AMITOLOGIA

POLÍTICA
Rodney de Souza Pereira

TNTRODUçÃO

Começaremos nosso debate a
é

A análise dos mitos políticos

a

Professor titular do Unicentro Newton Paiva e mestre em Ciência Política pela UFMG

Resumo: O artigo aborda a questão da mitologia política e seus desdobramentos. Fazemos a re' lação entre mito, imagináio so' cial e política para entendermos a relação entre a dimensão real e a dimensão mítica.

As inúmeras possibilidades ex'
plicativas do mito são levantadas e isso nos permite enxergar a re' alidade de uma forma inovadora.

São analisados temas como
co
n s pi

raçõ

e

s,

tran

sformações

sociais, revoluções e liderança
política.
Este artigo é uma versão modiÍi'

cada de um dos capítulos da dissertação de mestrado do autor.

uma experiência recente para os cientistas sociais, e é justamente isso que iremos discutir neste artigo: as bases para uma análise mítica de determinados aspectos ligados ao universo da política. Sabemos que os cientistas polítique se embrenharam pelo caminho cos da mitologia o fizeram a partir de certos pressupotos já existentês nas outras análises (caso da Psicanálise e da Antropologia) e que, a partir daí, abriram outras tantas possibilidades. Nosso ob' jetivo não é explorar todos os aspectos das análises mitológicas na Ciência Política, mas, sim, descobrir novas searas explicativas que somadas à Psicanálise e à Antropologia permitam aumentar o poder de análise e compreensão acerca do mito político.

partir da obra de Girardet e depois abriremos espaço para os demais autores e suas concepções.

B)OMTTOEOTMAGTruÁnrO
"O Sonho só é levado um pouco em consideração quando se exprime de forma tradicional do que se convencionou chamar de utopia, ou seja, de um genêro literário bem determinado, com finalidades didáticas claramente afirmadas, submetido, a uma rigorosa ordenação do discurso e facilmente acessível à exclusÍva in-

teligência lógica". (GIRARDEI
1986, p.10)

Palavra-chave: Mito, imaginá'

rio, salvador, ldade de Ouro,
conspiraçáo, realidade, luzes, trevas, paraíso e aPocaliPse.

A) CrÊNCrA POLíTICA E MITO: POSSI BILI DADES EXPLICATIVAS
Temos uma vasta gama de escritos políticos sobre a questão dos mitos, mesmo sendo a análise mítica na política um ÍenÔmeno recente, o que Íaz com que o nosso primeiro desaÍio seja selecionar os textos e os debates que mais nos interessam. Podemos, então, concluir que, basicamente, quatro autores irão nos auxiliar neste momento: Girardet, Bobbio e Starobinski. A partir da análise de cada um poderemos definir:

. o que é mito político . para que nos serve analisá-lo

. como surgem e para que surgem

São essas etapas que galgaremos ao longo deste artigo, desvendando de maneira mais ampla o nosso objeto de análise.

Começamos a entender por esta aÍirmação de Girardet que a lógica não deve ser a única saída para a compreensão do mito e do imaginário socialque se associa a ele. A compreensão do mito implicaria um certo afastamento da lógica formalque acarretaria a abertura de inúmeras outras possibilidades compreensivas. Não queremos aqui dizer que a lógica formal deva ser esquecida ou destruída, muito pelo contrário, pode e deve ser associada a outros instrumentos para que possamos explorar de maneira plena o mito político e suas conseqüências. Para Girardet (idem), o mito está associado à eÍervecência de inúmeras transformações políticas e sociais nos últimos dois séculos, principalmente na Europa, o que não nos impediria de traçar comparações e até utilizar a terminologia do autor no Brasil e em outros países latino-americanos. As mudanças sociais, políticas e culturais, trazem consigo novas simbologias, novas concepções, novos emblemas, novos desejos e novas promessas. Em qualquer parte do mundo encontraremos, então, o mito associado à mudança, à transformação.

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Os temas presentes nas análises

revolucionárias européias, tais como: A idade de ouro, a conspiração, o salvador, o herói são carregados de um grande conteúdo simbólico e nos permitirão lançar um novo olhar sobre certas posturas políticas. Os temas citados, principalmente a questão da ldade de Ouro, encontram-se presentes nas grandes construções doutrinais do nossso século, apesar de muitas delas apelarem para seu caráter científico. Girardet (idem, p.11) nos faz uma pergunta: "qualteria sido o destino de um marxismo destituído de todo apelo profético, de toda visão messiânica, reduzido exclusivamente aos dados de um sistema conceituale de um metodo de análise?" Além de estar associado a ideologias cientiÍícas, o mito se manisÍeta politicamente de Íorma mais clara nas revoluções, nas lideranças carismáticas, nas obsessões maléÍicas, e é dessa maneira que podemos perceber de forma clara que o mito acaba por se transÍormar, por se constituir num sistema de crenças coerente e completo. Esses sistemas são denominados por

va, fornecendo certo número de chaves para a compreensão do presente, constituindo uma criptografia através da qual pode parecer ordenar-se o caos desconcertante dos fatos e acontecimentos. E verdade ainda que esse papet de explicação se desdobra em um papel de mobilização: por tudo o que veicula de dinamismo profético o mito ocupa papel importante nas origens das cruzadas e das revoluções."

Então, a partir desta definição, temos de levar em conta os três papéis primordiais do mito, a saber:

. deformação do real, fabulação,
caráler legendário . caráter explicativo . caráter transformador
E a partir dessas dimensões que se complementam que poderemos estudar e analisar o mito, e são essas dimensões que nos permitirão entender as manifestações do imaginário mitológico. Essas manifestações pertencem, como já nos chamava a atenção LéviStrauss (1967), a um sistema particular do discurso, ou melhor, a modos originais de expressão tão aÍastados da construção retórico-formal que pode se aproximar das construções musicais. Como um sonho, o mito se organiza em uma sucessão, em uma dinâmica de imagens e, não mais que para o sonho, "não poderia ser questão de dissociar as frações dessa dinâmica: esÍas se encadeiam nascem uma da outra, chamam uma à outra, respondem-se, confundem-se". (GIRARDET, 1986, p.14) Assim, se comparamos mito com sonho, sabemos que ele não pode ser abarcado completamente, definido formalmente. Uma operação conceitualizante como a quê experimentamos anteriormente é necessária, mas corremos o risco de mutilar o sentido do mito e destituÊlo de sua riqueza e conplexidade.

Girardet Constelações mitologicas, que podem surgir dos mais variados
pontos do horizonte político, podem ser modernizantes ou conservadoras, de direita ou de esquerda. Então, podemos nos depararcom o mito de maneira diversa em situações diversas e variadas,e a possibilidade de nos encontramos com o mito político nestes dois últimos séculos de intensas atividades político-sociais aumentou enormente a necessidade de análise do Íenômeno. Lancemos, agora, mão do conceipolítico para melhor compremito to de endermos as considerações de Girardet (idem, p.13): "O mito político éfabulação, deformação ou interpretação objetivamente recusáveldo real. Mas narrativa legendária, é verdade que ela exerce também uma função explicati-

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Por Íim, falemos da ambivalência do mito e do seu aspecto polimorÍo: ,Ua

mesma forma que o mito religioso, o mito político aparece como fundamentalmente polimorfo: é preciso entender com isso que uma série de imagens oníricas pode encontrar,se veiculada por mitos aparentemente os mais diversod'(ldem, p.16). Entende-se, então, que o mito pode oferecer múltiplas ressonâncias e numerosas signiÍicaçõês, que podem ser complementares, mas também contraditórias e opostas. É aí que reside o caráter ambivalente do mito, como nos diz Girardel:'tudo o que é denunciado e temido no outro reveste-se de repente, voltado contra este, de um sombrio e todo poderoso atrativo"(idem, p.l6). E este o caso da serpente, objeto, ao mesmo tempo, de adoração e de temor, a raiz que cresce a parlir da terra é força Íecunda que vem do subterrâneo e, ao mesmo tempo, tenebrosa, pois se esconde no fundo desconhecido da terra. Lenda dourada ou lenda sombria, a veneração ou a execração, são duas faces da moeda mítica. Girardet nos dá o exemplo de Napoleão, o grande imperador e o Ogro da Córsega. podemos transportar este exemplo para Vargas: "o paidos pobres'ou "a mãe dos ricos". Assim, a estranheza das origens, a rapidez na ascensão, a vontade dominadora, a natureza dos triunfos, a
amplidão dos desastres é tudo que pode contríbuir para modelar a grandeza e a inÍâmia do mito. Podemos, então, concluir que as referências temáticas são as mesmas, que certos temas míticos servem para estudar Napoleão, Vargas, perón, etc. e que apesar das suas ambiguidades e o seu caráter polimorÍo, o mito tem suas próprias regras e lógicas, que, de certa Íorma, se associam de maneira decisiva com a chamada dimensão do real. Como nos afirma Girardet (1996), o mito

insere-se numa "sintaxe',, ou seja, os elementos míticos aparecerão agrupados em séries, estruturados em associações permanentes. O tema do salvador aparecerá sempre associado a símbolos de puriÍi_ cação;o tema da conspiração maléfica sempre se colocará em referência a
uma mácula simbólica ( o homem-animal

que conspira, que conduz o complô). O que temos de Íazer é, então, descobrir o Íio condutor da nossa narratíva mítica. A partir daí poderemos compará-la, analisá-la e tecer considerações sobre seu desenrolar. Lançaremos mão dos tipos cons_ truídos por Girardet e que têm grandes semelhanças com os arquétipos de Jung (1976): 1) A conspiração; 2) O Salvador; 3) A ldade de Ouro;

4)

A Unidade;

A partir da análise dessas constelações mitológias poderemos achar o nosso fio condutor, que nos levará a uma compreensão da realidade política.
1) A CONSPTRAÇÃO

As narrativas conspiratórias que proliferaram na Europa nos séculos XVllle XlXtêm como elemento principal a presença dos judeus. Eles seriam os
chamados conspiradores por natureza, aqueles que sorrateiramente conspirariam com o objetivo de conquistar o mundo, dominar o globo. Vejamos o trecho de uma narrativa na qual um líder judeu conspiraria jun_ tamente com um grupo para conquis_ tar toda a terra: "Eis que há dezoito séculos dura a guerra de lsrael com este poderio que fora prometido a Abraão, mas que lhe foÍ arrebatado pela cruz. Pisoteado, humilhado por seus inimigos, Íncessantemente sob a ameaça de morte, de persiguição, de raptos e de violações de toda espécie, o povo de lsrael sucumbÍu; e, se está disperso por toda

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I A origem dessa
Girrdet
está no

narrativa descrita por
de

livro BiaÍritz por volta

1881 publicado na França e que descreve esta cenâ como tendo ocorido num cemité-

rio.

a terra, é que toda a terra deve pertencer-\he...l (ldem, P.25'26) Temos aí, entáo, uma cena conspiratória em que o elêmento principalé a presença do judeu, aquele que conspira contra o mundo, aquele que quer apossar-se de toda a terra. Como não podemos deixar de perceber, estamos indiretamente relacionando mito político e arquétipo jungiano(1 976). AÍinal, podemos aÍirmar que o tema da conspiração está presente no chamado inconsciente coletivo e que, por isso está ligado aos pesamentos humanos primevos, à aurora da humanidade. Grandes revoluções, grandes guerras, grandes fatos e momentos históricos tiveram como pano de Íundo a idéia da conspiração. Num segundo modelo consPiratório, temos a presença da Companhia de Jesus, retirada por Girardet (idem) do livro, "O Judeu Errante", de Eugàne Sue. Tem-se a clara impressão de que a Companhia de Jesus conspiraria para controlar o mundo, subornando e até utilizando-se da força. Num estranho cômodo em Paris dois homens (supostos membros da companhia de Jesus) conspiram contra o mundo: têm esPiões Por toda a parte, dispõem da vida e dos bens de seus contemporâneos, Precipitam a decisão de governos e a sucessão dos tronos, estendem sua vigilância a todo mundo. Por fim temos a terceira narrativa, que é retirada da obra de Alexandre Dumas, "Joseph Balsamo". Numa sala subterrânea, na França, no mês de maio de1770, um homem interrogado porvários mascarados, dá a entender o teor do plano que todos eles devem levar à frente: uma conspiração mundial que visará destruir a velha ordem monárqui' ca e cristá e preparar o advento de um reino universal da liberdade e da igualdade. O que os mascarados, advindos de todas as partes do mundo e o seu líder tramam é um plano subversivo

que, nos vinte anos seguintes modificaria o panorama mundial. O encadeamento desses Íatos no livro de Dumas levaria inevitavelmente à Revolução Francesa alguns anos mais tarde, assim sendo temos a lógica manipulativa substituindo a imprevisibilidade da história.

As características dos complôs
Acabamos de descrevertrês tipos de complôs, um tendo como organizador o judeu, outro, os jesuítas e, por fim, a maçonaria. Apesar da diferença entre as três narrativas, podemos encontrar um Íio condutor entre elas: o segredo, as cerimônias iniciáticas, o esconderijo e a autoridade soberana. Para haver complô de qualquer natureza, tem de existir o segredo, aquilo que só é de conhecimento dos membros da conspiração e se esse elo for quebrado, fatalmente a conspiraçáo ruirá. O ritual de iniciação é algo também obscuro e diÍícil e serve para introduzir novos membros no grupo conspiratório. O esconderijo é primordial para quem conspira. lsso justifica a prática de senhas, o uso de sinais convencionados para o conhecimento, o manejo de códigos. Tudo isso está presente na prática do esconder-se, do ocultar-se.
"No topo, para onde partem todas

as palavras de ordem, assentase uma autoridade soberana, definida ao mesmo tempo como implacável e invisível" (GIRARDET, 1986, p.35). Podemos, então, concluir que os altos graus nas hierarquias conspiratórias devem ser desconhecidos dos graus inferiores, isto é de suma importância porque mantém resguardadas as lideranças e permite que os líderes controlem seus comandados sem que eles

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tenham idéia de que estão sendo vigiados. Em busca dos objetivos do grupo, estabelece-se que o uso de todos os recursos é legítimo, desde que o grupo obtenha o seu triunfo, a sua vitória, porém, de forma alguma, a hierarquia interna pode ser quebrada. Assim sendo, as práticas primordiais para os grupos conspiratórios são a espionagem e a delação. Sem elas, nada se faz; sem elas, os objetivos não são atingidos. Percebemos, então, que, a partir das três narrativas e suas características, conseguimos vizualizar, de uma maneira ampla, o arquétipo da conspiração. São três narrativas que ilustram o medo da conspiração e que, de certa forma, serviram para justiÍicar ódios, perseguições, guerras, revoltas e revoluções. Judeus, maçons e jesuítas foram perseguidos em diferentes epócas, porém a maioria dessas perseguições tinha por trás, como elemento propulsor, o medo do complô que dominaria o

res, aos seus medos. O inimigo é o judeu, é o maçom, é o jesuíta, é algo que podemos ver e combater. O mito, neste caso torna o desconhecido (de onde não se extrai resposta alguma) em algo palpável e de certa forma concreto, "O destino volta a ficar inteligível; uma certa forma de racionalidade ou pelo menos de coerência, tende a restabelecer-se no cur-

so desconcertante das coisas..."
(ldem, p.55). Quando o inimigo, o mal, o terror são personificados num grupo ou grupos sociais e se aÍirma que eles se utilizaráo de todos os recursos disponíveis para atingirem seus objetivos, qual será a saída a ser encontrada pela sociedade? A resposta está em usar métodos semelhantes para destruir o conspirador. Se o judeu quer me dominar, antes que isso aconteça tenho que dominálo, usando os mesmos métodos: mentindo, subornando e até mesmo matando, eliminando a ameaça por completo. E porÍim deve-se levantar a similitude entre a política e a religião quando se trata do complô. Os fundamentos religiosos sempre cercam as organizações conspiratórias. Os conspiradores têm uma linha organizativa muito semelhante às ordens religiosas, e, no caso dos jesuítas, que são a própria ordem fica tudo bem mais claro. O complô revela-se sempre a partir de uma ordem: "unitária, conquistadora, instrumento necessário ao êxito de um grande empreendimento, que compromete e transcende o destino de cada um" (ldem, p.62). O mito, então, se encararmos a presença do complô, pode também vir à tona quando surge um estranho sentimento coletivo de ameaça, quando aparecem a incerteza e o pânico. A ameaça que o outro representa para mim deve ser combatida, o poder que possuio inimigo é de certa forma o mesmo que se busca ter, se com-

mundo. Poderíamos estender esta idéia de complô às perseguições sofridas também pelos comunistas, por grupos
religiosos minoritários, por oposicionistas aos regimes instituídos (porém, nes-

te último, mso, o complô não alteraria a ordem mundial, mas sim o contexto local). Os mitos conspiratórios têm um papelexplicativo para os diversos segmentos sociais, eÍoram muito bem usados para explicar e dar resposta à problemas sociais. De maneira simplificada, por que se perseguiram judeus no mundo inteiro? A explicação lógica vem do mito de que eles querem dominar o mundo, transformá-lo na nova Jerusalém. Assim sendo, os mitos conspiratórios permitem que um povo, uma sociedade dêem forma, dêem uma face às suas inquietações, aos seus temo-

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bate aquilo que se quer possuir, portanto não se trata simplesmente de
destruir o mal, mas de suplantá-lo para que se possa desÍrutar daquilo que ele poderia vir a ter.
2) O SALVADOR

ele atinge o poder, ninguém será surpreendido com ações Íora do esperado. Na história do Brasil, temos exemplo dos dois tipos de heróis: o da exceção pode ser êncarnado por Vargas ,que assume o poder de forma subversiva e que perverte a ordem até entáo estabelecida. E o heróida normalidade, ltamar Franco, que é um homem comum, com a vantagem de ser um intelectual que conduzirá o país sem supresas, sem novidades revolucionárias, sem exageros, mas com a mais pura discrição e tranqüilidade. Tudo o que é prometido é um momento depaz, prosperidade e estabilidade sem surpresas ou sobressaltos. Bem, agora tomemos os quatro casos descritos por Girardet para ilustrar bem a análise do Salvador: 1 - Cincinatus; 2 - Doumergue; 3 - Pétain; 4 - De Gaulle. São quatro representantes da política francesa, mas que servirão para a análise dos mais váriados tipos ideais de salvadores-heróis. Comecemos, então, pelo herói conquistador. O arquétipo de Cincinnatus estabelece simetria com o de Alexandre, o grande. Ele não traz consigo nem o cetro, nêm o símbolo da justiça real, mas a espada. Apodera-se das multidões que subjuga, não se doa a elas. O seu poder é legitimado pelo brilho da ação imediata. Não está ligado aos Íeitos do passado, nem às lembranças de uma vida heróica, mas sim ao calor do momento. O gesto do braço de Cincinnatus, como nos descreve Girardet (ldem, p.75), "não é símbolo de proteção, mas convite à partida, sinalde aventura. Ele atravessa a história como um raio fulgurante. Herói da juventude e do movimento, sua impetuosidade chega ao ponto de domar a natureza..." Gaston Doumergue nos remete ao arquétipo do velho sábio, que se retira para o descanço depois de servir à

Quando Íalamos em salvador, podemos nos referir a uma vasta gama de tipos heróicos, de líderes, de guias, etc. O salvador é o indivíduo que vem representar os anseios de um povo, de uma nação, que vem dar forma aos sonhos e desejos mais proÍundos da coletividad e: "5ão personagens s ímbolos, através de um e de outro exprimese uma visão coerente e completa do destino coletivo. Em torno deles cristalizam-se poderosos impulsos de emoção, de espera, de esperança e de adesão"(ldem, p.70). Assim, temos uma rápida descrique vem a ser o herói-saldaquilo ção vador, e numa primeira análise podemos destacar dois modelos de salvador: . herói da exceção . heróida normalidade Mas o que quer dizer isso? Responderemos a partir de agora. O herói da exceçáo é aquele que de certa Íorma surge para instalar uma nova ordem. Geralmente sua ascenção ocorre após uma revolução, com promessas inovadoras, com propostas revigorantes que trazem consigo apoio popular maciço. O herói da normalidade é o chamado "cidadão comum", aquele que trabalha como um homem qualquer, que tem uma Íamília como qualquer outra, que é chamado pela nação para colocar ordem na casa. Como um administrador competente, ele vem para manter a ordem que ameaçaria ruir e fortalecê-la. Ele é conhecido por todos, todos sabem quem ele é por isso quando

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nação em várias ocasiões e que é chamado a retornar para solucionar alguma crise existente. Aquele que após o fim da crise irá restaurar a ordem. Ele é o homem certo para Íazer com que todos se unam, e a partir daí, superem as provações, os perigos, as tribulações. Ele colocará "ordem na casa" sem surpresas ou sobressaltos. O general Philippe Pétain, líderdo governo colaboracionista francês, ligase a dois pontos básicos: aos princípios de permanência e conservação e aos ideais de estabilidade e continuidade. Ele evoca a terra que "não morre", "imutável, nutriente, maternal, fonte de toda a vida renascenÍe". (idem, p.74\. E também traz à tona a idéia de casa, que convém salvaguardar, proteger. O lar é o local de paz e tranqüilidade onde todos se agrupam, se protegem. E, por Íim, temos Napoleão Bonaparte, que encarna, ao mesmo tempo, o arquétipo do conquistador e do sábio protetor. A expressão heróica de suas conquistas, de suas batalhas, de suas vitórias conquistadas pelo fio da espada nunca são esquecidas. O jovem conquistador vive junto com a sabedoria do homem maduro, o grande e sábio legislador. Temos um Napoleão conquistador, cujas conquistas e ações militares tornam-no um deus e ao mesmo tempo, temos um outro Napoleão que complementa o arquétipo do primeiro:o imperador que, como um grande sábio, elabora uma legislação que será a base de uma nova ordem institucional. Por último, lembremos Charles de Gaulle, que, em 1958, estabelece as regras para uma República Nova, o grande construtor, que, tal como Napoleão, vem construir uma nova ordem a partir da ação legislativa, de uma base legal Íorte, sólida e inovadora quê garanta a paz e a tranqüilidade da nação. Como modelo adicionalde heróisalvador, não podemos nos esquecer do líder-proÍeta, o homem que adivinha

os anseios da nação, que pressente os perigos e que acha alternativas para superar as dificuldades e os perigos. Moisés é o arquétipo do proÍeta: "anunciador dos tempos por vir, ele lê na história aquilo que os outros ainda não vêem". (ldem, p.78) De certa Íorma, é o Napoleão que anuncia a liberação dos povos e o advento das nacionalidades e é também de Gaulle depois de sua morte, aquele que restabeleceu a França a paftir de um ato de fé. Podemos encontrar esta qualidaproÍeta de de em inúmeros personagens do nosso século, como Lênim, Hitler, Mussolini, Vargas. Todos eles anteciparam o futuro, encarnaram os desejos da vontade geral de uma maneira quase religiosa, encarnam a totalidade dos desejos de um povo, de uma nação.

O homem providencial

O homem providencial é aquele que sempre será visto como um lutador, um combatente, aquele que superará os obstáculos mais diÍíceis e mais perigosos e no Íinal das contas acabará triunÍando e retirando o seu povo da crise em que se encontrava. O aparecimento do homem providencial representará um marco histórico, quer restaure uma ordem quebrada ou institua uma nova ordem. O homem providencial estará deixando seu nome e suas ações inscritos na história de uma nação, de uma comunidade ou até mesmo na história do planeta. O homem providencialacaba, de certa forma, rompendo com o momento de angústia vivido pelo seu povo. Depois que ele vier nada mais será táo terrível, "o depois não será mais como o antes". Ao homem providencial sempre se associa uma lenda, uma simbologia que explicita, de maneira definitiva, suas qualidades sobre-humanas: "Pode ser a áruore que se ergue e protege (...). Mas pode ser ainda a tocha que arde e

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ilumina, o farol, a coluna, o sol ascen' dente, ou aquele braseiro de sarça ardentd'... (GIRARDET,l 986, P. 81 ) Devemos considerar que os mi' tos sempre estarão ligados a uma Íorma histórica, ao momento de sua criação, de seu aparecimento, Porém, ao mesmo tempo em que são inÍluenciados por elementos históricos, eles sobrevivem independentemente das inÍluências da história. Em resumo, o herói salvador é, em suas origens, o mesmo, mas ganhará uma nova Íacê, um elemento diferenciador de acordo com o contexto em que se encontra. E é isso que virá diÍerenciar os tipos heróicos. Vargas é herói, Hitler é herói, de Gaulle é herói, mas cada um carrega consigo a marca de uma ePóca, de um momento histórico que permitiu que todos se transÍormassem em homens providenciais. Quais eram os anseios, os desejos dos Íranceses, dos brasileiros, dos alemães que fizeram com que esses homens se tornassem as Íiguras marcantes em que se transformaram? Como nos aÍirma Girardet (p. 83) "Todo processo de heroiíicação impli' ca, em outras palavras, uma certa adequação entre a personalidade do salvador virtual e as necessidades de uma sociedade em um dado momento de sua história". Então, a imagem do salvador, do homem providencial, está ligada ao inimigo que ele tem de enfrentar, à crise que ele tem de superar, aos anseios da comunidade aos quais ele tem de corresponder. Então, ainda podemos relacionar o surgimento do salvador às chamadas crises de identidade e de legitimidade. Se considerarmos como legtimidade: (ldem, p.88) " o reconhecimento espontâneo da ordem estabelecida, da aceitação natural, não obrigatoriamente das decisões, daqueles que governam, mas dos princípios em virtude dos quais eles governam." Se levarmos em conta esse conceito de legitimidade, entenderemos a

relação entre crises de legitimidade e surgimento de salvadores, de heróis revolucionários. O questionamento do povo em relação aos governantes Íatalmente acarretará alguma mudança em alguma modificação do quadro, quando se questiona se se procura respostas imediatas para problemas sem soluçáo que, de certa Íorma, podem perpassar toda a sociedade. Nesse caso geralmente a massa se torna elemento de manipulação de lideranças. O herói, o líder carismático que geralmente surge nesse momento, é uma espécie de resposta aos anseios populares, às dúvidas da sociedade, ele vem mostrar caminhos, apontar saídas. De certa Íorma, ele é a própria saída, é a alternativa reale imediata para a falta de conÍiança no poder institucional estabelecido. Para Girardet, toda passagem de um Estado de certeza para um Estado de perturbação e angústia leva a traumatismos psíquicos perceptíveis, tanto no plano individualcomo no coletivo. Numa sociedade, de uma forma ou de outra, os indivíduos se submetem a alguma forma de dominação. Os indivÊ duos acabam por depositar alguma confiança nas instituições e acabam participando, de alguma maneira, das ações governamentais. A autoridade está garantida, porém, se isso não ocorre, se a incerteza passa a reinar, entraremos num Estado de angústia, num Estado de perturbação em que estará em crise a identidade da nação. Se o indivíduo não se identiÍica mais com o estabelecido, se a massa não visualiza mais as intituições, ela buscará uma saída, buscará um refúgio e uma proteção. Se a identificação com o sistema em vigor já não mais existe, qual é a saída? Buscar algo ou alguém em que se acredite, alguém que restaure a identidade coletiva quebrada. Não é à toa que grandes líderes deste século Íalaram em

grandes nações, grandes conquistas,

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grandes realizações. Valia tudo para convencer a massa, e esse convencimento só viria a existir se houvesse uma

identiÍicação da massa com o projeto
do líder.

Nossa Primeira conclusão se liga ao fato de que o herói é uma esPécie de pai redescobefto. O pai perdido com o fim da inÍância é reencontrado na Íigura do líder. Portanto, o Primeiro sentimento que se encontra quando se busca um herói, é o de proteção, o de abrigo. Seu papel é o de prevenir os acidentes da história, zelar por um futuro de tranqüilidade sem surpresas ou sobressaltos. O heróitem de ter autoridade, Porém a sua autoridade não é algo co' mum. Ela não é considerada como opressora, suspeita ou desprezível. Ela não é imposta. E uma esPécie de ProÍissáo de fé que provoca adesão e quase ilimitada à pessoa heroificada. Um outro sentimento que se tem em relação ao herói é o de cumplicidade. O povo é cúmplice do líder e viceversa. É o agente de comunhão, de solidificaçáo social, a união dos espíritos e dos corações em torno do bem-estar da naçáo, do bem comum. Finalizando, em torno do salvador os homens se tranformam. Aquilo que era desunião se transforma em comunháo, aquilo que era desesPero se transÍorma em esperanças. OÍuturo de desespero é agora grandioso e promissor, tudo porque, como nos aÍirma Girardet (p. 96), "o salvador socializa as almas da nação". Ele serve como reestruturador psíquico e como agente de reinserção social, dando novo alento à comunidade onde se maniÍestou. 3) A IDADE DE OURO

portante para o presente e para o Íuturo e por que a restauração da "pureza das origens" é algo táo presente nos tempos modernos. As imagens de um Passado seguro, de uma intimidade protetora entre os indivíduos, dê uma ePóca quando tudo Íoi felicidade, de um passado que se tornou uma esPécie de lenda e de um presente e de um futuro definidos em Íunção do que foi ou do que se supõe ter sido são a base para a compreensão do que vem a ser a ldade de Ouro'

"Refazer 1789, redesscobrir o
espírito do gaullismo do generala freqüência destas exPressões não cessa de testemunhar um mesmo movimento de recusa das guinadas da histÓria, da Proieção, da perenidade, da lembrança de tudo aquilo que o escoar Parece

não dever emPanar." (ldem,
p. 101).

tóricos datados e identiÍicados, tais como os já citados, também Pode-se
recorrer à construção mítica não-histórica. Esta identiÍicação com o passado não-histórico condena ao desuso qualquer tipo de cronologia e esforço de memória. Assim sendo: (ldem, P' 102) "A noção do antes torna-se uma espécie de absoluto, liberto de toda a dependência com relação à sucessão dos séculos e dos milênios". Segundo essa linha de raciocínio, a ldade de Ouro conÍundir-se-ia com a idéia de um temPo não datado, não mensurável, do qual se sabe somente que está relacionado com o começo da aventura humana e que foi um momento de inocência e Íelicidade. Esse paraÍso Perdido que a humanidade buscou, busca e continuará buscando, triunfou na Europa do Século das Luzes, onde esse conceito Íoi racionalizado, teorizado e recebeu um nome que todos nós já ouvimos e ana-

Além de recorrer aos Períodos his-

A partir deste momento começaremos a descrever mais um arquétipo que se relaciona fortemente com as ações mitológicas no momento atual. Veremos por que o Passado é tão im-

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lisamos: Estado de natureza. Conceito considerado completamente científico, mas que guarda em sia idéia de paraí so perdido e, de certa Íorma, destruído pela ação do próprio homem. Enfim, o quê se busca é reencontrar o intocado, o contato com o passado eterno. É o eterno convite à regressão ao tempo passado para se encontrar o que ÍazÍalta na atualidade: a simplicidade, a proteção, a união e a tranqüilidade. Essa visão de mito político conÍunde-se em muito com as visões religiosas, com aquela idéia de que no Íuturo reencontraremos com passado: o destino dos homens situar-se-ia entre duas épocas abençoadas, a de antes da queda e a da redenção, a do Eden perdido e a da Jerusalém redescoberta. Assim, o finaldos tempos é percebido como um retorno à glória do início dos tempos. O sonho de harmoniosa alegria, a inserção perfeita do homem no universo, a busca da pureza das origens, é isso para onde acaba nos levando o discurso político. A promessa de uma "nação grande e próspeta", a promessa de terra para todos, de saúde e bem-estar para as populações tudo isto reÍlete uma tentativa de se restaurar o que foi perdido, é uma tênue tentativa de trazer um "pedacinho do paraíso" para os pobres mortais que dele foram expulsos. Vejamos mais uma passagem da obra de Girardet (ldem, p. 108) que nos fala do estado de natureza e no que implicou sua perda para a humanidade: 'No Estado nalural [proclama esse texto em forma de manifestol, todas as regiões férteis da terra possuíam uma Ílora e uma Íauna originárias abundantes e variadas....

Que a exclusiva produção do solo estabelece a abundância

...Que os males físicos (epidemias, deformidades) são obra da civilização

Que os ílagelos ditos naturais,
aval an ches, des

entos, inundações, seca) são conseqüencia dos ataques dirigidos pelo homem à natureza
m o ron am

Que não há nem bons nem maus instintos no homem, mas simplesmente satisfação ou contrariedade dos instintos
Que a humanidade busca a felicidade, isto é, a harmonia
E que a harmonia parua humani-

dade reside na natureza."

O sentimento de debamparo é causado pela civilização. Talvez aqui mais uma vez esteja presente a idéia de mal-estar causado pela civilização
aos seres humanos. Para superar esse mal-estar, esse sentimento de desconforto, a saída buscada pelo ser humano passa pelo salvador, ou seja, a proteção para o desconforto civilizacional e também as constantes reconstituições do paraíso, descritas até por doutrinas científicas. Max em sua utopia comunista, sonhou com algo próximo ao jardim do Eden: pescar pela manhã, caçar pela tarde e, à noite, ser crítico literário. lsto, é óbvio, remete-nos a pensar em paraíso, em comunhão entre o homem e a natureza, algo que foi perdido e que poderia ser reencontrado. O que nos prometem os governantes? De certa forma, eles nos prometem um retorno à ldade de Ouro. Por mais momentâneo e passageiro que pareça, a idéia é essa. Quando Hitler aÍirmava que a Alemanha seria grande, quando Vargas falava das pontecialidades e Íazia promessas de levar o Brasil ao desenvolvimento, ambos prometiam, de uma maneira indireta, o retorno aos

Afirmamos
Que a miséria não é de ordem fatal

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A MITOLOGIA POLITICA

bons tempos, à aurora da humanidade.

sado para se superar o mal-estar do
presente e para se criar expectativa de melhoria e de esperança nas mudanças que nem sempre virão.
4) A UNTDADE

Prometiam uma época Íeliz e gloriosa, enfim, queriam lrazer de volta a ldade de Ouro. A primeira conclusão a que podemos chegar é a existência de forte ligação entre o arquétipo da ldade de Ouro
e o Salvador. No mundo moderno, o Salvador vem, de certa Íorma a ser o anunciador da volta à ldade de Ouro. Não que consigam sempre lrazer p.aru a atualidade todos os aspectos do

Eden para a terra, mas a sua promessa está sempre embasada em elementos advindos do paraíso perdido: a paz e a tranqüilidade, a justiça social, a proteção contra males externos, a harmonia e a unidade entre todos. Percebe-se, então, que a ação do Salvador visa, mesmo que de maneira parcial, recriar a idéia de reconquista do paraíso, onde nunca estivemos, mas que teremos se nos identiÍicarmos com o plano salvífico de um líder. A crise desaparece em meio à espêrança (muitas vezes atingida) de se ter um pedaço das benesses vividas no paraíso perdido e reencontrado, em parte, pela presença de um discurso inovador e que subliminarmente indica a possibilidade de se aproximar daquilo que fora perdido. E nos momentos de crise que o mal-estar civilizacional se mostra mais claramente, que se percebe de maneira mais deÍinitiva o afastamento do passado promissor. Por isso, é que nesses momentos se maniÍesta a vontade de retornar ao que não mais existe. A ldade de Ouro pode-se manifestar de várias formas, ou mirando-se na aurora da humanidade ou remetendo-se a épocas mais recentes da nossa história, sempre com Íundo nostálgico e com a esperança de se reencontrar o bem que Íora perdido. Frases e comentários, como "eu eratelize não sabia", "naquele tempo é que tudo era bom", seruem para ilustrar a necessidade de se mirar no pas-

Um arquétipo muito importante e que nos ajuda a entender de maneira clara muitos movimentos nacionalistas, e revolucionários, é a unidade, a chamada vontade "una e regular". Vejamos as seguintes passagens citadas por Girardet:(p.144) "Na unidade está a vida, proclamara Bossuet dois séculos antes; fora da unidade a morte é certa."(...) Temos um único desejo: perder-nos no grande todo. Sem a unidade pereceremos. Como não o sentimos?(...) E como nos aÍirma Comte: Do ponto de vista positivo, todo o problema humano consiste em constituir uma unidade pessoal e social pela subordinação contínua do egoísmo ao altruísmo." Assim sendo, podernos perceber a existência de uma contradição relativa à unidade na história humana. Por um lado, deseja-se que a individualidade seja respeitada, por outro, almeja-se Íundir, unir, ligar todos num único e perseguido ideal. Então convivemos com um dilema: o de obter unidade em meio à diversidade. Em meio à diversidade da lgreja todos se unem em torno do poder papal. Em meio à diversidade dos cidadãos, todos se unem em nome da pátria. Os indivíduos, supostamente, abandonariam suas diÍerenças para Iutarem ou defenderem o bem comum, sua terra, sua pátria, suas origens. Portanto, a unidade pressupõe a existência de fé em um determinado projeto, em uma determinada causa. Essa causa pode ser a libertação do jugo do opressor, pode estar ligada a um projeto de crescimento ou desenvolvimento da nação, etc.

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Além da Íé, que é elemento primordial, devemos destacar a existência de características morais e cívicas que unam o grupo, a nação ou a comunidade em torno de um ideal, de um objetivo. Porém, deve-se ressaltar que, mesmo apesaÍ da necessidade de se levar em conta a existência de ligações morais e culturais entre indivíduos promovendo a unidade, o ponto crucial localiza-se na fé. De acordo com Saint-Simom, a civilização moderna provocaria a destruição da unidade. Tudo se centraria em projetos individualistas e egoístas. A saída e aÍe na união, que se daria a patir do compafiilhamento de valores e na crença de que a união iria fortalecer o grupo, a comunidade, a nação. A unidade em torno de um ideal como já descrita leva a pensarmos num fenômeno típico do século XX, o messianismo. As lideranças religiosas, ou não religiosas mas com características messiânicas, proliferaram durante todo este século em todo o mundo e a característica básica dessas Iideranças é a unidade em torno de sua pessoa e em torno dos seus projetos, projetos estes que como as promessas religiosas se ligam à fé, ao crer sem duvidar. Para haver unidade, tem de existir o objeto que proporcione essa união. O instrumento unificador pode ser o lÊ der religioso, ou o líder político, ou ainda, um líder político com as características messiânicas descritas. Fé e unidade se misturam e se associam à presença de um elemento aglutinador, o líder carismático.

Portanto, podemos considerar que, por trás dos discursos muitas vezes racionais e puramente cientíÍicos, escondem-se passagens simbólicas e mitos a elas associados. Os princípios políticos, as linhas de pensamento político, estão sempre reÍeridos às seguintes expresões:

. Começo, . Pontos de partida, . Enunciados fundadores

. Autoridade radiosa da origem
O espaço natural do mito político reÍere-se às origens, à retomada daquilo que já foi perdido e, tal qual Girardet, Starobinski(1 989) percebe a necessidade do retornar ao passado para dar sentido ao presente e para se levar à Írente o projeto político a ser implementado. Assim sendo, o discurso darazáo está impregnado pela paixão, e os grandes momentos revolucionários são episódios modelares e paradigmáticos desse encontro entre paixão e razáo. Quando a razáo é arrastada pela paixão, podemos concluir que alguma modiÍicação radical irá acontecer. E seguindo essa linha de raciocÊ nio, encontraremos um ponto de contato entre as considerações de Starobinski (1989) e a análise de Jung (1976). Esta encarnação da razáo pela via revolucionária, portanto carregada de paixões, pode ser entendida como a materialização da psique inconsciente, do inconsciente coletivo, através de seus arquétipos míticos, na psique consciente que produz e organiza a razão. Portanto, paixão e razáo estão sempre mais próximas do que se pode imaginar. Continuando nossa análise, voltemos o olhar para o período descrito por Starobinski, que está intimamente ligado às lutas políticas contra a tradição monárquico-Íeudal-religiosa. Segundo este autor, essa luta contra o chamado Antigo Regime consolidou e cristalizou mitos e formas de racionalizaçáo oriundos do passado a ser combatido.

e

c) LUZES

E RAZÃO

Já descrevemos e discutimos questões relativas à mitologia política. AÍora, apontaremos para uma outra direção, para o mito que se esconde atrás da racionalidade. Para nossa empreitada, será de fundamental valor a obra de Starobinski, "Os Emblemas da Razão" (1989).

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lrropem em nome dos novos princípios velhos mitos que são restaurados em nome da inteligência e da sensibilidade. São eles, razáo e liberdade, das luzes. Iodos eles estão respaldados no mito que os antecede, o Renascimento, o restaurar, o retornar, o de regenerar, o de ressuscitar, de se recolocar as coisas em seu devido lugar. Ainda podemos destacar, levando em conta a questão da Revolução Francesa, a idéia de "mito solar da revolução" (Starobinski, 1989) em que sê alude às metáÍoras da luz que tem sua esmagadora vitória sobre as trevas, a vida renascendo do seio da morte, do mundo que é reconduzido ao seu começo, às suas origens promissoras. Daí surgem lemas revolucionários como 'Aquilo que é aniquilado sem retorno deixa o campo livre para um começo". São lemas como esse que justificam a idéia de que o terror é a Celebração prolongada de um sacrifíccio, de um nascimento". Assim, mais uma vez fica tipiÍicada a dicotomia básica, a oposição entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas. A democracia evidenciaria os dois lados do imaginário revolucionário: de um lado, a base universalista ( para todos, austera, direta e Íorte) e, por outro, violenta, subversiva, mortal, divertida, lúdica e sensual. Os mitos de origem, racionais ou utópicos, são sempre fontes de energia, de vigor, de Íorça demiúrgica, de simplicidade essencial, de Íundação, puteza, inocência e transcendência. São esses os mitos que transparecem de maneira mais clara quando olhamos para correntes de pensamento modernas. O maxismo desembocaria no paraíso perdido e reconquistado com o comunismo; o positivismo levaria a uma cultura cívica, onde o respeilo, apaz e a solidariedade das origens seriam retomados pela restauração dos valores positivos. A luz que simboliza o bem estaria relacionada ao racional, ao puro, ao

inocente, ao virtuoso, ao forte, ao corajoso, ao universal, ao transcendente, ao ético, ao moral, ao natural, ao primordial, ao progressista, ao novo e ao diurno. As trevas sáo claramente relacionadas ao decadente, ao decadente, ao obscurantista, ao leviano, ao maneirista, ao degenerado, ao obsoleto, ao podre, ao tradicional, ao imoral, ao preconceituoso, ao artiÍicial, ao pernicioso, ao noturno. Podemos transportar este modelo criado por Starobisnski para analisar a Revolução Francesa e para muitas outras passagens revolucionárias. O passado decadente deve dar lugar ao novo que, por sua vez, estará intimamente ligado ao passado das luzes, que são recolocadas novamente no seu devido lugar (ldade de Ouro).

E também reencontramos um princípio jungiano presente na análise de Starobinski, o tema mitológico da unidade democrática, da igualdade e da fraternidade, da liberdade, do consenso e do contrato social nos remetem ao tema da unidade primordial, do retorno ao uno e, conseqüentemente, daquilo que não se separa. lsso era denominado porJung de princípio da individuação,
do seif, da totalidade, em sua Íorma pura

positiva. O indivíduo, ao retomar suas origens, poderia voltar às suas origens, uniÍicadoras e protetoras. Ao voltar ao paraíso, o indivíduo se reencontraria consigo mesmo, o que também lhe permitiria o encontro com a coletividade. Citemos uma pequena passagem da obra de Starobinski (idem, p. 150)

A terra é um reino do céu E os mortais são semelhantes aos deuses; Logo a terra será um reino celeste.

Este pequeno trecho retirado da obra de Mozart, A Flauta Mágica, mais

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uma vez reÍlete a esperança e o desejo

ao retorno às origens, retorno à aurora Íeliz da humanidade, quê permitirá superar os intempéries da civilização opressora. Enfim, a razáo consciente é movida pela paixão que brota do inconsciente e, assim, permite que os sonhos e os desejos advindos tenham uma esperança de se realizar. O retorno ao passado feliz parece estar mais perto quan-

ção, ao mal, à anarquia, à utopia libertária, etc. advêm do mito original, o paraÊ so que se perde e que tem de ser recuperado a qualquer custo.

do a promessa de que isso irá acontecerse visualiza de maneira nítida e clara. Esses sonhos se materializaram na Revolução Francesa, nas ações de Hitler, nas promessas de Mussolini e nos discursos de Vargas.
D) DO PARAíSO AO APOCALTPSE

Para muitas correntes de pensamento, haveria apenas um mito, o mito original da criação que desembocaria nas variantes mitológicas mais diversas. Os arquétipos descritos por Girardet seriam originários desse mito primordial: a cosmogamia (mito da criação). Porém, logo após a criação, perde-se o paraíso, e esta perda do paraÊ so é a base para a compreensáo do mito político. E a partir daí que surgem as utopias, as ideologias, as mentalidades, o imaginário social. Assim sendo, o arquétipo (JUNG, 1976) básico do "Pai criador", na sua

Todos esses mitos dão resposta às seguintes questões: Comc resgatar o que foi perdido? Como retornar ao passado de paz e tranqüilidade? Como superar o mal-estar causado pela civilizaçáo? Dessa Íorma, as utopias, as ideologias modernas, as lideranças carismáticas são uma saída, uma resposta, um caminho para sê reencontrar o que fora perdido. Daí, a importância da aÍirmação de que todos os mitos se originam do mito do paraíso. AÍinal, o que busca o ser humano? Proteção total contra todo tipo de mal-estar, vida boa e segura, e, segundo a tradição religiosa greco-judaico-cristã, isso existia no paraíso e só existirá de novo quando esse paraíso for reencontrado. Sob essa ótica, a democracia, com as suas teorias do contrato social.
do mercado, da legalidade, da representação, dos direitos individuais, da igualdade, etc. seria, em sua base, uma das Íormas de se recuperar o paraíso perdido, do encontro da terra prometida, e o arquétipo do herói salvador estaria aqui simbolizado na soberania do povo, na vontade coletiva, nas emanações do cidadão. O socialismo partiria dos mesmos princípios, tendo a propriedade privada como reflexo simbólico do pecado original, o princípio que havia propriciado a exclusão do outro, do surgimento da sociedade de classes. A sociedade comunista do futuro seria como que uma réplica do paraíso terrestre. Poderíamos distinguir no socialismo como que quatro etapas: 1 - Comunismo primitivo -+ Paraíso edênico/ldade de Ouro; 2 - Sociedade de classes -+ Luta de classes, proletariado, herói-salvador; 3 Apocalipse -+ A crise final e geral do capitalismo;

relação com "Adão Transgressor"
(anjo decaído), conÍigura a existência de um mito da queda. É a partir dessa queda que se desenvolvem as mitologias ocidentais que se alicerçam em um contexto greco-judaico-cristão a partir do qual desenvolveu-se a atual civilização. Os mitos ligados à autoridade, à tradição, à lei, à ordem, à moral, ao Estado, ao bem, à unidade, ao comando e os mitos políticos correspondentes ao transgressor, à desordem, à revolução, ao opositor, ao subversivo, à conspira-

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4 - Comunismo -+ O éden recuperado, o homem novo. Nos totalitarismos, estariam implícitos os mitos da busca da unidade, da totalidade, da integração, da inteireza, a partir da indivisibilidade do Estado, da nação, do povo e da raça. Assim, busca-se excluir a diferena diversidade contraditória, o conÍliça, to, a dúvida, em nome do pai (do Estado, do Fuhrer, do duce, etc.) todo o conÍlito é suprimido. Percebemos, então, um retorno à unidade primeva criador-criatura (Javé-Adão) e aos lemas de uma fé, um deus, uma igreja, e de um povo, uma nação, um cheÍe,etc. A história teria, como ponto básico, a busca dos paradigmas perdidos da condição de igualdade, de liberdade, de solidariedade, de inocência, de bem-aventurança, de plena integraçáo do homem com a natureza e com a sociedade. Este mito das origens, como vimos, maniÍesta-se das mais diversas maneiras. Pode ser o mesmo para conservadores, tradicionalistas, total itários, democratas ou socialistas. E uma espécie de ponto de partida comum, que influenciaria decididamente essas Íormas de pensamento. Então, as ideologias políticas seriam formas de organizaçáo e sistemalizaçã,o racionais, enquanto teorias e práticas, de algo que provém da natureza mítica. Dessa Íorma, os mitos seriam como que racionalizados e definidos de maneira não mítica. Cada época histórica recriaria, repensaria, imaginaria e recontaria os mesmos mitos segundo suas sensibilidades, sua cultura, seus estágios de conhecimento e seu domínio sobre a natureza. Na modernidade e na contemporaneidade sob a qualtodos vivem, atualmente predominam os mitos do progresso, da revolução e do novo homem.

Esses mitos estariam Íundamentados na ação transÍormadora da ciência e da tecnologia, que são Írutos de uma racionalidade específica e de Íormas mais aperfeiçoadas de relações
sociais. Mas, como todo e qualquer mito,

os chamados mitos modernos sáo marcados por dualidades e por ambiguidades. Dessa Íorma, surgem as diversas ideologias e teorias políticas,
conseruadoras, tradicional istas ou revolucionárias. Dessa Íorma, o mito encontra caminhos para sua realização e sua manifestação. Na modernidade, os mitos são habitualmente laicilizados, secularizados, fragmentados. Ocorre a chamada "proÍanação do sagrado e a sacralização do proÍano". Tudo isso se daria sob a égide da ciência, das tecnologias e da racionalidade utilitária. E toda essa base racionalista estaria ancorada no século XlX, nos socialistas utópicos, no socialismo cientíÍico, no positivismo e no liberalismo. Temos como protótipo exemplar Comte e a "religião da humanidade". Se olharmos para o caso do herói, veremos que esse mito tanto continua a ser individualizado (o líder carismático, o duce, o Fuhrer, o caudilho, o guia genial, o timoneiro, o homem comum das ruas, etc.), como coletivizado (o Estado, o povo, a raça, a classe social, o partido, a igreja, etc.) O mito do apocalipse, que decorre da existência do mito do paraíso perdido como Íase preparatória da recuperação, da restauração (a nova Jerusalém), reaparece nas ideologias políticas modernas na forma de revolução (o destruir para construir). Destrói-se profundamente para se construir solidamente. Vizualiza-se uma ldade de Ouro a ser construída com as seguintes características: . ausência de propriedade privada; . abundância material, bem-estar; . desaparecimento do indivíduo em um coletivo que o realiza plenamente;

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. ausência de angústia; . suspensão do tempo, fim da história, surgimento do eterno presente. Dessa Íorma, temos, no socialismo, que o mito está associado à idéia de crise final do capitalismo (apocalipse), mergulhado no caos, na anarquia de suas próprias contradições insolúveis em meio às guerras de classe, porém o Íim da guerra levaria à sociedade perfeita, ao idílico paraíso. Nos totalitarismos, o mítico está ligado à idéia de crise final do ocidente cristão, que se encontra corrompido pelo materialismo vulgar, pela destruiçáo da Íamília patriarcal, pela corrupção generalizada, pelo ateísmo, pelo individualismo exacerbado, pelas desordens social e racial, causados pelas idéias socialistas e democráticas. O Íascismo viria a corrigir essas distorções e promover a harmonia, o reencontro com a pureza, o redescobrimento do coletivo, em suma, o retorno ao paraíso perdido. Nas democracias, encontramos a idéia de triunfo final do democrático sobre o império do mal, sobre o antiCristo, sobre os govermos e práticas autoritários, sobre tudo aquilo que não se enquadra nos princÍpios democráticos e que, por isso, tem de ser remodelado, refeito. Só assim o bem comum, a harmonia e apaz serão consolidados. Assim, percebemos que as nossas modernas ideologias "bebem" na fonte mítica das mais variadas maneiras, mas o objetivo é um só: dar alento aos sonhos perdidos, mas, não esquecidos, sonhos que remetem àquilo que Íora abandonado, mas que tem de ser reencontrado: o paraíso Íoi perdido, mas tem de ser redescoberto. O mito, portanto, pode esclarecer a natureza do poder político, das instituições sobre as quais o poder se apóia, pode reÍorçar o poder das idéias, dos valores que alicerçam a cultura política e fundam a esperança de que algo de novo e melhor pode acontecer.

E) MrroLoGrAS MODERNAS; UMA ULTIMA ANALISE Como fechamento deste artigo, recorreremos às explicações contidas no dicionário de Norberto Bobbio (1986) para o termo mito, o que permitirá tirar claras conclusões sobre o mito e sêu papel. Como vimos ao longo de todas as análises feitas, o mito político está associado a um ato de vontade intuitivo e não a um ato de intelecto analítico e abstrato, mas capaz de mobilizar e sustentar a ação política. Portanto, é um conhecimento político intuitivamente verdadeiro. Acredita-se que o mito político constitui, na atualidade, uma instância vital para se compreender a modernidade e que as discussões acerca do mito não devem se limitar a racionalismo contra irracionalismo ou romantismo contra pós-romantismo. Foijustamente isso que tentamos mostrar ao aÍirmar que a dimensão mítica muitas vezes caminha ao lado da dimensão cientíÍico-racional. As utopias, os sonhos de liberdade e igualdade estão associados a doutrinas científicas e, muitas vezes, a estudos biológicos, como a construção do homem ideal, o Íim da Íome a partir do aumento da produção agrícola via desenvolvimento tecnológico, o extermínio das doenças. São como que utopias que são nofteadas pelo tão citado mito do retorno ao paraíso perdido. Assim sendo, podemos considerar Íundamental a classificação dos mitos elaborada no dicionário de política por Tiziano Bonazzi (1 986) :

a - mito político e mitologia em geral; b - as relações entre mito político, ideologia e utopia.
Percebemos que a mitologia polÊ tica muitas vezes se integra com a mi-

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tologia religiosa (inÍerno-paraíso, bemmal, pecado-perdão, etc.). Percebemos também que a questão do mito se associa à crise do racionalismo e que a presença e a importância dos atuais estudos dos mitos são indicativas e sintomáticas de que o racionalismo, como sistema global de pensamento e ação, parece mostrar-se incapaz de dar conta da política e mostra os riscos políticos a que está sujeita uma sociedade baseada em uma autocompreensão unilateramente racionalista. Embora o mito seja, muitas vezes, "racionalizado" para poder ser compreendido e analisado temos que admitir que só as Íontes explicativas racionalizantes não bastam para o entendimento dos Íatos políticos modernos. Portanto, não basta recorrermos somente a elas. Temos, sim, é que encontrar as brechas nessas teorias para encaixarmos a análise mitológica que, como vimos, é viávele satisfatoriamente explicativa. Os estudos míticos contemporâneos sempre encontram dificuldades e obstáculos na resistência das correntes de pensamento racionalistas, seja materialista, funcionalista ou estruturalista, mas com o advento da psicologia, da Antropologia e da sociologia cultural, o mito se torna instrumento central de análise para a compreensão dos fenômenos associados à ação políticosocial-cultural. Dessa maneira, atividade racional e atividade simbólica se sobrepõem, se articulam, se conÍundem; o ato político é constituído simultâneamente de objetos, métodos, Íins racionais e símbolos emocionais, representativos de esperanças, temores, emoções reprimidas e inconscientes. O mito político, assim, está claramente associado à presença do sim-

bólico no meio político; é através da esÍera simbólica que elementos míticos conÍluem para a política. Portanto, o mito se constitui em algo como uma espécie de cimento para as relações de poder. Afinal, conhecimento mítico e conhecimento racional coexistem na estrutura psicológica do homem, do sujeito cultural e também do sujeito político, sujeito da ação e da razáo, mas também sujeito simbólico e da emoção. A desintegração das sociedades tradicionais (mal-estar) destruiu a mitologia como organização cultural global, mas não destruiu os mitos, apenas modiÍicou suas Íunções e Íormas. Dessa maneira, as narrações míticas são produtos de conflitos inconscientes ligados a situações de crise social- no duplo sentido da mudança Íavorável ou desÍavorável ao grupo agente e assumem, assim, caráter político. A política, no seu impulso racionalizador, tende a esquecer tudo o que já dissemos aqui, o seu caráter mítico, as suas simbolizações, sua relação com a cultura religiosa, relega suas matizes incoscientes ao segundo plano, ao limbo. Com isso, perde instrumental de análise para situações e Íatos ligados à mitologia. Assim sendo, deÍendemos a conclusão de Bonazzi (1986) de que o mito político deve ser assumido como conceito analítico independente, sobretudo visando ser um contrapeso ao reducionismo racionalista dominante de que o mito seria um Íenômeno anormal da realidade social. Pelo contrário, o mito é um fenômeno constitutivo e, assim, componente fundamental do conceito de política. Mas, para que o mito seja utilizado a contento, é necessário Íormular-se uma lógica do ambíguo e do contraditório e colocá-la em oposição à lógica científica dominante.

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HUMANAS

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