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Sumário

Mitologia Grega

6

 

O

que é

6

Como surgiu

6

Deuses

7

Principais seres

8

Heróis

9

1 - A caixa de Pandora

9

2 - Édipo

14

Édipo rei

14

Édipo rei de Sófocles

18

Édipo e o ciclo tebano

20

 

Cadmo e a fundação de Tebas

20

Penteu

22

A

casa de Édipo

23

Complexo de Édipo

30

3 - A Fênix e o Basilisco

34

 

A

Fênix

34

O

Basilisco

36

4 - A guerra de Tróia

38

 

A expedição parte

40

A ira de Aquiles

42

5

- A primeira geração divina

46

 

Oceano

46

Mitologia Grega

 

De Urano a Crono

49

Titãs

51

6 - A segunda geração divina

51

Crono e sua descendência

51

Héstia

51

Hera

55

7 - Afrodite

60

Tipo e atributos

62

Afrodite celeste e Afrodite vulgar

64

Pigmaleão e a sua estátua

65

Afrodite de Cnido

67

 

Afrodite

Genitrix

69

Afrodite vitoriosa

69

8 - Ares

 

70

 

Tipo

e atributos

70

Ares na guerra dos gigantes

72

Afrodite e Ares

73

Ares ferido por Diomedes

73

Filomela e Progne

74

9

- Atena obreira ou Ergane

75

Nascimento Atena

75

Nascimento de Erecteu

78

Pandrosa

79

Atena

79

Atena e Aracne

80

A festa das Panatenéias

82

Disputa de Atena e Poseidon

85

Tipo e atributos

87

10 - As batalhas de Atena

90

2

Mitologia Grega

Atena e Encélades

90

Atena e Tirésias

91

 

Atena e

Mársias

92

Atena Higéia

93

11 - Dionísio

93

Nascimento de Dionísio parte 1

93

Nascimento de Dionísio parte 2

98

A

infância Dionísio

102

Dionísio e Ampelos

103

A

conquista da Índia

104

Dionísio em Tebas

106

Dionísio e Licurgo

106

Dionísio e Perseu

107

Dionísio e Erígone

108

12 - Cupido

109

Nascimento de Cupido

109

Educação de Cupido

110

Tipo e atributos

112

Esaco

115

Pico e Circe

116

O

cabelo de Niso

116

Cupido e

Psiquê

118

13 - Deuses gregos e romanos

123

Zeus

124

Atena ou Atenéia

124

 

Apolo

124

Ártemis

125

Afrodite

125

Hera

125

3

Mitologia Grega

Démeter

125

Hermes

126

Poseidon

126

Dionísio

126

Ares

126

Hefaistos ou Hefesto

127

14 - Divindades do mar e das águas

128

O Oceano

128

Tetis e as Oceânidas

129

Proteu

130

As Sereias

131

15 - Electra

134

16 - Hefestos

137

Os fios de Hefestos

139

Tipo e atributos

142

17 - Hermes

143

Tipo e atributos

147

Mensageiro dos deuses

148

Condutor de almas

149

Queixas de Hermes

150

18 - Hermes: rei dos ladrões

151

Inventor da lira

151

Rei dos ladrões

151

19 - Hermes: deus do comércio

155

Pedagogo

156

Crióforo

156

Guarda das estradas

157

Deus da eloquência

157

20 - Apolo

158

4

Mitologia Grega

 

Apolo e Dafneda

158

Curiosidades sobre Apolo

159

Resumo

160

Nascimento de Apolo e Ártemis

161

O

tipo de Apolo

163

21 - Narciso e Eco

168

22 - Pã

170

Nascimento de Pã

173

23 - Psique

178

Beleza de Psique

178

 

Ciúme de Vênus (Afrodite)

179

O

Oráculo de Apolo

179

Psique raptada por Zéfiro

180

O

palácio de Psique

181

As irmãs de Psique

182

A

gota de azeite

183

Cólera de Vênus (Afrodite)

183

As núpcias de Psique

184

A

alma humana

185

24 - O Unicórnio e a Salamandra

187

 

Monstros Mitológicos

187

O Unicórnio

187

A Salamandra

188

25

- Os sacerdotes sálios e Etéoclo / Polinice

190

Os sacerdotes sálios

190

Belona

190

A

discórdia

191

Etéoclo e Polinice

191

Anfiaraus

191

5

Mitologia Grega

Arquemoro

192

Combate dos dois irmãos

193

Funerais de Etéoclo e de Polinice

194

26 - Hércules

195

27 - Perseu e Medusa

202

28 - Poseidon

204

29 - Ulisses

207

Ulisses

em Feácia

207

Ulisses em Ítaca

209

30 - Zeus

217

Os filhos de Zeus

218

Curisosidades sobre Zeus

222

Resumo

222

Mitologia Grega

O que é

Você já deve ter ouvido falar sobre a Mitologia grega, mas você sabe

o que é a Mitologia grega?

A Mitologia grega é um conjunto de mitos (crenças), lendas e rituais

dos antigos gregos, basicamente ela era composta por diversos mitos sobre os deuses e enfatizaram o contraste entre as fraquezas dos

humanos e as forças da natureza.

Como surgiu

A Mitologia grega surgiu da curiosidade que os gregos tinham de ex-

plicar a origem da vida, os problemas da existência, fenômenos da na- tureza, dentre outros assuntos. Como nessa época não haviam expli-

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Mitologia Grega

cações científicas, os gregos criaram um conjunto de relatos fantasio- sos e imaginativos para explicar tais questionamentos.

Deuses

Os deuses tinham forma e sentimentos humanos como amor, inveja, traição, ira, entre outros. Era normal os deuses se sentirem amor por humanos e ter filhos com eles.

Diversos heróis da Mitologia grega eram filhos de deuses com huma- nos. Os deuses eram imortais, porém seus filhos com humanos eram mortais.

Os deuses do Olimpo são os deuses mais poderosos. Os deuses do Olimpo se dividem em diversas classes. A classe superior é formada pelos seguintes deuses:

Zeus - deus dos deuses.

Hera – deusa dos casamentos e da maternidade (irmã e esposa de Zeus).

Apolo - deus da luz, poesia e da música.

Atena - deusa da sabedoria e da serenidade.

Afrodite - deusa do amor e da beleza.

Ares - deus da guerra.

Poseidon - deus do mar.

Hefesto - divindade do fogo e do trabalho.

Ártemis - deusa da caça e da vida selvagem.

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Mitologia Grega

Héstia - deusa do coração e da chama sagrada.

Hermes - mensageiro dos deuses, representava o comércio e as co- municações.

Deméter - deusa da agricultura.

Hermes - mensageiro dos deuses.

Hades - deus dos infernos (mundo subterrâneo), deus das almas dos mortos (irmão de Zeus).

Dioniso - deus do vinho, em algumas regiões era tão importante quanto Zeus. Pã – deus das florestas.

Principais seres

- Heróis : seres mortais, filhos de deuses com seres humanos. Exem- plos: Herácles ou Hércules e Aquiles.

- Ninfas : seres femininos que habitavam os campos e bosques, levan- do alegria e felicidade.

- Sátiros : figura com corpo de homem, chifres e patas de bode.

- Centauros : corpo formado por uma metade de homem e outra de cavalo.

- Sereias : mulheres com metade do corpo de peixe, atraíam os mari- nheiros com seus cantos atraentes.

- Górgonas : mulheres, espécies de monstros, com cabelos de serpen-

8

Mitologia Grega

tes. Exemplo: Medusa. (1)

- Quimera : mistura de leão e cabra que soltava fogo pelas ventas.

Heróis

Os heróis, seres mortais, alguns filhos de deuses com humanos, são muito importantes na Mitologia grega. Os de maior destaque são:

- Jasão

- Teseu (matou minotauro)

- Édipo (matou pai e casou com a mãe, depois tirou os olhos dele pró- prio)

- Agamenon

- Menelau

- Hércules (fez grandes trabalhos para a humanidade e foi viver no olimpo)

- Aquiles (guerra de tróia)

- Ulisses (guerra de tróia)

Sumário

1 - A caixa de Pandora

Sempre causou perplexidade aos filósofos e teólogos a existência do

1 Medusa: mulher com serpentes na cabeça.

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mal no mundo.

Mitologia Grega

Afinal se Deus é bom, justo, infalível e poderoso, como o mal pode surgir em sua obra e por que o mal parece ser tão difícil de ser supri- mido?

Essa indagação gerou os mais diversos mitos explicativos nas antigas tradições, como a saga de Seth e Osíris, no Egito, Ormuz e Ariman, na Pérsia, Adão, Eva e a serpente, entre os hebreus e o mito de Pandora entre os gregos.

Embora sejamos herdeiros da tradição judaico-cristã e o mito de Adão e Eva tenha sido consagrado como verdade literal e absoluta pelos teólogos fundamentalistas judeus e cristãos, precisamos reconhecer a beleza e a profundidade do mito grego de Pandora, que é mais enge- nhoso e rico em nuances psicológicas. A estória começa com Prome- teu, um dos titãs, escalando o Olimpo e roubando o fogo dos deuses para oferecer aos homens (o fogo do conhecimento?).

Zeus, o rei dos deuses, furioso com tamanha ousadia, prendeu-o e o amarrou em um rochedo, onde um abutre vinha todos os dias comer- lhe o fígado, que se regenerava durante a noite, para ser comido no- vamente pelo abutre no dia seguinte. Esse mito sugere o sofrimento caudado pela insaciedade do homem e, em outro nível, significa o longo e penoso ciclo de morte e renascimento, que os budistas de- nominam roda do Sansara.

Zeus, porém, não satisfeito com a vingança desfechada contra o la- drão, resolveu vingar-se também de todos os homens beneficiários do fogo roubado por Prometeu.

Então ordenou que Hefesto, o Deus-ferreiro do mundo subterrâneo, fizesse a mulher.

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Mitologia Grega

Hefesto fez uma mulher belíssima chamada Pandora e a apresentou a Zeus antes de ela descer à superfície da Terra. Zeus, admirado com a obra de Hefesto, despachou Pandora para a Terra, mas antes lhe deu uma grande e belíssima caixa de marfim ornamentada fechada e tam- bém lhe deu a chave, dizendo-lhe: “Quando você se casar, ofereça es- ta caixa como dote ao seu marido, mas a caixa só pode ser aberta após seu casamento”.

Em pouco tempo, Pandora conheceu Epimeteu, irmão mais novo de Prometeu e logo se casaram. A princípio, Pandora estava muito feliz com seu casamento e passava os dias cuidando da casa e do lindo jar- dim, tendo se esquecido da caixa.

Porém Epimeteu viajava constantemente e, certa vez, ficou muito tempo longe de casa.

Pandora sentia-se só e triste. Lembrou-se da caixa e foi até o canto onde estava guardada examiná-la curiosamente. Enquanto observava os lindos detalhes e adornos externos, Pandora pareceu ouvir peque-

nas vozes gritando lá de dentro e dizendo: “Deixe-nos sair!

Pandora não podia esperar mais. Foi correndo buscar a chave

e imediatamente abriu a tampa da caixa. Para sua grande surpresa centenas de pequeninas e monstruosas criaturas, parecendo terríveis insetos, saíram voando lá de dentro, com um zumbido assustador.

Deixe-nos

sair

”.

Muitas dessas horríveis criaturas a picaram na face e nas mãos e saí- ram em enxame pela janela, fazendo um barulho infernal. Logo a nu- vem desses insetos cobriu o sol, e o dia ficou escuro e cinzento. Apa- vorada, Pandora fechou a caixa e sentou-se sobre a tampa.

As picadas dos insetos doíam muito, mas algo mais a estava preocu- pando: Ela estava tendo toda a espécie de sentimentos e pensamen- tos sombrios e odiosos que nunca tivera antes. Sentiu raiva de si mesma por ter aberto a caixa. Sentiu uma grande onda de ciúme de

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Mitologia Grega

Epimeteu. Sentiu-se raivosa e irritada. Percebeu que estava doente de corpo e de alma.

Súbito pareceu-lhe ouvir outra vozinha gritando de dentro da caixa:

“Liberte-me! Deixe-me sair daqui!”. Pandora respondeu rispidamente:

“Nunca! Você não sairá! Já fiz tolice demais em abrir essa caixa!”

Mas a voz prosseguiu de dentro da caixa: “Deixe-me sair, Pandora! Só eu posso ajuda-la!”

Pandora hesitou, mas a voz era tão doce, e ela se sentia tão só e de- sesperada, que resolveu abrir a caixa. De lá de dentro saiu uma pe- quena fada, com asinhas verdes e luminosas que clarearam um pouco aquele quarto escuro, aliviando a atmosfera que se tornara pesada e opressiva. “Eu sou a Esperança”, disse a fada.

E prosseguiu: “Você fez uma coisa terrível, Pandora! Libertou todos os males do mundo: egoísmo, crueldade, inveja, ciúme, ódio, intriga, ambição, desespero, tristeza, violência e todas as outras coisas que causam miséria e infelicidade. Zeus prendeu todos esses males nessa caixa e deu a você e a seu marido. Ele sabia que você iria, um dia, abrir essa caixa. Essa é a vingança de Zeus contra Prometeu e todos os homens, por terem roubado o fogo dos deuses!”

Chorando copiosamente, Pandora disse: “Que coisa terrível eu fiz! Como poderemos pegar todos esses males e prendê-los novamente na caixa?”

“Você nunca poderá fazer isso Pandora!” Respondeu tristemente a fada da Esperança. Eles já estão todos espalhados pelo mundo e não podem mais ser presos!”

“Mas há algo que pode ser feito: Zeus enviou-me também, junto com esses males, para dar esperança aos sofredores, e eu estarei sempre

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Mitologia Grega

com eles, para lembrar-lhes que seu sofrimento é passageiro e que sempre haverá um novo amanhã !”

Em um ponto, o mito de Pandora é essencialmente diferente do mito de Adão e Eva.

O mal que se propagou no mundo também faz parte de uma decisão de Zeus e não da intervenção de um adversário externo, como Satã, que tem planos e desígnios contrários ao Deus Supremo.

Embora no constructo mitológico o surgimento dos males esteja des- crito como uma “vingança de Zeus” está claro que foi uma Conse- quência de os homens se terem apropriado de um elemento divino – a autoconsciência e o conhecimento do bem e do mal, simbolizados pelo fogo dos deuses, mas ainda não estarem maduros para lidar com esse poderoso elemento, até então de posse exclusiva dos deuses.

Os homens adquiriram uma faculdade de conhecimento até então ex- clusiva dos deuses e se tornaram potencialmente divinos, mas ainda eram primários e animalizados (nos mitos, este estágio da humanida- de é representado pelos titãs ou pelos homens da Atlântida) para sa- berem lidar com essa força divina que agora existia em sua alma.

Analogamente, podemos citar o fato de que os chimpanzés aprende- ram a técnica de usar pedras para quebrar nozes, mas imaginem quantos males aconteceriam na floresta se eles aprendessem a fabri- car dinamite.

O homem físico não passa de um chimpanzé ligeiramente aperfeiçoa- do, dotado de uma centelha de consciência que pertence à ordem di- vina do Universo. Essa coexistência entre nossa natureza animal e nossa natureza divina é a causa de todos os males, pois o conflito é inevitável enquanto a natureza divina ainda não “domou” e “domes- ticou” totalmente a natureza animal.

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Mitologia Grega

No mito de Adão e Eva, parece que existe uma possibilidade de se evi- tar o pecado e a queda, enquanto no mito grego essa inevitabilidade

é evidente: Uma vez que Prometeu roubou o fogo dos deuses, as consequências viriam inevitavelmente: Zeus sabia que Pandora abriria

a caixa, enquanto no mito hebreu parece que Deus não sabia se Adão obedeceria ou não à proibição divina de comer o fruto proibido.

Aos compararmos a versões mitológicas análogas da cultura hebraica

e da grega, não queremos valorizar uma e desvalorizar a outra, mas

sim destacar o fato de que as tradições refletem o contexto cultural e religioso dos povos a que se destinam.

A cultura hebraica jamais poderia supor que Deus pudesse também

dar origem ao mal, visto que seria inadmissível que um Deus Bom e Justo pudesse originar o mal.

A cultura grega jamais poderia admitir que o Deus Supremo pudesse

ter um adversário e opositor, visto que um Deus Sábio e Poderoso

não poderia ter sua obra obstruída por algum adversário.

Sempre que aplicamos atributos e qualificações à Divindade, essas distorções são produzidas, porque as atribuições são qualificações antropomórficas feitas pelos próprios homens, que criam uma ima- gem de Deus, como uma imagem sublimada de si próprios, projetan- do nela as imagens e ideais mais valorizados pelas diversas sociedades humanas.

Sumário

2 - Édipo

Édipo rei

Laio, rei de Tebas, é amaldiçoado e avisado pelo oráculo de Delfos

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Mitologia Grega

que seria morto pelo filho e este desposaria a própria mãe. Temendo o destino e buscando revertê-lo, o rei fura os pés do bebê (daí o nome Édipo, pés inchados) e ordena que o jogue de um penhasco, Jocasta, sua esposa, entrega o filho a um pastor. Este agindo piedosamente entrega o bebê a Políbio, rei de Corinto, que o cria como filho. Tem- pos depois, ao ser insultado e acusado de não ser filho legítimo dos reis, Édipo vai consultar o oráculo, que revela apenas, que ele seria o assassino do próprio pai e casaria com a mãe. Por acreditar que Polí- bio e Mérope eram seus pais verdadeiros, Édipo foge temendo que a desgraça dita pelo oráculo acontecesse.

Numa encruzilhada de três caminhos, Édipo encontra uma comitiva real e mata o homem, que na verdade era Laio, seu pai. Chegando a Tebas, enfrenta a terrível Esfinge, monstro metade mulher e metade leão que devorava aqueles que não conseguissem desvendar seu enigma, Édipo conquista tal façanha. O prêmio pelo ato heroico seria casar-se com a rainha Jocasta, recém- viúva. Édipo desposa a rainha e torna-se rei de Tebas.

Anos passaram-se, Édipo desfrutava de um casamento feliz, era pai de quatro filhos (Etéocles, Polinice, Antígona e Ismênia), era um bom go- vernante, querido pelo povo.

Uma misteriosa peste toma conta de Tebas, o oráculo de Apolo é consultado e diz que o flagelo só terminaria quando o assassino do rei Laio fosse encontrado e punido. Édipo então decide livrar seu reino desse mal e descobrir quem é o assassino, desferindo uma tremenda maldição:

- “Proíbo que qualquer filho da terra onde me assistem o comando e o trono dê guarida ou conversa ao assassino, seja ele quem for; que o aceite nos cultos e no lar, que divida com ele a água lustral! Eu orde- no, ao contrário, que o enxotem de suas casas, todos, por ser aquilo que nos torna impuros, conforme acaba de nos revelar, por seu orácu-

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Mitologia Grega

lo, a fala do deus! (…) E ainda mais: rogo aos céus, solenemente, que o assassino, seja ele quem for, sozinho em sua culpa ou tenha cúmpli- ces, tenha uma vida amaldiçoada e má, pela sua maldade, até o fim de seus dias. Quanto a mim, se estiver o criminoso em minha casa, pri- vando comigo, eu espero que sofra as mesmas penas que dei para os demais.”

Como a busca não trouxe resultados, Édipo consulta Tirésias, o adivi- nho, este com relutância revela que o assassino de Laio é o próprio Édipo. Através de elementos como o reconhecimento, Édipo assume sua culpa. E mostra mais uma característica do herói trágico, o caráter elevado. Havia prometido ao povo que puniria e expulsaria o culpado da cidade, pune-se furando os olhos. Jocasta já havia se suicidado ao saber da tragédia.

Esse é o fim trágico de Édipo Rei, porém há uma continuidade nas ou- tras obras da trilogia tebana.

Édipo Rei levanta dúvidas sobre até que ponto somos donos das nos- sas a ações, há nessa tragédia um conflito entre destino e livre arbí- trio. Se formos considerar o destino superior à vontade humana, ve- remos claramente a impotência humana diante dos fatos.

Édipo tentou escapar da sua sina, evitar que a previsão do oráculo se cumprisse, mas ao fugir do destino acabou indo ao encontro dele, por mais que tenha tentado revertê-lo a vontade dos deuses foi superior. Por outro lado, se considerarmos a superioridade da vontade huma- na, o homem “senhor de si”, observaremos Édipo como o responsá- vel por toda a desgraça, e que em alguns momentos poderia ter evi- tado. Édipo tem uma moral superior, porém tem falha trágica, é essa falha que leva o herói à desgraça. No caso dele, seu defeito é a impul- sividade, humor oscilante, como na cena em que ele mata o pai e seus servos por um motivo banal. Até suas virtudes colaboram para o fim trágico; se não fosse tão inteligente e astuto não teria vencido a es-

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Mitologia Grega

finge, portanto não teria casado com a mãe.

O diálogo entre Édipo e Tirésias é muito interessante e proporciona uma intensa reflexão, pois a cegueira parece estar no próprio Édipo, até esse momento o rei não possuía uma introvisão. Tirésias é a per- sonificação da sabedoria, apesar de não possuir a visão física, possuía uma visão interior, a que faltava em Édipo. A partir do momento que Édipo adquire essa visão, começa a surgir o reconhecimento, que vai se confirmando quando desabafa seu desespero à Jocasta: “Como essa narrativa me traz a dúvida ao espírito, mulher. Como perturba a alma!” A rainha também possui uma personalidade singular, é ambí- gua, entrega o bebê pra ser morto a um pastor de sua confiança, ora mostra-se incrédula com os oráculos, tem postura digna e autoritária. Quando Édipo começa a desconfiar da verdade Jocasta tenta fazê-lo desistir alegando que o oráculo já falhara outrora. E ao reconhecer sua culpa suicida-se, o que é considerado por Aristóteles, na Poética, como catástrofe, ação perniciosa e ferimento que podem levar à mor- te. Com Édipo também acontece uma catástrofe, fere os próprios olhos, como uma aceitação de culpa, para se redimir.

Merecidamente, Édipo Rei foi considerado o mais perfeito exemplo de tragédia grega, por Aristóteles. É um clássico, pois sobreviveu ao tempo, continua sendo lido avidamente nos dias atuais e certamente será nas próximas gerações, porque sua temática envolve problemas universais vivenciados pelo homem em qualquer época. Assim, o ho- mem se encontra na obra Édipo Rei. O mito de Édipo influenciou até a psicanálise, Freud se baseou nesse mito para definir o Complexo de Édipo, que é o conflito de sentimentos de amor e ódio vivenciados na infância, onde aquele o filho sente pela mãe e este pelo pai, esse complexo é universal. Assim, o complexo e o mito assemelham-se porque ambos envolvem questões éticas, sociais e tabus. Essa é só uma das inúmeras importâncias dessa peça, que cada vez que é lida oferece um leque de novas análises e estudos.

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Mitologia Grega

A tragédia é uma das maiores heranças do teatro deixada pelos gre- gos. Aristóteles, na Poética, aborda minuciosamente esse gênero e considera Édipo Rei o exemplo mais perfeito de tragédia grega. É a imitação de ações de caráter elevado, focalizando a vida e os atos dos homens superiores. Acredita-se que tenha se originado nas festas e rituais dedicados ao deus Dionísio, posteriormente foi tomando um sentido mais amplo e complexo, contendo mitos, conflitos existencia- lista, passionalismo, etc. O teatro grego teve três grandes tragedió- grafos; Ésquilo, Eurípedes e Sófocles. Este último gozou de uma prós- pera vida. Sófocles era de uma família abastada, teve uma excelente educação, integrou no coro de jovens, contemplou a expansão impe- rialista ateniense com Péricles e também sua decadência na Guerra do Peloponeso. Participou da política ativamente, ganhou diversos con- cursos dramáticos, chegou a derrotar Ésquilo. Escreveu aproximada- mente cento e vinte peças, mas apenas sete chegaram até nós. Das sete, as mais famosas são as relacionados ao mito de Édipo (Édipo Rei, Antígona e Édipo em Colono). A última peça, Édipo em Colono, Sófocles usou-a para se defender no Tribunal de Atenas, pois foi acu- sado de senilidade pelo próprio filho. Foi absolvido. Morreu aos no- ventas anos, no mesmo ano em que Eurípedes.

Sófocles aborda em suas peças temas que transcendem épocas, con- flitos universais que podem ser vivenciados por qualquer pessoa em qualquer tempo. Édipo Rei, a peça abordada nessa análise, é um exemplo perfeito da impotência do homem diante do destino.

Édipo rei de Sófocles

Um clássico da literatura ocidental, Édipo Rei de Sófocles é conside- rada uma das mais perfeitas tragédias da Grécia Antiga. Abaixo um pequeno resumo de Édipo Rei.

Édipo é filho de Laios, rei de Tebas que foi amaldiçoado de forma que seu primeiro filho tornar-se-ia seu assassino e desposaria a própria

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Mitologia Grega

mãe. Tentando escapar da ira dos deuses, Laios manda matar Édipo logo de seu nascimento. No entanto, a vontade do destino foi mais forte e Édipo sobreviveu, salvo por um pastor que o entregou a Polí- bio, rei de Corinto.

Já adulto Édipo descobre sobre a maldição que lhe foi atribuída e para que ela não fosse cumprida, foge de Corinto para Tebas, sem saber que lá sim é que seus pais verdadeiros o esperavam.

No meio da viagem, encontra um bando de mercadores e seu amo (Laios), sem saber que seu destino estava já se concretizando, mata a todos.

Assim que chega a Tebas, Édipo livra a cidade da horrenda esfinge e de seus enigmas, recebendo a recompensa: é eleito rei e premiado com a mão da recém-viúva rainha Jocasta (viúva de Laios).

Anos se passam e Édipo reina como um verdadeiro soberano e tem vários filhos com Jocasta, mas a cidade passa por momentos difíceis e a população pede ajuda ao rei.

Após uma consulta ao oráculo de Delfos, que responde pelo deus Apolo, os tebanos são alertados sobre alguém que provoca a ira dos deuses: o assassino de Laios, que ainda vive na cidade.

Édipo então decide livrar seu reino desse mal e descobrir quem é o assassino, desferindo uma tremenda maldição:

Proíbo que qualquer filho da terra onde me assistem o comando e o trono dê guarida ou conversa ao assassino, seja ele quem for; que o aceite nos cultos e no lar, que divida com ele a água lustral! Eu orde- no, ao contrário, que o enxotem de suas casas, todos, por ser aquilo que nos torna impuros, conforme acaba de nos revelar, por seu orácu- lo, a fala do deus! (…) E ainda mais: rogo aos céus, solenemente, que

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Mitologia Grega

o assassino, seja ele quem for, sozinho em sua culpa ou tenha cúmpli-

ces, tenha uma vida almadiçoada e má, pela sua maldade, até o fim de seus dias. Quanto a mim, se estiver o criminoso em minha casa, pri- vando comigo, eu espero que sofra as mesmas penas que dei para os demais.

Ele só não esperava que essa maldição iria sobrecair sobre ele pró- prio, assim que no mesmo dia descobrisse a verdade, através do pas- tor que o encontrara ainda quando bebê, pendurado em um bosque pelos tornozelos.

Jocasta suicída-se assim que descobre, e Édipo se cega, perfurando os próprios olhos e exilando-se.

Édipo e o ciclo tebano

O ciclo de mitos que tratam das sortes da cidade de Tebas e sua famí- lia real é certamente tão antigo quanto as estórias que compõem a Ilíada e a Odisseia, mas chega até nós através de fontes muito poste- riores. Enquanto a fundação de Tebas é principalmente conhecida a partir de autores romanos como o poeta Ovidio, as estórias de Penteu

e

Édipo são contadas pelos dramaturgos atenienses, Ésquilo, Sófocles

e

Eurípedes.

Cadmo e a fundação de Tebas

Cadmo era um dos três filhos de Agenor, rei de Tiro, na margem ori- ental do Mediterrâneo. A irmã deles, a linda Europa, estava brincando na praia quando foi levada através do mar por Zeus, na forma de um touro, até Creta. Agenor disse a seus filhos que encontrassem a irmã e que não voltassem sem ela. No decorrer de suas perambulações, Cadmo chegou em Delfos, onde o oráculo o avisou que uma vaca o encontraria ao deixar o santuário; foi instruído a fundar uma cidade onde a vaca finalmente parasse. O animal o levou ao local da futura

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Mitologia Grega

Tebas. Quando a vaca se deitou para repousar, Cadmo percebeu que este era o local para a sua cidade e decidiu sacrificá-la aos deuses. Precisando de água, mandou seus ajudantes buscá-la em uma fonte próxima, a Fonte de Ares. A lagoa da fonte, entretanto, estava guar- dada por uma ameaçadora serpente, que atacou e matou todos os homens de Cadmo. Quando Cadmo veio a procura destes, encontrou apenas fragmentos de membros e o grande monstro saciado. Mesmo estando só e levemente armado, conseguiu subjugar a serpente e, a seguir, aconselhado por Atena, semeou os dentes do animal no solo. Deles surgiu um grupo de guerreiros, armados com espadas e lanças. Teriam atacado Cadmo, se este não tivesse tido a ideia de lançar uma grande pedra no meio deles; assim, começaram a atacar uns aos ou- tros, parando apenas quando restavam apenas cinco deles; estes cin- co se juntaram a Cadmo e se tornaram os fundadores das cinco gran- des famílias de Tebas.

A cidade de Cadmo rapidamente tornou-se rica e poderosa, e seu fun-

dador prosperou com ela. Casou-se com Harmonia, a filha de Ares e Afrodite, e tiveram quatro filhas, Ino, Autônoe, Agave e Sêmele, e um filho, Polidoro. Estes por sua vez também tiveram seus filhos. Autô- noe era a mãe de Actéon, o grande caçador morto pelos seus próprios cães de caça quando Ártemis o transformou em veado como punição por tê-la visto nua. A linda Sêmele foi seduzida por Zeus e ficou grávi- da de seu filho, o deus do vinho Dionísio.

A esposa divina de Zeus, Hera, estava com ciúmes e astutamente su-

geriu a Sêmele que pedisse a Zeus que surgisse para ela na forma que tinha aparecido para Hera. Como Sêmele tinha feito Zeus prometer cumprir qualquer pedido que fizesse, foi obrigado a se revelar como um relâmpago, o que a queimou viva. Zeus retirou a criança do útero de Sêmele e a implantou em sua própria coxa, da qual a criança aca- bou nascendo no tempo devido.

A família de Sêmele se recusava a acreditar que Zeus fosse o respon-

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Mitologia Grega

sável pela condição dela, ou sua morte. À medida que o culto de Dio- nísio espalhou-se pela Grécia, ocorreu com muito entusiasmo e pouca resistência, salvo em Tebas, onde o primo de Dionísio, Penteu, filho de Agave, recusava-se a aceitá-lo.

Penteu

A característica principal do culto de Dionísio nos tempos clássicos era

a formação de grupos de mulheres conhecidas como Mênades; vaga-

vam por dias a fio pelas áreas das montanhas, num transe ou frenesi, bebendo vinho, alimentando filhotes de animais, ou despedaçando-os

e comendo-os, encantando serpentes e de uma maneira geral se por-

tando de maneira selvagem. Devido a estes aspectos semelhantes a orgias e também pelos principais seguidores serem mulheres, a ado- ração de Dionísio era vista com desconfiança pelas autoridades mas- culinas, que gostavam de manter as mulheres em casa e sob o seu controle. A tragédia de Eurípedes, As Bacantes, mostram um caso ex- tremo de festividade de Dionísio e suspeitas masculinas. Nesta peça, o próprio Dionísio vem a Tebas, determinado a punir a família de sua mãe por sua falta de fé, tanto nas suas irmãs como nele próprio. As mulheres de Tebas, incluindo as irmãs de Sêmele, seguem entusias- madas o deus; no correr da festa, altos brados erguem-se do Monte Citéron devido as brincadeiras. Penteu, o senhor de Tebas, considera seu primo de longos cabelos e modos afeminados com razoável des- confiança, mas, como deus gradualmente o acaba deixando maluco, confessa seu desejo de ir à montanha e espionar as Mênades. Então, Dionísio o leva lá, e quando se aproximam das mulheres, os deuses curvam um alto pinheiro para que Penteu se alojasse no topo e pu- desse ver tudo que desejasse. Como seria previsível, torna-se um alvo fácil para as Mênades, que derrubaram as árvores e o despedaçaram com as próprias mãos. Entre elas está, principalmente, Agave, a pró- pria mãe de Penteu, que retorna triunfalmente a Tebas ostentando a cabeça do próprio filho, acreditando ser esta a cabeça de um jovem leão.

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Ao final da peça, acaba por perceber o que tinha feito, e todas admi- tem o poder do deus.

A casa de Édipo

Édipo, o trineto de Cadmo, é hoje talvez o herói grego mais famoso depois de Hércules; ele é famoso por ter resolvido o enigma da Esfin- ge, mas ainda mais notório por sua relação incestuosa com sua mãe. Na antiga Grécia era famoso por ambos os episódios, mas o maior significado era como o modelo do herói trágico, cuja estória incluía os sofrimentos universais da ignorância humana - a falta da compreen- são da pessoa sobre quem ela é sua cegueira em face do destino.

Édipo nasceu em Tebas, filho de Laio, o rei, e sua esposa Jocasta. De- vido ao oráculo ter predito que Laio encontraria a morte nas mãos de seu próprio filho, o jovem Édipo foi entregue a um pastor do Monte Citéron, com os tornozelos perfurados de modo que não pudesse se mover. Esta foi a origem de seu nome que significa "pé inchado". En- tretanto, o bom pastor não conseguia abandonar a criança, entre- gando-a então a outro pastor do lado oposto da montanha. Este pas- tor, por sua vez, levou a criança a Pólibo, rei de Corinto, o qual não tendo filhos, ficou feliz em criar o menino como sendo seu filho.

Enquanto Édipo crescia, era ameaçado com comentários sobre não ser filho legítimo de Pólibo; apesar de Pólibo ter lhe assegurado que o era, Édipo decidiu-se finalmente a viajar para Delfos e consultar o orá- culo. O oráculo não revelou quem eram seus pais verdadeiros, mas contou-lhe que estava destinado a matar seu pai e casar com sua mãe.

Horrorizado, e tão chocado que esqueceu completamente suas pró- prias dúvidas sobre seus pais, deixou Delfos resolvido a nunca mais retornar a Corinto, onde viviam Pólibo e sua esposa.

Desconhecido para Édipo, seu pai verdadeiro Laio estava também via-

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Mitologia Grega

jando nas redondezas de Delfos. Num local onde três estradas se en- contravam, Édipo se viu ao lado da carruagem de Laio; um membro da escolta de Laio ordenou rudemente que Édipo saísse do caminho, e este, sem disposição para obedecer, vociferou de volta. Ao passar a carruagem, o próprio Laio golpeou Édipo com um bastão e este res- pondeu derrubando Laio do veículo e o matando. Esqueceu, então, o incidente e continuou o seu caminho.

Voltando as costas a Corinto, acabou chegando em Tebas, a cidade de Laio, a qual estava sendo aterrorizada pela Esfinge, um monstro parte leão alado, parte mulher, que fazia uma pergunta que confundia: "O que é que anda com quatro pernas, duas pernas e três pernas?" Aque- les que tentaram e falharam em solucionar a charada eram jogados pela Esfinge num precipício, cujo fundo estava literalmente tomado por ossos das vítimas.

Quando a morte de Laio se tornou conhecida em Tebas, o trono e a mão da rainha de Laio foram oferecidos ao homem que pudesse solu- cionar a charada e livrar a região da terrível Esfinge. Para Édipo a cha- rada não ofereceu problema; rapidamente identificou seu sujeito co- mo um "homem, que como um bebe engatinha de quatro, acaba crescendo e andando em duas pernas e com a idade necessita do su- porte de uma terceira perna, uma bengala". Quando a Esfinge escu- tou esta resposta, ficou tão enraivecida e mortificada que se jogou no precipício causando sua morte.

Os cidadãos de Tebas receberam Édipo com deferência e o fizeram seu rei; casou-se com Jocasta e por muitos anos viveram em perfeita felicidade e harmonia. Édipo mostrou-se um governante sábio e be- nevolente, Jocasta deu-lhe dois filhos, Etéocles e Polínece, e duas fi- lhas, Antígona e Ismênia. Eventualmente, entretanto, outra praga se abateu sobre a região de Tebas, e é neste ponto que começa a grande tragédia de Sófocles, Édipo Rei. A colheita estava morrendo nos cam- pos e hortas, os animais estavam improdutivos, as crianças doentes e

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os bebês em gestação definhavam, enquanto os deuses estavam sur- dos a todos os apelos. Creonte, irmão de Jocasta, retornou de sua consulta ao Oráculo de Delfos, que ordenava que a maldição seria le- vantada apenas quando o assassino de Laio fosse trazido a justiça. Édipo, imediatamente e de maneira enérgica, tomou a tarefa de en- contrá-lo, e como primeiro passo consultou o profeta cego Tirésias. Tirésias reluta em revelar a identidade do assassino, mas é levado gradualmente a se enfurecer pelas insinuações de Édipo sobre ter al- go a ver com a morte. Acaba revelando que o próprio Édipo é o peca- dor que trouxe a maldição sobre a cidade; também profetiza que Édi- po, que se considera tão inteligente e de visão larga, se recusará a aceitar a verdade de suas palavras, se recusará a reconhecer quem realmente é e o que tinha feito.

Édipo, enraivecido, suspeita que seu cunhado Creonte está manco- munado com Tirésias para assumir o trono; Creonte também nada pode dizer para acalmá-lo. Jocasta tenta acalmar a situação: é impos- sível que Édipo tenha morto Laio, diz ela, pois este foi morto numa encruzilhada de três estradas. Subitamente Édipo lembra seu encon- tro casual com um homem velho perto de Delfos; questionando Jo- casta sobre a aparência de Laio (estranhamente, se parecia com o próprio Édipo) e o número de elementos na sua escolta, percebe que Laio foi provavelmente a sua vítima. Enquanto espera pela confirma- ção de um elemento da escolta que retornava a Tebas, um mensagei- ro chega de Corinto com a notícia que Pólibo tinha morrido de morte natural; Édipo, ainda não suspeitando de toda a extensão de seu cri- me, fica feliz por aparentemente ter se livrado de pelo menos uma parte da profecia do oráculo, mas resolve ter cautela antes que acabe se casando com sua mãe.

O mensageiro bem intencionado, ansioso em confortá-lo, assegura a Édipo que Pólibo e sua esposa não eram seus pais; o próprio mensa- geiro tinha recebido Édipo, então um bebê, das mãos de outro pastor do Monte Citéron e o entregou a Pólibo. Mesmo agora Édipo não

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consegue fazer a correta conexão, e enquanto a aterrorizada Jocasta tenta em vão persuadi-lo a parar a investigação, persiste nos seus es- forços para chegar ao fundo do mistério e ordena que o pastor de Laio, agora um velho, seja trazido a sua presença.

Por uma casualidade do destino, este homem é também a única tes- temunha ainda viva da morte de Laio. Quando finalmente aparece, o completo horror da situação finalmente chega a Édipo; o homem ad- mite que tomou o filho de Laio e com pena o entregou ao pastor de Pólibo, ao invés de o deixar morrer. Esta criança era Édipo, que agora tinha sucedido seu pai no trono e no leito.

Jocasta não esperou pelo desfecho; tinha ido antes de Édipo para o palácio, e quando a seguiu, com o que parecia uma intenção assassi- na, descobriu que tinha se enforcado.

Arrancando os broches de ouro do vestido dela, golpeia seguidamen- te seus olhos com eles, até que o sangue corra pela sua face. Como pode olhar para o mundo, agora que consegue ver a verdade? O coro da peça mostra a moral da estória: por mais seguro que um homem possa se sentir, mesmo sendo rico, poderoso e afortunado, ninguém pode se sentir seguro de escapar de um desastre; não é seguro cha- mar qualquer pessoa de feliz deste lado do túmulo.

Apesar de Ter solicitado a Creonte um banimento imediato, não foi permitido a Édipo partir de Tebas por vários anos, até que sua puni- ção tivesse sido confirmada por um oráculo. Na ocasião em que foi mandado embora, estava muito menos ansioso para partir. Agora já um velho, estava condenado a vagar de lugar em lugar, pedindo co- mida e abrigo, suas passadas cegas guiadas por suas filhas Antígona e Ismênia. Apesar de elas trazerem algum conforto e alegria para ele, seus filhos, Polínice e Etéocles, estavam cada vez mais afastados dele, de seu tio Creonte e um do outro. Tinha sido combinado que se alter- nariam no governo, um ano para cada um, mas, quando o primeiro

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Mitologia Grega

ano de Etéocles terminou, este se recusou a entregar o trono a seu irmão. Polínice se refugiou em Argos, onde agrupou a sua volta uma equipe de seis outros campeões, com os quais se propôs a sitiar sua cidade natal. É esta a situação no início da obra Édipo em Colona, de Sófocles, quando Édipo, chegando ao fim de sua vida, chega aos oli- vais de Colona, um distrito nos arredores de Atenas.

Ajudado por Antígona, Édipo se refugia num altar para aguardar a chegada de Teseu, rei de Atenas, quando Ismênia chega com notícias de Tebas. As facções rivais dos irmãos ficam a cada dia mais nervosas, e um oráculo se pronunciou dizendo que o lado que conseguisse o apoio de Édipo seria o vencedor. Édipo, igualmente irritado com Cre- onte e com seus dois filhos, está seguro que não apoiará qualquer um dos lados; podem lutar entre si, esperando que destruam um ao outro no processo. Quando Teseu chega, portanto, Édipo solicita que lhe seja permitido terminar seus dias em Atenas.

Teseu escuta com atenção seu pedido e oferece a Édipo um local mais confortável, mas Édipo deseja permanecer no local onde está. Surge então Creonte, determinado a fazer Édipo acompanhá-lo de volta a Tebas, mas apenas à fronteira da cidade, de modo a ainda evitar a maldição de ter Édipo realmente no solo Tebano, para manter sua facção protegida de sua proximidade. Quando Édipo recusa a preten- são de amizade e rejeita a oferta imediatamente, Creonte se torna vio- lento e ameaça levar Édipo a força; já tinha capturado Ismênia, e ago- ra seus soldados tinham levado Antígona para muito longe de seu in- defeso pai.

Teseu, retornando bem a tempo de evitar que Édipo seja retirado de seu altar, critica asperamente as ações de Creonte e promete devol- ver as filhas a Édipo; ordena que

Creonte volte a Tebas. Chega então Polínice, juntamente com uma razão política para desejar a proteção de seu pai, o qual tinha ajudado

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a expulsar de Tebas; também é rejeitado, e Édipo anuncia sua inten-

ção de permanecer em Colona até o fim de seus dias. A peça termina de maneira dramática: após Édipo desaparecer no arvoredo sagrado, um mensageiro emerge para contar seu fim miraculoso, testemunha- do apenas por Teseu. Édipo, anuncia-se, tinha transferido as bênçãos que poderia ter dado a Creonte ou Polínice para Atenas, a qual seria daí em diante protegida por sua presença.

O ataque a Tebas feito por Polínice e seus aliados é o assunto da peça

Sete contra Tebas, de Ésquilo. Sete campeões lideraram o ataque nos sete portões de Tebas, calhando a Polínice tomar o portão defendido por seu irmão Etéocles. Apesar dos tebanos finalmente repelirem o ataque sobre sua cidade, os dois irmãos morrem pelas espadas um do outro, cumprindo assim a praga de seu pai e prosseguindo a triste sa- ga da casa de Édipo.

A ação dramática de Antígona de Sófocles começa neste ponto da es-

tória. Com os dois herdeiros masculinos de Édipo mortos, Creonte as- sume o título de rei de Tebas.

Decreta que, enquanto Etéocles devesse ser sepultado com toda a cerimônia, o traidor Polínice deveria ser deixado no local onde tom- bou, para ter seu corpo destruído pelos cães e pássaros predadores. Creonte mandou montar guarda ao lado do corpo para certificar-se que seu édito seria cumprido; logo seus soldados retornariam com Antígona, que tinha sido apanhada atirando punhados de terra sobre os restos desfigurados de seu irmão, num esforço de fornecer-lhe um sepultamento simbólico. Quando desafiada quanto a sua desobediên- cia, replicou que as leis dos deuses, que dizem que os parentes sejam sepultados, são irrevogáveis e imutáveis, devendo ter precedência sobre a lei dos homens. Na sua Antígona, Sófocles utiliza o mito para explorar este conflito entre a lei humana e a divina: o que uma pessoa comum deve fazer quando duas destas leis entram em conflito? Ape- sar de, por fim, a resposta parecer ser que a lei divina deve ser obede-

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cida a qualquer custo, esta conclusão não é de nenhuma forma evi- dente no início.

Enquanto Antígona é mostrada como uma mulher forte e pouco fe- minina que não está feliz me permanecer no reino feminino tradicio- nal do lar, mas aventura-se desafiando as leis de seu guardião mascu- lino, Creonte aparece inicialmente como um homem que tenta fazer o máximo para governar a cidade pela regra do rei.

Quando Antígona não mostra qualquer remorso por seu crime, Cre- onte ordena que seja sepultada viva, um método cruel de execução calculado para absolvê-lo de responsabilidade direta pela morte. Nes- te ponto o noivo de Antígona, Hêmon filho de Creonte, vem a Creonte pedir pela sua vida, argumentando que a punição é bárbara e politi- camente ruim, pois Antígona tem grande possibilidade de tornar-se heroína entre o povo de Tebas. Creonte, entretanto, permanece in- flexível, como as árvores que não se curvarão frente corrente nas margens de um rio alagado, ou o marinheiro que não retirará suas ve- las antes da borrasca; assim, dá instruções para que a punição prossi- ga. Apenas quando aparece o profeta Tirésias, e revela a zanga dos deuses e a terrível punição que se abaterá sobre Creonte se persistir nesta ação, é que Creonte finalmente aceita o conselho e liberta An- tígona da prisão. Nesciamente, como resultante, detém-se enquanto ia ao sepultamento de Etéocles e apenas chega ao túmulo para en- contrar Hêmon segurando o corpo de Antígona - tinha se enforcado em sua cinta. Hêmon então volta sua espada contra seu próprio peito. Creonte retorna a sua casa recebendo a notícia que sua esposa Eurídi- ce tinha se suicidado, amaldiçoando seu marido no seu leito de morte.

Esmagado pela tragédia que o tinha atingido de maneira tão súbita, Creonte é conduzido para longe, deixando o coro refletindo sobre o fato da maior parte da felicidade ser a sabedoria, em conjunto com a devida reverência aos deuses.

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Complexo de Édipo

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Depois de ver nos seus clientes o funcionamento perfeito da estrutura tripartite da alma conforme a teoria de Platão, Freud volta à cultura grega em busca de mais elementos fundamentais para a construção de sua própria teoria.

No centro do "Id", determinando toda a vida psíquica, constatou o que chamou Complexo de Édipo, isto é, o desejo incestuoso pela mãe, e uma rivalidade com o pai. Segundo ele, é esse o desejo funda- mental que organiza a totalidade da vida psíquica e determina o sen- tido de nossas vidas. Freud introduziu o conceito no seu Interpreta- ção dos Sonhos (1899). O termo deriva do herói grego Édipo que, sem saber, matou seu pai e se casou com sua mãe.

Freud atribui o Complexo de Édipo às crianças de idade entre 3 e 6 anos. Ele disse que o estágio geralmente terminava quando a criança se identificava com o parente do mesmo sexo e reprimia seus instin- tos sexuais. Se o relacionamento prévio com os pais fosse relativa- mente amável e não traumático, e se a atitude parental não fosse ex- cessivamente proibitiva nem excessivamente estimulante, o estágio seria ultrapassado harmoniosamente. Em presença do trauma, no en- tanto, ocorre uma neurose infantil que é um importante precursor de reações similares na vida adulta. O Superego, o fator moral que domi- na a mente consciente do adulto, também tem sua parte no processo de gerar o Complexo de Édipo. Freud considerou a reação contra o complexo de Édito a mais importante conquista social da mente hu- mana. Psicanalistas posteriores consideram a descrição de Freud im- precisa, apesar de conter algumas verdades parciais.

Primeiramente ocorre a chamada fase oral, quando a criança focaliza seu desejo e prazer no seio materno e na ingestão dos alimentos. Pos- teriormente ocorre a fase anal, quando o desejo e o prazer são focali- zados nas fezes e excreções. Por último, ocorre a fase fálica, quando

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Mitologia Grega

o desejo e o prazer são focalizados nos órgãos genitais.

Na fase fálica surge o Complexo de Édipo, também chamado de com- plexo nuclear das neuroses. Nesse período os meninos focalizam o seu desejo e prazer na mãe e as meninas no pai. É nessa fase também que a criança distingue a diferença dos sexos masculino e feminino e determina sua fixação pela pessoa mais próxima do sexo oposto.

Quando a criança percebe que não é mais o centro do universo, e se dá conta das distinções entre ela e seus genitores, ela ingressa em uma das várias fases de passagem em sua vida, talvez a mais impor-

tante, porque definirá seu comportamento na idade adulta, princi- palmente o referente à sua vida sexual. Geralmente, a criança sente uma forte atração pelo sexo oposto – a menina pelo pai, o menino pela mãe – e hostiliza, ao mesmo tempo em que ama, seu adversário

– no caso da garota, a figura materna; no do garoto, a imagem pater-

na -, sentimentos conflitantes que configuram o Complexo de Édipo.

A criança, ao desejar o pai ou a mãe, alimenta um conjunto de pulsões

formadas pelo id.

O superego, que é formado pela razão, pela moral, pelas regras e

normas de conduta; busca censurar tais pulsões fazendo com que o id

seja impedido de incentivar a satisfação plena da criança. O ego, por sua vez, que é a consciência humana, é incentivado pelos impulsos do

id e limitado pelas imposições do superego, o que torna necessário

buscar formas de satisfazer o id sem transgredir o superego.

O Complexo de Édipo em meninos surge pelo desejo sexual pela mãe,

a criança vê o pai como ameaça e deseja se livrar dele buscando ainda

se identificar com o mesmo. Em meninas, o complexo surge com o desejo de ganhar um bebê do pai e como não consegue se desilude.

O Complexo de Édipo é derrubado nos meninos pela ameaça da cas-

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tração, onde pensa que perderá seu pênis. A menina acredita que a castração já ocorreu, já que não mais possui o membro, descartando assim a ameaça.

Conceito em psicanálise

Complexo de Édipo é um conceito fundamental para a psicanálise, en- tendido por esta como sendo universal e, portanto, característico de todos os seres humanos. O Complexo de Édipo caracteriza-se por sentimentos contraditórios de amor e hostilidade.

Metaforicamente, este conceito é visto como amor à mãe e ódio ao pai (não que o pai seja exclusivo, pode ser qualquer outra pessoa que desvie a atenção que ela tem para com o filho), mas esta ideia perma- nece, apenas, porque o mundo infantil resume-se a estas figuras pa- rentais ou aos representantes delas. Uma vez que o ser humano não pode ser concebido sem um pai ou uma mãe (ainda que nunca venha a conhecer uma destas partes ou as duas), a relação que existe nesta tríade é, segundo a psicanálise, a essência do conflito do ser humano.

A ideia central do conceito de Complexo de Édipo inicia-se na ilusão de que o bebê tem de possuir proteção e amor total, reforçado pelos cuidados intensivos que o recém nascido recebe por sua condição frágil. Esta proteção é relacionada, de maneira mais significativa, à fi- gura materna. Em torno dos três anos, a criança começa a entrar em contato com algumas situações em que sofre interdições, facilmente exemplificadas pelas proibições que começam a acontecer nesta ida- de. A criança não pode mais fazer certas coisas porque já está maior, não pode mais passar a noite inteira na cama dos pais, andar pelado pela casa ou na praia, é incentivada a sentar de forma correta e con- trolar o esfíncter, além de outras cobranças. Neste momento, a crian- ça começa a perceber que não é o centro do mundo e precisa renun- ciar ao mundo organizado em que se encontra e também à sua ilusão de proteção e amor total.

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Mitologia Grega

O Complexo de Édipo é muito importante porque caracteriza a dife-

renciação do sujeito em relação aos pais. A criança começa a perceber que os pais pertencem a uma realidade cultural e que não podem se dedicar somente a ela porque possuem outros compromissos. A figu-

ra do pai representa a inserção da criança na cultura, é a ordem cultu- ral. A criança também começa a perceber que o pai pertence à mãe e por isso dirige sentimentos hostis a ele.

Estes sentimentos são contraditórios porque a criança também ama esta figura que hostiliza. A diferenciação do sujeito é permeada pela identificação da criança com um dos pais. Na identificação positiva, o menino identifica-se com o pai e a menina com a mãe.

O menino tem o desejo de ser forte como o pai e ao mesmo tempo

tem “ódio” pelo ciúme da mãe. A menina é hostil à mãe porque ela possui o pai e ao mesmo tempo quer se parecer com ela para compe- tir e tem medo de perder o amor da mãe, que foi sempre tão acolhe- dora. Na identificação negativa, o medo de perder aquele a quem hostilizamos faz com que a identificação aconteça com a figura de se- xo oposto e isto pode gerar comportamentos homossexuais.

Nesta fase, a repressão ao ódio e à vontade de permanecer em “ber- ço esplêndido” é muito forte e o sujeito desenvolve mecanismos mais racionais para sua inserção cultural.

Com o aparecimento do Complexo de Édipo, a criança sai do reinado dos impulsos e dos instintos e passa para um plano mais racional. A pessoa que não consegue fazer a passagem da ilusão de super prote- ção para a cultura se psicotiza.

Sumário

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Mitologia Grega

3 - A Fênix e o Basilisco

A Fênix

Ovídio nos fala da seguinte maneira sobre a Fênix: "A maior parte dos seres nasce de outros indivíduos, mas há uma certa espécie que se reproduz sozinha. Os assírios chamam-na de Fênix. Não vive de frutos ou de flores mas de incenso e raízes odoríferas.

Depois de ter vivido quinhentos anos, faz os ninhos nos ramos de um carvalho ou no alto de uma palmeira. Nele ajunta cinamomo, nardo e

mirra, e com essas essências constrói uma pira sobre a qual se coloca,

e morre, exalando o último suspiro entre os aromas. Do corpo da ave

surge uma jovem Fênix, destinada a viver tanto quanto a sua anteces- sora.

Depois de crescer e adquirir forças suficientes, ela tira da árvore o ni- nho (seu próprio berço e sepulcro de seu pai) e leva-o para a cidade de Heliópolis, no Egito, depositando-o no templo do "Sol".

Tal é a narrativa de um poeta. Vejamos a de um narrador filosófico. "No consulado de Paulo Fábio (34 de nossa era), a milagrosa ave co- nhecida no mundo pelo nome de Fênix, que havia desaparecido há

longo tempo, tornou a visitar o Egito" - diz Tácito. "Era esperada em seu voo por um grupo de diversas aves, todas atraídas pela novidade

e contemplando maravilhadas tão bela aparição". Depois de uma des-

crição da ave, que não difere muito da antecedente, embora acres- cente alguns pormenores, Tácito continua:

"O primeiro cuidado da jovem ave, logo que se empluma e pode con- fiar em suas asas, é realizar os funerais do pai. Esse dever, porém, não

é executado precipitadamente. A ave ajunta uma certa quantidade de

mirra, e, para experimentar suas forças, faz frequentes excursões, carregando-a nas costas. Quando adquire confiança suficiente em seu

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Mitologia Grega

próprio vigor, leva o corpo do pai e voa com ele até o altar do Sol, on- de o deixa, para ser consumido pelas chamas odoríferas." Outros es- critores acrescentam alguns pormenores.

A mirra é compacta, em forma de um ovo, dentro do qual é encerrada

a Fênix morta. Da carne da morta nasce um verme, que quando cres-

ce se transforma em ave. Heródoto descreve a ave, embora observe:

"Eu mesmo não a vi, exceto pintada. Parte de sua plumagem é de ou-

ro e parte carmesim; quanto a seu formato e tamanho são muito se- melhantes aos de uma águia."

O primeiro escritor que duvidou da crença na existência da Fênix foi

1646.

Suas dúvidas foram repelidas, alguns anos depois, por Alexander Ross, que diz, em resposta à alegação de que a fênix aparecia tão ra- ramente: "Seu instinto lhe ensina a manter-se afastada do tirano da criação, o homem, pois se fosse apanhada por ele, seria sem dúvida devorada por algum ricaço glutão, até que não houvesse nenhuma delas no mundo." No livro V do "Paraíso Perdido", Milton compara a uma fênix o Anjo Rafael descendo à terra:

Sir Thomas Brownw, em seus "Erros Vulgares", publicado em

Assim, cortando o céu, voa ligeiro,

Entre mundos e mundos navegando,

Ora os ventos polares enfrentando,

Ora cortando, calmo, o róseo espaço,

Até que alcança as altaneiras águias,

Creem ver neles as aves uma fênix

Que cortasse os espaços, solitária,

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Mitologia Grega

Em procura da Tebas egipciana,

Para os restos mortais no radioso

Templo do Sol guardar.

O Basilisco

Esse animal era chamado o rei das serpentes, tendo na cabeça, para confirmar essa realeza, uma crista em forma de coroa. Supunha-se que nascia do ovo de um galo, chocado por sapos ou serpentes.

Havia várias espécies de basilisco. Uma delas queimava todo aquele que dela se aproximava. Uma Segunda assemelhava-se à cabeça da Medusa e sua vista causava tal horror que provocava a morte imedia- ta. No "Ricardo III" de Shakespeare, Lady Ana, em resposta ao galan- teio de Ricardo acerca de seus olhos, retruca: "Fossem eles os do basi- lisco, para te ferir de morte!"

O basilisco era chamado rei das serpentes porque todas as outras co-

bras, comportando-se como bons súditos e muito sensatamente não desejando serem queimadas ou fulminadas, fugiam logo que ouviam à distância o silvo de seu rei, ainda que estivessem se banqueteando com a mais deliciosa presa, deixando o manjar para o monstruoso monarca.

O

naturalista romano Plínio, assim descreve o basilisco: "Não arrasta

o

corpo, como as outras serpentes, por meio de uma flexão múltipla,

mas avança firme e ereto. Mata os arbustos, não somente pelo conta- to, mas respirando sobre eles e fende as rochas, tal é o poder maligno que nele existe." Acreditava-se que se o basilisco fosse morto pela lança de um cavaleiro, o poder do seu veneno, conduzido através da arma, matava não somente o cavaleiro, mas até o cavalo. Luciano faz alusão a esse fato nos versos:

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Mitologia Grega

Ele matou o basilisco em vão,

Deixando-o inerte no arenoso chão.

Corre o veneno através da lança

E mata o mouro, quando a mão alcança.

Tal prodígio não podia deixar de penetrar nas lendas dos santos. As- sim, conta-se que um santo homem, indo a uma fonte no deserto e vendo, de repente, um basilisco, levantou logo os olhos para o céu e, graças a um piedoso apelo à Divindade, fez o monstro cair morto a seus pés.

Os poderes maravilhosos dos basiliscos são atestados por vários sá- bios, como Galeno, Aviceno, Scaliger e outros. Por vezes, algum deles duvidava de uma parte da lenda, mas admitia o resto. Jonston, um médico letrado, observa sensatamente: "Seria difícil de acreditar que ele mata com o olhar, pois, assim sendo, quem o teria visto e continu- ado vivo para contar o caso?" O digno sábio não sabia que aqueles que iam caçar o basilisco dessa espécie levavam consigo um espelho, que fazia refletir a horrível imagem sobre o original, fazendo o basilis- co matar-se com sua própria arma.

Mas quem seria capaz de atacar esse terrível monstro? Há um velho ditado segundo o qual "tudo tem seu inimigo" e o basilisco intimida- va-se diante da doninha. Por mais amedrontador que fosse o aspecto da serpente, a doninha não se preocupava e entrava na luta ousada- mente. Quando mordida, retirava-se por algum tempo para ingerir a arruda, que era a única planta que o basilisco não fazia murchar, e vol- tava a atacar com redobrado vigor e coragem, não deixando o inimigo enquanto não o estendia morto no chão. O monstro, como se consci- ente da estranha maneira pela qual vinha ao mundo, votava, também extrema antipatia ao galo e estava sujeito a exalar o último suspiro

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Mitologia Grega

tão logo ouvisse o canto daquela ave.

O basilisco tinha alguma utilidade depois de morto. Sabemos, assim,

que sua carcaça era colocada no templo de Apolo, e em casas particu-

lares, por ser um remédio soberano contra aranhas, e que também era posta no templo de Diana, motivo pelo qual nenhuma andorinha se atrevia a penetrar no recinto sagrado.

Sumário

4 - A guerra de Tróia

Um dos primeiros elos da cadeia de eventos que formaram o prelúdio da guerra de Tróia foi forjado por Prometeu, o grande benfeitor da humanidade. Prometeu, um primo de Zeus, tinha dado o fogo aos homens, um elemento cujos benefícios tinham tão somente sido des- frutados pelos deuses. Tinha também ensinado os homens para ofe- recer aos deuses apenas a gordura e os ossos em sacrifícios de ani- mais, mantendo as melhores partes para eles próprios. Para punir Prometeu, Zeus o acorrentou num alto penhasco nas montanhas e diariamente enviava uma águia para comer seu fígado, o qual voltava a crescer à noite.

De acordo com algumas fontes, Prometeu acabou sendo libertado por Hércules, mas outras dizem que foi libertado por Zeus, quando finalmente concordou em contar-lhe um importante segredo. Este

segredo relacionava-se à ninfa do mar Tétis, que era tão bela que con- tava com vários deuses entre seus admiradores, incluindo Poseidon e

o próprio Zeus; entretanto uma profecia conhecida apenas por Pro-

meteu predisse que o filho de Tétis estava destinado a ser mais im- portante que seu pai. Ao saber disso, Zeus rapidamente abandonou a ideia de ser o pai de um filho de Tétis, decidindo, ao invés, que deveria se casar com o mortal Peleu; o filho nascido deles seria Aquiles, o maior dos heróis gregos em Tróia.

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Mitologia Grega

Tétis inicialmente resistiu aos avanços de Peleu, assumindo a forma de fogo, serpentes, monstros e outras formas, mas ele a segurava for- temente apesar de todas as suas transformações, acabando por se submeter. Todos os deuses e deusas do Olimpo, menos uma, foram convidados para o magnífico casamento de Peleu e Tétis; no meio da

festa, Éris, a única deusa que não tinha sido convidada, entrou abrup- tamente no local e atirou entre os convidados o Pomo da Discórdia, com a inscrição "a mais formosa". Esta maça foi requisitada por três deusas, Hera, Atena e Afrodite. Como elas não conseguiram chegar a um acordo, e Zeus estava compreensivelmente relutante em resolver

a disputa, enviou as deusas para terem suas belezas julgadas pelo

pastor Páris, no Monte Ida, fora da cidade de Tróia, na orla oriental do Mediterrâneo.

Páris era filho de Príamo, rei de Tróia, mas quando a esposa de Prí- amo, Hécuba, estava grávida de Páris, sonhou que estava dando à luz a uma tocha donde surgiam serpentes sibilantes, assim, quando o be- bê nasceu, foi entregue a uma criada com ordens de levá-lo ao Monte

Ida e matá-lo. A criada, entretanto, ao invés de matá-lo, simplesmente

o deixou na montanha para morrer; ele foi salvo por pastores, sendo

criado para também se transformar em um deles. Enquanto Páris es- tava vigiando seu rebanho, Hermes levou as três deusas para que as julgasse. Cada uma ofereceu uma recompensa se fosse a escolhida; Hera ofereceu riqueza e poder, Atena ofereceu habilidade militar e sabedoria e Afrodite ofereceu o amor da mais bela mulher do mundo. Conferindo a vitória a Afrodite, acabou incorrendo na ira das outras duas, as quais se tornaram daí para a frente inimigas implacáveis de Tróia. Logo depois, Páris retornou por acaso a Tróia, onde sua habili- dade nas competições atléticas e sua surpreendente bela aparência causaram interesse nos seus pais, que rapidamente estabeleceram sua identidade e o receberam de volta com entusiasmo.

A mais bela mulher do mundo era Helena, a filha de Zeus e Leda. Mui-

tos reis e nobres desejaram desposá-la, e antes que seu pai mortal,

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Mitologia Grega

Tíndaro, anunciasse o nome do feliz escolhido, fez todos jurarem res- peitar a escolha de Helena e virem em ajuda de seu marido se fosse raptada. Helena casou com Menelau, rei de Esparta, e na época que Páris veio visitá-los tinham uma filha, Hermíone. Menelau recebeu Pá- ris muito bem em sua casa, mas Páris pagou esta hospitalidade rap- tando Helena e fugindo com ela de volta a Tróia. A participação de Helena nesta situação é explicada de diferentes maneiras nas várias fontes: foi raptada contra a sua vontade, ou Afrodite deixou-a louca de desejo por Páris ou, a mais elaborada de todas, nunca foi para Tróia, e foi por causa de um fantasma que os gregos gastaram dez longos anos em guerra.

A expedição parte

Menelau convocou todos os outros pretendentes anteriores de Hele- na, e todos os outros reis e nobres da Grécia, para ajudá-lo a montar uma expedição contra Tróia, de modo a recobrar sua esposa. O líder da força grega era Agamenon, rei de Micenas e irmão mais velho de Menelau. Os heróis gregos afluíram de todos os cantos do continente e das ilhas para o porto de Áulis, o ponto de reunião a partir do qual planejavam velejar através do Egeu até Tróia. Suas origens e os no- mes de seus líderes estão listados no grande Catálogo de Navios pró- ximo ao início da Ilíada.

“As tribos (de guerreiros) vieram como as incontáveis revoadas de pássaros – garças azuis ou cisnes de longos pescoços - que se reúnem nas campinas da Ásia nas correntes de Cayster, e movimentando-se com gritos agudos ao chegarem ao chão, numa frente avançada. As-

inumeráveis co-

sim, tribo após tribo surgiram de barcos e cabanas mo as folhas e flores em suas estações”.

Alguns dos heróis viera a Áulis mais facilmente do que outros. Ulisses, rei de Ítaca, conhecia a profecia que se fosse a Tróia não retornaria por vinte anos, e então fingiu loucura quando o mensageiro Palame-

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Mitologia Grega

des chegou para convocá-lo, atrelando duas mulas a um arado e mo- vendo-as para cima e para baixo na praia; mas a farsa de Ulisses foi revelada quando Palamedes colocou o filho pequeno de Ulisses, Te- lêmaco, na frente das mulas, e Ulisses imediatamente voltou ao nor- mal. Os pais de Aquiles, Peleu e Tétis, estavam relutantes em deixar seu jovem filho se juntar à expedição, pois eles sabiam estar predesti- nado que se fosse morreria em Tróia. Numa tentativa de evitar o des- tino, o enviaram para Ciros, onde, disfarçado como uma moça, se jun- tou às filhas do rei, Licomedes. Durante esta estada se casou com uma das filhas, Deidaméia, que lhe deu um filho, Neoptólemo.

Ulisses, entretanto, descobriu que os gregos nunca conseguiriam cap- turar Tróia sem a ajuda de Aquiles; assim foi até Ciros para buscá-lo. De acordo com uma das versões da estória, Ulisses disfarçou-se de

mascate, conseguiu entrar no palácio e espalhou suas mercadorias à frente das mulheres; entre as joias e os tecidos havia armas às quais o jovem Aquiles demonstrou um interesse revelador. Outra fonte des- creve como Ulisses arranjou para que soasse uma trombeta nos apo- sentos das mulheres: enquanto as filhas genuínas se espalhavam em confusão, Aquiles ficou no seu lugar e empunhou suas armas. Tendo abandonado seu disfarce, Aquiles foi facilmente persuadido a acom- panhar Ulisses de volta a Áulis, onde a frota estava se preparando pa-

ra zarpar.

A grande força grega, cujos maiores heróis eram Agamenon, Mene-

lau, Ulisses, Ájax, Diomedes e Aquiles, estava pronta para partir, mas

o vento teimosamente ficou contra eles. Eventualmente, o profeta

Calcas revelou que a deusa Ártemis exigia o sacrifício da filha de Aga- menon, Ifigênia, antes que o vento mudasse. Agamenon ficou horro- rizado pela profecia, mas a opinião pública o obrigou a obedecer: Ifi- gênia, chamada sob o pretexto de casar com Aquiles, foi, ao contrá- rio, morta sobre o altar. Algumas fontes dizem que Ártemis ficou com pena dela no último momento e a substituiu por um cervo; de qual- quer maneira, o vento mudou de direção e os barcos zarparam.

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A ira de Aquiles

Mitologia Grega

Algumas vezes se considera que a Ilíada é a estória da guerra de Tróia. De fato, apesar de ela se estender largamente sobre toda a es- tória, seu objetivo ostensivo, como anunciado nas primeiras linhas, é mais restrito:

"Canto de ira, deusa, a destruidora ira de Aquiles, filho de Peleu, que trouxe incontáveis dores aos Aqueus, e mandou muitas almas valiosas de heróis a Hades, enquanto seus corpos serviam de alimento para os "

cães e pássaros, e a vontade de Zeus foi feita

A estória da Ilíada é, então, a estória de Aquiles, e sua disputa com Agamenon. Ao início da Ilíada os gregos já estavam em Tróia por nove anos. Eles tinham saqueado uma grande parte dos campos ao redor e tinham escaramuças esporádicas com quaisquer troianos que saíssem de trás de suas maciças fortificações. Os gregos estavam ficando can- sados da campanha e irritados por sua falta de habilidade em conse- guir uma vitória decisiva sobre a própria Tróia, quando Aquiles se de- sentendeu com Agamenon sobre um assunto de honra.

Agamenon, como parte do saque de um ataque o qual Aquiles de- sempenhou a parte principal, recebeu uma moça chamada Criseida, filha de Crisos, sacerdote de Apolo.

Crisos ofereceu a Agamenon um bom resgate para a libertação da moça, porém Agamenon se recusou a libertá-la. Assim Crisos orou a Apolo, que mandou uma praga sobre o acampamento grego, e o pro- feta Calcas revelou que esta seria retirada apenas se Agamenon de- volvesse Criseida. Aquiles estava completamente a favor de fazer isso, mas Agamenon estava relutante. Eles discutiram, e Agamenon aca- bou por concordar a fazer o que estava sendo ordenado, mas para reafirmar sua autoridade sobre Aquiles da maneira mais insultuosa que podia, e simultaneamente compensar-se pela perda de Criseida (a

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Mitologia Grega

qual ele declarou preferir à sua própria esposa Clitemnestra), tomou Aquiles sua escrava, Briseida. Aquiles ficou justificadamente enraive- cido. Não apenas foi um insulto à sua honra, mas também foi gran- demente injusto, pois ele, Aquiles, tinha conduzido a maior parte da luta necessária a produzir os tesouros e o saque que

Agamenon considerava no direito de usufruir. Assim, Aquiles se reti- rou para sua tenda, e não tomou mais parte nos combates ou nas reuniões do conselho. A luta se tornou mais dura, com ataques mais diretos feitos a Tróia e aos troianos. Mas os gregos estavam numa si- tuação difícil sem seu maior guerreiro, e mesmo Agamenon tentou fazer contatos com Aquiles, oferecendo-lhe riquezas de todos os ti- pos, justamente com a devolução de Briseida. Aquiles, entretanto, rejeitou todos os apelos, declarando mesmo que se as ofertas de Agamenon fossem "tantas como os grãos de areia ou as partículas de pó" nunca se curvaria.

Nesta ocasião, Ulisses e Diomedes empreenderam uma expedição no- turna para espionar os troianos. Não sabendo disso, um troiano de nome Dolon estava tentando fazer a mesma coisa: os gregos o sur- preenderam e o forçaram a contar as disposições do acampamento troiano. Seguindo sua orientação, terminaram sua expedição noturna com um ataque ao acampamento de Reso, rei da Trácia, em cujos be- los cavalos escaparam de volta para o acampamento grego.

Apesar do sucesso desta temerária ação, o geral da luta os gregos es- tavam sendo empurrados de volta a seus navios pelos troianos e es- tavam ficando desesperados, quando o amigo de Aquiles, Pátroclo, veio até ele e rogou a permissão de liderar as tropas de Aquiles, os Mirmidões, em batalha. Pediu também se poderia emprestar a arma- dura de Aquiles, de modo a espalhar o terror nas linhas troianas, que poderiam tomá-lo por Aquiles. Aquiles concordou, e Pátroclo foi e lu- tou longa e gloriosamente, antes de, previsivelmente, ser morto por Heitor, filho de Príamo e o melhor guerreiro do lado troiano.

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Mitologia Grega

Aquiles foi tomado pela dor. Sua mãe, a ninfa do mar Tétis, veio até ele e prometeu-lhe uma nova armadura para substituir a que tinha si- do perdida com Pátroclo. A nova armadura, feita pelo deus-ferreiro Hefesto, incluía um bonito escudo coberto com cenas figuradas, cida- des em guerra e em paz, cenas da vida rural com rebanhos, pastores e danças rústicas, e ao redor da borda do escudo corria o Rio de Ocea- no. Aquiles e Agamenon se reconciliaram e Aquiles retornou ao cam- po de batalha, onde matou um troiano após outro com sua lança "como um vento impetuoso que revolve as chamas, quando um in- cêndio grassa nas ravinas das bases secas pelo sol das montanhas, e a grande floresta é consumida". Após ter matado muitos troianos e so- breviventes mesmo ao ataque do Rio Escamandro, o qual tentou afo- gá-lo nas suas grandes ondas, Aquiles estava finalmente pronto a en- frentar seu principal adversário, Heitor.

O restante dos troianos tinha fugido da matança de Aquiles e buscado refúgio atrás de suas muralhas, mas Heitor permaneceu fora dos por- tões, deliberadamente esperando pelo duelo que sabia ter que en- frentar. Mas quando Aquiles finalmente surgiu, Heitor foi tomado de compreensível terror e virou-se para fugir. Percorreram três voltas ao redor das muralhas de Tróia antes que Heitor parasse e destemida- mente enfrentasse seu bravo oponente. A lança de Aquiles alojou-se na garganta de Heitor, caindo este ao chão. Mal podendo falar, Heitor pediu a Aquiles que permitisse que seu corpo fosse resgatado após sua morte, mas Aquiles, furioso com o homem que tinha morto Pá- troclo, negou seu apelo e começou a sujeitar seu corpo a grandes in- dignidades. Primeiro o arrastou pelos calcanhares atrás de sua carru- agem, ao redor das muralhas da cidade, para que toda Tróia pudesse ver. A seguir levou o corpo de volta ao acampamento grego, onde es- te ficou jogado sem cuidados em suas choupanas.

Aquiles preparou então um elaborado funeral para Pátroclo. Uma grande pira foi construída; sobre ela várias ovelhas e bois foram sacri- ficados e suas carcaças empilhadas ao lado do corpo do herói morto.

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Mitologia Grega

Jarros de mel e óleo foram adicionados à pira, a seguir quatro cavalos e dois dos cachorros de Pátroclo. Doze prisioneiros troianos mortos sobre a pira, a qual então foi deixada acesa. Ardeu toda a noite, e du- rante toda a noite Aquiles colocou libações com vinho e pranteou Pá- troclo bem alto. Nos dia seguinte os ossos de Pátroclo foram coleta- dos e colocados numa urna dourada, e um grande monte foi erguido no local da pira. Jogos funerários com prêmios magníficos foram fei- tos, com competições entre carruagens, luta de boxe, pugilato, corri- das, lutas armadas, arremesso do disco e tiros com arco e flecha. E todo o dia ao amanhecer, por doze dias.

Aquiles arrastou o corpo de Heitor três vezes ao redor do monte, até que mesmo os deuses, que tinham previsto e arranjado tudo isso, fi- caram chocados; Zeus enviou Íris, mensageiro dos deuses, para Tróia em visita a Príamo e o instruiu a ir secretamente ao acampamento troiano com um bom resgate, que Aquiles aceitaria em troca da liber- tação do corpo do filho de Príamo.

Assim Príamo, escoltado por um simples mensageiro, se dirigiu ao acampamento grego, sendo encontrado ao escurecer, quando se aproximava dos navios gregos, por Hermes disfarçado como um se- guidor de Aquiles. Hermes guiou Príamo pelo acampamento grego, de modo que chegou sem ser percebido à tenda de Aquiles.

Príamo entrou diretamente e jogou-se aos pés de Aquiles: ele pediu que o herói pensasse no seu próprio pai Peleu e tivesse mercê com um pai que tinha perdido tantos de seus bons filhos nas mãos dos gregos; pediu que fosse permitido levar o corpo de seu maior filho de volta a Tróia com ele, de modo que pudesse ser adequadamente pranteado e enterrado pelos seus parentes. Aquiles ficou tocado pelo apelo; choraram juntos, e o pedido de Príamo foi aceito. Assim, o cor- po de Heitor foi devolvido a Tróia, onde foi velado e sepultado com os ritos adequados.

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Mitologia Grega

Aqui acaba a Ilíadamas não é de forma nenhuma o fim da estória de Tróia. O restante da estória é recontada parcialmente na Odisséia e em parte pelos dramaturgos, mas também por autores romanos pos- teriores, principalmente Cirílico na Emelia e por uma miscelânea de poetas como Quintus de Smirna. Após a morte de Heitor, uma grande número de aliados vieram auxiliar os troianos, incluindo as Amazonas com sua rainha, Pentesiléia, e os Etíopes liderados por Mêmnon, um filho de Éos, deusa da aurora. Tanto Pentesiléia como Mêmnon foram mortos por Aquiles. Mas Aquiles sempre soube que estava destinado

a morrer em Tróia, longe de sua terra natal, onde acabou sendo mor-

to por uma flecha, lançada pelo arco de Páris. A mãe de Aquiles, Tétis,

quis tornar seu filho imortal, e, quando este era ainda um bebê, levou-

o ao Mundo Inferior e o imergiu nas águas do rio Estige; isto tornou

seu corpo imune aos ferimentos, exceto pelo calcanhar, o qual ela uti- lizou para segurá-lo, sendo lá que a flecha o acertou e o matou.

Sumário

5 - A primeira geração divina

Oceano

Em grego (Okeanós), sem etimologia ainda bem definida. É possível que se trate de palavra oriental com o sentido de "circular, envolver". Parece que Oceano era concebido, a princípio, como um rio-serpente, que cercava e envolvia a terra. Pelo menos esta é a ideia que do mes- mo faziam os sumérios, segundo os quais a Terra estava sentada so- bre o Oceano, o rio-serpente. No mito grego, Oceano é a personifica- ção da água que rodeia o mundo: é representado como um rio, o Rio- Oceano, que corre em torno da esfera achatada da terra, como diz Ésquilo em Prometeu Acorrentado: Oceano, cujo curso, sem jamais dormir, gira ao redor da Terra imensa.

Quando, mais tarde, os conhecimentos geográficos se tornaram mais

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Mitologia Grega

precisos, Oceano passou a designar o Oceano Atlântico, o limite oci- dental do mundo antigo. Representa o poder masculino, assim como Tétis, sua irmã e esposa, simboliza o poder e a fecundidade feminina do mar. Como deus, Oceano é o pai de todos os rios, que, segundo a Teogonia, são mais de três mil, bem como das quarenta e uma Oceâ- nidas, que personificam os riachos, as fontes e as nascentes. Unidas a deuses e, por vezes, a simples mortais, são responsáveis por numero- sa descendência.

O em razão mesmo de sua vastidão, aparentemente sem limites, é a imagem Oceano, da indistinção e da indeterminação primordial.

De outro lado, o simbolismo do Oceano se une ao da água, considera-

da como origem da vida. Na mitologia egípcia, o nascimento da Terra

e

da vida era concebido como uma emergência do Oceano, à imagem

e

semelhança dos montículos lodosos que cobrem o Nilo, quando de

sua baixa. Assim, a criação, inclusive a dos deuses, emergiu das águas

primordiais. O deus primevo era chamado a Terra que emerge. Afinal, as águas, "simbolizam a soma de todas as virtualidades: são a fonte, a origem e o reservatório de todas as possibilidades de existência. Pre- cedem a todas as formas e suportam toda a criação".

Oceano e suas filhas, as Oceânidas, surgem na literatura grega como

personagens da gigantesca tragédia de Ésquilo, Prometeu Acorrenta- do. Oceano, apesar de personagem secundária na peça, um mero tri- tagonista, é finalmente marcado por Ésquilo: tímido, medroso e conci- liador, está sempre disposto a ceder diante do poderio e da arrogân- cia de Zeus. Com o caráter fraco de seu pai contrastam as Oceânidas, que formam o coro da peça: preferem ser sepultadas com Prometeu

a sujeitar-se à prepotência do pai dos deuses e dos homens.

Mesmo quando os Titãs, após a mutilação de Úrano, se apossaram do mundo, Oceano resolveu não participar das lutas que se seguiram, permanecendo sempre à parte como observador atento dos fatos

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Mitologia Grega

Dada a pouca ou nenhuma importância dos Titãs Ceos, Crio e Hiperí- on no mito grego, a não ser por seus casamentos, filhos e descenden- tes, vamos diretamente a Crono.

Ciclope

Em grego (Kýklops), "olho redondo", pois os Ciclopes eram concebi- dos como seres monstruosos com um olho só no meio da fronte. De- mônios das tempestades, os três mais antigos são chamados, por isso mesmo, Brontes, o trovão, Estéropes, o relâmpago, e Arges, o raio.

Os mitógrafos distinguem três espécies de Ciclopes: os Urânios (filhos de Úrano e Géia), os Sicilianos, companheiros de Polifemo, como apa- rece na Odisséia de Homero e os Construtores. Os primeiros, Brontes, Estéropes e Arges são os urânios. Encadeados pelo pai, foram, a pedi- do de Géia, libertados por Crono, mas por pouco tempo. Temendo-os, este os lançou novamente no Tártaro, até que, advertido por um orá- culo de Géia de que não poderia vencer os Titãs sem o concurso dos Ciclopes, Zeus os libertou definitivamente. Estes, agradecidos, deram- lhe o trovão, o relâmpago e o raio. A Plutão ou Hades ofereceram um capacete que podia torná-lo invisível e a Poseidon, o tridente.

Foi assim, que os Olímpicos conseguiram derrotar os Titãs.

A partir de então tornaram-se eles os artífices dos raios de Zeus.

Como o médico Asclépio, filho de Apolo, fizesse tais progressos em sua arte, que chegou mesmo a ressuscitar vários mortos, Zeus, te- mendo que a ordem do mundo fosse transtornada, fulminou-o. Apo- lo, não podendo vingar-se de Zeus, matou os Ciclopes, fabricantes do raio, que eliminaria o deus da medicina.

O segundo de Ciclopes, impropriamente denominados sicilianos, ten- dem a confundir-se com aqueles de que fala Homero na Odisseia. Es-

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Mitologia Grega

tes eram selvagens, gigantescos, dotados de uma força descomunal e antropófagos. Viviam perto de Nápoles, nos chamados campos de Flegra. Moravam em cavernas e os únicos bens que possuíam eram seus rebanhos de carneiros. Dentre esses Ciclopes destaca-se Polife- mo, imortalizado pelo cantor de Ulisses e depois, na época clássica, pelo drama satírico de Eurípedes, o Ciclope, o único que chegou com- pleto até nós.

Na época alexandrina, os Ciclopes "homéricos" transformaram-se em demônios subalternos, ferreiros e artífices de todas as armas dos deuses, mas sempre sob a direção de Efesto, o deus por excelência das forjas. Habitavam a Sicília, onde possuíam uma oficina subterrâ- nea. De antropófagos se transmutaram na erudita poesia alexandrina em frágeis seres humanos, mordidos por Eros.

A terceira leva de Ciclopes proviria da Lícia. A eles era atribuída a

construção de grandes monumentos da época pré-histórica, forma- dos de gigantescos blocos de pedra, cujo transporte desafiava as for- ças humanas. Ciclopes pacíficos, esses Gigantes se colocaram a servi- ço de heróis lendários, como Preto, na fortificação de Tirinto, e Per- seu, na construção da fortaleza de Micenas.

De Urano a Crono

À primeira fase do Cosmo segue-se o que se poderia chamar estágio

intermediário, em que Úrano (Céu) se une a Géia (Terra), de que pro- cede numerosa descendência: Titãs, Titânidas, Ciclopes, Hecatonqui- ros, além dos que nasceram do sangue de Úrano e de todos os filhos

destes e daqueles.

A união de Úrano e Géia é o que se denomina hierogamia, um casa-

mento sagrado, cujo objetivo precípuo é a fertilidade da mulher, dos animais e da terra. É que, o casamento sagrado, "atualiza a comunhão

entre os deuses e os homens; comunhão, por certo passageira, mas

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Mitologia Grega

com significativas consequências. Pois a energia divina convergia dire- tamente sobre a cidade - em outras palavras, sobre a "Terra" - santifi- cava-a e lhe garantia a prosperidade e a felicidade para o ano que co- meçava". Essas hierogamias se encontram em quase todas as tradi- ções religiosas. Simbolizam não apenas as possibilidades de união com os deuses, mas também uniões de princípios divinos que provo- cam certas hipóstases. Uma das mais célebres dessas uniões é a de Zeus (o poder, a autoridade) e Têmis (a justiça, a ordem eterna) que deu nascimento a Eunomia (a disciplina), Irene (a paz) e Dique (a jus- tiça).

Curioso que o casamento, instituição que preside à transmissão da vida, aparece é muitas aureolado de um culto que exalta e exige a vir- gindade, simbolizando, vezes assim, a divina da vida, de que as uniões do homem e da mulher são apenas origem projeções, receptáculos, instrumentos e canais transitórios. No Egito havia as esposas de Amondeus da fecundidade. Eram normalmente princesas, consagra- das ao deus e , que dedicavam sua virgindade a essa teogamia. Em Roma, as Vestais, sacerdotisas de Vesta, deusa da lareira doméstica, depois deusa da Terra, a Deusa Mãe, se caracterizavam por uma ex- trema exigência de pureza.

Retornando à primeira geração divina, temos, inicialmente, o seguinte quadro:

Úrano à Géia;

Titãs: Oceano, Ceos, Crio, Hiperíon, Jápeto, Crono;

Titânidas: Téia, Réia, Têmis, Mnemósina, Febe, Tétis;

Ciclopes: Arges, Estérope, Brontes;

Hecatonquiros: Coto, Briaréu, Gias,

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Titãs

Mitologia Grega

Em grego (Titán), é aproximado, em etimologia popular, de (títaks), rei, e (titéne), rainha, termos possivelmente de procedência oriental:

nesse caso, Titã significaria "soberano, rei". Carnoy prefere admitir que os Titãs tenham sido primitivamente deuses solares e seu nome se explicaria pelo "pelágico" tita, brilho, luz. A primeira hipótese pare- ce mais clara e adequada às funções dos violentos Titãs no mito gre- go.

Os Titãs simbolizam, "as forças brutas da terra e, por conseguinte, os desejos terrestres em atitude de revolta contra o espírito", isto é, contra Zeus. Juntamente com os Ciclopes, os Gigantes e os Hecaton- quiros representam eles as manifestações elementares, as forças sel- vagens e insubmissão da natureza nascente, prefigurando a primeira etapa da gestação evolutiva. Ambiciosos, revoltados e indomáveis, adversários tenazes do espírito consciente, patenteado em Zeus, não simbolizam apenas as forças brutas da natureza, mas, lutando contra o espírito, exprimem a oposição à espiritualização harmonizante.

Sua meta é a dominação, o despotismo.

Sumário

6 - A segunda geração divina

Crono e sua descendência

Consumada a mutilação de Úrano e seu afastamento do governo do mundo, Crono, tendo lançado no Tártaro os Ciclopes e os Hecatonqui- ros, apoderou-se do poder, casando-se com sua Irmã Réia. Desse en- lace nasceram Héstia, Hera, Deméter, Hades, Poseidon e Zeus.

Héstia

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Mitologia Grega

Héstia, deusa da lareira. Da mesma família etimológica que o latim Vesta, cuja fonte é o indo-europeu wes, "queimar", "passar pelo fogo, consumir". Héstia é a lareira em sentido estritamente religioso ou, mais precisamente, é a personificação da lareira colocada no centro do altar; depois, sucessivamente, da lareira localizada no meio da ha- bitação, da lareira da cidade, da lareira da Grécia; da lareira como fogo central da terra; enfim, da lareira do universo. E, embora Homero lhe ignore o nome, Héstia certamente prolonga um culto pré-helênico do lar.

Se bem que muito cortejada por Apolo e Poseidon, obteve de Zeus a prerrogativa de guardar para sempre a virgindade. Foi ininterrupta- mente cumulada de honras excepcionais, não só por parte de seu ir- mão caçula, mas de todas as divindades, tornando-se a única deusa a receber um culto em todas as casas dos homens e nos templos de to- dos os deuses. Enquanto os outros Imortais viviam num vaivém cons- tante, Héstia manteve-se sedentária, imóvel no Olimpo. Assim como o fogo doméstico é o centro religioso do lar dos homens, Héstia é o centro religioso do lar dos deuses. Essa imobilidade, todavia, fez que a deusa da lareira não desempenhasse papel algum no mito. Héstia permaneceu sempre mais como um princípio abstrato, a Ideia da la- reira, do que como uma divindade pessoal, o que explica não ser a grande deusa necessariamente representada por imagem, uma vez que o fogo era suficiente para simbolizá-la.

Personificação do fogo sagrado, a deusa preside à conclusão de qual- quer ato ou acontecimento. Ávida de pureza, ela assegura a vida nu- triente, sem ser ela própria fecundante. É preciso observar, além do mais, que toda realização, toda prosperidade, toda vitória são coloca- das sob o signo desta pureza absoluta. Héstia, como Vesta e suas dez Vestais, talvez simbolizem o sacrifício permanente, através do qual uma perpétua inocência serve de elemento substitutivo ou até mes- mo de respaldo às faltas perpétuas dos homens, granjeando-lhes êxi- to e proteção.

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Quanto ao fogo propriamente dito, a maior parte dos aspectos de seu simbolismo será sintetizada no hinduísmo, que lhe confere uma im- portância fundamental. Agni, Indra e Sûrya são as "chamas" do nível telúrico, do intermediário e celestial, quer dizer, o fogo comum, o raio e o sol. Existem ainda dois outros: o fogo da penetração ou absorção (Vaishvanara) e o da destruição, que é um outro aspecto do próprio Agni.

Consoante o I Ching, o fogo correspondente ao sul, à cor vermelha, ao verão, ao coração, uma vez que ele, sob este último aspecto, ora sim- boliza as paixões, particularmente o amor e o ódio, ora configura o espírito ou o conhecimento intuitivo. A significação sobrenatural se estende das almas errantes, o fogo-fátuo, até o Espírito divino: Brah- ma é idêntico ao fogo (Gîtâ, 4,25).

O simbolismo das chamas purificadoras e regeneradoras se desdobra do Ocidente aos confins do Oriente. A liturgia católica do fogo novo é celebrada na noite de Páscoa. O divino Espírito Santo desceu sobre os Apóstolos sob a forma de línguas de fogo. Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, o fogo é elemento que purifica e limpa, tornando- se, destarte, o veículo que separa o puro do impuro, destruindo even- tualmente este último. Por isso mesmo, o fogo é apresentado como instrumento de punição e juízo de Deus (Sl 50,3; Mc 9,49; Tg 5,3; Ap 8,9). Cristo fala de um fogo que não se apagará (Mt 5,32; 18,8; 25,41). Deus será como um fogo distinguindo o bom do menos bom (Sl 17,3; 1Cor 3,15). Sua força, que tudo penetra, purifica também: nesse senti- do é que o batismo de Jesus havia de agir como fogo (Mt 3,11).

Os taoístas penetram nas chamas para se liberar do condicionamento humano, uma verdadeira apoteose, como a de Héracles, que, para se despir do invólucro mortal, subiu a uma fogueira no monte Eta. Mas há os que, como os mesmos taoístas, entram nas chamas sem se queimar, o que faz lembrar o fogo que não queima do hermetismo ocidental, ablução, purificação alquímica, fogo este que é simbolizado

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pela Salamandra.

Mitologia Grega

O fogo sacrificial do hinduísmo é substituído por Buda pelo fogo inte-

rior, que é simultaneamente conhecimento penetrante, iluminação e

destruição do invólucro carnal.

O aspecto destruidor do fogo comporta igualmente uma relação ne-

gativa e o domínio do fogo é também uma função diabólica. Observe- se, a propósito, a forja: seu fogo é, ao mesmo tempo, celeste e sub- terrâneo, instrumento de demiurgo e de demônio. A grande queda de nível é a de Lúcifer, "o que leva a luz celeste", precipitado nas forna- lhas do inferno: um fogo que brilha sem consumir, mas exclui para sempre toda e qualquer possibilidade de regeneração.

Em muitas culturas primitivas, os inumeráveis ritos de purificação, as mais das vezes, ritos de passagem, são característicos de culturas agrárias. Configuram certamente os incêndios dos campos, que se re- vestem, em seguida, de um tapete verde de natureza viva. Entre os gauleses, os sacerdotes druidas faziam grandes fogaréus e por eles faziam passar o rebanho para preservá-lo de epidemias. O grande po- lítico e excepcional escritor Caio Júlio César (100-44 a.C.) nos fala, no B. Gal., 6, 16, 9, de gigantescos manequins, confeccionados de vime, que os mesmos druidas enchiam de homens e animais e transforma- vam em fogueira.

O Fogo, nos ritos iniciáticos de morte e renascimento, associa-se a seu

princípio contrário, a Água. Os chamados Gêmeos de Popol-Vuh do mito maia, após sua incineração, renascem de um rio, onde suas cin-

zas foram lançadas.

Mais tarde, os dois heróis tornam-se o novo Sol e a nova Lua, Maia- Quiché, efetuando uma nova diferenciação dos princípios antagôni- cos, fogo e água, que lhes presidiram à morte e ao renascimento. Desse modo, a purificação pelo fogo é complementar da purificação

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Mitologia Grega

pela água, tanto num plano microcósmico (ritos iniciáticos), quanto num aspecto macrocósmico (mitos alternados de dilúvios, grandes secas ou incêndios). Para os astecas, o fogo terrestre, ctônio, repre- senta a força profunda que permite a complexio oppositorum, a união dos contrários, a ascensão, a sublimação da água em nuvens, isto é, a transformação da água terrestre, água impura, em água celestial, água pura e divina.

O fogo é, pois, o motor, o grande responsável pela regeneração pe- riódica. Para os bambaras o fogo ctônio configura a sabedoria huma- na e o urânico, a sabedoria divina.

Quanto à significação sexual do fogo, é preciso observar que ela está intimamente ligada à primeira técnica de obtenção do mesmo pela fricção, pelo atrito, pelo vaivém, imagem do ato sexual, enquanto a espiritualização do fogo estaria ligada à aquisição do mesmo pela per- cussão. Mircea Eliade chega à mesma conclusão e opina que a obten- ção do fogo pelo atrito é tida como o resultado, a "progenitura" de uma união sexual, mas acentua, de qualquer forma, o caráter ambiva- lente do fogo: pode ser tanto de origem divina quanto demoníaca, porque, segundo certas crenças arcaicas, o fogo tem origem nos ór- gãos genitais das feiticeiras e das bruxas.

Em síntese, o fogo que queima e consome é um símbolo de purifica- ção e regeneração, mas o é igualmente de destruição. Temos aí nova inversão do símbolo. Purificadora e regeneradora a água também o é. Mas o fogo se distingue da água na medida em que ele configura a purificação pela compreensão, até sua forma mais espiritual, pela luz da verdade; a água simboliza a purificação do desejo até sua forma mais sublime, a bondade.

Hera

Hera, nome de etimologia controvertida. Talvez seja da mesma família

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etimológica que (Héros), herói, como designativo dos mortos divini- zados e protetores e, nesse caso, Hera significaria a protetora, a guardiã. A base seria o indo-europeu serua, da raiz ser-, "guardar", donde o latim seruare, "conservar, velar sobre".

Como todas as suas irmãs e irmãos, exceto Zeus, foi engolida por Cro- no, mas salva pelo embuste de Métis e os combates vitoriosos de seu futuro esposo.

Durante todo o tempo em que Zeus lutava contra os Titãs, Réia en- tregou-a aos cuidados de Oceano e Tétis, que a criaram nas extremi- dades do mundo, o que irá provocar para sempre a gratidão da filha de Crono. Existem outras tradições que lhe atribuem a educação às Horas, ao herói Têmeno, filho de Pelasgo, ou ainda às filhas de Asté- rion, rei de Creta. Após seu triunfo definitivo, Zeus a desposou, em núpcias soleníssimas. Era, na expressão de Hesíodo, a terceira esposa (a primeira foi Métis e a segunda, Têmis), à qual o deus se uniu em "justas núpcias". Conta-se, todavia, que Zeus e Hera se amavam há muito tempo e que se haviam unido secretamente, quando o deus Crono ainda reinava sobre os Titãs. O local, onde se realizaram essas "justas núpcias" varia muito, consoante as tradições. A mais antiga e a mais "canônica" dessas variantes coloca-as no Jardim das Hespérides, que é, em si mesmo, o símbolo mítico da fecundidade, no seio de uma eterna primavera. Os mitógrafos sempre acentuaram, aliás, que os pomos de ouro do Jardim das Hespérides foram o presente de núp- cias que Géia ofereceu a Hera e esta os achou tão belos, que os plan- tou em "seu Jardim", nas extremidades do Oceano. Homero, na Ilíada, desloca o casamento divino do Jardim das Hespérides para os pínca- ros do monte Ida, na Frígia. Outras tradições fazem-no realizar-se na Eubéia, por onde o casal passou, quando veio de Creta. Em diversas regiões da Grécia, além disso, celebravam-se festas para comemorar as bodas sagradas do par divino do Olimpo. Ornamentava-se a estátua da deusa com a indumentária de uma jovem noiva e conduziam-na em procissão pela cidade até um santuário, onde era preparado um leito

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Mitologia Grega

nupcial. O idealizador de tal cerimônia teria sido o herói beócio Alalcômenes (Alalcômenes é um herói da Beócia, fundador da cidade do mesmo nome. Atribui-se a ele a invenção das hierogamias de Zeus

e Hera, isto é, cerimônias religiosas em que se re-atualizava o casa-

mento dos dois. Conta-se que Hera, constantemente enganada por Zeus e cansada das infidelidades do esposo, veio até Alalcômenes queixar-se do marido. O herói aconselhou-a a que mandasse executar uma estátua dela mesma, mas confeccionada de carvalho (árvore consagrada a Zeus), e fizesse transportá-la solene e ricamente para- mentada, seguida de grande cortejo, como se fosse uma verdadeira procissão nupcial. A deusa assim o fez, instituindo uma festa denomi- nada Festas Dedáleas. Segundo a crença popular, este rito re- atualizava, rejuvenescia a união divina e conferia-lhe eficácia por ma- gia simpática, pondo um freio, ao menos temporário, às infidelidades do marido

Como legítima esposa do pai dos deuses e dos homens, Hera é a pro- tetora das esposas, do amor legítimo. A deusa, no entanto, sempre foi retratada como ciumenta, vingativa e violenta. Continuamente irrita- da contra o marido, por suas infidelidades, moveu perseguição tenaz contra suas amantes e filhos adulterinos. Hércules foi uma de suas vítimas prediletas. Foi ela a responsável pela imposição ao herói dos

célebres Doze Trabalhos. Perseguiu-o, sem tréguas, até a apoteose final do filho de Alcmena. Por causa de Hércules, aliás, Zeus, certa vez

a puniu exemplarmente. Quando o herói regressava de Tróia, após

tomá-la, Hera suscitou contra seu navio uma violenta tempestade. Ir- ritado, Zeus suspendeu-a de uma nuvem, de cabeça para baixo, amar- rada com uma corrente de ouro e uma bigorna em cada pé. Foi por tentar libertar a mãe de tão incômoda posição, que Hefesto foi lança-

do no vazio pelo pai. Perseguiu implacavelmente Io, mesmo meta- morfoseada em vaca, lançando contra ela um moscardo, que a deixa- va como louca.

Mandou que os Curetes, demônios do cortejo de Zeus, fizessem de-

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saparecer Épafo, filho de sua rival Io. Provocou a morte trágica de Sêmele, que estava grávida de Zeus. Tentou quanto pôde impedir o nascimento de Apolo e Ártemis, filhos de seu esposo com Leto.

Enlouqueceu Átamas e Ino, por terem criado a Dioníso, filho de Sême- le. Aconselhou Ártemis a matar a ninfa Calisto, que Zeus seduzira, dis- farçando-se na própria Ártemis ou em Apolo, segundo outros, porque a ninfa, por ser do cortejo de Ártemis, tinha que guardar a todo custo sua virgindade. Zeus, depois, a transformou na constelação da Ursa Maior, porque, conforme algumas fontes, Ártemis, ao vê-la grávida, a metamorfoseou em ursa e a liquidou a flechadas. Outros afirmam que tal metamorfose se deveu à cólera de Hera ou a uma precaução do próprio Zeus, para subtraí-la à vingança da esposa.

Para escapar da vigilância atenta de Hera, Zeus não só se transforma- va de todas as maneiras, em cisne, em touro, em chuva de ouro, no marido da mulher amada, mas ainda disfarçava, a quem desejava poupar da ira da mulher: Io o foi em vaca; Dioniso, em touro ou bo-

De resto, o relacionamento entre os esposos celestes jamais foi

de

muito normal e a cólera e vingança da filha de Crono se apoiavam em outros motivos.

Certa vez, Hera discutia com o marido para saber quem conseguia usufruir de maior prazer no amor, se o homem ou a mulher. Como não conseguissem chegar a uma conclusão, porque Zeus dizia ser a mulher a favorecida, enquanto Hera achava que era o homem, resol- veram consultar Tirésias, que tivera sucessivamente a experiência dos dois sexos. Este respondeu que o prazer da mulher estava na propor- ção de dez para um relativamente ao do homem. Furiosa com a ver- dade, Hera prontamente o cegou.

Tomou parte, como se sabe, no célebre concurso de beleza e teve por rivais a Atena e Afrodite, e cujo juiz era o troiano Páris. Tentou, para vencer, subornar o filho de Príamo, oferecendo-lhe riquezas e a reale-

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za universal.

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Como Páris houvesse outorgado a maça de ouro a Afrodite, que lhe ofereceu amor, Hera fez pesar sua cólera contra Ílion, tendo tomado decisivamente o partido dos gregos.

Seu ódio, por sinal, se manifestou desde o rapto de Helena por Páris. Quando da fuga do casal, de Esparta para Tróia, a magoada esposa de Zeus suscitou contra os amantes uma grande borrasca, que os lançou em Sídon, nas costas da Síria. Tornou-se, além do mais, a protetora natural do herói grego Aquiles, cuja mãe Tétis fora por ela criada.

Conta-se, além do mais, que era grata a Tétis, porque esta sempre re- peliu as investidas amorosas de Zeus. Mais tarde, estendeu sua prote- ção a Menelau, tornando-o imortal.

Participou da luta contra os Gigantes, tendo repelido as pretensões pouco decorosas de Porfírio.

Ixíon, rei dos Lápitas, tentou seduzí-la, mas acabou envolvendo em seus braços uma nuvem, que Zeus confeccionara à semelhança da es- posa. Dessa "união" nasceram os

Centauros. Para castigá-lo, Zeus fê-lo alimentar-se de ambrosia, o manjar da imortalidade, e depois lançou-o no Tártaro. Lá está ele gi- rando para sempre numa roda de fogo. Protegeu o navio Argo, fa- zendo-o transpor as perigosas Rochas Ciâneas, as Rochas Azuis, e guiou-o no estreito fatídico entre Cila e Caribdes.

Sua ave predileta era o pavão, cuja plumagem passava por ter os cem olhos com que o vigilante Argos guardava sua rival, a "vaca" Io. Eram- lhe também consagrados o lírio e a romã: o primeiro, além de símbolo da pureza, o é também da fecundidade, como a romã.

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Pelo fato de ser esposa de Zeus, Hera possui alguns atributos sobera- nos, que a distinguem das outras imortais, suas irmãs. Como seu divi- no esposo, exerce uma ação poderosa sobre os fenômenos celestes. Honrada como ele nas alturas, onde se formam as borrascas e se amontoam as nuvens, que derramam as chuvas benfazejas, ela pode desencadear as tempestades e comandar os astros que adornam a abóbada celeste. A união de Zeus e Hera é como um símbolo da natu- reza inteira. É por intermédio de ambos, do calor, dos raios do sol e das chuvas, que penetram o solo, que a terra é fecundada e se reveste de luxuriante vegetação. Ainda como Zeus, Hera personifica certos atributos morais, como o poder, a justiça, a bondade. Protetora in- conteste dos amores legítimos, é o símbolo da fidelidade conjugal. Associada à soberania do pai dos deuses e dos homens, é respeitada pelo Olimpo inteiro, que a saúda como sua rainha e senhora. É verda- de que, por vezes, uma rainha irascível e altiva, mas que jamais deixou de ser, em seus rompantes ou em sua majestade serena, a grande di- vindade feminina do Olimpo grego, cujo grande deus masculino é Zeus.

Sumário

7 - Afrodite

Da espuma do mar, fecundada pelo sangue de Urano (o Céu) nasceu uma jovem levada em primeiro lugar para a ilha de Cítera e em segui- da a Chipre. Deusa encantadora, não tardou percorrer a costa, e as flores nasciam sob os seus pés delicados. Chama-se Afrodite Vênus, ou Citeréia, do nome da ilha a que aportou, ou ainda Cipris, do nome da ilha em que é honrada. Pelo menos, é essa a tradição mais difundi- da, pois algumas lendas diferentes vieram confundir-se em Vênus (Afrodite) que, às vezes, surge como filha de Júpiter (Zeus) e de Dio- néia. É também a que devemos adotar, pois os artistas que represen- taram o nascimento de Vênus (Afrodite) mostram sempre a deusa no momento em que sai das vagas.

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Nas pinturas antigas, Vênus (Afrodite) é frequentemente representa- da deitada sobre uma simples concha; nas moedas, vemo-la num car- ro puxado pelos Tritões e pelas Tritônidas. Finalmente, numerosos baixos-relevos no-la apresentam seguida de hipocampos ou centauros marinhos. No século dezoito, os pintores franceses, e notadamente Boucher, viram no nascimento de Vênus (Afrodite) um tema infinita- mente gracioso e útil à decoração. Uma multidão de pequenos cupi- dos paira nos ares ou escolta a deusa. Aliás, os pintores franceses se- guiram, nesse ponto, as tradições bebidas da Itália.

Conformando-se à narração dos poetas, Albane colocou a deusa num carro puxado por cavalos marinhos. Assim é que ela vai ter a Cítera, onde a aguarda Peitho (a Persuasão), que, na margem, estende os braços à jovem viajante. Cupido está sentado perto do mar; as Nerei- das e os Amores montados em delfins formam o cortejo da deusa.

Alegres Amores festejam a chegada de Vênus (Afrodite), e outros es- voaçam no ar semeando flores na passagem.

Num quadro dotado de grande frescor e brilho, que faz parte do mu- seu de Viena, Rubens pintou a festa de Vênus (Afrodite) em Cítera. Ninfas, sátiros e faunos dançam em torno da sua estátua, enquanto os Amores entrelaçam guirlandas de flores e enchem os ares de ale- gres cadências. Ao fundo, mostrou o pintor o templo da deusa.

O atavio de Vênus (Afrodite) é um tema que a arte e a poesia fixaram bem. Enquanto as Horas estavam incumbidas da educação da deusa, as Graças presidiam aos cuidados do seu atavio. Uma multidão de quadros reproduziu tão encantadora cena, e os pintores não deixa- ram de acrescentar todos os pormenores que lhes sugeriu a imagina- ção.

Quando Boucher faleceu, tinha sobre o cavalete um quadro represen- tando o atavio de Vênus (Afrodite). Prudhon pintou Vênus (Afrodite)

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estendida num leito antigo e servida pelos Amores que lhe perfumam os cabelos, lhe estendem um espelho, queimam perfumes em torno da deusa, trazem-lhe jóias e lhe entrelaçam guirlandas de flores.

Rubens também faz intervir Cupido que segura um espelho no qual a mãe se fita; infelizmente, é uma velha que lhe arranja os cabelos. A velhice lenta e enrugada jamais deve aproximar-se de Vênus (Afrodi- te).

Albane, que está longe de ser artista de primeira ordem, é, no entan- to, o que mais lembra, pela natureza de suas composições, as gracio- sas ficções da antiguidade sobre Vênus (Afrodite). O Atavio de Vênus (Afrodite), quadro que infelizmente escureceu, é talvez, a sua obra- prima como concepção mitológica. Num terraço, à beira-mar, Vênus (Afrodite) contempla-se num espelho que o Cupido lhe apresenta, enquanto as Graças lhe perfumam a linda cabeleira, e lhe arranjam os atavios. Diante dela está uma fonte onde o Amor faz que matem a se- de duas pombas. Um palácio aéreo, como convém a Vênus (Afrodite), aparece no fundo de um tanque, ao passo que, nas nuvens, Amores alados atrelam cisnes brancos ao carro de ouro que vai conduzir o passeio a deusa, e enchem os ares dos seus melodiosos concertos.

Tipo e atributos

"O culto sírio de Astarte, diz Ottfried Mueller, parece, encontrando na Grécia alguns inícios indígenas, ter dado nascimento ao culto célebre e difundido por toda parte de Vênus afrodite. A ideia fundamental da grande deusa Natureza, sobre a qual ela repousava, nunca se perdeu inteiramente; o elemento úmido que formava no Oriente o império reservado a essa divindade continuou a ser submetido ao poder de Vênus afrodite nas costas e nos portos em que era venerada; sobre- tudo o mar, o mar tranquilo e calmo, refletindo o céu no espelho úmi- do das suas ondas, parecia, aos olhos dos gregos, uma expressão de sua divinal natureza. Quando a arte, no ciclo de Afrodite, deixou para

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trás as pedras grosseiras e os ídolos informes do culto primitivo, a ideia de uma deusa cujo poder se estende por toda parte e à qual nin- guém pode resistir, animou as suas criações; gostava-se de a repre- sentar sentada num trono, segurando nas mãos os sinais simbólicos de uma natureza repleta de mocidade e esplendor, de uma luxuriante abundância; a deusa estava inteiramente envolta nas dobras das suas vestes (a túnica mal lhe deixava à mostra uma parte do seio esquer- do) que se distinguiam pela elegância, pois precisamente nas imagens de Vênus (Afrodite), a graça rebuscada das vestes e dos movimentos parecia pertencer ao caráter da deusa. Nas obras saídas da escola de Fídias, ou produzidas sob a influência dessa escola, a arte representa em Afrodite o princípio feminino e a união dos sexos em toda a sua santidade e grandeza.

Vê-se ali, antes, uma união durável formada com o fito do bem geral, e não uma aproximação efêmera que deve terminar com os prazeres sensuais que ele proporciona.

A nova arte ática foi a primeira que tratou do tema de Afrodite com

um entusiasmo puramente sensual, e que divinizou, nas representa- ções figuradas da deusa, já não mais apenas um poder ao qual o mun- do inteiro obedecia, mas antes a individualidade da beleza feminina."

Vênus (Afrodite) dá leis ao céu, à terra, às ondas e a todas as criaturas vivas. "Foi ela que deu o germe das plantas e das árvores, foi ela que reuniu nos laços da sociedade os primeiros homens, espíritos ferozes

e bárbaros, foi ela que ensinou a cada ser a unir-se a uma companhei- ra. Foi ela que nos proporcionou as inúmeras espécies de aves e a

multiplicação dos rebanhos. O carneiro furioso luta, às chifradas, com

o carneiro. Mas teme ferir a ovelha. O touro cujos longos mugidos fa- ziam ecoar os vales e os bosques abandona a ferocidade, quando vê a novilha. O mesmo poder sustenta tudo quanto vive sob os amplos mares e povoa as águas de peixes sem conta. Vênus (Afrodite) foi a primeira em despojar os homens do aspecto feroz que lhes era pecu-

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liar. Dela foi que nos vieram o atavio e o cuidado do próprio corpo." (Ovídio).

Afrodite celeste e Afrodite vulgar

Pausânias, na sua descrição de Tebas, assinala várias estátuas de Vê- nus (Afrodite), da mais alta antiguidade, pois haviam sido feitas com o lenho dos navios de Cadmo e consagradas pela própria Harmonia. "A primeira, diz ele, é Vênus (Afrodite) celeste, a segunda Vênus (Afrodi- te) vulgar, e a terceira é chamada preservadora. Foi a própria Harmo- nia que lhes impôs tais nomes para distinguir essas três espécies de Amores: um celeste, ou seja, casto, outro vulgar, ou seja, preso ao corpo, o terceiro desordenado, que leva os homens às uniões inces- tuosas e detestáveis. Era à Vênus (Afrodite) preservadora que se diri- giam as preces para a preservação dos desejos culposos." (Pausâ- nias).

Temos interessante exemplo desse último aspecto de Vênus (Afrodi- te), numa decisão do senado romano, o qual, segundo os livros sibili- nos consultados pelos decênviros, ordenara a dedicação de uma está- tua de Vênus (Afrodite) vesticordia (convertedora), como meio de reconduzir as moças devassas ao pudor do sexo. (Valério Máximo).

A tartaruga, emblema da castidade das mulheres, era consagrada a Vênus (Afrodite) celeste, e o bode, símbolo contrário, consagrado à Vênus (Afrodite) vulgar. As imagens da deusa, que se encontravam em todas as casas, eram, além de tudo, acompanhadas de inscrições que indicavam o seu caráter. Eis aqui uma que chegou até nós: "Esta Vênus (Afrodite) não é a Vênus (Afrodite) popular, é a Vênus (Afrodi- te) urânia. A casta Crisógona colocou-a na casa de Amphicles, a quem deu vários filhos, comoventes penhores da sua ternura e fidelidade. Todos os anos, o primeiro cuidado desses felizes esposos é de vos in- vocar, poderosa deusa, e em prêmio da sua piedade, todos os anos lhes aumentais a ventura. Prosperam sempre os mortais que honram

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os deuses."

(Teócrito).

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Vênus (Afrodite) celeste está caracterizada pela veste estrelada. Ve- mo-la figurada numa pintura de Pompéia onde está representada de pé com um diadema na cabeça e um cetro na mão. O famoso escultor Scopas fizera para a cidade de Élis uma Vênus (Afrodite) vulgar que pusera sentada sobre um bode; figura análoga se encontra em outra pedra gravada antiga. No século XIX, o pintor Gleyre compôs um be- líssimo quadro sobre o mesmo tema. Essa Vênus (Afrodite) era sobre- tudo honrada em Corinto, cidade marítima que sempre se celebrizou pelas cortesãs. Ali é que vivia a famosa Laís, em torno da qual se lê o seguinte epigrama na Antologia: "Eu, altiva Laís, de quem a Grécia era joguete, eu que tinha à porta um enxame de jovens amantes, consa- gro a Vênus (Afrodite) este espelho, pois não desejo ver-me tal qual sou, e já não posso ver-me tal qual era."

Encontra-se na mesma coletânea outro trecho ainda mais interessan- te: "Minarete, que há pouco estendia os fios da trama e sem cessar fazia ressoar a lançadeira de Minerva (Atena), acaba de consagrar a Vênus (Afrodite) o seu cesto de trabalho, as suas lãs e os seus fusos, todos instrumentos seus de labor, queimando-os no altar: "Desapare- cerei, exclamou, instrumentos que deixais morrer de fome as pobres mulheres e murchais a beleza das jovens!" Depois, pegou coroas, um alaúde e pôs-se a levar vida alegre nas festas e nos banquetes. "Ó Vê- nus (Afrodite), diz ela à deusa, hei de trazer-te o dízimo dos meus be- nefícios; proporciona-me trabalho no teu interesse e no meu." (Anto- logia).

Pigmaleão e a sua estátua

A ilha de Chipre era particularmente renomada pelas cortesãs. O es- cultor Pigmaleão que ali vivia sentiu-se de tal modo impressionado

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com a desfaçatez das mulheres do país, que resolver viver no celibato. Mas como a sua imaginação sonhasse constantemente com uma for- mosura de caráter diferente, esculpiu uma estátua de marfim, repre- sentando uma mulher que à castidade de expressão unia a pureza das formas. A imagem lhe agradou tanto, que por ela se apaixonou; infe- lizmente faltava a vida àquela pudica beleza, e quando Pigmaleão contemplava as mulheres vivas via nelas a beleza mas nunca o pudor. Ao chegar o dia da festa de Vênus (Afrodite), dia que com tamanha magnificência se celebra na ilha de Chipre, Pigmaleão dirigiu-se ao templo da deusa, que encontrou perfumado com incenso, e rodeado de novilhas brancas, cujas pontas haviam sido douradas e que seriam imoladas. "Grande deusa, exclamou abraçando o altar, faze com que me torne marido de mulher perfeita como a estátua que esculpi!"

Parece que não estava em poder da deusa descobrir em Chipre mu- lher provida da casta beleza sonhada pelo artista, pois Vênus (Afrodi- te), para lhe ser agradável, preferiu recorrer ao milagre. Com efeito, quando o escultor voltou, foi abraçar a estátua, e viu-lhe as faces co- rar: o marfim amoleceu-se e a estátua animou-se. Pigmaleão, encan- tado, agradeceu à deusa, que desejou pessoalmente assistir ao hime- neu.

A história de Pigmaleão constitui o tema do último quadro pintado

por Girondet, e que figurou no salão de 1819. Não se imagina a quan- tidade de brochuras aparecidas desde então para louvar ou criticar o pintor. O mais interessante foi que os médicos houveram por bem mesclar-se à discussão, e examinar, com ridícula seriedade, a questão de saber se o artista tivera razão em animar, primeiramente, a cabeça da estátua, cujas pernas continuam ainda de marfim, e se teria sido mais conveniente fazer recomeçar a vida pelo peito, que encerra o coração e os pulmões.

A estátua animada por Pigmaleão deu-lhe um filho que foi fundador

de Pafos, cidade de Chipre, célebre pelo culto ali prestado a Vênus

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(Afrodite).

Afrodite de Cnido

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Na origem, não se tinha o hábito de representar Vênus (Afrodite), no instante em que sai da espuma do mar, ou seja, inteiramente nua. As- sim, foi a obra de Praxíteles considerada novidade, e a própria deusa testemunha, pela boca de um antigo autor, o espanto por se ver as- sim desprovida de vestes. "Mostrei-me a Páris, Anquises e Adônis é verdade; mas onde foi que Praxíteles me viu?" (Antologia).

Narra Plínio que Praxíteles, a quem os habitantes de Cos haviam en- comendado uma Vênus (Afrodite), lhes deu a escolher entre duas es- tátuas, uma das quais estava vestida, ao passo que a outra estava nua. Preferiram eles a primeira, e Praxíteles vendeu a segunda aos habitan- tes de Cnido que se congratularam com a compra, pois ela granjeou reputação e fortuna ao país. A Vênus (Afrodite) de Cnido parece ter sido o tipo da maioria das estátuas da deusa, quando se representava no momento do nascimento. O Júpiter (Zeus) de Fídias e a Vênus (Afrodite) de Cnido por Praxíteles eram considerados, nos diferentes gêneros, dois produtos dos mais perfeitos da escultura. Dizia Plínio:

"De todas as partes da terra, navega-se em direção a Cnido, para con- templar a estátua de Vênus (Afrodite)." O rei Nicomedes ofereceu aos cnidianos, em troca da estátua, a totalidade das dívidas deles, que eram importantes. Recusaram a oferta, e com razão, acrescenta Plí- nio, pois a obra-prima constitui o esplendor da cidade. Uma multidão de escritores da antiguidade nos legou sinais da admiração que lhes inspirava a obra-prima para a qual se fizera a seguinte inscrição: "Ao verem a Vênus (Afrodite) de Cnido, Minerva (Atena) e Juno disseram uma à outra: Não acusemos mais Páris."

Entre as numerosíssimas estátuas que podem prender-se à mesma série, a mais famosa é a Vênus (Afrodite) de Médicis, situada na tribu- na da Galeria de Florença. Eis a descrição que dela fazia o catálogo do

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Louvre, onde figurou durante quinze anos: "A deusa dos Amores aca- ba de sair da espuma do mar, onde nasceu; a beleza virginal aparece, na margem encantada de Cítera, sem outro véu que a atitude de pu- dor. Se a cabeleira lhe não flutua sobre os divinos ombros, é por que as Horas, com as suas mãos celestiais, acabam de lha arranjar (Hino homérico). Um delfim e uma concha estão aos seus pés: são os símbo- los do mar, elemento natal de Vênus (Afrodite). Os dois Amores que o encimam não são os filhos da deusa. Um deles é o Amor primitivo (Eros) que desemaranhou o Caos; o outro é o Desejo (Himeros) que aparecera no mundo ao mesmo tempo que o primeiro ser sensível. Ambos a viram nascer e jamais se lhe afastaram dos passos (teogonia de Hesíodo). A Vênus (Afrodite) de Médicis tem as orelhas furadas, como já se observou em outras estátuas da mesma deusa; sem dúvida pendiam delas esplêndidos brincos. O braço esquerdo conserva no alto o sinal evidente do bracelete chamado spinther, representado em escultura em várias das suas imagens.

Uma inscrição colocada sobre o plinto nos diz que o autor da Vênus (Afrodite) de Médicis é Cleômenes, ateniense, filho de Apolodoro."

Vênus (Afrodite) nem sempre está de pé quando sai das águas, e uma numerosa série de estátuas, ordinariamente designadas com o nome de Vênus (Afrodite) agachadas, apresenta-nos a deusa apoiando um dos joelhos ao chão para tornar a erguer-se. O nome da Vênus (Afro- dite) no banho também lhe é atribuído. Quando a deusa aperta a ca- beleira úmida, chamam-lhe de Vênus (Afrodite) anadiomene. Apeles fizera uma Vênus (Afrodite) anadiomene da qual os antigos elogia- vam bastante a beleza. Os habitantes de Cos exigiram outra Vênus (Afrodite) semelhante, do mesmo artista, mas ele morreu deixando a obra incompleta.

A Vênus (Afrodite) de Apeles foi celebrada várias vezes na Antologia:

"Esta Vênus (Afrodite), que sai do seio materno das águas, é obra do pincel de Apeles. Vê como, pegando com a mão a cabeleira molhada,

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Mitologia Grega

espreme a água! Agora as próprias Hera e Minerva (Atena) dirão:

"Não queremos mais disputar-lhe o prêmio da beleza." (Antologia).

Afrodite Genitrix

Considerada como geradora do gênero humano, Vênus (Afrodite) es- tá sempre vestida.

Nas estátuas, as dobras da sua veste indicam frequentemente que está molhada, e às vezes traz um dos seios descobertos, por ser a nu- triz universal. As medalhas a mostram vestida e com os dois seios co- bertos, mas ela está frequentemente acompanhada de um menino: a deusa, nesse caso, recebe o nome de Vênus (Afrodite) genitrix. Te- mos no

Louvre uma bela estátua de Vênus (Afrodite) genitrix com um seio descoberto; de resto, o mesmo tipo se encontra quase idêntico em vários museus.

Afrodite vitoriosa

Dá-se este nome a Vênus (Afrodite) quando ela usa as armas de Mar- te (Ares). Com efeito, vemos, em várias pedras gravadas, uma figura de Vênus (Afrodite) segurando na mão um capacete. Às vezes está ainda acompanhada de um escudo ou de troféus de armas. Outras, segura numa das mãos o capacete, e na outra uma palma. Essas figu- ras nos mostram sempre Vênus (Afrodite) triunfante contra Marte (Ares), como consequência da mesma ideia que deu nascimento à lenda de Hércules fiando aos pés de Onfales. É sempre a beleza a do- minar a força.

A associação de Marte (Ares) e Vênus (Afrodite) está igualmente fi- xada em duas pinturas de Herculanum, onde se nos deparam Amores preparando o trono das duas divindades. Um capacete está represen-

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Mitologia Grega

tado no trono de Marte (Ares) e uma pomba no de Vênus (Afrodite). A pomba é, com efeito, o atributo especial de Vênus (Afrodite), como o capacete é o atributo de Marte (Ares).

Colocam-se, outrossim, entre as Vênus (Afrodite) vitoriosas uma série de estátuas que só têm vestes para cobrir os membros inferiores, e que têm por caráter determinante a colocação de um dos pés sobre uma pequena elevação. Tal postura implica a ideia da dominação so- bre Marte (Ares), quando é um capacete que suporta o pé, e sobre o mundo, quando ele se apoia simplesmente num rochedo. Neste cará- ter, não tem a deusa a graça que se lhe dá como Vênus (Afrodite) nascente; pelo contrário, assume as atitudes de heroína. As formas do corpo estão repletas de vigor e força, e as feições possuem uma ex- pressão de brutalidade desdenhosa muito distante do sorriso. A Vê- nus (Afrodite) de Milo é considerada o tipo mais completo dessa clas- se de estátuas. A beleza grave e sem afetação de tal figura nada tem do agradável coquetismo que a maioria dos artistas dos últimos sécu- los considera apanágio essencial da mulher. Foi no mês de fevereiro de 1820 que um pobre camponês grego a descobriu, remexendo as terras do seu jardim. A estátua, feita de mármore de Paros, está cons- tituída por dois blocos cuja união se oculta mediante as dobras da tú- nica.

Sumário

8 - Ares

Tipo e atributos

Marte (Ares), deus sanguinário e detestado pelos imortais, nunca te- ve grande importância entre as populações helênicas. Em numerosas localidades, parece até haver sido inteiramente desconhecido, e se o seu culto conservou na Lacônia importância maior que alhures, deve- se à rudeza dos habitantes de tal país. Foi somente entre os romanos

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Mitologia Grega

que Marte (Ares) adquiriu importância verdadeira e permanente; o

tipo de Palas conformava-se muito mais ao gênio grego. Com efeito, Palas é a inteligência guerreira, ao passo que Marte (Ares) nada mais

é do que a personificação da carnificina. Ávido de matar, pouco lhe

importa saber de que lado está a justiça e cuida apenas de tornar mais furiosa a luta.

O deus da guerra e da violência aparece-nos sempre em atitude de repouso. Tem, por vezes, numa das mãos a Vitória, como Júpiter (Zeus) ou Minerva (Atena). Vemo-lo com tal aspecto numa famosa estátua da Villa Albani. Uma linda pedra gravada mostra Marte (Ares) segurando com uma das mãos a Vitória e com a outra a oliveira, sím- bolo da paz proporcionada pela vitória.

A maioria das vezes usa um capacete e empunha uma lança ou gládio.

Aparece, assim, em várias medalhas, mas as estátuas que o represen- tam isoladamente não são demasiadamente comuns entre os gregos. Entretanto, a bela estátua do Louvre, conhecida pelo nome de Aquiles Borghese passa hoje por ser um Marte (Ares). Explica- se o elo que usa num dos pés pelo hábito de certos povos, e notadamente os la- cedemônios, de agrilhoarem o deus da guerra.

Parece ter sido o escultor Alcameno de Atenas quem fixou o tipo de Marte (Ares), tal qual surge habitualmente nos monumentos artísti- cos. Os atributos habituais do deus são o lobo, o escudo e a lança com alguns troféus. Uma medalha cunhada na época de Seotímio Severo nos mostra Marte (Ares) com uma lança, um escudo e uma escada para o ataque. Sob tal aspecto, Marte (Ares) recebe o epíteto de Tei- chosipletes (que sacode as muralhas). Em geral, porém, não tem real importância na arte a não ser pela sua ligação com Vênus (Afrodite).

Num célebre quadro da galeria de Florença, Rubens representou Mar- te (Ares), que Vênus (Afrodite) e Cupido se esforçam inutilmente por reter, e que, de gládio empunhado, segue a Discórdia precedida do

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Mitologia Grega

Temor e do Espanto. As Artes chorosas, a Música, a Arquitetura e a Pintura, são pisadas pelo feroz deus: o comércio está destruído e os campos prestes a ser incendiados. Noutro quadro do mesmo pintor, vemos, ao contrário, Marte (Ares) repelido por Minerva (Atena), en- quanto a Terra oferece o seio fecundo do qual o leite jorra ao lado de um grupo de crianças que acorrem a ver uma cornucópia que lhes oferece Pã, o deus da agricultura.

Ares na guerra dos gigantes

Claudiano descreveu o papel de Marte (Ares) na guerra dos Gigantes. "O deus impele os seus furiosos corcéis contra a horda formidável e, imprimindo ao gládio um movimento irresistível, o monstruoso Peloro é atingido no ponto em que, por um estranho acoplamento, duas ser- pentes se lhe unem ao corpo que elas sustentam. Marte (Ares) ven- do-o tombar, faz passar as rodas do carro sobre o inimigo vencido, e o sangue que jorra desse corpo enorme avermelha as montanhas vizi- nhas.

"Entretanto, Peloro tinha um irmão, o gigante Mimas, que, ocupado em lutar noutra região, viu Peloro cair. Mimas pensa exclusivamente na vingança e, curvando-se para o mar, quer dele arrancar a ilha de Lemnos para atirá-la contra o deus. Marte (Ares) evita o choque e com um golpe de lança fura a cabeça de Mimas, cujo cérebro se es- parrama à direita e à esquerda.

Marte (Ares) foi menos feliz com outros Gigantes. Fora aprisionado por Oto e Efialtes que o haviam mantido agrilhoado durante treze meses. O escultor Flaxman nos mostra o deus da guerra em posição humilhante. Oto e Efialtes tinham tentado escalar o céu colocando o monte Ossa sobre o Olimpo e o Pélion sobre o Ossa. Diana, para evi- tar-lhes a perseguição, viu-se obrigada a transformar-se em corça, e estando a fugir precipitadamente, os dois irmãos Gigantes, que vi- nham um em cada direção, atiraram contra ela, ao mesmo tempo, os

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Mitologia Grega

seus dardos, e dessa maneira mataram um ao outro.

(Apolodoro).

Afrodite e Ares

A aliança entre a guerra e o amor, entre a força e a beleza, é uma ideia inteiramente conforme ao espírito grego. Apesar de brutalíssimo, não pôde Marte (Ares) resistir a Vênus (Afrodite) que o subjuga e domina com um sinal: da união de Marte (Ares) e Vênus (Afrodite) nasceu Harmonia. Vários monumentos antigos, notadamente o famoso gru- po do museu de Florença e o do museu Capitolino, reproduzem essa ligação que também se vê em pedras gravadas.

Os romanos gostavam de fazer-se representar com suas mulheres, e usando os atributos de Marte (Ares) e Vênus (Afrodite); era uma alu- são à coragem do homem e à beleza da mulher. Aliás, os romanos consideravam Marte (Ares) e Vênus (Afrodite) autores da sua raça, e durante a época imperial, dava-se frequentemente aos deuses a fei- ção dos imperadores. Assim é que temos no Louvre um grupo, cuja personagem masculina parece ser Adriano ou Marco Aurélio, e que representa Marte (Ares) ao lado de Vênus (Afrodite). Mas a impera- triz está vestida. Vários arqueólogos pensam que a Vênus (Afrodite) de Milo estava ao lado da estátua de Marte (Ares). A arte dos últimos séculos ligou igualmente as duas divindades e, num encantador qua- dro do Louvre, le Poussin nos mostra o deus da guerra, esquecido dos seus atributos e do seu papel, sorrindo para a deusa, enquanto os cu- pidos brincam tranquilamente com as armas, no meio de risonha pai- sagem.

Ares ferido por Diomedes

Marte (Ares), na guerra de Tróia acirrado inimigo dos gregos, foi feri- do por Diomedes e deu um grito semelhante ao clamor de dez mil

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Mitologia Grega

combatentes numa furiosa batalha. Subiu ao Olimpo para dar vazão às suas queixas contra o herói grego e sobretudo contra Minerva (Atena) que dirigira o golpe. "Tens por tua filha, diz a Júpiter (Zeus), uma indigna fraqueza, porque tu sozinho foste quem gerou tão fu- nesta divindade. Ei-la agora que excita contra os deuses o insensato furor de Diomedes. Ousado! Em primeiro lugar feriu Vênus (Afrodite) na mão, depois atirou-se a mim, e se os meus pés velozes não me houvessem subtraído à sua cólera, lá teria ficado eu estendido sem força aos golpes do ferro."

Júpiter (Zeus) acolhe mal as queixas de Marte (Ares): "Divindade in- constante, exclama, cessa de importunar-me com os teus lamentos! De todos os habitantes do Olimpo, tu és o que eu mais odeio, pois só amas a discórdia, a guerra, a carnificina. Tens, sem dúvida, o intratável caráter de tua mãe Juno (Hera), que as minhas ordens soberanas mal conseguem domar. Os males que suportas hoje são o fruto dos seus conselhos. Mas não quero que sofras por mais tempo, visto que sou teu pai." O rei dos deuses manda, então, que se cure o filho e um bál- samo salutar lhe acalma as dores, porque os deuses não podem mor- rer.

Um interessante quadro da mocidade de Davi, que obteve o segundo prêmio em 1771, mostra Diomedes no momento em que acaba de lan- çar contra Marte (Ares) o dardo dirigido por Minerva (Atena). Marte (Ares), ferido, está caído. O quadrinho é valioso, porque nos dá a co- nhecer Davi numa época em que o jovem artista não pensava absolu- tamente na reforma que, posteriormente, introduziu na pintura, e em que todo o seu talento estava impregnado do estilo dominante então na escola francesa.

Filomela e Progne

O caráter feroz das lendas concernentes a Marte (Ares) mais ainda se exagera, quando elas se aplicam a seus filhos. Tivera ele de uma ninfa

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Mitologia Grega

um filho chamado Tereu, rei da Trácia, que desposou Progne, filha do rei de Atenas Pandião. Tinha este outra filha chamada Filomela. Prog- ne exprimiu ao marido o desejo de rever a irmã da qual se achava se- parada havia cinco anos. Tereu foi, então, a Atenas procurar Filomela, mas no caminho abusou dela, e, após lhe arrancar a língua para obri- gá-la ao silêncio, encerrou-a numa torre. Disse, em seguida, a Progne que sua irmã morrera; mas Filomela, do fundo da masmorra, desco- briu um modo de mandar à irmã, num pedaço de tela, a narração das suas aventuras.

Progne, com o auxílio das festas de Baco (Dionísio), conseguiu libertar Filomela, e ocultou-a num canto do palácio. Juntas, meditam clamo- rosa vingança. Tereu tinha um filho muito moço, chamado Ítis; cha- mam-no, matam-no, e cozem-lhe os membros que, de noite, Progne oferece ao marido. Tereu pergunta porque o filho não está à mesa, mas só quando termina o repasto é que Filomela, saindo subitamente do esconderijo, lhe anuncia que comeu a carne do próprio filho e, ao mesmo tempo, para que ele não duvide do que lhe afirma, lhe atira ao rosto a cabeça do infeliz rapaz. Tereu, não se contendo, quer levantar- se para estrangular as duas irmãs, mas os deuses, desejosos de pôr cobro a tão horrível família, metamorfoseiam Progne em andorinha, Filomela em rouxinol, Ítis em pintassilgo e Tereu em pomba. A bárba- ra história ministrou a Rubens tema para um quadro que está na Es- panha; vemos Progne e Filomela mostrando a Tereu a cabeça do filho, cuja carne ele acaba de comer.

Sumário

9 - Atena obreira ou Ergane

Nascimento Atena

Métis, a reflexão personificada, fora a primeira esposa de Júpiter (Zeus). Foi ela que deu ao velho Saturno uma beberagem para obrigá-

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Mitologia Grega

lo a devolver os jovens deuses que ele havia engolido. Estando grávi- da, predisse a Júpiter (Zeus) que teria em primeiro lugar uma filha e, em seguida, um filho que se tornaria senhor do céu. O rei dos deuses, espantado com tal profecia, engoliu Métis. Algum tempo depois, foi acometido de violentíssima dor de cabeça e rogou a Vulcano (Hefes- tos) que lhe fendesse a cabeça com o machado.

Mal recebeu o golpe de machado de Vulcano (Hefestos), saiu-lhe do cérebro, armada de todas as suas peças, a filha Minerva (Atena), nova encarnação da sabedoria divina.

Essa lenda, de caráter assaz bárbaro e, por conseguinte, velhíssima, está representada de maneira ingênua num baixo-relevo onde, extra- ordinariamente, Vulcano (Hefestos) é um rapaz imberbe.

Num espelho etrusco vemos Ilitia, a deusa dos partos assistindo ao rei dos deuses e tirando-lhe da cabeça Minerva (Atena), que sai armada do capacete e da lança. No outro lado está Vênus (Afrodite) que tam- bém parece acorrer em auxílio a Júpiter (Zeus) e atrás da qual vemos, empoleirada numa árvore, a pomba que lhe é consagrada. Tais divin- dades trazem os seus nomes no espelho em língua etrusca.

O mesmo tema decorava um dos frontões do Partenão, mas é prová- vel que o nascimento estivesse ali concebido de maneira inteiramente diversa. Infelizmente, nada resta da parte central do frontão em que tal cena estava representada.

Júpiter (Zeus) é a abóbada do céu donde jorra o raio luminoso e súbi- to; como é também o senhor dos deuses, a sua sabedoria não vacila absolutamente em lhe brotar do cérebro divino. Minerva (Atena) de- via, pois, nascer inteiramente armada e provida de todos os seus atri- butos. É assim que no-la apresentam as estátuas, muitas vezes com a lança e o escudo, mas sempre com o capacete e a égide.

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Luciano narrou o nascimento de Minerva (Atena) sob forma de diálo- go: "Vulcano (Hefestos). - Que devo fazer, Júpiter (Zeus)? Venho, por ordem tua, armado de um machado afiadíssimo e que, se houvesse necessidade, seria capaz de partir, de um só golpe, a mais dura das pedras.

Júpiter (Zeus). - Ótimo, Vulcano (Hefestos)! Parte-me, pois, a cabeça.

Vulcano (Hefestos). - Queres submeter-me a uma prova, ou estás lou- co? Dá-me uma ordem séria, dize o que queres que eu faça!

Júpiter (Zeus). - Já te disse, parte-me a cabeça; bate com toda a força e sem demora; não posso viver com as dores que me dilaceram o cé- rebro.

Vulcano (Hefestos). - Acautela-te, Júpiter (Zeus). Quem sabe se não vamos cometer uma asneira? O meu machado é afiadíssimo, fará com que te corra o sangue e não te libertará à guisa de Lucina.

Júpiter (Zeus). - Bate, vamos, Vulcano (Hefestos)! Nada temas. Sei o que quero.

Vulcano (Hefestos). - Bato, mas contra a vontade. Que me resta, se assim me ordenas?

Que estou vendo? Uma jovem armada da cabeça aos pés! Safa, que dor de cabeça não devia ser a tua, Júpiter (Zeus)! Não é de assombrar que te hajas mostrado irascível, se trazias viva, sob a membrana do teu cérebro, uma jovem desta estatura, e, ainda por cima, armada. Não sabíamos que tinhas na cabeça um verdadeiro campo. Olha, ela salta! Ei-la que dança a pírrica, agita o escudo, brande a lança, e está dominada pelo entusiasmo. O que é mais estranho é que, de súbito, se tornou belíssima e pronta para casar. É verdade que tem olhos cin- zentos, mas o capacete compensa esse defeito.

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Mitologia Grega

Júpiter (Zeus), como pagamento pelo serviço que te prestei, cede-ma por esposa.

Júpiter (Zeus). - Tu me pedes o impossível, Vulcano (Hefestos); ela quer permanecer virgem para sempre. Quanto a mim, não me oponho ao que desejas.

Vulcano (Hefestos). - É o que quero. O resto fica por minha conta. Vou levá-la."

(Luciano).

Nascimento de Erecteu

Vulcano (Hefestos) pôs-se imediatamente a procurar Minerva (Ate- na), e, certo de que ela estivesse na Acrópole, rumou para Atenas. Mal a percebeu, colocou-se-lhe na frente e quis dar os passos neces- sários. Mas a deusa o recebeu de maneira tal que lhe tirou qualquer desejo de recomeçar. O pobre ferreiro ficou despeitadíssimo; para mostrar que saberia dispensá-la, resolveu contrair núpcias no mesmo instante, e dirigiu-se à Terra, boníssima criatura, que o aceitou apesar das mãos negras. Dessa união nasceu Erecteu, que mais tarde se tor- nou rei de Atenas. O que deu origem a tão singular lenda foi a fato de os atenienses, já colocados sob a proteção de Minerva (Atena), que- rerem, por um laço qualquer, prender-se ao deus do fogo, que preside à indústrias dos metais.

A Terra, mal gerou Erecteu, deixou o recém-nascido no chão, sem mais com ele preocupar-se, como se fosse uma simples cobra ou um verme. Minerva (Atena), percebendo-o, compadeceu-se e, pegando- o, pô-lo num cesto e levou-o para o seu santuário. Mas, apesar de to- do o seu bom coração, não conseguia livrar-se das preocupações guerreiras, e, estando a galgar a Acrópole levando o cesto, notou que a sua cidade não estava bastante fortificada do lado do Ocidente. En-

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Mitologia Grega

trou na casa de Cécrops, que tinha três filhas, Pandrosa, Aglaura e

Herse, e, confiando-lhes o cesto, muito bem fechado, proibiu-lhes que

o abrissem para verificar o conteúdo, e imediatamente partiu em bus-

ca de uma montanha que julgava necessária para a fortificação da ci- dade. Quando partiu, Aglaura e Herse, impelidas pela curiosidade,

pretenderam abrir o cesto, não obstante as censuras de Pandrosa. Mas uma gralha, que tudo vira, foi contar o fato a Minerva (Atena), que já segurava a montanha entre os braços e que fortemente sur- presa, a deixou cair. Eis aí a origem do monte Licabeto.

Pandrosa

A deusa concebeu tal afeto por Pandrosa, que não somente lhe con-

fiou a educação do pequenino protegido, como também exigiu que Pandrosa, após a morte, recebesse as honras divinas. Quando Erecteu

se tornou rei de Atenas, apressou-se em satisfazer tal desejo, mas, associando no seu reconhecimento a filha de Cécrops e a deusa que o recolhera, elevou um templo em duas partes, uma das quais foi dedi- cada a Minerva (Atena) e outra a Pandrosa. A construção foi queima- da pelos persas, como todos os monumentos de Atenas, e o que hoje existe foi erguido após as guerras médicas.

Atena

Minerva (Atena) não é apenas guerreira. Dela é que nos vem a indús- tria, é por isso tem sido denominada Minerva (Atena) obreira. Labori- osa tanto quanto guerreira, enriquece as cidades que a honram ao mesmo tempo em que as protege. Ama a agricultura, e ensinou aos homens o uso da oliveira: é por tal motivo que essa árvore lhe é con- sagrada e que vemos figurar uma lâmpada entre os seus atributos. A arquitetura, a escultura, a mecânica cabem o domínio da deusa, que preside em geral a todos os trabalhos do espírito e da imaginação. Es- tá representada, com tal aspecto, mas conservando o seu costume de guerra, num interessante baixo-relevo, onde a vemos dirigir, com os

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Mitologia Grega

seus conselhos, um jovem escultor que cinzela um capitel, e outros obreiros que lidam com uma máquina; Júpiter (Zeus) e Diana estão atrás dela e seguidos de uma sacerdotisa fazendo uma libação, e de uma grande serpente de cabeça de bode que representa o gênio do teatro, como indica a inscrição mutilada que se lê acima. A de baixo diz: "Lucéio Pecularis, empreiteiro do proscênio, mandou colocar este baixo-relevo votivo segundo um sonho tido."

As principais atribuições de Minerva (Atena) ergane estão resumidas num passo de Artemidoro: "Minerva (Atena) é favorável aos artesãos, em virtude do seu apelido de obreira; aos que desejam contrair núp- cias, pois pressagia que a esposa será casta e apegada ao lar; aos filó- sofos, pois é a sabedoria nata do cérebro de Júpiter (Zeus). É ainda favorável aos lavradores, porque tem uma ideia comum com a terra; e aos que vão à guerra, porque tem uma ideia comum com Marte (Ares)."

Foi Minerva (Atena) obreira que inventou as velas dos barcos e a ela se deve a construção do famoso navio Argos. Mas é sobretudo pelos tecidos e trabalhos das mulheres que Minerva (Atena) assume impor- tância toda especial, e tem por atributo a roca. É também especial- mente invocada pelas obreiras que preparam os tecidos, como se po- de ver neste trecho da Antologia:

Minerva (Atena), as filhas de Xuto e de Melita, Sátira, Heracléia, Eufro, todas três de Samos, te consagram uma a sua longa roca, com o fuso que obedecia aos seus dedos para se incumbir dos fios mais soltos; outra a sua lançadeira harmoniosa que fabrica as telas de teci- do cerrado; a terceira o seu cesto com os lindos novelos de lã, instru- mentos de trabalho que, até a velhice, lhes sustentaram a laboriosa vida. Eis, augusta deusa, as ofertas das tuas piedosas obreiras."

Atena e Aracne

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Mitologia Grega

Os tecidos constituíam um dos ramos mais importantes da indústria dos atenienses; mas as fábricas da Ásia, célebres em todas as épocas, sobrepujavam em delicadeza as cidades gregas, cujos tecidos menos delicados eram provavelmente mais sólidos. Foi o que deu origem à lenda que nos pinta a rivalidade entre Minerva (Atena) e Aracne.

Aracne não era ilustre pelo nascimento, mas o seu talento e a sua in- dustriosidade a haviam tornado famosa. Seu pai era tintureiro de lã na cidade de Colonon, e ela adquirira tal reputação em todas as cidades da Lídia pela beleza dos seus trabalhos, que as ninfas do Tmolo e do Pactolo abandonavam as águas límpidas e os deliciosos bosquetes para lhe admirar os trabalhos da agulha. Sabia fiar e fazer a lã, e em- belezava os seus tecidos com desenhos encantadores realçados por todas as cores do arco-íris. Envaidecia-se, porém, de tal modo com o seu talento, que por toda parte apregoava não ter receio de desafiar a própria Minerva (Atena).

A deusa, ferida por tal intento, assumiu o aspecto de uma anciã, co- briu de cabelos brancos a cabeça, e, indo procurar Aracne, censurou-a em termos amigáveis pela inconveniência da pretensão de uma sim- ples mortal de se comparar a uma deusa, e sobretudo à deusa da qual procede toda a indústria humana. Aracne ofendeu-se, acolheu muito mal a anciã, que assim lhe falava, e, fitando-a de sobrolho carregado, avançou para ela disposta a golpeá-la, dizendo que, se Minerva (Ate- na) se apresentasse, saberia muito bem confundi-la, mas que a deusa não ousaria, certamente, empreender uma luta que lhe seria desvan- tajosa.

Minerva (Atena), diante daquelas palavras, reassume o seu verdadei- ro aspecto e declara que aceita o desafio. Ei-las a prepararem os tra- balhos, a disporem os tecidos e a iniciarem o mister. Já corre a lança- deira com incrível rapidez, e o desejo que ambas experimentam de vencer redobra a atividade. Para tornarem o trabalho mais perfeito, cada uma delas desenha velhas histórias. Minerva (Atena) represen-

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Mitologia Grega

tou no seu a disputa mantida com Netuno (Poseidon) em torno do nome que deveria ser usado pela cidade de

Atenas. Aracne houve por bem fixar histórias que não podiam deixar de ser desagradáveis às divindades do Olimpo grego. Viam-se as me- tamorfoses dos deuses, e as suas intrigas amorosas figuradas de tal modo que nenhum prestígio lhe advinha. Mas o trabalho de Aracne foi executado com tal delicadeza e tão incrível perfeição que Minerva (Atena) não logrou descobrir sequer o menor defeito.

Esquecida, então, de que era deusa, para só se lembrar do despeito provado por ser igualada em finura por uma simples mortal, Minerva (Atena) rasgou o tecido da rival, que imediatamente se enforcou de desespero. Minerva (Atena), tomada de piedade, sustentou-a no ar, para impedir que se estrangulasse, e disse-lhe: "Viverás, Aracne, mas ficarás para sempre pendurada desta maneira; será o castigo teu e de toda a tua posteridade." Ao mesmo tempo, Aracne sentiu que a cabe- ça e que o corpo lhe diminuíam de volume; mingudas patas lhe substi- tuíram os braços e as pernas, e o resto do corpo se transformou num enorme ventre. A partir de então, as aranhas sempre continuaram a fiar, e a indústria humana até hoje não conseguiu igualar a finura dos seus tecidos. (Ovídio).

É fácil notar que esta lenda, na qual Minerva (Atena) não revela abso- lutamente um bom caráter, tem a sua origem nas cidades gregas da Ásia. Aracne, que é lídia, mostra, aos olhos dos gregos, uma singular audácia ao se comparar com a ateniense Minerva (Atena), mas os te- cidos do Oriente eram inimitáveis, e procurados ansiosamente em to- dos os mercados da Grécia; não é no terreno do trabalho que Aracne é vencida, é apenas mediante um resultado do poder divino, de que se acha dotada a adversária, igual, senão superior a ela em talento.

A festa das Panatenéias

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Mitologia Grega

A grande festa das Panatenéias celebrava-se em Atenas, em honra de

Minerva (Atena), deusa tutelar da cidade, a quem ela devera o nome.

A

festa compreendia diferentes exercícios, entre outros corridas a pé

e

a cavalo, combates gímnicos, e concursos de música e poesia. As

lutas gímnicas se desenrolavam nas margens do Ilisso. A festa termi- nava por uma grande procissão figurada no friso da cela do Partenão.

O objetivo religioso da festa era cobrir a deusa de um véu novo em substituição ao que fora gasto pelo tempo. Mas o objetivo político era muito outro; tratava-se de mostrar que Minerva (Atena) era atenien- se pelo coração, e que ninguém podia invocar-lhe a proteção, se não fosse amigo de Atenas.

No monumento, vemos a sacerdotisa recebendo duas jovens virgens que lhe entregam objetos misteriosos. As jovens são crianças, pois segundo os ritos não podiam ter menos de sete anos nem mais de onze. "Durante a noite que precede a festa, diz Pausânias, põem elas sobre a cabeça o que a sacerdotisa lhes ordena que carreguem. Igno-

ram o que se lhes dá; aquela que lhes dá os objetos misteriosos tam- bém nada sabe. Há na cidade, perto da Vênus (Afrodite) dos jardins, um recanto em que se acha um caminho subterrâneo cavado pela própria natureza. As jovens descem por aí, depõem o fardo, e em tro- ca recebem outro, cuidadosamente coberto. O precioso fardo contém

a velha vestimenta, e o que elas trazem de volta encerra a nova. Co- mo a cena se desenrola de noite, uma delas empunha um archote."

Enquanto a sacerdotisa recebe a nova vestimenta da deusa, o grão- sacerdote, assistido por um jovem rapaz, se ocupa em dobrar o antigo peplo. O público não assiste à misteriosa cena do santuário, mas os deuses, espectadores invisíveis, estão sentados e dispostos em gru- pos simétricos. Entre eles, depara-se-nos Pandrosa, recoberta do véu simbólico que caracteriza o sacerdócio; mostra ela ao jovem Erecteu, ajoelhado, a cabeça da procissão que avança em direção ao santuário.

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Vem antes um grupo de anciãos de andar grave, todos envoltos nos seus mantos e quase todos a se apoiarem nos seus bordões. São os guardas das leis e dos ritos sagrados, pois alguns parecem dar instru- ções às jovens virgens atenienses que os seguem. Trazem estas com gravidade o candelabro, o cesto, os vasos, as páteras e os demais ob- jetos destinados ao culto. Depois das atenienses, surgem as filhas dos forasteiros fixados em Atenas. Não têm o direito de carregar objetos tão santos, mas seguram nas mãos os assentos dobradiços que servi- rão os canéforos. Vêm, depois, os arautos e os ordenadores da festa, que precedem os bois destinados ao sacrifício, seguidos dos meninos que conduzem um carneiro. Desfilam alguns homens que seguram bacias e odres cheios de azeite. Finalmente os músicos que tocam flauta ou lira, e um grupo de anciãos, todos empunhando um ramo de oliveira.

Começa, então, o desfile dos carros puxados por quatro cavalos e o longo cortejo dos cavaleiros. Sabia-se que Minerva (Atena) ensinara aos homens a arte de domar os cavalos e de os atrelar ao carro, e a festa era sempre acompanhada de jogos equestres.

Todos conheciam, pelos moldes, a famosa cavalgata do Partenão. Um cortejo de jovens, cuja clâmide flutua ao vento, doma os cavalos tes- salienses que se empinam e lhes resistem.

Os prêmios concedidos aos vencedores nos jogos realizados em hon- ra de Minerva (Atena) consistiam ordinariamente em ânforas cheias de azeite. Era um modo de lembrar que a deusa plantara a oliveira que constituía a grande riqueza da Ática. O museu do Louvre possui vários desses vasos, chamados panatenaicos. Têm eles interessantes decorações, nas quais vemos Minerva (Atena) de pé, brandindo a lan- ça e segurando o escudo. A figura está concebida no estilo tradicional das antigas figuras de estilo arcaico.

Está situada entre duas colunas que suportam, cada uma, um galo.

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O galo era, com efeito, consagrado a Minerva (Atena) obreira; Creu- zer nos explica a razão: "O nome de ergane, diz ele, exprimiu a princí- pio o próprio trabalho, a tarefa diária, e parece ter-se aplicado primiti- vamente, com epíteto de Minerva (Atena), à proteção especial que a deusa dispensava às ocupações das mulheres. Sob tal ponto de vista, era-lhe consagrado o galo; quando o canto dessa ave anuncia o retor- no da Aurora, relembra-nos ao mesmo tempo o culto de Minerva (Atena) ergane e de Mercúrio (Hermes) agoreu, ou seja, os trabalhos da indústria e do comércio."

Disputa de Atena e Poseidon

Atenas tira o seu nome de Atena (nome grego de Minerva) mas a honra de dar o nome à cidade que Cécrops acabava de fundar deu origem a uma famosa disputa entre Netuno (Poseidon) e a deusa. Constituía ela o tema de um dos dois frontões do Partenão, esculpi- dos por Fídias e cujos fragmentos mutilados fazem hoje parte do Britsh Museum em Londres.

Era preciso pôr a nova cidade sob a proteção de uma divindade. Deci- diu-se que se tomaria por protetor da cidade o deus que produzisse a coisa mais útil. Netuno (Poseidon), batendo a terra com o tridente, criou o cavalo e fez jorrar uma fonte de água do mar, querendo com isso dizer que o seu povo seria navegador e guerreiro. Mas Minerva (Atena) domou o cavalo para o transformar em animal doméstico, e, batendo a terra com a ponta da lança, fez surgir uma oliveira carrega- da de frutos, pretendendo com aquilo mostrar que o seu povo seria grande pela agricultura e pela indústria.

Cécrops, embaraçado, consultou o povo, para saber a que deus prefe- ria entregar-se.

Contudo, não se tendo naqueles tempos tão remotos imaginado que as mulheres não pudessem tão bem quanto os homens exercer direi-

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tos políticos, todos votaram. Ora, sucedeu votarem todos os homens por Netuno (Poseidon) e todas as mulheres por Minerva (Atena); mas como entre os colonos que acompanhavam Cécrops, houvesse uma mulher mais, Minerva (Atena) raptou-a. Netuno (Poseidon) protestou contra essa maneira de julgar a divergência, e apelou para o tribunal dos doze grande deuses. Estes chamaram Cécrops como testemunha, e tendo sido a votação considerada regular, passou a cidade a ser consagrada a Minerva (Atena). Os atenienses, no entanto, temendo a cólera de Netuno (Poseidon) que já ameaçara engoli-los, ergueram na Acrópole um altar ao Olvido, monumento de reconciliação de Netuno (Poseidon) e Minerva (Atena); em seguida, Netuno (Poseidon) parti- cipou das honras da deusa. Eis como os atenienses se tornaram um povo navegador e ao mesmo tempo agrícola e manufatureiro.

Minerva (Atena) era para os atenienses a deusa por excelência e a Acrópole a montanha santa. A Acrópole figura numa moeda de Ate- nas, assaz grosseira, aliás. Não se veem nela representações de edifí- cios, mas somente dominar a grande Minerva (Atena) de bronze, que os navegantes saudavam de longe, como protetora da cidade. A con- fiança inspirada por Minerva (Atena) só desapareceu com a influência cristã, e um dos derradeiros historiadores pagãos, Zózimo, narra de que maneira se apresentou a deusa pela última vez. "Alarico, diz ele, impaciente por se apoderar de Atenas, não quis entreter-se com ou- tro assédio. Apressou-se, pois, em ir a Atenas na esperança de tomá- la, quer por ser dificílimo defender a grande extensão das suas mura- lhas, quer por estar ele já de posse do Pireu e por haver pouquíssimas provisões na cidade. Eis a esperança nutrida por Alarico. Mas a cidade tão antiga seria conservada pela providência dos deuses no meio de tão terrível perigo. A maneira pela qual ela foi protegida é demasia- damente milagrosa e demasiadamente capaz de inspirar sentimentos de piedade, para que a silenciemos. Quando Alarico se aproximou das muralhas à testa do seu exército, viu Minerva (Atena), tal qual surge nas imagens, dar a volta à cidade, e Aquiles tal qual o descreve Home- ro apareceu no alto das muralhas. Alarico, estarrecido com o espetá-

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culo, tratou de fazer a paz e abandonou a luta." (Zózimo).

Tipo e atributos

“A partir do dia, diz Ottfried Muller, em que Fídias terminou de dese- nhar o caráter ideal de Minerva-atena, uma fisionomia cheia de calma, uma força que tem consciência de si própria, um espírito claro e lúci- do, passaram a ser para sempre os principais traços do caráter de Pa- las. A sua virgindade a coloca acima de todas as fraquezas humanas; ela é demasiadamente viril para se entregar a um homem. A testa muito pura, o nariz longo e fino, a linha um pouco dura da boca e das faces, o queixo largo e quase quadrado, os olhos pouco abertos e quase constantemente voltados para a terra, a cabeleira atirada, sem arte, para cada lado da testa e ondulada sobre a nuca, traços nos quais transparece a rudeza primitiva, correspondem perfeitamente a tão maravilhosa criação ideal.”

Minerva (Atena) se identifica completamente com a cidade que ela protege, e se por duas vezes usa cavalos no capacete é para mostrar a sua reconciliação com Netuno (Poseidon) a quem era consagrado o cavalo, e que, como deus dos mares, não podia deixar de ter grande importância em Atenas. É o que vemos num medalhão antigo no qual a cidade de Roma personificada se liga à de Atenas (Palas-atena). As duas ilustres cidades se caracterizam pelos seus atributos: a loba com os dois filhos é o atributo comum de Roma, como a coruja é o habitual atributo de Atenas. A deusa ateniense traz a égide com a cabeça de Górgona, e quatro cavalos lhe ornam o capacete.

Os cavalos aparecem igualmente num soberbo entalhe antigo. A pena do capacete é suportada por uma esfinge e dois corcéis alados ou pé- gasos: a parte da frente está ornada de quatro cavalos e o cobre- orelha de um grifo. Os enfeites da deusa são luxuosos; além da égide de escamas bordadas de serpentes, traz ela um colar de bolotas, e brincos em forma de cachos de uvas.

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Às vezes, como na medalha de Thurium, não é nem o cavalo, nem o grito que ornam o capacete de Minerva (Atena), mas uma Cila ou um monstro fantástico com cauda de serpente.

A deusa usa sempre um capacete, até quando desempenha um papel

pacífico. O capacete tem, às vezes, asas para indicar o caráter aéreo de Palas. Vemo-lo, quanto ao resto, sob formas extremamente varia- das, em moedas gregas ou romanas.

A coruja, a ave que vê bem durante a noite, é naturalmente consagra-

da a Minerva (Atena), deusa que personifica simultaneamente o raio

e a inteligência. Nas mais antigas moedas de Atenas se nos depara a coruja, símbolo de uma vigilância constantemente alerta.

Como deusa guerreira, Minerva (Atena) combate com a lança. No en- tanto, uma medalha da Macedônia, imitação de antiga figura arcaica, nô-la apresenta com o raio de Júpiter (Zeus). A vitória está frequen- temente na mão da deusa. É assim que ela aparece numa bela moeda do Lisímaco.

A arte dos tempos primitivos preferia a imagem de Palas às das outras

divindades; os antigos paládios representavam ordinariamente a deu- sa com o escudo erguido, e brandindo a lança. Entretanto, essa forma varia muito, até nos próprios tempos primitivos, e Minerva (Atena) se reveste de diferentes aspectos, segundo as localidades.

Uma medalha da Nova Ílion representa uma Palas troiana cujo tipo, imitação de antiga figura arcaica, deve remontar a remota antiguida- de. Está de pé e traz na mão direita a lança apoiada ao ombro, en- quanto a esquerda empunha um facho. A ave sagrada está de pé di- ante da deusa, cujo costume, e particularmente o capacete, se afas- tam completamente do tipo habitual de Minerva (Atena).

A égide é uma pele de cabra de que nos servimos como escudo, mas

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significa igualmente a tempestade, e é em tal sentido que Homero a entende, quando fala do fogo e da luz que partem do escudo divino. Minerva (Atena), sendo na ordem física o raio personificado, devia ter por atributo a égide, e nos monumentos arcaicos podemos ver de que maneira era empregada primitivamente. Na grande época da arte, Minerva (Atena) trá-la sobre o peito; a Górgona figura sempre na égi- de.

A cabeça da Górgona é um dos atributos essenciais da deusa a apare-

ce quer sobre a égide, quer sobre o seu escudo. Exprime o terror com

o qual Palas fere os inimigos.

A Minerva (Atena) arcaica de Herculanum está numa atitude hieráti-

ca: vestida do peplo de dobras tesas e engomadas, que recobre a concha, marcha resolutamente para o combate. A maneira pela qual a deusa traz aqui a égide é característica: segura-a sobre o ombro para ter o braço esquerdo inteiramente coberto. A égide é grandíssima, ao passo que nos monumentos menos antigos, perde algo da sua impor- tância.

A égide usada por Júpiter (Zeus) passava por ser a pele da cabra Amaltéia, que lhe foi nutriz. Mas há tradições diferentes em torno da égide de Minerva (Atena). A deusa matara o monstro Ágis, filho da Terra, que vomitava chamas com uma fumaça negra e espessa.

O monstro desolou, a princípio, a Frígia, em seguida o monte Cáucaso,

cujas florestas queimou até a Índia. Depois foi incendiar o monte Lí-

bano e devastou sucessivamente o Egito e a Líbia. Minerva (Atena), após o derrubar, o traspassou com a lança e da sua pele fez uma cou- raça, sobre a qual colocou posteriormente a cabeça de Górgona, e que usava como troféu. Quando a égide está colocada em volta do braço, como nô-la apresenta a Minerva (Atena) de Herculanum, é sempre um sinal de combate.

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Mitologia Grega

A Minerva (Atena) de Egina segura a lança e o escudo no alto, mas a

égide, em vez de ser usada sobre o braço, serve de couraça para ga- rantir o peito e até as costas, sobre as quais recai. Essa estátua, que hoje se encontra na Gliptoteca de Munique, ocupava o centro do frontão ocidental do templo de Egina.

A famosa Minerva (Atena) de Fídias, no Partenão, era de marfim e ou-

ro. A deusa estava de pé, coberta da égide, e a sua túnica descia até

os calcanhares. Empunhava uma lança com uma das mãos e com a outra uma vitória. O capacete estava encimado por uma esfinge, em-

blema da inteligência celeste; nas partes laterais havia dois grifos, cuja significação era a mesma que a da esfinge, e, acima da viseira, oito ca- valos a galope, imagem da rapidez com a qual age o pensamento di- vino. A cabeça de Medusa figurava-lhe no peito. Os braços e a cabeça da deusa eram de marfim, com exceção dos olhos formados por duas pedras preciosas; as vestes eram de ouro e podiam ser retiradas com facilidade, pois era mister, quando a república se via em apertos, po- der recorrer ao tesouro público, do qual a deusa era depositária. Na face exterior do escudo, posto aos pés da deusa, estava representado

o combate dos atenienses contra as amazonas, na face inferior o dos

gigantes contra os deuses: o nascimento de Pandora estava esculpido no pedestal. Um trecho da Antologia grega compara a Minerva (Ate- na) de Fídias, em Atenas, à Vênus (Afrodite) feita por Praxíteles em Cnido: "Vendo a divina imagem de Vênus (Afrodite), filha dos mares, tu dirás: subscrevo o juízo do frígio Páris.

Se vires em seguida a Minerva (Atena) de Atenas, exclamarás: quem não lhe adjudicou o primeiro era um boieiro!

Sumário

10 - As batalhas de Atena

Atena e Encélades

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Minerva (Atena) participou da guerra dos deuses contra os gigantes e contribuiu poderosamente para a vitória de Júpiter (Zeus). Entre os inimigos por ela vencidos, o mais importante é Encélades. A força desse gigante era tal que, sozinho, poderia ter lutado contra todos os deuses juntos. Num momento em que Minerva (Atena) se achava dis- tante dos companheiros de armas, Encélades, percebendo que ela estava sozinha, dá um salto e posta-se-lhe na frente. A deusa o vê sem empalidecer, reúne todas as forças e pegando com ambas as mãos a Sicília, atira-a sobre o gigante que fica esmagado sob a enorme massa. A queda de Encélades termina a guerra dos gigantes: às vezes tenta ele remexer-se, e é o que produz os tremores de terra da região. A sua cabeça está situada sob o monte Etna, por onde vomita chamas, o que leva um poeta francês a dizer:

“Encelade, malgré son air rébarbatif, dessous le mont Etna fut enterré tout vif; là chaque fois qu'il éternue, un volcan embrase les airs, et quand par hasard il remue, il met la Sicile à l'envers.”

O tanque de Encéfales em Versalhes mostra o gigante do qual somen- te vemos a cabeça e os gigantescos braços no meio dos fragmentos de rochedos. Mas a luta de Minerva (Atena) contra esse gigante, tal qual a descreveu a mitologia, tem sido raramente representada, por não ser do domínio da plástica.

Atena e Tirésias

Virgem essencialmente casta, Minerva (Atena) sempre vestida, e se os artistas dos últimos séculos a representam por vezes despida, no- tadamente no julgamento de Páris, é pela ignorância em que se en- contram quase sempre dos caracteres distintivos da deusa.

Um único homem, o tebano Terésias, observou um dia Minerva (Ate- na) no banho, e foi imediatamente ferido de cegueira, ou, segundo outros, metamorfoseado em mulher.

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Mitologia Grega

Pradier fizera um grupo de Minerva (Atena) repelindo as setas de Cu- pido: a ideia era justa mitologicamente. Vênus (Afrodite) ofendeu-se um dia pelo fato de seu filho nada poder contra a deusa ateniense:

"Vênus (Afrodite). - Por que, pois, Amor, tu que venceste os demais deuses, Júpiter (Zeus), Netuno (Poseidon), Apolo, Réa, e eu própria, tua mãe, por que poupas apenas Minerva (Atena)? Contra ela o teu archote não tem fogo, a tua aljava não tem setas, tu não tens arco Não sabes mais disparar uma seta?

Amor. - Tenho medo dela, minha mãe. Ela é terrível, os seus olhos são terríveis, o seu aspecto imponente e viril. Todas as vezes em que avanço contra ela para lançar-lhe uma seta, ela me espanta agitando a sua pena; tremo e as setas me fogem das mãos.

Vênus (Afrodite). - Marte (Ares), por acaso, não é mais terrível? E, no entanto, tu o desarmaste e venceste.

Amor. - Sim, mas ele próprio é que se oferece aos meus golpes; cha- ma-os. Minerva (Atena), pelo contrário, sempre me fita com descon- fiança; um dia quando por acaso voava para ela, segurando o archote:

"Se te aproximares de mim, disse-me, juro por meu pai que te varo com esta lança, pego-te pelo pé e atiro-te ao Tártaro, onde te dilace- rarei com as minhas próprias mãos para matar-te." São essas as suas ameaças sem fim, e ao mesmo tempo lança sobre mim olhares furio- sos; traz, ademais, sobre o peito uma cabeça horrorosa, cuja cabeleira é feita de víboras e que sempre me causa o maior terror. Creio estar vendo um fantasma e fujo mal a percebo." (Luciano).

Atena e Mársias

Segundo uma velhíssima lenda, Minerva (Atena), tendo encontrado um osso de cervo, dele se serviu para inventar a flauta. Mas notando que tal instrumento a obrigava a umas caretas que a afeavam, e que,

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quando pretendia tocar, as demais deusas se riam, atirou para longe a desastrada flauta, e proferiu a maldição mais terrível contra o que a recolhesse. O frígio Mársias, que muito provavelmente pouco se im- portava com a divindade de Atena, não atribuiu a menor importância a tais imprecações, recolheu o instrumento e conseguiu tecá-lo com grande perfeição. Havia na Acrópole de Atenas um grupo represen- tando Minerva (Atena) a golpear Mársias, por ter ousado recolher a flauta por ela atirada para longe e que ela desejava fosse esquecida para todo o sempre. Num baixo-relevo, que está em Roma, vemos Minerva (Atena) tocando a flauta dupla, e Mársias, sob a forma de um sátiro, a espreita para se apoderar do instrumento, no momento oportuno. Mais habitualmente, a deusa observa com atenção o que acaba de inventar. A mesma razão que a obrigou a renunciar ao uso de tal instrumento, impedia que os escultores a representassem com uma figura deformada e careteira.

Atena Higéia

Vimos a serpente aparecer entre os atributos de Minerva (Atena). Es- sa serpente é habitualmente o emblema de Erecteu, que foi criado pela deusa. Mas Minerva (Atena) era, por vezes, invocada como pro- tetora da saúde. Tinha então o nome de Minerva (Atena) higéia, e a serpente que ao seu lado surge com uma taça que a deusa segura com a mão, como se a serpente estivesse perto da companheira de Esculápio.

Sumário

11 - Dionísio

Nascimento de Dionísio parte 1

Cadmo e o Oráculo

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O rei de Tiro, Agenor, não encontrando sua filha Europa, que Júpiter (Zeus) mandara fosse levada para Creta, ordenou ao filho Cadmo que percorresse a terra até descobrir o paradeiro da irmã, e proibiu-lhe voltar à Fenícia sem ela. Cadmo, após buscá-la em vão, foi consultar o oráculo de Apolo para saber o que devia fazer, e dele recebeu a se- guinte resposta: "Encontrarás num campo deserto uma novilha que ainda não suportou jugo nem puxou arado; segue-a, e ergue uma ci- dade no pasto em que ela se detiver. Darás ao lugar o nome de Beó- cia." Mal Cadmo saiu do antro de Apolo, viu uma vaca que ninguém vigiava e que caminhava lentamente; não lhe notou no cangote sinal nenhum de jugo; por conseguinte, seguiu-a, adorando em respeitoso silêncio o deus que lhe servia de guia. Passara o rio Cefisa e atravessa- ra os campos de Panope, quando a novilha se deteve e, erguendo a cabeça, mugiu. Em seguida, olhou para os que a tinham seguido, e deitou-se sobre a relva.

Os Companheiros de Cadmo

Cadmo, após beijar a terra estrangeira e dirigir votos às montanhas e às planícies do país, resolveu oferecer um sacrifício a Júpiter (Zeus), e ordenou aos companheiros que fossem buscar água. Havia nas pro- ximidades uma antiga floresta que o ferro jamais tocara, no meio da qual existia uma gruta coberta de espinheiros; a entrada era baixíssi- ma; e dela jorrava água em abundância. Tratava-se do retiro do dra- gão de Marte (Ares): o monstro era horrível, tinha a cabeça coberta de escamas amarelas, que brilhavam como ouro, dos olhos saia-lhe fogo e o corpo parecia inchado pelo veneno que continha. Exibia três fileiras de aguçadíssimos dentes e três línguas dotadas de movimen- tos incrivelmente rápidos.

Mal os companheiros de Cadmo entraram no antro do dragão, com a intenção de tirar água, o ruído que fizeram despertou o monstro, o qual começou a salivar; os infelizes fenícios foram todos mortos pelo dragão que a uns dilacerava com os dentes, a outros sufocava, enrodi-

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lhando-se-lhes em torno, ou envenenava com o hálito.

O Dragão de Marte (Ares)

Entretanto Cadmo, espantado por notar que os companheiros não regressavam, tratou de procurá-los. Cobrindo-se da pele de um leão, empunhou a lança e o dardo, e entrou na floresta onde imediatamen- te percebeu o dragão de Marte (Ares), deitado sobre o corpo dos fiéis companheiros, sugando-lhes o sangue. Pegou, então, uma pedra de enorme tamanho, e atirou-a contra o monstro com tal impetuosidade que até as mais fortes muralhas e torres houveram estremecido.