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CLIFFORD D. SIMAK

BONECA DO DESTINO
Tradução de APPONSO BLACHEYRE HEMUS — LIVRARIA EDITORA LTDA. Agraciado com o Hugo Award por sua destacada novela WAY STATION e o International Fantasy Award por sua obra CITY, Clifford Simak já escreveu dezoito livros. Jornalista, escreve uma coluna científica para o Star de Minneapolis e também se encarrega de um programa de educação científica do Tribune de Minneapolis. Era um lugar branco e havia algo distante, puritano e desinteressado na brancura, como se a cidade estivesse tão erguida ou imersa em pensamentos que a maré baixa e rastejante da vida não a atingisse, de modo algum. Ainda assim, observei, as árvores erguiam-se por cima de tudo. Tinham sido as árvores, como eu sabia, quando a nave

começara a descer na direção do campo de pouso, guiada pelo rádio-farol que havíamos detectado muito longe, no espaço, o que me levara a pensar que estaríamos pousando em uma aldeia. Eu dissera a mim mesmo que talvez não fosse aldeia muito diferente daquela aldeia antiga e branca da Nova Inglaterra que eu vira na Terra, aninhada no vale, com seu riacho cantarolante e as chamas dos bordos outonais, avermelhados, subindo pelas encostas. Ao olhar, eu ficara reconhecido e também um tanto surpreso, por descobrir lugar assim, tão sossegado e silencioso, pois era certo que quaisquer criaturas capazes de construir aldeias daquele tipo seriam gente tranqüila e sossegada, e não criaturas dadas aos conceitos bizarros de moralidade espantosa, que com tanta freqüência são encontradas em planeta desconhecido. Não se tratava de aldeia, entretanto. Era coisa tão diferente de uma aldeia quanto se podia imaginar. Tinham sido as árvores por cima da brancura o que dera a idéia de aldeia, a meus olhos. Mas quem contaria achar árvores que se ergueriam tanto acima de uma cidade, cidade que por sua vez se alçava a tal ponto que era preciso inclinar a cabeça para ver as torres mais altas? A cidade erguia-se no ar como uma cordilheira imensa, saindo do chão, sem qualquer entremeio de encostas, a partir da planície. Ela circundava o campo de pouso com seu corpo maciço, como se fosse o oval de arquibancadas altas a encerrarem um campo de esportes. Vista do espaço, a cidade fora de branco reluzente, mas já não reluzia. Era branca, inteiramente branca, porém, suave e acetinada, tendo algo

em comum com o brilho controlado da porcelana de alta qualidade, sobre a mesa iluminada por velas acesas. A cidade era branca e o campo de pouso branco, o céu de azul tão leve que também parecia branco. Tudo era branco, com exceção das árvores que encimavam a cidade erguida à altura de montanhas. Meu pescoço doía, de tanto inclinar a cabeça para fitar o cimo da cidade, das árvores e agora, quando baixei a cabeça e fitei o campo de pouso, vi pela primeira vez que ali havia outras naves. Era um bom número de outras naves, compreendi com sobressalto — número maior do que seria de esperar normalmente, mesmo em alguns campos maiores e mais movimentados da galáxia humana. Naves de todas as dimensões, formas todas elas brancas. Aí o motivo, observei a mim próprio, pelo qual não as percebera antes. Sua brancura servia de camuflagem, fazendo-as combinar com a brancura do próprio campo. Tudo branco, pensava eu. Aquele planeta infernal era todo branco. E não só isso, porém, exibia um tipo especial de brancura — tudo com o mesmo brilho de porcelana. A cidade, as naves, o próprio campo, estava tudo cor de porcelana branca, como se houvessem sido esculpidos por algum escultor em um só bloco de pedra, formando conjunto único de estátuas. Não se percebia qualquer atividade. Nada se mexia, ninguém vinha ao nosso encontro. A cidade se apresentava como morta. Veio de algum ponto uma lufada de vento, uma lufada só, fazendo balançar minha japona. Percebi, então, que não

existia poeira. Não havia poeira que o vento soprasse, nenhum fragmento de papel que o vento pudesse movimentar. Esfreguei o pé no material que compunha a superfície de pouso e não consegui fazer qualquer marca no chão. O material que encobria aquilo, fosse o que fosse, estava tão isento de poeira como se houvesse sido varrido e esfregado menos de uma hora antes. Atrás de mim, ouvi o raspar de botas, nos degraus da escada. Era Sara Foster descendo pela escada e tendo dificuldades com a arma, uma ridícula carabina de balística, atravessada em bandoleira no ombro. A arma balançava, com os movimentos de sua ascensão, batia na escada, arriscando encravar-se entre os degraus. Estendi a mão, ajudei-a a descer, e ela se voltou assim que se viu no chão, para fitar a cidade. Examinando-lhe os planos clássicos do rosto, a cobertura de cabelos ruivos encaracolados, voltei a pensar em como criatura de tamanha beleza poderia ter deixado de exibir a suavidade fisionômica que teria completado a beleza. Ela ergueu a mão, afastou a madeixa de cabelos que não parava de cair sobre os olhos. Aqueles cabelos caíam-lhe nos olhos, desde o primeiro momento em que eu a vira. — Estou me sentindo como uma formiga — comentou. — Aí está ela, olhando lá de cima para nós. Você não sente o olhar? Sacudi a cabeça em negativa. Não sentira olhar algum a nos examinar. — A qualquer instante — prosseguiu —, isso aí levanta o pé e nos achata.

— . Afirmei isso porque. — Posso deixar de tomar conhecimento da existência dele. com aquela cara boba de felicidade. o lugar não agradava. Algo relacionado ao fato de que ninguém viera receber-nos ou fazer-nos perguntas. por cima de nós. então. na tranqüilidade de tudo. Não faz sentido. — Mas ele nos trouxe aqui — retorquiu ela. Era algo a respeito do rádio-farol. Árvore nenhuma tinha o direito de crescer tanto. que nos trouxera àquele campo de pouso.Onde estão os outros dois? — perguntei. sem que ali se encontrasse viv'alma. — Vai escorregar e quebrar a cabeça — comentei. não tem pé nem cabeça. É essa coisa toda. como aquelas que se erguiam acima da cidade. e Tuck o ajudará a descer. enquanto Tuck orientava seus pés em esperneio. tornar-se tão corpulenta. — Pelo amor de Deus! — exclamei. a mim. — Pois. O Frei Tuck começara a descer a escada e George Smith. na brancura. Algo naquela grandeza. e espero que ele goste do lugar. de modo algum. — Ele sabe segurar-se muito bem — explicou Sara —. caso tal ocorresse. Um estrépito se fez ouvir. em absoluto — obtemperei. E também aquelas árvores. — Não é isso. sem que me importasse muito. trouxe. — Você não gosta do George — observou Sara. — Tuck está juntando as coisas e George escutando. ajudando-o a pisar nos degraus. e disse que chegou onde queria. bufando em seu corpanzil. saía pela comporta. o que me ataca. está em casa.

embarcados em uma espécie de jogo de cabra-cega. como se estivesse tateando à procura de alguém. observando-os descer as escadas. tinha razão quanto àquele sorriso abestalhado. — Tem certeza de que o lugar é este. Eu devia estar doido. Os dois homens finalmente chegaram ao chão e Tuck. então. — Meu amigo está aqui. o frei guiando os pés do homem cego. ajudando-o a encontrar os degraus. É quase como se eu pudesse estender a mão e tocar nele. O rosto de Smith estava amortalhado em beatitude. . sugeria palavrões. Sara. Sara tocou o braço do cego. Tudo aquilo estava em sua mente. — Não há engano algum — tagarelou. ele me faz ver. apenas uma lenda sem sentido. Com dedos suaves. Eu o escuto. segurando o braço do cego fê-lo voltar-se de modo a ficar de frente para a cidade. pensava com meus botões: um homem cego e um falso frei. procurando um homem que podia não ser homem. e expressão assim. criatura que não devia obediência alguma a ninguém. a voz esganiçada tornada mais espessa pela emoção. Ali estávamos. mas nada havia para tocar. ao que observei. quando tal não acontecia. coisa assustadora de ver. George? Não estaria enganado? A expressão de beatitude transformou-se em êxtase.Eu não podia despregar os olhos de tal espetáculo. implantada no semblante vazio e flácido. um gesto incerto com a mão gorducha. em absoluto. e voltava a recriminar-me por aceitar trabalho desse tipo. e uma caçadora de animais grandes. Fez.

— Não.. Olhei na direção que o frei apontava e percebi o brilho. Não existem palavras. na base da muralha envolvendo a cidade. Não existia. Como se alguma coisa estivesse em movimento. explicou: — Eu vejo.. não eram vozes. apenas uma voz — pudesse guiar-nos por milhares de anos-luz.. É o que está vendo? — Não — disse George. tinham sido muitas as criaturas que ouviam vozes. por cima do centro galáctico e na direção dele. apontando na direção da cidade. não existem árvores. até determinado planeta. na verdade. — Uma cidade branca e grande. Na estória passada. — Existe uma cidade — Sara dizia ao homem cego.. mas até agora não fora grande o número de pessoas que lhes dera ouvidos. — Alguma coisa vem aí — disse o Frei Tuck. indo a território pelo qual não se sabia da passagem de qualquer homem ou nave humana.A rigor. eu vejo. mas era tudo. Lá fora. árvores que se estendem por quilômetros e mais quilômetros de altura. o rosto estava enrugado pelo esforço por contar-nos o que via. não é o que vejo. Só um brilho. confuso com o que lhe fora dito. Sacudiu as mãos. — Não posso dizer a vocês o que vejo — cochichou. era loucura. — Não encontro as palavras. finalmente desistiu. . Não existe cidade alguma. árvores mais altas do que a cidade. — e procurava explicar o que via. engoliu em seco. loucura pensar que um homem cego que ouvia vozes — não. — Não dá para divulgar. Dito isso. coisa alguma que pudesse ser vista. afinal.

de modo que não interferisse enquanto os cavalos corriam — estendendo-se à frente com o par traseiro e. Era como cavalos selvagens em disparada que algum artista biruta pintaria para uma folhinha. sem a modificar instante algum. Cavalos brancos. e o da frente mais estreito. era natural que fossem brancos! Mas eram cavalos muito engraçados e. mas. quando este tocava o chão. ao que percebi. Ao se aproximarem. em atitude de alerta. embora mantivessem a pose que o artista lhes dera. oscilando enquanto corriam. agora. porém. pescoços curvos. na frente e atrás. patas que não corriam como correria um cavalo normal. correndo em nossa direção — se houvesse cavalos. balancins.alguma coisa parecia estar em movimento. separouse. não passava de uma mancha que se movia. mas assim tinha parecido. ao que parecia. . capitão? Levei os binóculos aos olhos e examinei devagar. dois pares de balancins. mas eram crinas que não se moviam. — O que acha. devagar. com patas muito engraçadas. Cavalos formalizados — orelhas em pé. Não havia grande sentido na existência de cavalos ali. Cavalos? Fiquei sem saber. sem dúvida. De início. até perceber o movimento. com movimento doido. cresceu em tamanho. E as patas? Não eram patas. narinas abertas. a meus olhos. Eram cavalos. em absoluto. Sara olhava pelos binóculos e. pude perceber mais pormenores. em absoluto. entregou-os a mim. porém. crinas que se erguiam como se o vento estivesse a soprar por elas. tirou do ombro a correia dos mesmos. em fluxo de cintilação fugidia. Não eram patas.

utilizando essa linguagem espacial universal que o homem já encontrou pronta. baixei o binóculo. tive um cavalinho de pau. erguendo o par dianteiro e estendendo-se para tocar o chão e oscilar. — Eu nunca fui a um parque de diversões — expliquei.oscilando à frente com eles. Aquelas engenhocas mecânicas que eles têm nas feiras e carnavais e nos parques de diversão. — Nós somos cavalinhos — disse o cavalo. perplexo. há mais de vinte séculos. por sua vez. todos eles brancos. entreguei-o à dona. — Carrossel? — É claro. — Carrossel — comentou. — Meu nome é Dobbin e nós viemos para levá-los. Os oito aproximaram-se em disparada. Eram oito. estacaram com deslizamento no chão. língua formada de expressões. quando era garoto. Ela pôs o binóculo nos olhos. Sara baixou o binóculo. e transformada em uma língua abastardada pela qual muitas criaturas diferentes podiam conversar uma com a outra. . quando ingressou no espaço. frases e palavras arrecadadas de cem idiomas diferentes. Mas. e cada qual se parecia tanto aos demais que não havia como identificá-los. vocês não vão acreditar — comentei. Uma vez cessada a marcha. Abalado. Aquele que mais se adiantara falou-nos. enquanto eu observava a aproximação dos cavalos. balançavamse suavemente para frente e para trás. — O que vem aí. — Nunca fui a esse tipo de parque de diversões. Sacudi a cabeça.

— Não! Não! — protestou o cavalinho. as narinas esculpidas e bem abertas. Não haverá tempo de manhã. — Isso é impossível. Se é assim. Vocês precisam estar protegidos quando o sol se puser. e era atitude típica. não me agradava. — Se vocês não têm tempo. — Há uma montaria para cada um de vós e quatro para levar a bagagem. — Não estou gostando disto aqui fora. Limitava-se a estar ali. A mim não agradava o andamento das coisas. e a brisa inexistente a soprar-lhe a crina.Nele não se mexia peça ou parte alguma. Existe grande perigo com o por do sol. — Insistimos em sua pressa — disse. De algum modo. — Não gostamos que nos afobem — retorqui. de modo algum. — Por que não fazemos o que ele diz? — perguntou Tuck. podemos voltar a apanhar mais tarde a bagagem. Dobbin manifestou-se: — Levaremos a bagagem agora. Dobbin não lhe deu qualquer atenção. Temos pouco tempo. Se não tivermos tempo. — A mim parece — e eu me dirigia a Dobbin — que você está com muita pressa. as orelhas ainda em pé. podemos passar a noite na nave e entrar amanhã cedo. por que não faz meia volta . ela haveria de achá-los engraçadinhos. aconchegando-se bastante no manto religioso. oscilando com suavidade. em tom frenético. Acho que fui brusco com ele. veio-me a impressão de que as palavras pronunciadas saíam-lhe pelas orelhas. — Acho que são muito engraçadinhos — gritou Sara. deliciada.

. — Não sabe. — George. alguma vez? — Cavalinhos? Oh. com firmeza —. — Não. não é isso — corrigi.. mas a mim não agradam robôs metidos a besta. — Capitão Ross — disse Sara Foster. — Vocês são cavalinhos humanos? — Não compreendi o que quer dizer. não vou caminhar toda essa distância. O cego suspirou. dando-me ordens. uma droga — atalhei. ele mencionou cavalinhos. alguma vez? — Até este momento — asseverou o homem cego — nunca ouvi falar neles. continuava presente nele a expressão de êxtase. está falando de jóquei-clube e. . — De que se trata. em ponto grande. — Nós somos cavalinhos — corrigiu Dobbin. — Nós não somos robôs.e regressa para o lugar de onde veio? Nós sabemos cuidar de nós mesmos. havendo a possibilidade de montar. E então. capitão? — Em sua conversa de lá para cá. O homem cego voltou o rosto rechonchudo para mim. — Falo de cavalinhos de brinquedo. — Seres humanos fizeram vocês? Criaturas muito parecidas a nós? — Eu não sei — respondeu Dobbin. ele mencionou cavalinhos. — Pode ser que sim — retorqui. com esse amigo seu. com raiva —. quando foi menino. e voltei-me para Smith. Acho que está sendo tolo. — Mas você teve brinquedos.

. capitão? — Srta. depois que o sol se puser. por favor. não sei quantas vezes. Foi o trato. imploro. não acredita em coisa nenhuma. Não acredita em nada. muito distantes de casa.. está sendo ridículo. — Capitão — interveio Sara. e os levarei de volta. Foi a desconfiança que. e voltou-se para mim. E logo depois de tê-lo dito. Por que toda essa desconfiança? — Eu lhe conto porque — retorqui. — Eu trouxe vocês aqui — observei. com a mesma raiva. — Esteve rindo por todo o caminho. a nave é sua. — Minha graciosa dama — intrometeu-se Dobbin —. salvou sua pele. acredite que existe grande perigo.. insisto para que venha conosco. Eu peço. suba essa escada e comece a descer o material — ordenou.. arrependi-me dessas palavras.. ao invés de começar com briguinhas. Nunca acreditou. — Você está rindo de mim! — esbravejou ela. — Eu sei — disse ela. — Tem alguma objeção a fazer. — E a resposta é muito fácil. Foster — redargüi —. Eu já nasci cego. — . com raiva —. Era mais do que provável. no que eu lhe contei. e com muita rapidez. devíamos permanecer unidos. — Eu sei.. de verdade. — Tuck — disse Sara —. É a senhorita quem está pagando tudo. e o dinheiro também. Só lhe peço para não fazer com que o trabalho se torne mais difícil do que precisa ser. em atitude belicosa. O tipo do brinquedo das outras crianças não era. Estávamos em planeta desconhecido e alienígena. muito sério —. Nunca vi.Não tive brinquedos do tipo que imagina.

Basta amontoar a bagagem em cima das costas dos cavalinhos. — Coisa muito engenhosa — comentei. Estava sempre presente. . Era preciso reconhecer uma coisa. é preciso manter os sentidos e os palpites bem vivos. Fora ridículo para quem olhasse superficialmente. no pé da escada. recebendo dele os volumes e deixando-os cair com tanta suavidade quanto possível. e quando a carga estiver completa.reconheci. mas não em questão de princípios. Tuck. Como é que vai por isso nas costas? — Deploro — asseverou Dobbin — não termos braços. mas sempre se apoiara em força expedicionária de boas proporções. naturalmente. — Está bem — disse eu. entregando-os a Sara. talvez. à primeira palavra vinda dela. logo em seguida. subira afobadamente a escada. um bocado mais do que sua parte. vocês serão obrigados a fazer o carregamento. também o fizera. às vezes. Eu andara por uma série de planetas alienígenas e sempre o conseguira. e eu estivera sozinho. Sara. Quando se chega a um planeta alienígena está-se por conta própria. naquela pequena — nunca se esquivava ao trabalho. o manto enfiado no cinto para não tropeçar. braços de metal sairão do ventre e prenderão a carga com segurança. Mas como a situação se apresenta. desempenhando sua parte e. que ela estivera inteiramente certa. e agora descia as bolsas e outros artigos da bagagem. eu talvez me houvesse comportado de maneira ridícula. — Traga aqui os seus animais de carga. falando com Dobbin. que se pusera no meio da escada. Mas tratei de corrigir a questão.

Sara veio e me ajudou. dizia a mim mesmo. A nave saberia tudo. _ Sempre procuramos servir — declarou. mas não contara levar a pior. — Oh. Ela engolia os dados. que coisa é essa de perigo? — perguntei. A nave. no que se parecia a uma mesura. — De que devemos ter medo? — Não posso informar — respondeu Dobbin —. balançando-se. mas tenho a certeza de que. Mostrava-se um pouco mais amarelo do que o sol na Terra — talvez fosse estrela do tipo K. aquilo provavelmente não causaria diferença. — Dobbin. Pretendera voltar ao interior e obter os dados. e estaria mais do que pronta a proporcionar a informação a quem lha pedisse. Eu voltaria de manhã. entretanto. a química e tudo o mais da mesma. Tinha conhecimento a respeito daquele planeta e da estrela em torno da qual girava. Mas. O sol tocava o esboço da cidade. saberia o tipo certo. deixe para lá — atalhei. gostar do fato de que não examinara a folha com os dados.Dobbin saiu-se com pequeno mergulho sobre os balancins. Tuck fechou a comporta à altura em que tinha descido a escada. Quando Tuck terminou a descida do equipamento. e comecei a carregá-los. Mas eu não pedira. Quatro dos cavalos vieram. estraçalhava-os e os repunha no lugar. estávamos prontos para partir.. porque também eu não compreendo. diante de um grupo de cavalinhos. naturalmente. . e partes dele estavam sendo encobertas pelas torres mais altas.. Não conseguia. sabia como eram sua atmosfera. caberia ao homem. de outra forma. Era ela quem executava todo o trabalho que.

e não vi movimente algum. vindos nas naves que se apresentavam como lápides fantasmagóricas? E por que eram. Nosso tempo está se esgotando. Havia friagem no ar e não me importo reconhecer que senti uma pontada de medo. Montada ali. era o que imaginava ser — mais uma grande aventura. . naturalmente. formando o quadro perfeito de uma jovem no limiar de aventura das maiores e isso. orlada pela cidade. tentando suspender Smith para um dos cavalinhos. Olhei com rapidez aquela grande tigela que era o campo de pouso. talvez a sensação de estar aprisionado no campo de pouso cercado pela cidade. garridamente vestida em costume próprio para aventuras. e acredito que sim. brancas? — Honrado senhor — Dobbin falava comigo —. bem cavaleira. Não sei qual o motivo. As sombras se estendiam da muralha ocidental da cidade. se fizer o favor. todas elas.Tuck bufava e resfolegava. em absoluto. Talvez o próprio lugar. sentando-se muito ereta. com aquela carabina antiga e ridícula à bandoleira no ombro. ao invés de brancos. Sara já montara um deles. à medida que o sol descia por trás dos edifícios e alguns destes haviam-se tornado negros. com exceção dos cavalinhos — se a estes podíamos chamar de seres vivos. talvez o fato de que não parecia existir coisa viva alguma à vista. altiva. monte em minha sela. mas não se viam luzes. Onde estava aquela gente? Onde se achavam os moradores da cidade. e todos aqueles visitantes que haviam descido no espaço-porto.

Aquilo era de minha alçada. Havíamos estado muito mais longe dela. E estavam. sem dúvida — quem quer que fosse. acima do ombro e. quanto se andava à frente. ao que me parecia. cabeça minúscula em cima do mesmo. muito maior do que parecera à primeira vista. — A nave! Estão fazendo alguma coisa com ela. Onde alcançava a mesma. esta se tornava branca. Um mecanismo de pescoço comprido viera colocar-se ao lado de nossa nave. Parecia-se a um percevejo com corpo atarracado e maciço. — Capitão! Voltei-me na sela. sem solavancos. porém. A cidade não parecia crescer muito. compreendi. como patinar sobre uma curva na configuração do seno geométrico. dirigindo-nos à cidade. pulei para a sela de Dobbin. — A nave! — berrava Tuck. Era um tipo de cavalgada biruta — bastante suave. nem apresentar muitos pormenores. exatamente como aquelas outras naves sepulcrais que juncavam o campo. o campo de pouso era. Não respondi. Atrás de mim. do que se afigurara antes. pescoço comprido e delgado. — Não precisa de arma aqui — observou Dobbin. Dobbin deu a volta e partimos pelo campo. De sua boca saía um jato de neblina dirigido à nossa nave. mas subindo e descendo tanto. Tuck saiu-se com um berre. Não era balançar.Ergui os braços e levantei a correia de minha arma laser. com desaprovação. . também. agarrando-a na mão.

entre as orelhas de Dobbin. aquilo devia ter deixado uma marca. Mesmo na primeira graduação do gatilho. e nem mesmo resfolegava. Precisamos chegar com segurança à cidade. senti o clarão da luz laser. Dobbin empinou e voltou-se. — A senhorita está bem? — perguntei. coisa doida — gemia Dobbin. — Eu avisei para que fechassem os olhos — expliquei. quase trocando uma extremidade por outra. ao que parecia. os demais se contentavam em acompanhar. — Todos nós morreremos. Mesmo através de pálpebras fechadas. ao ricochetear no chão. um dos braços encobrindo-lhe os olhos. e quando abri os olhos estávamos seguindo em direção da nave. segurando a rédea e puxando com força. mas era o mesmo que puxar uma pedra. — Volte! — Não existe voltar. novamente sacando a arma e mirando o chão diante de nós. era o chefe. — Fechem os olhos! — gritei para os demais. devia haver uma cratera fumegante.Emiti um berro de raiva. não se notava sinal algum de onde o raio laser incidira. Sara cavalgava. — Você será a causa de nossa morte. entretanto. — Não temos tempo. Dobbin. a despeito da corrida. — Volte! — berrei. e onde fosse. no local onde batera. Dobbin continuou em sua marcha. meu honrado senhor — respondeu Dobbin. Mais para trás. — Seu imbecil doido! — gritou ela. — Há tempo. em resposta. — Devia haver algum reflexo. . Olhei para trás e os cavalinhos nos seguiam. e puxei o gatilho apenas um pouco. em tom de conversa. por Deus! — berrei.

Assemelhava-se a uma nave incapaz de funcionar. enquanto ele continuava a se mover. Dito isso. e quando digo "coberta". notei que era polida e dura. passaria por um desses pequenos modelos de espaçonave vendidos nas lojas de decoração. — Não nos deu tempo. Bati com o punho da arma e aquilo ecoou como . uma nave-modelo. e para isso não perdia oportunidade alguma. pois seguia em alta velocidade. bolas. suplicou Dobbin —. Alcançamos a nave e Dobbin deslizou. na pressa de sair dali. Mas eu não tinha idéia do que pretendia fazer. mas não esperei que parasse. À nossa frente. Era apenas mais um motivo para queixar-se.— Você gritou. Estendi a mão e toquei a substância. deu para ver que estava coberta por alguma substância que se parecia a vidro regelado. Nada mais pode ser feito. o pescoço comprido estendido à frente. desta vez. baixou o braço e seus olhos piscaram. estamos apenas perdendo tempo. Se tivesse as dimensões reduzidas. — Mais uma palavra sua — adverti — e. para colocar sobre a lareira. quero dizer exatamente isso — inteiramente coberta. ela estava bem. o percevejo que estivera borrifando a nave fugia em carreira. depois fez fogo — retorquiu ela. senhor —. Devia ter rodas ou esteira por baixo. Não aparecia metal algum. estava correndo rumo à nave. Alcancei a nave. acerto entre as orelhas. atravessando o campo de pouso. Não havia qualquer aparência metálica nem a sensação metálica. ora. Desci ao chão. — Por favor. estacando.

se tivermos um martelete de pressão para abrir. O estampido foi alto. capitão? — perguntou Sara. sem deixar o menor vestígio. em metal. o ruído da bala ricocheteando de um lado para outro. sem marca alguma. — O que é. tomados de pavor. criando ressonância que atravessou o campo e voltou como eco refletido pelas muralhas da cidade. gente tola. a carabina saiu de suas costas e a coronha foi ao ombro. e mais baixo do que o uivo estridente do projétil era a ressonância estrondosa da nave branca como leite. Nada há que possam fazer. surgiu outro. poderemos tirar a casca. Mas não se via qualquer indicação onde o projétil havia batido. Talvez. Duas mil libras por pé. A brancura da nave continuava lisa — sem qualquer estalo. haviam batido ali. com assomo de raiva. . a voz um tanto trêmula. Aquela era sua nave. seco. Acima do som do disparo. os cavalinhos se empinaram. entretanto. Ela teve um movimento repentino. uivo horrível que era quase um grito.um sino. e não admitia que pessoa alguma mexesse nela. — Quer dizer que não podemos entrar nela? — Não sei. — Como se houvesse sido selada. Sara sabia manejá-la. Voltei-me para ele. Ergui a arma de laser e Dobbin dirigiu-me a palavra: — De nada vai adiantar. — Uma capa de alguma coisa dura — expliquei. Tenho de reconhecer o seguinte: por doida que fosse aquela arma.

ninguém sai dele. chegada a manhã. significa morte muito rápida. compadecidamente. A nave estava fechada e selada. ver o que seria — . depois de o sol se ter posto. De nada adiantava ficar lá fora. a nave! — A nave está selada — explicou Dobbin —. Embora não exista. a cidade. as naves. do modo como eu o fizera. sem qualquer pesar na voz. — A violência — retorquiu Dobbin. do que se estivessem ainda lá dentro. sabia que ele tinha razão ao dizer que nada podíamos fazer. na maior probabilidade. não o levará a parte alguma. — Sei com estão sofrendo. poderíamos voltar. do lado de fora. E embora eu não quisesse reconhecer. — Meu pesar por vocês é imenso — prosseguiu Dobbin.Pensei que tinha dito — adverti. por alguma substância de ligação tão estreita. com um grito. Olhei para Sara. qualquer que fosse o significado disso ou qualquer o seu objetivo e. que se tornava indestrutível. embora inteiramente contra a vontade. — Mais uma palavra sua e acerto entre os olhos. e sigamos para a segurança. em tom alegre —. e ela assentiu calmamente. sem dúvida. uma vez neste planeta. Mas ficar aqui. toda aquela brancura era a mesma coisa — o campo de pouso. depois de atingido pelo feixe de laser e. Eu sabia que havia calculado tudo aquilo. Isso porque eu recordava que o campo não registrara qualquer marca. É melhor assim. para que montem na sela. também. tudo estava encoberto. na estrutura atômica. — Mas. Mas. como todas as outras. a necessidade de morrer. Eu suplico.

compensá-lo. — Tentaremos. Talvez houvesse o intuito verdadeiro de nos manter ali. ninguém mais saía. ou talvez nenhum — não dispúnhamos de maneira para determinar este ou aquele caso. Poderia haver algum perigo. Mas eram. nada mais. que era impossível acompanhar com os olhos sua estrutura e visarlhes o cimo. Até então haviam sido uma massa simples. A cidade crescia. esfumaçado. A partir do momento em que o tínhamos conhecido. vistos do centro do campo de pouso. era acompanhálo. Uma vez naquele planeta. mas eu dizia a mim mesmo que haveria meios pelos quais tentaríamos sair do planeta. no momento. apenas. infiltrava-se pela cidade. Pareciam altos. à medida que nos aproximávamos e. Talvez ainda possamos chegar à cidade. o que explicaria o fato de que a nave fora selada. Um crepúsculo débil. antes mesmo de haver sentado. Boa parte do campo de pouso estava agora mergulhado nas sombras e apenas o céu se mostrava claro. corria enquanto fazia a volta. Alcei-me com ligeireza para a sela e. agora. com valentia. quando chegasse o momento de fazê-lo. vistos de perto. surgindo da lisura do campo. Dobbin já se virara. com a aparência de um penhasco sólido.possível fazer. . Sempre havia recursos. palavras dele. — Perdemos tempo muito precioso — confidenciou-me. os edifícios começavam a tomar formas separadas. Dobbin se mostrara insistente quanto ao perigo. Dobbin o dissera. A única atitude sensata. e agora esticavam-se tanto no céu.

de modo que as paredes pareciam estar em todos os lados. Não havia luz ali. pelo menos. Não se via sinal algum de movimento no chão da cidade. o que interpretei como sendo ruas. projetavam-se diretamente ao céu. Não havia luzes em qualquer das janelas — se. Depois de se ter aprendido o jeito de montá-los. do nível da mesma. Os cavalinhos jogaram-se em uma das frinchas de vacuidade e a escuridão nos envolveu. a existência de ruas ou. a frincha que era uma rua estreitava-se a um ponto de fuga. subindo a mesma. passando por uma das grandes portas abertas. enquanto seguiam por ali como manada de cavalos em galope selvagem. Não havia edifícios por fora. a não ser quando o sol se achava bem por cima. As paredes pareciam erguer-se em volta de nós. Os cavalinhos trovejavam em sua marcha rumo à cidade. uma rampa ampla dava para portas pesadas. aqueles edifícios tinham janelas. na realidade. que se pareciam a fraturas em um penhasco monstruoso. grandes lajes de alvenaria que subiam sempre e vi. os balancins emitindo clangor estridente. As paredes da cidade achavam-se diretamente à nossa frente. e nunca haveria luz. diante de uma tempestade que se avizinhasse. o campo de pouso ia até a base dos edifícios e estes. frinchas estreitas de negrume vazio. . então. agora. Os cavalinhos fizeram a volta e se atiraram à rampa. não era viagem ruim. alargando a rua e. deixar que ele seguisse a onda sinoidal ondulante. Bastava afrouxar o corpo.A cidade continuava morta. À nossa frente um edifício apresentava-se pouco mais para trás.

Mas enquanto eu procurava perceber tudo aquilo. — Capitão. no primeiro plano. como se fosse um lugar no fundo de mar claro e cristalino. Também aquilo desapareceu — um relance e sumira — e. levemente humanóide. só de olhar. que fazia girar um mostrador na parede ao lado da laje de pedra luminosa. surgiu um mundo de selva. ou o que parecia ser um gnomo. em seu lugar. surgiu um deserto amarelo.Irrompemos em um aposento onde havia pouca luz e esta. Não havia necessidade de que ela me chamasse a atenção — eu o vira quase no mesmo instante. Na pedra luminosa surgiu uma cena — cena esmaecida e com sombras. os contornos modificando-se com as pequeninas ondas erguidas pelo vento. Era uma paisagem agreste e avermelhada. como percebi. correndo na superfície da água. Os cavalinhos seguiram com rapidez para um dos blocos e estacaram diante dele. mergulhado no verde e púrpura de vegetação avassaladora. com terras vermelhas estendendo-se ao horizonte agitado por tempestades e cor de malva. tendo por trás de tudo uma sensação de animalidade que fez minha pele formigar. em seu lugar. vinha dos grandes blocos retangulares colocados na muralha à frente. um amontoado de flores amarelas silvestres. criatura pequena. A um dos lados eu vi um gnomo. salpicado por manchas de cor gritante que eu sabia serem flores tropicais. veja! — gritou Sara. corcunda. as cores abafadas pela profundidade da água. a coisa mudou e. iluminado por lua . entremeado de morros e. relacionando-o ao tipo de mundo que teria sido.

e procurei freneticamente a patilha da sela. Embaixo de mim. com os lábios de túneis de areia em marcha apanhando e fraturando a lua e a luz das estrelas. de modo que as dunas pareciam ser ondas espumantes de água. O deserto não desapareceu como os demais lugares haviam sumido. afinal parei. impedido pelo manto que se emaranhara em volta das pernas. senti o mergulho violento de um Dobbin que estacava de súbito. não longe. Fiquei em pé. inundado pela grande lua branca e pelas milhares de estrelas fulgurantes. sem consegui-lo. sem qualquer vestígio de vegetação. que parecia não tê-la. — Não o escuto mais. Ele veio em arranco sobre nós. Sara estava esparramada a meu lado e.e brilho de estrelas que transformavam o céu em prata. enquanto rastejava. praguejando — ou tentando praguejar. correndo por cima da terra. George rastejava nas mãos e joelhos. Tuck esforçava-se por ficar em pé. pois não tinha alento — e uma vez em pé vi que estávamos sozinhos naquela terra que tínhamos visto do bloco luminoso. sentindo-me então lançado à frente. tudo brilhando como lâmpadas no céu sem nuvens. Bati sobre um dos ombros e deslizei na areia. explodiu em meu rosto. Em volta de nós apresentava-se o deserto. . por violento pontapé. ressecado. Perdi meu amigo. sem qualquer fôlego. em noite fria e sem amigos. dando reviravoltas no ar. — Ele se foi embora! — George choramingava. pouco além dele. choramingando como um filhote que foi posto para fora de casa.

logo para começar. no espaço. era preciso acreditar em tudo quanto se fazia. e resolvera pegar-me.E não era tudo que se perdera. no campo de pouso na Terra. Eu dizia a mim próprio que jamais deveria ter feito aquela viagem. Não que houvesse feito algo tão ruim. eu ficaria por lá. podia cair aos pedaços. com o tempo. Tendo desembarcado dela. podia ser caçado por qualquer um que me encontrasse. Mas recordei que eu. remendada e consertada com arame e barbante. e o planeta em que a cidade fora implantada. Sabia que a Patrulha Terrestre estaria à minha procura — não que a Terra se importasse. Tudo quanto queria fora chegar à Terra. Estávamos em outro lugar. Uma vez chegado à Terra. Eu fora pego. A nave que eu pilotava fora uma desculpa fraca — uma nave tirada do lixo (e era exatamente assim). Era preciso ter motivo para tudo. Por todo o tempo soubera que não devia tê-la feito. no que me dizia respeito. Eu voltara furtivamente à Terra. pois. Para obter algum resultado. e tampouco a culpa me cabia de modo integral. Mas a Terra era o local onde estava meu dinheiro e a Terra representava abrigo. na verdade. não tivera escolha. se eu não conseguisse chegar ao abrigo proporcionado pela Terra. A cidade também se perdera. haveria de pagar-me. onde me achava. pois nunca estivera lá. Não era exatamente voltar. desde o momento em que vira aquela beleza de espaçonave. no que lhe dizia . mas havia muita gente que perdera até as camisas. naquela parada. mas não precisei dela por muito tempo.

e os cálculos estivessem certos. e a gravidade solar ajudou muito. mas não havia grande coisa a vigiar. quando passei pelo Sol. quanto mais. Mas as telas de radiação haviam-se agüentado e perdi apenas metade da velocidade. Tratava-se de uma patrulha para impedir que pessoas indesejáveis. passando por Vênus. ajudam a embaralhar a recepção. e havia uns dez modos horrorosos pelos quais poderia ter falhado. deslizei. com base naquele monte de lixo que era a nave. é claro. a nave seguia como um morcego a sair do inferno. bastante pequena. que não estava a mais de cinco milhões de milhas à esquerda. melhor. e as radiações solares. contando que a régua de calcular não houvesse falhado. com o Sol entre mim e a Terra. encaminhando-me para a Terra. Desligados todos os motores e circuitos. eles só podiam ter detectado uma massa de metal. cheguei com o Sol por trás. A patrulha não me percebeu e foi. Fora uma loucura tentá-lo. como eu próprio. mas em muitas aventuras à caça de planetas eu correra riscos não menos tresloucados. De mim não saía qualquer rastro de energia e todo o equipamento eletrônico estava liquidado. por melhor que seja o equipamento de que se disponha. Além disso.respeito. . Houvera uma hora aflita. lá estava a Terra à frente. uma questão de sorte. Acumulei toda a velocidade em espaço normal que pude. naturalmente. O importante é que o conseguira. quando me parecera ter feito cálculo por demais aproximado. Assim é que cheguei ao sistema solar. voltassem à Terra.

Eles. carregando minhas duas bolsas. apenas por exame externo. após o pouso. São poucas as pessoas restantes na Terra. permaneceu ali. em pé. Não pretendia lidar muito com eles. acham-se todas no espaço. matungo ronceiro do espaço. apresentara-se aquela beleza de espaçonave. Aquelas que ficaram são os sentimentalistas sem cura. . mas era tudo. afastara-me dela andando. Ali. A nave não caiu aos pedaços. olhando-a. A duas plataformas de distância. de aristocratas à seu modo. Os sentimentalistas. que julgam encontrar prestígio em morar no planeta onde surgiu a raça humana. esguia e polida. De vez em quando naves de excursão pousavam. senti os dedos formigando no desejo de apoderar-me dela. são os únicos residentes.Existe apenas um espaço-porto na Terra. com uma carga de peregrinos que vinham visitar o berço da raça. Eles não precisam de outros. impaciente na rédea. naturalmente. eram uma turma bastante besta. e os outros como eu próprio. e alguns cargueiros que traziam artigos escolhidos. Eu pousara a nave. as únicas posses que conseguira arrecadar antes que os abutres se apresentassem em revoada. Não tinha como saber o que levava por dentro. a espaçonave com o pior aspecto que alguém poderia ter visto. ao que ouvira. Reluzia em eficiência completa. um iate espacial que parecia querer lançar-se ao céu. mas isso não me importava. O tráfego não é grande. mas existe nas naves algo que simplesmente não se pode deixar de perceber. Bastou olhar para aquela e não tive dúvidas de que o dinheiro não fora poupado para torná-la a melhor possível.

Fui para uma hospedaria próxima e depois de me haver alojado. Eles executaram os movimentos costumeiros. Estava no terceiro ou quarto copo quando um robô-servente entrou no bar e veio ter diretamente comigo. ficaria muito obrigada. tirei o cartão. fiquei imaginando que tipo de problemas surgira. Eu o abri. A meus olhos. nem com raiva de ninguém. Meu carro estará esperando à entrada da . Não havia uma só pessoa na Terra que me conhecesse ou soubesse de minha vinda. seria engolido. — Tenho um bilhete para o senhor — disse o robô. Saí do campo de pouso e passei pela alfândega — se aquilo podia ser chamado por tal nome.Aquele formigamento talvez fosse mais doloroso porque eu sabia que jamais voltaria ao espaço. — O senhor é o Capitão Ross? Em instante de pânico. do melhor jeito possível. Hospedaria Hilton. não estavam com raiva de mim. Nada tinham contra mim ou pessoa alguma. Estava liquidado. entregando-me. Os únicos contatos que mantivera tinham sido com os agentes da alfândega e o recepcionista na hospedaria. Se o Capitão Ross quiser jantar comigo esta noite. Lá estava: Capitão Michael Ross. Se a deixasse. não trazia qualquer timbre. O envelope estava fechado. isso era a coisa mais bela que se podia dizer a respeito da Terra. desci para o bar. Passaria o resto da vida na Terra.

por sua vez. bebendo. Havia pessoas. como bem sabia. cercavam outros hectares de gramados e caminhos bem preparados. uma hora após minha chegada. — Outro — confirmei. mas não parecia haver a quem perguntar e. mas poucas acreditariam que nave em tais condições pudesse levar-me à Terra. sequer. achei que valeria a pena arriscar. apanhou o copo vazio. — Outro? — perguntou. e no centro de tudo aquilo estava a casa enorme. cercada por hectares de floresta que. Permaneci sentado. por cima de um morro. não pude adivinhar um motivo sequer para recusá-lo. um pórtico largo que percorria todo o comprimento da construção.hospedaria às oito horas. feita de tijolos aquecidos pelo sol. E quem era Sara Foster. capitão. Sara Foster. é claro. como soubera. que eu seja um dos primeiros a lhe dar boas-vindas à Terra. E permita. . Podia ser armadilha. que me odiavam o bastante para tentarem tirar-me clandestinamente da Terra. E nenhuma delas teria. Sara Foster residia em casa imensa. e o robô das bebidas veio do bar. que eu estava na Terra? Podia indagar por ali. olhando o bilhete. por algum motivo. tentando entender e. muitas chaminés erguendo-se no telhado. Àquela altura elas saberiam que eu obtivera uma nave. Limitei-me a ficar sentado. afinal. podido adivinhar que eu já chegara.

por ter vindo! E veio. levando-me assim pelo salão até chegarmos à porta que dava para o aposento muito diferente do salão pelo qual entrara. um deles levantou-se. com lustre maciço de cristal pendendo do teto. coberto de lambris de madeira pintada de branco e o chão de madeira tão polida que brilhava. Trajava vestido verde. esguio e moreno. o chão coberto de tapetes de peles. quando entramos. de jantar. estavam em todas as paredes. O lugar transpirava riqueza e certo tipo de nobreza arraigada na Terra. uma das madeixas rebeldes sempre a cair-lhe sobre os olhos. parecia mais uma sala de troféus. e não fora . Cabeças de animais. para acolher-me. o rosto comprido. — Vamos ter com eles. a mim. — Capitão Ross — disse ela. branco. que varria o chão e serviu para formar contrastes violentos com o ruivo dos cabelos soltos. uma estante de armas coberta por vidraça a uma das extremidades. mas lá estava Sara Foster. tendo recebido o convite pouco tempo antes. Receio ter sido impetuosa. Era alto e cadavérico. montadas. Podia ser biblioteca — havia algumas prateleiras com livros — mas. alguns com as cabeças dos animais. estendendo a mão —. em pessoa.Eu contara ser recebido por um robô à porta. exibindo as presas em ameaça fixa e constante. O salão em que nos achávamos era alto. quanta bondade sua. Passou o braço pelo meu. — Os outros estão na biblioteca — explicou. tudo aquilo era muito agradável. mas queria muito vê-lo. Nas cadeiras ao lado da lareira imensa havia dois homens sentados e.

pensava enquanto o examinei. posso apresentá-lo ao Frei Tuck? Ele estendeu a mão ossuda. ao que notei. Durante minhas peregrinações. — Capitão Ross — disse Sara Foster —. estendia a mão flácida em minha direção. Era achaparrado. . Ele inclinou a cabeça ossuda. e não gostara. capitão — interveio Sara. A essa altura o segundo homem se pusera em pé com dificuldade. este é George Smith. antes. de cinta frouxa. — A verdade — observei — é às vezes muito difícil de alcançar.tão tisnado. capitão. calçavam sandálias fortes. de aparência encardida. — Como deu para ver — manifestou-se Smith — sou inteiramente cego. andou fazendo peregrinações? Perguntara isso porque vira gente de sua laia. — O senhor. — Bastante — respondeu —. Fitei-o com dureza. Usava hábitos religiosos castanho-escuros. em absoluto. então. formada por fieiras de miçangas e os pés. os olhos inteiramente brancos. ouvi falar muitas coisas a seu respeito. quanto pelos pensamentos que abrigava no crânio. e sempre à procura da verdade. — Meu nome legal — declarou — é Hubert Jackson. Vai perdoar-me por não ter levantado quando entrou na sala. — E. com rapidez —. pela vida ao ar livre e o sol. mas prefiro ser chamado de Frei Tuck.

— Se tiver algum scotch — propus. ao que me pareceu.. com mais orgulho do que tal declaração merecia. . desse modo. diante daquela lareira imensa. Nunca ouviu falar de mim. procurou novamente voltar a sentar-se. até receber meu bilhete. Ela notou que eu as examinava. — Logo teremos o que beber.. Sei o que os outros querem. não havia motivo verdadeiro para que o homem. e ali estávamos os quatro. reunidos em grupo aproximado. — Utilizo apenas uma carabina balística — explicou.. Se o caçador errar o ponto vital da coisa que está caçando. — Sinto muito.. — Talvez esta cadeira — propôs-me Sara. é o feitiço contra o feiticeiro. Percebeu que eu não compreendia o significado de tais palavras. — Esqueci de dizer — explicou. — Eu sou uma caçadora balística — disse ela. de imediato. — É arma que dispara uma bala impelida por carga explosiva. e Sara o fez em outra. — Requer muita habilidade em lidar com a arma e. Ele. por favor. mas. de vez em quando.Aquilo era embaraçoso. enfiasse sua cegueira pelos nossos olhos a dentro. É o único modo esportivo de caçar — prosseguiu. cercados pelas cabeças de criaturas vindas de mais de uma dúzia de planetas diversos. requer também coragem. — Vai-me desculpar. e era flácida como parecia. é o que quero dizer. Apertei-lhe a mão. Sentei-me na cadeira que ela designara. quase tão mole quanto algo ainda vivo o pode ser. senhorita.

. De vez em quando. imaginando o que poderia ser tudo aquilo. — Não tenho informações sobre as quais possa basear uma opinião. — Algumas — concordei — mas não havia espírito esportivo algum. capitão. em qualquer espécie de empreitada. E fui queimando por todo o tempo que pareceu necessário. — Uma questão de espírito esportivo. E ali fiquei sentado. — Não — confirmei. Em outras vezes. tinha a certeza. Ela não me convidara. O que quer que se passasse. — Mas o senhor já matou criaturas selvagens. — Eu sou. Só que o caçador tem a primeira oportunidade. fortificados por trás dos copos. Um robô trouxe as bebidas e nós nos instalamos o mais comodamente possível. deixavame inteiramente desinteressado. digamos que fui. — Nesse caso. Dito isso.. — Usei uma arma laser. — Tenho a sensação.. para salvar a vida. ou àquela casa. o senhor não é um esportista. Ela deve ter lido meus pensamentos. sorvi a bebida prolongadamente. e o mesmo ocorria com os outros dois ali sentados em nossa companhia. capitão — prosseguiu Sara — de que o senhor não aprova tal esporte. só para desfrutar minha companhia. no meio da coisa. — Nem sempre acontece assim — obtemperou ela. — Não me arrisquei — prossegui. dando tratos à bola. Parece-me. agora.. Eu não me ajustava àquele aposento. — . fazia parte da coisa e a idéia de estar reunido a eles. que estou aposentado. — Eu não formo opinião — respondi.Compreendi — declarei. matei para comer. um caçador de planetas.

— Sim. — É ficar lá fora tempo o bastante — expliquei —. — Já ouviu falar em Lawrence Arlen Knight? — O Peregrino — confirmei. no caso de Knight. Tudo que eu caçava eram planetas novos. Tem algo especial.Imagino que esteja tentando descobrir o que se passa. nenhum El Dorado místico.. Existiram e ainda existem muitos como ele. — Que estórias? — Do tipo comum. estive pensando no assunto.. Faz muito tempo. — Mas Knight desapareceu. — Está zombando de nós? — disse Frei Tuck. Mais cedo ou mais tarde. — Eu não gosto de zombadores. Estórias que contaram a respeito. e a criatura acaba desaparecendo. Muito antes de minha época. esse nome. Casos contados no espaço. ele prendeu a imaginação dos narradores de casos. capitão. Mas. — Eu parei a tempo — expliquei. estava jogando com segurança. Não procurava as Sete Cidades de Cibela. encontra alguma coisa que lhe dará cabo da raça. — Mas o senhor ouviu. ouvi falar dele. Talvez seja o próprio nome. — Que ele estava caçando alguma coisa? É claro. — Senhorita — concordei —. não me metera em qualquer Cruzada da Alma. Todos eles estão sempre caçando alguma coisa. — Mas o senhor. — Mesmo assim. e continuar a meter o nariz em lugares estranhos. — . andando em transe. Como Johnny Semente de Maçã ou Sir Launcelot...

São estórias que divertem. — Ou quase nenhum. — Existem outros pilotos. por favor — acorreu ela. — Talvez tenha visto a espaçonave no campo de pouso.Eu não pretendia zombar — expliquei a Sara Foster.. Ela lhe pertence? Em resposta. talvez. E gostaria de acrescentar que não gosto de ser corrigido por um religioso falso. Tenho uma proposta a fazer. — Obrigado pela bebida — encerrei. não com ele. — Se fizer o favor de sentar-se. Gostaria do emprego? — Mas. — Em outra ocasião. — Na Terra? Quantos pilotos competentes acredita que existam na Terra? — perguntou. quando não se tem mais o que fazer. E admirei muito. Duas plataformas ao lado de onde pousou. Mas o senhor está lidando comigo. — . proposta que talvez ache interessante. — Capitão. Depositei o copo na mesa ao lado da cadeira e fiquei em pé. — Não há um só — disse ela. Ela sacudiu a cabeça. Peço desculpas pelo Tuck. Eu não confiaria aquela nave a qualquer deles. — Só um momento. — O espaço está cheio de relatos e estórias. de unhas sujas. com certeza. eu vi. por que eu? — perguntei. — Eu me aposentei — declarei.. em negativa. Voltei a sentar-me. preciso de alguém para pilotar. Sara Foster assentiu. — Sim. Aquela que mencionou é apenas uma. — Não devem ser muitos.

não valeria a pena.. No espaço. — Mais ou menos — reconheci. — . — E seria possível chegar a ponto de me dizer para onde estaríamos indo? — Não sabemos aonde vamos — foi a resposta dela. Smith — explicou Sara — sabe aonde vamos. — Tudo isso é muito interessante — comentei. Ademais.Vamos entender a coisa — propus. E aquilo era uma bobagem completa. diante do animal que a acossasse. qualquer um pode pegá-lo. acredite em mim. porque não existe outro lugar para onde possa ir. E se alguém pretendesse fazê-lo. nada pode alcançar aquela nave. sem saber aonde vai. Voltei a cabeça para fitá-lo. olhar aquele amontoado de gente derreado na cadeira. Para um perseguidor. Ninguém parte em viagem pelo espaço. naturalmente. talvez do modo como os apertasse ao fazer mira com a carabina. — E que me diz de sair para o espaço? A Patrulha. — Como sabe que pode confiar em mim para pilotar sua nave? O que sabe a meu respeito? Como soube que eu cheguei à Terra? Ela me fitou nos olhos. nós o desgastaríamos. — Confio no senhor — asseverou —.. por que não o dizia? — O Sr. apertando um pouco os seus. Sua segurança única está em permanecer com a nave. — Capitão. os olhos sem visão e leitosos no rosto flácido. Se ela não queria revelar o destino. acho que podemos arrumar as coisas de modo que ninguém saiba que o senhor foi para o espaço. Temos uma distância prolongada e difícil a percorrer.

que Knight foi acompanhado por um robô. Fragmentos e pedaços apanhados — .Tenho uma voz na cabeça — explicou ele. Disponho também de cartas que Knight havia escrito a certos amigos. — Tem razão — confirmou. o rosto embranqueceu. — E que Roscoe era um robô telepata? — Não existe coisa assim — contrapus. Adquiri tudo antes que esses dois cavalheiros aparecessem e consegui de fontes das quais os dois não tinham conhecimento algum... muito antes que o Sr. E já tinha as especificações. mas não é tudo. dentro da cabeça. seus olhos azuis pareceram estreitar-se. Oh. de repente. como o chamaríamos? Talvez nada mais do que um passatempo. Smith aparecesse. com certeza. — Eu não contei a ninguém — retorquiu ela. e mordia as palavras que pronunciava —. Andei estudando o assunto direitinho. falando com Sara Foster. tornando-se jatos luzidios e gelados. — Ora. — Mas existe. capitão. talvez. O senhor sabe. ficou com raiva. — Deixe-me adivinhar — propus. Ela.. Smith. a coisa toda dá nisto. Tenho um amigo lá fora. aduzindo: — Um robô chamado Roscoe. maravilhoso! pensava eu. — Foi este cavalheiro religioso quem lhe trouxe o Sr. a única documentação autenticada referente a Knight e aquilo que ele procurava. — Tenho contato com alguém. Tenho as especificações desse robô de que estou falando.. Assenti. O homem escuta uma voz. Ou existiu. — Mas podiam ter ouvido falar. Talvez fosse uma obsessão. Tenho.

de modo que fazem uma salada de motivos e. sem exceção.. — Mas. — E não passa disso — obtemperei. nos de hoje. nos dias antigos. levando-se a crer. sem qualquer esperança de reuni-los de forma a fazerem sentido. e eles sabem. retorcido. — Capitão. porém. o senhor não acredita em uma só palavra? . — Não paira a menor dúvida sobre a autenticidade. entrelaçado com outros fatos minúsculos. Um fato minúsculo é tomado. se tornem tão complicados que não resta mais esperança alguma de saber o que é fato verdadeiro e o que vem a ser ficção inspirada. Não existe o menor motivo para se meterem por lá. por mentirosos consumados. levados à relação fictícia uns com os outros.. — E o que dizem essas cartas? — Que ele estava procurando algo. se autêntico. Esse tipo de gente precisa de alguma desculpa para sua peregrinação eterna. Alguns acreditavam que as coisas procuradas estavam lá.. Todos eles. — Eu já lhe disse que todos eles estavam procurando alguma coisa. — Uma lenda. Formada com o correr dos anos. e continua a ser. até que todos esses fatinhos entrelaçados. Eles precisam enxertar algum fito à existência que não tem sentido. Alguns simplesmente se hipnotizaram. Foi assim. Estão apaixonados pelo espaço e por todos aqueles mundos novos e desconhecidos que se estendem além do horizonte seguinte. Eu verifiquei com certeza. as cartas? E os pormenores técnicos de um tipo especial de robô? — Isso poderia ser alguma coisa. Era uma lenda tão sedutora..aqui e acolá. sem qualquer malícia.

nem consigo mesmo. Estou além de desejar qualquer vantagem monetária. O vermelho significa algo para vocês. — E eu não gosto de você. e tem uma sensação que. Não existe meio pelo qual se possa descrever uma cor ao homem que não enxerga. liso. embora digam que exista coisa tal como a cor. Mas vou lhe dizer. falando comigo.— Nem uma — confirmei. A sensação da tessitura. Se bem que. mas não existe meio para conhecer a tessitura de verdade. mas a que se parece a água? O uísque em um copo com gelo. Dá para visionar objetos em minha imaginação. mas eu não ia participar. que trouxe meu companheiro cego à Srta. — Você não gosta de mim — disse Frei Tuck. a não ser as formas que minhas mãos mostram. como sabia. se aqueles dois aventureiros a levassem a uma viagem doida e sem sentido. Não conheço forma. Eu não respondi àquilo. também. falando não conosco. Tudo quanto procuro é a verdade. Água para beber. A Terra representava abrigo e eu precisava dele. pois não conheço as cores. antes. sim. Foster sem qualquer idéia de vantagem monetária. reconhecia estar tentado. mas a visão deve estar errada. aquele tipo de gente. mas a alguma pessoa desconhecida. É água que se . lembrando-me daquela nave no campo de pouso. De que adiantaria uma resposta? Conhecera. — Eu não posso ver — disse Smith. para mim nada. Mas era impossível. como me informam. — Nunca pude ver. sinceramente. mas com que o uísque se parece? O gelo é duro. de cuja existência ninguém sabia. é fria. Eu nada tinha a opor.

Não é mundo imaginado. — Ele vai ser a bússola.. dentro da cabeça. só um pouquinho. bateu no crânio com os dedos. aqui. a grande distância em que ele se acha e a direção dessa distância. Por esse motivo.. — Outro mundo — prosseguiu —. mandou fabricar o robô. o que é o branco? Fez uma pausa. mas o que é o cristal. — Exatamente — confirmou a caçadora. porém. mundo que me foi dado por outro ser. — Foi assim com o Roscoe. .. e continuamos nela. em resposta. É tudo que sei com certeza. Partimos na direção que ele disser. Era duro de engolir.. e informam ser branca. embora tenha sido levado a crer que está muito distante de nós. Não sei onde está este outro ser. fitando Sara. mas tenho outro mundo — e ele ergueu a mão. O próprio Knight tinha isso. então. — O robô feito por encomenda? Um robô telepata? Ela assentiu... — A coisa.transformou em cristais. É o que dizem as cartas. a não ser o espaço que me dá e os pensamentos de outras pessoas. mas como vou saber se minhas interpretações de tais pensamentos estão certas? Ou que sei relacionar os fatos corretamente? Tenho pouco neste mundo. impossível mesmo. Havia ali alguma coisa além de toda a possibilidade de crença. prosseguiu logo: Eu nada tenho deste mundo. Só o bastante para saber que havia alguém lá fora. — O robô do Knight? — O robô do Knight. é essa — disse eu.

para aquelas outras pessoas em cujos olhos suas aventuras em planetas distantes significam certo tipo de prestígio. descobrirá. e algumas delas eu vira antes.. trazer para casa outro tipo de cabeça. Não há mais lugar para outras cabeças. para ir até lá e ver. Estou pronto a apostar minha vida. Mesmo se encontrasse a verdade. que teria deixado a Terra. nem mesmo nos relatos alcoolizados de homens sozinhos e desgastados pelo espaço. O senhor viria . e estava presente toda uma quantidade de restos de animais dos quais nunca ouvira falar. Por que não podemos ser nós? Olhei em volta pelo aposento. Talvez não seja apenas para Sara Foster. — Se está lá fora — interveio Sara —. E o encanto de caçar e trazer mais cabeças para casa pode estar acabando. alguém. fantásticas. porém.. As paredes estão cheias. outras. As cabeças de animais fitavam-nos com fúria. pensei. — E isso — observei — é exatamente o que estaria fazendo. criaturas ferozes vindas de muitos planetas distantes. em alguma ocasião.— Existe verdade lá fora — afiançou Tuck. o que pode ser mais lógico do que caçar outro tipo de coisa. empreendendo uma aventura nova e mais maravilhosa? — Ninguém — afirmou Sara Foster — saberia que o senhor teria ido ao espaço. também. apenas conhecia de referência. quando se juntavam aos companheiros em bares escuros. a famosa caçadora de grandes animais. — Uma verdade que nem sequer podemos imaginar. nos planetas dos quais talvez não houvesse mais de mil pessoas a saber-lhes os nomes. Assim sendo.

que diferença faria se ele fosse desmascarado? — Nenhuma. — O homem que seria eu. Mas era o tipo de coisa que pode agradar a um homem por pouco tempo. só que eu gostaria de voltar com a nave. Ele viveria aqui. pensava. E depois de estarmos bem longe no espaço. se a nave voltar. e o senhor poderia partir para o espaço. A mim não agradavam as pessoas. O espaço era coisa que se .aqui um destes dias. Existem muitos meios de identificar alguém. talvez sofresse um acidente fatal? — Isso. e depois ele passar a odiar. era possível que sufocasse. — E dispõe de dinheiro suficiente para comprar uma coisa assim? — perguntei. e um homem sairia.. em seu lugar. não — atalhou ela. — Isso poderia ser providenciado — asseverou ela. em absoluto — concordei —. Era possível um homem morrer na Terra. depois. na Terra — indaguei —. de toda a proposta. não agradava o plano. Teria exatamente seu aspecto. — Podemos cuidar desse pormenor. em resposta afirmou: — Tenho dinheiro suficiente para comprar qualquer coisa. — Comprar a confiança de um homem nessas condições? Ela deu de ombros. Mas havia aquela vontade de por as mãos na nave e encontrar-me novamente no espaço. — Jamais poderíamos escapar impunes. Fiquei com impressão de que ela estava com um pouquinho de pena por não ser possível aplicar solução tão simples. Eu vira pouco da Terra e aquilo que pudera ver fora agradável. mas não seria o senhor.. na Terra. Desviei-me daquilo.

A solidão salpicada de estrelas. dizia a mim próprio. por mais bizarro que isso parecesse. com tudo marcado e assinalado para o piloto. quando permanecia fora dele muito tempo. Havia lá fora algo que entrava na pele da gente. Ficava inquieto. de liberdade para ir aonde bem se entendesse. O senhor esteve lá.entranhara em meu sangue. com expressão de desafio. O senhor nunca viajou pelas trilhas seguras do espaço. — Mas. Srta. Havia algo mais. Foster. — O jantar está pronto. . — Vou pensar no assunto — prometi. partir quando bem quisesse — tudo aquilo fazia parte da coisa. E eu devia ter pensado muito mais tempo no assunto. — Pense em um preço — propôs Sara Foster —. mas não era tudo. por quê? — perguntei. E precisamos do senhor. mas a posse do dinheiro também me ensinou que é preciso pagar pelo que se consegue. jamais deveria ter aceito. Não vou reclamar. Capitão Ross. e depois dobre a cifra. caçando seus planetas. a sensação de não estar ancorado em parte alguma. tornava-se parte da gente. Um robô passou pela porta. Ela olhou para mim. o silêncio. de pé naquele deserto inundado pela lua. na frente de todos. — O dinheiro não tem significado à seus olhos? — Claro que sim — disse ela —. Talvez uma sensação da verdade. que ninguém conseguiria traduzir em palavras. Precisamos de um homem como o senhor.

por certo. Sara já se pusera em pé. pois isso se teria tornado evidente. — Ora. Seus olhos brancos e cegos. saindo da Terra. Tuck desemaranhava as pernas do manto ridículo que usava. vi que não era apenas a lua o que explicava tanto brilho. mas a amizade dos dois tinha de ser algo mais do que isso. como maçãs maduras. que haviam encontrado na fraqueza mútua um elo comum de compaixão e compreensão.Smith continuava rastejando. de mãos e joelhos. parabéns. que gemia. refletindo o luar. ainda agarrada à carabina. fitando o céu. brilhavam como os olhos de um gato à caça. naquele planeta. Toda a abóbada de céu irradiava a luz de estrelas. — Eu consegui manter o cano para cima — contou-me. tão bons companheiros? Não era o homossexualismo. gostaria de ter alguém que cuidasse dele e Tuck podia muito bem encarar o cego e sua voz na cabeça como um tipo de bom investimento. Dois incompetentes desajeitados. então — retruquei. . estrelas em número. O deserto estava quase tão claro quanto o dia e. tamanho e variedade maior do que eu vira em qualquer ocasião. daqueles dois. Eram estrelas que não tinham surgido ao primeiro olhar nosso. devia haver entre eles algum tipo de necessidade espiritual que servia de contato entre os dois. O que fazia. estrelas que pareciam tão próximas que bastava estender a mão e recolhê-las. Smith. talvez. choramingando. cambaleando na direção de Smith. antes que os cavalinhos nos jogassem ali. trazendoa atravessada no corpo. no confinamento da viagem que havíamos feito. mas agora se apresentavam sem disfarce.

É sempre a primeira regra — contou-me. — Manter o cano para cima, de modo que não entupa. Se não ficasse para cima, o cano estaria cheio de areia. George continuava a lamentar-se, e seu lamento tomava agora forma de palavras. — O que aconteceu, Tuck? — gritou. — Onde estamos? O que aconteceu a meu amigo? Ele foi embora. Não o escuto mais. Pelo amor de Cristo — disse eu a Tuck, cheio de nojo —, faça com que ele fique em pé, tire a poeira, limpe-lhe o nariz e conte o que aconteceu. — Não posso explicar — resmungou Tuck —, até que alguém me explique, a mim, o que se passa. — Eu posso contar — disse. — Fomos enganados. Embrulhados e tapeados, meu amigo. — Eles voltarão — gemeu George. — Eles voltarão para nos buscar. Não vão deixar-nos aqui. — Não, está claro que não voltarão — disse Tuck, arrastando-o para que ficasse em pé. — Eles voltarão, quando o sol subir. — O sol não subiu, Tuck? — Não — disse Tuck. — A lua. E um punhado de estrelas. E assim estava eu, plantado dessa maneira, jogado a um lugar do qual não fazia a menor idéia, encarregado de dois bestalhões e uma Diana que só sabia pensar em como pudera manter o cano da arma para cima. Olhei em volta. Havíamos sido lançados na encosta mais baixa de uma duna e de ambos os lados as dunas se erguiam para receber o céu noturno. O próprio céu estava vazio de

tudo, a não ser a lua e as estrelas. Não se via uma só nuvem. E a terra era areia, nada mais que areia. Não se viam árvores ou arbustos, nem uma folha de vegetação. O ar apresentava um pouco de friagem, mas calculei que isso logo se dissiparia, quando o sol surgisse. Era mais do que provável que teríamos um dia comprido e quente à frente, e não dispúnhamos de uma só gota de água. Sulcos compridos na areia mostravam onde nossos corpos haviam deslizado, empurrando montículos de areia à frente. Havíamos sido jogados na direção de outra duna, e pareceume que talvez pudesse ter alguma importância sabermos de onde tínhamos Sido jogados. Caminhei um pouco e, com a coronha da arma, tracei uma linha comprida na areia, fiz algumas flechas riscadas, apontando aquela direção. Sara me observava atentamente. — Acha que podemos voltar? — perguntou. — Eu não apostaria um vintém furado nisso — respondi, sucintamente. — Havia uma porta de algum tipo — comentou ela — e os cavalinhos nos atiraram por ela, e quando caímos aqui, já não havia mais porta. — Eles nos pegaram — afirmei —, e pegaram desde o momento em que pousamos. Eles nos tapearam desde o começo. Não tivemos oportunidade, sequer, de dizer "ui". — Mas estamos aqui — observou ela — e temos de começar a pensar em sair. — Se puder ficar de olho naqueles dois palhaços — propus — e providenciar para que não criem mais encrencas, eu darei uma espiada.

Ela me fitou com ar sério. — Está pensando em alguma coisa, capitão? Alguma coisa especial? Sacudi a cabeça em negativa. — Vou só dar uma espiada por aí. Pode haver a possibilidade de encontrar alguma água. Precisamos muito de água, antes que o dia termine. — Mas se perder a direção... — Eu terei as minhas pegadas para seguir — expliquei —, se não aparecer um vento, de repente, apagando tudo. Se alguma coisa desandar, disparo para o céu e a senhorita dispara uma vez ou duas, para me orientar de volta. — Não acha que os cavalinhos voltarão para nos apanhar? — Qual é a sua opinião? — Creio que não — reconheceu ela. — Mas de que adiantou isso? O que ganharam, dessa maneira? Nossa bagagem não poderia ter tanto valor. — Livraram-se de nós — fiz ver. — Mas eles nos guiaram até o planeta. Se não fosse aquele rádio-farol... — Havia a nave — observei. — Pode ter sido a nave o que eles queriam. Havia bom número delas no campo de pouso. Eles devem ter atraído muitas outras pessoas. — E todas elas a este planeta? Ou a outros planetas? — Pode ser — concordei. — Nosso trabalho, agora, é descobrir se existe lugar melhor do que este deserto, para onde possamos ir. Não temos comida e não temos água. Acertei a bandoleira de minha carabina no ombro e comecei a subir a duna de areia.

Alguma outra coisa que eu possa fazer? — perguntou Sara. — Pode impedir que aqueles dois apaguem a linha que eu risquei. Se um vento surgir e começar a apagá-la, tente marcá-la de algum modo. — Parece que tem muita fé na linha que riscou. — É só uma boa idéia para sabermos onde estamos. — E talvez não signifique coisa alguma — retorquiu ela. — Devemos ter sido lançados por alguma espécie de ponto nulo no espaço-tempo, e onde caímos não significaria... — Concordo, mas não temos outro ponto de referência. Prossegui andando, subindo a duna, e a marcha era difícil. Os pés afundavam-se na areia, não paravam de deslizar para trás. Não dava para ter noção do tempo, era esforço pesado. Pouco antes da crista da duna, parei para descansar um momento e olhar a encosta abaixo. Lá estavam os três, fitando-me. Por algum motivo que não pude explicar, descobri que os amava — aos três, aquele imbecil molóide e pé-frio de Smith e, aquele falso Tuck, e Sara, que Deus a abençoasse, com sua madeixa de cabelos tombada sobre os olhos e a carabina antiga e ridícula. Quem quer que fossem, eram seres humanos e, de um modo ou de outro, eu teria de tirá-los dali. E isso porque contavam comigo. Para eles, eu era o sujeito que varrera o espaço, eliminava todas as espécies de encrencas. Eu era o sujeito durão e bruto, que encabeçava a expedição, pelo menos em teoria. Eu era o comandante, e quando a coisa andava ruim, cabia ao comandante sair-se da entaladela. Aqueles pobres imbecis confiantes, pensava eu — não faziam a menor idéia do que

se passava e eu não tinha plano algum, estava tão perplexo, batido e sem esperanças quanto qualquer um deles. Mas não podia deixar que percebessem. Tinha de continuar agindo como se, a qualquer instante, fosse descobrir um truque que nos levasse de volta à casa, sãos e «alvos. Ergui a mão e acenei para eles, procurei conferir ao gesto um ar lampeiro, mas fracassei. Subi, então, a duna, e chegando ao cimo, encontrei o deserto estendido à frente. Em todas as direções que fitasse, era o mesmo — ondas de dunas, até onde dava para ver, cada qual exatamente idêntica à outra, sem qualquer diferença — nenhuma árvore que pudesse indicar a presença de água, nada em absoluto, senão a extensão imensa de areia. Desci a duna aos saltos, subi outra e, de sua crista, o deserto parecia o mesmo de antes. Eu podia prosseguir, reconheci, escalando dunas para sempre, e talvez nunca encontrasse qualquer novidade. Os cavalinhos, quando nos haviam atirado pelo portão, porta ou o que fosse, tinham sabido o que estavam fazendo, e se quisessem livrar-se de nós não poderiam executar empreitada mais eficiente do que aquela. Isso porque eles, ou o mundo de que faziam parte, não erraram uma só manobra. Havíamos sido atraídos pelo rádio-farol, tirados da nave, esta selada e, em seguida, sem termos tempo para pensar, sem oportunidade de protestar, jogados neste mundo. Tínhamos sido tratados como bêbados expulsos de um bar, tudo preparado antecipadamente. Subi outra duna. Sempre havia a possibilidade, não parava de pensar, de que em algum daqueles pequenos vales entre as dunas houvesse algo que valesse a pena encontrar. Talvez

Não fora muito antes. bem estendido na areia. não contava encontrar coisa alguma. Tirei a carabina do ombro e a preparei. como a armação de costelas de algum grande animal pré-histórico que fora apanhado em cima da duna. as costelas metálicas brilhando à luz da lua e das estrelas. Ou uma trilha que nos levasse a terreno melhor. parti em ângulo para a esquerda e comecei a subir novamente. berrando de pavor até que a morte o silenciasse. a nativos. A areia deslizando levou-me devagar na descida. eu tinha certeza. naquela extensão de deserto.água. Nada havia. fiquei paralisado. semi-enterrada na crista. vi as marcas de areia agitada e já quando olhava. Tendo deslizado a tal ponto que não mais podia ver a parte superior da duna. sobre o que alguém pudesse alimentar esperanças. que a gaiola sofrera impacto na crista . pois esta seria o de que mais precisávamos. Na verdade. outros montes pequenos da areia rompiamse por baixo da gaiola e desciam a encosta. deitei-me e rastejei. que talvez nos pudessem ajudar de algum jeito. Era uma espécie de gaiola de passarinhos. A vinte palmos da crista da duna. murmurando enquanto o fazia. Mas quando cheguei ao cimo da duna — perto o suficiente para ver acima da mesma — divisei algo. enterrei os dedos na areia para não deslizar de volta. No vão por baixo da gaiola. mantendo a cabeça baixa. Quando os olhos chegaram ao cume e deu para ver novamente a gaiola de passarinhos. na crista da duna seguinte. embora estivesse além de minha compreensão o motivo pelo qual alguém quisesse morar em lugar assim.

e a vida por ela trazida estava morta em seu interior ou em algum lugar próximo. descendo a duna e segui como aranha por ela. ainda. mas não podia ter certeza. bem à direita de onde se achava a gaiola. ainda não chegara à marca de trenó. não fechada. desta vez rumando para a direita. Teria de olhar mais de perto aquela marca de trenó. o estado de equilíbrio e as marcas eram recentes. fosse realmente uma nave. Movia-me com toda a cautela possível. à escuta de qualquer sinal de vida. E. com meus movimentos. uma espécie de deslizar de trenó. "Impacto" parecia palavra estranha. Olhei devagar. ao se livrar e descer. porém na forma de um arcabouço. examinando a parte superior e inferior de todo o comprimento da duna e ali. apenas isso. devia ter trazido vida. Podia haver algo do outro lado. mas não deu para distinguir coisa alguma. Quando enfiei a parte superior da cabeça por cima da crista da duna. pareceu-me ter percebido movimento na cratera. mergulhando na crista para a sombra entre as dunas. Esforcei o olhar para divulgar naquelas sombras. via-se um sulco leve. se como eu pensava. chiando. talvez. Uma nave de alguma espécie. Forçando os olhos. mas estava muito próximo da mesma e da concavidade entre as duas vinha um som de raspagem e deslizamento. mas ainda assim a razão dizia que devia ter havido um impacto. O som do deslizamento e raspagem . pois era pouquíssimo provável que alguém a houvesse colocado ali. a fim de amortecer o som da areia que deslizava. Recuei.da duna — a areia agitada por sua chegada não alcançara. embora fosse estranha espécie de nave. a face da duna.

ou apupo. — Ei. — Eu tenho — respondi. — Aquilo lá em cima é sua nave? . Eu não tenho arma. cessou todo o som. — Para ela. e algo se mexeu lá por baixo (desta feita. dita em pio de pássaro. recomeçou.De início era apenas um ruído e depois. Em seguida. e mais uma vez tive a impressão de movimento. aí em baixo! — chamei. — Amigo — respondi. Percebi que podia estar lidando com alguma coisa tão distante de meu próprio setor da galáxia que a linguagem espacial. e não teríamos meios de comunicação. Adiantei a carabina. lá em baixo. para a cratera. O som de coisa resvalando parou. — Amigo? — fora a palavra. nas sombras. uma única palavra. de modo que pudesse mirá-la. um tanto sombriamente. tive certeza). — Em necessidade estou eu de amigo — disse a voz que parecia um pio de ave. enquanto eu me esforçava por entender o barulho. — Por favor. avance com segurança. Foi quando uma voz trêmula e parecida a um pio. recomeçou.cessou. alguma coisa gemeu. percebi que era uma palavra. não fosse utilizada por quem ali se achasse. De nada adiantava esperar mais. — Olá! — chamei de novo. em um instante. — Estou preso e indefeso. conhecida daquele setor. Fiquei esperando. surgiu em resposta. . não existe necessidade — disse a coisa. Não obtive resposta.

Mantive a carabina voltada para a zona de sombras da qual vinha a voz. uns quatro palmos. o corpo se afunilava para trás. Permanecerei deitado de costas. — Venha. Da cabeça bastante grande. Fique deitado. Se fizer alguma bobagem. — Verdadeiramente. Aquilo partiu-se em pedaços. com a rapidez possível. caídos molemente ao chão. no corpo não se — . — Venha em minha direção. — Nenhum movimento farei. Foi quando o vi. muito imóvel. Graças àqueles tentáculos.Nave? — Seu transporte. Pus-me de pé e caminhei ao alto da duna. Cheguei à vala e ali me acocorei.. Da parte dianteira da cabeça saía um ninho de tentáculos. vigiando com atenção. se a parte que sustentava os tentáculos fosse. talvez não precisasse de braços. acocorado para constituir alvo o menor possível. Nem mesmo estremeceu. então. Aquele amontoado permaneceu imóvel. O amontoado remexeu-se. — Vou descer — avisei. um amontoado de negrume.. Corri à frente e estaquei. de fato. mais ou menos. — Está bem — declarei. e desci pela outra encosta. sua cabeça. não posso. então — coaxou aquela voz. Dava para ver melhor. Não usava roupa. e terminava em ponto agudo. Não faça movimento algum. voltou à imobilidade. Não parecia ter pés ou braços. Aproximei-me mds. — Estou de arma visando você. Não funciona mais. abaixando-me para ver seu comprimento. revirou-se. — Movimentar-me — disse —. — OK. caro amigo.

dignar-se-ia a defecar num planeta destes. — Não sei de lugar assim — declarei. — E afundo. — Não sou — concordei. examinando-me de cima a baixo. ondulando como uma cesta cheia de cobras. tendo olhos nas extremidades. — Eu voltaria a afundar na areia. e cavo um buraco mais fundo por baixo. — Nenhum membro de minha raça. dotado de amor próprio. . Os tentáculos não seguravam qualquer arma ou ferramenta. Elas não me carregam. talvez. Os tentáculos que serviam de suporte para os olhos continuavam subindo e descendo. não é nativo deste planeta. — Minhas pernas são curtas — declarou. Com as pernas. Dois dos tentáculos. — Seria gesto inútil — disse a criatura. — Vejo que você é grande — coaxou. — Qual é o seu problema? — perguntei.. medindo-me da cabeça aos pés. A voz roufenha veio da boca que os tentáculos cercavam. — Eu posso tirar você daí. só consigo remexer a areia. senhor? — perguntou. — Deste planeta.. — Não sabe.via sinal algum de equipamento ou arnez. estavam diretamente voltados para mim. — O que posso fazer por você? Os tentáculos se ergueram. nesse caso... — Tem também força? — Força para carregá-lo? — Apenas a um lugar onde exista firmeza por baixo de mim — explicou a criatura. — Pensei que você.

constituindo insulto a simples insinuação ao que acarretava.. surpresa ou pavor. e . Seria isso ou. de modo que meus tecidos vivos não sofram grande mal. Comida e água. perguntei a mim mesmo. Levo proteção contra a abertura do espaço e um pouco de calor. hesitava em perguntar. — Nada há por lá. Devo reconhecer que eu estava muitíssimo interessado na água. — Viajo em meu segundo eu. e embora imaginasse no que isso poderia significar. Encontram-se coisas bem estranhas.Acocorei-me para vê-lo melhor.. a tentativa gaguejada de explicar os fundamentos da coisa. — Não adiantaria — respondeu-me. o que se passava? Ele estava no segundo eu. Estava tudo certo. quando se sai pelo espaço.. E aquela questão sobre os tecidos vivos! Como se houvesse algo além de simples tecidos vivos. — E que me diz da nave? — indaguei. Pelo amor de Deus. por existir espécie tão ignorante ou ineficiente que não possuía tal conceito. toda a questão constituía um tabu a que não se devia fazer referência. então. — Não necessito dela — explicou.. não preciso de comida ou água. até ela. ou espanto. — Mas deve haver. Em primeiro lugar. Sabia como essas coisas eram. — Se eu pudesse leválo pela duna. naturalmente. mas ao encontrá-las é geralmente possível esquivá-las ou deixá-las de lado. acompanhada por uma preleção sobre as vantagens do conceito e a piedade sentida por aqueles que não o entendiam.

água. eu e mais três. e enquanto procurava o modo de fazê-lo. — Você sabe. então. Tinha de fazer algo para ajudar aquela criatura a sair dali. a cortesia de alguém demonstrar que se importava pelo que lhe acontecesse. que podemos fazer pouquíssimo em seu favor — indiquei.naquela situação eu não podia recorrer a qualquer das alternativas. Mas eu não podia dar-lhe as costas e seguir andando.. — Como chegou aqui? — perguntou. Desde o momento em que eu vira a nave. absolutamente nada. notando que a mesma se espatifara pouco tempo antes. embora macacos me lambessem se sabia como. que importava nosso modo de chegada? Mas ele parecia compreender. . Afinal de contas. e ela não nos poderia auxiliar. surgira a idéia de que a bordo poderia achar alimento e água. Eu não podia ajudar aquela criatura. Não temos comida. deixando-o ali abandonado. carregá-lo até onde os outros esperavam. então — disse.. — Ah. uma vez lá chegados ele não estaria em situação melhor do que então. achei que estava perdendo tempo. entretanto. que tudo aquilo era uma inutilidade completa. pelo menos. — Não posso oferecer-lhe grande coisa — expliquei. Tentei dizer-lhe como havíamos chegado. nós entalados com ela. Merecia. Reconhecia agora. porém. e aquilo tudo ia dar em mais uma dor de cabeça. talvez outros artigos que nós quatro pudéssemos utilizar. — Somos quatro. Podia apanhá-lo.

igualmente. menos Mike. todavia. Um nome curto e simples. abandoná-lo. onde os demais se acham acampados? — Sim. nos números maiores podemos encontrar a força. começar com aquela questão de dizermos nossos nomes. — Eu gostaria muitíssimo — disse a criatura. Eu sentira um pouco de surpresa. E não se importaria? — De modo algum — respondi —. se você prefere assim. está claro. envolvendo a estrutura de identidade que não faz qualquer sentido para as criaturas de outra espécie. E sou de um planeta chamado Terra. meu nome é Mike. ao ouvir minha própria voz dizendo-lhe meu nome. — É bom. Foi um tanto doido. Não seria café pequeno arrastá-lo pelas dunas de areia. Da mesma forma. O engraçado é que eu não o pretendera fazer. Por favor. — Por falar nisso — intervim —. experimentando a pronúncia e piando o nome de tal maneira que se parecia a tudo. — Mike — disse ele. Poderá chamar-me do que quiser. E meu nome? Meu nome é uma questão complicada. escolha um nome para mim. nunca ouvi. A localização de seu planeta é um enigma para mim. é possível. Jamais se sabe. Mas não conseguia avaliar a situação e mandar tudo ao diabo. A posição do meu nada significa para você. do braço da Carina Sygnus. — Outra vida é reconforto e a solidão não faz bem. Sai com facilidade nas cordas vocais. por favor. Fora coisa que saíra de mim. É claro que eu me importava. de modo quase instintivo. tornava a situação um pouco mais — .Mas poderíeis tentar carregar-me a este local. Agora que isso acontecera. As expressões.

e ele teria todos os motivos para ficar com raiva. — Excelente. — Eu causo muita dificuldade. para criatura como eu. estendendome e ofegando. erguê-lo à altura do outro ombro. Já não éramos dois seres alienígenas. Não tentei ir em linha reta. Era mais pesado do que parecia e seu corpo tão redondo que se tornava difícil agarrá-lo. Sobrecarrego sobremaneira as suas forças. e no mesmo instante tive vontade de dar-me meia dúzia de pontapés. que se haviam encontrado ao cruzarem caminhos. Com os pés afundando até os tornozelos a cada passo que dava e a areia deslizando sobre os mesmos. e repetiu o nome diversas vezes. Olá. firmei os pés. Passei a carabina à bandoleira. afinal. Consegui. . aquilo era tão ruim quanto eu imaginara que fosse. Não pareceu arrepiar-se. Mike — disse Pio. ou pior ainda.cômoda. Movimentou os tentáculos de modo um tanto reptiliano. — Que tal Pio? — perguntei. partindo na subida da duna. Isso porque não era o melhor nome do mundo. lutando a cada centímetro para seguir em frente. passando-os por ele. Pio — respondi. Mas consegui afinal instalá-lo e equilibrá-lo bem. Isso parecia conferir-nos medida maior de identidade. — Olá. levantei-me. — É bom — declarou. entretanto. Mike — disse. Mas alcancei finalmente a crista da duna e ali caí o mais devagar que pude. soltando Pio com gentileza. porém em ângulo. e estendi os braços. afinal.

Rolei de costas e fitei o céu. A distfncia ou proximidade. fitando as estrelas e tentando calcular com exatidão onde nos encontrávamos. Se não queria manifestar-se sobre o local de onde viera. bem por cima. — Temos de andar um pouquinho mais. A explicação era válida. Ele talvez estivesse fugindo. e pouco ao lado um carvão negro que era estrela. como compreendi. Muito longe — disse ele — e seu modo de falar levou-me a não fazer outras perguntas. ou talvez o houvessem banido como elemento indesejado. avaliei. saindo-se com uma solução. — Em que ponto da galáxia? — É um enxame globular — explicou ele. Pio? — perguntei. O espaço estava cheio de peregrinos que não podiam voltar para casa. — Onde estamos. pois o planeta em que tínhamos pousado. para mim não fazia diferença. Fiquei ali. podíamos estar em qualquer um dos mesmos. E um milhão de outras — como se alguém houvesse sentado e calculado como encher o céu de estrelas. — O seu lar é por aqui? — perguntei. estivera bem acima do plano galáctico. — Não. Todas essas coisas aconteciam. dissera Pio. havia uma gigante azul que se parecia a uma jóia luzidia. aquele a que o grande imbecil de Smith nos conduzira. As estrelas brilhavam e. e havia muitos deles. Um enxame globular.Deixe-me respirar um pouco — pedi. — Julguei que soubesse. — . talvez uma supergigante. fosse um refugiado. no espaço exterior além do corpo principal da galáxia — no território de enxames globulares.

você deve olhar. e qualquer preocupação anterior de nada serviria. Fiquei a imaginar. Não estamos sozinhos. Se não achássemos água. seria o fim. pois quando aquele dia chegasse. Estava tentando calcular o que poderia ser. Tampouco fazia grandes diferenças saber onde nos encontrávamos. e sempre ter conseguido de algum modo sair da enrascada. aquela em que a espaçonave de Pio tivera fim. mas esta era de importância menor do que a água. não estaríamos ali por muito tempo. agarrado à carabina. achar que de nada adiantaria preocupar-me muito. pelo método que tinha sido utilizado para nos levar ali. Dava . Ou talvez fosse a compreensão íntima de que eu mais do que abusara da sorte. E compreender isso. algum dia. brilhante. Também a alimentação faltava. Uma roda surgia sobre a duna atrás de nós. e tinha um cubo verde que brilhava ao luar. de modo bastante vago. Era uma roda grande. quando algo me tocou de leve no ombro.não faria muita diferença no caso de alguém que fosse chutado de um lugar para outro. Voltei a cabeça e vi que Pio me cutucara de leve com um dos tentáculos. o motivo pelo qual não estava mais perturbado por tais contingências. Talvez fosse o fato de ter andado em tantos apertos. já era hora de encontrar o fim a que escapara tantas vezes — a compreensão de que. — Mike — coaxava —. em tantos lugares alienígenas. um planeta ou alguma criatura mais durona acabaria com minha raça. Levantei-me de um salto. o que me levara a pensar que conseguiria dar um jeito.

— Nem levantaremos a mão contra aquilo. — Nesse caso. eu o apanho. discordando. Nada havia a indicar que qualquer parte da mesma estivesse viva. mas a curva monstruosa e luzidia da mesma erguia-se no ar.. tinha a certeza. Éramos vigiados. em questão de segundos..para ver apenas parte. iluminadas pelo luar. em comparação àquilo. Centenas de raios prateados vinham do interior da orla até o cubo verde e luzidio. animado. devia ter vindo para investigar os destroços da nave de Pio. — Talvez — respondi. — Tem vida? — perguntou Pio. tinha o ar de coisa viva. Sua superfície de rolamento era larga — dez palmos ou mais. não estávamos em situação de começar a atirar em tudo quanto se mexesse. E mesmo se não o fizesse. acima da duna. pareciam-se a um brinquedo. Aquilo não se mexia. — Eu tenho arma de que você poderá necessitar. é melhor que nos preparemos para defender. O que quer que fosse. e ir embora. por motivo que não pude descobrir. — Você disse que não tinha arma alguma! — Mentira das mais sujas — piou ele. — Vamos ficar sentados aqui mesmo — retorqui. calculei — e tinha o brilho de aço polido. mas o cubo esverdeado. Pairava ali no ar. As costelas da nave de Pio. Ele sacudiu o tentáculo. — É melhor você deslizar para a cratera — disse eu a Pio. acima da duna. Poderia revirar-se. uns dez ou quinze metros. — Se tivermos de correr. .

a qualquer momento que quisesse. mas no momento estava a meu lado e nada tinha que recear dele. duas cabeças surgiam acima da orla. Ela se implantara na crista. a carabina ridícula pronta a disparar. Com o canto da boca. não deu para pensar em outro modo de falar. capitão? — gritou para mim. Momentos depois. com raiva . coloquei os pés por baixo do corpo. e senti o pavor de que a qualquer instante ela começasse a despejar chumbo em nossa direção. Ela permanecia no mesmo lugar. rosnei para Pio: — Chega de besteira. — Oh. Voltei e dedicar atenção à roda. Deixei passar aquilo. Você veio como amigo. Alguém chamou. de volta ao campo. Sara se encontrava na crista da duna anterior e à esquerda dela. — Podem carregar o meu amiguinho com vocês. se a situação o exigisse. pronto a disparar. Ouvi que Pio escorregava pela encosta da duna. — Está bem. eu ainda tinha a sensação de que me fitava. Se eu lhe houvesse contado. Voltei-me. lá atrás. juro por Deus. — Podemos ajudar em alguma coisa? — Sim — respondi. Ele tinha seus truques. talvez você não viesse. Sara gritava para mim: — Que coisa é essa? Onde foi que a encontrou? — .Você podia ter-me enganado — protestei. — Estou bem — respondi. e escorregue para a cratera. e eu voltei a cabeça. Eu disse "campo" porque. não — retorquiu ele.

O cubo esverdeado flutuava no centro da roda — e flutuava era bem a palavra. tinha aparência esguia. Seu vulto alçava-se aos céus. à medida que a roda seguia para a frente. Dava para antever aquele imbecil cego. Foster. mas talvez não medisse mais de um palmo de espessura. Voltei a olhar a roda. A orla externa era formada por alguma espécie de substância muito brilhante. capitão. — Não é daqui. sem me voltar para olhá-los. — Tuck! — berrei. — Desça e ajude a Srta. Diga ao Smith para ficar exatamente onde está. notei que o estranho era o fato de ser realmente uma roda. Chegara quase ao cimo e era muito pequena a parte oculta pela duna. A voz de Sara denotava queixas e um pouco de aspereza.Olhei em volta. ela estava em pé ao lado de Pio. não teriam podido manter o cubo no . Dêem o fora daqui! — berrei para Tuck e Sara. Agora que tinha a oportunidade de olhar melhor. e a areia caía livremente. e está em apuros. Ela finalmente começara a se mexer. a orla apanhara areia e a levara em sua superfície posterior. de modo quase majestoso. igual a nós — expliquei. A despeito do tamanho. a despeito do número... examinando-o. e não algo parecido a isso. subindo a encosta da duna e tornando-se maior a cada instante. a superfície de marcha medindo cerca de dez palmos de largura. tentando acompanhar Tuck e metendo os pés pelas mãos. Ao subir vagarosamente a duna. pois os raios frágeis. A roda parou. — Mas. É só levá-lo de volta ao acampamento. — Ele está perdido. girando devagar.

— Um jeito de sair daqui? — O senhor falou com esse seu amiguinho. Meus pensamentos se detiveram por aí. deslizando na encosta e Sara veio subindo ao meu encontro. pendurada no centro da roda. Pus-me em pé e fui escorregando. por onde haviam escalado. A encosta da duna estava marcada por pistas aprofundadas. Desci a encosta e subi a duna atrás da qual deixara os demais. — Ele parece conhecer esse tipo de coisa. pensei. entretanto. descendo a encosta.lugar. E eu via agora que os raios. . Fiquei atônito. Prossegui. Estavam todos lá. Talvez aquilo terminasse assim. achavam-se entrecruzados por fios ainda mais finos (se eram realmente fios). e a roda continuava a não se mexer. — Talvez tenhamos uma saída — anunciou. fosse tratar de sua vida. Em cima. finos como eram. satisfeita com o que observara. — Eu nem tinha certeza de que ele sabia do que eu estava falando — retorqui. e não vi sinal dos outros. e escalando a face da duna. tornando toda aquela região entre o cubo e a orla uma espécie de teia de aranha. Olhei com rapidez para trás. Era apenas uma esfera de algum tipo. Tinha a expressão muito solene. A roda permanecera no mesmo lugar. ao que notei. pois o próprio cubo não se parecia a uma aranha. voltei-me e olhei. o Pio. A roda podia ter vindo dar uma espiada e. sobre o que aconteceu — disse ela.

Não era momento para entrarmos em discussão. O George é muito bom nessas coisas. Olhei para onde Tuck olhava. em silêncio. e não deu para ver coisa alguma. e as pontas estremeciam. Todos os tentáculos de Pio estavam estendidos à frente dele. de modo que desci a duna. — Eles? — Tuck e George ajudam. Parece capaz de encontrar uma saída. Era evidente que haviam falhado na tentativa. Tuck e Smith derrearam-se sobre si mesmos. De repente. Tuck olhava fixamente à frente e Smith tinha uma expressão empenhada e animada no rosto flácido. — O George. pondo-se a meu lado. os tentáculos de Pio amoleceram-se e caíram no chão. Se eles julgavam que havia um meio de escancarar aquela porta. erguendo-se para o céu. os outros dois estavam sentados e Pio deitado. pelo menos.Ele não compreendeu de todo. Só via a encosta de outra duna. e agora estão trabalhando no assunto. Fui colocar-me atrás deles. no que quer que fosse. Os três estavam sentados em fila — ou. mas fez algumas perguntas. — Eu bem queria que o senhor parasse de não gostar do George — disse ela. com certeza. eu votava a favor. Não movíamos um só músculo. mas não queria interferir. as pernas enterradas na areia. — . e Sara também veio. tem tanta capacidade assim — comentei. Eu não sabia o que se passava.

capitão.. — Talvez. — O que fazemos? — indagou ela. se todos nós. com frieza —. — Capitão. Bateu com a mão na areia ao lado de si. — Desde que pusemos o pé a bordo.. — Com a mente — explicou Tuck. — Todos nós? — perguntei. — Depois. se é o que pensa. nós precisamos — disse Pio.. não — . sentindo-me mortificado e ridículo. Oh. — Receio não conhecer esse tipo de negócio. O que estão fazendo? — Esforçamo-nos na porta — explicou Pio. — Esta é uma hora. Dito isso. — Tentar visualizar a porta — disse Tuck. — Frei Tuck — interveio Sara. — Tentamos abri-la. acho que suas palavras foram inoportunas. e eu me acocorei ali juntamente com os demais. — Calem a boca. depois de termos saído disto. — Dá para sentir as beiradas. deu ordens. — Puxar com que? — perguntei.Mais força. faça o favor.. cheio de impertinência. só berrou conosco. — Podemos tentar — propôs Sara. acocorou-se ao lado de Pio. — É o mínimo que podemos fazer. é puxar — prosseguiu Pio. — Meu irmão — asseverei —. em que falar grosso e ter músculos de nada valem. Em toda a vida nunca vira tanta estupidez. os dois — ordenou Sara. — Ela continua lá — afiançou George. — É só isso que ele tem feito! — asseverou Tuck.

tive a certeza. mediante os poderes mentais de que eram dotados. e depois deslizando por ela. quase. de orla fina em luz. vamos puxar a porta. Íamos tentar mais . sabendo que eu procurei concentrar-me. que Deus me ajude. A porta pareceu abrir-se um pouco. todos nós juntos. qualquer coisa pudesse acontecer. e sem alguma coisa para agarrar. Não íamos conseguir. tentei puxá-la. ao que parecia — e sabia que os outros não se encontravam em situação melhor. haveria pouca possibilidade de puxar. com uma exceção). e a raça humana nunca se destacara em coisas assim. eu a vi. mas nada havia em que se pudesse agarrar. pois a fissura de luz em torno deu a impressão de alargar-se. para sentir os dedos mentais tentando agarrarlhe a superfície lisa e escorregadia. embora eu achasse. Eu estava ficando muitíssimo cansado — tanto mental quanto fisicamente. que junto a dois imbecis como Tuck e George. — Agora. Dava. naquele momento. tão depressa que quase estalaram. Mas levaria tempo em demasia. Seus tentáculos estenderam-se à frente. Deus é minha testemunha.restava dúvida — havia seres alienígenas que podiam realizar maravilhas. não parei de tentar. nunca a abriríamos o bastante para podermos passar. mas nós éramos seres humanos (todos nós. Mas eu tentei assim mesmo. uma espécie de porta fantasmagórica. por favor — pediu Pio —. Tentei ver uma porta diante de nós e. e depois de ver. apresentando-se rigidamente com as pontas a tremelicar.

rangendo enquanto estacava e descendo da massa verde do centro. e se não conseguíssemos abrir a porta nas primeiras tentativas. pela teia de aranha prateada entre a orla e o cubo.uma vez. fracassamos. a sensação . mas iríamos enfraquecer-nos cada vez mais. E então. voltando-me. tinha uma dúzia de braços e pernas. isto é. e uma das extremidades ostentava o que podia ter sido um rosto — e não existe meio de por em palavras o tipo de horror que aquilo causava. Não era uma aranha. enorme. é claro. embora a forma básica e o modo como descia pela teia fizessem pensar em tal inseto. Não havia mais porta. senão a duna. quando a porta começava a se abrir. se a porta realmente estivesse ali. Nada mais havia. Todos nós fracassamos. mesmo enquanto puxava e suava mentalmente. Mas eu sabia. Lá estava a roda. e me pus em pé com um salto. descendo. erguendo-se para o céu. um glóbulo viscoso que gotejava. até haver espaço suficiente para que um homem pusesse a mão no vão aberto. que a porta não era dotada de existência física e que homem nenhum haveria de pôr-lhe as mãos. Uma aranha teria sido coisa de aparência afável e cômoda. puxei com toda a força. gotejando algum tipo de limo imundo. Alguma coisa rangeu atrás de nós. sabia que estávamos condenados. dava para sentir os outros fazendo o mesmo — e a porta começou a abrir-se. Era uma nojeira trêmula. voltando-se para nós e girando sobre dobradiças invisíveis. e fazê-lo sem parar. em comparação àquela monstruosidade que descia pela teia. Por isso esforcei-me ainda mais e me pareceu ter agarrado a porta um pouco.

mas o conjunto delas. e um tiritar raivoso carregado de insensatez. no ruído. mas mesmo sem a boca esse ruído saía dali. e nos inundava. — Vão embora! — parecia gritar-nos. Não era apenas uma dessas coisas. não. furiosa conosco. de mistura com a babujice de um necrófago engolindo refeição apressada e pútrida. como se a própria visão bastasse para contaminar o corpo e a mente da pessoa. se um homem fosse obrigado a continuar ouvindo algum tempo. pareceu surgir uma palavra. e talvez. Apresentava-se assim. pareceu-me finalmente sentir — ouvir. pairando sobre nós. fazia determinado ruído e. No ruído ouvia-se o fragor de dentes enormes a partir ossos. pudesse perceber outros sons. com medo de que aquilo se aproximasse o suficiente para entrar em contato. E. com firmeza. derramando-se na areia. seu ruído preenchendo todo aquele mundo de areia e reverberando no céu. porém sentir — as palavras. não dispunha de boca com que emitir o ruído. Embora tivesse o que dava para ser imaginado como rosto. Ao descer pela teia. pousando na duna — escarrapachado ali. ao que parecia. como se estivesse oculta e imersa nas camadas do som. o ruído tornava-se mais alto. dando-lhe a necessidade imperiosa de gritar e manter-se longe.pavorosa de imundície. a imundície a gotejar do corpo. só de vê-lo. Aquilo chegou à orla da roda e saltou da teia. — Vão embora! Vão embora! Vão embora! . tomada por si. onde a sujeira caíra. Dava para ver as pequenas bolas de areia úmida. ou a sensação de todas elas juntas. Encolhida por baixo dessa barragem de som.

não houve o rugido que o vento faria. as pernas esticadas para a frente e aquela expressão nojenta e tola de êxtase a lhe cobrir o rosto. — Cale a boca! — berrei para ele. ou uma força parecida a vento. compreendi que não era mais areia o que tinha sob os pés. houvesse sido batida em nossas caras. . porém. E então. naquela noite iluminada por lua e estrelas. de súbito. uma parede. Olhei com rapidez ao redor e vi que estávamos de volta ao local de onde tínhamos vindo.De algum lugar. Não foi por muito tempo que durou esse silêncio. e quando tal aconteceu. pensando bem. fez-nos cambalear e cair de costas. . os traços tremelicantes de outro mundo. empurrou-nos para trás — embora. a duna já não estava lá. como se a porta. em seu lugar reinou o silêncio. a tempestade de fúria daquela criatura desapareceu. veio um vento. porém. pois não veio nuvem de areia ao mesmo tempo. que nos bateu. Quando recuperei posição. atrás de cada um deles. vendo aquela criatura pavorosa ainda escarrapachada na duna e furiosa conosco. . naquele aposento com todos os painéis e. algum tipo de calçamento. pois Smith começou em seu choro aloucado: — Ele voltou! Meu amigo voltou! Está outra vez em minha mente! Ele voltou a mim. Mas aquilo nos atingiu como um punho cerrado. — Pare com essa choradeira! Ele silenciou um pouco. não pudesse ser vento. por aquela terra de dunas sem fim. caído sobre o traseiro. mas continuou a murmurar. fora de nossa visão.

que escolhera o mundo ao qual os cavalinhos nos haviam jogado. tendo as demais empilhadas ao lado. A criatura parecida a um gnomo espalhara nossa bagagem no chão e a examinava. Tinha algumas contas a acertar. poderíamos finalmente ter aberto aquela porta o suficiente para passarmos. pensei com algum reconhecimento. Nós nos encontrávamos em um aposento grande. Os cavalinhos formavam semicírculo em volta dele. que parecia ser depósito. e embora não tivessem qualquer expressão nas caras esculpidas. Mas não fora preciso fazê-lo. mas não fora graças a qualquer esforço de nossa parte. Diversos volumes tinham sido vasculhados e ele examinava outra bolsa. esperando a vez. Sacudi a areia da calça e tirei a arma que carregava no ombro. julguei perceber neles o sentimento de satisfação por terem feito tão boa colheita. Não havia qualquer sinal de cavalinhos ou do humanóide parecido a um gnomo. Através da porta imponente deu para ver a luz amarela e fraca do sol. descendo um andar da portaria que tinha as portas dando para todos aqueles mundos. Achavam-se tão absorvidos no que se passava que nenhum deles nos percebeu. quando tínhamos sido trazidos ali. Com tempo suficiente. encoberta pelas construções elevadas da cidade. alguém o fizera por nós. cedera lugar ao dia. olhando e balançando-se na maior calma. até havermos passado a porta e dado . A noite que encobrira o mundo branco. Uma criatura daquele mundo deserto aparecera e nos expulsara de lá.Havíamos voltado sãos e salvos.

Foi quando os cavalinhos. e o gnomo começou a empertigar vagarosamente o corpo. meu senhor — principiou. de modo nenhum — apressou-se a dizer. . no exame de nossas coisas. permanecendo à espera. Parecia-se a um pastor inglês a nos fitar. — Estávamos a ponto de ir atrás de você. uma pequena gratuidade. Nós paramos. Temos tão pouca oportunidade de cobrar alguma coisa de valor! E prestamos serviços dos quais vocês têm muita necessidade. se fosse de sua vontade.alguns passos. entrando no aposento. empinados nos balancins de trás. — A questão é. encobrindo-lhe em parte os olhos. empinaram. como se as costas se houvessem curvado de uma vez. Fiz movimento com a arma. indicando a bagagem no chão. Ele olhou para lá. com muito cuidado. Mas. é claro. apenas. . que existem certas coisas que não devem ter entrada no planeta. — Uma inspeção para a alfândega. ele nos fitou em meio ao emaranhado de cabelos desalinhados que caíam. vendo-nos. O gnomo esfregou as mãos nodosas. sacudiu a cabeça. O gnomo finalmente empertigou-se devagar. Os cavalinhos continuavam imóveis. . — Uma taxa muito alta. Ainda semi-inclinado. mantendo-nos juntos. O abrigo contra o perigo e o . Não dissemos uma só palavra. — Oh. — Uma simples formalidade — explicou. — Com vistas em cobrar taxa? — perguntei.

— Um estremecimento do planeta. Elas sempre aparecem de noite. que perdemos a noção do tempo. — Um terremoto? -— perguntei. amontoados. Tinha tudo que era nosso.. para protegê-los das vibrações mortíferas — explicou o gnomo. — A mim parece — observei — que você não tem feito maus negócios. Nada pode viver. não — explicou o gnomo. Ou. surgem essas vibrações. Devia estar mentindo. — Por que nos jogou no mundo do deserto? — Ora.Com o olhar. pelo menos. antes do amanhecer do dia seguinte ao pouso da nave. para salvar suas próprias vidas. não havia motivo para trazer-nos de lá. Mas ficamos tão interessados nos artigos maravilhosos que vocês trouxeram. Por que nos jogou lá? — indagou Sara.. Esse é o motivo pelo qual nós os colocamos naquele outro mundo. Ficaríamos naquele deserto para sempre. mentia quanto à intenção de nos trazer de volta do mundo desértico. queima a carne. Se quer minha opinião. — Um estremecimento dos sentidos. se fôssemos contar com você. — Eu juro — disse ele. — Do planeta. Toda vez que uma nave pousa. Estava mentindo. acho que não pretendia roubar-nos. nada ganharia trazendo-nos do mundo ao qual nos lançara. Rato como era. — Estávamos quase abrindo a porta. Estava cheio de caixotes e cestas e outros tipos de recipientes menos comuns e havia artigos de todos os tipos empilhados ali. — Para começar. examinei o depósito. Ele congela o cérebro. . diga uma coisa. — Nós próprios nos abrigamos.

Sabiam o que ia acontecer à nave. — Ninguém é bemvindo aqui. — . se revelavam canalhas de tal espécie. — Faz parte da rotina no planeta fechado.Meu camaradinha — disse eu —. o planeta sela a nave. o mundo providencia para que morram. e as outras que estão lá fora. antes que possam sair da cidade. Ia reconhecer tudo. de modo que não possam decolar outra vez e contar o que descobriram. e ficaram oom tudo que havíamos tirado da nave. e talvez estejam trabalhando para obtê-la. não se dava ao trabalho de negar. Fiquei mais uma vez a imaginar o motivo pelo qual tantos primatas. Deve haver um meio de controlar.. — Ainda assim — observei —. Um rádio-farol para atrair as naves. Por que deveria o pouso de uma nave criar vibrações desse tipo? Ele levou o dedo torto ao nariz embolotado. a nossa. e projeta-se bem distante no espaço.. você ainda não descobriu como controlar aquela selagem que fazem. onde quer que os encontrássemos. E se conseguirem escapar. mas ainda não foi decifrado. Agora que sabia que o tínhamos pego. menos a nave. Não admira que os cavalinhos insistissem em trazer toda a nossa bagagem para cá. Ele sacudiu a cabeça. seladas. contando assim adquirir algum crédito por ser franco e claro. ou quase tudo. Ao que parece. há um rádio-farol forte. senhor. — O mundo é fechado — declarou. não acredito numa só palavra do que diz. Quando chegam visitas. Vocês nos atraíram e livraram-se de nós no mundo desértico. para trazer as naves aqui. Ficaram com tudo.

Não voltaram. — Que coisas? — perguntou. Fiz movimentar o cano da arma. — Ele foi o único a vir? O único de nós? — Não. houve outros de sua espécie. Antes mesmo dele. ajudando-o a decidir-se. — Ora. até que os deixássemos sair. — Informações — respondi — acerca de outro homem. — Você está se tornando sensato. naturalmente — confirmou. Nunca ocorreu que alguém pudesse voltar de um dos outros mundos. — Todos que vêm nós pomos lá. mas sempre os tiramos de lá. É preciso. procurando o que ia dizer. Seis ou sete deles. estamos a salvo. Não tínhamos a intenção de ficar com qualquer uma delas. E podem apanhar todas as suas coisas. Ele se eriçou um pouco. que formidável — comentei. Pomos todos os que chegam em outros mundos. Foram além da cidade e nessa ocasião é que os vi pela última vez. — Você não os jogou em outro mundo? — Ora. — E você afirma que ia deixar-nos sair de lá? — Sim. Ele olhou em volta. Mas há outras coisas que queremos. sim. — . Um humanóide muito parecido a nós.Outra coisa que não posso decifrar — prosseguiu o gnomo — é como conseguiram vocês todos voltar aqui. Cada uma dessas chegadas desencadeia outra onda de morte. Depois de encerrada essa onda de morte. Estaria na companhia de um robô. — Muitíssimo tempo. — Faz muito tempo — explicou. até a chegada de outra nave. juro que íamos.

. todos eles estão na pista de algo.. de que ele hesitaria em utilizá-lo. pensava eu. — E ninguém. e que fora levado a seguir? — E eles lhe dizem o que estão caçando? — perguntou Sara. — Robô? Está falando do humanóide de metal. O gnomo sorriu de modo perverso. Vão caçar alguma coisa que julgam possível encontrar. haviam ouvido aquela voz que Smith ouvia. — Nós não somos robôs — contrapôs Dobbin. Sim. muito parecido a ele mesmo? — Não se faça de tolo — retorqui. — Mas há uma outra onda de morte — fi-lo recordar —. Embora não fosse a verdade completa. — Guardam segredo — explicou. — Fora da cidade. pensei com meus botões. — Mas esse outro humanóide — Sara fez lembrar. Todos eles sempre caçam alguma coisa.Talvez estivesse dizendo a verdade. meu Deus. — Só na cidade. permanece na cidade? — Não. Esses cavalinhos ali são robôs. após chegar. estão a salvo da onda. Sempre deixam a cidade. — Somos cavalinhos sinceros. acompanhado pelo robô.. Talvez houvesse outro aspecto que ele resolvera não mencionar. — Você sabe o que é um robô. eu tinha quase certeza. lá fora. — O que veio sozinho. ainda que tal ocorresse. em quantas outras formas de vida diferentes. agora. Quantas outras inteligências. — Cale a boca! — ordenei. quando chega outra nave. Nós o tínhamos pego a jeito. porém — contrapôs ele. Mas.

Têm o corpo de um cavalinho. — Centauros — disse Tuck. — Aquele com o robô. Mesmo assim. são desarrazoados. Na maior parte do tempo. O gnomo respondeu: — Tenho uma parte dele. — Onde os podemos encontrar? Ele fez um gesto. — O que os cavalinhos selvagens queriam do cérebro de Roscoe? — perguntou Sara. são achados no norte. — Existem muitos deles. Ele também foi e não voltou.Sim — disse o gnomo. Não tinha uma só palavra a dizer. Eles o queriam muitíssimo. O cérebro dele sumiu. Perderia a vida se não vendesse. e gritam muito alto. vão muito longe. — E o robô continua aqui? — indagou Sara. Mas o robô voltou depois de algum tempo. pagaram preço bem alto. desapareceu. — Eles são criaturas a quem não se pergunta muita coisa. Não me contou nada. sem dúvida. Eu o vendi aos cavalinhos selvagens que moram na mata. mas cabeças como as suas. Quase tão comuns quanto os humanóides. lamento muito. dando de ombros. — Não se pode saber — explicou. espalhados por toda a galáxia. eu não podia recusar-me a vender. — Eles andam por aí. São muito brutos e selvagens. abrindo as mãos em um gesto de dúvida. Acho que você denomina tal parte de cérebro. — De que ia servir-lhes? — Como posso saber? — cotnrapôs o gnomo. — Aqueles cavalinhos selvagens? — perguntei. E. entretanto. A parte que o faz funcionar. e braços. ao que estou informado. Muito selvagens. como o cavalheiro ali está — .

. — Você vendeu-lhes apenas a caixa do cérebro — observei. falando com Sara.. vamos precisar do corpo do robô e mapas do planeta. se ele tem alguma fidelidade. Cavalinhos para nos transportarem nossa bagagem e. — Devemos procurar o Knight? — Ele seria a pessoa.. — Podemos descobrir para onde ele ia — disse Sara. E de uma quantidade de água. — Mas ele não estava falando.. . em gesto de pavor. Ele ergueu as mãos. — Se ainda estiver vivo. — Poderia falar conosco — insistiu ela. O robô voltou. são muito desarrazoados.dizendo. Deixei aquela língua espacial e passei ao inglês. Embora eu nunca tenha visto um só deles. o que desconfio. Ele não teria deixado o Knight. sacudindo a cabeça obstinadamente de um para outro lado. Foram pessoas como nós que o fizeram e. se ainda estivesse com vida. — Se obtivéssemos a caixa do cérebro e a recolocássemos no corpo de Roscoe. — O que acha? — perguntei. ele teria uma idéia sobre o que Knight procurava e onde pode ser encontrado. a esta altura. essa fidelidade seria também para um ser humano. — Afinal de contas. recuando. Voltei-me para o gnomo. somos sua gente. Não contou ao gnomo. Ainda o tenho aqui. será homem muito velho. Acho que as possibilidades são de que tenha morrido. — Muito bem. — Ainda está com o corpo do robô? — Eles não queriam o corpo.

Senhor. Procurei. — Ele precisa ficar. não poderão levar — afirmou. — Bem.. Se não houver o farol para trazê-los aqui.Os cavalinhos. — Eu próprio preciso deles. — Você não me deixou terminar — observei.. para advertir as criaturas das naves que chegam. De uma ou de outra maneira. — Ninguém pode fazê-lo. e fazê-las proteger-se contra a onda de morte.. e amolado também ao descobrir o gnomo examinando nossos pertences. — A coisa faz sentido — afirmou Sara. — Vamos levá-lo conosco. — Vamos desligar o rádiofarol. e não foi descoberto. vivendo em cidade abandonada. não poderão fazer! — gritou Dobbin.. — Estive intrigada por todo o tempo. que fora dominado pela vontade de matá-lo. ninguém virá. você deve compreender. Apresentava-se a nós em atitude de abatimento. Nunca descobri. os outros antes de mim procuraram. Eu sabia que devia ter chegado a essa conclusão. havíamos derrubado as escoras em que se apoiava. um selvagem. com os diabos! — exclamei. mas estivera tão amolado por ter chegado ao mundo desértico. recolhendo tudo que pode. — Cuidaremos disso — atalhei. Ele apenas vive aqui. . — Mas não podemos desligá-lo! — gemia o gnomo. Quem quer que construiu essa cidade instalou o rádio-farol e nosso amiguinho magricelo não é o tipo de gente que teria construído essa cidade. porque não sabemos onde está o transmissor. Se — .Isso.

Passou os braços magricelos em volta do corpo. se estivesse mentindo. Não foi sua gente quem construiu esta cidade.. — Vou contar — gemeu. — Não atire.aquela coisinha houvesse dado um só passo em falso. que vergonha! Fitou-me... — O que é que você tem? — indaguei. Ele não demorou cinco segundos. sem que perguntem. — Não posso mentir — explicou. — Não indague como. eu o teria estraçalhado. — Não tem o direito de perguntar — gritou. — Já é muito ruim. vou contar. — Se pudesse. oscilava para frente e para trás. — Precisamos saber com exatidão o que se passa. os olhos súplices. Deficiências. como se estivesse com dor de barriga. falando com ele — exatamente o que você é. Vou dar-lhe uns cinco segundos para responder. mas nessa e noutras. Suas pernas falharam. — Quem é? — perguntei. — Diga-nos — ordenou Sara. sou dotado de .. foi? O rosto do gnomo contorceu-se de raiva. mentiria. — Temos todo o direito de perguntar — insisti. Mas existe alguém presente que saberia. — Sou eu — disse Pio. tenho em ampla faixa. que vergonha! Que vergonha. ele sentou-se com força no chão. apertando com força.. pois não posso contar-lhe.. — Um detector de mentiras embutido no corpo? — É uma de minhas fracas capacidades — explicou Pio. que vergonha. Mas.

— Meu orgulho está no chão — começou. — Ele não tem motivo algum. ou se todo o universo.. não existe nenhum. Existe um laço comum. a quem possam passar os deveres. — Está sendo duro com ele — acudiu Sara. passados aos cavalinhos. O gnomo continuava a fitar-me. até nos acreditávamos. Os deveres que prestei serão.. Não existem outros. — Srta. — Entre você e mim.. não faria diferença se alguém. — Mas se ele tem algum motivo. aquecido na crença de que fomos nós que a construímos. devíamos unir-nos. Pois .. viesse à saber que não éramos os arquitetos. que éramos os construtores desta cidade maravilhosa. camaradinha? Ele olhou bem para mim. Pois eu sou o último de nós. então. E logo tudo estaria acabado. — Parece que em momentos como este — suplicava — nós. Foster — obtemperei —. fingimos por tanto tempo que. e ao completar-se o tempo eles descobrirão outro. E esse personagem. depois sacudiu a cabeça em negativa. às vezes. se vocês não houvessem vindo. tem narrado uma semelhança da verdade. em qualquer época. depois de mim. eu finalmente poderia morrer acreditando.. eu nem comecei ainda. E se vocês me houvessem deixado em paz.. Passou-se tanto tempo. ciente do fato. humanóides. Você tem motivo.bom controle. embora não completa. Pretendo ouvi-lo.. Eu intervim prontamente. — As recordações de meus ancestrais são conspurcadas. e não há outros que vão se importar..

Salvamos suas vidas. E assim voltávamos à estaca zero. — Você pode dizer de que ele está falando? — perguntei. ele desferia pontapés. entretanto. Suas pernas magrelas agitavam-se. Se eu não estivesse com tanta raiva deles. — Você veio a nós com brutalidade. Olhei para Dobbin. chega! — berrei. que somos simples cavalinhos. — Para mim. Do modo como as coisas se apresentavam. da situação em si. quando descobre que seu benfeitor satisfaz apenas a curiosidade normal em um exame de sua bagagem. — Não sei o que se passa por aqui. senhor — respondeu Dobbin. Estendi o braço e agarrei o gnomo pela gola do manto que pendia em seu peito. de maneira amplamente desgraciosa de todos os modos. suspendendo-o no ar. e depois desconfia de que não os tiraríamos de lá. pondo-os em outro mundo.deve haver alguém para advertir e salvar os que chegam a este planeta. E dá cinco segundos para falar. àquela afirmação ridícula. era tudo quanto eu agüentava. apressado. repetidas vezes. não me importa. e você. teria explodido em gargalhadas. Você se enerva facilmente. chega — declarei-lhe. — Não admito que um robô piolhento fale assim comigo! — Nós não somos robôs — retorquiu Dobbin.. pois tinha os pés no ar. mas você vai nos dar aquilo de . — Nada lhe direi.. mas não o conseguia. age de modo pesado. um orgulho estranho e obstinado. — Já lhe disse. — De você. como se estivesse tentando correr.

Mas. brilhou. caídos de costa. Arremessei-o para longe de mim e ergui a arma. — Cuidado! — gritou Sara e voltei a cabeça. de repente. os balancins sacudindo no ar. eu conseguiria o mesmo resultado se estivesse atirando pedra neles. e parecia que sim. e voltava à situação de antes. estavam naquele lugar.de repente. vi que os cavalinhos nos acossavam. Eu não os vira seguir para lá . erguiam-se nos balancins de trás e os da frente nos ameaçavam. Pio correu à frente e. Só que todos os cavalinhos estavam amontoados a um canto distante do aposento. adiantando-se. Lá estava ele. lembrandome. quebro-lhe esse pescoço sujo. Joguei o gnomo para o lado. na verdade. Se não der. Se os cavalinhos tivessem sido fabricados do mesmo material. como transformador elétrico estourado. no momento seguinte estavam empilhados no canto. A um instante. — Logo estarão bem — disse Pio. logo terminava. no instante em que ergui a carabina. e depois seu corpo estremeceu com um tipo azulado de brilho. em tom de desculpas. mas não consigo pensar em outro. Era como se houvessem sido carregados sem viajarem pelo espaço. da falta de impressão que o raio laser causara naquele campo de pouso cristalino. com frio nas tripas. ao fazê-lo. Não olhei para onde o jogara. É meio canhestro como o diabo de descrever a coisa.que precisamos e sem mais delongas. eles nos acossavam. O ar pareceu sacudir-se e tudo sofreu uma reviravolta engraçada. os pezinhos estalando no chão. erguiam os balancins. .

Tinha-se a sensação de que seria — . bastando olhá-lo. onde eu o jogara e dava para ver. — Tuck — ordenei —. caixas e cestas. era um filete de rua correndo entre as pedras que eram os edifícios. A rua estreita não seguia em linha reta. retorcia-se e descia e subia. vamos dar o fora daqui. até o chão da rua em que seguíamos — e o chão não podia ser considerado calçamento. Peço desculpas pela surpresa. Assim que carregarmos os cavalinhos. um céu tão distante e fraco que quase se esmaecia na brancura das paredes. Tampouco os cavalinhos. Estes se mostravam todos iguais. em absoluto. por todos os lados. O gnomo se erguia vagarosamente em meio ao emaranhado de barris. Junte nossas coisas. laje que se estendia entre os edifícios. e laje que parecia estender-se para sempre. Não existia tal conceito em arquitetura. sem uma só junta ou emenda. Era.Não foram danificados. A cidade se aproximava. um conjunto gigantesco. era. trate de se mexer. Não se via fim naquilo. Havia pouca diferença entre eles. como se fizesse parte deles. mas precisava agir com rapidez. que não tinha qualquer vontade de lutar. nem para a cidade. pois olhando-se pela base não se podia ter certeza) existia apenas uma faixa azul. Estão apenas desacomodados por momentos. Voltarão a funcionar. As paredes e muralhas erguiam-se para o céu e onde paravam (se é que paravam. a menos que alguém chamasse linhas retas e blocos imponentes de estilo arquitetônico. Tudo era branco. ao invés um soalho.

impossível sair da cidade. era certo que ela ia começar a pegar-me a este respeito. caminhando a meu lado —. Seu corpo fora construído para ficar baixo no chão e a cada lado tinha duas dúzias de pernas curtas e grossas. Tinham pavor dele. Sabia que sua insatisfação comigo estivera a atenazá-la dias seguidos — a bordo da nave e depois de termos pousado. e nada que eu pudesse fazer modificaria a situação. em absoluto. e estou inclinada a acreditar. Atrás dos cavalinhos vinha Pio. — O senhor podia ter usado a razão com ele. atrás deles. Houve outros . — Usaria a razão com ele. pela força. e ele nos roubaria tudo? — Ele disse que nos teria tirado daquele outro mundo — contrapôs ela —. e eu sabia que enquanto ele estivesse por lá. Olhei sobre o ombro e vi que os demais vinham atrás de nós — Smith e Tuck. de que se estava preso e aprisionado ali. não tenho certeza completa de que aprovo o modo como faz as coisas. — O senhor age com muita grosseria — prosseguiu Sara. como um cachorro a tocar rebanho de ovelhas e às vezes correndo ao lado deles. Mais cedo ou mais tarde. Não é dotado de delicadeza. — Está falando a respeito do gnomo — observei. os cavalinhos não se sairiam com besteiras. Não me dei ao trabalho de responder. como um pastor o faria. como uma lacraia. à falta de qualquer resposta minha. montados em dois dos cavalinhos e os demais carregando nossos abastecimentos e latas com água. — Capitão — disse Sara. — Toca as coisas em frente. e acho que isso pode nos causar problemas. sem meios de escapar.

depois de terem desistido. ou usou o blefe e conseguiu alguma coisa. estar cansados de alguém que continuava a jogar alienígena em seu território. mas talvez fosse mentira. ou mesmo algumas expedições fracassaram e ele foi recolher o material. Havíamos sido expulsos. e ele deve tê-los tirado dos mundos em que os colocou. na verdade. Nem todos os que tinham sido jogados nesses outros mundos. teriam sido expulsos. — Nesse caso — observei — faça o favor de explicar todo aquele saque com que ele encheu o depósito. Ao que parecia. E. entretanto. Os residentes desses outros mundos deviam. — Talvez tenha roubado uma parte — reconheceu Sara —. e isso significava que o gnomo e seus companheiros. embora fosse difícil calcular para que tudo aquilo lhes serviria. a essa altura. Não podiam utilizar todo o material e. não tínhamos saído. De algum modo. teriam feito boas colheitas. e era grande a probabilidade de que alguns dos outros grupos ali pousados houvessem também sido jogados por lá. antes que eles partissem. achava que não.grupos por aqui. entretanto. seriam poucas as probabilidades de comerciar com alguém vindo do espaço. O gnomo dissera que tínhamos sido os primeiros a sair de um dos outros mundos sem qualquer ajuda de sua parte. por termos saído. o gnomo fazia um pouco de trocas locais. deixando que prosseguissem. em planeta assim. calculada para nos levar a sentir-nos bem. os cavalinhos. com uma armadilha para qualquer criatura que ali pousasse. pelo fato de sermos tão espertinhos. pois vendera a caixa . Eu sabia que qualquer das opções por ela sugeridas poderia ser verdadeira.

eu acharia melhor se o tivéssemos onde fosse possível vigiá-lo. o comércio local não podia render grande coisa. — Eu não suportaria a choradeira e as lamúrias dele — expliquei. — A senhorita deve estar aborrecida porque não compreende o que ele usou para deter os cavalinhos. Pessoalmente. E . Incluindo o que resta de Roscoe. mas ela ainda não estava satisfeita. Seu olhar me fuzilava. depois de se tornar evidente que não o levávamos. desde que continue com esse poder e possa empregá-lo outra vez. ficou tão satisfeito que nos deixou tirar as coisas de que precisávamos. mas não conseguira até então. não gosta de Tuck. desde que permaneça conosco. em poucas palavras. Precisamos de um camarada assim. — Além disso. e toda aquela água e numerosos mapas. e quase não é educado comigo. — Por falar no gnomo — continuou Sara —. já que estamos dirigindo a coisa por aqui. O senhor não gosta de George. de início o senhor ameaçou trazê-lo conosco. não gostava do modo como eu agia e queria torná-lo claro. se nos metermos em uma embrulhada. — Foi quem salvou nossas peles. Caminhamos em silêncio por momentos. — Ele é o tipo de criatura rastejante. A mim não importa o que ele usou. E a mim não importa que ele seja rastejante ou não. quando os cavalinhos nos atacaram — retorqui. porém. seu amigo — comentou. e depois não o trouxe. de maneira bem enérgica. sem qualquer discussão. Tinha raiva de mim. — Não gosto desse Pio. — Isso é uma piada contra todos nós.do crânio de Roscoe a uma tribo de centauros.

Foster — fiz lembrar —. como a frieza de um olho apertado. Respirei fundo. ou entraríamos todos pelo cano. até. E vou ganhá-lo. entretanto. e eu dirijo. Não sabia o que ela poderia fazer. até voltarmos à Terra. calculei que já estávamos um tanto metidos nesse cano. com a nave fechada por completo? Pensei que talvez ela parasse ali. comecei a contar até dez. ou mesmo disparar. se voltarmos. Dizendo a verdade. Não precisa gostar de mim.. que ela podia tentar esmagar-me os miolos com a coronha da carabina. receando o que iria descobrir. mas não esperei completar a contagem. e a senhorita não vai dizer mais nada a esse respeito.chama a todos de Camaradinha.. — Srta. no meio da rua. desde instantes após havermos partido da Terra precisava ter um fim. . não importa o que a senhorita venha a dizer ou fazer. porque a senhorita me encarregou de dirigi-lo. Eu não gosto de gente que chama os outros de Camaradinha. e desatasse uma fieira de desaforos para comigo. E como sairíamos do planeta. Aquela decisão havia-se estendido por bastante tempo. nem me importava muito. algo que eu não podia precisar. Mas está tão presa a este projeto biruta quanto os outros. Tudo quanto procuro fazer é ganhar aquele lindo dinheiro. e vou ficar dirigindo. uma frieza dura. algo que me tornava inquieto — alguma coisa furtivamente má. Havia. talvez por ter medo de precisá-lo. Pensei. naquele planeta. Não precisa aprovar o que faço. sem dúvida recorda de todo aquele dinheiro que transferiu para minha conta na Terra.

diversas portas pequenas e despretensiosas davam para a rua. As ruas eram estreitas. que pudesse sair a nosso encontro. mas às vezes viam-se grandes rampas que subiam. a que seguíamos e as outras partindo dela. Ela continuou andando a meu lado. mas isso não significava que deixasse de existir algo muito ruim. proclamou: — Que refinado bastardo o senhor mostrou ser! Estava tudo certo. perdiam-se no espaço lá em cima. Estava tudo demasiadamente tranqüilo e inocente. naquele planeta. mas isso nada significava.Nada disso ocorreu. que provavelmente eram janelas. Havia claros ocasionais nas muralhas brancas e lisas. E então. A cidade parecia deserta. sossegadamente. Em geral. Era preciso que compreendesse e. de algum modo. dando para portas pesadas que tinha diversos andares de altura. Continuamos andando e fiquei imaginando que horas seriam. de cada edifício. Tentei manter vigilância atenta enquanto seguíamos. cortado na frente do edifício. Os edifícios se erguiam diretamente delas. mas não fazia idéia do que estava vigiando. eu já fora chamado de coisas muito piores. mas tivera de ser. ou alguma coisa. a maioria delas . pois eu não fazia a mínima idéia de quanto tempo durava o dia. mas não se pareciam a tal. Não deteve a marcha por um só instante. por um recesso. Eu provavelmente merecia aquilo. Meu relógio dizia que estávamos caminhando pela rua por mais de seis horas. Fora duro com ela. Raras vezes algumas dessas portas se apresentavam fechadas. ali morasse. Um lugar assim pedia que alguém. quase como se estivesse conversando.

ao cobri-la. ao lado. entretanto. Tínhamos visto algumas. pode falar. Agora que o clangor dos balancins dos cavalinhos cessava. ao sairmos para o campo de pouso. desde então. quando me voltei. os edifícios eram tão altos que encobriam a visão de tudo que não estivesse diretamente por cima. dava para ouvir o som de cantoria. Eu estaquei e Sara fez o mesmo. A rua fazia curva repentina e. ao lhe voltar as costas. oscilando suavemente de trás para a frente e emitia aqueles sons de cantoria. ao que percebi.encontrava-se aberta. apresentava-se uma árvore. Seguindo pelas ruas. Ele estava sentado na sela. em alguma ocasião. ao menos. onde a rua seguia em linha reta por distância muito maior do que por todo o tempo em que nela havíamos caminhado. mas aquela era a primeira. Alguém. Os cavalinhos. uma das árvores enormes que abriam as copas sobre a cidade. mas não lhe dera atenção. e depois a abandonara. sem. E muito longe. os cavalinhos estacaram com ruído. dar-se ao trabalho de fechar as portas. pois fora abafado pelo ruído dos balancins. vi que vinha de Smith. ao final dessa rua. sem dizer coisa alguma. . Eu permaneci em pé. quando Sara se manifestou: — Muito bem. vimo-nos diante de um beco estreito. Atrás de nós. construíra a cidade e a utilizara por algum tempo. Eu o estivera escutando por algum tempo. como se fosse uma criancinha muito satisfeita. estavam agora em silêncio e a cantoria continuava.

do que os edifícios de ambos os lados da rua. Continuava sentado. Smith não dava atenção ao que se passava. — Vamos continuar — ordenei. ou a mim pareceu. por algum motivo. Mas se ele não fechar a boca. E isso significava duas vezes mais alta que — . que era hora de descansar. Embora talvez não fosse isso. talvez mais de duas vezes mais alta. derreado sobre o cavalinho. A árvore ao final da rua continuava a crescer todo o tempo. arranjo uma focinheira para que se cale. Parece que estamos chegando bem perto da criatura que tem falado com ele todos esses anos. — É apenas felicidade — observou Tuck. mas ela se pôs a caminhar a meu lado. em absoluto — talvez eu quisesse continuar andando. de modo que pudéssemos descansar e comer alguma coisa mas. conseguíamos melhor perspectiva para vê-la. Finalmente víamos que se apresentava a pouca distância além do final da rua e que era duas vezes mais alta. afirmando que eu exigia esforço demasiado de todos. A explicação natural era que. Contei que Sara protestasse. Estava pronto a ordenar uma parada. e ele está quase fora de si. e assim seguimos pela rua. não vai se queixar de um pouco de felicidade. e não vou dizer. ao nos aproximarmos.Eu não disse nada — observei —. — O capitão. cantarolando para si mesmo. de modo que o ruído dos balancins dos cavalinhos abafasse a cantoria de Smith. não me pareceu aquele o lugar adequado. com certeza. tanta a felicidade que sente. sem que ela pronunciasse uma palavra. como um infante atacado de debilidade mental.

Havia outra vegetação. de um tipo espumoso de construção. quanto finalmente alcançamos a extremidade da rua e era. A rua terminava e uma trilha prosseguia como se fosse continuação — não uma estrada. mas coisa parecida. embora fosse reconhecidamente difícil avaliar a distância. apresentava-se um edifício isolado. uma terra vermelha e amarela que não era exatamente um deserto. retorcendo-se para cá e para lá. talvez a cinco quilômetros. aqui e acolá as árvores. mas só o que alcançava alguma altura eram as árvores monstruosas. e o que parecia ser janelas. bem elevadas. Fora feito de algum tipo de material vermelho e isso bastava para destacá-lo da brancura dos edifícios da cidade. mais ou menos. ainda assim. Prosseguia sinuosa. porém trilha que. seu fim. era uma rampa imensa que se elevava a três portas enormes. naquela terra vermelha e amarela. Tratava-se.qualquer edifício da cidade. A cidade parava. não era apenas uma massa imensa e retangular. em vez. pois os dali eram da mesma altura que os do centro. sem mais aquela. uma terra com morros isolados e um azul distante de cordilheiras. mas grande. porém sólida e sem qualquer enfeite em sua espumosidade. O sol descia para o poente. coisa pequena e arbustiva. as quais se apresentavam abertas à frente. não tão imponente quanto os que formavam a cidade. ao correr de muitos anos. no próprio chão. de fato. fora escavada dois palmos. Apenas uma delas estava perto. A dois quilômetros além da cidade. Não era como os edifícios da cidade. e o terreno aberto se apresentava à frente. Ostentava obeliscos e torres. . mais ou menos.

eu teria de me esforçar para não obrigá-lo a fechar a boca. mas não a travei. E eu observava intimamente que os dias deviam ser compridos. trazia em si o odor de vegetação. — Depois de instalarmos o acampamento. e o sol continuava apenas um pouco além da metade de sua descida no céu ocidental. podemos dar uma espiada nele. um cheiro resinoso e forte que fazia formigar as narinas.— Capitão Ross — propôs Sara —. mas havíamos feito o suficiente para aquele dia. Era gostoso caminhar à luz do sol. mas dava para ouvir apenas seu canto entre o ruído feito pelos balancins dos cavalinhos. por oito horas ou mais. mas sentia o impulso de sair da cidade. À nossa frente o edifício vermelho apresentava-se contra um céu sem nuvens. naquele planeta. mostrava-se revigorante. quente. Fora realmente um dia longo e cansativo. as torres e obeliscos parecendo estender-se . Talvez esperasse uma discussão. Smith continuava cantarolando. Eu teria parado antes. — Ali perto do edifício — sugeri. Dentro da cidade havíamos estado protegidos do sol. talvez. mas agora este se apresentava quente — não tórrido. O ar estava limpo. com aquele calor reconfortante que se costuma atribuir à primavera. Haveria ainda diversas horas de luz. Ela assentiu e retomamos a marcha. se fosse possível. era hora de parar. Deixar que ele continuasse a emitir aquele som ridículo seria exigir mais do que qualquer cristão pudesse suportar. Tínhamos caminhado sem parar. porém. que tal fazer uma parada? Foi um dia longo e cansativo. Se ele continuasse a cantarolar depois de acamparmos.

isso me deu a sensação de que estávamos afinal a caminho. Se acompanhássemos aquela trilha serpenteante. Estávamos na metade do caminho para o edifício quando. estralejando no vento. Era bom sair da cidade. desesperadamente. E fiquei mais uma vez pensando que grau de loucura alguém podia alcançar. Juntos. mergulhei para o lado da trilha e. atrás de mim. Quase sem pensar no que fazia. estar onde pudéssemos ver de novo o céu. Tanto Smith quanto Tuck estavam agarrados às selas. Os cavalinhos seguiam. um homem sonhador e cego e um pequeno relígico furtivo. mas para arranjar uma das mais completas seria necessário uma caçadora de animais grandes. os balancins movendo-se com tanta rapidez que mal se viam. Podia haver combinações melhores. sendo possível que o mesmo nos contasse em que pé andava a situação geral. ao fazê-lo. por conta própria. e o manto marrom de Tuck esvoaçava atrás dele. aqueles três se apresentavam como sendo o máximo. Em meus tempos. mas até que surgisse outra. talvez o vendessem de volta a nós.para perfurar o próprio céu. rolamos para um lado da trilha e os cavalinhos passaram à toda por nós. vi que os cavalinhos nos acossavam. ao me voltar. qualquer que fosse o rumo a tomar. levando-a comigo. nesse caso poderíamos recolocá-lo no corpo de Roscoe. eu já estivera em empreitadas sem pá nem cabeça. poderíamos encontrar o povo de centauros que comprara o cérebro de Roscoe e. se ainda o tivessem. com a velocidade máxima que lhes era . puxei Sara pela cintura. gritos sobressaltados e assustados irromperam e. de unhas sujas.

Eu já estava quase em pé quando algo explodiu logo acima de minha cabeça. com solavancos. batendo no chão. em zumbido assassino. Ela se livrou de minha mão. coloquei-a em pé com um empurrão. Acima de nós as bolas escuras batiam com força e o ar parecia estar cheio das pelotas. À direita veio nova explosão. dando-lhe um empurrão que a mandou cambaleante ao chão. enquanto outra raspava em minha face. arquejando. ao explodirem. e pelotas vermelho-escuras passaram zumbindo pelo ar. e pareceu-me que havia levado um coice de mula. — A árvore está jogando coisas contra nós! Ergui a cabeça e vi que bom número de bolas escuras voava pelo ar acima de nós e. mas tornava-se evidente que aquele não era lugar onde ficássemos. Fiz com que Sara ficasse em pé. Os cavalinhos talvez soubessem o que estava acontecendo e haviam seguido para a rampa. — Cuidado! — berrei para Sara. em batida bastante abafada. pelo que me esforcei ao máximo por acompanhálos. e seguimos em corrida para a rampa. berrando enquanto seguiam — soltando berros que faziam passar calafrios por minha espinha. não em explosão alta. porém. — É a árvore — gritou Sara. diretamente para a rampa do edifício. Em volta de nós as batidas secas explodiam e o . chegou antes de mim à rampa. — Agora! — berrei para Sara. que saltitaram pelo chão. onde também caí. com certeza. Eu não sabia o que se passava. e um número maior das pelotas vermelho-escuras. levantando pequenas nuvens de poeira. Uma delas pegou-me nas costelas. parecia vir da árvore.possível.

Tuck derreara-se na sela e Smith parara de cantarolar. com seus dentes de roedor bem cerrados. correndo com muita rapidez. arremessando para os lados grandes quantidades de pelotas zumbidoras que batiam e saltavam. ou tão ereto quanto a gordura o permitia. Alvo pequenino. e regressou. Fora da porta. segurando as pelotas.chão da rampa dançava com pelotas a rolarem. Olhei para Sara e vi que ela estava um pouco amarfanhada. as bolas pretas continuavam batendo e explodindo com pancadas abafadas. estava colada nela. segundos depois. e uma das faces exibia manchas escuras. Sorri para ela. todavia. estava empertigado. por toda a rampa. passamos pela porta. Os outros já estavam lá. afinal. passou por mim. conseguimos subir por ali sem sermos atingidos. poeira. Fiquei imaginando se a arma. ela soubera agarrar-se à carabina. os cavalinhos amontoados em grupo assustado e Pio correndo de um para outro lado na frente deles. centenas dessas . como pastor preocupado. Na escuridão atrás de nós veio um ruído de farfalho. Em toda aquela dificuldade. ao que percebi. Cada qual agarrou uma das pelotas que estalavam na boca. o rosto brilhava com uma espécie de felicidade estúpida que se mostrava de todo assustadora. Sua roupa elegante de exploradora apresentava dobras. dando para ver que se tratava de criaturas parecidas a ratos. e logo outro. num frenesi de dança. e os pequeninos corredores irromperam para a rampa. entremeado de gritinhos e. até mesmo enquanto saltavam. mas em vez de derrear-se.

— Estão colhendo alimento — explicou —. cada qual cuidando de si. Lá fora. passavam em maré por nós. Se a distância fosse um pouco menor e estivéssemos em terreno aberto. entretanto. houvesse aberto as baterias. e corriam de um para outro lado. batendo em nossas pernas na pressa enlouquecida. continuavam a espalhar pelotas. Com a vinda dessa horda de animais parecidos a ratos. Da mesma forma. parecidas a ratos. uma vez chegados à seu alcance. antes da chegada da grande fome. Minhas costelas ainda doíam. Os pequeninos animais em carreira não nos davam qualquer atenção. por causa da pancada que eu levara. e essa disseminação das mesmas constituía o método pelo qual as árvores podiam distribuí-las. Estendeu os tentáculos pelo chão. e havia uma pequena arranhadura na . Aquilo fazia sentido.criaturas. Assenti. esbarrando e saltando uns nos outros. naturalmente. correndo entre nossos pés. para não ficarem na frente. além da porta. os cavalinhos se juntaram a um lado. Seu interesse único eram as pelotas. todos correndo para a rampa e à procura das pelotas que estalavam. Pio veio ter comigo. Como se a árvore nos houvesse percebido e. poderiam causarnos danos. eram algo mais do que vagens cheias de sementes. Podiam ser utilizadas como armas e o tinham sido contra nós. explodindo com batidas secas. Nós lhes imitamos o exemplo. apanhando-as e carregando-as como se disso dependessem suas vidas. as bolas escuras continuavam a cair. pôs-se em pé e caiu sobre a barriga. As bolas escuras eram vagens cheias de sementes.

você e o George podiam descarregar os cavalinhos. mas Smith continuava na sela. em toda a sua vida. — Não posso fazê-lo desmontar — disse Tuck. O semblante continuava com aquela felicidade imbecil e apavorante. como se estivesse escutando. ereto.face. Vou procurar lenha. a cabeça bem alta e rígida. — Acho que não há motivo para não acamparmos aqui mesmo. neste edifício — disse Tuck. — Está bem? — perguntei. que o edifício estivesse por perto. se pudéssemos juntar lenha. — Aqui mesmo. mas não se podia fazer grande noção do aspecto interior. — O que houve com ele? Foi atingido? — Acho que não. só isso — explicou. além disso.. — Em alguma época. quase chorando. Fora muita sorte a nossa. Olhei ao redor e vi que Tuck desmontara do cavalinho. Acho que ele finalmente alcançou o lugar que sempre almejou. Acho que ele chegou. colocou a carabina no regaço. — Quer dizer que a voz. mas seria estúpido utilizar o combustível. Sara sentou-se no chão. — Tuck — disse eu —. como coisa em torno da qual podemos sentar-nos e conversar. — Ele não me escuta. torcida um pouco para o lado. — Cansada. Perto da porta. que ardia bastante. Não presta atenção. há algo de especial a favor de uma fogueira.. E. aquilo tivera um aspecto de igreja visto de fora. Tínhamos um fogão de acampamento. Tem aspecto religioso. capitão. pode ter sido um templo. com a luz do sol vindo em diagonal . Pensando bem. tanto quanto lhe era possível.

puxando juntos. — Cavalheiros — interveio Sara. com aspereza — que foi esse imbecil gorducho quem nos mostrou o caminho. — Estive observando. nós o reporemos na sela. mas a não ser por isso o interior estava às escuras. havia bastante luz. — Não podemos deixá-lo sentado ali toda a noite — observei.. Não fosse por ele. depois de finalmente ter chegado? Quando ele finalmente alcançou o lugar pelo qual anseia há tanto tempo? — O que está quexendo dizer? — berrei. — Devo fazê-lo lembrar.. façam o favor de falar mais baixo. entredentes. — Não saímos daqui? — repeti. — Temos de tirá-lo da sela. mas talvez não saiamos daqui tão cedo quanto imagina.. — E o que pode nos impedir? Ela fez um gesto na direção da porta. — E depois. — Quer dizer que o senhor seria capaz de arrancá-lo daqui outra vez. Se ele não acordar. capitão. — Que temos de ficar acachapados aqui mesmo. capitão — retorquiu Tuck.. Que vamos fazer amanhã? — Ora. a árvore. pondo-se em pé. — Muito simples. havemos de arrancá-lo de lá. por causa deste imbecil gorducho. com os diabos! — exclamei. Tudo que ela joga em nós está caindo na . para não cair. — E depois? — perguntou Tuck.do poente. nunca ir embora. Poderemos amarrá-lo. — Nossa amiga. o que? O que quer dizer? — Nós o tiramos de lá. Não sei se compreende. esta noite. nos tem na mira — explicou. Você e eu.

os tentáculos acenando. talvez você possa nos dizer o que está acontecendo. Por mais rápidos que sejam. nenhuma ajuda. — Vai esgotar as energias ou acabar com a munição. Vi que a rampa ainda parecia viva. a cerca de dois quilômetros. — Nobre senhor — respondeu o cavalinho —. além disso. Perderia a vida.rampa. presos. se a árvore quisesse. — Creio que não. Sara sacudiu a cabeça. capitão. com as sementes que pulavam e dançavam e. Não farei mais que isso. Ela não erra. Pio veio do interior escuro do edifício. imóveis e sem vida. poderia manter-nos ali. se saísse por aquela porta. Você nos dispensou um tratamento miserável e em meu íntimo não encontro motivo para fazer mais por você. Quantas vagens de sementes acha que uma árvore assim pode conter? Sara tinha razão. — Dobbin. A folhagem se estende. os olhos na extremidade de dois deles brilhando à luz. no ponto mais alto. Carrego seus bens. Por que a árvore joga vagens em nós? — indaguei. Que altura acha que tem aquela árvore? Seis quilômetros? Sete? Com folhagem a poucas centenas de metros do chão até o alto. aqueles animais que colhem as sementes estão sofrendo baixas. Nenhuma informação será dada por mim. Ela calculara aquilo tudo e. — A árvore acabará cansando — sugeri. . e pequeninos como são. Irei com você. percebiam-se corpos pequeninos. nada contarei. aqui e acolá. Em resposta. por dias seguidos. talvez.

não resistia.Mike — piou para mim — uma sensação curiosa possui este lugar. Existe alguma coisa aqui. Reconforto e abrigo muito melhores posso ter. Tuck e eu. O camarada já não estava mais conosco. — De muitos modos — prosseguiu Pio —. como compreende. mas vamos tirá-lo. Ele estava mole. vocês dois vão tirar o George daquele cavalinho. então. não apresentou qualquer sinal para indicar que percebia o que se passava. o semblante petrificado por aquela felicidade assustadora. ficar ou não lá em cima. encontrei uma lanterna elétrica. Criatura como eu não pode participar de tal reconforto. que não mexera um só músculo do corpo. se for útil. encostando-o na parede ao lado da porta. tiramo-lo da sela e o carregamos pelo chão. Continuava sentado ereto na sela.A mim parece — comentei — que para ele não faz grande diferença. porém reconforto tão estranho que é preciso sentir medo diante do conceito. Fui ter com um dos cavalinhos e abri o volume por ele carregado. — Com que. — . existe reconforto aqui. somente como observador. você também pensa assim — comentei. esforçando-nos juntos. Falo. Mas é informação que proporciono com a máxima boa vontade. Olhei novamente para Smith. porém a todo um universo de distância. — Bem — disse Sara —. De muito tempo e estranheza. ou pretendem deixá-lo por lá? . Examinando por lá. algo que quase chega a ser a existência de alguém. se eu desejar. De antigos mistérios.

é que dera a impressão de escuridão. pois aquilo me causara susto. muito ocupadas em colher as sementes. Tendo Pio estralejando a meu lado. — . coisa assim. uma ponta de luz aparecia neste ou naquele lugar. e seguimos em meio aquilo como se estivéssemos andando pelo nevoeiro. parecidas a ratos. fitando-nos. — Vou examinar as coisas por aí. O contraste entre a claridade da luz do sol. Uma espécie fantasmagórica de crepúsculo preenchia aquele lugar. vinda de rachadura ou janela. vi que não era tão escuro quanto havia pensado de início. com outro deles. brilharam em reflexo. Talvez encontremos alguns móveis velhos. As paredes estavam encobertas pelo nevoeiro crepuscular. como se uma pilha de lixo houvesse ali sido formada. um amontoado de negrume. Apontou. ver se acho alguma lenha. fuzilantes. Olhei para baixo e vi que Pio me cutucara com o tentáculo. Alguma coisa bateu em meu braço. como fumaça. Tampouco era claro. porém um pouco desordenado. Pio — propus. Apaguei a luz. Não havia grande coisa para ver. Aqui e acolá. que não estava bem arrumado nem era arredondado. aprofundamo-nos no interior do edifício. Bem por cima.Venha. entrando pela porta. Olhei e vi o monte. Caminhando para o interior do edifício. Para nossa direita seguia todo o fluxo de criaturas pequeninas. Voltei para elas a luz. — Talvez madeira — sugeriu Pio. objetos se apresentavam em sombras escuras. e olhinhos pequenos e vermelhos. em silêncio.

Também se encontrava metal. pedaços de metal haviam sido modelados. no que pareciam ferramentas ou instrumentos. escolhendo pedaços do comprimento de fogueira. fibras atadas ao redor. mas finalmente o alcançamos e o iluminei com o facho de luz. ele a segurou envolvendo um tentáculo em torno. Ajoelhei-me e comecei a recolher madeira. Em certa ocasião. mas tinham sido retorcidos e deixados sem forma. como se alguém houvesse amontoado móveis em uma pilha. Apanhei uma das peças de forma estranha. e em tal quantidade que não nos faltaria. Mistério muito profundo e lógica muito difícil de encontrar. Estava seca. era pesada. entretanto. com tecido envolto e. carregando-a em um dos braços. mas uma parte ainda brilhando.Caminhamos para lá e o amontoado se mostrou maior e mais distante do que havíamos pensado. trabalho tão bem feito nos objetos de metal quanto nos de madeira e móveis. sem dúvida — bastões e pedaços partidos e estraçalhados. Entreguei-lhe a lanterna. Havia madeira. estava a ponto de jogá-lo para o lado quando me ocorreu o pensamento de que o . parte dele enferrujado e corroído. devia queimar bem. vendo o engano que cometera. alguns fragmentos de madeira com forma estranha. segurando com firmeza para que eu visse. Alguém fizera bom trabalho de destruição. E havia também o que parecia ser pedaços de tecidos rasgados. ainda que fôssemos forçados a ficar bastante tempo. Havia mais do que madeira. — Muita raiva — disse Pio — gasta sobre objetos inanimados.

o mesmo murmúrio áspero que se ouviria. A madeira estava ajeitada na dobra do braço esquerdo. mas tive a sensação de que fitava grande extensão de espaço e que esse espaço se estendia sem interrupção. Ergui o olhar e nada pude ver. batendo asas — não estavam apenas fazendo círculos no espaço sobre nossas . Mas não era o afluxo repentino de vôo apressado que existia por momentos e depois terminava. até o cimo das torres e obeliscos. Eles — o que quer que estivesse por lá. ele prosseguiu. — Preciso dos braços que tenho. vi que estava rígido.tecido serviria como isca para acender o fogo. Endurecera-se. E daquela amplidão de espaço veio um murmúrio que crescia em volume — era o som de muitas asas batendo-se freneticamente e depressa. com milhões de asas batendo. Em algum lugar lá em cima. de modo que o deixei. Enquanto ouvíamos. do chão sobre o qual estava. parecia estar ocorrendo uma grande migração. como um cachorro a indicar a ave que descobriu pelo faro. em vôo de nada para o nada. Ele não respondeu. Formei uma boa braçada e ergui-me vagarosamente. dois dos tentáculos apontavam diretamente para o teto — se aquele edifício tivesse teto. esvoaçava pelo céu. sem parar. — Você fica com a luz — disse a Pio. na escuridão nublada que marcava a estrutura superior do edifício. quando uma revoada de aves à procura de comida irrompia de uma faixa pantanosa de terreno. e quando o olhei. e descobri que precisava da mão direita para impedir que ela rolasse.

Aquelas asas — o som das asas — não tinham estado no espaço onde as ouvíramos. — Vamos voltar — propus a Pio. a migração terminava. Estavam altos demais para serem vistos. Não sei por que motivo pensei assim. enquanto outros vinham tomar-lhes o lugar. — Aqui não estavam — comentou. ou eram invisíveis ou. Faz muito tempo. pois não havia razão para tal. — Devemos estar todos com fome. e permanecemos em silêncio tão espesso que trovejava. Forcei os olhos para vê-los. pensava eu. Pio? Nunca pensei em perguntar. E então. quase frenético e. talvez nem estivessem lá. de modo tão súbito quanto haviam surgido. de modo que o rugido das asas não cessava.cabeças. mas não compreendera de todo. atravessavam aqueles poucos milhares de metros de espaço vazio. E que me diz de si. percebi que ele sentira o mesmo que eu. desde que comemos pela última vez. e desapareciam. Voavam com objetivo firme. som esse que em algum outro lugar ou época poderia não ser notável. mas que o era ali e. mas nada consegui. por momentos desse vôo. Pio baixou os dois tentáculos que apontavam. Ou que dormimos. mas em algum outro. de modo inexplicável. Você pode comer os alimentos que temos? . Mas o som se achava presente. uma torrente firme de outros voadores. — Achavam-se alhures. as asas em vôo sumiam. e só as escutáramos graças a algum estranho eco espaço-temporal. por cima de nós. Assim que o disse. causara o impacto regelante do grande desconhecido.

As criaturas parecidas a ratos continuavam saindo em disparada pela porta e entrando por ela. colhendo as sementes. Ela assentiu. ainda derreado. — Percebo. mas recomeçam assim que se põe a cabeça para fora. Os volumes tinham sido tirados de suas costas e achavam-se empilhados na parede. não precisava de comida. O sol se pusera e fora das portas exibia-se um crepúsculo que não era tão espesso quanto aquele dentro do edifício. Deixei cair a braçada de lenha. bem perto da porta. Tuck desempacotara algumas panelas e frigideiras. Ao lado deles achava-se Smith. as cabeças todas voltadas para dentro. a seu lado. que fez alguma experiência nesse sentido — comentei. Sara assentiu. — Vai acender aqui? — perguntei. bem depressa. — Perto da porta. Sou uma covarde e tanto. um bule de café estava pronto. — Não houve perigo algum. Mas a árvore pode ver-nos. sentados juntos. o robô sem cérebro. — Os disparos diminuíram — observou Sara —. Voltamos para a parte dianteira do edifício. Os cavalinhos estavam em pé. Os dois eram coisas horrorosas de se ver. ainda fora do mundo. confirmando. portanto. tenho certeza. para a fumaça poder sair. em meu segundo eu — explicou. Eu tratei de recuar depressa. ainda feliz.Eu. sentado. como uma boneca inchada que foi jogada à parede e. Em seu segundo eu (o que quer que fosse). escorava-se o corpo de Roscoe. — . formando círculo. e recordei o que afirmara antes. quando se trata de coisas assim.

agarrando a boneca com força. pela primeira vez. percebi o que tinha recolhido. comecei a tirar algumas cascas.. acocorou-se ali. — Um instante. Tem todos os tipos de coisas. em volta. Ela percebeu o que eu queria dizer. não fora mais do que um pedaço de madeira.Estou cansadíssima. — Não é uma boneca. — Onde a encontrou? — Há um monte de lixo. de modo que apanhasse um pouco da luz fraca que ainda vinha da porta. capitão — declarou. quando Tuck estendeu a mão para me deter. Até aquele momento. provavelmente na tentativa de impedir que tremessem. — Parece ser boa madeira — observou. E então. lá atrás. — O fogo e a comida farão bem a nós todos. mas não vamos falar sobre o assunto. saquei a faca. as mãos tremendo. — Uma boneca — comentou Sara. Olhem só a cara! — . com alguma palha ou grama em volta. — Ele não vai comer ou beber coisa alguma — expliquei. E que me diz Pio? Ele pode. capitão. tomada de surpresa. Fiz com elas um monte. Tuck colocou-se a meu lado. — Acha-se no segundo estado. — Não é uma boneca — contrapôs Tuck. Abaixei-me. estendia a mão para o pedaço de madeira que tinha um tecido em volta. Apanhando um dos paus menores.. Estava a ponto de tirar um pedaço desse tecido. assentiu. Tirou o pedaço de madeira de minhas mãos e o revirou. Nem ídolo.

. feita de sabugo de milho. — Não estão compreendendo? Caíra a noite. feito seguindo a fantasia. Havíamos tentado despertá-lo. fora simplesmente esculpido no bloco de madeira. Ele não era mais do que um saco. em seguida. O rosto. E pouco além estava Tuck. Atrás de mim.Ao crepúsculo. Tuck ergueu devagar a boneca. na verdade. sentado. levadas por tristeza própria que só Deus conheceria. corporalmente presente. Não se tratava de trabalho de entalhe. apoiava-se o corpo metálico do robô sem espírito. em meio à escuridão que nos envolvia por todos os lados. era rosto expressivo. levou-a apertadamente ao peito. A fogueira formava círculo mágico de luz. Mas. Olhou cada um de nós. este se achava em algum outro lugar. mas de nada valeram nossos esforços. mas por certo se ausentara no espírito. tive uma sensação de choque. e eu jamais vira semblante com tanta tristeza ou resignação à tristeza. eu ouvia o rangido suave dos cavalinhos que oscilavam para frente e para trás. haviam registrado em seus planos um sofrimento de existência que dilacerava o coração. A seu lado. O conjunto dava a impressão de uma boneca primitiva. para que comesse. — Não estão vendo? — gritou. Smith continuava mole e encostado na parede. segurando-a com ambas as mãos. o rosto era surpreendentemente visível. era primitivo. Talvez primata. Mas as mãos competentes que haviam esculpido o rosto. humano ou não. embora eu não pudesse ter certeza de que chegasse a tanto. Quase não chegava à semelhança humana. enquanto o fitava. Roscoe.

talvez. provavelmente. — Daqui a pouco — concordou ela. para poder dormir também. tenho a certeza. Ele é o tipo de criatura incansável e inquieta. em negativa. — Não é como os edifícios na cidade — prosseguiu ela. — Aquele material nunca foi tirado do chão.. sem se mexer. — Conhece química. A expedição já começara a se desintegrar. Parece-se ao granito. . nem mesmo ficou queimado. Não acha melhor dormir um pouco? — E o senhor vai ficar sentado. Acredite em minhas palavras. — Já observou como esse lugar é feito de pedra? — Acho que sim. conseguiria romper aquilo. Faz idéia de qual seja o material com o qual a cidade foi feita? — Não é pedra — afirmei. Os átomos estão presos com mais firmeza do que qualquer coisa conhecida. os olhos fitando a escuridão. Talvez substância química. vigiando? — Não sou cavaleiro de capa e espada — afiancei — se é o que pretende insinuar. — Em algum lugar por aí — respondi. Não havia pensado no assunto. capitão? Sacudi a cabeça. neste mundo de Deus. em matéria de pedra. Achei que estávamos principiando muitíssimo mal. — Este é feito de pedra decente. Não estou por dentro.. É algum tipo de substância fabricada. Nada.com aquela boneca bem apertada contra o peito.. — Rondando. Quando disparei o laser no campo de pouso. eu a despertarei mais tarde. — Onde está Pio? — indagou Sara..

Se não acordar. se viesse a mostrar. quem foi que comprou a nave e pagou as contas? Quem trouxe Smith a este lugar? Não me diga que está pronta a desistir.. nós o amarraremos a um cavalinho. Apanhei um pau e cutuquei os gravetos na fogueira.. de repente. de manhã? — Vamos continuar. — Não sei — disse ela. capitão? — perguntou ela.. — O que quer dizer? — O que vamos fazer. — Mas o George também estava procurando alguma coisa. — Olhe aqui — obtemperei —. que não dá para notar. Aquilo levaria milhões de anos.. Ela meneou a cabeça.Só um pouco. E descobriu o que estava procurando. se a árvore deixar. Gente mais antiga. e se a podemos conseguir. sentados. para demonstrar algum desgaste ou erosão. e verificar se estão com uma caixa de cérebro. E se Tuck não sair desse transe. — Não podemos saber — repliquei. — E de manhã. — Não fosse por ele. abrir mão do que estava procurando.. — Não há meio de saber há quanto tempo existe a cidade.. — . O fogo aumentou. só porque um pé-frio como o Smith. até lá.. — E que me diz dele? — perguntou. até então. Temos alguns centauros errantes para achar. dar-lhe-ei meia dúzia de pontapés e ele voltará a viver.. — Quem construiu esse edifício não fez a cidade. fica todo mole em nossas costas. — Talvez acorde. Ficamos em silêncio por momentos. na direção de Smith.

Ele não chegou ao lugar que queria? — Capitão! — arquejou ela. fui à porta e ali fiquei. — Vamos deixá-lo aqui. com certeza. ficaremos sentados aqui para sempre. e com todas as sementes devidamente catadas e recolhidas. A árvore cessara o bombardeio. não se percebia estrela alguma. Se é o que ele deseja. — É claro — concordei. se eu não tomar. vai em frente e toma as decisões. — Porque. Temos muito caminho a cobrir. Falta-lhes a lógica. as criaturas parecidas a ratos haviam voltado para o lugar de onde tinham saído. — Ainda assim. olhando para fora. Levantei-me.. Ela me dissera que aquele Smith abestalhado chegara onde queria.. é preciso ir em frente. Nada mais podia ser visto. Não haveria de dar as costas. então — insisti.. — É ele quem está dando as costas a nós. A brancura da cidade distinguia-se na escuridão. Já alcançou o que quer. — Não sei de nada — retorqui. a noite estava escura.Muito bem. estava pronta a discutir. Um horizonte esfumado e de traçado incerto jazia além da cidade. Não havia lua. E não estamos em condições de ficar sentados. — Não sei de nada. Quando eu disse a mesma coisa. no caso das mulheres. — Como sabe que alcançou? Aí está o problema.. — . entretanto. — O senhor não faria uma coisa assim? — E por que pensa que não? — Deve haver algum sentimento de humanidade no senhor.

O senhor estava com medo de nunca mais voltar ao espaço. capitão — perguntou Sara. a idéia de fazer a tentativa na escuridão oferecia atrativos. que não poderíamos movimentar-nos durante a noite. — O dinheiro não teria sido o bastante. e pela qual jamais tínhamos passado. conseguiríamos passar pela árvore. Via a si mesmo preso para sempre na Terra. sabendo que podia recomeçar se tentássemos qualquer movimento. Voltei à fogueira. porque procurei abrigo. algo levava-me a duvidar. em absoluto — contrapôs ela. Mas estaríamos mergulhando de cabeça em território inteiramente desconhecido. sentei-me a seu lado.Eu pensava que talvez. perto da fogueira. — O que a senhorita realmente quer — observei — é saber porque tive de fugir para a Terra. se saíssemos furtivamente naquele momento. Ademais. talvez até sabendo. de algum modo. e desde o primeiro dia em que pousou. tentando seguir uma trilha que não podíamos ver. — Por que está aqui conosco. Não acreditava que a escuridão fizesse tanta diferença para a árvore. Ainda assim. isso o mordia por dentro. deixando-nos presos. Era certo que não nos via. Ainda assim. — Esquece-se — observei — de todo aquele dinheiro que jogou em cima de mim? Aí está o motivo. Precisávamos de bom descanso. estávamos cansados demais para tanto. . pois desde quando as árvores têm olhos? Podia pressentir-nos de algum outro jeito. Cessara o bombardeio talvez por ter calculado que nos pegara. — Desde o início o senhor não acreditava nesta viagem. — Não é isso.

Era tão bom quanto diziam? — Srta. Capitão Ross. eu passaria uma boa sarabanda em seus informantes. Conte-me uma coisa. — Mas havia um planeta em questão. já que o senhor foi caçador de planetas. — Mas o senhor teria sabido. Como é que lhe escaparam todos os pormenores técnicos? Já sabia tudo. Outro dizia que o clima era imprevisível. Um deles disse que surgiu certo vírus. Foster. — Nem todos podiam ser verdadeiros. se é disso que está falando. — O que não deu certo. tenho de reconhecer a seu respeito. Era habitada por inteligentes. — Eu não pretendi estabelecer novo recorde. pois não havia motivos para risadas. Não sei por que motivo sorri. Em seu caso. .. até o minuto em que eu ia pousar. Sorri para ela. o planeta era uma tetéia — afiancei. a bandalheira que fez foi a maior de todos os tempos? — Não sei — respondi. — Só havia uma coisa errada — expliquei. — Havia muitos relatos — disse ela. — O tipo de planeta que a Terra foi. e parecia verdade. então? Circularam todos os tipos de relatos.. antes de chegar a Idade do Gelo. Outro dizia que não havia planeta algum.. porém. porque eles falharam nesse particular. Foi o que ouvi. Não havia meio de verificar qual deles dizia a verdade. Uma coisa. — Uma coisinha de nada. o senhor causou rebuliço em todo o espaço.Está doida por saber que tipo de criminoso tem viajado em sua companhia..

Ele pode ter uma idéia de como seja. e eu receava que surgisse algum.. De modo compreensível. e foram bem difíceis de encontrar. e executassem o trabalho com rapidez. Dei gratificação para que eles pegassem o equipamento. Não poderia tê-lo vendido. — Feito por uma firma idônea de levantamentos. Nenhum caçador de planetas está equipado para fazer o levantamento. quando se vasculha um planeta. Havia uma dúzia de firmas imobiliárias fazendo lances pela propriedade. O planeta deve ser testado. o descobridor estaria sujeito a certas parcialidades. Mas a senhorita deve compreender que alguém pode caçar por dez vidas seguidas e nunca chegar à — . — Mas o senhor o mandou testar. com certeza. está claro. descobrindo outro planeta que viesse fazer-nos competição. pessoal ou conhecimento para afundar-se muito na coisa. — As inteligências não eram numerosas. — Eu caçava planetas. O que se procura. Não fazia o levantamento deles. até achar-se testado.Não era obrigatório saber — retorqui. — Mas o senhor. O resultado foi dos melhores. não sei. Cometi apenas um erro. e eu podia agir.. Assenti. Mas não tem os dispositivos. — Nem eu — afirmei. não acha? — Creio que sim. procurando seres inteligentes? — Ora... — Foi um levantamento comprovado — afirmei. o pessoal. — Isso seria muito improvável. O levantamento feito pelo homem que descobre o planeta não teria qualquer valor legal.

Não eram muitos. com certeza. ocasião em que vivia. é-se vítima de todos os tipos de fantasia. poderiam fazer um levantamento da Terra. O senhor estava com pressa. e não eram das mais lúcidas. Acorda-se suando. Aquelas formas de vida estavam mais ou menos no mesmo nível. E o Pitecântropo não teria causado grande impressão em qualquer levantamento feito da Terra. imaginando coisas que surgem na mente. Não vou dizer que tenham sido desleixados. para poderem ganhar a gratificação. — Pode crer que sim. mas é possível. Mas procure dizer isso a um milhão de colonos que se mudaram. Um milhão de anos antes. — Pois é — confirmei. e não estavam construindo coisa alguma que desse para perceber. — E os encarregados do levantamento também estavam com pressa. Quando acontece uma coisa assim. quase da noite para o dia. — Nesse caso. — Um grande erro. A gente sabe que nunca vai encontrar coisa parecida outra vez. foi apenas um grande erro. Sejamos justos com eles. As formas de vida inteligente viviam em uma faixa muito restrita da selva. — E não foi? — Oh. A gente sabe que é a única oportunidade de fazer fortuna. ergueram cidadezinhas e tiveram . com os diabos! — exclamei. de noite. e não se descobriria um só ser humano. que já formaram suas fazendas.proximidade de um planeta tão bom quanto aquele. na. e teriam bons motivos para ficarem fora da vista. — Acho que compreendo. Não se agüenta o pensamento de que alguma coisa possa aparecer e tirá-lo de nós. digamos como o Pitecântropo.

a questão da gratificação.tempo suficiente para apreciar de verdade esse novo mundo que é o deles. Ela sorriu para mim. Foster. foi suborno. — Acho que não. — Com muitos caçadores agindo no espaço. — Srta. naturalmente. acertou na mosca. que a companhia tenha ficado um tanto disposta a fazer um pouco melhor. Não parece coisa das mais honestas. Embora eu suponha. com esses milhões de colonos berrando. — Mas. quer dizer? — Não sei — respondi. trata-se de processo comum de funcionamento. quando a ofereci e. foi. e posso lhe afirmar que em muitos planetas as coisas correm de outro modo. e depressa. e o regime bancário de lá é o mais seguro que existe. mais tarde. E havia. inconscientemente. não a encarava como suborno. paguei. A Terra é o único planeta que permite contas numeradas. iniciando processos de danos e perdas. para mim. em conta numerada. Era apenas uma gratificação. . do outro lado da fogueira. querendo o dinheiro de volta. do que teria feito para qualquer outro que não pagasse gratificação. — Não é motivo pelo qual possam enforcar alguém — afirmei. para que trabalhassem bem. e assim se inclinasse a fazer vista grossa para uma coisa ou duas. Um saque na Terra é aceito em qualquer parte. Andou fazendo isso por anos seguidos. Tenho quase a certeza de que. — O senhor quer dizer que ela foi tomada por suborno. Tente explicar a uma firma imobiliária. — Mas o senhor depositou seu dinheiro na Terra.

Mas esse negócio de vibração é verdade.. que vamos partir. Existem tantas coisas de que gosto. Como pode saber que não aconteceu? — Está claro que não posso. mudando de assunto. e tantas que detesto. em vez de deixar a cidade. quando pudermos sair daqui? — Se ele continuar como está — prometi —. estamos finalmente na pista de Lawrence Arlen Knight. com um pouco de raiva. — Muito bem. pudesse ser aberta por força bruta. depois de coberta por aquele troço. — Quer dizer. talvez não — retorqui. mais tarde. Talvez a senhorita seja. Ela sacudiu a cabeça. Talvez alguém conseguisse libertar a nave e partir. O que vai fazer com o George. então. É o que queria.. poderemos enterrá-lo. não? — . Quem sabe se descobrimos um jeito? Não acha que se uma nave. alguém já o teria feito. Não conseguirá viver muito tempo. a cidade não é lugar onde se fique. E eu não sou perito em alimentar alguém à força. — Para fazer o que? Bater um pouquinho no casco? Tentar abrir com martelete? E quem trouxe o martelete? — Mais tarde vamos precisar dela. sem mesmo tentarmos entrar na nave? — Srta. o que quer saber? — Talvez devêssemos voltar para o campo de pouso. de alguma maneira. a seu respeito. — Talvez sim. — Talvez saibamos outras coisas. Foster. muito antes de nós? — E talvez tenham. sem comida ou água. — O que me diz da nave? — perguntou.Não sei.

tinha sumido. A casca de Roscoe continuava apoiada grotescamente ali. — Ei. com sacudidelas.. Pouco antes do amanhecer. afinal de contas? Ela olhou para mim. — Não! — gritou-me. se assim continuasse. ele estava lá. — Encontrar o Knight — afirmou. O lugar onde ele estivera encostado na parede estava vazio. e à seu lado via-se um monte de suprimentos. ela me despertou.. olhando para a porta. Eu teria ouvido. naturalmente.. Mas a nave. O lugar continuava às escuras. Levantei-me. mas havia em sua voz um tom alarmante. espere um pouco — atalhei. — Calma por aí. pois estava sentada bem ali. — Está-se esquecendo? O homem é cego. — Que diabo quer fazer.Sim. e quando voltei a olhar já não estava. sem se alterar.. pois surgia histeria em sua voz. — Decida-se — intimei. ia disparatar-se cada vez mais. E não chamou. George desaparecera. — O George sumiu! — gritava para mim. Nem se mexeu. e quando voltei a olhar. — Talvez ele tenha acordado — comentei — e precisasse ir. e eu receava que. e.. Um instante antes eu tinha olhado para George. ela deixara que a fogueira se extinguisse e a luz vinda dali estendia-se por distância curta. pelo que me obriguei a despertar um pouco. Ainda estava dormindo. na fogueira. — Estava aqui um minuto antes. Onde está o Tuck? — . Chamaria o Tuck para levá-lo..

Não se via sinal algum de Pio. Mike — disse ela. estava todo contraído. Provavelmente não dormiam. E se jamais o encontrássemos. era fora de dúvida que nunca dormiam. dei alguns passos para onde Tuck dormia. ou coisa parecida — não teria agido sozinho. Além dele viam-se as formas dos cavalinhos. foi meu pensamento bastante estúpido. A senhorita não ouviu. com um tipo de friagem terrível. que começava por dentro e chegava à superfície. à beira da fogueira. o riscar de um fósforo. Ela dissera a verdade. — Está certo. — Estou com medo. naquela tranqüilidade estrondosa que preenche o edifício vazio. Permaneciam ali. E ela teria ouvido. estaria ótimo. Com calma. chamando Tuck. pois o lugar estava silencioso. o farfalhar de tecido esfregando na pedra — qualquer coisa teria sido ouvida. dormindo — apontava ela.Ali. Ele não chamou o Tuck. seu Tuck cuidadoso e amoroso. Mas eu continuava frio. caso George fizesse algum movimento. Vamos procurá-lo. com clareza alarmante. então — declarei. para não tremer de frio. Eu me afastei da fogueira. muito bem. — . Ele era uma contrariedade infernal. ou ir ao banheiro. Por mim. Se o Smith despertara do coma e quisera alguma coisa — um gole de água. — Ele se foi. Não vamos disparar por aí afora. quando todos se retiram. observando. Sentia frio. e vi o amontoado que era o corpo do homem. que se danasse o Smith. Abriria o berreiro. Uma palha que caísse. porém. e descobri que me segurava com força. rigidamente. Se havia sumido.

— E quem o levaria. — O Smith sumiu. — O Smith sumiu — anunciei. Seria uma pena despertar aquele negócio amontoado. continuava aquela boneca desengonçada. capitão? — Nada — respondi. — Levado! — berrei. e com os braços a agarrá-la. com a outra chamou ainda mais a si aquela boneca horrorosa. Agarrei o pescoço magricela de Tuck e o despertei. Ele saiu do dono entorpecido e devagar. dormindo com um ursinho ou boneca. que não tinha pés nem cabeça. — Acho que foi levado. — Temos de procurá-lo. Sara perguntou: — O que se passa. Ele sacudiu a cabeça. sentou-se. sacudindo-o. Ele dormia com aquilo. Atrás de mim. tão seguro nas profundezas do sono. Devagar. para a friagem do pesadelo no edifício vazio. — Não creio que tenha sumido — asseverou. Com uma das mãos esfregou os olhos. — Não entendeu? — perguntei. com os demônios! Quem haveria de querê-lo? . como se fosse uma criançinha de três anos.Inclinando-me sobre ele. Estendi a mão para sacudi-lo. Estava enrodilhado em posição fetal. na segurança cercada do berço. notei que não era o sono de um homem decente. o manto marrom bem aconchegado em torno do corpo. mas hesitei. em planeta alienígena. não parecia compreender o que eu lhe dissera. no lugar formado pelos joelhos e peito. Ainda esfregava os olhos.

a cabeça balançava de um lado para outro. para envolvê-lo. arrastando-o comigo. a seu ver. Levado por que. ainda assim não sente nada. . A boneca caiu de suas mãos. — Deixe-o em paz! — gritava comigo. — Nunca compreendeu e nunca compreenderá. e depois ergui-me. . antes de firmar-se nos pés. ao lado do corpo. e por qual motivo? — Eu também queria saber — corroborou ela. com força. verdade? Tendo-a em volta de nós. com um olhar condescendente que me deu vontade de estrangulá-lo. e caíram. A força bruta e o vozeirão são as únicas coisas que fazem sentido. — O que foi que ele fez? — interpelou Sara.Ele me fitou. — De que está falando? Que negócio é este de que não vejo ou não sinto. Sara.. de que não compreendo? Sacudi-o com tanta força que suas mãos se soltaram. Levado para onde. É criatura grossa e materialista demais. — Deve ter ouvido. Não sente a coisa. e ele foi com estrépito. sumindo na escuridão. Agarrei-lhe o manto e o retorci. — O que foi que ele lhe disse? — E não ouviu? — contrapus. puxava o meu braço. Eu o soltei e Tuck cambaleou um pouco. os dentes tiritavam. é o que quero saber. Desferi-lhe um pontapé. a meu lado. quando as ergueu para tentar soltar o manto. — O senhor não compreende — declarou. Ele disse que Smith foi levado. — E agora! — berrei. Até mesmo aqui.

— A senhorita não ouviu que ele saía — afirmei. partindo atrás dele. teria ficado confuso e chamaria.E assim é que. Ele recuou. era cego. Voltei-lhe as costas. afastando-se de nós. enojado. na ponta dos pés. prorrompeu em carreira. coloquei três ou quatro gravetos sobre os carvões. — Ei. Esperei que chegassem e permaneci ali. Acocorado perto do fogo. estava a meu lado. pelo menos dessa vez. observei enquanto Sara e Tuck caminhavam de volta. todavia. As chamas começaram imediatamente a subir. onde esteve toda a noite. fitando-os. e momentos depois. — Nós vamos procurar o George? — Onde procuramos? — contrapus. Tirei um pau do monte de lenha. E não fazia muito que me chamara de Mike. caminhei de volta à fogueira. não podia saber onde estava. acenando com o braço. — Pode vêlo. Se se houvesse mexido. Não teve tempo para tanto. Antes que o pudesse alcançar. e juntei as brasas que restavam. não estava mais aqui. Se houvesse acordado. recolhendo aquela boneca ridícula. — Ora. Ele não podia levantar-se e sair. Voltei-me para Tuck. perguntando: — O que sabe a esse respeito? O que tentou dizer-me? . choramingando. estacou e abaixou-se. acocorado. indicando o interior escuro do edifício. você! — gritei. E. de súbito. Eles estacaram e ficaram olhando para mim. metendo-se na escuridão. quando olhou outra vez. aqui — disse ela. Não ouviu que ele se mexia. ao invés de "capitão". teria ouvido.

Depois de tantos anos. — Precisa acreditar em mim — interveio Sara. Sara dirigiu-se a mim: — Acredita no que ele está dizendo. Sara e eu calamos. Meu Deus. uma pessoa gentil! Que o Senhor me salvasse de todas essas pessoas com gentilezas e choramingas. ficamos à sua espera e. capitão? — Não sei — respondi. Depois que o senhor me despertou. mas espero estar certo. O George bem merecia. como criança birrenta. Se ele sabe de alguma coisa. Havia muita gente que não gostava dele. A voz da pessoa que George julgava ser um amigo. é melhor falar agora. Ele não saiu andando. antes de sairmos por aí afora. — Acredito. E aqui ele achou esse amigo. vigiei bem. pensava eu. Vocês não gostavam dele.Ele sacudiu a cabeça. Não o fez por sua própria vontade. . ele se manifestou: — Vocês sabem a respeito da voz. neste exato lugar. Não adormeci. afinal. — E você acha — comentei — que ele foi levado por esse amigo? Tuck assentiu. para poder dormir por sua vez. Aqui mesmo. Mas tinha uma bela alma. — Algo aconteceu a Smith. — Eu não dormi. nem dormitei. era uma pessoa gentil. Isso nos leva a Tuck. Não sei se é isso. — Não sei como — explicou —. Aconteceu exatamente o que lhe contei. nunca duvidei. alguma coisa boa lhe aconteceu. O George irritava essa gente.

por certo. Voltamo-nos para a escuridão de onde vinha o ruído. que ouvira. — . voando pela escuridão superior daquele grande edifício abandonado. pensei em grande tragédia. — Existe alguma coisa aqui — afirmou Tuck. levo em minha mente. lembrei-me do mundo de asas a se esbaterem. — É o Pio. ordenadas. veio um som regular de batidas. estralejando no chão. — Eu o vi ir embora e corri de volta para cá. — Não é um quem — respondi. Ele veio em nossa direção. parecendo aproximar-se. rápidas e tornando-se mais altas. de modo que voltei depressa para cá. como se fosse alguma espécie de fetiche que o protegesse de todo o mal. E ali. — É um quê. Estacou quando nos viu todos a fitá-lo. Tuck agarrado desesperadamente à boneca. — Você.Quem é esse amigo dele? — perguntou Sara. Sara com a carabina pronta. seus inúmeros pezinhos brilhando à luz da fogueira. — Não atire! — berrei. Vi a forma que emitia as batidas. Ele desapareceu dos sentidos. antes dos demais. acocorado perto da fogueira. depois aproximou-se devagar. — Quer dizer que você soube. — Informado estou — declarou. Na escuridão. — Vocês. o quê? — berrei. Mesmo quando não posso ver. devem senti-lo. E um desaparecer de minha mente. no instante em que ele sumiu? Como pôde saber? — Todos vocês — explicou —. muito débil. — Seu amigo ir embora.

o que lhes narrei? — indagou Pio. ao que suponho. Pio balançou um tentáculo. então.Não acreditam. .. Sara fitou-me. Nem neste planeta. Mesmo sabendo que — . — Pode dizer-nos onde? Sabe o que lhe aconteceu? Com cuidado. Só sei que ele se foi. para algo mais do que isso? Eu devia tê-lo esmurrado. Ele se foi por completo. — Não creio que sim — respondi. — Eu me sentiria melhor se o fizéssemos — concordou ela. dei de ombros. é a verdade. Voltei-me para Sara: — Podemos olhar. — Não parece certo deixarmos sequer de fazer a tentativa. talvez. Não creio que o achemos. — O que você afirma. Tuck disse: — Por que é tão difícil acreditarem num fato que não podem tocar ou ver? Por que todos os mistérios precisam ter soluções possíveis? Por que precisam pensar apenas em termos de leis físicas? Não existe espaço. sem dúvida alguma. em suas mentes pequenas. mas ainda assim podemos olhar. Mas existe uma certa lealdade em nossa raça.Você diz que ouviu quando ele ia — afirmou Sara. — Quer dizer. agora mesmo? — Faz pouco tempo — respondeu Pio. — Não posso dizer. Não adianta procurá-lo. mas naquele exato instante não me pareceu importante dar atenção a imbecil de tal marca. coisa difícil de explicar.. — Quer dizer que ele não está aqui? Não está neste edifício? Nem neste edifício — respondeu Pio — nem lá fora.

continuaremos procurando. cheio de petulância. mas não divulguei. Sara disse: — Eu vou com vocês. O que essa criatura diz é verdade. — Diz respeito às sementes — esclareceu ele. não vai — contrapus. — Srta. devia saber muito bem que ele não confia em mim para vigiar coisa alguma — disse Tuck.não haja esperanças. pois parecia sem importância diante da ausência lamentável de seu companheiro. então. — Pelo amor de Cristo! — exclamei. — Fica o Tuck — fez ver. está bem. — Para esse fraco intelecto. onde quer que o procurem. Foster. Pio. Venha conosco. — Eu vim trazer notícias. grande mistério se acha em jogo. Talvez não seja lógico. . Havíamos percorrido pequena distância no interior do edifício quando Pio falou comigo. — Sem lógica — confirmou Pio —. com certeza. — Prossiga. — Pare de fazer rodeios. Eu irei ajudá-los a procurar. e ainda assim um sentimento admirável. — Não é preciso. — Estão impedindo que partilhe a lealdade de vocês? — Oh. — Precisamos de alguém para vigiar nosso acampamento. Não vão encontrar o George. — Ademais. tudo isso é bobagem. — Não. Mas talvez possa ouvir agora.

.Farei mais do que falar — prometeu Pio. — . Procurei algo que pudesse explicar a grande importância que Pio atribuía ao poço. — Sementes lá em baixo — anunciou. O facho de luz não alcançava as paredes internas. mas não consegui coisa alguma. ar severo. — É um depósito de alimento. O poço parecia enorme. Vejo que o espaço é muito bem fechado. — Muito bem. de quatro. — Não vejo nada estranho — informei. a semente não sai mais. torci de um lado para outro. Levantei-me. do que as transportadas na véspera pelas criaturas parecidas a ratos. apaguei a luz. faça leve desvio comigo. — Mas está escuro. Ele a apontou com o tentáculo. com certeza. apenas isso. — Ilumine o poço. Por baixo da grade. lá dentro. observe — pediu. e daí? — Por favor. chegando assim a uma grade pesada de metal. enfiei a lanterna no poço. — Vou apontarlhe. Por favor. Eu olhei. Verifiquei o poço. Meti meu espiador no espaço entre as barras. — É depósito de permanente. Eu me pus sobre as mãos e joelhos. Ele partiu em ângulo e eu fiz leve desvio em sua companhia. havia sementes formando um grande monte — muito mais sementes. Uma vez posta ali. — Não é depósito de comida — contradisse Pio. inclinando-me entre as grades até o rosto estar encostado às barras de metal. instalada no soalho. Os ratos trazem as sementes e jogam pelas grades..

— Um altar. irritado. havia toneladas de sementes lá embaixo. irritando-me. Berrei para ele: — Por que não me disse antes? — Vou dizer-lhe agora — fez ver. Os nossos pequenos colhedores colhem sementes. nem mesmo fechada. — Vamos dar uma espiada.Escuro para você. por respeito à pessoa desaparecida. não está escuro. Posso explorar de perto a superfície. Posso ver todos os lados do espaço. — O que mais? — indaguei. mas para outro fim. — Lugar de reverência.. é o que quer dizer? — Não sei o que é altar — proclamou ele. Não existe abertura. Cheiro de coisas sagradas. através de sementes. — . onde as coisas foram arrancadas. — Existem diversos outros. Não há meios de tirar de lá. — Hesitei. Ela dá para trás.. Posso ajustar a visão. Olhei novamente. como aquela de onde você tirou a lenha — disse ele. — Para trás de que? — Para fora — explicou. Posso ver o fundo. E há uma porta. Para mim. — Quantas outras coisas você descobriu? — Existem pilhas de artigos usadds. — Existem marcas no chão e paredes. É um lugar de reverência. Não existe abertura. — Não é apenas o lugar de depósito — prosseguia Pio. Posso fazer mais do que apenas ver.

.. naturalmente. Ele se voltou e seguiu estralejando rumo à escuridão e. procuremos com muito cuidado o camarada perdido — propôs Pio. Ele enxergava em um depósito às escuras. — Certeza. procurá-lo-emos. Mike. que era a porta aberta na frente. alguém a se movimentar na orla da mesma. de relance. era o suficiente. — Sim. mas não tinha certeza. por mais inútil que. Você tem certeza de que ele não está aqui. — Não sei — disse Pio. Pareceu-me ter visto. não procuraremos — contrapus. ao menor ruído que fizéssemos. Podia fazer mais do que ver. Levava-nos a todos. acompanhei-o de perto. Olhei para trás e vi uma fresta minúscula de luz. — Vamos achar aquela porta. Caminhávamos por um espaço vazio que repercutia em ecos. — Pio. — Não queria que você. Prosseguimos no espaço vazio e. — Acredito no que você diz. — Eu quero — atalhei. atrás de nós... antes. — Mesmo assim. na mente. e um de nós desaparecera. — concordou ele. — Você disse que ele não está aqui. Não se limitava a ver: sabia. sabia que estava fechado. — Vasculhemos. eu concordava por completo.Mas. a frincha de luz tornou-se menor. Para mim. ajustando a carabina ao ombro. Quando Pio dissera que Smith não estava ali. enquanto por cima pareceu-me poder sentir a própria presença do espaço imenso que se erguia até — . — Não.

Uma frincha pequena de luz surgiu. em que enfiei a cabeça pela esquina. Procurei uma pedra. de algum modo. Pio empurrava a porta e a abria. se sairmos? — indaguei. mas lá estava. Pio finalmente estacou. Parti rumo à esquerda. teve noção de minha presença e. tornou-se mais larga. Estava encoberta pela construção. Mas fique atrás de mim. caminhando junto da parede. percebeu-me ou. Mantendo-a ainda aberta. Cheguei à esquerda do edifício e olhei. com certeza — proclamou. — Abaixe-se! . começou a atirar. colocando-a de tal maneira que essa permanecesse aberta. — Construída para ser aberta por dentro. — Venha comigo — ordenei. não facilite. tão baixa que tive de inclinar o corpo a fim de passar. — Não. distantes. Ela me viu. soltei-a do chão mediante pontapé e rolei para a porta. crescendo com rapidez à medida que se aproximavam. — Não chão! — berrei para Pio. Eu não vira a parede. Lá estava a árvore. poucos palmos à frente.o teto. Para ambos os lados a pedra vermelho-eseura do edifício formava uma cerca. Pio passou em volta e examinou o painel externo. — Poderemos abrir novamente essa porta. A paisagem vermelha e amarela estendia-se à frente. — Vamos dar uma olhada. vieram em catadupas ha minha direção. mas não dava para ver aquela que estivera disparando contra nós. no instam. Havia outras árvores. Pontos negros destacaram-se dela. Era pequena. Com menos de dois palmos de largura.

mas ardiam furiosamente. Antes de me empertigar de todo. e voltei a me atirar em cima de Pio. As sementes zumbiam. — quando materiais estão sendo jogados em cima de mim. — Quando entrar. — Volto-me. Você está na direção certa? — Na direção errada — observou ele. em som abafado. Nenhuma das sementes atingiu-me com solidez desta feita. Lá fora. veio a segunda rajada. — Ouço com a maior atenção — proclamou Pio. Mantenha-se bem perto da parede. . portanto. — Pio! — berrei. A primeira rajada terminou e eu me levantei um pouco. voltou-se. — Está disparando em rajadas. Vamos sair daqui. — Espere — disse a Pio. além de mim. — Escute. — Você sabe correr? — Correr com muita rapidez — explicou ele. Outras bateram na parede acima de nós e ricocheteavam. e não causaram dano. que passou a arder como se estivesse em fogo. Uma delas alcançou-me no ombro. outra nas costelas. as vagens de sementes batiam. diga à Srta. uivando enquanto giravam. jogando-me por cima de Pio que se acocorara. Quando a próxima terminar. procure chegar à porta. então. escondendo o rosto com os braços dobrados. Por baixo de mim. Fique com o corpo baixo. Algumas pareceram ter alcançado a esquina do edifício. Uma pegou-me na perna.Lancei-me para trás e contra a parede. e eu gritar. Veio outra rajada. Foster para por os volumes naqueles cavalinhos e dar partida. As sementes espalhavam-se em volta de mim. mas uma delas raspoume a nuca.

em minha direção. Lutei para ficar de joelhos. Fiz a mira e apertei o gatilho. e eu sabia o que acontecia — algumas das vagens haviam alcançado o canto do edifício e explodiam. como . de modo que não recebesse todo o impacto da queda. Inclinando-me. de carabina na mão. Cambaleei e quase caí. Caiu devagar. O que se parecia a mosquitos negros vinha em enxame da árvore. de início. levei a carabina a descer. em movimento de corte. cobrindo-me com as sementes. corria para a esquina. mas faltava-me tempo para olhar. enquanto ela se desaprumava cada vez mais. começou a cair. olhei a árvore. mas desta feita nenhuma me atingiu.Outra rajada de vagens vinha como tempestade sobre nós. pulavam no chão. Levei a carabina ao ombro. lá se achava a árvore. outra na canela. antes que as sementes batessem no alvo. em diagonal. Uma delas lançou borrifo de areia em meu rosto. logo sumiu. tentando segurar a carabina mais alto. lancei-me de barriga no chão. Não sabia como Pio se saía. e a chave de intensidade de disparo levada ao extremo máximo. e nesse instante. Tirei a poeira dos olhos e observei. com relutância. E logo estava na esquina do edifício. Uma tempestade de sementes pegoume. mas não me precipitei. O raio laser piscou por momentos. Uma delas acertou-me na mandíbula. à talvez cinco quilômetros de distância — era difícil avaliar. Parecia estar balançando e. — Agora! — gritei. As sementes estralejavam nas paredes. consegui recuperar a posição e segui em frente. enquanto a observava. Um milhão de punhos esmurravam minha cabeça e ombros.

Vi que Pio se punha de lado da porta aberta. a escuridão se afastou e eu abri os olhos. mas que a passagem pela mesma estava bloqueada por uma enchente das criaturas parecidas a ratos. em tombo fragoroso rumo ao chão. Amontoavam-se uns sobre os outros. com em ampla frente. mas não apenas caía devagar. Acima do lugar onde a árvore tombara. estava cheia de tontura. pois a noite viera. desaparecendo. Sabia que estava caindo. ao abrir os . notando que estava ensangüentada. Fiquei em pé e passei a mão pela nuca. a meus pés. e mergulhava agora por um negrume pavoroso. de modo que por mais que caísse. enquanto eu caía. ou mais distante ainda do que no início. correndo muito e convergiam para o ponto estreito da porta. caminhando rumo à porta. passavam por ali como água em mangueira de alta pressão. Dei um passo para fazer a volta. e vinha caindo do céu. levados pela pressa da necessidade frenética de recolher as sementes caídas. um geyser de poeira e outros detritos erguia-se em nuvem para o céu. tombando — pelo que pareceu uma eternidade no tempo e no espaço. Minha cabeça inchou e. ao inchar. que prosseguia sem fim. como achava que o chão parecia afastar-se de mim.se lutasse por permanecer em pé. eu continuava longe. pois parecia que os tinha fechado. Depois adquiriu velocidade. A árvore bateu no chão e. ao cair na escuridão. a terra tremeu. e tropecei. Após o que pareceu um período infinito. Estava deitado no chão e. E finalmente já não havia chão algum. flutuei. como se lhe houvessem desferido um golpe poderoso. Eu caí — não.

Não sei porque me dei a tal trabalho pois ninguém. e que o sol se erguia. A carabina jazia ao lado. de novo? — contrapus. e recoloquei-os outra vez. a parede de pedras vermelhas do grande edifício erguia-se ao céu.olhos. cheio de animação —.. assentando-se vagarosamente. estendi a mão e a apanhei. Não precisei de exame longo para ver que estava partida. eis o que fiz — anunciou Pio.. Puxei-a para mim. A um lado de mim. Pio se achava a meu lado. permanecia acima do lugar onde a árvore caíra. espere aí um instante! — exclamei. descobri que fitava um céu azul escuro. — Que negócio é esse de sorver os fluidos? . iria atrever-se a disparar novamente aquela arma. O escudo do cano fora deformado por completo e o próprio cano tirado do alinhamento. Sentei-me e descobri que precisava de todas as forças para erguer a metade superior do corpo. coaxando. — O que está feito? — Eu sorvi seus fluidos. em juízo perfeito. e não havia modo de consertá-la. — Não há necessidade de fazer novamente — piou ele para mim. — Sorvi seus fluidos. A nuvem de poeira. — Já está feito. atravessei-a nas pernas. Espero que não tenha raiva de mim. Um silêncio pesado e cheio de pensamentos pairava acima da terra. — Ei. — Como é que é. As criaturas parecidas a rato tinham desaparecido.

Agora. cheio de satisfação. que respira. Talvez não exista desejo de que mexam no seu corpo. ao limpar a nuca.Você estava repleto de substâncias mortíferas — explicou ele —. estava vivo. porém. — O processo é aprovado. não foi assim. preocupa. Permaneci sentado por longos momentos — muito longos. A bomba biológica que você tem no corpo não perdeu uma só batida. Pensei no momento em que a cabeça inchara. Não preciso dizer-lhe. Mortíferas para você. preocupa. por ter sido atingido por sementes. encontrara sangue na mão. então sorveu os meus fluidos? — Única coisa a ser feita — asseverou Pio.. Fora alcançado antes pelas sementes. e realmente havia algo de muito errado em mim. Hesitei apenas em dizer-lhe que receio ter cometido um grande pecado. Ao que parece. — Pio. preocupa! Julguei ter chegado tarde em demasia. entretanto. Mas. mesmo — e achei impossível. voltei a enchê-lo. — Suas palavras não compreendo — queixou-se ele. Ainda assim. mas vivo. Talvez contra alguma crença sua. Dessa feita. acho que devo. Minha vida você a salvou antes. mas eram golpes de raspão. — Não existe dívida — pioii ele. eu posso pagar-lhe. — Você. — Eu o esvaziei dos fluidos. que não haviam rompido a pele. — Que o Senhor nos proteja — comentei. Estamos quites. — .. — Sou eu quem deve pagar a dívida. enfraquecido e sem vigor. não para mim. Subtraí as substâncias. — Uma engenhoca de diálise. ambulante. e como eu caíra devagar.

Assim descemos a rampa e tomamos a trilha. mas se você se deitar e amarrar-se com segurança em meu corpo. Sentia-me ainda bastante abalado. que ele iria à frente. com um pontapé. — Você me carregou antes — declarou. e mal conseguia agarrar-me à sela. . — Vai andando — ordenei. deu para ver a árvore. do que eu imaginara.. de modo que tudo vai bem. posso arrastá-lo. Mas não se desanime pelo que fiz. Eu continuava bambo.. Não era resposta brilhante. A carabina caiu de minhas pernas e eu. chegados ao cimo da mesma. Tenho muita força nas pernas. A trilha levava a uma elevação e. rejeitei a sugestão. Tuck caminhando diante de nós. Tuck quis bancar o homem. Estava a diversos quilômetros e era maior. — Não posso carregá-lo. Ele e Sara levantaram-me para as costas de Dobbin. — Siga em frente. joguei-a ao lado. Pio observava-me com atenção. mas eu estava longe de me encontrar na melhor forma. — Espero — disse Dobbin — que não consiga sobreviver. — Que lhe dê em dobro — repliquei. Consegui por-me em pé. e em seguida ele insistiu para que Sara montasse o segundo cavalinho sem carga. mesmo a essa distância. usando os tentáculos dotados de olhos. tendo ainda a boneca bem agarrada ao peito e Pio fechando a retaguarda. a pé. Com aceno. Ainda dançarei sobre seus ossos.apenas por esse motivo. Eu chegarei lá. O pontapé quase me fez cair de cara no chão.

— Nenhuma outra coisa jamais teve a coragem de por as mãos em uma árvore. — Ainda haverá de lamentar-se — gritou-me. — Camaradinha. cruzando a trilha e o impacto da queda estraçalhara o tronco. — Teremos de dar a volta — observou Sara. com estridência. e mesmo dessa distância ostentavam um ar lodoso. e outras rastejavam. sem que eu atire nela. — A volta por ali é mais curta — indicou. os moradores da árvore foram soltos na terra. cinzentas. Formavam-se grandes montes delas. — Vá em frente — pediu. Tuck voltou-se para nós. onde o toco da árvore continuava. — Não existe coisa alguma que faça mira em mim. quase com metade do comprimento. Delas vinha um choramingar fino e esganiçado. ao tombar diante do machado. que me fez doer os dentes. em todo o tempo. e sua ponta para cima. cheio de pedras arredondadas. os cavalinhos o acompanharam. como qualquer árvore oca poderia estraçalhar-se. a árvore fazia pontaria em mim — expliquei. cortado em diagonal pelo raio laser. do tamanho de .Caíra fragcrosamente. amontoando-se na pressa. ao comprido do tronco caído. Sara assentiu. outras ainda rastejavam pela trilha. Dobbin sacudia-se com nervosismo e relinchava. O chão era áspero. Tuck saiu da trilha. Nunca. Espalhando-se pelas grandes rachaduras na madeira havia coisas rastejantes. saindo. apontando o braço para a esquerda. o que podia ser nojo ou pavor.

Ao cair. desabava ao chão. chegando quase a galope. mas cambaleava e caía enquanto seguia. que se agarravam ao chão e armadas de espinhos grandes.uma cabeça. Vou descer. cravejados de plantas pequenas. com muitas ondulações minúsculas. Deixou cair a boneca e parou para apanhá-la. uma folha ondulante de movimento. a massa ondulante de criaturas cinzentas e lodosas se movimentou de modo convulsivo. como se. . criaturinhas houvessem fraturado as rochas com martelos. protegendo-se da queda. a fim de reduzir sua massa a fragmentos. para nos impedir a passagem. enfiavam-se na vegetação espinhosa ao longo do caminho. Os cavalinhos aumentaram também a marcha. entremeado de argila avermelhada e misturados. acelerou os passos. mas diminuíam ou estacavam a cada vez que Tuck. as pernas emaranhadas no manto. de modo que todo o grupo parecia encontrar-se em agitação constante. — Nunca chegaremos lá — observou Sara —. no decorrer de milhões de anos. um movimento de estremeção. dessa maneira. batia com as pernas e joelhos nas pedras redondas e as mãos estendidas. Tuck. Pareciam-se muito. vendo que se moviam para interceptar-nos. tanto na argila quanto na areia. o sangue de seus dedos rasgados pelos espinhos misturava-se ao tecido. viam-se fragmentos de pedra. pois o chão era muito desigual e traiçoeiro para os pés. com ele ali. Assim que saímos da trilha e começamos a fazer a volta em torno da árvore. O próprio chão era areia. ao que pensei. Movimentaram-se em massa. a um arrastão de água encapelada.

Volte para lá e monte o cavalinho — ordenei. — Nunca dá oportunidade a ninguém. em cima de uma faixa da vegetação espinhosa. — Eu continuo. Procurei sair da sela e o consegui. Não esperei para ver o que ele fazia. Ele voltou-se para mim. sair girando. ao mesmo tempo. escolhendo o caminho o melhor que pudesse no terreno difícil. — Se não obedecer. Caí de pé. — Volte e monte o Dobbin! — ordenei. na cabeça predominava a tendência a flutuar indolentemente e subir. — . a cabeça flutuando. Minhas pernas estavam bambas e eu tinha a sensação terrível e desconjuntada de vacuidade nas tripas.Não. — Você nunca me dá uma oportunidade! — gritou. tentando apenas apressar-me sem correr. mas apenas mediante esforços máximos é que não tombei de cara no chão. amasso-lhe o focinho. Com tudo isso. arquejante. Consegui ficar em pé. não havia dúvidas de que me odiava. as tripas vazias. O rosto estava contraído. consegui seguir em frente em passo bastante rápido e. corri à frente e agarrei Tuck pelo ombro. daqui em diante. como Tuck fizera. as pernas bambas. notar a marcha daquela coberta fluida de lodo cinzento que saía da árvore tombada. mas foi um movimento pesadão e de maneira nenhuma alguém poderia chamá-lo de desmontada no sentido clássico. não vai — atalhei. Fica com toda ela para si. com lágrimas de raiva nos olhos. mas segui em frente.

Errei no cálculo. as criaturas na dianteira da massa nos alcançariam. enquanto cruzávamos sua frente. poderíamos correr.Aquilo se movia com velocidade quase igual à nossa e marchava no que um militar. e perderíamos muito tempo. Podíamos sair um pouco fora do desvio. No jeito como íamos. dava para ver que. achei que íamos alcançar nosso ponto de cruzamento antes que eles chegassem. entretanto. livres deles. provavelmente. sem cair. Olhei para trás e vi que os outros prosseguiam. Se viessem revelar-se por demais perigosos. Tentei acelerar um pouco a marcha e quase me esparramei no chão. de modo que resolvi prosseguir com a rapidez que fosse possível. a oportunidade de deixar. enfrentaríamos qualquer perigo. não escaparíamos dela. a horda ululante que se esbatia no chão. naturalmente. a orla daquele grande tapete que se sacudia a nos bater no lado. tornou-se mais agudo — era um lamento sem fim. O ruído feito pelas criaturas. meios de calcular antecipadamente que perigo podiam representar. Mas a possibilidade não era garantida. assim. à medida que a distância diminuía entre nós. passaríamos apenas de raspão na orla externa deles. mas escaparíamos da torrente principal. e ter. chamaria de linha interna. e eles vieram rolando até nós. . por mais que fizéssemos. Não havia. Íamos esbarrar na orla externa da coisa. mas a arma de balística que Sara trazia era tudo que nos restava. bem próximos de mim. Por momentos. e que passaríamos por ali. como o choro de almas penadas. à distância. Se a carabina de laser não estivesse inutilizada.

mais ou menos. Nem todos gritavam a mesma coisa. talvez. a vocês. sabia-se por que estavam gritando. naturalmente. não tendo mais de um palmo de altura. saltitantes e destituídas pretendiam dizer-nos — sabendo. Com que direito tiraram esse pouquinho de nós. Não conhecemos outro lugar. vazio. acredito. e que nos fita com expressão lamentável. mas sobre o mesmo assunto. nem tudo vinha junto. Estamos sem lar. gritavam em muitas línguas. vocês. nem estava ligado. que não podemos conhecer. que nos jogam a um mundo que não queremos. tinham uma imitação de rostos humanos — o tipo de rosto ridículo. mas dentro de nossa cabeça esse som de lamento transformava-se em palavras. Queremos tão pouco. Vocês destruíram nosso lar. não era uma afirmação definitiva nem pergunta bem estruturada. Mas nos fragmentos dos gritos que martelavam nossos ouvidos. precisamos de tão pouco. Mas haverá ocasião em que será pedida uma resposta. e pareciam-se a caramujos sem casca. que nada . é claro. nós não temos onde ficar. a não ser que. e qual vai ser. e onde nem mesmo podemos viver? Não precisam responder-nos. Não era assim. ao invés de caras de caramujo. era o que essas criaturas lodosas. que têm tanto? Que tipo de criaturas são. aquele que encontramos em certos personagens de desenhos. o que será de nós? Estamos perdidos. e agora vocês tiraram esse pouquinho de nós. era o que significava. estamos com fome. estamos nus. Destruíram nosso lar. e era pavoroso.Eram pequenos. e agora seus lamentos transformavam-se em palavras — não em som verdadeiro de palavras. morreremos.

tão perversas que podíamos tirar-lhes o lar. E. eu me achei equacionando-os às fadas que. constrangidos a gritarem seus queixumes. o desespero e a pena. quer porque estivéssemos longe demais para ouvi-los ou porque eles haviam cessado. na infância. E não eram apenas as palavras que vinham em seus gritos. de tudo aquilo. todavia. a expressão daqueles milhares de caras comoventes que gritavam conosco — a angústia. a piedade era o mais difícil de agüentar. e finalmente recaíam em silêncio. sabendo que de nada mais adiantava prosseguir. Deus o sabe. mas querendo que compreendêssemos a enormidade completa do que lhes havíamos causado. Abrimos caminho em meio a eles. a fim de contrabalançar a culpa. embora aquelas coisas em lamúrias. crescendo por trás da casa. contra toda a lógica. Uma raiva embotada surgiu dentro de mim. sim. tinham-me contado que viviam em árvore antiga e majestosa. porém milhares de criaturinhas deploráveis que faziam da árvore seu lar. a sensação de estarem perdidos. deixando para trás seus lamentos que esmaeciam. sabendo talvez que jamais houvera um objetivo naquilo. a própria pena que sentiam por nós. e verifiquei que estava procurando . pelo simples ato de puxar o gatilho. as palavras ecoavam em meu cérebro e crescia o conhecimento de que. mas. criaturas tão vis e tão abandonadas. não se parecessem em absoluto a fadas.podíamos fazer por elas ou que não o quereríamos fazer. e prosseguimos. eu matara não apenas uma árvore. porém. Mesmo quando esses lamentos já não eram mais ouvidos. talvez.

até quando a utilizava comigo. fitamos o toco. parte esta fácil. poderia ter começado do lado oriental. Quando principiou a subida. e isso estava tão perto da justiça básica quanto alguém o poderia desejar. perguntava agora. não teria atravessado a trilha. mesmo sabendo. Se tivesse usado a cabeça. a orla superior e aguçada do toco da árvore quase não aparecia acima da elevação. ao cimo da elevação. E o toco era apenas isso. Tinha de reconhecer que agiria exatamente como fiz. depois baixara o laser. mas ao subirmos mais imponente se apresentou o toco. estivera voltado para o norte e visara o lado ocidental da árvore. embora grande. Desse modo. e começamos a escalá-la. A árvore tentara matar-me e eu a matara. havia um tapete . A árvore procurara matar-me. Chegamos. como nunca se pensa no modo melhor de fazer a coisa. na primeira vez em que realmente o víamos por inteiro. não fosse por Pio. por minha vez. De nada adiantava. até havê-la feito. fazendo com que a árvore caísse em direção ao oeste. todavia.justificar a derrubada da árvore. mas. Uma elevação aguçada erguia-se à frente. cortando o tronco em diagonal acentuada. e tê-lo-ia feito. se tivesse conhecimento do fato. dizia a mim próprio. e de onde nos achávamos. fazendo que a árvore caísse para o oriente. dizia agora a mim mesmo. Era um inferno. Mas tê-la-ia eu morto. Na ocasião em que eu usara o laser. em círculo bem traçado ao redor. pois podia ser enunciada em termos muito simples. afinal. Eu sabia reconhecer a mentira. se soubesse que era o lar de todas aquelas criaturas em lamento? Procurei dizer a mim mesmo que talvez não agisse assim.

Olhando para lá. seria agradável para uma soneca. Era esse o problema: parecia por demais convidativo e fresco. imaginando o que existia. ou procurara cultivar entre os planetas onde se estabelecera. quando deixavam tanta coisa para trás. Mesmo sem a árvore proporcionando a sombra. apenas isso. estender-se por completo nela. e Pio veio apressadamente pela encosta. Mas havia. sobre o cimo da elevação. mas agora o fazia. pareciase tanto aos gramados cuidadosamente tratados que a raça humana levara consigo e cultivava. estava pensando. — Não sei. Os cavalinhos estenderam-se em linha rala. a fim de dar bastante espaço à caixa circular de relvado. En- . Causava pena. pois podia ter dito que era um gramado. — O que foi. — Vamos tocar em frente — ordenei. parecia-se tanto a um lar. na arrumação bem cuidada de um gramado verde. E era estranho. de modo instintivo. em meio à selva vermelha e amarela. estendendo-se do toco um oásis de arrumação gramada. que não era um simples gramado. tinha-se a vontade de caminhar até a relva. ali. pondo-se a meu lado. encobrindo os olhos com o chapéu e passar uma tarde deliciosa. só de ver. Eu nunca havia pensado nisso antes. algo que me dizia. desci a elevação.verde. conhecido em demasia. que fazia os humanóides da Terra levarem o conceito ao espaço distante. pondo as mãos atrás da cabeça. Desviando-nos um pouco à esquerda. Eram dois quilômetros ou mais de diâmetro. Capitão? — perguntou Sara.

quanto andava. E. nada em absoluto. mais além do horizonte. Imaginei que a grama poderia enrolar-se como um tapete e por à mostra um poço infernal. sentado em Dobbin. continuou sendo um gramado. do qual sairiam pavores inenarráveis. vinda de lá. O gramado. envolto em manto marrom esfarrapado. pondo um pé à frente. medindo mentalmente a distância que diminuía devagar. todavia. terminava a tensão nervosa que me mantivera em pé. dando para um território ignoto. Agora que tínhamos passado pela árvore e voltáramos à trilha. Os cavalinhos estacaram. depois outro. até chegarmos à trilha. O toco imponente estendia-se ao céu. relaxei os nervos. mantinha o olho vivo para a direita. aquele artefato ridículo e semelhante a uma boneca agarrado ao peito. logo além dele via-se o volume enorme do tronco derrubado — o lar arruinado das formas pequeninas e saltitantes. Empenhei-me no esforço de caminhar. Lá estava. estenderam-se em fila e vi que Tuck me fitava com expressão de ódio que parecia claramente deslocada. sentei-me em uma pedra. Finalmente a alcançamos. um fio delgado e cheio de poeira que serpenteava pela paisagem castigada. Parecia-se a uma menina birrenta e grandona. lutando por permanecer ereto. um espantalho. outras árvores imponentes que se elevavam aos céus. e nada ocorreu. mas . atacando-nos. Eu estava pronto a ver alguma forma imensa e temível surgir. que haviam gritado em angústia para nós. Verifiquei que estava a ponto de cair. À frente apresentava-se a trilha.

não faria diferença. mesmo sabendo. mas calei. e não compreendia por que ele devia enfezar-se por causa da árvore. quando se via aquele rosto de machadinha. pois não compreendia em que ele pensava. para sair-se com palavras assim. naturalmente. Mas o rosto era a dificuldade. — O senhor. Ele fez um gesto com a mão. brilhando com o ódio. Cansadíssimo. capitão! Que realização magnífica! Toda uma comunidade exterminada! — Eu não sabia dela — asseverei. e era a verdade mais solene. disparando contra nós. — Você destruiu todas aquelas criaturas — disse ele. os olhos grandes e parecidos a poças de água. se se deixasse o rosto de fora. — Eu não o compreendo. não tinha a menor vontade de discutir. Ora essa. — Aquilo — explicou. a impressão de runa meninazinha esfarrapada cessava. Eu jamais compreendera aquele homem. Tuck — asseverei. — As que viviam na árvore. e podia acrescentar que. ela disparara também contra ele. Se ele enfiasse o polegar na boca e começasse a chupá-lo. deve estar cheio de si. o mesmo que contra nós. — Você. Pense nisso. acha que eu devia deixá-la por lá. acho que nunca o conseguiria. — Muito bem? — interpelou ele. com sua boca de ratoeira mordendo as palavras pronunciadas —. quase tão marrom quanto o manto. o quadro estaria completo. na direção da árvore derrubada. ao que presumo — disse ele.com estranha sofreguidão. — Não tem mais nada a dizer? .

mesmo para um palerma como Tuck. do que antes. quando me adiantei para montar. — Um homem não pode tomar um planeta — asseverou Tuck. mas foi o bastante para agarrá-lo no braço e atirá-lo de mim. — Mas força a todos — retorquiu o falso Frei. agora? — perguntei. Devia ter sido humilhante. O ódio continuava na dele. Eu estava pronto a ficar por aquilo mesmo.Dei de ombros. Tuck. — Tuck. por muito tempo. — Obriga a fazerem o que quer. você quer ir na frente. Não me restavam muitas forças. ao que pareceu. Não pode abrir caminho forçando as coisas. Mdiante esforço. quase em cochicho: — Durarei mais tempo que você. Seus lábios finos mal se moveram e ele disse. — Ele não estava obrigando. quando tomou seu lugar. defrontamo-nos cara a cara. desabafara. dando-lhe o direito de desforrar-se de mim. se assim se sentisse melhor. Este planeta vai dar-lhe o que andou pedindo por toda a vida. — Falta de sorte. Estarei vivo. — É a si próprio quem mais ele obriga — observou Sara. Dissera o que tinha a dizer. — Preciso montar um pouco. ódio mais terrível. Ele não podia saber. — Ele tem de seguir de acordo com o planeta. a deles — proclamei. Tuck. Ross. pois ele já fizera suas queixas. quando eu tirara o comando dele. enquanto você tiver sido um defunto. Você não acertava o caminho. levantei-me da pedra e me pus em pé. Sara interveio. esparramando-o na . Ele desceu de Dobbin e. precisa adaptar-se. — Deixe-o em paz.

trilha empoeirada. Ele deixou cair a boneca e rastejou a fim de apanhá-la. Suspendi-me à sela, prendendo-me ali para não cair. — Agora, siga em frente — ordenei. — E, que Deus me ajude, se você fizer mais alguma coisa estúpida, desço daqui e o transformo em uma massa de carne. A trilha dava a volta pela terra árida, atravessando planícies de areia e pequenas poças de lama estalada e seca, onde meses ou semanas, talvez anos antes, se juntara água de chuva. Subia por orlas desiguais e estilhaçadas, fazendo a volta em torno de formações grotescas. Prosseguia em volta de morros isolados, na forma de abóbadas. A terra continuava vermelha e amarela, às vezes negra, onde ressaltos de pedra vulcânica vidrada afloravam ao chão. Muito à frente, sendo vista às vezes e de outras desaparecendo no azul do horizonte, apresentava-se uma mancha púrpura que eu julgava serem montanhas, mas não podia ter certeza. A vegetação continuava esparsa — pequenos arbustos que quase se agarravam ao chão, espinheiros correndo ao longo da superfície. O sol reluzia no céu sem nuvens, mas não era quente, apenas agradavelmente cálido. O sol, tinha a certeza, era menor e mais fraco que o da Terra, — era isso, ou o planeta ficava a distância maior dele. Em algumas das elevações mais altas havia casas de pedras, pequenas, e na forma de cones, ou pelo menos estruturas que se assemelhavam a tanto. Como se alguém ou alguma coisa houvesse precisado de abrigo ou proteção temporária, juntando lajes de pedra, que se apresentavam ali nas

elevações, constituindo assim uma defesa frágil. As pedras eram colocadas umas em cima das outras, sem qualquer argamassa, amontoadas. Algumas dessas construções continuavam em grande parte como seus construtores haviam deixado, em muitas outras as pedras haviam caído e, em outras ainda tudo aquilo caíra e se apresentava em montes desordenados. E havia as árvores. Elas se estendiam em todas as direções, cada qual sozinha e senhorial em sua solidão, cada qual a quilômetros das outras. Afastamo-nos de todas elas. Não se via vida, ou ninguém que se apresentasse. A terra se estendia sem fim, imóvel e parada. Inexistia qualquer vento. Usei ambas as mãos para segurar-me à sela e, de modo constante, lutei contra a queda na escuridão que se avizinhava de mim cada vez que me esquecia de repeli-la. — Está bem? — perguntou Sara. Não me lembro de ter respondido, pois continuava ocupado, agarrando-me à sela e rechaçando a escuridão. Paramos ao meio-dia. Não me lembro de ter comido, embora seja possível que o tenha feito. De uma coisa, entretanto, me recordo: havíamos feito parada em deserto áspero por baixo de uma das elevações e eu me escorara em uma parede de terra, de modo que fitava outra parede de terra, tendo observado que esta tinha estratificação diferente, com diversas camadas de espessura desigual, algumas com pouca profundidade, enquanto outras eram de quatro ou cinco palmos, cada qual de cor distinta. Ao olhar para aquelas camadas, comecei a perceber o tempo que cada uma representava. Tentei desviar a percepção, pois tal

reconhecimento se ligava a uma sensação das mais inquietantes, como se estivesse estendendo todas as faculdades a um ponto de rompimento, como se estivesse usando toda a energia e vigor para me aprofundar nessa sensação de tempo invocada pela parede de terra. Mas não havia como desligar; por algum motivo, estava preso àquilo e tinha de continuar, podia apenas contar que em algum ponto do caminho alcançaria a parada — quer um ponto do qual não poderia mais prosseguir, ou onde aprendesse ou percebesse tudo o que havia a ser aprendido ou percebido. O tempo tornou-se real, para mim, de modo que não posso exprimir em palavras. Ao invés de um conceito, tornou-se coisa material que eu podia distinguir (embora não fosse por vê-lo, nem por senti-lo) e compreender. Os anos e as eras imensas não se apresentavam em desfile para mim. Ao invés, apresentavam-se revelados. Era com se um mapa cronológico se houvesse tornado vivo e sólido. Graças às linhas onduladas da estrutura do tempo, como se a estrutura fosse um painel de vidro feito sem perícia, dava para entrever de leve o planeta, com fora nas idades passadas — idades que já não estavam no passado, mas surgiam agora no presente, como se eu estivesse fora do tempo e independente do tempo, pudesse ver e avaliá-lo exatamente como poderia ver e avaliar qualquer estrutura material coexistente comigo, em meu próprio nível de tempo. Lembro-me, em seguida, de despertar e, por momentos, pareceu-me que estava despertando daquele intervalo em que vira o tempo estender-se à frente, mas nesse lapso percebi que não podia ser assim, pois os desertos haviam

desaparecido, anoitecera e eu me achava deitado de costas, tendo os travesseiros por baixo e outro a me cobrir. Olhei diretamente o céu, notei que era um céu diferente de qualquer outro que vira até então. Por momentos, fiquei intrigado e permaneci sossegado, tentando decifrar a charada. E então, como se alguém me houvesse contado (embora ninguém o fizesse), soube que estava olhando para a galáxia, estendida à frente. Quase diretamente por cima via-se o brilho da região central e, em volta, estendendo-se em torno, com um rodamoinho de gases, estavam os braços e os setores externos. Voltei a cabeça para o lado e ali e acolá, logo acima do horizonte, havia estrelas brilhantes, percebendo eu que estava vendo alguns dos enxames globulares ou, o que era mais provável, outras estrelas próximas, companheiras daquela em torno da qual estava o planeta em que me encontrava — aqueles membros banidos do sistema galáctico que, no correr das épocas passadas, haviam saído do sistema e agora se achavam na escuridão externa, na orla do espaço galáctico. Havia uma fogueira acesa — quase apagada — a poucos palmos de mim, e uma figura acocorada e envolta em cobertor logo ao lado. Pouco além da fogueira viam-se os cavalinhos agrupados, oscilando suavemente da frente para trás, com a luz fraca da fogueira a refletir-se em suas cascas polidas. Alguém tocou em meu ombro e eu me voltei para ver quem era. Sara se ajoelhara a meu lado. — Como se sente? — perguntou.

Ótimo — respondi, e era a verdade. De algum modo, sentia-me novo, completo, e minha cabeça e pensamentos estavam claros, com uma clareza que ecoava e assustava — como se fosse o primeiro ser humano a despertar para o primeiro dia de um mundo novíssimo, como se o tempo houvesse voltado atrás à primeira hora existente. Sentei-me, o cobertor que me cobria caiu. — Onde estamos? — perguntei. — A um dia de viagem da cidade — contou-me ela. — Tuck queria parar. Ele disse que você não estava em condições de viajar, mas insisti em prosseguirmos. Achei que você quereria ir assim. Sacudi a cabeça perplexo. — Não me lembro de coisa alguma. Tem certeza de que Tuck disse que devíamos parar? Ela assentiu, aduzindo: — Você permaneceu na sela, agarrado, e muitíssimo doente, mas respondia quando lhe falávamos. E não havia onde pararmos, nenhum ponto bom de acampamento. — Onde está o Pio? — De guarda. Rondando. Diz que não precisa dormir. Levantei-me e espreguicei-me, como um cachorro se espreguiça após dormir toda a noite. Sentia-me muito bem. Meu Deus, como me sentia bem! — Há alguma coisa para comer? — perguntei. Ela se pôs em pé, riu. — De que está rindo? — perguntei. — De você — disse ela.

Fiz gesto na direção deles. Estremeci. — Ainda tenho a carabina — ela fez ver. Era a única solução. — Foi aquele Pio dos infernos — expliquei. — Muita sorte nossa. Teve de fazê-lo. Preocupei-me por sua causa. — Como as minhas — concordou. — Ele tirou-me o sangue. Todos nós nos preocupamos. — Acenda mais — pediu. já estávamos com problemas mais do que suficientes. — Inacreditável — proclamei. — Como as suas — comentei. pus alguns no fogo e as chamas se ergueram. — Sinto muito. tirados de alguma árvore no deserto. — O próprio Pio — observou ela — é inacreditável. Acocorei-me. — E pensar que quase o deixei lá. — É uma arma potente. lambendo a lenha nova. Ao lado da fogueira havia um pequeno monte de lenha. — Vou preparar alguma comida para você. o monte de cobertores continuava imóvel... contarmos com ele — observei. ramos retorcidos. Explicou-me tudo. Ela foi à minha frente.De mim? — Porque está bem. por causa do laser — disse eu. Além da fogueira. só de pensar. — Já sei. até a fogueira. — Sem ele. estamos mais ou menos nus. — . Em boas mãos. sem precisar de outros. nas dunas! Queria deixá-lo.

E elas não se acham em qualquer lugar. Foram plantadas. agora. tivesse menos motivos para viver — que. que você não sabe. que George desapareceria. oferecendo proteção? Mas recordava que Tuck havia-se apoderado da boneca antes do desaparecimento de George. — Assim com se planta um pomar? — . entretanto. Por estranho que parecesse. ele perdera pelo menos parte dos motivos para continuar vivo. não. Acampamos na beira de um morro. — Nós dois venceremos — asseverou ela. Por certo não demonstrara surpresa. assim que surgir o dia. perguntava a mim mesmo. Nós somos muito parecidos. Já pensou nisso? — Sim. pensei — respondi. Vai ver por conta própria. tenho a certeza. — Não tem paciência com o homem. Isso. talvez não se aplicasse em absoluto. — Deve haver outra coisa — prosseguiu Sara —. desde o desaparecimento de Smith. Fora este o motivo.Como vai o Tuck? — perguntei. É a respeito das árvores. abaixando. muitas árvores. — Algum sinal de que tenha acordado? — Você é duro demais com ele — observou-me. Ele é diferente. colocou-a nos carvões. pois ele podia ter sabido. talvez vinte ou trinta. — O Tuck. eu comecei a pensar que talvez Tuck. pelo qual se apossara da boneca? Precisaria ter alguma coisa a que se pudesse agarrar. Ele vai acabar em algum ponto da marcha. não é como nós dois. e que se agarrasse a ele. e lá de cima dá para ver muita terra. ou ao menos desconfiado. Ela trouxe a frigideira. quando tal ocorrera.-se a meu lado.

em movimento rápido. embora não fosse muita. observamos tipos de vida inacreditavelmente deformados. agora. Havia coisas que grasnavam e subiam correndo os altos dos morros. há tempo. Alguém. divulgou-se de modo iniludível uma cordilheira ao longe. era pouco o vento.Exatamente — confirmou. A julgar pela aparência do território. mas percorrendo muito terreno. teve um pomar aqui. À nossa frente. e viajávamos do amanhecer até a luz do sol abater-se. mesmo com os binóculos. havia dias em que subíamos com esforço as montanhas. tão distantes que. descíamos para terreno desértico retorcido. Prosseguimos. tagarelando em animação. nos que vimos. e desciam com rapidez pelos barrancos coloridos. lançando-se à frente com pernadas largas. E nas planícies ressecadas os zunidores — — . — Como um pomar. ainda apurpurada pela distância. O terreno às vezes mudava. sem parecerem estar com movimento ligeiro. que pareciam estar caminhando sobre ondas. Havia os que chamávamos de "passos largos" raramente vistos e sempre longe. nunca os podíamos examinar bem. mas. Encontrava-se vida. Foram plantadas em uma espécie de tabuleiro de damas. no que fora de início uma nuvem púrpura. O tempo continuava o mesmo. Dia vinha após outro. prosseguimos sempre. era rara a chuva por ali. Cada árvore está à mesma distância das outras. havia outros em que viajávamos por terra tão lisa que parecíamos estar no centro de uma tigela côncava — ou prato raso — com os horizontes erguendo-se para todos os lados. baixa no horizonte. Não havia chuva. quando atravessávamos os desertos.

zumbido que passava por nós. Eram uma mancha que vinha em nossa direção. sem a menor dúvida. movendo-se com tanta rapidez que não conseguíamos ver o que realmente eram. em regiões desérticas. árvores contorcidas prendiam-se às encostas de morros. ou como se movimentavam. embora não fossem palmeiras. A trilha parecia feita de modo a evitá-las. juntamos tantos galhos caídos quanto os cavalinhos podiam carregar. nunca nos importunavam. formando traçado geométrico sobre o solo. Sabíamos agora.animais (se eram) do tamanho de lobos. relvas encaracoladas e estranhas cresciam e. os grandes monstros que se estendiam quilômetros e mais quilômetros para o céu. nunca dispararam contra nós. Mesmo se aproximando. passando de um tipo a outro. que um levantamento fora feito daquela terra e que estavam dispostas em pomares. às vezes. E embora. amontoavam-se nos barrancos. A vegetação também se transformava. Pareciam-se mais a palmeiras do que pinheiros. a fim de servirem de lenha nas fogueiras de acampamento. que tinham sido plantadas. e tampouco os grasnadores ou os "passos largos". E sempre havia as árvores. Sua madeira era inacreditavelmente dura e oleosa. Em algumas das planícies. Não nos aproximávamos .mais do que um ou dois quilômetros de qualquer delas. . outra mancha enquanto se afastavam. e quando passamos por regiões onde existiam. nós as víssemos disparando as vagens de sementes.

— Eles não sabem. a recíproca era verdadeira. a fim de depositá-las. Mas a viagem. Se estas queriam deixar-nos em paz. seguindo reta e sem uma só curva. de outras mais larga e bem marcada como se. Às vezes. Não encontramos viv'alma. tornando-se esmaecida às vezes. incriminando-me mais uma vez por ter deixado a nave sem voltar à sala de controle para apanhar mais uma arma laser e o estojo de conserto para a mesma. sem dúvida. dava para ver muito ao longe. quase em ângulo reto. Nunca procuramos investigar esses poços. víamos enxames das pequeninas criaturas parecidas a ratos. partes dela houvessem recebido mais tráfego do que outras. entretanto. não podia ser difícil.É quase como se houvessem aprendido a lição — observou Sara. de qualquer modo. é claro — comentou ela. — . estavam demasiadamente próximos das árvores. Eu. — Como se soubessem o que poderiam esperar. Os poucos que ali estavam achavam. em qualquer das direções. saindo de tocas a alguma distância das árvores. juntando as sementes das vagens atiradas. — Só que não aconteceria agora — fi-la recordar. olhando por binóculos. eram poços ocultos. não tinha tanta certeza. se disparassem contra nós. Certo dia. na faixa marcada pela estrada. A trilha continuava.se estraçalhados ou postos fora do lugar. pelo que fora antes estrada pavimentada. levando-as para o que. chegamos a um cruzamento na trilha. mas de pé no ponto onde cruzava a trilha. tendo apenas alguns dos blocos de pavimentação no lugar. em algum tempo no passado.

portanto. a fim de garantirem que qualquer um. Em alguns lugares onde fora apertada pelos acidentes geográficos. Com alguma relutância chegamos à decisão. o que estávamos informados. teria ligado pontos de alguma importância. agora. os que haviam gasto tal tempo e energia tinham-se ausentado. a trilha. vazia. que fora a rota de viagem em épocas além de qualquer percepção. antes de partirem. sem dúvida alguma. A estrada seguia de leste para oeste. apresentava-se silenciosa. Em seguida. Em épocas idas. A prova. E a trilha inclinava-se para uma direção setentrional. fizera a estrada e plantara as árvores. tomando medidas. do modo mais aleatório. O que significaria. formada parte de lógica. Se pousasse em outro . Mas a cidade. a estrada se mostrava atraente. era mais antiga do que a estrada. de alguns modos parecia mais importante do que a trilha por nós seguida até então. pousado no planeta. era para o norte. exibia ar antiquíssimo. não teria possibilidade de sair. enquanto a trilha seguia serpenteando pela terra. Mas a trilha indicava alguns sinais de viagem antiga. Grande medida de tempo e energia tinha sido gasta naquele planeta. eu imaginava. fora cortada à profundidade de três a quatro palmos no solo. Existia apenas porque não decorrera tempo suficiente para apagá-la da paisagem. Outro pormenor. parte por palpite. era de que tinha sido usada por muitos milênios. A estrada não exibia qualquer um deles. não podendo assim divagar. que podíamos encontrar os centauros. a estrada entrara em ruínas. De algum modo.Efetuamos uma conferência. Prosseguimos na trilha. Alguém estivera ali — quanto tempo antes? Alguém que construíra a cidade.

voltamos à forma. Tuck e eu nos demos mais ou menos. sem discutirmos. davam a impressão de bolor. já não tentávamos conversar com eles. detritos. não tinham sido usadas em qualquer momento como residências permanentes. Após a refeição noturna. Encontravam-se ainda. ia sentar-se sozinho. Não que chegara a qualquer acordo verbal a esse respeito. Enquanto viajávamos. iria. Não havia restos. impelindo os cavalinhos. jamais as usamos. a nave com certeza estaria a salvo e poderia decolar novamente. controlando a retaguarda. A respeito de toda a sua simplicidade. Mas qualquer nave ao se aproximar do planeta. tal ordem veio naturalmente. pousar na cidade. nada que houvesse sido deixado. acocoradas nos cimos de morros. Ao que parecia. usados como abrigo por uma ou duas noites. . quase com certeza. apenas nos dávamos. Não passamos a gostar um do outro. as casas-colméias de pedras. Sara e eu nos revezávamos na sela. Ele continuava carregando sua ridícula boneca. apenas. lugares de parada. afastava-se de nós. sem falar e sem observar o que se passava. Acampávamos no terreno aberto. Tuck cavalgava a maior parte do tempo. retirando-se cada vez mais para o interior de si próprio. ao longo da trilha e a intervalos. bem presa ao peito. depois de algum tempo. Os cavalinhos continuavam taciturnos e. Era desajeitado e bamboleante demais para caminhar.lugar que não a cidade. Pio continuou a ser o fecha-coluna. Dia após dia. Examiná-las nada revelou. atraída pelos sinais recebidos desde o espaço distante. eram.

fizemos alto. Corriam com rapidez. Marchávamos cada vez mais para uma terra desconhecida. espalhando o fogo aceso e as panelas e frigideiras que Sara preparara. Deixamos cair a madeira e partimos com rapidez para o acampamento. sem parar um só instante. chegamos a uma região desértica e quando havíamos percorrido certa extensão dela. quando ouvimos o grito assustado dos cavalinhos e o clangor de seus balancins em disparada. compreendemos que era uma das piores. enquanto Tuck e eu subimos uma elevação para trazer lenha. passaram pelo acampamento. Estávamos de volta. cada qual com uma braçada de madeira. os cavalinhos surgiam em frenesi de um barranco estreito. Assim que os vimos. e eles saíram por ali. . para salvar a vida. Ao correr dos dias em que tínhamos marchado. chegados a local mais ou menos nivelado. No final de certa tarde.Estávamos percorrendo grandes distâncias. mas não parecíamos chegar a lugar algum. estávamos a salvo com ele. que não era hostil até então. embora ainda nos restasse uma ou duas horas de luz do sol. o que faziam com freqüência. como se aproveitassem a oportunidade para se verem livres de nós por algum tempo. Mas não havia perigo. obrigando-a a sair da frente». Assim sendo. Tiramos a carga dos cavalinhos e a amontoamos em uma pilha. mas talvez pudesse vir a sê-lo a qualquer instante. ele servira de cão pastor para aquela matilha de cavalinhos. Acendemos uma fogueira e Sara começou a preparar a refeição. Pio sempre ia com eles. e um tanto maior do que tínhamos imaginado de início. sempre os trazia de volta.

Saíam dali em debandada. Em pé. A fogueira continuava espalhada. mas voltaram-se para a direita. estacando. Sara se ajoelhara no chão. subi o morro. e depois desci o morro. Era pouco mais do que uma mancha escura. que se encontrava deitado de lado. Exibia ar nebuloso e . Dessa feita eles desapareceram. um fantasma do que fora antes. e também desenvolvia velocidade.Os cavalinhos nem mesmo hesitaram. a fim de tomarem a trilha. continuaram na fuga e Pio brilhou outra vez. com pedaços de madeira queimada e fumegante por todos os lados. chegando ao acampamento. ele brilhou — como o fizera. girando no ar. até que estivessem quase sumidos. ficando de lado. Praguejando como louco. mas chegado ao campo ele deslizou. por aquilo que Pio lhes fazia. no encalço dos cavalinhos. exatamente quando chegavam ao cimo da elevação que se erguia acima do acampamento. o único modo em que podia correr. percebi que não havia meios de fazê-los parar. ali. revirados e jogados sobre o morro. voltavam para a cidade. voltei ao acampamento. Atrás deles vinha Pio. E não uso força de expressão — ele era um fantasma do eu anterior. e na trilha os cavalinhos saíram em vôo. por cima de Pio. Fiquei a observá-los. quando os cavalinhos haviam desencadeado um ataque repentino. Um brilho azul o envolveu. firme nos pés minúsculos. Estava correndo bem perto do chão. na cidade. mas quando cheguei ao cimo os cavalinhos já estavam bem distantes. o mundo fez uma espécie de dança engraçada. e girou. duas panelas amassadas pelos balancins dos cavalinhos. Mas voltaram aos balancins mais uma vez.

arrebatou-me Pio dos braços. Ergui-o e era muito leve. — Você precisa de toda a vida que tem. Endireitou o corpo. Corri à frente e ajoelhei-me a seu lado. e vi que havia lágrimas correndo por seu rosto. havia — eu teria jurado que não. — De vida preciso — disse. eu me esforço tanto. — Você não. enquanto o fazia. imaginei se havia algo que eu pudesse apanhar. E. o rosto era só tristeza e compaixão. capitão! — gritou. e ficasse entre este mundo e o outro. debilmente. pelo menos daquela vez. inclinouse. . deixara de lado a boneca.semi-substancial. como segurara a boneca. — Permissão? — perguntou Pio. eu olhei para Sara. Pio mexeu-se de leve. Tuck adiantou-se com rapidez. Estendi as mãos para erguê-lo e. Por estranho que fosse. — O que se passa com você? O que podemos fazer por você? Ele não respondeu. segurando Pio bem junto a si. Pio? — gritei para ele. Abracei-o com força. os olhos a me fuzilarem. em cochicho fantasmagórico. — Mike. — Permissão para tirar alguma vida de vocês. — O que se passa. Mike! Tuck estava pouco atrás e. não podia estar pesando mais de metade do peso de antes. Eu tenho vida para dar. a essas palavras. — Oh. Ele piou para mim. — Oh. como se houvesse tentado ir a algum lugar. a voz tão fraca que quase não dava para entender. sem conseguir. Mike — disse ela.

por sua vez. prossiga. — Ossos era tudo para ver. estava a boneca caída. na escuridão que aumentava. Ela estendeu cobertores no chão e eu o estendi ali. — Obrigado. Nenhum de nós se mexeu. Nada mais à vista. — Cobertores. — Por favor. agarrando-a. capitão — disse. Ele abriu os olhos e sorriu para mim. Tuck o colocou em pé. Vagarosamente Pio perdeu o aspecto insubstancial e voltou a ser o que era — voltou de aquele outro mundo para o qual estivera destinado. acocorados no chão. senti que meus músculos doíam por falta de movimento. — Você tem certeza? — perguntei. e. Estávamos acampados em volta da fogueira. Inclinando-se. — Não podia ser outra coisa? Por que os cavalinhos haveriam de sentir tanto medo de ossos? — Tenho certeza — afiançou Pio. — Ossos sobre o chão. — Depressa — disse a Sara. apanhei Tuck. prossiga — respondeu Tuck. Deitada no chão. Uma das mãos de Tuck seguiu devagar até lá. endireitei-lhe o corpo. Eu saltei. Sara e eu. apanhei outro cobertor e o ajeitei em volta de Tuck. afinal. a poucos palmos de distância. talvez alguns segundos. — Ossos — disse Pio. mas o tempo pareceu estender-se por horas inteiras.Sim. — . Era um corpo mole em meus braços. Aquilo durou apenas alguns minutos. Apanhei-a. caiu em colapso. coloquei-a em seu peito. observávamos fascinados.

entretanto. irrompendo de vez em quando em torrentes de gritos aloucados. de volta à grande cidade branca. — Capitão — atalhou Sara —. Em algum ponto. quando novo pedaço de madeira oleosa se incendiou e o vento que vinha da elevação era um pouco cortante. adormeceu. Pio e e u . se pudéssemos. sem sabermos ao menos para onde íamos. que não era azado o momento para examinar a questão. O fogo crepitou. — Logo estará bem — disse Sara. um bando de grasnadores conversava. Afinal de contas. . Largados no centro da terra selvagem e uivante. a trilha sinuosa sendo a orientação única e o único lugar para onde fugir. mesmo morta. examinaríamos a questão e resolveríamos que rumo tomar. Devia ter sido eu. — Agora. Foi a mim que Pio pediu. já pensou que foi esta a primeira oportunidade de Tuck para fazer alguma contribuição? Ele deve ter-se sentido membro bastante inútil da expedição. — Eu sou guloso — disse. que. Pio apontou um tentáculo para o monte de cobertores. — . — Por que o imbecil o fez? Eu estava pronto. a seu modo. — O esqueleto de alguma coisa que eles receiam. — Mas por que? — interpelei. . O senhor fez o possível para levá-lo a pensar assim. Ele tem menos do que eu imaginava. — Eu tirei muito dele. na amplidão dos desertos. era uma selva tão uivante quanto aquela. no início do novo dia.Talvez certos tipos de ossos — disse Sara. — pensava eu. De manhã. E ali estávamos. Percebi. Tomou uma tigela de caldo.

A maior parte do que podemos carregar terá de ser água. — Eu estava pronto para enfrentá-los.. não aprovava o que eu fazia. caso voltassem. Abandonar-nosiam em um minuto. É levar um grupo de visitantes a algum lugar abandonado e deixá-los ali. em volta desta fogueira. — De nada adianta pensar no que ele queria dizer. — A nós. O que queria dizer com isso? — Não sei — afiançou Sara. Ficamos a pé. Não que adiantasse grande coisa. e sem qualquer aprovação — mas isso não era novidade. teremos de deixar muito material para trás.Vamos examinar a questão de frente — propus. não. tinha sido um inútil. — Por surpresa eles me pegaram — disse Pio. — Estavam esperando a oportunidade desde que saímos da cidade. De modo geral. Acertei-os uma vez e outra. — Ocorreu-me o pensamento horrível — disse Sara — de que seja esse o processo comum que empregam. — . Seja lá como for. Temos é que nos preocupar com o que vamos fazer agora. talvez. se não fosse pelo Pio. Ela fitou-me com aspereza. Foi quem os manteve conosco. e não adiantou. O que me amola foi o que ele disse. — A outros. — E o senhor lamenta a oportunidade que ele teve agora? — Não — respondi. claro que não lamento. — Até o momento em que ele fez isso por Pio. Disse que tinha vida para dar.. A menos que os cavalinhos voltem. — Não. com poucas possibilidades de regressarem. — Não voltarão — afirmei. A água é o problema. A nós. mas não estas pessoas aqui. não — retorqui.

Achamos os ossos a cerca de um quilômetro. — O senhor pensa em tudo. brilhando sobre a cor castanha de lama no solo mas. havia um monte de ossos. — Procurando coragem — esclareci. Vamos conversar de manhã. — De manhã — disse Sara —. dizia a mim próprio — aquelas faixas estéreis e desoladas de terras castigadas. e . grande — . Estava. . Eram aquelas terras abandonadas. — A senhorita não faz idéia de quanta coragem se consegue. .Não tenho certeza se o senhor está procurando divertir-se comigo. dessa maneira. em repentina eclosão de genialidade. tornando-se parte dela. Ele dava uma volta fechada para a esquerda e. Elas tiravam a coragem do homem. na primeira vez em minha vida. em minha vida. O horrível da coisa era que eu realmente queria que esperássemos o amanhecer. quando a fizemos. ao invés. sem capacidade de tomar decisões. tão desesperançado e desinteressado quanto se podia imaginar. — Oh — intervim —. Eu contara achar alguns ossos espalhados. lá os encontramos. às vezes. vamos ver os ossos de Pio. E vai revelar-nos o que pensa. prostravam-no. Dava para alguém sentir-se quase em fusão com a paisagem. que relutava em encontrar o que enfrentava. — Suponho que saiba exatamente o que fazer — contrapôs ela. Era a primeira vez. ou procurando coragem — comentou. descendo o barranco. faziam dele uma coisa tão abandonada e incapaz quanto a própria terra infernal. pare com isso. nunca entra em pânico. árvores retorcidas. Já esteve em embrulhadas antes.

fileira deles, estendendo-se de uma à outra parede do barranco. Eram ossos grandes, muitos deles com um palmo ou mais de diâmetro e o crânio sorridente, localizado de tal modo no monte que parecia estar a nos examinar, no tamanho de um elefante ou maior. Estavam amarelados e desmanchando-se, porosos, onde o sol e o tempo haviam lavado o cálcio. Embora arrumados quase todos em fileiras, alguns se achavam espalhados nas beiras da mesma, provavelmente remexidos pelos animais que, em dia há muito passado, ali haviam estado em comilança. Além dos ossos, o barranco terminava abruptamente. As paredes de terra, com pedras que iam do tamanho do punho a outras bem maiores, apresentando-se como passas em um bolo, faziam semicírculo para fechar a depressão do terreno. Os ossos se achavam a cerca de quinze metros da extremidade do barranco e ao pé da muralha de terra que marcava seu fim encontrava-se grande amontoado de rochas que, em idades distantes, haviam caído do penhasco. O próprio barranco era bastante deprimente, em sua esterilidade terrena, solitário muito além de qualquer conceito de solidão. Dir-se-ia que, como se apresentava, aquele local não podia ser mais solitário ou estéril, mas isso teria sido errado, pois os ossos aduziam mais um fator de dimensão, levando-o a ponto de solidão horrível que parecia além do que a mente humana poderia suportar. Eu me sentia inquieto e quase doente — e é preciso muita coisa para me levar a tanto. Havia a sensação de que se devia fugir daquele lugar, de algo que acontecera ali muito antes e

lançara sobre o local uma aura de malignidade e horror a que ninguém devia submeter-se. E, desse conjunto, veio-nos uma voz. — Graciosos senhores ou madamas — dizia, esganiçada, alta e alegre —, ou o que quer que possam ser, tende piedade de mim, tirando-me desta posição embaraçosa e sem jeito, na qual tenho estado por muito tempo. Ainda que me pagassem uma soma fantástica, não conseguiria mexer-me. A voz me pregara naquele lugar, deixarame estupefato. Ela voltou a se manifestar. — Contra a parede — disse. — Atrás das rochas amontoadas que, sem dúvida, revelaram-se fortaleza tão fraca que matou a todos, menos a mim. — Pode ser armadilha — disse Sara, com voz dura e metálica que parecia estranha nos seus lábios. — Os cavalinhos talvez tenham percebido isso. Talvez seja o motivo pelo qual fugiram. — Por favor — suplicava a voz esganiçada. — Por favor, não vão embora. Houve outros, e eles se foram. Nada existe aqui que possa assustá-los. Adiantei-me um ou dois passos. — Capitão, pare! — gritou Sara. — Não podemos ir embora — respondi. — Estaríamos sempre imaginando... Não era o que eu pretendera dizer ou quisera fazer. Tudo quanto desejava era dar a volta e sair correndo. Era como se outra pessoa, algum tipo de segunda pessoa, um substituto meu, houvesse falado.

Por todo o tempo, entretanto, eu me adiantava, e chegado à pilha de ossos comecei a subir por eles. Constituíam chão incerto e cediam a meus passos, movimentavam-se, mas passei por cima, cheguei ao outro lado. — Oh, criatura das mais nobres! — gritou a voz esganiçada. — Você veio à salvação solidária de mim, que sou tão indigno. Corri no espaço entre os ossos e pedras, subi a pilha de rochas de onde parecia vir a voz. Eram rochas de bom tamanho, maiores do que um homem, e quando cheguei ao cimo das mesmas, olhando para baixo, vi o que estivera falando conosco. Era um cavalinho, sua brancura leitosa brilhando na sombra, caído de costas, os balancins estendendo-se no ar. Um de seus lados estava contra a pedra em que eu me achava, espremido com segurança por outra pedra menor que tinha sido deslocada da pilha. Preso entre essas duas massas de rocha, o cavalinho estava inteiramente indefeso. — Obrigado, bom senhor — esganiçava ele. — Você não foi embora. Vê-lo, sou incapaz, senhor, mas deduzo de outras indicações que são humanóides. Os humanóides são as melhores pessoas, cheias de compaixão e grande valor. Em gesto de gratidão, sacudia os balancins para mim. O cavalinho ali aprisionado não era a coisa única, por trás da barricada. Da terra, um crânio humanóide ria para mim, e notavam-se ossos e pedaços de metal enferrujado, espalhados por ali.

Há quantos anos? — perguntei ao cavalinho, e era tolice perguntar, pois havia indagações mais importantes, que devia ter feito. — Honrado senhor — disse ele —, perdi toda a noção do tempo. Os minutos se estendem como anos, os anos se assemelham a séculos e a mim parece que, desde que estive sobre os meus balancins, decorreu toda uma eternidade. Não se deve confiar em quem esteja virado ao contrário, para calcular o tempo decorrido. Existem outros de nós, mas fugiram. E outros ainda, mas morreram. Eu sou o único que restou, de toda essa nobre companhia. — Muito bem — declarei —, vamos com calma. Nós o tiraremos daí. — Ir com calma — esganiçou o cavalinho —, é algo que ocorre comigo, desde muito. O tempo que passei, com muitos pensamentos e fantasias, muitas esperanças, imaginações fantasiosas do que me aconteceria. Eu sabia que, afinal, as rochas apodreceriam, pois este material de que sou feito dura mais do que qualquer rocha. Mas contava que, antes disso, ocorresse outra intervenção, de pessoa tão bem intencionada quanto você. Os demais subiam a pilha de ossos, acenei para que viessem ter comigo. — Temos um cavalinho aqui! — gritei para eles. — E, pelo menos, um crânio humano, alguns ossos espalhados. Já enquanto lhes dizia isso, não pensava tanto sobre o que podia ter ocorrido ali, ou no motivo pelos quais seres humanos talvez ali morressem, mas em que, com o cavalinho por nós salvo, não mais estaríamos aprisionados

naquela faixa de deserto. O cavalinho poderia levar a água de que precisássemos, quer para continuar na trilha, ou voltarmos à cidade. Foi preciso a força de nós três, Pio de fora e a nos incentivar, para fazer rolar a rocha menor que prendia o cavalinho à maior. E quando a havíamos rolado tivemos de virar aquele cavalinho estúpido, pondo-o sobre os balancins. Ele nos fitou com ar solene que, ao que suponho, era a única expressão possível em sua cara, pois os cavalinhos não são desenhados para exibirem variedade de expressão facial. — Eu sou Pinta — disse-nos —, embora às vezes me chamassem Pinta Velha, o que está além de meu fraco entendimento, pois eu não sou mais velho do que os outros cavalinhos. Todos fomos forjados e fabricados ao mesmo tempo e não existe um só de nós mais velho do que os outros. — Havia outros cavalinhos? — perguntou Sara. — Éramos dez — explicou Pinta. — Os outros nove fugiram, e o motivo único para eu ficar foi a circunstância infortunada de que bondosamente me libertaram. Fomos forjados em planeta distante, cujo nome ignoro, e trazidos a este. Vindos pelas trilhas, fomos atacados por uma horda de animais, e o resultado vocês viram. — Os que trouxeram você aqui, os que o fabricaram — perguntou Sara. — Eram o mesmo que nós? — O mesmo que vocês — asseverou Pinta. — De nada adianta falar deles. Morreram. — Por que estiveram aqui? — perguntou ela. — O que estavam procurando?

para nós. só Deus sabia quanto tempo antes. — Procurando pessoa humanóide. aparentemente pelo motivo exato que nos tocava por ela. pareceu a Sara. Deve ter sabido já na Terra. Pinta e Tuck. — Knight deve estar morto — asseverei. — . Sentou-se um pouco separado de nós. balançando-se em silêncio de trás para a frente. nada havia para nós ali na trilha. razão poderosa para prosseguirmos. a menos que fosse o tipo de coisa que ocorrera àqueles homens. Era bastante para dar calafrios em alguém. na cidade. — Eles não me contam as coisas. agarrado com força à boneca. Havia algo. — Procurando Lawrence Arlen Knight? — Não sei — respondeu o cavalinho. balançando-se desse modo. Na verdade. que eu tinha de acertar com ela. ao que estávamos convencidos. ao que calculei. ao menos. E até onde sabíamos. quando partimos. balançando-se com suavidade de trás para a frente. caídos no barranco. entretanto. com Pinta em pé ao lado da pilha de nossos abastecimentos.Procurando um deles — explicou Pinta. Nada havia. Decidimos prosseguir. Tuck não se importava. — A senhorita. desde muito desaparecida. Sara e eu tomamos a decisão e não houve discussão verdadeira. vendo os dois. acompanhando a trilha. haviam acompanhado a mesma trilha. não havia muito o que discutir. mas sobre quem se contam muitas estórias. Mas o próprio fato de que outros seres humanos. Chegamos a tal decisão sentados em volta da fogueira fumacenta. com certeza. deve saber.

lá no barranco. onde dá para ocultar todo um exército. mas vendo os ossos recordaram. Ele disse que eram dez. — Se os cavalinhos. é fácil — respondi. — Nesse caso. pareceu que preferia continuar. — Acho que sim — confirmei. Para onde foi o outro? — Talvez nunca saibamos — disse ela.Ela se encapelou por completo. — A mim não importa droga nenhuma. — Os cavalinhos devem ser os que fugiram — observou ela —. assim ou assado. Sacudi a cabeça. — Já começou outra vez? Não pode parar? Você foi contra essa idéia. Na . — Mas está pronto para prosseguir? Pouco antes. por que se importa. com essa recordação do passado? — Eram oito — observei — e Pinta completa nove. Para trás. não acharemos mais. Deve haver mais de um milhão de lugares. muito menos seríamos capazes de pegá-los. Acha que eles se lembram de quando viram os ossos? Acha que podem ter esquecido. o motivo pelo qual devíamos estar ali sentados. Por que veio conosco? — Já lhe disse antes — expliquei. conjecturas. descobrirem que estamos de volta. — Podíamos arrecadar os cavalinhos. desde o início. se ele está vivo ou morto? Por que se importa se o achamos ou não? — Esta. naquela cidade. e levaram um choque tremendo. — Talvez encontremos alguma coisa à frente. jamais os encontraremos. ou o gnomo. Não dava para calcular que diferença aquilo fazia. em resposta. — O dinheiro.

verdade, eu não percebia que diferença coisa alguma podia fazer. Prosseguiríamos, não saberíamos onde estávamos indo, mas sempre podíamos ter a esperança de encontrar lugar melhor do que aquela terra selvagem e ressecada, com suas elevações pedregosas e desérticas, sempre podíamos alimentar a esperança de achar coisa melhor e logo o reconheceríamos, tirando vantagem. O fato de que os homens cujos ossos lá estavam no fim do barranco haviam procurado alguém não significava obrigatoriamente que soubessem da passagem dele por ali. Era possível que estivessem tão confusos quanto nós. E não se dispunha de prova concreta alguma de que Knight fora aquele a quem procuravam. Assim permanecemos sentados em volta da fogueira, planejando. Carregaríamos Pinta com a carcaça inútil de Roscoe e toda a água e alimento que pudesse transportar. Tuck e eu carregaríamos mochilas pesadas, enquanto Sara, a única de nós dotada de arma, seguiria com carga leve, de modo que em momento de emergência pudesse abandoná-la e usar a carabina. Pio não carregaria coisa alguma. Seria nosso batedor, seguindo à frente e examinando a terra. Aquela tarde, por mais que nos desagradasse, descemos o barranco e escavamos o forte. Encontramos três crânios humanos e meia dúzia de armas efeirujadas, por demais estragadas para saber de que tipo teriam sido. Pinta recordou que foram oito os seres humanos e o grande número de ossos vinha em apoio à afirmação. Mas só encontramos três crânios.

De volta ao acampamento, preparamos a bagagem e carregamos o resto dos artigos para fora da trilha, escondendo-os em rachadura estreita que descia o barranco. Utilizando galhos, apagamos nossos rastros que davam para a trilha. Ambas as tarefas foram feitas sem grande eficiência, mas eu tinha a sensação de que era perda de tempo, que a trilha desde muito fora abandonada, e que talvez fôssemos os primeiros a percorrê-la, por mais de um século. O dia se adiantara bastante, mas nós nos preparamos e partimos. Nenhum de nós queria permanecer naquele acampamento por um instante a mais do que o necessário. Fugimos dali, satisfeitos ao fazê-lo, por estarmos livres das paredes deprimentes de terra estéril e da sensação de fatalidade antiga, que por ali pairava. E havia também uma sensação de urgência, sensação nunca expressa, talvez nunca reconhecida, de que nosso tempo estava por se esgotar. Pio esbarrou nos centauros, no segundo dia. Continuávamos nas terras desérticas. Até então, qualquer das que tínhamos encontrado havia sido atravessada em questão de horas, quando muito um dia. Mas aquela região parecia estender-se para sempre, e ansiávamos por ver-lhe o fim, se o tivesse. Transportando cargas pesadas, Tuck e eu, a caminhada era difícil, na maioria subidas e descidas, tendo apenas descansos curtos quando a trilha percorria distâncias curtas, em terreno mais nivelado. Pio continuava à frente. Só o víamos de vez em quando e, nessas ocasiões, apenas relances dele, quando se apresentava em algum ponto mais elevado a fim de olhar para trás e ver como nos saíamos.

Pouco antes do meio-dia, eu o vi deslizando de lado, com rapidez, pela trilha acima de nós. Satisfeito por uma desculpa que permitisse descansar, larguei a mochila e esperei por ele. Sara fez o mesmo, mas Tuck simplesmente parou, quando estacamos, não abandonou a mochila. Ali ficou, encurvado sobre o peso da carga, fitando o chão. Desde que tínhamos deixado o acampamento onde havíamos perdido os cavalinhos, ele estivera mais retraído do que nunca, seguindo desajeitadamente e sem prestar atenção a coisa alguma. Pio deslizou pela trilha, estacou à nossa frente. — Cavalinhos à frente — piou para mim. — São dez vezes dez. Mas sem os balancins, e com rostos iguais aos seus. — Centauros — comentou Sara. — Brincando — afirmou Pio, ofegante. — Na depressão dos morros. Brincando em jogo. Bátendo em esferas com bastões. — Centauros jogando pólo — exclamou Sara, encantada. Nada podia ser mais adequado. Ergueu a mão para afastar a madeixa rebelde de cabelos que lhe tombava nos olhos e, observando-a, pude ter novo relance da jovem que viera a meu encontro, no salão daquela casa antiga na Terra — sua aparência, antes que a poeira e o desgaste da viagem naquele planeta apagassem a marca maior de sua heleza. — Compreendo — disse Pio — que vocês os procuram. Com satisfação, eu os encontrei. — Obrigada, Pio — disse Sara. Estendi a mão, apanhei a mochila e a coloquei às costas.

Siga em frente, Pio — sugeri. — Acha que os centauros podem estar ainda com a caixa do cérebro? — perguntou Sara- Talvez tenham perdido, quebrado ou utilizado de outra maneira. — Saberemos, quando falarmos com eles — prometi. — E que me diz da memória do robô? — perguntou ela. — Se obtivermos o crânio e o pusermos nele, a memória continuará presente? Ele se recordará tão bem como quando foi tirada? — A memória não estará perdida — assegurei-lhe. — Tudo que ele soube, em todo o tempo, continuará presente. É assim que se faz um cérebro robótico. Eles não se esquecem, como as pessoas. Havia, naturalmente, a possibilidade de existir mais de uma tribo de centauros no planeta ou, mesmo, muitas tribos deles, e que a tribo em frente, empenhada no jogo de pólo, não fosse aquela em posse do cérebro de Roscoe. Não lhe mencionei a possibilidade, todavia. Era também possível que não estivessem interessados em desfazer-se do crânio. Embora eu não pudesse imaginar de que um estojo de crânio robótico iria servir a pessoa alguma, a menos que tivessem o robô também. Quando estávamos próximos do cimo da elevação além daquela pela qual Pio descera apressadamente, a fim de nos trazer notícias, ele nos cochichou que os centauros estavam logo além do morro. Não sei por que motivo o fizemos, pois ninguém deu essa idéia em voz alta, mas todos nos abaixamos, ao chegar ao alto da elevação, olhando por cima da mesma.

Adiante de nós havia larga faixa plana, de areia e vegetação raquítica, e além dessa pequena área, apresentavam-se o vermelho e amarelo do deserto, com as formações de terra seca finalmente a se diluírem. Pio errara na contagem. Havia muito mais do que dez vezes dez. A maicr parte dos centauros se enfileirava de modo maciço, em volta do campo retangular de jogo, que só o era por virtude do jogo ali travado. Tratava-se de uma faixa nivelada de deserto, duas fileiras de pedras brancas servindo de marcadores. No campo, uma dúzia de centauros se empenhava em ação furiosa, com bastões compridos nas mãos, lutando pela posse da bola, batendo nela de um lado para outro — em versão rude e muito elementar do nobre jogo que é o pólo. Enquanto observávamos, entretanto, o jogo chegou ao fim. Os disputantes trotaram, retirando-se do campo, os assistentes começaram a dispersar-se. Além do campo de pólo havia algumas tendas, embora o nome talvez não fosse o adequado. Eram apenas grandes quadrados de algum tipo de tecido sujo, apoiado por varas enfiadas no chão, destinados, talvez, a nada mais do que proporcionar abrigo contra o sol. Aqui e acolá, entre os abrigos, viam-se pilhas de mochilas que provavelmente continham os poucos bens materiais da tribo. Os centauros andavam por ali, sem qualquer fito aparente, exatamente como uma multidão de pessoas o faz em algum feriado. — O que fazemos agora? — indagou Sara. — É descer para estar com eles?

— Mas não podemos saber isso — obtemperou Sara.. — Sua opinião — retorqui. — Parecem afáveis. eu sou candidato a isso. só pelo aspecto. embora não se possa julgar. não — proclamou. — Vamos examinar o assunto com lógica — solicitou Tuck. — Nós todos. Mas talvez o Tuck tenha alguma razão. — De todos nós.. desde o início. quase gracejando. Sou criatura de aspecto humilde. — Apenas um. — E seria você. não sabem coisa alguma a respeito de mantos castanhos ou sandálias. que ele não é perigoso. porém sandálias. Eu tenho este manto marrom. . que tem a alma cheia de pensamentos bondosos. muito inofensiva e sem rompantes.. se você for inteligente ou estúpido. a seu modo sobranceiro e imundo que fazia vontade de darlhe pancada. sou eu quem tem a menor probabilidade de ser morto. acho que não — reconheceu ela —. — Não creio que eles simplesmente matem alguém — aventou Sara. Podem ver.. — Claro que sou — respondeu Tuck. — Se alguém vai morrer. é possível que não pareça muito certo do juízo. — Aqueles garotinhos lá embaixo — fiz observar —. talvez? — perguntei. E para eles nada significa. Talvez eles não saibam a respeito de mantos e sandálias. não uso sapatos. à seus olhos? — Não. — Talvez sejam gente afável. Se tiverem vontade de matar alguém. mas possam perceber a alma simples.Tuck saiu do transe em que estivera.

pois não podia estar-se referindo ao nosso Tuck. — Capitão — interveio Tuck —. e se eu resolver. Eles acabam com a raça do Tuck. — Assim sendo.. — Está coberta de razões ao dizê-lo. porque sou um tipo diferente de homem. posso ficar com aspecto muitíssimo fraco. Se alguma coisa me acontecesse. não causaria grande diferença. em comparação ao senhor.. Mas eu sei como lidar. — O que pensou. não seria a mesma satisfação cair em cima de mim.E por todo o tempo em que ela o dizia.Eu falava sério. — E não acabarão com a sua. — Sou eu quem deve ir. que ficaria a salvo? . em cima do senhor. Precisa ser o figurão. e eu desço até lá. como seria. No há muita graça em matar ou espancar alguém que é digno de pena. — Claro que sim — retorquiu. vamos parar com essa tagarelice. eu não teria de ir. aturdido. Fitei-o. e quaisquer que fossem os meus argumentos. Para eles. por vê-lo com coragem de dizer tais palavras. Outra coisa: o senhor é muito mais necessário do que eu. em toda essa bobagem? — perguntei. fraco. — Está falando sério. Talvez não me espanquem. mas faria muito a esta expedição se o senhor fosse lá embaixo e lhe dessem cabo do canastro. Examine apenas duas coisas. eu achava que Sara devia estar pensando em outrem. ao que devo depreender? — contrapôs ela. que eu tomava poses de herói? Imaginou que eu pensei que o senhor não me deixaria ir. merecedor de pena. por Deus! — exclamei. por que nunca dá ouvidos à razão? Está sempre com esses rompantes.

Sara fitou-me. outra coisa. sair-se-á bem. — Quem for — observou Sara — terá de montar o Pinta Velha. — Acho que devemos deixá-lo ir — propôs. — Que tal parece? — A moeda só tem dois lados — objetou Sara. Fui pago para isso. o homem santo está falando com vívido bom senso. — Nada de moedas — disse Tuck. Somos três. até eu podia ser indicada. sem contar Pio. — Queremos a caixa do cérebro do robô — disse Tuck. — Cara ou coroa — propus.. ou serei eu. Há de ser um de nós. acocorados. — Sou eu quem vai. Ali ficamos.É o que basta — insisti. — Sou eu quem deve correr os riscos. Será o Tuck. E. vamos examinar todos os aspectos. mas ele estava certo. o que ele disse — contrapus. atrapalhar tudo. está pronto.Não respondi. com aspereza — deixe de ser criança. se a situação piorasse. — Mas não se trata de descer para falar com eles. — Você está fora disso. e não o podemos mandar.. — Mike — interveio Pio. Pinta poderia tirálo de lá. . em voz que era um grasnido —. apenas protestei. Sendo como eles são. Fora exatamente assim. —.. — Ele quer. Assim. O Tuck haveria de embaralhar tudo. Alguém precisa descer lá. — Não passa de besteiras. — Também temos de fazer negociações para obter a caixa do cérebro. — E as negociações? — perguntei. — Mike — disse Sara. entreolhando-nos. com resmungo. teriam mais respeito por quem estivesse montando Pinta..

Daremos quase qualquer coisa por ela. — Muito bem — concordei. tentando imaginar o meio de dar o fora daquele planeta. De lá. falando com Tuck. lá no barranco? Ela deu de ombros. Que fosse em frente e escangalhasse tudo. Ele se aproximou. — Precisamos também da caixa do cérebro — Sara fez ver. As negociações verdadeiras virão depois. E de que valeram? — Tudo que posso fazer — disse Tuck — é descobrir se eles têm a caixa do cérebro e se podem ficar sem ela. — Até mesmo a carabina — completou Sara. Desde que chegamos. notei que havia mais — . Fui ter com Pinta e o descarreguei.. Eu a segurei. apertei. — Muito bem. companheiro — disse.É a única coisa que temos. estamos liquidados. Explodi com ela. Nessa ocasião. e mesmo então de nada adiantou. — A carabina. todos nós participaremos. empilhando as latas de água ao lado da trilha e depondo o corpo metálico e mole de Roscoe sobre elas. — Tinham armas. E talvez não precisemos da carabina. e. — Você se lembra dos homens. — Sem ela. à procura de Lawrence Arlen Knight. olhou para mim. subiu à sela. Nesse caso talvez pudéssemos desistir daquela caçada boba. não! — Podemos precisar muitíssimo dela . se tivermos de dar.. disparei só uma vez. e estendeu a mão. Embora eu tivesse a mais confusa das idéias sobre como fazê-lo.

Todos os centauros se voltaram para fitá-lo. Parecia pequenino e digno de lástima. percebeu sua aproximação e ergueu-se um grito. descendo a trilha. cavalgando pela planície em direção aos centauros reunidos. Em questão de segundos eles poderiam avançar. — Que me diz da boneca? Ele a deixou aqui? .. pensei. Deus sabia que o pobre imbecil iria precisar de toda a sorte do mundo. mas em questão de minutos reapareceu.força naqueles dedos compridos e magros do que julgara possível. Era tolice minha. — Boa sorte — desejei-lhe. — Que me diz da boneca? — cochichei a Sara. chegou ao fim. Eu desejara boa sorte ao homem. vigiando Tuck. E aquela boneca dele. Pinta foi-se balançando à frente. eu pensava. e seria o final da coisa. sacolejando nas costas do cavalinho. perdemo-lo de vista. e falara sério. Pois é. Alguém. descia. Ficamos a observar. Estavam ocupados. permaneceram parados. o capuz encobrindo-lhe o rosto e o manto drapejando para trás. olhando.. podia ter gritado e toda aquela manada de centauros não me teria dado atenção. Não sei por que o fiz. sua movimentação acabou. naquela multidão. em cima da elevação. A trilha voltava-se. e logo Pinta galopava até a crista do morro. Tuck sacudindo-se em cima como uma boneca vestida em farrapo de tecido marrom. e observava com tanta atenção que prendi o fôlego. Mas não avançaram.

— Está falando com eles? — perguntei. não deu para ver coisa alguma de Tuck. limitara-se a ter com eles. Não é apenas um talismã de boa sorte. Como se fosse um artigo religioso. — Você continua achando — observou ela — que se trata apenas de uma boneca. Eram os rostos de homens duros e de — . Dois dos centauros foram em frente a seu encontro. Olhei em volta. que ele está biruta por carregá-la. — Ele pôs o capuz em volta do rosto. Mas não é assim. manobrando de modo que ficasse um de cada lado. Não o haviam morto logo de entrada. Por eles. Eu quase não ouvia. Tuck o cavalgava como se fosse um bolo de carne. levou-a consigo. como um saco sem forma. sentado em Pinta Velha. — Não dá para ver — respondeu. É muito mais. Tudo ótimo. — Pelo amor de Deus! — exclamei. como um pé de coelho. Talvez houvesse esperanças. fazendo gesto de paz. Não fizera coisa alguma. o cavalinho parou e ficou à espera.Não — respondeu —. Enfiou-a por baixo da correia e a suspendeu. Não erguera a mão. a uns quinze metros deles. Ele a manuseia de modo carinhoso e reverente. pois Pinta se aproximava da manada de centauros e reduzia a marcha. para prender. mas via com clareza os rostos dos dois centauros. Eu o observei com a boneca. entregando-me o binóculo. dizia eu a mim mesmo. — Tome — disse Sara. Ele vê na boneca alguma coisa que nós dois não percebemos. Sara tinha o binóculo voltado para lá. Finalmente. Uma madonna talvez. com exceção das costas do capuz.

— O que é? — perguntei a Sara. um ou outro saía-se com respostas súbitas. sem aquele instrumento. rostos brutais. Eram muito mais humanóides do que imaginara que fossem. toda a manada prorrompeu em risos e gargalhadas. — O velho Tuck — informei — misturou tudo outra vez. — O que será que está acontecendo? — perguntou. de quando em vez. os centauros estavam novamente em gargalhadas zombeteiras. terminaram. Tinham a aparência de estar ouvindo o que Tuck dizia e. prorromperam em risadas. a luz do sol brilhando no escudo e na espada que Tuck segurava diante de si. Baixei o binóculo e me acocorei. que estava com o binóculo. Estão dando ao Tuck. Pinta dava meia volta e regressava. Por momentos. ouvindo o estrondo distante dessa gargalhada em massa. — Um escudo — explicou. dá para ver. desdenhosas e. E então. onda após onda .vontade férrea. que ecoava nos morros e barrancos retorcidos. trazendo algo que brilhava à luz do sol. E lá na planície. e mais uma vez os dois centauros conversaram com Tuck. Devolvi o binóculo a Sara. Ela vinha até nós. — E parece haver um cinto de algum tipo. As gargalhadas serenaram. Dava para ver tudo quanto queria. os três pareceram ficar à espera. É um cinto e espada. Agora. Um dos centauros fez meia volta e gritou para alguém na multidão. e então um dos centauros no grupo saiu em trote. atrás deles. grandes gritos de gargalhadas zombeteiras. de súbito. sobre a sela. Sara exibia expressão curiosa no rosto.

— Ele não pensa como você ou eu — explicou Sara. Tuck permanecia lá.. como que paralisado. — Não é imitação de heroísmo.. em meio a esta tribo peregrina que adota atributos religiosos fingidos. Ela sacudiu a cabeça. Algo mais complicado.. — Mas.de som. O Tuck é um tipo de pessoa complexa. fitando-nos. e na planície Pinta adquiriu velocidade repentina. Eu sei. Não é uma coisa física. Talvez tenhamos cometido um erro. entreolhamo-nos. sentado. controlando os balancins. — Gostaria de saber o que é. Um. Tuck. naturalmente. — Receio — disse Sara — que não vai ser coisa boa. por que? — perguntei. Eu o conheço por muito mais tempo do que você. nada físico. — Por que o pobre imbecil queria ir? Imitação de heroísmo? Não é o momento. ambição ou inveja. soltou o escudo. . Mas ele queria. É força mística de algum tipo. Você sempre achou que ele era mais um místico. que bateram com estrondo no chão. o cinto da espada. nós dois nos sentamos. Corria como um coelho assustado e.. Pinta surgia em cima da elevação e. derreado na sela. Você é quem devia ter ido. como o medo. — Logo saberemos — comentei... Há algo que o impele. Outro farsante. no caso dele. e queria tanto. quando desapareceu da visão. estou dizendo. estacou. — Alguma coisa o morde por dentro — atalhei. Mas estou dizendo que não é assim. para encobrir sua estranheza. — Ele vê as coisas de modo diferente.

Eu disse que tinha ido em paz e a paz.Estendi o braço e o pus em pé. Não posso matar. disseram eles. — . Lutarão por ela... era covardia. É o único jeito. mas deixaram que saísse.. e espalhou-se pelo chão. — Você! — arquejou Sara.. claro que não! O que pensa que sou? Um bárbaro dos diabos? Tuck nem se mexera. Recuso-me a matar. e eles riram muito. mas. — Não posso lutar — proclamou.Que me diz da caixa do cérebro? — perguntou Sara. Queriam que lutasse imediatamente. Sara voltou-se contra mim. contra um deles. — E negociam? — Negociar. com os demônios? — contrapus.Eles disseram que seria uma luta justa. — Eles a têm? Tuck assentiu. a voz estridente. — Pare com essa lamúria — rosnei para ele. mas eu disse que precisava rezar. Cabe a mim ir até lá e terminar. — Lutar por ela? — perguntei. — Nunca lutei. — Mas você não pode lutar — observei. Você quer a caixa do cérebro. Eu. Nunca segurei arma alguma na mão. — E quem mais podia ser. desmontando de Pinta. Deslizou. até o dia de hoje. já? — Não. — Claro que não pode! Ele não sabe coisa alguma de luta. — Ponha-se de pé e tire esse manto. — Ele sai e embaralha a coisa toda. não — coaxou. — Com a espada? — Foi para isso que me deram a espada. não quer? — Mas você nunca usou uma espada. — Não vendem.

falando com Sara. Vai ser uma piada. envolvi-o no corpo. — As sandálias. — Vamos desistir — propôs Sara.. Um palerma caiu-lhes nas mãos. não se importariam. esperando. — Vai estar enfrentando o melhor espadachim que eles têm. jogando-o para mim. Não queremos que venham aqui. Tire o manto do homem. Fiquei em pé. — Tire aquele manto dele — disse eu. à procura de nosso amigo. — Com o capuz em volta do rosto. de repente. Devemos voltar pela trilha. — Não poderíamos correr mais do que eles. tirei as calças. e eles sabem. — Essa oração que ele ia fazer não pode durar tempo demais. Sara seguiu na direção de Tuck que. baixei o capuz sobre a cabeça. E. — Terei de ficar com seu aspecto. em absoluto.. comecei a desatar os sapatos. — Você não parece a Tuck. voltou à vida. por melhor que seja. mesmo que lembrassem. Eu o vesti. — Contarei com uma vantagem — retorqui. não notarão diferença alguma. estará convencido de que vai encontrar um maricas. — Eles não vão ficar esperando. Tuck não se mexera. para os centauros. Eles ficarão impacientes.Tire esse manto! — berrei. talvez queira — . — Vamos reconhecer nossa derrota. lá embaixo. Estará despreocupado. — Eles notarão a diferença — interveio Sara. — Viriam atrás de nós — atalhei. — O homem deles. Abriu a correia e despiu o manto. também — ordenei. — Você nunca usou uma espada — observou Sara. Despi a camisa. Não vão lembrar-se do aspecto dele.

Ele estava nu. Ou não lutará com muita disposição.. apenas furioso.fazer visagem. Tuck. Os braços e pernas eram gravetos. mas não estava reconhecido.. Montei em Pinta e quando o cavalinho se voltava para ir embora. . — Obrigado — respondi. no íntimo. O estômago era tão encovado que parecia encostar na coluna vertebral. vai exibir-se e querer que tudo se pareça a um brinquedo. de calção sujo. — As sandálias — ordenei. estendendo-me a boneca. apanhei o escudo e o coloquei no braço. Tuck veio ter comigo às pressas e ali ficou.. Mike — disse Sara. examinei-a. eu não tinha certeza de que fosse um tipo de tarefa da qual pudesse dar cabo. Se eu o atingir. foi voando pelo ar. oferecendo-a a mim. um pouco enferrujada. não das mais cortantes — mas o bastante. — Boa sorte. e eu as calcei. e era o ser humano mais raquítico que eu vira até então.. Desembainhei a espada. Usei o pé. A boneca. e era possível contar todas as costelas. a não ser pelos calções sujos. Era arma pesadona. arrancada de sua mão. Inclinei-me para apanhar a correia da espada e a passei na cintura. deixando-me com o trabalho pior para ser feito e. Aquele imbecil fora lá. jogou-as em minha direção. embrulhara tudo. — Mike. com pontapés. Enfiei-a de volta na bainha. acertando-lhe o braço.

ficarei com a esfera? — Fala com muita facilidade em me matar — respondeu o centauro. Eu receava que viesse a encontrá-los. então? — perguntei. — Não existe outro modo? — A paz é covardia — asseverou ele. — Só no caso que você esteja enganado — insisti —. Chegamos ao terreno liso em que os centauros estavam reunidos e Pinta rumou para eles em velocidade firme. subindo a trilha. que zombava de mim. eles emitiram uma ovação de zombaria. — Você voltou — disse ele. O centauro estava com um escudo. exatamente como o que eu trazia. — É verdade — disse ele —. — Insiste. — Não existe outro caminho de honra — contrapôs ele. como vou saber que. — Por falar em honra — observei —. — Não acreditávamos que fosse voltar. — Continuo sendo homem de paz — proclamei. depois de matá-lo.Pinta. Os centauros continuavam como estavam antes. que agora se voltara. o que me diz da esfera? . — Um dos dois precisa morrer — afirmei. mas será você. seguiu correndo o morro. de frente para ele. Um dos centauros veio em trote a meu encontro e Pinta parou. à procura de Tuck. Com meu aparecimento. e cinturão com espada em volta do ombro. desceu a trilha.

Segui por alguns passos. prossigamos — propus. e o centauro trovejava sobre nós. depois dos dois saltos que fez sobre os balancins. — Nesse caso. — Nós somos honrados — afirmou ele. — Mui honrado senhor — disse-me Pinta —. — Insulta minha raça. para que se virasse.Na possibilidade improvável de que você continue vivendo — disse ele —. seguilhe o exemplo. — Pinta. começa a luta. falando entre-dentes. a esfera lhe será dada. Também o centauro se virara. os cascos a soltarem grandes pedaços de terra do chão. — Nós dois recuaremos e nos voltaremos um para o outro. com raiva surda. O pau com o pano sujo velho continuava alto. estávamos enfrentando um ao outro. — . — Não conheço sua raça. Foi baixado o pau com o trapo sujo. no pau? Assenti. tendo um pedaço de pano sujo amarrado à ponta.O centauro desembainhou a espada. e fiz com que se voltasse novamente. Na multidão de centauros. jogando-os para trás. Notou aquele pano. Nós avançávamos ao mesmo tempo.ei ao máximo por nossa causa. — Não sou daqui — observei. agora vamos ver a cor da chita. Pinta ia a plena velocidade. — Quando o símbolo cair — disse ele —. — E poderei ir embora em paz? — Está-me insultando — disse ele. cavalho velho de guerra — disse eu —. — As regras devem ser obedecidas — anunciou ele. esforçar-me. um deles erguia o pau. Assenti e apertei Pinta com as pernas.

porque eu não tinha as habilidades guerreiras necessárias. no semblante exibia a expressão de certeza confiante. senão tentar deter o golpe de sua espada em meu escudo e procurar. devia ter descoberto . Tinha de dar cabo dele. ou ele acabaria comigo. pensava em pelo menos uma dúzia de truques astuciosos. agora. pelos quais podia sobrepujar o oponente. eu sabia que nada poderia fazer. nem o tempo para aprendê-las. repentinamente ocupada. Vi que a espada dele descia. Fazendo a avaliação. A mente largou todo o fluxo disparado de idéias e tornou-se um bloco duro. Não haviam decorrido mais de dois segundos. que me fez regelar o sangue. e com a mesma velocidade os deixava de lado. frio. com rapidez. por qualquer meio que se apresentasse. com base em muitas coisas pequenas que observara. emitiu um estranho grito de guerra. levada por todas as forças que pude usar no braço. e percebi também que a minha espada fazia um arco na direção de sua cabeça. e nesses dois segundos (se realmente o foram) minha mente. instalou-se em mim a seriedade e eu sabia. estridente. a meu turno. Sabia que eu não tinha a menor possibilidade. desferir um golpe. em um golpe amplo de braço pesado. que chegara o momento. Ele tinha os olhos semicerrados e pequenos. Enquanto avançava sobre nós. a questão de acabar com ele dependia muitíssimo da sorte.Levara a espada ao alto e tinha o escudo acima da cabeça. Naquele último instante. entre o instante em que a bandeira fora baixada e nos encontrávamos. Isso porque sabia que me pegara.

nesse instante anterior a que minha lâmina o alcançasse. Fora submetida a uso dos mais violentos. quando o rosto dele tcmara a expressão vidrada. — Não foi risco algum — afirmou. quase como se o ponto ali houvesse sido colocado para mostrar-me onde bater. Ela se eriçou. eu vira de relance o buraco negro que surgira em sua testa. chegando ao pescoço. em absoluto. . Sua espada bateu na beira de meu escudo. e eu sou boa de tiro. — Porém um ou dois palmos para o lado. — A bala vai aonde eu miro a carabina. raspando-me o ombro. Uma expressão vidrada perpassou-lhe o rosto e o braço que segurava o escudo tombou. Entreguei-a a Sara. Deu certo. a beira de minha espada desceu bem em cima de sua cabeça. magnificamente! — disse eu. levada com toda a força de que eu dispunha. A caixa craniana do robô estava rachada e surrada. o que você correu. abrindo-lhe o crânio e cortando-lhe o rosto. não foi? — Deu certíssimo. em linha logo acima dos olhos e entre eles. Mas no momento em que tal acontecia. o braço do escudo caíra. ainda abalado. ele teve um solavanco repentino. e me encontrava na mais completa desvantagem. diante da raiva em minha voz.. Mas vi por uma fração de segundo.que eu não era espadachim. com tanta força que fiquei com o braço entorpecido. — Aí está — declarei. a espada cortava tudo aquilo. — Foi um risco dos diabos. e a lâmina seguiu deslizando por ali. pois quase lego em seguida a seu aparecimento.. começou a recuar e empinar. E.

— Ali — disse Sara. — Sim. Por honrados que pudessem ser — .. já sei — aceitei. Tuck estava acocorado ao pé de uma daquelas árvores retorcidas do deserto. Foster foi quem se saiu excelentemente — corrigi. — Seu desempenho foi excelente — piou para mim. — A Srta. então? Assenti. — O que aconteceu com isto? — perguntou. — Eu mirei. — Não importa quem — afirmou Pio —. Em que usaram? — E para que fim você acha que um bando de bárbaros jogadores de pólo haveria de usar uma caixa de cérebro? — Como bola. Subi ao alto da elevação e os centauros realmente haviam-se formado em fila irregular. apontando. — Eu as apanhei e dobrei.Não poderia ter errado — insistiu ela. seguiam rumo ao ocidente. — Agora.. — Foi ela quem pegou meu passarinho. Joguei-lhe o manto. — Onde estão minhas calças? — indaguei. de onde estivera vigiando.. Pio veio em carreira pela encosta. Sara estivera segurando o cérebro do robô. Era um alívio vê-los ir embora. o feito foi executado com perfeição e aqueles cavalinhos estão evacuando. — Para quem maneja arma a que não está acostumado. Estão muito chateados com o fato. Recolhi as calças. comecei a vesti-las. Desci de Pinta. eles terão de voltar às bolas feitas de pedra. despi o manto. sacudi-as. — Quer dizer que vão embora? — Fizeram formação para marchar.. — Bem no meio da testa dele. para jogarem pólo.

e bateu com a mão. batendo-a com estrondo. um de cada vez. cheia de esperanças. Voltando-me. ele disse de modo solene e devagar. além. como se os estivesse testando. A cabeça girou em volta. — Acho que sim — disse ele. desta feita: . e Sara a entregou. — Olhe só. Os braços movimentaram-se de modo incerto. quanta pancada levou! Veja. — Não pediremos muito a ele. para poder ali enfiar a caixa recém-adquirida. — Ele não precisa saber muita coisa — prosseguiu Sara. quantas mossas! Sacudiu a cabeça. a fim de nos examinar. — Acha que sofreu danos? — perguntou ela. a voz raspando: — Bem. vi que Tuck e Sara haviam tirado o corpo de Roscoe da pilha de latas de água e ele abria o crânio. a fim de colocar aquilo no lugar. Faremos apenas perguntas simples. hem. Estivera apoiado na parede de terra e agora empertigou-se. tem. caso ainda estivessem por perto. e depois fechou a chapa do crânio. Tuck estendeu a mão para que lhe desse a caixa do crânio. nenê. pois haviam-me dado a caixa do crânio) eu ficaria um pouco nervoso. — Sabe como fazer? — perguntei a Tuck. pois não sabia. Ao se tornar claro que não. colocou-se em pé.(tinham sido. sem. Parou de falar. para que não deixássemos de perceber. — Existem ranhuras. Ele o fez. Ele falou. É só enfiar a coisa aí dentro. vem. olhou em volta para ver se o tínhamos compreendido. Roscoe mexeu-se.

como sinal de estrada. braço e dedos rígidos. não adianta — gritou Sara. Será que se esqueceu de tudo? Será que ele se lembra de alguma coisa? Sorri para ela. lada. o dedo apontando. voltou-se e estendeu o braço.Bato. arriscamos o couro. — . — Cai-te. — Você se lembra de seu dono? — Sono — respondeu Roscoe.. pacha — mas. sai-te. com aspereza —. rato. — Por que não lhe pergunta? — Roscoe — disse Sara —.. gato. mato. — Batuta — respondeu Roscoe.. — Está completamente biruta — observei. lacha. fato. que parecia enlouquecedoramente disposto a conversar. — É tudo que faz. dada. jato. com os diabos! — Berrei. pada. — Oh. — Não. e só se arranja isto — Roscoe — intervim. racha. passamos por tanta dificuldade. gacha. Aponte a direção em que ele se acha! — Cacha. fada.. você não se lembra de nada? — Cada. nada. chato... estamos procurando Lawrence Arlen Knight. vai-te. — Ele faz rimas — observou Sara. um dicionário de rimas. hiato. — Viajamos por toda essa distância. pato. — Estamos a procurá-lo. não! — exclamou Sara. tato. lato. cato. sacha. — Não. facha — disse Roscoe —. mesmo enquanto vocalizava aquela tolice rimada. apontando o norte da trilha. nato.

por dias a fio. Não era equipamento de luta para um homem crescido. E havia sempre. Parecíamos marchar agora com mais determinação. até um planalto elevado. Agora encontrávamos água.Assim prosseguimos. Escondemos as latas de água em um dos abrigos-colméia que ainda apareciam a intervalos ao longo da trilha. viajei com o escudo por trás dos ombros e espada à cinta. enquanto à frente as montanhas se tornavam mais altas. uma variedade ampla de arbustos e. Sentindo-me um tanto encabulado com aquilo. furando o céu. montanhas grandes. subimos sempre. Desde as terras secas nenhum de nós carregava mochila. que se apresentavam . místicas e majestosas que ainda exibiam o azulado da distância. ao lado de alguns córregos. pequenos cursos de água fria correndo nos leitos pedregosos. e tínhamos uma pista a seguir. Deixamos as terras secas para trás. claro. rumo ao norte. retomando a trilha. grupos de árvores imponentes. quando apontava para o Norte (e continuava apontando toda vez que lhe perguntávamos) o que nele parecia confiança vinha proporcionar-nos a sensação de segurança em que não mais caminhávamos às cegas. Surgiam grama. haviam sido postas nas costas fortes de Roscoe. às vezes. plantas com flores. que se orgulhara de tal equipamento guerreiro. as árvores arranha-céus. A vegetação aumentava. Embora às vezes eu duvidasse de que Roscoe soubesse o que se passava. mas naquele escudo e espada residiam certas sensações espadachinescas de importância — o regresso a algum ancestral de muitos milênios antes.

Criaturas parecidas a roedores abundavam por ali. a . Agora. mas o impacto total do planeta que parecia desabar sobre mim — a admiração e espanto daqueles que haviam estado ali antes e o motivo pelo qual se tinham ido e qual poderia ser o objetivo do pomar que tinham plantado e depois deixado. todos comemos. embora eu desconfiasse que aquilo ocorrera por procuração. já não fingia ser um de nós. sentadas. a não ser em ocasiões nas quais murmurava para a boneca e. pequenas manadas de herbívoros. certa feita. Quase nunca falava. e onde não houvera vento ele surgia agora. contra o frio da noite. ligando-nos deste modo. e mais tarde pedira-me um empréstimo de vida. Sara atirou em um deles. tirando todo o veneno. tiramos a sorte para ver quem seria a cobaia. já que entre ele e Tuck não existia coisa tal como fraternidade. Nada ocorreu. nós o esquartejamos e preparamos. Bem próximos da fogueira. O ar tornava-se mais frio. eu observava Pio. juntamente com a grande cidade branca. dei algumas mordidas na carne que fritamos. Tuck caminhava sozinho. mais do que nunca. de vez em quando. depois permanecemos sentados.bem distante. à espera. Havíamos descoberto uma fonte de alimentação e podíamos guardar o pequeno estoque que transportávamos. e quando Tuck. assoviando para nós quando passávamos e. soprando de modo cortante. Não era o planalto por si. Reinava naquela terra elevada um misticismo extático e eu às vezes me descobria a andar em sonho. reconhecidos ao calor que irradiava dela. punha-me a imaginar a respeito da fraternidade existente entre nós. Ele limpara meu sangue. Tocou a mim experimentar.

murmurando para si próprio aquela infinidade de palavras rimadas. um imbecil vocal que marchava com satisfação por terra do nunca-jamais. E eu. Ele adquiria tonalidade cinzenta. cruzando aquele grande planalto. Assim seguíamos. distante da fogueira. era apenas um ponto à distância. como fantasma cinzento e apagado. devia ter aspecto tão singular quanto qualquer dos outros. . e esse estranho apagamento da memória era também parte daquela terra alta e azul pela qual caminhávamos. a não ser pelo estalido ocasional de um balancim contra alguma pedra do caminho. de modo que passava despercebido. tinha em si uma continuação e a sensação cintilante de espanto. Havia ocasiões em que eu me voltava. Seu rosto emagrecia mais. Pinta marchando em silêncio. via-o e tinha a surpresa de vê-lo ali. parecendo-se não a um esqueleto. que quase não era necessária. andando com o escudo sobre as costas e a espada batendo na perna. sem fazer sentido em coisa alguma. o corpo parecia encolher-se no interior das dobras do manto. o pensamento e a esperança do futuro pareciam fundir-se em uma sensação de tempo terrivelmente lógica que era em si mesma a eternidade. um estado de nunca-começar e nunca-terminar. ficava por momentos pensando em quem seria tal criatura. sem parecer importar-se com o frio. pairando suspenso em duração e. no entanto. Tuck acs trambolhões. ainda trabalhando em sua tarefa de batedor. dava a impressão de ser uma sombra.refeição noturna que fez foi por conta própria. Pio rumava em frente. O passado e o presente. mas a couro cru. encoberto até a garganta no marrom do manto e Roscoe marchando com firmeza.

Voltei a ver nela a mulher que viera a meu encontro. mas também mudara. de que falta pouco. — Tenho a sensação — comentou Sara. Eu simplesmente não sabia o que era. agora. encontraríamos o que procurávamos. montanhas de arrebatar o fôlego. então. As montanhas faziam-se mais altas e perdiam parte do azulado. . Era tudo ilógico. entrando naquele aposento onde tudo começara. por em palavras o tipo de coisa que seria. de modo algum. pois ocorrera o mesmo a mim. de modo estranho e que não saberia explicar. quando estávamos sentados em volta da fogueira — de que estamos quase lá. a convicção me invadira de que acharíamos algo. pressentia que nos aproximávamos. com penhascos enormes e canyons tremendos. Eu não achava que íamos encontrar Lawrence Arlen Knight. pois ele devia ter morrido desde muito. Assenti. Em algum ponto das montanhas à frente íamos encontrar o que procurávamos. era a menos tocada de todos. recuperando o antigo impulso de aventura que lhe fora tirado pela monotonia e esforço. em meio ao gramado extenso e que caminhara comigo.Sara. embora não pudesse imaginar de que. dava para ver que eram temíveis e selvagens. revestidos de matas fechadas que quase se estendiam aos picos rochosos. Embora não pudéssemos. mas. no salão de sua casa aristocrática. que em algum ponto aquela trilha devia terminar e. e pela tensão de atravessar o deserto com suas faixas ressequidas. certa noite. porém. provavelmente. Tal ignorância. não reprimia a agitação e prelibação do que se encontrava logo à frente.

Eu continuava a crer que a trilha terminaria em algum ponto logo à frente e que. — Mas isso não conta tudo. na verdade. subindo e fazendo a volta por aquele território. — E. — Será que voltaremos. não importa. — Mas acha que voltaremos? Faz alguma idéia de como poderemos voltar? Sacudi a cabeça em negativa. de nada adiantava contá-la. depois disso as planícies e. descobriríamos algo maravilhoso. com a nebulosidade rarefeita dos braços que dali saíam em espiral. este tipo de lugar? — Uma grande cidade branca — respondi — e depois o deserto. mas podia ser péssima. — Você deve ter razão — aceitou. Na maior probabilidade a trilha jamais terminaria e. Mas a lógica não cabia naquele lugar. se voltarmos. o espanto e o misticismo. Aqui existe algo . Mike? Como se vai explicar. Nem mesmo começa a contar.. Tinha uma idéia. o que poderemos contar a eles. uma vez chegada às montanhas. prosseguiria serpenteando. um dia? — perguntou Sara. a maravilha e o esplendor. além das planícies. mediante palavras. — Você sabe? — voltou ela.naturalmente. Não parece importar grande coisa. as montanhas. — Nunca houve palavras para o espanto. então. A maravilha. de nada adiantava alimentar esperanças que só tinham fração de possibilidade de se concretizarem. Acima de nós exibia-se o brilho da galáxia — o branco-azul violento da parte central. atitude nascida do azul místico em que viajávamos. jamais houve palavras para o medo ou felicidade — observei. — A mim..

. na caminhada. Fitei-a. Pode ser amanhã. apercebemo-nos de que ele não mais estava conosco. mas não houve resposta. nem o Natal. como poderiam ser interpretadas ou que impacto a interpretação poderia causar sobre o intelecto e sentidos do dono do cérebro. que impressões poderia conter e como tais impressões se formariam. Finalmente. e notei que tinha o ar de uma criança que dizia. Isso porque eu continuava sujeito àquele encantamento. que o dia seguinte podia ser o de Natal. não deu para lembrar se estivera em nossa companhia na parada feita ao meio-dia. talvez visse coisas que me escapavam. Pensei muito a respeito e ainda não sei de que se trata. Sara parecia mais sensível do que eu. acampamos. como funcionava a mente de outra. Paramos. Tínhamos certeza de que ele começara conosco de manhã. gritamos. mas era tudo. Em meio da tarde. entretanto. amanhã. ao cair da noite. O amanhã. tanto quanto ela. ou mesmo adivinhar. — Mais um ou dois dias — propus — e talvez descubramos. embora menos completo. Veio a ser o dia em que Tuck desapareceu. sem a menor certeza. talvez — disse ela. Compreendi que não havia o modo pelo qual qualquer pessoa pudesse contar. Sim. pensava eu. ou atribuísse interpretações diferentes a certas impressões pelas quais ambos havíamos passado. voltamos atrás. do outro lado da fogueira. não trouxe o final da trilha. procuramos. compreender ou entender.que não vi em lugar nenhum e não sei de que se trata. — Amanhã. e por mais que nos esforçássemos.

como George poderia ter-se apagado. se realmente nos deixara. Ela sàcudiu a cabeça. — Tuck descobriu o que procurava. que descobriu também o que queria. nós o teríamos achado. . até movimentar-se entre nós como um fantasma se teria movimentado. o que tornará possível a nós não sentir sua falta. Tinha sido o acinzentado crescente do homem. e fiquei imaginando. ao pensar no assunto. — Se ele estivesse por aqui. — Não adianta procurar mais — disse Sara. o encantamento causado por aquela terra azulada por onde seguíamos.Era ridículo. afirmava a mim próprio. haveria respondido. que nenhum de nós pudesse lembrar-se de quando o vira pela última vez. e se viajava como se estivesse sonhando — esses dois fatores. haviam tornado seu desaparecimento de todo possível. onde o tempo deixava de ter grande significado ou função. O acinzentado crescente do homem. afastando-se assim na noite em que estávamos aprisionados pelo bombardeio da árvcre. na construção de pedras vermelhas na orla da cidade. — Não acredita que esteja presente? — perguntei. de modo gradual se apagara. Exatamente como o George. — Aquela boneca dele — observei. ou se simplesmente se apagara. conjugados. A cada dia ele se fizera mais distante e menos acessível. achando que era um modo estranho de dizer que ele não se encontrava por ali. está visto. apenas entrevisto. Se estivesse presente. em resposta. desviando-se de modo intencional ou por acidente.

Ele não se importava. ela ia falhar ou faltar. Um talismã. Estava sintonizado. — Uma vez você disse que ele não ia conseguir — recordei. Ele era forte. Um tipo de homem ofensivo. — Sei que disse. com algo fora de nosso sistema de espaço-tempo. nem chamar. seguindo aos trancos e barrancos ao longo da orla de um mundo crepuscular. naquele instante. Tudo de que precisava era a boneca. dizia a mim mesmo. mesmo? Teria seu acinzentado chegado a tal ponto que simplesmente desaparecesse? Estaria ainda conosco. Como a bola de cristal na qual alguém se pode perder.. e diferente de modo muito especial. um tipo de homem ofensivo. do qual não tínhamos visão? Estaria por ali. sim.. e nós incapazes de ouvi-lo ou sentir-lhe as puxadas. invisível e insuspeitado. fiquei imaginando onde o homem teria ido. agora o reconheço. Não se importava se sabíamos onde estava ou não. parado. — Você mencionou isso antes. em algum ponto do caminho. Uma madonna de crença religiosa antiga e eficaz. Ou teria ido.. talvez? Mas não podia ser assim. para apertar no peito e os pensamentos solitários que clangorejavam em seu crânio. chamando-nos ou puxando a manga de nossa roupa. — ... Não era inteiramente deste mundo. mas não foi assim. — Tuck era sensível — afirmou Sara — até as pontas dos dedos. de algum modo.Achei que ele era fraco. — Que. Tuck não podia puxar. para informar-nos que continuava conosco. Em pé. não se daria ao trabalho. — Uma madonna — comentei. — Um ponto de concentração..Um símbolo — disse Sara.

muitos dias atrás. A resposta devia achar-se dentro de Tuck e do tipo de mente que possuía. a fim de procurar em sua orla algo que não conhecíamos — e mesmo agora não conhecíamos. Era a resposta. Ele apenas foi diminuindo. . cada vez mais. Nós três continuamos ao lado de vocês. como sua rejeição completa e absoluta de nós. Apagou-se com tanta facilidade que não houve sensação de partida. — Ele se foi há muitos.Talvez o sumiço não fosse tanto um desaparecimento quanto o acinzentado que crescera.Desta vez. na verdade. Ele diminuíra cada vez mais. Embora fosse difícil acreditar que existisse qualquer coisa isolada. Por momentos parecera. ou qualquer conjunto determinado de circunstâncias em jogo. Sabia quando ele foi embora.. que éramos apenas dois. — Eu não ouvi que ele se ia — explicou Pio. — Pio — disse eu — você sentiu quando George nos deixou. como se pudesse de algum jeito estar desafiando algo lá fora. Eu me esquecera de Pio e dos outros dois. — Vocês são os dois únicos.. Sara se pusera bem atrás de mim. ou entrelaçamento de circunstâncias que havia tirado Tuck de nós. agora — comentou Pio — mas aliados fortes viajam com vocês. dois dos quatro que haviam percorrido a galáxia. na escuridão que se formava — talvez a coisa ou situação. naturalmente. Fiquei imaginando se houvera momento em que Tuck estivera inteiramente conosco. a cabeça erguida.

que podia ser vista de modo passageiro no horizonte setentrional. e nos silêncios pontilhados pelos soluços de Sara pude ouvir-lhe o murmúrio: — Harpa.À luz da fogueira. levei-a a seu ombro e ao contato ela se voltou para mim. Perto da fogueira achava-se Roscoe. Aquilo tudo dava a impressão exata de estar certo — as montanhas. tinham-se de início parecido a uma mancha purpúrea. refletindo o crepúsculo sobre a terra azulada sobre a qual tínhamos viajado. que tínhamos alcançado o lugar pelo qual nos esforçáramos todos os dias infinitos que tinham ficado para trás. quando chegamos à pequena elevação do terreno e vimos sobre a campina encharcada o portão para onde seguia a trilha. Estendi a mão. na cidade. Não havia grande emoção em nós. Além de nós as montanhas alçavam-se aos céus — aquelas montanhas que. descendo entre dois grandes penhascos. carpa. farpa.. surpreso de que tal acontecesse — a cabeça encostada em meu ombro e os soluços a sacudiam. sem se comover. sarpa. estóico. enquanto eu a abraçava com força.. zarpa. E o púrpura continuava. e eu a tive nos braços — sem planejá-lo. na escuridão. o portão. chorando em silêncio. vi as lágrimas descendo pela face de Sara. a sensação de termos chegado — a tal ponto que pareceu-me notar algo . reconhecendo que ali estava o portão do lugar que havíamos estabelecido por meta. Chegamos na segunda manhã após o desaparecimento de Tuck — chegamos e sabíamos que estávamos lá. a cabeça bem erguida contra o que pudesse encontrar-se lá fora.

Podem Ir Além Deste Ponto. estremeço de apreensão pela ausência de pessoas biológicas. mas ele não respondeu. — E a mim não agrada — declarei. — Vamos? — perguntou Sara. descobrimos o letreiro. pois após permanência prolongada de costas. — Eu ficarei na companhia do grande murmurador de palavras que rimam. — Pio — chamei. praticamente nus. Elementares de Qualquer Origem Não Podem Entrar. por mais que me esforçasse. entre os quais passava a trilha. e nós fomos. tão imóvel e calado quanto nós. espada e escudo do modo mais assíduo. afixado a um dos penhascos e havia mais ou menos uma dúzia de escritos em painel que. Existe estranho reconforto no protoplasma verdadeiro. Chegados ao portão formado pelos penhascos enormes. Seres Mecânicos. Tampouco Quaisquer Instrumentos Ou Armas. E vigio a carabina. mas não sabia dizer de que se tratava. — Estaremos tomando esse caminho. que combinava com a gíria do espaço e afirmava: Todas As Criaturas Biológicas São Bem-vindas. Uma delas em escrita bastarda. descendo a trilha em direção aos grandes portais de pedra que se abriam para as montanhas. Rogo que não fiqueis por lá muito tempo. transmitiam a mesma informação em línguas diferentes. — . Formas Sintéticas. Mesmo do Tipo Mais Simples. Era feito de metal. estava à nosso lado. A mim não importa — disse Pinta. ao que parecia.errado por ali. Para ele aquilo também devia parecer inteiramente certo.

E farei o que eles dizem. E lá dentro dá para sentir que estaremos seguros. . Voltei-me e ali. O modo de nos sentirmos não basta para prosseguir. mas continua não me agradando. no painel. — Não me importa o que você faça — afirmou Sara. Não sabemos o que vamos encontrar. — Venha. — E quem falou em voltar? — contrapus. agora. a mensagem continuou como antes. encontrava-se outra mensagem. Não sabemos o que está à espera. — Não podemos usar subterfúgio diante de um regulamento simples. Que tal não darmos atenção ao letreiro e.Foi isto o que quisemos descobrir — fez lembrar Sara.. Não vim até aqui para voltar. por baixo do letreiro. BIIP — disse o painel. Meu Camaradinha! Sara encostou a carabina no penhasco. onde haviam sido escritas as normas de regulamento. — Eu vou prosseguir. deixando-o cair sobre a coronha da arma. Mike? — Claro que sinto — repliquei —. meu camaradinha — retorqui. Muito bem. — A Direção Não Será Responsável Por Conseqüências Da Violação Proposital Dos Regulamentos. — Vá Com Calma. ou o que quer que fosse. BIIP — disse o letreiro. desafivelou o cinturão de cartuchos. lá estava outra mensagem. Você não sente a segurança. — Em que tipo de conseqüências está pensando? O painel não se dignou a responder. Pio — propôs.. ou o penhasco.

Eu sou três — afirmou Pio. Senhor. Afinal de contas. Descemos a trilha para um crepúsculo que se aprofundava. Com Nossas Desculpas. o ar muito digno. . era sua a primazia. da trilha estreita. Saímos das muralhas enormes. Dava para senti-lo. Fomos para o fundo de uma trincheira com menos de três palmos de largura. fitou-me bem nos olhos. Sara voltou-se para mim. — Eu sou agora o segundo eu. ela pagara por aquilo. desatei o cinturão da espada e o deixei tombar no chão. Camaradinha. tivemos a sensação de que alguém ou algo sopesava a questão. — O sinal se apagou. Muito preferível ao primeiro e ainda despreparado para o terceiro eu. E. então. que eu saí de ovo honestamente chocado! BIIP! Mas Você É Mais De Um. não a impedi. Joguei o escudo ao lado da carabina. à medida que as muralhas de pedra encobriam a luz. e chegamos à Terra Prometida. BIIP — e o paniel dizia: — Prossiga. a trincheira e a trilha apresentavam uma volta repentina e à frente tínhamos luz. eu fechava a retaguarda. Pio a acompanhava de perto.BIIP — e o painel dizia: Esse. De Muitas Pernas? É Um Biológico Verdadeiro? Pio grasnou de raiva: — Saiba. — E então? — perguntou. Sara foi à frente.

não pensara no assunto por muitos anos. tanto tempo antes. viam-se pequeninas mansões feitas de mármore luzidio — ou. sobre a qual eu estudara na escola. encostada à água. nas encostas pontiagudas e ásperas que pairavam acima do vale. visto de onde estávamos — tudo desenhado nas linhas limpas e claras da arquitetura grega. Na ocasião aquilo me impressionara como herança de que qualquer raça podia sentir certo orgulho. Agora. ao ler no livro de estudos. entretanto e afinal. o instrutor procurando instilar em nós algum sentimento pela história e cultura do planeta em que a humanidade tivera o primeiro começo. reluzindo ao sol onde as águas tombavam pelas inclinações acentuadas do leito formado de pedras arredondadas. . ficara impressionado pela beleza clássica do conceito grego. A própria paisagem era áspera e estéril. E embora eu não desse importância alguma àquele planeta distante. mas aqui e acolá uma faixa de vegetação. E encarapitadas aqui e acolá. às vezes logo ao lado do córrego. com pequeno e rápido córrego de montanha passando por ela. com árvores retorcidas e batidas pela intempérie. surgia das rachaduras nas encostas rochosas.Era um lugar tirado da Grécia antiga. e depois esquecera tudo. parecia mármore. A trilha dava para um vale escarpado e pedregoso. pelo menos. na maior parte superfícies rochosas. aquilo se apresentava exatamente como o imaginara. nem aos fatores relacionados à ascensão do Homem. de outras retorcendo-se acentuadamente para enfrentar uma pedra que surgia com vulto maior. A trilha descia para o vale.

Ninguém dissera uma palavra. talvez o túmulo ou alguma indicação do que ocorrera ao lendário homem do espaço. Assenti. afinal.O próprio sol parecia ser o sol da Grécia. ou o sol como o imaginara. . quando havíamos saído da trilha. o nome de alguma criatura residente na mansão encastoada na encosta. iluminando a terra árida. branca e sadia. pois ali podíamos encontrar. chegando à luz do sol grego. eu não alimentava a menor dúvida de que a trilha por nós seguida não tivera outro objetivo. senão o de nos levar ali — não a nós apenas. uma coisa ou simplesmente uma idéia. Isso porque. sem saber o que procurávamos. Pio e eu a acompanhávamos. está claro. Podia ser o nome de alguém. pensando talvez que fosse um homem. sumira o purpúreo das mesmas. senão ele próprio. — O nome de alguém? — perguntou. erguendo-se acima do córrego e ao lado da senda havia um poste com letreiro afixado. E agora Sara tomava a senda. na verdade. em lugar deles via-se a luz do sol pura. cheia de asperezas e saliências. Chegamos a uma senda que subia em direção da primeira daquelas mansões encarapitadas nas encostas rochosas. embora pudesse ser um homem. exibindo escrita que não soubemos ler. Sara estacou. Era ali — o lugar que tínhamos procurado. fitando aquele vale acidentado. olhando para mim. Não havia. Caçávamos às cegas. mas a qualquer um que a tomasse. o que se pudesse dizer. Desaparecera o azulado do grande planalto que tínhamos escalado para chegar às montanhas.

quase a se lamentar. — Vamos prosseguir e procurar um letreiro com o nome de Lawrenee Arlen Knight. — E você foi contra. em absoluto. — Sara — pedi —. — Faz sentido — observou Sara — que seja o nome de alguém. de olho nos letreiros. que estaria morto.Se fosse o nome de alguém. — Vamos fingir que sim — propus. Ninguém vinha olhar-nos. — Não olhe para mim — retorqui. não se via qualquer sinal de vida.. a esta altura. não — corrigi. — Apenas não acreditei por completo. eu não sei. que Deus me ajude. A julgar pelo que víamos ou escutávamos. Havia outras mansões e letreiros. — Contra. — Mesmo agora. — Você disse que nunca o encontraríamos. descendo as inclinações do terreno. Vamos em frente. entretanto. você não pode levar isto a sério? — perguntou-me. talvez fôssemos a única vida presente. desde o início. nenhuma criatura alada revoava por ali. mas nada existe que faça sentido. — Viemos por toda essa distância — disse ela. Creio que não. . subindo as encostas. Nada se movia para desfazer a placidez do vale. Tudo foi idéia sua. Não escutávamos o som de insetos ou seres equivalentes. Na verdade. não dava para perceber qualquer sinal de quem estava lá em cima.. — Eu podia estar errado. disse que ele não passava de um relato. Prosseguimos na marcha.

não me dava atenção. o que não constituía surpresa alguma. Vestia-se em toga branca. o pensamento a perpassar-me a mente — não seria o lar. . — Sara — chamei. o letreiro que anunciava a presença de Lawrence Arlen Knight. A não ser pelas borbulhas e cantarolar da água. tendo afinal desfeito toda a tensão da busca prolongada. o silêncio permanecia. os passos seguros. porém. então. Não me ouvia. lançando-me ao seu encalço e tendo Pio logo atrás. — Sara! — chamei. Não se atravessava toda a galáxia a fim de achar um homem. E saindo do alpendre daquela construção alvíssima vinha um homem — homem velho. porém os ombros firmes. Nada se mexia. Não era a casa. a sepultura. Não se remonta uma lenda até o originador. mas ainda desenvolto. Não se encontrava um homem que devia estar morto desde algum tempo. então. O sol despejava uma torrente líquida de luz que batia nas pedras e fazia cintilar a água. Era loucura. mas ela já começava a subir a senda apressadamente. só poderia usar a toga. achando-o afinal. todos ilegíveis para nós. Em conjunto como aquele. em caracteres firmes e que sabíamos ler perfeitamente: LAWRENCE ARLEN KNIGHT. soluçando de agitação e alívio. outro letreiro. E. naturalmente. seu túmulo.cada qual em alfabeto diferente (se aquilo pudéssemos dar o nome de alfabetos). os cabelos e barba inteiramente brancos. E veio. Mas ali estava. porém.

Ele não era uma ilusão. um ser humano. sim — confirmou ele. a voz melancólica e profunda. naturalmente. marcada por manchas hepáticas. um bom amigo que conhecemos a caminho. ali ficaram entreolhando-se. A quem contáveis encontrar? — Contava encontrar? — contrapôs ela. pude notar apenas que a mão. — O senhor.. como souberam? — Senhor — disse Sara. — Faz muito tempo — disse o velho. em que havia coisas mais importantes a observar. — Minha própria gente! Nunca pensei que voltaria a vê-la. E esta jovem. — Capitão Ross. cheia de satisfação humana por rever semelhantes.. aparição ou mágica. Existe lugar aqui para vocês todos. Mas tínhamos apenas esperanças.Ora. e estendeu a mão para mim. em sua companhia? — O Capitão Michael Ross — disse Sara — e Pio. — Claro que sou. sois bem-vindo. — Tempo em demasia. falava. Sara estendeu-lhe as mãos e o velho as agarrou. — O senhor é.. estendendo a mão. O som dessa voz liquidou todas as minhas dúvidas. o senhor deve ser Lawrence Arlen Knight. A trilha é distante. — E essas boas criaturas. arquejando ainda da escalada. — Visitantes! — disse. Knight fez mesura para Pio. E vocês. . não conheço seu nome. Era um homem. agarrando a minha em aperto cálido e firme. a despeito da firmeza. .. Nesse momento. — Seu criado. era velha e enrugada.O ancião. o caminho difícil e ninguém conhecia. senhor — disse. agora.

— E pensar — prosseguiu ele — que não mais preciso estar sozinho. torna-se parte da eternidade. se estava desequilibrado pela solidão. não tenho certeza se existe coisa tal como o tempo. porque eles nunca existiram. dispositivo grosseiro de medida. — Há quanto tempo está aqui? — perguntei. procurando calcular até que época a lenda sobre aquele homem podia estender-se. mas nunca se perde a necessidade de rever gente de sua própria espécie. cada minuto. O tempo. É conceito abstrato. Eu pensei nisso.Sara Foster — disse ela. a visão de semblantes humanos. Cada dia. Há muitos outros por aqui. Prosseguiu sem parar e eu fiquei pensando. Não que alguém possa cortar a eternidade em fatias. olhando o vale de onde nos encontrávamos. a medida meticulosa de fatias ridiculamente pequenas da eternidade se torna tarefa sem qualquer significado. Por maravilhoso que tenha sido. criaturas de grande caráter e elevada sensibilidade. uma estrutura de perspectiva construída por certas inteligências e de modo nenhum construída por todas elas. — Quando um homem vive cada d:a completamente — respondeu ele — e. sentia falta do som de vozes humanas. e em situação como a existente aqui. é perdido na eternidade e não há necessidade de procurar o início ou o fim. apresso-me a dizer. anseia pela chegada do próximo. com o encerrar de cada um. deste modo.. não existe contagem de tempo. ou se tinha — .. porque sentem a necessidade de se colocarem no que chamam de arcabouço espaço-tempo. no alpendre de colunas de mármore.

havia a sensação de imutabilidade naquele lugar de luz. o sol brilhante e claro. não existe outro lugar para ir. — Espero que possam passar algum tempo comigo. tinha realmente aspecto de eternidade. (E aqui me pareceu que ele se referia ao tempo. — Mas eu prossigo — dizia ele. o jogo de chá muito polido sobre a mesinha ao canto. parecendo-se demasiado a uma peça bem escrita. — Por favor. Uma vez aqui. pois vocês têm o tempo. naturalmente. a escrivaninha com pequena caixa de madeira e folhas de papel espalhadas por cima. nenhum outro lugar para o qual gostariam de ir. fiquei imaginando como poderia ele saber qual o aspecto da eternidade — fosse como fosse. mas ainda assim eu não percebia algo errado — era apenas um homem idoso e solitário. Passamos pela porta aberta. Peço-lhes desculpas por ter feito que ficássemos aqui. Façam o favor de entrar. Mesmo enquanto pensava. diante do . ninguém precisa sair. mas de algum lugar no teto a luz do sol incidia em diagonal. em pé. Porque aquele lugar. após ter dito que não existia. Seguram em suas mãos todo o tempo que existe.conhecimento de parte do que afirmava. sentem-se — pediu. — O problema é que tenho demasiado a dizer. Não havia janelas. tendo aberto as comportas da conversa reprimida. de uma vez. ninguém quer sair. Estava tudo muito bonito e macio. Tendo chegado aqui. aquele vale surgido do nada. demasiado guardado em mim para dizer. chegamos à elegância clássica e tranqüila do interior.) E é tolice minha. todavia. Embora não haja razão pela qual deva dizer tudo. iluminando com brilho clássico as cadeiras e o sofá.

que lhes escapara à compreensão. pois somos formalizados. Pouquíssimos abrem caminho até aqui e existe sempre lugar. e nem mesmo imaginou onde se achava? Ele me olhou consternado. vindo de todas as estrelas. — Quer dizer — intervim — que tem estado aqui por todo o tempo. sentia uma inquietação que formigava. devo adverti-los. e alguns poderão ser divertidos. Aqui habita um grupo selecionado. — Que lugar é este? — perguntou Sara. Em um ou dois dias eu os levarei a conhecer o lugar e visitaremos os outros. nem mesmo indaguei. é que uma vez observado o protocolo não se precisa visitar de novo. onde estamos? Que nome tem este lugar? — Ora. pois cada qual mantém seu lugar e orientação e.. — Sim. Talvez achem uma parte perturbadora e desagradável. o melhor. como se eu houvesse cometido alguma heresia involuntária.. . — Que lugar é este? — perguntou ele por seu turno.aparecimento inesperado de gente de sua raça. Nunca perguntei. Mas a questão.. Não precisam agitar-se. — Existem aqui lugares para vocês. outros acharão instrutivos e haverá muito que eles farão. Nunca pensei nisso. embora possam conhecer alguns que desejarem visitar às vezes. Mesmo assim. de modo algum. — Como soube da existência dele? Como foi que. Visitas formalizadas. — Sempre há lugares a espera. com arquejo abafado.. naturalmente — prosseguiu. por baixo de minha própria aceitação do lugar e do homem (pois ambos ali estavam). por baixo de tudo.

nem pressão social. Faz. Não há motivação outra que saber que faz muito bem o que quer. dinheiro ou fama. com suavidade — faz o que quer.cou Lawrence Arlen Knight.. Ele não trabalha por louvor. — Somos novos aqui. — O senhor disse que seus dias são cheios — observei. Ele diz que. ainda mais. não — contrapus.. Não existe pressão econômica. arrancando-lhe assim algum sentido.Qual seria a necessidade de indagar? — disse então. Diz que tem os dias cheios. — Ele fica sentado aqui. Ela. Aqui. mas eu quisera agitar o homem. pela simples alegria em fazê-lo. Não pretendíamos causar agitação. contemplando o umbigo? Ele. saber por qual motivo não tinha e. a criatura compreende como são vazias todas essas motivações. Muito bonito que ela o dissesse. quero saber. se tivesse ou não um nome? — Pedimos desculpas — disse Sara. — Eu sou o grosso que procura algumas respostas.. como nunca lhe ocorrera perguntar o nome. — . chegado aqui. — Senhor. talvez sem lógica. é fiel apenas a si própria. ninguém quer sair. aqui. eu queria. — Quero saber — insisti. — Para mim. — Qual a necessidade de saber? Faria alguma diferença. — Essas perguntas são má educação. — Cada qual — disse Knight. peço desculpas — disse Sara. Se aquele era lugar sem nome. ou o que sabe fazer melhor. — E como os preenche? Como passa o tempo? — Mike! — exclamou Sara.. — Eu escrevo — expl. Se vamos ficar presos neste lugar. com aspereza.

E o senhor escreve? — Escrevo — confirmou Knight. acho que estou gostando. Procuro exprimi-los o melhor possível. e. Há tanto o que contar.! — E como se está saindo? — perguntei. Com um só olhar.. — Levou muito tempo. — O que escreve? — O que quero escrever. criatura das mais singulares se posso afirmar. outros compor música e outros tocá-la. pois disponho de todo o tempo que existe. Há muitas outras coisas. se o conseguir. Outros podem pintar... disputado com muitos conjuntos de peças e fichas diferentes. em tabuleiro de três dimensões e. procuro a palavra e expressão exatas. está constituindo um jogo dos mais complexos. mas é tarefa da qual não me canso. Levarei muito mais tempo para terminá-la. procuro entender. às vezes. Ele fez um gesto na direção da caixa de madeira sobre a escrivaninha. — A mim não importa — afirmou Lawrence Arlen Knight. Embora seja tolice minha dizê-lo. Escrevo e reescrevo. Busco registrar a vivência total de minha vida. — Pare! — gritou Sara. — Na verdade. Procuro ver que tipo de criatura sou e porque sou assim. das quais nunca ouvi falar antes. Um de meus vizinhos próximos. ela me fez estremecer. Os pensamentos que tenho dentro de mim. tanta coisa tão maravilhosa! Compreendo — . desconfio que sejam quatro.. — Pare! Não é preciso explicar-se a nós. dou polimento. É apenas o começo — declarou. — Está tudo aí.

Compreender que o ontem é o mesmo que hoje e o amanhã. A pele estava retesada sobre os malares. muito difícil compreender que. repu- . As cadeiras mal se agüentavam e a mesa. Sobre ela via-se a caixa de madeira e um maço de folhas de papel. — Mike — disse Pio. — Está além da vivência humana — explicava Knight... Às vezes fico pensando se alguém. Eu me encontrava em uma choupana. o telhado partido. aqui. levando-nos a medir o tempo em dias artificiais. não existe coisa tal como o tempo. — Na verdade. em alguma era distante. que aqui podemos escapar à tirania do tempo e que. É uma coisa difícil de compreender. acha-se além da imaginação humana. para mim: — Mike! Sara se pôs em pé. o tempo para e a não ser pela ida e vinda da luz.. o chão de terra. o que nos ilude. eu fiz o mesmo e.perfeitamente como alguém que chega aqui possa ficar intrigado e apresentar muitas perguntas que lhe ocorrem. todo o lugar mudou — o lugar e o homem.. inacreditavelmente velho e sujo. teve um vislumbre e apreendeu o significado deste lugar e o chamou de Céu. nisso. — Difícil — prosseguia Knight. fora apoiada na parede. — Silêncio — ordenou Sara. um cadáver ambulante. mediante algum recurso que nem mesmo posso começar a compreender. à qual faltava uma das pernas. Ele era velho. — Sim. Pio grasnou bem alto. também. é o mesmo que ontem. que se caminha em lago imutável de eternidade e que não existe modificação.

. — Pela ultima vez. vi que Knight esforçava-se por sair da cadeira. tomada da mais completa e educada atenção. Graças ao olhar de fúria com que me brindara. continuava presa ao encantamento que nos capturara. Isso porque ela continuava em pé.. endurecido de sujeira. Atravessei-a no ombro e. Ela se voltou para mim. com força e precisão. os olhos velados brilhavam com luz distante e mortiça.xada nos lábios.. sem pena alguma. apanhei-a enquanto caía. o corpo curvo na cadeira. pondo à mostra dentes amarelados e apodrecidos. — Terei feito algo involuntário que os ofendesse? Às vezes é tão difícil avaliar a moralidade das pessoas que se conhece. meus amigos? — indagava. — O que aconteceu. aguçados em demasia para se acharem alojados em corpo tão antigo e vacilante. . as costelas se exibiam como as de um cavalo esfaimado. percebi que continuava a ver como Knight se apresentara antes.. — Sara! — gritei. e mesmo durante tais esforços sua boca continuava a mover-se. enquanto o fazia. Agi depressa. As mãos eram garras. que a transformação não se fizera aos olhos dela. Por um grande rasgo no manto. Mike. olhos semi-mortos e ainda assim aguçados. ele não cessou de falar. a barba estava encoberta de baba e sujeira. quase sem pensar. ouvindo com êxtase as palavras boquejadas pelo velho e imundo destroço humano. Acertei-a no queixo.

mas eu a agarrei bem com um dos braços.Mostra-se tão fácil executar um ato mal pensado. Ela caiu sentada e ali ficou. esmurrando-me as costas com punhos cerrados.. Deixe de lado qualquer cerimônia. Eu me voltava para sair e notei a caixa de madeira sobre a escrivaninha. com o máximo de alacridade. por favor. Eu só olhei por instante. prendendo-a ao ombro. não retarde. Fizemos boa carreara. sem olhar para trás. a carabina de Sara encostada na parede de rochas e minha espada e escudo ao lado. No outro braço trazia a caixa de madeira que tirara da escrivaninha. mas com tanta raiva que não conseguia enunciar mais do que uma palavra. dizer uma palavra menos apropriada. joguei Sara ao chão. Sara voltou a si e gritava comigo. Fugimos. Sem a menor cerimônia. fitando-me. Pio suplicava comigo: — Mike. antes de mergulharmos na fresta parecida a um canyon entre as rochas elevadíssimas que davam para o portão. o queixo funcionando. Fuja. chegamos à extremidade do canyon Roscoe e Pinta permaneciam exatamente onde os tínhamos deixado.. desferindo-me pontapés. que usara os pés e punhos cerrados. o rosto lívido de fúria. Apanhara bastante dela. estendi a mão e a agarrei. não me sentia muito bondoso. . Ainda correndo. com o máximo de alacridade. e folgava por livrar-me do farde.

.. Pude sentir. — não parava de dizer. esgotado pela corrida louca e frenética ao subir do vale e passara pelo canyon. — Você me bateu! — disse ela. mas de mentiroso. em berro afrontado. — Encontramos um lugar maravilhoso e brilhante. E pensando naquele olhar para trás que eu dera. de modo a me poder chamar não apenas de atrevido. fitando-a também. não respondi. — . com as orlas de meu terceiro eu. nem fôlego para tanto. Ela se pôs em pé de um salto.. Pio interveio: — Graciosa dama. — Você me bateu! — voltou a gritar. sim — concordei. e fiz com que Mike visse também. também. Força não tive para levar mais de um de vocês a ver. eu bati. Sara voltou-se para ele. os joelhos bambos. você. — Nós achamos Lawrence Arlen Knight! — gritou. Nada mais restava a fazer. Não podia fazer com que os dois enxergassem. — Você não enxergava coisa alguma. — Está coberta de razões. como uma fúria.. enfrentou-me. Depois de tanta viagem. Era provavelmente a primeira vez em sua vida endinheirada que alguém pusera mãos com violência e desrespeito em seu corpo. dores nas costas e na barriga. a culpa foi minha.. Disse e ficou esperando minha resposta. Eu. onde ela me acertara. Teria discutido comigo. E escolhi Mike. Permaneci onde me achava. entretanto. achamos o que queríamos achar e.. arquejando. antes de mergulhar no canyon. então. Talvez contasse com minha negativa. afinal. Não tinha o que responder. Não sabia o que ela esperava como resposta.Você.

Mike. o que aconteceu conosco? — Sortilégio. com a mesma rapidez. — Aqui chegados. — Você nos deixa maluco. estava cheio de lixo vindo das cabanas. para cobrir tudo aquilo. vegetal.Seu animal imundo! — gritou. se era ele mesmo. Voltou-se. — Animal. — Somos invasores — afirmei. feitiço — expliquei. O córrego não corria limpo e claro. estou envergonhadíssima — e o punha em pé. Sara se pôs de joelhos ao lado dele. Uma vez próximos. oh. então. para mim. reação do pé foi natural. mantido vivo só Deus sabe por qual alquimia. apenas barracos imundos. e desferiu um pontapé que o atingiu de lado. — Queridos aqui não somos — explicou Pio. não passava de um defunto em pé. E então. com tanta besteira. não podemos voltar ao espaço. — Bondosa dama — disse-lhe Pio —. porque ninguém pode ter conhecimento deste planeta. — Mineral — disse Roscoe. Pio lá ficou. Compreendo inteiramente. E Lawrence Arlen Knight. Fomos apanhados por um grande papa-moscas. ranzinza. — Mike. encantamento. — Tudo aquilo era ilusão — expliquei. — Não havia casas de mármore. os pés minúsculos funcionando como pistões. Um sortilégio. bacanal. — Sinto muito. foi o que nos aconteceu. — Cale a boca — ordenou-lhe Pinta Velha. fazendo-o cair. — É só o que posso pensar. ressentimento não guardo. tentando freneticamente levantar-se. — Pio! — gritava. fomos chamados a — . E fedia de tal maneira que fazia sufocar. Pode acreditar em mim? Sinto muito...

. — Ele disse que havia lugar para nós.. Tinha os dias ocupados. se a vida faz sentido e não existe coisa como o tempo para tirar-lhe esse sentido.pousar. pelo sinal.. E finalmente perseguimos um mito. uma armadilha dentro de outra. se tem um objetivo na vida. — Tem certeza do que viu? O Pio não podia tê-lo enganado? — Enganá-lo não fiz — afiançou Pio. — Eu o fiz ver com clareza. Em algumas armadilhas para insetos. chegam a lugares muito distantes. sem mãos a medir. mesmo de longe. estava feliz. — Se ele é feliz ali. Sempre existem lugares. do que torná-la feliz onde a colocamos? — Você tem certeza? — perguntou Sara. — E daí? — insistiu ela. — O mesmo fizeram os humanóides que deixaram os ossos naquele barranco. — E nós também — confirmei.. Em muitos casos os odores e cheiros vagueiam pelos ventos. — Mas Lawrence Arlen Knight seguiu esse mito.. — E que modo mais simples existe — perguntei — para manter uma forma de vida onde a queremos. — Você quer dizer que podíamos ter ficado? Ela assentiu. certos odores e cheiros são utilizados para atraí-los. com certeza chegou ao lugar que procurava. Sendo o Knight ou não. cheio de vida e de planos.. Podíamos. — Mas aquele homem — contrapôs ela —.. Podíamos ter-nos instalado por lá.. . e esse mito era outro papa-mosca. contente. É só trocar cheiro e odor por mito e lenda. na galáxia. para compreender.

você teve de procurar uma caça diferente.. Na Terra você tem a casa cheia de peles e cabeças. Elas lhe trouxeram prestígio social. É a grande caçadora. Ela se pôs em pé de um salto. vendo-as. Para continuar o encanto. então. pegou-me bem na face. Sorri para ela. Eu contara que Sara criasse problemas. a matadora de formas de vida daninhas na galáxia. — Agora estamos quites — observei. tenho a certeza. ensolarado. a mão descreveu um arco no espaço. não tinha certeza de que acreditasse no que lhe contara. é o que você quer. mas hesitou. o vale continuava a ser um lugar brilhante. troféus de caçada. — Instalarse na felicidade imaginária? Nunca mais voltar à Terra? Ela começou a falar. seguindo a trilha usada para chegar até ali. as construções em mármore ainda encarapitadas em meio aos penhascos das encostas. Voltamos. mesmo? — perguntei.Sara. tudo estaria lá para que o — .. como podia crer? Dispunha apenas de minhas palavras e eu não tinha certeza de' quanta idoneidade ela atribuía às mesmas. Mas chegaram a número grande em demasia. No que lhe dizia respeito. o córrego cristalino e luzidio. Não vira coisa alguma do que eu pudera ver. Se quisesse voltar. Aborreciam-se com suas aventuras. As pessoas começavam a bocejar. fizeram de você uma figura de encanto. atravessando aquela terra imensa e azulada do planalto. — Você sabe muitíssimo bem — prossegui — que não. as montanhas purpúreas ficando para trás.

por minha conta. que permanecia no campo de pouso. Eu me esquecera do azulão do planalto.visse. Não tínhamos planos. porque a mente cansada de pensamentos infrutíferos resolvia apagá-las. rejeitá-las. cada qual à mesma distância exata da outra. Pelo menos duas dúzias de outras naves também . como meio de se preservar contra a indagação devastadora de espanto. não tínhamos para onde ir. que o pensamento único era formar alguma distância entre nós e aquele portão do vale. sem modificações. O encantamento ainda funcionava. Havia a inclinação a se acostumar a elas após algum tempo. o trabalho de outra inteligência. ao lado da fogueira. os regatinhos gelados e. como percebia. A grande cidade branca não oferecia qualquer atrativo. as árvores que mediam quilômetros de altura. Faltava qualquer incentivo. ou fora feito para sê-lo. corporificada por elas. no centro da cidade. com certeza. De noite. para chegar ao deserto que havíamos atravessado. Árvores que espalhassem sementes de modo natural não cresciam em disposição quadrática. mas sei. Ignorava o que Pio ou Sara podiam estar pensando. as moitas de arbustos bem cheirosos. Não parecia existir esperança alguma de chegarmos à espaçonave. Se alguém procurasse o motivo pelo qual aquele planeta era fechado. mas tal acontecia apenas. com seus outeiros musgosos. alçando-se ao céu em todas as direções. pareceu-me que se devia olhar na direção das árvores imensas. tentamos por em perspectiva a situação com que nos defrontávamos. em seu caso. com clareza. Elas eram.

o que significava a falta de continuação deles. Presos ali. outras pessoas deviam ter tentado abri-las. embora tal parecesse duvidoso. E havia igualmente o pensamento de que muitas expedições podiam ter consistido apenas dos membros masculinos de alguma espécie. Podíamos imaginar que os centauros fossem criaturas vindas de outro planeta. a de que ninguém quisesse sair de lá. que haviam pousado séculos antes por ali. mas não se percebia o menor sinal de êxito. naturalmente. seria seu fim. simplesmente morreriam. Era a armadilha perfeita. retrógadas. podem ter chegado também. — Alguns podem estar no vale. assentindo. O planeta era grande. Uma vez no mesmo. Embora não se pudesse ter certeza alguma de que todos os ali chegados viessem à procura do que Lawrence Arlen Knight buscara — e o que . o que acontecera aos humanóides cujos esqueletos tínhamos encontrado no barranco. talvez muitos. sempre que uma nave pousasse. Por todos os anos em que haviam estado. Sabemos que o Knight chegou lá. Era a armadilha final. Concordei. E o que acontecera a essas outras pessoas.ali se achavam. essas criaturas que tinham vindo nas naves? Sabíamos. — Existe outra possibilidade — fez ver Sara. Se o visitante não perdesse a vida para chegar lá. em que outros viajantes naufragados pudessem habitar. achando seu cantinho e instalando-se nele. ninguém saía. Alguns dos outros. diante das vibrações mortíferas que a varriam. Alguns talvez residissem na cidade. com mais superfície sólida do que a Terra e havia muito espaço. restava então o vale.

talvez? Não acha que eu também poderia sentir-me um pouquinho feliz? Talvez não chegasse a tanta felicidade quanto você. — Pio já explicou tudo — repeti.. — Ele só podia alertar um de nós. o brilho da fogueira refletindo-se em sua casca metálica. Voltei-me e fitei Roscoe. — Uma parte de mim é Mike — disse Pio. — Está com o cérebro gorado — expliquei. — Só — disse Roscoe. ló.. E . — Você não faz sentido. — Você tem certeza de que viu. — Sim. — Remido — disse Roscoe. — O ser quase humano — observou Pio — procura conversar conosco. — Devemos a vida um ao outro. A mente dele está sempre comigo. — Não — atalhou Pio.. Talvez viessem por motivos que nos eram inteiramente desconhecidos. — Ele procura comunicação. mas depois de tanta distância. — Feche a taramela — ordenou Pinta. dó. mó. — É o que se passa com ele. mesmo.. apenas? Por que não eu? Não vi as coisas de que fala. Existe entre nós um elo.. pó. E escolheu a mim. — Você não tinha motivos.. — Acha. nó. Somos quase um só. que se apresentava em pé e rígido. que imaginei tudo? Para fazer-lhe figa. o que diz? — persistia Sara. Mas por que você. em tom solene —. então. — Não sei o que posso fazer para que acredite em mim — retruquei. naturalmente — concordou. porque sou um tipo de palhaço desconfiado.tínhamos buscado. Os centauros.

nas terras ressequidas. — Também pensei. Dever haver centenas de mundos assim. — De todas essas centenas talvez houvesse. — Mas que diferença faria? Eles nos esmagariam como à insetos. . — Deve haver uma coisa que podemos tentar — sugeri. — Não vi o que você viu.. Ou a parte alguma. — Não adianta tentar. Cada um desses mundos seria tão isolado quanto este. — Você já pensou — contrapus — que algum deles podia ser o planeta natal das criaturas que construíram a cidade? — Não. falando comigo... mostrando que devíamos seguir para o norte. — Eu podia voltar ao vale — disse ela. — Você não entende? — era Sara. Os mundos como aquele. Elas sabiam o que faziam. se conseguisse enunciar em palavras? Dirigi-me a Pio. Esses mundos foram escolhidos para um objetivo. Não vamos voltar à Terra. não veria o que você viu. — Você está subestimando as pessoas que construíram a cidade e plantaram as árvores. Ela sacudiu a cabeça. — Nesse caso. com dunas de areia. nunca pensei — concordou. — Você entende o que ele quer? — Além de meus poderes — explicou Pio.agora eu recordava como. Estaria em condições de compreender? Haveria algo que nos pudesse contar. que fazemos? — indaguei. — Eu sei — concordou ela. havíamos feito uma pergunta e ele assinalara.. Os outros mundos. Ficaremos neste planeta.

Não se tinha como provar a realidade. nada mais a dizer. Vi que estava imaginando o tipo de fantasia que fora invocada dentro de sua mente para explicar nessa partida precipitada de tal habitat. mas isso era fácil para Knight. que não estava realmente falando sério. que não o perturbaria. Lawrence Arlen Knight aceitara a pseudovida. talvez o fosse para todos os demais moradores do vale. — E que diferença faria? — insistiu. — Está bem para você — limitei-me a dizer. se é o tipo de vida que quer levar — obtemperei. sem termos o que falar. que não interromperia por um só instante o sonho em que vivia. imaginando uma vida ideal com tanta força e clareza quanto se o fora. para onde? — Mike — disse ela. a irrealidade do vale. está bem. Algo. Como haveria de ser diferente da vida que levamos agora? Como sabemos que não é o tipo de vida que estamos levando. Assim ficamos em silêncio. neste momento? Como você avalia a realidade? Não havia como responder a tal pergunta. pois não sabiam o que se passava.Para você. vencido. Marcha. De manhã ela teria esquecido tais palavras e o bom senso prevaleceria. afinal. naturalmente. — Eu não ia saber que tipo de vida levava. Não adiantava discutir com ela. vivendo na ilusão. — Sim? De que se trata? — . — Eu não conseguiria voltar. sentados perto da fogueira. Seria vida bastante verdadeira. Retomaríamos nossa marcha. naturalmente. entretanto.

não é? — Por qual motivo? — indagou ele. — Veja em que deu. Podíamos dar certo.. Tuck.Podia ter sido bom. Sinto muito. Mike. — Detê-la você não poderia — sustentou Pio. e nada de intervir. para nós. — Tenho por norma não passar cantadas no patrão. para eles. com raiva. se ficássemos na Terra. os dois. — . — Você estava acordado. George e Tuck sumiram. — Ao diabo com o destino! — gritei.. o destino dele era o dele. Você sabe muito bem o que eu quis dizer. — Eu também — respondi. — Ela apenas seguiu o destino e o destino de alguém não é o destino de outro. Sara. — De que serviria despertar? Você não a teria detido. e agora tenho de ir e arrancar Sara de. Somos dois do mesmo tipo. Esbravejei com Pio. o destino dela é o dela. por favor. — Mas haveria de enfiar um pouco de juízo naquela cabeça teimosa. Fitei-a com aspereza. O George. O meu destino é o meu. entre nós. o destino dele era o dele. — Esqueça — respondi. — Você sabe que eu não falava disso. viu quando ela se foi. Esta viagem estragou tudo. Pensei que ficasse furiosa. mas não foi assim. Coisas demais para odiar. denotando estranha suavidade. Ela nem piscou. De manhã ela havia desaparecido. Ficamos conhecendo em demasia um ao outro. Podia me acordar. Sara tinha o rosto iluminado pelo brilho da fogueira.

Não é de sua conta a questão. bufando de raiva. — Mas ela saiu sem dizer nada. — Não pela Sara. Deixou a carabina e o que você chama de munição. é ruim — afirmei. — Conto esperar — disse Pio. mas não posso esperar mais. — Tuck e George não têm importância! — exclamei.. — Meu amigo — disse Pio —. choro também por você. Disse que você iria precisar. Conto esperar. Falta-lhe a compreensão. — George também. — Acabe com esse sentimentalismo do diabo! — berrei para ele. preciso agora ir ao terceiro. Por mim mesmo. — . E Tuck igualmente.Arrancar. Eu volto lá e. — Pio. Levou Pinta para montar. — Disse-me onde ia. — Logo estarei chorando em sua companhia. Disse que não podia agüentar despedir-se de você. Chorava. — Você não deve agir assim. quando foi embora. — Ela fugiu de nós — afirmei. — E isso é tão ruim? — Sim. mas prometeu mandá-lo de volta.. não — grasnou Pio. Fiquei em meu segundo eu muito tempo. meu amigo. — Esperar o que? — perguntei. — Permanecer mais não posso. — Ela não fugiu — persistiu Pio. pare de falar por enigmas. — Esperar Sara? Não vai dar para você ver. O que se passa? — Eu o deixo agora — anunciou Pio.

— Bem. para ver com correção esse tal Lawrence Knight. Temos uma afinidade muito grande. — Mas você é três coisas. depois a crisálida. Como explicar. Dei um passo à frente. mas não é possível. siga para o terceiro eu. Você me deu vida. em absoluto. Ansiar pelo terceiro eu. — Não está aqui. Tenho pena de nossa despedida. Mike. — Pio.. Não me importo. desde que nos conhecemos. com os diabos! — exclamei. depois o segundo. — O terceiro eu é a alegria. Caminhos difíceis percorremos lado a lado. — Começar com o primeiro eu. Estendi as mãos para ele. eu sinto muito. Falamos com a mente mais do que com palavras. com felicidade imensa. — O terceiro eu é distanciamento — contou-me Pio. em outra parte. depois um. — Espere um pouco — atalhei. Eu lhe dei vida. com tristeza — se não passasse momentaneamente ao terceiro eu. — A lástima não é necessária — disse ele. caí de joelhos. Tenho pena de mim mesmo. se— . não sei. — Essa borboleta eu não conheço. vá em frente. — Três fases — declarou Pio.. — Você está falando como se fosse uma borboleta. — Se é assim. Eu partilharia essa terceira vida com você. seus tentáculos se estenderam e apanharam-nas. Primeiro uma lagarta. Tenho pena de você. e agora o terceiro. A ser muito desejada. em sua vida? — O segundo eu talvez mais longo — disse Pio.Olhe — obtemperei —. você tem dito besteiras acerca dos números diferentes de si próprio.

O cérebro doía-me de friagem. a mente em posição neutra. mas não acredito que me lembrasse onde estava. do que ele era. Não sei quanto tempo durou. talvez com percepção mais acentuada e refinada do que em qualquer instante anterior. as mãos estendidas para a frente e nada havia por lá. dava para sentir o filete de suor que começava na testa e me achava tão perto do nada quanto nunca. com repente áspero. continuando mesmo assim a ser humano. talvez apenas um momento. quanto jamais estaria. com o tipo de sobressalto que se sente ao . sondei o negrume e a glória de seu ser. tive o vislumbre — ou muitos — do que ele sabia. sensações. Aquilo inundou minha mente e a avassalou em tempestade trovejante de informações. Sabia que existia. de seu fito (embora não tenha certeza de que divisasse realmente um fito). embora parecesse muito mais do que isso — e logo. emoções. do que se lembrava. Por instantes. de suas esperanças e sonhos. felicidade e admiração.gurando com força e. a estrutura irreal. Eu me achava ajoelhado. o aperto de mão e Pio desapareceram. e aquilo acabou. pois naquele contato de ligação eu estivera em lugares demasiadamente numerosos para poder escolher qualquer um deles e não pensava — simplesmente parava ali. chocante e quase incompreensível de sua sociedade e as orlas débeis. cheia de tanta coisa nova que a mentalidade se congestionara. esmaecidas e irisadas de sua moralidade. fui um só com aquele amigo. Por instante apenas. nesse momento em que mãos e tentáculos se apertaram. afronta.

cambaleando. em ato reflexo protetor. Podia fazer o fogo voltar. a não ser eu próprio e o robô taciturno. tinha encoberto e apagado. todos os pormenores. procurando lembrar-me do que até então estivera em meu cérebro. como uma inundação sobre as pedrinhas no leito seco e antigo do riacho. porém só isso. Fiquei ali em silêncio. Oscilei na orla da . abaixei-me a seu lado. no meio delas. ao mundo azul e àquele robô de aspecto estúpido. E fiquei vagamente imaginando se aquele sepultamento das questões transmitidas por meu amigo não seria para minha própria proteção. pensava. De quatro seres humanos e um alienígena. Com cautela fui colocando aparas e lascas de madeira e uma faixa débil de fumaça enrodilhou-se e subiu. e olhei ao redor. Cambaleei até a fogueira. se minha mente. Coloquei-me em pé. encontrei uma brasa viva. em momentos pequena chama começou a tremelicar.bater em superfície dura após longa queda. observando e alimentando o fogo. pois podia sentir por baixo da inundação rápida de minha humanidade. rigidamente em pé ao lado da fogueira apagada. reavivando-o com cuidado. bem enterrada nela. pelo menos parte. pensava. cobertos apenas pelo presente e por minha humanidade. Fiquei imaginando o que meu interior podia saber e que eu já não sabia — com certeza nada existia de que me pudesse lembrar agora e que parecesse tão perigoso que não pudesse saber. tudo desaparecera. Estava tudo ali. A coisa toda dera nisso. remexi as cinzas e. Da noite anterior nada mais ficara. procurando a lucidez. voltei a mim mesmo. restava apenas um ser humano. Apanhei um pau aceso.

Com sensação de choque. Havia cumprido minha parte no negócio. realmente existira um Lawrence Arlen Knight. a meu ver. Arrazoei comigo mesmo. não fora uma procura sem sentido. de um jeito que me escapava à compreensão. Pio se fora. não por ele. pois ela jamais o faria). esperneando e gritando. perguntava a mim mesmo. era Sara. e ela. estava quase sempre sozinho. a única que importava de verdade. menos eu. Estivera sozinho — na verdade. eu bem o sabia. existindo em plano superior de senciência. caminhando para a cidade. eu já estivera em outras encrencas. passando a uma forma melhor de vida. não constituía novidade. Afinal de contas. compreendi que George e Tuck também haviam ido para onde desejavam. sem qualquer sentimento de culpa. seria perda de tempo. dizendo que podia lançar mãos da última opção. tudo saíra melhor do que eu contara em qualquer momento. portanto. A pessoa que realmente importava. de Sara? Eu poderia descer ao vale e arrastá-la de lá. mas soube afastar-me com aspereza. mas por mim mesmo. Com os demônios. tanto quanto Pio. Ou podia simplesmente mandar tudo ao diabo e descer a trilha. Todos haviam tido um lugar para ir — todos. esperando que ela voltasse ao bom senso e regressasse sozinha (o que. Mas que dizer.autocomiseração. pensando no assunto. E. e poderia chorar por ele — não. George e Tuck haviam sumido e eu não ia chorar por causa deles. pois ele mudara de algum modo. Por certo eu me desobrigara de todas as responsabilidades. havia um . Podia também ficar sentado algum tempo. tinha ido para onde desejava. Aquilo.

sem lugar determinado que estivesse procurando. já que não havia mais pessoa alguma. ele estendeu a mão e. Todos os outros estavam com razão. Já não me agüentava mais. porém continuava. já não falava mais rimas. sentado e sozinho. e pareceu que ele escrevia uma fórmula matemática ou química de algum tipo — não que eu pudesse ver qualquer sentido nela.. voltou a alisar aquele pedaço de chão. sem poder desviar os olhos.lugar que ele andara procurando. entre cinzas e poeira. Ouvi uma batida metálica e. acompanhada por outras marcas que. Após se acocorar de modo cômodo. berrei para ele: — E então. qual é o negócio? — Ócio — disse ele —. sócio. Eu observava. folheando alguma publicação científica em momento de descanso. erguendo o olhar. bócio. ao que eu entendia. Ainda havia uma haste de grama. com polegar e indicador arrancou-a. de modo súbito. viera acocorar-se à meu lado — como se.. eu errado. Ele estendeu o indicador e fez uma linha sinuosa no chão. mas com base em alguns símbolos que ele escrevia e eu vira antes. E Roscoe. se não eram de todo sinuosas. murcha pelo calor da fogueira. mas de nada adiantava perguntar. a dizer tolices: . deixavam de fazer qualquer sentido. e talvez fosse o motivo pelo qual me achava ali. Eu observava. alisou o chão ao lado da fogueira. pois viria com palavras desconexas. com a palma aberta. notei que Roscoe se movera. Imaginava o que ele pretendia. quisesse ser meu companheiro. e ele estendeu a mão com cuidado.

diz que Deus o abençoe. o que aquilo significava. — Problemático. vezes função giratória de ambas as funções ondulares antissimétricas e simétricas. escrevia sem parar e sem hesitação. — Pinta — voltou a dizer.. e esperei que viessem palavras rimando com essa. apagou tudo. estava convencido de que era importante. Ela lhe manda adeus. Pus-me em pé. apresento-me para receber ordens. em saltos graciosos. Parei de respirar. Mas prosseguiu escrevendo aquelas coisas no chão. o dedo ainda no chão não escrevia mais.. Roscoe ergueu-se a meu lado. mas tal não ocorreu.. — Espere aí. Ele disse para eu me apressar. Ele. pois a despeito de toda aquela palhaçada. com exatidão. simpático. e agora como catedrático. o ar solene.. de súbito. — O que se passa? Faz pouco e você falava como um palerma. Estava sozinho. Encheu todo o espaço que alisara com os símbolos.A função ondular de elo valência igual ao produto de funções ondulares espaciais antissimétricas. o que se acha além de meu fraco — . Estacou à nossa frente. — Pinta — disse. com os demônios! — gritei. Pinta vinha pela trilha.. voltou a apagar e prosseguiu na escrita. eu retorno. cheio de satisfação. — Chefe — disse —. paralisou-se. asmático. Saia não viera com ele.. desejando ser capaz de ler o que ele escrevia. vezes funções ondulares simétricas. como se soubesse o que estava fazendo e. — Dramático — disse ele.

— Nesse caso. — Tenho outra coisa para você fazer. Veio a lugar de pavor. pode levar-me com você para a Terra? Sacudi a cabeça em negativa. — Não quero que saia e deixe de encontrar o meio de voltar. — Com satisfação desempenhar-me-ei. — Por que cargas d'água você haveria de ir para lá? — Você. senhor — respondeu ele — é criatura de compaixão. — Obrigado. ilustre senhor. — Mas ela disse adeus de modo distinto. belo senhor. eu queria tanto ir à Terra. . — Você vai esperar por ela — insisti.entendimento. — Acredita que ela sairá? — Não sei. em pequena recompensa por me haver salvo. — Não. Pinta. pergunta-lhe o que é a Terra. senhor. — Mas você o disse. mas. por minha vontade. Eu não me afastaria de você. Parecia estar falando sério. — A Terra é o planeta natal de nossa raça — expliquei. marcho com você por toda a distância até a Terra. caro ser humano. — Mas esperar por ela. Ela espera que você possa voltar à Terra... De situação ridícula você me salvou. Esta humilde criatura. cheio de gratidão. não marcha. — Por favor. é o que devo fazer? — Exatamente. com sua bela valentia. deixou de fugir. Você não fugiu. — Você vai voltar — ordenei e esperar Sara.

melhor do que o barranco. — Você parte para a Terra e eu continuo a esperar. Voltou-se para ir. Era uma questão de decisão. precisa ter sua oportunidade. porém obediente. Como se eu próprio não a tivesse tomado. — Nesse caso.. Apanhei a carabina. não dava para desenterrar. E aqui. E.? — Não posso — declarei. dizendo que eu não podia intervir. porém. como eu dissera estar disposto a fazer. Uma decisão precisava ser tomada. Poderei esperar para sempre. fiquei pensando em que parte de si próprio Pio deixara em mim. sem sopesar argumentos. por que não volta e diz a ela. as mãos nos tentáculos. Tentei novamente recapturar alguma recordação do que fora aquilo. uma decisão tomada sem qualquer motivo. Como se Pio a houvesse tomado. finalmente. regresso — disse Pinta — cheio de tristeza. — Por doida que ela seja. porém eu o chamei. eu a tomara — sem pensar. lembrei-me dele. baseada apenas no impulso. mas tudo se achava sepultado. — . afirmara a mim mesmo. fora de alcance. quando passara ao terceiro eu. ao pensar nisso.Mas eu espero — gemeu ele. Se você a deseja. quase suplicando para eu não voltar ao vale e a arrastasse de lá. A Terra talvez não seja.. como o Tuck. o cinturão de cartuchos e os amarrei à sela. E foi surpresa ouvir o que eu próprio dizia. em algum ponto de minha mente. criatura tão bondosa. Como o George. como se outrem situado em algum ponto nas asas do tempo a tomasse por mim. Abalado.

quando passou entre as rochas. Acho que. seguindo devagar para não deixar de ouvir. de que eu devia fazer compreender. tentei calcular quem era (não o que era. embora eu soubesse muito bem que não a tinha abandonado. eu lhe falhara e. Ao lado da fogueira. insistente. porém quem) que procurava segurar-me ali. Talvez Sara — a sensação de que eu devia fazer algo por ela. a bem da verdade. de algum modo. mesmo se fosse regressar e esperar que resolvesse sair de lá. Guardei silêncio. vai precisar — afirmei. Não o chamei. mas não naquele exemplo determinado. — Ela não sairá — declarou Pinta. — Necessidade dela. Estrelas nos olhos ela exibia. havia uma força verdadeira que procurava fazer-me voltar. — Você sabe que não sairá. Uma sensação de culpa por abandoná-la. não tem. assim como não havíamos abandonado George e Tuck. Havíamos viajado bastante aquele dia. mais do que tudo. enquanto Pinta se voltava e regressava pela trilha. de que. A idéia continuava. o que me incomodava era o fato de que ela não parecera acreditar em mim. A crença de que. embora a cada passo surgisse a sensação terrível de que algo me chamava de volta. fiquei observando. em alguns exemplos. de alguma maneira. por certo fora assim. sobre o que Pio e eu tínhamos visto no vale. de noite. — Se sair. devia . caso eu o chamasse de volta. Seguindo com passos pesados. abri a caixa que arrecadara na mesa da choupana de Knight.— A arma ela deixou para você — disse-me Pinta.

dizer-lhe que estava dispensado da missão que lhe atribuíra. Procurei arredar a idéia. porém voltei a fracassar. se ele ainda existisse). mas não foi possível apagar a visão de Pinta. Roscoe com a mochila nas costas. Sofrendo com todos esses pensamentos. eu com o escudo e espada ridículos. assim como a boca que as pronunciara desde muito se desmanchara no pó. mandando-o à tarefa que não podia ou não queria executar eu próprio. fiel ainda a palavras desde muito sumidas e levadas pelo vento. . Ou seria Pio quem estivera brincando comigo? Haveria algo oculto em minha mente. que mantivera uma disputa comigo? Procurei mais uma vez desenterrar o fragmento de informação — qualquer fragmento — relacionado àquele encontro final. desci a trilha. A quem nos observasse devíamos compor um par dos mais estranhos. aguardando um acontecimento que não viria. confrontada a fatos. prendendo-se a uma ilusão que amava. seguindo atrás de mim e murmurando sozinho. mil anos mais tarde (um milhão de anos por vir. Ou seria Pinta? Eu pregara uma peça nele. Talvez devesse voltar.tê-la convencido de modo que não pensasse em regressar para lá. algo que ali implantara. naqueles últimos segundos. O que não entendia era como Sara podia deliberadamente deixar de compreender. não verá com satisfação que o arranquem dali. montando solene guarda na parte externa daquele portal. Dava para compreender o regresso de Sara àquele lugar — se alguém se coloca por momentos dentro das portas do Céu.

não vinha com palavras em rima. com um olho. — Eu estava pensando em outra coisa. ou enlouquecera por completo. em tom de conversa — mas.. Coloquei-a de lado. cantava: . Examinando a mochila para apanhar comida. os que não têm outra causa. para que não desandasse outra vez. para examinar depois de haver comido. quando a ouvimos chorar. — Roscoe. ferida pela adversidade. Fitei-o espantado..Havíamos feito um dia de viagem e paramos porque a noite chegava. pelo amor de Deus! Como se as equações e as rimas sem sentido não bastassem. Ele se pôs em pé. fiz uma fogueira e preparei para mim a refeição. procurando graça. haveríamos de queixar-nos. a ela pedimos que serene. mas se estivéssemos sobrecarregados com o mesmo peso de sofrimento. sem desejar sobressaltá-lo.. nem com equações disparatadas. — Podem ser humildes — contrapôs ele —. tanto ou mais. eu não estava ouvindo — afirmei. Uma alma destroçada. Será que. — Poesia! — gritei. dançou uma giga cheia de barulhos metálicos. enquanto aquele grande robô estúpido se punha à frente e batia papo. contando que ele houvesse acordado e pudesse finalmente dizer coisas com sentido — ou isso. tão sossegadamente quanto possível. O sol. — Poesia. com facilidade — para fitar o Céu. vê todo o mundo. — Um olho você tem — dizia-me. dessa feita.. Roscoe juntou lenha. encontrei a caixa que roubara de Knight.

minha pequena deu um em minha face. e depois. murmurava para si próprio. O vento soprava por cima e a fumaça da fogueira. de início o brilho da região central. primeiro como estrutura de neblina prateada. E.. já não me falava. — Continência. Abaixou-se novamente ao lado da fogueira. Shakespeare? Eu não sabia. com a chegada da noite. Bem longe. Tinha sido Shakespeare a quem Roscoe descobrira? As palavras se pareciam. desde que eu pensara em Shakespeare pela última vez. você não tem estômago porque não fez abstinência. Regressara ao estado normal. Parou em meio às cabriolas. alguma coisa dava risadinhas para si própria e formas minúsculas de vida faziam correcorre na grama e arbustos.O capão queima.. mas eu não tinha certeza. pelo menos. logo acima do horizonte no nascente. O crepúsculo se acentuou e a galáxia eclodia no céu.. ao encontrar o vento. os filamentos tênues dos braços espiralados tornaram-se visíveis. saliência. como — . muitos anos haviam decorrido. O relógio deu doze horas. pôs-se a me fitar com expressão pensativa. após subir em vertical por alguma distância. você não veio para casa porque não tem estômago. Ela está muito quente. — Abstinência — repetiu. se fosse. obediência. porque a carne é fria. logo além do círculo formado pela luz. inclinava-se e partia para a escuridão. que aumentava em brilho enquanto crescia a escuridão. o porco cai do espeto. a carne está fria porque você não veio para casa..

Roscoe tomara conhecimento de Shakespeare? Na jornada imensa na galáxia. as letras pequenas e amontoadas. Eternidade e mais. Pensar sem esforço. Com vagar. ergui-a para ver à luz do fogo. nenhum fim a vir. Página 52. fui separando as palavras. E vinha o texto: . ao lado da fogueira? Teria levado na mochila ou no bolso rasgado da japona um exemplar da obra daquele autor antigo e quase esquecido? Terminei a refeição. Som de água.. Risadas azuis. e ralo. O nada é vazio. vem a resposta. Levantando a primeira página. Apanhei a caixa de madeira de Knight e a abri. acima e azuis. Risadas altas. lavei os pratos no córrego ao lado do qual acampáramos e os deixei ali para a manhã seguinte. . Não passava de tolices. Roscoe continuava acocorado à beira da fogueira.. Erguendo um punhado de páginas da caixa. Movemo-nos na necessidade. O vazio nada tem. Onde achar. Alto. escrevendo com o dedo estendido no pedaço de chão que alisara. Azul elevado. Estrelas à frente. A caligrafia era obscura. teria Knight lido em voz alta. Correm atrás de nada.. azul e vazio. Limpo. Os feitos são vacuidade. senão o vazio? Em lugar algum. Eternidade azul. Lá dentro havia um maço grosso de folhas de papel. eli: Azul é alto. — Olhei para baixo da página e aquilo prosseguia. O chão indespido. A fala é nada. piores que as de Roscoe. tirei outra.. na derradeira marcha pela trilha. dizia no canto superior direito. quase a enchê-la. Nenhum fim para começar.

As distâncias são profundas. sem saber e sem se importar em que a meta fosse ilusão. longe é distante. segurava-me. Pio estivesse ali. e indagava a mim próprio o que era a felicidade. Envolto em casulo de felicidade. caminhando.. sem se importar que o fossem.. era preciso pensar em alguém além de mim. Uma vez em minha vida. fechei a tampa e pus a mão em cima. para impedir que me pusesse de pé e voltasse correndo para o lugar de onde tinha vindo. usando tanta força quanto aquela na tampa. . para evitar que as páginas saíssem.. afirmava a mim mesmo. Não pode você intervir. sem saber que eram tolices. E não podem ser medidas. Não sabia. Embora soubesse o que ele teria dito. Ela preferira voltar ao vale. Ninguém percorre. O púrpura não dá a lugar algum. não . Algumas sem fundo. mesmo que soubesse. escrevendo suas tolices. que importância possuía. Distâncias purpúreas são as mais profundas de todas. Lá existia algo que a atraía. Knight era feliz. naquele exato instante. Com uma das mãos. Não há para onde conduza. no sentido de ter alcançado uma meta devotamente procurada e visada por toda a vida. pensava eu. em vale grego de estranho encantamento. Não se importava. Loucura. uma distância purpúrea. E era ali que Sara se achava. estava contente. diria ele. Levar a vida de loucura gentil. porque não tinha o direito de fazê-lo. ao menos. Esforcei-me para não dar um salto e gritar. Nem compridas nem curtas. estava pensando. Não há estalão com que medir. pensava eu. mas profundas. A felicidade. E isso. . Recoloquei as páginas na caixa. Se.

O que era o destino? Seria algo que não estava escrito nas estrelas. Tive. mas nos genes dos homens. ao lado da trilha. Mas achava que quem a esculpira tinha sido criatura primitiva que. a não mais de metro e meio de distância. Ele falara de destino. nos arrabaldes da cidade. Não existia. No íntimo de si mesmos. o que podiam estar procurando. E eu. Todos os demais haviam alcançado aquela visão entrevista e entre-calculada que tinham seguido. e nada pude encontrar. A seu próprio modo. oportunidade verdadeira para examiná-la. Estava bem à vista. determinando como agiriam. qualquer acidente geográfico ou marca de terreno cuja recordação me houvesse ficado. por . o que quereriam. onde fora deixada. Eu não tivera. e nele nada havia que pudesse espantar a solidão. receber todo o impacto da tristeza contida naquele rosto rudemente esculpido. A única vez em que a vira melhor tinha sido aquela noite. De amanhã achamos a boneca de Tuck. Esforcei-me por determinar com precisão o lugar. imaginando se era ali que tínhamos procurado.deve intervir. De todos aqueles com quem eu viajara restava apenas Roscoe. como fariam para obter aquilo que mais desejavam? A solidão me acossou. entretanto. Talvez por saberem. Era difícil compreender como não a tínhamos visto antes. como se sua luz e calor pudessem representar proteção contra essa solidão. o que procurava? Tentei descobrir o que mais queria. quando nos achávamos dentro do edifício de pedras vermelhas. a oportunidade de fazê-lo. era tão solitário quanto eu. então. acocorei-me bem perto da fogueira. antes. juro por minha alma.

e podia ser.simples questão de coincidência. por certo. Fiquei com uma das mãos a agarrá-la. Talvez porque ele vira na boneca uma situação da qual procurava fugir. com raiva de mim mesmo. Perseguia-me. Talvez lhe falasse algo que ele encontrava dentro de si próprio. pois se existira um homem a quem eu desprezara. Prossegui na trilha. mas os dedos não afrouxavam. segurando aquela coisa infernal. porém humano o bastante para que o igualássemos à humanidade — um rosto deformado pela percepção de alguma grande verdade — não era. mas não consegui. tentei jogar fora. soubera modelar aquela tristeza. não abandonava tal perseguição. diante do enigma do universo e avassalado pelo mesmo. ou fora um artesão competente que. só que este fora um prisioneiro voluntário da boneca. o braço não fazia o lançamento. porém lhe fora imposta. evocara a desesperança e angústia de um ser intelectual. não me largava. Tendo-a apanhado. tentando jogá-la para o lado. Uma madonna. dissera Sara. vendo nela alguma atração e significado que me escapava. como Tuck. O rosto não era de todo humanóide. de certo modo. Deitara raízes em mim. no mínimo que fosse. por me tornar irmão de sangue do desaparecido Tuck. Com raiva. não tanto pela incapacidade de soltá-la quanto. mas eu não via ali madonna alguma. qualquer verdade que houvesse procurado. . pelo fato de que me pudesse parecer a ele. mediante alguns golpes. tinha sido Tuck. Tinha sido assim com Tuck.

deixando Roscoe no portão e Roscoe. se tornara prisioneiro do gnomo. Examinei-o como um estudioso o faria em algum mosteiro onde o tempo não existia. a escrita difícil de decifrar. quando estávamos a apenas dois dias de marcha do início do deserto. revirando e lendo qualquer rolo de pergaminho antigo. é que cheguei a uma parte do manuscrito que parecia ter sentido: . Após alguns dias. qualquer que fosse o significado. tentando entrever naquelas divagações desenxabidas qualquer semente de verdade que pudesse ainda habitar subconscientemente no homem. transformavamse em nuvem dessa cor. Mas nada havia.Seguimos pelo grande planalto azul e. mas a compreensão do tipo de mente que pudera escrever tanto lixo. por estupidez sua. as montanhas purpúreas perdiam pormenores. Fiquei imaginando se o fascínio de Knight pelo azul. Somente na décima noite. onde. voltei a abrir a caixa e tirei o manuscrito. seguindo de qualquer maneira pela trilha e alcançando. e creio que procurava não a informação. numerosas as páginas. pois a marcha era lenta. não seria o eco dessa terra azul que atravessara para chegar às montanhas e vale. mais tarde. é claro. Era totalmente ininteligível e a maior parte inconcebível para qualquer pessoa que não fosse imbecil completa e transbordante de palavras que tinham de sair dela. mais ou menos. Comecei pelo princípio. pelo menos nada. afinal. a cidade. li com cuidado — não tudo de uma vez. que estivesse a meu alcance. atrás de nós. mais tocado pelo tédio do que pela curiosidade. como os primeiros parágrafos do manuscrito haviam revelado.

conferindo-lhes destaque. mas todos os espectros do saber. Aprisionam tudo que possa ser pensado ou sabido. Embebidas no pensamento e conhecimento. É colhido. E ele partia mais uma vez para as divagações insensatas sobre cor. mas de nada valeu. a fim de encontrar alguma indicação de quem podiam ser "eles". comprido. um momento isolado de lucidez no qual registrara algum fato que sabia ter . fica guardado e mantido para a época da colheita dourada.. No azul do tempo. dourado e púrpura. Ambos são azuis e dourados. Arredei de mim o manuscrito. . Seria aquele parágrafo nada mais que o devaneio desordenado de um espírito semienlouquecido.. como devia ser todo o resto? Ou representaria. e regressei. O fruto é muitas coisas. De todo o universo eles o procuram. como fizera por todo o manuscrito. por alguma hipótese. Voltei atrás e reli o parágrafo. forma e dimensão. E esse conhecimento é seu fruto. Às vezes vermelho. às páginas anteriores. Aprisionam-no em planetas solitários e abandonados. Porque a colheita é uma reunião e a frutificação um crescimento. preso. então. É redondo. Com as árvores eles o aprisionam e. Não apenas azul e púrpura. duro e macio. É sustento para corpo e cérebro. É azul. Grandes pomares de árvores poderosas que se erguem por quilômetros no azul. Assim como outros planetas se embebem no dourado do sol. com cuidado.. pensando furiosamente. perdidos nas distâncias do espaço e profundamente no tempo. sentei-me até tarde diante da fogueira. . Amadurece e cai. E estes procuram o conhecimento azul e púrpura.

alguma coisa. em algum ponto da cidade. que alguém pudesse aprender com aquele robô surrado. Malgrado não se parecesse a tal. cheio de latas de água. achar algum modo de fugir do planeta e levar o que sabia ao conhecimento da galáxia. desde muito teria abandonado o vale e seguido a trilha. apanhando ali algum alimento. acocorado a meu lado e mais uma vez preparara o chão. Quase lhe perguntei. Com a água . na qual pudesse esconder mensagem que pretendia transmitir a quem viesse a por as mãos nela? Que assim fosse parecia muito difícil. ao que me convencera. escrevendo símbolos. Se as palavras continham significado e mensagem ocultos. pensei.importância. pelos quais Roscoe descobrisse. quem tomara conhecimento da verdade? Podia haver modos. Na manhã seguinte prosseguimos e. chegamos ao esconderijo que tínhamos feito. Nada existia. talvez. robô telepata. Se havia tido clareza de espírito bastante para fazer algo assim. em seu estilo desconjuntado e místico? Ou sucederia que Knight fosse menos louco do que eu julgava e toda aquela tolice do manuscrito não passasse de camuflagem. que se apoderara da possibilidade de passar adiante o conhecimento do motivo pelo qual aquele planeta devia ser um pomar plantado? Ou teria sido Roscoe. contando. naquele momento. como as descobrira? Haveria. pois ele era. balbuciando baixinho para si mesmo. no segundo dia de viagem. mas logo resolvi que não. o registro narrado o caso? Ou teria falado com alguém. entre outras coisas. contra a esperança.

sem parar. deixava-me perplexo. Tuck levava a boneca bem presa ao peito e. entre atraído e repelido por ela. eu mesmo a gritar com ele. aumentava a atração. Havia ocasiões. passando pelo barranco onde havíamos achado Pinta Velha. mas a cada noite transcorrida a repulsa diminuía. alguns dos outros estranhos habitantes do lugar. mas continuava levando-a. olhando a boneca. agora. continuamos pela trilha. Caminhamos bem. aquela criatura desajeitada e de passos incertos. enfrentamos o deserto. Mas mesmo sabendo que não estavam. Encontramos as fogueiras antigas. pois estava muito longe para ouvir. eu a trazia no bolso da japona. era reconfortante imaginar vê-los. no entanto. Passamos pelo campo onde eu lutara com os centauros e vencera. Mas nada interveio em nossa caminhada. Podia soltá-la. Tuck tropeçando no manto comprido e marrom e levando pela mão George Smith. Não sabia por qual motivo. reconhecemos certos locais. grasnadores gritavam à distância e entrevimos. contando que um . A boneca já não estava colada à minha mão. onde tínhamos pernoitado. composta de sombras: Sara cavalgando Pinta Velha. quando acreditava que estivessem realmente conosco e outras nas quais sabia que não era assim. De algum modo tinha de fazê-lo. Os outros vinham. sempre lá para examinar o caminho.e os suprimentos nas costas de Roscoe. Às vezes sentava-me e a fitava. acredito. em companhia fantasmagórica. seguimos. Permanecia sentado. viajar conosco. a terra era vermelha e amarela. tolice de minha parte. Pio bem à frente. ao mesmo tempo. Algo. às vezes.

. terminando. como montanha nevada erguendo-se ao céu. destinada a fortalecer e reafirmar o que escrevera.. vapor azul. O tronco se estendia por quilômetros no chão. então. Seria isso. voando por baixo do teto. O que digo sobre as árvores e conhecimento aprisionado é verdade. O que escrevo sobre as árvores e conhecimento aprisionado é verdade. . o toco cortado parecendo-se a uma lança imponente a furar o céu. até a proximidade do fim..dia pudesse compreender tudo que lhe via no semblante. Nunca realizadas. vimos a cidade de longe. olhando para lá. Não havia mais o que ler. com ela. . quando ocorreu o seguinte: . Os cimos são vaporosos. Nunca satisfeitas. Na noite seguinte terminei a leitura do manuscrito. depois disso. As árvores vão alto. as folhas estavam amareladas e murchas. A árvore continuava onde eu a derrubara com o laser. As árvores são alturas. E no terceiro dia. o ruído de milhões de asas invisíveis. saindo do nada e ingressando no nada. ou leria o manuscrito que continuava com palavras disparatadas. Além dele apresentava-se o vulto do edifício de pedras vermelhas no qual a árvore nos prendera graças ao bombardeio e. mas não havia como saber. muitas páginas antes? Outro lampejo de lucidez em meio a tanta bobagem? Era forte a tentação a crer.. em meio a tanta tolice. Estaria aquela frase isolada. . dava para ouvir mais uma vez. na memória e imaginação. pondo à mostra o esqueleto lenhoso.

na morte. Teriam. um evangelho pessoal e muito íntimo. sem peso. Mas fora merecido. dizia a mim mesmo. a essa altura. atuar em legítima defesa. espalhando-se ao vento? Tinha sido eu. Eu pretendera matar apenas a árvore e assassinara muito mais. deviam estar igualmente mortas. secado e se tornado quase nada. pensei. para chegar a tal ponto. em represália e resposta. pensei . não? A árvore nos atacara e eu me estribava em todos os motivos morais e direitos legais de reagir. a fim de lançarem contra nós sua denúncia. Pensava no que me acometera. flutuando no líquido oleoso que enchia o poço pela metade. e agora esta.Um fedor mordente e terrível emanava da árvore e ao nos aproximarmos pude ver que a região circular e parecida a um gramado. só poderia prosseguir se ela vivesse. de algum modo a vida se achava intimamente ligada à árvore e não pudera continuar após sua morte. cedera ao chão e se tornara um poço. formado ao correr dos anos. Não era apenas uma vida. cercando o toco. mas de toda uma comunidade — as criaturinhas chorosas e miando que haviam saído em enxame. Isso. Nada agia duramente comigo sem que eu agisse do mesmo modo. somente. além dela. pelo menos. constituía verdadeiro evangelho. e da elevação onde nos achávamos tive o vislumbre de esqueletos lodosos — de feitura estranha. Fora minha mão o que desencadeara a morte. Dali se evolava o fedor. não a vida da árvore. porém inegavelmente esqueletos. E funcionava. outra comunidade de vida que existira em reservatório fluido por baixo da árvore. Procurei algum sinal das criaturinhas lastimosas que. Não se percebia um só sinal delas.

por pouco. Eu vira o que seriam capazes de fazer. Senti que Roscoe me cutucava o ombro e voltei para ver o que queria. agarrando-me pela correia da espada e me suspendeu o bastante para que eu não batesse no chão. A notícia circulara entre elas. As carantonhas sorriam para nós e. em disparada. de algum modo. Por toda a nossa caminhada pelas montanhas e na de volta. esse camarada é perigoso. Eram. feias. Podiam estar nos acompanhando desde muito. correndo sobre pernas traseiras fortes. pela trilha que conduzia à cidade. não estava disposto a esperar que me apanhassem. e vinham depressa. Fiquei ali pendurado. mesmo à distância. árvore alguma se intrometera conosco.sombriamente. em carne e osso. as pernas da frente armadas de garras agudas e luzidias. o tipo de animais monstruosos que tinham deixado os esqueletos amontoados em fileira. Parti dali. E ali estavam eles. Eram grandes. espelhavam a malignidade. Ele apontava na direção da qual tínhamos vindo. Pouco antes de perder o equilíbrio e cair de rosto uma mão se estendeu. mas era a primeira vez que se exibiam. Sem saberem que eu não mais tinha o laser. naquele barranco onde havíamos recolhido Pinta. tentei desafivelar a correia e o fazia quando tropecei nela e me precipitei ao chão. não pareciam dispostas a descobri-lo. em manada. O escudo fazia peso. lancei-o de mim. Não havia como confundilos. balançando-me de um para . Eram seres grandes. A espada com bainha batia nos joelhos. as caudas estendidas atrás a fim de contrabalançarem o grande volume dos corpos e as cabeças gigantescas. dizendo: deixem-no em paz.

sabia por qual motivo as ruas eram tão estreitas. Atrás de mim vinha o som de gritos raivosos e berros malignos. muito mais depressa do que se tivesse de esperar por mim. quando me voltei vi os animais que nos perseguiam. o calçamento por baixo do rosto. no extremo de uma corda atada a um dos . mas notei que nos achávamos na rua estreita da cidade pela qual tínhamos viajado dias antes. e Roscoe me recolocou em pé. Roscoe cobria a distância de modo satisfatório. mas era tamanha a proximidade do chão que não foi possível divisar coisa alguma. naquela cidade. e atirando-se com ferocidade. aquele robô! Tentei voltar a cabeça para ver onde estávamos. os penhascos brancos da cidade erguendo-se como as partes internas de uma taça gigantesca. finalmente. pelo canto dos olhos vi os pés de Roscoe. inclinado a cambalear. como sabia correr. todavia. A posição era incômoda. A forma encarquilhada e encolhida do gnomo pendia. Nada se movia. Meu Deus. atirando os corpos na frincha estreita da rua. Eu. esforçando-se por entrar. Estávamos a salvo. O campo estava tão limpo quanto antes e reinava silêncio mortal. Eu estava um pouco estonteado. As naves fantasmagóricas continuavam no campo de pouso. finalmente. esforçando-se por nos pegar. nenhum vento soprava. as paredes brancas e retas lançando-se aos céus acima de nós. bastante embaraçosa. Vi. mas em vão. mole e sem movimento. movimentando-se com tal rapidez que formavam u'a mancha.outro lado e o chão se sacudia por baixo do nariz. pairando ali. mas eu não me queixava.

Aquele aposento enorme. quando utilizada pelos centauros como bola de pólo. fardos e embrulhos amontoados. pensei. não murmurava sozinho. raspando o chão. talvez ela própria ainda menos. no que parecia ser planeta inteiramente novo. cravejada de crateras de lava incandescente.caibros no depósito. Não se via qualquer sinal dos cavalinhos. E ali estava. e uma inteligência mecânica trabalhando em problema que ninguém conhecia. vulcões vomitavam chamas e espessas nuvens de fumaça. pelo menos dessa vez. alimentando a fogueira que acendera no chão. nesse brilho. Seria possível que as batidas desferidas em sua caixa craniana. no aposento ao lado. À distância. tudo continuava no lugar. com caixas. as lajes de pedra. para o qual dava a rampa vinda da rua. mas sem fazer marca nele e. Uma das lajes brilhava e. não apenas o houvessem . Não devia haver necessidade de programá-lo para o tipo de cálculos em que parecia empenhado. percebia-se um mundo de pesadelo. com outro bárbaro pendente na extremidade da corda. bárbaro dos últimos dias. Roscoe baixara sua carga e lata com água logo por dentro da porta dando para a rampa e agora se inclinava. Esse aposento tinha o aspecto de antes. saídas de vapor emitindo colunas delgadas de fumaça e água superaquecida. a superfície entre derretida e cristalizada pulsando devagar. Continuei a partir o banco de madeira tirada do depósito. acampado na cidade abandonada por uma raça desconhecida. com o mostrador de controle circular ao lado delas. Era inacreditável que Roscoe pudesse saber o que fazia.

até que as árvores pudessem ficar por conta própria. nem mesmo a brisa era percebida. a preliminar. por si só. Cada árvore era estação receptora que recolhia informações. pelo que tinham simplesmente partido. se as árvores.privado de todo o senso comum mas. O levantamento a fim de determinar onde deviam ser plantadas. alcançar novos objetivos. lá fora. e por que o fora? Que sucedera para expulsar os moradores. emanadas na . apresentava-se às escuras. ou o mesmo que os guiara até ali. E esse objetivo teria sido. na verdade. graças a um meio que eu não podia imaginar (a interceptação de ondas mentais. e tal tarefa. pois devia haver muitos outros planetas onde poderiam executar outros planos. E dessa parte superior da cidade vinha o som distante e débil de vento que irrompia pelos pavimentos de cima. Nos de baixo. até alcançarem dimensões em que não mais precisavam de ajuda? Teria levado séculos. Mas valeria a pena e o trabalho. a construção dos poços para guardar as sementes e a criação dos pequenos roedores que as colhiam — teria havido muito a ser feito. talvez?). a plantação das árvores — a plantação e os primeiros cuidados. fossem plantadas para o objetivo insinuado no manuscrito de Knight. ou teriam sido expulsos? Talvez houvessem alcançado seu objetivo e a cidade servira o propósito a que fora destinada. Uma cidade abandonada. teria requerido muitos anos. Depois disso. talvez milênios. mas dobrando o pescoço pude ver a luz do sol nos pavimentos superiores dos edifícios imensos. apenas. lhe trouxessem a genialidade? O sol ultrapassara o zénite e a parte inferior da rua. igualmente.

galáxia. Os plantadores. percebendo o perigo. a fim de extraírem o conhecimento assim recolhido. recolhendo as radiações de conhecimento. na colheita. só em pensar. com certeza. encontraria safra das mais ricas. a intervalos periódicos. Com que freqüência viriam os plantadores? A cada milhar de anos. levando consigo a notícia da descoberta feita. talvez. eram até incentivados a vir. mas uma vez chegados não parecia que lhes restassem recursos a fim de partirem de volta. talvez. armazenado em um complexo DNA-RNA. . haviam adotado medidas de cautela extraordinárias contra a divulgação de notícias sobre o planeta e seu objetivo. quando se achassem mais ou menos próximos. A cada milhar de anos haveria. de modo que. Os forasteiros e estranhos podiam chegar. guardando-as para a época quando viriam os plantadores. Eu suava. E onde seria guardado o conhecimento derivado desse modo? Por certo não seria nas árvores. Nos poços e depósitos nos quais os roedores guardavam as sementes jazia um tesouro maior do que alguém pudesse imaginar. alterando as características puramente biológicas dos ácidos nucléicos. muitos outros tipos de informação pudessem também ser guardados. E onde seria guardado o conhecimento assim recolhido. Quem colhesse as sementes e descobrisse a técnica e código para apoderar-se do conhecimento ali contido teria os recursos intelectuais da galáxia às ordens. em vez de apenas informações biológicas. Milhões de receptores pairando acima da extensão da galáxia. Se alguém pudesse chegar antes dos plantadores desse pomar planetário. porém nas sementes. processando e aumentando-as.

entretanto. Ou não viriam mais? Ter-lhes-ia acontecido algo. os dedos pelos planos esculpidos naquele rosto entristecido e. na orla da cidade.novos conhecimentos galácticos que mereciam ser apurados. não a queria olhar. de muitos planetas) podia não ser mais do que um projeto infantil. Um deles esculpira a boneca e podia ser que tal escultura fosse feito maior. aquela plantação no planeta (ou. talvez menos importante. muito . achando que não mais valia a pena? Nos milênios decorridos desde que a cidade fora construída e o planeta plantado. Passei. realização mais intelectual e. existira outra raça. mais emotiva do que a construção da cidade e plantio das árvores. Minhas pernas doíam de tanto ficar acocorado e estendi a mão para o chão. a que construíra o edifício parecido a uma igreja. ocorrera uma mudança em valores e pontos de vista de modo que para eles. fazendo cessar as viagens de colheita? Ou poderiam ter abandonado todo o plano. a palma voltada para baixo. Antes que chegassem. conhecia a estória e tinha conhecimento do tesouro e este. mas dotada de motivação tão rasteira quanto qualquer outra na galáxia. achava-se agora por ali. pensei que os plantadores do planeta. quem sabe. Achava-me ali. os construtores da cidade. Não a apanhei. a fim de descansar e preparando-me para mudar de posição. Eu. executado no entusiasmo errôneo da juventude. não tinham sido os primeiros por ali. estava presente. a mão desceu sobre a boneca. entretanto. por certo. Nenhuma das raças. enquanto o fazia. Quando o fiz. membro de outra raça. agora transformados em raça mais amadurecida ou senil. apenas. sim. era de existência muito sólida.

descansar um pouco. em uma nave. de qualquer maneira. e eu não ia intervir. para referir-se à coisa como o fizera nos escritos — mas quando o soubera provavelmente se comprometera de tal modo imerso no fantasma que perseguia. nesse contexto. enforcado no caibro. eu o podia compreender melhor do que a um mito. tinha de haver um jeito. Sempre havia o modo. A despeito do que Sara dissera quanto à oportunidade de que fossem todos eles mundos isolados.mais valiosa do que o mito que Knight perseguira. Eu não estava convencido disso. não saberia o que fazer. Apenas os humanóides se enforcavam. Knight talvez soubesse — devia ter sabido. e depois cuidaria desses outros mundos. qualquer tipo de nave. que o teria deixado de lado. Mesmo se o retirasse. Não podia saber o que ele desejaria que fizesse. . Bastava por as mãos. Era algo que podia ser vendido e. Mas fiquei a pensar no motivo que o levara a tanto. Enforcar-se no caibro tinha sido o que ele quisera. Mas compreendia que ele poderia tê-la abandonado somente depois de compreender que não havia como sair do planeta. pensei. Pensava no que haveria de fazer com o gnomo e resolvi deixá-lo pendurado ali. para quem se esforçasse bastante. Reconhecia o fato de que o modo escolhido para morrer acentuava seu caráter humanóide. Era tudo quanto eu desejava. Trataria de comer um pouco. Nenhuma turma de plantadores estúpidos poderia prenderme ali. parecia sensato acreditar que houvesse algum deles com inteligência capaz de enfrentar o espaço. fora o resultado. perder oportunidade assim. Pobre imbecil. não lhe dando valor.

Sara tivera razão. as possibilidades de sair seriam quase nulas. impelindome com energia. Apenas uma parte pequena de cada qual se apresentava revelada e teria sido temeridade minha entrar em algum deles. Não me afobei no trabalho. a menos que contasse com seguras indicações de que era o tipo de lugar procurado. Não podia dizer. a todos. Não havia para onde ir. dormindo apenas por instantes quando me cansava a tal ponto que receava negligenciar e errar nos cálculos a respeito deles. mas não perdi tempo imaginando qual seria o objetivo dessa ronda. de minha parte. a não ser para observar que na maior parte do tempo ele não permanecia perto de mim. é bem provável. a fim de levá-la na devida conta. Era como se houvesse. a fim de trazer cada mundo à realidade. dedicava-lhe pouca atenção. os pés estendidos para a frente. depois de ingressar em um deles. Eu os percorrera. mas depois de o conseguir começara a trabalhar sem dar atenção a mais nada. Precisei de algum tempo para calcular como por a roda em funcionamento. descoberto uma verdade estonteante e se congelara na imobilidade. que nenhum dos mundos oferecesse o tipo de tecnologia por mim procurado. Isso porque. Os mundos não proporcionavam saída. de repente. Tive a impressão de que ele rondava pela cidade. Roscoe não me importunava e eu. examinando cada um deles. do que o absolutamente necessário. Sem Pio e a criatura da roda jamais teríamos escapado do mundo de . Abandonara os cálculos e estava sentado sobre o traseiro. está claro.Lancei o olhar para Roscoe. Passei mais tempo. fitando o espaço.

porque ao . moribundo. e esses motivos lógicos não me podiam ocorrer. Mas o fato é que não descobri um só mundo que me tentasse. se fosse assim. Não havia motivo para tantos mundos. Embora eu compreendesse que devia haver. em absoluto. em estado de formação da crosta. ainda. nuvens rodopiantes de gases que me faziam sufocar. motivos lógicos para tudo aquilo. só em vê-las. queimada por transformação do sol em estrela nova. Existiriam apenas para se livrarem de visitantes indesejáveis? Mas. fracamente iluminadas por um sol apagado e de cor vermelha. Por que motivo os umbrais para aqueles mundos tinham sido feitos? Se alguém quisera utilizar tais estradas a esses outros planetas certamente planejaria que elas dessem para arrabaldes de cidades. Havia uma cinza calcinada de planeta. na maior parte mundos primevos — infernos selváticos ou regiões regeladas ou. ou.areia. para entrar. nenhum que exibisse sinal de inteligência até mesmo a mais rudimentar. Não haveria necessidade de centenas. Todos eram mundos maus. Não se satisfaria com uma selva ou vastidão gelada. ou de tais qualidades. meia dúzia deles teria bastado. pelo menos uma aldeia. Havia outros com atmosfera espessa. talvez pior. um mundo. Havia alguns que estavam claramente mortos — grandes planícies niveladas e sem vegetação. por não se acharem dentro dos parâmetros da lógica humana. Assim é que cheguei ao fim deles e não me encontrava em situação melhor do que antes. quando muito. nas mentes dessa outra raça. uma cinza estéril.

todavia. Era pensamento derrotista. Estava pronto a desistir. Não queria mover-me. Roscoe se fora. e uma agulhada de pavor percorreu . Sentei-me ao lado das cinzas apagadas na fogueira. reconheci. viajando para o leste. No crepúsculo da rua moveu-se uma sombra. Mas faltava a vontade para tanto. não queria tentar de novo. Ter-me-ia abandonado. disse a mim mesmo.começar alimentava esperanças. talvez sem desertar por completo. eu sabia. Mas estava errado. Em algum ponto da cidade encontraria um caminho ou pista. não recordava tê-lo visto por dias seguidos. Por enquanto. Quando chegasse a ocasião de fazer nova tentativa. teatralização. oeste ou sul. Talvez não houvesse mais o que fazer. no planeta. Tuck ou Sara. caso viesse novo vislumbre de esperança. talvez achasse resposta para a espera. mas apenas vagando por ali e sem se dar ao trabalho de regressar? Talvez fosse. e estas haviam desaparecido. eu me levantaria e entraria em ação. ao invés de rumar para as montanhas ao norte. Voltei à fogueira. fitei o crepúsculo na rua. gnomo. Eles haviam alcançado o que queriam. não percebi calor algum. Comprimi a palma da mão nas cinzas. lá fora. mas esta se apagara. limitava-me a sentar e sentir pena de mim mesmo — e não apenas de mim. Vai ter companhia. uma escuridão em meio ao cinzento. Era possível existirem outras possibilidades. mas de todos nós. o final da coisa. embora sem perceber o motivo para sentir pena de Smith.

Parou. O que se passa? Ele permanecia no crepúsculo. Ele estacou pouco depois de passar a porta e. Se aquilo lá fora quisesse entrar e me pegar. entretanto. nada se movimentava nela.. ainda devagar e com cuidado. ergui-me para cumprimentá-lo. Deixou a rua e subiu a rampa em minha direção. Ainda me restava a espada e eu não a sabia manejar bem. . mas lutaria. O sistema nervoso devia estar reduzido a frangalhos. como um homem velho tropeçando em beco estreito e de chão desigual. como se estivesse lutando contra um recaída na declamação rimada. gostei de revê-lo. A cidade se achava deserta. senão as sombras. Vi que era Roscoe e. fazendo pausa após cada palavra: — Você — virá — comigo. ia encontrar-me ali. Conforme observei. para pensar assim. Não havia motivos para crer que houvesse coisa alguma. procurando pegar-me.. — Roscoe — disse eu —. obrigado por ter voltado. a sombra continuava a se mover. mas não me movi. A matemática lhe dera bastante trabalho. cada palavra saindo com esforço: — Se — a matemática — funciona.meu corpo. fitando-me com expressão estúpida e depois disse. Quando se aproximava. pobre robô. disse devagar e com cuidado. falando cuidadosamente. caminhando aos solavancos. na cidade. abandonada. ao lado das cinzas da fogueira.

— Capitão Ross — disse. Eu já não tenho mais solução alguma. não ia com calma. Se você tem alguma solução. Solucionar ajudou-me muito a melhorar.. Ele. Basta ir com calma. entretanto. estou melhor agora. deparar. afinal —. Dava para sentir que se esforçava por falar corretamente. — Não se esforce muito. Estava cheio com o que tinha a dizer. que compõe o chão do espaço-porto e selou as espaçonaves. — Podemos gastar algum tempo. Falava com dificuldade menor. de que a cidade é feita. borbulhando por sair.. Adiantei-me com rapidez e o agarrei pelo braço. ninguém está com pressa. Você tem todo o tempo necessário. para ouvir o que tem a dizer. — Muito obrigado. mas ainda não era fácil. — Vá com calma. Tantas palavras haviam-lhe custado esforço. — Percorremos uma longa estrada — fiz lembrar. Receio de que não daria certo. — . Roscoe — aconselhei. supurar. e eu não podia separar. Não procure falar depressa. Eu espero. — Existe a estrutura — observou ele. — Estava confuso. — Pelo amor de Deus! — supliquei. posso esperar por ela. — A estrutura branca. Mas solucionei o problema. Você vai indo muito bem. agora. Pois existem duas coisas neste planeta. comparar. e ambas lutaram por expressão. Ficara engarrafado dentro de si por muito tempo.Tive dificuldades — explicou então. — Vá com calma. capitão — disse ele. no esforço por manter ar digno — por sua tolerância e grande consideração. por algum tempo tive receio.

— Nem o inferno conseguiria romper a ligação — sugeri. — Mas. Compreende a implicação? Arquejei. com ar de dúvida — eu teria dito que podia reconhecer a realidade. Compreendeu-me? — Acho que sim — respondi. Existem pelo menos duas realidades.Parou e esperou por tanto tempo que receei ter-lhe sucedido algo. o que sabe sobre a realidade? Dei de ombros. . Agora. — Nesse material branco — continuou ele — o elo se estende com mais profundidade do que as órbitas externas dos eléctrons. — Você não contou tudo. — De modo bastante difuso. até boa profundidade na casca. faça o favor de vir comigo. Agora. afinal. ao compreender ao menos um pouco do que ele acabara de dizer. não tenho certeza. Mas voltou a falar. Talvez existam muitas outras. saiuse com uma pergunta: — Capitão. Disse que havia duas coisas. após momentos. — Foi o imaginado. Pergunta imbecil. como a debater internamente se devia fazer novas revelações e. — Na matéria comum — prosseguiu — o elo entre os átomos tem a ver apenas com as cascas externas. — Em tempos idos — respondi. Ele me fitou por um momento prolongado. espere aí! — protestei. capitão. .Este planeta — explicou ele — tem camadas sobrepostas de realidades diversas. — Precisamente — declarou.

Não fazia o menor sentido. mas eu me achava em situação na qual estava pronto a agarrar qualquer tábua de salvação. vi que amanhecia. com seu chão branco e leitoso. — Sei apenas que sei. nesse brilho. — Mas como é que você sabe de tudo isso? — indaguei. Já não murmurava para si e caminhava com rapidez. O sol estava na metade do caminho. podemos ir? Voltou-se e desceu a rampa. era lugar cheio de brilho e. no céu oriental. igualmente. Mas essa questão de realidade em muitas camadas era bobagem completa. examinando o assunto. embora continuassem a surgir momentos em que gaguejava e tinha de forçar as palavras e o enunciado apresentava espaçamento imperfeito. E agora. Ele mudara — não restava dúvida alguma a esse respeito — mas passei momentos difíceis. Quando saímos da rua para o espaçoporto.Estava quase fluente. extraídas de uma imaginação ampliada. A idéia de átomos com ligação mais estreita não chegava a fazer grande sentido. Chegamos à rua e Roscoe partiu rumo ao espaço-porto. cercado pela brancura da cidade. talvez tudo que dissera fossem palavras vazias. como se fosse impelido por um objetivo — com tanta rapidez que tive de estugar os passos para acompanhá-lo. — Sobre os elos e as realidades. O espaço-porto. eu não pudesse imaginar como tal fosse possível. Que tinha a perder? Nada viera a meu favor e talvez nada fosse a favor dele. eu o acompanhei. embora. — Eu não sei — respondeu. . por favor. tentando decidir se era modificação verdadeira ou apenas uma fase nova em sua loucura.

Não era muito grande. Estaquei e fitei aquilo. Foi uma caminhada longa. fazendo de conta que construíam um tipo de máquina maravilhosa. Ficando para trás. Por todo o tempo em que eu me esforçara. De todas as besteiras infernais que tinha vistor aquela era a pior. formariam usando diversas coisas guardadas. Por muito tempo pareceu que quase não nos tínhamos adiantado e então. fonte de energia — e um emaranhado de fios e válvulas. aquele robô idiota estivera procurando na cidade. estávamos bem longe das paredes da cidade e mais próximos das naves. de qualquer modo. enjoados de férias. com cerca de três palmos de altura e talvez dez palmos quadrados. recolhendo todos os tipos de lixo esquecido e jogado fora. Roscoe parecia caminhar um pouco mais depressa que antes. .do bateria — ou. Aproximaramo-nos bastante da nave de Sara. de modo súbito. mas não dispunha de fôlego para gastar nisso e. e o que interpretei como sen. Gostaria de perguntar o que se passava. trazendo-o para ali e preparando a engenhoca.a brancura das naves se apresentava como fantasma à luz do dia. percorrendo os mundos. até que pude ver a engenhoca em sua base. Era uma coisa de aspecto aloucado. De mais perto. da distância parecia-se a um amontoado artístico de lixo. Partimos para a imensidade do campo. faltava a certeza de que me respondesse. pelo menos. parecia-se menos a tal e mais a algo que dois garotos. tive de dar carreirinhas para acompanhá-lo. com espelho de algum tipo. incapaz de falar.

se a matemática estiver certa — disse ele. A máquina de aspecto idiota funcionara. aqui e acolá. embora eu não o houvesse conhecido no eu antigo. surgiu um som parecido ao de vidro partido. Era apenas um sonho. libertei a mim mesmo. e eu não conseguia mover um dedo. uma cascata de fragmentos parecidos ao vidro que saía da nave caiu no chão. veio ter comigo. Estendeu as mãos. Estou completo. mais parecido a um ser humano. também. Não aquele Roscoe de murmúrios e tanta falta de jeito. pelas modificações em meu cérebro. O Roscoe não podia fazer uma coisa dessas. Não era possível. a nave se apresentava livre. modificações que não podia compreender e não sabia como . E realmente parecia. Voltei ao eu antigo. desembaraçada. Roscoe levantou-se. — Está feito — anunciou.Roscoe se acocorara diante do que imaginava ser um painel de controle e estendia as mãos para os botões e chaves. capitão. outra vez. em bom estado. Fez alguma coisa no painel e. fitava-me de frente. — Tanto para você quanto para mim. — Agora. válvulas relampejaram por instantes. não dava para crer. livre do brilho leitoso que a máquina derramara sobre ela. com certeza. Fiquei paralisado. — Estive confuso — explicou — por tudo quanto me aconteceu. Quando libertei a nave. Ele não apresentava qualquer dificuldade para falar e se movimentava com maior naturalidade. menos a um robô de sons metálicos. agarrou-me pelos ombros. e lá estava a nave. que eu conhecera antes.

Não sei como agradecer. de modo a ocasionar uma compreensão que não tinha antes. — Não — retorqui —. quem quer que sejam. mais uma vez. Você me libertou dos centauros. Isso deve fazer amigos. — Capitão — disse Roscoe. Agora. tendo-as empregado e provado que são úteis. porém. De outro modo não se pode explicar por que as batidas de grosseiros tacos em meu cérebro pudessem modificar. — Pare com esse sentimentalismo imbecil. trabalham de muitos modos para alcançar cada destino individual. Os acionadores do universo. Você está pior que o Pio. voltei a ser eu mesmo. de nós dois. — Somos amigos — asseverou ele. tentei voltar-me para sair correndo em direção à nave. Estivemos juntos em volta de muitas fogueiras de acampamento. — Não existe necessidade de agradecimentos. . causar curtos circuitos e alterar a configuração de meu cérebro. e mais.. — Este é meu destino. Descobri que a paralisia que me acometera ia sumindo. Ainda pensa que eu sou um paspalhão. Eu me libertei dele. Eu o liberto deste planeta. não me deixou ir. E eu posso ter sido um paspalhão.utilizar. mas isso acabou. acho que você não é um paspalhão. de nós dois. Isto. — Cale a boca! — berrei. mas Roscoe me agarrou com força pelos ombros.. — Sim? — O senhor ainda não acredita. Isto deve fazer amigos. — Pio falou-lhe de destino — prosseguiu.

Podíamos decolar no instante que quiséssemos. mas o conhecimento e informação guardados ali. também. Essa cultura . subi a escada da nave. Não um outro planeta (embora supusesse que podia vendê-lo. para onde ia? Entrava em outra realidade. Finalmente ali estava. uma cultura anterior àquela que construíra a cidade. na forma de sementes. como Tuck se apagara) e. afinal. eram recolhidas por colônias de pequenos roedores e não devoradas. entretanto. estendi a mão e acariciei o painel. Eu perguntava a mim mesmo se tudo dera. Podíamos deixar o planeta e levar conosco o segredo de seu tesouro. porém depositadas em grandes poços e celeiros. conhecimento recolhido por árvores que eram receptores de pensamentos. espalhadas no chão. O modo exato pelo qual alguém poderia transformar um tesouro assim em transação monetária não me ocorria no instante. Sempre que alguém tinha algo a vender descobria como fazê-lo. mas sabia que haveria um jeito. o planeta onde um homem podia simplesmente desaparecer (ou apagar-se. dizia a mim mesmo. Era. Naquele planeta havia mais do que a cidade branca e árvores que se apossavam do conhecimento. tendo-se apagado ou desaparecido. A coisa ia além. em outra vida. como Pio passara? Tinha existido outra cultura. armazenando conhecimentos que juntavam nas sementes em seguida espalhadas e que. Na cadeira de pilotagem. esperando o dia da Grande Colheita. também).Dei a volta à engenhoca ridícula que ele fizera. Roscoe bem atrás de mim. naquilo — em que eu tivesse algo para vender.

o mesmo no caso de Pio. fitando o painel. Tuck. para começar. Tudo quando me restava era fechar a comporta e acionar os motores. procurei ser sincero comigo mesmo e verifiquei que era empreitada das mais difíceis. mas hesitei. . e não tinha sido o que Sara. sumir? Roscoe falara em realidade de muitas camadas. Tuck e George se achavam fora de alcance. Eu ficara pensando no que desejara. nos arrabaldes da cidade e esculpira a boneca que quase caía de meu bolso na japona. Poderia essa cultura. George ou mesmo Pio tinham querido. Tudo que desejara fora sair do planeta e estava. entretanto. estaria eu com receio de ser o único a regressar? Permaneci sentado. Não estaria. se tivesse sobrevivido. contar o segredo de como um homem podia apagar-se. Permaneci sentado na cadeira de piloto. agora. no tocante à realidade? Tudo isso. De nada adiantava segui-los para trazê-los de volta. surgia essa relutância em partir? Seriam os outros? Tínhamos sido quatro. Por que motivo.anterior fizera o edifício de pedras vermelhas. nada tinha a ver comigo. com a razão. em condições de fazê-lo. havíamos achado aquilo que desejávamos. tal realidade segmentada existia apenas naquele planeta. indagava a mim mesmo. mas Roscoe estivera certo no tocante à matemática (ou que outro nome aquilo podia ter) e libertara a nave. e que era isso? Se assim fosse. afinal. lá na trilha. ou poderia existir também em outros? Eu encarara aquilo como tolices e talvez o fossem. também. agora vazio. Nada mais simples. Todos nós.

por que você teve de ir e achar o que procurava? Por que não pode voltar e ir para casa comigo? Por que não posso apanhá-la? Lembrei-me da última noite. porque eu não conseguia juntar coragem para tanto. E por que essa lenda estúpida tivera de se mostrar verdadeira e estragar tudo entre nós? Recordei também aquele primeiro dia. — Vamos voltar — anunciei a Roscoe. para logo em seguida. pelo amor de Cristo. Sara.Mas restava Sara. de algum modo ainda o poderia fazer. disse para mim mesmo. Havia algo mais. na Terra. George ou Pio. compreender que havia lágrimas rolando em minhas faces. pois. em que ela viera a meu encontro na entrada da casa. de braço dado. — Não — respondi. . — Voltar por causa da Srta. Ela podia ser alcançada e eu trazê-la de volta. tentei travar mais uma luta e tive uma sensação engraçada nos olhos. — Para buscar o Pinta. e havíamos seguido juntos por ali. Saí da cadeira. Sara. Foster? — indagou ele. quando nos sentáramos ao lado da fogueira e ela dissera que tudo poderia ter sido ótimo entre nós — tão bom. Sentado. Tuck. fui ao armário atrás da cabina. bem próximo ao pavor. todavia. para nós dois. nenhum deles. Sara também não. até a sala onde Tuck e George nos aguardavam. estava fora de alcance. Dali retirei a outra arma laser. se não houvéramos partido na perseguição a uma lenda.

Eu não teria de ouvir os murmúrios. Se bem que. — É uma nova capacidade — prosseguiu Roscoe — e causa extrema confusão. falta apenas ver. sabendo que não faziam sentido. está claro. Percepção sensorial do ambiente. mas era preciso continuar ouvindo aquela tagarelice. . E não desejaria ir para lá. Recordei. — Tenho a certeza de que está tudo na mente. seria a expressão correta. caído de costas. Eu achava melhor que ele voltasse aos murmúrios de antes. É como um quebra-cabeças com um milhão de pedaços. até eu lhe contar de que se tratava. na batalha contra o centauro. e o que sabia sobre aquele planeta? Nunca estivera por lá. ao que suponho. também. pois Pinta não passava de um cavalinho. Mesmo assim. pensando no assunto. Chegara a ponto de perguntar o que eu queria dizer. caminhando a meu lado. nem ele nem eu pudéssemos ter pretensões nesse aspecto. tão simples que causa espanto não ter visto logo de começo. Onde quer que se vá.Uma loucura. pois perturbaria menos. A glória coubera toda a Sara. porque nela era possível surgir algo de valor. e tudo que se tem a fazer é colocar os pedaços no lugar certo. de modo que estaria em condições de ouvir. caso eu o chamasse de volta. não dava para afastar a recordação de Pinta descendo vagarosamente a trilha. E eu ia ficar quanto tempo tratando de salválo? Ele havia dito que queria ir para a Terra. — Oxalá eu pudesse compreender com inteireza o conceito de realidades múltiplas — disse Roscoe. e ele surge. não fosse por mim. Ainda estaria no barranco. como me carregara corajosamente. quando me referira à Terra.

dizia a mim mesmo. sabem-se. em volta do toco decepado. para que fossem testadas e verificado se realmente continham conhecimento. decolar e afastar-me do planeta. passamos pelo poderoso tronco de árvore caído no chão por quilômetros seguidos e o poço barulhento. Prosseguíamos como se fôssemos impelidos por grande urgência. Todas as contas estavam pagas e encerradas. devesse ter apanhado boa quantidade de sementes. pois tinha muito em que pensar. No mesmo estava certo de que devêssemos sair outra vez. Podíamos ter partido. Contara que talvez estivessem à espera. de consciências limpas. quase desejara que assim fosse. mas continuei andando. conhecem-se os fatores ambientais. Roscoe alisou uma faixa do terreno e trabalhou em equações sem fim. O objetivo da viagem fora alcançado e todos haviam conseguido o que queriam. A atitude lógica teria sido a de fechar a comporta. não surgira qualquer sinal dos animais monstruosos que nos haviam acossado para lá. . Quando tínhamos deixado a cidade. Mas eles não se achavam lá e nós passamos pelo grande edifício vermelho que sonhava à luz do sol. ao lado da fogueira. Meia dúzia de vezes estive a ponto de voltar para trás. se quisesse transformá-lo em dinheiro. E à noite. Era como se alguém houvesse posto a mão larga em minhas costas e me empurrasse por ali. mais tarde. embora. Com a carabina laser nas mãos.percebe-se pelos sentidos. não haveria problema. Não lhe dei grande atenção. O caminho pareceu mais curto do que na primeira viagem.

por sobre aqueles quilômetros de terra vazia. Era mais do que Pinta.murmurando enquanto o fazia. fazendo-me ver uma resposta. A trilha descia a elevação. a boneca fazia parte da coisa. . enquanto ele escrevia e murmurava. subimos a uma elevação e vimos diante de nós o começo da última faixa de terras ressequidas — onde os cavalinhos nos haviam abandonado e tínhamos encontrado o monte de ossos e Pinta. a faixa de sujeira causada por viagem em uma das faces. a madeixa de cabelos a cair sobre os olhos. encaminhando-nos de volta à galáxia. Via-lhe o rosto à luz da fogueira. a noção de que não era apenas Pinta. Houve ocasiões em que tirei a boneca do bolso da japona e me pus a fitar-lhe o rosto — aquele rosto horrível e torturado — talvez para apagar desse modo o outro rosto. também irracionalmente. cruzava uma parte plana e subia. um pouco para mim e um pouco para si próprio. embora Pinta fizesse parte da coisa. Noite após noite. contorcendo-se. era Sara quem me puxava de volta. afinal. Veio-me então. Após muitos dias. já que muitos fatores imponderáveis e grandes pareciam seguir rumos de colisão. que me fitava sobre o fogo. era parte de tudo quanto acontecia. falando. rumo às terras secas. com clareza. sentei-me em sua companhia ao brilho da fogueira e procurei calcular por que motivo estávamos ali e não a muitos milhões de milhas no espaço. do outro lado da mesma. talvez na esperança irracional de que os lábios de madeira se movimentassem. Isso porque. os olhos fitando-me com firmeza.

— Sara — protestei —.. Observei-o. Estragou tudo para mim.. — Foi você. não passava de pequena boneca sobre Pinta. algo se movia. quase não tocava no solo. Não havia como iludir-me — o balanceado. Por mais que me esforçasse. tendo Roscoe no encalço. exatamente naquele lado do ponto onde mergulhava para sumir. Você estragou tudo para mim. um minúsculo ponto luminoso brilhando ao sol. não pude esquecer o que você e o Pio me contaram. deslizando no chão. De longe ela nos viu e acenou em resposta.. pois não? Tinha tanta certeza que deixou o Pinta para me trazer de volta.Bem lá em cima na trilha. Roscoe falou baixinho: — É o Pinta. — Não pude ficar. acenando com os braços e gritando. não é? Tinha calculado tudo. — Você é quem vai escutar. que galopava. A meu lado. raciocine! — Não! — gritou. Você sabia que ia ser assim. — Mas o Pinta não voltaria sem. Encontramo-nos na terra plana e Pinta ali estacou. Pinta vinha com a velocidade do vento. Estava furiosa comigo.. pelo amor de Deus. E então eu corria pela encosta abaixo.. Sara desmontou. Acabou com a mágica e. . Antes que eu a pudesse tocar. era como nos bons tempos. aquela marcha oscilante. intrigado por momentos e depois ele alcançou uma posição na trilha onde se delineava contra o grupo mais escuro por trás.. outra vez! — gritava-me.

— Não. nós não vamos conseguir. não foi isso — concluiu. Eram centenas. eles não deixarão. Acompanham nossos rastros apressados. Seguiam à frente. — Não foi você sozinho. Ela se chegou bem a mim. empurrando e acotovelando-se e alguns eram levados para as encostas distantes. estendendo-se por ambos os lados. talvez a me odiar.. . derramando-se pelas encostas. Com nossas briguinhas idiotas. Ergui a cabeça e lá estavam eles. Eles nos seguiram por todo o caminho. mas chegou mesmo assim. Vamos voltar para a Terra. — A nave está solta. E aumentam em número por todo o tempo. Estamos perdidos. livre. o rosto se contorcia como se procurasse evitar o choro. Não pareciam mover-se. — Se o ser humano generoso e com tantas esperanças quiser olhar — pediu Pinta — perceberá de que ela fala. a voz abafada em meu peito —. porque eu era a última coisa de que dispunha para se agarrar. tomei-a nos braços. e.. — Mas você não sabe! — repliquei. a fim de abrirem caminho aos que vinham em grupo por trás. Nada mais adianta. juntando-se contra o perfil no horizonte acinzentado naquelas terras — imponente manada dos animais enormes que haviam deixado os ossos enfileirados no barranco. Dei dois passos rápidos à frente. — Mike — disse. Roscoe descobriu como libertá-la. fluíam.Parou de falar em meio à frase. mas todos nós. talvez milhares.

Estão atrás de nós. — Você sabe? Por todo o tempo em que Tuck esteve com ela. — . todos eles vinham para nós. Afastei-a de mim com um empurrão. — Eles são em número demasiado — observou. Libertei o braço com um safanão. — Ficar aqui simplesmente e deixar que eles nos peguem? Em todas as direções em que se olhasse. também — fez ver Roscoe.. esforçando-se em demasia por abafar o pânico que crescia.. Cercados por monstros comedores de gente. e lá estava Sara. podiam levar o tempo que quisessem. Em momento como aquele. — Você achou a boneca — observou Sara. — Que boneca? — perguntei. Roscoe segurou-me o braço. eles apareciam. pensar em tal besteira. Tinham-nos cercado. — A boneca de Tuck — disse ela estendendo a mão e tirando-a de meu bolso. Estávamos inteiramente cercados no centro. — O que quer que eu faça? — gritei em resposta. Roscoe caiu de joelhos. Voltei-me para ver e lá. na crista da elevação que tínhamos acabado de atravessar. haviam-se tornado mais numerosos que nunca. e aquele imbecil murmurante e idiota de joelhos. — Que diabo! — gritei-lhe. não a pude ver de verdade. que parecia transfixada. não tinham pressa. fitando a boneca. alisou com a palma aberta uma faixa do chão à frente. ergui a carabina laser. Vinham com calma. a voz com tranqüilidade demasiada. lidando com equações.

iam fazer clarão e desaparecer. Sara veio colocar-se bem perto de mim. Eram corajosos. — . Eu os queimaria. Não dava para pegá-los a todos. você e eu? Podemos começar. podemos. moverse-iam por todos os lados. e você esperando no salão? Você com o vestido verde. não planejara dizer. Tinha a carabina à bandoleira no ombro e aquela boneca boba bem presa ao peito. confiantes. dizendo o que não pretendera dizer. — Pois então. Sempre que quisessem atacar-nos. como se eu estivesse acabando de passar por aquela porta.. e quando começassem a se adiantar.O mundo às vezes faz pouco sentido — disse Pinta —. podemos recomeçar tudo. na Terra. sem ter de trocar palavras com um cavalinho estúpido. pois tinha muito que vigiar. e talvez os fizesse desanimar.. — Sara — disse eu.. se escaparmos desta. o alento prendendo-se à garganta como se fora um garotinho de escola. — Capitão Ross — chamou Roscoe — acho que finalmente descobri.. Rodeavam-nos por completo. Mas eu sabia que eram numerosos demais. mal soubera que queria dizê-lo. mas a maior parte. que beleza. como Tuck sempre a carregara. transformando-os em fragmentos de carne fumegante. você não acha? — respondi sem fitá-lo. aos milhares. nunca haviam enfrentado uma arma laser. mas com meu senhor e eu em guarda. Desapareceriam em jatos de fumaça. — Sara. — Fique fora disto! — berrei-lhe. pagariam caro.

— Tudo isso é besteira! — gritei. sabendo correr tanto. Estarei disparando em todas as direções... acho que adorei cada instante de tudo aquilo. e essa parte se tinha ido. Mas.. fique fora da linha de fogo. — Ele soube utilizar a boneca. — Tuck o utilizou..E você se apaixonou por mim — disse ela — e depois me insultou. — observei.. juntos. Pio teria compreendido. Tudo estava de volta. o rosto cheio de tentáculos e três vidas a viver. Uma raça antiga fez a boneca. avolumando-se dentro de meu cérebro como eu o conhecera naquele instante em que mãos e tentáculos se tinham encontrado e apertado. lá estava ele. — Existe outro meio — disse Sara. tudo que procurara recordar desde — .. e tudo desandou.. que agora fora para sempre à sua terceira fase. — Seria uma pena se alguma coisa pudesse acabar conosco. abaixe-se. zombou de mim e eu revidei. saberia como. Houve momentos em que o odiei tanto que poderia ter-lhe amassado a cabeça. mesmo sem boneca.. Enquanto pensava.. O corpo parecido a uma barrica. pensando bem. — O Tuck compreendeu! — gritou-me ela em resposta.. tudo que eu conhecera e sentira. — Quando eles avançarem — propus —. George também soube.. uma parte de mim. Era uma raça que compreendia. — Tuck não passava de uma aberração. Pensei em Pio. o mais depressa que.. A boneca. criatura de muitas pernas pequenas. — Nós lutamos tão bem. um tirano — disse ela — e eu o odiei. se ele estivesse ali. — Você é um opressor. e tínhamos sido um só.

mas uma só. as profundezas insondáveis do eu. saber que ali estavam. o simbolismo da boneca que se tornava claro. também. cada qual era verdadeiro. E lá estava eu. maravilha e pavor. e estavam lá apenas por causa daquilo que Pio me dera. o significado das equações que Roscoe estivera escrevendo no chão. assim como vira as demais — não a mim mesmo sozinho. Só que não se tratava de uma questão de contar. vislumbrara o tempo e os acontecimentos desse planeta que se apresentavam à vista. Eu a enxergava com clareza. entre morto e vivo. se. pois na compreensão deve haver um certo terror. no penhasco das terras secas e sentira a cronologia delas. agora. era ver. não fossem muitas mentes. agarrar e fundirme com as mentes alheias como. as apalpadelas filosóficas de um cavalinho que ficara de costas por séculos a fio. sem conseguir. glória. surgia uma camada diferente. vira as camadas. apresentando-se com clareza cristalina. porém em companhia de Pio e mais todos os outros. certos fatos se destacaram. tão verdadeiro quanto os níveis geológicos que um geólogo pudesse contar. tornavam-se visíveis. E aquele momento de mim mesmo quando. a capacidade de estender-me. as arestas esquecidas de mim mesmo. e metade Pio — e não somente Pio. Todo o resplendor. por um instante. E do caleidoscópio de toda a maravilha e conhecimento. muitos níveis sencientes e. Havia muitos universos. sentir.então. A intuição de Sara. De súbito. está claro. que se achavam comigo. em certos intervalos de tempo-espaço. metade eu próprio. . E eu próprio também. dentro das camadas. porém todos os outros se achavam comigo.

e Tuck. que as pessoas ali residentes nunca falavam e que o barco na água jamais se moveria sobre ela — que a aldeia e o rio. o céu. passarmos a um mundo melhor. Sem saber como. tudo aquilo já não importava. graças aos tacos de pólo dos centauros. o choque e parte do terror do saber. todos demos o passo que levava ao conhecimento infinito. a outro tempo e lugar e tudo que tínhamos a fazer era dar um passo minúsculo — não tanto para nos afastarmos deles quanto para chegarmos a lugar melhor. os fios coloridos postos no lugar e mantidos ali por toda a . haviam esculpido na face da boneca o espanto. e lá chegamos. em sua mentalidade perseguida pelos sonhos. tudo vinha tomar seu lugar. elementos em um quadro de tapeçaria. antes de serem arredados pelos plantadores. chegara bem próximo da verdade. tecido séculos antes e que o tempo não tocara.Os habitantes antigos do planeta haviam sabido. talvez muito mais do que qualquer dos outros. mediante pancadas. mas cheios de fé mística. as pessoas e os cachorrinhos eram. a sensação de irrealidade. George Smith soubera. mas ainda assim irrealidade muito acolhedora. as nuvens. todos eles. Era lugar que dava a impressão de uma tapeçaria. antes mesmo de encontrar a boneca. Dava a impressão de ser lugar de silêncio e paz. imobilidade. dentro de meu cérebro. tinham sabido ou sentido imperfeitamente. Roscoe fora levado a saber. os cascos que faziam subir uma nuvem de poeira. O círculo de animais monstruosos que nos acossavam em ataque trovejante. sem reconhecer o que sabia. pois pertencia a outro mundo. E agora. as árvores.

eternidade. Havia regras. Havia certas coisas e atitudes mentais. porém ser-se-ia incorporado ao próprio tecido. Tínhamos deixado tudo para trás. combinando com o conjunto. Sara já não a tinha nas mãos. . A boneca ficara para trás. e tal perspectiva agradava muito. Achávamo-nos em elevação do terreno acima da aldeia e do rio. Estendi o braço e a chamei a mim. a própria composição que se esperaria de um calor humano e acolhimento fácil. entretanto. tudo que havíamos conhecido antes. paralisados e em descanso. Devem ser muitas as coisas que o podiam trazer aqui. — Não vamos voltar — disse ela. O céu ostentava um amarelado que era refletido pela água e as casas humildes eram todas marrons e cor de tijolo. talvez para que outro a achasse. a necessidade de ir. — Mike — e Sara chamava baixinho. seus olhos brilhavam de satisfação. Nunca existiria. que não podiam ser levadas àquela terra. o verde das árvores não era o tipo de verde que seria de esperar-se comumente. — Nunca pensaremos na Terra. porém. — Não podemos voltar — afirmei. ela ergueu o rosto e a beijei. — Este é o lugar que procurávamos. nem eu o laser. A boneca e as armas. Havia algo que lhe faltou. talvez. e todos estávamos lá — todos. É o lugar que Knight queria encontrar. com exceção da boneca. tinha-se a sensação de que era descer para lá e nunca mais se poderia sair. Mas nunca o achou. pensava eu. porque nunca encontrou a boneca. — Não há meio de ir. Sara não tinha a carabina.

mas era provável que nunca os encontrássemos. embora continuasse a tapeçaria. De algum modo eu sabia que aquele era um mundo sem fim e que era. alcançando os horizontes distantes. subiam o morro correndo a fim de nos receberem e os habitantes da aldeia haviam-se voltado. gritando e latindo. O barco movia-se na água. bem como os campos e bosques. para nos olharem. lugar eterno e imutável com espaço para todos. — Vamos descer e conhecê-los — propôs Sara. com brilho nos remos.assim como a criança abandona os brinquedos que não mais lhe servem. o fim do tempo. alguns acenavam para nós. todos eles. Tuck e talvez o próprio Pio. A aldeia e o rio estendiam-se por baixo de nós. descemos o morro para entrarmos em outra vida. cachorros também. pois não os estaríamos procurando. igualmente. Em algum ponto dessa terra achavam se Smith. Meninos e meninas. A irrealidade desaparecera. Nós quatro. . As distâncias eram grandes e não haveria o impulso de viajar. lado a lado.

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