A Moda Brasileira das Décadas de 60 e 70: uma visão organizacional, de produção e mercadológica1 Soraya de Fátima Silvestre Quirino2, Camila Geremias

França3
Nos anos 60 a apropriação de imagem provenientes de jornais e revistas, da publicidade e outras formas de comunicação promoveram a definitiva dissolução de fronteiras entre o culto e o popular, entre o artesanal e o industrial, no que se refere tanto ao produto de moda, quanto aos modos de produção e do mercado. Esta pesquisa pretende aproximar, a conotação de imagens da moda, que assumem a aparência da organização da moda nos anos 60 para os 70 no mundo e identificar este movimento na organização, na produção e no mercado brasileiro. A intenção não é fazer um levantamento geral de todos os momentos deste período da moda dos anos 60, mas exemplificar com peças significativas, os movimentos da moda na organização de novos espaços de mercado. Permeada por UMA nova categoria de linguagem dentro da comunicação (indecidibilidade) inserida em um discurso da pós-modernidade, apontar as tendências futuristas que eram representadas pelas imagens, enquanto aparência, mas que em uma de suas essências demonstravam a dinâmica da introdução e consolidação das fibras sintéticas no mercado brasileiro localizados em espaços organizados como a Fenit. Para, isso foi realizada revisão bibliográfica de forma a sustentar o objeto de estudo, bem como o levantamento dos principais estilistas da época referenciados nas figuras de Paco Rabanne e André Courrèges. Estes estilistas foram selecionados por terem sido ícones na introdução de novos materiais como o plástico e o metal para matéria-prima na confecção de suas criações.

Palavras-chave: Moda – Comunicação – Década de 60 e 70

Introdução A década de 60 pode ser vista como a passagem do modernismo para o pósmodernismo ao notarmos que o “pós-modernismo é um nome geralmente dado para formas culturais de um período que aparece desde os anos 60” (Samuel: 2002: 121). Por este motivo é uma década de transição, não somente pelas revoluções acontecidas no campo político e social, mas também nas novas e diversas formas de linguagens que começam a se abordadas como forma de comunicação que culminarão na transição da modernidade para a pós-modernidade. A moda de cada tempo,traz consigo elementos de várias ordens, sociais, econômicos, tecnológicas, culturais, estéticas, entre outros.
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Projeto de Pesquisa CEART/UDESC Orientadora, Professora Mestra do Departamento de Moda – Centro de Artes – Av. Madre Benvenuta, 1907 - CEP 88034-000 – Florianópolis – SC. 3 Acadêmica do Curso de Bacharelado em Moda – Habilitação: Estilismo – CEART/UDESC, bolsista de iniciação científica PROBIC/UDESC.

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é preciso analisar as interações entre todos os fatores econômicos e tecnológicos aplicados.. Segundo (Durand: 1988: 78). mas que em uma de suas essências demonstra a dinâmica da introdução e consolidação das fibras sintéticas. através de eventos de moda como a Fenit.] Nos anos 70. além de promover com a parceria da Casa Rhodia. em um segundo. a indecidibilidade da moda onde tudo pode ou não ser consumido ou destruído pela moda. Guilherme Guimarães entre outros. a chegada das fibras sintéticas no Brasil. não tendo um perfil definido. Neste sentido.” (Ruffat: 2002: 127) No mercado brasileiro.. Na seleção de imagens. com o seu estilo ecléctico (sic). tenta-se apontar as tendências futuristas que eram representadas pelas imagens. para apresentar coleções em tecidos á base dos fios sintéticos de sua fabricação. Foram tudo menos calmos. as relações entre as esferas econômicas e culturais se entrelaçaram no objetivo da comunicação de novos materiais e novas tecnologias nos desfiles-shows que formaram as interações necessárias entre a produção têxtil sintética e seu potencial mercado consumidor.Na presente pesquisa. a fim de definir a natureza das relações que eles mantêm entre si. enquanto aparência. pois nesta década prosseguiram as transformações em grande escala [.. o que Seeling (2000) coloca: Os anos 60 ficaram na memória como a grande época da revolução da juventude. o pósmoderno. impunha a verdadeira revolução no mundo da moda (Seeling: 2000: 409-10) Os desfiles-shows proporcionados pela Fenit durante a década de 60 tiveram como principal função atrair o público para a criação de um mercado de moda brasileiro impulsionando as negociações da moda nos principais eixos brasileiros. Rio de Janeiro e São Paulo. 2 .. entende-se que “para relacionar a produção e o consumo de artigos de moda com o fenômeno cultural e social da mesma. cujos textos midiáticos refletem o discurso da moda. enquanto os anos 70 se destacaram pela sua irregularidade. Destacando que a preponderância de São Paulo em têxteis e confecções reservou à FENIT a posição de principal salão de moda no Brasil. é sinalizada em um primeiro plano a consolidação das fibras sintéticas como o poliéster e. freqüentemente nesta década a Rhodia convidava costureiros como Clodovil.

v. É nesse contexto que se entende a iniciativa da Rhodia de intervir discretamente na programação de lançamento de sua clientela industrial. e novos olhares sobre a moda são apontados. a fim de reduzir um pouco a dispersão. jan-mar 1996. do governo francês citado por (Ruffat: 2002: 131): Os investimentos da indústria têxtil devem ser orientados em direção aos produtos do futuro: têxteis sintéticos. 4 ROBERTS. “A Moda dos Anos 60 entre o Artesanato e a Indústria” in Moda Palavra. 174.] que oferecem boas possibilidades de melhora do saldo comercial na perspectiva da expansão do Mercado Comum . 2002.. n. Segundo Roberts (1996) “é necessário analisar a moda como um fenômeno econômico e não somente como um elemento cultural”4. utilizando a publicidade. apud RUFFAT. 3 . Lê mouvement sociale.( Durand: 1988:98) Confirmando-se o que sugeria o relatório do VI Plano de desenvolvimento econômico e social. 1971 . I Florianópolis: Editora Insular. tapetes [.Esses desfiles-shows foram mecanismos culturais que serviram como elementos de comunicação para tornar público. Michèle. Prêt-à-déchiffrer: la mode de l’après guerre et la nouvelle histoire culturelle. convidando a francesa Marie Rucki a visitar periodicamente o Brasil e ensinar montagem de carnês de tendências. estimulando a “ criatividade” do estilista brasileiro na “conciliação” entre a moda brasileira e as tendências emanadas de Paris. Essa complexidade provém da febre de consumo que se desenrola durante os anos 60 e início de 70. Mary-Louise. e nas vendas dessas fibras em toda a cadeia produtiva refletindo no consumo final.( Modapalavra: 2002) Modernidade e pós-modernidade em uma visão para a moda Em um momento como o início da década de 70 em que todas as tendências parecem coexistir ao mesmo tempo. nada melhor do que investir na pedagogia do estilismo industrial. Para isso. malharia e complementos.1975. responder à complexidade dos fenômenos da moda apresenta-se como um desafio..

Baudrillard (1993) coloca que na modernidade o objeto é visto em relação à produção enquanto na pós-modernidade o objeto é entendido do ponto de vista do consumo ou o “objetotornado-signo”. ironia e um tipo de arte que mistura o popular e o erudito”. significados novos. Pierre Cardin. A diferença crucial entre a modernidade e a pós-modernidade para a moda está relacionada na maneira de entender as relações com o objeto. mesmo que o material documental da época mostrasse que a realidade da moda era ainda mais surpreendente. que segundo Derrida são signos que em combinação com outros signos se diferenciam gerando significados. Os inovadores da moda dos anos 60 Entre os quatro estilistas que marcaram as décadas de 60 e 70 estão Paco Rabane. Apesar de 4 . pois “modernidade e pós-modernidade são configurações sociais. Já na pós-modernidade são agregados valores ao objeto sendo relegados a estes. reafirmando a idéia de Barnard que diz ser o modernismo e o pós-modernismo. Dentro de um contexto da moda. Na modernidade. o objeto era visto a partir das relações de trabalho. Samuel (2002: 121) coloca ainda que o pós-modernismo “abrange certas características como a reflexão. diferenciando seus modelos dos outros estilistas. que constituíam para muitos um exagero. do novo. A imagem mostra o modelo estético e comportamental da moda da década de 60 representando a tendência futurista com os seus trajes da era espacial e seus uniformes fantásticos. André Courrèges e Yves Saint Laurent. econômicas e políticas” enquanto o pós-modernismo e o modernismo “são projetos intelectuais e estéticos que formam os elementos constitutivos da modernidade e pós-modernidade” (Barnard: 2002: 218). uma crítica do próprio modernismo. o produto é aqui abordado com um significado da pós-modernidade a partir da década de 60.O que é necessário salientar é que pós-modernismo e pós-modernidade possuem diferentes significados. culturais. Esse consumo é gerado pela adesão de novos significados que são transmitidos pelo valor da criação. tendo este último iniciado o código das ruas para a linguagem das coleções de Alta-Costura e posteriormente lançando sua linha de prêt-à-porter com uma linguagem de elegância. pois na modernidade o produto de moda ainda era entendido pela lógica da produção enquanto na pós-modernidade os objetos de moda tomam significados a partir do momento em que são relacionados ao consumo.

Os seus manequins desfilavam em passo rápido com botas brancas e calças ou conjuntos de um corte geométrico e de um branco brilhante ou prateado. Estes materiais eram extremamente inovadores para a utilização em roupas. influenciando o comportamento do consumidor. 5 . além de já ter começado a ser usada pelas personalidades da moda que apareciam nessas fotos e até em filmes. novas formas. todo branco com cromados brilhantes. começou realmente uma nova era que também influenciou nossa roupa. como se fossem seres de outro planeta (Seeling: 2000: 352). As tendências futuristas de André Courrèges e Paco Rabane remetem a este conceito: trazer a materiais como o plástico e o metal. e sempre animado pela música de jazz progressivo” (Seeling: 2000: 368). O primeiro a mostrar uma moda do futuro foi André Courrèges [que] Em 1964.] não procuravam um compromisso impossível entre a Alta Costura e a confecção. mas principalmente. que depois de um crescimento ilimitado apontava agora para um futuro se limites [e foi quando] dois americanos Neil Armstrong e E. Em seu salão de Alta Costura utilizou arquitetura moderna. equipou o seu salão como um laboratório moderno. novos materiais. Consciente de um futuro dominado pela técnica. Aldrin deram o primeiro passeio na Lua. porém foram confeccionados trazendo sucesso à nova tendência.não ser ainda amplamente difundida. esses novos significados relacionados ao consumo. Courrèges desenvolveu uma coleção para a Primavera/Verão de 1965 que ficou conhecida por representar a essência da modernidade. quebrando todas as tradições. anteriormente construtor de pontes e piloto de avião. como se tivessem sido projectados diretamente do espaço. A. criou o look da era espacial. Os estilistas André Courrèges e Paco Rabane conseguiram de maneira surpreendente representar as décadas aqui abordadas numa visão estética apurada tendo como ponto de partida a introdução de nova cartela de cores. segundo Seeling (2000) o primeiro estilista a fazer moda futurista sendo que suas modelos eram vestidas como se estivessem em missão à Lua. a tendência futurista já se utilizava dos meios de comunicação de massa.. para levar às ruas sua nova estética. como o a fotografia em jornais e revistas. sendo estes “uma nova geração de costureiros que desejava vestir a juventude [. André Courrèges foi.. “Courrèges. em uma sociedade que se afirmava como espectadora. Um outro factor a considerar foi a conquista do espaço. mas tinham por ambição casar a cultura de moda com a indústria da roupa” (Ruffat: 2002: 132).

“Fatos de lã. pois é neste período que ocorrem significativas mudanças estéticas. É uma coleção da virada da década. As botas eram de plástico branco com as biqueiras cortadas [.] chapéus.. mas sem apresentarem um aspecto rígido ou angular. ou parcialmente. por volta de 1974-1975. graças aos arredondamentos aplicados e colados a quente.. óculos de astronautas: uma nova sensação voltada para o futuro” (Seeling: 2000: 368) A imagem apresentada refere-se à Coleção de 1969 de André Courrèges. botas rasas. o modelo de beleza é pautado em um ar quase infantil. introdução de novos materiais. pegar livro com a SôXXXXXXXXXX 6 . Essas mudanças dizem respeito ao advento da minissaia.As roupas de André Courrèges eram concebidas segundo as regras da Bauhaus5. bem como o visual futurista da década de 60 só se firmou a 5 O que ser Bauhaus???? Acho q tem em Domênico. em 1969. E os óculos brancos e estreitos davam às modelos uma aparência de astronautas [sendo que] o estilo cosmonauta fez de Courrèges o costureiro mais copiado da década [e] com a linha couture future introduziu. A estética da moda da década de 70 só se firma a partir da metade da década. sendo esta imagem. uma forte representação da estética futurista. a costura à mão e para diminuir o número de provas”. a malha como segunda pele no prêt-à-porter – uma antecipação dos leggings e leotards (Seeling: 2000: 368) Segundo Ruffat (2002: 132). tentou utilizar novas tecnologias para suprimir totalmente. pois “o custo das provas na Alta Costura representava até 50% do preço dos modelos” (idem). “Courrèges notadamente. capacetes e perucas ajudavam a dar à nova linha uma dimensão elegante. chamada couture future.

os óculos feitos de plástico reforçando a introdução dos novos materiais nas roupas. em Setembro. que deveriam ser assimilados com rapidez e acelerando o comportamento de consumo em contra-ponto ao discurso conservador de resistência ao novo e ao consumo imediato. que possuem um estilo esportivo e jovial. pouco práticos” (Seeling: 2000: 353). também de plástico. Paco Rabanne contribuiu para a introdução de novos materiais através de bijuterias e acessórios anunciando um futuro que para ele era. recordava os equipamentos para viagens no espaço [. em primeiro lugar. O visual cosmonauta de Courrèges é antes de tudo a harmonia entre a malha canelada. feita de plástico e de metal. sempre é citado em livros como sendo a moda da década de 60 ou de 70. em torno de 1965-1966. Esta imagem remete ao ideal de conforto e funcionalidade proposto por André Courrèges em suas roupas. Um de seus vestidos de noite foi confeccionado com placas transparentes que brilhavam mudando de cor conforme a luz (Seeling: 2000). Em Fevereiro de 1966. a sua roupa de praia.] Como moda do dia-adia. Outro estilista que teve grande importância na vanguarda da moda na virada das décadas de 60 e 70 foi Paco Rabanne que com “a sua moda ‘utópica’. Todas em movimento em oposição às poses sisudas das décadas passadas. divulgou os primeiros modelos de alumínio com pele e com plumas de avestruz. os óculos exagerados e a posição em que as modelos se encontram ao posarem para a foto. Três meses mais tarde. dos sapatos às carteiras. no entanto. Os óculos e acessórios em geral são de couro envernizado ou vinil. Encontrou o seu próprio caminho quando começou a fabricar bijutaria de plástico e o passo seguinte levou-o à independência..partir da metade da década. propiciando que se aceitasse novos produtos. colocam que a moda jovem deve possuir conforto para possibilitar os movimentos. serviu para estimular o consumo através do discurso do novo e do arrojado. materiais totalmente novos. Os pêlos dão o tom descontraído da neve e do frio espacial. Dedicou-se após terminar os estudos de Arquitetura à criação de acessórios incomuns experimentando de tudo. Paco Rabanne apresentou doze vestidos de placas de plástico. Tinha conseguido: os seus vestidos futuristas de metal haviam 7 expressado . Isso é demonstrado nas cores vibrantes. aqui principalmente no prêt-à-porter. Essas novas tendências futuristas dentro de um novo mercado de consumidores jovens e ativos. era apresentada pelas bailarinas do clube nocturno parisiense Crazy Horse e. ‘impossíveis de usar’. com bonés e botas de cano longo. Porém. os seus modelos pareciam..

nos anos 30. uma flor que representava a geração flower power. o mesmo significado para o showbusiness6 que os vestidos de cetim brancos para as sereias de Hollywood. cômoda e chique. Pierre Cardin. tornando a sua aparência própria para as teenagers” (idem: 393). feltro. porém com menor intensidade como Guy Laroche que lançou para o Inverno de 1971/1972 “sobretudos curtos para calças ou polainas de várias cores” (Seeling: 2000: 387) e Sonia Rykiel que em 1972 lançou uma moda quente. mesmo que a antimoda. no progresso industrial.adquirido. cantora pop francesa. à actriz inglesa Audrey Hepburn e às Bond girls. enquanto a antimoda influenciava os estilistas. 8 . que não eram confeccionadas com linhas. Por esse fator as mulheres modernas negavam a moda e o culto à aparência parecendo nunca trocar de 6 As palavras em negrito estão apenas em itálico na citação original. distinção dentro de um grupo no sentido de ser. porém. seja ainda uma forma de moda sendo uma expressão de individualização. foi a “primeira a utilizar o PVC em casacos e botas. (Seeling: 2000: 376) Tanto Paco Rabanne quanto André Courrèges tiveram formação em Arquitetura sendo que a relação do tempo e do espaço percebida por eles é retratada em suas criações pelo futurismo referenciado na ida do homem à Lua. madeira. segundo Barnard (2002: 28). Década de 70: a coexistência de diversas tendências Na década de 70. palha e redes de pesca. eram os líderes da vanguarda na moda. na década de 60. nunca utilizados em roupas. abaulamentos e sinuosidades. Este fato também facilitou aos dois estilistas a brincadeira com materiais inusitados e até então. Thierry Mugler também utilizou o látex e o vinil em suas coleções e Castelbajac recuperou com sua consciência ecológica. todas as heroínas modernas usavam as cotas de malha de Paco Rabanne. “antimoda era a palavra-chave”. Utilizou como símbolo de sua marca. Outros estilistas também participaram do fenômeno futurista. mas deu novo significado a ela quando utilizou o plástico para representála iniciando uma espécie de culto à marca. desde Françoise Hardy. a criar carteiras com correias compridas. ilhós e pinças. Mary Quant. deixando-se fascinar pelo futurismo e criando conjuntos com cortes geométricos. na defesa no discurso da consolidação da sociedade de consumo. mas com ganchos. materiais como gaze. nos anos 60. juntamente com Courrèges.

que quando eram curtas podiam até ser usadas no Verão (Seeling: 2000: 395) 9 . A consolidação dos materiais sintéticos vem com a moda disco com suas “camisas de poliester coloridas. O máximo eram as proporções deformadas e combinações inusitadas de materiais e cores” (Seeling: 2000: 416-7). O plástico usado nos acessórios e no vestuário estava de acordo com a crença optimista no futuro e com a euforia das viagens espaciais. mesmo que até hoje haja uma polêmica em torno de quem inventou a mini-saia.. É também na década de 70 que a geração os punks vêem que o pensamento hippie não havia deixado futuro. a pele deveria ser tratada para o futuro. meias de nylon e botas envernizadas. as várias camadas de roupa de fibras naturais” (idem: 446) Elementos da moda das décadas de 60 e 70 e a indecidibilidade: A mulher da virada da década de 60 para 70 possuía os cabelos cortados sob cinco pontos.] como sempre. Os anúncios das revistas apelavam para o discurso modernista. já que moda era considerada menos importante que a carreira profissional (Seeling: 2000). Os anos 70 foram marcados pelo culto à beleza e ao corpo perfeito nas academias embora as mulheres devessem aparentar o contrário. E mais adiante a autora coloca que “fatos coleantes (sic) de lycra ou látex substituíam. tops sem costas para hot pants de lurex prateado [. à noite. usava minissaia. collants e mini-saias além da combinação de cores que somente André Courrèges fez com perfeição. em sua profundidade refletia a estética da época. Também as cores para a maquilhagem e para o vestuário pareciam vir directamente do espaço: branco e prateado brilhante tornavam as pessoas mais leves – passando pelas botas. meias de lycra..roupa. Com isso há uma recuperação do plástico e do metal como materiais nas roupas em oposição aos componentes naturais pregados pelos hippies. atrás de um discurso antimoda que. formando um verdadeiro capacete de astronauta. as pessoas arranjavam-se para irem dançar – só que agora esse cuidado tinha outro significado. O futurismo era composto de botas.

formas futuristas. portanto. assim como das obras pós-modernistas. onde diversas tendências coexistem de forma que todas passam a ser ou não ser moda conforme o contexto em que estão inseridas. que segundo Barnard (2003) revela a coexistência de mais de um significado. Particularmente no discurso futurista de Courrèges o objeto de suas criações é representado e reproduzido na forma de intertextualidade. Dessa forma a indecidibilidade dentro da análise do discurso. pode ser vista como um traço característico das obras modernistas. o sentido ou valor são imediatamente produzidos e destruídos. no final da década. estas tendências tornam-se ainda mais diversas e expressivas a partir dos anos 70. que permitia aos novos estilistas mostrar as suas coleções publicamente. que é a tendência futurista tende a ser produzido sob o condicionante de ao negá-lo ser considerado velho ou conservador (destruído) constituindo uma oposição. Ao contrário da alta costura exclusiva. Como coloca Derrida (1978). o sócio de Yves Saint Laurent. Esta ambigüidade. “o significado dos signos é igualmente produzido e destruído por suas relações com todos os outros signos e pelo seu lugar nos diferentes discursos” (Derrida: 1978a apud Barnard: 2003: 235). onde tudo parece ser moda. 10 .estudada por (Orlandi: 2001) enquanto uma categoria que auxilia na visão da moda. enquanto categoria que possibilita um diferente olhar sobre a moda.O discurso futurista rumo ao novo assumindo o caráter de ser produzido. Esse discurso faz com que os produtos e os discursos sejam inseridos na moda ou excluídos dela como “fora de moda” conforme os significados adquiridos por ele. torna-se mais próxima a partir da metade da década de 60.. calças e saias.. Este caráter do novo. destruído e apropriado pelas imagens publicitárias. conseguiu fazer passar uma nova lei. Em 1973. O objeto enquanto produto pode ou não ser um produto de moda conforme o contexto em que é inserido.”. no aspecto de ser prisioneiro do progresso tecnológico e. Essa indecidibilidade. aproximando esse efeito da noção de indecidibilidade.tendo-se obtido. que em Janeiro e em Julho é apresentada perante um pequeno círculo de pessoas escolhidas. uma liberdade total: a mini-saia ao lado da maxi-saia. presidente da Câmara da Alta Costura. e seu oposto.. em conjunto com Jacques Mouclier. Sobre essas tendências Seeling (2000: 353) coloca como “. serve novamente como mecanismo de reprodução do sistema capitalista de produção na forma de mercadoria que o produto de moda assume. bem como padrões folclóricos e psicodélicos. Pierre Bergé.. assume uma de suas essências como uma armadilha de se impor à assimilação do novo.

do que a moda. Os primeiros a transformarem os desfiles de prêt-à-porter em espetáculos grandiosos. Esta nova tendência demonstra que o objeto relacionado ao status está mudando seus significados. Dentro de novas estéticas e novas significações para a arquitetura e as artes. um grupo de artistas foi convidado pelo grupo Rhodia para criar estampas exclusivas para sua linha de tecidos. passou pelos objetos sensoriais de Lygia Clark (1920-1988) e de certo modo por Hélio Oiticica (1937-1980). De certo modo porque o que ele queria discutir era a possibilidade da pintura enquanto movimento (Oliveros: 2004: 59) 11 . do qual fazem parte a imprensa. ou o que podemos classificar de indumentária. Ao se vestir vinil ou plástico com formas que remetem às novas relações futuristas do homem alcançando o espaço na Lua. enquanto objetos de suas criações. Na década de 60 e início dos anos 70. Para tanto surgiram novas formas. mostrando o produto artesanal frente à tecnologia da reprodução. A identidade de ambos. categorias e figuras de linguagens que proporcionam ampliar a compreensão do fenômeno e das possibilidades de leituras da moda. o prêt-à-porter representou a cópia a partir da Alta Costura. refletiu-se a moda de forma que tudo pudesse participar dela. foram Thierry Mugler e Kenzo. Com o objetivo de introduzir o fio sintético no mercado da moda. Nos anos 60 a cópia desvaloriza o original. como são chamados na França mostram o seu prêtà-porter em Março e em Outubro a um público maior mas também escolhido. em seus Parangolés. essas relações começam na estamparia. tanto o texto escrito. que era referência do original.os estilistas ou créateurs. mais a roupa. Desta forma a indecidibilidade enquanto linguagem pode até mesmo servir como caminho para entender discursos relacionados á beleza ao longo das décadas. na moda deste tempo. considerados como intertextualidade. No Brasil. (Seeling: 2000: 420) A pós-modernidade traz consigo uma desconstrução dos signos e gera uma noção de indecidibilidade nos textos/imagens futuristas. aos quais assistiam quatro vezes mais pessoas do que aos desfiles de alta costura. foi preciso uma nova relação também para a maneira de se vestir. auxiliam na expressão dos fenômenos da moda atualmente. os compradores e as celebridades. a fotocópia desvalorizou o seu original e. Os novos materiais utilizados por Courrèges trouxeram novos significados para a moda. quanto o texto-imagem.

Mais que isso. era dirigido a provocar reações de consumo. Pensar em como a moda dos anos 60 e 70 se manifesta na imagem e na publicidade. Portanto a imagem é referenciada pela intertextualidade. pois uma das funções da imagem é aguçar a percepção. Uma outra função é o conhecimento. di rigindo-se a um novo mercado consumidor visualizado nas imagens publicitárias futuristas. refletindo a sociedade de consumo formada ao longo dos anos 50 e 60. A importância do vestuário enquanto texto pode reafirmar que existem funções específicas da linguagem. a expressão do objeto (a roupa) ou a relação midiática de fotos publicitárias de moda. pelos diferentes textos presentes na contemporaneidade. cultural e estéticos. este nível de organização da produção. estabelecia o elo de ligação entre as empresas produtoras dos fios sintéticos entre elas a Rhodia e as tecelagens brasileiras que para se manterem competitivas no mercado. desenvolvidas num processo sócio-econômico. no qual se posiciona.Considerações Finais Moda e comunicação dispõem de caminhos em comum. 12 . por exemplo. circulou sendo comunicada e consumida. que neste caso refere-se ao conhecimento da noção do tempo e do espaço em que foram escritos os registros que apontam o vestuário nos anos sessenta. A FENIT foi a expressão mais forte nos anos 60 e 70 de que o nível de organiza ção da moda no Brasil estava se modificando . cujo fim pode ser ou parecer transformar um objeto de linguagem. significa pensar no nível de organização da produção em que esta foi realizada. significa tomar consciência de que o discurso divulgado pelas imagens que Paco Rabanne e Courrèges comunicavam. cujos caminhos apresentam-se como estímulos para aumentar o grau de apreensão do conhecimento desejado. provocar um certo olhar para que o leitor disponha de uma certa liberdade na escolha do nível de compreensão. consumiam esta nova tecnologia têxtil. de que a imagem não poderia responder por si só qualquer que seja o seu desenvolvimento na sociedade.

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