UNIVERSIDADE REGIONAL DO CARIRI – URCA

ANDRÉA KAROLINE SOUSA DA SILVA

A COMPREENSÃO DO CONCEITO E CATEGORIA GÊNERO: AS COMPLEXAS RELAÇÕES DE GÊNERO EM A HORA DA ESTRELA E NAVALHA NA CARNE

Crato, Junho de 2013

UNIVERSIDADE REGIONAL DO CARIRI – URCA ANDRÉA KAROLINE SOUSA DA SILVA A COMPREENSÃO DO CONCEITO E CATEGORIA GÊNERO: AS COMPLEXAS RELAÇÕES DE GÊNERO EM A HORA DA ESTRELA E NAVALHA NA CARNE Monografia elaborada para disciplina de Português Instrumental para aproveitamento de créditos. Junho de 2013 . Professor Ministrante – Edson Martins Crato.

UNIVERSIDADE REGIONAL DO CARIRI – URCA Título do Trabalho: A compreensão do conceito e categoria gênero: As complexas relações de gênero em A hora da estrela e Navalha na carne. Dr.Edson Martins Orientador . Autor: Andréa Karoline Sousa da Silva Apresentada em:___/___/______ Conceito obtido:____________ ___________________________________ Prof.

” Rabino Jonathan Sacks . eu aprendi a amar a humanidade em sua diversidade. Cada uma contribuiu com algo único para a experiência humana. Em paz comigo mesmo. Mas esta é a nossa. a nossa herança. o nosso povo.“Existem outras culturas. Cada uma. outras civilizações. outros povos. estou em paz com o mundo. foi a escolhida. outras religiões. Esta é a nossa fé. Amando-os. de acordo com sua própria perspectiva.

embora eu não supere expectativa alguma dele. ao meu marido. sempre. E inexplicavelmente. Ao professor Edson Martins que engrandeceu o meu conhecimento e o meu interesse pela arte literária. Ao meu esposo que me ajudou na minha própria diáspora em busca de um lugar pacífico onde eu pudesse escrever e expressar a minha identidade. . dentre muitos outros.AGRADECIMENTOS Aos seres fictícios que me fizeram companhia nos momentos em que o intelecto pedia uma pausa fruitiva: Hannibal Lecter. por conta da insuficiência de qualquer léxico. Leonardo d’ Vinci. Daenerys Targaryen.

e muitas vezes se acomodam à situação de opressão dos relacionamentos de gênero. Essas literaturas começam a questionar valores que até então não eram discutidos. A literatura no Brasil traz em sua essência a representação das questões de gênero e o questionamento sobre a construção da identidade em meio à desagregação do mundo moderno. Palavras-chaves: Clarice Lispector. . Colocando em cena protagonistas que muitas vezes se rebelam contra os valores de uma determinada época. tomando como objeto de estudo os personagens feminino e masculino e o personagem homossexual em obras dos autores Plínio Marcos e Clarice Lispector. o casamento. Plínio Marcos e Estereótipo. sexo e o lugar da mulher e do homem na sociedade. tais como a família.RESUMO Esse trabalho tem como objetivo analisar as relações de gênero e a construção da identidade feminina e a questão do estereótipo do homossexual masculino.

such as family. . and often settle the situation of oppression of gender relationships. Plínio Marcos and stereotype. The literature in Brazil has in essence the representation of gender issues and questions about the construction of identity through the breakdown of the modern world. Key-words: Clarice Lispector. taking as object of study of the characters and the female and male homosexual character in the works of authors Plínio Marcos and Clarice Lispector.ABSTRACT This work aims to analyze gender relations and the construction of female identity and the question the stereotypical gay man. sex and place of women and men in society. Putting on the scene protagonists who often rebel against the values of a particular time. marriage. These literatures are beginning to question the values that hitherto were not discussed.

..................... Conclusão ....................................................................................................................................................................... Conceito de gênero ...................... 6 5............................................................... 3 4............................................................... 8 6.O gênero em Navalha na Carne.......................................................................... 2 3.................................SUMÁRIO 1. Referências bibliográficas ................ O gênero em à Hora da estrela......................................... Introdução ................................................. 1 2................................................................................ 9 ...................................

tende a fazer uma breve leitura dos papéis atribuídos a homens e mulheres na sociedade. numa tentativa de explicar sua situação na sociedade. A análise de gênero. A compreensão de um sexo não pode ser separada do outro. à submissão mais repressora e aos outros homens cujo comportamento diverge da moral androcêntrica. 1 .1. papéis sociais sãos produzidos. Introdução Estudos feministas têm incorporado muitas teorias sobre a condição da mulher. Nessa relação de desigualdade. uma vez que o discurso masculino produziu um sujeito doce. ou seja. No presente trabalho. aplica-se a teoria de gênero à obra A hora da estrela de Clarice Lispector (1977) e Navalha na carne de Plínio Marcos. que concentra o poder nas mãos do macho viril e dominador e subjugam o segundo sexo. A análise recai sobre os personagens Macabéa e Olímpico. em questão. tomados aqui como estereótipos construídos por uma cultura. a mulher. atribuídos e vivenciados pelos sexos em uma determinada época. sexismo. introduzindo discussões sobre androcentrismo. Neusa Sueli. Vado e Veludo. submisso e inocente.

o gênero encontra-se na esfera sociocultural. Conceito de gênero Gênero é um conceito útil para explicar muitos dos comportamentos de mulheres e homens em nossa sociedade. socialmente aceito e incorporado aos hábitos. de maneira alguma. de modo que. Assim. na família. a relação entre as mulheres e a relação entre os homens. que não mudam radicalmente. na vida política. ou seja. Quando falamos em sexo estamos nos referindo aos aspectos físicos. aquelas diferenças que estão nos nossos corpos e. Com isso se estabelecem também as ideias de como devem ser a relação entre homem e mulher. Na maioria das vezes o que é considerado masculino tem mais valor. costumes e comportamentos de um povo. o conceito de gênero implica em uma relação. na sua vida sexual e reprodutiva. 2 . biológicos do macho e da fêmea. as relações de gênero produzem uma distribuição desigual de autoridade. Desta forma.2. nos ajudando a compreender grande parte dos problemas e dificuldades que as mulheres enfrentam no trabalho. apenas se desenvolvem de acordo com. nas nossas sociedades o feminino e o masculino são considerados opostos e também complementares. É a partir da observação e do conhecimento das diferenças sexuais que a sociedade cria ideias sobre o que é um homem e o que é uma mulher. uma implica a outra. são duas categorias antagônicas e que se excluem. produzido pela cultura. A invenção da masculinidade e da feminilidade não se dá por acaso. de poder e de prestígio entre as pessoas de acordo com seu sexo. as chamadas representações de gênero. mas resultado de um discurso sexista que é gestado na história. não é uma realidade fatalistica. as etapas das nossas vidas. antes. Para as sociedades masculino e feminino têm valores diferentes. se o sexo pertence à esfera do biológico. ou seja a sociedade cria as relações de gênero. o que é masculino e o que é feminino. mas. É por isso que se diz que as relações de gênero são relações de poder. isto é. O gênero visto nessa perspectiva significa a organização social das diferenças sexuais.

também nordestino. eu sou fora de mim” (p. Namora Olímpico de Jesus. pois esta possuía tudo que Macabéa não possuía. sua única amiga. doentia. se um dia o fizesse. desnutrida.46). pois após a morte de seus pais. mas obedecem a toda uma lógica sócio-cultural-discursiva que tem origem no chão social em que pisam os personagens.3.33). O próprio narrador-personagem afirma que se trata de história exterior e explícita (p. e. O gênero em à Hora da estrela Macabéa é uma garota de dezenove anos de idade. A hora da estrela para Macabéa se dá quando é atropelada por um Mercedez Benz. conduziram e ensinaram a ser como é. Aprendeu a ser assim. desestabiliza o caráter de um sujeito único. As características das personagens não são dadas por acaso. Nunca se perguntou: quem sou eu?. Ela não nasceu da convenção social que a esperava antes mesmo de vir ao mundo. inexperiente. Ela é indiferente e ignora a própria identidade porque não a construiu nem lhe foi permitido participar desse processo. em processo. adaptado e independente. A narrativa de Clarice Lispector mitifica um período reprimido do sujeito feminino. representa uma inovação estilística ao deslocar-se do universo íntimo para a realidade objetiva e tocar questões sociais de maneira mais declarada. No decorrer da narrativa.. Se fosse criatura que se exprimisse diria: o mundo é fora de mim. para fazer surgir um sujeito feminino. Macabéa perde Olímpico para Glória. pobre. como é. nordestina oriunda do estado de Alagoas. A sua construção pessoal e sua feminilidade não foi ela quem as colocou. Só vagamente tomava conhecimento da espécie de ausência que tinha de si mesma. Macabéa desconhece a si mesma. 36). Incompetente para a vida.37). Num discurso que se movimenta fora da ideia de gênero. ela passa a viver com uma 3 . Faltava-lhe o jeito de se ajeitar. A narrativa A hora da estrela.. . “cairia estatelada e em cheio no chão”( p. sem atrativos. que trabalha como metalúrgico e sonha em crescer socialmente. que muda-se para o Rio de Janeiro. onde alimenta o sonho de ser estrela de cinema. suas qualidades profissionais e seu comportamento. Esse mundo já definira para si seu lugar social. múltiplo.ela “não se conhece senão de ir vivendo à toa” (p. foram estabelecidas pela sociedade que a criaram.

de onde viemos e o grupo social ao qual pertencemos. doença de pele (p. pois o nome dela associa-se à doença de pele.Me desculpe mas até parece doença.) ela é doce e obediente” (p.Bea. Macabéa é moldada para ser ingênua.48). O espaço cobiçado ou já ocupado por Olímpico e Macabéa é determinado. a vida doméstica. símbolo da fraqueza e debilidade. designa as leis e normas da sociedade.. Ela vê passar nas páginas da sua vida o discurso que a sociedade androcêntrica produz sobre a mulher e internaliza a imagem construída por seus dominadores. Olímpico delimita os lugares sociais a que ambos pertencem quando compara o nome Macabéa à doença de pele: . desafios e competições olímpicas que possibilita chegar ao pódio. “(.tia que. fica evidente na narrativa por aquilo que o personagem masculino tem e o feminino não tem. Assim sendo. Se por um lado. particulariza e diz quem somos. inocente. mecânico. se me permite. como: cuidar dos filhos.. irracional. 66) O nome de uma pessoa identifica. do marido e do lar. Maca. Diferentemente. além de maltratá-la. lugar e posição social. ao homem cabe o espaço público onde exerce o poder. No primeiro encontro. 4 .Maca – o que? . lugar dos fortes e grandes. ensina-lhe a cartilha do comportamento social adequado às mulheres. Macabéa não passa de doença de pele. qual é mesmo a sua graça? . nos padrões sociais pré-determinados agindo de modo automático. foi ela obrigada a completar. A partir da revelação do nome. . Olímpico remete-nos às lutas. Nesse momento da narrativa. mas informar sobre sua origem. As diferenças dos papéis sexuais e a má distribuição do poder entre os sexos. A ideia de que à mulher está reservado a casa.E.Macabéa . As implicâncias de gênero se fazem sentir a princípio no seu nome abreviado. dizer o nome significa não apenas identificar-se. virgem e obediente. Olímpico vê Macabéa de uma posição aforada. Ela torna-se mulher na medida em que se enquadra. Seu mérito está em baixar a cabeça e obedecer resolutamente. bem como os espaços.

e a teoria de gênero é apenas um desses tantos olhares que se pode lançar sobre essa obra. regulamentado e transmitido de geração em geração.A narrativa de Clarice permite múltiplos olhares. Macabéa e Olímpico reproduzem um modo de ser no mundo que configura um produto social (gênero) aprendido. 5 . Vistos nessa forma de gênero.

nem a censura nem o público em geral conseguiram perceber a relação angustiante. Vado. “puta nojenta”. por outro lado. se sente no 6 . Vado trata Neusa Sueli como sua propriedade e dirige-se à companheira usando termos como “puta sem-vergonha”. Vado (o cafetão) e Veludo (o camareiro). dolorosa e. “vagabunda miserável”.4. em última lírica das personagens Neusa Sueli (a prostituta). “vaca”. mas valioso retrato da vida dos que também vivem na ralé brasileira e desse universo particular. dividindo com seu homem o dinheiro que recebe de seus clientes. Quando Neusa retorna ao quarto. mas assume sua homossexualidade (referindo-se a si próprio no gênero feminino) e utiliza isso como força e gesto de afirmação de identidade. dando início aos diálogos iniciais da peça de Plínio Marcos. para isso. foram consagradas nos anos 1960 justamente por seu realismo e crueza na linguagem de palavrões e gírias e nos comportamentos agressivos e cruéis de seus personagens. uma vez que o camareiro não disfarça. Vado e Neusa Sueli mantêm uma relação com algumas peculiaridades: Ele é um cafetão e Ela. as relações orientadas pelo poder masculino. Veludo é talvez a figura de maior vigor dramático na história. modesto. O gênero em Navalha na Carne Navalha na carne mostra Neusa acordando e indo para a zona de prostituição. mas que Veludo aparentemente roubou quando limpava o quarto enquanto o cafetão dormia. “puta sem-calça”. estabelecendo um retrato — mesmo que sob a forma de um tipo — para personagens anteriormente inexistentes no teatro. pela necessidade de segurança no universo hostil e violento das noites de trabalho. Nessa situação. mas sabe que terá de arcar com as despesas do companheiro. Vado acorda e procura o dinheiro que a prostituta sempre deixava para ele. Não é por acaso que a interação entre elas revela. cuja dramaturgia muitas vezes se aproximou de um teatro de tipos ou mesmo um teatro alegórico e que. uma prostituta. Em seguida. Neusa Sueli elegeu Vado como seu companheiro. como “macho” e cafetão. recorre à proteção de um gigolô. mas. precisa sustentá-lo financeiramente. de forma caricaturada. As personagens pertencem a uma classe popular das mais miseráveis da sociedade brasileira. O relacionamento de ambos é mediado pela troca de favores. um pequeno. Preocupados somente com os princípios de uma moral burguesa. A prostituta que. encontra Vado furioso por não ter encontrado o dinheiro. É importante lembrar que Navalha na carne se baseia numa peça. Trata-se de um contrato claro nesse tipo de ligação.

direito de desprezar a mulher. pelo menos no que socialmente se representa como sendo um autêntico “machão”. e é com essa identidade que ele interage socialmente. Desta forma fica estabelecida. fresco. veado. ativo/passivo. Enquanto Vado pretende exercer seu poder de “macho”. que a “desigualdade” entre os gêneros é inquestionável. não deixando dúvidas sobre suas opções de prazer. trava um diálogo tenso com Vado. a relação “bofe/boneca”. valendo-se de uma forma verbal marcada pelo uso do feminino. portanto. chamando-o por termos que anunciam a orientação sexual do camareiro: bichona. então. por assim dizer. revelando em ambos atitudes de “homem” e atitudes não masculinas. agredindo-o com insultos que nos lembram uma ideia tipicamente masculina. furiosamente. Quando Veludo chega ao quarto. O cafetão. e Veludo é. Veludo não esconde sua identidade sexual. de ter roubado o dinheiro deixado sobre o criado-mudo. ostentando sua “homossexualidade”. trata Veludo de forma agressiva. assim como vem fazendo com Neusa Sueli. bicha. vítima de escárnio pelos que pertencem ao grupo de “homens”. enquanto ela o trata pelo diminutivo “Vadinho”. 7 . Vê-se. Veludo se opõe a ele. que o acusa.

Vado procura sustentar discurso e comportamentos típicos do “machão”. fica-nos a conclusão de que as próprias condições subumanas em que vivem as personagens masculinas lhes permitem agir conforme o instinto de sobrevivência. No entanto. 8 .5. no qual se insere o instinto sexual. símbolo da virilidade e da força. as imagens do “eu” que procuram ostentar. Essa imagem do nordestino vem sendo desenhada por uma extensa produção cultural desde o começo do século XX e sua relação com Macabéa é mediada pela simbólica do masculino. Olímpico reúne as características do típico macho nordestino e traz inscrito no seu genótipo existencial o padrão da masculinidade e o mito do nordestino “cabra macho”. mas se põe na relação com Neusa Sueli como aquele que é sustentado. a interação entre as personagens mantém. ainda que na superfície. Conclusão No que diz respeito às imagens masculinas. posição assumida pela mulher na ideologia hegemônica vigente à época. contrariando em muitos aspectos o que se representa do modelo de homem.

). São Paulo: Brasiliense. 1969. Universidade Federal Fluminense. Gênero em Debate: trajetória e perspectiva da historiografia contemporânea. FREIRE. In: SAMARA. O. E. (org. A Hora da Estrela. p. A. A Crise da Masculinidade nas Dramaturgias de Nelson Rodrigues. PLÍNIO. Breve história do feminismo no Brasil. S. L. Navalha na tela: Plínio Marcos e o cinema brasileiro. Tese de Doutorado. São Paulo: Record/Altaya. 1984. A. Atalhos e quebradas: Plínio Marcos e o cinema brasileiro. C. A escritura de Clarice Lispector. Referências bibliográficas LISPECTOR.6. R. 9 . 2008. Eni de Mesquita. Outras histórias: as mulheres e estudos dos gêneros – percursos e possibilidades. 2007. A navalha na carne. M. Rio de Janeiro: Tela Brasilis.UFPE. 83-114. Plínio Marcos e Newton Moreno. Niterói. Petrópolis: Vozes. 3ª ed. 2000. SIQUEIRA. 1997. et alli. Imagem e Informação. Universidade Federal de Pernambuco . São Paulo: EDUC. B. SÁ. TELES. Dissertação (Mestrado em Comunicação. M. 1993. Imagem e Informação)–Programa de Pós-Graduação em Comunicação.

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