dizia. no fundo da igreja.

mas viscoso: seus dedos logo se revelavam ventosas. eu me pegava imaginando que Júlia era minha amiga. deliciosa. me desenganava naquele afago. companheira pro que descesse e subisse. Raquel nascida. E eu não desistia: fazia de tudo para incentivá-la a mandar a crítica às favas e ir viver sua vida. e conversávamos muito. e Júlia mastigava inveja. úmida de tão boa. e assim ficávamos as duas. Nunca durava. supria um pouco da minha falta de Murilo sim. não havia inconseqüência. sentindo a escova repuxar os cabelos. me prostrava. me sumia naquele carinho. política e fofocas em geral. eu dormia de novo. senta do seu lado. e grudavam em minha pele e tentavam sugar minha vida. Insegura e carente. Na história do milênio! Tudo para ela ir embora. roubar minha filha. eu deitada sobre o colo de Júlia. uma daquelas amigonas de infância.panheira naquele ano difícil e delicioso. Júlia era direta. penteando e despenteando. absorver meu marido. pachorrenta. e eu gostava. te aluga pelo resto da viagem e. e era assim que eu mais apreciava Júlia. sempre naquela faina infindável. pronto. escreveu não leu. nunca cortei. eu grávida e Júlia ali. só aquele momento. Ela não sabia seu valor? Pois devia voltar agora para o ateliê e preparar uma terceira exposição que ficaria na história. e eu quase achava. não havia arte. ela quase se mudou pro nosso apartamento. Lá do nosso jeito. e então. puxando e repuxando. depois. me entregava. colocávamos o berço na sala e tudo continuava igual. eu tenho cabelos longos. Júlia não tinha semancol: seu toque era gostoso. Nunca entendeu. pentear e cheirar. Júlia fez igual: um pouquinho de magnanimidade apenas e. não havia Murilo. sentindo aquela coceirinha marota nas raízes do cabelo. só aquele contato. nem trocávamos palavra. só nós duas. sempre comigo. ou até na rede mesmo. Isso nós temos em comum. a gente se entendia. novela. não havia nada. eu dormia sentindo os dedos de Júlia em meus cabelos. me ajudou e muito nos desafios de jovem mãe e. vamos ser honestas. Direta também sou. porque não havia palavras. e assim eu me despejava naquele toque. Mas Júlia me ensinou a ser 49 . vão até a cintura. Mas Júlia não entendia indiretas. sentindo as pontas dos dedos massageando o couro cabeludo. ficávamos no sofá da sala. Ela adorava mexer no meu cabelo. falávamos de Murilo. acordava e ela ainda estava lá. ainda se convida pra um cafezinho na sua casa. e era tão bom. degustava mexer em meu cabelo. e cuidadosamente enrolar em seus dedos e mãos e depois deixar desenrolar macio. horas. me pentear longamente. ajeitar. Outras vezes. Parecia aquele bêbado chato no ônibus: basta um tênue contato visual e ele já vem. languidamente. lentamente.

Meu coração não é enfeite: gosto de usar meus instintos. eu me sinto a idiota. Infelizmente. Então. Em pouco tempo. ou uma creche repleta de profissionais aparentemente competentes (mas será que eram?) que eu não conhecia e de quem não sabia nada. não poderia mesmo cuidar de Raquel o dia todo. que uma mulher finde-siècle não pode largar tudo por causa de filhos. apesar de desvairada e desenxabida. Júlia ajudou muito: parecia conhecer Raquel melhor que eu – e era isso. a gente acaba sem nem saber o que quer: a vida não é jogo de xadrez. da injustiça. quando decidi tocar a minha vida. Pensar muito distorce o próprio pensamento. dos dois pesos e duas medidas. eu conhecia e sabia que amava Raquel. abandonado minha vida e meus planos. tinha algo que Júlia não tinha: vida própria. Ela. A dinda logo aprendeu os segredos de jovem mãe. Ou então o quê? Eu deveria ter largado tudo. Não. dotada de paciência inesgotável e mestra de todos os truques. que me destruía os nervos. mas eu nunca aceitaria sua ajuda: mal conseguia aceitar seu interesse por Raquel. até Raquel se formar da universidade vinte anos depois? De qualquer modo. Independente do estado de nervos no qual ela me deixava por sua simples presença. naturalmente. A minha eu nem considerei. quem era a candidata ideal para babá e acompanhante de Raquel? Contando assim. Minha mãe visitava de vez em quando. Júlia não pensava mais nisso. no ano seguinte. E meu instinto em relação à Júlia sempre foi colocá-la janela a fora e me debruçar pra ver quando ba- 50 . As opções eram Júlia. que. A mãe de Murilo tinha obrigações demais. foi decisão pensada. entretanto. nem reclamava mais da crítica. lascada e rachada.indireta: como eu poderia enxotá-la de minha casa diretamente? Depois daquele fiasco? Naquele estado? Júlia estava ralada e moída. Júlia agora era só Raquel. Quem ainda batia nessa tecla era eu. A mãe de Murilo é que era perfeita: sempre com bons conselhos e com boa vontade. tentando empolgá-la para voltar ao trabalho.

se eu tivesse alguém assim por perto. morria tranqüila – que minha filha estava em boas mãos. brincavam. A mãezona mesmo só chegava da outra cidade onde estudava em tempo integral lá pelo começo da noite. A menina brincando pela sala. Não havia nenhum bom curso por perto e. vendo TV. havia outra mulher o dia inteiro em minha casa. até porque. sem a chupeta como agravante. A primeira vernissage aconteceu alguns dias antes do casamento. pegava a afilhada no maternal. por minha própria iniciativa. lendo. Mas dessa vez eu sentei. satisfeita de eu ter finalmente aparecido para rendêla. e atinei. Eu deixava Raquel no maternal lá pelas oito e rumava para o outro lado da baía.tesse no chão. Odontologia não é fácil. a jornada até o outro lado da baía já nem me incomodava. ao meio-dia. Enfim. e refleti. Teve a história da chupeta. Dava almoço. punha a menina pra dormir e ficava de bobeira. a segunda exposição foi na semana anterior ao nascimento de Raquel. vocês podem achar que estou exagerando. as duas passavam um tempo juntas. Mãozinhas dadas. A rotina era simples. até seus grandes momentos coincidiam com os nossos. onde quer que fosse. 51 . Depois. E era longe. o que quer que Júlia faça quando eu e meus ouvidos não estamos próximos e à disposição. se eu narrar todos os antecedentes. Depois que Raquel acordava. Com o tempo. poderíamos ficar de papo furado um pouco ou então ela ia embora cuidar da sua vida. Amigos botando o papo em dia. essa história não acaba mais. Já o marco da terceira e última vernissage de Júlia foi mais sutil. irrompendo assim na intimidade de uma família tão perfeita. de um casal claramente feito um para o outro. saíam pra passear. que fosse para o melhor. Rêmora atrelada. Tenho medo que. algumas vezes era ele quem chegava mais cedo e eu encontrava os dois ali conversando quando eu chegava. Deu no que deu. Dependendo do pique de Júlia. navegando pela Internet. assistiam uma fita de vídeo. Mas quero contar pelo menos um. se eu teria mesmo que sair do bairro. Nos anos seguintes. cuidando de minha filha e amando meu marido. E eu podia ficar sossegada – essa Júlia é um tesouro. que besteira. quando Murilo já clinicava sozinho e tinha mais liberdade para fazer seu próprio horário. lombriga faminta e urubu ansioso. A chupeta aconteceu logo antes. E eu me sentia uma intrusa. Eu deveria começar pela aula de natação. Júlia passava as manhãs trabalhando furiosamente em sua terceira exposição e.

quando Raquel tinha uns dois anos e meio. eu te levo na praia. Raquel nunca tivera uma chupeta da Magali. A burra. explicar as coisas. Vários meses depois. Devia ter desconfiado. dentro de uma caixinha e embrulhada em plástico. sacolejei. Usei todos os métodos. Quem tinha dado aquela chupeta pra ela? 52 . Bem. é? Além disso. transbordei. Só da Mônica. a chupeta está fazendo seu dente crescer torto! Mas até parece que adianta explicar. muito bem escondida. chupeta é coisa de criança boba. essa Júlia é um tesouro. E ela foi parando.minha filha. o que eu encontro no quarto de Raquel? Uma chupeta da Magali. Chamei Raquel. Estremeci. sou eu. Quando finalmente parara com as chupetas. por sinal. Tínhamos praticamente todos os itens de merchandising da Magali. eu decidi que era hora de parar com a chupeta. Coisas assim. Ela estava naquela época de querer me imitar em tudo (a mim e a Júlia. eu jogara todas fora. Eu não saberia dizer qual dos métodos funcionou: me interessavam os resultados. vocês podem achar que foi em xicrinha a borrasca em alto mar que veio depois. no fundo da gaveta de seus badulaques. Um não funcionava e eu pulava pro outro. E mentir? Será que não pode sair pela culatra? Não quero perder o respeito da minha filha. e você não é mais criança. Vai ter que parar com a chupeta porque a mamãe está mandando e mamãe está mandando porque muita chupeta faz nascer um bigodão nas menininhas. mas vá lá!) então eu disse: você já viu mamãe de chupeta? Adulto não usa chupeta. Eu nunca comprara uma chupeta da Magali para Raquel. Mas como? Procurei ser racional. Tentei de tudo um pouco. Mas suborno é ainda pior – e destrói os dentes. Quantas outras pessoas além de mim saberiam que a Magali era o personagem preferido de Raquel? E eu mesma nunca tinha conseguido encontrar uma chupeta da Magali. chega de chupeta porque a mamãe está mandando! Não me façam rir! Tenho uma amiga que enche o filho de doces para compensar a perda da chupeta. amanhã ela não acredita mais em mim. como sempre. Mas procurei e muito. Disciplina pura e simples também é uma piada: a partir de agora. mas se você parar.

e que o mal-entendido logo se desfez e desligamos o telefone trocando palavras de amor?. Quem quer que lhe dera a chupeta não queria o seu bem: queria era vê-la com um bigodão. sem explicações. mas sem detalhes. não queria filha de bigode. e eu gritei e xinguei. já se tornara uma velhinha. nem precisava. como é que quem se descabela sou eu?. e acabei me concentrando na suspeita talvez inevitável: – Foi a vovó. sem entrar em detalhes. um pouco surda até. De certo modo. não é por acaso que o ônus da prova pertence à acusação. não são eles os tiranos desnaturados?. Pensei na dinda extremada e no pai bunda-mole. não foi? Raquel não disse nada. depois tive pena. mas fazer o quê?. que era sua melhor amiga. será que esse ressentimento não acaba nunca?. vou inventar que não gritei?. disse apenas o alô e depois ouviu o estouro da boiada em silêncio. um alô cheio de surpresa e alegria. eu já sabia. cada vez mais quieta e acomodada. não. eu tinha vinte e seis anos. aquele era mesmo o meu dia de falar sozinha. Raquel passou as pontas dos dedos pelo seu lábio superior – viu. ai que malvadeza. Era tão óbvio. é verdade. e não era eu que tinha obrigação de ser ponderada e justa?. ia explicar o quê?. 53 . bigode nenhum – e não disse nada. mas não era o caso não. Aquilo não fazia bem pra ela. ela se acendeu como um enfeite de natal. Insisti. não era? Quem mais poderia ser? Quem mais se intrometeria assim na criação da minha filha? Que outra pessoa (além do meu pai. Ouviu e negou. Quando falei aquelas palavras. assim como Raquel. Mas a mamãe. não tenho orgulho. porque ela ouviu minha voz e ficou tão contente. mãe. já saíra de casa há oito. minha mãe não era mais aquela pessoa de quem eu me lembrava. Mas não xingou. dava pra ouvir sua alegria. basta dizer que gritei e xinguei. claro) teria tão pouco respeito por mim? Liguei pra ela e já atropelei sua felicidade. não fui eu? Ela poderia me xingar de volta. ela só negou. vergonha!. satisfeito de ser útil ao menos uma vez por ano. pois o que mais ela poderia falar a não ser não fui eu. e eu agora fico me lembrando daquele alô da minha mãe. e ela nem falou mais nada. engole sua esperança que eu liguei foi pra gritar e xingar.Não disse nada. minha filha está me ligando!. vou fazer gênero e dizer que tive uma conversa serena e adulta com minha mãe. minha filha. ponderei.

ela prometeu que não iria chupar quase nunca. Eu também não confiava no discernimento de Júlia. quem me dera ele tivesse feito pelo menos um comentariozinho. E você foi muito grossa com sua mãe? Minha mãe mereceu aquele esporro. se tivesse falado comigo antes eu tinha dito. as coisas que eu disse pra ela. e isso é bom. e minha mãe. A gente educa e eles deseducam: se já me estragou quando tentava ser mãe e responsável. nem vi mais Raquel com a chupeta. já mais calma: você nem sabe. A mãe de Murilo era avó 54 .Enfim. De noite. Mas não era isso. e pediu desculpas. eu tive que comprar. E comentei. você nem— – Fui eu. estrubufei eu. mas deixava minha filha tanto tempo com ela que seria uma porra-louca se não confiasse. queria que Raquel ficasse com os dentes todos tortos? Era isso? E sabe por que eu tinha pensado logo na minha mãe? Primeiro. menina. e que não iria contar pra ninguém. sabia o quanto tinha sido difícil. que chato você ter brigado com a sua mãe. Tinha acabado de chegar da faculdade e estávamos papeando. mas como eu ia saber?. Depois. mas ela choramingou e pediu tanto que eu já não sabia mais o que fazer. Ah. desliguei. no dia seguinte. porque eu não confiava no discernimento da velha – se bem que até aí minha situação com Júlia era ambígua. e explicou. Júlia. e ela ficou tão feliz quando viu a chupeta da Magali. e pelo menos ela sabe manter suas promessas. meu erro foi não comentar a história com Murilo. e explicou e implorou. Pensei na boçal da minha mãe porque a tarefa dos avós é essa: deseducar. mas me forçava a confiar em Júlia porque deixava minha filha o dia inteiro com ela. sabia que estava errada. e eu calada. meu Deus. e implorou. porque estava tão enfurecida que tive medo de lhe dar uma sapatada nos cornos. E pediu desculpas. Mas não. né?. e desamassei a história toda. eu sou uma idiota mesmo. Era uma causalidade inversa: eu não deixava Raquel com Júlia porque confiava em Júlia. imagina tentando mimar Raquel. Júlia tinha acompanhado todo o processo. Falei com Júlia. achei que tinha parado sozinha. Não. E Júlia ouviu e depois perguntou: ela não disse nada? Não.

e ficaram lá de bobeira. e Júlia decidiu que uma caminhada lhe faria bem. o de cima caga no de baixo: passou pouco tempo e Júlia e Raquel foram passear. com o seu lendário discernimento. – Júlia. e ela já estava ficando flácida aqui e ali. ela saía em silêncio.o bastante. era bonita. Nos dias seguintes. 55 . Júlia fez um pequeno desvio para passar por uma academia de ginástica. Júlia e eu não nos falamos: quando eu chegava em casa. Sou muito burra. Acho que talvez eu tenha dito que não. não sabe não. Raquel tinha acordado da sesta um pouco agitada. que madrinha era mais mãe mesmo. mas sempre vale a pena andar com fralda e calça limpas – e lá se foram elas. Depois. a prestativa funcionária comentou: – Sua filhinha sabe nadar? Acham que Júlia corrigiu? – Não. esse é o tipo de coisa que minha mãe faria. que cresciam a olhos vistos. é verdade. quando está com azar. enquanto Júlia se informava na recepção sobre preços e condições. É por essas e outras que eu veto ela daqui! Você— E então Júlia incorporou Murilo e decidiu. bradei e urrei nem lembro mais o quê. Preparou uma mochila – Raquel já sabia se segurar e ir ao banheiro sozinha. De qualquer modo. Mas parece que agora eu tinha uma avó infiltrada. e precisava sim. que era hora de discutir racionalmente com uma mãe enfurecida: – Mas será que talvez a madrinha não seja mais uma avó que uma mãe? Pensa bem— E eu gritei. Mas urubu. Júlia levou Raquel a uma pracinha perto da minha casa que ambas gostavam. Estava um dia bonito. mas as coisas não se mantêm no lugar apenas porque começaram bem. pra não falar dos culotes. Ela vivia se prometendo voltar a malhar.

e então concordou. Já achei um pouco estranho ela estar de cabelo molhado àquela hora. é a dinda. ela mesma tinha aprendido aos dois. – É que estamos começando hoje nossa escolinha de natação. três anos era uma boa idade para se aprender a nadar. para ajudá-la. e. muitos dos quais Raquel já conhecia da praça e. especialmente para crianças nessa idade. como eu ia adivinhar?. ou algo assim. Júlia quis entrar na água junto com Raquel. e estava quase – quase – pensando em acrescentar que ia falar com a mãe da menina quando a balconista ressaltou: – Mas tem que ser agora. Cheguei em casa de noitinha e abracei Raquel. pensam o quê?. A aula começa em quinze minutos e. por isso. pode ser sério um campo volúvel desses?. com um professor estúpido que a jogara na água sem a menor cerimônia. ela era esperta. ainda mais a dinda ali olhando. ela em geral tomava banho bem mais cedo. mas não me disse nada. eu não passava os meus dias pintando quadrozinhos e bancando a babá. Raquel realmente queria isso. mas o professor não deixou. e disse que sim. tentando absorver uma enormidade de informações. O professor é experiente. nem pensei nisso. eu estava do outro lado da baía. estava acompanhando a conversa. e também poderia ter falado ela não é a mamãe. estava tranqüila. se você perder. tudo em clima de brincadeira. elas aprendem juntas. biomédicas. a próxima escolinha é só daqui a quatro meses. formado em pedagogia. como a opinião da crítica sobre Júlia.Raquel olhou pra cima. E a aula foi ótima. informações sérias. pra enfatizar a dinâmica de grupo. Estava a piscina cheia de gentezinha aprendendo a nadar. nunca tínhamos passado perto de uma piscina para que ela pudesse comentar. realmente. por exemplo. vocês me digam! Mas Raquel ficou muito. não seria bom se Raquel aprendesse cedo e com um professor de verdade?. ou para que eu pudesse me dar conta. O professor quer todo mundo junto desde o começo. mas só disse que queria muito aprender a nadar sim. E Júlia começou a vestir a idéia. e. não futilidades artísticas. sempre teve vontade de nadar. e perguntei: 56 . também. muito feliz.

felicíssima: – Raquel fez hoje sua primeira aula de natação! Murilo não entendeu. Não fiz escarcéu. Eu sei. Imagina se eu ou você teríamos tempo de levar a Raquel pra aprender a nadar? E essas coisas. Não fiquei muito exaltada porque. 57 . matriculei Raquel em uma creche em tempo integral. cintilou mesmo. E ele disse: – Que bom. Filho de uma puta. mas estavam na cesta do banheiro. De qualquer modo. não foi no cabelo dela que senti o cheiro. afinal. orgulhosa de sua iniciativa. mas perguntei com um pouco mais de nervosismo: – Ela caiu em alguma piscina?! E Júlia resplandeceu. hein? Eu acabei de dar banho nela. meu nariz nunca erra. Na verdade. Já na segunda-feira. obrigada. já estava o xampu por cima. vocês vão dizer que sou neurótica e insegura por ter contado a história pra ele do jeito que contei. Já estava mesmo na hora da Raquel aprender a nadar. – Ainda bem que temos a Júlia. mas sou uma neurótica e insegura que estava certa. Conheço Murilo: pombo de cidade grande não morre atropelado.– Por que minha filha está cheirando a cloro? – Que nariz. e me deu a boa nova. mas poderia pelo menos fingir que somos marido e mulher. o maiô e a touca. Murilo não entende porra nenhuma. Comentei o episódio de forma neutra. farejei mesmo foi a toalha. pior. a menina estava ali nos meus braços e muito bem. que não vi. quanto mais tarde se aprende.

tinha sido por isso que ela começara a beber. que Júlia estava torcida e luxada. besteira!. tão inhénhénhém. que se equilibre sozinha. Na semana seguinte. Perdoem-me por ter dado uma impressão errada. Tive uma amiga que bastava uma caipirinha e caía em depressão. e ainda posam para fotos enquanto estão grudadas em mim. desenhos da menina em várias posições. mas cada bêbado é bêbado do seu próprio jeito. Conheci um que ficava agressivo e batia na filha. queridinha. que casei com o melhor homem que existe. mas seus argumentos começavam derrotados: ele não falava nem de Raquel e nem de mim. Há algo de obsceno em uma mulher adulta observando uma criança dormir e enchendo cadernos e mais cadernos de croquis e estudos. do melhor ângulo. rodopiam e cantam. Se ela é desequilibrada. se quiser. mas fala baixo! Ou será que a segunda hipótese não é pior: ambos pensam tão bem cerzido que falam assim as palavras um do outro sem nem precisar combinar antes.Quanto mais tarde se aprende. isso aqui a gente resolve entre nós. a imprensa já não dava mais a mínima para Júlia. da melhor pose. pra que ela precisa saber?. E isso me incita. mas acredito. se entusiasmam. tão almasgêmeas. sempre de olhos fechados àquela predadora em busca da melhor oportunidade de caça. Murilo ainda tentou me convencer. Encerrei o expediente. das melhores cores. aconteceu a terceira e última vernissage de Júlia. Outros. que Raquel era essencial para ela se rearticular. A crítica destruiu a terceira fase de Júlia com a eficiência e o cinismo que apenas alguém que até ontem era só elogios poderia fazer. Todos os abstêmios são iguais. mas rua pra você. Que Júlia precisava de Raquel. por que não casou com ela? Por que flagelar a mim no pau-de-arara dessa amizade?! Não queria mais Júlia despachando tanto tempo com minha filha. Júlia usou as mesmas palavras. mas não tive filha só para remediar a maluquete. pior. pode sair. sempre indefesa. deixa seu paletó aí na cadeira. Mas se limitou a considerar os quadros péssimos. sinceramente. só de Júlia. tenho vontade de arrostar e estapear o insuportável: por que você me faz padecer esse suplício? Se são tão iguais. Aliás. tão amigos. uma verdadeira comedora de carniça espreit- 58 . fotos que só não saíram nos grandes jornais porque. e me abraçam pela cintura e gritam que sou a mulher mais felizarda do mundo. O que seria preferível? Imaginar o cretino discutindo com Júlia a educação de Raquel em sigilo? Chama Carla não. sempre dormindo. como foi com a Libeca? Eu gostaria de não acreditar nessa última.

você sabe como é a família dela. de táxi. pois Murilo morrera pouco antes. Voltei pra casa. apenas para depois expor ao mundo quadros distorcidos e desvairados. e ela tentava se agarrar nele. não. Murilo?!. mas essa criatura não tem família. Não porque lhe lembrassem a mãe recentemente morta. mas em troca da proibição de Raquel ver Júlia. ou nada assim. sem nenhum amor ou apego emocional. O irmão não apareceu. quem consegue viver sua vida entre retratos distorcidos da mãe quando criança? A obra de Júlia já estava mais valorizada e Mariana. embora fosse um pouco isso sim. O ônus da Júlia. Foi só quando Júlia definitivamente caiu de cara na sopa que descobri que gostava dela. entenda!. Ele a cobriu com meu tailleur e disse que ia levá-la pra casa agora. porque também não quero que você fique sozinho e. doados ainda em vida para Raquel. Acabaram quase todos lá em casa. Protestei. pra 59 . Descobri que ela não tinha nada que eu não tivesse melhor e me senti mesquinha de já ter tido ciúmes de uma criança daquelas. Quando o controle do espólio de Júlia passou para Mariana. se desfez de todo o legado que Júlia deixara para Raquel: comprou três casas na serra e esqueceu o assunto. trincando os pincéis e salivando aquarela. só me informou que estava indo. era de Murilo. mas disse: então. Às quatro horas da manhã. quem diria!. e deu dois beijinhos na sua bochecha na minha frente. Não precisou nem se preocupar em magoar os sentimentos do avô. e dane-se o resto. acordei em uma cama vazia.. Afinal. mas não. Achei que me sentiria vingada ou vitoriosa. pois eles só confirmaram o que eu sempre soube. quem diria. Eu teria aprovado. permiti que Murilo os pendurasse na sala. e ele nem perguntou se eu queria ir junto ajudar também. e nem nenhum outro parente. A surpresa da noite foi eu ter me descoberto uma pessoa boa. sozinha. Sua mãe chegou tarde e saiu cedo. Apesar do choque. Não me forcem a dedilhar esse piano. apenas pra constar.ando o filhote adormecido. Não sei não. a grande surpresa da terceira vernissage não foram os quadros.. a primeira coisa que ela fez foi baixar os quadros da parede. Uma mulher tão infantil. A desgraça alheia é deprimente. ela não pode ficar sozinha. pois fiquei devastada. portanto. eu vou pra aí. ainda. nem quero saber. Carla. pois Murilo continuava foragido e liguei para o seu celular e ele estava com Júlia.

beijando meu dedão e. também. E. tentava não olhar. E. ele concordou. essas intimidades escatológicas ele nunca nem tentou comigo. bota os pés pra baixo. era chato tentar ler um livro sossegada e ele lá. mirando o vaso sanitário. que estava bem. e dizia: Júlia. e Murilo fingia não olhar. porque Murilinho não se sentia à vontade entrando no banheiro junto com ela. Algumas vezes. mas vomitou duas vezes. com os pés no painel. faz massagem no meu pé. mas o álcool afetara sua libido. E ela dizia que não. Júlia também sabe. no começo. pois na posição em que estava. Durante anos. quando eu disse que o carro voltou fedendo a vômito? Claro. ela fizera questão de chegar o banco do passageiro o mais para trás possível e ficou ali. não: faço eu! Conheço Murilo. eu perdoava tudo e me desmilingüia sobre a cama. entre vômitos. Piada. que sua tara eram só os meus pés. faz. ah inocência. e até abriu o portão da casa pra mim. Mas esse é outro daqueles detalhezinhos que Murilo fez bem em nunca me contar. logo pra mim que nem gostava que ele me visse nua. queria que associasse minha nudez com sexo iminente. eu ficava ofendida de ele ter nojo de me chupar. não pensa muito nessas coisas. Enfim. Que noite sublime. queria Murilo salivando. Mas quando ele mordiscava a sola do meu pé. olhava só pra frente. é verdade. eu me sentia de certo modo orgulhosa de ter pés tão irresistíveis. e por isso ele passava quase todas as preliminares abaixo dos meus joelhos. era eu. contanto que permitissem a ele me penetrar e lamber minhas solas ao mesmo tempo. Enfim. e que por isso é que ele queria sempre beijar e acariciar meus dedinhos. e então. Ela. e lembram. insistia nas mais bizarras posições. o que eu sei. por exemplo. quando eu achava que era só comigo.. em geral. E a cachorra ainda ficava esticando suas patas pulguentas para o meu marido e pedia: Murilô.. e que por isso. mexendo os dedinhos. e gostavam de conversar assim. Eu queria uma reação pavloviana. lá atrás. Júlia não conseguiu 60 . Júlia vomitava e quem tinha que segurar sua cabeça. no carro.minha surpresa. né? Os dois entravam juntos em banheiros há mais de quinze anos. mas achava que já que eu estava presente. um na privada cagando e o outro recostado na pia ou sentado no bidê.. mas querer lamber meus pés depois de eu andar descalça o dia inteiro. assim fica mais difícil de você vomitar. mais ainda. até que peguei seus pés e disse: Não tem problema. pra não vulgarizar minha nudez. tive que ouvir que eu tinha os pés mais gostosos do mundo. quem tinha que manobrar o vômito de Júlia era eu. E sabia antes de mim. achavam que isso era algum tipo de prova de intimidade. se precisar.. precisava manter as aparências.

não importa quantas merdas você faça. Como será que conciliam isso com o cristianismo e os conceitos de livre-arbítrio. quando o filho apóia a amante do pai. só ela. mais ninguém. dei a volta na garagem. Ela dirige uma fubica verde de algum ano distante da década de oitenta. até que finalmente aceitou. ela ainda está meio mal. do céu e do inferno? Preciso ler sobre o assunto. com um adesivo que diz: O Acaso Não Existe: Leia Kardec. não tem hobbies. e assim que saiu. não gosta de ler. e ele implorava que não. tudo está escrito. você é o carma deles e eles têm mais é que engolir sua estrelice. não sabe tricotar e mal acompanha as novelas: sempre se dedicou somente à família. Eu pensei: que conveniente ter pais assim. o tremor da ereção querendo desabrochar fez com que se sentisse o último dos homens e cobriu delicadamente os pés de Júlia. Mas Murilo resistiu bravamente. Dona Adelaide é espírita. e explicou que ninguém no mundo entendia nada de arte. e colocou os pés de Júlia em seu colo. afinal. ela não parou. era inevitável.chegar na janela a tempo. Eu disse que sim. Essa vida é engraçada mesmo. colocando a cabeça dela em seu colo – assim era mais seguro – e consolou a querida amiga. Não. como não?. E dona Adelaide só suspirava. meus amigos. Eu e Murilo estávamos por perto em uma das vezes em que falou isso. Júlia é seu carma. para ver se ela parava de dar em cima do meu marido. aturar sua insegurança e alimentar sua insensibilidade. Paro e penso: saí de casa às cinco da manhã para pajear uma bêbada. nada nunca é sua culpa. Carla. Esfregava os pés na cara dele. quando morre o marido. e segurei sua cabeça enquanto ela chamava o hugo e ainda fiz massagem em seus pés!. elas se grudam à 61 . e pedia massagens. Em casa. e depois abandonava a inibição e pedia beijos e carícias mesmo. e perguntou se eu podia ficar mais um tempinho com a Júlia. mas ao primeiro toque. ao marido e aos filhos. Mulheres assim. E Murilo pensou: que estranho viver em um universo pré-determinado. Daqui a pouco era hora de trabalho. Dona Adelaide nunca trabalhou. porque. onde o acaso não existe. e fui bater na porta de dona Adelaide. claro. Murilo teve que ir pro consultório. e mudou de posição na cama. só pra garantir. quando perdem as vítimas de seus obsessivos desvelos.

aquela água de bacalhau. nunca pergunta da sua vida. Júlia era artista. será que deslambidas como você. reciclariam seus problemas. e construiu ali um apartamento e um ateliê pra ela. fardo que levo nas costas e. coca-cola sem gás. a uns cinqüenta metros de distância. porque não conhece a minha!. e se mantém dolorosamente à distância por medo de desagradar a narcisóide filhinha. cimento de secagem retardada. filha pra adotar e que ainda limpem seu vômito? Estavam os dois andando pela praia. nunca aparece. Júlia meio entornada na cama e roncando. mas a doce Julinha prontamente se mudou pra cima da garagem. abanando o rabinho pra ela quando a filha se digna a filar sua comida. e começa a limpar resignada o chão do banheiro. volta e me acerta nas fuças. nem netos pra cuidar. algum tempo antes de eu conhecer o Murilo.filha que sobrou. Artistas não são todos assim? E dona Adelaide suspira. devaneou que ela e a filha agora é que se amigariam. Nem sempre o novelo assim se desenrola: às vezes. 62 . seus rodopios e desvarios eram não só o carma de dona Adelaide como também ossos do ofício. um pé solto no ar). conversam. cruz-bumerangue. e acompanha uma quase-desconhecida até a casa de sua filha. Mas quando dona Adelaide se sente sozinha. mesmo ela sendo artista. se paparicam. Carla. eu me perguntei: será Júlia um caso de custódia conjunta de carma? Júlia. assanhadas e temerárias. Júlia fica carente. com entrada própria. dona Adelaide na terra e o diabo no inferno. você reclama da sua mãe. ter Julinha ao meu lado já me basta. naquela solidão espessa de quem não tem nada o que fazer. nem livros pra ler. marido pra cobiçar. nem bordados a tricotar. e Júlia parece não perceber que dona Adelaide. pra não ter que nem ver a mãe. nada. Pra que correr o risco de melindrar a filha temperamental? Depois ela se intumesce e vai embora e eu fico aqui desdenhada. mas nem um pouco disposta a dar o braço onde já hipotecara a mão (dona Adelaide de quatro sobre o vômito. e aí sim é muito cômodo ter a mãe à disposição. precisar de homem pra quê?. constrangida por aquela cena patética. Ali. Pra piorar. alienada e amalucada. quando atiro longe. ela permanece sozinha. ah vai ser tão gostoso. só eu e minha filhinha. e Júlia só se refere à mãe assim. Restaram só as duas naquele casarão e dona Adelaide. e as duas jantam juntas. bobinha. debitariam companhia uma na outra. nunca telefona. só podem existir se forem o carma de alguém? Se tiverem quem lhes dê lombo pra montar. Ou seja. a déspota ensandecida. nós mulheres.

pelo canto do olho. não pensou mais no assunto. e se achegou nele. se pegarem. até sair o gosto. pois mulher é bicho esquisito mesmo. por favor. e ela gostava de colocar na boca cada palavra da velha cigana e chupar como se fosse bala soft. até comeu carne. ai ai.quando passaram por uma colônia de ciganas. que pensou: mulher é bicho esquisito mesmo. e mesmo assim. nunca mesmo. gajão. coitadinho. observou bem. convenhamos. e imagina se eu deixaria uma mulher dessas sequer encostar em mim!. até Júlia. pra espairecer. certa estava a cigana. vestidas com aquelas saias húngaras coloridas. e Murilo.Rio de Janeiro. tudo o que iria acontecer. e Murilo começou a dizer obrigado. 63 . Pensam mesmo que Júlia se matou? A doidisgóia? Por favor! Foi é passar o ano na Europa. e até achou bonitinho essa fraqueza do caráter de Júlia. sempre o inocente. e sentenciou que o amor deles era invencível. que é o que elas são. Buenos Aires. e pedem pra ler sua mão e revelar os segredos do futuro por alguns trocados. pele escura de tanta sujeira. e pelo menos nisso acertou. essa era mulher também. 1996 . naquele dia. esqueceu totalmente. sangrava todo mês e não era boba nem nada. A cigana só não previu o suicídio de Júlia. se roçarem. mas pra Júlia aquela era uma de suas lembranças mais tutti-frutti. nem se deu conta. farejou o fogo de Júlia. era normal se encontrarem. e roçou sua bunda contra a virilha de Murilo. ler mão e horóscopo. Depois. que seriam muito felizes juntos. se separariam. umas mulheres maltrapilhas e nojentas. irreprimível. voltou. ah. mas Júlia estendeu a palma de sua mão para a desdentada e disse que queria saber seu futuro sim. por horas a fio. não resiste a essas tolicezinhas de mulher. e Júlia apertou forte a mão de Murilo. sabem o que mais?. vocês já viram?. tão cética e atéia quanto ele. talvez outro dia. que embolsou vários milhares de cruzados novos de Júlia e. aquele roça-roça todo. e Murilo achou graça naquelas bobajadas supersticiosas. mas a cigana. e que teriam uma filhinha linda e que nunca. medalhazinhas nas pontas dos lenços. 2001. tenha caridade. quem diria. ele suspirou em silêncio. e. o sexto sentido maior que a razão. captou a intimidade entre os dois. e enquanto fingia ler as linhas da mão de Júlia. imbatível. todo mês sangra. e sorriu marota para o Murilo. mas Murilo é que foi o ingênuo. fazer o quê?. e elas investem sobre você como animais esfaimados.

com) 64 .blogspot.Este romance está registrado na Biblioteca Nacional. sob o número 257.993 Alex Castro escreve diariamente em seu blog Liberal Libertário Libertino http://liberallibertariolibertino.com Projeto gráfico: Ricardo Couto (ricardo@couto.