You are on page 1of 5

Curso de Letras? Pra quê?

* Marcos Bagno Conferência de abertura do VII EBREL - Encontro Brasiliense de Estudantes de Letras (Brasília, UnB) proferida em 22/11/2012 Vou começar essa conversa com uma afirmação clara e simples: a situação dos nossos cursos de Letras é catastrófica. Qualquer um: seja de universidade pública prestigiada em grande capital, seja de pequena faculdade isolada no sertão, a diferença é pouca. É doloroso ter que admitir isso. É angustiante, para uma pessoa apaixonada pelo estudo da linguagem em todas as suas manifestações, ter de escrever essas palavras: os nossos cursos de Letras são uma catástrofe. Por quê? Para começar, o próprio nome — Letras — revela um apego a concepções de educação e de formação de cidadãos (no masculino mesmo) que vigoravam no século XIX e que, depois de tantas revoluções ocorridas nas ciências e nas sociedades humanas, não tem mais nenhuma justificação séria para continuar existindo. É deprimente saber que a pessoa que conquistou uma vaga num curso de Letras vai ingressar numa estrutura acadêmica obsoleta, anacrônica, que foi delineada há pelo menos duzentos anos. O estudo das “Letras” ou das “Belas Letras”, como também se dizia, era regido por ideias e ideais muito elitistas, aristocráticos (além de sexistas, já que as mulheres não estavam incluídas neles), por critérios antiquados de elegância e bom gosto, o que fica evidente já pelo uso do adjetivo “belas”. O que se cultivava e cultuava nas “Belas Letras” era uma literatura clássica, toda composta de autores devidamente mortos e enterrados: só merecia estudo a “grande” prosa, a “grande” poesia, a “grande” dramaturgia... Literatura oral? Nem pensar! Literatura alternativa, marginal, transgressora? Deus nos livre! Literatura escrita por mulher? Imagine! Desde quando as mulheres escrevem coisa séria? Literatura de autor vivo? De jeito nenhum: era preciso que ele fosse devidamente “imortalizado” pelas Academias de Letras (que não têm esse nome por acaso, já que também são instituições elitistas, anacrônicas e obsoletas). No que dizia respeito às línguas, o espírito (ou o fantasma?) era o mesmo. Só eram estudadas as línguas “clássicas” (o latim, o latim e principalmente o latim... o grego, só para os gênios mais ousados), as línguas modernas mais prestigiadas (o francês, o francês e principalmente o francês...) e, no tocante ao português, única e exclusivamente a língua considerada “correta”, “pura” e “elegante”, sempre colhida da obra daqueles mesmos “grandes” escritores. Com isso, o ciclo se fechava sem nenhum atrito nem aperto: “literatura” era só um conjunto seleto de obras que, por sua vez, eram escritas num modelo muito restrito de “língua correta” que, por sua vez, era a única manifestação merecedora do rótulo de “língua portuguesa”. Daí o nome de “Letras”: só o que era escrito, e escrito por poucos, era objeto de estudo. A Faculdade de Letras de Paris, por exemplo, oferecia os seguintes cursos quando foi criada, em 1808: Literatura Grega; Eloquência Latina; Poesia Latina; Eloquência Francesa; Poesia Francesa. Precisa de comentários? No que diz respeito ao estudo do português, é preciso lembrar que a inclusão da língua portuguesa como disciplina curricular (nas escolas e nas faculdades) só ocorreu no Brasil nas últmas décadas do século XIX, já no final do Império. Tratado exclusivamente em sua vertente literária consagrada, o português era estudado com a mesma metodologia empregada para o estudo das línguas mortas: dissecado em frases soltas, por sua vez dissecadas em seus elementos constitutivos que eram devidamente rotulados de acordo com as classificações herdadas da gramática grega e

Assim. saindo da . Não é por outra razão que o nome do curso permaneceu intacto. deixamos de lado todo um conjunto de teorias e práticas que são de primeiríssima necessidade para que alguém que se forme em “Letras” possa trabalhar em conexão com o que se espera. como muitas pessoas costumam fazer em suas casas: para não ter de derrubar um imóvel e reconstruí-lo de maneira a torná-lo adequado aos fins que se deseja para ele. mas iludidos. ao ano de sua criação (1976).. outra ali. os cursos de Letras começaram a se tornar o que são até hoje: verdadeiros Frankensteins acadêmicos. no âmbito de um projeto universitário inovador para a época. Os estudos científicos foram sendo incorporados aos cursos de Letras no Brasil de maneira desordenada. Mesmo assim. acreditam que vão formar futuros linguistas. mais algumas acolá.. bem intencionados. Nada disso. Letras! Em vez de se promover a implosão do curso de Letras. ao mesmo tempo. um dos formuladores do currículo escreveu que era preciso ensinar português correto aos brasileiros porque falavam muito mal a língua. mesmo com a anexação de disciplinas provenientes de perspectivas científicas mais atualizadas. Com o surgimento da ciência linguística moderna. Está lá. poderíamos imaginar que uma grande revolução abalaria essa arquitetura aristocrática. derrubando os velhos templos beletristas neoclássicos. e seu caráter excepcional se deve. aconteceu. como professores. onde a ciência poderia transitar à vontade. porém. totalmente inadequado para abrigar as novas concepções científicas do século XX. ou filólogos e gramáticos do perfil mais tradicional possível. vai se construindo novos cômodos e anexando eles na casa já existente. Tarefas como fazer a análise sintática de estrofes d’Os Lusíadas ou do Hino Nacional Brasileiro eram o padrão. hoje. Quando a Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo foi criada. pesquisadores sintonizados com a ciência moderna. Aqui na UnB. Qualquer semelhança com a autópsia de um cadáver não é mera coincidência! Não espanta o horror que as “aulas de português” provocavam (e ainda provocam) em tanta gente. no lugar deles. para. em todas elas. da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).latina. Basta conversar com alguns docentes mais antigos da UnB para verificar isso. o IEL oferece atualmente uma graduação em. Muitos dos profissionais que atuam nos cursos de Letras parecem se negar (consciente ou inconscientemente) a admitir que a vocação natural do curso é a formação de docentes de português e/ou de línguas estrangeiras. A disciplina chamada Linguística só foi incorporada ao currículo oficial dos cursos de Letras no Brasil no ano de 1961. Os mestres e doutores que professam nas Letras se comportam como se estivessem ali para formar grandes escritores e críticos literários. Se a gente investigar a lista das unidades acadêmicas das grandes universidades brasileiras. uma teoria linguística que. Alguns poucos. vai topar sempre. em 1934. se erguerem edifícios arejados. simplesmente com o acréscimo de uma disciplina aqui. Exceção digna de nota é o Instituto de Estudos da Linguagem (IEL). como estudantes. iluminados. E é com esse espírito colonizado que a grande maioria dos nossos cursos de Letras vive até hoje. funcionais. entre outras coisas. o que se promoveu foram “puxadinhos”. por exemplo. sem planejamento curricular adequado. disciplinas totalmente irrelevantes para a formação docente e. de um professor de língua. com alguma coisa do tipo Faculdade de Letras ou Instituto de Letras. numa recusa que se contrapõe às diretrizes do próprio Ministério da Educação no que diz respeito à formação docente. mofados e insalubres. no início do século XX. não tem contribuição nenhuma a dar para alguém que. Com isso. muitas das disciplinas de sintaxe são dadas exclusivamente na perspectiva do gerativismo chomskiano. por mais interessante que seja do ponto de vista filosófico. e a cursar. nos registros. somos obrigados a ministrar.

políticas linguísticas..universidade. inaugurada pelos trabalhos de Ferdinand de Saussure (publicados em 1916. essas pessoas quase sempre optam pelas coleções mais conservadoras. teorias da leitura.. aqui e em praticamente todos os cursos de Letras. enunciação. menos desafiadoras. mas somente um conjunto de afirmações pejorativas a respeito dela. uma “terceira pessoa do discurso”. Letras). relações fala/escrita. diglossia. gênero textual.... todavia. essas mesmas pessoas também saem acreditando que existe “oração sem sujeito” e “sujeito oculto”. frequentemente. uma notícia como essa . sociocognitivismo. sociointeracionismo.. Na grande maioria dos cursos. Valeria mais a pena usar esse precioso tempo de formação para o estudo aprofundado e crítico da tradição gramatical. acreditando que as palavras porém. sociologia da linguagem. se jamais entraram em contato com as teorias de ensino-aprendizagem de língua materna que sustentam hoje em dia as políticas oficiais de educação linguística? Além desses problemas que têm a ver com a própria estrutura dos cursos de Letras. existem outros. A probabilidade de encontrar um recém-diplomado em Letras que saiba explicar. em qualquer país onde a educação fosse uma verdadeira prioridade nacional. Em contrapartida. muitas vezes num único semestre. de aplicar o gerativismo ao ensino de português foi um estrondoso desastre. de acordo com resultados do 5º Inaf (Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional). A tentativa que se fez. e que. como deveriam. E o mais grave deles se resume na seguinte frase. milhares de estudantes saem da universidade sem sequer ter ouvido falar (ou tendo ouvido falar muito vagamente) de gramaticalização.. crioulização. mais amplos e muito mais trágicos. contudo são “conjunções adversativas”. esses professores jamais foram apresentades aos critérios usados pelo MEC para avaliar livros didáticos. O resultado é que as pessoas se formam em Letras sem dominar a teoria gerativa (o que. Para piorar. isto é. aliás. Mais desastroso ainda é encontrar essa definição completamente equivocada na maioria dos livros didáticos (escritos por pessoas formadas em. tirada de uma notícia de jornal: Somente 25% dos brasileiros que têm entre 15 e 64 anos dominam a leitura e a escrita. justamente as que recebem as avaliações menos favoráveis da parte dos especialistas encarregados pelo Ministério de analisar as obras didáticas disponíveis no mercado. é impossível porque seu fundador destrói e reconstrói regularmente a teoria a cada tantos anos. E como poderia ser diferente se. em sua formação acadêmica. pragmática. uma diferença entre “adjunto adnominal” e “complemento nominal”. discurso.. em criticar e substituir por conceitos mais afinados com a teorização e com a pesquisa científica contemporâneas. que em nada contribuem para a formação de quem vai ter que lidar com a gramática em sua vida profissional. nos anos 1970. Com isso.) e sem conhecer a tradição gramatical (o que seria importantíssimo). se interrompe justamente onde deveria começar: no nascimento da Linguística moderna. por exemplo.). quando se veem diante da tarefa de escolher uma coleção de livros didáticos de português dentre as que lhe são oferecidas pelo Ministério da Educação. e outros mitos e superstições que nossa tradição gramatical insiste em preservar e que os cursos de Letras não se empenham. letramento. que existe uma “voz passiva sintética”. vai ter que enfrentar a prática da sala de aula. o único contato que o estudante tem com a ciência da linguagem e sua história se dá através de uma disciplina chamada “Introdução à Linguística” ou coisa parecida. Em qualquer país que tivesse uma história educacional diferente da brasileira. o que é um fonema sem repetir o erro teórico de que se trata de um “som da língua” é quase a mesma de encontrar uma agulha num palheiro. que ainda domina com muito vigor o imaginário social acerca de língua e linguagem. áreas de pesquisa e de ação fundamentais para que se tenha uma visão coerente do que é uma língua e do que significa ensinar língua.

800/mês e estudou sempre em escola pública. biologia. ou de oferta mais comum nas faculdades. Todos os dias. pontuação. Afinal. revistas. matemática. teorias sofisticadas. fazem de conta que esses estudantes são ótimos leitores e redatores e despejam sobre eles.] O questionário socioeconômico do provão de 2001 do Ministério da Educação mostra que os formandos de cursos como pedagogia. um romance inteiro ou um texto teórico mais complexo. Alguns até me enviam seus projetos: são textos repletos de erros primários de ortografia. como direito e administração. não convivem com a cultura letrada. As pessoas que atuam em nossos cursos superiores de Letras. com os novos dados do Inaf. [. Esses números significam muita coisa. reveladoras das grandes dificuldades de leitura e compreensão de textos teóricos mais densos. superficiais. logo no primeiro semestre. que exigem alto poder de abstração e familiaridade com a reflexão filosófica. vocabulário. sem conhecer a tradição gramatical. física e química (os mais procurados pelos que pretendem ser professores) têm perfil distinto dos que saem de cursos mais concorridos. sintaxe. e . junto com textos de literatura clássica. pelo visto. quantos estão hoje em sala de aula de escolas públicas? Abandonados por essas camadas sociais. quando não são praticamente nulas. sete anos depois: 75% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais. uma notícia como essa jamais seria publicada! E o pior é que essa notícia se refere aos resultados do Inaf (Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional) em sua edição de 2005. O quadro absolutamente precário do alfabetismo no conjunto geral da população brasileira se reflete também no conjunto menor do nosso professorado. Só na faculdade é que a maioria dos estudantes de Letras vai ler. E assim vamos nos iludindo e iludindo os estudantes. O resultado. porém. é que grande parte dos futuros professores de português saem diplomados sem saber linguística. volto a insistir. a nossa imprensa só se preocupa em mentir e deformar a opinião pública com histórias que ela mesma inventa e transforma em minisséries ou novelas de sucesso. Mas o que estou dizendo? Em qualquer país onde a educação fosse uma questão nacional de primeira ordem. não têm acesso a livros. ninguém se apavorou a ponto de merecer destaque na imprensa. eu recebo mensagens de formandos de vários pontos do país que me pedem sugestões de temas e de leituras para seus trabalhos de conclusão de curso. Em 2012. Significam que esses estudantes têm um histórico de letramento muito reduzido: no ambiente familiar. O desprestígio que vem acompanhando fielmente a profissão docente nas últimas quatro ou cinco décadas — devido à degradação progressiva e permanente das condições de trabalho e aos salários aviltantes — tem levado a uma redução drástica do contingente de pessoas bem formadas. a situação catastrófica descrita permanece inalterada. Daqueles 25% de brasileiros com nível pleno de alfabetismo. sem saber teoria e crítica literária e sem conseguir escrever adequadamente um texto de qualquer gênero mais monitorado. letras. talvez pela primeira vez na vida. enciclopédias etc.. não são falantes das normas urbanas de prestígio (as mesmas que supostamente terão de ensinar a seus futuros alunos) e têm domínio escasso da leitura e da escrita.. escritos numa língua que para eles é quase estrangeira. além de abordagens teóricas pobres. como medicina. os cursos superiores voltados para a formação de professores são procurados cada vez mais por pessoas originárias de grupos sociais em que as práticas letradas (leitura e escrita) são muito restritas. Vive em famílias com renda inferior a R$ 1. É assim que essas pessoas chegam ao final do curso. quando não distorcidas. Não aconteceu nenhum terremoto e..teria o efeito de um terremoto de proporções arrasadoras. A notícia foi publicada. com frases truncadas e desconexas. bem letradas e de origem socioeconômica privilegiada (classes médias e médias altas) que querem se dedicar ao ensino básico. É o que podemos ler nesta outra reportagem: O professor formado pelas universidades brasileiras é filho de pais que nunca foram à escola ou nem sequer completaram os quatro primeiros anos do ensino fundamental.

É urgente a necessidade de letrar os estudantes de Letras que estão entre os menos letrados da universidade! É por isso que as salas de aula do ensino básico estão ocupadas por professoras e professores que. de muita leitura e muita produção de textos. não está no fato de acolhermos na universidade pessoas vindas das camadas mais desfavorecidas da população. No campo da educação. para só depois desses (no mínimo) dois anos de preparação elas poderem começar a adentrar o terreno das teorias. das reflexões filosóficas. Estamos bem atrás da Argentina.com. repletos de erros ortográficos. Obrigado. Exijam que a universidade ensine a vocês o que vocês precisam aprender para atuar em sala de aula. O problema. é claro. E a coisa prossegue no Mestrado e no Doutorado. a começar pelo nome. problemas de ordem política e que precisam de uma solução política. Há mais de dez anos o índice de alfabetismo funcional não se move: 75% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais. por meio de cursos intensivos (e exclusivos) de leitura e produção de textos. não fizermos nada. sem os requisitos mínimos de coesão e coerência. da literatura consagrada. mal escritas. não poderão desempenhar sua principal tarefa: ensinar a ler e a escrever adequadamente! Eu fiz uma pesquisa sobre como escrevem as professoras e professores de português do Distrito Federal. o país mais pobre da América do Sul. como sempre. E se nós. certamente não será esse pacto conservador que vai fazer.br/2012/11/curso-de-letras-pra-queconferencia-de. Não adianta nada o Brasil ser a 7a economia do mundo capitalista e ocupar ao mesmo tempo o posto número 65 no índice de qualidade de educação estabelecido pelas Nações Unidas. primeiramente. O Brasil tem avançado muito nos últimos dez anos. como podemos esperar que seus alunos possam aprender a escrever? Por isso. isso tem de ser amplamente comemorado. de pontuação.blogspot.suas monografias. mal sabendo ler e escrever adequadamente. do Chile e até mesmo da Bolívia.html . Mas esses avanços foram conseguidos a duras penas. investimento contínuo e crescente na educação. que é totalmente estranho para elas. E exijam também condições de trabalho dignas para nossos professores. Organizem-se. O problema é não oferecermos a essas pessoas condições de. reivindiquem seus direitos. as coisas estão estagnadas. exijam uma transformação radical na estrutura mesma do curso. por meio de um reformismo social aliado a um pacto conservador. salários decentes. sem nenhum rigor teórico ou metodológico. comprometidos com a educação. Ao contrário. Se assim escrevem os docentes. aproveito esse momento em que estou falando diretamente aos estudantes de Letras para pedir que vocês se conscientizem de todos esses graves problemas que são. se familiarizarem com o mundo acadêmico. onde são aprovadas dissertações e teses que não poderiam servir nem como trabalho de disciplina de graduação. são aprovadas alegre e irresponsavelmente por seus (supostos) orientadores. Coletei centenas de textos escritos por essas pessoas e o que tenho em meus arquivos é uma demonstração concreta de tudo o que falei até agora: mais de 80% de textos incompreensíveis. *Texto disponível em: http://linguagemdocencia. de concordância e por aí vai. que é uma vergonha para qualquer curso que pretenda ter uma natureza minimamente científica.