O AMERICANISMO TROPICAL, UMA FRONTEIRA FÓSSIL DA ETNOLOGIA? Anne-Christine Taylor (E.H.E.S.S.

, Paris)

Este trabalho tem por objetivo evocar alguns dos fatores que dão sua forma específica aos conceitos, teorias e ideologias implícitas que caracterizam um setor da pesquisa em etnologia, o estudo das sociedades das terras baixas da América do Sul. Tal intento leva a questionar a pertinência epistemológica dos recortes geográficos em nossas disciplinas. Seria legítimo, e em que condições, isolar um objeto como o « americanismo tropical »? Esse tipo de questão permite evidenciar imediatamente um paradoxo. Todos os pesquisadores de campo sabem que o critério geográfico é determinante no modo como abordam e constróem uma problemática 1 . No entanto, ainda que se reconheça — entre colegas e em tom de brincadeira — um « estilo » particular no trabalho e na personalidade dos pesquisadores em função do lugar onde realizam suas pesquisas, os possíveis efeitos dessas diferenças de abordagem, no nível propriamente científico, costumam ser negligenciados ou ocultados, e não afetam o postulado, em vários aspectos fictício, da homogeneidade teórica e conceitual da etnologia. Para esclarecer minha posição quanto a essas questões, noto que as reflexões aqui apresentadas possuem duas determinações imediatas. De um lado, a pesquisa de campo que realizei entre um grupo jivaro fez com que eu ficasse especialmente atenta ao problema da relação entre ideologia e ciência, ou, se preferirem, entre ideologia espontânea e ideologia científica, por várias razões: as sociedades jivaro são ao mesmo tempo pesadamente conotadas do ponto de vista do imaginário ocidental, e especialmente opacas do ponto de vista científico. De fato, o sistema de parentesco, o habitat e a territorialidade, a permanente guerra institucionalizada típica desses grupos não se encaixam nas elaborações clássicas da etnologia acerca desses temas. São, portanto, sociedades particularmente adequadas para instigar uma reflexão acerca da insuficiência das ferramentas teóricas de que nós, americanistas, dispomos, para explicá-las, e acerca da contaminação de nossos conceitos científicos pelos estereótipos que têm se formado, há quatro séculos, sobre os Jivaro. Esse olhar crítico me vinha ainda mais facilmente na medida em que, longe de constituírem um grupinho sonhador e moribundo, daqueles que agradam, dizem, aos amazonistas, os Jivaro são atualmente 80.000, e desempenham um papel de primeira linha dentro dos movimentos de reivindicação étnica que surgem em praticamente toda a América do Sul. Do outro lado, um livro escrito por africanistas, sobre os americanistas, intitulado O Selvagem na Moda (Paris, Le Sycomore, 1979), me fez refletir, tanto por seu conteúdo como pelas reações que provocou em meus colegas americanistas. Com efeito, o livro ilustra bem, e perpetua, os mal-entendidos ligados ao postulado da unidade científica da antropologia.

Numa análise, aliás bastante incisiva, dos pressupostos implícitos — especialmente as reminiscências da ideologia clássica do Bom Selvagem — na obra de Lévi-Strauss, Jaulin, Clastres e Lizot, os autores do livro acusam esses americanistas de terem contrariado a vocação crítica de sua disciplina, apresentando das sociedades que estudavam uma visão libertária, tipo « Maio 68 », totalmente a-histórica,
Os estudos de parentesco fornecem excelentes exemplos da determinação geográfica implícita de uma problemática geral. O que Dumont chama de « charme subjacente da filiação — uma inflexão que marcou toda a teoria do parentesco durante décadas — não estava ligado à preponderância de material africano na elaboração dos modelos sociológicos que alimentaram a teoria do parentesco?
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É nessa perspectiva que eu gostaria de esboçar uma arqueologia sumária do americanismo tropical. o americanismo tropical é reacionário porque os americanistas são reacionários. sem abordar a renovação teórica que se esboça na disciplina há uma década. considerar como um assunto « interno ». o desconhecimento demonstrado pela maioria dos autores do « Selvagem » quanto aos embasamentos epistemológicos e as reais condições da prática dos americanistas enquanto americanistas.C. — ou a culpabilização de um bode expiatório. bem como em um vocabulário « técnico » menos ambígüo. necessariamente ameríndio? E por que as ideologias que se nutrem desse fantasma encontram respaldo científico mais facilmente nos americanistas do que em qualquer outro lugar? Por não colocarem o problema nesses termos. e até visados. Taylor. . e sobretudo mais transparentes. Homogeneidade não significa unicidade. a vontade de chegar a uma maior homogeneidade no seio da disciplina. Por isso me parece interessante dedicar um pouco mais de atenção às especificidades irrefletidas das etnologias regionais. o fato desse debate abortado ter imediatamente assumido a forma de uma polêmica política em vez de crítica científica (que aliás teria sido política. os efeitos epistemológicos do recorte geográfico que rege a etnologia não quer dizer que se defenda um desmembramento da ciência em estudos regionais particularistas e solipsistas. Em suma. às custas de simplificações às vezes caricaturais. ou melhor. tais análises não desembocavam numa questão que me parece crucial: por que o Selvagem — enquanto figura do imaginário ocidental — é. tornando-a mais crítica. de apreensão e de construção do objeto de estudo. um tratamento adequado dessas transformações exigiria de fato um desenvolvimento que as limitações de espaço nos impedem de realizar. a quem se atribui nesse assunto uma responsabilidade proporcional à sua notoriedade científica. por esse trabalho. e é evidente que a antropologia sempre será atravessada por ideologias contraditórias. mostra bem que se trata aqui de um desses níveis de prática que se convém. a falta de reação pública por parte dos americanistas — embora muitos deles se sentissem interpelados. Além disso. E sabemos todas as operações na verdade estratégicas no trabalho científico que a expressão encerra. Mas o que está realmente em jogo nesses enfrentamentos teóricos aparecerá mais claramente se estiverem baseados em métodos mais unificados. para tornar mais explícito — sobretudo para os não-americanistas — o modo como os conceitos etnológicos funcionam nesse espaço específico. trata-se de um esboço — apresentado aqui a título experimental — de um trabalho que será desenvolvido e completado posteriormente.A. Em razão das restrições impostas a esta contribuição. ainda hoje. Contudo. finalmente). farei apenas indicações bastante breves. e muito menos que se queira a qualquer custo unificar a etnologia sob o jugo de uma teoria exclusiva. de modo a tornar menos ilusória. e vice-versa. em nome de uma vontade de homogeneização. a saber. ainda que o considerassem como um acerto de contas de bastidores —. Levar a sério. a respeito do americanismo tropical desde suas origens até a década de 1970 aproximadamente. Lévi-Strauss nesse caso. as análises do livro conduzem finalmente a duas alternativas igualmente decepcionantes: — ou uma tautologia. Americanismo Tropical 2 fundamentalmente reacionária e ainda mais inadmissível na medida em que se apresentava como visão científica. por consentimento tácito. as reações a esse livro.

Objetar-me-ão que a contribuição de Lévi-Strauss por si só basta para desmentir esse diagnóstico de ateoricismo endêmico. à ausência de sofisticação teórica. bem como à sua inteligibilidade por parte do analista —.. entre a sociedade-miragem e o etnólogo. patologias que se traduzem numa ocultação ou não-apreensão das reais condições de existência e de reprodução das sociedades ameríndias. sua obra não teve tanta influência sobre o americanismo quanto se poderia pensar. os Katchin). A Amazônia fornece aos comparatistas e generalistas dados etnográficos.. Contudo. enquanto gênero. os americanistas estão. a pré-história e a história dessas regiões ainda está mergulhada num mistério quase completo. um anti.. É graças a essa operação de substituição que pode se instaurar. Em primeiro lugar. desde o século XVI. acerca das formações sociais ameríndias das terras baixas.ou a-historicismo irredutível — a convicção implícita de que a história das sociedades amazônicas é estranha a seu ser (exceto como decadência inelutável). os escritos dos americanistas costumam distinguir-se por um monografismo estrito. e comparar esse discurso ao de um africanista ou de um especialista em Ásia. Seria interessante examinar a relação inversa. 2 Sabe-se que as sociedades indígenas constituíram a matéria-prima privilegiada dos utopistas. por não poder apresentar uma análise mais rigorosa e mais bem documentada.. e ainda por uma dificuldade manifesta em se libertar de uma alternativa fixa entre um determinismo ecológico sumário e um idealismo mais ou menos temperado. em última instância. em relação a ele. em benefício exclusivo de certos traços que permitem constituí-las em utopias 2 . de onde uma persistente inadequação.000. entre a realidade à qual são confrontados e os intrumentos teóricos de que dispõem. havia apenas umas cinqüenta monografias publicadas acerca da Amazônia inteira. asiática (a India das castas. os Tiv. No início dos anos 70. deve-se ainda acrescentar o caráter de « bricolagem » das análises sociológicas em americanismo: lança-se mão de conceitos forjados alhures. não tanto enquanto americanista (exceto no Brasil). . desde o século XVI 3 . mas enquanto teórico da etnologia em geral. 3 Para percebê-lo. num tom deliberadamente impressionista. mas não modelos de análise gerais.A. os traços marcantes dessa área de estudos podiam ser resumidos do seguinte modo: 1) um nível baixo de desenvolvimento do saber. os quadros gerais do saber acerca das culturas sul-ameríndias estão em constante movimento.. 2) Uma grande pobreza teórica. qualitativa e quantitativamente.. como os fornecidos pela etnologia africanista (os Nuer.. Um recente manual norte-americano consagrado à América do Sul se intitula Ethnology of the least known Continent (Etnologia do Continente Menos Conhecido). Taylor. a relação privilegiada entre utopia e indianidade tropical tem sido até agora estudada no quadro de análises históricas centradas nas utopias.. Até 1970 aproximadamente. basta escutar os americanistas falando de seu campo. as classificações linguísticas e culturais são continuamente rediscutidas. ao que poderíamos de chamar de patologias na construção do objeto. o americanismo tropical praticamente não produziu nenhuma obra que servisse de referência para o conjunto da disciplina (o estatudo de Lévi-Strauss enquanto americanista coloca um problema ao qual voltarei). essa relação muito particular. ou seja. A Sociedade contra o Estado..). sentida ainda hoje por todos os americanistas. em « Sociedade selvagem ». cujo aspecto iniciático e a forte valorização são uma constante no americanismo. a lista ultrapassava os 2. desse ponto de vista. ou oceanista (os Tikopia. Esse conjunto de traços remete. Por outro lado. aliás. Até a publicação do livro de Pierre Clastres.. em relação a uma região de extensão geográfica comparável. De modo geral.C. Americanismo Tropical 3 Procurarei inicialmente caracterizar de modo breve o americanismo tropical. contudo. o tropismo do gênero e dos modelos utópicos na literatura americanista em geral. os Trobriand). Ao extremo empiricismo. a Africa Ocidental. o modo como uns e outros encaram e expressam sua relação com o campo mereceria um estudo aprofundado. na mesma posição que os africanistas ou oceanistas. porque Lévi-Strauss marcou o americanismo.

Pois baseiam-se num roteiro invariável e pré-fixado: a necessária agonia das sociedades indígenas. difícil de perceber.A. Em suma. drama cujo herói é. Nessa perspectiva. que permite avaliar a importância que a figura do índio ainda possui no imaginário europeu. 3) O grande desenvolvimento. mostraram-se reticentes quanto aos aspectos propriamente científicos de sua obra. presentes no conjunto da etnologia americanista embora geralmente sob uma forma latente. b) os temas veiculados pela literatura do etnocídio possuem um forte apelo junto ao grande público. talvez até um renascimento das sociedades ameríndias das terras baixas. considerada extremamente positivista e « desumanizante ». a não ser no campo da análise mítica. pois os fantasmas que assombram as outras etnologias regionais remetem ao século XIX mais do que aos séculos XVII e XVIII. uma máscara ocidental e não uma criatura de carne e osso. mais uma vez. sem registrar — exceção feita ao Brasil — sua contribuição medodológica. A maior parte das sociedades indígenas que sobreviveram até hoje estão atualmente em pleno crescimento demográfico. farei apenas algumas observações elementares a esse respeito. sobretudo na França. pois lamenta-se tanto o índio « aculturado ». não os comovem? Qualquer que tenha sido a eficácia momentânea — considerável. é preciso ressaltar a sua profunda ambiguidade. Esse fato merece reflexão. nas condições históricas da relação entre a sociedade produtora dessa ciência e aquelas que constituem seu objeto. seguindo sua vocação. ao passo que massacres de que são vítimas outras populações. os movimentos de reivindicação se multiplicam. porque priva as sociedades ameríndias de qualquer capacidade de refletir e infletir sua história.. principalmente aquilo em que manifestava sua profunda concordância com a visão tradicional iluminista das sociedades indígenas. não é menos verdade que ela merece ser atentamente examinada. por sinal — dos trabalhos que denunciavam o etnocídio. Nos EUA. como explicar a ausência do índio como objeto da ciência e sua presença obsessiva como fantasma? Por que essa área da etnologia tem tanta dificuldade em se livrar dos lugares-comuns. a tenacidade de certos delírios sobre os ameríndios não pode ser imputada à falência crítica de uma etnologia americanista mal « descolonizada ».. o americanismo tropical reteve. do qual fazem parte os americanistas. por duas razões: a) esse tipo de texto constitui um bom revelador das múltiplas pequenas derrapagens na ideologia que eu evocava acima. as falsas evidências? É evidente que as raízes dessas características do americanismo tropical devem ser buscadas nas condições de constituição desse tipo de saber científico. Americanismo Tropical 4 Em segundo lugar. e portanto desnaturado. de um traço sintomático. Se é verdade que a literatura do etnocídio representa apenas uma corrente do americanismo. da corrente chamada « do etnocídio ». e é evidente. evidentemente. parece ser particularmente sensível — de um modo muito particular. É principalmente nesse tipo de escrito que aparece mais claramente a força da herança clássica no americanismo. primitivas ou não. Taylor. como tampouco se explica por um vago recurso a uma « ideologia Maio 68 ». o do fatal desaparecimento dos índios. sobretudo na França nos anos 60-70. Além de ser profundamente reacionário. ainda por cima — ao desaparecimento das populações amazônicas. se organizam. muitos americanistas. da obra de Lévi-Strauss. Visto que os escritos acerca do etnocídio foram abundantemente analisados. a real influência de Lévi-Strauss foi em grande parte abafada em prol de um morfologismo pseudo-estruturalista difundido notadamente por Maybury-Lewis e seus discípulos. que caminhamos para um ressurgimento. essa é uma idéia totalmente equivocada. trata-se. pelos autores do « Selvagem » entre outros. o aspecto fossilizado do . sem querer negar o destino trágico de milhares de índios e as ameaças reais de genocídio que ainda pesam sobre os índios em alguns países. por conseguinte.C. Mas afinal. constitui um outro traço marcante do americanismo tropical. Por que o público. em criticar. como o índio assassinado. De fato. Ora. esse gênero de texto é responsável pela perpetuação de um mito extraordinariamente longevo e muito difundido (inclusive entre um número considerável de etnólogos).

deixarei de lado esse aspecto da questão. Por falta de tempo e da competência necessária. Quero ressaltar. não foi convertido em objeto da ciência. e o Indio selvagem. identificar as múltiplas determinações que contribuiram para dar a essa disciplina seu aspecto atual. e do papel político considerável desempenhado pelos etnólogos latino-americanos nas políticas de seus países em relação às populações indígenas. pois a relação entre eles foi e continua sendo muito diferente. como se sabe. Mas não basta constatar a ausência de uma relação colonial de tipo moderno para explicar o que o americanismo é atualmente. a dos conquistadores/colonizadores e a dos viajantes. 1. o índio imperial. e submete o americanismo a correntes contraditórias e complexas. dizem. e uma das muitas estruturas que o império colonial herdou do Estado inca é o fato relegar os índios da floresta à Barbárie.C. no mínimo em razão do estatuto altamente valorizado da antropologia nesses países. a busca. o índio que passa a povoar os sonhos dos americanos. por duas tradições bastante heterogêneas: a do mundo hispânico e a do resto da Europa. relação essa que presidiu. H. e o mundo indígena — em vez de uma dupla — a sociedade dos etnólogos e a dos etnologizados — é uma verdade básica. entretanto.A. Taylor. Ademais. Observações acerca da origem do americanismo tropical O americanismo tropical tem a particularidade de ter sido informado. é preciso por em evidência alguns dos fundamentos da etnologia sul-americana contemporânea. o resto do Ocidente. que se deve contudo enfatizar. o índio das alturas. tributária de fatores cuja origem deve ser buscada no século XVI. seria também preciso analisar com alguma precisão as implicações desse fator histórico e. no gênero humano (reconhecimento intimamente ligado. A conquista da América do Sul ocorreu numa época em que a Espanha vivia uma situação bastante particular: o fim da Reconquista trouxe consigo uma obsessão em relação ao que a etnologia moderna chamaria de problema das « ethnic boundaries ». ao nascimento da antropologia moderna. uma « ciência política ». O fato de a etnologia americanista estar fundada num triângulo — o mundo hispânico e em seguida colonial. tara indelével da identidade latinoamericana ou germe de uma « raça cósmica » é. Para tanto seria necessário um estudo aprofundado das instituições do saber (grupos de especialistas e missionários. porque. Além disso. e órgãos de pesquisa. Essas circunstâncias entre outras — que seria necessário detalhar e definir com precisão — contribuirão para forjar no mundo hispânico uma percepção do índio caracterizada por sua inclusão formal. dos fundamentos morais e biológicos da hispanidade.) em que o americanismo foi progressivamente elaborado. a partir de critérios teológicos. De fato. para além de sua evidência. desde a origem. nos estritos limites impostos por uma Igreja ideologica e institucionalmente onipotente. O Selvagem é índio. a) A tradição hispânica A reflexão latino-americana contemporânea acerca das sociedades indígenas das terras baixas é. Favre mostra que a etnologia na América Latina é. Americanismo Tropical 5 americanismo tropical pode ser facilmente explicado por um fato essencial: as sociedades indígenas não tiveram de vivenciar a relação que se instaurou no século XIX entre as potências européias e as populações que elas colonizaram. pois é dentro dessas instituições que se observa com mais clareza a articulação específica entre ciência e ideologia em determinadas circunstâncias históricas. sabe-se que a Espanha se lançou prioritariamente sobre o mundo andino. à legitimação da . ainda hoje. etc. não sendo colonizado nessa época. por excelência. antes de mais nada. que uma verdadeira história do americanismo não poderia ser escrita sem essa pesquisa.

C. pois talvez isso tenha ligações com a dificuldade enfrentada pelo pensamento latino-americano contemporâneo para encampar as sociedades da floresta. a diferença dos índios. A partir do momento em que se resignaram à impossibilidade de fazer os índios trabalharem. sempre como categoria-limite do pensável. sociedades atravessadas por todas as correntes que se agrupam sob os termos Renascimento e Reforma. ou faziam das sociedades amazônicas alegorias da Barbárie. pelo reconhecimento da humanidade dos índios. e conseqüente apropriação das terras indígenas.. o índio local e real só veio a constituir objeto de reflexão por parte dos brasileiros numa data relativamente recente 4 . difere muito da do resto da Europa renascentista. como um todo. apresentavam alguns traços antitéticos à noção corrente de humanidade — não tinham soberano. Americanismo Tropical 6 Conquista) e a concomitante recusa em aceitar. que mostraria especialmente: condições totalmente diversas. nas colônias espanholas e portuguesas.A. e que se mantiveram alheias. relegando-os à animalidade. do colonialismo português e a alegada ausência de racismo no Brasil. absorvidos ou eliminados. só podiam ter uma visão dos índios muito diversa da dos espanhóis. de enquadramento político ou missionário dos índios. tanto no nível da sensibilidade imediata como no da reflexão. traçar uma nítida distinção. Vale a pena insistir nisso. fato ao qual se costuma atribuir o caráter simbiótico. menos rigidamente hierarquizadas e cristalizadas do que na Espanha. como fundamento epistemológico necessário para uma reflexão acerca do socius. do ponto de vista da filosofia política ocidental. Seria ainda necessário. É no espaço delimitado por esse paradoxo — completa aceitação da alteridade dos índios. em primeiro lugar. uma tradição marxista que só analisou a questão indígena sob o prisma da teoria estalinista das nacionalidades. respectivamente. Além disso. dentro do que chamo de tradição hispânica. por parte dos luso-brasileiros. houve poucos esforços. 4 Deveria certamente ser lembrado o papel de um sentimento de identidade nacional e cultural muito mais fluido em Portugal do que na Espanha no momento da Conquista. Taylor. incapacidade de compreendê-los — que irá se desenvolver a figura do Selvagem como horizonte filosófico e moral nas teorias do contrato. pois há evidentemente outros racismos além do biológico. No entanto. relativamente emancipadas do peso institucional e ideológico da Igreja. alegada. Essa é mais uma diferença digna de nota entre o mundo hispânico e a tradição dos viajantes — sobretudo franceses — pois há um mundo. « digestivo ». Essa incapacidade de pensar a alteridade aparece claramente no modo espanhol de apreensão das formas políticas indígenas não-estatais: ou os conquistadores simplesmente inventavam tipos de poder inexistentes. mas às sociedades Tupi e Carib do litoral atlântico. entre a Espanha e Portugal. como veremos. Na verdade. b) A tradição dos viajantes Nem é preciso dizer que o cenário social e intelectual no resto da Europa ocidental era totalmente diferente. por se encontrar dilacerado entre um « comunitarismo » herdado da corrente indigenista.. entre o que incarnam. imediatamente incorporados como homens na sensibilidade e no imaginário europeus. Nisso. que foram ignorados. à pilhagem da América. quanto à mão-de-obra explorável. a atitude dos espanhóis. se não nos faltasse espaço. exceto nas Antilhas e nas Guianas. o Bárbaro e o Selvagem. e a ausência de qualquer tradição autóctone de reflexão acerca da « sociedade natural ». . digo. os portugueses. excluiram-nos de suas categorias sociais. Até a época tardia da expansão para o interior. A percepção das sociedades indígenas típica dos viajantes se caracteriza. e eram canibais — que tornavam suas sociedades ininteligíveis a partir das representações normativas da época. os primeiros viajantes (penso sobretudo nos cosmógrafos franceses) foram confrontados não a impérios ou estados.

o que é feito do índio? Curiosamente. O desaparecimento do índio das selvas entre os especialistas e seu concomitante enfraquecimento como emblema supremo de alteridades políticas 5 . contudo. aliás. suas referências obrigatórias. aliás. paradoxalmente. permaneceu muito próxima dessa corrente filosófica. que escaparam por entre os dedos dos espanhóis ao mesmo tempo como mão-de-obra e como objeto de reflexão — e a « européia ». oriunda de um olhar de viajante para o qual as sociedades indígenas. a uma visão essencialmente historicista. passa-se. transição — do Selvagem ao Primitivo — intimamente ligada aos mecanismos de legitimação ideológica do colonialismo triunfante. não sendo boas para explorar. 5 . Tais transformações afetam. o desenvolvimento da noção de evolução constitui o principal corte no seio desse processo. com Turgot. relação harmoniosa com a natureza).A. o nativo das ilhas dos Mares do Sul. marcou profundamente a antropologia por vir. um novo quadro epistemológico se instala progressivamente. etc. um ser submetido ao movimento da história. a França e a Inglaterra. uma tradição que. por uma série de razões que não cabe aqui relembrar. Herder. corte esse que acarreta uma transformação do conteúdo da noção de civilização. Ferguson. a América do Sul concluía sua « descolonização ». imitação de Atala. De uma visão sincrônica das formas possíveis de organização social e política. que permanecerão marginais no movimento de elaboração progressiva das representações nacionais americanas da indianidade que culmina na corrente indianista do final do século XIX. estudar as diferenças de representação dessas duas figuras. constitui uma exceção a esta regra. principalmente o índio das terras altas. a hispânica — oriunda de uma colonização direta. Taylor. acompanhada de profundas transformações na relação entre as populações neo-americanas e os índios. Além disso. Condorcet. ele parece desaparecer exatamente nos lugares em que estava mais presente nos séculos anteriores. para se fixarem num outro. explicam-se facilmente se lembrarmos que. incarnados até então pelo índio da floresta. isto é. o Primitivo. apesar de suas fontes (Atala. 6 Cumanda. irão se desligar de seu suporte original. É essa ruptura epistemológica que vai permitir a constituição ideológica do objeto da antropologia. o indianismo romântico que invade a literatura sul-americana durante a primeira metade do século XIX se desinteressa quase totalmente 6 dos índios da floresta. Mera. embora rapidamente frustrada no que diz respeito aos índios da floresta. Como se sabe. no próprio estilo de sua escrita. e uma modificação correlativa da percepção do Selvagem. do Bárbaro e do Selvagem. sobretudo na França.L. anarquia sem caos. O índio da floresta no século XIX Por volta do final do século XVIII. em seu vocabulário. esse romance. Seria interessante.C. romance do escritor equatoriano J. principalmente). paradoxalmente. porque esta iria desinteressar-se por muito tempo desse espelho primeiro e arcaico. 2. Americanismo Tropical 7 Fica evidente que a etnologia americanista. Alguns dos valores simbólicos do Selvagem. No meio de tudo isso. ilustra perfeitamente o difícil e às vezes incongru casamento da tradição hispânica com a tradição francesa. A independência em relação à Coroa espanhola é. em sua temática (postulada ausência de trabalho. no exato momento em que as outras populações primitivas começavam a ser transformadas em objeto de estudo pela relação colonial. O americanismo tropical continua definitivamente marcado por um conjunto determinado de idéias herdadas de tradições ao mesmo tempo longínquas e heterogêneas. foram especialmente boas para pensar..

Esses naturalistas (entre os quais Humboldt. representação da Amazônia como incarnação privilegiada de uma Natureza edênica e selvagem 7 ). as regiões amazônicas ficaram muito pouco integradas às novas nações sul-americanas. Taylor. a ser pacificados ou suprimidos. deu origem. .) marcaram os estudos americanistas de vários modos. uma espécie de emanação antropomorfizada de uma natureza especialmente « natural ». convulsivo e expoliativo da penetração nacional na Amazônia. no quadro imposto pela ingerência imperialista crescente (essencialmente inglesa e norte-americana) do colonialismo interno. o papel extremamente importante desempenhado pelos naturalistas na elaboração das ciências humanas e naturais na Alemanha. ou um avatar. entre os quais o Brasil. e a concomitante difusão da representação do Selvagem que ela veicula. etc. concebidos. que muitas vezes se traduziram em extermínio puro e simples. como um incômodo. tenho a impressão. e desenvolvimento. Wied-Neuwied. se olharmos com atenção. se deve a uma série de fatores. o campo privilegiado dos naturalistas alemães do século XIX. Embora eu conheça muito mal a história intelectual da Alemanha. avançarei algumas hipóteses para tentar explicar o persistente interesse que lá se dedicou aos índios: — primeiramente. Essa integração e. de modo a açambarcar as terras e recursos que ocupam « inutilmente ». que se preocupam constantemente com os indígenas sul-americanos. cujos estudiosos são os únicos. isto é. como uma espécie mais natural do que cultural. — finalmente. sem que se possa explorar a mão-de-obra que representam. porque acumularam uma massa enorme de material etnográfico. os índios da floresta são considerados até hoje em muitos países. Ao contrário dos índios das terras altas. o índio só foi superado por outras figuras exóticas nas últimas décadas do século. por razões ao mesmo tempo históricas (a concorrência colonial alhures) e ideológicas (apelo do Selvagem do Iluminismo. mais « sombria » do que a selva amazônica do século XIX. à norte-americana. foi a América do Sul. a fortíssima influência da filosofia iluminista francesa na Alemanha durante as primeiras décadas do século XIX. a Alemanha. nacionalismos exacerbados. de que a floresta africana é concebida como mais ameaçadora. já por sua força de trabalho. — de modo geral. 7 Uma comparação entre as representações diversas da floresta amazônica e da floresta equatorial africana seria instrutiva. Note-se nesse sentido que os escritos dos naturalistas carregam uma imagem muito particular dos índios. Americanismo Tropical 8 A persistente marginalidade do índio da floresta. Ora. entre o « Bom Selvagem » do século XVIII e o « Adaptador universal » da ecologia cultural do século XX. no limite. paradigma máximo da naturalidade para a Amazônia no século XIX. Contudo. no século XIX. 8 A « naturalização » dos negros tende mais para uma assimilação à animalidade. a atitudes de racismo virulento contra os índios da floresta. essa naturalização do índio (muito diferente da que marca a representação dos negros 8 ) constitui um intermediário. um valor econômico fundamental. ao contrário. que representam.C. o encontro e a assimilação — intelectual e sócio-econômica — dos índios da floresta foram iniciadas em condições muito pouco propícias ao nascimento de um olhar etnológico: guerras de fronteira.A. Durante toda a primeira metade do século. ao mesmo tempo em que são esboçadas as premissas de uma reflexão teórica americana acerca das populações indígenas não-florestais. uma razão negativa: como a expansão colonial alemã foi tardia e relativamente marginal. a partir de relatos de viajantes e naturalistas. longe de gerar uma tradição de pensamento etnológico. Primeiramente. O caráter concessionário. veremos que o índio continua presente na Europa num local bastante inesperado. ao passo que a dos amazônicos parece pender para uma assimilação com o reino vegetal. von Martius. correlativamente. das populações indígenas locais.

das construções propostas pelos especialistas britânicos. debate centrado na natureza dos mecanismos através dos quais todas as sociedades evoluíam. enquanto era varrida da França pelo retorno (concomitante à reação bonapartista e à Restauração) do idealismo anti-empiricista. para mencionar apenas alguns. interesse cuja abordagem é tributária da filologia e da hermenêutica alemãs (essa corrente também teria uma descendência considerável nos EUA). de criar uma « História natural da humanidade ». especialmente Humboldt. Trimborn. Taylor. Em primeiro lugar. e o interesse pela tecnologia que sempre demonstraram. relativamente desconhecido na França. no quadro de um evolucionismo global que ninguém pensaria em questionar. sob uma forma degenerada. bem diferentes. a « psicologia primitiva ». não existe como objeto científico analiticamente isolável na ciência social alemã do século XIX. Citemos alguns dos estudiosos que se interessaram particularmente pelos índios: Meiners. por outro lado. todas as idéias centrais da etnologia americana nessa época. num certo sentido. colecionadores ávidos e fundadores dos primeiros museus etnográficos do mundo. pela contribuição alemã (basta pensar.A. as ciências humanas nascentes se encontraram divididas. Schmidt. merece ser lembrado. como se sabe. seria. G. especialmente a definição e o uso da noção de cultura. Outro objeto de atenção por parte dos alemães foi. assim. e será herdado. Foi assim que a corrente empiricista e « ambientalista » dos Ideólogos. etc. diretamente originárias da herança alemã. sociológicos e psicológicos. pela etnologia norte-americana da primeira metade do século XX. observa-se que um dos eixos fundamentais dessas disciplinas foi a oposição. em ramos « físicos » nos quais se mantinham alguns aspectos da herança dos Ideólogos. porque contribuíram para a difusão das idéias herdadas dos Ideólogos franceses (sabe-se que estiveram em contato uns com os outros. até as décadas de 20 e 30. de modo mais geral. incapaz de evoluir moto proprio. cujo projeto de escrever uma história da humanidade em todos os seus aspectos definiu o espaço em que surgiria a noção de cultura. Sebemos o quanto a etnologia francesa permanece marcada por essa clivagem. a mitologia e. Essa orientação imprimiu uma forma particular aos esquemas evolutivos e às tipologias culturais elaboradas pelos alemães. sua ambição de unificar as ciências naturais e as sociais. Dois traços particulares da ciência social alemã devem ser aqui notados. que participaria de uma expedição da Société des Observateurs de l’Homme). o ideal de unidade das « ciências humanas » se mantém como característica dessas disciplinas na Alemanha ao longo de todo o século XIX. Ademais. durante muito tempo. a ciência alemã influenciou consideravelmente os antropólogos americanos da geração de 1920 a 1950. enquanto sistema dotado de relativa autonomia. Além disso. aconselhável conhecer o ambiente cultural e científico de que saíram esses estudiosos. Desse modo. no qual Klemm divide a humanidade em « Passivos » e « Ativos ». a mesma que seria difundida por Tylor. nesse aspecto. Koch-Grünberg. No século XIX. cuja obra contém a primeira definição moderna de cultura. em M. a organização social. o difusionismo expandiu-se muito mais na área americanista do que o parelalismo estrito. ligados de modo duradouro à filosofia. pois se adequava melhor à representação dominante do índio como ser passivo ou degenerado. Americanismo Tropical 9 Em seguida. Em compensação. Esse substrato alemão do americanismo. note-se que em seu Allgemeine Kulturgeschichte der Menshheit. Nimuendaju. é conhecida a paixão museográfica dos estudiosos alemães. dentro de um esquema em três estágios inspirado em . Klemm. entre difusionismo e paralelismo.). perpetuou-se e desenvolveu-se na Alemanha. pois a etnografia das sociedades das terras baixas será dominada. são. e ramos históricos.C.

apesar de um formidável desenvolvimento histórico e de uma acumulação de conhecimento etnográfico sem precedentes. os americanos começam. um Selvagem. Na verdade.C. segundo o qual os amazônicos são os típicos « Naturvölker ». não conseguem dar uma existência histórica aos ameríndios. na qual o amzônico aparece como uma espécie de grau zero. ou como resposta mecânica às imposições do meio ambiente. E igualmente na perspectiva difusionista. como em Vierkandt. mas de existência histórica. a ausência de uma reflexão centrada nos sistemas constitutivos da organização social — reflexão cujo surgimento parece estar de fato ligado à instauração de uma relação de exploração colonial direta de tipo moderno — condenou o americanismo tropical a uma carência científica ainda não sanada. Apesar das diferenças de inflexão e de orientação na obra dos estudiosos alemães. e difusionismo cultural. discípulo de Klemm. de um lado. lentamente. A bi-polaridade paralelismo/difusionismo. finalmente. inventor da noção de « zonas marginais ». 3. A. os amazônicos são classificados no ponto mais baixo da escala. Ratzel. pode atualmente ser encontrada. inventor das áreas culturais. um lugar comparável ao que ocupavam dentro do quadro sincrônico das formas possíveis de vida social. cuja influência na etnologia americana é conhecida. não mais de organização política. etnógrafo dos Ona e dos Yaghan. Taylor. Bastian. Vários aspectos do americanismo contemporâneo evidenciam a persistência das abordagens e problemáticas alemãs do século XIX. O índio não deixa de ser. a dicotomia arcaica e estéril entre idealismo e determinismo geográfico continua marcando os debates americanistas. Hahn. do outro. Vierkandt. Wissler e Kroeber. ocupam. T. as sociedades indígenas continuam não sendo alçadas ao estatuto de objeto científico. foi seu discípulo). Enfim e sobretudo. a substituir os alemães na América do Sul logo após a Primeira Guerra Mundial. cujos mestre foram Graebner no campo da técnica e o Padre Scmidt no campo da « psicologia primitiva » (Martin Gusinde. o progresso do . por Boas. especialista em « mentalidade primitiva ». sob a forma de « Kulturländer ». as premissas de uma renovação Como conseqüência lógica do desenvolvimento local do imperialismo americano bem como da multiplicação dos estudos dedicados às sociedades indígenas no Norte. Além disso. e. finalmente. Waitz. o dos « passivos selvagens ». De modo geral. político ou binário. na qual o índio da floresta rerpesenta ainda. O americanismo no século XX: o peso da tradição. essencialmente incapazes de progresso tecnológico. com um certo deslocamento. os inventores diretos da noção de área cultural que seria retomada. Americanismo Tropical 10 Condorcet. mas numa perspectiva anti-evolucionista. uma base fora da história sobre a qual seria erguida uma construção em degraus nos quais viriam a se instalar as populações mais bem aquinhoadas.A. as ciências sociais alemãs do século XIX nos colocam diante de um curioso paradoxo: apesar de seu historicismo exacerbado. num quadro evolucionista. que influenciou profundamente Boas. uma espécie de pântano cultural a que só uma contribuição externa poderia dar movimento. por exemplo. Contudo. Isso ocorre na perspectiva estritamente paralelista. e cujo protótipo é a Amazônia. que elaborou uma tipologia interessante. focos de configurações culturais diferenciadas pelo efeito do meio ambiente. na oposição entre neo-evolucionismo. fundada nas correlações sistemáticas entre os traços de cada cultura. por ter ficado muito tempo imobilizado diante de uma alternativa sem sentido entre a concepção das estruturas sociais como atualização livre e gratuita de um ethos psicanalítico. especialmente nos Estados Unidos. o de categoria-limite. os conhecidos representantes da escola das KulturKreise. percebe-se que os índios da Amazônia nela se apresentam sob traços recorrentes bastante homogêneos. e posteriormente estruturalismo a-histórico.

9 Muitas sociedades amazônicas foram incluídas à força no leito de Procusto da linearidade. Americanismo Tropical 11 conhecimento etnográfico. traduziu-se num florescimento de estudos sociológicos freqüentemente brilhantes. a primeira metade do século XX não traz grande coisa ao americanismo tropical no plano do desenvolvimento teórico. Assim. No restante da América. como princípio explicativo. Tal progresso qualitativo se deve. Steward chamava de « níveis de integração ». Steward para que ocorresse. não mais numa perspectiva tecnológica. como ocorria anteriormente. por questões sociológicas. nas sociedades das terras baixas da América do Sul. por volta do início dos anos 70. um avanço ao mesmo tempo quantitativo e qualitativo.C. exceto no Brasil. White e pelos trabalhos posteriores de J. Além disso. até que se percebesse. Apesar de a estrutura social emergir. no campo do americanismo. seria preciso esperar pelo surgimento do neo-evolucionismo de L. Até o final da década de 40. estas tipologias. O recurso mágico à noção de adaptação na verdade permitia. Além disso. tradicionalmente pouco habituada a manipular simultaneamente níveis distintos de realidade e a analisar articulações/contradições. não se traduz num progresso teórico notável. e em seguida ecologista. onde a forte influência da escola sociológica francesa. por sua vez. exorcizar temporariamente todas as problemáticas sociológicas e históricas que pudessem tirar o americanismo tropical de seu marasmo teórico. a partir de 1955. mais a exceção do que a regra.A. não é nada espantoso considerando as características epistemológicas desse setor da disciplina. tal progresso teórico ainda era limitado. fundadas em modelos sociológicos elaborados pelos funcionalistas ingleses a partir de dados essencialmente africanos. são comprometidas ao mesmo tempo por uma concepção muito grosseira e reducionista da economia — definida exclusivamente como conjunto de técnicas de subsistência — e por esquemas de causalidade unilinear de um determinismo sumário. Adequa-se perfeitamente a uma etnologia que sempre prescindiu de reflexão sociológica. As explicações centradas na « base material ». empírica e analiticamente discutíveis. mas numa perspectiva inicialmente economicista. . nos estudos americanistas nos Estados Unidos. são mecanicamente aplicadas às sociedades indígenas. Taylor. um retorno ao indutivismo e uma desconfiança irredutível quanto às pesquisas de causalidade. a etnologia americanista dos Estados Unidos vive basicamente de conceitos desenvolvidos pelos alemães. graças ao incremento das expedições de exploração comerciais e científicas. A influência dessas teorias se fez ver num aumento do interesse. em que o determinismo geográfico servia. como nível pertinente de análise. em grande parte. em nome de um rigor científico constantemente reivindicado. à difusão das teorias e abordagens elaboradas pelo funcionalismo britânico (foi na esteira do neo-evolucionismo que a escola sociológica inglesa foi finalmente introduzida nos Estados Unidos) e ao retorno a problemáticas centradas na causalidade. a despeito de sua flagrante inadequação à realidade local 9 . de Durkheim a Lévi-Strauss. a rehabilitação de Morgan e dos esquemas de interpretação « materialistas » gerou a multiplicação de pesquisas centradas na « base material » das sociedades indígenas. O enorme sucesso da ecologia cultural — que constitui um desdobramento do neo-evolucionismo — entre 60 e 75. que a utilização de um princípio de filiação unilinear para a formação de grupos sociológicos ou mesmo de categorias ideológicas constituía. especialmente dentro de uma reflexão acerca do que J. finalmente. costuma ser inserida em tipologias formais pré-estabelecidas. de modo que a causalidade evolutiva tomou o lugar do difusionismo como princípio heurístico da diversidade cultural. há muito. Contudo. já que se define por uma reação anti-evolucionista e por um empirismo extremos. embora seja bastante prudente em relação às ousadias teóricas do século anterior.

realizado em Paris. especialmente o simpósio Social Time and Social Space in Lowland South America. 10 . atualmente crucial para a América Latina. a partir do início dos anos 70. de saída. os fundamentos simbólicos e sociológicos das identidades sociais. a meu ver. especialmente quanto aos sistemas políticos e os sistemas de parentesco. Essa orientação de pesquisa bastante generalizada inclui três planos de realidade que parecem ter recentemente passado para o primeiro plano dos estudos americanistas: — o problema. — finalmente. entre os anos 50 e 70 o americanismo tropical finalmente passou a levar em conta dimensões da realidade social até então ocultadas. *** Entretanto. ao crescente isolamento científico do americanismo tropical. da identidade étnica em particular. são atualmente analisados os mecanismos estruturais da mudança nas sociedades indígenas. Nesse sentido. De boa ou de má vontade. o modo como são vividas e concebidas a mudança e a temporalidade. a se oporem. os etnólogos americanistas passam a ser obrigados a refletir acerca de sua disciplina e de suas responsabilidades morais. as elaborações críticas a respeito dessas questões certamente trarão uma contribuição decisiva aos estudos de parentesco.A. mas essa conscientização permanecia extraordinariamente pouco crítica. através de organizações reconhecíveis pela burocracia nacional. o problema da natureza das contradições que as corroem. Os fenômenos de mudança constituem um dos principais eixos dessas novas problemáticas. e nos assim chamados fenômenos de etnicidade. idealista e filosófico. — essas preocupações geram uma reflexão acerca da organização social. sua especificidade.C. finalmente percebidos em sua originalidade e especificidade. As estruturas sociais e as transformações reais dos grupos sul-ameríndios ainda eram mascaradas por tipologias inadequadas ou noções que dissolviam. em 1976. mas como pesquisa orientada para a busca de modificações estruturais de conjuntos sistêmicos. de forma ativa e muitas vezes eficaz. na medida em que se percebe a riqueza do material histórico. na verdade muito mais abundante do que se pensava. Fundamelntalmente. o americanismo tropical continuava sendo a mais a-sociológica das etnologias regionais. não mais na perspectiva « aculturante » tradicional. O mal-estar sentido por eles está certamente ligado à evolução da disciplina como um todo. as preocupações temáticas dos americanistas têm-se transformado profundamente nos últimos anos. Taylor. a análise da percepção e do tratamento simbólico do estrangeiro. torna-se cada vez mais difícil manter um discurso a seu respeito que os exclui como sujeitos e tratar suas sociedades como isolados utópicos. e às críticas ao ecologismo vindas de todos os lados. Mas está principalmente ligado. científicas e políticas. A partir do momento em que os índios começam a falar por si. à opressão de que são vítimas. especialmente à teoria das estruturas elementares. Assim. do outro. da relação classe/etnia. a uma transformação radical na relação de forças entre sociedades indígenas e sociedades dominantes na América do Sul. e o espaço por ele ocupado era ainda definido por seus velhos polos tradicionais: geográficos/ecológicos de um lado. esses problemas epistemológicos afloram de modo cada vez mais evidente à consciência dos americanistas 10 . Os simpósios de americanismo tropical dos Congressos internacionais dos Americanistas ilustram claramente essa conscientização. a história das terras baixas começa a se tornar um objeto de pesquisa importante. Americanismo Tropical 12 Em suma.

Klincksieck. págs. Paris. o trabalho crítico que realiza com os conceitos e modelos que utilizava automaticamente. In Histoires de l’Anthropologie (XVIe .Xxe siècles). o próprio arcaismo do americanismo tropical talvez lhe garanta um renascimento inesperado. Americanismo Tropical 13 Paradoxalmente. À semelhança das sociedades que estuda. 1984. certamente fecunda. O olhar afinal despojado que lança sobre as sociedades indígenas.A. 213-233 Tradução: Beatriz Perrone-Moisés . Taylor. levam-no a lançar uma nova luz. sobre questões que afetam a etnologia como um todo. o enrijecimento teórico do americanismo tropical constitui em certo sentido uma sorte para a disciplina.C.

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