O peemedebismo, por Marcos Nobre

Enviado por luisnassif, seg, 27/12/2010 - 11:49

Por raquel_
De acordo com esse texto do Marcos Nobre, nada de lulismo, o negócio é o peemedebismo.

Da piauí O fim da polarização
Nem petistas, nem tucanos: o peemedebismo no poder
MARCOS NOBRE

A partir das eleições de 2006, a disputa pelo título de “melhor governo da história deste país” foi politicamente decidida a favor de Lula, contra a era FHC. Já o debate acadêmico, em sentido contrário, parecia se encaminhar para entronizar (para o bem ou para o mal, dependendo da avaliação) o Plano Real como marco de um novo período da história brasileira. Foi quando o cientista social André Singer, num artigo publicado em 2009 na revista Novos Estudos do Cebrap, resolveu comprar a briga e estabelecer o lulismo como momento inaugural de uma nova era. Segundo suas análises, o governo Lula construiu um programa político ao longo de dois mandatos, cuja base social estaria na massa popular desorganizada que conquistou, nesse período, substanciais melhorias em seu padrão de vida. Lula teria realizado uma operação política de troca de sua base eleitoral e de apoio entre as eleições de 2002 e de 2006. Conforme a tese, ele abandonou a base tradicional na classe média em favor de um “subproletariado”, caracterizado por um profundo e disseminado conservadorismo. Foi nesses termos que Singer deu corpo e densidade à expressão até então vaga do “lulismo”, levando a discussão a outro patamar.

Em textos mais recentes, Singer deu a esse suposto conservadorismo de massa profundidade histórica, em registro local e internacional, por assim dizer. O lado nacional conecta a nova base social de Lula a uma corrente social subterrânea que o levaria a Getúlio Vargas e à “herança populista dos anos 1940/1950” e que estaria ligada, no presente, a um “povo lulista que deseja distribuição de renda sem radicalização política”, como afirmou em artigo publicado na Folha de S.Paulo.

JaesJá é suficientemente inquietante a aproximação com um paternalismo avesso à democracia. Tanto mais que Singer nem mesmo distingue entre o Getúlio Vargas da ditadura do Estado Novo e o presidente eleito da

Desaparece a imagem de uma sociedade amputada por uma representação política excludente. como fez em ensaio publicado na edição de outubro de piauí. Seja como for. um vaivém entre o New Deal. Dessa perspectiva. A situação é outra quando se olha tanto o período FHC como o período Lula do ponto de vista mais amplo do processo de redemocratização iniciado nos anos 80. Como se a presença ou ausência da tradição e da prática democráticas não fosse elemento estrutural para pensar qualquer aproximação ou comparação entre situações sociais e históricas distintas. tudo somado. Lula e o Estado Novo nem de longe pode ser considerado como uma operação inofensiva. ele se seguiu a nada menos do que a crise de 1929. nos Estados Unidos. A comparação com o New Deal parece deslocada por várias razões. como é o caso da brasileira. Essa comparação com um momento passado da história norte-americana pretende. Com essa redução. é apenas essa ampliação do horizonte que permite enxergar a cultura política mais duradoura que caracteriza a . Mas a complicação fica ainda maior quando aproxima o lulismo do New Deal dos Estados Unidos da década de 30. em boa medida. Desaparece todo o universo de obstáculos à efetiva democratização da sociedade que caracteriza a política do país. desaparece do horizonte também a crítica. mas por reduzir a política ao reflexo de uma população que compra e consome. os determina. Roosevelt chegou três anos depois da maior catástrofe econômica da história do capitalismo em tempos de paz e encontrou o terreno propício – não obstante a derrota histórica nas eleições legislativas de 1938 – para alcançar um novo grande acordo social. que não é demonstrado. econômico e democrático dos Estados Unidos pré-1929 não tem base de comparação com o Brasil de 2002. tanto o marco representado pelo Plano Real quanto aquele representado pelo governo Lula se apresentam como momentos de inflexão em uma linha de desenvolvimento que os precede e. está ausente a referência à democracia e a uma cultura política democrática – tanto no caso dos Estados Unidos como no caso do Brasil. Um pressuposto. o que se tem na argumentação de Singer é o suposto de que aumentar a renda da população pobre tem resultados conservadores. A começar pelo fato de que. como se costumava dizer no velho jargão marxista –. Sem falar no fato elementar de que o patamar de desenvolvimento social. Não apenas por ignorar o papel das instituições e de uma cultura política democrática – fenômenos “superestruturais”.década de 50. na verdade. Roosevelt. E. Supor conservadorismo sem examinar as condições políticas concretas do desenvolvimento da democracia naturaliza esse mesmo conservadorismo. aliás. Ao mesmo tempo. apontar para o futuro – para o Brasil que teria sido inaugurado pela era Lula e que teria como imagem a formação da nova classe média dos Estados Unidos depois do período do presidente Franklin D. Ao contrário de Obama agora. Surge como um economicismo de novo tipo. De maneira crua.

Tem a ver com uma lógica. mesmo que nunca se transfira partidariamente para o PMDB e continue no PSDB. Por isso. juntamente com sua forma mais relevante e estrutural de obstrução democrática. seja para dirigi-lo. A essa cultura política herdada dos anos 80 dou o nome de “pemedebismo”. Ocorre que não só o MDB guardava um capital político de altíssimo valor. basta pensar que uma figura como Aécio Neves pode perfeitamente ser pensado nesse registro. Para entender esse movimento. Com o pluripartidarismo. é preciso voltar três décadas e puxar o fio da meada desde lá. seja para neutralizá-lo. são momentos de inflexão em uma linha de força muito mais duradoura e consistente. já então PMDB. em lugar de Tancredo Neves. . certamente ele será um símbolo do pemedebismo. Se a oposição se dispersasse naquele momento. ganhou o importante problema de saber como não se esvaziar. Pois a antiga Arena tinha se tornado o PDS e conseguira manter a maior parte de seus quadros. por mais importantes que pareçam e de fato sejam. de como manter dentro da mesma legenda correntes. Com a reforma partidária de 1980. É possível ver o desenvolvimento da política do país desde então como uma sequência de tentativas de lidar com esse fenômeno fundamental. seja para combatê-lo. portanto. mas a regra. mesmo que este continue ainda hoje a ser o seu fiel depositário na política brasileira. Dispersar forças naquele momento poderia significar também colocar inteiramente nas mãos dos militares a transição democrática.sociedade brasileira. O pemedebismo significa uma lógica. se formou e se consolidou a partir da configuração concreta do PMDB na década de 80. tanto o Plano Real como o “lulismo” foram tentativas de controlar o pemedebismo de fundo da política brasileira. o MDB. em que a euforia da irresistível ascensão do país à condição de potência mundial deixa ver com dificuldade o fato elementar de que períodos de crise não foram a exceção. tendências e mesmo partidos inteiros que tinham poucas afinidades além da unidade da luta contra a ditadura. parecia que o sentido do MDB também havia se esgotado. De maneiras diferentes. Se tiver a oportunidade e as condições políticas para isso. o Colégio Eleitoral de 1985 poderia eleger um nome civil do PDS como presidente da República. Lógica que. no quarto de século que vai de 1978 a 2003. Mas que se autonomizou em relação ao partido. sim. O que é um exercício bem distante de ser óbvio no momento atual. A título de exemplo. A pemedebização não tem a ver apenas com o crescimento ou a eventual hegemonia de um partido dentro de um governo. nas condições específicas em que se deu a redemocratização.

um governo de união nacional. é uma cultura política que aceita mecanismos de participação e deliberação democráticos. obstáculos e vetos que procurava represar e atender seletivamente à verdadeira enxurrada participativa que se viu naqueles tempos. No mais. mas sim porque se mostram capazes de desviar. a nova sigla aperfeiçoou um sistema interno de regras de disputa que já funcionara durante a década de 70 e que. ganhará o direito de vetar qualquer deliberação ou decisão que diga respeito a seus interesses. real ou imaginário. incluídos. Desde que não ameacem seriamente o sistema de vetos. Pressupõe que maiorias não se formam positivamente em favor de políticas determinadas. a visão realista de que a democracia não passa do exercício da capacidade de bloquear o oponente. uma tarefa que não cabe aqui). cujo sentido mais importante é garantir o sistema de ingresso universal e de vetos seletivos. de tão impressionante longevidade e vitalidade na política nacional. precisava também incluir figuras de uma nova ordem de grandeza: governadores de estado. Pretende. liderada pelo PMDB. Foi uma resposta tipicamente conservadora ao brutal descompasso entre uma democracia sem instituições e a altíssima participação popular nos anos 80. Esse sistema pode ser descrito de maneira simples como um sistema de vetos. inclusiva do pemedebismo tem seus limites.Para conseguir manter dentro de um mesmo partido correntes e tendências tão heterogêneas. Foi assim que o PMDB se organizou a partir da década de 80. não de enfrentá-lo abertamente no espaço público. Como se o partido fosse. a partir de 1983. Mas essa lógica. Quando todos estão. caso consiga se organizar como grupo de pressão. por assim dizer. . desde o declínio da ditadura militar. em si mesmo. especialmente visível no período da Constituinte. A política simplesmente deixa de funcionar quando a polarização desaparece. Em lugar de democratizar aceleradamente as suas instituições. então. sem inimigos. sua identidade deixa de se construir por oposição a um inimigo. (Coisa muito diferente – e ainda mais complicada – seria a de circunscrever a “base social” desse pemedebismo. uma tendência inscrita no próprio pemedebismo. contornar ou neutralizar vetos. garante a quem entrar que. Reafirma-se. quando estão aPTos e organizados para vetar. no limite. a política brasileira. e passa a ser construída com base em um discurso inteiramente anódino e abstrato. em algum momento vem a paralisia. construiu um sistema de filtros. O essencial da cultura política inaugurada pelo PMDB na década de 80 é o fato de que. engolir e administrar todos os interesses e ideias presentes na sociedade. É um modo de fazer política que franqueia entrada no partido a quem assim o deseje. Em segundo lugar. inédita na história do país. digamos.

mais cedo ou mais tarde. a inflação deixou de ser o mecanismo mais eficiente para a manutenção do pacto de desigualdade que caracteriza a história brasileira. acabou por ser positivo para a sua consolidação. basta lembrar que. . por razões que não vêm ao caso aqui. a inflação auxiliou na promoção de desenvolvimento econômico rápido e intenso sem alterar fundamentalmente os padrões desiguais de distribuição de renda. a paralisia política coincidiu com a desorganização econômica. Nos limites rígidos de uma economia fechada e. de regimes autoritários e/ou coronelistas. Normalmente considerada como o período do “ajuste estrutural” à nova etapa do capitalismo mundial. a década de 80 foi. “inflação inercial”. Esse foi não apenas o momento em que a inflação se tornou hiperinflação. Não é de estranhar. Chamava-se inflação. E não é difícil ver que a tarefa de superar simultaneamente a hiperinflação e o modelo nacionaldesenvolvimentista sem regressão autoritária não é factível em uma configuração política como essa. E que os tímidos ensaios de abertura econômica da década de 80 – como a abertura para o investimento. Dito de outro modo. Foi esse nó social que coube ao pemedebismo não desatar. à paralisia. E culminou com uma inflação inteiramente fora de controle e com a humilhante derrota de Ulysses Guimarães na eleição presidencial de 1989. a resposta pemedebista canônica é a do adiamento permanente de soluções definitivas. Produziu uma Constituição que contém muitas e diferentes constituições dentro de si – o que. Não foi por acaso que um dos primeiros atos da ditadura militar de 1964 tenha sido o de institucionalizar a inflação sob a forma da “correção monetária”.Na década de 80. independentemente do chamado governo central. na maior parte do século XX. entretanto. que esse adiamento estrutural leve. Um pacto que pretendia se sustentar na melhoria geral dos padrões de vida. na verdade. com a redemocratização e com o esgotamento do modelo chamado nacional- desenvolvimentista. A desorganização econômica tinha nome e sobrenome conhecidos. por exemplo – foram feitos na margem e por políticas específicas de ministérios e órgãos da área econômica. Teve papel central na manutenção do pacto de desigualdade brasileiro dos anos de nacionaldesenvolvimentismo. portanto. governos estaduais tinham no Brasil relevantes instrumentos para fazer política econômica. A hora histórica coincidiu também com o declínio da ditadura militar. Para mostrar isso. entre as décadas de 30 e 80. a do adiamento do ajuste mediante a manutenção da hiperinflação e do fechamento da economia. Em um determinado momento. A coincidência histórica de hiperinflação e redemocratização moldou um sistema político programado para o quanto possível impedir a formação de blocos hegemônicos capazes de impor perdas definitivas a terceiras partes. até 1994. revelando divisões e disputas potencialmente desagregadoras no interior dos próprios estratos sociais privilegiados.

a regra seria construir uma coalizão de “A a Z” sob a liderança do polo no poder. Mas o novo modelo de gerenciamento político do período FHC deu ao pemedebismo direção e sentido. estabelecendo a partir daí dois polos no sistema. A paralisia pemedebista trouxe seu oposto para o centro da arena política: Collor. a oscilação entre os extremos da paralisia pemedebista e do cesarismo alucinado de Collor colocou as bases para o surgimento da nova versão do pacto de desigualdade brasileiro representado pelo Plano Real. aliás. Dependia ao mesmo tempo da construção de um bloco político capaz de superar a crise estrutural de hegemonia da redemocratização que é chamada aqui de pemedebismo. há um vínculo interno entre a “inflação inercial” e a “política inercial” que se cristalizou sob a forma de sistema político a partir da década de 80. “Mensalão”. Controlar a inflação não dependia apenas de um aprendizado técnicoeconômico com os sucessivos fracassos dos planos anti-inflacionários de 1986 a 1991: Cruzado (I e II). o governo FHC estabeleceu um campo de forças em que ao PT só restariam duas possibilidades: permanecer indefinidamente na oposição ou fazer um movimento em direção ao centro político. Em lugar dos dois extremos – pemedebismo ou Collor – FHC colocou a ponta seca do compasso em um novo centro político. submetendo essa cultura política a um sistema bipolar que o conteve em limites administráveis. A reorganização que veio com o Plano de 1994 não alterou substancialmente a lógica pemedebista – o que. do lado oposto. do Real. que a década tenha se encerrado com a opção antipemedebista por excelência. além dos parceiros históricos. Collor (1 e 2). com a eleição de Fernando Collor. viesse a se aliar ao PMDB. Como já deve estar claro a esta altura.O que explica também. se lembrarmos que o próprio FHC se formou na política partidária dentro do MDB/PMDB. Ou seja. Ao se aliar ao PFL e. com uma única bala. pela primeira vez em 25 anos. a condição propriamente partidária imposta pelo modelo era uma só: o partido conseguiria vir a governar o país se. posteriormente. No caso de um movimento do PT em direção ao centro. a outra face da moeda. ainda que somente depois do cataclismo do “mensalão”. uma crise política não afetou a economia. a quem mais estivesse disponível. um liderado pelo PSDB. O que efetivamente aconteceu no governo Lula. aliás. que marca o ponto de chegada e o apogeu da engenharia política do Plano Real. não surpreende. o outro pelo PT. Bresser. com uma nova e mais “flexível” estratégia de alianças. queria matar a inflação e o nacional-desenvolvimentismo. Verão. Foi quando. literalmente. . Além dos aliados históricos de cada um dos lados. No fundo. É nesse sentido que a aliança PSDB/PFL foi. controlar a inflação significava ao mesmo tempo controlar a tendência pemedebista da política brasileira.

isolando ou mesmo expulsando militantes e grupos políticos inteiros que se opunham à nova orientação. e buscando estabelecer pontes com partidos e figuras políticas até então consideradas como inimigos. Tinha chegado à conclusão de que o Plano Real havia alterado profundamente a lógica da política brasileira. Sem o permanente adiamento representado pela inflação. Retirando do âmbito dos estados praticamente toda e qualquer possibilidade de praticar política fiscal e monetária – o que era comum no período inflacionário – o governo federal garantiu o monopólio da irresponsabilidade fiscal. julgada então necessária para alcançar a estabilização econômica pretendida. em que os governadores lançaram mão dos parcos e únicos recursos que lhes restaram para obter investimentos em troca de isenções e benefícios tributários e fiscais. A concentração dos principais instrumentos de política fiscal e monetária nas mãos do governo federal foi essencial para neutralizar essa que foi uma das principais fontes de alimentação do pemedebismo na década de 80. Depois de perder sua segunda eleição presidencial em 1994. E seu episódio inaugural e mais marcante ocorreu antes mesmo da posse de FHC como presidente: a intervenção no Banco do Estado de São Paulo. diga-se – Dirceu implementou à risca o plano. os governadores se viram em dificuldades orçamentárias intransponíveis e. Para chegar ao primeiro mandato de Lula é preciso ainda lembrar de pelo menos mais uma das mudanças estruturais decisivas introduzidas pelo Plano Real e que marcou o ocaso do poder dos governadores de estado. Foi nesse momento que começou a ser construída tanto uma maioria partidária disciplinada como uma nova política de alianças partidárias e eleitorais. construindo um sólido bloco de apoio majoritário. A mesma irresponsabilidade que negou aos estados. do outro lado. foi o tempo mais quente da chamada “guerra fiscal”. então senador do hoje extinto PL. O primeiro movimento de neutralização veio com a própria estabilidade da moeda. a inflação. tradicionais candidatos a gerentes do condomínio político pemedebista brasileiro.Mas a história ainda não chegou a 2005. a começar pelo fato de ter resolvido o principal problema nacional. Mario Covas. O segundo movimento foi concomitante. Lula tomou a decisão de fazer mudanças significativas no PT. o Banespa. reorientando radicalmente sua estratégia. A partir de 1995 – e não sem conflitos com o próprio Lula. . O movimento inaugural nessa direção foi a eleição de José Dirceu para a presidência do PT. encontraram no governo federal um duro negociador na reestruturação das dívidas estaduais. até então principal líder do PSDB. O ápice dessa estratégia se deu na eleição de 2002 e seu símbolo é a candidatura a vice-presidente na chapa de Lula do empresário José Alencar. que teve um efeito devastador sobre a dívida pública. realizada às vésperas da posse do governador do estado. Não por acaso.

porque isso significaria também. ou pelo menos com a porção dele que pudesse ser atraída para a base do governo. Nesse momento de seu primeiro mandato. E Lula continuava a ocupar a posição de “último recurso” que sempre ocupou nas disputas internas do partido. Essa situação fez com que as figuras de José Dirceu e de Antonio Palocci se sobressaíssem e passassem como que a canalizar todas as disputas internas ao governo em duas facções concorrentes. E a consequente aliança formal com o PMDB. Dirceu apoiado no PT. não com o partido como um todo. Manteve-a apenas nos limites do necessário para alcançar os efeitos eleitorais pretendidos. Lula investiu contra a lógica da polarização que organizava todo o sistema. Ou seja. escolheu inicialmente construir novas alianças apenas com a miríade de pequenos e médios partidos à disposição e fazer acordos individuais com parlamentares do PMDB. Mas. Com taxas de aprovação popular jamais vistas. O resultado foi o abismo do “mensalão”. . Ou lhe deu uma alternativa ainda mais estreita do que aquela que lhe tinha sido imposta por FHC. Palocci como porta-voz de outras forças partidárias dentro do governo e do mercado financeiro. Ao contrário. O governo estava dividido essencialmente entre facções do partido que continuavam a se digladiar por espaço como antes. o acordo com o PMDB construído durante meses por José Dirceu. interferindo diretamente apenas quando o seu próprio prestígio estava em causa. Lula deu o troco. Deu à oposição a alternativa de aderir ou de se encantoar na extrema-direita. Entre outras coisas. já que Lula não autorizava (nem desautorizava. Lula esteve em condições de ampliar de tal maneira o centro político que a polarização praticamente desapareceu. quando parecia que o scriPT traçado em 1994 estava sendo seguido à risca. Em lugar de apenas se limitar a trazer o PMDB e o estritamente necessário para a sustentação política do governo. passou a ampliar sistematicamente o centro político estabelecido a partir do Plano Real e a tornar quase impossível a vida de um oposicionista. dar poder demais a Dirceu na disputa interna.Lula ganhou a eleição sem o apoio formal do PMDB. nesse contexto. Lula operava ainda como árbitro do PT e não como presidente da República. não lhe deu alternativa. em 2004. Não que Lula não tenha tentado fugir a essa camisa de força herdada. de fato. em 2005. ao mesmo tempo) ninguém a negociar em seu nome. Por essa época. E. momento em que Lula finalmente assumiu a Presidência da República e o papel de articulador político de seu próprio governo. roubou o chão do polo liderado pelo PSDB. as negociações políticas eram extremamente delicadas. Foi essa instabilidade estrutural que o levou a recusar. Mas não conseguiu estabilidade para governar até o momento em que cumpriu o destino que lhe tinha sido reservado pelo arranjo imposto pelo Plano Real.

com os potenciais e os obstáculos ao seu aprofundamento. no início da redemocratização brasileira. O acordo selado em torno do centro político se tornou de tal maneira amplo que toda e qualquer polarização parece artificial. Em uma sociedade que – por muito boas razões. Como me parece ter razão ao acrescentar em seguida: “Em que grau e velocidade. um . Ao contrário da ladainha conservadora. O que tento mostrar aqui é que há uma tendência à paralisia no sistema político brasileiro cuja lógica chamo de pemedebista. Artificialismo. que sejam capazes de mostrar as tendências do sistema. a luta de classes dirá. Ta mbém no caso da representação do que André Singer chamou de subproletariado. Lula representa quem nunca teve verdadeiramente representação. tento mostrar aqui que é o mesmo mecanismo característico da cultura política brasileira que se encontra em ação: o de igualar “estar incluído” com “ter poder de veto”. É por tudo isso que penso que André Singer tem razão em dizer. Depende de uma análise política capaz de vincular esse movimento à própria lógica da democracia brasileira. E que o momento atual é de enfraquecimento da polarização. sem dúvida. é igualmente acreditar que não será atropelado por mais um dos muitos “consensos” que o país produz de quando em quando. diga-se – não acredita em consensos. E que explica também por que a eleição de 2010 ficou entre o chocho e o abstruso. não porque simbolize um conservadorismo que seria próprio aos excluídos políticos. que tem sua utilidade eleitoral. Tento mostrar também que essa tendência intrínseca impõe dificuldades estruturais à produção de polarizações consistentes e duradouras. ser representado não é apenas ser objeto de políticas públicas. que “durante um tempo longo o norte da sociedade será dado pelo anseio histórico de reduzir a pobreza e a desigualdade no Brasil”. as eleições da última década significaram a ascensão de pobres e remediados à condição de representados políticos. mas porque é o fiador de que não haverá retrocesso nesse avanço democrático à brasileira. o primordial é tentar garantir não ser atropelado por um dos propalados “consensos” do momento. cujas raízes devem ser buscadas na década de 80. O que talvez seja específico do caso brasileiro é a maneira como ocorre a “inclusão”. sem nada de realmente relevante entre as duas coisas. Como por toda a América Latina. Do contrário. no ensaio de piauí. entretanto. a posição do lulismo como pretenso momento inaugural de uma era perde o gume analítico e seu eventual poder explicativo.” Ocorre que a determinação do “grau e velocidade” depende também de análises políticas concretas.Esse movimento solapou de tal maneira as bases do sistema político do Plano Real que é difícil imaginar como elas poderiam ser hoje recompostas.

o crescimento econômico expressivo e praticamente contínuo tornou os reais perdedores apenas residuais. que resultaram em renúncia ou cassação de mandatos. Tão ou mais importante que isso. O marco do novo surto pemedebista pode ser representado pela resistência de José Sarney na presidência do Senado apesar de uma saraivada de denúncias.momento em que a paralisia pode suplantar uma vez mais o sistema bipolar instituído pela lógica política do Plano Real. marcou a volta do pemedebismo à disputa pela hegemonia da gramática política brasileira. os grupos escolhidos pelo governo como vencedores tinham todas as razões para comemorar. E o PMDB recebeu a maior parte da execução das políticas – justamente a parte que . esse desenvolvimentismo movido a subsídios. por exemplo. Ao contrário de casos anteriores. assim como os demais tinham motivo de sobra para se recolherem. com o controle dos projetos e com o crédito de paternidade (ou maternidade. Só que repartiu de maneira desigual os seus dividendos políticos. Mas isso estava ainda longe da política desenvolvimentista do segundo mandato. O PT ficou com a formulação. evitando possíveis represálias. a chegada do PMDB ao governo Lula trouxe ainda um elemento novo ao modelo de liderança bipolar herdado da engenharia política imposta por FHC. Uma contraprova do caráter determinante dessa cultura política de fundo pemedebista está em que. na ampliação dos programas sociais. Lula criou onde e como pôde políticas sociais compensatórias. No caso da reviravolta política de Lula examinada aqui. como se queira). E essa novidade é um elemento determinan te do “grau e velocidade” em que poderão se dar ou não as transformações no país. coincidência ou não. nas reformas microeconômicas do crédito. desonerações e subvenções só deslanchou com a entrada definitiva do PMDB no governo. O apoio decisivo de Lula à permanência de Sarney na presidência do Senado selou a aliança com o PMDB para a eleição presidencial de 2010 e. a permanência de Sarney mostrou que o centro político ganhou tal amplitude e poderio que pode em grande medida ignorar protestos sistemáticos e generalizados da sociedade. E. Na nova política. ao mesmo tempo. até então subordinado e subterrâneo. Seja por que razão for. que induziu a criação de oligopólios nacionais com pretensões de internacionalização. o alargamento do centro político e o enfraquecimento da polarização tiveram por consequência trazer para o primeiro plano justamente o pemedebismo. o fato é que a nova orientação desenvolvimentista não encontrou resistência social e política relevantes. desde o primeiro mandato. em 2009. Lula caminhou justamente por onde não encontrou vetos: nos aumentos reais do salário mínimo. depois do “mensalão”. Além disso.

aliás. pode ser visto como caso exemplar dessa lógica lulista de repartição de dividendos políticos.contempla o poder local e abastece a política miúda. Quanto mais se radicalizou a polarização entre PT e PSDB. do que o estado da disputa interna ao governo. Note-se. mais a polarização é amplificada artificialmente. O sucesso do Plano Real e a popularidade de Lula conseguiram ainda contrabalançar. Parece que não mais. não por acaso criado por Dilma Rousseff quando ministra das Minas e Energia. filiando quadros tão importantes e incongruentes entre si como Henrique Meirelles e Delfim Netto. E não apenas porque a própria repartição terá de ser negociada. de outro. O programa Luz para Todos. tanto mais o pemedebismo se impôs. o lugar político menos propício para enfrentar as coalizões de “A a Z” que caracterizam os governos desde FHC. Mas. É por isso também que o tamanho nominal da bancada parlamentar que apoia o governo tem menos importância do que as matérias específicas em pauta. Mas são eventos passados e irrepetíveis. uma política que tende a se fechar sobre si mesma. Ou seja. É justamente essa lógica de repartição de dividendos políticos que está ameaçada de agora em diante. Tornado aliado em sentido enfático nas eleições de 2010. o PMDB vai levar a disputa entre situação e oposição para dentro do governo. quanto mais o pemedebismo avança. Além disso. servindo à manutenção de uma lógica política profunda que não é nem petista nem tucana. pode levar à paralisia. procurou mesmo se mostrar fiador dessa “blindagem”. . O resultado regressivo desse processo é visível a olho nu: uma política que tende a se descolar da sociedade. Não se trata de dizer sem mais que a polarização é falsa e que não há diferenças entre os dois polos. A possível oposição se encontra hoje entrincheirada justamente em governos estaduais. o sucesso do Plano Real e os altíssimos índices de aprovação do governo Lula permitiram manter sob certo controle a tendência do sistema à pemedebização. o partido que lhe deu origem. e o PT e seus possíveis aliados. que o fiel depositário do pemedebismo. E que. A ironia e a tragédia da história estão em que o pemedebismo encontrou na “blindagem” da economia contra “interferências políticas” o elemento que lhe faltava para voltar a disputar a hegemonia política. um Congresso ainda mais fragmentado serve de caldo de cultura política ideal para a expansão do pemedebismo. no limite. conter e direcionar em alguma medida o pemedebismo. de um lado. a mais importante disputa política será entre o PMDB e o pemedebismo. para sair de sua posição de relativa subordinação de mais de quinze anos para um novo protagonismo. Durante dezesseis anos.

Depois de 2012. que a oposição vai se reorganizar e acabar aparecendo. Porque. Aécio Neves decidiu ir para o tudo ou nada contra a pretensão de Serra de presidir o partido. Sendo que a figura de José Sarney é aqui emblemática: o atual presidente do Senado e candidato à recondução ao cargo foi justamente o presidente no auge do pemedebismo da década de 80. aliás. A primeira das duas batalhas decisivas será uma vez mais a eleição municipal – a mesma. . Em termos concretos. Aécio não permanecerá no PSDB senão o tempo suficiente para encontrar um solo alternativo para suas pretensões presidenciais. a oposição pode. Isso seria capaz de dar novo fôlego à oposição. resta à oposição formal hibernar. que esteve na origem do “mensalão”. é importante lembrar. no início de 2011. Mas. As fábricas de dossiês vão se multiplicar como nunca. na segunda metade de 2013. o jogo político não vai se dar entre situação e oposição. no fundo. Uma eventual hegemonia do pemedebismo tenderia a levar a uma situação semelhante ao estado de paralisia política dos anos 80. poderia comprometer seriamente a Copa do Mundo ou as Olimpíadas. Há quem confie em supostas leis da política e ache que é assim mesmo. a segunda batalha acontecerá na data limite para parlamentares trocarem de partido sem penalidades. Mas também esse não é um cenário alentador para a democracia brasileira. já que as obras de infraestrutura são as primeiras a serem afetadas por uma crise política profunda. Aliás. servir de massa de manobra na disputa entre PT e PMDB. Enquanto isso.Não será uma briga bonita de ver. o PMDB fará de tudo para colocar sob sua órbita de influência o maior número possível de parlamentares de outros partidos. foi a primeira baixa. Não é nem um pouco fácil imaginar o lugar que poderá ter a oposição durante o governo Dilma. A primeira escaramuça – que de maneira alguma será decisiva – acontecerá na eleição para a presidência da Câmara e do Senado. a ministra-chefe da Casa Civil. no máximo. Mas não são muitos esses otimistas científicos. mas entre a crise de um sistema organizado em polos e a pemedebização. Se perder para o grupo paulista. Sua queda dá uma pálida ideia de como serão os embates futuros. E manter a esperança de que o pemedebismo afinal vença e venha a produzir a paralisia que lhe é própria. o prenúncio do que virá. talvez em aliança com o próprio PMDB. Já durante a eleição de 2010. por exemplo. mesmo quando conseguir se reorganizar. No momento. Erenice Guerra. tudo indica que também a disputa pela liderança do PSDB será duríssima. Marcaria o retorno da concomitância entre crises políticas e abalos na economia. Sabe muito bem o que significa estar nas mãos de um Congresso que funciona segundo essa lógica.

pelo menos suas marcas mais gerais são bem visíveis: um tempo de bonança. E. mas sem suas sugestões e críticas o texto simplesmente não seria o que é. E a polarização dos últimos quinze anos não tem mais densidade suficiente para organizar e estruturar o sistema.Seja como for. sua efetiva ocorrência exigirá uma reorganização de grandes proporções. no médio e longo prazo. se não é possível prever os resultados de uma regressão política dessa magnitude. Ou até que uma nova polarização se produza para superar uma vez mais a paralisia pemedebista. Agradecimento Maria Cristina Fernandes não tem nenhuma responsabilidade pelo que escrevi acima. é pelo menos possível dizer que. Porque o sistema político não sobrevive sem polarização. Um sistema em estado de não polarização é o elemento do pemedebismo. desigualdade e pequena política. . se um cenário regressivo não se deixa ver hoje em toda a sua possível amplitude e gravidade.

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