Plano de Estudo PPGSA

1 – Apresentação do Tema Pretendo analisar na minha pesquisa a atuação intelectual e política de Sílvio Romero no contexto da Primeira República e da criação

da Academia Brasileira de Letras(1897), período em que os intelectuais comumente agrupados na “Geração de 1870” ganham um espaço maior de divulgação de suas idéias. Busco compreender e utilizar a trajetória e dispusta de Romero nesse contexto como forma de compreender melhor a dinâmica da intelectualidade brasileira do período, com suas estratégias de legitimação/repulsão, em um momento chave para a institucionalização e conformação do campo intelectual brasileiro. Dentre os principais objetivos da pesquisa, destaco o de analisar as críticas intelectuais e políticas de Sílvio Romero como uma forma de distinção e ascensão dentro do campo intelectual; contestar a visão clássica dentro da bibliografia sobre Romero de uma certa lógica de cópia / desvio das idéias de Sílvio Romero, no sentido de absorção mecânica de certos repertórios intelectuais1, tentando compreender o uso do repertório cientificista europeu por Romero como forma de atuação política no contexto nacional e não como mero erro de percurso na migração das idéias de matrizes européias para o Brasil. 2 – A utilização da noção de Habitus Desconstruir a lógica de subordinação/imitação presente nos estudos sobre Romero se torna extremamente válido, com isso buscando compreender uma lógica de busca de legitimidade e de capital simbólico na sua prática intelectual. Para isso me servirei da noção de habitus de Bourdieu. Essa teoria permite pensar o trajeto intelectual e político de Romero coadunando indivíduo e estrutura de modo a entender as opções políticas do autor dentro dessa lógica de confrontação. Além disso, o uso da noção de Habitus para o presente estudo se faz necessária no sentido de fugir de certas referências vagas ao mundo social, ou seja, evitar uma contextualização totalmente estanque das “idéias” filosóficas, numa análise em “bloco”, uma vez o background e logo a seguir o pensamento filosófico, o que acarretaria uma falsa idéia de unidade entre essas esferas, que ao meu ver estão entrelaçadas. A idéia de capital simbólico acumulado, que seria a “arma” com que os dominantes utilizam para manter sua hegemonia contra os dominados, é correlacionada com o acumulo de disputas anteriores, socialmente

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Incluir referências (Candido, Skidmore, Sodré, entre outros)

Paz e Terra. ou seja. desconstruindo as noções mais formalistas sobre a trajetória intelectual de Sílvio Romero. Esta nova abordagem permite fugir do esquema de classificação de Romero como imitador. Difel. 2 3 . IN. ALONSO. Sociologias. a noção ganha aplicabilidade. a ABL deveria ser “[. (corrigir nota. A busca por capital simbólico. pode-se perceber uma tentativa de dar corpo a uma forma de atuação. pois por mais que os intelectuais da época ainda não vivessem totalmente do seu ofício letrado. São Paulo. que consagram certos grupos que a acumulam. 5 Sobre a Academia Brasileira de Letras e a tentativa de Machado de Assis de criação de um ambiente mais livre e autônomo para os homens de letras no Brasil. 2002. ou seja. Lisboa. Idéias em movimento: A geração de 1870 na crise do Brasil-Império. Para ele.4 A criação da Academia Brasileira de Letras (1897) como forma de especialização do ofício literário5 pode nos trazer informações e dados sobre as disputas entre a significação do papel do homem de letras no final do século XIX. Porto Alegre. em detrimentos de outros que perdem esse capital. Pierre. um corpo de disposições gerais que determinariam o que seria um homem de letras ou não. no contexto que pretendo estudar. 3 BOURDIEU. Machado de Assis. Segundo ela. o reconhecimento dentro desse “mundo” das letras brasileiro da virada do século XIX para o XX. No meu entender. pregava o distanciamento e a independência do literato frente às questões do seu tempo. A gênese dos conceitos de habitus e campo IN. jan/jun 2006. ano 8 número 15.A lógica da disputa e busca por capital simbólico: possibilidades de uso do conceito de campo na pesquisa Podemos compreender as disputas pelos paradigmas de compreensão da realidade.. é a força motriz das querelas intelectuais promovidas por Romero. Escolhendo Machado. Romero faz o que Bourdieu chama de jogo do desafio. ponto crucial da disputa de Romero frente a seus adversários. em que analisa a geração de 1870 no período final do Império Brasileiro. p. Penso que é possível pensar esse quadro por meio também da noção de campo do Bourdieu.localizadas. expoente máximo entre os fundadores da instituição. Pierre. O Sentido da Honra. Ângela. 352-377 .) 4 Dialogo aqui mais precisamente com a abordagem feita por Angela Alonso..] uma torre de 2 BOURDIEU. esse jogar com a honra que promove o ciclo de reciprocidades3. 1989. Ricardo. ou ressentido. Já existiam os capitais simbólicos em disputa que se diferenciariam dos de outros campos. O poder Simbólico. ver: MISKOLCI. nas contendas de Romero com Machado de Assis e a intelectualidade mainstream no geral como também uma forma de ascender dentro do campo intelectual. o homem de letras brasileiro consagrado do período. no período. não seria possível utilizar a noção de campo proposta por Bourdieu pois não existiria uma autonomização do ofício.

principalmente as obras publicadas na época republicana. por uma análise muito baseada na classificação feita pelos seus adversários. Literatura como Missão. todas elas disponíveis para consulta no setor de obras raras da Bibioteca Nacional.Metodologia Os questionamentos levantados por este trabalho colocam a necessidade de se fazer uma busca pela análise da obra de Sílvio Romero. Parlamentarismo e Presidencialismo. Contra isso. José Veríssimo. em anexo. Outra parte documental importante para análise será o exame da correspondência de Silvio Romero existentes tanto em forma de publicações impressas8quanto no arquivo da Fundação Casa de Rui Barbosa. como O Brasil na primeira década do século XX. como Discursos(1906) e Provocações e Debates(1910). em processo de autonomização. Obras de seus principais interlocutores e adversários. 4 .marfim. em maior ou menor grau. entre outras. mas sim tendo um fator central na disputa por status dentro do campo intelectual brasileiro. Editora Brasilai. que possuem um caráter mais direto na análise política nacional. fica clara a ideia sobre a qual a instituição é pensada. Sílvio. como Machado de Assis. p. São Paulo: Brasiliense 1983. 1979. 8 ROMERO. visto que a produção sobre ele sempre foi marcada. . com a única preocupação literária. Nicolau. O que quero dizer com isso é que a imagem de polemista virulento e aguerrido que compôs o imaginário sobre Sílvio Romero de seus dias até hoje foi feita muito em função da retórica de seus adversários. de levantamento preliminar de fontes. presentes na Biblioteca Nacional. Doutrina contra Doutrina.89 7 Sobre a listagem das obras utilizadas como fontes primárias para essa pesquisa ver listagem. Busco um novo viés interpretativo sobre a trajetória de Sílvio Romero e sobre também o campo intelectual brasileiro do período. Buscarei apreender as polêmicas menos por seu “méritos” dentro do campo da crítica propriamente dita. onde se acolhem espíritos literários. Machado APUD SEVCENKO. 6 ASSIS. mas que já era o lugar privilegiado da intelectualidade brasileira e lutar por sua legitimidade dentro dela era essencial para o seu reconhecimento entre seus pares.” 6 Neste fragmento. O castilhismo no Rio Grande do Sul. pesquisa visa compreender como esse embate de idéias e práticas também era uma busca por um status quo dentro da instituição recém-fundada. como no caso de Machado de Assis. entre outros.7 Vários dos seus discursos e pronunciamentos como Deputado Federal e artigos da imprensa foram publicados em coletâneas publicadas em Portugal. Julio de Castilhos. Sílvio Romero ira se insurgir e disputar durante praticamente toda sua vida intelectual.

. e relacional. torna-se importante com base nos cruzamentos de dados fornecidos pelas nossas fontes documentais. a traçar um painel da trajetória intelectual de Romero e sua disputa dupla. conjuntamente com a bibliografia de apoio. Outro aspecto importante será o de confrontar os resultados da pesquisa documental com a historiografia sobre Romero e os intelectuais contemporâneos a ele. A análise das obras acima citadas levará em conta as escolhas teóricas já detalhadas nesse processo. sem esquecer de contextualizar o debate. de crítica de formas de se fazer política e paradigmas intelectuais.também serão utilizados como forma de compor um painel das disputas intelectuais que Silvio Romero estava envolvido. discursos e defesas de posições dos autores. de forma. no caso as obras. contribuindo para a renovação historiográfica sobre o tema. Visto tudo isto. quase que suspensas socialmente. de mero confronto de correntes de pensamento puras. . tentar traçar um painel dessa disputa. para não correr o risco de cair no idealismo. pois esse movimento analítico permitirá repensar a bibliografia sobre a questão intelectual no período estudado.

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