Quando as Sombras caem I.

O relógio na torre da Igreja indicava que faltavam 5 minutos para as 18 horas, quem olhasse Dark Ville de cima pensaria ser mais uma cidade fantasma, já abandonada por seus habitantes em busca de uma vida melhor na cidade grande. No entanto, aquela pequena cidade no interior do estado mantinha uma população regular de cerca de quatrocentas pessoas que tiravam seu sustento da agricultura familiar e do pequeno comércio. Como toda cidade pequena, Dark Ville possuía uma Igreja na parte central, ruas pequenas cobertas por blocos de pedras em paralelepípedo, bares, mercados, escola e a sede da prefeitura, que ficava no sentido noroeste da cidade. Para chegar a Dark Ville, o viajante deveria percorrer 50 km saindo da rodovia principal. A estrada que leva até a entrada da cidade, apesar da falta de asfalto, não impede nenhum visitante de chegar ou sair. Após dirigir por aproximadamente uma hora e quinze minutos, o visitante avista o portal da cidade dando-lhe as boas-vindas, “Dark Ville, a cidade do ferro”. Essa entrada fica na região sul e é o único meio de acesso à Vila. A oeste um lago de águas turvas banha o local, os ventos fortes característicos da região deixam suas águas agitadas e muitos já afirmaram terem visto monstros sobre as marolas. O mais provável é que não passasse mesmo de lixo jogado pela população que não tinha um serviço digno de coleta. A leste a densa vegetação de perobas, cedros e outros cultivos descem o Morro da Neblina e ameaçam invadir a cidade. Ao norte, uma imensa construção deita sua sombra pela cidade. O antigo galpão localiza-se em uma altitude acima do resto da cidade e afastado desta, como se fizesse apenas parte da paisagem. Ao redor árvores e o lago, mas a visão mais sombria era olhar para seu imenso galpão marrom e as duas torres derramando fuligem sobre a cidade. Conforme a tarde caía, os moradores seguiam para suas residências. As tarefas que não haviam sido concluídas deveriam aguardar pela manhã seguinte. Os moradores trancavam suas portas e janelas, recolhiam os animais de estimação e permaneciam no mais completo silêncio possível. Um “clec” seco foi ouvido quando o ponteiro marcou dois minutos para as 18 horas. Grande parte das casas se concentrava nos arredores da Praça da Igreja e o som emitido pelo velho relógio podia ser ouvido dentro das casas e dos corações de seus moradores. As famílias estavam reunidas, mãos dadas em oração silenciosa, quando ao longe ouvese um grito embargado de pânico. Uma mulher de nome Mônica vinha correndo pela estrada Conde Marco, uma estrada que dava acesso à Residência do Prefeito, quando chegou ao Centro da Vila gritando por socorro. No mesmo instante em que apontavam as 18 horas no relógio da cidade, parou em frente à primeira casa e começou a esmurrar com as duas mãos a porta pedindo que a deixassem entrar. A família Smith, uma das mais antigas da cidade, estava toda dentro do quarto no segundo andar: marido, mulher e quatro filhos de mãos dadas. O filho menor do casal começou a chorar com todo aquele barulho à sua porta, a Senhora Smith aconchega o pequeno John de três anos em seu colo e olha de canto de olho para seu esposo, que fala a toda família como aquele que tem a sensação do dever cumprido: — Ninguém deve estar na rua a este horário, todos sabemos das obrigações a cumprir. Do lado de fora o Sino da Igreja tocava sua terceira badalada, e Mônica com as mãos vermelhas de bater na porta, abandonava a tentativa de ser acolhida pelos Smith. Contorna então a praça, vê a pesada porta de madeira da Igreja e segue ofegante quando ouve a última badalada. Estava correndo para a parte sul, mas antes mesmo de chegar ao final da rua, escuta o alto som de aço contra aço, de máquinas trabalhando. Vira-se e pode ver as chaminés acesas, uma escuridão cai sobre a cidade como duas grandes asas

que se levantam em formato de sombra do galpão, cobrem toda Dark Ville, o playground abandonado, a sede da prefeitura, a casa do prefeito e avançam cada vez mais ao sul. As águas do lago se tornam ainda mais escuras e logo todos os limites da cidade estão cobertos. A única coisa que parece impedir a entrada da sombra é a neblina vinda da parte leste. Porém a neblina era tão convidativa quanto a própria sombra. A cidade toda estava às escuras quando Mônica chega trôpega à estátua do Ferreiro no início da Praça da Igreja. Nesse momento, na nuvem de sombras, um turbilhão ligando a terra ao Céu se forma, dentro dele ouviam-se gritos e a sensação de frio e morte toma conta de Mônica que, com a pele pálida e paralisada pelo medo, vê sair de dentro uma sombra com formato de homem, não era possível descrever sua face. O azul dos olhos da figura mirou Mônica, que com as costas apoiadas na estátua, esperou a aproximação da escuridão. Foram poucos instantes que em sua mente pareceram anos, toda sua vida passou por seus olhos. Ela se lembrou de cada bom e mau momento passado ali, desde quando chegou há doze anos esperando uma melhoria de vida naquela que era a cidade das novas oportunidades, assim como a maioria que ali vivia, que tinha esperança de um bom emprego e de dar educação melhor aos seus filhos, crescer na carreira e viver com mais conforto. Isso tudo antes da Sombra cair e levar suas esperanças. Sabia que era o fim para ela, porém não era o mesmo fim que queria a seus filhos. Seus pensamentos foram interrompidos com o toque gélido da sombra, que segurou forte em seu braço direito e alçou voo em direção à nuvem negra. Em seus últimos momentos Mônica gritou a todos que estavam trancados dentro de suas casas sem nenhum auxílio trazer a ela: — Vocês pensam que têm segurança atrás destas paredes? A sombra já pegou a todos e dia a dia leva mais suas almas e os deixa vivendo como marionetes... Logo em seguida era engolida pela noite e o silêncio voltava a Dark Ville. II. A iluminação do local era precária, a densa escuridão consumia as energias e esperanças daqueles que estavam ali dentro. O negrume do galpão transmitia uma sensação palpável, sabiam que por onde andassem a Sombra os observava, não se via a forma corpórea dela, ao mesmo tempo em que Ela parecia estar em todas as partes, vigiando, ouvindo, sentindo seus sentimentos e próximas ações. Atrás daquelas paredes estavam todos que moravam na cidade, jovens, adultos, crianças ou idosos, a cada um era atribuída uma função. Mulheres e crianças eram postas em uma parte externa, onde se armazenava o material, eram toneladas de pedras de carvão formando morros que nunca diminuíam de tamanho, mesmo dia após dia de trabalho. Começavam sua rotina com a roupa do corpo, limpa e bem cuidada, mas em menos de uma hora após o início, já não se podia identificar o próprio filho. Passavam a ser pedaços de carvão, com roupas imundas e a pele coberta por uma crosta de sujeira. Respiravam a poeira levantada pela movimentação das pedras, o sabor amargo da fuligem na boca e seus sentidos iam se tornando negros como a pedra. Estes eram considerados a Última Casta, seu dever: abastecer a carriola com pedras de carvão para os fornos. A Terceira Casta cuidava da reposição do carvão nos fornos. Era composta pelos homens mais jovens e de bom vigor físico do vilarejo. Após estar abastecida, empurravam o carrinho por dentro da fábrica, cada abastecedor tinha sua rota certa, um claustrofóbico corredor de cem metros até a área de queima. Dois repositores eram impedidos de seguir pelo mesmo trajeto e, ao entrar em sua rota, encontrava à frente apenas sombras, mal se podia enxergar o que os aguardava metros adiante. Seus instintos aguçavam, o medo era constante dentro daquele corredor. Sua visão ia se

adaptando à falta de luz, seus passos aceleravam. Quando se deparavam com um ponto de luz vindo do teto, preferiam passar ainda mais rápido, pois sabiam que, se olhassem nas paredes, encontrariam pinturas de tortura, escravidão e morte. Ao chegar ao final do corredor, saía-se em um grande salão abobadado, onde dezenas de fornos queimavam o carvão. Diferente de todo o resto, lá havia iluminação, uma claridade gerada pelo fogo. Um calor não encontrado nem nas partes mais quentes do planeta abraçava a todos que ali entrassem. Os abastecedores conviviam com as mudanças térmicas, do ar gélido das áreas externas ao calor do salão dos fornos, a sensibilidade de seus corpos ia sendo levada. Sempre estavam em um extremo ou em outro, entre o frio e o calor, enquanto que o caminho que estava no meio parecia-lhes sombrio e não conseguiam permanecer por muito tempo neste. Deixavam a carriola carregada em frente ao forno, onde outra já vazia esperava para ser novamente completada. Em frente a cada forno, senhores com idade mais avançada tratam de manter o fogo aceso. Diferente das Castas anteriores, cada queimador usava a mesma roupa, um macacão em jeans azul-escuro, uma camiseta de manga curta vermelha e nos pés uma pesada bota preta. O vigor de seus corpos já não era o mesmo e problemas de saúde abatiam quase todos os queimadores. Ainda assim defendiam com todas as forças suas funções. Acreditavam que estar ali era um privilégio entre as outras funções e cumpriam com a tarefa mais alta: não deixar o fogo apagar. Seu nobre trabalho se resumia em abrir uma pesada tampa composta de quatro colunas de ferro e, com a ajuda de uma pá, jogar o carvão para dentro do orifício aberto pela descida da tampa. Por vezes algumas labaredas colocavam dedos de fogo para fora dos fornos. Essas labaredas passavam muito próximo ao rosto daquele que a alimentava. Parece que, no íntimo, o carvão já não saciava a fome do fogo, ele queria também o sabor da carne humana. Alguns dos moradores mais antigos de Dark Ville eram encarregados de observar e garantir que o trabalho destinado era realizado pelos demais. Vestiam trajes negros da cabeça aos pés, se confundindo com a escuridão que rondava em cada canto, sobre os ombros uma peça em ferro fundido com o formato da cabeça de uma águia, conectada por uma fivela a dois martelos em X na altura do peito, na cintura um chifre oco vinha amarrado. O patriarca da família Smith desempenhava bem seu papel como Regulador da Ordem, tinha uma dúzia de fornos sobre sua responsabilidade, nunca nenhum deveria parar de queimar. Há duas noites um dos abastecedores havia caído no corredor devido ao cansaço e ficou ali por vários minutos, o fogo foi baixando e começando a minguar. Henry Smith, com o suor molhando sua testa pela preocupação, procurava pelo garoto Willian no corredor. Encontra-o sentado embaixo de um feixe de luz, costas apoiadas em uma parede e olhos fixos na outra. Henry pega a carriola e leva o mais rápido que pode para o forno vinte e três. Em seguida, o garoto Will, entra trôpego e com os olhos aguados: — Me perdoe senhor, caí de cansaço. Prometo-lhe que não acontecerá novamente. — Willian, todos temos obrigações a cumprir, você sabe das suas e não faz. Maus exemplos devem ser punidos. Retirando o chifre amarrado à cintura, assopra em direção a Will. A sensação gélida que atravessou seu corpo, o rosto pálido e a expressão de medo eram mais aterrorizantes do que o rugido emitido pelo corno. Ao terminar o som, duas sombras se levantaram do chão arrastando Will para os andares de cima e naquela noite ninguém mais o viu. O chifre, sempre que soado, também servia como uma ordem não dita para

que todos voltassem ao trabalho. Sua densa música incutia a vontade de seguir em frente com suas tarefas. Com o chegar da meia-noite, um sinal soava. Esposas e filhas de Dark Ville entravam nos locais de trabalho servindo uma pequena porção de ração e um copo d’ água para aqueles que ali trabalhavam. Essa era a única pausa do dia, por um quarto de hora, deixavam-se de lado pedras, carrinhos, pás e chifres para sanar a necessidade mais básica do corpo e vencer a luta pela subsistência. A ração é simples, composta por uma porção de arroz branco misturado ao feijão e farinha. Mesmo simples, era indiscutível que todos voltavam com mais força ao trabalho após a pausa para a refeição. Se devido a só restar mais metade da noite, ou por verem muitas vezes rostos conhecidos das esposas e saberem que estavam bem, ou pela rápida troca de palavras com um colega ao lado, ou mesmo algo mágico que existia naquela ração, a porção era pouca, mas trazia consigo uma lembrança de algo do lar, sua cidade banhada pela luz do Sol e não pelas sombras da noite. O calor da vasilha de metal onde todos se serviam atravessava das mãos para os corações de cada trabalhador, afastando as sombras por alguns momentos. O resto da madrugada se passou de forma rotineira, com a movimentação do carvão até os fornos e sua queima, mas para Raul, filho de Mônica, aquela noite era ainda mais escura. Há poucas horas sua mãe havia sido levada, não sabia se a encontraria outra vez, mas precisava saber o que havia acontecido com ela. Foi repreendido diversas vezes naquela noite pela demora para abastecer o forno. Às vezes parava e fazia sempre a mesma pergunta — Viu minha mãe em algum lugar? Na maioria das vezes ficou sem resposta, por outras apenas um “não” ouviu da boca de quem era questionado. Quando restavam poucos minutos antes das seis horas da manhã, parou sob um dos feixes de luz e por uma pequena rachadura no teto ouviu uma voz que lembrava ser a do prefeito conversando com um estranho. Permaneceu em silêncio para tentar ouvir algo. — O que devemos fazer com ela, meu senhor? — questionou o prefeito ao outro. Uma voz rouca vindo da garganta respondeu: — Ela deve ser queimada. Sons de passos deixando a sala foram ouvidos e nenhuma outra palavra foi dita. Raul voltou pelo corredor e o que presenciou era a chegada do amanhecer, as nuvens negras davam lugar ao azul do céu, as sombras deixavam a fábrica, tudo voltava ao normal. Suas paredes, antes negras, mostravam agora uma pintura já gasta pelo tempo. O rosto das pessoas voltava a se iluminar com a entrada dos primeiros raios de Sol.

Estes capítulos são parte integrante da obra: Quando as Sombras Caem, com todos os direitos reservados ao autor Carlos de Paula. É proibido o uso sem prévia autorização do autor. A obra final pode ser adquirida pelo site: www.ouroborostreinamentos.com Outras obras do mesmo autor podem ser adquiridas: http://www.clubedeautores.com.br/book/146933-Ebook_Coaching_como_ferramenta_de_transformacao ou http://www.amazon.com.br/Coaching-como-ferramentatransforma%C3%A7%C3%A3o-ebook/dp/B00DFP3QOO/ref=pd_rhf_gw_p_t_1_KHED

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