OCCELLO OLIVER

FORA DO ARMÁRIO

OCCELLO OLIVER

FORA DO ARMÁRIO

Copyright © 2012, Occello Oliver Léa Carvalho Capa MaLu Santos Foto da Capa Lee Serenethos Revisão Nan Soares Projeto gráfico MaLu Santos

Dados Internacionais para Catalogação (CIP) R173a Oliver, Occello, 1972-. Fora do armário / Occello Oliver. – Rio de Janeiro : Metanoia, 2012. 136 p. ; 21 cm. ISBN 978-85-63439-20-8 1.Homossexualidade - Brasil. 2. Homossexualidade – Aspectos sociais - Brasil. I. Título. CDD – 306.760981
Ficha Catalográfica elaborada pela bibliotecária Lioara Mandoju CRB-7 5331

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Dedico este livro à meu pai Occello (in memoriam), à minha mãe Marina e minha irmã Isabela, cujos ensinamentos e convivência me tornaram um homem de bem para hoje e o amanhã.

Apresentação

Q

Quando comecei a desenvolver este projeto, entre janeiro e julho de 1996, tinha apenas como objetivo entregar os originais para a etapa final da faculdade de jornalismo. Não tive dificuldades em desenvolver o tema, pois em se tratando de um assunto tão delicado, resguardado e ao mesmo tempo muito explorado, teria muita historia para contar. E realmente, assunto não faltou, principalmente em 14 anos de transformação mundial. Ao terminar de escrever a então “monografia”, pensei em editar o material. Guardei o trabalho para um futuro próximo. Em março de 2004, resolvi desengavetá-lo. Logo após várias sugestões de revisão e de “dar vitaminas” para que o trabalho “engordasse”, alguns anos depois, entre junho e setembro de 2010, resolvi “ressuscitar” a ideia. Após quase seis meses de reedição, pesquisas, leituras, entrevistas e conversas, acredito ter desenvolvido, de forma madura, inteligente e adulta, uma história de prós, contras, risos, lágrimas, sabores e medos. Foi um processo demorado. Elaborei minuciosas técnicas de limpeza. Reli mais de uma vez os textos. Eliminei os excessos. Reescrevi, apaguei, outra vez e de novo. Acrescentei fatos que ocorreram nestes últimos anos. Atualizei as informações. As declarações

concedidas anteriormente foram revistas. Foram manhãs, tardes e noites em que me debrucei em frente ao computador para dar mais gás a um projeto de vida, um sonho. Preocupações vieram à mente. Teria que manter a fidelidade e autenticidade em acompanhar tantas mudanças pelas quais o mundo homossexual passou. Desde 1996, muita coisa aconteceu no mundo. A cultura evoluiu, temas invadiram espaços da mídia e o ser humano se viu obrigado a aceitar as condições de uma nova era mundial: a globalização. Como profissional antenado que me considero, teria que encarar o desafio até o fim. Não abandonei o barco por causa de uma onda mais forte. Afinal, como jornalista, fui atrás de tudo até descobrir onde estava o ouro. E assim fiz. “Fora do armário” retrata principalmente o ser humano e a vida. De forma sutil, não conta apenas a vida homossexual. Traz informações de um pouco de muita coisa: história, geografia, literatura, língua portuguesa, amor, vida social, cultura, lazer, diversão, arte, crianças, dicas pessoais e a vida modesta, brilhante, existente e quente dos homossexuais brasileiros. Utilizando como proposta a importância do ser humano, o livro conta como é viver e sobreviver num mundo tão caótico e esquivado, quando o assunto é ser homossexual, entendido ou gay. Ser homossexual no Brasil requer sabedoria e jogo de cintura. Com a ciência e tecnologia explodindo de informações e novidades para o mundo, paralelamente o homossexual começa a vestir a bandeira da conquista por seus direitos e deveres. Antes que digam ou pensem de forma contraditória, o homossexual existe e está na sociedade. Quer apenas viver e sabe lutar. E vem conseguindo ver seus desejos realizados. Enquanto o mundo vê a união civil e religiosa entre pessoas do mesmo sexo, os povos das nações começam a aceitar a ideia de que é possível viver, conviver e sobreviver com a diferença. Ser homossexual é infringir a cidadania? Deixo a resposta a você leitor. Acomode-se e relaxe. Bem-vindo a um mundo de diferenças para o bem. Desejando, que ajude a espalhar as sementes para um mundo de sabedoria. Occello Oliver

Sumário

Capítulo 1. Diferenças, 01 Capítulo 2. O corpo é uma bomba-relógio, 15 Capítulo 3. Estrelas, 29 Capítulo 4. Pela vida, pelo mundo, 41 Capítulo 5. Com amor e carinho, 51 Capítulo 6. Ver e viver, 61 Capítulo 7. Espelhos, 75 Capítulo 8. Um mundo sagaz, 87

Capítulo 9. Sementes, 99 Capítulo 10. Vida, um bem sagrado, 109 Considerações finais, 117 Referências, 121

“A união faz o poder e os homens não a conhecem.”

Capítulo 1

Diferenças

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Sinais de homossexualidade, no senso comum, representam bondade, delicadeza, afeto e amor. O termo “Homossexualidade” (grego homos, que significa igual e dade, que significa modo de ser + o latim sexus, igual a sexo) representa as pessoas que possuem interesses afetivos e sexuais por pessoas do mesmo sexo. O termo “homossexual” sofreu mudanças, sendo os homossexuais referidos como pessoas homoeróticas ou homoafetivas, assim como “opção sexual” perdeu o significado, pois o homossexual é orientado pelo que ele é. Desde que o mundo existe, a homossexualidade o acompanha Os estudos sobre sexualidade humana revelam que todos os homens e mulheres nascem machos e fêmeas. A sociedade os obriga a serem homens e mulheres de fato, segundo ensinamentos da Antropologia e Sexualidade. Nascer com um pênis não significa que haverá desejos por

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uma vagina. Enquanto nos animais o instinto sexual é ativado pela química (odores), o desejo sexual do homem é fruto de uma paixão sintética, quase avassaladora. Então, para início de qualquer debate sobre a identidade e educação dos homossexuais, temos que tomar conhecimento sobre os resultados de pesquisas no campo da Antropologia e Sexualidade. A sexualidade humana é um conjunto de aspectos culturais, variando entre as civilizações e sendo modelada com o passar dos anos. Não existe um padrão sexual mundial e sim, cada indivíduo determina como mantê-la e utilizá-la. Afinal, sexo não é somente sinônimo de reprodução. O homossexual trata de si como se estivesse tratando de uma planta. Deseja a si plenitude, vive de cabeça erguida e coluna ereta, como um soldado que marcha rumo ao combate. Dar ímpeto a uma vida diferente àquela que foi prometida no início do mundo, seria viver entre derrotas e vitórias, acertos e erros, alegrias e tristezas. Seria diferente do resto do mundo? Afinal, esses fatores não são consequências de qualquer vida, para qualquer ser humano? Na antiguidade, em cidades como Atenas, Roma, Alexandria e Esparta, a beleza era muito valorizada entre os homens. Uns sentiam-se atraídos pela beleza dos corpos de outros, dando início às paixões homoeróticas entre ambos. O que poderia ter dado início a esta estranha paixão entre homens da antiguidade era o fato de que eles demonstravam poder, sabedoria e respeito entre si, o que não era atribuído a todas as pessoas, principalmente mulheres. Os homossexuais desafiam a ciência. Cientistas de diversas partes do planeta revelaram que ser homossexual não é ter nenhum desvio cerebral e não é doença, contrariando uma faixa de pessoas que acreditam que a homossexualidade é portar um mal que não tem cura. É levado em conta o ambiente em que a pessoa vive, a

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educação que lhe foi ensinada - o que pode pesar nesta decisão - ou se houve algum problema na infância que poderia culminar com a decisão sexual. Cientistas acreditam que, em relação aos meninos, uma forte ligação materna poderia interferir em o menino se ligar a uma outra mulher que não seja a própria mãe. Mas aos cinco ou seis anos, os meninos começam a perder o interesse pela mãe e logo após vem o desinteresse pelas meninas. Podemos reparar que na infância raramente vemos grupos mistos de meninos e meninas brincando. Os meninos começam a dar mais atenção à figura paterna, seguindo orientações e a educação que lhes é imposta. A figura materna é imposta ao menino quando ele se afasta do pai ou quando o próprio pai não lhe dá chances de um convívio melhor. A homossexualidade não é excesso de zelo dado pela mãe, mas influências da educação materna excessiva podem afetar suas relações pessoais no futuro. Informações dadas pela mãe do tipo “nenhuma mulher é digna pra você” ou relações de amizade entre meninos, em períodos da puberdade, quando acontecem as conversas e brincadeiras sexuais, alguns acreditam que são fatores que podem induzir às paixões homoeróticas. Ou seja, que essa fase da puberdade, da descoberta e amadurecimento sexual, pode influenciar nas escolhas sexuais anos depois. Problemas orgânicos também seriam capazes de levar à homossexualidade, como a falta ou excesso de hormônios masculinos e femininos? É resultado de uma variação genética? Há uma pequena coincidência, sem nada ser confirmado, pois os genes transmitem características hereditárias com informações necessárias ao desenvolvimento de células e ao funcionamento cerebral. Religiosos de cunho fundamentalista dizem que ser homossexual é uma manifestação negativa de espíritos maliciosos. São muitas as resistências pessoais em aceitar

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essa condição de vida. Desrespeito e falta de educação são princípios que, pelo que pensam os mais exigentes, não existem naqueles que vivem de forma oposta à “verdadeira” condição de vida. Se não é verdadeira, onde estaria o erro? Um programa de humor muito popular da TV trazia dois personagens em que o pai vivia se perguntando “Onde foi que eu errei?”, em relação à homossexualidade do filho. Essa pergunta é feita por milhões de pais e mães mundo afora ao chegarem à conclusão de que os filhos “aderiram” a uma mudança de caráter escandalosa, que iria ferir as condições da vida “correta”. O certo seria os pais não se questionarem onde está o erro e sim ajudar os filhos para que eles sejam felizes. Num país como o Brasil, onde ainda são pequenas as chances de realizações pessoais, em que o medo e a insegurança se mantêm presentes nos momentos de decisões difíceis, não são cultivados modelos de que somos um povo moderno e habituado para o novo milênio. Talvez o esforço humano por uma vida repleta de tradições, tenha atrapalhado o desenvolvimento pessoal e social. O brasileiro cresceu com velhos costumes de décadas passadas. Famílias extremamente tradicionais, amparadas pela lembrança dos antepassados, jamais aceitariam o fato de haver um membro homossexual na família. Permanecem nesta família, os “bons costumes” e comportamento, frutos de um passado distante. O tempo passou para eles e não houve acompanhamento racional. A marginalidade e a violência estão presentes em todos os cantos do país. É resultado de más condições de vida, desemprego, falta de diálogo e desequilíbrio emocional. Por outro lado, paralelamente aos desencontros sociais, o país também cresce e, consequentemente, a expectativa de vida sobe alguns pontos nas estatísticas socioeconômicas do

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país. Mas existe algo que ainda assola a população: a discriminação social. Os negros possuem a proteção da Lei Afonso Arinos1: ofender um negro é crime. Mas e os homossexuais? Por que ainda há tanto preconceito em relação a eles? Estariam cometendo algum crime por serem assim? Muitos homossexuais querem desfrutar da liberdade social, sem pressões ou cobranças que geralmente são impostas a um heterossexual. Há uma independência por não haver muitas responsabilidades e compromissos que um chefe de família tem. Mas existe o preconceito que sempre persegue o homossexual, naquela velha história de “a dor e a delícia de ser o que é”. O preconceito se reflete no preço pago pelo homossexual em querer ser feliz em levar a condição de vida que escolheu. Existem mitos altamente errôneos de que homossexualidade é sinônimo de escândalos, marginalidade e desonestidade. É claro que existem aqueles que vivem na escuridão, praticando delitos e vivendo fora da lei. Os homossexuais sabem viver de forma honesta e correta e são cidadãos comuns. Trabalham, estudam, pagam contas, taxas, impostos, vão ao supermercado, ao médico, ao dentista... Abolir o preconceito seria a primeira tarefa a ser cumprida pelas sociedades. Viveria-se melhor e o retorno pessoal seria gratificante. O sonho de qualquer homossexual é viver integralmente no conjunto da sociedade. A sociedade busca maneiras para crescer e viver de forma coerente e digna. Viver é conduzir uma orquestra em que cada um de nós domina um instrumento à sua maneira. O homossexual ficou com o instrumento mais difícil de ser
1. Lei Afonso Arinos: Lei n.o 1.390, de 3 de julho de 1951. Garante aos negros a liberdade, a igualdade e a segurança perante a sociedade. Com base nesta lei, o negro é protegido principalmente em casos de discriminação racial e/ou social, podendo seu agressor ser processado civil e criminalmente.

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dominado, mas isso não o faz insolente e menos presente na orquestra. Estudiosos da homossexualidade têm ampla visão sobre o tema. A sociedade entendeu que os homossexuais existem, porém a aceitação provém de conhecimentos e de um perfeito estado de espírito da sociedade, ainda longe de serem absorvidos. Infelizmente, o ser humano ainda é dotado de um grave defeito: não saber dividir e estar com pessoas diferentes àquelas impostas pela sociedade. Uma comunidade de homossexuais não se limita a redes sociais, mas a um conjunto de parâmetros que se desenvolve no mundo social através da política, economia, religião e cultura. O homossexual não tem como fonte básica a família, mas sim o indivíduo, ou seja, a escolha em estar presente nesta comunidade. Para quem é homossexual não há diferenças quanto à conduta de fazer parte de uma nação. Todos os habitantes deste planeta vivem para uma sociedade, seja ela brasileira, americana ou europeia. Em se tratando do Brasil, viver intensamente e colher os frutos advindos de uma união, requer sabedoria, paciência e jogo de cintura para contornar os obstáculos da vida. Casais homossexuais que vivem juntos possuem emprego e o lar é sustentado por ambos, numa condição econômica favorável e mais confortável. Terão como despesas os gastos com a manutenção da casa, pagamento de contas pessoais e alimentação. Só não há filhos para sustentar, não havendo dívidas com educação infantil. E ainda é possível sobrar uma grana extra no fim do mês. Não é descartada a possibilidade de uma das partes ser mantida pela outra. No casamento tradicional, a maioria das mulheres é sustentada pelos maridos. No casamento homossexual isso não ocorre como um fato concreto. Pelo fato de ambos serem independentes, não existe modelo de relação. Mesmo vivendo só, o homossexual que trabalha, tendo baixa ou alta remuneração é considerado rico, pois tudo o que

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ganha é para seu usufruto. Trabalhando esforçadamente, o homossexual pode ser encontrado desempenhando as mais diferentes funções em várias profissões. De diretores a faxineiros, trabalham dignamente, tendo seus salários pingados dia após dia. Ainda há repulsas no momento da contratação, porém muitas empresas preferem apostar na capacidade profissional. Segundo as leis federais, é proibida a diferença de salários, exercício de funções e critérios para contratação por motivos de sexo, idade, raça, religião e outras características pessoais. O Grupo Gay da Bahia (GGB), associação mais antiga que defende os direitos de homossexuais no país, possui diversas informações sobre comportamentos e atitudes pregadas contra os gays. De atores que são ofendidos nas ruas por interpretarem homossexuais no teatro, cinema e TV até casos de demissões em empresas sem um motivo aparente, o GGB organiza grupos de palestras com ajuda para as vítimas de discriminação e promove encontros de esclarecimento em empresas. Por incrível que possa parecer, o preconceito sofrido pelos homossexuais é o mesmo que atormenta negros, deficientes físicos, doentes mentais e mulheres. Porém, a imagem do homossexual caricato continua atrelada à imagem de todo grupo de homossexuais. Há casos de discriminação em empresas que sempre terminam na justiça. Os autores das ações argumentam que sofreram algum tipo de preconceito por parte de colegas ou patrões. Mas ações judiciais desse tipo nem sempre terminam favoráveis aos reclamantes. Em 2001, no Paraná, um homossexual que trabalhava no período noturno em uma farmácia como caixa, acionou o Tribunal Regional do Trabalho por ter sofrido preconceito. Após a loja em que trabalhava ser assaltada e de ter permanecido cerca de duas horas como refém, o rapaz, traumatizado e amedrontado com a situação, pediu a um dos patrões para mudar a jornada de trabalho. O pedido foi negado tendo o

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patrão dito que, durante o período diurno, ele poderia afugentar a clientela devido a seu comportamento espontâneo. O funcionário sentiu-se discriminado, pediu demissão e ao ganhar em primeira instância a ação por danos morais e preconceito, descobriu que a empresa em que trabalhava recorrera da sentença, reformando ao oposto a primeira decisão que antes lhe dava ganho de causa. A empresa sabia que o funcionário era homossexual e alegou judicialmente que a condição sexual do funcionário não foi impeditiva no ato da contratação. Os homossexuais já sofreram pesadas críticas e acusações de que praticam atos dolosos e nocivos à sociedade. Há mitos absurdos que pairam sobre a vida pessoal deles como incidência à pedofilia, falta de cuidado com filhos e dificuldade em manter relacionamentos, de amizade ou amorosos, duradouros. Para derrubar alguns mitos que envolvem os gays, uma respeitada revista americana realizou uma pesquisa. Nos resultados apresentados e cuidadosamente analisados, foram provados que: - Animais não são sempre heterossexuais. Há casos de relacionamentos afetivos entre machos de chimpanzés, pinguins, golfinhos, cisnes e girafas. São apenas algumas das espécies em questão e cientistas ainda tentam descobrir o porquê da prática, uma vez que não há descendência entre os animais que possa justificar em características genéticas. - Os relacionamentos homossexuais são tão estáveis quanto os heterossexuais, pois há relacionamentos afetivos que duram 30 anos ou mais. Os rompimentos provêm de motivos particulares que afetam as relações, como na prática por qualquer casal. - A maioria dos pedófilos não é gay. Homossexualidade não induz a pedofilia ou vice-versa.

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- Crianças que são cuidadas por casais do mesmo sexo saem-se muito bem no cotidiano e demonstram ter educação superior, estando menos propensos a cometerem delitos no futuro. Dinheiro é bom para todos, sendo impossível viver sem ele. Ter e gastar dinheiro é sinônimo de status, bem-estar, lazer e confiança em si mesmo. O mercado gay é um dos mais completos, sendo um dos mais consumistas e lucrativos que existem. Os homens gays, ao contrário da maioria das mulheres lésbicas, gostam de gastar dinheiro e de viverem cercados de beleza e luxo. São várias as opções oferecidas neste mundo de gerar cifras: restaurantes, boates, bares, hotéis exclusivos, saunas e grifes de moda direcionados a este público. Os “espaços homossexuais” foram criados de modo que estas pessoas possam estar à vontade com indivíduos que tenham suas mesmas preferências, expressem suas personalidades e gostos, sem preocupações ou receios e sem correrem perigo de discriminações ou visões antissociais As ruas não são lugares assexuados, mas possuem forte presença heteronormativa. Tanto que existe a indiferença dos heterossexuais quanto à presença de homossexuais em lugares públicos, sempre com a ideia de que “certos locais não podem ser frequentados por este tipo de gente”. Nos dias atuais, existe um mapeamento geográfico onde heterossexuais e homossexuais não se esbarram e assim pode-se dar continuidade a uma hegemonia natural de ambos os perfis. Ao contrário do que muitos pensam, as boates e bares gays são locais comuns, em que só muda o público. Não são locais de libertinagem explícita e atos que afetam a moral. Há diversão com música boa para dançar e muita paquera. Só fica sozinho quem quer. O lema “respeito é bom e eu gosto” é mantido, não havendo casos de brigas e desentendimentos. Não há registros policiais de pitgays,
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alusão aos pitboys brigões da noite do público heterossexual. O dinheiro quase nunca chega a ser problema para os homossexuais. Aqueles que são “pé no chão” gastam o necessário. Mas existem os abusos de crédito por parte daqueles que fazem jus à canção de Paulinho da Viola: “... dinheiro na mão é vendaval...”. O luxo e o requinte almejado pela maioria dos homossexuais fazem com que as barreiras da realidade sejam ultrapassadas e se forma, a partir daí, uma situação de descontrole financeiro. O mercado gay cresce bastante e ainda há muito espaço para expansão. A única diferença é driblar o preconceito e indiferenças. Os empreendedores estão dispostos a investir, mas precisam ter conhecimento para segurar as oportunidades. As grandes cidades criam e investem em eventos para o público homossexual, o que vem consolidando cada vez mais a grandiosidade e o universo dos homossexuais. O Pink Money (termo referente a investimentos no mercado homossexual) tem atraído a atenção de empresas de vários ramos. Além das opções de lazer e diversão, existem ainda companhias de seguro, editoras, lojas de roupas e pacotes de cruzeiros marítimos. O Freedom on board, cruzeiro marítimo que oferece passeios pelo litoral brasileiro, possui um programa anual de viagens de até cinco dias de duração. A bordo de um luxuoso transatlântico, os homossexuais têm à disposição festas, suítes e variados serviços de bordo. E no Rio de Janeiro existem as famosas “Praia da Bolsa”2, em Copacabana, e a “Praia da Farme”3, em Ipanema. Nos finais de semana, principalmente no verão, é difícil encontrar lugar
2. Praia da Bolsa: trecho localizado na Praia de Copacabana, na altura do posto três, tendo como referência o hotel Copacabana Palace e o quiosque Rainbow, que atende ao público LGTB. 3. Praia da Farme: trecho localizado na Praia de Ipanema, em frente à Rua Farme de Amoedo, altura do posto oito, em Ipanema. Frequentado por um público mais antenado e dinâmico ao mundo social.

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nos disputados pedaços de areia. Cerveja gelada, bebidas variadas, sanduíches naturais, serviços de massagens e até pontos fixos de venda de moda praia em plena areia. Como mérito por todos os serviços prestados à população homossexual, a cidade do Rio de Janeiro foi eleita, em novembro de 2009, como melhor destino gay do mundo. Um site de viagens especializada em pacotes de turismo para homossexuais, promoveu um concurso em que cinco cidades, além do RJ, concorreram ao título. Barcelona (Espanha), Sydney (Austrália), Montreal (Canadá), Buenos Aires (Argentina) e Londres (Inglaterra) perderam a disputa para a cidade maravilhosa. Para ser tornar um empreendedor do ramo, um gay friendly, os especialistas dizem que não basta apenas abrir uma loja e hastear a bandeira do arco-íris, símbolo dos homossexuais. Os produtos e serviços devem ser inovadores e planejados sob medida, já que os homossexuais são conhecidos por serem exigentes, bem informados e fieis às marcas. Assim, o mercado gay, que sempre existiu, mas somente agora ganha destaque no comércio, terá várias fontes de investimento a um público mais consumista do que o meio heterossexual. O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), através de suas pesquisas de recenseamento, vem construindo dados consideráveis sobre a população LGBT, seus hábitos, níveis de conhecimento, educação e comportamento. Somente em 2010, já haviam cerca de 60 mil casais homossexuais assumidos e identificados pelo país. - Os homossexuais correspondem a aproximadamente 10% da população brasileira, ou seja, são aproximadamente 19 milhões de brasileiros e brasileiras. - Gastam 30% a mais do que os heterossexuais.

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- 40% são paulistanos, 14% cariocas, 8% mineiros e mais 8% são do Rio Grande do Sul. - 36% são da classe A, 47% pertencem à B e 16% da classe C. - 57% possuem nível superior, 40% têm ensino médio e 3% possuem ensino fundamental. - 69% assumiram suas preferências sexuais. - 65% já sofreram algum tipo de discriminação. Um produto inédito vem mexendo com o mercado imobiliário e financeiro no país. Algumas instituições financeiras, como Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e os Bancos Itaú e Santander, aceitam composições de rendas entre homossexuais para financiamento da casa própria. Através dos mesmos trâmites burocráticos normais para um empréstimo comum, um casal de homossexuais pode contratar o produto comprovando, de forma verbal e rápida, a união entre ambos. O meio heterossexual também possui seu glamour, mas existe controle maior na administração financeira e pessoal. Principalmente em épocas em que as finanças do Brasil seguem na balança. Nosso país ainda está na fase em que falta dinheiro em muitos lares. Muitas pessoas chegam a abrir mão de um relacionamento ou de programas de diversão, pois não é possível manter um namoro sem que haja despesas. No objetivo de reduzir gastos supérfluos, é melhor ficar em casa, na companhia do parceiro, fazendo qualquer coisa, nem que seja assistir TV. Mas isso não interfere em absoluto no meio homossexual. Existem pessoas caseiras, que buscam por mais qualidade de vida e outras que não resistem a uma noitada. Os points do mundo gay fervem a
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cada fim de semana e a tendência é a frequência aumentar mais ainda. E como boa parte dos homossexuais urbanos tem mais facilidade em ter dinheiro, então poucos se incomodam com a situação do país e divertem-se à vontade. A falta de perspectivas na vida acaba afastando as pessoas umas das outras. Dá a entender que ninguém quer ter “cabeça” para iniciar um relacionamento. A necessidade e preocupação pela falta de recursos financeiros acabam falando mais alto do que a falta de companhia. A depressão e o tédio vêm tomando conta dos corações e criam barreiras ao bem-estar social. O amor e o desejo de felicidade ficaram para último plano. Há casais que esquecem o lado social da vida e recolhem-se com a culpa de não poderem mais expandir seus conhecimentos pessoais e não atualizarem-se com os acontecimentos gerais nas grandes mídias. É a velha rotina casa x trabalho x casa, com muitos defeitos encontrados pelo caminho.

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