2012

Nº28

AGOSTO TRIMESTRAL

A MÚSICA É UMA ARMA
“CANTAR É EMPURRAR O TEMPO AO ENCONTRO DAS CIDADES FUTURAS” PÁGINAS 47>65

O ROUBO DO SÉCULO
AS PÁGIN > 36
08

: PRIVATIZAÇÕES

INSIDE

04 08 15 21 27 32 36 45 47 52 55 59 63 66
FAZER PÚBLICOS OS ESPAÇOS DAS CIDADES JOÃO TEIXEIRA LOPES SNS: A MELHOR DAS CONQUISTAS DE ABRIL BRUNO MAIA POBRES E HONRADOS MOISÉS FERREIRA PRIVATIZA, FILHO, PRIVATIZA MÁRIO TOMÉ
REMENISCÊNCIAS DO FASCISMO NÁDIA CANTANHEDE

28
DEMOCRACIA, PROPRIEDADE PÚBLICA, EMANCIPAÇÃO BRUNO GÓIS CALAR O TEATRO PARA QUÊ? PEDRO FILIPE OLIVEIRA

EDP, O MAU DA FITA? VICTOR FRANCO

SONHO, MÚSICA, ACÇÃO! PEDRO RODRIGUES

SKA, SKA, SKA BÁRBARA SEQUEIRA

PUNK! ESTÉTICA REVOLUCIONÁRIA RICARDO MARTINS

MÚSICA, UMA EXPRESSÃO POLÍTICA ISABEL PIRES

O FADO CARLOS VIEIRA E CASTRO

A LIBERTAÇÃO PELA MÚSICA DIOGO BARBOSA

A COMUNA 02

EDIT

ESPERANÇA
da recusa. Quando os direitos do trabalho voltam ao lugar do trabalho sem direitos e apaga a luz ao fundo do futuro, isso impelirá a luta. Quando o capitalismo, realmente existente, se entranha na putrefação financeira e faz dela a sua única razão de existência, isso até pode ser o seu fim de vida. Como escreve o Pedro Rodrigues a música "empurra o tempo, e empurra-o para qualquer coisa futura". Outro Pedro, o Filipe Oliveira, acrescenta: "É inútil esta tentativa absurda de nos calarem". É preciso, como refere o João Teixeira Lopes, "ocupar os espaços vazios da cidadania". Fá-lo-emos! Como tentamos demonstrar nesta revista, as privatizações encerram toda a ideologia que recua no tempo, toda a tentativa de nos destruírem os serviços públicos e os direitos inspirados no socialismo. É toda a tentativa cada vez mais dura de nos calarem, toda a tentativa de eliminar a cidadania e vingar o 25 de Abril. Os ventos que já sopram da Europa animam-nos a incentivar a luta. Cá estamos! Empurramos o tempo para o futuro! Victor Franco
A COMUNA 03

Propriedade União Democrática Popular-Associação Politica Rua de São Bento, 694 - 1250-223 Lisboa Correio electrónico geral@acomuna.net Site www.acomuna.net Número de registo na ERC nº124204 Director Victor Franco Participam Bruno Góis Bruno Maia Bárbara Sequeira Carlos Vieira e Castro Diogo Barbosa Isabel Pires João Teixeira Lopes Mário Tomé Moisés Ferreira Nádia Cantanhede Pedro Filipe Oliveira Pedro Rodrigues Ricardo Martins Victor Franco Design Rui Fazenda Periodicidade Trimestral

Quando a cidadania responde ao sinal de chamada nos cinco continentes, isso é esperança. Quando a esquerda, apelidada de radical, se torna alternativa popular de poder à barbárie neoconservadora, isso é esperança. Quando indagamos e construímos novas respostas ao capitalismo em transformação austeritária, isso é esperança. Quando lemos, ouvimos e vemos jovens crescerem na sua vontade, na sua afirmação e na elaboração da alternativa, isso é esperança. Quando se manda a mulher de volta ao lugar doméstico, isso já não é aceite. Quando se manda o doente pagar ou morrer, isso já não é aceite. Quando se torna o espaço de todos em lugar de privilégio de alguns e exclusão de muitos, isso já não é aceite. Quando a luz que se fez festa em milhares de aldeias e vilas se torna pura mercadoria, isso já não é aceite. Quando tudo o que é de todos se privativa, para que o que é de todos seja apenas de alguns, isso desperta consciências. Quando a porta que nos reservam é a porta da saída, isso pode ser o princípio

URBANISMO FAZER PÚBLICOS OS ESPAÇOS DAS CIDADES JOÃO TEIXEIRA LOPES A COMUNA 04 .

actualmente em curso em Hamburgo. os espaços verdadeiramente públicos radicam na ordem da interacção e da sociabilidade de proximidade. ainda que exista uma certa distância entre a desatenção civil de que fala Goffman (muito próxima da atitude blasé analisada por Simmel) e o contacto corpo a corpo de encurtamento da distância social. por relação. Perante o clamor da cidade perigosa e da disseminação dos modos de vida flexíveis e precários. ergue-se o novo panóptico. O medo da cidade facilita algum conforto que se procura na net e nas comunidades virtuais mas também nas cidades-fantasia. disseminam-se a videovigilância e os mecanismos de cidadania vigiada. espaços comuns de múltiplos usos e diferenciadas fronteiras).. um conjunto de dispositivos legais e informais que instaura uma sobreautoridade para legitimar um uso altamente selectivo de tais espaços. Os espaços verdadeiramente públicos tendem a escapar às fachadas e à visibilidade. Pelo contrário. físico e simbólico. fogem já das dimensões constitutivas do espaço público (de livre acesso. por estrita definição. militarizados ou blindados. Quando falamos de espaços públicos podemos concebê-los a seguinte forma: espaços livres versus espaços securitários. negociados A COMUNA 05 .URBANISMO PERANTE O CLAMOR DA CIDADE PERIGOSA E DA DISSEMINAÇÃO DOS MODOS DE VIDA FLEXÍVEIS E PRECÁRIOS. mas permitem. do ecletismo e do ornamento (é célebre a frase de Robert Venturi: «Less is bore». do pastiche. isto é. Estes últimos. Mecanismos de excepção transformam-se. fluindo na vida quotidiana como lugares intersticiais. das novas cidades-jardim privatizadas. da citação. DISSEMINAM-SE A VIDEOVIGILÂNCIA E OS MECANISMOS DE CIDADANIA VIGIADA. uma melhor compreensão do fenómeno.) procura a popularidade e a comunicabilidade imediatas. conferindo-lhes urbanidade. por conseguinte. ERGUE-SE O NOVO PANÓPTICO. das relações sociais face a face. onde os jardins dos luxuosos apartamentos se dão à «fruição» dos transeuntes por um sistema de pequenas pontes pedonais que permite o voyeurismo dos nãoproprietários face ao verde exclusivo dos residentes ou ainda de certa ruas e praças sujeitas ao que Mitchell apelidou de «bubble laws». Poderia falar dos condomínios fechados com segurança privada. nos parques temáticos e nos centros comerciais onde a arquitectura pós-moderna do neobarroco. numa normatividade hegemónica assente na regulação securitária dos espaços "públicos".. como o projecto Haffen City. constituindo nós articuladores para a multifuncionalidade dos territórios.

as esquinas da cidade. códigos de conduta. Ao olharmos para a nossa cidade pela escala de A COMUNA 06 . O retrato da cidade que pretendemos sugerir tem. encarados como articuladores. em frente. de alta densidade. Trata-se da apologia da especificidade de um tempo urbano. AINDA QUE EXISTA UMA CERTA DISTÂNCIA ENTRE A DESATENÇÃO CIVIL DE QUE FALA GOFFMAN (MUITO PRÓXIMA DA ATITUDE BLAS É ANALISADA POR SIMMEL) E O CONTACTO CORPO A CORPO DE ENCURTAMENTO DA DISTÂNCIA SOCIAL. tantas vezes de improviso.URBANISMO OS ESPAÇOS VERDADEIRAMENTE PÚBLICOS RADICAM NA ORDEM DA INTERACÇÃO E DA SOCIABILIDADE DE PROXIMIDADE. hiperespecializada. semelhantes ou radicalmente diferentes.nos sugerem impõem? . Mas o tempo para andar pode igualmente ser precioso sob um outro ponto de vista: a intensa aprendizagem que proporciona a propósito da ordem da interacção em espaço urbano. Não é certamente por acaso que as representações mediatizadas da cidade . transeunte que atravessa as praças secas e estilizadas? Ao andar vejo e sou visto. DAS RELAÇÕES SOCIAIS FACE A FACE. crio uma cenografia num palco preexistente que a encenação apropria. modos de apresentação de si? Terei tempo e recantos de sociabilidade para estreitar relações? Ou sou mero passante. praças e jardins. especialmente associado ao caminhar na cidade e à apropriação das ruas. contornos de grande proximidade: olhase para o lado. e essa é a medida da diversidade dos encontros. espécies de rótulas ou nós que combatem a tendência para a cidade esquartejada. social e culturalmente segregada. radicados no princípio da nãoindiferença à diferença. independentemente dos sujeitos que as produziram . Faço parte de uma espécie de comunidade efémera que mobiliza competências e recursos de negociação e ajustamento identitários. Ao caminhar. Como percepcionar a proximidade e a estranheza? Como gerir relações de poder no espaço público da cidade? Como interiorizar e exteriorizar signos. para cima. ISTO É. até ao que leva à convivialidade mais ou menos festiva quando se pára para estar com alguém. encontro outros. na medida dos nossos sentidos e na largueza do gesto. e experimentados muitas vezes de forma agonística. pelo contrário. autopoiética. imbricados na estruturação de novas subjectividades e encontros.as tais que circulam num hiperespaço onde parecem ter ganho consistência própria. desde o que proporciona breve troca de olhares. em grandes planos ou quedas vertiginosas.uma imagem vista de cima para baixo. Completase o olhar com os odores que brotam da atmosfera circundante e com a sensibilidade táctil de quem toca. As aprendizagens serão tão mais profícuas quanto a qualidade do espaço público o permitir. por experiência simultaneamente pessoal e social. pericial. rituais.

o conceito de cidadania denota um espaço vazio (. "A NÍVEL DISCURSIVO. conversa e convívio. Ora. em permanente relação e aprendizagem pela experiência . Lisboa. ocupando os espaços vazios da cidadania (1) As já célebres e divertidas arcadas da Dorninha. Uns. "a nível discursivo.. dialógica e multifacetada.. Como referem Madeleine Arnot e Jo-Anne Dillabough. com forte carga histórica. recémregenerados. Mas cabe-nos. Culturas Juvenis. deparamo-nos com espaços públicos de diversa composição e qualidade.) A partir deste ponto de vista. uma crítica sistemática à noção «normal» e padronizada de cidadão. com maior ou menor sucesso. para se tornar num «Eu» falante no espaço vazio identificado como cidadania. prática e analítica. (3) Idem. p. A COMUNA 07 . observação da marcha. eis a proposta. Pela metodologia do andar elabora-se. as identificações vão sendo forjadas de forma dinâmica. de cariz tradicional. Imprensa Nacional Casa da Moeda. em que as categorias são abstractas e encontram na sua suposta neutralidade a força inteira do seu arbitrário (a autonomia do cidadão é a subordinação do outro. 1994. uma das plataformas de observação etnográfica de José Machado Pais . itálicos das autoras.. patrimonial e até monumental. o degrau que se transforma em lugar de descanso. "Reformular os debates educacionais sobre a cidadania.URBANISMO COMO REFEREM MADELEINE ARNOT E JO-ANNE DILLABOUGH. os processos sociais de identificação com os outros são também importantes"(3). a possibilidade de os inventar ou de tornar efectivos espaços públicos desactivados e/ou potenciais. Madeleine Arnot e Jo-Anne Dillabough. ibidem. de conceber o sujeito andante como sujeito falante. p. herança liberal da esfera pública burguesa.neste caso. AS SOCIEDADES DEMOCRÁTICO-LIBERAIS DISSIMULAM AS RELAÇÕES SOCIAIS DE PODER (. a pouco e pouco. as paredes canibalizadas por inscrições e imagéticas várias. uma outra forma. OCULTA INDISCUTIVELMENTE AS CONDIÇÕES SOCIAIS DA SUA PRODUÇÃO. as sociedades democrático-liberais dissimulam as relações sociais de poder (.) NAS MODERNAS NAÇÕES DA EUROPA OCIDENTAL.. Ou ainda: "o cidadão per se não possui identidade substancial (. a liberdade exerce-se entre «iguais»). COMO INDIVÍDUO AUTÓNOMO. de fazer lugar. 2002. nº 7. 27.) nas modernas nações da Europa Ocidental. sem reservas de direito de admissão. as arcadas que se metamorfoseiam em cena de expressão e performance juvenil (1). como indivíduo autónomo. afinal. para transformar um sujeito falante num «cidadão». oculta indiscutivelmente as condições sociais da sua produção"(2). o conceito de cidadão abstracto. a experiência de andar na e pela cidade.. também. que inscreve os seus passos na ordem do discurso. (2) Vd.Vd. Outros. agência e identidade das mulheres" in Ex Aequo. O CONCEITO DE CIDADÃO ABSTRACTO. 21. caminhando.... Prédios desabitados que se tornam lugares de produção e fruição artística colectiva.) Assim.

SNS SERVIÇO NACIONAL DE SAÚDE: A MELHOR DAS CONQUISTAS DE ABRIL BRUNO MAIA A COMUNA 08 .

a cada ano que passava. um desejo. Portugal passou de país atrasado. sobretudo os médicos. desde o início da sua criação. duplicava. E isto é inevitável. Em 30 anos o nosso país construiu de raiz uma rede de cuidados de saúde primários e hospitalares que no final dos anos 90 era classificada pela OMS como o 12º melhor serviço de saúde do mundo. com índices de mortalidade infantil. pois o progresso científico. A COMUNA 09 . Na verdade não existe e nunca existiu nenhum sistema de saúde no mundo que desse lucro a um Estado. adquirirem novos conhecimentos e trabalharem com os melhores do planeta na sua área. peri-natal e materna ao nível dos mais subdesenvolvidos dos países Africanos.SNS O SNS É DEMOCRACIA. todas elas dotadas com equipamento de alta tecnologia. Em pouco mais de 10 anos. O SNS é democracia porque é uma vontade. Foram construídas múltiplas unidades hospitalares e remodeladas as mais antigas. PORQUE REPRESENTA UM DOS COMPONENTES DO ESTADO SOCIAL. QUE TIROU PORTUGAL DO ATRASO E DO RETROCESSO EM QUE SE VIVIA ANTES DA REVOLUÇÃO DOS CRAVOS.o promotor do sector privado Não podemos reflectir sobre privatização da saúde. Todos os anos o governo Americano gasta para cima de 3 biliões de dólares com a saúde. A esperança média de vida. proximidade e rigor. O Serviço Nacional de Saúde é a melhor das conquistas de Abril. O SNS é democracia porque à sua componente assistencial universalista conquistada na rua aliou inovação. o aparecimento de novos meios diagnósticos e novos medicamentos dotam a prática médica de cada vez mais recursos para responder às situações de doença. uma conquista popular. O sub-financiamento é a resposta contrária. directamente para o topo do mundo. que tirou Portugal do atraso e do retrocesso em que se vivia antes da revolução dos cravos. acessibilidade. ao estrangeiro para aprenderem novas técnicas. O SNS é democracia. Desde cedo começámos a mandar os profissionais. sem termos em mente um conceito fundamental: os gastos com a saúde aumentam sempre. onde não há um serviço público. porque representa um dos componentes do Estado Social. É por tudo isto que o SNS é a melhor das conquistas de Abril! Estado . triplicava ou quadriplicava. Nem nos Estados Unidos. sem ter nenhum retorno.

O projecto da burguesia e dos seus governos para a saúde é claro .SNS OS GASTOS COM A SAÚDE AUMENTAM SEMPRE.sub-financiamento das estruturas públicas e dinamização de um discurso ideológico baseado na "insustentabilidade" e no axioma utilizador .esvaziamento do serviço público e incentivo à iniciativa privada. é o responsável pelo crescimento do volume de negócios dos grupos privados da saúde. de acesso condicionado a quem pode pagá-lo. A sua estratégia é dissimulada . Com o país à beira do abismo social. Em Portugal gastamos hoje apenas 5% do orçamento da saúde com a saúde pública. negativa. quando todos os relatórios europeus indicam que esse valor deve rondar os 20%.listas de espera que não se resolvem. O sub-financiamento crónico do SNS. mas tem um retorno a médio e longo prazo que é sustentável. entrega do sector público ao privado através das parcerias público-privadas. As listas de espera. o fecho de unidades de saúde públicas são os responsáveis pelo aumento das consultas e das cirurgias nas unidades privadas . os hospitais da CUF registam aumentos da ordem dos 10%. O resultado desta política é previsível . em que os hospitais públicos são meramente assistencialistas e depauperados de recursos materiais e humanos e o sector privado. aquela que intervém directamente na população. O sucesso deste projecto está à vista . entender o papel do sector privado da saúde e a relação de forças que existe entre Estado (entendido como organizador dos investimentos públicos) e estes parceiros privados é fundamental. dominante e rentável. É nos últimos 10 anos que cresce o sector privado da saúde. que se tem acentuado na última década. POIS O PROGRESSO CIENTÍFICO. crescimento exponencial das unidades do sector privado.um sistema à americana. A prevenção a sério. que busca soluções várias e complementares.pagador. E ISTO É INEVITÁVEL.só no ano 2009. a falta de profissionais. antagónica à sustentabilização deste serviço: financiar cada vez menos um sector que gasta cada vez mais é empurrá-lo para a insustentabilidade cada vez mais próxima! Na verdade só há uma forma de controlar custos na saúde que é o investimento na prevenção. As políticas públicas de saúde que são políticas de desinvestimento estão na causa deste crescimento. O APARECIMENTO DE NOVOS MEIOS DIAGNÓSTICOS E NOVOS MEDICAMENTOS DOTAM A PRÁTICA MÉDICA DE CADA VEZ MAIS RECURSOS PARA RESPONDER ÀS SITUAÇÕES DE DOENÇA. A COMUNA 10 . implica ela também um investimento inicial. aparecem as grandes unidades hospitalares dos grandes grupos económicos.

Não existe nenhuma política da casa. com o apoio da administração. E é nesta área fulcral da saúde das populações que o privado não tem interesse em investir pois não tem rentabilidade imediata. Na verdade o termo resume tudo: o doente-cliente compra os serviços do Hospital da Luz. não há doentes nem há utentes. fá-lo-á. A administração daquela unidade prefere o adjectivo "clientela" para se referir aos seus utentes. O crescimento do sector privado e a clientelização da saúde Se nos últimos 30 anos a prática da medicina privada era dominada pelos consultórios privados. A PREVENÇÃO A SÉRIO. nenhum protocolo que se sobreponha à vontade do doente-cliente: se o doente-cliente quiser fazer uma TAC ao corpo todo. detidos pelos clínicos que exerciam o centro da sua actividade no SNS. repetir exames inúteis pode levar os indivíduos a submeterem-se a práticas com algum risco desnecessário para a sua saúde. na verdade desnecessários. QUE BUSCA SOLUÇÕES VÁRIAS E COMPLEMENTARES.Espirito Santo Saúde.SNS SÓ HÁ UMA FORMA DE CONTROLAR CUSTOS NA SAÚDE QUE É O INVESTIMENTO NA PREVENÇÃO. há clientes. No Hospital da Luz. por exemplo. escolhe os métodos de diagnostico e adquire os tratamentos. Há algumas práticas nas unidades hospitalares privadas que nos revelam curiosidades implícitas sobre o mundo da saúde privada. A par disso. Nas clínicas da CUF. em troca da promessa de uma saúde A COMUNA 11 .por um preço mais acessível o indivíduo pode fazer uma série de exames.repetir exaustivamente exames durante o ano não previne o aparecimento de doenças. mesmo que não tenha nenhuma indicação e que o exame seja danoso para a sua saúde. MAS TEM UM RETORNO A MÉDIO E LONGO PRAZO QUE É SUSTENTÁVEL. IMPLICA ELA TAMBÉM UM INVESTIMENTO INICIAL. AQUELA QUE INTERVÉM DIRECTAMENTE NA POPULAÇÃO. ele tem implícita um conceito de saúde errado que ofusca o mais importante e que é a aposta na promoção da saúde e na prevenção primária . Mas a verdade é que. para além desta prática não traduzir qualquer ganho na saúde da população.isto é. detido pelo grupo BES . o quadro tem mudado de figura nesta última década. é usual oferecerem-se "packs" de check-up a toda a família . Muitos podem afirmar que "saúde a mais não faz mal a ninguém" e que realizar um número disparatado de exames à escolha do doente-cliente não o prejudica. não é de admirar que as unidades privadas disponham de um aparato de marketing e de publicidade que induzam este tipo de comportamentos por parte do seu doente-cliente. Depois são hoje conhecidos os efeitos do excesso da medicina nas nossas vidas e que alguns autores denominaram por "iatrogénese social" . E aqui não entra nenhum critério clínico.

foi sobretudo pelo que fez no próprio SNS que a burguesia iniciou este processo de desmantelamento progressivo do serviço público. A medicina privada cria necessidades falsas na população. que surge o conceito de direito privado do trabalho nos serviços de saúde públicos. desta forma.porta aberta à privatização Mas não foi só através do aparecimento e crescimento das unidades privadas que a fúria privatizadora neoliberal atacou. melhor era o financiamento. de ferro. ou seja. Muitas administrações passaram a jogar com os valores oferecidos pelos contractos para fixar médicos ou os dispensarem. com promessas de bons contractos.E. Mas quem pensou o financiamento dos hospitais desta maneira não pensou numa característica fundamental: é que são hospitais e não empresas e têm particularidades que acabaram por colocar em causa a sustentabilidade deste tipo de financiamento. Estas gestões passaram a depender de um financiamento com base nos actos clínicos que prestavam.P. tentou-se reduzir o prejuízo com a saúde.A.A. desmantelando A COMUNA 12 . a administração privada daquele hospital contractou uma boa parte do serviço de obstetrícia-ginecologia do Hospital Garcia de Orta. É com o aparecimento dos hospitais S. Com o surgimento do novo hospital de Cascais. Pelo contrário. e depois os E. que poderiam ser aplicados na redução das listas de espera no SNS. na sua produção. A gestão do SNS . enfermeiros e auxiliares a prazo. Muitas equipas médicas que funcionavam em pleno dissolveram-se e com o aparecimento das PPP's a situação piorou. E é esta a realidade no terreno: os quadros de nomeação definitiva estão encerrados . E com isto surgiu uma nova preversidade: muitos médicos foram aliciados por outros hospitais. primeiro os S. No nosso país.as carreiras dos profissionais de saúde estão comprometidas e a dependência de um contracto a termo instala-se. introduzindo gestões profissionais nos nossos hospitais. É O RESPONSÁVEL PELO CRESCIMENTO DO VOLUME DE NEGÓCIOS DOS GRUPOS PRIVADOS DA SAÚDE. negando-lhes. a partir dos anos 90. deixando o seu local de formação e actividade. Estas unidades de saúde passam assim a poder contratar médicos. incentivando o seu consumo acriterioso e dispendendo recursos valiosos. Uma excelente gestão podia até chegar ao ponto de acumular alguma mais-valia no final de cada ano. o acesso à carreira.SNS O SUB-FINANCIAMENTO CRÓNICO DO SNS. Quanto mais produzissem e mais eficazmente. QUE SE TEM ACENTUADO NA ÚLTIMA DÉCADA.

Estes. normalmente. trabalham em tempo parcial no SNS e complementam o seu ordenado no sector privado. ficam sem os puder oferecer porque os seus técnicos foram embora. este pouparia no mínimo o preço da deslocação do doente e o uso do material do privado. mal pagos. Ora como não há recursos humanos suficientes para realizar todos os exames complementares de diagnóstico no hospital. A COMUNA 13 . cuja oferta tem que ser generalista. PPP's . que assumem os cuidados mais diferenciados. Com estas transferências ficam pelo caminho materiais e doentes acumulados nos hospitais centrais que perderam a qualidade dos cuidados que necessitam. completamente a sua equipa. Ora com estas transferências. Apertados com o financiamento para os pagamentos de salários. os hospitais estão limitados na oferta de bónus ou prémios aos seus profissionais. Aquele que era reconhecido como um dos melhores serviços daquela área do país foi destruído com a transferência dos "pesos-pesados" para Cascais. a administração contracta os serviços dos privados que.SNS A MEDICINA PRIVADA CRIA NECESSIDADES FALSAS NA POPULAÇÃO. técnicos altamente diferenciados colocados em hospitais centrais e os hospitais que contractaram são hospitais de periferia. As gestões autónomas apresentam ainda outra falha significativa de funcionamento: a contratação de serviços a prestadores privados. QUE PODERIAM SER APLICADOS NA REDUÇÃO DAS LISTAS DE ESPERA NO SNS.no fundo quem lucra com isto é o convencionado privado. com contractos muito bem pagos. A autonomia nas contractações criou uma desorganização total na oferta de serviços: os médicos que são escolhidos são. Muitas são ainda as situações em que isto existe o Estado gasta mais dinheiro com as convenções do que gastaria se aumentasse os vencimentos dos seus profissionais para rentabilizarem as estruturas públicas . INCENTIVANDO O SEU CONSUMO ACRITERIOSO E DISPENDENDO RECURSOS VALIOSOS. O sistema torna-se disfuncional e em muitos casos redundante. os técnicos com diferenciação vão passar a realizar actividade generalista na periferia e os hospitais centrais. Aliás. Se a esses mesmos profissionais o hospital oferece-se o complemento do ordenado que ganham na privada para fazerem esses exames na estrutura do hospital.a primeira fase da privatização assumida! É com o aparecimento dos hospitais construídos em parceria público-privada que o sector privado entra em força no serviço público de saúde. são prestados pelos mesmos profissionais que trabalham para esse hospital.

GARANTINDO EQUIDADE NO SEU ACESSO. pois é para isso que lhe pagam. As experiências recentes do Amadora-Sintra. E mesmo que as necessidades da população mudem e sejam precisos mais cuidados. dependente do serviço assistencial previamente definido. As PPP's funcionam por financiamento directo do Estado ao consórcio privado. Mesmo a recente polémica sobre o encerramento da Maternidade Alfredo da Costa não escapa à influença nefasta que as PPP's vieram introduzir no nosso SNS. burla ao Estado por pagamento de actos que nunca chegaram a ser realizados. Braga e Cascais são ilustrativas do quão mau é um sistema de gestão que os Ingleses já rejeitaram liminarmente no passado e que a própria Troika criticou: multas ao prestador por incumprimento. E só um SNS equipado e organizado pode garantir algo que os grupos privados nunca faram: democracia no acesso à saúde A COMUNA 14 . E ESSA FORMA DESIGNA-SE SERVIÇO NACIONAL DE SAÚDE. não pagamento de horas extra aos profissionais. SÓ HÁ UMA FORMA JUSTA DE FORNECER CUIDADOS DE SAÚDE À POPULAÇÃO. Só há uma forma justa de fornecer cuidados de saúde à população. se os 1800 partos anuais que o Estado contractou ao Hospital de Loures não forem atingidos. transferências indevidas de doentes críticos para outros hospitais. contratualmente.SNS UMA POLÍTICA DE ESQUERDA NÃO PODE FICAR INDIFERENTE A ESTE PROCESSO DE MERCANTILIZAÇÃO. Ou seja. por acto prestado e por doente visto. contractos estabelecidos com convencionados do mesmo grupo económico do que o grupo que gere a PPP. com mais recursos pode ser competitivo com o domínio da saúde privada. E essa forma designa-se Serviço Nacional de Saúde. não só os grandes grupos económicos na área da saúde passam a gerir hospitais públicos como o Estado passa a endividar-se por períodos superiores a 3 décadas. com base num acordo prévio realizado entre ambas as partes. garantindo equidade no seu acesso. O elevado movimento assistencial da MAC coloca em risco o financiamento estadual ao grupo BES saúde que gere o novo Hospital de Loures. Só um SNS com mais investimento. o grupo BES perde uma parte pré-definida na renda. A renda anual que é dada àquela entidade privada para gerir o novo hospital está. Ao consórcio privado é atribuída uma renda fixa e a responsabilidade de realizar as actividades inscritas no contracto. Uma política de esquerda não pode ficar indiferente a este processo de mercantilização. o prestador vai fazer unicamente o que estipulou com o Estado. Ora é esta parte da renda que a Engª Isabel Vaz não quer perder de forma nenhum e é aqui que o fecho da MAC contribui para os seus bolsos.

SALVAÇÃO NACIONAL CONTOS E FÁBULAS DE ENTRETER MOISÉS FERREIRA POBRES E HONRADOS A COMUNA 15 .

Quais eram as razões para a afirmação? Afinal a taxa de desemprego nos EUA reduziu. REGRESSAR?» (SOUSA DIAS EM A GRANDEZA DE MARX. com uma enorme transferência de riqueza. ACENTUA A TENDÊNCIA PARA A CRIAÇÃO DE UM DESEMPREGO ESTRUTURAL DE GRANDE DIMENSÃO. Querendo passar a falsa ideia de que todos temos que fazer sacrifícios. o que está em curso é uma recomposição do capitalismo. qualquer coisa como 'Quando a redução da taxa de desemprego é uma má notícia'. CRIA UMA RELAÇÃO DE FORÇAS NEGATIVA PARA OS TRABALHADORES. Neste sentido.SALVAÇÃO NACIONAL «NÃO SERÁ PRÓPRIO DA ESPECTRALIDADE DO ESPECTRO. de 8. uma notícia do US News trazia como título 'When an Unemployment Rate . as evidências apontam para o aumento do desemprego estrutural. como se vê. 4) que tendo em conta o crescimento do PIB que se tem registado nos EUA. vale a pena a observação feita pelo Manifesto Inaugural da Associação Internacional de Trabalhadores. Cria uma relação de forças negativa para os trabalhadores. por exemplo. POR UMA POLÍTICA DO IMPOSSÍVEL) O CAPITALISMO. Más notícias? Parece que sim! É que analisando melhor os números concluise. É uma tendência que se tem vindo a verificar. OS QUAIS SÃO FORÇADOS A PERDER MESMO QUANDO A ECONOMIA ESTÁ A GANHAR. decline is bad News' . na sua recomposição pós 2008.2% para 8. NA SUA RECOMPOSIÇÃO PÓS 2008. entre os 14% e os 16%. a taxa de emprego nos EUA situa-se consistentemente. DO ESPECTRO ENQUANTO ESPECTRO. e no entanto A COMUNA 16 O sacrifício e o empobrecimento é o discurso mais recorrente nos últimos tempos por parte daqueles que detêm o poder. ASSIM COMO PARA A DESVALORIZAÇÃO DO TRABALHO. assim como para a desvalorização do trabalho. desde Setembro de 2011 até Abril de 2012. 3) que se incluirmos as pessoas que desistiram de procurar emprego. sobrepõe-se agora a austeridade do empobrecimento. Há pouco tempo. e com a criação de uma nova narrativa: ao mercado de oportunidades. 1) que existe uma desaceleração no ritmo da criação de emprego nos últimos meses. 2) que a população activa a participar no mercado de trabalho está numa das percentagens mais baixas de sempre. os quais são forçados a perder mesmo quando a economia está a ganhar. criação de emprego. Mesmo os países onde o crescimento económico não se encontra tão comprometido como em Portugal ou Grécia. acentua a tendência para a criação de um desemprego estrutural de grande dimensão. O capitalismo. Que quererão dizer estes dados? Crescimento sem emprego? Parece que sim. escrito pelas mãos de Marx em 1864: 'É um facto notabilíssimo que a miséria das massas trabalhadoras não tenha diminuído desde 1848 até 1864.em tradução livre. esse crescimento não representa. de Março para Abril de 2012. VIR DO PORVIR E AINDA MAIS AMEAÇAR VOLTAR A VIR.1%. o aumento da exclusão social e o esmagamento do valor do trabalho. ESTAR SEMPRE POR VIR.

A esquerda não se pode deixar enganar. quando na verdade estão interessados no superior interesse do seu bolso. nunca pode prometer nada que não seja mais sacrifícios. com apoios dos seus governos . Sejamos claros: os interesses dos patrões. os donos de empresas acumularam. o que lança a competição entre trabalhadores e a queda de salários. outros estão hoje a trabalhar com um salário mais baixo do que há poucos anos atrás. O que eles querem mesmo é fazer de conta que estão interessados nos superiores interesses da nação. QUE SE DEVE SALVAR A PROPRIEDADE DE ALGUNS À CUSTA DA VIDA DE MUITOS! este período oferece um desenvolvimento incomparável da indústria e do comércio'. na situação plena: miséria estacionária". administradores e accionistas são exatamente opostos aos interesses dos trabalhadores. QUANDO FALAM EM SALVAR A ECONOMIA NACIONAL.em Portugal. milhões perderam o emprego.tentam fazer o discurso da moralização e do ascetismo heroico contra as desventuras. muitos accionistas estão hoje mais contentes e mais ricos. na situação em progresso: miséria complicada. na verdade estão a dizer. Dizem: é preciso salvar a economia nacional. a miséria é a aspiração única do operário. que não é neutro e é mandado por esses superiores interesses de aforradores de A COMUNA 17 . Os sacrifícios foram feitos. Na organização social que se faz da posição que ocupamos em relação aos meios de produção. Quando falam em salvar a economia nacional. mas onde estão os trabalhadores? Muitos desistiram de procurar emprego. Salvar a economia nacional não é caso de colaboracionismo. a casa. em 1844. MAS SIM DE AGUDIZAÇÃO DE LUTA DE CLASSES. Marx apontava. mas sim de agudização de luta de classes. NA VERDADE ESTÃO A DIZER. O governo. sem redistribuição e sem salário justo. A economia cresce. muito menos contribuir para o engano do povo. é claro de ver que aqueles que o detêm hão-de tentar sempre compensar e superar as crises à custa daqueles que não detêm meios de produção. Nunca se enganou em relação a uma coisa: sob um regime capitalista. Deram os sacrifícios e continuam a ser sacrificados. PSD e CDS . as seguintes relações: "na situação em retrocesso da sociedade: miséria progressiva do operário. a vida. Os primeiros. mas o desemprego mantém-se alto. como se vê pelos números nos EUA. que se deve salvar a propriedade de alguns à custa da vida de muitos! A economia nacional.SALVAÇÃO NACIONAL SALVAR A ECONOMIA NACIONAL NÃO É CASO DE COLABORACIONISMO. mas o que querem mesmo é esmagar o salário dos trabalhadores para aumentar a taxa de mais-valia.

Os mercados. o mercado era a terra das oportunidades onde todos tinham lugar e. DERAM OS SACRIFÍCIOS E CONTINUAM A SER SACRIFICADOS. por exemplo. criar uma sociedade com desemprego estrutural enorme. diz-nos. senhores exigentes que ordenam sacrifícios e ascetismo. aumentar salários e pensões ao povo grego. E quando ele diz que temos que empobrecer para enriquecer. reagiram exatamente na forma oposta àquela que era a do interesse do povo grego e dos seus trabalhadores. uma grande empresa cotada em bolsa anuncia 'restruturações' . por isso. Vejamos o que acontece quando. apenas omitiu descaradamente. com menores salários e com a desregulação total do mercado de trabalho. MUITOS ACCIONISTAS ESTÃO HOJE MAIS CONTENTES E MAIS RICOS. é preciso desemprego para criar emprego. Capitalismo do empobrecimento Até há poucos anos. Bem ao estilo A COMUNA 18 .espécie de jargão para dizer despedimentos. A desregulação era cool porque combatia a burocracia e a estruturação. para que os patrões e administradores possam enriquecer. o Syriza declarou romper com a austeridade para. Mas ele não mentiu totalmente. quem não tinha.extravasando a ideologia do empobrecimento que a direita tem para nos oferecer. porque o que queria dizer era: é preciso fazer os trabalhadores empobrecer. o que está a fazer é a criar as condições para. OUTROS ESTÃO HOJE A TRABALHAR COM UM SALÁRIO MAIS BAIXO DO QUE HÁ POUCOS ANOS ATRÁS. paternalisticamente: é preciso empobrecer para crescer. bolsos. Dizemos nós: e é preciso morrer para viver? Patrões e trabalhadores: união de salvação nacional? Sejamos claros: os interesses deles não são os nossos interesses. em vez dela. era porque não merecia. o que ele está a fazer é pedir sacrifício aos de baixo para engordar os de cima. por exemplo. Não temos.SALVAÇÃO NACIONAL OS DONOS DE EMPRESAS ACUMULARAM. o capitalismo vivia ainda do argumentário mais ou menos fantástico do neoliberalismo e das virtudes do mercado. os mesmos interesses! Não existe nenhuma união nacional entre trabalhadores e patrões! Quando Passos Coelho recupera o slogan de má memória .pobres mas honrados . Não serão interesses opostos? Ou vejamos a reação dos tão presentes 'mercados' quando. MAS ONDE ESTÃO OS TRABALHADORES? MUITOS DESISTIRAM DE PROCURAR EMPREGO. no presente como no futuro. A excitação dos accionistas contrasta com a depressão dos que perderam o emprego e a certeza de futuro.

as teorias de capital humano não têm qualquer reflexo na prática. A cultura do empobrecimento só é possível porque a chantagem sobre a bancarrota raptou o povo e o seu futuro. A isto acrescentam como objectivos o empobrecimento das massas. uma substituição da chantagem meritocrática pelo ascetismo sacrificial da austeridade. Com este ataque. Agora. mas sim sobre o futuro. etc. a austeridade será permanente mesmo depois de decretado o seu fim. DIZEMOS NÓS: E É PRECISO MORRER PARA VIVER? da meritocracia calvinista. O trabalhador na economia do empobrecimento não aspira a nada mais que miséria. A narrativa do novo capitalismo na sua relação com as pessoas é feita de violência e chantagem. Prometem libertar-nos o futuro caso paguemos o resgate e aceitemos o empobrecimento. Pode fazê-lo pela concentração. a narrativa de persuasão e engano está estruturalmente modificada. por isso. a forma como se relaciona com as massas para levar a sua avante.SALVAÇÃO NACIONAL O GOVERNO. PATERNALISTICAMENTE: É PRECISO EMPOBRECER PARA CRESCER. mas não parece estar a refletirse sobre as pessoas que sofreram o principal impacto do rebentamento da bolha. O crescimento está a registar-se. os trabalhadores já perderam cerca de 12% do seu salário e estão agora confrontados com uma nova legislação laboral que lhes retira o futuro. competente ou não. A COMUNA 19 . O caso dos EUA é paradigmático. privatização. O ataque que está a ser feito não é sobre o presente. dizendo-se. a exclusão massiva do mercado de trabalho e a quebra de salário.. Em Portugal. mas o que se está a ver é que se embarcamos no jogo.. o mercado não é para todos. serão o presente e o futuro que se encontrarão raptados. É certo. No entanto. a responsabilidade era passada para a esfera individual. É PRECISO DESEMPREGO PARA CRIAR EMPREGO. o capitalismo quer sempre acumulação. seja-se qualificado ou não. que o mercado enquanto esfera social era inclusivo e fornecia oportunidades. QUE NÃO É NEUTRO E É MANDADO POR ESSES SUPERIORES INTERESSES DE AFORRADORES DE BOLSOS. no presente e no futuro. DIZ-NOS. já não de esperança e oportunidade. Para onde foi essa narrativa? Não podia andar mais longe. em contraponto. É. Esse capitalismo comia também do prato das teorias de capital humano ainda na esteira na meritocracia e prometia mobilidade ascendente a quem competisse e singrasse. aumento da exploração. tenha-se ou não mérito. a promessa de mobilidade só se faz de forma descendente.

Esse capitalismo só pode ser ultrapassado se a esquerda perceber que não existem salvações nacionais. o trabalhador perde salário. NEM UNIÕES DE CLASSES. o empobrecimento é ideologia violenta para a transferência e concentração da riqueza nos de cima. Nesta chantagem violenta do novo capitalismo austeritário. Elas levarão ao empobrecimento e à concentração de riqueza nos de cima. dificultando a relação de forças e hipotecando o futuro das pessoas. A COMUNA 20 . não é pagar o resgate do empobrecimento e da concentração. nem uniões de classes. antidemocrático.mas. O trabalhador na economia justa A salvação nacional é retórica para a salvação da burguesia. perde emprego. ao mesmo tempo nomeiam governos que não passaram pelo escrutínio popular .ou não quer perceber tal evidência . Austeridade soft só se diferencia da austeridade hard no mesmo sentido em que uma morte lenta se diferencia de uma morte súbita. O capitalismo. mas sim exigir a redistribuição e a criação de emprego.. pela instauração de protetorados abençoados pela troika.. Esse é o capitalismo de hoje: violento.SALVAÇÃO NACIONAL O CAPITALISMO SÓ PODE SER ULTRAPASSADO SE A ESQUERDA PERCEBER QUE NÃO EXISTEM SALVAÇÕES NACIONAIS. arrogam-se ao direito de não querer aceitar resultados eleitorais . Tudo o que for contrário a isto é perder terreno. Quer proceder à concentração de riqueza de forma coerciva e rápida. Outros que apostam na charneira entre PS e Bloco também deveriam refletir sobre que papel querem desempenhar: o do carrasco simpático ou o do efetivo libertador do povo raptado.É HOJE APENAS UMA PEÇA DE DECORAÇÃO PARA ASSINALAR A INUTILIDADE A QUE CHEGOU. instauram protetorados. Porque essas são as medidas que virarão a relação de forças a seu favor. ávido. Recusam a democracia. de empobrecimento e austero. perde inclusão social.Itália .é hoje apenas uma peça de decoração para assinalar a inutilidade a que chegou. Só pode ser derrotado pela democracia. perde o presente e o futuro. sabe disto tão bem como nós. e por isso virou mais violento e menos democrático.chantagem permanente feita à Grécia . A única forma de voltar a construir uma relação de forças que lhe devolva todos os direitos. quer criar rapidamente enormes exércitos de desempregados ao mesmo tempo que retira a estabilidade aos empregados. perde direitos. O PS que não percebe . pela exigência da redistribuição e pela violência de uma vontade popular enorme de se recusar a ser um povo raptado. O PS QUE NÃO PERCEBE .ou governam supra-nacionalmente.OU NÃO QUER PERCEBER TAL EVIDÊNCIA .

A COMUNA 21 .DIREITOS PROPRIEDADE PÚBLICA EMANCIPAÇÃO BRUNO GÓIS DEMOCRACIA.

NUMA LUTA PERMANENTE ENCONTRAM OS SEUS LIMITES NAS FRONTEIRAS IMPOSTAS PELOS INTERESSES DO CAPITAL. Sobre isto.. do abstrato ao concreto. "Não há dúvida que a emancipação política representa um grande progresso. Marx centra-se na emancipação política do judeu como uma emancipação incompleta. Com avanços e recuos e de forma diferente conforme as latitudes. o salário mínimo (. o horário de trabalho. É óbvio que nos referimos à emancipação real. da esfera jurídico-política para a económica. Os direitos humanos são limitados aos direitos "do membro da sociedade burguesa". ela se caracteriza como a derradeira etapa da emancipação humana dentro do contexto do mundo atual. a luta dos trabalhadores e das trabalhadoras desde o século XIX foi conquistando espaço na esfera jurídicopolítica. no fato de que o Estado pode ser um Estado livre sem que o homem seja um homem livre". A desigualdade da sociedade de ordens herdeira do feudalismo foi abolida juridicamente com a afirmação da igualdade entre cidadãos. proponho apenas umas notas. Numa luta permanente encontram os seus limites nas fronteiras impostas pelos interesses do capital. "[e]mbora não seja a última etapa da emancipação humana em geral.) resumindo. 1843) Emancipação política e emancipação humana A propriedade pública é um elemento fundamental da política socialista. o direito à greve. É claro que onde havia voto censitário se excluíam ainda os trabalhadores e durou muito até que as mulheres pudessem votar e alcançar a igualdade jurídica em vários aspetos. conforme reproduzido acima.DIREITOS OS DIREITOS HUMANOS SÃO LIMITADOS AOS DIREITOS "DO MEMBRO DA SOCIEDADE BURGUESA". que resulta de uma "cisão do homem na vida pública e na vida privada". o fim do trabalho infantil. Salientando "que a emancipação política não implica emancipação humana". Em todo caso. o direito do trabalho foi A COMUNA 22 . à emancipação prática. E fazendo notar as limitações da emancipação política: "[o] limite da emancipação política manifesta-se imediatamente no fato de que o Estado pode livrar-se de um limite sem que o homem dele se liberte realmente. ela [emancipação política] se caracteriza como a derradeira etapa da emancipação humana dentro do contexto do mundo atual".." (Karl Marx. A luta dos trabalhadores e das trabalhadoras No caminho para a emancipação humana. N' A Questão Judaica. Embora não seja a última etapa da emancipação humana em geral. Marx apresentava a emancipação política como um grande progresso iniciado pelas revoluções burguesas.

Além da correção da desigualdade pela via fiscal. ante a força crescente das classes populares. uma conquista civilizacional. um progresso para a emancipação humana. Onde as particularidades o permitiram e a isso conduziram (modelo nórdico) o Estado Social assentou mais na fiscalidade. a limitação dessa exploração permitiu a humanização do trabalho. o direito às licenças de maternidade e paternidade. No centro de tudo isto está a propriedade pública e o poder de apropriação pública. AS CLASSES DOMINANTES SE MANTENHAM DOMINANTES. AS CLASSES DOMINANTES CONCEDEM AVANÇOS. o progresso e a democracia. Só um forte sector público garantia o desenvolvimento. se tornava mais real a liberdade formalmente proclamada. Foi a luta e a força dos trabalhadores que permitiu estas conquistas.DIREITOS ANTE A FORÇA CRESCENTE DAS CLASSES POPULARES. os direitos dos trabalhadores. deram mais segurança e liberdade às trabalhadoras e aos trabalhadores. Ou seja. as classes dominantes se mantenham dominantes. nas nacionalizações. as classes dominantes concedem avanços. Estes direitos não nasceram da bondade das classes dominantes. De facto foi também pela via fiscal que a apropriação pública de parte dos lucros privados (recuperação pública de parte da mais-valia roubada ao trabalhador) que se garantiram os recursos necessários a essa cidadania mais avançada. e mais tardiamente a portuguesa conquistada na sequência do 25 de Abril de 1974. nasceram das lutas de classes. operam mudanças progressistas para que respondendo parcialmente às reivindicações populares. consagram em diferentes graus uma cidadania com direitos sociais e laborais que permite uma maior liberdade. As regras para o despedimento. e teve momentos distintos. o direito à organização dos trabalhadores. os serviços públicos. EVENTUALMENTE ACRESCIDAS POR ELEMENTOS COOPTADOS. eventualmente acrescidas por elementos cooptados. a proteção no desemprego e na doença. também a propriedade pública sobre sectores estratégicos formava a base material das democracias europeias herdeiras do pós-Guerra. Uma cidadania em que além da afirmação da igualdade formal se corrigia parte da desigualdade material e. Mas noutras paragens (o modelo continental do Miterrand inicial) a aposta foi. e bem. OPERAM MUDANÇAS PROGRESSISTAS PARA QUE RESPONDENDO PARCIALMENTE ÀS REIVINDICAÇÕES POPULARES. Embora não se abolisse a exploração burguesa do trabalho. assim. Nem em todo o lado foi igual. com impostos progressivos reinvestidos em direitos sociais universais. A COMUNA 23 . E foi para conter o avanço da revolução social que as classes dominantes fizeram aquilo que Gramsci chamava "revolução passiva". As democracias do Pós-Guerra As constituições europeias do pós Segunda Guerra Mundial.

nos EUA. A Contra-reforma Estes foram ganhos de uma "guerra de posições" que permitiriam progressivamente mais reivindicações e mais conquistas. por outro e como reforço daquele. Grande parte desta contra reforma foi operada pela vaga neoliberal. do sistemas monetários (FMI). abraçou as "inevitabilidades" da flexibilidade laboral (ainda que dissesse. naturalizando um processo iniciado por Reagan. Toda a Thatcher teve o seu Blair.. contra os avanços das trabalhadoras e dos trabalhadores. Porém. parciais que são. o próprio poder militar (particularmente a NATO) e as regras e instituições da União Económica e Monetária (Pacto de Estabilidade e Crescimento. PRIVATIZOU. estúpido". tudo foi mobilizado pelas classes dominantes para operar a "contra reforma" do capital contra o trabalho. melhor". negados materialmente através de restrições orçamentais. AS CAPITULAÇÕES FORAM MUITAS E AS COOPTAÇÕES TAMBÉM. Porém a crise financeira iniciada em 2007 nos EUA trouxe profundas mudanças também nesse quadro. episodicamente. A este propósito. no Reino Unido. Grandes de mais para falir. passou a carga fiscal para o trabalho e aliviou o capital.. e Thatcher. esses avanços. A SOCIAL-DEMOCRACIA OFICIAL ABANDONOU A DEFESA DA PROPRIEDADE PÚBLICA. As capitulações foram muitas e as cooptações também. por um lado.. A COMUNA 24 . duraram enquanto o desenvolvimento e as crises do capitalismo não exigiram um recuperar de terreno para o capital. Está errado quem acredita no "quanto pior. PASSOU A CARGA FISCAL PARA O TRABALHO E ALIVIOU O CAPITAL. a social-democracia oficial abandonou a defesa da propriedade pública.. privatizou. liberalização da circulação do capital. passou o investimento público para a lógica das parcerias público-privadas. "É a economia. no quadro da ideologia dominante. Desde a evolução das tecnologias (equipamentos. Bill Clinton.DIREITOS TODA A THATCHER TEVE O SEU BLAIR. As infinitas virtudes da economia privatizada e dos mercados à solta esbarraram na necessidade de recorrer aos Estados para socorrer os bancos "too big to fail". organização do trabalho) ao direito e organizações internacionais. PASSOU O INVESTIMENTO PÚBLICO PARA A LÓGICA DAS PARCERIAS PÚBLICO-PRIVADAS. nos anos 1990. Falar em nacionalizações era considerado uma loucura. dizia. são de salientar como exemplos importantes: as regras do comércio internacional (GATT e OMC). abolidos na letra da lei com revisões constitucionais e novos códigos de trabalho. Os direitos sociais e laborais são. que era a "flexisegurança"). BCE).

É um programa de contra reforma sob a forma viral. Irish Nationwide Building Society. A finança atacou as dívidas públicas. Aquele limite A COMUNA 25 . A PROPOSTA DE UM "SOCIALISMO REPUBLICANO QUE ULTRAPASSE OS HORIZONTES DO CAPITALISMO" AFIRMADA POR JEAN-LUC MÉLENCHON. Cajasur.DIREITOS A POLÍTICA SOCIALISTA EXIGE ESCOLHAS CLARAS NA DEFESA DO SALÁRIO E DA PROPRIEDADE PÚBLICA. a lista de bancos nacionalizados e injetados com capital público já vai longa. na Bélgica. cuja propriedade pertence aos próprios especuladores. A Comissão Europeia e os Governos condenaram os povos às receitas do FMI e do BCE. Bank of Ireland. é destruidora da democracia. Essa dita "regra de ouro" do limite de 0. É hipócrita porque sob ela. na Alemanha. ABN Amro. tornando pública a dívida privada. na Irlanda. É anti-democrática porque retira poder de decisão a todos os governos presentes e futuros.5% ao défice dos Estados além de ser hipócrita. Financiar os Estados e o desenvolvimento? Para o BCE: "isso é que não!". na educação. Northern Rock. no Estado Espanhol e Bankia no Estado Espanhol. ao BPN português juntam-se entre outras instituições: Royal Bank of Scotland. Irish Life and Permanent. Assenta necessariamente na propriedade pública e sem ela é uma ilusão a prazo. Fortis e KBC. na Holanda. IKB e Commerzbank.. é uma regra programática. os bancos nunca teriam sido salvos. EBS Building Society.. Catalunya Caixa. Grandes de mais para ser privados A vaga da ideologia neoliberal fez esquecer à maioria do povo que o crédito é mais que um simples negócio privado. no Reino Unido. é um bem público. EXEMPLO DESSA OPÇÃO DE RESPONSABILIDADE E DE FORÇA SÃO.. nos transportes e na segurança social vão mostrando da pior maneira que a cidadania com direitos sociais não vive apenas de proclamações. financia a especulação através da compra de dívida pública apenas no mercado secundário e após financiar a banca privada a baixo custo. Allied Irish Banks. Contrariamente ao que gostam de assumir os liberais. A nacionalização dos prejuízos veio provar o contrário. Nacionalizaram-se os prejuízos da banca. especulou com apoio das agências de rating. dinheiro que é público. Anglo Irish Bank. NA FRANÇA. A era dos credores e da austeridade é também o tempo de um poderosíssimo elemento ao ataque à democracia chamado Tratado sobre Estabilidade. Ethias. Unnim e NovaCaixaGalicia. Coordenação e Governação na União Económica e Monetária. Caja Castilla La Mancha. CAM. . Este tratado impõe a inscrição do vírus monetarista nas constituições. A onda afetou a Europa e desde o início da crise. A proposta de uma agência de notação pública europeia nunca avançou e o dinheiro do BCE.. Também a perda de direitos decorrentes privatizações e desinvestimento na saúde.

org/portugues/marx/1843/questa ojudaica. enquanto candidato presidencial do Front de Gauche. em ser genérico. a exploração. vem somar-se ao favorecimento fiscal da banca e das grandes empresas. Braunschweig. em seu trabalho individual e em suas relações individuais. como homem individual. Exemplo dessa opção de responsabilidade e de força são. O ARMAMENTO E AS GUERRAS. direitos conquistados por gerações de trabalhadores e trabalhadoras. pacífica. social. na França.htm>. A política socialista exige escolhas claras na defesa do salário e da propriedade pública. SOCIAL. o armamento e as guerras. perda de soberania popular e sujeição a instituições imperialistas. já não separa de si a força social sob a forma de força política. somente quando o homem tenha reconhecido e organizado suas "forces propres" como forças sociais e quando.marxists. Uma sociedade democrática. Poder económico implica força política. um programa que engula memorandos de austeridade. a política será sempre sujeita à chantagem e à erosão democrática. e na Alemanha o programa do Die Linke aprovado no Congresso de Erfurt." (1843) Referências Karl Marx (1843). A COMUNA 26 . AMIGA DO AMBIENTE OBRIGA À CONTENÇÃO E À ELIMINAÇÃO DO PODER ECONÓMICO DAQUELES QUE PROSPERAM SOBRE A POBREZA. E enquanto as decisões das grandes empresas forem guiadas pelos interesses de acionistas privados e não pelo interesse público. somente então se processa a emancipação humana. A DESTRUIÇÃO DA NATUREZA. O programa político que pode resgatar e aprofundar as conquistas democráticas que estão a ser destruídas não é de modo algum um programa de conciliação ao centro.disponível on-line em <http://www. Sobre estas questões pode ler-se com toda a clareza no programa do Die Linke: "Uma questão crucial da mudança social continua a ser a questão da propriedade. É uma norma que destrói o que resta da propriedade pública e anula.DIREITOS UMA SOCIEDADE DEMOCRÁTICA. A Questão Judaica. amiga do ambiente obriga à contenção e à eliminação do poder económico daqueles que prosperam sobre a pobreza. PACÍFICA. vem negar materialmente os direitos sociais e laborais que formalmente as constituições ainda consagram. portanto." Retomemos Marx "Somente quando o homem individual real recupera em si o cidadão abstrato e se converte. a proposta de um "socialismo republicano que ultrapasse os horizontes do capitalismo" afirmada por Jean-Luc Mélenchon. a destruição da natureza. A EXPLORAÇÃO. na prática. realizado entre 21 e 23 de outubro de 2011.

PRIVATIZAÇÕES PRIVATIZA. PRIVATIZA MÁRIO TOMÉ A COMUNA 27 . FILHO.

que sob o impulso da EDP e a inspiração das entidades reguladoras. CHEGOU O MOMENTO DE MUDAR DE OPINIÃO..Galp. EGL. COM O APOIO EXIGENTE E ESCLARECIDO DO ESTADO. Temos. É. com uma renda garantida pelo Estado português. de facto. o que depreciaria o produto. Unión Fenosa. no mundo A COMUNA 28 . Iberdrola. E é decerto um auspicioso encontro entre os interesses da democracia global do mercado e as necessidades internas de salvação nacional. pelo próprio progresso do capitalismo. a burguesia. chegou o momento de mudar de opinião.. racionalmente aliás. com o apoio exigente e esclarecido do Estado. ficando a venda submetida ao regime de preços livres" e aos clientes que não escolherem outro fornecedor a ERSE fixará tarifas de venda com um "factor de agravamento que visa induzir a adesão gradual ao mercado"! A razão aduzida é simples e elegante: trata-se de permitir que o consumidor possa escolher entre as várias possibilidades oferecidas pela concorrência recém-chegada ao sector . mesmo e principalmente nos sectores de maior rentabilidade e de significado estratégico fundamental. mas na distribuição dos sacrifícios impostos ao povo português: o mercado funcionando sem os condicionalismos da propriedade estatal. As privatizações dos sectores estratégicos da economia que. vai empurrar os seus clientes para os braços da concorrência aumentando os seus próprios preços. Endesa. e a concorrência capitalista característica do mercado global se consolida numa feérica política de cartel. se abre a novos distribuidores/produtores. a EDP chinesa. atribuíra ao controlo dos Estados-nação. o mercado da energia se democratiza.) uma circular informando que as tarifas reguladas irão "ser extintas. Se alguém duvidava do espírito solidário e da generosidade intrínseca do funcionamento do mercado capitalo-comunista.PRIVATIZAÇÕES SE ALGUÉM DUVIDAVA DO ESPÍRITO SOLIDÁRIO E DA GENEROSIDADE INTRÍNSECA DO FUNCIONAMENTO DO MERCADO CAPITALO-COMUNISTA. o resultado da política de privatizações imposta pela troika. destinada a garantir o empenhamento do Estado português. não em assegurar tarifas baixas ao consumo. Os consumidores de energia receberam muito recentemente da EDP vendida à China (empresas chinesas são chinesas. Todos diferentes mas todos iguais na forma como sugam os já muito parcos níqueis do consumidor. pois. Ou seja. Galp Power.

da propriedade feudal: controlo. Trata-se de sublinhar. De facto. Anarquia. Depois do 25 de Novembro de 1975. da anarquia e da irracionalidade absolutas que constituem a essência da produção capitalista.PRIVATIZAÇÕES O GOVERNO DO BLOCO CENTRAL DE MÁRIO SOARES E MOTA PINTO TEVE UM PAPEL DETERMINANTE. Uma espécie de transposição para a modernidade. nos dias de hoje. traçaram como objectivo central a reprivatização de todo o sector nacionalizado na primavera de 1975 e a privatização de tudo o que mexesse. ser "um contrasenso a absolutização da irreversibilidade das nacionalizações" pois "não permitiria a introdução de novas tecnologias ou a alienação de alguns equipamentos"!. Mas não deveremos esquecer o papel determinante de gazua que teve o governo do Bloco Central de Mário Soares e Mota Pinto. total desrespeito pela democracia e pela ordem constitucional. A REPRIVATIZAÇÃO DOS SECTORES BÁSICOS DA ECONOMIA. foi sustentada numa proposta do governo do Bloco Central que argumentava. assim como grande capacidade de estabelecimento e organização das redes mafiosas que ainda hoje prosperam e se consolidam embora em termos diferentes. já sem qualquer manto diáfano. comando com suporte na ameaça ou concretização da violência directa sobre o conjunto da sociedade com total desrespeito pelas próprias normas que teriam como objecto organizar e harmonizar o esbulho e a opressão. dos social-democratas que se auto intitulavam socialistas democráticos.. nomeadamente. A COMUNA 29 . espoliação sem peias. actual globalizado são a evidência. ou seja os sectores estratégicos. a reprivatização. domínio. a direita e os liberais que auto se intitulavam social-democratas contando como apoio sempre envergonhado.que só com a revisão de 1984 deixou de impor a cota de 51% na posse do Estado . Claro que isso não poderia ser feito do pé para a mão e ia exigir muita tenacidade. Se Cavaco vier a ter uma estátua estou certo que ela lhe será erigida pelo papel central que teve na inspiração. não sei porquê. FOI SUSTENTADA COM O ARGUMENTO DE SER "UM CONTRA-SENSO A IRREVERSIBILIDADE DAS NACIONALIZAÇÕES".. desse lucro ou significasse posição dominante na economia. muita falta de vergonha e enorme sentido de manigância.do sector nacionalizado. POIS "NÃO PERMITIRIA A INTRODUÇÃO DE NOVAS TECNOLOGIAS OU A ALIENAÇÃO DE ALGUNS EQUIPAMENTOS"!. que a grande ofensiva da direita desde então só foi possível pela neutralização da luta dos trabalhadores. caos.. orientação e sustentação do grupo fraudulento a que veio a chamar-se "os cavaquistas". ainda ao arrepio da Constituição . nomeadamente os sectores básicos da economia.. Não se trata aqui apenas de memória histórica.

Isso exige a transferência do centro da actividade dos mercados para o monstruoso crescimento da especulação financeira e obriga objectivamente os comandos políticos da burguesia a abrir os últimos sectores ainda sob controlo estatal: os que ainda devem garantir o controlo estratégico e asseguram a prestação do serviço público . homem de mão" Mário Tomé. A privatização da economia tem sido preparada e levada a cabo das mais diversas formas: pela liquidação de empresas estatais abrindo o espaço para o surgimento de empresas privadas ocupando o espaço deixado livre (a liquidação da rede ferroviária e rodoviária). Os "grandes capitães da indústria" como eram chamados. É notória a aceleração das crises do capitalismo decorrente da cada vez maior debilidade dos mercados na economia que se traduz em crises de sobreprodução e na necessidade de destruição de forças produtivas sem deixar cair a taxa de lucro.PRIVATIZAÇÕES OS ÚLTIMOS PASSOS PARA A PRIVATIZAÇÃO TOTAL DO ESTADO . a química. fundamentalmente. desde a metalomecânica pesada.o Estado social .O QUE ESTÁ JÁ EM CURSO COM AS POLÍTICAS COM QUE A TROIKA TRATA DE SALVAR E ACRESCENTAR OS RENDIMENTOS DA FINANÇA COMO RESPOSTA À CRISE QUE ELA PRÓPRIA PROVOCOU . não sem garantirem pagamentos/indemnizações que eles próprios determinavam por avaliações especulativas perante um governo complacente e rendido. os grandes estaleiros. pelo esquema das A COMUNA 30 . com as auto-estradas e a liquidação da rede ferroviária para abrir o negócio às rodoviárias privadas. pela garantia de rendas usurárias. a venda das empresas a preços de saldo ou sem a devida compensação pelos investimentos que as tornaram rentáveis e apetecíveis. por Cavaco primeiro-ministro) os caminhos para a troika arrasando a capacidade produtiva do país. em jogo foi a privatização de toda a economia como objectivo central. DO PRÓPRIO AR.É A PRIVATIZAÇÃO DOS MONOPÓLIOS NATURAIS COMO A ÁGUA E. em defesa das conquistas de Abril. pela íntima e sistemática colaboração entre os liberais (ditos social-democratas) e os social-democratas (ditos socialistas democráticos).compensatório da pressão permanente para a concorrência assente na baixa dos salários.10). e onde a violação das normas legais era a regra (Ver "Cavaco. a siderurgia. NÃO PERCAMOS A ESPERANÇA. homem de fé. in A Comuna nr. os seguros e a especulação financeira. trocaram a produção e a economia pela banca. o que esteve. as pescas e a agricultura. Nesses tempos negros que prepararam e asfaltaram (literalmente. adulteraram o sistema público de ensino e de saúde.

do próprio ar.antes de Evo Morales . De facto.. mesmo que à custa da integridade da ideologia neoliberal: a socialização dos prejuízos dos bancos. Os últimos passos para a privatização total do Estado . É só escolher o lado A COMUNA 31 .o que está já em curso com as políticas com que a troika trata de salvar e acrescentar os rendimentos da finança como resposta à crise que ela própria provocou . O neoliberalismo. o liberalismo exige ao Estado que prossiga com essas funções e atribui-lhe outra. É com esta situação que nos defrontamos. proclamando o mercado como auto-regulado e garante da democracia. NAS ZONAS ALTAS ONDE VIVE A BURGUESIA NUNCA FALTAVA A ÁGUA. FALTAVA SISTEMATICAMENTE A ÁGUA. As eleições na Grécia mostram que a luta dura e radical contra os tecnocratas do esbulho capitalista vale a pena. DE FACTO. NAS ZONAS BAIXAS ONDE VIVE O POVO. sempre. Mas a história já nos balizou o caminho e dá-nos indícios preciosos: não há caminho sem combate frontal contra o capital. Nesse combate os "socialistas democráticos" terão que se definir nomeadamente quanto à política "privatista" da troika.ANTES DE EVO MORALES . e aquele era obrigado a comprar água engarrafada às empresas privadas que controlavam a rede de distribuição.PRIVATIZAÇÕES NA BOLÍVIA.O POVO COSTUMAVA DIZER QUE A ÁGUA CORRIA PARA CIMA. nas zonas altas onde vive a burguesia nunca faltava a água. Na fase actual. impôslhe no entanto que garantisse a repressão e as privatizações. proclamando a desnecessidade do Estado. o jackpot . Na Bolívia. Ou seja que as slot machines garantam. têm que reverter.. E. a garantia dos resultados da especulação financeira compensando as broncas da jogatana sem limites.é a privatização dos monopólios naturais como a água e. enquanto a transformação social não impuser a mudança da propriedade dos meios de produção para as mãos dos produtores. nas zonas baixas onde vive o povo. em Bogotá . É esta situação que o povo português e os povos em geral. Em todas elas a constante é a transferência directa dos rendimentos do trabalho para o capital através do Estado que seria suposto assegurar a equidade dos rendimentos. E. etc. PPP.o povo costumava dizer que a água corria para cima. EM BOGOTÁ . faltava sistematicamente a água. não percamos a esperança.

FASCISMO? REMINISCÊNCIAS DO FASCISMO NÁDIA CANTANHEDE A COMUNA 32 .

Num panorama de desemprego nacional. fecho de hospitais e centros de saúde e avanço de hospitais e clínicas privadas ou público-privadas leva a um aumento significativo dos custos dos serviços de saúde pelo aumento das taxas moderadoras de forma substancial. Sem dinheiro para cuidados médicos e diagnóstico. insustentável economicamente. A DOENÇA TERÁ UMA MANCHA DE EXPRESSÃO CADA VEZ MAIOR E TALVEZ VENHAMOS A ASSISTIR A UMA MAIOR MORTALIDADE POR FALTA DE CUIDADOS ADEQUADOS DE SAÚDE. Privatizar Portugal tem sido o caminho traçado para uma hipotética reestruturação do país com vista ao fim da crise. que o país não sairá mais forte nem recuperará da crise com privatizações que tornam o estilo de vida mais elementar. Com menos hospitais e menos centros de saúde. noutro a população doente que necessita e deseja assistência e entre ambos a ganância e falta de consciência do governo A COMUNA 33 . e sabemos nós.FASCISMO? SEM DINHEIRO PARA CUIDADOS MÉDICOS E DIAGNÓSTICO. Sabem-no eles. já tão longas. a população se veja obrigada a evitar cada vez mais recorrer aos serviços de saúde optando pela auto-medicação com todos os riscos que esta envolve. sem outra alternativa. A longo prazo (ou talvez não assim tão longo) só terá acesso à saúde quem tiver recursos económicos ou seguros de saúde consequentemente a maioria da população será privada de assistência médica. de diagnóstico e assistência na doença. as listas de espera. Também a comparticipação em despesas medicamentosas tem vindo a ser reduzida de forma drástica. DE DIAGNÓSTICO E ASSISTÊNCIA NA DOENÇA. A redução dos serviços públicos de saúde com os crescentes cortes orçamentais. avizinhamse intermináveis com consequências terríveis para os utentes para não falarmos também no desemprego dos profissionais que prestam serviço nesta área e que ver-se-ão impossibilitados de trabalhar assistindo à sua volta a enfermidade sem tratamento. promovem o desemprego e a miséria. a doença terá uma mancha de expressão cada vez maior e talvez venhamos a assistir a uma maior mortalidade por falta de cuidados adequados de saúde. Teremos de um lado profissionais de saúde que querem trabalhar. cortes salariais e cortes nas pensões não se torna difícil antever que.

que impossibilita a cura e o tratamento pela imposição de montantes difíceis de pagar e destruição de recursos e equipamentos. a passos largos. à escola ou ao emprego isolamse populações e promove-se o retrocesso do país em grande escala. a uma dificuldade de deslocação e ao isolamento. Sem transportes para ir ao médico. Um Portugal que. fecham escolas. É este o panorama português que o governo tem desenvolvido. A população que necessita de cuidados está cada vez mais desamparada. Também na educação o panorama tem sido negro. passes com montantes exorbitantes.FASCISMO? É ESTE O PANORAMA PORTUGUÊS QUE O GOVERNO TEM DESENVOLVIDO. SE TEM ASSEMELHADO AO PORTUGAL DE OUTROS TEMPOS QUE O 25 DE ABRIL QUERIA DESTRUIR. Para além das creches que fecham. Aqui reside o perigo para as mulheres que sofrerão cada vez mais a pressão social imposta por este governo e as suas medidas austeritárias. Os transportes também se têm privatizado o que tem levado a uma escassez de serviços. com pais desempregados. A COMUNA 34 . se tem assemelhado ao Portugal de outros tempos que o 25 de Abril queria destruir. custo de vida elevado e impossibilidade de arranjar emprego. as propinas aumentam e tornam-se um pesadelo para a qualificação dos jovens que vêm o seu percurso académico ameaçado ou mesmo arruinado por impossibilidade de pagamento. Resultará. creches. destas medidas dramáticas de fuga à responsabilidade social por parte do nosso governo. fecham igualmente os lares de idosos públicos restando os privados que quase ninguém na actual conjuntura económica tem possibilidade de sustentar. os jovens terão poucas alternativas ao arrumar de cadernos e livros. A PASSOS LARGOS. nascem lares ilegais e abandonam-se os idosos à sua sorte esperando uma morte solitária e sem assistência alguma. infantários e ATLs. conservadoras. já que. as crianças precisam que alguém cuide delas. tal como os doentes e os idosos mas as portas fecham-se e as soluções começam a ser quase nenhumas. UM PORTUGAL QUE. um futuro com uma população pouco qualificada.

As mulheres são as mais vulneráveis. É o quadro do capitalismo e da clausura feminina. a mão-de-obra mais qualificada afastada do mercado laboral para prestação de cuidados em casa até ao dia em que se achará que é desperdício investir na sua educação. com o tempo teremos recuado ao ideal das mulheres submissas. que cuidam do lar e da família. TREMEM MAIS AS MULHERES. ficam presas ao isolamento e a violência doméstica torna-se mais fácil de exercer e perpetuar. avança a anulação social das mulheres e o avanço civilizacional das últimas décadas fica em risco de um retrocesso muito significativo aproximando-se em larga escala ao vivido em tempos de fascismo. obedientes e discretas. Trememos tod@s. Para as mulheres. Perdem a autonomia financeira e passam a depender economicamente de outros. machistas e de direita a retornarem a casa já que têm sido as cuidadoras por excelência ao longo da história. Posto que as mulheres têm mais dificuldade em conseguir emprego apesar de serem detentoras de mais qualificação e considerando que os seus ordenados são inferiores aos auferidos pelos homens no desempenho das mesmas funções será bastante fácil empurrá-las para o domicílio. Abre-se um campo de violência e perdem-se os direitos conquistados. Temos de tomar medidas para que tal não aconteça e a tomada de consciência individual e coletiva. Fica assim. tremem mais as mulheres. bem como a luta social são essenciais para travar esta catástrofe humana e histórica A COMUNA 35 .FASCISMO? NUM PAÍS ONDE PARA SE TER DIREITO À VIDA HÁ QUE TER UMA CARTEIRA RECHEADA DESAFIA-SE TODA A CONCEÇÃO DE HUMANIDADE E DIREITOS SOCIAIS CONQUISTADOS ATÉ AQUI E RELEMBRAM OUTROS TEMPOS NEGROS QUE JULGÁVAMOS JÁ ULTRAPASSADOS. A igualdade de género não terá então passado de uma utopia. silenciadas. TREMEMOS TOD@S. O impacto das privatizações nas mulheres é muito superior a qualquer outro grupo social. perdem a voz social e política. Num país onde para se ter direito à vida há que ter uma carteira recheada desafiase toda a conceção de humanidade e direitos sociais conquistados até aqui e relembram outros tempos negros que julgávamos já ultrapassados. Se o permitirmos. estas privatizações são uma séria ameaça à igualdade de género e à sua humanidade.

EDP EDP. O MAU DA FITA? VICTOR FRANCO MEMBRO DA COMISSÃO DE TRABALHADORES DA EDP DISTRIBUIÇÃO A COMUNA 36 .

A nacionalização respondeu. O direito à energia elétrica fez ligar consumidores que nem em 200 anos pagariam os custos da instalação e ajudou a consagrar a igualdade entre todos os portugueses. A nacionalização e fusão das 13 empresas então existentes permitiu construir uma vastíssima rede e fazer chegar o progresso e a dinamização económica a todo o território nacional. A rentabilidade financeira de uma ligação foi subordinada ao direito ao preço igual pela energia. Centenas ou milhares de aldeias festejaram a chegada da luz tornando a lâmpada doméstica ou pública. pública. rendas excessivas. o frigorífico ou o ferro de engomar elétrico coisas democraticamente vulgares e elementarmente úteis ao progresso. globalmente. foi uma necessidade do caminho de Abril. este artigo é um pequeno contributo para ir ao fundo do problema e ajudar a trazer ideias claras sobre o rumo atual. A COMUNA 37 . nomeadamente com o processo de eletrificação rural. comparados com os de hoje. AOS PRINCÍPIOS SOCIALISTAS DO DIREITO DO ACESSO À ENERGIA E À CRIAÇÃO DE UMA TARIFA ÚNICA NACIONAL E DE UMA TARIFA SOCIAL . independentemente da discussão do seu justo valor. Muito se tem falado sobre a EDP. Estes 36 anos são também o percurso e a vida de dezenas de milhares de trabalhadores que construíram linhas com ferramentas e processos de trabalho rudimentares. ordenados da Administração excessivos. 1.DIREITOS QUE A PRIVATIZAÇÃO PÔS EM CAUSA. Mas pouco se tem ido ao fundo do problema. Empresa Pública.. um pilar fundamental. em 1976.. os avanços conseguidos foram tão fortes que só 36 anos depois claudicaram. aos princípios socialistas do direito do acesso à energia e à criação de uma tarifa única nacional e de uma tarifa social .EDP A NACIONALIZAÇÃO RESPONDEU.direitos que a privatização pôs em causa. centenas pagando com a vida a construção do "direito público à luz". A tarifa única. A criação da EDP A criação da Eletricidade de Portugal. GLOBALMENTE. reforçou essa igualdade. De uma forma geral. lucros excessivos. O enorme salto civilizacional que o país deu após o 25 de Abril tem na EDP. A mercantilização total da energia é uma derrota ideológica dos socialistas e uma vitória da "modernidade" neoliberal conservadora. vivesse o cidadão num prédio do centro de Lisboa ou num lugar disperso e isolado do interior.

pelas mãos dos então primeiro-ministro Cavaco Silva e do presidente Mário Soares.. A viragem O ascenso dos "valores de mercado" sobre os valores socialistas tem como consequência a transformação da EDP em sociedade anónima. do PS. A subcontratação em larga escala [e subcontratação da subcontratação].. o cliente desaloja o consumidor. generalizou a precariedade e dificultou sobremaneira o primado da segurança no trabalho. Janeiro de 1991.. Mas é preciso que fique claro: a modernização..Lei 131/94. verticalizam-se serviços e organização do trabalho. quando os métodos de segurança avançaram décadas e estão acessíveis. falta ou deficiente manutenção e utilização de equipamentos. uma ampla alteração nas tarefas dos trabalhadores.).EDP NOS ÚLTIMOS DEZ ANOS. algumas vezes por razões meramente economicistas por parte das empresas prestadoras de serviços (ausência de formação profissional adequada. que hoje atinge na empresa/grupo tarefas elementares e estratégicas com consequências negativas para a própria EDP . As transformações também trazem consigo a informatização de equipamentos e funções. inicia-se a subcontratação em larga escala. fez descer 50 ou 60% o valor dos salários dos trabalhadores subcontratados do sector. morreram 50 trabalhadores da EDP e empreiteiros em acidentes de trabalho. o trabalhador passa a ser colaborador [mais tarde tentase a implementação da figura do cliente interno]. consolida-se legalmente [Dec.. 19 de Maio] a cisão da empresa em empresas de "área de negócio" ou área geográfica. O programa de privatizações para o biénio 96/97 aprovado pelo XIII Governo Constitucional. a inovação tenológica e as qualidades técnicas ou da rede são independentes do fator privatização e devem estar presentes em qualquer gestão. A viragem é todo um início de conceitos. Nos últimos dez anos. a concorrência tira o lugar do serviço público. Em 1994. MORRERAM 50 TRABALHADORES DA EDP E EMPREITEIROS EM ACIDENTES DE TRABALHO. 2.. a implementação do comando à distância e a centralização do controlo de equipamento. O "enxugamento" da empresa reduz milhares de trabalhadores pela via da reforma antecipada e da rescisão de contrato por "mútuo acordo". encerram-se inúmeras delegações transferindo e concentrando trabalhadores e pondo fim à relação de proximidade entre a empresa e a população. QUANDO OS MÉTODOS DE SEGURANÇA AVANÇARAM DÉCADAS E ESTÃO ACESSÍVEIS. A COMUNA 38 . uma redução de tempos de interrupção de energia e uma melhoria das redes com investimentos assinaláveis.

a ideia que a privatização da energia elétrica e da EDP trouxe um prejuízo económico ao país.486 milhões de euros são pagos.Lei de Abril 97]. é decisivo. pá? Há uma opção de fundo para o sector da energia que determinou uma sucessão de decisões políticas A COMUNA 39 . Em jeito de humor negro. as 2ª. estava na hora de gritar: "todo o poder aos mercados". o PS tem sido até agora o campeão das privatizações. O argumento de que privatizar gera receitas é falso porque impede o Estado de receber os lucros futuros das empresas e. Segundo o relatório de peritos da Universidade de Cambridge "as empresas produtoras de energia beneficiam de rendas excessivas no valor de 3. e tal como as seguintes. até 2020". no entanto. vendida por um preço de liquidação. O PS TEM SIDO ATÉ AGORA O CAMPEÃO DAS PRIVATIZAÇÕES. O governo anuncia querer "recuperar" 2. 4. E nesta última Passos Coelho e Cavaco Silva.350 milhões de euros . mas. Ora acontece que.438 milhões de euros. Capacidade essa que é tão importante para medidas de contra-ciclo em tempos de crise económica. de facto. Na 5ª fase estão Santana Lopes e Jorge Sampaio.439 milhões.788 milhões de euros. eles rondarão os 9. Mas podemos ir um pouco mais longe. PODEREMOS DIZER QUE O PS GANHA AO PSD POR 12-4. António Guterres. Sendo contas não absolutamente rigorosas elas demonstram. Ironicamente. decapita-o da sua capacidade de alavancagem económica. 3ª e 4ª fases são decididas por António Guterres e consentidas por Jorge Sampaio. também muito importante. Ora este valor ainda é maior em 48 milhões de euros do que o apurado anteriormente.925 milhões de euros. O socialismo já tinha sido metido na gaveta. mas 1. 3. Na 6ª fase estão José Sócrates e Jorge Sampaio.EDP TODAS AS FASES DE PRIVATIZAÇÃO SÃO DECIDIDAS POR GOVERNOS E PRESIDENTES DO PS E DO PSD. DE FACTO. de forma clara. não só vendida. Na 7ª fase estão José Sócrates e Cavaco Silva. A 1ª fase de privatização da EDP ocorreu em Junho de 1997 [Dec.uma diferença de apenas 1. se somarmos apenas os resultados líquidos da EDP para o mesmo período. As contas que falam claro Aqui chegados importa fazer umas contas "elementares" mas muito elucidativas: as várias fases de privatização da EDP renderam ao Estado cerca de 10. E a política. EM JEITO DE HUMOR NEGRO. poderemos dizer que o PS ganha ao PSD por 12-4. a galinha dos ovos de ouro foi. Só por aqui se verifica como a empresa tem sido vendida barata ao capital privado.

ERSE.EDP AS VÁRIAS FASES DE PRIVATIZAÇÃO DA EDP RENDERAM AO ESTADO CERCA DE 10.1.350 MILHÕES DE EUROS . CAEs.) mas hoje querem agir como se fossem os agentes mais inocentes e impolutos. na indústria e nos edifícios. A COMUNA 40 . cisões de empresas.788 MILHÕES DE EUROS.438 MILHÕES DE EUROS. PS e CDS que partilharam a responsabilidade por revisões constitucionais. leis desreguladoras.2. também seguida a nível europeu. A introdução na tarifa dos chamados Custos Económicos de Interesse Geral e que abrangem limpeza de florestas. essa linha de fundo chama-se mercantilização da energia e destruição do serviço público. é uma espécie de ilusão de sucesso ambiental através do mercado irreal. A sobrevalorização da opção pelo aumento de produção em desfavor da componente melhoria da eficiência energética. SÓ POR AQUI SE VERIFICA COMO A EMPRESA TEM SIDO VENDIDA BARATA AO CAPITAL PRIVADO. Foram PSD. garantia de potência. funcionamentos do OMIP e OMIClear (Bolsa do Mercado Ibérico de Energia). rendas das concessões a pagar aos municípios.. rendas de défices tarifários. tarifa social. b) As associações ambientalistas se opuseram ao Plano Nacional de Barragens não só pelas questões ambientais mas também porque "a mesma quantidade de eletricidade que as barragens viriam a gerar poderia ser poupada com medidas de uso eficiente da energia. com investimentos dez vezes mais baixos. e consequentemente legislativas. agora em discussão pública. c) Se tende para uma sobre-instalação da capacidade produtiva de energia elétrica. Autoridade da Concorrência. Nessas opções políticas também conta: 4. APENAS OS RESULTADOS LÍQUIDOS DA EDP RONDARÃO OS 9. privatizações. Secretário de Estado Henrique Gomes: "estes incentivos e apoios assumem hoje valores extremamente elevados nas faturas dos consumidores e põem em causa a sustentabilidade económica do Sistema Elétrico Nacional". tratandose o kwh como uma mera mercadoria transaccionável cujo lucro é maior quanto maior for a produção e a comercialização.. sobrecusto com a produção em regime especial. Custos de Manutenção do Equilíbrio Contratual. 4. na casa dos 360 milhões de euros".. Os problemas hoje vividos são originados por essa opção política. nomeações de administrações. Planos de Promoção do Desempenho Ambiental. a opção dos três partidos que hoje estão no arco da troika. venda de empresas ao capital estrangeiro (. Como refere o famoso discurso do ex.UMA DIFERENÇA DE APENAS 1. É talvez por isso que: a) Se considera que o Plano Nacional de Ação para a Eficiência Energética tem taxas de execução baixas e a sua proposta de revisão.. Compreende-se. Segundo dados públicos a capacidade instalada terá crescido percentualmente quase o triplo do crescimento do consumo. interessa mais aumentar a produção do que reduzir os consumos.

bem como a distribuição dos custos pelos diversos operadores.até porque o petróleo já atingiu o seu pico de produção e entrou na linha descendente. parte integrante do concubinato que mantem os preços dos combustíveis elevadíssimos. uma procura de dólares para fazer face à contínua emissão de moeda que pratica como forma de financiar os seus défices. na minha opinião. Partindo daqui .3. É JUSTO REAVALIAR AS FORMAS DE FINANCIAMENTO EXISTENTES. Mas o que é extraordinário é ver a GALP . O país tem avançado positivamente na produção de energia renovável. à imagem das opções do governo tecnocrata grego. mas numa situação de enorme crise económica. podendo este vender apenas à rede a energia excedente não consumida". 4. A desfaçatez e o indecoro em prol da privatização chega ao ponto "a partir do dia 1 de Julho de 2012. Porque é que a GALP nunca fez descer os preços do gás.EDP DEVEMOS APOIAR E DEFENDER OS INCENTIVOS À PRODUÇÃO DE ENERGIA RENOVÁVEL. Devemos apoiar e defender os incentivos à produção de energia renovável. parte integrante de uma das maiores mentiras do país: a concorrência nos combustíveis. das crises políticas e das condenáveis ações militares sobre países produtores e ainda da necessidade de os Estados Unidos sustentarem. BEM COMO A DISTRIBUIÇÃO DOS CUSTOS PELOS DIVERSOS OPERADORES. "garantir que o auto-consumo da energia produzida pelo cogerador seja uma obrigação. A burla ideológica da concorrência por detrás das rendas excessivas Não devemos fugir à polémica. nomeadamente eólica. Mas é invocando a necessidade da introdução de uma concorrência que há-de baixar os preços da energia que hoje se aumentam os preços de energia e se destroem as tarifas reguladas. que o seu preço também está muito dependente dos ataques especulativos. MAS NUMA SITUAÇÃO DE ENORME CRISE ECONÓMICA. O uso da tarifa de energia elétrica como forma de espoliação popular. de Amorim e Isabel dos Santos. 5. e de que é exemplo o aumento do IVA de 6 para 23% a que foi acrescido um aumento de preço de 4% e o anúncio de um novo aumento trimestral da tarifa regulada. EM QUE A PALAVRA SACRIFÍCIOS SÓ TEM TIDO UM LADO.pareceme correto.como manifestou a DECO . Acresce. permanentemente. gasolina e gasóleo se estava em plena concorrência? A burla ideológica da concorrência está bem demonstrada nos combustíveis. desde já. é justo reavaliar as formas de financiamento existentes. aos clientes que mantenham os seus contratos de A COMUNA 41 . entrar como comercializador no mercado da energia lançando uma promoção com descontos. em que a palavra sacrifícios só tem tido um lado. diminuindo a dependência energética e é necessário que esse movimento não pare .

ex vogal da ERSE: "Se a produção de energia elétrica necessita de enormes investimentos e ligações às redes. na França. A "desilusão" é partilhada pelo ex Presidente da A COMUNA 42 . Aqueles que esperavam que a concorrência iria desencadear uma baixa de preços e um mercado a fluir para a perfeição de um ótimo de Pareto "desiludiram-se" quando foram os próprios mercados que garantiram a possibilidade da comercialização bilateral e garantiram a manutenção do controlo do mercado pelas grandes empresas. o que estabelece barreiras à entrada e à saída de empresas. "A procura de energia elétrica é uma função cujo comportamento. nestas condições. os consumidores vão ser obrigados a transitar para o mercado desregulado ou serão castigados se lá ficarem... a sua comercialização (venda) requer reduzidos ativos. A experiência tem mostrado como é fácil a entrada e a saída das empresas de comercialização". Prof. Não é difícil prever a reação do mercado e. Para que não haja dúvidas. comportamentos oligopolísticos são possíveis com facilidade"(2). fixada pela ERSE". É aliás o que acontece na Alemanha. Pergunta-se: a sua retirada vai significar uma redução ou manutenção do preço do Kwh ou vai significar um aumento das margens de lucro para os comercializadores? Talvez a resposta a esta pergunta esteja nas declarações de Nuno Ribeiro da Silva(1).EDP A BURLA IDEOLÓGICA DA CONCORRÊNCIA ESTÁ BEM DEMONSTRADA NOS COMBUSTÍVEIS. a um aumento anual de 4. obrigariam. Ou seja. João Santana. no Reino Unido. ex vogal da ERSE. Catedrático do IST. ao "Dinheiro Vivo" em 29/01/2012: "Enquanto as pessoas não saírem da tarifa regulada não vou ter interesse nenhum em angariar mais clientes (. Uma das razões porque é preciso (interessa a essas empresas) destruir as tarifas reguladas. no curto e médio prazo.) não compensa". MAS É INVOCANDO A NECESSIDADE DA INTRODUÇÃO DE UMA CONCORRÊNCIA QUE HÁ-DE BAIXAR OS PREÇOS DA ENERGIA QUE HOJE SE AUMENTAM OS PREÇOS DE ENERGIA E SE DESTROEM AS TARIFAS REGULADAS. presidente da Endesa. Perguntase então: porque é que "sendo fácil" a entrada dos comercializadores ainda é tão tímida nas potências mais baixas? Pela simples razão de que a margem de comercialização ainda é muito baixa (há economistas que afirmam ser de 3%).. caso não fossem tomadas medidas imediatas.) as empresas conhecem exatamente a curva dos custos dos seus competidores. se determina com razoável precisão (. segundo os peritos da Universidade de Cambridge.7% no preço da eletricidade. Esclarecedor! Como é reconhecido pelo Prof. etc. fornecimento de eletricidade com um comercializador de último recurso será aplicada uma tarifa de venda transitória.. vale a pena "chamar" João Santana. As chamadas rendas excessivas. etc.

Quais serão os critérios preponderantes para a produção hídrica? E se acontecer que a vantagem e o momento do negócio conflitue com a prevenção de cheias ou a garantia de caudais em tempo de seca? . têm sido fragilizados direitos nomeadamente com a diminuição gradual de acesso a médicos contratualizados ou a retirada de comparticipações consideradas complementares do SNS. de um leigo. sobre a mercantilização da energia elétrica . A COMUNA 43 . como aconteceu com o petróleo e os cereais. A divisão está a cavar-se de uma forma crescente e conhecem-se anseios para acabar de vez com o ACT em nome das dificuldades dos tempos atuais. Abel Mateus: "os mercados energéticos caracterizam-se pela falta de transparência.relacionado com a prevalência das transações bilaterais intra-grupo ou com a preponderância dos contratos de longa duração na estrutura de aprovisionamento de gás natural .Se a energia passa a mercadoria suscetível de especulação. que se correlaciona com a falta de liquidez dos mercados grossistas .IRÁ AJUDAR A TRANSFORMAR A RELAÇÃO CONSUMIDOR/EMPRESA NUMA COISA PARECIDA COM A TVCABO ERSE.EDP O DESENVOLVIMENTO DE REDES E A GENERALIZAÇÃO DOS CONTADORES INTELIGENTES .Se o que determina a entrada de produtores na rede é o valor da oferta do seu Kwh não poderá acontecer um conflito entre a realidade física da rede e a variabilidade da localização das injeções de potência determinada pelo negócio? 7. Não será preciso muito mais para demonstrar em como a concorrência é uma burla. . trabalhadores e populações? O caso da ENRON é conhecido.APLICADO SEGUNDO A ÓTICA CAPITALISTA .mas também com o acesso em tempo útil a informação necessária para o bom funcionamento dos mercados"(3). será de estranhar a entrada de especuladores financeiros(4) no mercado ibérico de energia e negócios especulativos com resultados bastante negativos para empresas. Objetivamente. Os trabalhadores e o futuro da empresa Até agora tem existido um clima "pouco ríspido" na empresa/grupo.Se a energia é mera mercadoria. o armazenamento em barragens de albufeira será um modo (ainda que limitado) de acumulação "armazenamento" de mercadoria para influenciar o mercado. Mas é verdade que os novos recrutamentos se processam por uma empresa do próprio grupo a cujos trabalhadores não é aplicado o ACT enquanto tal. 6. Três perguntas.

É o ultra-conservadorismo dominando a política nacional e europeia. transporte. pelo governo. subcontratação geral do projeto à execução. A COMUNA 44 . DISTRIBUIÇÃO E COMERCIALIZAÇÃO. direitos escassos e salários ainda mais baixos.. Aqui chegados.irá ajudar a transformar a relação consumidor/empresa numa coisa parecida com a tvcabo: reduzida intervenção do trabalhador da empresa incumbente. importa interrogarmo-nos sobre o futuro do grupo EDP . É a nova ideologia neoconservadora que segue o caminho da austeridade e do autoritarismo e em cada momento surpreende o país com novas medidas de exploração social e ataque ideológico.distribuição e comercialização Depois de ter sido escrito este artigo a Administração do Grupo EDP denunciou o ACT.EDP A NOSSA OPÇÃO (. foi imposta uma cisão (spin-off) no grupo PT obrigando à saída da PT Multimédia (que hoje é a ZON).) SÓ PODE SER A RENACIONALIZAÇÃO DAS EMPRESAS DE ENERGIA FUNDINDO-AS NUMA ÚNICA EMPRESA DE PRODUÇÃO. (4) Sabe-se hoje que o valor da circulação monetária por especulação financeira é larguissimamente maioritária ao valor da compra e venda de mercadorias. (2) Comunicação ao seminário da ERSE em 1995 "Evolução do Mercado Interno da Energia". TRANSPORTE. a que garante a estabilidade do sector elétrico e dos seus trabalhadores. (1) Passou pela EDP. A nossa opção. precariedade geral. Continuará a EDP Distribuição integrada no Grupo EDP? Os trabalhadores devem lutar por isso! O desenvolvimento de redes e a generalização dos contadores inteligentes . procura de unidade para a luta garantindo que a retirada de direitos não pode ficar sem a afirmação da resistência. O momento é o de chamar à cidadania. aumento da conflitualidade com os consumidores. relacionamento à distância. e foi deputado pelo PSD.nomeadamente da empresa EDP Distribuição. Quem não luta perde de certeza. com o desmembramento da CP .aplicado segundo a ótica capitalista . um serviço público de futuro para o avanço civilizacional de todos os cidadãos e a sustentabilidade ambiental. Tudo isto gera um caldo de temor e instabilidade para os trabalhadores. foi o de autonomizar a REFER numa empresa independente de gestão da infraestrutura. mas em nome da concorrência. só pode ser a renacionalização das empresas de energia fundindo-as numa única empresa de produção. Partindo de uma situação muito diferente. introduzir instrumentos de participação coletiva. denegação do direito à energia e serviço público transformado numa "tarifa social" com um desconto caridoso de 2% num "comercializador de último recurso".. O exemplo seguido na ferrovia. (3) Discurso ao mesmo seminário sobre "Mercados e Concorrência".

ENCENADOR.TEATRO O R A L CA TRO? A E T PARA QUÊ? PEDRO FILIPE OLIVEIRA ACTOR. DIRECTOR ARTÍSTICO DO TEATRO DO AZEITE A COMUNA 45 .

Mostra-nos que a vida é partilha de sonhos. os apoios são reduzidos drasticamente. HAVERÁ SEMPRE MUITOS E MUITAS COM BOAS HISTÓRIAS PARA CONTAR E MUITOS E MUITAS SEDENTAS DE AS OUVIR. chegando ao ridículo de apenas aumentarem os apoios à internacionalização. ENQUANTO HOUVER HOMENS E MULHERES NESTE MUNDO. Hoje. que há muito que reclama uma lei de bases para as artes do espectáculo e audiovisual. Dizia ele. tecido empresarial. estado e autarquias precisa-se. Há um número cada vez maior de novos artistas com formação superior e no entanto. em favor da democracia. o dinheiro dos contribuintes para novas produções vai para aquelas que são feitas fora do nosso território.TEATRO É INÚTIL ESTA TENTATIVA ABSURDA DE NOS CALAREM. que o Teatro. O que é que o governo ganha com isto? Ganha mais uma classe profissional revoltada e contestatária. que nos mostre outros caminhos. que gera emprego e riqueza e que pode dar um contributo fortíssimo no combate à desertificação das nossas cidades. haverá sempre muitos e muitas com boas histórias para contar e muitos e muitas sedentas de as ouvir A COMUNA 46 .. Isto é democracia. Durante a minha formação na Escola Superior de Teatro e Cinema. de alguém que nos diga coisas diferentes. e olho para a Grécia. na antiga Grécia. Uma lei do mecenático consistente e articulada com estruturas de criação artísticas. programadores. ouvi uma frase de um professor que me persegue até hoje. Uma premissa também conduziu toda minha formação: fugir do óbvio e dar ao espectador uma leitura aberta. Não tenho nada contra estes apoios. dando assim a cada um o grande prazer de sentirmo-nos vivos e de ter a liberdade de fazermos escolhas. Enquanto houver homens e mulheres neste mundo. A qualidade e seriedade do que se faz em Portugal não devem em nada ao que se faz por esse mundo fora. que foi o que aconteceu. Agora. de esperanças e de possibilidades infinitas. onde o certo e errado é questionado com beleza e fervor. tinha como função primordial tornar os cidadãos melhores. o espectador/contribuinte terá que sair do país para ver o que se faz de novo em Portugal.. É por isto que a Arte é fundamental para o desenvolvimento social e económico e não se restringe à afirmação da identidade de um povo. Há uma necessidade cada vez maior de descobrir coisas novas nos outros. É tudo uma questão de dinâmica e de articulação. olho para a democracia. desde que não acabem com os apoios às novas companhias e criadores. pois uma cidade com uma boa programação cultural é bem mais agradável de viver. Não admira que as taxas de ocupação nos teatros tenham aumentado. É inútil esta tentativa absurda de nos calarem. Há uma nova geração de criadores que perdeu o medo de errar e do ridículo. ou seja.Todos ganharíamos com isso e não há desculpa de contenção orçamental que valha.

MÚSICA. ACÇÃO! A PEDRO RODRIGUES A COMUNA 47 .MÚSICA SONHO.

. Reconhecer.. mas a música nunca o domina completamente.. diz-se. Vamos à discoteca reconhecer canções. E então vêm muitas canções à cabeça. Ou uma canção de lamento. que é quando a canção de lamento se levanta. Mas não se pode parar a música naquele "frame". já a procurei e não a vi" (Zeca Afonso). Pode ser um fado. com que nos identificamos ou que nos identificam. UTOPIA? Insatisfação A música é a arte da insatisfação. escreveu Carlos de Oliveira num belo poema de 1945. pomos o leitor de CD no "repeat". a música tem a qualidade utópica do ainda não realizado. a estrela de alba. Inquietos. uma hipótese de acção. mas tão fugaz que. do sempre ainda não realizado. Mas ao mesmo tempo a música mente. Insatisfeitos. Repeat e a melodia futura Esperamos então conforto das canções. O seu domínio é o tempo. E EMPURRA-O PARA QUALQUER COISA FUTURA. Empurrar o tempo "Cantar é empurrar o tempo ao encontro das cidades futuras". Ligamos o rádio numa estação nostálgica (não são quase todas?). do "ainda não" (Ernst Bloch). Porque a música é a arte do tempo. puf!. como no vídeo. NESSE VERSO ESTÃO DUAS QUALIDADES DA MÚSICA: ELA "EMPURRA" O TEMPO. Pode ser um blues.MÚSICA "CANTAR É EMPURRAR O TEMPO AO ENCONTRO DAS CIDADES FUTURAS". porque promete satisfazer o que não pode. repetir. Repetimos. Nesse verso estão duas qualidades da música: ela "empurra" o tempo. puf! Fica só uma estrela onde brilha a transformação do mundo. todas as que reconhecemos. Como uma canção de embalar: "Dorme meu menino. Utopia? Sim. já passou. procuramos nela um conforto. Ou uma canção de protesto. Um belo acorde e.. porque quem canta seus males espanta. Pode ser um samba. Um porvir que está presente. procuramos nela a satisfação impossível. e empurra-o para qualquer coisa futura. Usamos então a música A COMUNA 48 . uma curta iluminação. Ela continua. ESCREVEU CARLOS DE OLIVEIRA NUM BELO POEMA DE 1945.

não. E TALVEZ NÃO A SAIBAMOS RECONHECER NO AGUDO PRESENTE. desde que os românticos foram "ressuscitar" Bach. Para uma emancipação que tememos. cortando e colando o já feito sob a aparência do novo. como identidade. Ou melhor. Insubmissa "Na sociedade burguesa. do mercado) não há presente transformador. Mas é isso um problema? Aparentemente. e isso nos console. PARA O QUE DESCONHECEMOS. para o outro. outra vez os êxitos kitsch de sempre). Mas levemos a sério o aviso de Nietzsche. É o historiador monumental ou conservador. Talvez seja preciso pôr as coisas doutra maneira. o passado domina o presente". O que importa são as diferentes interpretações da mesma sinfonia. É aquele cheiro a mofo de quem carrega muitos e pesados livros de história. E na música clássica. porque não sabemos os contornos dessa melodia futura. para o que desconhecemos. A música clássica parece viver da repetição.MÚSICA A MÚSICA TEM OUTRA QUALIDADE QUE APONTA PARA FORA. Trata-se apenas de conhecer a história. A pop repete de outra maneira. PARA O QUE NÃO SABEMOS. contra os perigos de história a mais. para o que não sabemos. História a menos e história a mais A mania do revivalismo inunda actualmente a rádio. outra vez os Genesis. a televisão. PORQUE NÃO SABEMOS OS CONTORNOS DESSA MELODIA FUTURA. mas só um ou dois. PARA O OUTRO. É importante conhecer a história. a internet. Mas a música tem outra qualidade que aponta para fora. Ele põe nostálgico o dedo no pó dos monumentos mas esqueceu a acção. numa das suas "considerações intempestivas". a própria recriação é a base. Sem conhecer e rebuscar na história levantando e resgatando o que ficou enterrado pelas tiranias (do Estado. só um "eterno presente". escreviam Marx e Engels no "Manifesto do Partido Comunista". outra vez os Doors mas com um sósia do Jim Morrison. passou a ser.Talvez até cantemos interiormente. PARA UMA EMANCIPAÇÃO QUE TEMEMOS. que tem uma fixação no passado. inverter essa dominação. E talvez não a saibamos reconhecer no agudo presente. A COMUNA 49 . os concertos (outra vez os Pink Floyd tocados por não sei quem.

se não se deixar dominar pelo passado. colocar a urgência de transformação do presente no sentido da defesa e partilha do que tem de ser comum .MÚSICA A MÚSICA JÁ MOSTROU QUE PODE PARTICIPAR ATÉ DIRECTA E ACTIVAMENTE NA LUTA CONTRA TODAS AS FORMAS DE RACISMO. a música discute-se) e ouvida por ouvidos novos e mãos capazes de pensar. Terá de ser produzida. é certo. Que não será música para nos "ambientarmos" ao capitalismo podre. E pode mais: pode indicar caminhos para transformar a tal "insatisfação" em revolução. angústias e contradições do presente mas também das bifurcações possíveis e da luta a fazer. CONTRA AS TENTATIVAS DE ISOLAMENTO DOS TRABALHADORES E PODE ASSIM DAR EXPRESSÃO ÀS ASPIRAÇÕES DOS PRODUTORES DA TERRA INTEIRA. E esquecer apenas o suficiente para lembrar outras coisas que ficaram esquecidas. Música-acção com novos meios de produção colectiva. discutida (sim. Música testemunho das opressões. Música que recria espaços novos A COMUNA 50 . palas nos ouvidos). é do Sérgio Godinho). Memória que age A música do presente. que não deixassem normalizar a escuta (palas nos olhos. como sabemos hoje que aconteceu em Guantánamo. Há outra opção. difusão e partilha. Que não será a música de Estado e de mercado para enfeitar os poderes. tocada. mas qualquer coisa de mais decisivo. nem terá sempre uma "mensagem" clara. pode ser memória actuante (não há música sem memória). O quê? A possibilidade de uma música insubmissa e irreverente: um conjunto de "fazeres" que rompessem de algum modo com os ditames do lucro e do juro. ao contrário do que nos dizem para nos obrigar a seguir os mesmos carris da servidão. Certamente não será música-pílula para adormecer nem música conformista e restauracionista que recupera qualquer êxito reaccionário para voltar a olear a mesma máquina. que ajude a derrubá-lo. Pode ser testemunho contemporâneo para as forças emancipatórias futuras. Certamente não será música usada para torturar. nem servissem a simples reprodução e enfeite de um mundo dominado. partilhada. cantada. Essa música não se decreta.porque só há liberdade a sério "quando pertencer ao povo o que o povo produzir" (a canção chamase "Liberdade".

Procuremos essas músicas. A música já mostrou que pode participar até directa e activamente na luta contra todas as formas de racismo. nem era apenas para entreter (mais importante era estarem juntos). QUE OUTRA E OUTRA VEZ SE ORGANIZA E LUTA DIA-A-DIA. O capital tenta hoje (de formas novas ou muito antigas) separar os trabalhadores e uni-los apenas no fabrico da sua própria dominação. que outra e outra vez se organiza e luta dia-a-dia. Pode não ser assim. Não é assim Por exemplo os operários ingleses do século XIX cantavam juntos canções enquanto bebiam e comiam. partilhando. escutando. constituía parte da sua emancipação e punha em causa todo um sistema. À noite. assobiando à vontade. PARA NÃO CONTINUARMOS A DANÇAR ÀS ORDENS DOS NOVOS LOBOS E DOS VELHOS REIS. poderia dizer a música nas entrelinhas. ASSOBIANDO À VONTADE. se for partilhada por gente no sentido da libertação comum e da igualdade. Para não continuarmos a dançar às ordens dos novos lobos e dos velhos reis. E A FAZER ORELHAS MOUCAS AO MUNDO INSATISFEITO QUE SE LEVANTA. contra as tentativas de isolamento dos trabalhadores e pode assim dar expressão às aspirações dos produtores da terra inteira. Era parte essencial da solidariedade. "Não é assim!". Tantas vezes portadora de uma activa esperança e de horizontes novos. ESCUTANDO. Que faz da acção uma irmã do sonho A COMUNA 51 . sempre tão prática mas tão fugaz que tem de ser apanhada em voo. Se for produzida de maneiras que quebrem o jugo do mercado e dos seus "gestores". entre convívios e reuniões políticas. que não é apenas dominação "económica". e a fazer orelhas moucas ao mundo insatisfeito que se levanta. CRIANDO. de insubmissão e reactiva a ideia de igualdade.MÚSICA PROCUREMOS ESSAS MÚSICAS. Por vezes com palavras que o patrão não poderia entender. Isso não era um detalhe para ornamentar a sua vida difícil. PARTILHANDO. num gesto simples. mas também empobrecimento dos sentidos. se for portadora daquela energia utópica indispensável para não desistir. faziam música participativa e internacionalista que não servia para obedecer nem dominar. criando.

MÚSICA SKA. SKA. SKA BÁRBARA SEQUEIRA A COMUNA 52 .

mas à noite transformam-se em elegantes rude-boys ou A COMUNA 53 . em contratempo. e a sua relação estreita com o movimento skinhead leva a inúmeras confusões devido a ideias pré-concebidas sobre o tema. geralmente. O caso do ska não é excepção. onde se fixam nos subúrbios operários e se integram na vivência da classe operária.The Maytals e vocalistas como Desmond Dekker. e vêemse obrigados a migrar para os guetos de Kingston. Aparece a Trojan Records. associado à classe operária inglesa.MÚSICA HÁ QUE PERCEBER QUE O SKA NÃO É IDEOLÓGICO POR SI SÓ. Misturando estas novas sonoridades com as influências musicais caribenhas. o Rhythm and Blues. Assim. Falar da relação entre música e sociedade leva. surgem os Rude Boys . os jamaicanos criam o seu próprio estilo musical. a uma reflexão sobre subculturas e ideologias. era apenas um género musical de influência jamaicana. ganha assim o seu nome. Marcado pelo bater seco nas guitarras. os jovens rapam a cabeça. que adoptam o visual dos gangsters dos filmes. Judge Dread. Por necessidade. Assim. não passa de uma onomatopeia: "ska. Esta primeira fase coincide com o processo de independência do país que esteve sob domínio imperial britânico até 1962. suspensórios finos e calças de ganga dobradas nos tornozelos. A necessidade de encontrar melhores condições de vida leva muitos jovens jamaicanos a emigrar para a Grã-Bretanha. o anterior sentimento positivo reflectido nas letras das canções adapta-se à realidade vivida e o ska torna-se o hino dos Rude Boys. que rapidamente se tornou popular. Voltamos aos anos 50. Durante muito tempo. ÁLCOOL E DIVERSÃO. para percebermos a sua ligação à esquerda. ASSOCIADO À CLASSE OPERÁRIA INGLESA. Prince Buster. No meio da pobreza e violência dos guetos. deixando-o na miséria. no fundo. mesmo nesta segunda vaga. ERA APENAS UM GÉNERO MUSICAL DE INFLUÊNCIA JAMAICANA. onde começam a chegar os sons de New Orleans.jovens delinquentes. UMA CULTURA QUE PRIMAVA PELO INTERESSE NO FUTEBOL. poucas oportunidades de trabalho e de habitação. chancela das grandes bandas de ska da altura. álcool e diversão. ska. entre outros. Há que perceber que o Ska não é ideológico por si só. Lee Perry.que duraram até aos dias de hoje! Symarip. principalmente quando nos referimos a géneros desligados da corrente comercial. DURANTE MUITO TEMPO. ska". vestem de dia botas de trabalho. MUITO POUCO POLITIZADA E COM UMA ESTÉTICA ESPECÍFICA. muito pouco politizada e com uma estética específica. A música acompanha este processo e dá-se um passo importante para percebermos a proximidade do Ska com a esquerda. uma cultura que primava pelo interesse no futebol. é necessário começar por uma breve aula de história. que. Os jovens deparam-se com um futuro incerto. Laurel Aitken. como como Skatalites . na Jamaica. MESMO NESTA SEGUNDA VAGA.

MÚSICA

AS CIRCUNSTÂNCIAS DE EVOLUÇÃO DO SKA TORNARAM QUASE INTRÍNSECA A INCLINAÇÃO PARA A IGUALDADE, UNIÃO ENTRE RAÇAS E DEFESA E ORGULHO DA CLASSE TRABALHADORA, TERMINANDO NUMA MAIS RECENTE POLITIZAÇÃO DA MÚSICA, QUE NÃO DEIXA DE SER UM FORTE INSTRUMENTO DE LUTA.
hard-mods, frequentando clubes de ska. Aparecem então os primeiros skinheads. No entanto, as novas bandas que surgem são influenciadas também pelo punk, que aparece em força nesta altura, e os seus membros e fãs são tanto brancos como pretos. O princípio base era a união. O "two tone", nome pelo qual é conhecida esta segunda vaga, simboliza isso mesmo: dois tons, duas cores unidas. O Ska torna-se sinónimo de anti-racismo e da vida e orgulho da classe operária, associado muitas vezes aos movimentos SHARP - Skinheads Against Racial Prejudice. Destacam-se nomes conhecidos como The Specials ou Madness. Os próprios The Clash, considerados punk, incluem influências ska na sua sonoridade, aliada a uma temática já com um cunho de esquerda. Com a chegada dos anos 80/90, entramos numa nova vaga. O ska chegou aos vários cantos do planeta, assimilando outras influências. De um modo geral, perde o seu caracter R&B, aliando-se à distorção e guitarradas do punk-rock. É impossível nomear todas as bandas que aparecem desde então, mas a maior parte delas desligou-se completamente de qualquer tipo de associação ideológica. No entanto, houve umas quantas que, pelo contrário, utilizaram a sua música e a tradição de aproximação à classe operária para fazer passar uma mensagem marcadamente esquerdista e anti-fascista. Em Portugal o melhor exemplo foram os Skamioneta do Lixo, com o seu "Ska contra o Rascismo". Do outro lado da fronteira temos bandas a investir o seu som na causa basca, como é o caso dos Kortatu, ou focando-se em temas como os problemas sociais, o anti-fascismo, o capitalismo e a religião, bem como a legalização da cannabis, como acontece no caso de Ska-P , Skaparapid, entre outras. Entre RASH, SHARP , Anarquistas ou mesmo pequenos grupos de esquerda, preocupados com a situação sociopolítica em que se encontram, quase todos os movimentos adoptaram o Ska como um dos meios de expressão das suas crenças e preocupações. Ainda que não tenha sido um género nascido como reflexo de uma consciência política, como acontece com outros, a própria evolução do ska e as circunstâncias em que este se desenvolveu tornaram quase intrínseca a inclinação para a igualdade, união entre raças e defesa e orgulho da classe trabalhadora, terminando numa mais recente politização da música, que não deixa de ser um forte instrumento de luta
A COMUNA 54

MÚSICA

ESTÉTICA REVOLUCIONÁRIA
RICARDO MARTINS

A COMUNA 55

MÚSICA

A "DAMA DE FERRO" NÃO HESITOU EM GUETTIZAR OS IMIGRANTES, RETIRAR-LHES OS MAIS BÁSICOS DIREITOS DE CIDADANIA O QUE VEIO A ACENTUAR OS SENTIMENTOS DE XENOFOBIA E RACISMO PARA COM A (CADA VEZ MENOS MINORITÁRIA) MINORIA NEGRA E INDO PAQUISTANESA. TAMBÉM AQUI A CULTURA E MÚSICA DOMINANTE ERA VIRADA PARA OS "BRANCOS" E INGLESES EUROPEUS.

A arte é a concretização ou realização da ideia. É uma das formas de libertação dos povos. Pelo menos pode sê-lo intelectualmente. A arte tem sido, ao longo dos tempos, um meio de transmissão e implantação de ideias e pensamentos revolucionários e libertários. A forma como incute espaços mentais de pensamento e de satisfação intelectual em quem contempla a forma artística e capta a sua mensagem faz da arte um medium extremamente relevante e interessante na divulgação e disseminação de mensagens libertárias e consciencialização colectiva. A música, enquanto forma artística, reveste-se também destas características, assim o queiram os seus intervenientes. Chegados à recta final dos anos 70, o rock, enquanto grande família musical dominava as tabelas de audiência e configurava-se como estilo musical

predominante e mainstream a par da pop. Abba, Bee Gees, Barbra Streisand, Eagles, Elton John, Doors e ainda os Beatles lideravam a alienação por via da cultura e iam consolidando uma estética não só musical mas também na moda que se tornava massificante e era replicada até à náusea na televisão e rádios em todo o mundo. O produto oferecido, elitista e representativo de um mundo idílico é confortavelmente suave para o sistema capitalista que não perdeu a hipótese de o explorar financeiramente e de o usar para perpetuar o sistema e melhor controlar as massas. Músicas simples e calmas, muitas baladas com a mensagem a versar maioritariamente assuntos mundanos, do dia-a-dia e principalmente românticos. Por momentos, o mundo parecia esquecer-se que vivia a grande crise do petróleo que provocou a subida em flecha dos preços que se

traduziu numa inflação galopante com sérios prejuízos para as economias ocidentais mas que representou fome e morte em larga escala nos países a sul do equador. Nixon, Ford e Jimmy Carter aproveitaram esta apatia geral para gerir a América com pulso de ferro e aprofundar o sistema capitalista com valores paternalistas e incutindo a paranóia da segurança sob a ameaça de uma nova guerra mundial. Esta receita tornou-se tão popular que acabou por ser exportada para todo o mundo como forma acabada de controlo de massas por via do medo e de uma cultura niilista massificante. Na Europa a situação política era explosiva no virar para a década de 80. No sul, caiam as ditaduras e as democracias emergentes não eram mais que uma forma de controlo de falsa representatividade bipartidária com base no voto das populações, mas
A COMUNA 56

então as nossas vão ter um ou dois. Neste cenário. DESDE AS ARTES PLÁSTICAS. o som punk caracteriza-se pela velocidade. chegados com o sonho e a perspectiva de emprego. Sem exclusões. com uma monarquia obsoleta e de fachada. O trabalhista James Callaghan acabou por ceder à pressão social e dos eleitores que acabaram por escolher a conservadora Margaret Thatcher. decidiram rasgar com esta cultura que não só não os integra como não os representa. então as nossas vão ser gritadas. Se as músicas deles são cantadas e as letras não têm conteúdo nem mensagem. um movimento contra cultural multidisciplinar que abrange várias áreas artísticas. paternalista e repressivo. sexos. Uma cultura para todos e que integra todos. sem voz e sem representação. por uma sociedade controlada que os rejeita. então vamos construir uma cultura nova. Surge assim o Punk. Uma sociedade sem A COMUNA 57 . a Inglaterra debateu-se com as consequências do seu imperialismo desmedido na medida em que a imigração proveniente dos países da Commonwealth ficou descontrolada. não tardaram a empregar-se e a dominar a mão-deobra fabril e proletária. Para todas as raças. O Reino Unido rapidamente transformou-se num barril de pólvora. agressividade e um sistema de construção musical novo que rompia com todos os modelos padrão instituídos pela indústria dominante. ENTÃO VAMOS CONSTRUIR UMA CULTURA NOVA. Se as músicas deles têm oito acordes. PASSANDO PELA LITERATURA ATÉ À MÚSICA. que não só não as representa como ainda se traduz na imposição da maioria dos votantes sobre uma minoria derrotada que se lhe opõe e é forçosamente submissa. retirar-lhes os mais básicos direitos de cidadania o que veio a acentuar os sentimentos de xenofobia e racismo para com a (cada vez menos minoritária) minoria negra e indo paquistanesa. vamos gritar o mundo novo e a sociedade nova que queremos construir e erguer. deixando de fora e lançando para o desemprego uma fatia considerável de ingleses europeus. Os imigrantes. todas as faixas etárias e todos os credos religiosos. UM MOVIMENTO CONTRA CULTURAL MULTIDISCIPLINAR QUE ABRANGE VÁRIAS ÁREAS ARTÍSTICAS. então as nossas vão ter quatro. Também aqui a cultura e música dominante era virada para os "brancos" e ingleses europeus. desde as artes plásticas. Se as músicas deles têm seis minutos. aperceberam-se da grande falácia do sistema em que estavam inseridos. Excluídos da participação social. passando pela literatura até à música. os jovens.Vamos gritar as nossas ideias. Na música. A ideia era simples: Se esta cultura não representa toda a gente.MÚSICA SURGE ASSIM O PUNK. num país gerido a pulso de ferro com valores ultra-conservadores. Na vanguarda cultural e artística. A IDEIA ERA SIMPLES: SE ESTA CULTURA NÃO REPRESENTA TODA A GENTE. A "Dama de Ferro" não hesitou em guettizar os imigrantes.

muros. não julga ninguém com base nas suas opções sexuais.MÚSICA A ESTÉTICA PUNK É UM GRITO DE REVOLTA E DE LIBERDADE. Os punks passam a mesclar o visual e vestuário da massa proletária e os excluídos sociais das gigantes áreas suburbanas. Ganha novo fôlego o até então tão contestado imperativo categórico de Kant: "Age de tal forma que possas desejar que o teu comportamento se torne lei universal da natureza". acaba por ser uma boa forma para os punks explicarem as suas opções e difundirem a mensagem e a sua luta por uma sociedade mais justa. esclarecida e verdadeiramente democrática e sem hierarquias A COMUNA 58 . Tornam a emergir os pensamentos filosóficos de Proudhon. Assim. solidária e cooperativa convivência comunitária em sociedade. são por influência das tribos nativas norte-americanas e a sua luta de resistência contra a ocupação colonial e invasão do sistema capitalista global. As famosas cristas. Pretende com isto tornar conscientes e activos todos os indivíduos e incutir neles a vontade de participar no processo de criação cultural e social. se não existe um estilo de moda democratizante. Apesar de incómodo. de marca. É ASSUMIR POR VIA DO ASPECTO EXTERIOR A VONTADE DE CONSTRUIR UM MUNDO NOVO. vamos fazer nós o nosso. sem hierarquias. ESTE VISUAL ASSUMIDAMENTE CHOCANTE ACABA POR FAZER QUESTIONAR O RESTO DA SOCIEDADE QUE AINDA NÃO SE LIBERTOU E SE ENCONTRA SUBJUGADA SOBRE O PORQUÊ DESTE ASPECTO. não exclui em função de género ou raça. Este visual assumidamente chocante acaba por fazer questionar o resto da sociedade que ainda não se libertou e se encontra subjugada sobre o porquê deste aspecto. Não aceitar as roupas caras. é assumir por via do aspecto exterior a vontade de construir um mundo novo. de forma que o indivíduo punk adopte para si um conjunto de valores. tolerante. se não há um estilo musical que nos represente. solidária. Daí que a estética punk seja uma marca tão forte. elitistas e rejeitar todas as imposições capitalistas e rasgar as convenções sociais no que toca ao vestuário como o fato e gravata. A estética punk é o somatório destes factores é um grito de revolta e de liberdade. Esta ideia é o motor de todo o ideário e cultura punk. solidária e que integra todos. vamos fazer o nosso. ou moicanos. sem excepção. o que permitia assim a sã. DIY (do it yourself). onde a liberdade é o pilar central de toda a convivência comunitária. inclusiva. O punk surge nesta necessidade de libertação dos povos e das minorias subjugadas e nesta vontade colectiva de criar uma nova cultura sustentada na ideia de que se não existe. comportamentos e acções que gostava que fossem os mesmos comportamentos e acções de todos os indivíduos. Uma sociedade tolerante. Bakunin e Marx entre outros. cria tu mesmo. pacífica.

MÚSICA UMA EXPRESSÃO POLÍTICA ISABEL PIRES MÚSICA A COMUNA 59 .

Desde a antiguidade clássica que a música é um factor importante no estudo das sociedades. No entanto. hoje. DA QUESTÃO DO TRANSGÉNERO À SEXUALIDADE. a música tem vindo a tornar-se apenas mais um monstruoso negócio capitalista. Nos tempos mais recentes. o fenómeno da música mainstream. E na verdade. A arte sempre deu inúmeras formas ao ser humano de expressar os seus sentimentos e convicções. DA RELIGIÃO ÀS ESCOLHAS POLÍTICAS E ECONÓMICAS. COM LETRAS QUE QUESTIONAM DOS MAIS VARIADOS TEMAS. a criatividade musical. COM UMA SONORIDADE AGRESSIVA QUE PRETENDE CHOCAR E CHAMAR A ATENÇÃO. a sua evolução sempre acompanhou as mudanças políticas e sociais de mundo. a arte pode ser vista como representação de um momento histórico. arquitectura. e é através dela que muitos e muitas de nós conseguimos aceder a um leque muito variado de sons. o facto de ser acessível a todos e a todas ou apenas a uma elite indica-nos o tipo de hierarquização da sociedade o que nos leva. Felizmente. a um determinado regime político. aos movimentos sociais. permite percebermos o que as pessoas pensavam e de que maneira o faziam. formulando aquilo que ouvimos todos os dias na rádio ou na televisão. há excepções à regra. vários estilos são abordados. com uma indústria elitista que a governa. com perspectivas históricas e ideológicas sobre as suas relações com determinados grupos e movimentos. mais pop. música ou escrita. tem vindo a açambarcar a cultura musical. Nesta série de artigos dedicamo-nos à relação da música à política. a estilos de vida e à esquerda. escultura. Seja pintura. por sua vez. do punk ao jazz.. da música brasileira ao ska. a internet dá ferramentas cruciais a estes artistas que marcam a diferença. e muitas delas podem ser entendidas como uma maneira de os artistas levantarem a sua voz contra as amarras que prendem. então não têm os mínimos apoios para lançarem os seus discos. face a A COMUNA 60 . coisa que não conseguimos em grandes lojas de música. O METAL SURGE COMO CONTRA-HEGEMÓNICO RELATIVAMENTE À MÚSICA DE MASSAS.. por exemplo. já há cada vez mais movimentos musicais que se pautam por marcar a diferença face a uma cultura sugado pelo dinheiro. do rock ao metal.MÚSICA DESDE O SEU INÍCIO. que passam pelo lucro: se um determinado artista ou música não lucram.

nomeadamente da música. já que desde há muitos anos tem sido o meu estilo de música predilecto. É um espectro musical extremamente alargado. A COMUNA 61 . começou a ganhar forma poucos anos antes do fim da ditadura dos anos 70. ONDE OS JOVENS TÊM A SUA OPORTUNIDADE DE ESQUECERAM A ESTRATIFICAÇÃO POR CASTAS (. o metal surge como contra-hegemónico relativamente à música de massas. e contra o capitalismo a apoderar-se das artes. no caso do Brasil. com uma imagética obscura e variadas vezes chocante. uma sociedade que descrimina. com violência. Também dependendo da região do mundo onde nos encontrarmos podemos aperceber-nos da importância que um estilo demarcante teve na sociedade. penso que é importante desmistificar muitos dos pensamentos à volta deste género musical.MÚSICA NA ÍNDIA O METAL É PRODUZIDO À MARGEM DA SOCIEDADE. até! Não digo que para algumas bandas estes valores não estejam presentes. o metal. sendo o metal visto por muitos jovens como uma maneira de expressarem a sua raiva e indignação para com um sistema opressor violento. com uma sonoridade agressiva que pretende chocar e chamar a atenção. com Zeca Afonso à cabeça. Na verdade. face a ditaduras políticas (como o caso da música portuguesa nos anos 60/70. basta uma estética diferente do comummente aceite para marcar a diferença! E neste caso temos uma estética agressiva. que se revolta contra os valores massificados e conservadores da sociedade. ou a próprio música brasileira mais ou menos da mesma época). mas na sua maioria não estão. ou à pura oposição a valores e ideias assimiladas sem pensar.. acima de tudo. Gostaria de me focar num estilo mais específico. E muitas vezes. face a um sistema político e económico injusto.. satanismo. muito se faz em todo o mundo neste âmbito. mas é conotado.. racismo por vezes. pois está envolto em demasiados estereótipos que em nada correspondem à verdade.) NO MÉDIO ORIENTE É NORMAL OS JOVENS QUE USAM CABELO CUMPRIDO E CAMISOLAS COM BANDAS SEREM PRESOS E PASSAREM ALGUM TEMPO EM CENTROS DE REEDUCAÇÃO. da religião às escolhas políticas e económicas. com letras que questionam dos mais variados temas. da questão do transgénero à sexualidade. desde o seu início..

hoje. não por este género musical se ter tornado mainstream (ainda está muito longe disso). quem ouve este tipo de música é discriminado de várias maneiras: quando tentam arranjar um emprego é-lhes dito que devem ter uma aparência diferente. Não pode haver restrições à liberdade de partilha e de pesquisa de música ou qualquer outra forma de expressão e o debate está. uma das componentes mais importantes da vivência do ser humano. Um futuro que se avizinha algo escuro. aceitando a diferença. UM FUTURO QUE SE AVIZINHA ALGO ESCURO. Felizmente muita dessa mentalidade tem vindo a mudar. apenas pelo uso. da internet eles têm acesso a muitas bandas. em aberto. Um ponto fulcral quando se fala em música e no seu papel em movimentos sociais ou apenas em alteração de mentalidades é a própria internet e as recentes questões de direitos de autor. não só porque também os próprios fãs se adaptaram a uma sociedade que discrimina pela aparência. mas também porque as mentalidades se vão alterando e a própria sociedade vai. mesmo que limitado. onde supostamente a sociedade é aberta e sem preconceitos. onde os jovens têm a sua oportunidade de esqueceram a estratificação por castas (que implementa um regime social extra-conservador) e se juntarem apenas pelo prazer de criar música. Porque a música é. MAS ONDE A MÚSICA PODE SER O DESPOLETAR DA ESPERANÇA E DA INDIGNAÇÃO! Numa sociedade hierarquizada como a Índia o metal é produzido à margem da sociedade. TEM UMA HISTÓRIA EM MOVIMENTOS À ESQUERDA E NAS POSSIBILIDADES QUE NOS PODE OFERECER PARA O FUTURO. ou seja. nunca é demais debater. mas onde a música pode ser o despoletar da esperança e da indignação! A COMUNA 62 .MÚSICA A MÚSICA É UMA DAS COMPONENTES MAIS IMPORTANTES DA VIVÊNCIA DO SER HUMANO. devem ter uma aparência estandardizada. a meu ver. Mesmo nos países ocidentais. lentamente. No Médio Oriente é normal os jovens que usam cabelo cumprido e camisolas com bandas serem presos e passarem algum tempo em centros de reeducação (além de lhes cortarem o cabelo). partilhar experiências e conhecimento sobre a sua história em movimentos à esquerda e nas possibilidades que nos pode oferecer para o futuro.

MÚSICA O FADO UMA PARTE DO VASTO E RICO PATRIMÓNIO ETNO-MUSICAL PORTUGUÊS CARLOS VIEIRA E CASTRO A COMUNA 63 .

como lembrou Chico César em entrevista a Carlos Vaz Marques. o etnomusicólogo José Alberto Sardinha publicou "A Origem do Fado".MÚSICA VÍTIMA DE PRECONCEITOS SOCIAIS E POLÍTICOS (NÃO OBSTANTE O REGIME SALAZARISTA SE TER ESFORÇADO POR ALIENAR O POVO COM A POLITICA "DOS 3 EFES" . Adalberto Alves). seriam alvo de censura religiosa dado a sua carga erótica. e não esqueçamos que também levámos escravos mouros para o Brasil. A COMUNA 64 . Ruben de Carvalho) a influência das danças afro-brasileiras como a Fofa e o Lundum que os escravos negros trouxeram do Brasil e que. fascinado pela descoberta da música tradicional portuguesa. Rui Vieira Nery. compositor de alguns dos mais belos fados cantados por Camané e Carlos do Carmo. criticou a pobreza musical desta canção urbana que considerou "execranda". do romanceiro e da literatura de cordel. Quer-nos parecer que todos têm razão. cantada por músicos ambulantes e "ceguinhos". com uns a defenderem a herança árabe (Amina Alaoui. a despeito da sua popularidade entre o povo de Lisboa (marinheiros. da mesma maneira que se aproveitou da fama de Eusébio. Vítima de preconceitos sociais e políticos (não obstante o regime salazarista se ter esforçado por alienar o povo com a politica "dos 3 efes" . porque o fado deve ser a síntese dos romances tradicionais.Fátima. a notícia que mais estimulou a depauperada auto-estima de um povo tão deprimido pela crise e pela austeridade imposta por uma elite tão corrupta quanto incompetente (como prova a ameaça da UNESCO de retirar a classificação do Alto Douro Vinhateiro como Património Mundial devido ao impacto irreversível da Barragem do Tua). retomando a ideia de Carolina Michaelis de que o fado tem origem no séc. na TSF).. Ainda hoje etnomusicólogos e investigadores se digladiam quanto às origens do fado. FUTEBOL E FADO .A VERDADE É QUE SALAZAR NÃO GOSTAVA DE FADO. XVI. na tradição oral portuguesa. excepto quando excluem as teses alheias. prostitutas e a aristocracia decadente). que recolheu. da influência afro-brasileira e da herança de sete séculos de presença árabe (que nos marcou até a genética. de "faca e alguidar" ("fado da desgraçadinha". Lopes Graça. outros (Ramos Tinhorão. talvez. A proclamação do fado como Património Imaterial da Humanidade foi. o fado haveria de converter alguns dos seus detractores durante a ditadura e na euforia de Abril. futebol e fado .a verdade é que Salazar não gostava de fado. com Michel Giacometti. embora não respeitasse os povos das colónias que desprezou e massacrou). apesar de se ter aproveitado da popularidade de Amália. Foi o caso de José Mário Branco.FÁTIMA. pelo que a influência moura é muito forte no Nordeste.. estudou e divulgou. pouco consentânea com o fatalismo em tom menor. em 2010. tipo Rosa Enjeitada). e.

onde se destacou Manhouce e Isabel Silvestre). os Deolinda. Acontece que muito deste património corre risco de extinção. MAS BASTA OUVIR O GRANDE FADISTA RICARDO RIBEIRO A CANTAR COM RABIH ABOU-KHALIL "EM PORTUGUÊS" PARA NÃO SE DUVIDAR DA FUSÃO HISTÓRICA DAS DUAS CULTURAS. devido à simplificação das estruturas melódicas e harmónicas" (Giacometti) ou pela "contrafacção folclórica" (Lopes Graça) da genuína música popular e tradicional portuguesa. as chulas e cantares ao desafio do Minho e Douro Litoral e o "cante" alentejano (futuro candidato ao reconhecimento da UNESCO). CONFESSANDO QUE ERA A MÚSICA QUE MAIS APRECIAVA. Amália atribuía o "tremolo" dos fadistas à influência da música árabe. tudo isso misturado com as canções e danças tradicionais que os marinheiros. Vai de Roda. Pé na Terra e muitos outros que. quer por morte "natural" (como quase ia acontecendo com a viola campaniça) num país sem auto-estima. artesãos e camponeses migrados para a capital. os bailes de roda do Algarve. GAC. caldearam nas tabernas e bordéis da Mouraria. Carlos Paredes. Júlio Pereira. e mais recentemente. Terra a Terra. Zeca Medeiros. Amélia Muge.Toque de Caixa. mas basta ouvir o grande fadista Ricardo Ribeiro a cantar com Rabih Abou-Khalil "Em Português" (disco gravado por sugestão de Ricardo Pais) para não se duvidar da fusão histórica das duas culturas. nos transportam por paisagens sonoras que só a genial alma de um povo pode criar. Almanaque. de raiz tradicional. Bairro Alto e Alfama. Sérgio Godinho. quer por morte "assistida" pelo "empobrecimento. da Humanidade. os cantos polifónicos da Beira Baixa e da Beira Alta (das adufeiras de Monsanto e de Idanha-a-Nova às exuberantes vozes da região de Lafões. confessando que era a música que mais apreciava. ou quase. Rosa dos Ventos. Janita Salomé. A Presença das Formigas. Raízes. viajando incógnitos. Toques do Caramulo. onde o fatalismo árabe expresso na poesia do AlAndalus resistiu à "reconquista" cristã. como são as genuínas expressões culturais de todos os povos) é sua riqueza e diversidade etnomusical: os romances e as danças ao som da gaita-de-foles de Trás-os-Montes. Gaiteiros de Lisboa. nem consciência da sua identidade cultural. José Mário Branco. por extensão. Vitorino. Brigada Victor Jara. E viva a música! A COMUNA 65 . Fausto. o movimento perpétuo da renovação inspirada pelo exemplo de José Afonso. Vale à música popular portuguesa. O fado já era património da humanidade mesmo antes de ser resgatado por uma nova geração de fadistas. Sem investigação e apoios do Estado à Cultura não haverá UNESCO que nos valha. mas a chancela da UNESCO não nos autoriza a esquecer que o maior património do povo português (e.MÚSICA AMÁLIA ATRIBUÍA O "TREMOLO" DOS FADISTAS À INFLUÊNCIA DA MÚSICA ÁRABE.

MÚSICA A LIBERTAÇÃO PELA MÚSICA DIOGO BARBOSA A COMUNA 66 .

POR VEZES ESQUECIDA. da sua intervenção. É em alturas como estas sem revivalismos que estas músicas e estes autores fazem todo o sentido como motores e veículos do povo nas suas lutas. As letras de todos estes autores. Tiveram o seu papel importantíssimo no regime salazarista com mensagens políticas escondidas nas suas músicas que inspiravam todos que lutavam contra o regime e trouxeram no pós 25 de Abril as suas reivindicações sob a forma de música para as ruas fazendo da cantiga uma arma como o GAC. sem dignidade é que faz todo o sentido voltar a trazer o espírito das cantigas de intervenção. saúde. A revolução dos cravos foi possível graças a uma música sendo ela símbolo de uma geração que se viu libertada da opressão de um regime fascista. Hoje com o ataque da Troika e do próprio governo contra o povo. Em todos os momentos da história revolucionária portuguesa e pelo mundo a música. dos seus poemas. É hoje que quem versa sobre os direitos dos trabalhadores e que esteve esquecido por muitos durante tantos anos tem o seu papel mais uma vez fundamental. Todos eles participaram de uma ou outra forma em processos de luta pelos direitos das pessoas versando sobre o direito ao trabalho. A COMUNA 67 . teve o seu papel na luta e continuará a ter. Hoje como há 30 anos atrás José Mário Branco e o seu FMI fazem todo o sentido naquela que deve ser a luta contra a nova ditadura contra a nova opressão. educação e habitação como está descrito por Sérgio Godinho e que é parte da luta de todos e todas que querem ver os seus direitos conquistados depois de Abril. A REVOLUÇÃO DOS CRAVOS FOI POSSÍVEL GRAÇAS A UMA MÚSICA SENDO ELA SÍMBOLO DE UMA GERAÇÃO QUE SE VIU LIBERTADA DA OPRESSÃO DE UM REGIME FASCISTA. Desde Zeca Afonso. Fausto. por vezes esquecida. fazendo com que este volte à vida sem condições. Zé Mário Branco. Adriano Correia de Oliveira. compositores e cantores são letras de libertação e de incentivo ao povo na sua luta do dia-a-dia contra a opressão que cada vez se vai sentindo mais. Sérgio Godinho entre outros foram quem inspirou gerações através das suas músicas.MÚSICA EM TODOS OS MOMENTOS DA HISTÓRIA REVOLUCIONÁRIA PORTUGUESA E PELO MUNDO A MÚSICA. TEVE O SEU PAPEL NA LUTA E CONTINUARÁ A TER.

. Nesta altura em que a conjuntura nacional e europeia nos traz novos governos que não são eleitos e compostos por tecnocratas são um ataque feroz a um dos mais básicos direitos dos cidadãos. a cultura. Que se volte a versar a intervenção e que se faça agora a luta mais difícil dos últimos anos.MÚSICA É AGORA QUE NOS REVEMOS NOVAMENTE NAS PALAVRAS DE JOSÉ MÁRIO BRANCO "NÓS QUEREMOS TRABALHO E CASA DECENTE A CARNE DO TALHO E PÃO PARA TODA A GENTE". A luta pela liberdade e pela restauração da democracia plena contra o neoconservadorismo e a ditadura económica ou de mercado. Muitos autores versaram sobre política através das suas músicas. voltar a tê-la como meio de protesto para garantir os direitos e liberdades do povo que por eles lutaram tanto tempo. lutando. faz-se através da cultura e deve ser essa a bandeira de todos os que lutam. e é esse o seu lugar sendo reproduzida pelos mesmos ou através de novos grupos de intervenção que façam da cultura a sua bandeira. É através da cultura e da cantiga como arma que é necessário voltar à rua. A música de intervenção faz parte da cultura portuguesa e está juntamente com o resto da música popular portuguesa no ouvido de todos. sem eufemismos. tendo a cantiga de intervenção como bandeira das novas lutas que vão ter de ser travadas para que os direitos conquistados voltem a quem por eles lutou e vai continuar a lutar. pois a luta não se faz só de manifestações e de palavras. VAMOS LUTAR E VAMOS FAZER DA MÚSICA UMA DAS MUITAS ARMAS DE QUE DISPOMOS PARA QUE OS DIREITOS E LIBERDADES SEJAM RESPEITADOS. Que a vida das pessoas esteja nas suas mãos e não nas mãos de quem delas não quer saber. É esta música popular de protesto e de intervenção tão em voga durante o regime e depois dele que deve voltar a ter o seu papel libertador para todos que como há quase 40 anos são oprimidos pelas novas ditaduras. É necessário fazer ressurgir o espírito à muito adormecido que foi trazido pela música de intervenção. a democracia.. Vamos lutar e vamos fazer da música uma das muitas armas de que dispomos para que os direitos e liberdades sejam respeitados A COMUNA 68 . É agora que nos revemos novamente nas palavras de José Mário Branco "nós queremos trabalho e casa decente a carne do talho e pão para toda a gente".

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