Revista eletrônica de crítica e teoria de literaturas Dossiê: literatura, oralidade e memória PPG-LET-UFRGS – Porto Alegre – Vol

. 04 N. 01 – jan/jun 2008 Sonhos de esperança em uma Terra Sonâmbula Carlos Batista Bach* Resumo: Este artigo analisa a forma como Mia Couto, em seu livro Terra Sonâmbula, mistura realidade e fantasia de forma mágica, criando um entrelaçamento entre a trad ição e o moderno. Em Terra Sonâmbula, a oralidade perpetua a tradição que faz nascer o fut uro sonhado. Na busca por sua identidade o personagem Muidinga vai adentrando no conhecimento ancestral e unindo a tradição à cultura moderna, através da oralidade. Pal avras-chave: Mia oralidade; fantasia. Couto; Terra Abstract: This article analys es the manner through which Mia Couto, in his book Terra sonâmbula, mixes reality and fantasy in a magic way, creating a connection between the tradition and the contemporary. In Terra sonâmbula, the orality perpetuates the tradition which brin gs up the dreamed future. Seeking his identity, the character Muidinga goes deep er into the ancestral knowledge and joins tradition and modern culture through o rality. Sonâmbula; Keywords: Mia Couto; Terra sonâmbula; orality; fantasy. Uma história marcada por guerras e sofrimentos é o que se percebe no imaginário moçambic ano. Em 1975, após dez anos de guerra, Moçambique conseguiu sua independência, através d e um acordo assinado pela Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) e Portugal. No entanto, a guerra civil permaneceu até 1992, quando foi assinado o Acordo Geral de Paz, em Roma a 4 de outubro, pelo Presidente da República, Joaquim Chissano, e pe lo Presidente da RENAMO (Resistência Nacional Moçambicana). Enfim, uma história entrem eada por lutas, e que serve como pano de fundo no romance Terra Sonâmbula (1993), de Mia Couto. Antônio Emilio Leite Couto, Mia Couto, nasceu na Cidade da Beira, pr ovíncia de Sofala, Moçambique, a 5 de julho de 1955. É formado em Biologia e trabalhou como jornalista. Filho de poeta, Mia Couto nunca abandonou a poesia, pois suas narrativas unem a poesia e a prosa. É um autor engajado nas mudanças de seu país, fez parte da FRELIMO. Autor de mais de 15 livros, sendo que só o primeiro foi de poema s, Raiz de orvalho (1983) ganhou vários prêmios com Terra Sonâmbula (1993), entre eles o de um dos 12 melhores livros de África do século XX. Em Terra Sonâmbula (1993), vem os um mundo de sonhos que se mistura a uma realidade caótica, de guerras e devastação. Seus personagens caminham entre a certeza e a * Mestre em Literatura Brasileira, Portuguesa e Luso-Africana pela UFRGS. E-mail: carlos-bb@ig.com.br. Sonhos de esperança em uma Terra Sonâmbula 1

um adolescente e Tuahir um ancião. 77) Muidinga é considerado morto por sua tribo e depois ‘ressuscitado’ por Tuahir que lhe inicia nos ensinamentos da vida adulta. (FORD. É nesse espaço limítrofe entre a ealidade e a imaginação que vivem os personagens de Terra Sonâmbula (1993). conduzido pelo mais velho. Este d ura um tempo mais ou menos longo e consiste no enfraquecimento corporal e mental do noviço. 15) Assim. enquanto que o garoto sa bia. pois fora salvo d a morte por Tuahir e não se recordava de sua infância. e permanece morto durante o tempo do noviciado. feito voz. Do ponto de vista da produção cultural. entre o onírico e a realidade. um at o de iniciação ao universo da africanidade. apesar de o letramento estar ligado a Muidinga. pois se bem observado se verá que. Sentem-se perdidos e confusos denotando uma s ituação de abandono. 1999. (PADILHA. num país destroçado pela guerra. 1995. há um reconhecimento da necessidade do novo andar de mãos dadas com o velho. Tuah ir. Nesse sentido. 1 978. quanto vai ensinando. observa-se que o adolescente empreende uma viagem iniciática. sobretudo. o noviço é considerado morto. No entanto. O mito é um sonho coletivo. por Tuahir. sendo então ‘ressuscitado’ para iniciar uma nova vida na fase adulta. este dá continuidade a tradição da oralidade quando conta as estórias dos ca dernos de Kindzu a Tuahir. o sonho. o noviço é separado da mãe e. Durante a narrativa descobrese que Tuahir havia salvo Muidinga de ser enterrado vivo. Observe-se que Tuahir não sabia ler nem escrever. o passado com o presente. sem dúvida destinado a fazê-lo perder a memória da vida infantil. no mundo interno do inconsciente . desengrena a realidade e desata a fantasia. que é a forma como se encontra o país. em Terra Sonâmbula (1993) não há uma sobreposição da segunda sobre a primeira. segundo Van Gennep. p. Na verdade. seu corpo é enfraquecido até a perda da memória. nas quais ele tanto vai sendo ensinado. podemos receber todas as noites a visita de formas e forças poderosas do reino mít ico. e tal prática e ato são. porque havia ingerido um tipo de mandioca que é venenosa e ficara como morto. Muidinga. Há uma referência muito explícita a cultura tradicional e a nova imposição da cultura letrada. Esse contar é feito ritualisticamente à beira da fogueira . pois nos ritos de iniciação. durante o ritual. Esse reconhecimento da necessidade de união do passado 2 Carlos Batista Bach . Aos poucos Muidinga vai mesclando a sua cultura que tem com a de Tuahir. p. 46) Tuahir e Muidinga são os primeiros a serem apresentados como viajantes nesse périplo de aventuras e sonhos. Muidinga está em busca de seus pais. Temos apenas de fechar os olhos para dormir e aí. a arte de contar é uma prática ritualística. um gesto de prazer pelo qual o mundo real dá lugar ao momento meramente possível que. (GENNEP.Nau Literária dúvida. como nas comunidades arcaicas. um mito pessoal. É interessante observar que a iniciação de Mui dinga se dá em etapas. p.

paragens) . “Mesmo os que permanec em. que se encontra sem movimento. 20). 01 jan/jun 2008 com o presente está exposto no trabalho de Laura Padilha (1995) sobre os missossos . Siqueleto pede que Muidinga escreva seu n ome numa árvore. temos uma viagem contada em suas minúcia s. vendo coisas. uma apreensão. que na narrativa o que importa é o tempo transcorrido e não o espaço percorrido. caracterizando assim. gentes e signos do outro mundo.” Nos escritos de Kindzu t emos uma viagem já concluída que vai sendo desvendada aos poucos. suspender o caminho (para um olhar. Logo. (SEIXO. contrariando a sua representação para o mundo moderno: “o meio de transporte representa a possibilidade. para o homem. deter-se na via. um ancião que ficara só numa das aldeias abandonadas. como é chamado o ônibus na narrativa. mostrando agora a dependência do velho ao novo. reconhec endo o valor simbólico do novo para a revitalização do indivíduo e conseqüentemente do gru po aponta-o como desejável. do deslocamento. de uma locomoção rápida (que designa o esforço de compensação. 13) Sonhos de esperança em uma Terra Sonâmbula 3 . 1998. 04 N. 44) Essa integração do velho ao novo se observa também no capítulo em que é narrada a história d e Siqueleto. um diálogo. p. No momento em que chegam ao local onde está o machimbombo. Segundo IANNI (1990. Muidinga e T uahir viajam pela estrada e encontram um local de parada. um gesto. (PADILHA. viajam imaginariamente ouvindo estórias. que jamais saem do seu lugar. um ônibus queimado. Tuahir serve de intérprete. que é um símbolo da modernidade. Muidinga encontr a os cadernos de Kindzu. Tuahir e Muidinga o encontram porque caem numa armadilha e são salvos por ele. uma escrita. a renovação do viático. observa-se aqui a dependência do novo ao velho. Em Terra Sonâmbula (1993). 1995. mesmo que a moral explícita aponte para o futuro. um tipo de conto tradicional angolano.3). mostra-se que o conhecimento ancestral é necessário para que se possa construir um novo paradigma. Durante a narrativa. Assim. Nestes cadernos. Siqueleto fala a língu a local e Muidinga não entende. esses acontec imentos corroboram para reafirmar o que foi dito: o novo anda de mãos dadas com o velho. p. m ostrando que só pelo ou com o passado o futuro se pode construir. a qual Muidinga lê para Tuahir. o anseio de ganhar espaço perden o menos tempo)” (SEIXO. lendo n arrativas. Assim. 1998. não se pode esquecer que o novo caminhava com o velho. um transpo rte coletivo. p. No final.Vol. p. Muidinga e Tuahir ao pararem seu deslocamento real estabelecem o que Maria Alzira Seixo (1998) cha ma de paragem. Deci dem permanecer no ônibus. E viagem inclui também a fase de uma dinâmica mais abrangente: andar em viagem signi fica no fundo parar em algum sítio. já que o missosso.

É para isso que servem os caminh os. seus olhos eram sábios. p elas epígrafes que abrem o livro. esperança de vida. significa como ter ainda esperança. O sonho está ligado à utopia. assim como o p ai.Nau Literária Os dois personagens. pois. 1993. O velho Taímo morre após a independência de Moçambique. Quando despertavam. por isso deixaram de sonhar. que mata os sonhos. o velho Taímo. conforme o que diz Seixo. p. E a guerra. afinal. traz consigo a desesperança e o sentimento de desencanto. pois sua viagem pelos cadernos de Kindzu cria um novo vínculo com o real.” (COUTO. sente a mão de seu pai lhe afagando a cabeça. a ter ra se movia espaços afora. p. mas a br incadeira chega ao ponto de se confundir com o real. naquela noite. Kindzu. Vive intensamente cada ave ntura narrada nos cadernos. Tuahir diz que são miragens. em seu rosto. (COUTO. também tem sonhos que se misturam à realidade. redonda. nele reside a esperança. um guerreiro mágic o. Ter son hos. Muidinga cria e recria o universo de Kindzu. p. estabelecem a renovação da viagem na paragem. E Muidinga se atrapalha em totais confusões. de repente. Isso se configura logo nas primeiras páginas de Terra Sonâmbula (1993). Olha o seu rosto e vê que. 6) As duas epígrafes são comprovadas logo em seguida pela abertura do primeiro capítulo q ue se intitula “A estrada morta” e que na primeira linha se lê: “Naquele lugar. Foi como se. aqui. o protagonista se acha também numa viagem em busca de transformação. 9). Porque enquanto os homens dormiam. Crença dos habitantes de Matimati O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. p. (COUTO. toda a bondade dele ficasse visível. comprova-se ser o sonho o elemento que faz seguir adiante. Esse mundo dos sonhos é buscado na narrativa. 1993. E se apercebe que. desliza o frio d as lágrimas. eles tinham sido visitados pela fantasi a do sonho. transmudando-o de tal forma. os habitantes olhavam o novo rosto da paisagem e sabiam que. 77) Desejo de mudança. Se dizia daquela terra que era sonâmbula. seus habitantes já perderam a esperança na vida. se estivesse rasgando. Numa terra as solada por esse conflito. 188) 4 Carlos Batista Bach . É como se qualquer coisa. Sonhos que são premonitórios. Mas só M uidinga vê essas mudanças. 1993. 1993. Dessa forma. ao desejo de mudar. lá fundo de seu peito. Depois. o seu mundo e o de Kindzu. através da f antasia. Fala de Tuahir (COUTO. que Muidinga vê a paisagem ao redor do ônibus se modif icando: “De fato. que tinha sonhos premonitórios e f antásticos. a única coisa que acontece é a consecutiva mudança da paisagem. nos cadernos apresenta seu pai. a ponto de misturar a realidade e a fantasia. Kindzu quer ser um naparama. para nos fazerem parentes do futuro. era isso que Muidin ga buscava nos cadernos de Kindzu. frutos do desejo de seu compan heiro”. a guerra tinha morto a estrada. Isso é bastante evidente. Nestes cadernos. no momento em que Muidinga propõe a T uahir brincarem de Kindzu e seu pai: Tuahir faria o papel do velho Taímo.

A cada momento as narrativas de Kindzu e Muidinga vão se tocando e se entrelaçando. uma vez que se encontra encalhado e abandonado como um navio fantasma: “O navio fantasma s imboliza os sonhos. Aquelas visões. p. Ambos personagens acabam voltando a lugares já percorridos. ou aprimorando a sua astúcia.Vol. (LOBO. Ela aparece nos cadernos de Kindzu. representa o sentimento de der (rota) que impregna o modernismo e se acirra no pós-modernismo – a modernidade lato sensu”.. comprovei como são nossos olhos que fazem o belo. dias antes. Além disso. Sempre há uma mudança. em assembléia de belezas. já tinham estado em meus olhos.” (IANNI. até mesmo desenvolvendo a sua autoconsciência. quanto Kindzu vão se transformando durante suas viagens e modificando a maneira como percebem as coisas. sofre u uma transformação. Nada do que foi visto ontem será olhado da mesma form a hoje. e Muidinga encontra em Tuahir o pai que procurava. 1993. 1999. no viajante. [. de tal modo q ue aquele que parte não é nunca o mesmo que regressa. p. agora de resgate. Segundo IANN I (1990. “a metáfora do barco à deriva. ao mesmo tempo que se reafirma e modifica. Interessante observar que e m ambas as viagens. Kindzu reencontra o pai e com ele se reconcilia. porque já não se é mais a mesma pessoa. Tanto Muidinga. Ao avistar a praia de Matimati. 01 jan/jun 2008 Logo. do ideal impossível. Kindzu quer se to rnar um naparama. tanto de Muidinga quanto de Kindzu. agora tudo me parecia mais cheio de co res. símbolo da morte. Levada pelos acont ecimentos. nunca os vêem com o mesmo olh ar.] Um eu que se move. não no lugar e sim no observador. Meu estado de paixão puxava um novo lustro àquela terra em ruínas. abandonado.19) o viajante “tanto se perde como se encontra.. 632). Farida se isola em um barco que se encontra encalhado. p. 14). Kindzu é Muidinga e vice-versa. 04 N. (COUTO. 127) Sonhos de esperança em uma Terra Sonâmbula 5 . e ele parte novamente para o continente em busca do filho de Farida. Sente-se esse entrelaçamento a partir do momento em que surge no relato a persona gem Farida. conta a sua história e diz que está a procura de seu filho Gaspar. No curso da viagem há sempre alguma transfiguração. há uma vontade de construi r uma identidade. um guerreiro que poderia lutar por seu povo.” (CHEVALIE R. p. Muidinga para isso quer encontrar seus pais. podendo reiterar-se e modificar-se. co mo se fosse um barco fantasma. 1988. os dois se encontram e relatam seus sonhos um para o outro. p. Kindzu se apaixona por Farida. de inspiração nobre mas irrealizáveis. no entanto. através do relato contado. uma influência no contato com o outro “A viagem pode ser uma longa faina destinada a desenvolver o eu. 1990. 123) Farida pede a Kindzu que encontre seu filho Gaspar. Porém. de alguma forma. Começa então uma outra viagem. Tudo vai se tornando diferente ao olhar de quem. Esse navio pode simbolizar os sonhos impossíveis. Nesse navio.

p.” (PADILHA. 21) . Tuahir e Muidinga aparecem aqui como partes de um mesmo círculo. Perc epções que vão se modificando. larga na t ravessia.Nau Literária Vidas que se modificam no contato com o outro. desconh ecido. hábitos. despoja-se. que choca e paralisa. não poder fazer parte da grande ciranda de frustrações que o mercado globalizado procura vender: “A sedução do mercado é. Quem viaja. Além do que larga na partida. com consumidores que sejam fácei s de serem manipulados pela mídia. sem renegar s uas tradições. mas frustrações. larga muita coisa na estrada. algo foi modificado. Afinal. Será através da aliança entre o passado e o presente que o indivíduo poderá construir o seu futuro. Personagens que transitam do sonho para o pesadelo da realidade. que procura uni formizar. convicções. são impr escindíveis um ao outro “O ancião liga o novo ao velho. simultaneame nte. É o viajante que se modifica e não a paisagem ou o outro. a grande igualadora e a grande divisora. cria separações abissais entre os indivíduos. Preservar as tradições e delas tirar proveito para seu crescimento como indivíduo e. 55). Isso não significa viver no passado. 18) Nessa modificação do ser. vícios. p. É necessário que se c onheça o passado para que se possa interferir no presente. é o que se percebe nas entrelinhas de Terr a Sonâmbula (1993). à medida que a narrativa avança. conseqüentem ente. a tendência que se observa é a massifi cação da cultura. Quanto mais descortina o novo. criar um mercado comum. 1990. Logo. Isso é o que se percebe nas páginas de Terra Sonâmbula (1993). no senti do de não ser um consumidor em potencial. O olhar já não é mais o mesmo rque. como cidadão participante de uma nação. Globalizar. Muidinga 6 Carlos Batista Bach . mas dentro do indivíduo que caminha . A construção da identidade como parte da viagem. o qu e se vende não são sonhos. à medida que mergulha no desconhecido. Nesse sentido. À medida que caminha. esse mecanismo. (IANNI. mais liberta-se de si.” (BAUMAN. do seu mod o de ser. devido a globalização. a tradição vem na contramão. Hoje. certeza. do seu passado. mas conseguir unir as duas pontas que são presente e passado para através delas construir um futuro concreto. exótico ou surpreendente. percebe-se que a tradição é vista como algo necessário para que ha ja uma perfeita harmonia entre o indivíduo e o meio em que vive. sua cultura e a sabedoria que foi armazenada em cada pequena partícula da tradição de seu povo. no caminho. classificando-os em participan tes ativos dessa sociedade globalizada ou marginalizados. não fora. Estar à margem. 1998. mostr ndo ao indivíduo que a cultura local é primordial nesse mundo globalizado. p. r eal. estabelecendo as pontes necessár ias para que a ordem se mantenha e os destinos se cumpram. 1995. É o passado dando as mãos ao futuro. Ao mesmo tempo. Pode abrir-se cada vez mais para o desco nhecido.

juntamente com Tuahir. a esperteza. Em cada linha do romance. p. Começa então a viagem de tuahir para u m mar cheio de infinitas fantasias. até mesmo na sua construção. 1993. essa passagem de Terra Sonâmbula (1993) consegue transformar a morte em um momento mágico e sublime ao som do mar e das gaivotas. 1999. São várias viagens. seja pelos mortos. aquele que detém o conhecimento do novo. frente à esmagadora força do colonialismo português. Em seus cadernos. p. (PADILHA. A voz do miúdo quase não se escuta. a fim de completar a sua viagem. Praticá-la foi m ais que uma arte: foi um grito de resistência e uma forma de auto-preservação dos refe renciais autóctones. a oralidade. ainda se tem a viagem de Tuahir para a morte.” (CHEVALIER. Tuahir agora é embalado pela fantasia que se espalha pelas águas de um mar de sonhos. e nos ensinamentos de Tuahir. víncu lo estabelecido com a sociedade moderna do homem branco e capitalista.. por não ter vivid o ainda tais ‘experiências significativas’. na estrutura da narrativa. Agora. conser va-se a tradição não só no conteúdo. p. Kindzu em preende uma viagem iniciática.Vol. (PADILHA. o alicerce sobre o qual se construiu o edifício da cultura nacional angolana nos moldes como hoje se identifica. É através da voz de Muidinga que se dá a história de Kindzu. viaja nos escritos dos cadernos. percebe-se que o contar é importante. p. representa a sabedoria acumulada através daquela. que é caracterizada de uma forma ritualística. Percebe-se nessa polarização mais velho x mais novo. pois Muidinga o coloca em uma canoa para que ele seja levado pelo mar. fica cabal a importância da oralidade nessa viagem. As ondas vão subindo a duna e rodeiam a canoa. A tradição. já livre. da mesma forma que Laura Cavalcante Padilha (1995) apont a nos missossos de Angola. A oralidade é. Adentra -se na história de Kindzu em capítulos separados da realidade de Muidinga. É ela. 04 N. o meio pelo qual se realiza a viagem. Poeticame nte construída. Aos poucos se vai tornando leve como mulher ao sabor de carícia e se solta do colo da terra. 121). (COUTO. 1995. Nas ondas estão escritas mil estórias. No final. percebe-se aqui a oralidade como símbolo de preservação de uma tradição. mas também na forma. desse ponto de vista. E este. 1995 . assim como Muidinga ao lê-los. já o barquinho balouça. [.. portanto. tanto na iniciação de M uidinga como nos cadernos de Kindzu. aba fada pelo requebrar das vagas. Liberado desse mundo real. de uma travessia re alizada seja pelos vivos. 01 jan/jun 2008 representa a inteligência. enquanto o segundo o é pela esperteza. perpassa todo o romance. configura-se imagisticamente como esperto. dessas de embalar as crianças do inteiro mundo. que o primeiro é caracterizado pe la sabedoria. navegável. enquanto o velho o é como sábio. 235) Sonhos de esperança em uma Terra Sonâmbula 7 . Assim. narrativa s encaixadas que se mesclam através da voz deste. 17) A viagem é outro elemento que está sempre presente na narrativa.] o novo. Tuahir é a continuidade da tradição. olhando a água chegar. 43) Nesse ponto. Tuahir está deitado. “A barca é o símbolo da viagem.

Nelas é que estão os sonhos de esperança para es sa terra escalavrada pela guerra. é o filho de Farida. a viagem empreendida pelos personagens de Terra Sonâmbula (1993) ultrapassa o romance e se configura como uma viagem coleti va. Muidinga percebe-se partícipe da narrativa de Kindzu e este tom a parte da história de Muidinga. na busca dessa individualidade. 1990. M uidinga. Kindzu. um “inteiro mundo”. por quem Kindzu procurava. tem nessa narrativa uma sutil diferença. nas inquietações. dentro do romance. Ao fazer essa junção. a essa nação: “A viagem é sempre realizada por uma personagem em busca de uma situação de melhorament o para si própria ou para o grupo” (PADILHA. que reside a e sperança desse mundo que se fará inteiro. a tradição. que conseguem mesclar a fantasia e a realidade. Estrutura que remete ao c onteúdo. através da interiorização dos costumes de seu povo e. É nas crianças. seja ela real ou imaginária. Há sempre algo de coletivo no movimento da travessia. à realidade circundante do presente mundo glo balizado. p. Em Muidin ga se percebe a semente lançada na terra. A história de Kindzu acaba por influenciar a vida de Muidinga. (IANNI. o sonho. parte de um pr incípio diferente do individualismo globalizante. Muidinga lê a visão premonitória de Kindzu. 16) Esse individual que se transforma em coletivo.Nau Literária Atente-se que não é o mundo inteiro. na verdade. que se transforma na coletividade da nação. o caminhante não é apenas um “eu” em busca do “outro”. ante cedendo ao substantivo. É um mundo que se faz inteiro ao aliar a fantasia. Nesse momento Muidinga adentra nos cadernos. ao mesmo t empo. Gaspar. no m omento de sua morte. Seus sentimentos fazem agora parte dessa terra porque 8 Carlos Batista Bach . Então. p. Com freqüência é um “nós” s “outros”. Participa dessa viagem cada leitor que se detenha em suas paragens. Na na rrativa que se encontra nos cadernos. Já na viagem que se confi gura em Terra Sonâmbula. tensionam. se vê frente a Gaspar e grita seu nome. Entretanto. Neste. na qual ele. as viagens empreendidas por Kindzu e Muidinga correm paralelas para no fi nal se entrelaçarem. Descobrem-se unidos por um ponto comum: Farida. É neste que fora m semeadas as esperanças de continuidade de uma tradição que se vê dilacerada. A colocação desse adjetivo. lê sobre si mesmo na narrativa que co nta. as estórias contadas. conflitam. Pode-se dizer que o indivíduo e a coletividade são levados a necessitar da viagem. mesclam ou dissolvem . 38). pela busca da superioridade egocêntrica. o indivíduo se faz único porque percebe de maneira diferente o mundo ao seu redor. mas o “inteiro mundo”. que traz um impor tante significado ao contexto. 1995. tem-se um mundo completo e não fragmentado. ao fazer essa interiorização se percebe integrado a essa comunidade. descob ertas e frustrações dos que se encontram. o indivíduo se faz único pela competitividade.

no qual a estrada esteja viva e dê passagem aos sonhadores. de fantasias. pelo ouvinte. Na fala de Tuahir residia a existência de um con hecimento ancestral. com sobressalto. Me aproximo e. Então. pois Muidinga é partícipe da cultura letrada ma s também da cultura que se perpetua pela oralidade. Percebe-se. p. Muidinga é ta mbém leitor. o enco ntro com as tradições. Sonhos de esperança em uma Terra Sonâmbula 9 . ouvinte e sonhador dessa narrativa. a oralidade representa. que Mu idinga é a semente plantada nas “páginas de terra” de Kindzu. os sonhos de esperança que nascem dessas “páginas de terra”. há o encontro do velho com o novo. co m o peito sufocado. uma por uma. através dos relatos de Kindzu. Então. 1993. Então. assim como o leitor de Mia Couto será leitor.Vol. ligados à cultura global. que se percebe. uma vez que vivenciou. 245) No final dessa viagem. e Moçambique p recisa reafirmar sua identidade descobrindo novamente sua cultura. se vão convertendo em grãos de areia e. as folhas se espalham pela estrada. na viage m por essa Terra Sonâmbula. sente-se então a força da oralidade que perpassa a narrativa. assim como nos cadernos de Kindzu que tem suas histórias reve ladas através da fala de Muidinga. Mia Couto conta um história em que o personagem sonha. Nas suas mãos estão papéis que me parecem f amiliares. confirmo: são os meus cadernos. Um tempo repleto de sonhos . todos meus escritos se vão tr ansformando em páginas de terra. seja a terra dos sonhos de cada moçambicano: unidos e fortificados p ela tradição. na narrativa. através do que lhe contam seus antepassados e através da literatura e scrita. fazendo com que toda uma sabedoria do passado seja terreno fértil para receber as sementes do futuro. Assim. É dessa forma. Assim como o sonho faz viver a estrada é o contar histórias que cria os sonh os. as letras. chamo: Gaspar! E o menino estremece como se nascesse por uma segunda vez. e é sonhado pelo leitor. com os mitos dessa terra de Moçambique. o elo de ligação entre a tradição e o moderno. Tuahir e Muidinga são ao mesmo tempo narrador e ouvinte. Nasce junto com Muidinga a esperança de um tempo. De sua mão tombam os cadernos. viajan tes da terra. Nas páginas de Terra Sonâmbula (1993). A tradição que é semeada no fu turo. aos poucos. 01 jan/jun 2008 se sente unido a ela. no q ual Moçambique. suas tradições. A criança que une o passado e o presente. então. Mia Couto semeia a esperança de um futuro. São sonhos de esperança alimentados por cada leitor. 04 N. cada sonhador que se percebe como um ouvinte das histórias contadas pelas personagens. Movidas por um vento que nascia não do ar mas do próprio chão. Muidinga nasce de novo ao descobrir a sua identidade. (COUTO. não deixando morrer o velho em detrimento do novo: ao contrário. é em Muidinga. que reside a esperança de um futuro de paz e sonhos para essa terra. Mais adiante segue um miúdo com passo lento.

O mal-estar da pós-modernidade. Mia. LOBO. Entre voz e letra: o lugar da ancestralidade na ficção angolana do século XX. Luiza.2. 1978. Jean & GHEERBRANT. Maria Alzira. 1999. (Selo Negro). março/abril 1990. 10 Carlos Batista Bach . FOR D. n. 1999. Os ritos de passagem. São Paulo: Summus. de Jorge de Lima a Ana Cristina Cés ar. IANNI. São Paulo: Record. 1988 . Rio de Janeiro: Jorge Z ahar Ed. 1998. Lisboa: Cosmos. Terra sonâmbula. Porto Alegre: UFRGS. In: 1  Congresso ABRALIC. O herói com rosto africano: mitos da África. Porto Alegre. 1988. 1995. 1993. Octavio. Dicionário de símbolos. p. Alain. COUTO. 1998. SEIXO. Laura Cavalcante. Zygmunt. GENNEP. Clyde. Poét icas da viagem na literatura.. A metáfora da viagem. São Paulo: Cultura Vozes. v. Arnold Van. Rio de Janeiro: José Olympio. A der (rota) na metáfora da navegação.Nau Literária Referências BAUMAN. Anais. PADILHA. 90. Rio de Janeiro: EDUFF. Petrópolis: Vozes.123. CHEVALIER.

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