Caçadores de Vidro

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Estão apenas os dois, pai e filho, no carro branco que vai a cem por hora pela Rodovia dos Bandeirantes. Não vão a passeio, mas a negocio, precisam de vidros para a casa que o pai esta reformando. O filho ainda é menino, vai sair da infância em breve; criança de sete anos se atordoa com as exigências do caminho, a vida já é tarde no estômago. Saíram á meia hora da cidade onde vem, terra de poucas riquezas, embora cercada pelo mar verdejante de cana-de-açucar. Mar, farfalhar ao vento e est reito, mal dá para que todos pesquem nele a sobrevivência.

a em breve...
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Basta atravessá-la. tomar os preços. Conversam pouco. uma hora os separa de lá. se acaso os desejos dos deuses permitem coitados dos que partem quando eles estão de mau humor. à porta da fabrica não há atravessadores. o pai atento ao volante. o filho dirigindo sonhos. compensa a viagem. cada um tem seu ponto de vista. Da estrada. onde o asfalto cintila sob o sol. Regressar. fazer a compra e regressar. Conversam pouco. Ao motorista só lhe interessa a frente.Seguem em direção à cidade dos vidros. tantas são as viagens sem volta.indd 4 31/05/2013 23:31:51 . o pai atento ao volante. o fil caçadores.

pelo retrovisor. Ou o que sente a e. o que passou já não nos pertence e . o filho dirigindo sonhos. e. lança para trás.Por vezes. aproximarem-se. Agora. costuma nos ameaçar com tanta insistência. ajoelhado sobre o banco. então. a raiz da arvore que ele está vendo solitária na planície. por exemplo. às avessas. via os carros lá no fundo crescerem. acenava-lhes quando ultrapassavam o Voyage. Há algum tempo.indd 5 31/05/2013 23:31:51 . de costas para o pai. caçadores. O menino comtempla de lado a paisagem. por isso. excede os olhos por essa margem da estrada. O menino sempre gostou de imaginar o que sente.

viajantes d caçadores. sonhadores. em pista menos palmilhada. como o pai.. viajantes de outras estradas. frear na hora certa seu pensamento. que espera abraçar-se ao orvalho? São assim os meninos.indd 6 31/05/2013 23:31:51 .. São assim os meninos. íntimo. sonhadores. tampouco reduzir a marcha com leveza. Assim vai trilhando dois caminhos. ao redor dela. mais parece um míssil que persegue a brisa da manhã.relva fina. quando a noite cai? Como seria estar deitado ao pé dessas arvore. Ele não sabe. sobre a relva circundante. arranca e para bruscamente. o do Voyage a cem por hora e o seu.

Não por espaço e tempo.. Mas pelo que se aprende no caminho.indd 7 31/05/2013 23:31:51 . não para os dois. mas para quem está lendo a história. O pai vê a paisagem a seu lado. caçadores. detalhe insignificante. a cidade onde vivem e a dos vidros. como se faz até agora. Não estão longe. um pasto que se espraia silenciosamente. já avançaram um tanto e são próximas as duas pontas do trajeto. viajando com eles em direção à cidade dos vidros. os bois como imóveis ntes de outras estradas..São duas da tarde. Talvez fosse melhor medir as distâncias de outra maneira.

indd 8 31/05/2013 23:31:51 . descubra o perigo das facilidad caçadores. acompanhando a plantação de laranja do outro lado.porcelanas. ruminando. as frutas miúdas na ponta dos galhos se acercam. Há muito o que se descobrir nessa rodovia. Gira a cabeça e nota que o filho perde a cena. crescem e. não adianta sobrecarregar o coração do menino. já desaparecem. num instantes. até nas monótonas dunas do deserto há invisíveis surpresas. em todas aliás. Como saber qual seu desejo? Um dia. talvez.

o ruído pesado dos motores despertou-o para a procissão que vai adiante. satisfeito. e envereda num longo aclive. caçadores. Na subida.. talvez. mas não o impede de ir ultrapassando os primeiros caminhões. a velocidade do Voyage cai para oitenta.Uma fila de caminhões arrasta-se lá na frente. as duas ilidades. Um dia. como uma cobra luzidia. se o terceiro caminhão decidisse o segundo. O filho desvia os olhos das laranjeiras. descubra o perigo das facilidades.indd 9 31/05/2013 23:31:51 . não sabe que estes são obstáculos fáceis.. O menino sorri. onde o asfalto coleia.

caçadores. Talvez por isso sejam tão amadas as mulheres. e tenta adivinhar qual aclive. Vidros são delicados demais para se carregar de maneira tão imprudente. que do ultimo caé a sua carga.pistas estariam fechadas. Só poderiam passar se os motoristas soubessem também o que é facilidade. O carro já está no fim do no olha insistentemente para a estala ao vento na carroceria minhão. o menilona solta. Vidros certamente não são.indd 10 31/05/2013 23:31:51 .

. Uma tarde. sorriem pelo espetáculo da vida. sorriem por quase nada. onde nasciam os vidros. caçadores. No ultimo verão. O pai explicou que os vi- heres. tomando seu guaraná à sombra do guarda-sol. rebelde.a lona escura parece quere voar. tanta é a sua necessidade de pensar num mundo mais belo. Talvez por isso sejam tão amadas as mulheres. o pai fora com a família para a praia. um sonhador a compararia a um tapete mágico..indd 11 31/05/2013 23:31:51 . sorriem por quase nada. ocorrera ao filho perguntar como se faziam as garrafas. A mãe achou graça.

sopro nenhum. tinham tanta areia nas mãos. Mas já não se fazia assim hoje. com as próprias mãos no princípio. mãos reduzidas. de um arvore. O pai explicou que os vidros não nasciam como caçadores. estavam na praia. Para se fazer vidro.indd 12 31/05/2013 23:31:52 . entre outros ingredientes. não salgada igual àquela. apesar de ser inadequada.galhos nem sempre frondosos – e com seu hálito. embora muito sal seja derramado dos olhos nas vidrarias. imitando o sopro divino.dros não nasciam como frutas. eram produzidos pelo homem. Trabalho quase só de máquinas. monazítica – e água. era preciso muita areia – que coincidência.

como frutas. Outra carga deve levar o caminhão. que a agua não entra na composição do vidro. como a todos.. que vai passar à direita do menino. estalindo na lataria dos carros estacionados no posto de gasolina. Quando o vidro se funde.indd 13 31/05/2013 23:31:52 . eram produzidos pelo homem. nessa via. rasgando nuvens. incandesce. O sol segue-os. caçadores. mais alguns quilômetros e extaram chegando. mas pouco importa. não se ouve nenhum estalo. Nesse abraço. de um arvore. Estranha é sua serventia. vai ver não sabia.Seria mesmo verdade? O pai não lhe disse. nenhum grito. Os dois avistam uma placa. a água o recebe e o esfria..

por que me abandonaste? O menino não hesita por maldade ou descrença. Não deveria duvidar do pai.Quer parar? – pergunta o pai.Não – responde o filho. mas até Cristo teve caçadores. . Deseja chegar logo a cidade. será mesmo com areia e água que se faz os vidros? Não deveria duvidar do pai. com os olhos. mas até Cristo teve suas incertezas.. se aprende. está inquieto.indd 14 31/05/2013 23:31:52 . assim também. Quer ver apenas.na cruz não perguntou? Pai.

Quer ir ao banheiro? -insiste o homem.indd 15 31/05/2013 23:31:52 . caçadores. .Está com fome? O filho move a cabeça em sinal negativo . pai está querendo para no posto e está querendo uma anuência do menino. teve suas incertezas.. já conhece a lição.na cruz. Até parece que ele. não há matéria que mais reprove o homem na vida..O coração na verdade. Mas tantas faltam ainda.

indd 16 31/05/2013 23:31:52 .. líquida. quem sabe atrás outro pai não esteja perguntando o mesmo ao filho. o posto agora só interessa aos carros que vêm na sua rabeira. e talvez esses prefiram a As sobrancelhas se fundem sob o nariz. O Voyage continua pelo asfalto cintilante. Deixavam também os bandeirantes seus rastros de mijo pelas matas. É sempre fácil para um homem aliviar-se dessa forma. herdoucaçadores. Quando foram à praia. não haveria problema.Já fui em casa! E se estivesse apertado. o pai não teve que para na serra? Mais fácil ainda é para um menino urinar pela rodovia.

.parada. As sobrancelhas se fundem sob o nariz. estacionem próximo ao restaurante e saltem logo: e aí se poderia vê-los debruçados sobre o balcão. erdou-as do avô.indd 17 31/05/2013 23:31:52 . uma jamanta trepida. o verde vítreo de uma garrafa e o marrom de outra filtrando o sol da tarde. um guaraná e uma cerveja. O menino apoia-se no santoantônio e encosta-se no painel para ver melhor. Na pista contrária.. herdou-as do avô. caçadores. carregando vários Fiats. Agora há uma novidade à frente. dão ao seu rosto infantil uma expressão hílare.

filho? É um caminhão que leva carros novos – explicou o pai. . Menos por desconfiar que o menino Às vezes deixava as coisas pela metade.indd 18 31/05/2013 23:31:52 . Podia ter falado sobre a cegonha. ac caçadores. ave que entrega aos pais os bebês. mas preferiu silenciar.É uma cegonha.Não tinha visto uma.o pai diz.Cegonha? .. ao perceber o interesse dele.

. . achava que um dia entenderia. o filho pensou em perguntar novamente.acreditasse em mentiras suaves. pai sentia falta de algo que a muito já perdera. achava que um de. O homem sorriu e disse: . Às vezes deixava as coisas pela metade. por que vão em cima de uma caminhão velho? – perguntou o menino. mas desistiu.Por isso mesmo! Insatisfeito. mais porque ele. caçadores.Se são carros novos.indd 19 31/05/2013 23:31:52 .

– Deve ter radar lá adiante. Crescer provavelmente era isso: entender o que agora ele não conseguia. .ele diz.dia entenderia. O menino obsero pai imediatamente reduz a velosessenta. quem vive viajando tem a linguagem cifrada dos perigos. O carro lica pisca o va. cidade para de conhecer que vem atrás da cegonha metáfarol duas vezes. Crescer provavelmente era isso: entender caçadores.Policia. curioso .indd 20 31/05/2013 23:31:52 .

indd 21 31/05/2013 23:31:52 . á sombra de uma carreira de eucaliptos. caçadores. Con- nder o que agora ele não conseguia. um Diplomata e uma viatura de policia. Não demora. no acostamento.Em seguida. mas nenhum tão imponente como esse Cometa que voa preso à terra. um Apollo. O menino acompanha com os olhos o ônibus que se distanciam. o Voyage assoma numa longa reta. Lá em frente. uma caminhonete. quantas pessoas vão lá dentro? Já viajara em alguns veículos. um ônibus Cometa também sinaliza. avisando os motoristas desse lado.

forme se aproximam.indd 22 31/05/2013 23:31:52 . Para isso também servem os vidros. tira do porta-luvas a carteira de motorista e abaixa o vidro lateral. . e um deles acena. outra surpr caçadores.Puta merda! O homem desliga o motor. Naturalmente. gostam da extensa sombra. lentamente. Pelo retrovisor observa p guarda que atravessa a pista e se acerca. o pai reduz ainda mais a velocidade e distingue dois guardas em meio à pista. indicando para que estacione.

o binóculo no pescoço. O que mais lhe chama atenção são os óculos escuros.. que escondem seus olhos.indd 23 31/05/2013 23:31:52 .O senhor estava a cento e dez por hora – ele diz.. – Documentos. o revolver na cintura.. Para isso também servem os vidros. outra surpresa para o menino na viajem. por favor. Enquanto o guarda preenche a multa. surpresa para o menino na viajem. o filho abaixa a cabeça para enquadra-lo melhor e vai descobrindo os detalhes do emblema do policial na camisa. caçadores.

indd 24 31/05/2013 23:31:52 . Voltam à estrada. um azar.O garoto está sem cinto de segurança – diz o guarda. E. Por pouco não chegavam à cidade dos vidros sem esse prejuízo. perímetro urbano. o menino vê a si mesmo refletido nos óculos escuros. o menino Por pouco não chegavam à cidade dos vidros se caçadores. quando entrega a multa ao homem. ali há outra placa. foi por pouco. O pai contorna o cinto de segurança sobre o pescoço do filho e o prende. ..Boa viagem – o guarda diz e se afasta. O homem parece aborrecido.

avulta um posto de gasolina logo após o canteiro que o Voyage contorna – há sempre um no limiar das cidades.ainda tem tempo de ver o milharal ondulado ao vento. antes que desviem para a direita. O carro sacoleja ao entrar na rua de acesso. pegando uma senda transversal que o conduzirá à fabrica. o calçamento é de pedra-macaco..indd 25 31/05/2013 23:31:52 . Â entrada. um canteiro circular de relva seca e em seu centro queima ao sol uma chapa metálica com as palavras Seja bem-vindo. Adiante.. caçadores. igual ao povoado ros sem esse prejuízo.

inquieto. Ainda bem que ele não sabe o nome da pedra.de onde vem o menino. Os olhos do menino crescem. mas não tanto quanto seu desejo de morder essa fruta. Ele se recorda. algumas estão cortadas ao meio.indd 26 31/05/2013 23:31:52 .os dois encontram um caminham carregado de mes esferas verdes que dormem ao frescor da sombra. a primeira melancia que felizes são eles que ainda têm os filhos criança caçadores. o miolo vermelho e úmido. não há quem resista a tamanha tentação. A baixo de um flamboyant. na certa alguém teria de estudar geologia para explicar-lhe o que um macaco tem a ver com esse chão.

a maior das frutas.. Á saída. caçadores. ele pedira para carregar o guarda-sol colorido.comeu na mesma tarde em que o pai falou dos vidros. felizes são eles que ainda têm os filhos crianças. A mãe pediu coco verde. dizia sempre que a agua do coco havia sido chuva um dia. chuva de uma nuvem que nascera das aguas do mar. e ficou maravilhado quando o homem. queria ajudar os pais. rianças. um homem vendia frutas mergulhadas num tanque de gelo.. Tinham saído da praia.indd 27 31/05/2013 23:31:52 . O menino escolheu a esfera verde.

com uma faca pontuda.Quer parar? Mas ele segue dirigindo. o carro sobe uma ladeira de casas pobres que vai dar na fabrica. hummmm. Agora sim seria bom se o pai perguntasse: .indd 28 31/05/2013 23:31:53 . cheio de pequenas sementes negras. riscou a melancia e depois. Encanto maior foi provar essa fatia da natureza. Quase sempre Quase sempre fazemos as perguntas na hora er caçadores. tirou-lhe um triangulo. a boca inundada de saliva. razão pela qual está sentindo. vermelho vívido. espetando-a.

indd 29 31/05/2013 23:31:53 . Nem por isso vamos cultivar o mal do desencontro. Achou que todas as casas da cidade seriam de vidro. violetas. oliveiras.. cássias.. Seria lindo se as casa pudessem ser realmente de vidro e no interior delas crescessem flores: margaridas. O menino parece decepcionado. Ou árvores viris: loureiros. como a miniatura que a mãe ganhara de aniversário com uma flor dentro. caçadores. hortênsias. ora errada ou as respondemos fora do tempo.fazemos as perguntas na hora errada ou as respondemos fora do tempo. rosas.

nogueiras. uma floresta o mundo. porque a fábrica avulta lá em cima. E então seria um jardim cada bairro. porque a fábrica a caçadores. Não é a única fábrica de vidro.carvalhos. ha na cidade outras. Mas essas não produzem desde vidros canelados para janelas até finos cristais Dura um nada tal sentimento. .indd 30 31/05/2013 23:31:53 . um campo cada cidade. menores.Olha a chaminé – o pai aponta para a torre alta sem nenhum fio de fumaça. Dura um nada tal sentimento.

.indd 31 31/05/2013 23:31:53 . que trouxe fama ao povoado.como a primeira. hoje próspero município. Tem de inclinar toda a força para trás.. em pontos afastados do centro. cujo pátio de acesso o Voyage branco estaciona. Certamente haverá casas mais confortáveis. pressionando a nuca para alcançar a última lâmina do telhado que reluz brica avulta lá em cima. O menino estranha ao observar o imenso fício à sua frente. caçadores. igual à grande fábrica de vidro. embora sejam pobres as casas e o povo que nelas habita.

indd 32 31/05/2013 23:31:53 . não usa óculos escuros. e. ao obter resposta. igual suas bolinhas de gude. aqui se corta a narrativa. Vidros para construção. Pai e filho entram. Show-room. Se ele imaginava que as casas fossem de vidro. Como um caco de vidro que um dia cortará o pé do menino.ao sol forte das três da tarde. amarelos no chão. Um segurança da empresa pergunta ao homem que tipo de vidro ele procura. começo de uma nova viagem. verdes nas portas. Podemos observa-los de costas. Chegamos à outra ponta do caminho. Mas ele só vê tijolos e reboco. é gentil esse guarda. aqui caçadores. Vidros azuis nas paredes. se lê logo abaixo. está escrito. Chegam a uma porta. Como um caco de vidro que um dia cortará o pé do menin o. supunha que a fabrica seria uma vitrine toda colorida. conduz os dois por um pequeno corredor.

indd 33 31/05/2013 23:31:53 .aqui se corta a narrativa. caçadores.

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