tamis PARRON

O Altar & o Trono: Dinâmica do Poder em O Alienista, de Ivan Teixeira, São Paulo, Ateliê Editorial, 2010, 432 p. TAMIS PARRON é mestre em História Social pela FFLCHUSP e organizador de Cartas a Favor da Escravidão (Hedra).

de Ivan Teixeira. é provável que não seja lida senão como alegoria da disputa mais ampla pelo poder. Uma alegoria motivada justamente pela Questão Religiosa. mas sim o significado de “rebelião popular” no horizonte de expectativas dos agentes discursivos da época. com a diferença que aquilo que o Conde de Parati só pôde fazer obrigado foi justamente o que a maçonaria queria fazer por vontade própria: – andar de hábito. sintetizada no primeiro capítulo do livro (“Teatro do Mundo & Pressupostos da Encenação”). Lembra-se o leitor? Questão epíscopo-maçônica”1. durante o processo de formação de uma cidade. o conde de Parati. Rio de Janeiro. fundada em métodos e temas bem delimitados. São Paulo. que indicia a presença viva da Questão Religiosa. a narrativa vinha sendo entendida como encenação de uma crítica impiedosa à ciência quando dotada do poder absoluto de conceituar as patologias e realizar sua terapêutica. Mecenato Pombalino e Poesia Neoclássica (Edusp. Machado de Assis contou a história de um camarista de D. Igreja e Ciência. Apenas comprovada. Não penso nisto que me não lembre do nome que em geral teve esse famoso conflito […]. 1999). 199-206. 427. sobretudo entre o Estado e a Igreja. De hoje em diante. assim. a uma análise cultural que dá continuidade à sua outra pesquisa de fôlego. João VI. Nesse tipo de análise. de Basílio da Gama – com as práticas e os discursos culturais do reinado de D.1 Machado de Assis. Mas não se trata de preferências. n. Por trás da coerência metodológica. o ponto de chegada de uma trajetória intelectual coerente. e comentou: “De certo modo. p. O trecho. Quem já conhece o primeiro estudo de Teixeira não deixará de notar sua escolha por textos que preconizam a autonomia do Estado em face da igreja romana ou de suas instituições. José I (1750-77). POÉTICA CULTURAL E OS EIXOS NARRATIVOS DE O ALIENISTA Segundo Ivan Teixeira. pois adquirem sentido apenas em um quadro de referências culturalmente definido. como o fariam o poema épico de Gama e a novela de Machado. José Aguilar. o mais recente estudo sobre O Alienista (1881-82). a narrativa sobre as experiências de Simão Bacamarte na pequena Itaguaí seria a encenação alegórica de uma disputa pelo poder. relacionando a obra com diversas questões pungentes do tempo e com a revista A Estação. antes. por exemplo. a que 200 REVISTA USP. p. Obra Completa. como dito acima. mas também a ciência e o binômio política-povo. Mas o autor ainda acresceu estudos que vão muito além da leitura intrínseca de O Alienista. O Altar & o Trono parece. conceitos cujo conteúdo só um esforço de arqueologia de textos a eles correlatos poderia fixar. no espaço público do Segundo Reinado nos anos 1880. e eis que é o conflito entre o Estado e a Igreja na longa duração que marcou a passagem do Antigo Regime para o mundo contemporâneo. foi uma antecipação do conflito que mais tarde levou dois bispos aos tribunais. Dir-se-ia o mesmo para Estado. um fio temático ainda une Mecenato Pombalino e O Altar & o Trono. Em sua perspectiva teórica. vol. na qual estariam envolvidos o Estado e a Igreja. não se imagina o estouro libertário dos oprimidos contra a estrutura social que os explora – primeiro sentido que ocorre à mente do pesquisador atual –. punido com o uso de um hábito da igreja católica por ser maçônico. a hipótese já daria ao livro merecidos títulos. tais categorias não devem ser apreendidas como absolutas nem trans-históricas. 1962. III.88. Procedeu. reforça o argumento geral de O Altar & o Trono. dezembro/fevereiro 2010-2011 . uma crônica de 10 de janeiro de 1884. na qual a novela foi publicada pela primeira vez e em que Machado de Assis atuou por quase duas décadas (1879-98). Por “Povo” e seu correlato “rebelião popular”. ocorrida dez anos antes. Até agora. em que relacionara um texto lite- rário específico – O Uraguai.

Coerente com suas premissas teóricas. 199-206. Nas últimas décadas. 238). a voz narrativa não apenas repele a ação do clérigo. de que o objeto da ciência devia recair sobre o próprio sujeito do conhecimento. o prelado seria. finalmente. Conquanto apareça pouco na novela. A fim de aquilatar o peso desses fenômenos no processo de criação e significação do texto literário. não figura senão uma galeria fantasmagórica de ruínas discursivas.88. a fortuna crítica de O Alienista tem incorporado essa visão condenatória do cientista. aquele que conduz as ações até determinar seu desfecho. internar os monômanos da vila de Itaguaí e alhures. alçaria as reclusões do cientista à condição de “atitudes regeneradoras em tempos de domínio da desrazão generalizada” (p. em algum ponto do passado. também enredado nas disputas pelo poder na cidade. correu o boato entre os moradores de que nunca houvera outro louco por ali além do próprio médico. Para o autor de O Altar & o Trono. habilmente. Assim. quando não tudo isso ao mesmo tempo. até a morte. mirrando. até então. que o tempo rói à medida mesma que o cânone. no campo dos estudos literários. para preservá-las.o autor vem chamando de “poética cultural” em ensaios publicados desde 2003. que refinaram seus instrumentos de análise de processos sociais. o problema andava esquecido dos modelos explicativos dos historiadores. a consolidação da medicina psiquiátrica no Brasil a partir da criação do Hospício de Pedro Segundo. Mas nada impedia que outra mirada teórica – como a da poética cultural – voltasse a dar-lhe importância. feita em nome da razão moral. substituir os alienados pelos que. tal como fora experimentada durante a Regência (1831-40). editou para combater o processo de secularização REVISTA USP. ora modernista. convencendo-o. que protagoniza a experiência radical de conferir teor ético aos critérios de loucura originalmente psíquicos. vincula-as a um télos ora nacional. Ivan Teixeira relaciona o entrecho de O Alienista com três fenômenos discursivos do repertório cultural do Segundo Reinado que o teriam motivado: a dissidência em torno da soberania entre um Estado constitucional e uma Igreja romana internacionalista. Sem prestar a devida atenção no papel do religioso. dezembro/fevereiro 2010-2011 201 . Colocado nesse círculo de giz. VII (“Racionalidade & Poder”) e VIII (“Desrazão & Poder”). crucial na construção do desenlace e na fixação de um conceito de loucura contra o próprio Bacamarte. n. as obras literárias são componentes de uma estrutura discursiva mais vasta e geradora de sentido. recobrando a rede de textos que delineou os sentidos das referidas questões para os atores históricos do Segundo Reinado. p. nos termos da Questão Religiosa (1872-75). o incansável médico superou a tudo e a todos para fundar o Hospício da Casa Verde. engolfado nos conflitos da unificação italiana. o autor perfez uma análise de poética cultural do período. assim. Ao final. apenas o padre Lopes lograria domar o cientista. cuja compreensão adequada exige a restauração dos monumentos de que. Bacamarte se interna na Casa Verde para um cerrado exame de si mesmo. ignorando que é um parti pris de Lopes. ampliar os critérios de loucura até confinar quatro quintos da população local. ora revolucionário. Dos opositores. que o Papa Pio IX. possivelmente ventilado pelo padre Lopes. A Questão Religiosa derivara da bula Quanta Cura e de seu anexo Syllabus de Erros (1864). Daí resulta que o cânone. à racionalidade ética – à Questão Religiosa. em estudos infindáveis. fizeram parte. São Paulo. assunto que inundou a consciência dos contemporâneos e chegou a ser qualificado como um dos vetores da queda do Império na historiografia factualista da primeira metade do século XX. mas simpatiza com a posição de Bacamarte. o núcleo narrativo de O Alienista. inverter os critérios iniciais de insânia e. Conforme Teixeira. Essa experiência. por respeitável que seja. nos capítulos VI (“O Altar & o Trono”). e a ameaça à unidade territorial do país. tinham gozado a liberdade. enfrentar a fúria do povo e dos vereadores. o narrador anuncia que. Como se sabe. seria a relação entre Simão Bacamarte e o padre Lopes. Teixeira ligou tal organização do enredo – em que o polo negativo passa à Igreja e o positivo. que compõem o núcleo do livro.

como a Revista Ilustrada e O Mosquito. p. No limite.progressiva a que o liberalismo vinha submetendo a economia. da ignorância). Como. por motivos óbvios. Em 1875. O imbróglio suscitou uma série de caricaturas na imprensa da Corte. publicado em 1881-82. Até mesmo a reviravolta dos episódios – a prisão dos bispos (triunfo do Estado) e sua soltura (vitória da Igreja) – teria sido mimetizada na reclusão de Lopes (vitória do Estado. alguns bispos os acataram. excomungando dos quadros da Igreja membros da maçonaria. a política e a vida civil. depois recolhidos no livro A Egreja e o Estado (1874). foram recusados. a Quanta Cura e o Syllabus. Sem embargo. 1876 202 Reprodução REVISTA USP. o que levou o governo a prendê-los por desobediência legal. das Luzes) e na internação de Bacamarte (triunfo da Igreja.88. Para Ivan Teixeira. pregou a retomada do controle eclesiástico sobre esferas cada vez mais reguladas pelo Estado. São Paulo. O Alienista. 199-206. motivando novo ciclo de charges alegóricas. o governo concederia anistia aos bispos. n. tais discursos – visuais e verbais – pintam o Estado como o polo da razão e das Luzes. Desenho de Ângelo Agostini publicado na Revista Ilustrada. e de artigos de Joaquim Saldanha Marinho no Jornal do Commercio. Como mostrou Teixeira num formidável esforço de levantamento e análise documental. enquanto a intervenção eclesiástica como o do obscurantismo e das trevas. seria uma variante literária do discurso das caricaturas antirromanas publicadas na imprensa brasileira. na Constituição brasileira. dezembro/fevereiro 2010-2011 . nas quais a Igreja ressurgia como o domínio irracional do poder sobre a racionalidade do mundo contemporâneo. a validade de tais textos pendia da aprovação do Executivo.

Monumentos. desviantes da norma. o imperador. seria sempre possível notar que a presumida correção moral do prelado comprova apenas a sutileza de sua dissimulação. portanto. Por outro lado. as revoltas eclodidas no Brasil. degenerada. a “ironia cética da razão ficcional” faz a autoridade científica. Usos e Curiosidades (Moreira de Azevedo. Para restaurar o seu significado cultural. Como diz o autor. mudar-se em “origem da desordem”. 1835). É uma colocação oposta à tradição crítica segundo a qual a sátira machadiana faz terra devastada das distinções morais. de corte mais teórico para desfazer em conjunto as duas ressalvas. a oposição obscurantista dos habitantes. a fonte das atitudes regeneradoras torna-se. Segundo a análise de Ivan Teixeira. dada a sua importância para as narrativas produzidas entre 1870 e 1900 no Brasil. 1897-99). o fim não é “colar” o texto machadiano em tais discursos. noção de Igreja degenerada). Rocha conceitua. ameaçadoras da unidade nacional. 1848). professor do Colégio Pedro II e deputado conservador Justiniano José da Rocha. casos raríssimos e. 1839) e O Rio de Janeiro. em oposição a um centro puro do poder. n. o autor traça uma série de paralelos entre os lugares-comuns científicos ou históricos e o enredo ficcional.Proposta assim. Tal abordagem apenas reforçaria a leitura de Teixeira. que teria fornecido referências culturais para a composição da novela. sua Historia. mas não cegam as proposições morais da novela. contudo. à medida que Bacamarte altera os princípios da insanidade e ordena a reclusão involuntária dos alienáveis. operam as lentes deformadoras da sátira menipeia – lentes que distorcem. como o é Bacamarte. que embrulha o mais atilado observador da cidade. 1878) –. Reação e Transação (1855). Graças à mistura dos polos conceituais que a imprensa da Corte apartava de modo maniqueísta (noção de Estado perfeito vs. ponto bem frequentado pelos comentadores. salva a tempo pelo Segundo Reinado. A novidade que Teixeira traz ao leitor está na reconstituição de um discurso histórico sobre o Hospício de Pedro Segundo. seu apego desinteressado à ciência também o leva à inconstância. Acerca da primeira objeção. mas ver como o primeiro reorganiza os dados do segundo. Há uma resposta. O Alienista não se permite enquadrar como alegoria integral de outros discursos sociais. o consórcio entre ciência e política na direção da cidade e assim por diante. segundo a REVISTA USP. pois. O segundo móvel da dinâmica de O Alienista seria o conceito de loucura. principalmente as do período regencial. essa leitura teria seus limites. donde extraiu a noção de inconsistência moral e doutrinária das rebeliões. a lotação do hospício logo após sua abertura. mostrando como é convencional a loucura que a ciência pretendia naturalizar. como a descrição pormenorizada dos loucos. o autor poderia ter analisado o panfleto Ação. p. com ares de teoria. a regra – define como alienáveis os homens de boa conduta ética. na ficção. Nesse opúsculo. Bacamarte não partilha a pureza conceitual que as caricaturas dão à noção de Estado. “Importância e Necessidade da Criação de hum Manicômio ou Estabelecimento Especial para o Tratamento dos Alienados” (De-Simoni. Afinal. 199-206. Na disputa pela direção da cidade. Com base nos textos analisados – “Reflexões Acerca do Trânsito Livre dos Doidos pelas Ruas da Cidade do Rio de Janeiro” (José Francisco Sigaud. Afinal. à frieza desumanizadora e ao ridículo. o último elemento de O Alienista seria o conceito de levante popular. Em abono de sua própria hipótese. as caricaturas plasmam a Igreja nas trevas. Mais uma vez. ao paradoxo. sua dimensão alegórica resulta parcial porque. São Paulo. do jornalista. entre elas Um Estadista do Império (Joaquim Nabuco. suposto atinja a glória moral na prisão dos aéticos. ela mesma. mas o padre Lopes é encarcerado só quando Bacamarte – crente no princípio de que a doença é a exceção e a sanidade. protagonizado pela rebelião dos canjicas. Teixeira analisou a Memória Histórica da Revolução da Província do Maranhão desde 1838 até 1840 (Gonçalves de Magalhães. Homens Notaveis.88. tachando-as de “anárquicas” e centrífugas. vetor da ordem. isto é. a proveniência local e nacional dos alienados. dezembro/fevereiro 2010-2011 203 .

mas sim programática. 199-206. O Altar & o Trono não se entronca em nenhuma das duas linhas teórico-metodológicas que têm ditado a agenda de pesquisa da ficção machadiana – e que podem ser chamadas de “alegórica” e “estruturalista”. p. Pelo contrário. O Alienista seria um discurso satírico sobre a falência da ética – ou sobre a forma como os princípios morais são reduzidos ao valor de troca na economia do poder. Nas palavras de Teixeira. que desprezava seus leitores imediatos. pois sugere que o repertório cultural do tempo contribuía para a determinação do conteúdo da ficção de Machado. a força da prosa machadiana derivaria de sua capacidade de reapresentar. Segundo Ivan Teixeira. Ao contrário dos casos anteriores. reitera o ridículo e o infame da ação dos populares na historiografia. pode ser mais bem desenvolvido. no segundo. Evarista. o autor compensaria esse motivo rasteiro com uma estética sobranceira. Essas linhas se distinguem uma da outra na medida em que dão à ficção de Machado estatutos mutuamente excludentes. essas três linhas narrativas – sobre a Igreja. convencionalismo e interesse particular. dezembro/fevereiro 2010-2011 . desde a leitura de Lúcia Miguel Pereira na década de 1940. Em suma. haveria só acréscimo de humor.88. Acontece que esse ofício vinha sendo entendido. O Altar & o Trono não se reduz a ela. Por um lado. Teixeira procedeu a um estudo amplo das páginas de A Estação – Jornal Ilustrado para a Família. embora esses termos não as traduzam com perfeição. consumo. Em contrapartida. Visando as práticas discursivas que encerram o texto de Machado. em que foi publicado pela primeira vez O Alienista. o diálogo com a primeira abordagem parece mais direto e. o mais radical e aparentemente menos ideológico escritor brasileiro do século XIX trabalhou por dezenove anos consecutivos – fidelidade empresarial sem correspondência em seu currículo. como a prevenção contra o luxo excessivo ou contra a linguagem hiperbólica. aos faits divers e ao entretenimento literário. pois. a narrativa troca os últimos termos por hipocrisia. práticas de higiene conforme a ciência.qual a ação dos canjicas. ciência e verdade. Abel Barros Baptista e João Adolfo Hansen –. como um expediente pragmático de necessidade financeira. cuja fixação dependeria do ato autônomo e extrínseco da leitura. linguagem. em O Alienista. Teixeira encontrou um perfil editorial avançado para os padrões da época em questões como papel social da mulher. Daí o autor identificou dois tipos de relação de O Alienista com o periódico. Nesse veículo. Embora não discorde da última abordagem – constituída por textos de críticos como Afonso Romano de Sant’Anna. São Paulo. esposa de 204 REVISTA USP. a dinâmica de um quadro social superior. alguns daqueles valores ocorreriam em tom normativo no corpo da novela. sua relação com o periódico não seria pragmática. Lendo os números da revista na Biblioteca Guita e José Mindlin (São Paulo). de sua habilidade para esvaziar discursos extraliterários e criar indeterminações corrosivas de sentido. um temático e direto. identificáveis no consumismo vaidoso de D. dedicado à moda parisiense. etc. em que não se elege nenhuma como desejável. a sátira de Machado e os discursos extraliterários coincidem mais nesse ponto. Forçado a publicar ali seus textos. No primeiro caso. UMA TERCEIRA VIA PARA OS ESTUDOS MACHADIANOS Como se vê. no Arquivo Edgar Leuenroth (Campinas) e na Biblioteca Nacional (Rio de Janeiro). na organização do entrecho e no estilo da frase. porém. por isso. a ciência e a política – parecem figurar um exercício alternado de poder sobre o destino da cidade. n. definindo-a ou como “caixa de ressonância” ou como “máquina retórica”. Enquanto os lugares-comuns institucionais unem Igreja e sinceridade. outro funcional e indireto. 317). parece insinuar “que coerência e poder sejam categorias excludentes” (p. escravidão negra. no lugar da inversão semântica. política e honestidade.

Enquanto esse modelo de história vigorou (c. por exemplo) e do estilo (a “volubilidade” dos narradores). um artigo lhe deu “um lugar bem alto. o autor identificava as linhas do enredo ficcional e as projetava para uma suposta dinâmica social. em 1880. 128). tais mundos. por mais terra a terra que. partilhada por outros textos do periódico. n.88. Schwarz tentou calibrar os termos da equação adotando um método sistemático de leitura da história do Brasil – o proposto pelo Grupo do Capital. Nessa escalada. núcleo original da informalmente chamada “Escola Sociológica de São Paulo”. Poder-se-ia dizer que. Esse método. cujo nome há tanto tempo enobrece o suplemento literário da Estação” (p. eram incompatíveis do ponto de vista material. Basicamente. São Paulo. a leitura de Schwarz se impôs como verossímil. o veículo o ergueu aos poucos à condição de maior prosador brasileiro da época. incorporando essa tensão estrutural no plano do enredo (Capitu encarnaria o Iluminismo. 65). que supõe uma relação dialética entre expressão artística e processo social. resultavam postiças. e na retórica seiscentista de Martim Brito. entre elas o Brasil. embora se influenciassem reciprocamente. acabava por torná-la visível REVISTA USP. 199-206. O Alienista propõe uma alternativa sarcástica contra a rigidez dessas mesmas certezas” (p. p. Assim. Embora unisse história e literatura. Por causa da incompatibilidade entre liberalismo e escravidão. quando adotadas no meio brasileiro. o içou ao posto de “figura mais saliente da literatura brasileira contemporânea” (p. as instituições e as ideias desenvolvidas na Europa. coroou a jornada rumo à glória invertendo a hierarquia entre patrono e protegido. se para alguns críticos. Henrique Lombaerts. Teixeira formulou ainda a hipótese. “fora do lugar”.Bacamarte. em 1884. 131). formalizado por Antonio Candido num conhecido estudo das Memórias de um Sargento de Milícias. também colaborador do órgão. sejam uma revista de moda e um punhado de leitoras da Corte. consiste em decifrar como princípios ordenadores do mundo social são transpostos para o plano formal da obra literária. o brilhante destino histórico do nome Machado de Assis não pode ser apartado de seu ponto de partida. o estudioso teve o cuidado de pontuar que. 118). se A Estação pode ser “interpretada como vitória de um conjunto conhecido de valores. No início da parceria. 1970 a c. de ilustrar e instruir o público. que o honra ainda mais do que ao fino inexcedível prosador e poeta. que a aceitava sem julgá-la hostil. enquanto a periferia brasileira. Também é possível notar um diálogo de Teixeira com Roberto Schwarz. que essa divisão separava o centro do capitalismo contemporâneo e as periferias. o da escravidão negra. e que. é claro: “Congratulamo-nos com o Governo Imperial por esse ato. à primeira vista. tal como se nota na exploração da incompatibilidade entre coerência e poder. O Altar & o Trono mostra que os mesmos críticos não entenderam as leitoras de A Estação. as premissas desse modelo de leitura da história diziam que havia uma divisão internacional do trabalho. seu amigo Arthur Azevedo. por fim. ainda que não esteja explicitado em O Altar & o Trono. mas talvez do próprio punho do escritor. simbólico e ideológico. Por radical que fosse. sem deixar de lado a autopropaganda. uma leitura de Machado que desenvolve o método da “redução estrutural”. Por outro. o imediato a Alencar” (p. 130). Dois anos depois. para usar a expressão célebre. A ficção de Machado seria eficaz porque. 2000). aliás bem fundamentada. Diante do desajuste. que o centro era o mundo do liberalismo. em 1888. de que o periódico influiu na evolução da imagem artística de Machado. afiançava com segurança o intercurso entre o social e o ficcional. as leitoras de A Estação não entenderam Machado de Assis. Quando. dezembro/fevereiro 2010-2011 205 . uma advertência moral dessa natureza também cumpria a função editorial e social. Como é sabido. há décadas. mal-ajustadas ou. outro já o colocava em pé de igualdade com o criador de Iracema (p. Em textos anônimos. orador de ocasião. o editor de A Estação. Candido jamais formulara um modelo explicativo daquela dinâmica histórica que sofreria a “transposição estética” – no limite. Schwarz vem propondo. Machado recebeu a comenda da “Ordem da Rosa”.

O que Ivan Teixeira afirmou sobre a narrativa – “[…] é possível imaginar que O Alienista talvez seja o texto mais densamente político de Machado de Assis” (p. o integra num grupo de letrados e políticos atuantes desde 1860 até o início da Primeira República. 199-206. pois suas propostas minaram os compromissos históricos travados entre o Estado e a sociedade brasileira na primeira metade do século XIX. n. Visto em perspectiva ampla. e ridícula ao juízo imperdoável da sátira. Tornou-se. O Alienista seria. Garnier. social e econômica identificada com o que então se entendia por moderno e renovador” (pp. formuladas por pesquisadores do século XX. Rio de Janeiro. latifúndio vs. porém. o governo imperial iniciou reformas que iam desde a escravidão negra até as eleições e a natureza do Poder Executivo. cujos efeitos no Brasil ainda precisam ser mais bem entendidos. H. a subsequente reforma dos regimes representativos (de 1850 em diante). então. A questão não seria se o liberalismo estava “fora do lugar”. afastando-o das correntes intelectuais do século XX que tornaram incaracterístico seu conteúdo próprio. Imantado pela Questão Religiosa.2 Joaquim Nabuco. sim. como a Primavera dos Povos (1848). abolição. Assim. Poucas vezes na história brasileira as bandeiras políticas sacudiram tão próximas do horizonte da utopia. Minha Formação. um estudo como O Altar & o Trono recoloca o texto de Machado de Assis em contato direto com outros discursos contemporâneos. 24) – está correto por ora. dividindo-se em dualidades facilmente baralháveis – monarquismo vs. catolicismo vs.88. contribui também para localizar Machado em um determinado lugar social do discurso que. centralização vs. Estado laico vs. a Questão Religiosa. cativeiro vs. 301. longe de torná-lo à frente de seu tempo. etc. mas se sua noção de liberalismo não estava “fora do tempo”. voto universal. a Guerra de Secessão nos EUA (1861-65) e a Guerra do Paraguai (186471). São Paulo. a expressão “dinâmica do poder”. Por causa de uma série complexa de eventos. Nesse sentido. presente no subtítulo de O Altar & o Trono em referência a O Alienista. as “antigas gerações […] criaram e fundaram o regime liberal que a nossa deixou destruir…”2. republicanismo. seria fenômeno de uma grande crise que abalou o Império do Brasil desde os anos 1860. democracia rural. alertava contra os abusos intrínsecos à prática do poder. 1900. portanto. Longe de ser relativista ou indiferente. Estado religioso. evidente a todos que o estudioso inserira no processo histórico brasileiro e no texto machadiano ideias anacrônicas. parece antes um corretivo ao entusiasmo. federação. “O Alienista poderá também ser entendido como intervenção de apoio à renovação institucional do país” em favor “de princípios que facultariam ao país uma ordenação jurídica. o texto. mas como resultado de uma reformulação do conceito de liberalismo no final do século XIX. entendida como um liberalismo antiescravista). positivismo. Nas palavras de Teixeira. Como disse um desolado Nabuco em Minha Formação (1900). voto censitário vs. os letrados da última geração imperial discutiram a fundo a construção de um novo tipo de modernidade no Brasil (essa. A leitura de Schwarz abalou-se. 206 REVISTA USP. Como alternativa a essa agenda de pesquisa. pode ser coextensiva às disputas mais amplas que marcaram o ocaso do Segundo Reinado e que devem ter motivado outras importantes obras de Machado. Mas é uma verdade que pesquisas futuras. independentemente da verdade que entusiasmava os agentes históricos envolvidos na construção do porvir. apenas um entre os vários textos compostos naquela quadra que tornou a transformação do presente incontornável justamente porque era factível. De fato. e a incompatibilidade entre liberalismo e escravidão passou a ser entendida não como intrínseca à história. p. quando ruiu o modelo interpretativo da história que lhe dava suporte. portador de uma energia política ainda desconhecida dos estudiosos. p. podem tornar superada. se investirem em métodos semelhantes ao seu. Mais do que isso. Todos eles – dos monarquistas aos republicanos – contribuíram de certo modo para a derrocada do Segundo Reinado. dezembro/fevereiro 2010-2011 . por exemplo. 226 e 235). O Alienista não era só uma advertência contra o ultramontanismo.