ALGUÉM PEDIU ÉTICA?

LUÍS FAZENDA A DESREGULAÇÃO CONSTRUÍDA PEDRO SOARES O MARXISMO EM EXAME CARLOS SANTOS CRONOLOGIA DA CRISE ANA CANSADO A RENDIÇÃO ÀS LEIS DE MERCADO JOSÉ CASIMIRO

2008

Nº17

NOV. TRIMESTRAL

ISTO É QUE VAI UMA CRISE.
ESPECIAL CRISE FINANCEIRA MUNDIAL PÁGINAS 4 A 23

Propriedade União Democrática PopularAssociação Politica Rua de São Bento, 698 - 1250223 Lisboa Correio electrónico acomuna@sapo.pt Site www.udp.pt Número de registo na ERC nº124204 Director Luís Fazenda Redacção Alex Gomes, Ana Cansado, Bruno Góis, Carlos Santos, João Azevedo, Mário Tomé, Moisés Ferreira, Pedro Soares, Simone Matos, Victor Franco Colaboraram José Casimiro Design Gráfico Rui Fazenda Periodicidade Trimestral

ESPECIAL CRISE ECONÓMICA

ALGUÉM PEDIU ÉTICA? LUÍS FAZENDA

A DESREGULAÇÃO CONSTRUÍDA PEDRO SOARES

O MARXISMO EM EXAME CARLOS SANTOS

A CRONOLOGIA DA CRISE ANA CANSADO

A RENDIÇÃO ÀS LEIS DO TRABALHO JOSÉ CASIMIRO

RECENSÃO

PALAVRAS

04 06 10 16 24 40 46 47

EDIT

CARO LEITOR

A revista A Comuna tem, a partir deste número 17, algumas mudanças. A partir de agora, A Comuna é uma revista na internet. A possibilidade de mais ampla difusão e de menores custos estão na razão desta modificação. Como revista na internet terá maior flexibilidade na saída e também no tamanho. Doravante A Comuna sairá, no mínimo, trimestralmente, mas poderá ser publicada em prazos mais curtos. De futuro A Comuna poderá também variar mais em termos de número de páginas e de artigos. A segunda mudança é que, a partir do número 17, A Comuna tem um novo director: o deputado Luís Fazenda. Luís Fazenda esteve na concepção e desde a primeira hora tem sido um activo participante da nossa revista. Como director certamente ajudará a reforçar a qualidade e a inovação marxista. Também a redacção é reforçada com novos colaboradores. Para além da revista, A Comuna (http://acomuna.net) é também agora um site com uma actualização, no mínimo semanal. É um espaço de opinião de esquerda que pretende contribuir para o debate e a renovação do marxismo. O projecto de A Comuna ganha assim um novo impulso e assume novos desafios. Aos leitores e leitoras pedimos que nos acompanhem e se inscrevam para receber no e-mail a nossa newsletter (informação regular) e assim se manterem informada/os sobre os novos artigos e revistas que vamos publicando. Esta via será também um caminho o aumento da participação e da participação da/os leitores neste projecto. Por fim sobre este número 17: desta vez A Comuna concentra-se na crise económica que afecta o mundo inteiro e mostrou a falência do neo-liberalismo, a mais importante mudança no mundo desde a queda do Muro de Berlim. A crise económica é o tema central deste número, com artigos que se debruçam não só sobre a crise e a sua evolução, mas também sobre o que ela revela e sobretudo sobre as políticas para a enfrentar
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ESPECIALCRISE

ISTOÉQUEVAIUMACRISE.
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ESPECIAL ITÁLIA ALGUÉM PEDIU ÉTICA? PEDIR ÉTICA AO CAPITALISMO É COMO PEDIR AO TIGRE PARA SER GATO DE COMPANHIA. ISTO É. A FILOSOFIA QUE VINGOU NO CAPITALISMO É A DO INDIVIDUALISMO. A VITÓRIA DO INDIVIDUALISMO É A SUPERAÇÃO DOS CONCORRENTES. A GANÂNCIA SISTÉMICA. SEMENTE DE TODA A CONCORRÊNCIA. LUÍS FAZENDA A COMUNA 07 .

MAS MESMO SOB REGIME CAPITALISTA HÁ QUE EXIGIR E CONSEGUIR UM CÓDIGO PENAL SÉRIO SOBRE AS ACTIVIDADES ECONÓMICAS. a ganância sistémica. Pedir ética ao capitalismo é como pedir ao tigre para ser gato de companhia. É por aí que se medem os ângulos de visão do processo político. semente de toda a concorrência. impondo direitos do trabalho ao capitalismo e obrigando o estado ao desempenho de funções sociais. fausto e esbanjamento das classes ociosas. a ganância não passa de um sinónimo do lucro. O socialismo. No caso. burocracia e exército. TAMBÉM POR ISSO. pretendem enevoar a consciência social e impor no tribunal de opinião a escolha entre . foi o resultado da luta dos trabalhadores. A vitória do individualismo é a superação dos concorrentes. AFUNDARAM-SE. o cinismo para exorcizar a ganância. a complexidade de percepção do mercado não disfarça que o colapso de Wall Street assenta num refinado pacote de “contos do vigário”. entende-se. destina-se precisamente a ultrapassar o constitucionalismo de matriz capitalista pelo ascendente popular no estado. a única que conhece e a única que pode sustentar. Onde falha a vontade de impor alterações radicais nos mercados financeiros abunda. A classe dominante não partilha a austeridade nem a fraternidade. que aplicaram capitais em negócios virtuais. sob influência socialista. A chamada “legislação dos direitos”. em Wall Street e não só. que liquidaram capitais próprios e rácios de solvabilidade. que usaram a gestão da fraude falsificando informações e contas. a ruptura religiosa valorizava o ofício e o lucro face à imodéstia. Tudo isso desapareceu há muito. começando na 08 A COMUNA Inglaterra e nos Países Baixos.OSREGIMES SOCIALISTAS QUE SE METERAM POR AÍ. A ética privativa e alienante da burguesia. Nestas circunstâncias tornou-se a moda do momento pedir ética aos gestores do capitalismo. E pouco mais. Não custa retomar os fundamentos ideológicos gerais das várias classes sociais. Desde os seus primórdios o capitalismo dominante precisou do estado para garantir a propriedade privada e a segurança dos mercados. entretanto. como vários dos elementos políticos. tão tóxicas como o lixo de muitos bancos. A essa função se comprometiam polícia. o pecado capital a norte do equador. Porquê? Porque as teorias do inter-classismo. isto é. A história ensina que o capitalismo pré-industrial rompeu com a feudalidade protegida por Roma utilizando a ética protestante de Lutero e seguintes reformadores. filosóficos e espirituais que conduziram às revoluções burguesas desde o século XVII. O chamado capital fictício passou à categoria de ficção. não falta quem aponte o dedo a bancos e seguradoras que cederam créditos sem garantias.PORCONTRAPONTO. apesar dos seus destroços da URSS e similares.OSMARXISTASNÃODEFENDEM. O ESTADO É O PRIMADO DA LEI E A NORMA PARA OS COMPORTAMENTOS CONSIDERADOS ILÍCITOS. Por agora. A filosofia que vingou no capitalismo é a do individualismo. bem vistas as coisas. é que abriu caminho à necessidade do socialismo. A condenação moral da ganância anda próxima do antigo repúdio da agiotagem mas. É CERTO QUE NÃO HÁ ESTADOS NEUTRAIS DO PONTO DE VISTA SOCIAL. não falta quem aponte o dedo a banqueiros e gestores sem escrúpulos. somas gigantescas de dinheiro nesse sector privado para impedir uma colossal bancarrota em dominó. de vários modos. Cada constituição é um pacto social vinculando a burguesia a reconhecer as conquistas populares dessa época histórica. A emergência dos estados constitucionais e dos regimes democráticos exprimem precisamente um compromisso de classes. A tempestade que se abateu sobre o sistema financeiro internacional levou os estados a injectar. Líderes políticos e religiosos alertaram para a necessidade de um “código de valores”.ÉTICASDEEST ADO. A burguesia é basicamente parasitária. Hoje. Afinal.

se faz favor. essa sim. tabelas de salários máximos e.. Os marxistas não defendem. a começar pelos administradores dos bancos centrais. O que diria Merkel sobre a discricionariedade da moeda-padrão.. Apliquem isso. Vejase bem o nosso cepticismo sobre o “homem novo” da economia de mercado. desde a Revolução Francesa.ESPECIALCRISE O PROBLEMA IMEDIATO QUE A ESQUERDA SOCIALISTA ATACA É O DA AUSÊNCIA DE POLÍTICA. não substitui o papel de redistribuição do estado. a Jardim Gonçalves. a aplicação de impostos progressivos sobre o capital. Esse sempre foi um adquirido dos princípios da soberania popular. da falta de estado. A polémica entre fazer a caridade ou fazer a cidade vem de tempos imemoriais. Os polícias do mercado financeiro naturalmente só podem estar vinculados ao Estado. da descontinuidade da democracia. Exige-se pelo menos o encerramento dos off-shores. DA DESCONTINUIDADE DA DEMOCRACIA. ser decidida apenas pelos EUA segundo a moral da extorsão mundial? Então essa não é a maior falta de ética no comércio mundial? O problema imediato que a esquerda socialista ataca é o da ausência de política. furtando-se ao estado é de facto a dependência do mercado... qualquer que ela seja é classicamente uma competência de soberania. Repare-se como os partidos da direita tratam o delinquente da bolsa de valores ou o delinquente da rua. para serem cúmplices da crise financeira. estão imunes à política que os cidadãos votam e são parêntesis aos poderes dos estados. Dir-se-ia que aqui ou além há um milionário filantropo. Por várias razões: a sociedade. por contraponto. não absolve o resto da ganância do poder económico e. a maioria do trabalho. o capitalista correcto e o capitalista delinquente. paraísos fiscais. A pseudo independência de que gozam. o capital de queixa pela ética desigual prepara e aduba a consciência socialista. também por isso. tem uma moral evolutiva e uma exigência de comportamento que a lei deve traduzir. O altruísmo utilizando parte de uma grande fortuna. a actividade de polícia. Não vale a pena vir falar de moralização e regulação sem medidas que devolvam ao poder político algum controlo sobre o poder económico. PARAÍSOS FISCAIS. Querem a sua vida nos bastidores do teatro da política. DA FALTA DE ESTADO. Os regimes socialistas que se meteram por aí. Alguém que pediu ética podia começar já por aqui A COMUNA 09 . Cada off-shore é uma caverna de Ali Babá e de milhares de ladrões. É certo que não há estados neutrais do ponto de vista social. O estado é o primado da lei e a norma para os comportamentos considerados ilícitos. afundaram-se. éticas de estado. CADA OFF-SHORE É UMA CAVERNA DE ALI BABÁ E DE MILHARES DE LADRÕES. Contudo. sobretudo. OS OFF-SHORES.. As políticas de ataque à economia de casino impõem-se com a força da evidência. Quando o Bloco de Esquerda é acusado de “moralismo” é porque a burguesia não quer escrutínio sobre a sua élite de gestores e políticos.. a expropriação de expropriadores corruptos. Os off-shores. E os oráculos do momento deviam explicar porque é que o estado paga a peso de ouro as entidades de supervisão. Os políticos do sistema que se queixam agora da ganância de alguns vizinhos do seu condomínio fecharam os olhos aos crimes contra a humanidade que foram perpretados pelo Fundo Monetário Internacional desde a década de 80 e que catalizaram a barbárie da acumulação – hoje genericamente descrita como financeirização da economia. o dólar. como são os casos de Champallimaud ou Gulbenkian. Mas mesmo sob regime capitalista há que exigir e conseguir um código penal sério sobre as actividades económicas. ESTÃO IMUNES À POLÍTICA QUE OS CIDADÃOS VOTAM E SÃO PARÊNTESIS AOS PODERES DOS ESTADOS. confesso da Opus Dei e burlão do BCP. mesmo em várias circunstâncias.

10 A COMUNA .

ESTAS SÃO ENTIDADES COM A FUNÇÃO DE RETIRAR AOS PODERES PÚBLICOS. AO ESTADO. SURGIU DE ENTIDADES OU AUTORIDADES REGULADORAS COM CAPACIDADE DE DECISÃO ALEGADAMENTE INDEPENDENTE.ESPECIAL CRISE A DESREGULAÇÃO CONSTRUÍDA A DESREGULAÇÃO. POR PARADOXAL QUE PAREÇA. NA REALIDADE. É A TEORIA DA AUTO-REGULAÇÃO DOS MERCADOS. A CAPACIDADE DE INTERVIR NOS MERCADOS. PEDRO SOARES A COMUNA 11 .

vai ao ponto de defender que nenhuma instituição financeira deve escapar à regulação e à supervisão e assevera que as agências de “rating” devem ser reguladas. TAL COMO A CONHECEMOS DESDE OS ANOS 80. Será que a falta de regulação foi apenas uma “falha”? E de que tipo de regulação falam estes “cristãos-novos” convertidos à pressa na fé de um mundo ideal regulado? O próprio Sarkozy. Com a espada da crise a pairar sobre o capitalismo. aos sistemas públicos e à capacidade reguladora dos Estados? Não foi essa a ruptura que quiseram empreender contra o anterior período de 30 anos de crescimento económico do pós-guerra? De facto.ESTA CRISE VEM QUESTIONAR A MÍTICA IDEIA DE QUE A GLOBALIZAÇÃO CAPITALISTA. esta crise vem questionar a mítica ideia de que a globalização capitalista. Chega a tornar-se surpreendente assistir a destacados responsáveis governamentais e líderes do sistema financeiro mundial responsabilizar a falta de regulação como a origem da crise que hoje vivemos. das novas formas de organização da produção e de um comércio que já não podia ser confinado a qualquer tipo de fronteiras. tais declarações teriam sido consideradas pelos apologistas da “mão invisível” como verdadeiras heresias. ao “wellfare state”. os liberais não têm outro remédio. em nome da Europa. Há uns meses atrás. DAS NOVAS FORMAS DE ORGANIZAÇÃO DA PRODUÇÃO E DE UM COMÉRCIO QUE JÁ NÃO PODIA SER CONFINADO A QUALQUER TIPO DE FRONTEIRAS. Parecem transmutar-se em ferverosos patrocionadores da regulação e nos mais extremosos defensores da intervenção do Estado no mercado financeiro. tal como a conhecemos desde os anos 80. 12 A COMUNA Mas a liberalização e a desregulação não eram o estado natural da globalização? Não foram o suporte ideológico para todos os ataques. em todas as latitudes. os “hedge-funds” rigorosamente supervisionados e os “offshores” fechados. era inevitável que fosse liberal e desregulada porque decorria objectivamente das novas tecnologias de informação. também não é menos verdade que a liberalização e a desregulação não eram dados . bem como de fluxos financeiros. Sendo certo que a mera divisão da economia mundial em estreitas economias internas nacionais já não correspondia à nova realidade da circulação mundial de bens e mercadorias. ERA INEVITÁVEL QUE FOSSE LIBERAL E DESREGULADA PORQUE DECORRIA OBJECTIVAMENTE DAS NOVAS TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO.

A CAPACIDADE DE INTERVIR NOS MERCADOS. em conjunção com o FMI. a crescente desregulação da actividade económica. submetida à especulação financeira que usou e abusou das novas prerrogativas. o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio. para a desregulação e liberalização do sector financeiro. Na realidade. a partir daqueles governos. SÃO ENTIDADES COM A FUNÇÃO DE RETIRAR AOS PODERES PÚBLICOS. na sequência da crise de então e do choque petrolífero de 1974. Basicamente. em 1980. o motor que fez avançar esta economia global capitalista. são entidades com a função de retirar aos poderes públicos. e de Ronald Reagan. surgiram entidades ou autoridades reguladoras com capacidade de decisão alegadamente independente.ESPECIAL CRISE NO CAMINHO DA DESREGULAÇÃO. No caminho da desregulação. NA REALIDADE. Estes três vectores inter-relacionados constituíram. AO ESTADO. lembrando a alegoria de Orwel. nem inquestionáveis. esta globalização é uma construção política que teve um enorme impulso com a eleição de Margareth Thatcher. ao Estado. por paradoxal que pareça. em 1979. nas últimas décadas do século passado. Por seu lado. inelutáveis. o mercado passou a ser a variável determinante das autoridades reguladoras e dos bancos centrais que assumiram como única missão proporcionar regras concorrenciais equitativas de acesso do capital aos mercados. O ataque aos sindicatos e a precariezação das relações laborais atingiu duramente o velho “contrato social” do pós-guerra. Bem pelo contrário. Efectivamente. a liberalização do comércio e dos investimentos transnacionais e a onda de privatizações das empresas e dos sistemas públicos impuseramse por orientação política dos mais poderosos actores mundiais. Foi dado A COMUNA 13 . Porém. Surgiram fortes pressões. Este movimento só foi possível pela acção concreta dos próprios governos dos países mais ricos. a capacidade de intervir nos mercados. não garantem que o funcionamento dos mercados assegure mínimos de equidade social e até acham que esse é um assunto mais ou menos estratosférico. POR PARADOXAL QUE PAREÇA. tratou-se do triunfo dos mercados sobre os governos. É a teoria da autoregulação dos mercados. desde logo dos mercados financeiros. A ofensiva privatizadora no Reino Unido foi avassaladora. SURGIRAM ENTIDADES OU AUTORIDADES REGULADORAS COM CAPACIDADE DE DECISÃO ALEGADAMENTE INDEPENDENTE. É A TEORIA DA AUTO REGULAÇÃO DOS MERCADOS.

de outro modo. mesmo que ataviados com o fato da chamada “terceira via”. Vindas de quem vêm. Na sua desregulação. decididas e postas em práticas pelos governos e pelas instituições económicas e financeiras internacionais. o sinal. Os governos social-democratas claudicaram e adoptaram no essencial o programa neo-liberal. as novas tecnologias e as empresas só por si não teriam tido capacidade de gerar esta economia liberal globalizada. chega a ser estranho ouvir a os actuais dirigentes mundiais e responsáveis pelo sistema financeiro a zurzirem na desregulação. A TENDÊNCIA HISTÓRICA DA QUEDA DA TAXA DE LUCRO É INTRÍNSECA DO CAPITALISMO. Nos EUA. Os neoliberais tiraram os esqueletos dos guarda-vestidos e hegemonizaram ideologicamente o mundo. sugerem a moralização do sistema. . de facto. mas o que ambicionam é salvar a ficção em que se tornou a auto-regulação dos mercados. deixaram de se confrontar com quaisquer 14 A COMUNA constrangimentos significativos. E. sem as políticas de desregulação. e que sempre esteve nas suas agendas políticas liberais. As operações nos “offshores” ou a gestão das carteiras de fundos de alto risco. Em suma. para todo o mundo. nos anos 80. Por isso. estas políticas foram pensadas. A RESPOSTA NEOLIBERAL À CRISE É MAIS DO MESMO A raiz da chamada “nova economia” encontra-se precisamente na desregulação da economia e na liberalização das transacções progressivamente alargadas à generalidade do mundo. por exemplo.AS SEQUELAS DEPRESSIVAS DAS ÚLTIMAS TRÊS DÉCADAS DEMONSTRAM QUE O CAPITALISMO MUNDIAL ENTROU NUMA FASE DE CICLOS CADA VEZ MAIS CURTOS ENTRE CRISES E COM MENORES TAXAS DE CRESCIMENTO. Ou. na Alemanha. As entidades da auto-regulação nada fizeram sobre os agora tão falados produtos financeiros “tóxicos” e o recente caso português do BCP foi a demonstração da inutilidade das autoridades de supervisão. que mais não é do que a fantasiosa autoregulação. privatização e liberalização. desta forma. A desregulação total dos mercados financeiros na City de Londres ocorreu em 1987. que carácter terão aquelas críticas à desregulação? Poder-se-ia dizer que querem mudar tudo. para manter tudo na mesma. o controlo transfronteiriço de capitais foi abolido na década de 70 e.

a que realmente importa porque foi a que afastou o Estado do processo de controlo sobre os mercados. as declarações dos responsáveis mundiais são de uma hipocrisia extrema. uma espécie de raposa a tomar conta do galinheiro. A resposta à crise terá de superar o modelo neoliberal. Foi intencional. desde que o essencial não seja tocado. com novos mercados e com o sistema financeiro a apropriar-se de forma brutal da mais-valia produzida no mundo. Em tempos de crise. privatização e liberalização são nucleares para que aquele programa liberal alcance os seus objectivos. Não se tratou de um acidente de percurso. transmitir a ideia de uma acção moralizadora sobre os prevaricadores e adiantar pias orações de reforço das supervisões sobre a finança. Contraporem. O programa neo-liberal procura compensar estas contradições do sistema capitalista e garantir o processo de acumulação com a ampliação da base de exploração. As sequelas depressivas das últimas três décadas demonstram que o capitalismo mundial entrou numa fase de ciclos cada vez mais curtos entre crises e com menores taxas de crescimento. as políticas de desregulação. HÁ DOIS ELEMENTOS ESSENCIAIS QUE MARCAM A DIFERENÇA: MECANISMOS DE REGULAÇÃO DOS MERCADOS SOB RESPONSABILIDADE POLÍTICA DOS GOVERNOS E COMBATE À FINANCEIRIZAÇÃO DA ECONOMIA. foi construída segundo uma perspectiva ideológica liberal e teve uma acção política concreta que a operacionalizou. A desregulação. E todos convergem no essencial. A tendência histórica da queda da taxa de lucro é intrínseca do capitalismo. Há dois elementos essenciais que marcam a diferença: mecanismos de regulação dos mercados sob responsabilidade política dos governos e combate à financeirização da economia A COMUNA 15 .ESPECIALCRISE A RESPOSTA À CRISE TERÁ DE SUPERAR O MODELO NEOLIBERAL. que é para manter: os mercados financeiros continuarão a ser determinantes na economia e os governos manterão como critério primeiro os interesses do mercado. De facto. o sistema de regulação e de supervisão continuará a ser o que interessa ao sistema financeiro: a chamada auto-regulação. igualmente. Portanto. vale criticar os desmandos de alguns financeiros. Como já foi referido. de modo a legitimar as medidas de apoio aos bancos suportadas pelos contribuintes. Vale. apelos ao reforço da auto-regulação é apenas cosmética para manter tudo igual. como saída para a crise. que serão apenas a imagem mais visível da actual crise global.

CARLOS SANTOS 16 A COMUNA . E SOBRETUDO DAS CARICATURAS QUE RESTAM E QUE TUDO CONFUNDEM.O MARXISMO EM EXAME A FALÊNCIA DO NEOLIBERALISMO EXIGE QUE OS MARXISTAS APRESENTEMUMPROGRAMA RENOVADOPARAALUTAPELOSOCIALISMO E DE IMEDIATO DEIXEM CLARO O QUE DIFERENCIA AS SUAS PROPOSTAS DAS DO SOCIALISMO REAL DO PASSADO.

ESPECIAL CRISE A COMUNA 17 .

Aí o neoliberalismo já tinha apresentado provas e progressivamente em todas as sociedades latino-americanas a rejeição crescia. IDEOLÓGICA E ECONÓMICA. o debate sobre o futuro da sociedade humana voltou à ordem do dia para milhões de pessoas. a Coreia do Norte. Nos últimos quase vinte anos vivemos um tempo de vitória do capitalismo. bem lançada pelos fóruns sociais. luta política. até a palavra de ordem “Outro mundo é possível”. A América Latina. apesar de apresentadas como exemplo de 18 A COMUNA futuro por muitos partidos comunistas. não deixam de constituir exemplos de caminhos a evitar no futuro. o marxismo é de novo posto à prova: a luta pela mudança social passa rapidamente de um problema de minorias activas. como assinalou. O HUMANA VOLTOU À Estamos a assistir à falência do neoliberalismo. Joseph Stiglitz.A CRISE FINANCEIRA O EQUIVALENTE AO QUE FOI A QUEDA DO MU INDEPENDENTEMENTE DA EVOLUÇÃO CONCR LUTA POLÍTICA. é para o capitalismo actual o equivalente ao que foi a queda do muro de Berlim para o socialismo real. Depois. pela maioria das pessoas. como nós. era uma proposta para minorias activas. a proposta socialista. O capitalismo aparecia triunfante com a queda do muro de Berlim e com as transformações em Moscovo. A crise financeira mundial. e bem. ideológica e económica. Quem. com a imposição das ditaduras sanguinárias de Pinochet. não podia evitar trazer gravada na testa a marca da derrota do socialismo real. o Vietname ou Cuba. Os regimes que se continuam a dizer socialistas. não partilhava desta visão e procurava apresentar outra perspectiva. Stroessner e muitos outros. Videla. Independentemente da evolução concreta da crise e da luta em torno dela. por muito que dele tivéssemos discordado. Até há pouco. A grande maioria das pessoas o que via é que o socialismo real fora derrotado. da liberdade de mercado como ideal da sociedade. para um problema de milhões que buscam alternativa ao que faliu. E isto acontecia para todo o mundo com uma excepção: a América Latina. Para a grande maioria das pessoas. por ser historicamente o quintal da potência dominante. sendo um tema para cada vez mais pessoas. regimes indesejáveis. como saída para a humanidade. a América . Neste momento de derrota do pensamento único mais prejudicial à humanidade. não deixava de ser um tema pouco atingido por maiorias. Na América Latina fez-se a prova prática da aplicação da teoria realista de Henry Kissinger. como a China. o que resta a dizer-se socialista são caricaturas dos primeiros exemplos de regimes dito socialistas. foi o laboratório dos modelos extremados de Washington e as teorias cedo fizeram lá a prova da vida. o socialismo tinha sido derrotado pela queda do muro de Berlim e pelo desmoronamento dos antigos regimes da Europa de leste. como o PCP.

ainda com Pinochet. não foram só alguns bancos e instituições financeiras que ruíram. a América Latina foi laboratório para as privatizações. Quem defende o socialismo como alternativa de sociedade tem de apresentar o seu programa concreto. Esta situação existia na América Latina e por isso progressivamente fomos assistindo à queda sucessiva de governos e regimes reaccionários. dominante financeira. mas sobretudo pelo predomínio económico. que entrou em crise.o Fórum Social Mundial nasceu em Porto Alegre. não só por meios militares e de segurança. Com a queda das ditaduras. substituídos por novas correntes políticas mais à esquerda. compra de propriedade pelas companhias norteamericanas e regulação pela dívida externa e pelo dólar. apesar da brutal intervenção dos seus países nos mercados financeiros e A COMUNA 19 . desmantelando os sectores nacionalizados em vários países.ESPECIALCRISE A MUNDIAL É PARA O CAPITALISMO ACTUAL URO DE BERLIM PARA O SOCIALISMO REAL. Collor de Melo e Fernando Henrique Cardoso no Brasil e muitos outros noutros países. diferentes entre si. Agora o lema “Outro mundo é possível” está no centro do debate ideológico. Caíam as ditaduras. e depois da queda das ditaduras. na defesa do “mercado livre”. Mesmo quando falam em mudanças como faz Sarkozy. Por isso. que no caso e no tempo significavam. foi o capitalismo actual. só lá existia. com Menem na Argentina. ou das saídas para a crise. mas com um ponto em comum: uma maior independência de Washington e nalguns casos. o centro das suas preocupações está na defesa do statu quo. Washington procurava lançar no lixo da história os nacionalismos latino-americanos. Se dúvidas houvessem desta transformação profunda que estamos a viver. Latina foi também o laboratório da aplicação das teorias de Hayek e Milton Friedman no Chile. uma oposição declarada ao centro do império. Bush ou Sarkozy afadigam-se em reafirmar as capacidades e as conquistas do capitalismo neoliberal. independentemente da sua compreensão ou não do que se está a passar. porque há milhões de pessoas à procura de resposta. unanimemente considerada a maior crise desde a Grande Depressão de 1929. mas aparentemente também as veleidades nacionalistas e o domínio imperialista assumia a sua expressão normal e preferível. CRETA DA CRISE E DA LUTA EM TORNO DELA. as preocupações dos dirigentes políticos do império são claras. o pensamento único neoliberal. Com a actual crise financeira mundial e o nível que atingiu. DEBATE SOBRE O FUTURO DA SOCIEDADE ORDEM DO DIA PARA MILHÕES DE PESSOAS. Mas se esta situação se verificava na América Latina. neoliberal e global. O resultado prático não podia ser mais desastroso: crises financeiras que sucessivamente acabaram por abalar toda a região. Na viragem do século e do milénio a América Latina tinha visto a falência concreta do neoliberalismo . E isso não passou despercebido às grandes massas de milhões de pessoas. à administração e à política norteamericana. no resto do mundo dominava o capitalismo triunfante.

depois do quase fim da libertação dos povos coloniais assumindo a independência. O falhanço do artigo é que desta vez não 20 A COMUNA conseguem justificar a falência. com as resistências ás privatizações. choques petrolíferos (com subida drástica dos preços de petróleo). sobretudo a toda a Europa ocidental. QUEM DEFEND SOCIEDADE TEM DE APRESENTA HÁ MILHÕE nos bancos. O capitalismo enfrentava então tremendo desafio: Estagflação. . O exemplo da pequena Islândia fica como paradigma. só não aborda um problema: porque é que a superior “liberdade” do mercado põe em risco a liberdade e a própria sociedade. como chamam às intervenções estatais nos mercados ao longo dos últimos meses. que têm de defender as “medidas extremas em defesa da liberdade”. Naturalmente. que ficarão privados dessa fonte de lucro à custa do bem estar social. E entrava em crise no preciso momento em que os povos aspiravam a mais direitos. este artigo de fundo desta conhecida revista do main streaming neoliberal era totalmente dedicado a defender a doutrina neoliberal. então “os políticos de Beijing a Berlim” sentirão justificação para resistir à liberalização e as “soluções de mercado para. o “livre mercado financeiro” não só teria globalmente falido. REAGAN. Para quem tivesse dúvidas o esclarecimento clarifica. A revista The Economist de 18/24 de Outubro tinha como título de capa “Capitalism at bay” (“Capitalismo no estaleiro”).O LEMA “OUTRO MUNDO IDEOLÓGICO. Depois da extensão do Wellfare State a muitos países. com a falta de “liberalização”. THATCHER E DENG O neoliberalismo impôs-se no início dos anos 80 como resposta do capitalismo à profunda crise em que mergulhara ao longo da década de 70. por exemplo saúde e educação” ficarão em causa. Sem a intervenção do Estado. O mais importante é mesmo o reconhecimento de facto implícito de que o capitalismo neoliberal desregulado e privatizador abriu falência. Mas o objectivo da The Economist é claro quando refere que se a ideia de que “o consenso de Washington de desregulação e privatização” levou ao desastre mundial vingar. Antes os períodos de estagnação eram acompanhados por quedas de preços e não por subidas. a reafirmar a pretensa superioridade do “mercado livre”. como teria levado à falência os próprios Estados. o que certamente preocupa muito a revista e os mercados financeiros. mas pretendem sobretudo dizer que elas não se equivalem às nacionalizações de Miterrand. antes pelo contrário. ao arrepio de todas as suas doutrinas. o capitalismo tinha entrado na crise e no impasse. Foi o tempo da estagflação. palavra inventada para juntar estagnação com inflação. que significava a grande conquista de direitos sociais pelos trabalhadores. um fenómeno novo surgido na década de 70.

serviços e capitais. com a desregulamentação desenfreada do mercado de trabalho. à excepção do controle estatal e nacional sobre os mercados de câmbios e de capitais.. que garantiu o aumento da taxa de exploração a nível mundial. que tinham chegado à independência e exigiam uma nova ordem mundial e uma mais justa repartição da riqueza. Rússia. América Latina. Se Reagan significou a hegemonia norte-americana no processo e com ela a garantia do ímpeto na direcção das mudanças. E com estes acontecimentos alterou-se de facto a chamada ordem mundial. Os baixíssimos salários chineses passaram a concorrer no mercado de trabalho a nível quase global e baixaram o preço da força de trabalho. o lema “livre mercado”. Foi o tempo em que a nova doutrina abriu caminho e se impôs. O programa do neoliberalismo foi claro e simples: privatizações. Este foi o programa imposto pelos governos dos Estados Unidos e da Europa. da circulação de bens. PORQUE ES DE PESSOAS À PROCURA DE RESPOSTA. triunfou a globalização capitalista. com baixíssimos salários e quase sem greves nem lutas sociais. Para muitos essa nova ordem foi entendida como a afirmação da hegemonia unilateral norte-americana. Argentina. primazia para a finança. Deng Xiao Ping. e em particular o quebrar a espinha do movimento operário e sindical britânico. Este programa tornou-se vencedor para milhões de pessoas com o colapso da União Soviética e do bloco de Leste e a sua adesão ao capitalismo selvagem. A COMUNA 21 . aplicado zelosamente por todas as estruturas supranacionais até então criadas. acabou por assegurar a integração de imensas massas de milhões na exploração mundial e com ela a garantia do prosseguimento do processo neoliberal. queda da taxa de lucro e fortes movimentos reivindicativos sociais. A palavra decisiva globalização. A integração europeia garantiu a continuidade das reformas e a campanha da liberalização de mercados.ESPECIALCRISE É POSSÍVEL” ESTÁ NO CENTRO DO DEBATE NDE O SOCIALISMO COMO ALTERNATIVA DE AR O SEU PROGRAMA CONCRETO. Ao longo da década de 90 o capitalismo neoliberal atravessou diversas crises em vários países e continentes: Japão. com as suas sucessivas reformas. mas claramente em articulação com outras potências para defender a liberdade total dos capitais globalizados. livre circulação de bens. a UDP caracterizou-a como imperialismo global: um sistema de potências articuladas entre si na defesa do capitalismo global.. Thatcher marcou o afrontamento e derrota dos movimentos sociais. Foi a integração da China no mercado mundial. seguindo em quase tudo as pisadas de EUA e Grã-Bretanha. normalmente não se faz a justiça devida a outro pai da liberalização dos últimos 30 anos: Deng Xiao Ping. Ásia. contra povos e trabalhadores e. o neoliberalismo. dos trabalhadores contra a exploração e dos povos colonizados. México. o impulsionador da liberalização na China. terminou finalmente a época da guerra fria e da disputa frenética entre as duas superpotências. em que o centro desse império têm sido os Estados Unidos. Banco Mundial e acordos do GATT. como FMI. serviços e capitais a nível mundial. ou entretanto transformadas. mais tarde OMC. No entanto. Características semelhantes dessas crises: todas com origem financeira. E teve em Reagan e Thatcher os expoentes práticos na governação.

e passados quase trinta anos. tal como o temos conhecido. O balanço do neoliberalismo é arrasador. o futuro do capitalismo parece depender muito e cada vez mais das grandes fábricas do mundo. ao ponto dos salários dos grandes gestores serem hoje centenas de vezes superiores aos salários médios dos trabalhadores comuns. de tão negativo que é. de repente não tiveram dinheiro para pagar os créditos. Muitos produtos financeiros não passam de bilhetes de lotaria sem prémio. nos vários continentes do mundo. com centro nos Estados Unidos. TEMPO DE APRESENTAR PROGRAMAS A falência do neoliberalismo não significa per si transformações . OS SALÁR DOS PAÍSES DO MUNDO Agora. Inúmeros países. embora sem se conhecer ainda em que profundidade. a economia mundial transformou-se predominantemente numa economia de casino. foram lançados na mais tremenda e prolongada crise de que há memória. mergulhado num vespeiro de guerras sem saída à vista (Iraque. em particular da China e da Índia. Somália). mesmo nos países onde os direitos eram maiores. o dólar e as instituições internacionais. com a Europa a eles acorrentada pela NATO. com o predomínio mundial do dólar e dos mercados financeiros. com forma nova. Mas dificilmente tudo ficará como dantes na relação de forças mundial. os salários reais baixaram e. A queda começou no mercado subprime. Bush que levou o neoliberalismo e o reaccionarismo ao paroxismo. Afeganistão. E. porque os baixos 22 A COMUNA rendimentos não permitem pagar o crédito. milhões de pessoas obrigadas a comprar casa para viver. também ela com origem nos mercados financeiros e com repercussão certa na economia. A estreiteza do capitalismo ficou a nu: a finança entrou em crise. as velhas crises voltaram. acabou por levar os Estados Unidos à maior derrota de que há memória: derrota militar do maior e mais bem apetrechado exército do mundo. assistimos à primeira crise global. serviços e capitais do mundo e numa grave crise financeira e económica. império económico assente na maior dependência de mercadorias. no império global. O leque salarial alargou-se. Com o neoliberalismo foram privatizados os sectores fundamentais da economia em quase todo o mundo. nesta crise.COM O NEOLIBERALISMO FORAM PR DA ECONOMIA EM QUASE TODO O M DIREITOS. em dois terços dos países do mundo o rendimento das famílias diminuiu. veio a prova do que muitas pessoas e correntes de esquerda apontavam. a precariedade generalizou-se. Os trabalhadores perderam direitos. Hoje. em dimensão superior e desta vez global. hegemonia afirmada por uma doutrina unilateral. como recentemente salientou um relatório da OIT (“Relatório sobre o trabalho no mundo: desigualdade de rendimento na era da globalização financeira” de Outubro de 2008). A PRECARIEDADE GENER DIREITOS ERAM MAIORES. A sobreprodução é real. em que já nem os seus mentores acreditam.

O socialismo tem de ser também a superação do capitalismo na democracia e não a sua negação. o pior que poderíamos fazer na luta pelo socialismo seria trocar a solidariedade com a luta dos operários chineses contra a exploração. ao contrário da crítica que lhe tem sido apontada. mas é de todo impossível construir o socialismo num só país. pela solidariedade com o seu governo só porque se diz socialista. e sobretudo das caricaturas que restam e que tudo confundem. O marxismo. com as lutas sociais do povo chinês por democracia. A luta pelo socialismo terá também de responder ao esgotamento do modelo anti-ambiental do capitalismo actual e às desgraças a ele inerentes: alterações climáticas. Por isso. excesso de lixo. nomeadamente das minorias. as propostas políticas e a luta pelo socialismo requerem análise concreta da realidade actual e têm de ser uma resposta aos problemas de hoje. tais as enormes contradições que o mundo enfrenta. contendo as lições do passado. da política. das pessoas. EM DOIS TERÇOS O RENDIMENTO DAS FAMÍLIAS DIMINUIU. No entanto. A resposta à actual crise não se encontra na reedição da Catástrofe iminente (Catástrofe iminente e os meios de a conjurar de Lénine. ou até do aniquilamento. económicos e ambientais. os marxistas que queiram lutar pelo socialismo têm de deixar claro que a sociedade nada tem a ver com o modelo do PCC. Mas. Não estamos livres de novas barbáries. ou com os velhos modelos do socialismo real A COMUNA 23 . conta na transformação do mundo. Na história podemos colher preciosos ensinamentos. tem de garantir as liberdades garantidas no capitalismo e ir mais além. sociais e políticas positivas para a humanidade. A falência do neoliberalismo exige sim que os marxistas apresentem um programa renovado para a luta pelo socialismo e de imediato deixem claro o que diferencia as suas propostas das do socialismo real do passado.ESPECIALCRISE PRIVATIZADOS OSSECTORES FUNDAMENTAIS MUNDO. não é determinista. e que assenta que nem uma luva nos socialismos reais. Não esquecemos que a Grande Depressão de 29 esteve na origem da segunda guerra mundial. E nessa proposta será necessário incluir novos dados decorrentes da actual situação do mundo. MESMO NOS PAÍSES ONDE OS ÁRIOS REAIS BAIXARAM E. na situação actual. Naturalmente que o socialismo por que lutamos exigirá o controlo estatal dos grandes meios económicos e serviços públicos. temos de deixar claro que lutamos pela transformação social. tem de respeitar direitos. nem encara a evolução económica como algo inevitável. ou na repetição de lemas e propostas de 1935 ou de 1975. No actual quadro mundial. um socialismo que tem de apresentar garantias de que não se trata de um modelo susceptível de repetir erros passados. independentemente da sociedade. Tem de garantir a liberdade religiosa e a total separação entre o Estado e as igrejas. direitos sociais. 1917). OS TRABALHADORES PERDERAM ERALIZOU-SE. A China é um grande país. um país pode ter um governo progressista. dependência do petróleo. nos tempos actuais não são possíveis saídas económicas desligadas do mundo. aspiramos a uma sociedade socialista.

24 A COMUNA .

ESPECIALCRISE CRONOLOGIA DA CRISE A ACTUAL CRISE GLOBAL QUE COMEÇOU COM O CRÉDITO HIPOTECÁRIO (SUBPRIME) NOS EUA EM 2007 E SE ALASTROU À EUROPA E AO RESTO DO MUNDO JÁ PROVOU SER CAPAZ DE ABALAR INSTITUIÇÕES E PAÍSES CUJAS FUNDAÇÕES ECONÓMICAS PARECIAM SÓLIDAS. ANA CANSADO A COMUNA 25 . DE SEGUIDA LISTAMOS ALGUNS DOS ACONTECIMENTOS MAIS MARCANTES DESTA CRISE.

A Ownit Mortgage Solutions Inc. 03 JAN.07 A New Century Financial a segunda maior instituição especializada em crédito hipotecário de risco (Subprime) americana declara falência deixando desprotegidos aproximadamente 7. uma empresa californiana especializada em emprestar dinheiro a client es com baixos rendimentos.000 trabalhadores. 02ABR.07 26 A COMUNA . em diferentes estados. no desemprego e enormes dividas. 05FEV. declara falência deixando 700 trabalhadores de quinze sucursais. como por exemplo 93 milhões de dólares a Merrill Lynch. a 15ª maior ins tituição financ eira especializada em crédito de hipotecário de risco (Subprime) declara falência.07 A Mortgage Lenders Network USA Inc.

07 17 de Agosto – A Reserva Federal (Banco Central dos EUA) corta em 0.07 O BNP Paribas.07 O banco Bear Stearns informa os seus investidores de que não r eceberão dividendos de dois dos seus Fundos de Investimento (Hedge Funds) por estes estarem ligados ao credito hipotecário (Subprime). Com o objectiv o de travar a crise o BCE. um banco francês. A COMUNA 27 .5 a taxa de juro para empréstimos a bancos para 4. lança uma oper ação e xcepcional de refinanciamento injectando 95 mil milhões de euros no sector financeiro para aumentar a liquidez.ESPECIALCRISE 22JUN.75%. suspende três dos seus Fundos de Investimento (Hedge Funds) por falta de financiamento. 09AGO. em linha com as políticas americanas. 17AGO.

28 A COMUNA .07 O banco suíço UBS anunciou uma redução de 7.14 SET. um grande banco britânico. 01OUT.07 O banco Northern Rock. 06OUT. O Citigroup.000 postos de trabalho. ins tituição americ ana anunciou também perdas no valor de 3.4 mil milhões de dólar es.07 O Pr esidente Geor ge W .1 mil milhões de dólares. Bush anunciou um plano para ajudar as instituições em crise e a Reserv a Federal concedeu um conjunto de empréstimos a div ersos bancos. O resgate pago pelo banco central do Reino Unido foi um indicador do peso que a crise do mercado hipotecário (Subprime) americano se estava a expandir par a outr os es tados. depois de ter revelado perdas no valor de 3. recorre ao Banco de Inglaterra para um empréstimo de emergência porque já não consegue financiamento no mercado de crédito.

4 mil milhões de euros. Princ e II. chefe executivo da Merrill Lynch.ESPECIALCRISE E. demitiu-se após uma desvalorização da empresa no valor de 8.07 05NOV. A COMUNA 29 . 06DEZ.07 É a v ez de Charl es O. 30OUT. executivo chefe do Citigr oup se demitir face à acentuada quebra de lucros e uma desvalorização de 5. Stanley O'Neal.5% para facilitar a liquidez nos empréstimos entr e banc os.07 O Banco de Inglaterra face à subida da inflação e à descida do crescimento económico. optou por baixar a taxa de redesconto para 5.9 mil milhões de euros.

Bear Stearns foi adquirido pela JP Morgan Chase que c omprou as acções por um valor 10% abaixo do valor de mercado e com a ajuda da Reserva Federal adquiriu o banco por dois dólares por acção. quando dias antes a cotação estava nos 30 dólares.22JAN. 17MAR.08 O Fundo Monetário Int ernacional alertou para que as per das resultantes da crise financeira podem acumularse até um bilião de dólares à medida que se alas tra a turbulência americana e esta ameaça o globo.08 A Reserva Federal anuncia descida na taxa de redesconto. a taxa pela qual o Banc o Centr al empr esta aos restantes banc os c omerciais. O FMI diz ainda que os seus efeitos se irão sentir nos anos vindour os. 30 A COMUNA .08 08ABR.

08 As aut oridades financeiras dos Estados Unidos prestam assistência às empresas do sector hipotecário Fannie Mae e Freddie Mac. 14JUL.2 biliões de dólares em financiamento e são vit ais para o funcionamento do mer cado imobiliário americano. Ambas as empresas são responsáveis por cerca de 5. 13JUL.08 O Banco de Inglaterra propõe aos bancos comerciais que troquem as dívidas de hipotecas por títulos da dívida pública potencialmente mais seguros.ESPECIALCRISE 21ABR..08 COMUNA 31 AA COMUNA 31 . que tinha sido criado como um banco de garantia para os empr éstimos da Countrywide Financial. foi o segundo maior banc o dos EUA a f alir. Após uma r etirada maciça dos depósitos pelos seus clientes o banco IndyMac Federal .

07SET.08 O Bank of America adquire um dos principais bancos de investimento americanos. um gigante do sector bancário sediado em Londres. Após a notícia de que a t axa de desemprego nos EUA subir a para 6. 14SET. alertou que as c ondições dos mercados financeiros são as mais duras das últimas décadas e anunciou ter sofrido uma quebra de 28% dos seus lucros. o Merrill Lynch.1% e de nova agitação nos mercados o governo anuncia o controlo estatal da gestão das empresas Freddie Mac e Fannie Mae numa t entativa de serenar os americanos embora muito contestada pel os def ensores do mercado livre. por 50 mil milhões de dólares.08 O Hong Kong and Shanghai Banking Corporation – HSBC.04AGO.08 32 A COMUNA .

A American International Group.08 Por causa do levantamento massivo de depósitos o Washington Mutual é obrigado a cessar a actividade pelas autoridades americ anas que permitem a sua aquisição pel o JPMorgan pelo valor de 1. a quarta maior instituição bancária nos Es tados Unidos da América. AIG. mas devido à sua situação pr ecária o governo assume o controle de 80% das acções e o controle da gestão. Em apenas uma semana as acções do Lehman Br others caíram set e por c ento.9 mil milhões de dólares.08 O Lehman Brothers.ESPECIALCRISE 15SET.08 COMUNA 31 AA COMUNA 33 . 16SET. Inc. 25SET. Após negociações mal sucedidas com o Barclays Bank e o Bank of America declarou falência. a maior seguradora dos Estados Unidos recebe um resgate de 85 mil milhões da Reserva Federal. com cerca de 150 anos. enfrentava ultimamente uma grave crise.

holandês e luxemburguês. 34 A COMUNA . e do controlo estatal de outra parte por parte dos governos belga.08 A crise agrava-se no sector bancário europeu c om o banc o Fortis do Benelux a ser reestruturado através da v enda parcial ao banc o BNP Paribas por 14. fr ancês e do Luxemburgo passam a gerir o banco belga Dexia que precisou de 6. Parte do banc o inglês Br adford &Bingley é vendido ao grupo espanhol Santander por 612 milhões de libras e outra parte passa para o controlo do governo britânico. 29SET.08 30SET.4 mil milhões de euros para não encerrar .28 SET.08 Os governos belga. Esta aquisição tornou o BNP o maior banc o a operar na zona euro.5 mil milhões de eur os.

08 O governo alemão e os banc os e seguradoras do país acordaram num pacote de resgate no valor de 50 mil milhões de euros para a entidade de concessão de crédito hipotecário comercial Hypo Real Estate Holding AG. o Wells Fargo.ESPECIALCRISE 03OUT. 03OUT.08 06OUT.1 mil milhões de dólar es.08 Novamente um gr ande banc o americano vítima da crise. o W achovia é comprado por outro banco. Nos EUA é apr ovado o Plano Paulson (H. por 15. COMUNA 31 AA COMUNA 35 . Paulson é o Secr etário do T esouro) um programa de 700 mil milhões de dólares de ajuda ao sis tema bancário americano.

36 A COMUNA .08 12OUT.08 O Eurogrupo decide aceitar que os estados membros.08 A Islândia toma medidas sérias para combater a crise. O governo islandês assume a gestão do banco Kaupthing após a demissão do conselho de adminis tração do mesmo.07 OUT. de acordo com as nec essidades de c ada um. as sumindo o governo a gestão do Landsbanki e de 75% do banco Glitnir que recebe uma injecção de capital no valor de 600 milhões de euros. Na Islândia as reservas de moeda estrangeira são insuficientes para fazer face aos compromissos externos do país e a c apacidade de endividamento internacional está seriamente afectada pela deterioração da qualidade de crédito do Estado e das instituições. refinanciem os sistemas bancários até final de 2009 para debelar a crise. 09OUT.

5% do Lloyds TSD por 4 mil milhões de libr as a fim de os ajudar a superar a crise.42 mil milhões de eur os nos banc os europeus.ESPECIALCRISE 13OUT. O governo da Holanda anunciou uma intervenção de apoio no banco ING no valor de 10 mil milhões de euros para contrariar a des valorização daquela ins tituição. 20OUT. O go verno holandês passará a ocupar dois lugares no conselho de supervisão daquela instituição. 43.5% do HBOS por 13 mil milhões de libras e 43.08 COMUNA 31 AA COMUNA 37 .08 O primeiro ministro inglês Gordon Brown anuncia que o governo passou a controlar 63% do Ro yal Bank of Scotland por 20 mil milhões de libras. 21OUT.08 O BCE inject ou mais 305.

P ara evitar a bancarrota. ajudou a que durante a manifestação também se apelasse à adesão do país à União Europeia.4 milhões de dólares de juros por um empréstimo ao Japão contraído em 2006. 22OUT. do Japão e dos dez países membros da ASEAN decidiram criar um fundo comum de 62. Reykjavik. a Islândia está dependente da aprovação de um empréstimo de 6 mil milhões de dólar es do FMI negociado com os bancos centrais do Japão e de outros países nórdicos.08 Os dirigentes da Coreia do Sul.500 milhões de euros para combater os efeitos da crise financeira. 24 0UT.08 26OUT. 38 A COMUNA . e exigiram a demissão do primeiroministro e do governador do Banco Central da Islândia. que a dimensão da crise que se abateu sob a Islândia f avoreceu.A Islândia falhou o cumprimento de compromissos c om a banc a internacional nomeadament e o pagamento de 4. da China. A insegurança.08 Cerca de dois mil islandeses manifestaram-se na capital.

100 milhões de euros à Islândia. O FMI encontra-se ainda em negociações c om a Bielorússia e o Paquistão. Anunciou ainda uma ajuda substancial à Hungria e um empréstimo de 2.08 O FMI apr ovou um pr ograma económico de “apoio” à Ucrânia (empréstimo no v alor de 16. COMUNA 31 AA COMUNA 39 .5 mil milhões de dólares.ESPECIALCRISE 27OUT.

O TRABALHADOR DESCARTÁVEL A RENDIÇÃO ÀS LEISDOMERCADO JOSÉ CASIMIRO 40 A COMUNA .

TRABALH0 A COMUNA 41 .

“tratando de forma igual o que à partida é desigual” na relação laboral e aprofunda a individualização das relações de trabalho. transformando o moderno direito de trabalho em direito comercial. ENQUANTO MATRIZ MÍNIMA DOS DIREITOS. a actividade inspectiva (ACT) é assumidamente e conscientemente muito débil e politicamente governamentalizada. “A ideologia do capital para o trabalho” está a subverter as . Significa ainda que se aprofunda. MODELO SOCIAL QUE O PS AGORA RENEGA. da flexigurança. Ou seja a aposta é no sacrossanto mercado como «protector» da desregulamentação do trabalho e da perda de direitos e o desvirtuamento do Direito do Trabalho enfraquecendo o elo mais fraco de uma relação de trabalho . as mesmas que promoveram a implementação das tese liberais que varrem a Europa. O Partido Socialista aprovou a sua proposta de código de trabalho que traduz não só um arrepiar de caminho ao que defendia quando estava na oposição. em que assumiu responsabilidade de governo. ou seja tratando o trabalhador como uma mercadoria descartável. como também às promessas eleitorais de 2005. assumiu como nos objectivos da Estratégia de Lisboa.o trabalhador. A flexigurança visa «que os trabalhadores troquem a segurança tradicional no emprego por segurança no mercado». O que fez mudar o PS? O que se alterou para que tivesse mudado tão radicalmente de opinião sobre o código Bagão Félix e aceite “uma revisão oculta da constituição” como muito bem denunciou na declaração de voto o deputado do PS Manuel Alegre? 42 A COMUNA A resposta podemos encontrá-la na rendição da social-democracia ao neoliberalismo e às regras do mercado. O SEU MODELO SOCIAL.“A IDEOLOGIA DO CAPITAL PARA O TRABALHO” ESTÁ A SUBVERTER AS RELAÇÕES DE TRABALHO EM TODA A EUROPA E A PÔR EM CAUSA TODO O PATRIMÓNIO LABORAL E SOCIAL CONSTRUÍDO NO PÓS-GUERRA. POSICIONANDOSE CONTRA A ORIGEM DO DIREITO DO TRABALHO – O DIREITO AO TRATAMENTO MAIS FAVORÁVEL–.E. o tratamento da relação entre trabalhadores e patrões como se fossem iguais. Os direitos laborais são profundamente desrespeitados. em nome da competitividade e do funcionamento do mercado e dos "desafios do século XXI" que a U.

O código Vieira da Silva vem tornar os despedimentos mais fáceis e com poucas possibilidades de defesa. o que é um perfeito embuste. DE DEIXAR NAS MÃOS DO PATRONATO A DECISÃO DE PROMOVER OU NÃO. protegendo o trabalho contra a estratégia da individualização das relações laborais. que leva ao enfraquecimento das formas de as regular através dos instrumentos de regulamentação colectiva de trabalho. presidente da CIP. relações de trabalho em toda a Europa e a pôr em causa todo o património laboral e social construído no pós-guerra. posicionando-se contra a origem do direito do trabalho – o direito ao tratamento mais favorável –. Modelo social que o PS agora renega. pois «contratar e despedir» em Portugal é fácil. enquanto matriz mínima dos direitos. não poderia ter sido mais eloquente quando afirmou em entrevista que: “Vieira da Silva fez melhor do que um governo de direita”. os processos judiciais aumentarão. deixando o trabalhador à mercê dos poderes patronais. o seu modelo social. A mera simplificação do processo tenderá a estimular o seu uso e.TRABALHO COM A APOSTA ESTRATÉGICA DO PS NOS DESPEDIMENTOS SIMPLEX. Com a aposta estratégica do PS nos despedimentos simplex. transferindo-se A COMUNA 43 . como reconheceu o próprio ministro Vieira da Silva que em entrevista ao “Expresso” afirmou: “Se fosse difícil despedir não havia este desemprego”. portanto o despedimento”. “Esta é uma via para tornar mais célere o despedimento. Francisco Van Zeller. de deixar nas mãos do patronato a decisão de promover ou não. O trabalhador vê-se assim privado de se defender em sede do seu processo disciplinar. OS PROCESSOS JUDICIAIS AUMENTARÃO. A propaganda internacional da OCDE tem vindo a insistir na “rigidez dos despedimentos individuais”. (CLARO QUE O PATRÃO DECIDE QUE NÃO) A REALIZAÇÃO OU A NÃO REALIZAÇÃO DE DILIGÊNCIAS PROBATÓRIAS (PARA A APRESENTAÇÃO DE PROVAS) EM SEDE DE PROCEDIMENTO DISCIPLINAR. (claro que o patrão decide que não) a realização ou a não realização de diligências probatórias (para a apresentação de provas) em sede de procedimento disciplinar.

onde os trabalhadores laboram sem qualquer contrato nem direitos sociais. assim o assumem as confederações patronais. A precariedade vai continuar a agravar-se.8 milhões de trabalhadores). O despedimento passará a ser na «hora» e mais barato! O governo legaliza a precariedade… O governo PS sabe também que os problemas de produtividade e competitividade da economia não se tratam por via da alteração da legislação laboral. Mais de 22% da economia é paralela. . pois não dá praticamente possibilidade ao trabalhador para se defender e reclamar todos os seus créditos emergentes do contrato de trabalho. Por outro lado cria-se um contrato de trabalho não sujeito a forma escrita de curta duração que estimula o uso e “abuso” patronal da precarização das relações laborais. todo o processo para os tribunais (sabendo como funcionam e os anos que demoram a chegar a julgamento). Se o trabalhador pedir apoio judiciário o despacho leva 30 dias. de duvidosa constitucionalidade. O tempo esgota-se. AO PROVOCAR-SE A CADUCIDADE MAIS RÁPIDA E COM MAIS “VAZIOS CONTRATUAIS”.COM A CADUCIDADE DAS CONVENÇÕES COLECTIVAS PERDESE A DIMENSÃO E REPRESENTAÇÃO COLECTIVA DAS RELAÇÕES DE TRABALHO. A flexibilidade e a precariedade são 44 A COMUNA muito elevadas (1. CONFORME DETERMINOU O ACÓRDÃO DO TRIBUNAL CONSTITUCIONAL. é pouco intermitente e torna-se mais um contrato que precariza o trabalho e não tem regulamentação social. SEM RESPEITAR TODOS OS DIREITOS COLECTIVOS COLOCADOS NA ESFERA INDIVIDUAL. O trabalhador vê reduzir-se o prazo de recurso da ilicitude de 1 ano para 60 dias. balizam-se os contratos a termo incerto em seis anos. Os tribunais arbitrais não funcionam. bem como os níveis de desemprego. para além de ainda não estar claro como vai o trabalhador recorrer da suspensão preventiva do seu despedimento pois ainda não foi alterado o Código de Processo do Trabalho. o que é manifestamente pouco. Por outro lado. O contrato de trabalho intermitente. sobrevivendo à margem da sociedade… Procura-se legalizar e incentivar a utilização dos “falsos recibos verdes”. nada se faz para combater os nossos níveis de “asiatização”.

do nível geral de salários baixos. políticos. ao provocar-se a caducidade mais rápida e com mais “vazios contratuais”. FRAGILIZA E PRECARIZA AS RELAÇÕES DO TRABALHO. POLÍTICOS. tornando mais difícil a compatibilização entre o trabalho e a vida familiar. sociais. para quê recorrer ao contrato a prazo? A contratação a termo deixa de ser necessária. Com a caducidade das convenções colectivas perde-se a dimensão e representação colectiva das relações de trabalho. envolvendo mais e diversos actores. Com um período tão extenso de despedimento livre. ENVOLVENDO MAIS E DIVERSOS ACTORES. tolhe a luta. tentar vencer “as amarras e os garrotes” do endividamento das famílias. fragiliza e precariza as relações do trabalho. como se fossem lei. DESEQUILIBRANDO AINDA MAIS A RELAÇÃO DE FORÇAS CAPITAL-TRABALHO. É fundamental ir mais fundo na luta. Toda a dimensão do código Vieira da Silva individualiza. O “medo social” que o neoliberalismo e este governo do Partido Socialista espalham. do aprofundamento das assimetrias sociais e da ameaça do despedimento e da precariedade.TRABALHO TODA A DIMENSÃO DO CÓDIGO VIEIRA DA SILVA INDIVIDUALIZA. sem respeitar todos os direitos colectivos colocados na esfera individual. SOCIAIS. e através da constituição do “Banco de Horas. Contra o novo código. a luta e alternativa social têm de adquirir uma dimensão mais ampla A COMUNA 45 . O vazio contratual coloca os sindicatos e os trabalhadores em verdadeiro “estado de necessidade”. Por isso é preciso ultrapassar a institucionalização dos acordos de concertação social. conforme determinou o acórdão do Tribunal Constitucional. que funciona como «amortecedor social» que pretende impor acordos a toda a sociedade. ACADÉMICOS E SINDICAIS Opina-se no mesmo sentido quanto à proposta da aplicação à generalidade dos trabalhadores de um período experimental de 6 meses que constitui um período de despedimento livre. A precariedade é levada ao extremo. por via da flexibilização e individualização dos horários. académicos e sindicais. desequilibrando ainda mais a relação de forças capital-trabalho. Aposta-se no aumento da exploração. NOVAS ALIANÇAS SOCIAIS SÃO NECESSÁRIAS CONSTRUIR. Novas alianças sociais são necessárias construir.

perplexidades. Deixo aqui dois parágrafos para aguçar o apetite do futuro leitor: 46 A COMUNA “Conquanto não possamos estar de acordo com a sua opinião. um «arrumar de casa mental»e por isso mesmo permite-nos acompanhar as suas esperanças. políticas. A não perder Mário Tomé . cheios de oráculos numa exaltação política de incenso. hesitações. como era conhecido e normalmente chamado por Engels nas cartas que lhe dirigia. morais. utiliza um estilo em que prepondera uma quase livre associação de ideias à solta numa galopada verbal. marcada frequentemente pelo anacronismo de situações e onde já se pressente a ironia cáustica que há-de caracterizar o tom incomparável das polémicas de Marx. Trata-se de uma pequena novela. Zeus. quando o realismo ainda não começara a dar os seus primeiros passos como corrente coerente. e cujos pergaminhos estavam envoltos com o sagrado fogo do tabaco. começando pela desestruturação do texto e pela quase arbitrariedade da numeração dos capítulos ou pela referência a capítulos anteriores que nem sequer existem. estamos perante um livro que nos permite uma abordagem absolutamente inesperada de Karl Marx.” Em 1836. A quase delirante “desconstrução” de ideias feitas e convenções instituídas. pois o nariz havia-lhe saído da cabeça como Palas Atenas da cabeça do pai de todos. pela reprodução da conhecida (?) carta de Marx ao pai e ainda pela saborosa e bem informada apresentação por José Viale Moutinho. mesmo as mais avançadas. ou apontamento para novela que a editora Arca das Letras colocou no prelo em Agosto do ano passado. como ele os descreve ao seu «adorado paizinho». Dos seus olhos podia-se dizer que eram mais verdes que vermelhos e mais alfinetes que relâmpagos e ele próprio mais um gnomo que um homem. pois nasceu do espírito de um homem que a uma enorme sabedoria unia uma grande habilidade para fumar. é.00 Um pequeno livro intitulado Escorpião e Félix veio certamente surpreender e divertir muitos dos admiradores. religiosas.” ou “Era de compleiçao nervosa e a sua estatura recordava a da minha estufa. de Karl Marx. sejam elas sociais. ou esboço. quando se começava a delinear a sua poderosa personalidade. e estavam portanto. como diz João Viale Moutinho. Escorpião e Félix é uma novela humorística cheia de nonsense onde o jovem Mouro. convicções e planos para o futuro. no entanto esta merece um juízo crítico. A carta ao pai. O livro é muito interessante por três motivos: pela novela do jovem Karl Marx (teria 18 anos quando a escreveu) que dá o nome ao livro. encontra eco no desrespeito ou mesmo violação radical das normas do texto literário à época. Um génio! Isto reconheci-o imediatamente e com segurança. e até opositores. escrita em 10 de Novembro de 1837. que eu comprei pelo natal e que só agora tive oportunidade de ler. é já “modernismo” o termo que nos sentimos quase obrigados a usar para caracterizar a prosa do Mouro nas páginas de Escorpião e Félix.ESCORPIÃO E FÉLIX KARL MARX ARCA DAS L ETRAS 71 PÁGINAS ¤9. Enfim.

CITADO PELO DN22SET08 A COMUNA 47 . não. DN 8OUT08 A grande maioria da população considera a homosexualidade uma depravação. Não se trata de um preconceito mas de uma opinião válida e legítima a ponderar. IBIDEM O PS já está em campanha eleitoral. DN 6OUT08 Podia ser a lógica da batata mas é mesmo a da fobia. FERNANDA CÂNCIO. MARCELOREBELODESOUSA. é só grande parte do eleitorado do PS.Tão fóbica e pouco lógica que. DN 10OUT08 Alberto Martins assegura ser não só a favor do casamento das pessoas do mesmo sexo como ver nele uma questão de “direitos fundamentais”. E esta hecatombe de princípios para ensinar o BE e os Verdes a respeitar o PS.E não deve ser confundida com homofobia que é agressão ou discriminação de pessoas. E contra todos os cidadãos cujo direito à igualdade é prejudicado pelo não acesso ao casamento. 42% dos portugueses – segundo sondagem da Católica – já são a favor do casamento de pessoas do mesmo sexo.Seria irresponsával ter levantado essa questão (voos da CIA) quando estava em causa o presidente da Comissão Europeia. Martins e companhia votam portanto contra a Constituição. IDEM.«AS ESCOLHAS DE MARCELO». Está mais do que o PSD que tem sido cuidadoso na gestão da sua mensagem. mesmo “sem ampla discussão”. LUIS AMADO. um acto intrinsecamente desordenado e contrário à natureza. Não é ainda a maioria. JOÃO CÉSAR DAS NEVES.

Gaza é um enclave sitiado. IBIDEM Um Estado unitário é inevitável. IDEM. Isso levanta a questão. O estabelecimento de um Estado definido por critérios religiosos e étnicos. como a AIG.ordenou aos seus colaboradores.em Agosto. 20 SET2008 Em pleno 25 de Novembro. IBIDEM A articulação entre a embaixada (EUA) e os militares moderados passou a ser assegurada por um «canal indirecto». IDEM. que tornam impossível um Estado independente.Em 2006 o enviado especial da ONU para os territórios palestinianos concluiu que “uma solução de dois estados é impraticável”. Crescentemente palestinianos – e alguns israelitas – apoiam-na como a única alternativa a um Estado Palestiniano subordinado a Israel. Nesta crise o pecado não morou ao lado. Estava viciado. escreveu Carlluci para Washington. Exeter University). no meioda confusão do 48 A COMUNA golpe. IDEM. foi ao major que Kissinger recorreu. Mas já passaram mesmo 25 anos? Está na hora de fazer outra cena dessas.Ignora-se porém a sua identidade. Ghada Karmi (investigador no Instituto de Estudos Árabes e Islâmicos. IDEM. JOSÉ PEDRO CASTANHEIRA. IBIDEM Uma seguradora com milhões de pensionistas. nunca tinha estado na cama com uma mulher. «Falem com Antunes» . Foi uma boa ideia. embaraçosa para os liberais a qualquer preço: se não pode falir. SÁBADO. não pode ir à falência. IBIDEM . estradas bypass e barreiras. GUARDIANWEEKLY. DN21SET08 A falência da Lehman Brothers mostrou que as hordas de pessoas respeitáveis que diziam que o pior já passara estavam ou enganadas ou a enganar – ou as duas coisas. EXPRESSO (ACTUAL). SEXTA 3 DE OUTUBRO Hoje a Margem Ocidental é uma amálgama de construções.3OUT08 A solução de um só Estado faz parte já do discurso geral. morou dentro do sistema. «Instamos a que não seja revelada a nossa comunicação regular com Antunes [Melo Antunes] e que essa comunicação seja tratada de forma extremamente privada». «ele deu-me o nome de um contacto seguro através do qual podemos sempre falar» . 14-14SET08 O círculo “crédito fácil aumenta a procura logo aumentam os preços do imobiliário” parecia virtuoso. podemos em bom rigor dizer que a AIG está no mercado? Não faz sentido! JOÃO FERREIRA DO AMARAL. Quem devia utilizar a ideia de mudança era o PSD e agora já não pode. e excluindo os seus primeiros habitantes foi injusto e fundamentalmente insustentável. Já é demasiado tempo sem voltar a ter um caso lésbico! SUSAN SARANDON. PEDRO SANTOS GUERREIRO.O PS retirou o slogan ao PSD. Quem é que não gosta de estar na cama com a Catherine Deneuve? Foi invulgar. IDEM.IBIDEM Foi fabuloso filmar essa cena.

Hoje há mais coisas que sabemos que não sabemos. manchada pelo «ódio aos ricos» que impregna as mentalidades. astrofísica e cosmologia. nos blogues.. de procurar.Não se sabe de onde veio esta expressão.OUT08 O conjunto da sociedade parece ter-se concentrado nos ricos que têm toda a gente à perna (.) Estas grandes famílias endinheiradas representam apenas 0. XIN ZHUKAN.Os resultados das ciências físicas. IDEM. mas detêm 70% das riquezas do país. IDEM. mas simultaneamente adensam os mistérios. IBIDEM A COMUNA 49 . tem mais a ver com a forma como os circuitos neuronais estão ligados no cérebro. CANTÃO.. deram-nos novos conhecimentos sobe o Universo e sobre o Infinitamente Pequeno.INVESTIGADOR DO LIP E ADIDO CIENTÍFICO DO CERN. IBIDEM Penso que a angústia existencial e a necessidade de conhecer. JL 8-21OUT08 No princípio era energia. mas ela surge em todos os ciberforuns. nas áreas interdependentes das partículas. e por conseguinte acompanharão os humanos por mais avanços que a ciência faça.COURRIER INTERNATIONAL. na imprensa escrita e nas conversas de rua. porém. XIAO FENG. JOÃO VARELA .4% da população chinesa. IBIDEM A glória destas grandes fortunas [na China] é. IDEM. governada por leis simples e elegantes.

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