A realidade e o futuro do feminismo islâmico

10/04/2013 | Filed under: Cultura, Feminismo and tagged with: movimento feminista, Religião, tradução
Texto de Rachelle Fawcett. Tradução de Simone Andrea. Originalmente publicado com o título: The reality and future of Islamic feminism, no site Aljazeera. —– No que consiste um feminismo islâmico e para onde vai? Em alguns círculos muçulmanos, a palavra com ―f‖ (feminismo) levanta tanto tensões quanto sobrancelhas, imediatamente evoca representações de mulheres dominadoras, raivosas e que odeiam a família. Mas, como outras imagens que acodem à mente com a menção de qualquer rótulo – inclusive a imagem da mulher oprimida que frequentemente se vislumbra quando alguém escuta a palavra ―muçulmana‖ – essa reação visceral está baseada em estereótipos que podem ser verdadeiros num contexto social e histórico muito específico, mas não fazem sentido quando comparados com uma realidade mais ampla, portanto, não justifica a hostilidade que desencadeia. Enquanto a retórica popular islâmica gaba-se da libertação da mulher com o surgimento do Islã há mais de 1.400 anos atrás, a repetição contínua dessa história nada faz para aliviar o sofrimento das mulheres hoje, exceto voltando ao princípio, a partir do texto fundador do Islã, o Corão. Mas o que é o ―feminismo islâmico‖, como se desenvolve e quais são os seus atores? Dra. Margot Badran, formada pelas universidades de al-Azhar e de Oxford, define o ―feminismo islâmico‖ nestes termos: … uma definição concisa do feminismo islâmico é colhida dos escritos e do trabalho de protagonistas muçulmanas por meio de discursos e práticas feministas, que extraem sua interpretação e missão do Corão, buscando direitos e justiça dentro do contexto de igualdade de gênero para mulheres e homens na totalidade de sua existência. O feminismo islâmico explica a ideia de igualdade de gênero como algo que faz parte da noção corânica de igualdade de todos os insan (seres humanos) e reclama a implementação da igualdade de gênero no Estado, nas instituições civis, no cotidiano. Ele rejeita a dicotomia público/privado (a propósito ausente na jurisprudência islâmica dos primórdios, ou fiqh) conceituando uma umma holística na qual os ideais do Corão operam em todos os espaços.

Os principais palestrantes: Amina Wadud. apresentado por Summar Shoaib. mas a crença central no direito do homem mandar na mulher nem sempre é parte dessa discussão. Por exemplo. Khaled Abou el Fadl. a filha do Profeta Maomé. a questão central – o que a ―igualdade‖ significa e como se expressa – prossegue largamente ignorada. estão sendo vigorosamente debatidas. Nenhum workshop foi desperdiçado em tecnicalismos sobre o véu ou em discussões desgastadas acerca de o Islã liberar as mulheres com a proibição de infanticídios de meninas ou o direito das mulheres à herança (que não foi totalmente obedecido nem no tempo de Maomé). Em tais contextos. Derivada dessa definição básica. estudantes e professores recordaram a história que sempre se menciona somente de passagem. enquanto questões mais amplas. na sua essência. inspirado no conceito corânico de igualdade de todos os seres humanos e que insiste na aplicação de sua teologia na vida diária. ou apertar as mãos de homens que não são da família. Nitidamente. Contar histórias torna-se um meio de força que proporciona uma base e um apoio para as mulheres. a violência doméstica é errada porque causa dor.Esta é uma distinção importante. Em ―O Milagre de Bibi Fatima: Consagração e Autoridade Feminina‖. Ensinando o que conta Este ano. Ao invés disso. Pelo contrário. retórica clichê e argumentos simplistas. . criando feminismos que têm diversos rostos. sofrimento e é injusta. os workshops e os estudantes que os apresentaram demonstraram a complexidade e a diveersidade dos movimentos de mulheres. Frequentemente. novos e antigos. como violência doméstica. questões femininas são trivializadas em usar ou não o véu. mulheres transmitiam histórias de Fatima. Kathleen Moore e Asma Sayeed falaram sobre a inclusão como direito e necessidade para a autoridade moral da pessoa e a história das mulheres nas tradições jurídicas islâmicas. através dos laços de parentesco forjados pelo ato de contar histórias além da tradição que são passadas adiante. um feminismo ―islâmico‖. no mundo muçulmano. movimentos. o tema da 3ª Conferencia Anual de Estudantes de Graduação em Estudos Islâmicos foi ―Reconstituindo a Autoridade Feminina: a Participação da Mulher na Transmissão e na Produção do Conhecimento Islâmico‖. não-históricos. aparecendo e ajudando outras mulheres com preces especiais. personalidades. ou através de poucas figuras históricas chaves. e. mas sim um que encaixa a teologia islâmica nos textos e nas tradições canônicas. ―Feminismo islâmico‖ não é simplesmente um feminismo nascido em culturas islâmicas. foi nesse foro que o futuro do feminismo islâmico esteve bem representado. O Islã ―puro e simples‖ no qual as questões femininas são amenizadas com desculpas ou simplificadas como terciárias ou subalternas não foi encontrado em lugar algum. encontramos uma pletora de diferentes interpretações. projetos. mulheres passam adiante o conhecimento religioso numa tradição matrilinear que funciona como um canal para o ativismo religioso.

mas a sociedade em larga escala . Em alguns contextos. Um exemplo é o de Ani Zonneneveld. enquanto em outros as mulheres conquistam e encontram seu próprio espaço para desafiar os dogmas tradicionais. também em outros contextos. prioridades e recursos. através de sua busca intelectual do passado e do discurso voltado ao futuro. foi uma parte pequena. Eles eram exemplos do conjunto misto de ―feminismos islâmicos‖ no Mundo islâmico. que promove paz e justiça social. da linhagem contínua da sabedoria feminina no Islã. musicista e co-fundadora do ―Muçulmanos por Valores Progressistas‖. Mulheres em todos estes contextos estão encontrando as tradições baseadas em suas respectivas culturas. isto significa discutir direitos fundamentais como libertação da violência. adorar e estar com Deus. criando um retrato bem acabado do movimento global no qual as mulheres criam seu próprio caminho para o conhecimento e avançam com ele. através da criação de mesquitas inclusivas e da expressão de ideais igualitários através da música islâmica como meio de adoração. necessidades. este grupo diversificado de estudantes. Foto de Mohamed Omar/EPA. a questão central do que significa ―igualdade‖ e como se expressa continuam largamente ignoradas.Atendo-se aos padrões acadêmicos. redescobrindo a história feminina do Islã e o lugar para o discurso futuro. mas importante. pela criação de um espaço inclusivo para rezar. Enquanto as questões das mulheres no mundo islâmico estão sendo debatidas. Impactando não apenas mulheres.

um feminismo intrinsecamente dotado de competência (trans)cultural. bom trabalho e piedade – não gênero – sejam os fatores decisivos da autoridade social. através da retórica pela qual elas se formarão. talvez. uma vez que o Islã. está em busca de uma estrutura social igualitária em que caráter. e portanto as necessidades. portanto. o talento e as aspirações (que tanto podem ser tornar-se uma astronauta ou uma mãe de 10 crianças) das próprias mulheres. e a presença dessas mulheres não significava. Como o cerne dessa ética se define pode variar de acordo com o contexto. desde que o núcleo essencial da ética islâmica não seja violada. a razão principal da hostilidade e raiva com que esse movimento se depara. Uma ―vida plena‖ não pode ser definida para elas. É sociologia elementar entender que as mulheres são frequentemente as fundações da cultura. O argumento hierárquico é que as mulheres teriam uma ―vida plena‖ somente se aceitassem seu ―lugar natural‖. a ―estabilidade‖ da sociedade é frequentemente associada com a permanência das mulheres em seus lugares ―próprios e naturais‖. Mas. Daí. ao contrário. como Khaled Abou el Fadiargumentou em sua exposição na conferncia de Santa Barbara. Pode ser dito que a maior tarefa do feminismo islâmico é separar cultura de religião. presumidamente. mas . desafios às crenças tradicionalmente baseadas na autoridade não encontram um diálogo inteligente e bem informado. porque elas são as primeiras professoras e mantêm laços estreitos com a próxima geração. que esteja aberto à busca contínua da verdade e justiça. Ademais. Em alguns contextos muçulmanos. mais do que acreditar na tradição ou num feminismo proliferado – como especificamente o feminismo ocidental – insistem num retorno ao Corão e no emprego de princípios de análise contextual e racional. É em tais debates que as feministas islâmicas. mas as tentativas de definição irão ajudar a espalhar uma discussão mais ampla. cada ser humano tem direito a uma autoridade moral que não pode ser realizada se é proibido de ter uma vida plena. mas sim com a suspeita e hostilidade daqueles que procuram declarar um Islã único e ―verdadeiro‖. necessariamente. da autoridade. como discutido antes. dependendo do contexto. que questionem crenças tradicionalmente aceitas acerca das mulheres. da hierarquia e. dependente da estrutura social apoiada na hierarquia de gênero. Numa certa época da História islâmica não foi incomum ver mulheres muçulmanas instruídas ou devotadas. mas sim. esta ―estabilidade‖ não é a estabilidade da sociedade.Um feminismo islâmico é. que elas concordassem com os papeis das mulheres. que possa eliminar as desculpas e discutir as causas fundamentais. O feminismo islâmico. não está em busca da hierarquia com as mulheres no seu topo. em geral. é uma tradição profundamente diversificada e permite flexibilidade. Esta é. assim como não concordamos hoje. mas esse argumento omite a definição.

foi um esforço para ―dispersar‖ a instituição (torna-la mais secular. O autoritarismo do Islã puritano. Ademais. as mulheres encontram sua base e suporte num discurso feminino islâmico. ao revés. juntamente com outros esforços no mesmo sentido) e ―abrir um racha‖ pela aceitação de mulheres. isto vai mudando social e demograficamente. no qual as próprias mulheres são os agentes da mudança. Através da recuperação dessa história. As mesmas estruturas e princípios nucleares utilizados para oprimir as mulheres. são utilizados para promover o terrorismo e o ódio em nome do Islã. Da mesma forma. da sabedoria islâmica. como Margot Badran me explicou. a escada para um envolvimento teológico maior. especialmente meninas. O impulso para o igualitarismo inclusivo Algumas pessoas. como um movimento de bases. que fez surgirem movimentos como o Talibã. criou uma oportunidade para que mulheres tivessem acesso a formas tradicionais de instrução islâmica que acabaram por levar as mulheres estudantes à universidade. com a queda gradual dos regimes autoritários em alguns países de maioria muçulmana. na essência. no inicio dos anos 60. pelas mulheres. Isto faz surgirem organizações. quando o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser forçou al-Azhar. Aos poucos. definiu como sua missão especial controlar totalmente as mulheres. as lutas com foco nas mulheres não impactam somente nelas. e esta é a arena na qual os maiores abusos da teologia islâmica são mais evidentes. intuem que o ressurgimento das mulheres nos campos da história e da teologia islâmica acontece naturalmente. e cria o que é. como a organizadora da Conferência da Universidade da Califórnia. legislação e esforços internacionais para libertar as mulheres da . Para usar o exemplo dela. Dessa forma. mas. a aceitar mulheres. mais do que uma compreensão secular de direitos humanos. mas na sociedade como um todo. como vimos (acontecer) com Malala Yousafzai. com elevado grau de credibilidade. a primeira universidade islâmica. que foi baleada por promover a educação de todas as crianças. veem-se mulheres trabalhando nas comunidades e em contextos institucionais e sociais que utilizam a religião. as mulheres estão voltando para a escola e desafiando o discurso que as oprimia. Nesses movimentos de base.sua existência criou uma teologia mais equilibrada e acessível. Mas esta mudança também está acontecendo na política. uma vez que os Estados podem desempenhar um papel na articulação da transmissão. o bem que advém de combater e desafiar esses estruturas vai muito além das mulheres. como sua diretiva pela mudança. Samaneh Oladi.

No futuro. e algumas pelo retorno ao começo. ou mesmo criando mesquitas inclusivas. O feminismo islâmico é um processo em desenvolvimento. talvez o feminismo islâmico se depare com instituições sociais mais fortalecidas. do mesmo modo que seria igualmente incorreto buscar uma nova palavra para ―muçulmano‖. pode não funcionar no Afeganistão rural. quem o constrói e o estrutura. o que funciona para as muçulmanas do Sul da Califórnia. em qualquer via possível. A realidade do feminismo islâmico como um movimento global. e é como devem ser. permitamos-nos alcançar uma compreensão mais aberta e ampla do que é o feminismo islâmico. e nem este. de preferência. Evidente que as realidades do que é o ―feminismo islâmico‖ e como ele é vivido são muito complexas. a hierarquia é intrinsecamente injusta e reestrutura-se melhor num igualitarismo inclusivo. Como elas se expressam e até onde isso as levará dependerá das mulheres em seus contextos específicos. até o apoio a imans femininos – encontram oposição social e institucional. a fim de evitar a dificuldade automática que advém de estereótipos populares. talvez através de uma tradição de contar histórias há muito estabelecida. Assim como se dá com as teorias feministas seculares. o próprio Corão. além de recursos . não apenas em benefício das próprias mulheres. em Estados que não podem calar a autoridade religiosa feminina. no qual as mulheres voltam-se ao Corão e as tradições proféticas para defender que as mulheres são seres humanos por inteiro e iguais aos seus parceiros masculinos. Seja de forma orgânica ou política. ou por quaisquer outros meios. Podem haver algumas que se auto-intitulam ―feministas islâmicas‖ e insistem na restruturação da hierarquia com as mulheres – em vez de com os homens – no topo. mulheres envolvidas em vários esforços – desde a criação de abrigos para muçulmanas. que inclua não só as mulheres.opressão através da educação. nem aquele há de ditar ―feminismo‖ ao outro. subordinadas aos homens. mas de toda a humanidade. no qual partimos do direito à vida e à autoridade moral e pessoal para irmos além. dos serviços de saúde e de ajuda econômica. No Ocidente. as mulheres estão reclamando seus espaços no discurso islâmico e mudando sua realidade. Aliás. e dos caminhos diversos e complexos percorridos. mas todos os seres humanos invisíveis ou deixados de fora dos lugares islâmicos tradicionais. mas estas são minoria. mas prosseguem no mesmo padrão de empregar os textos e a tradição teológica islâmica para rebater argumentos baseados na religião de que as mulheres devam ser. como Muslimat al-Nisa em Nova Iorque. Não precisamos de uma nova palavra para substituir ―feminismo‖.

No sistema educacional anglo-americano. que una o texto à tradição. . ao passo que um diploma em ―ciência‖ implica numa compreensão profunda e técnica da matéria estudada. MA. de nossos companheiros homens. viveu no Iêmen e no Egito. então o futuro é claro também. fala e faz apresentações sobre o feminismo islâmico. literalmente. ―Mestre em Artes‖. Juruá) e escreve no blog Simone Andrea. * No texto original. Simone Andrea é autora de ―Direitos da Filha e Direitos Fundamentais da Mulher‖ (Ed. talvez vejamos o renascimento da sabedoria acadêmica feminina (que nunca foi totalmente destruída) no Islã. Se este é o rumo para o qual estamos indo.que apoiem as mulheres e o fim de desculpas esfarrapadas. A expressão nada tem a ver com ―artes‖ em sentido estrito. —– Rachelle Fawcett está completando seu Mestrado* em Estudos Islâmicos no Seminário Hartford. para continuamente buscar a justiça ao lado. sobretudo. e escreve. mas. sigla que significa. e não acima. um diploma em ―artes‖ significa que o aluno está focado numa ampla area de aprendizado e discussão. pluralismo e teologia crítica. competência (trans)cultural.

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