Era Ela...

Copyright © 2012, Davy Rodrigues Editora Léa Carvalho Capa Cláudio Daltro Revisão Eveline Vieira Machado Projeto gráfico MaLu Santos
Dados Internacionais para Catalogação na Publicação(CIP) R696e Rodrigues, Davy, 1979-. Era ela / Davy Rodrigues. - Rio de Janeiro : Metanoia, 2012. 160 p. ; 21 cm. ISBN 978-85-63439-22-2 1. Prosa brasileira. I. Título. CDD – B869.8
Ficha Catalográfica elaborada pela bibliotecária Lioara Mandoju CRB-7 5331

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Dedico essa obra a todos aqueles que, apesar das adversidades
religiosas, mantiveram sua fé em um Deus amoroso, consolador e cuidadoso.

A todos que são capazes de amar seu próximo pelo simples fato
de serem humanos, de respeitar a história alheia e aos que buscam a sua própria verdade.

Que essa leitura possa te ajudar nessa jornada.
Davy Rodrigues

... Prefácio
O Benefício da Dúvida

...

dmira os que buscam a verdade. Duvida daqueles que afirmam tê-la encontrado.” Esse pode ser apenas mais um desses ditados anônimos espalhados pela rede internacional de computadores; mas a boa reflexão que ele encerra é realmente o que faz e fez séculos e séculos de pensamento ocidental seguirem adiante, sem medo de engessamento, sem refreamento de crítica, sem timidez, ainda que com muita oposição dos setores conservadores da sociedade, que sempre estiveram de prontidão contra as luzes de uma reflexão de tipo mais progressista, libertária, onde duvidar sempre foi a regra central, oriunda de um questionamento primordial. Aristóteles perguntou-se a si mesmo o que fazia os homens se juntarem, Hobbes o que os separava e porque temiam, Kant em que momento justo podiam falar e expressar sua moral. Perguntas que na verdade inauguraram todo um arcabouço teórico que ainda hoje nos desafia. Dúvidas que ainda são muitas das nossas, sem que haja nenhum problema nisso. Duvidar é preciso! Assim inicia-se esse romance impactante, que combina elementos ácidos, dramáticos e trágicos, mas sem a anankè conformista dos gregos. Há liberdade no texto de Davy Alberto Rodrigues; digo até que

“A

se respira liberdade entre as linhas. Ler entre as linhas (o que durante muito tempo foi considerado uma aventura cafona pelos realistas de plantão) implica na afirmação das letras, palavras, frases e parágrafos em primeiro plano. Ou seja, não há autonomia entre texto e subtexto na pena de Davy e ainda bem que não há; há outrossim relação, relação forte entre as palavras em preto e o papel branco de fundo que se confunde com nossas respirações e intervalos de leitura, seja para imaginar a miríade de imagens que o autor nos propõe em seus quadros, seja simplesmente para respirar mesmo, diante do compasso de um texto cheio de ritmo, de andamento em stacatto: “Cada dia, cada noite, cada instante era como se eu contasse as horas para um martírio.” Respirar para tomar fôlego como um navio a tomar aguada...e prosseguir na leitura, navegando até o final do romance. A presente obra de Davy é bem emoldurada historicamente, com todos os fascínios, contradições e complexidade do Brasil pós Getúlio Vargas, mas ainda com todas as marcas do getulismo. Se os aspectos históricos do romance dão o limite de inscrição da trama, são os aspectos existenciais dos personagens que muitas vezes nos convidam a meditação, a perplexidade, ao choro e até mesmo ao riso enternecido. ““Era ela...”” é romance meditativo, no estilo theâtre dans um fauteuil que nos propôs A. de Musset no século XIX. E como não existe literatura ultrapassada “Era ela...” se soma a constelação de letras que vieram para ficar e se disporem aos leitores que fazem do ato da leitura meditação ou manifesto, hobby ou vício, esporte ou dever. Fica livre o leitor para escolher o que fará com as letras de Davy, o que não poderia ser diferente em se tratando de um autor para quem a liberdade de ser e deixar ser, viver e deixar viver é algo estruturante e fundamental. Escrever um prefácio de um romance deste quilate, sem revelar a priori o conjunto de aspectos centrais da trama é tarefa para mestres. E na qualidade de eterno aprendiz, é com uma ousadia que beira a pretensão que afirmo aqui, (sem lhes revelar segredos que só a leitura gostosa [ou seja cheia de gostos e experimentos] pode configurar) que uma das virtudes que Davy cultua nas páginas de ““Era ela...”” é a da coragem, muitas vezes camuflada num escapismo de personagens que nada tem de covarde; escapar pode também ser uma escolha; pode ser decisório, pode construir a ponte para as rupturas que muitas vezes a vida nos impõe e que exige de nós um grau de solidão que somente

autores de peso como Antoine de Saint-Éxupéry (Vôo Noturno e seu Fabien corajoso e simplesmente só) puderam vislumbrar em seus textos. Davy consegue, e transpõe com talento literário essa questão em um simples passeio em Copacabana: Precisava de ar. Tinha que sair do meu quarto e caminhar. Pensei em chamar Júlia... mas era muito alta a noite. Tive medo que alguém nos visse. Estava sufocada... agoniada... exausta... precisava respirar e minha cela era apertada... me recordei de quantas vezes Carmem e eu caminhamos na Praia de Copacabana à noite quando fazia muito calor no Rio de Janeiro. Era muito bom. Sentir a brisa do mar... o cheiro do mar... aquele lugar era lindo. Linhas e entrelinhas mais uma vez namoram, mergulhadas em um drama demasiadamente humano. Davy Alberto Rodrigues propõe também um texto que aponta para uma perspectiva de redenção. Explico: nada tem isto com a redenção que a tradição religiosa (de diversos sistemas religiosos e de revelação) inventou ou procura há séculos nos impor ao longo da história, dos processos morais, dos costumes e dos códigos de conduta. Nada disso. E nesse sentido “Era ela...” nos faz outro precioso serviço: ajuda-nos a pensar a questão da redenção com algo libertador, e não “misticista”, como movimento necessário de existência destinada à liberdade tal como Sartre nos aponta em O Ser e o Nada. Redenção que se constrói na gradação, no instante após instante, no movimento temporal do devir, no tornar-se no ser-querer-ser. Redenção portanto que nos catapulta aos poucos da tonteira de nossas ilusões e desilusões, para a lucidez de um mundo afirmativo, consolidado e porque não dizer: feliz. Independente de todos os laços e entre laços pelos quais passam os personagens de “Era ela...”, das angústias e das memórias que curam feridas e abrem outras novas, independente da dor e dos transtornos que a vida (nossas vidas!) atravessa, há sempre a possibilidade de sair do torpor, da visão turva e perigosa, do jogo de espelhos. Davy usa de símbolos e representações que lhe são muito caras para nos brindar com uma narrativa que beira a poesia pura, pastoril entre a cruz e a porta, e na melhor das hipóteses, da cruz próxima a saída, para cuja visão é imperativo, antes de tudo, abrir os olhos. Tento abrir meus olhos. É difícil. Sinto uma tonteira. Parece que tudo gira à minha volta. Forço mais um pouco. Começo a ver meio

embaçado. Onde eu estaria? Que lugar era aquele? Frio. Mal iluminado. Parecia uma enfermaria, mas era muito velha. Estranha. Havia um Crucifixo prateado na parede, próximo à porta. Dúvida, Coragem, Esperança. Em maiúsculas; é assim que as vejo passeando por este Romance, que tenho a honra de prefaciar e apresentar ao leitor. Vale a pena cada letra, cada minuto aproveitado. Entretanto mais importante do que isso, e mais do que uma simples leitura de ocasião: aguardemos em nós mesmos os resultados da leitura de “Era ela...”, que o mesmo “Senti paz.” conclusivo e afirmativo da obra seja também o nosso, neste mundo conturbado, violento e ácido, onde obras como a de Davy ainda desempenham um importante papel de provocação e de sensibilidade. Rio de Janeiro, a 7 de setembro de 2012 André Senna
Doutor em História Política pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Professor do Curso de Relações Internacionais da Universidade Estácio de Sá.

...
Agosto de 1966 Era uma época de muitos acontecimentos no Brasil e havia muita agitação política. Eu havia nascido 12 anos antes, exatamente no ano da morte do presidente Getúlio Vargas, 1954. Havia, pelas ruas de toda a cidade do Rio de Janeiro, muitos manifestos para lembrar do falecido presidente que, segundo a história, teria matado-se.

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A

inda ouvia o barulho da chuva caindo quando acordei. Não fazia frio, mas chovia muito.

Levantei-me, calcei minhas pantufas azuis e fui para o banheiro. Sentei no vaso sanitário de roupa e cochilei. Estava com tanto sono... queria continuar dormindo. Mas, se havia uma coisa que minha mãe não admitia era que sua filha mais nova, a caçula da família, faltasse uma Missa matinal de domingo. Mamãe era extremamente religiosa. A questão era que ela queria que eu fosse sua discípula. Morávamos na cidade do Rio de Janeiro. Nosso condomínio era um dos mais antigos, próximo à Praça dos Anjos. Naquela época, Copacabana era um lugar calmo e seguro. Era um dos melhores bairros do Rio. A igreja que minha mãe e eu frequentávamos era a de Santa Helena, na Rua Mário Lobo. Uma igreja linda. Cheia de obras de arte. Aliás, o prédio todo da igreja era uma verdadeira obra de arte. Frei Ângelo era um homem bom. Tinha os olhos estrábicos e era bem calvo, mas tinha um dom especial com as pessoas... era

Outro livro do Autor:

Allan e Tony se conheceram no meio da festa de aniversário de Allan, um encontro f inesperado com o desconhecido. Diante de in valores e pré-conceitos, a autocondenação v e a tentativa de não ceder às pulsões e ao próprio desejo. Inútil tentativa... a força p que move o indivíduo na direção de sua q pulsão é o próprio ser. Sentimentos e conp flitos nunca experimentados fazem de duas famílias religiosas um “Campo de Guerra”. f Ódio, medo e tradições. Uma mistura amarÓ ga g que poderia levar à morte. E levou... www.davyrodrigues.blogspot.com

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