Escritos em Sangue

O Flame Bar nunca esteve tão cheio, as mesas de sinuca estavam tomadas, não havia lugar para se sentar e a música alta não estava agradando a pequena Anarquista. A rua parecia o melhor lugar para se estar. A noite estava fria, não que isso a incomodasse, pois já não fazia mais diferença, o cheiro da brisa leve, anunciando chuva, invadia suas narinas e a fazia pensar. A lua era linda, redonda e brilhante, um ar saudosista invadiu suas memórias, ela se lembrava de um velho ancião. De súbito um ar gelado passa pelo âmago da Gangrel, ela sente um nó na garganta e um iminente perigo, que logo passa. Nota, então, que em sua frente há alguns papéis, enrolados. Eles levam um lacre de um antigo inimigo, são palavras que ela preferia esquecer... Ela desenrola os papéis com cuidado, então começa a lê-los.

“Abro os olhos e vejo, novamente, a escuridão do quarto que comporta meu corpo inerte e morto há séculos. É horrível acordar todas as noites e lembrar-se de tudo que aconteceu em todos os anos “vividos”. Viver... Para alguns é tudo que se têm, para mim, é um fardo que carrego para toda a eternidade. Não sei quanto a você. Eu perambulo, moribundo, por esse mundo há muito tempo, tempo demais. Meu corpo morreu muito antes de eu encontrar a morte. Eu vivia para honrá-la, protege-la, confortá-la. Mas eu falhei, falhei a única vez que não poderia ter falhado, falhei com minhas convicções... Perdi minha razão de viver e comecei a morrer todas as noites, cada vez mais. Tornei-me um monstro que não posso conviver. As atrocidades que cometi até agora não se comparam com aquilo que irei relatar nessas páginas, essa tinta, ao se juntar com o papel, parece garras que cortam minha carne, pois a cada palavra eu sangro. Como você bem sabe, todos os vampiros carregam uma maldição, um ponto fraco que é inerente de cada membro de uma determinada família. Dizem que o defeito de nosso sangue é não deixa-lo esfriar, temos o sangue quente e “explodimos” com facilidade. Isso é uma falácia sobre os Brujah. Já tivemos a alcunha de Filósofos e filósofos não podem se deixar levar pela emoção, somos tão racionais que é uma merda ser Brujah. O nosso verdadeiro problema é o fato de nunca esquecermos. Não esquecemos uma palavra, um insulto, uma injustiça. E para os imortais, isso é muito complicado. É uma merda andar pela eternidade lembrando-se de cada coisa, em cada momento, que aconteceu com você ou um dos seus. Infelizmente no mundo em que vivemos não podemos provar um ponto sem derramamento de sangue e lágrimas. Eu choro todas as noites por todos aqueles que não precisavam enfrentar a morte final de forma precipitada, porém, por uma crueldade do destino, tiveram seu caminho entrelaçado com o de minha vingança. Esse sentimento que me norteia e me corrói destruirá todos que se opuserem a mim, no entanto me destruirá no final.

Por isso o fiz pensar que estavas morta. infelizmente. mas não trilhe o caminho que trilhei. Não podia deixa-lo sair impune pelo o que fez comigo. A angustia toma conta de Raquel. Ainda me pergunto se ele merecia isso. Minhas mãos. Em plenos pulmões. o grito que sai de sua boca é carregado de ódio: “. não sabia o que fazer. pela imprudência dele. você o matou tanto quanto eu. ele foi consumido. Eu realmente não sei se ele mereceu isso. ele somente se satisfaz com o desespero e a angústia. Mas tenha certeza de uma coisa. o jovem que procuras não está mais entre nós. a vida que estava tentando salvar tinha sido ceifada. que vivem do sangue alheio. Tenha uma boa noite.Eu choro por ele também. pequena. O ato de nos canibalizarmos é hediondo. Tolo! Moleque! Não me deixou escolha. Somos monstros. Dizem que há somente um crime verdadeiro em nossa sociedade. É um caminho sem volta que leva apenas para a iminente destruição. assim como as suas. Mas o monstro que surgiu dentro de mim não se contenta com apenas a morte. O corpo do jovem estava inerte em minhas mãos. senão mata-lo. Olhei nos olhos do garoto e vi o desespero tomar conta de sua face e só então pude acabar com a vida daquele jovem. mas tinha que fazer algo. ele serviu de alimento para a Espada de nosso Criador e não será mais encontrado por qualquer um que deseje faze-lo. Raquel Amilcal Espinoza” Uma lágrima de sangue escorre pela face de Raquel. Ela fita o horizonte e amassa a carta. nem muito menos pertence a outro plano. estão cobertas de sangue. manchando o papel em sua mão. o amaranto. Não tenhas mais dúvidas. Não negues sua origem nem sua natureza. Sangue inocente na maioria das vezes. seja de você ou das pessoas que lhe rodeiam. parasitas.AMILCAL!!!” . sugar a alma de um indivíduo até que ela seja consumida pela sua é um ato de pura atrocidade. que a audácia dele havia lhe tirado a vida e que. essas palavras lhe cortam a carne como navalhas. mesmo com todos os avisos que dei para sair de meu caminho.