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DIDACTICA MAGNA Iohannis Amos Comenius
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Didactica Magna (1621­1657) Iohannis Amos Comenius (1592­1670) Versão para eBook eBooksBrasil OBS: Em eBookLibris, os textos em grego foram substituídos por <grego> para indicar a supressão. Fonte Digital Digitalização de Didáctica Magna Introdução, Tradução e Notas de
JOAQUIM FERREIRA GOMES

© 2001 FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN [Nota de Copyright]

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ÍNDICE
Nota do Editor Didática Magna Saudação aos Leitores A todos aqueles de presidem as coisas humanas Utilidade da Arte Didática Assuntos dos Capítulos Notas do Tradutor

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Nota do Editor
Deixo que o próprio Autor justifique a presente edição em eBook de sua obra: “16. Dai nasceu este meu tratado, onde o tema é, assim o espero, desenvolvido mais longamente e mais claramente do que nunca o foi até ao presente. Escrito inicialmente em vernáculo, para uso do meu povo, sai agora, a conselho de alguns homens eminentes, vertido em latim, para que, se possível, aproveite a todos. 17. Com efeito, a caridade manda que o que Deus manifestou para salvação do gênero humano (assim fala o eminente Lubin da sua Didática, se não esconda dos mortais, mas se manifeste a todo o mundo. Efetivamente, é da natureza de todos os bens (continua o mesmo Lubin) que sejam comunicados a todos; e quanto mais é a riqueza e se põe em comum, tanto melhor é e tanto mais cabe a todos. 18. É também uma lei de humanidade que, se se conhece qualquer meio de ir em auxilio do próximo para o tirar das suas dificuldades, não se deve hesitar; sobretudo quando se trata, não de um homem só, mas de muitos, e não apenas de muitos homens, mas de muitas cidades, províncias e reinos e, digo até, do gênero humano inteiro, como é o caso presente.” E ainda: “15. Peço também e suplico, em nome de Deus, que nenhum douto despreze estas coisas, pelo fato de virem de um homem menos instruído que ele. Na verdade, às vezes, «mesmo um camponês diz coisas muito oportunas, e talvez o que tu não sabes o saiba um burrinho», como disse Crísipo. E Cristo disse também: «O espírito sopra onde quer; e tu ouves a sua voz, mas não sabes de onde ele vem, nem para onde vai». Juro diante de Deus que não fui movido a fazer estas coisas, nem pela confiança na minha inteligência, nem pela sede da fama, nem pela esperança de daí tirar algum proveito pessoal; mas o amor de Deus e o desejo de tornar melhores as coisas dos homens, públicas e particulares,

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estimula­me de tal maneira que não posso deixar envolto no silêncio aquilo que um oculto instinto me sugere constantemente. Se alguém, portanto, podendo fazer andar para a frente os nossos desejos, os nossos votos, as nossas advertências e os nossos esforços, em vez disso, lhes faz resistência e os combate, saiba que declarará guerra, não a nós, mas a Deus, à sua consciência e à natureza humana que quer que os bens públicos sejam comuns, de direito e de fato.” O mesmo espírito que moveu o Autor a escrever, o tradutor à tradução e a Fundação Calouste Gulbenkian a publicá­la em papel, nos moveu nesta versão para eBook. Tenho certeza: Comenius, tão entusiasmado pela imprensa, teria adorado os eBooks, pelo que potencializam das oportunidades que tão bem apontou em sua obra. Na presente versão para eBook, feita antes de tudo visando o leitor brasileiro, apenas a ortografia foi “abrasileirada»; conservámos, contudo, os acentos diacríticos do pretérito, nem que seja pela clareza, mas sobretudo como sugestão para uma futura reforma ortográfica. Não constam desta versão a magnífica Introdução de Joaquim Ferreira Gomes, nem as ilustrações e, com certeza, por se tratar de texto processado por OCR, apesar de duas revisões, não tem a correção da obra impressa. E a versão mais completa, em eBook, é a em eBookPro. Minha busca pelas livrarias virtuais brasileiras resultou em nada, mas recomenda­se aos estudiosos que se dirijam ao website da Fundação Calouste Gulbenkian [http://www.gulbenkian.pt/] para verificar da disponibilidade da obra, que também poderá, com certeza, ser encontrada nas boas bibliotecas das boas Faculdades. Sobre a Fundação Calouste Gulbenkian: “A Fundação Calouste Gulbenkian é uma instituição portuguesa de direito privado e utilidade pública, cujos fins estatutários são a Educação, a Ciência, a

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Beneficência (Saúde e Proteção Social) e as Artes. Criada por disposição testamentária de Calouste Sarkis Gulbenkian, os seus estatutos foram aprovados em 1956. A Fundação tem a sua sede em Lisboa. Na prossecução dos seus fins estatutários a Fundação promove e apoia a realização de exposições, cursos, encontros e colóquios, concertos, ciclos de espetáculos dos mais variados gêneros; atribui subsídios a projetos, concede bolsas de estudo, apoia programas de natureza científica, educacional e artística tanto em Portugal como no estrangeiro. São importantes os projetos de cooperação com os países africanos lusófonos e também, desde 1999, em Timor­Lorosae (Serviço da Cooperação para o Desenvolvimento), os de preservação dos testemunhos da presença portuguesa no mundo e os de divulgação da cultura portuguesa no estrangeiro (ambos no âmbito da ação do Serviço Internacional), bem como os de apoio à diáspora armênia (Serviço das Comunidades Armênias). A Fundação mantém em todo o País um conjunto de bibliotecas. Na área de intervenção do Serviço de Saúde e Proteção Social é relevante a sua ação junto dos hospitais portugueses. No campo das edições, a Fundação desenvolve uma intensa atividade (principalmente através do Serviço de Educação e Bolsas).” O leitor está cordialmente convidado a visitar o website da Fundação, para conhecer um pouco mais dos relevantes serviços por ela prestados a Portugal, aos países de língua portuguesa e à humanidade. Sobre o Tradutor: O Professor Doutor Joaquim Ferreira Gomes, da Faculdade de Letras de Coimbra e de tantas outras instituições, é nome que dispensa apresentação para os educadores brasileiros. Para conhecê­lo melhor, e surpreender­se com suas contribuições para o conhecimento humano, basta uma rápida pesquisa no Google, no Sapo, ou qualquer outra ferramenta de busca. Recomendamos, ainda, a leitura do Ensaios em Homenagem a Joaquim Ferreira Gomes, publicado em Setembro de 1998, por ocasião do seu jubileu acadêmico. “Trata­se da coletânea de artigos escritos por alguns dos seus antigos alunos, por colegas e amigos de várias Universidades portuguesas e

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no Brasil.ebooksbrasil.html 8/357 .COMENIUS estrangeiras. www. lhe devemos muito. em reconhecimento do contributo muito significativo que deu para o desenvolvimento da Psicologia e das Ciências da Educação em Portugal.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .org/eLibris/didaticamagna. muito.” E não apenas a Portugal! Nós. inclusive a maravilhosa tradução da obra que você vai ler.

html 9/357 .ebooksbrasil.COMENIUS DIDÁTICA MAGNA COMENIUS www.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .org/eLibris/didaticamagna.

html 10/357 . menos enfado. mais paz e mais tranqüilidade. possa ser. com economia de tempo e de fadiga. e a tua ajuda salutar a todas as gentes (Salmo 66. ao contrário. e.ebooksbrasil.org/eLibris/didaticamagna. menos trabalho inútil. Que Deus tenha piedade de nós e nos abençoe! Faça brilhar sobre nós a luz da sua face e tenha piedade de nós! Para que sobre esta terra possamos conhecer o teu caminho. impregnada de piedade. menos dissídios. meses. e. mais atrativo e mais sólido progresso. 1­2).7/8/13 DIDACTICA MAGNA . haja mais recolhimento. ó Senhor.COMENIUS DIDÁTICA MAGNA Tratado da Arte Universal de Ensinar Tudo a Todos ou Processo seguro e excelente de instituir. Onde os fundamentos de todas as coisas que se aconselham são tirados da própria natureza das coisas. a sua verdade é demonstrada com exemplos paralelos das artes mecânicas. cidades e aldeias. mais ordem. haja menos trevas. e. nas escolas. o curso dos estudos é distribuído por anos. com agrado e com solidez. haja menos barulho. menos confusão. A proa e a popa da nossa Didática será investigar e descobrir o método segundo o qual os professores ensinem menos e os estudantes aprendam mais. é indicado um caminho fácil e seguro de pôr estas coisas em prática com bom resultado. em todas as comunidades de qualquer Reino cristão. escolas tais que toda a juventude de um e de outro sexo. instruída em tudo o que diz respeito à vida presente e à futura. dias e horas. educada nos bons costumes. enfim. sem excetuar ninguém em siveiarte alguma. e mais luz. desta maneira. www. na Cristandade. nos anos da puberdade. possa ser formada nos estudos.

mas podemos facilmente imaginar que haverá pessoas que nela verão mais um sonho que um propósito fundado na realidade. com resultados diferentes. leitor. arrastar ninguém. Quase todos por meio de algumas observações externas recolhidas com o método mais fácil.org/eLibris/didaticamagna. quem quer que tu sejas. 4. Na verdade. então terás a liberdade.COMENIUS SAUDAÇÃO AOS LEITORES 1. Mas. isto é. Didática significa arte de ensinar. a dar o seu assentimento a uma coisa que não oferece qualquer certeza. demonstraremos todas estas coisas a priori. Com efeito. Acerca desta arte. isto é. reunir­se num único rio. isto é. como de uma fonte viva que produz eternos arroios que vão. esta ou aquela língua. Alguns esforçaram­se por arranjar compêndios apenas para ensinar mais facilmente. de novo.ebooksbrasil. mas antes com sumo prazer para uns e para outros. E de ensinar rapidamente. como lhe chamam. para não dizer que não ambiciono. 2. mas encaminhando os alunos para uma verdadeira instrução. com o método prático.html 11/357 . ou seja. desde há pouco tempo. não somente de julgar. que seja impossível não conseguir bons resultados. Enfim. até que tenhas conhecido a substância das coisas. E de ensinar solidamente. Outros fizeram outras tentativas. alguns homens eminentes. um método universal de ensinar tudo a todos. pois é o www. eu não desejo. Nós ousamos prometer uma Didática Magna. Outros procuraram encontrar os métodos mais breves para ensinar. ou seja. a posteriori. exorto e suplico. 3. que nele fixe o seu próprio olhar e que o fixe com toda a sua penetração. mais rapidamente. para os bons costumes e para a piedade sincera. derivando­as da própria natureza imutável das coisas. a quem quer que olhe o nosso trabalho. suspende o teu juízo. a promessa que fazemos é enorme e corresponde a um desejo muito vivo. mas também de te pronunciares. não superficialmente e apenas com palavras. com toda a alma. advirto. No entanto. puseram­ se a fazer investigações. sem nenhum enfado e sem nenhum aborrecimento para os alunos e para os professores. assim estabelecemos um método universal de fundar escolas universais. com os artifícios da persuasão. E de ensinar com tal certeza.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . esta ou aquela ciência ou arte. tocados de piedade pelos alunos condenados a rebolar o rochedo de Sísifo.

É necessário. que primeiro germinem as sementes das coisas. em nome da salvação do gênero humano. sejam corajosos e julguem com liberdade e perspicácia. E S. suplico a todos aqueles que tiverem ocasião de lançar um olhar sobre a minha obra: primeiro. pois um só homem não pode estar tão atento que lhe não passem desapercebidas muitíssimas coisas. peço aos meus leitores que prestem atenção. mais ainda. não apenas tenha tentado. assim também todos devem examiná­lo com bom senso. 6. a juventude. segundo a sua natureza. portanto. deve ser travada e refreada? Filipe Mclanchton. todavia. entrou num tal caminho que. o devem impulsionar. Ensinar a arte das artes é. e não apenas de um só homem. e todos. pois dele depende a salvação de todo o gênero humano. Gregório Nazianzeno pensa da mesma maneira quando diz: <grego> isto é.ebooksbrasil. como diz Cícero[1]. principalmente quando. com razão. Enfim. e não der completamente os resultados desejados. pelos costumes e pelas condições dos tempos atuais. peço aos meus leitores. 5. Por mais imperfeita que seja a minha tentativa e não chegue a atingir o objetivo que eu me havia proposto. com efeito. assim como todos devem augurar que ele se concretize. É por isso que. pois esta foi empreendida com um objetivo salutar. que não desesperem se a experiência não resultar logo ao primeiro ensaio. o qual é o mais versátil e o mais complexo de todos os animais[3]. O assunto é realmente da mais séria importância e. estas virão a seguir. com efeito. o meu exemplo trará. mas ousado prometer levar a bom termo tão grande empresa.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . a arte das artes está em formar o homem. que não imputem à presunção o fato de ter havido alguém que. www. gradualmente. um trabalho sério e exige perspicácia de juizo. a prova de que foi percorrida uma longa etapa que jamais havia sido percorrida e que o cume a escalar está mais próximo que até aqui. 7. mas de muitos. unindo as suas próprias forças. ao menos. Que presente mais belo e maior podemos nós oferecer à Pátria que o de instruir e educar a juventude.COMENIUS único meio de se não deixar perturbar pelas opiniões fascinantes de outrem.html 12/357 . com os esforços de todos. Segundo.org/eLibris/didaticamagna. escreveu que a educação perfeita da juventude é coisa um pouco mais difícil que a tomada de Tróia[2].

aqueles que tinham a felicidade de possuir uma inteligência divina. os quais nos são ainda desconhecidos. alguns homens de bem que. na Alemanha. Wolfstirn[11] e àquele que deveria ser nomeado entre os primeiros. os estudos e as escolas curvavam ao peso de fadigas e de caprichos. levada ao ponto de perfeição que parece agora esforçar­se por atingir. às línguas e aos discursos improvisados. a www. 10. Glaum[9]. por esse fato.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . assim como pôs a claro os males da Igreja e do Estado. 9. uma instrução sólida. por um lado. Esta arte de ensinar e de aprender. resumir as principais características das novidades que ele contém. indicou os remédios). e. quando Jean­Cécile Frey[13] publicou. Vogel[10]. antes de o entregar. de hesitações e de ilusões. pus­me a ler os livros desses escritores. de erros e de faltas. em vários lugares. assim também. em Paris. às artes. direi quase uma aurora. Bodin[8]. mostrou os males das escolas e. ninguém me acreditaria. e precisamente por isso alguns obtiveram sucesso maior que outros. uma excelente didática. como se revela evidente pelos livros e ensaios didáticos por eles publicados. Lubin[5]. A própria França começou a rebolar esse rochedo. Comecei. desconhecida nos séculos passados e. de tal maneira que apenas podiam adquirir. e se dissesse quanto prazer experimentei e como foram grandementc aliviadas as dores em mim provocadas pela ruína da minha pátria e pelo triste estado de toda a Germânia. e a outros. com inteira confiança. 11.COMENIUS como convém nas coisas da máxima importância.org/eLibris/didaticamagna. verdadeiramente novo. Deus começou a propiciar­se do século nascente. à boa fé e às ulteriores investigações de todos aqueles que julgam com sensatez. é meu dever. nos seus escritos puros como ouro. na verdade. por outro lado. se puseram a investigar um método mais curto e mais fácil para ensinar as línguas e as artes. e suscitou. sob o título Novo e rapidíssimo método que conduz às ciências divinas. desde há algum tempo. 8. desgostosos com a confusão dos métodos utilizados nas escolas. em 1629.ebooksbrasil. foi. Helwig[6]. Tendo­se­me apresentado a ocasião de toda a parte. depois dos primeiros vieram outros. Ritter[7]. Dito isto. Mas. aqui e além. à força de lutar. Quero referir­me a Ratke[4]. indicar em poucas palavras aquilo que me proporcionou a ocasião de empreender este trabalho. João Valentim Andrea[12] (o qual.html 13/357 . se os há. em boa parte.

Este pensamento despertava em mim uma bela esperança acompanhada de um doce prazer. pela espora. de bom grado. mas. a esperança se diluía. começando pelos fundamentos. as observações e as advertências dos outros. decidi­me a refazer tudo por mim mesmo e a examinar o assunto e a procurar as causas.ebooksbrasil. se isso nos é licito. Dai nasceu este meu tratado. assim o espero. pois. Foi assim que. Escrito inicialmente em vernáculo. desenvolvido mais longamente e mais claramente do que nunca o foi até ao presente. Com efeito. escrevi a um. julgava não ser capaz de tão grande empresa. a eclosão de escolas novas no quadro de projetos novos. V. me respondeu. finalmente. para que. por assim dizer. de lado as descobertas. portanto. chamamos. vertido em latim. picado. querendo desentulhar o terreno completamente. porque os destinatários eram desconhecidos no endereço indicado. a um outro e depois a um terceiro dos autores atrás citados. indo até à demolição do velho edifício. Só um deles. uma vez que. à ruína das velhas escolas correspondia. 14. de baixo até cima. Por isso. as opiniões. pouco a pouco. sai agora. se possível. desejando possuir informações mais completas sobre certos pontos e dar a minha opinião sobre alguns outros. aproveite a todos. me pus de novo a pensar mais freqüentemente neste trabalho e que. 16. 15. os processos e os fins daquilo que. ao mesmo tempo. 17. e encorajando a ousadia do meu empreendimento. um ardente amor do bem público me obrigou a tentar a empresa. o eminente J.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . os métodos. 12. quase todos guardaram ciosamente segredo a respeito das suas descobertas e. Postas.COMENIUS esperar que a Providência divina não fazia coincidir em vão todos esses infortúnios. a conselho de alguns homens eminentes. por um lado. pouco cômodo e a ameaçar ruína. por outro lado. onde o tema é. dizendo que. Com efeito. mas em vão. as minhas cartas foram­me devolvidas sem resposta. Andrea. me daria quaisquer esclarecimentos. 13. para uso do meu povo.org/eLibris/didaticamagna. aprendizagem (discentia). a seguir. uma vez que.html 14/357 . apercebi­me de que. com Tertuliano[14]. quem projeta construir um novo edifício começa habitualmente por aplanar o terreno. a caridade manda que o que Deus manifestou para salvação do gênero humano (assim fala o eminente Lubin da www.

. do nosso bom Deus). 22. Se. de resto. ela não deve ser minha. do gênero humano inteiro. se isso é possível. veraz e benigno. eis que as ponho em público e em comum com todos.ebooksbrasil. mas se manifeste a todo o mundo. www. não se deve hesitar.html 15/357 . O meu Cristo sabe que tenho um coração tão simples que não há para mim diferença alguma entre ensinar e ser ensinado. 9). 19. Se. advertir e ser advertido. mas d’Aquele que costuma obter louvores da boca das crianças[16]. se se conhece qualquer meio de ir em auxilio do próximo para o tirar das suas dificuldades.org/eLibris/didaticamagna. abre a quem bate e oferece a quem procura (Luc. Por isso. II.COMENIUS sua Didática[15]. porém. quer com as minhas invenções. Apercebi­me. todavia. É também uma lei de humanidade que. mas de muitos. 21. portanto. porque até nós cumulamos de dons aqueles por quem deles fomos também cumulados. a tudo o que nos falta de mais importante. e sabe também que choro os infortúnios da nossa época e desejo vivamente suprir. mas de muitas cidades. quer com as dos outros (todas as invenções derivam. encontrei agora alguma boa idéia. houver algum espírito tão impertinente que pense que é coisa estranha à vocação de um teólogo estudar os problemas escolares. Efetivamente. sobretudo quando se trata.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . províncias e reinos e. tanto melhor é e tanto mais cabe a todos. ó almas cristãs. dá a quem pede. como é o caso presente. entre ser mestre dos mestres (se me é lícito falar assim) e discípulo dos discípulos (se acaso posso esperar algum progresso). 18. se não esconda dos mortais. saiba que esse escrúpulo pesou tão fortemente sobre o meu coração a ponto de o fazer sangrar. não de um homem só. de que não poderia libertar­me dele de outra maneira senão prestando homenagem a Deus e pedindo publicamente conselho a todos acerca de tudo aquilo que uma intuição divina me sugeriu. é da natureza de todos os bens (continua o mesmo Lubin) que sejam comunicados a todos. para se mostrar de fato fiel. e que. e quanto mais é a riqueza e se põe em comum. e não apenas de muitos homens. falar­vos com toda a confiança! Quem me conhece muito de perto sabe muito bem que sou homem de fraca inteligência e quase de nenhuma instrução. Deixai­me. 20. digo até. as observações que o Senhor me concedeu fazer.

org/eLibris/didaticamagna. 19). É lícito. foi lícito e sempre será lícito procurar as coisas grandes. pois o Senhor quer que os seus servos negoceiem. Se alguém encontrar melhor.. postos no banco.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . faça o mesmo. E nunca será em vão o trabalho começado em nome do Senhor.ebooksbrasil. para não ser acusado pelo Senhor de colocar os seus dinheiros no cofre e de os esconder. rendam outros dinheiros (Luc.COMENIUS 23. para que os dinheiros de cada um deles. www.html 16/357 .

AOS PASTORES DAS IGREJAS.COMENIUS A TODOS AQUELES QUE PRESIDEM ÀS COISAS HUMANAS. plasmando­o com a terra. No paraíso. saía um rio. como num só monte. Deus. brotam rios de água viva (S. como rios que se derramam em todas as direções. João. 16). AOS PAIS E AOS TUTORES. todas as formas e todos os graus das formas. desde os dias da eternidade. aqui e além. no homem e por obra do homem. foram acumulados. O paraíso foi plantado a Oriente. quando afirma que. 1. NO ESPÍRITO SANTO As duas mais excelentes obras da criação: o paraíso e o homem. 2. assim o homem era a mais amada das criaturas. No paraíso. 38). mas também para que ele próprio fosse para o seu Deus um jardim de delícias. por assim dizer.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . por toda a terra. Desse lugar de delícias. Comparação entre o homem e o paraíso. AOS MINISTROS DE ESTADO. o homem. ou seja.html 17/357 . todos os elementos do mundo. difunde­se. no coração do homem. no homem. para que manifestasse toda a arte da divina sabedoria. a qual colocou no homem raízes eternas (Eclesiástico. assim como o paraíso era a parte mais amena do mundo. I. SEJA DADA A GRAÇA E A PAZ DE DEUS. isto é. que regava o paraíso e depois se dividia em quatro ramos principais (Gênesis. por Ele plantado no Oriente. se torna www. e depois. Isto é atestado também pelo Apóstolo. confluem vários dons do Espírito Santo. escolhidas entre todas aquelas que estavam espa1hadas. 15). e colocou­o num paraíso de delícias.ebooksbrasil. existe também a árvore da imortalidade. não só para que o guardasse e cultivasse (Gênesis. no princípio do mundo. 10). por meio da Igreja. a sabedoria de Deus. Na verdade. O paraíso tinha a árvore da ciência do bem e do mal. que vão irrigá­lo. 7. 2. a sabedoria de Deus. criou o homem. o homem tem a mente para distinguir e a vontade para escolher o que existe de bem ou de mal. de vários modos. cresceram todas as plantas belas para serem vistas. à imagem d’Aquele que teve origem desde o princípio. no homem. do seu seio. 2. e deliciosas para serem comidas. AOS DIRETORES DAS ESCOLAS. PAI DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO.org/eLibris/didaticamagna. existia a árvore de vida.

12 e ss. para tocarem em tua honra. Num momento da sua justa indignação. soberbo e condenado a ser punido pela sua soberba: «Tu vivias no meio das delícias do paraíso de Deus. se se mantém no lugar que lhe foi marcado. fomos ingratos para com aqueles bens. e. fomos despojados de uns e de outros. e a nossa alma e o nosso corpo tornaram­se o alvo das desgraças. no dia em que foste feito rei.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Verdadeiramente. que fala alegoricamente a um rei de Tiro. por isso te fiz chefe. 3. lançou­nos por terra e expulsounos. Tímpanos e gaitas de foles foram preparados. a safira. te entreguei à ruína. portanto. o topázio.» (Ezequiel. portanto.). etc. na Sagrada Escritura. a esmeralda. embora www. o crisólito. até que foi encontrada em ti a iniquidade! Na multidão das tuas traficâncias. que é a comunidade de todos os homens consagrados a Deus. Acerca destes fatos. o jaspe. no paraíso. Quando o teu coração se encheu de soberba com a tua magnificência. De modo semelhante. o carbúnculo. 10). ouçamos um profeta. perdemos o paraíso das delícias espirituais. 28. Deus nos havia cumulado com abundância relativamente à alma e ao corpo. Andando pelos teus caminhos. e assim. e perdemo­lo. vivias no monte santo de Deus e caminhavas no meio de pedras preciosas incessantemente flamejantes. tu perdeste a sabedoria. ao mesmo tempo. Tu eras um querubim e por isso te ungi como protetor (senhor das outras criaturas). 5. Fomos expulsos para as solidões da terra. cada homem é para o seu Deus um paraíso de delícias. ao jardim e à vinha de Deus. ao paraíso. que éramos nós mesmos. Perda de ambos os paraísos 4. muitas vezes.COMENIUS manifesta aos principados e às potestades dos céus a multiforme sabedoria de Deus (Efésios. Por isso te expulsei do monte de Deus. 3.org/eLibris/didaticamagna. Com efeito. merecidamente. juntamente com objetos de ouro. dos quais. comparada. e tornamo­nos nós próprios uma solidão e um autêntico deserto escuro e esquálido. o berilo. as tuas vísceras encheram­se de iniquidade e cometeste pecados. e o teu vestido estava ornado de toda a casta de pedras preciosas: o sárdio. etc. eras perfeito desde o dia da tua assunção ao reino. a cornelina. e eu lancei­te por terra.html 18/357 .ebooksbrasil. Deus lamenta­se disso. também a Igreja. é. Mas que desventura foi a nossa! Estávamos no paraíso das delícias corporais.

ebooksbrasil.» (Cântico dos Cânticos. esta nova plantação teve um sucesso www. a outros: «Pus as minhas palavras na tua boca e protegi­te com a sombra da minha mão. 51.org/eLibris/didaticamagna. que com ímpeto correm do Líbano! Levanta­te. e nunca mais deixou de os regar com vários dons do seu Espírito Santo. aí plantou novos rebentos escolhidos no paraíso celeste. e espalhem­se os seus aromas. o seu abandonado paraíso. Sião. vento do meio­ dia. portanto. verdadeiramente. assim fala Deus a Isaías e. como de novo diz Isaías (51. 8. Efetivamente. Seja glorificado e louvado e honrado e bendito para sempre o nosso misericordioso Deus que. com o machado e a serra e a foice da sua lei. etc. pelo contrário. Ai haverá gozo e alegria. fonte selada. e assim. 4. para que plantes os céus e fundes a terra e digas a Sião: o meu povo és tu» (Isaías. a fonte dos jardins. 3): «O Senhor consolará. jardineiros espirituais. as plantas murcham. 7. Com o andar do tempo. 12­13). 16 e 17). o poço das águas vivas. Mas. porém. e consolará todas as suas ruínas.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . A Igreja reverdece o paraíso. delícia do coração divino. na pessoa dele. irrigou­os com o seu próprio sangue. todavia. a tratar com cuidado fiel a nova plantação de Deus. jardim completamente fechado. assopra de todos os lados no meu jardim. o jardim da Igreja. e para que estes pudessem pegar e crescer. que são como que arroios de água viva. doravante tornamo­nos como uma solidão do deserto. de frutos de cipre e de nardo. 6. manifestando a sua sabedoria. ou seja. a Igreja: «Tu. 15. Que o meu amado venha para o jardim e coma as suas frutas preciosas» (Ibid. e vem tu. e transformará o seu deserto num lugar de delícias e a sua solidão num jardim do Senhor. ação de graças e vozes de louvor». mediante a qual delineou o céu e a terra e todas as outras coisas. e mandou também os seus operários. não nos deixou na solidão eternamente. aquilão.html 19/357 . com a sua misericórdia fortificou. pois. embora nos tenha abandonado por um certo tempo. E em Salomão: «Jardim completamente fechado. Verdeja. minha esposa. Reconquista do nosso paraíso por meio da graça de Deus. 16).. o gênero humano. cortadas pelo pé e podadas as árvores meio mortas e secas do nosso coração. Responde­lhe a esposa. irmã minha. As tuas plantas formam um jardim de delícias cheio de toda a qualidade de romãs.COMENIUS fôssemos como um jardim do Éden. de novo. outra vez.

mesmo que esteja sobre um abismo ou sobre um precipício. quem se vê a si e aos outros estar no meio de pericolusíssimas voragens e despenhadeiros. convertendo­te em vinha bastarda?» (Jeremias. O mais sábio dos homens. 8).ebooksbrasil. Como. Com efeito. 15). dizendo que também esta nova plantação se abastardou! Queixas de Deus e dos homens sábios acerca deste assunto. haverá algo que esteja no seu devido lugar ou no seu estado? www. mais ainda. cobertos de infinitas manchas. e girar entre laços tensos. é difícil que não se arrepie.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . 10.html 20/357 . e que este e aquele se precipitaram já. Salomão. ou frutos preciosos?[1]. do que existe em nós ou do que a nós pertence. 21). Ouçamos a voz de Deus. não a cura. Demostra­se por indução que tudo o que nos pertence está pervertido e depravado. A Sagrada Escritura está cheia de queixas semelhantes: estão cheios de todo o gênero de confusão os olhos de todos aqueles que alguma vez se dispuseram a examinar as condições humanas e também as da Igreja. e os outros. 9. ou mirra.org/eLibris/didaticamagna. que fala à sua Igreja: «Eu plantei­te. Mas quem se vê a si mesmo. pois. e tem o nariz cheio do terrível odor que delas sai. Na verdade.. não se arrepia. quem se vê conduzido por precipícios ininterruptos. quem não sente dores. ó vinha. quem não se apercebe do perigo. mesmo nas coisas por ele mesmo pensadas. não façam impressão a quem as não considera. que não morra de dor. 2. De tal maneira que até «a verdadeira sabedoria é uma aflição do espírito e multiplica a indignação e a desgraça» (Ibid. Eis Deus que se lamenta.COMENIUS correspondente às esperanças nela depositadas? Todos os rebentos crescem bem? Todas as árvores as plantas da nova plantação produzem nardo e açafrão. I. que as perversidades se não pudessem corrigir e os defeitos enumerar» (Eclesiastes. assim também não é de admirar que as desordens. ditas e feitas. ou aromas. começou a deplorar que «nunca se lhe apresentasse à mente outra coisa senão vaidade e desordem. não se lamenta. com sarmentos todos de boa qualidade. assim como quem ignora que tem uma doença. e sente já que as suas úlceras e as dos outros supuram cada vez mais. que não se sinta aterrado. Porque é que o povo não se cura destas coisas. que corroem o gênero humano e a Igreja. refletindo profundamente em tudo o que acontece sob o sol. 11. degeneraste para mim.

está um tão grande esquecimento. pela qual. Efetivamente. E nós estamos completamente perdidos. Duplo conforto: 1 ­ O Paraíso eterno. está a iniquidade. das palavras e das ações. 12.html 21/357 . não com os óculos das opiniões comuns. os seus frutos dulcíssimos. pela qual nos fora concedido reconhecer e venerar os aspectos ótimos das coisas ótimas e saborear. pela qual deveremos igualar os anjos. deveremos preparar­nos para a eternidade. que a maior parte dos homens são presa de coisas terrenas e passageiras e até de iminentíssima morte. para nós um duplo conforto. para ver se há quem tenha prudência e busque a Deus. e uma estultíssima irritação contra a sua divina potência. está uma repugnantíssima aversão àquele Deus que nos dá a vida. não passando de uma sombra. contemplando as coisas que lhes dizem respeito e as alheias. a injustiça. está a impureza e a obscenidade dos pensamentos. se. não há sequer um» (Salmo 13. vêem aquilo que vêem. estão ódios recíprocos. não só da eternidade. Ai de ti. de uma opinião. está o fausto e a soberba de uns para com os outros. as opressões. Primeiro: Deus www. Mesmo aqueles que se apresentam como guias de outros seguem por caminhos maus e tortuosos. em parte alguma. Todos à uma se extraviaram e se perverteram. No lugar da humildade. guerras e carnificinas. No lugar do amor mútuo e da mansidão. ignoramos até as coisas que mais necessidade temos de saber. o movimento e o ser[2].ebooksbrasil. na maior parte de nós. saiba que sofre de vertigens: os sábios. infeliz geração. tudo está destruído ou arruinado. débil e disperso. No lugar da castidade. precisamente como os animais brutos. inimizades. não há quem faça o bem. por isso. 13.org/eLibris/didaticamagna. é mutilado. uma estupidez tão grande que. Se há alguém que se não aperceba disto. difundem trevas. mas com a luz clara da verdade. a maioria das vezes. todavia. há um pouquinho de bem e de verdade. No lugar da justiça. estão as mentiras. Resta. No lugar da sabedoria celeste.COMENIUS Nada. No lugar da prudência. Invertido e estragado. mas até da morte. os furtos e as rapinas. 2­3). se se confronta com aquilo que verdadeiramente deveria ser. sendo nós destinados à eternidade.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . No lugar da inteligência. No lugar da simplicidade e da veracidade. está. aqueles que deveriam ser portadores de luz. que degeneraste tanto! «O Senhor olha do céu para os filhos dos homens. as fraudes e os enganos. aqui ou além.

Com efeito. somos obrigados a caminhar ao encontro de Deus e a concorrer também nós para o aperfeiçoamento da nossa vida. é este: sob o sol não há nenhum outro caminho mais eficaz para corrigir as corrupções humanas que a reta educação da juventude. e ele não se afastará dele. 23. 13). eu vos ensinarei o temor de Deus» (Salmo 33. O modo mais eficaz desta renovação fornece­a uma reta formação da juventude. mesmo quando for velho» (Provérbios. 12. 22. agora perdida. 12. 7 e 21. Nesse paraíso habita Cristo (Lucas. no tempo de David e no tempo de Salomão. a sua Igreja. depois do regresso da Babilônia e da reedificação de Jerusalém. após os furores de guerras tão atrozes e após tão grandes devastações de nações. ouvi­me. volta­se finalmente para os jovens. a ele foi arrebatado Paulo (Coríntios. de tempos a tempos. E noutro lugar diz: «Instrui o jovem no caminho que deve seguir. O segundo conforto vem do fato de que Deus. no tempo de Constantino e em outras ocasiões. o www. 14. Sabemos que. 6). E por isso David diz: «Vinde filhos. depois da entrada do povo hebreu na terra de Canaan. segundo os modos e os caminhos que nos mostrar o mesmo sapientíssimo Deus. destas transformações.COMENIUS prepara para os seus eleitos o paraíso eterno. Salomão.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . e João pôde ver a sua glória (Apocalipse. 11). 4). 10). Também aqui. Mas também o próprio David celeste e o autêntico Salomão. algumas foram feitas de modo solene: depois da Queda. depois do Dilúvio. depois de ter percorrido todos os labirintos dos erros humanos e de se ter lamentado porque se não podiam corrigir as perversidades e enumerar os defeitos dos homens. o Pai das misericórdias se prepara para nos olhar com uma face mais benigna. também agora. porque isto é o essencial para o homem» (Eclesiastes. 2. depois da ascensão de Cristo ao céu e da pregação do Evangelho aos gentios. 15. mesmo aqui na terra. costuma renovar. de tempos a tempos.html 22/357 . onde readquirirão a perfeição e até uma perfeição mais plena e mais sólida que aquela primeira perfeição.ebooksbrasil. porventura. e transformar os desertos num jardim de delícias.org/eLibris/didaticamagna. como o mostram precisamente as promessas divinas acima referidas. se pode renovar o paraíso da Igreja. suplicando­lhes «que se lembrem do seu Criador nos dias da juventude e O temam e observem os mandamentos. Se. o qual ordena tudo conforme os seus caminhos. que a Sagrada Escritura nos dá. II. Um dos primeiros ensinamentos. 43).

org/eLibris/didaticamagna.ebooksbrasil. todavia. resulta que as criancinhas. só nós sábios e vós doidinhos. 16. Se alguém quiser saber porque é que Deus tem em tão grande consideração as criancinhas e as aprecia tanto.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . e as vossas obras são dadas às nossas como espelho e exemplo! Porque é que Deus tem em tanta consideração as criancinhas. E a nós disse: «Se não vos converterdes e vos não tornardes como meninos. não entrareis no reino dos céus» (Mateus. árvore da vida. o mesmo caminho. 18. possais entender este vosso celeste privilégio! Eis no que ele consiste: é vosso o resto de dignidade que ficou ainda no gênero humano. para ver que coisa queria dizer o Mestre e Senhor de todos. porque é delas o reino dos céus» (Marcos. não estando ainda novamente manchadas. que julgamos que só nós somos homens e vós sois macaquinhos. embora a corrupção. nem www. quando disse: «Deixai vir a mim as criancinhas. Eis que nós. o direito que ele tem ainda á pátria celeste! (Cristo é vosso. vossa a graça de Deus. vossa é a santificação do Espírito. 10. produzida pela queda de Adão. a não ser que qualquer outro.html 23/357 . enxertou de novo em si mesmo. segundo Adão. diletas criancinhas. eis que. em estado tão deplorável. As crianças não são apenas o objeto. só nós faladores inteligentes e vós ainda não aptos para falar. Mas que palavras são estas?! Ouvi­as bem e examinai­as atentamente todos. Como proclama que só as crianeinhas são merecedoras do reino de Deus. pertence mesmo só a vós. admitindo a participar na herança apenas os homens que se tenham tornado semelhantes às criancinhas! Oxalá vós. vossa a herança da vida futura. mas também o exemplar da verdadeira regeneração 16. não encontrará uma razão mais forte que esta: as criancinhas têm todas as faculdades mais simples e mais aptas para receber os remédios que a misericórdia divina oferece para a cura das coisas humanas. 16) (a qual não pode ainda verificar­se nas criancinhas). a natureza humana. somos obrigados a vir à vossa escola! Vós fostes­nos dados como mestres.COMENIUS Filho eterno de Deus. 17. pertence­vos a vós particularmente e infalivelmente. adultos. como que levantando o dedo. se torne como vós. nos ensinou. e não as afasteis de mim.3). uma vez que Cristo. tenha invadido toda a substância do nosso ser. convertendo­se. sim.14). tudo isto é vosso. enviado do céu para regenerar a humanidade. e não é excluído senão quem se exclui a si mesmo pela sua própria incredulidade (Marcos. enfim. ou seja. por mais que reflita. Com efeito.

Deus afirma o mesmo: «Acaso um Etíope pode mudar a cor da sua pele e um leopardo as suas malhas? Acaso podeis fazer o bem. para que cresçam belas e grandes. de obediência. quebram de preferência a tornarem­se direitos. adultos. as mentes simples e não ainda ocupadas e estragadas por vãos preconceitos e costumes mundanos. nos convertamos para que nos façamos como criancinhas. volta sempre a aparecer[3]). uma vez que não há coisa mais difícil que desabituar­se daquilo a que se estava habituado (com efeito. de mansidão. curvados para fazer as rodas. assim permanece depois de adulta e não se deixa transformar.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Cristo ordena que nós. É necessário que a reforma da Igreja comece pelas criancinhas. tal como cresce. 13. para transplantar árvores velhas e nelas infundir fecundidade.html 24/357 . o hábito é uma segunda natureza. Importa fazer precisamente como quem quer renovar um pomar. daí resulta que não há coisa mais difícil que voltar a educar bem um homem que foi mal educado. Porque nos obriga a nós. 23). endurecidos ali no seu posto. de humildade. na verdade. e a natureza. importa fazê­lo de modo especial por meio de uma educação sensata e prudente da juventude. com os ramos bem direitos ou tortos. isto é. o qual tem necessariamente de plantar novas arvorezinhas e de as tratar com muito cuidado. Na verdade. a ir junto das crianças. para que desaprendamos os males que havíamos contraído com uma má educação e aprendido com os maus exemplos do mundo.ebooksbrasil. como a experiência o mostra de modo evidente. e regressemos ao primitivo estado de simplicidade. são proclamadas herdeiras da herança patrimonial do reino de Deus. Portanto. adultos. pois não estão ainda dominadas pelos maus hábitos. vós que não aprendestes senão a fazer o mal?» (Jeremias. Testemunho de Deus. desde que saibam conservar a graça de Deus já recebida e manter­se limpas do mundo. Acerca dos homens habituados a fazer o mal. não basta a força da arte. alta ou baixa.COMENIUS pelos pecados nem pela incredulidade. Daqui se infere esta conclusão necessária: se se devem aplicar remédios às corruptelas do gênero humano. uma árvore. com efeito. ainda que se expulse com a forca. E. Além disso. 18.org/eLibris/didaticamagna. etc. Os pedaços de madeira. 19. são as mais aptas para amar a Deus. www. estas coisas podem ensinar­se mais facilmente às crianças que aos outros. de castidade.

portanto. ordenou que lhe fossem buscar uma jumenta e o jumentinho. dizendo: Ide a essa aldeia. tenha­se por certo que. entrando nela. não montou a jumenta. 23. revelar­se­ia claro que é realmente www. a não ser aos meninos acabados de desquitar. pois. A equidade exige. 22. assim como também todas as vírgulas da Sagrada Escritura. encontrareis um jumentinho atado. 19. Todas as coisas. que a nossa infância seja conduzida a Cristo. acima de tudo. por meio de admoestações e exemplos castos e contínuos. 30). e. providenciar para que as suas mentes sejam imbuídas de um verdadeiro conhecimento de Deus. ditas e feitas por Cristo. Será que tudo isto foi feito e consagrado no Evangelho para nada? Nem pensar nisso.COMENIUS 20. contêm um mistério para nossa instrução. Ação sintomática realizada por Cristo. E o evangelista acrescenta que o Senhor «enviou dois dos seus discípulos. providamente a juventude é providenciar para que os espíritos dos jovens sejam preservados das corruptelas do mundo e para que as sementes de honestidade neles lançadas sejam. para os conduzir à Jerusalém celeste. Deus mostra isto pela boca do profeta.org/eLibris/didaticamagna. 21. 28. II. estimuladas para que germinem felizmente. E parece que o Senhor tenha querido mostrar esta mesma verdade alegoricamente quando. todavia. 9). mantendo­os sob os seus graves tributos. que está fronteira. afirma que «já não há a quem Ele possa ensinar a sabedoria. Se se fizesse assim. Educar. 30). e Cristo tem prazer em colocar a infância sob o seu doce jugo e sob si mesmo (Mateus. mas o jumentinho. não ainda subjugados pelo mundo. de si mesmas e da multiplicidade das coisas. em que nunca montou pessoa alguma» (Lucas. quando. no momento de partir para Jerusalém. Que significa educar a juventude providamente. os mais jovens. embora Cristo chame a si os velhos e os jovens e acabe por receber uns e outros. a quem possa fazer entender a sua doutrina. e a amar e a venerar. estão mais aptos para se habituarem ao jugo de Cristo que aqueles a quem o mundo já estragou e viciou.ebooksbrasil. o Pai das luzes. para que se habituem a ver a luz à luz de Deus[4]. ao lamentar­ se da corrupção universal.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . as de mínima e as de máxima importância. filho da jumenta. aos que acabam de ser desmamados» (Isaías.html 25/357 . Por isso. E que fruto se tira daí. por fim. todavia.

Precisamente por esta razão. ordenando­lhes que educassem os filhos com ensinamentos e correções conformes à doutrina do Senhor (Efésios. ou seja. E a juventude é de tal maneira arrastada pelos seus exemplos. a juventude. não só chefes de família.org/eLibris/didaticamagna. Qual é a nossa obrigação. eram. que guardem os caminhos do Senhor. conduziam­nos consigo. para quem procedesse de modo diverso. e iluminando­os com o bom exemplo de pessoas virtuosas. 4). 18. mas também sacerdotes. mestres e professores. 18. e o número dos maus é infinitamente maior que o dos bons.COMENIUS verdadeiro aquilo que canta o Salmista: «Da boca das crianças e meninos de peito. anunciando. 2). De que modo provê Deus à juventude. segregados do resto do mundo.html 26/357 . Deus fez sair um louvor perfeito contra os seus adversários. nas suas famílias. para que sequem de todo e caiam. quer destruir as arvorezinhas de Deus. 18. para se vingar da sua condenação. neste imenso dilúvio de confusão mundial? No tempo dos Patriarcas. é o próprio Deus que o testemunha.ebooksbrasil. ou. e com o veneno infernal (dos exemplos de vária impiedade e dos maus instintos) quer infectá­ las até às raízes. 25. e. com repreensões. exortações e. Mas agora habitamos promiscuamente. os bons misturados com os maus. 10) e constituiu os pais em educadores. castigos eternos (Mateus. ferindo­as de vários modos com as suas fraudulentíssimas maquinações. para confundir Satanás. para reprimir o inimigo e o agressor» (Salmo 8. isto é. 24.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . definhem e se tornem inúteis. como esses santos homens habitavam separadamente. e que pratiquem a equidade e a justiça. e admoestou seriamente todos os outros a que não escandalizassem nem corrompessem a juventude com maus exemplos. e à sua casa depois dele. Que Abraão fazia assim. ao menos. murchem. as coisas corriam muito mais facilmente. afastados os seus filhos da companhia dos maus. que os preceitos dados como antídoto do mal. quando diz: «Eu sei que há­de ordenar a seus filhos. o exemplo dos patriarcas. Deus deu às criancinhas os anjos custódios (Mateus. www. 6. Agora as más companhias lançam a juventude na perdição. 19). se necessário. Com efeito. 6 e 7). 26. acerca do modo de cultivar a virtude. são de pouca ou nenhuma eficácia.» (Gênesis. que. com doces advertências. Mas de que modo poderemos fazer isso.

Sêneca e Salomão. ninguém poda e ninguém se esforça por fazer crescer direita. Daqui resulta que o resto da juventude cresce sem a devida cultura. descuram este seu dever. Por isso. se por vezes aparece um. ou que possa. ninguém rega. podendo reconduzir o cego ao bom caminho. Mas qual é a razão por que os preceitos acerca da virtude se ministram tão raramente? Dos pais. logo qualquer sátrapa o chama para prestar os seus serviços em privado. mas aconselhar. 29. se. não diria coisa diferente daquilo que disse: «Todos estão corrompidos e tornaram­se abomináveis em todas as suas paixões» (Salmo 13. Por isso tudo se torna selvagem e vai de mal em pior. Maldito. 18. também aquele que.org/eLibris/didaticamagna. todas as cidades e praças fortes. em qualquer parte do mundo. não encontrariam senão o que era nos tempos passados. de prantos e de lamentações. 6 e 7). em proveito dos seus. todas as casas e todas as pessoas.COMENIUS E os pais não se preocupam ou não sabem opor­se aos males. 27.ebooksbrasil. obter de Deus a graça de ver qual a melhor maneira possível de conduzir a juventude. há alguém que possa dar ou descobrir algum bom conselho. 2). mas o povo não pode dar­se a este luxo. 30. como uma selva que ninguém planta. E. devendo ocupar­se de outras coisas. portanto. não deve estar calado. quer porque eles próprios nunca aprenderam nada de bom. «Deus não quer que se abandone o jumento ou o boi que anda errante www. à força de gemidos. Sócrates. Portanto. E nem todos os mestres.html 27/357 . 27.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Por este motivo. o não reconduz. ai também daquele que. Todos à uma portanto. cujos corpos e almas estão totalmente cheios de confusão. pensar e pedir. Se Deus nos falasse do céu. e. 18). «Maldito aquele que faz um cego errar no caminho». podendo afastar os escândalos. poucos são aqueles que sabem instilar bem no ânimo da juventude coisas boas. quer porque. de suspiros. Se hoje voltassem a viver entre nós Diógenes. dos mestres. disse Deus (Deuteronômio. ou então só nos resta esperar os castigos de Deus. 28. costumes e hábitos grosseiros e depravados enchem o mundo. disse Cristo (Mateus. poucos são aqueles que podem ensinar aos filhos qualquer coisa de bom. devemos pensar na salvação comum. «Ai daquele que escandalizar um só destes pequeninos». os não afasta.

E dos ministros da Igreja. 5.COMENIUS pelas selvas e pelos campos. ainda que se saiba que é de um inimigo nosso» (Êxodo. 22. ó governantes.ebooksbrasil. e para seres bendito por Jeová. 4. passemos à frente irrefletidamente. 31. cortai todos os males![5]. que resistindo­lhe na primeira idade da vida. Se. que plantando e fazendo desenvolver arvorezinhas novas. sem nos preocuparmos. que se não pode. 10). Fazei também ir para a frente esta obra. «Maldito aquele que faz a obra do Senhor com má fé. não pode resistir­se aos males com maior eficácia. fostes colocados nesse lugar para desenraizar.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .org/eLibris/didaticamagna. contribui para o extermínio de Babilônia! Que se espera dos magistrados políticos.html 28/357 . sem lhe estender a mão? Longe de nós semelhante pensamento! É necessário empunhar a espada contra a Babilônia das confusões. 2. vendo desviar­se. edificar Sion no lugar de Babilônia. e maldito aquele que mantém afastada do sangue da Babilônia a sua espada» (Jeremias. ainda que se não saiba de quem é. mas quer que se socorra. a espada da palavra. 1). destruir. etc. no gênero humano. desembainha a espada que tens à cinta. com a espada da justiça. E ser­lhe­á agradável que nós. a juventude. exterminai as desordens. portanto. dissipar e exterminar o mal. que não pode plantar­se com maior eficácia arvorezinhas que duram até à eternidade. ministros do Deus altíssimo. ó campeões da Igreja. l0. Romanos. 32. toleramos a abominável confusão das nossas Babilônias? Ah! quem quer que tu sejas. 33. E compreendestes já que. I. não um animal bruto.). 3. e para exaltar e plantar o bem (Jeremias. e com a espada que o Senhor vos colocou à cinta. e desbastando­as e polindo­as e adaptando­as à construção celeste. Com efeito. ministros fiéis de Jesus Cristo. ou que caiu debaixo da carga. com as quais o mundo encheu a medida e despertou a ira de Deus. ou que sabes estar escondida em qualquer bainha. E poderemos esperar estar sem culpa nós que. queremos Igrejas e Estados bem www. com maior eficácia. mas uma criatura racional. 14. Deuteronômio. 13. Fazei ir para a frente esta obra do Senhor. que trabalhando desde cedo as pedras vivas de Deus. ou seja. e com a espada de dois gumes que vos foi entregue. Salmo 101. 48.

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ordenados e florescentes e boas administrações, primeiro que tudo ordenemos as escolas e façamo­las florescer, a fim de que sejam verdadeiras e vivas oficinas de homens e viveiros eclesiásticos, políticos e econômicos. Assim facilmente antigiremos o nosso objetivo; doutro modo, nunca o atingiremos. Agora importa expor e examinar o modo de obter tal efeito. 34. De que modo, pois, se deva abordar o assunto e conseguir o efeito desejado, eis que o patenteamos agora, porque o Senhor despertou o nosso espírito! Vós que recebestes de Deus olhos para ver, ouvidos para ouvir e mente para julgar, vede, ouvi e julgai. Quer alguém veja algo de uma nova luz, quer não, que deve fazer­ se? 35. Se a alguém surgir uma fúlgida luz, não advertida anteriormente, honre a Deus e não recuse à nova idade esse novo fulgor. Se, depois, nessa luz, notares qualquer falta de luz, ainda que mínima, completa­a tu, ou esclarece­a, ou adverte para que possa ser esclarecida: muitos olhos vêem mais que um. As pessoas ativas devem esperar os prêmios merecidos. 36. Assim nos ajudaremos mutuamente a seguir, de bom acordo, as obras de Deus; assim fugiremos à maldição anunciada para aqueles que realizam as obras do Senhor de modo fraudulento, assim nos ocuparemos da melhor maneira das mais preciosas riquezas do mundo, isto é, da juventude; assim participaremos no fulgor prometido àqueles que educam os outros para a justiça (Daniel, 12, 3). Deus tenha piedade de nós, para que, na sua luz, vejamos a luz[6]. Amen.

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UTILIDADE DA ARTE DIDÁTICA
Que a Didática se baseie em retos princípios interessa: 1. Aos pais que, até agora, na maioria dos casos, ignoravam o que deveriam esperar de seus filhos. Contratavam preceptores, pediam­lhes, acarinhavam­nos com presentes e até os mudavam, quase sempre em vão e às vezes com algum fruto. Conduzido, porém, o método didático a uma certeza infalível, será impossível, com a ajuda de Deus, não obter sempre o efeito esperado. 2. Aos professores, a maior parte dos quais ignorava completamente a arte de ensinar; e por isso, querendo cumprir o seu dever, gastavam­se e, à força de trabalhar diligentemente, esgotavam as forças; ou então mudavam de método, tentando, ora com este ora com aquele, obter um bom sucesso, não sem um enfadonho dispêndio de tempo e de fadiga. 3. Aos estudantes, porque poderão, sem dificuldade, sem tédio, sem gritos e sem pancadas, como que divertindo­se e jogando, ser conduzidos para os altos cumes do saber. 4. Às escolas, porque, corrigido o método, poderão, não só conservar­se sempre prósperas, mas ser aumentadas até ao infinito. Com efeito, serão verdadeiramente um divertimento, casas de delícias e de atrações. E quando (pela infalibilidade do método), de qualquer aluno se fizer um professor (do ensino superior ou do primário), nunca será possível que faltem pessoas aptas para dirigir as escolas e que os estudos não estejam prósperos. 5. Aos Estados, segundo o testemunho de Cicero[1], atrás citado. Com o qual concorda o seguinte passo (referido por Stobeo) de Diógenes, discípulo de Pitágoras: «Qual é o fundamento de todo o Estado? A educação dos jovens. Com efeito, as videiras que não são bem cultivadas nunca produzem bom fruto»[2]. 6. À Igreja, pois somente a reta organização das escolas pode ter como resultado que às igrejas não faltem professores instruídos, e

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aos professores instruídos não faltem alunos apropriados. 7. Finalmente, interessa ao Céu que as escolas sejam reformadas de modo a ministrarem aos espíritos uma cultura exata e universal, não sendo assim de admirar que, com o fulgor da luz divina, mais facilmente sejam libertados das trevas aqueles a quem o som da trombeta divina não consegue acordar. Efetivamente, embora se pregue o Evangelho aqui e além, e oxalá seja pregado até ao fim do mundo, todavia, como em qualquer reunião pública, nas feiras, nas pensões ou em qualquer outro tumultuoso ajuntamento da gente, costuma acontecer que não se faz ouvir somente ou principalmente quem pronuncia ótimos discursos, mas, conforme alguém se encontra com outro ou lhe está vizinho, de pé ou sentado, assim o ocupa ou detém com as suas ninharias; de igual modo acontece no mundo. Cumpram os ministros da palavra o seu dever com todo o zelo possível: falem, exortem, supliquem; todavia, não serão ouvidos pela parte mais importante da população. Muitos, na verdade, não freqüentam as reuniões sacras, a não ser num ou noutro caso; outros vão, mas com os olhos e os ouvidos fechados, porque, a maioria das vezes, interiormente ocupados em outras coisas, estão pouco atentos ao que ali se faz. Mas admitamos também que estejam atentos e que consigam ver o objetivo das sagradas admoestações; é certo, todavia, que não recebem nem uma impressão nem uma comoção tão forte como seria conveniente, porque o costumado torpor da alma e o já contraído hábito do vício engrossam, fascinam e endurecem de tal modo as suas mentes, que não podem libertar­ se daquela espécie de letargo. Permanecem, portanto, na costumada cegueira e nos seus pecados, como que amarrados a grilhões, de tal maneira que, ninguém, exceto apenas Deus, os pode libertar dos males inveterados e ruinosos; como disse um dos Santos Padres, é quase um milagre que um pecador inveterado se resolva a fazer penitência. Mas porque, por outro lado, onde Deus fornece abundantes meios, pretender milagres é tentar Deus[3], impõe­se aceitar que, também no nosso caso, o problema não se põe de modo diverso. Cremos, portanto, que é nosso dever pensar nos meios pelos quais toda a juventude cristã seja mais fervidamente impelida para o vigor da mente e para o amor das coisas Celestes. E se conseguirmos obter este efeito, veremos que o reino dos céus nos infundirá a sua força, como nos tempos passados. Ninguém, portanto, distraia os seus pensamentos, os seus desejos, as suas energias e as suas forças deste santíssimo propósito. Quem nos concedeu a boa vontade, conceder­nos­á
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também a realização do fim; mas convém suplicar à misericórdia divina, pedir­lho todos sem exceção, e confiar que a nossa esperança se realize. Trata­se aqui, com efeito, da salvação dos homens e da glória do Altíssimo. João Valentim Andrea. Desesperar do bom êxito é inglório; Desdenhar dos conselhos alheios é injurioso[4].

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ASSUNTOS DOS CAPÍTULOS
I. O homem é a mais alta, a mais absoluta e a mais excelente das criaturas. II. O fim último do homem está fora desta vida. III. Esta vida não é senão uma preparação para a vida eterna. IV. Os graus da preparação para a eternidade são três: conhecermo­nos a nós mesmos (e conosco todas as coisas), governarmo­nos e dirigirmo­nos para Deus. V. As sementes destas três coisas (da instrução, da moral e da religião) são postas dentro de nós pela natureza. VI. O homem tem necessidade de ser formado para que se torne homem. VII. A formação do homem faz­se com muita facilidade na primeira idade, e chego a dizer que não pode fazer­se senão nessa idade. VIII. É necessário, ao mesmo tempo, formar a juventude e abrir escolas. IX. Toda a juventude de ambos os sexos deve ser enviada às escolas. X. Nas escolas, a formação deve ser universal. XI. Até agora, não tem havido escolas que correspondam perfeitamente ao seu fim. XII. As escolas podem ser reformadas. XIII. O fundamento das reformas escolares é a ordem em tudo. XIV. A ordem perfeita da escola deve ir buscar­se à natureza. XV. Fundamentos para prolongar a vida.

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XVI. Requisitos para ensinar e para aprender, isto é, como se deve ensinar e aprender para que seja impossível não obter bons resultados. XVII. Fundamentos para ensinar e aprender com facilidade. XVIII. Fundamentos para ensinar e aprender solidamente. XIX. Fundamentos para ensinar com vantajosa rapidez. XX. Método para ensinar as Ciências em geral. XXI. Método para ensinar as Artes. XXII. Método para ensinar as Línguas. XXIII. Método para ensinar a Moral. XXIV. Método para incutir a Devoção ou Piedade. XXV. Se realmente queremos escolas reformadas segundo as verdadeiras normas do autêntico Cristianismo, os livros dos pagãos, ou devem ser afastados das escolas, ou ao menos devem ser utilizados com mais cautela que até aqui. XXVI. Da disciplina escolar. XXVII. As instituições escolares devem ser de quatro graus, em conformidade com a idade e com o aproveitamento. XXVIII. Plano da escola materna. XXIX. Plano da escola de língua nacional. XXX. Plano da escola latina. XXXI. Da Academia, das viagens e da associação didática. XXXII. Da organização universal e perfeita das escolas. XXXIII. Dos requisitos necessários para começar a pôr em prática este método universal.

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Capítulo 1
O HOMEM É A MAIS ALTA, A MAIS ABSOLUTA E A MAIS EXCELENTE DAS CRIATURAS

Supunha­se que o conhece­te a ti mesmo tivesse vindo do céu. 1. Quando Pítaco[1] pronunciou o seu «conhece­te a ti mesmo» <grego> os sábios acolheram esta máxima com tão grandes aplausos que, para a recomendarem ao povo, afirmaram que ela viera do céu, e tiveram o cuidado de a fazer inscrever, em letras de ouro, no templo de Apolo, em Delfos, onde o povo afluia em grande número. Este foi um ato de sabedoria e de piedade; aquela foi, de fato, uma ficção, mas absolutamente conforme à verdade, como para nós é evidente mais que para eles. Veio verdadeiramente do céu. 2. Efetivamente, a voz que, vindo do céu, ressoa nas Sagradas Escrituras, que outra coisa quer dizer senão: «ó homem, que tu me conheças, que tu te conheças?» Eu, fonte de eternidade, de sabedoria e de beatitude; tu, criatura, imagem e delícia minha. Sublimidade da natureza humana. 3. Com efeito, destinei­te a compartilhar comigo da eternidade; para teu uso, preparei o céu, a terra e tudo o que neles está contido; só em ti juntei, ao mesmo tempo, todas as prerrogativas, das quais as outras criaturas apenas têm uma: o ser, a vida, os sentidos e a razão. Fiz­te soberano das obras das minhas mãos, e coloquei tudo a teus pés, as ovelhas, os bois e os outros animais da terra, as aves do céu e os peixes do mar, e desta maneira coroei­te de glória e de honra (Salmo 8, 6­9). A ti, finalmente, para que nada te faltasse, dei­me eu próprio, mediante a união hipostática, ligando para sempre a minha natureza com a tua, sorte que não coube a nenhuma das outras criaturas visíveis e invisíveis. Com efeito, qual das outras criaturas, no céu ou na terra, se pode gloriar de que Deus se revelasse na sua própria carne e apresentado pelos anjos? (Timóteo, I, 3, i6), ou seja, não

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nas línguas. Deve procurar­se. João.COMENIUS apenas para que vejam e se admirem a ver quem desejavam ver (Pedro.ebooksbrasil. compreender que és o protótipo. na verdade. Deves. nos ouvidos e nos olhos de todos os homens. I. I. Filho de Deus e do homem (Hebreus. ou seja. 4. não. e empreguem todos os meios para atingir o objetivo desta sublimidade. É necessário colocar esta verdade debaixo dos olhos de todos os homens. I. 51. portanto. enfim. que todos aqueles a quem cabe a missão de formar homens façam com que todos vivam conscientes desta dignidade e excelência. www. mas ainda para que adorem a Deus que se revelou vestido de carne. 12).html 36/357 . 1. mas nos seus corações. 11). não nas portas dos templos. 6. o admirável compêndio das minhas obras. a coroa da minha glória. 4. Mateus. o representante de Deus no meio delas.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . não nos frontispícios dos livros. Oxalá todas estas verdades sejam esculpidas.org/eLibris/didaticamagna.

org/eLibris/didaticamagna. a mais absoluta glória e beatitude.COMENIUS Capítulo II O FIM ÚLTIMO DO HOMEM ESTÁ FORA DESTA VIDA A mais excelente das criaturas deve necessariamente ter a finalidade mais excelente. 2. após uma solene deliberação. A própria razão nos diz que uma criatura tão excelente é destinada a um fim mais excelente que o de todas as outras criaturas. isto é. formou­lhe o corpo como que com os seus próprios dedos e insuflou­lhe por alma uma parte de si mesmo. Mas embora isto se infira claramente da Sagrada Escritura e nós acreditemos firmemente que é de fato assim. uma vez que é evidente que este grau supremo da vida é fortemente obscurecido www. no próprio momento da criação. a segunda. Ora. a gozar. Em primeiro lugar.html 37/357 . 1. não ordenou ao homem simplesmente. que viesse ao mundo. mediante as operações dos sentidos e do movimento. nesta vida. a terceira pode existir também separadamente. 4. mas. Da história da criação. e intelectual ou espiritual — a primeira das quais nunca se manifesta fora do corpo. juntamente com Deus.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . que é o cume da perfeição. Da constituição do nosso ser.ebooksbrasil. 3. todavia. Com efeito. da glória e da beatitude. não será tempo perdido ver de quantos modos. para sempre. Com efeito. temos aqui três espécies de vida: vegetativa. A constituição do nosso ser mostra que não nos bastam as coisas que possuimos nesta vida. 1. como se verifica nos anjos. Deus nos tenha figurado o Além («Plus ultra») ou de quantos modos a ele possamos chegar. põe­nos em relação com os objetos exteriores. animal. 2. O que é evidente. sem dúvida. como aos outros seres.

A princípio. mas sem termo. como nada era ab aeterno. De fato. pensamos. A seguir. há sempre qualquer coisa a fazer. na qual. Após um certo lapso de tempo. De tudo o que fazemos e sofremos nesta vida.ebooksbrasil. todas aquelas faculdades. rudes e muito confusas. De igual modo. adquirimos e possuímos não é senão uma espécie de escada. Mas em cada uma daquelas coisas há uma mera gradação. vem à luz. segue­se necessariamente que o será também no lugar onde ela for conduzida ao mais elevado grau de perfeição <grego>. tendem sempre mais para cima.COMENIUS e perturbado em nós pelos outros dois. mas que tudo o que é nosso. mas nunca chegamos ao último. nunca se consegue encontrar o fim. 6. cresce sempre mais a luz intelectual (a não ser que se trate de um débil).7/8/13 DIDACTICA MAGNA . sendo como que um morto vivo). durante todo o tempo da vida (exceto quem é tomado de um extremo torpor. como a luz radiante da aurora. assume os traços de um pequeno corpo. Depois. a partir de uma gota de sangue paterno. nesta vida. começam a abrir­se os olhos. é certo que subimos sempre degraus mais altos. os ouvidos e os restantes sentidos. pouco a pouco. www. começa a desenvolver­se somente no útero materno. Com efeito. débeis. durante todo o tempo que dura a vida. depois. as nossas ações são.org/eLibris/didaticamagna. numa alma generosa. juntamente com as forças do corpo. 5. Tudo o que fazemos e sofremos nesta vida mostra que não atingimos aqui o nosso fim último. até ao momento da morte. pouco a pouco.html 38/357 . nem dos nossos desejos nem das nossas tentativas. por força da natureza. Em todas estas coisas há uma gradação. tênues. manifesta­se o intelecto. a propor e a tentar. Depois. com efeito. o homem no princípio? Matéria informe e bruta. portanto. Com efeito. aplicando­se a certos objetos e fugindo de outros. de tal maneira que. mas ainda sem sentidos nem movimentos. aparece a inteligência. tende para outro lugar. quando sente que vê. subindo cada vez mais acima. fazemos. a vontade. assume o papel de diretora. finalmente. Que é. também as potencialidades da alma se desenvolvem. e. notando as diferenças entre as coisas. que ouve e que sente. tudo o que somos. e começa a emergir da profunda escuridão da noite. 3. revela­se o sentido interno. a pouco e pouco. falamos. começa a mover­se e. sem um termo. e bem assim nós próprios. a princípio. imaginamos. Tudo isto é demonstrado pela experiência. e. o homem nada é.

a palavra <grego> que significa ir­se embora. aqueles que mergulharam no amor da vida presente. Mas. Nem mesmo a morte põe fim às nossas aspirações. Os exemplos dos moribundos provam que nem a morte marca o último termo das nossas aspirações. todavia. Porquê. chamaram à morte partida. senão porque se compreende que. a nós cristãos. como se lê em Festo[1]. ainda o podem fazer.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Se alguém ama o poder e as riquezas. da herança.ebooksbrasil. reconciliam­se com Deus e com os homens. parece ouvir um anjo. 9. à hora da morte aqueles que passaram honestamente a vida exultam ao pensar que é para entrar numa vida melhor. se passa para um outro lugar? O exemplo do Cristo­Homem ensina que os homens são destinados à eternidade. de tal maneira que. E embora o corpo. e tem necessariamente que confessar que não se trata senão de um hóspede que se prepara para abandonar um pequeno tugúrio prestes a cair em ruínas. Efetivamente. gravidade e circunspecção as necessárias disposições acerca de si mesmo. esta verdade parece mais clara depois que www. 8). embora todos os seus sentidos nadem num mar de delícias. nunca encontra o fim. começam a tremer. da família. todas as coisas lhe parecem gastas e o seu apetite corre de um objeto para outro. quanto mais coisas uma pessoa sabe. etc. 8. não poderá ter paz ainda que seja adorado por todo o mundo. pela morte. e se.COMENIUS 7. Com efeito. Para qualquer parte que alguém se volte. tanto melhor compreende que lhe restam mais para saber. e quem o ouve falar. se debilite. Salomão disse: «Os olhos não se saciam de ver e os ouvidos têm sempre desejo de escutar» (Eclesiastes. conhecerá esta verdade por experiência. os sentidos se ofusquem e a própria vida expire. muitas vezes.html 39/357 . não encontrará onde saciar a sua fome. quem vê morrer um homem piedoso e sábio parece ver um pedaço de terra que se esboroa. de um modo ou de outro. tomando com devoção. ainda que chegue a possuir todo o mundo. com mais vivacidade que nunca. pois. a mente. em vez de perecer ou de morrer. Se alguém aplica a mente ao estudo da sabedoria. Os próprios pagãos compreenderam esta verdade.org/eLibris/didaticamagna. ao contrário. Se alguém se entrega aos prazeres. 1. enfraquecido pelas dores. do Estado. («ecabitio»). o que é evidente pelo exemplo de Alexandre. realiza as suas funções. com toda a razão. e os gregos usam. e por isso os romanos. Se alguém arde com sede de honras.. apercebendo­se de que a vão abandonar e de que deverão emigrar para outro sítio.

nunca termina. mostrou a mesma coisa com o seu exemplo. Filho de Deus vivo. 11. quando. portanto. nesta. forma­se a alma racional para uso da vida eterna. a vida. o primogênito dos irmãos (Romanos. como faz o pintainho. Na primeira. nunca mais se sai. Ora Ele é chamado. 29). mas para passar. e. Portanto.29). 22 e 23). no segundo. a plenitude perfeita de todas as coisas. sai para fora. assim também nós.org/eLibris/didaticamagna. recebemos apenas a vida. para a terceira. o arquétipo de todos aqueles que devem ser reformados à imagem de Deus (Romanos. mas emigrar para outro lugar. portanto. na segunda. da segunda. eternamente. A primeira vida de que falei é uma preparação para a segunda. A primeira e a segunda morada. estão estabelecidas três espécies de vida e três espécies de morada: o útero materno. 12. concebido e dado à luz mediante o nascimento. o movimento e os sentidos com os primórdios da inteligência. Assim. O Homem tem três espécies de morada. 6. e a morte já O não tem sob o seu domínio. o nosso precursor (Hebreus. são como duas oficinas: naquela forma­se o corpo para uso da vida seguinte. assim como Ele não veio para continuar a viver neste mundo. E três espécies de vida. os israelitas (seja­nos lícito adaptar este símbolo ao www. andou entre os homens. juntamente com um movimento e sentidos incipientes. 10. mediante o nascimento. 20).7/8/13 DIDACTICA MAGNA . a terceira. a placenta. entra­se para a segunda.html 40/357 . A passagem da primeira para a segunda e da segunda para a terceira é estreita e acompanhada de dores. depois de morto. a segunda para a terceira. 8. no primeiro caso. 8. o próprio organismo do corpo). uma vez que nos cabe a mesma sorte que a Ele.COMENIUS Cristo. de sua própria natureza. a terceira morada produz a verdadeira perfeição e prazer de ambos. a cabeça dos seus membros (Efésios. Efetivamente. Da primeira. 1. e é de fato. Os israelitas são símbolo disto. quebrada a casca. às habitações eternas. da terceira. terminado o curso da vida. ressuscitou e subiu aos céus. mediante a morte e a ressurreição.ebooksbrasil. enviado do céu a reproduzir a imagem de Deus desaparecida de nós. na terceira. e num e noutro caso se devem depor os despojos ou invólucros (ou seja. não devemos permanecer aqui. a terra e o céu. Para cada um de nós.

aí acamparam em tendas. foram constituídos herdeiros da terra de Canaan. lutaram com vários inimigos. aprenderam a lei. atravessado pela força o Jordão. transferidos para o deserto. finalmente. pelos estreitos caminhos dos montes e do Mar Vermelho. onde corriam rios de leite e de mel.html 41/357 . www.ebooksbrasil.org/eLibris/didaticamagna.COMENIUS nosso caso) foram gerados no Egito e de lá.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .

por culpa dos homens. uma vez que tende para outra. mas para o seio da morte. são arrebatados. pelo testemunho da Sagrada Escritura. não é vida (falando com rigor). pois já não há nenhuma razão para que continui naquelas trevas. pelo testemunho de nós mesmos. para comodidade e uso da vida seguinte. lançados no seio da morte. a qual vivemos à luz do sol. ou antes. em ambos os casos. é certo que com a permissão de Deus. 1. mas um proêmio da vida verdadeira e que durará para sempre.html 42/357 . do mesmo modo que. Pelo testemunho de nós mesmos. somos dados à luz. pelo testemunho do mundo. isso acontece. antes que tenham feito esses preparativos. tornar­se­á evidente. www.COMENIUS Capítulo III ESTA VIDA NÃO É SENÃO UMA PREPARAÇÃO PARA A VIDA ETERNA Testemunhos desta verdade 1. O mundo visível foi criado somente para servir de sementeira. esta vida que vivemos à luz do sol não é senão uma preparação para a vida eterna. 2.ebooksbrasil. Se lançarmos um olhar introspectivo sobre nós mesmos. Do mesmo modo. que a antecedente prepara o caminho para a seguinte. Mas em proveito de quem? Acaso em proveito de si mesma? De modo algum. mas contudo. 2. porque nada mais temos aqui a fazer. de tal maneira que não é de admirar que a alma se sirva do corpo para conseguir aquelas coisas que lhe serão úteis para a vida futura. primeiro.org/eLibris/didaticamagna. É verdade que alguns. o feto é lançado fora do útero.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . não para o seio da vida. emigramos daqui. Apenas feitos estes preparativos. segundo. Que esta vida. veremos que todas as coisas da nossa vida procedem de tal modo gradualmente. finalmente. E apenas aquele pequenino corpo está perfeito. porém. e. portanto. Trata­se apenas de formar convenientemente um pequenino corpo para servir de habitação e de instrumento à alma. Por exemplo: a nossa primeira vida desenvolve­se nas vísceras maternas. nos casos de aborto.

foi preciso conceder um espaço de tempo necessário para esta sucessiva multiplicação. Portanto. os meses e os anos. não apenas para satisfazer as necessidades do homem. de surdez e de cegueira. de alimento para crescer e de vestidos para se adornar. por isso. fez (na parte mais baixa do mundo) um pavimento sólido. 3.COMENIUS de alimentador e de escola aos homens. uma vez que a Deus não aprouve criar os homens todos juntos. existir um mais além («Plus ultra»). uma vez que o homem seria uma criatura corpórea. derivou de cada uma das criaturas muitas e várias espécies. Efetivamente. as forças necessárias e a sua benção.org/eLibris/didaticamagna. a lua e as estrelas. uma vez que formara o homem à sua imagem. os dias. a solidez. fez a extensão dos céus. observada e saboreada. de qualquer parte que se olhe. dando­lhes. E. e ordenou que estes astros. para a alimentação e para a educação do gênero humano.ebooksbrasil. E para que esse tempo não fosse um tempo de confusão. 3. na contemplação do qual o homem fosse arrebatado por um sentimento de admiração pelo Criador e impelido a conhecê­lo e movido a amá­lo. mas por toda a parte brilha por meio das coisas visíveis e presta­se a ser apalpada. guarnecidos com o sol. no mesmo momento. A seguir.html 43/357 . por via de geração. Deve. mas produziu apenas um macho e uma fêmea. se multiplicassem.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . www. servissem para medir as horas. este mundo nada mais é que a nossa sementeira. pelo que foram concedidos alguns milhares de anos. dotado de inteligência. nos matricularemos na Academia Eterna. com necessidade de um lugar para habitar. Com efeito. atesta que não foi criado para outro fim senão para servir para a multiplicação. de um espaço para respirar e para se mover. O próprio Deus o atesta com as suas palavras. mas também para seu deleite. e ordenou­lhe que produzisse plantas e animais multiformes. com as suas revoluções. a fim de que. consta que as coisas se passam assim. Pela razão. o nosso alimentador e a nossa escola. mas é ainda mais evidente pelas Sagradas Escrituras. portanto. como fez com os anjos. onde. a beleza e a doçura do Criador permanece invisível e escondida no abismo da eternidade. a terra: e circundou­a de ar e banhou­a com as águas. uma vez saídos das aulas desta escola. para que este mundo visível aparecesse como um lucidíssimo espelho da infinita potência. Também o mundo visível. sabedoria e bondade de Deus. para que também não faltasse à inteligência o seu alimento.

existe por causa do homem. 4. Lucas. porque não sabeis em que hora virá o Filho do homem» (Mateus. 12. até o próprio tempo. usa de longanimidade para com os maus? Sem dúvida. Pedro. 11). depois que apareceu no mundo. todavia. 14). e tudo isto por causa dos homens (Oseias. a terra por causa do trigo. 47. 21. a qual será verdadeiramente permanente (Gênesis. é necessário que esta vida seja apenas uma passagem. dão­lhe o nome de via. forasteiros. aspirantes a uma outra cidadania. 2. mas que todos se convertam (Pedro II. portanto. onde habitará a justiça (Apocalipse.org/eLibris/didaticamagna. 13.1 e 2. Se. Finalmente. 6. 7. Com efeito. A experiência. Porque. 12. portanto. ao contrário. Apenas este número esteja completo. 20. 24.7). Com efeito. do vinho e do azeite. o que é colocado sob os olhos de todos nós. 24. quem de todos os que nasceram. porque não quer surpreender ninguém não preparado. II. Conclusão. Todas estas coisas são demonstradas pelos próprios fatos e pela condição de todos os homens. algum continua a abusar da paciência de Deus.22). Salmo 29.html 44/357 . até os nomes que as Sagradas Escrituras dão a esta vida dão a entender que esta não é senão uma preparação para outra. os céus e a terra desaparecerão e não se encontrará mais lugar para eles (Apocalipse. o nome de peregrinos. Job. este ordena que seja arrebatado pela morte. assim também é certo que a estadia no corpo é uma preparação para aquela vida que será uma continuação da vida presente e durará eternamente.9. 18). Por isso Cristo disse: «Estai preparados. Tudo. 3. 5. e a nós. não será concedida ao mundo uma duração mais longa que a necessária para completar o número dos eleitos (Apocalipse. pertencemos à eternidade. 6. 4. assim como é certo que a estadia no útero materno é uma preparação para viver no corpo. 9). E é esta a razão (sabemo­lo também pela Escritura) por que Deus chama deste mundo alguns ainda na primeira idade da vida: chama­os certamente quando os vê preparados como Enoc (Gênesis. Feliz aquele que sai do útero materno com os membros bem formados! Mil vezes mais feliz aquele que sair desta vida com a alma bem limpa! www. 3. 44). inquilinos. não desapareceu de novo? Precisamente porque somos destinados à eternidade.COMENIUS 4. Sabedoria. porta. O próprio Deus afirma. 36). Porque é que. Portanto. Com efeito.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .ebooksbrasil. pois surgirá um novo céu e uma nova terra. viagem. pela boca de Oséias. espera. que os céus existem por causa da terra.

subordinados ao fim supremo (a eternidade)? 1. Criatura racional. que seja rei de si mesmo. São três: 1. portanto. e a toda a terra. É evidente. e às aves do céu. Que é criatura racional quer dizer que observa. Que significa que é criatura racional? 3. que seja delícia de Deus. 1. porque sobre elas se funda a base da vida presente e da futura. Criatura imagem e delícia do seu Criador Estas três coisas estão de tal modo ligadas que não pode admitir­se nenhum divórcio entre elas. que o fim último do homem é a beatitude eterna com Deus. 2. 3. torna­se evidente que foi colocado entre as criaturas visíveis para que seja: I. dá o nome e se www. Ora.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .org/eLibris/didaticamagna. e presida aos peixes do mar. e aos animais selváticos.html 45/357 .ebooksbrasil. 26). GOVERNAR­SE E DIRIGIR­SE PARA DEUS De onde se adquire o conhecimento dos fins secundários do homem. torna­se evidente pelas palavras com que Deus manifestou a resolução de criar o homem: «Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. II. Quais sejam os fim subordinados àquele e conformes a esta vida transitória. que conheça todas as coisas. Criatura senhora das outras criaturas III. 2.COMENIUS Capítulo IV OS GRAUS DA PREPARAÇÃO PARA A ETERNIDADE SÃO TRÊS: CONHECER­SE A SI MESMO (E CONSIGO TODAS AS COISAS). desta passagem. e a todos os répteis que se movem sobre a terra» (Gênesis.

à virtude. isto é. de tal maneira que (como diz o Eclesiástico) em nenhuma coisa. se conhecer os fundamentos de todas as coisas. externas e internas. como e até que ponto deve obedecer ao corpo. como diz o próprio Arquétipo: «Sede santos.COMENIUS apercebe de todas as coisas. isto é. 7. 5. Nisto está compreendido também a ciência dos artífices e a arte da palavra. poderá de fato conservar o título de animal racional. à instrução. pequena ou grande. como e até que ponto deve servir o próximo. as diferenças das plantas e a potência das suas raízes: numa palavra. como a si mesmo. portando­se por toda a parte. quer dizer que representa ao vivo a perfeição do seu arquétipo. sou santo» (Levítico. e onde. que pode regular prudentemente os movimentos e as ações. Que é o senhor das outras criaturas quer dizer que. haja algo de desconhecido (Eclesiástico. ordenando tudo para fins legítimos. quer dizer que. adorando apenas o Criador acima de si mesmo. que pode conhecer e dar um nome a todas as coisas deste mundo e entendê­las. à piedade. 19). e todas as outras coisas menos que a si mesmo) defende a dignidade que lhe é concedida. 18). 19. Somente assim. Que significa que é senhor das outras criaturas? 4. porque Eu. quando. 2. faz reverter tudo utilmente em seu proveito. com efeito. como é evidente (Gênesis. 3. o princípio e o fim e o meio das estações. seus companheiros. as forças dos espíritos e os pensamentos dos homens. como um rei. www. as mudanças dos solstícios e a variabilidade do tempo. os anjos de Deus. Os referidos três atributos reduzem­se: 1. Finalmente.): conhecer a constituição do mundo e a força dos elementos. todas as coisas ocultas ou manifestas. que não está sujeito a nenhuma criatura. etc. segundo a enumeração de Salomão (Sabedoria. isto é. a duração do ano e a posição das estrelas. quando. que não ignora onde. 17 e ss.html 46/357 . que é imagem de Deus. nem mesmo à própria carne e que aproveita de tudo e de tudo se serve livremente. Ou então. de si mesmo e dos outros.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .ebooksbrasil. Que significa que é imagem de Deus? 5. no meio das criaturas. a natureza dos animais e a alma dos brutos. 2). 2. Numa palavra. grave e santamente (ou seja. o vosso Deus.org/eLibris/didaticamagna.

Os estojos em que se coloca. pois não repara onde está sobretudo a utilidade. que tenha conhecimento de todas as coisas. ou seja. Instrução. os vai procurar. serão: I. será escarnecida a sua puerilidade. 2. o conhecimento pleno das coisas.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .ebooksbrasil. ou vaidades supérfluas. Nestas três coisas reside toda a excelência do homem. entendendo­se por instrução. mas a plena formação interior e exterior dos movimentos da alma. o poder. piedade. as outras (a saúde. todas as outras são acessórias <grego>. Daqui se segue que os autênticos requisitos do homem são: 1. fonte de tudo. II. que seja capaz de dominar as coisas e a si mesmo. pesos inúteis e estorvos nocivos. que se dirija a si e todas as coisas para Deus. a amizade.html 47/357 . deles se ocupa e neles se mergulha. o sucesso. as esculturas. a força. 2. desejando­os apaixonadamente. a www. do relógio. se acaso Deus os junta a ela. por costumes. Estas três coisas são o essencial do homem nesta vida. a veneração interior. o valor de um cavalo está na sua força junta com a magnanimidade ou agilidade e a prontidão do voltear. ou seja. do cavalo. cuja substância ou essência é constituída por uma correspondência perfeita de todas as suas partes. das artes e das línguas. e por religião. a longevidade) não são senão acréscimos e ornamentos externos da vida. as pinturas e os dourados são coisas acessórias que acrescentam qualquer coisa à sua beleza. Ilustro a minha afirmação com exemplos. a dignidade. Ilustra­se isto com o exemplo: 1. não apenas a urbanidade exterior. a beleza. 3. se alguém. porque só estas são o fundamento da vida presente e da futura. Estas três coisas. Religião. Se alguém quiser um instrumento destes de preferência belo a bom. 8. Do mesmo modo. honestidade de costumes. se as quisermos exprimir por três palavras vulgarmente conhecidas. e. O relógio (solar ou mecânico) é um instrumento elegante e muito necessário para medir o tempo. mas nada à sua bondade. Virtude. pela qual a alma humana se liga e se prende ao Ser supremo. descuradas as coisas mais importantes. III.org/eLibris/didaticamagna.COMENIUS 6. 7.

mas até a prejudica. e os colares. da virtude e da piedade. por isso. Deitar­se em leitos moles. assente isto: quanto maior é a atividade que. portanto. Por isso. Por isso. 15. é verdade que acrescentam ornamento. sejam de que espécie forem.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . a crina penteada e ereta.html 48/357 . quem procura coisas deleitáveis de preferência a coisas sãs. nesta vida se despende por amor da instrução. não só não favorece a saúde. 9. E é um insensato infinitamente mais prejudicial aquele que. chamar­lhe­íamos estúpido. é um insensato. www. o bom estado da nossa saúde depende de uma digestão regular e de uma boa disposição interior. 3. trazer vestidos luxuosos e comer alimentos saborosos.org/eLibris/didaticamagna. Conclusão. sejam estas três coisas a obra essencial da nossa vida <grego>. se víssemos alguém medir por estas coisas a excelência do cavalo. tanto mais nos aproximamos do fim último. tudo o resto é acessório. da saúde Finalmente. Fique. a gualdrapa com bordados de ouro. aparência enganosa. 12 e 19).COMENIUS cauda solta ou atada. mas. se preocupa mais com os ornamentos que com a essência do homem. o Sábio chama ímpio e estulto «a quem julga que a nossa vida é coisa de burla e um mercado lucrativo» e diz e repete que «a aprovação e a benção de Deus está muito longe de semelhante homem» (Sabedoria. empecilho. os freios dourados. desejando ser homem.ebooksbrasil.

Neste sentido.ebooksbrasil. Neste lugar. ninguém consegue subir ao lugar de onde descera» (Carta 93)[4]. 1. isto é. nem sem qualquer finalidade. o objetivo da sabedoria divina foi nada fazer em vão.COMENIUS Capítulo V AS SEMENTES DAQUELAS TRÊS COISAS (DA INSTRUÇÃO. Por conseqüência. não a corrupção que. E diz ainda: «O homem não é bom. por nós próprios. em cada criatura aquilo para que a destinou. foi dotado também de uma verdadeira tendência. ou seja. o erro cometido pelo gênero humano através dos primeiros pais)[3] nos expulsou». e para que o possa atingir foi dotado dos necessários orgãos e auxílios.html 49/357 . A força proveniente da providência eterna impele para o estado primitivo. filhos da ira[1]. lembrando­se da sua origem. livro I)[2]. de pensar seja o que for de bom). existe para qualquer fim. Na verdade. a todos atingiu (e por causa da qual somos chamados. mas. mas o nosso estado primitivo e fundamental. por assim dizer. ao qual devemos regressar como nosso princípio. Entendemos também pela palavra natureza a providência universal de Deus. nem sem os meios adequados para conseguir esse fim. transforma­se em bom. Luís de Vives disse: «Que outra coisa é o cristão senão o homem regressado à sua natureza e restituído. Neste sentido também pode tomar­se aquilo que Sêneca escreveu: «A sabedoria está em regressar à natureza e em voltar àquele lugar de onde o erro público (ou seja. mais ainda. entendemos. de onde o demônio o havia afastado?» (Da Concórdia e da Discórdia. ou seja. DA MORAL E DA RELIGIÃO) SÃO POSTAS DENTRO DE NÓS PELA NATUREZA A primitiva natureza do homem era boa: a ela (libertando­nos da corrupção) devemos regressar. depois da queda. para que tenda a igualar Deus. a fim de que nunca seja impelido para o seu fim contra a sua www. 2. por natureza. à sua origem.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . por natureza. o influxo incessante da bondade divina para operar tudo em todos. Desonestamente. incapazes. tudo o que existe.org/eLibris/didaticamagna.

Ora. entre os atributos de Deus. mas antes com prontidão e com prazer pelo instinto da própria natureza. Se fossem concedidos ao homem mil anos de vida. Com efeito. e é tão certo que as raízes daquelas três coisas se encontram nele. Efetivamente. por isso.ebooksbrasil. desvela as veladas e esforça­se por perscrutar até as imperscrutáveis. o qual recebe a imagem de todas as coisas. no conhecimento. ergue­se às que estão elevadas. deduzindo uma coisa de outra. todavia. se disso é mantido afastado. para a harmonia dos costumes e para o amor a Deus sobre todas as coisas (vimos já. Para que se torne mais evidente o que pretende dizer o Eclesiástico quando proclama que a sabedoria colocou fundamentos eternos nos homens (Eclesiástico. a tal ponto a mente do homem é de capacidade inesgotável que. É certo. O que é evidente. ou então não será uma imagem. 1. necessariamente brilhará no homem algo de semelhante a ela. investiga as ocultas. de Virtude e de Religião foram postos em nós.org/eLibris/didaticamagna. tendo uma mente lúcida. I. que também o homem foi feito. durante os quais aprendesse constantemente qualquer coisa. suspenso na parede de uma sala. Tornando­o apto para adquirir conhecimento das coisas. como um espelho esférico. se é perfeita.html 50/357 . se apresenta como um abismo. advenha o sofrimento e a morte. porque o fez: 1. mas também aproxima de si as que estão afastadas (quer quanto ao lugar. que foi destinado para estas coisas). de modo que. se destaca a omnisciência. de tal maneira é algo de infinito e de indeterminável. É evidente que todo o homem nasce apto para adquirir conhecimento das coisas: primeiro. apto para a inteligência das coisas. digo. apresenta necessariamente os traços do seu arquétipo. www. teria sempre onde receber outras coisas que se lhe apresentassem. A sabedoria colocou no homem raízes eternas. quer quanto ao tempo). a nossa mente não apreende somente as coisas vizinhas. porque é imagem de Deus.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . 3. vejamos que fundamentos de Sabedoria. sua imagem 4. E porque não? Sem dúvida que o homem está no meio das obras de Deus. de todas as coisas que o rodeiam. a imagem. com efeito. quanto é certo que a cada planta foram dadas as raízes sob a terra. 14). para que nos apercebamos quão maravilhoso organismo de sabedoria é o homem.COMENIUS vontade e com relutância. por natureza. uma vez que.

todavia. nele existe já de fato a erva ou a planta. Não é necessário. E havemos então de negar que todas as coisas lhe são acessíveis. se alongam em ramos e em ramagens. é incapaz de se libertar pelos seus próprios meios. Que assim é.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . N. com a ajuda dos quais. 3. ou seja. a vista apenas chega à cúpula celeste.ebooksbrasil.COMENIUS O nosso pequeno corpo está encerrado num círculo estreito. se cobrem de folhas e se adornam de flores e de frutos. a nossa voz vai um pouco mais além. após a queda. mas apenas fazer germinar e desenvolver as coisas das quais ele contém o gérmen em si mesmo e fazer­lhe ver qual a sua natureza. com certeza que poderia responder a todas. como se torna evidente quando a semente. Em conseqüência disso. e mesmo que estes espaços fossem milhões de vezes mais vastos do que são. Resumo do universo. no qual. Simplesmente agora.org/eLibris/didaticamagna. O homem é chamado pelos filósofos <grego>. introduzir nada no homem a partir do exterior. que o obscurece e confunde. do olfato. Dotado de sentidos 6. metida debaixo da terra. 5. de modo obscuro. lança para baixo as raízes e para cima os rebentos.B. Além disso. compreendendo. os quais. por uma força ingênita. do gosto www. todas as coisas que se vêem por toda a parte amplamente espalhadas pelo universo (macro­cosmos). embora não exista ainda em ato a figura da erva ou da árvore. que ela é capaz de tudo? 2. da vista. pouco depois. à alma racional que habita em nós. nem no céu nem fora do céu: tanto se eleva acima dos céus dos céus. mas à nossa mente não pode fixar­se um limite. todavia. se um menino de sete anos fosse prudentemente interrogado acerca de todas as questões de toda a filosofia. precisamente porque a luz da razão é a forma e a norma suficiente de todas as coisas. portanto. e aqueles que deveriam ajudá­lo não contribuem senão para aumentar o embaraço em que se encontra. demonstrar­se­á noutro lugar[5]. Por isso.html 51/357 . como desce abaixo do abismo do abismo. aceitamos que Pitágoras costumava dizer que era tão natural ao homem saber tudo que. foram acrescentados órgãos e como que emissários e observadores. ela aí penetraria. do ouvido. com incrível rapidez. resumo do universo. a mente do homem que entra no mundo compara­se com muita razão a uma semente ou a um caroço.

e. o azeite e a torcida. ela procura chegar a tudo aquilo que se encontra fora dela. fazer tomar fogo à acendalha. Uma vez que. para uma natureza viva. de fato. Acaso não nos mostra isto que. 7. De onde resulta que muitos. e tudo o necessário? Basta­lhe saber riscar o fósforo.ebooksbrasil. mas porque vêem que isso não é possível. mas até o apetite do trabalho[6]. nada havendo. 8. lançam­se sempre para fora de si mesmos. instruídos na escola de diligentes professores. portanto.html 52/357 . Com efeito. nada há que se não possa ver.COMENIUS e do tato. Bernardo)[7]. conseguem penetrar no conhecimento das coisas. passeando e meditando nas florestas) fizeram mais progressos que outros. procurando sempre o seu alimento. de todas as coisas criadas. Se. os ouvidos. isto é. nos quais eles próprios gostariam de participar. todas as coisas. em perguntar qualquer coisa? Em resumo. medida e peso[8]). por isso. que se não possa saber o que é e de que natureza é.org/eLibris/didaticamagna. o facho e o candieiro. no mundo visível. alguns foram mais adiante que os seus próprios mestres. Está implantado também no homem o desejo de saber. dentro do homem. os maravilhosos tesouros da sabedoria de Deus. suspiram e olham com reverência aqueles que vêem de inteligência mais elevada. que significa isto senão que também os idiotas experimentam pelo saber os atrativos de um desejo natural. e não apenas a aceitação resignada. num espetáculo cheio de beleza. tomando­se a si mesmos por guia. E uma vez que até os idiotas admiram os homens doutos. de maneira evidente. eis o que se passa: os olhos. Os exemplos dos autodidatas mostram. ou (como diz S. pode aprender todas as coisas.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . se achassem que isso era possível?. conduzido pela natureza. porém. ou ouvir. ou apalpar. tão intolerável como o ócio e o torpor. a sua luz www. que o homem. tanto em si mesmo como no vasto mundo (observando como todas as coisas foram ordenadas com número. Estimulado pelo desejo de saber. não consiga apreender. Surge logo na primeira idade infantil e acompanha­nos durante toda a vida. nada pode permanecer­lhe escondido. ou em conversar com alguém. o tato e também a mente. Com efeito. 4. daí se segue que nada existe no mundo que o homem. e acender as luzes para que veja. ensinados pelos carvalhos e pelas faias (ou seja. de tal maneira que. de ver ou de apalpar sempre algo de novo? Quem não sente prazer em comparecer todos os dias em qualquer lugar. quem não experimenta a impaciência de ouvir. estão. dotado de sentidos e de razão.

à cera.html 53/357 . ao passo que. 9. com a mesma facilidade. 3. Com efeito. assim também na mente humana. não é possível traçar linhas senão até ao limite em que as margens o permitem.ebooksbrasil. ou de que se fazem estatuetas. uma ou outra vez. porém. a Sagrada Escritura compara o nosso coração)[10] não recebe acaso sementes de toda a espécie? E acaso um só e o mesmo jardim não permite que nele se plantem ervas. onde podem imprimir­se infinitos selos. onde. E se isto não acontece. E quanto maior for a variedade. o escritor pode escrever. dos quais entrariam pelos respiradouros somente alguns raios. Aristóteles comparou a alma humana a uma tábua rasa. desde que saiba da sua arte. Portanto.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . pois (como atrás se observou). onde não há nada. à cera. se submete como se quer www. tanto mais belo será o espetáculo para os olhos. nosso mestre. mas não a plena luz. quando ela é demasiado rugosa). 10. tanto mais suave é o prazer para o nariz e tanto mais forte é o conforto para o coração. à volta dele. Compara­se também. produz os gênios»[9]. uma diferença: na tábua. adaptando­se a receber qualquer forma. à terra. flores e plantas aromáticas de toda a espécie? Com certeza. 4. O mesmo nos ensinam as coisas a que se compara a nossa mente. de uma maneira oculta. na mente. mas por ignorância do escrivão ou do pintor. quem não ignora a arte de ensinar pode gravar a efígie de todas as coisas. ela não tem termo. com toda a certeza que não é por culpa da tábua (exceto. se ao jardineiro não falta prudência e zelo. A nossa mente é comparada: 1. por mais que se escreva ou esculpa. numa tábua. as lâmpadas das opiniões alheias. É precisamente como disse Sêneca: «As sementes de todas as artes estão colocadas dentro de nós. nunca se encontra um sinal que indique o termo. e Deus. a terra (à qual. a um jardim. ou se imprime um selo. com razão. da mesma maneira que a cera. onde nada está escrito e onde se pode escrever tudo[11]. Há. o nosso cérebro. não pode acontecer diversamente do que acontece. 2.COMENIUS interior não está acesa. mas apenas se faz girar do exterior. a uma tábua rasa. da mesma maneira que. Com efeito. e o pintor pintar aquilo que quer. é como se se fizesse girar archotes à volta de uma prisão obscura e fechada. oficina dos pensamentos. muitas vezes.org/eLibris/didaticamagna.

durante tantos anos. cada um deles as recebe. tudo aquilo que cada um de nós (principalmente as pessoas instruídas).. fosse capaz de receber milhares e milhões de imagens. do mesmo modo que o continente é necessariamente maior que o www. todavia. todavia. mostra­se. ou receba estas impressões de modo mais distinto. A capacidade da nossa mente é um milagre de Deus. Que coisa é esta imperscrutável sabedoria da omnipotência de Deus? Salomão maravilha­se que todos os rios desaguem no oceano e. uma floresta. ouvidas. o gosto e o tato é para mim como um selo. do nariz e das mãos. o olfato. 7). ou as retenha com maior fidelidade que outro. de uma maneira elegante. o que é o nosso pensamento e o que é a nossa ciência. música e discursos. permanece sempre a sua imagem. representa e retém. se leio atentamente algumas linhas num livro. me ressoassem aos ouvidos e as saboreasse ou apalpasse neste momento. ouviu. e quem não há­de admirar­se com este abismo da nossa memória que tudo recebe e tudo restitui. embora existam por milhões e se multipliquem até ao infinito. com o fato de ver. ou seja. que não é grande sob aspecto nenhum. E embora um cérebro. a não ser quando uma atenção negligente formou uma impressão débil. se. devemos admirar o espelho da sabedoria de Deus. não encham o mar (Eclesiastes. dos ouvidos. é o mesmo que se me estivessem diante dos olhos. saboreou. Tudo o que me impressiona a vista. um rio. a nossa mente é verdadeiramente maior que o mundo. quase cada dia. etc. ao mesmo tempo.. as imagens das coisas uma vez vistas. viu. mesmo que a coisa se afaste dos olhos. 11. de qualquer maneira. se pode recordar.org/eLibris/didaticamagna. contemplo uma montanha. 1. segundo as suas forças. um campo. lidas. assim também o cérebro. o ouvido. é evidente que tudo isso se conserva ordenado no cérebro. e não é possível que ela não permaneça. por vezes. ouço trovões. etc. pelo qual a imagem de uma coisa se imprime no cérebro. todas estas coisas se imprimem no meu cérebro. Com efeito. Com este exemplo. prestando­ se a receber as imagens de todas as coisas. de ouvir e de ler. e de que. recebe em si tudo o que o universo contém.COMENIUS a tomar e a mudar de figura. etc. Por exemplo: se fixo um homem ou lhe falo.. sem jamais se encher e sem jamais se esvasiar? Assim. leu e adquiriu com a experiência e com o raciocínio. estão contidas no cérebro. viajando. todas as vezes que a sua recordação se me renova. de tal maneira que.html 54/357 . e nele o imprime de tal maneira que.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . no entanto. se.ebooksbrasil. a qual providenciou de modo que a massa do cérebro. A este propósito. uma cidade. qualquer coisa de novo. ou as represente com maior clareza.

Porém. juntamente com o leite da ama. ou demasiado longe.html 55/357 . todo o homem sente prazer com a harmonia. ou esta seja baralhada por um movimento contínuo. Finalmente. e são capazes de olhar todas as coisas (desde que os não perturbem. apenas somos dados à luz e começamos a ser educados. III)[12]. apresentando­lhes ao mesmo tempo demasiados objetos) e nunca podem saciar­se de olhar. assim também a nossa mente é sequiosa das coisas. assim fala Cícero: «Nas nossas faculdades espirituais estão inatos os gérmens da virtude. 1. daquilo que costuma acontecer naturalmente. portanto. quando há luz e o objeto é apresentado como convém. para nos conduzirem à beatitude (isto é exagerado!). embora. imediatamente mostrará em si uma imagem parecidíssima. nestes casos. ele próprio não é senão harmonia. temham considerado (tentativa vã) aquelas centelhas. bebemos os erros» (Tusculanae.ebooksbrasil. Com a qual se deleita em toda a parte: em todas as coisas www. temos de confessá­lo. infere­se destes dois argumentos: primeiro.COMENIUS conteúdo. Da mesma maneira que. seriam suficientes. a raiz da honestidade é a harmonia. com a devida ordem. segundo. ignorando outra luz divinamente acrescentada e o guia mais seguro que nos foi dado para chegar à vida eterna. verdadeiros faróis. interior e exteriormente. não é necessário forçar os olhos a abrirem­se e a fixarem os objetos. ou que se impeça de receber a impressão. os quais.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . não se obtém êxito. Os próprios pagãos viram que é natural ao homem a harmonia dos costumes. 13. se lhe dê a observar uma coisa após outra. ou da parte detrás. por causa da distância maior que o devido. pois de tudo o que se lhe apresenta. por natureza.org/eLibris/didaticamagna. 12. porém. II. o olho ou o espelho simboliza muito bem a nossa mente. sem nunca se cansar. A nossa mente é um espelho. porque (tal como aquele que naturalmente tem sede de luz) eles experimentam prazer em olhar espontaneamente. de tal maneira que parece que. está sempre atenta. rebolamo­nos continuamente em toda a espécie de imundícies. Com efeito. Falo. a não ser que se lhe apresente um objeto às escuras. agarra todas as coisas. desde que não seja ofuscada com uma multidão de objetos e que. ou melhor. de qualquer forma ou cor que seja. se pudessem desenvolver­se e crescer. Que é verdadeiro que certos gérmens de virtude nascem juntamente com o homem. No homem. toma.

Se nós amamos até as virtudes uns nos outros (de fato.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . porque é que. a quem se não deleitaria ao ver um homem formoso. Cada um goza com um calor bem proporcionado. nas coisas que se saboreiam. e até nas próprias virtudes. nas coisas audíveis. de tal modo fabricado segundo as regras da arte. 14.html 56/357 . mesmo que os não imite. nas coisas palpáveis. assim como o grande mundo é parecido com um enorme relógio.org/eLibris/didaticamagna. Efetivamente. Mas também o próprio homem não é senão harmonia. uma estátua bela e uma pintura linda? De onde nasce esse prazer senão do fato de que a perfeita proporção das partes e das cores produz o agrado? Essa proporção é o prazer mais natural para os olhos. como relativamente à alma. tanto relativamente ao corpo.COMENIUS visíveis. mesmo quem é privado de virtude admira as virtudes dos outros. Que o homem se deleita com a harmonia e procura ardentemente chegar a ela. com www. portanto. Com efeito.ebooksbrasil. se não reconhecemos que estão em nós as raízes de toda a harmonia! 2. A quem não agradam os alimentos bem temperados? Sem dúvida porque a temperatura dos sabores deleita agradavelmente o paladar. com uma posição justa e um movimento equilibrado dos membros. Porquê? Precisamente porque todas as coisas temperadas são amigas e salutares para a natureza e todas as coisas desmesuradas são suas inimigas e prejudiciais. é evidente. Pergunto igualmente: a quem não agrada a música? E porquê? Sem dúvida porque a harmonia das vozes produz um som agradável. uma vez que considera impossível vencer os seus maus hábitos). cada um não há­de amar a virtude em si mesmo? Cegos de nós. com uma frescura bem repartida. A qual se encontra também no homem: tanto relativamente ao corpo 15. um cavalo elegante.

através de todo o relógio. fonte de vida e de atividade. Eis. se acaso se estraga ou se torna desafinado. a variedade das operações interiores e exteriores corresponde à exata e perfeita correspondência dos movimentos do relógio. Que as raízes da religião estão no homem. que seguem a principal. A harmonia perturbada pode remediar­se. nos movimentos da alma. quanto ao corpo. a verdadeira força motriz. uma parte os comunica à outra. que abre e fecha o movimento. ou seja. Com www. embora corrompido pelo pecado. e a válvula. A válvula. é possível saná­lo. assim como acerca de um relógio ou de um instrumento musical.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . por graça da virtude de Deus. por natureza. Assim. Que no homem estão as raízes da religião argumenta­se: 1. se aos desejos e às paixões se não atribui um peso demasiado grande. portanto. o qual. a qual mede e determina que coisa. é a razão. Por isso. é impossível não se seguir uma ordem e um acordo perfeito de virtudes. que realmente o homem em si mesmo não é senão harmonia. dele os outros membros recebem o movimento e a medida do movimento. é o cérebro. deve afirmar­se que. consertar­se e tornar a afinar­se). III.COMENIUS muitíssimas rodas e maquinismos. abre e fecha convenientemente. assim também acerca do homem. ou seja. demonstra­se pelo fato de que ele é a imagem de Deus. construído com arte admirável. onde e até que ponto se deve abraçar ou afastar. como no que diz respeito à alma 16. 17. faz andar as outras rodas (os membros) para diante e para trás. a razão. que é móvel. com efeito. não dizemos imediatamente que já não serve para nada (pode. Na verdade. um perfeito equilíbrio das ações e das paixões. que para produzir movimentos contínuos e perfeitamente ordenados. Os outros movimentos da alma são como que as rodas menores.html 57/357 . assim também o homem. feito pelas mãos de um artífice perito. servindo­se dos nervos. pela natureza da sua imagem.org/eLibris/didaticamagna.ebooksbrasil. os pesos que a fazem mover são os desejos e as paixões que inclinam a vontade para esta ou para aquela parte. Mas o peso. em primeiro lugar está o coração. Por isso. com determinados meios. como de cordas. 18. isto é. a principal roda é a vontade. Com efeito.

o qual é naturalmente desejado por todas as criaturas» (Timeu)[15]. 3. que nos criou. superior a toda a substância e a toda a natureza. os quais. 19).7/8/13 DIDACTICA MAGNA . II. I)[16]. Deve. 19. a imagem implica semelhança: e que todo o semelhante se congratula com o seu semelhante é lei imutável de todas as coisas (Eclesiástico. a não ser Aquele à imagem do qual foi feito. que nem sequer pela queda do gênero humano foi extinto. não sendo ajudados por nenhuma palavra de Deus. pelo desejo natural do Sumo Bem (que é Deus). 6). sem a qual não há qualquer majestade. cap. 13.ebooksbrasil. o culto divino consiste em acreditar nos deuses.html 58/357 . em saber que são eles que governam o mundo. 3[13]. O homem. naturalmente desejado por todas as criaturas) é de tal modo verdadeiro que Cícero diz: «A primeira mestra da piedade é a natureza» (Da natureza dos deuses. de onde a própria religião recebe o seu nome»[17]. Isto é evidente também pelo exemplo dos pagãos. confessar­se que este desejo natural de Deus. é natural que não seja conduzido pelos seus desejos senão para a fonte de onde derivou. mas também a venerá­lo e a desejá­lo. 2. no livro 4. Platão diz: «Deus é o sumo bem. embora errassem quanto ao número dos deuses e à forma do culto. depois. portanto.org/eLibris/didaticamagna. em atribuir­lhes a majestade devida e em atribuir­lhes a bondade. as justas e devidas homenagens e de apenas reconhecermos a Ele como Deus e de O seguirmos. E isto (que Deus é o sumo bem. cap. escreve Aristóteles no livro I Do Céu. como sumo bem. «Todos os homens têm a noção dos deuses e todos atribuem o lugar supremo a qualquer potência divina».COMENIUS efeito. uma vez que nada tem de igual a si. foi corrompido com a queda do pecado e www. Acaso esta opinião difere muito da do Apóstolo? «Porquanto é necessário que o que se aproxima de Deus acredite que Ele existe e que é remunerador dos que O buscam» (Hebreus. 28) fomos gerados com a condição de prestarmos a Deus. apenas pelo oculto instinto da natureza chegaram. E isto “porque (como escreve Lactâncio. não só a conhecer Deus. 21. 20. pela reverência inata em todos para com a divindade. Com este vínculo da piedade somos atados e ligados a Deus. E Sêneca: «Em primeiro lugar. todavia. contanto que a conheça com suficiente clareza. que regulam todas as suas coisas e que providenciam pela conservação do gênero humano» (Carta 96)[14].

22. porque não há­de acontecer o mesmo se for enxertado bem sobre a própria raiz? Veja­se a argumentação do Apóstolo (Romanos. Além disso. Cristo» (Filipenses.COMENIUS degenerou numa espécie de vertigem. de novo. a esperança de poder readquirir a mente humana. diz: «Tudo posso naquele que me conforta. clama: «Quem tenho eu. enquanto se procuram remédios para corrupção. que Deus de novo ilumina com o seu Verbo e com o seu Espírito. porque não há­de despertar os homens. porém. Desfalece a minha carne e o meu coração. 4. sobrevindo a chuva e o sol da graça de Deus. pelo qual nos seriam restituídos os bens perdidos? E não deve sublevar­se o velho Adão contra o novo. enxertado num salgueiro. plantas excluídas do paraíso de Deus. É coisa torpe e nefanda e sinal evidente de ingratidão estar sempre a apelar para a corrupção e dissimular a redenção. ele volta a aguçar­se de tal modo que David.html 59/357 . fora de ti. portanto. voltado para Deus. exceto tu? E. e até mesmo também a dignidade real. 13). nos proporcionou! Muito acertadamente.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .ebooksbrasil. podem de novo germinar. germine e frutifique. por obra do seu Espírito e com a intervenção de meios adequados. naqueles. prepara­se para a fazer desaparecer. De fato. logo a seguir à queda e à proclamação da nossa ruína (a pena de morte) não plantou imediatamente (com a promessa da semente bendita). 23). assim também. É. feitos já www. as quais. de pedras. novo Adão. que não é capaz de regressar à retidão com as suas próprias forças. Porventura o nosso Deus. em seu nome e no de todos os regenerados. porque Deus. rebentos de nova graça? Acaso não nos enviou o seu Filho. quando foi privado do sentido humano e provido de um coração bestial. impiamente que se procuram pretextos contra o exercício da piedade.org/eLibris/didaticamagna. 9). Que ninguém. 23. 11. lá no céu. o Apóstolo. 24). 3. e o rochedo do meu coração e a minha herança é Deus para sempre» (Salmo 72. nos nossos corações. 24 e 25). todavia. lhe foi deixada. 4. Se é possível que um garfo de árvore doméstica. logo que reconhecesse que o poder vem do céu (Daniel. se Deus. portanto. assim como a Nabucodonosor. nos oponha a corrupção. nada me deleita sobre a terra. pode fazer nascer filhos de Abraão (Mateus. num espinheiro ou em qualquer árvore brava. a nós. foram deixadas as raízes. Correr atrás daquilo que o velho Adão em nós deixou e não procurar aquilo que Cristo.

Precisamente por isto. digo. honesto e santo. 25. mas fostes santificados. Abstinhamo­nos de coarctar a graça de Deus. portanto. adotados de novo por Cristo e regenerados pelo Espírito da graça. mas fostes lavados. não somos aptos para as coisas do Reino de Deus. quando dizemos que os filhos dos cristãos (não a geração do velho Adão. o Apóstolo ousa afirmar: «E tais éreis alguns de vós. isto é. afirmou que «é delas o reino de Deus»?[18] Ou como é que no­las apresenta como modelo. 3). como é que então Cristo. Com efeito. os irmãos e as irmãs de Cristo) pedem para serem formados e estão aptos a receber as sementes da eternidade. os filhos de Deus. para toda a espécie de boas obras? A graça de Deus não se deve coarctar. www. 13 e ss. 6. e por aqueles que a esperam faz­se encontrar. 11). ela corre mesmo atrás de quem a pede. 18. assente que é mais natural e. sentada à sua porta» (Sabedoria. Como é que o Apóstolo proclama santos e nega que sejam impuros os filhos dos cristãos (mesmo quando só um deles pertence ao número dos fiéis)? (Coríntios. para que produzam frutos. com a nossa geração. 14). prestando paciente ouvido à cultura. qualquer coisa regressa facilmente à sua natureza. novamente plantados. Com efeito. mas fácil. I. pois Ele está pronto a infundi­la em nós liberalíssimamente. mas a geração regenerada pelo novo Adão.html 60/357 . não possa ser domesticado[19]. se querem entrar no reino dos céus?» (Mateus.). Pelo contrário. antes de ser conhecida. se nós. E é esta a advertência que nos faz a Escritura: «A sabedoria facilmente se deixa ver por aqueles que a amam.org/eLibris/didaticamagna. mas ajudamos os rebentos da árvore da vida. ordenando a todos que «se convertam e se façam como crianças. pois não procuramos obter frutos de uma oliveira brava.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . falando das criancinhas. 7. pelo Espírito do nosso Deus» (Coríntios. I. mas reconhecer com gratidão. 6. pela graça do Espírito Santo.COMENIUS filhos de Deus desde a criação. se nós.ebooksbrasil. até daqueles que já mergulharam na prática de vícios gravíssimos. Conclusão. sem fadiga. a quem pode parecer que isto seja impossível? A ninguém. que o homem se torne sábio. 24. do que a perversidade adventícia poder impedir o progresso. enxertados em Cristo por meio da fé e dados a Ele por meio do Espírito de adoção. Fique. E é conhecida a sentença do poeta venusino: Ninguém é tão selvagem que. mas fostes justificados em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Por exemplo: as pedras foram­nos dadas para www.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Efésios. Precisamente por isso. Aos homens e aos anjos basta aquele grau de excelência de haverem recebido a agudeza de inteligência. a divindade. Que o homem deve ser formado «ad humanitatem». sem princípio. 2. Por isso. 10. isto é. 1. contemplando. 20. mostra­se: 1.COMENIUS Capítulo VI O HOMEM TEM NECESSIDADE DE SER FORMADO. 22. I. com o exemplo das outras criaturas. mas nem ao homem nem ao anjo pode dar este saber. É inata no homem a aptidão para saber. Efetivamente. e não sem razão. por isso. 3. aprendendo. as quais se não tornam úteis ao homem. que o homem pode verdadeiramente ser homem. sem progresso. a não ser aquele que aprendeu a agir como homem. acerca dos anjos. Isto é evidente pelos exemplos de todas as criaturas. aprendem (Pedro. sem fim. é próprio de Deus saber tudo. e.ebooksbrasil. agindo. pois não pode tornar­se homem a não ser que se eduque. embora a isso destinadas. é experimental. 1. consta. que eles. Job. Reis. I. Ninguém acredite. isto é. a não ser depois de adaptadas pela nossa mão.html 61/357 . 12. aquele que foi formado naquelas virtudes que fazem o homem. a natureza dá as sementes do saber da honestidade e da religião. de igual modo que o nosso. o conhecimento deles. alguém definiu o homem um «animal educável». a virtude e a religião. pois não lhe podia dar a infinitude e a eternidade.org/eLibris/didaticamagna. 6). mas não o próprio saber. 1. Como vimos. portanto. se consideramos a ciência das coisas. mas náo dá propriamene o saber. com a qual podem indagar as obras de Deus e assim acumular para si um tesouro intelectual. 3. mediante um só e simples ato de intuição. estas adquirem­se orando. PARA QUE SE TORNE HOMEM As sementes não são ainda frutos.

Das plantas. para o homem. os frutos colhê­los. tanto no que diz respeito à essência como no que diz respeito às ações. a não ser depois de talhadas. parece que se bastem a si mesmos. as pérolas e as gemas. todavia. Com o exemplo do próprio homem. consta que não sabem tudo. de fato. as árvores é necessário plantá­las. não servem para isso. havia sido aberta. debulhar. os metais. Com efeito. todavia. se não são treinados para o exercício da sua função. uma escola. um falcão e um gavião de caça. se alguém se quer servir deles para o uso para que foram concedidos. fundidos e trabalhados a martelo de vários modos. cada um tem inata a aptidão para esse serviço determinado. Do mesmo modo. depurados. porém.. liquefeitos. é necessário que primeiro os submeta a exercícios. etc. um cavalo de batalha. muito mais é necessário agora. é feito para trabalhar. produzidos para usos notáveis da nossa vida. todavia. como notámos pouco atrás. um boi para carretos. uma vez que dotados de vida e de movimento.. já antes da queda. moer e pisar os cereais e as ervas. até acerca dos anjos. vemos. 5. raspadas e polidas pelos homens. bebidas e remédios. muros.ebooksbrasil. sem tudo isso. pouco a pouco. sachar. secá­los. colunas. muito vizinhos de Deus em perfeição. mas progridem gradualmente no conhecimento da admirável sabedoria de Deus. Os animais. depois da corrupção. porque é lei de todas as coisas criadas o começar do nada e elevar­se gradualmente. podá­las e estrumá­las. devem ser cortadas. ceifar. O homem.html 62/357 . etc. enquanto tem um corpo. devem ser cavados. 4..COMENIUS servirem para construir casas. ter a prerrogativa de se mostrar perfeita em si e por si? Não é possível.org/eLibris/didaticamagna.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . etc. portanto. extraímos alimentos. são para nós menos úteis que a lama. e. quanto às ações corpóreas. www. pois nesse caso é necessário prepará­las de muitíssimos outros modos. muito mais. a caminhar e a mover as mãos. se qualquer destas coisas deve servir para remédio ou para construir. era necessário exercitar o homem. a nossa mente. E porque já antes da queda. com efeito. Eis. no paraíso terrestre. a fim de que aprenda a fazer qualquer coisa. 3. sem uma preparação prévia. um burro de carga. Como pode. torres. de que é necessário semear. com a condição. que de inato ele não tem senão a simples aptidão. um cão de guarda ou de caça. destinadas a servirem de ornamentos humanos. valem bem pouco. mas. desbastadas e esquadriadas pelas nossas mãos. 2. É evidente também que. é necessário ensinar­lhe a estar sentado e a estar de pé. na qual ele ia.

nem entender.org/eLibris/didaticamagna. de novo. depois a manter­se direita sobre os pés e a caminhar www. 6. no estado de corrupção. pois se aquela desventurada fosse dotada de uma experiência mais rica.ebooksbrasil. Introduzido na sala do príncipe. O príncipe fê­lo alimentar entre homens. a tornar­se mansa. e foi esconder­se debaixo de um banco. Alguns anos depois. fazendo progressos. embora às duas primeiras criaturas. se alguém. não faltasse nem o movimento.COMENIUS pouco a pouco. torna­se evidente que não tinham conhecimento das coisas. devia estar a ser vítima de um engano. e. se perdeu. além disso. E. e finalmente enviado ao príncipe de Kassel. do colóquio de Eva com a serpente. aconteceu que um menino de três anos. nem o raciocínio. apenas criadas. nada mais sabiam que os brutos. mais ainda. mas é necessário edificar tudo a partir dos fundamentos. sem saber falar. quadrúpede. Aduzirei dois exemplos: por 1540. para se instruir. um animal de forma diferente. vivas e mortas). mas com face semelhante à do homem. nada conhecemos delas. com a língua. se devem agora aprender várias. nem a palavra. raptados na infância pelas feras e crescidos no meio delas[1]. porque as línguas vernáculas se tornaram mais complicadas. por isso. numa aldeia de Hessen. não teria admitido com tanta simplicidade quanto a serpente lhe disse. tenham sido conservados. entre os homens. Em conformidade com esta ordem. como. situada no meio de florestas. os camponeses viram correr. quando nascemos. a novidade se espalhou. Com efeito.html 63/357 . a pouco e pouco. sem saber fazer nada. foi apanhado e conduzido ao chefe da aldeia. durante algum tempo. Temos exemplos de alguns que. a não ser que. olhando com ar ameaçador e lançando terríveis uivos. é necessário aprendê­la. e assim a fera começou. isto consegue­se mais dificilmente do que se conseguiria no estado de perfeição. à força de se falar no caso.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . juntamente com os lobos. todavia. Com maior razão. o qual vem da experiência. com as mãos e com os pés. se poderá sustentar que agora. porque as coisas são para nós obscuras e as línguas confusas (de tal modo que. e que. por incúria dos pais. na verdade. fugiu. porque realmente vimos ao mundo com a mente nua como uma tábua rasa. pois teria então a certeza de que aquela criatura não podia ser dotada da capacidade de discorrer. E porque os exemplos mostram que o homem sem instrução não se torna mais que um bruto. não eram capazes de fazer nada de diverso daquilo que fazem os animais. o chefe daquela aldeia ordenou­lhes que vissem se havia maneira de o prender vivo. pôs­se a correr. se se quer saber alguma coisa. em vez de uma só. portanto. quer falar em várias línguas.

e. não recebe nenhuma ou a recebe falsa. quem poderá pôr em dúvida que os estúpidos tenham necessidade de instrução. Cap. aconteceu que alguns nobres.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . mas. porque a mente sutil. quanto mais fértil é. Levaram­no de cidade em cidade. nu. na realidade. se não for ocupada em coisas úteis. Tinha as unhas aduncas como uma águia. com um laço.ebooksbrasil. às austeridades da fome. Se agora lançarmos um olhar às diversas condições dos homens.COMENIUS como os bípedes. os estúpidos e os inteligentes. ela se gasta a si mesma e inutilmente se enche de poeira. em 1563. a não ser que nele se semeiem as sementes da sabedoria e da virtude. os inteligentes têm muito mais necessidade de instrução. mas emitia uma espécie de mugido grosseiro. Estes fatos demonstram em geral. uma pobre mulher reconheceu­o como sendo seu filho[4]. produzindo pó. verificamos o mesmo. E assim como. 7. se. e depois de haverem matado doze lobos. Dresser escreve esta história no livro De nova et antiqua disciplina[2] e recorda­a também Camerário nas suas Horas (t. Com efeito. nas Maravilhas do nosso século. finalmente a falar com inteligência e a agir como homem. acrescentando outra história parecida. tendo­se depois habituado a andar à caça com eles. E então. de pele amarelada e de cabeleira encrespada. acabaram por apanhar. de cerca de sete anos. 7)[3]. M. submetido. de que é feita a farinha. começou a amansar. se à mó que gira não é fornecido o grão. Goularte. Deste modo.html 64/357 . tanto mais produz espinhos e cardos. dentro de sete meses. conseguiu­se com grande dificuldade metê­lo a ferros. assim também o engenho perspicaz está sempre cheio de pensamentos frívolos. vemos que é verdadeiro aquilo que Platão deixou escrito (Leis. Conduzido a uma fortaleza. ocupar­se­á ela mesma em coisas inúteis. livro 6): o homem é um animal cheio de mansidão e de essência divina. assim como um campo. para o apresentar como espetáculo. um rapaz. não falava nenhuma língua. frívolas e perniciosas. contou que tinha sido raptado e alimentado pelos lobos. durante alguns dias. Finalmente. assim também o espírito ágil. para se libertarem da sua estupidez natural? Mas. I. se é tornado manso por meio de uma verdadeira. se permanece www. que a cultura é necessária a todos. quanto podia recordar­se. com estrépito e fragor e ainda com o esfarelamento e a ruptura das partes. a falar. Com efeito. o que era fonte de grandes receitas para os seus proprietários.org/eLibris/didaticamagna. Têm necessidade de ensino: 1. escreve que em França. educação. andando à caça. pelo contrário. de tal modo se tornara feroz. torna­se o mais feroz de todos os animais que a terra produz[5].

9. a trombeta. como os reis. Aqueles que. portanto. com uma sujeição asinina. nem troncos inertes. porque é necessário que sejam homens.ebooksbrasil. de prisões e de bastonadas. 2. 10. De modo semelhante. Daí se segue também que. o Sábio a concluir este capítulo: «Aquele que não faz caso nenhum da sabedoria e do ensino é um infeliz. 11). www. infrutuosas as suas fadigas e inúteis as suas obras» (Sabedoria. frívolas e nocivas. uma baínha de ouro com uma espada de chumbo?[6] 3.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . assente que a todos aqueles que nasceram homens é necessária a educação. Fique. 8. a ofensa redunda contra Deus que também neles depôs a sua imagem. os ricos e os pobres. como disse alguém. que é senão um papagaio de plumagem brilhante ou. as suas esperanças são vãs (ou seja. não animais ferozes.org/eLibris/didaticamagna. alguma vez. também os súditos devem ser esclarecidos. e as coisas humanas estarão cheias. Se se procede de modo diverso. sem nenhuma exceção. de violências e de inquietação. Seja. a criatura racional não deve ser conduzida por meio de gritos.COMENIUS privado de trabalhos sérios. os párocos e os doutores da Igreja devem embeber­se de sabedoria tão necessariamente como o guia dos viajantes deve ter olhos. por amor da ordem. mais se eleva acima dos outros. para que saibam obedecer prudentemente àqueles que governam sabiamente: não coagidamente. como de fato estão. Todos. mas voluntariamente. som e a espada. quanto mais alguém é educado. Com efeito. espera em vão conseguir o seu fim). 3. e será a causa da sua própria ruína. o intérprete deve ter língua.html 65/357 . gume. Que são os ricos sem sabedoria senão porcos engordados com farelo? Que são os pobres sem compreensão das coisas senão burros condenados a transportar a carga? Um homem formoso privado de cultura. mas pela razão. aqueles que deverão ser postos à cabeça dos outros e aqueles que deverão ser súditos. portanto. deverão ser postos à cabeça dos outros. mergulha inteiramente em coisas vãs. os príncipes. portanto. os magistrados. nem animais brutos.

assim também a alma. assim como no útero da mãe o corpo do homem se forma. a incerteza da vida presente. da honestidade e da piedade. necessariamente ficará sem ele durante toda a vida. Agora importa demonstrar que esta plantação deve ser feita enquanto as plantas são novas. é evidente que é semelhante a condição do homem e a da árvore. as razões fundamentais desta necessidade são seis. durante ele.COMENIUS Capítulo VII A FORMAÇÃO DO HOMEM FAZ­SE COM MUITA FACILIDADE NA PRIMEIRA IDADE. E NÃO PODE FAZER­SE SENÃO NESSA IDADE O modo de desenvolver­se do homem é semelhante ao da planta. se algum de lá sai com qualquer membro a menos. e para dar frutos bons e doces tem necessariamente que ser plantada. cresce com feições humanas (como também qualquer animal bruto cresce com as suas feições próprias). Quanto aos homens. A formação do homem deve começar com a primeira idade: 1. uma vez saído do corpo. Uma vez que. por virtude própria. O perigo de alguém ser surpreendido impreparado é tão grave que não se pode afastar. sendo brava. regada e podada por um agricultor perito. mas é incerto onde e quando. uma pereira. se primeiramente nele se não plantam os gérmens da sabedoria. o homem ganhe ou perca para sempre a graça de Deus. Efetivamente. Efetivamente.html 66/357 . da mesma maneira que uma árvore de fruto (uma macieira. sábio. mas não pode crescer animal racional.org/eLibris/didaticamagna. se algum não consegue adquiri­la neste mundo. da qual é certo que se tem de sair. já lhe não resta nem lugar nem tempo para fazer tal aquisição. honesto e piedoso. de tal maneira se forma para o conhecimento e para a participação de Deus. uma videira) pode crescer por si e por sua própria virtude. por causa da incerteza da vida presente. se www. de tal maneira que. enquanto vivemos no corpo. 1. Do que foi dito. Com efeito. produz frutos bravos.ebooksbrasil. uma figueira. o tempo presente foi concedido para que. assim também o homem. 2.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . mas. Em primeiro lugar. portanto. que.

todavia. antes de o haver conduzido ao fim. de tal maneira que se a alguém fosse concedida uma vida tão longa como a Nestor. todas as coisas formam­se muito mais facilmente. já não obedecem. pois não deve passar­se a vida a aprender. Assim. é infinita a multidão das coisas que o Criador das mesmas coisas fez objeto de especulação agradável. experimentar e executar muitas coisas. dobrar para aqui ou para ali. nascem no devido tempo os pintainhos. e a bruxa ensina a pega. se poderem facilmente dobrar e formar. ele deve conhecer. mas. o corvo. deve tomar um ramo verde e novo. o caçador o cão e o falcão a trabalhar (assim como o homem de circo ensina o urso a bailar. antes de começar a fazê­lo. quem quer fazer um vencelho. uma vez endurecidas. Uma arvorezinha deixa­se plantar. seco e nodoso. mas escolhem aqueles que são muito novos. mas uma árvore já crescida de modo algum.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . enquanto são tenras. Convém. para que se não seja surpreendido pela morte. 3. perdem o tempo. 3. chocados.ebooksbrasil. instruir­se. podar. endurecida. para que seja instruído naquilo que deve fazer nesta vida. O carroceiro ensina o cavalo. www. de ovos ressessos. pois não pode ser torcido um que seja velho. durante toda a sua vida. o lavrador o boi. se tomam os que são já velhos. teria sempre em que a empregar de modo muito útil. transplantar. enquanto são tenras. 2. antes de termos aprendido o que devemos fazer. A cera mole deixa­se amassar e modelar. mas a fazer. Deve. De ovos frescos. portanto. É uma propriedade de todas as coisas que nascem o fato de. o mais cedo possível. começar­se a formação muito cedo. convém fazê­ lo o mais depressa possível. 4. deve. e adquirindo com eles apoios para a vida eterna. em vão se esperariam.html 67/357 . quebra mais facilmente. a fim de não sermos obrigados a partir.COMENIUS trata aqui de um negócio de tão grande importância. mas. naquilo que deve fazer­se nesta vida. investigando os tesouros da sabedoria divina espalhados por toda a parte. os quais. e o papagaio a falar). desde cedo.org/eLibris/didaticamagna. portanto. Mas. Mesmo que fosse do agrado de alguém passar toda a vida a aprender. mesmo que a morte não esteja iminente e se esteja seguro de uma vida muito longa. abrir­se os sentidos do homem para a observação das coisas. pois. pois. Também o homem.

ela forma corpos maiores. fosse apto apenas para a sua formação. 4. de outro modo.org/eLibris/didaticamagna. mas depois. da mesma maneira. enquanto a imaginação é ágil e os dedos flexíveis. permitiu passar o seu tempo ao acaso? Ou pensaremos que. o homem. nos primeiros anos. 36[2]. 6. sendo inábil para outras coisas. a seguinte afirmação de Cícero: «as crianças apreendem rapidamente inúmeras coisas»[1]. ferreiro. Não resta. de tal modo que nele mais dificilmente se imprimem ou esculpem as coisas. Se algum. que o cavalo. enquanto o seu ardor é vivo. relativamente ao homem. estes resultados obtêm­se. o boi. importa abrir­lhe os sentidos para todas as coisas. Assim também as nossas mãos e os nossos outros membros não podem exercitar­se nas artes e nos ofícios senão nos anos da infância. Deus fixou uma medida. com ânimo www. portanto. recebendo as imagens das coisas que lhe são transmitidas pelos sentidos). com efeito. só o consegue em vinte ou trinta anos. deve aplicar­se ao seu ofício desde os primeiros anos. a fim de que mais facilmente possa realizar a sua formação? Ora. escreve Sêneca.. É certo. o engenho rápido e a memória tenaz.ebooksbrasil. Evidentemente. porém. certamente despertará admiração. Deus tenha concedido à natureza a graça de proceder a passo lento. pouco a pouco. atingem uma estatura perfeita. na Carta. Ao homem foi dado um longo espaço de tempo para se formar. nunca fará nada de bom. como a experiência demonstra. em que os nervos estão tenros. nenhuma outra hipótese senão que o nosso Criador.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . porém. senhor das coisas. como atras dissemos. no homem cujo cerebro (que. se se deseja que alguém se torne um modelo de apurada moralidade. de qualquer tamanho. se se quer que a piedade lance raízes no coração de alguém. só ao homem. alfaiate. é semelhante à cera. em alguns meses.html 68/357 . a quem deve fazer grandes progressos no estudo da sabedoria. De modo semelhante. em um ano ou dois. seca e endurece. ao velho realizar­ se». portanto.COMENIUS 5. pintor. importa plantá­la nos primeiros anos. Daqui. o elefante e todos os outros animais. Se alguém quer vir a ser bom escrivão. sem nenhuma fadiga. é inteiramente húmido e mole e apto a receber todas as figuras que se lhe apresentam. Para que o homem pudesse formar­se «ad humanitatem». músico. na idade infantil. A todas as outras coisas. etc. «É coisa torpe e ridícula um velho sentado nos bancos da escola primária: ao jovem compete preparar­se. julgar ter chegado a essa estatura perfeita por um mero acaso ou devido a quaisquer causas segundas. Deus concedeu­lhe os anos da juventude. é necessário habituá­lo aos bons costumes desde tenra idade. durante os quais. o qual não deve ser gasto noutras coisas.

5. o que é evidente pelos mesmos exemplos. que depois é impossível ou muito difícil desaprender. Com efeito. Não educar bem é uma coisa sumamente perigosa. 6. as primeiras impressões estampam­se de tal maneira que é um autêntico milagre fazê­las tomar nova forma. Do mesmo modo.COMENIUS deliberado. durante tanto tempo. o mundo está cheio de enormidades. porque a alma humana. até que se quebre. de se ocupar em coisas vãs de toda a espécie. enquanto se não trabalhar seriamente para estancar as primeiras fontes do mal. no homem. na medida em que a cada um interessa a salvação www. dos preceitos salutares à vida. enquanto a não cortarem. estendeu os ramos para cima ou para baixo. A lã conserva tão tenazmente a primeira cor de que se embebeu que não há perigo de que desbote. para este ou para aquele lado. 8.html 69/357 . No homem. se dignou conceder­nos a graça de retardar o nosso desenvolvimento. fazem­se mais facilmente em mil pedaços do que voltam a ficar direitos. para fazer cessar as quais não bastam nem os magistrados políticos nem os ministros da Igreja. Uma árvore. apenas os sentidos externos começam a desempenhar o seu papel.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . é de aconselhar que elas sejam modeladas logo nos primeiros anos da vida. como advertimos já. Portanto. Por isso. para que. e até (dados os maus exemplos do nosso século corrupto) também em coisas prejudiciais. 7. de modo algum pode estar quieta. Permanece firme somente aquilo de que se embebe a primeira idade. 9. é uma coisa sumamente perigosa não embeber o homem. nos tornássemos mais hábeis nesses assuntos.ebooksbrasil. se não está já ocupada em coisas úteis. e tornar­nos. assim os mantém durante cem anos. da maneira como. também já não pode abster­se. Finalmente. ainda tenrinha. por isso. durante o restante tempo da vida (e também na eternidade). Conclusão. só é firme e estável aquilo de que se embebe a primeira idade.org/eLibris/didaticamagna. para que fosse mais longo o espaço de tempo para nos dedicarmos ao estudo. depois de endurecidos. logo desde os primeiros anos. Os arcos de uma roda. o odor daquilo com que foi enchido quando era novo[3]. Um vaso de barro conserva. segundo as verdadeiras normas da sabedoria. inábeis para os negócios econômicos e políticos.

www.COMENIUS dos seus próprios filhos. e àqueles que presidem às coisas humanas. as plantazinhas do céu comecem a ser plantadas. interessa a salvação do gênero humano.org/eLibris/didaticamagna.ebooksbrasil. para alcançarem eficazes progressos nos estudos.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . podadas e regadas. e a ser prudentemente formadas. no governo político e eclesiástico. nos costumes e na piedade. desde cedo.html 70/357 . apressem­se a providenciar para que.

todavia. assim como foram os autores da vida. mestres.org/eLibris/didaticamagna.COMENIUS Capítulo VIII É NECESSÁRIO. 7). Que para Abraão isso fosse uma obrigação solene. ginásios.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . os locais destinados a esses exercícios comuns recebem o nome de escolas. 18. em conjunto. tenham tempo suficiente para se dedicarem a educação de seus filhos. mas precisam de cuidados. auditórios. depois dele. de tal maneira que. em geral. não podem crescer à maneira de uma selva. porque. www. ou seja.html 71/357 . Naturalíssimamente. por salutar conselho[1]. vejamos agora a quem incumbe esses cuidados.ebooksbrasil. Todavia. Demonstrado que as plantazinhas do paraíso. isso compete aos pais. quando fores para a cama e quando te levantares» (Deuteronômio. academias. os professores das escolas. A mesma coisa exige Deus dos pais. se introduziu o costume de muitos. São­lhes dados. 6. sejam também os autores de uma vida racional. 6. institutos. 2. etc. colégios. não provoqueis à ira os vossos filhos. como auxiliares. ou saibam. notáveis pela sua inteligência e pela pureza dos seus costumes. a juventude cristã. FORMAR A JUVENTUDE E ABRIR ESCOLAS O cuidado dos filhos diz respeito propriamente aos pais. mas educai­os na disciplina e nas instruções do Senhor» (Efésios. tendo­se multiplicado tanto os homens como os afazeres humanos. desde há muito. e que pratiquem a equidade e a justiça» (Gênesis. 19). AO MESMO TEMPO. ou possam. pais. ou pelas muitas ocupações. 1. atesta­o Deus: «Porque eu sei que há­de ordenar a seus filhos e à sua casa. A esses formadores da juventude. ao ordenar: «Esforçar­te­ás por ensinar aos teus filhos as minhas palavras e falar­lhes­ás delas quando estiveres sentado em tua casa e quando andares pelos caminhos. conconfiarem a educação de seus filhos a pessoas escolhidas. que guardem os caminhos do Senhor. é costume dar o nome de preceptores. 4). honesta e santa. E pela boca do Apóstolo: «Vós. mestres­escola e professores. são raros os pais que.

html 72/357 . havia numerosas escolas. em todas as cidades foram construídas escolas. as quais duraram até ao tempo de Cristo. Dos egípcios. a fim de que em toda e qualquer comunidade de homens bem ordenada (quer seja cidade. finalmente. José atesta[2] que o primeiro a abrir escola. tornando­se célebres pela pregação d’Ele e dos Apóstolos. os romanos receberam o costume de fundar escolas. com efeito: 1. príncipes e governadores de cidades. o decoro da ordem que deve ser observada por toda a parte. porque não há­de fazer o mesmo no nosso caso? Na verdade. imediatamente a seguir ao Dilúvio. No povo de Israel. 22). ao taberneiro.COMENIUS Origem e desenvolvimento das escolas. onde se cultivavam tanto outras ciências e artes como a astronomia? É sabido. quando tem necessidade de carne. onde os levitas ensinavam a Lei. ao carniceiro. interessa a toda a Cristandade.ebooksbrasil. devem ser abertas escolas por toda a parte. mas até aumentar. após a propagação da religião de Cristo. Seguiram o seu exemplo outros imperadores cristãos. quando tem necessidade de um fato. se construa uma escola para a educação comum da juventude. ou vila ou aldeia). 20). E quem não sabe que na Caldéia. e de tal modo aumentaram o número das escolas que estas se tornaram inumeráveis. não apenas manter. foi o patriarca Sem. e destes. 4. Exige­o. Acerca de Carlos Magno. 7. se um pai de família não tem disponibilidade para fazer tudo o que a administração dos negócios domésticos exige. logo lhe enviava bispos e professores.org/eLibris/didaticamagna. ao alfaiate. onde foi educado Moisés (Atos dos Apóstolos. espalhou­se o louvável costume de abrir escolas por todo o Império. atesta a história que. quando ele tem necessidade de farinha. com efeito. depois (no tempo de Nabucodonosor). principalmente. 5. pela solicitude fiel de príncipes e bispos piedosos. mas se serve de vários empregados. principalmente na Babilônia.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . os gregos. que. 1. Explica­se que. Havia­as também no Egito. Com efeito. chamadas sinagogas. reis. a partir dos romanos. quando tem necessidade de www. a qual depois foi chamada escola judaica. A ordem louvável das coisas. à medida que ia submetendo cada povo pagão. dirige­se ao moleiro. Que este santo costume se deve. por ordem de Deus. e erigia templos e escolas. nessa sabedoria dos Caldeus foram instruídos Daniel e os seus companheiros (Daniel. 3. quando tem necessidade de bebidas.

imitá­los­á. Porque.COMENIUS calçado. ir onde vemos ir os outros. 6. 4. sem dúvida. tanto melhor corre o forte cavalo. seria. os seus porcos e as suas vacas. uma só pessoa pode servir utilmente a muitas. Aberto o curral. Finalmente. mas contratam pastores assalariados que servem ao mesmo tempo a todos. com menos distrações. com efeito. e para convocar o povo e para o informar acerca das coisas necessárias. etc. dirige­se ao marceneiro. mesmo que lho não ordenem. Na verdade. e muitas podem servir a uma só. de uma relha do arado. num grupo maior. se se lhe mostra os outros a fazer alguma coisa. E mesmo que não faltassem pais a quem fosse possível dedicar­ se inteiramente à educação dos seus filhos. daí se segue como conseqüência que deve haver pessoas que façam apenas isso como profissão e desse modo sirvam a toda a comunidade. quando tem necessidade de uma casa. temos os tribunais e os parlamentos. pouco se interessará. aos seus outros negócios.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . etc. ao ferreiro. para discutir as causas em litígio. nem sequer os camponeses apascentam. ao sapateiro. dedicando­se eles. 2. Com efeito. a idade infantil conduz­se e governa­se muito melhor com exemplos que com regras. porque. quando uma só pessoa faz uma só coisa. sem ser distraída por outras coisas. porque não havemos de ter escolas para a juventude? Além disso. todavia. com efeito. por toda a parte. ao pedreiro. a necessidade. deste modo. há uma grande economia de fadiga e de tempo. seguir os que vão à frente e ir à frente dos que vêm atrás.. Uma vez que.org/eLibris/didaticamagna.html 73/357 . cada um por si. de um prego. é naturalíssimo fazer o que fazem os outros. Além disso. o exemplo de www. a utilidade. o fruto e o prazer do trabalho é maior. a natureza dá­nos. Em segundo lugar. a necessidade. quando uns recebem exemplo e incitamento de outros. raramente os pais estão preparados para educar bem os filhos. 7. entretanto. 3. para instruir os adultos na religião. Se se lhe ordena alguma coisa. quanto tem a quem passar à frente e a quem seguir[3].ebooksbrasil. muito melhor educar a juventude em conjunto. os exemplos constantes da natureza 8. temos os templos. ou raramente dispõem de tempo para isso.

Assim. não se há­de crer que. em geral. quem se ocupa em multiplicar os peixes para uso da cozinha. os templos a piedade. Assim. Porque é que. girando pelas florestas e pelos pinhais. e da arte 9. nascem em grupos. Ora. os quais. todas as vezes que se procede racionalmente. e quanto maior é o viveiro. portanto. É certo que o sivicultor. fazem­nos fermentar. enquanto que as outras espécies de árvores nela se não desenvolvem igualmente bem. que são como que oficinas destinadas a esse trabalho. Do mesmo modo. assim como se devem fazer viveiros para os peixes e plantações para as plantas. Todavia. com a mesma abundância. constrói um viveiro.ebooksbrasil.. E quanto maior é a plantação. para utilidade de todo o corpo. a terra que produz ouro. mas há determinados membros. onde os faz multiplicar. o estômago forma o quilo. os metais nas profundidades da terra. Finalmente. as ervas nos campos. as árvores nas florestas. assim também as escolas produzem. tanto maiores se tornam os peixes. o coração o espírito vital. assim se devem construir escolas para a juventude. do mesmo modo que as oficinas reforçam e regulam os trabalhos. já preparados. distribuem o alimento assim preparado pelos outros membros. depuram e multiplicam a luz da sabedoria e a distribuem a todo o corpo da comunidade humana? 5. não produz. os quais. nas coisas artificiais. produ­los abundantemente. aquilo que queremos dizer encontra­se ainda mais bem expresso no nosso corpo. www. recebem os alimentos. etc. E isso de tal maneira que.org/eLibris/didaticamagna. os peixes nas águas.COMENIUS que aquelas coisas que devem crescer abundantemente devem ser criadas em um só lugar. observamos o mesmo. onde é necessário que cada membro receba uma parte do alimento que se toma. digerem­nos e. e todavia não se dá a cada um a sua porção ainda crua para que a prepare e adapte a si. todos juntos. os tribunais a justiça. o fígado o sangue. e o cérebro o espírito animal.html 74/357 . aos milhares. mas arranca­os e transporta­os para um viveiro e trata­os juntamente com centenas de outros. tanto melhor costumam crescer as plantas. a floresta que produz pinheiros ou cedros ou carvalhos. finalmente. os outros metais.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . não planta os mergulhões por toda a parte onde os encontra próprios para a plantação. difundem­se facilmente por todos os membros e conservam agradavelmente a vida em todo o corpo.

ou seja. Que. 1. mas também ao próprio Deus. Imitemos. por isso. que. nasceram para o mesmo fim principal. o sol celeste.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . para que tudo o que pode viver. porém. devem ser encaminhados de modo que. ricos e pobres. aldeias e casais isolados. demonstram­no as razões seguintes: 1. rapazes e raparigas. floresça e frutifique. de condição baixíssima e obscurantíssima. todos aqueles que nasceram homens. amamos tanto mais.html 75/357 . perante Deus. se nós admitimos à cultura do espírito apenas alguns. Por que todos devem ser reformados à imagem de Deus. Todos. em todas as cidades.ebooksbrasil. É certo. criatura racional. E isso será feito com tanto mais fervor. mas todos por igual. Deus constitui órgãos excelentes da sua glória. não há pessoas privilegiadas. Que devem ser enviados às escolas não apenas os filhos dos ricos ou dos cidadãos principais. florir e frutificar. embebidos seriamente do saber. que ilumina.COMENIUS Capítulo IX TODA A JUVENTUDE DE AMBOS OS SEXOS DEVE SER ENVIADA ÀS ESCOLAS As escolas devem ser asilos comuns da juventude. Portanto. por isso. verdeje. excluíndo os outros. passem utilmente a vida presente e se preparem dignamente para a futura. imagem verdadeira do seu Criador. porque não nos é evidente para que coisa nos destinou a divina providência. 3. quanto mais acesa estiver a luz do conhecimento: ou seja. não só aos que participam conosco da mesma natureza. 2. Todos se devem preparar para os ofícios da sua futura vocacão. Em primeiro lugar. aquece e vivifica toda a terra. 2. nobres e plebeus. verdejar. por vezes. quanto mais conhecemos[2]. amado e louvado por todos aqueles em quem imprimiu a sua imagem. de pessoas paupérrimas. Em segundo lugar. senhora das outras criaturas. Ele próprio o afirma constantemente[1]. viva. www. da virtude e da religião. para serem homens. fazemos injúria.org/eLibris/didaticamagna. que quer ser conhecido.

e um outro. que não existia em vão.COMENIUS 3. da mesma maneira que alguém.html 76/357 . Com www. mas depressa se esgotam e acabam por se tornar obtusas. depois de terem seguido o curso dos estudos. que certos indivíduos. não apenas árvores que produzem frutos precoces. E isto é tão verdadeiro que um poeta afirmou: «O trabalho obstinado vence tudo»[3]. e outras a princípio são rudes. Não pode aduzir­se nem sequer um motivo válido pelo qual o sexo fraco (para que acerca deste assunto diga particularmente alguma coisa) deva ser excluído dos estudos (quer estes se ministrem em latim. assim também os débeis e os estúpidos. pois isso ainda mais recomenda e torna mais urgente esta universal cultura dos espíritos. por natureza muito lentos. todavia. acaba por mostrar. mais brandos nos costumes. na infância. todavia. e depois adquire força e cresce robusto. a que a cultura não possa trazer alguma melhoria. Não deve fazer­nos obstáculo o fato de vermos que alguns são rudes e estúpidos por natureza. 4. quer se ministrem na língua maternal. Certamente. quanto possível. passaram à frente de outros mais bem dotados.ebooksbrasil.org/eLibris/didaticamagna. e frutos serôdios. torna­se mais liso e mais limpo. porque cada coisa é boa no seu tempo (como diz algures o Eclesiástico)[4] e. então. Porque é que. é de constituição doentia. seja excluído. Consta. ou seja. por conseguinte. ao contrário. Além disso. Deve admitir­se nos estudos também o sexo frágil? Sim. de tal maneira que algumas são precoces. da mesma maneira que um vaso esburacado. pela experiência. muitas vezes lavado. mas depois tornam­se finas e muito penetrantes. de modo a saberem obedecer às autoridades políticas e aos ministros da Igreja. embora tarde. no jardim das letras. gostamos de ter nos pomares. tornam­se. e depois se torna enfermiço e emagrece.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . em determinada altura. mas também árvores que produzem frutos de meia estação. Além disso. Com efeito. Alguns sobretudo (os estúpidos e os débeis por natureza) devem ser muito ajudados. em jovem. a não ser a quem Deus negou a sensibilidade e a inteligência. de resto. embora não conserve nenhuma gota de água. mesmo que nos estudos não façam nenhum progresso. Não é possível encontrar um espírito tão infeliz. 5. para que. é belo e forte de corpo. apenas queremos tolerar as inteligências de uma só espécie. se liberte da sua debilidade e da sua estupidez brutal. tanto mais tem necessidade de ser ajudado. quanto mais alguém é de natureza lenta ou rude. assim também se verifica com as inteligências. as precoces e ágeis? Ninguém.

as havíamos de admitir ao abc e depois as havíamos de afastar do estudo dos livros? Temos medo que cometam temeridades? Mas quanto mais lhes tivermos ocupado o pensamento. dos filhos e www. igualmente para elas está aberto o caminho dos ofícios elevados. diz Hipólito: Odeio a mulher erudita. com o verdadeiro conhecimento de Deus e das suas obras.COMENIUS efeito. Estas afirmações. ou com as de Juvenal. em Euripedes. uma vez que. me objete com as palavras do Apóstolo: «Não permito à mulher que ensine» (Timóteo. mas livros nos quais possam haurir constantemente. nada obstam ao nosso conselho. Com efeito.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . não para a curiosidade. verdadeiras virtudes e a verdadeira piedade. ou com aquilo que. freqüentemente. a do marido. as mulheres são igualmente imagens de Deus. com que precaução? 6.org/eLibris/didaticamagna. então. a qual. para pronunciar profecias e exprobar sacerdotes e bispos. Vênus inspira maior astúcia às mulheres eruditas[6]. são chamadas pelo próprio Deus para o governo dos povos.html 77/357 . mas para a honestidade e para a beatitude. Ninguém. este mal não tenha sido evitado com maior precaução). normalmente. Rebate­se uma objeção. na Sátira 6: Que a mulher que se deita juntamente contigo não tenha a mania de falar ou de enrolar frases para construir entimemas. igualmente participantes da graça e do reino dos céus. 12). portanto. repito. sendo deplorável que. Porque é que. até aqui.ebooksbrasil. 2. tanto menor lugar encontrará a temeridade. pois é nossa opinião que as mulheres sejam instruídas. Todavia. Todavia. 7. I. para exercer a medicina e outras artes salutares ao gênero humano. igualmente dotadas de uma mente ágil e capaz de aprender a sabedoria (muitas vezes até mais que o nosso sexo). nem saiba todas as histórias[5]. para dar salutares conselhos a reis e a príncipes. Sobretudo naquelas coisas que a elas importa saber e que podem contribuir quer para administrar dignamente a vida familiar. para que em minha casa nunca se encontre uma que saiba mais do que convém saber a uma mulher. de tal maneira que lhes não seja dado como alimento toda a espécie de livros (do mesmo modo que à juventude de outro sexo. quer para promover a sua própria salvação. é originada pela desocupação da mente.

7/8/13 DIDACTICA MAGNA . muito doces. aprenderão a passar com maior alegria esta vida de misérias e a esperar.html 78/357 . atraiem quem já os saboreou). todos se deleitarão. E. Se alguém disser: onde iremos nós parar. matéria de bons pensamentos. se os operários. os moços de fretes e finalmente até as mulheres se entregarem aos estudos? Respondo: acontecerá que. de boas inspirações e também de boas obras.ebooksbrasil. Outra objeção. a vida eterna. causa de pecados carnais e de delitos de sangue. Além disso. aprenderão a ver Deus por toda a parte. a aproximar­se dele por toda a parte.org/eLibris/didaticamagna. meditando nas palavras e nas obras de Deus. lendo freqüentemente a Bíblia e outros bons livros (e estes prazeres. tal como é possível tê­lo na terra? www. a ninguém faltará. os agricultores. deste modo. 8. Acaso não é verdade que semelhante estado da Igreja representaria para nós o paraíso. de bons desejos.COMENIUS de toda a família. daí em diante. para que diga tudo de uma só vez. e evitarão o ócio. a louvá­lo por toda a parte. com maior desejo e maior esperança. por que caminhos devem andar e de que modo cada um há­ de ocupar o seu lugar. se esta educação universal da juventude for devidamente continuada. e. mesmo no meio dos trabalhos e das fadigas. E todos saberão para onde devem dirigir todos os atos e desejos da vida.

pela brevidade da nossa vida. de sua natureza. com Arquimedes na mecânica. 2. pelo benéfico efeito das www. para que viesse a ser um perfeito ciceroniano)[3]. e. Vemos. aquelas coisas que dizem respeito à cultura do homem todo. não somente para que façamos de espectadores. na astronomia. por exemplo. Importa agora demonstrar que. mesmo de inteligências grandemente dotadas que acaso queiram dedicar­se à teoria e à prática. se deve ensinar e aprender? 1. se deve ensinar tudo a todos. tender­se inteiramente e sem exceção para que. que exijamos a todos o conhecimento de todas as ciências e de todas as artes (sobretudo se se trata de um conhecimento exato e profundo). etc. com Agrícola na mineralogia[2]. sem cair em erros nocivos.org/eLibris/didaticamagna. e ainda na agricultura ou na sivicultura. Isto não quer dizer. Pretendemos apenas que se ensine a todos a conhecer os fundamentos. A FORMAÇÃO DEVE SER UNIVERSAL Que se entende por aquele «tudo» que. com efeito. se não possa servir prudentemente para um determinado uso. na geometria. Ou seja. é útil. surja qualquer coisa que lhe seja de tal modo desconhecida que sobre ela não possa dar modestamente o seu juízo e dela.) que pode preencher toda a vida. as razões e os objetivos de todas as coisas principais. nem. com Longólio na retórica (o qual se ocupou de uma só coisa. Deve.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .COMENIUS Capítulo X NAS ESCOLAS. nas ciências físicas e naturais. Deve. nas escolas. etc. das que existem na natureza como das que se fabricam.html 79/357 . na matemática. mas também de atores. que cada ciência se alarga tão amplamente e tão sutilmente (pense­se.ebooksbrasil. nas escolas. todavia. nem. providenciar­se e fazer­se um esforço para que a ninguém. pois somos colocados no mundo. enquanto está neste mundo. portanto. nas escolas. isso. Com efeito. portanto. é possível a qualquer dos homens. como aconteceu com Pitágoras na matemática[1]. conseqüentemente.

se oferecem à sua observação. se preste sinceramente culto a Deus. para que os homens se tornem verdadeiramente homens. Homem­Deus <grego>. criatura senhora das outras criaturas (e também de si mesma). a moralidade e a www. Se o homem deve ser semelhante a estas coisas. II. estas três coisas deverão ser implantadas em todas as escolas para benefício de toda a juventude. com mão liberal. As próprias coisas. como.html 80/357 . neste maravilhoso anfiteatro. IV. não podem ser divididas senão em três espécies. enfim. O que demonstrarei. em verdade. Ciência. 3. III. tanto para conhecer as coisas. Por conseguinte. se cultivem as inteligências com as ciências e com as artes. que. 5. contribuindo. para gozar daquelas que. como o céu e a terra e as coisas que neles existem. a nós mesmos. a partir da essência da nossa alma. a Cristo. prudência. Na verdade: algumas são apenas objeto de observação. indo buscar o fundamento de meu raciocinio: I. outras são objeto de imitação. enquanto nos dizem respeito. a partir da coerência das próprias coisas. Efetivamente. 2. se formem os costumes para toda a espécie de honestidade. II. modelo perfeitíssimo da nossa perfeição. prova­se: 4. às coisas que neste mundo nos rodeiam. como a ordem admirável espalhada por toda a parte. são objeto de fruição. se aperfeiçoem as línguas. III. durante toda a vida: I. importa necessariamente que se prepare. convém a instrução. 1. como para fazer aquelas coisas que se lhe ordena que faça.ebooksbrasil. depreendemos igualmente que a todos. outras. neste mundo e para sempre.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . o benigníssimo Criador lhe oferece (como a um hóspede que esteja em sua casa) para sua fruição. isto é (tendo em vista os objetivos atrás estabelecidos): I. 6. a qual o homem tem obrigação de exprimir também nas suas obras. prudentes nas ações e piedosos no coração. Se nos observarmos a nós mesmos. finalmente. criatura racional.org/eLibris/didaticamagna. III. II. por igual. criatura delícia do seu Criador. como o favor da divindade e a sua multíplice benção. Que estas coisas se não devem separar.COMENIUS escolas. disse uma palavra de sábio aquele que afirmou que as escolas são oficinas de humanidade[4]. O que acontecerá se as escolas se esforçarem por produzir homens sábios na mente. piedade.

mas também o nosso saber e os nossos costumes devem servir para louvor de Deus. e para gozar o prazer emanante de Deus. Se agora considerarmos porque é que fomos colocados no mundo. chama­se também consciência. mas também o nosso saber e a nossa piedade devem servir para utilidade do próximo. a vontade dirige­se à escolha das coisas. a escolher as que são boas e a rejeitar as que são prejudiciais.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . por sua vez.ebooksbrasil. A inteligência alarga­se a observar as diferenças das coisas (até às mais pequenas minúcias). assim como aquelas três faculdades (a inteligência. a memória. ao próximo e a nós mesmos. para uso futuro. em relação ao próximo. uma vez que constituem uma mesma alma. ou seja. não devem separar­se. assim também aqueles três ornamentos da alma. é necessário que tenhamos.html 81/357 . piedade. porém. 7. sob este aspecto. honestidade. Ora. a virtude e a piedade. 1. assim também não só os nossos costumes. em relação a Deus. não podem separar­se. e a consciência refira tudo avidamente a Deus. de modo que a inteligência penetre profundamente. para que estas três faculdades possam cumprir bem a sua missão. ciência. 9. E a partir do fim da nossa missão no mundo. as coisas de que. Para que sirvamos a Deus. retém. do mesmo modo que o homem deve ser. Se queremos servir a Deus. e lembra à alma a sua origem (deriva de Deus) e a sua missão. de tal maneira ligadas que. ao próximo e a nós mesmos. não só prudente. vontade e memória. dirijam a vontade e estimulem a consciência. às criaturas e a nós mesmos. se ocuparam a inteligência e a vontade. Estas coisas estão. de novo se tornará evidente que as finalidades são três: para servir a Deus. 8. Ora. alguma vez.org/eLibris/didaticamagna. quer a finalidade para que fomos criados e postos no mundo. para consigo mesmo.COMENIUS piedade. a vontade escolha sem erro. das criaturas e de nós mesmos. A essência da alma é constituída por três faculdades (as quais refletem a Trindade incriada): inteligência. é necessário instruí­las perfeitamente em coisas que iluminem a inteligência. e não somente a nossa piedade. Para que gozemos um tríplice prazer permanente: www. 3. a vontade e a consciência). mas também morigerado e piedoso. quer observemos a essência da nossa alma. a instrução. e em relação a nós mesmos.

14. uma vez que não é senão o vigor da saúde. e. sentindo que Deus lhe é eternamente propício. uma vez que o homem.html 82/357 . e já não sabe nem fazer nem desejar www. exulta de tal maneira no seu paternal e imutável favor. b) de nós mesmos. E um sábio pagão escreveu: <grego>: «Na vida. É precisamente o que afirma o livro da sabedoria: «Conservar a sabedoria não produz amargura e conviver com ela não produz tédio. vemos que Deus afirmou na criação que o homem é destinado a gozá­lo. não o do corpo (embora também este. Esta alegria é muito maior que aquela de que. 13. entregue à virtude. se esquece de si mesmo. que o coração se lhe consome no amor de Deus. em atenção a ele. uma vez que o introduziu num mundo já dotado de toda a espécie de bens.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . todavia. c) de Deus. em qualquer coisa que fixe a sua atenção. para qualquer lado que se volte. como que arrebatado fora de si. seja o que for que ele faça. o qual resulta. e. além disso. mas o da alma. Com efeito. Deve. segundo esta máxima: A boa consciência é um banquete perene[6]. não possa derivar senão da virtude da temperança). sentindo­se pronto para tudo o que a ordem da justiça requer. criou um paraíso de delícias. O prazer que brota das próprias coisas é aquela alegria que o homem sábio experimenta nas suas observações.ebooksbrasil. 16). e o agrado do alimento e do sono. muitas vezes. 8. O prazer que cada um goza em si mesmo é aquele dulcíssimo deleite que o homem. O prazer que nos vem de Deus é o mais alto grau de alegria que se pode experimentar nesta vida. resolveu torná­lo participante da sua eterna beatitude. falámos. ou de nós mesmos. finalmente. goza pela sua boa disposição interior.org/eLibris/didaticamagna. 12. que. nada há mais doce que o filosofar»[5]. ou das coisas que nos cercam. entender­se por prazer. Se consideramos o prazer. ou então de Deus. mas alegria e contentamento» (Sabedoria.COMENIUS 10. em tudo e por tudo permanece preso de tamanha alegria. há pouco. 11. a) das próprias coisas.

ou seja. as nossas escolas virão a ser. Por último. portanto. Portanto. a instrução. 52). Portanto. 2. que é a ciência sem a moral? Quem progride na ciência e regride na moral (é máxima antiga). a virtude e a piedade. sacerdote santíssimo e rei potentíssimo.html 83/357 . aquelas três coisas. Pelo exemplo de Cristo. portanto. aquilo que Salomão disse da mulher formosa. que é a sabedoria senão o conhecimento de todas as coisas como são na realidade? Que é que produz a graça diante dos homens. crescia em sabedoria e em graça. santos na pureza de consciência e fortes (cada um segundo a sua vocação) nas obras. que estas três coisas devem existir em todos e em cada um. Por isso. não sendo possível desejar nem pensar coisa mais sublime. Deus. com o qual nos devemos conformar. viver uma doce tranqüilidade e saborear. 17. 15. Infeliz divórcio. o evangelista afirma que ele. imergindo­se todo na misericórdia de Deus. mas inimiga da sabedoria.ebooksbrasil. séria e fervorosa piedade? Sintamos. «Esta é a paz que Deus nos concede e que está acima de todo o entendimento humano» (Filipenses. o qual é o protótipo perfeitíssimo de toda a perfeição. www. senão o temor do Senhor. 11. 4. verdadeiras escolas cristãs. das quais brotam todos os arroios dos mais perfeitos prazeres. a alegria da vida eterna. em nós aquilo que se encontra em Cristo Jesus. é evidente que os cristãos devem ser formados segundo o modelo de Cristo. já neste mundo. e tornar­se sábios na mente. ensinou­o com o seu exemplo aquele que se manifestou na carne (para mostrar em si a forma e a norma de todas as coisas). são as três fontes. Eis onde se encontram aquelas três bases dos nossos ornamentos! Efetivamente. finalmente.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Com efeito. Infeliz a instrução que se não converte em moralidade e em piedade! Com efeito. Precisamente por isso. Verifica­se. um infeliz divórcio. Ele disse: «Aprendei de mim» (Mateus. 3. 7). se nos fazem o mais semelhantes possível a Cristo. enquanto crescia em idade. senão a amabilidade dos costumes? E que é que nos grangeia a graça diante de Deus. 29). nosso modelo. em todos os casos em que estas três coisas não estão unidas por um ligame adamantino. E porque o próprio Cristo foi dado ao gênero humano como mestre sapientíssimo.org/eLibris/didaticamagna. 16. com efeito. a íntima.COMENIUS outra coisa senão. anda mais para trás que para a frente[7]. diante de Deus e dos homens (Lucas.

assim como no útero materno se formam os mesmos membros para todo o ser que há­de tornar­se homem. uma vez que dos anos da infância e da educação depende todo o resto da vida. mas no ouro. mas à virtude. Em resumo.COMENIUS pode dizer­se também de um homem douto. Da mesma maneira que as pedras preciosas se não encastoam no chumbo. na escola. se os espíritos de todos não forem preparados desde então para todas as coisas de toda a vida.html 84/357 .7/8/13 DIDACTICA MAGNA . 11. 14 e noutros lugares)[8]. mas de maus costumes: «A instrução infundida num homem inimigo da virtude é um colar de ouro colocado no focinho de um porco» (Provérbios. para que em conjunto irradiem um brilho mais esplendoroso. o temor de Deus. 7. Conclusão. porque a plenitude da sabedoria consiste em temer o Senhor. escrivães e oradores. umas venham a ser mais úteis a uns e outras a outros. os pés. assim também a ciência não deve juntar­se à libertinagem. 1. para que uma aumente o brilho da outra. embora.ebooksbrasil. embora nem todos venham a ser artesãos. 18. www. então a perfeição ficará completa. Portanto. De fato. está tudo perdido. E quando a uma e outra se junta uma piedade verdadeira. e para cada um se formam todos. as mãos.. corredores. 1. deve ensinar­se a todos todas aquelas coisas que dizem respeito ao homem. etc. da mesma maneira que é o princípio e o fim da sabedoria. assim também. (Provérbios. mais tarde.org/eLibris/didaticamagna. a língua. é também o cume e a coroa da ciência. 22). Eclesiástico.

o não são. se propôs este grau de perfeição? Não falemos sequer em alguma que o tenha atingido. nem talvez possa esperar­se nesta vida. que as escolas devem ser como disse. mas que. para se embeberem de verdadeira sabedoria. Omnia. mostraremos. para educar toda a juventude de ambos www. entre outras coisas. de tal maneira que. de fato. constituindo o leitor como juiz e não representando eu próprio senão o papel de ator. 1. na sua exortação às cidades do Império. as almas e as inclinaçõcs da alma sejam dirigidas para a harmonia universal das virtudes. para que constituíssem escolas (em 1525). onde as mentes dos alunos sejam mergulhadas no fulgor da sabedoria. se habituem a viver uma vida celeste todos aqueles que. para que penetrem prontamente em todas as coisas manifestas e ocultas (como diz o Livro da Sabedoria.COMENIUS Capítulo XI ATÉ AGORA NÃO TEM HAVIDO ESCOLAS QUE CORRESPONDAM PERFEITAMENTE AO SEU FIM Que é uma escola que corresponda exatamente ao seu fim? 1. todavia. Com o voto de Lutero 3. Chamo escola perfeitamente correspondente ao seu fim aquela que é uma verdadeira oficina de homens.org/eLibris/didaticamagna. Mas vou abordar o assunto de frente. 21). Mas qual é a escola que. 7. Numa palavra: onde absolutamente tudo seja ensinado absolutamente a todos («ubi Omnes. com outro argumento. Mas para que não pareça que acalentamos ideias platônicas e sonhamos com uma perfeição que não existe em parte alguma. doceantur»). e que. e os corações sejam trespassados e inebriados de amores divinos. «que. isto é. emitiu estes dois votos: Primeiro.ebooksbrasil. Lutero.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . não têm sido assim. são enviados às escolas cristãs. já na terra.html 85/357 . sejam fundadas escolas. Parecerei excessivamente presunçoso com esta afirmação ousada. até agora. Omnino. vilas e aldeias. demonstra­se: 2. em todas as cidades. até hoje. Que as escolas devem ser assim.

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os sexos (precisamente como, no capítulo IX, mostrámos dever fazer­se), de tal maneira que, mesmo aqueles que se dedicam à agricultura e às profissões manuais, freqüentando a escola, ao menos duas horas por dia, sejam instruídos nas letras, na moral e na religião». Segundo: «que sejam instruídos com um método muito fácil, não só para que se não afastem dos estudos, mas até para que para eles sejam atraídos como para verdadeiros deleites», e, como ele diz, «para que as crianças experimentem nos estudos um prazer não menor que quando passam dias inteiros a brincar com pedrinhas, com a bola, e às corridas». Assim falava Lutero[1]. 2. Com o testemunho das próprias coisas. Com efeito: 4. Conselho verdadeiramente sábio e digno de tão grande homem. Mas quem não vê que, até agora, permaneceu um simples voto? Onde estão, com efeito, essas escolas universais? Onde está esse método atraente? 1) Ainda não foram fundadas escolas por toda a parte. 5. Vemos precisamente o contrário: nas aldeias e nos pequenos povoados, não foram ainda fundadas escolas. 2) E não se pensa em que, onde existem, sejam para todos. 6. E, onde existem, não são indistintamente para todos, mas apenas para alguns, ou seja, para os ricos, porque, sendo dispendiosas, nelas não são admitidos os mais pobres, salvo casos raros, ou seja, quando alguém faz uma obra de misericórdia. No entanto, é provável que, de entre os pobres, inteligências muitas vezes excelentes passem a vida e morram sem poder instruir­se, com grave dano para a Igreja e para o Estado. 3) Não são escolas, mas padarias. 7. Além disso, na educação da juventude, usou­se quase sempre um método tão duro que as escolas são consideradas como os espantalhos das crianças, ou as câmaras de tortura das inteligências. Por isso, a maior e a melhor parte dos alunos, aborrecidos com as ciências e com os livros, preferem encaminhar­se para as oficinas dos artesãos, ou para qualquer outro gênero de vida. 4. Em lugar algum se ensina tudo, e nem sequer as coisas principais.

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8. Àqueles que ficam na escola (ou constrangidos pela vontade dos pais e dos benfeitores, ou aliciados pela esperança de, com os estudos, conseguirem um dia um pouco de autoridade, ou impelidos por uma força espontânea da natureza para uma educação liberal), a esses, ministra­se uma cultura, é certo, mas sem a seriedade e a prudência necessárias, anacrônica e má sob todos os aspectos. Efetivamente, aquilo que sobretudo se devia implantar na alma dos jovens, isto é, a piedade e a moralidade, descura­se de modo particular. E afirmo que estas duas coisas, em todas as escolas (mesmo nas Universidades, que deviam ser o ponto mais alto da cultura humana), têm sido as mais descuradas, e, em conseqüência disso, a maioria das vezes, saiem de lá, em vez de cordeiros mansos, ferozes burros selvagens e mulos indômitos e petulantes; e, em vez de uma índole modelada pela virtude, trazem de lá um conjunto de boas maneiras que de moral têm apenas o verniz, e os olhos, as mãos e os pés adestrados para as vaidades mundanas. Na verdade, a quantos destes homúnculos, polidos durante tanto tempo com o estudo das línguas e das artes, virá à mente ser, para todos os outros homens, exemplo de temperança, de castidade, de humildade, de humanidade, de gravidade, de paciência, de continência, etc.? E de onde nasce o mal senão do fato de que se não exige às escolas que ensinem a viver honestamente? Isto é testemunhado pela disciplina dissoluta de quase todas as escolas, pelos costumes relaxados de todas as classes sociais e pelos infinitos lamentos, suspiros e lágrimas de muitas pessoas piedosas. E há ainda alguém que possa defender o estado das escolas? A doença hereditária, descida até nós a partir das duas primeiras criaturas, domina­nos de tal modo que, posta de parte a árvore da vida, voltamos desordenadamente os nossos apetites só para a árvore da ciência. E as escolas, secundando estes apetites desordenados, até agora não têm procurado senão a ciência. 5) Não com um método atraente, mas violento. 9. E, mesmo isto, com que método e com que resultado? De modo a reter os estudantes durante cinco, dez, ou mais anos, em coisas que a mente humana é capaz de aprender em um ano. O que se poderia inculcar e infundir suavemente nos espíritos, é neles impresso violentamente, ou melhor, é neles enterrado e ensacado. O que poderia ser posto diante dos olhos de modo claro e distinto, é apresentado de modo obscuro, confuso e intrincado, como que por meio de enigmas. 6. É ministrada uma instrução mais verbal que real.

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10. Deixo de lado que, nas presentes circunstâncias, quase nunca os espíritos são alimentados com coisas verdadeiramente substanciosas, mas, na maior parte dos casos, são atulhados com palavras ocas (palavras de vento e linguagem de papagaio) e com opiniões que pesam tanto como a palha e o fumo. O ensino da língua latina é prolixo e confuso. 11. O próprio estudo da língua latina (abordo­o de passagem, apenas para citar um exemplo), ó bom Deus, como é intrincado, como é penoso, como é longo! Quaisquer serventes, criados ou moços de recados, entregues aos trabalhos da cozinha, aos serviços militares ou a outros serviços vis, aprendem mais depressa uma língua qualquer, ou até duas ou três, embora diferente da sua língua materna, que os alunos das escolas aprendem só o latim, embora tenham todo o tempo livre e se entreguem ao estudo com todas as suas forças. E como é desigual o resultado! Os primeiros, após alguns meses, falam correntemente em língua estrangeira; os segundos, mesmo depois de quinze ou vinte anos, na maior parte dos casos não são capazes de dizer senão certas coisas em latim, a não ser que se socorram de gramáticas e de dicionários como os coxos de muletas; e, mesmo essas coisas, não sem hesitar e titubear. De onde pode vir este deplorável dispêndio de tempo e de esforço, senão de um método defeituoso? Lamento de Lubin acerca disto. 12. A respeito deste método, escreveu, com razão, o eminente Eilhard Lubin, doutor em Teologia e professor na Universidade de Rostock: «O método corrente de educar as crianças nas escolas parece­me inteiramente como algo que alguém, empregando todo o seu esforço e toda a sua capacidade, fosse encarregado de pensar a maneira ou o método com o qual os professores conduzissem e os alunos fossem conduzidos ao conhecimento da língua latina apenas com imensas fadigas, com enorme tédio e com infinitas penas, e apenas após um longuíssimo espaço de tempo. Quanto mais penso neste erro, ruminando no meu espírito atormentado, tanto mais sinto o coração apertar­se e arrepios percorrerem os meus ossos». E, logo a seguir, acrescenta: «Enquanto, comigo mesmo, penso freqüentemente nestas coisas, confesso que, mais de uma vez, fui

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levado a pensar e a crer firmemente que estas coisas foram introduzidas nas escolas por um gênio maligno e invejoso, inimigo do gênero humano»[2]. Assim fala este mestre. De entre muitos outros testemunhos de pessoas de valor, quis citar apenas este. E do autor. 13. Mas, afinal, que necessidade há de procurar testemunhos? Quantos de nós, terminados os estudos, saimos das escolas e das academias, apenas com umas vagas tintas de uma verdadeira cultura! Eu próprio, mísero homúnculo, sou um desses muitos milhares que passaram e gastaram miseravelmente a ameníssima primavera da vida e os anos florescentes da juventude nas banalidades da escola. Ah! quantas vezes, mais tarde, quando comecei a ver as coisas um pouco melhor, a recordação do tempo perdido me arrancou suspiros do peito, lágrimas dos olhos e gritos de dor do coração. Ah! quantas vezes essa dor me levou a exclamar: «oh! se Júpiter me voltasse a dar os anos passados!»[3]. Lamentos e votos para que as coisas mudem para melhor. 14. Mas estes desejos são vãos, pois o dia que passa não voltará mais. Nenhum de nós, que estamos já carregados de anos, voltará a rejuvenescer de modo a poder dar à vida uma nova direção e a preparar­se melhor para ela com a instrução. Para nós, já não há remédio. Resta­nos apenas uma coisa, uma só coisa é possível: que tudo aquilo que pudermos fazer em proveito dos nossos vindouros, o façamos, ou seja, demonstrado em que erros nos lançaram os nossos professores, lhes mostremos o caminho de evitar esses erros. E isto se fará no nome e sob a direção daquele «que é o único que pode enumerar os nossos defeitos e endireitar as nossas idéias tortas» (Eclesiastes, I, 15).

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Capítulo XII
AS ESCOLAS PODEM SER REFORMADAS

Devem aplicar­se remédios para tentar curar as doenças inveteradas? 1. É penoso e difícil, e considerado quase impossível, curar as doenças inveteradas. Todavia, se alguém encontra um remédio eficaz, acaso o doente rejeita­o? Ou não deseja antes aplicá­lo, o mais depressa possível, principalmente se sente que o médico é guiado, não por uma opinião temerária, mas por uma razão sólida? Eis­nos, por isso, chegados ao momento de, relativamente ao nosso ousado propósito, mostrar: primeiro, quais são as nossas promessas; segundo, em que se fundamentam. Que propõe e promete agora o autor? 2. Prometemos uma organização das escolas, através da qual: I. Toda a juventude (exceto a quem Deus negou a inteligência) seja formada. II. Em todas aquelas coisas que podem tornar o homem sábio, probo e santo. III. Que essa formação, enquanto preparação para a vida, esteja terminada antes da idade adulta. IV. Que essa mesma formação se faça sem pancadas, sem violências e sem qualquer constrangimento, com a máxima delicadeza, com a máxima doçura e como que espontaneamente. (Da mesma maneira que um corpo vivo cresce em estatura, sem que tenha necessidade de mover os seus membros nem para um lado nem para o outro, pois basta que prudentemente seja alimentado, ajudado e exercitado, para que, por si, pouco a pouco, cresça em estatura e em robustez, quase sem se aperceber disso, do mesmo modo, se se alimenta, ajuda e exercita o espírito prudentemente, essa intervenção converte­se, por si mesma, em sabedoria, em virtude e em piedade).

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V. Que todos se formem com uma instrução não aparente, mas verdadeira, não superficial mas sólida; ou seja, que o homem, enquanto animal racional, se habitue a deixar­se guiar, não pela razão dos outros, mas pela sua, e não apenas a ler nos livros e a entender, ou ainda a reter e a recitar de cor as opiniões dos outros, mas a penetrar por si mesmo até ao âmago das próprias coisas e a tirar delas conhecimentos genuínos e utilidade. Quanto à solidez da moral e da piedade, deve dizer­se o mesmo. VI. Que essa formação não seja penosa, mas facílima, isto é, não consagrando senão quatro horas por dia aos exercícios públicos e de tal maneira que um só professor seja suficiente para instruir, ao mesmo tempo, centenas de alunos, com um esforço dez vezes menor que aquele que atualmente costuma dispender­se para ensinar cada um dos alunos. Ilustra­se a atitude dos homens a respeito das novas invenções com o exemplo da máquina de Arquimedes, 3. Mas quem careditará nestas coisas antes de as ver? É bem sabido que, antes de qualquer invenção, todos os homens têm tendência para se admirar, pensando como essa invenção possa ser possível; e, depois que foi inventada, admiram­se pensando como é que já o não fora há mais tempo. Quando Arquimedes prometeu ao rei Hierão lançar ao mar, com uma só mão, um navio tão grande que cem homens não podiam remover, foi recebido com um sorriso; mas, depois, viram com admiração[1]. e do novo mundo. 4. Nenhum rei, exceto o de Castela[2], quis dar ouvidos ou a menor ajuda a Colombo, que esperava descobrir novas ilhas a ocidente, para que tentasse a prova. A história recorda que os próprios companheiros de navegação, tomados de indignação e de desespero, estiveram prestes a lançar Colombo ao mar e a regressar sem haver realizado a empresa. No entanto, foi descoberto aquele tão vasto novo mundo, e agora todos se admiram como foi possível que tivesse permanecido desconhecido durante tanto tempo. Mas vem também a propósito a seguinte brincadeira feita pelo próprio Colombo: os espanhóis, invejosos da glória adquirida por um italiano com a sua grande descoberta, bombardearam­no, durante um banquete, com sarcasmos, e, entre outras coisas, disseram, em voz alta, para que ele ouvisse, que a descoberta daquele hemisfério tinha sido o resultado de um acaso, e não de um ato de bravura, e podia ter sido feita por

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qualquer outro. Então, Colombo propôs este interessante problema: Como é que um ovo de galinha pode manter­se sobre uma das extremidades sem qualquer apoio? Depois de todos os outros o terem tentado em vão, ele, batendo levemente com o ovo no prato e quebrando um pouco a extremidade, conseguiu que o ovo se mantivesse direito. Todos se puseram então a rir e a gritar, dizendo que, assim, também eles eram capazes. Colombo respondeu: Com certeza, porque o viste fazer; mas porque é que nenhum o fez antes de mim? e da arte tipográfica, 5. Creio que teria acontecido o mesmo se João Fausto, inventor da arte tipográfica[3], tivesse começado a divulgar que tinha descoberto a maneira de um só homem, em oito dias, escrever mais livros do que habitualmente escreveriam dez copistas bem treinados, durante um ano inteiro; e que esses livros seriam escritos de uma maneira elegante e que todos os exemplares teriam exatamente a mesma forma até à última vírgula, e que todos seriam corretíssimos, desde que um só deles fosse correto, etc. Quem acreditaria nele? A quem não teriam parecido enigmas estas afirmações? Ou, ao menos, uma gabarolice vã e inútil? E eis, todavia, que agora até as crianças sabem que isso era verdade. e da arte de bombardear, 6. Se Berthold Schwarz, inventor dos canhões de bronze[4], se voltasse para os frecheiros e lhes dissesse: «Os vossos arcos, as vossas balistas, as vossas fundas valem pouco. Eu vos darei um engenho que, sem recorrer à força dos braços, apenas pela ação do fogo, não só atirará pedras e pedaços de ferro, mas lançá­los­á mais longe e atingirá o alvo com maior certeza e o destruirá e abaterá mais depressa». Quem o não teria acolhido com uma grande risada? De tal modo é costume tomar as coisas novas e inusitadas por coisas miraculosas e incríveis! e da arte de escrever. 7. É certo que os índios da América não poderiam imaginar que era possível um homem poder comunicar a outro homem os sentimentos da sua alma, sem falar, sem enviar um mensageiro, mas apenas com a expedição de um pedacinho de papel; enquanto que, entre nós, até os mais estúpidos o entendem. Por isso, por toda a parte e em todos os casos, se pode dizer: «as

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www. sofremos já. uma fera a caminhar não é necessário constrangê­los. Também não é necessário constranger a água para que corra pelas encostas. É certo. ou os olhos ou o espelho. está no seguinte princípio: qualquer coisa. O fundamento único. para que. mas. por toda a parte. como não escrevo estas coisas para o vulgo ignorante mas para pessoas instruídas. na verdade. mas mais que suficiente. experimentam.html 93/357 . um peixe a nadar. 9. para que uma ave se habitue a voar. devo demonstrar que é possível que toda a juventude seja introduzida nas letras. Todos se admirarão e se indignarão de que haja pessoas que ousem lançar em rosto às escolas. Explicação 11. ou uma pedra redonda para que role para baixo. se disso é impedida. ajudado. não somente se deixa facilmente conduzir. o assalto da crítica. ou o fogo para que queime. ou a semente para que. Ser­me­ia. sem todo aquele enfado e dificuldade que. Como se deve obviar a estas críticas. Também a invenção de um método perfeito está sujeita a críticas. que. e propor um não sei quê de insólito e superior a toda a crença. Todo o ser tem possibilidade de fazer espontaneamente aquelas coisas para que foi destinado. para onde se inclina por natureza. tanto os professores como os alunos. ajudada pela humidade e pelo calor. diz­no­lo uma voz interior. Mais ainda. com efeito. Que não vai acontecer de maneira diferente com este nosso novo invento. recebam os objetos. ou uma pedra quadrada para que se mantenha no seu lugar. a sua imperfeição. de tal modo que sente mesmo dor. germine.org/eLibris/didaticamagna.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . aceites pelo uso. fazem­no logo que sentem que os membros destinados a esses movimentos estão suficientemente desenvolvidos. na moral e na piedade. fácil afirmar que os resultados futuros provarão que a minha afirmação é absolutamente verdadeira (assim confio em Deus). em parte. aos livros e aos métodos. 10. com o método correntemente em uso. desta demonstração. havendo luz.ebooksbrasil. desde que haja combustível e ar. Fundamentos da demonstração científica. 8. mas até para lá se dirige espontaneamente com verdadeira satisfação.COMENIUS empresas outrora consideradas impossíveis farão rir os séculos futuros».

todavia. todavia. falar e raciocinar. porque não havemos de aprender também as coisas que são próprias da mente.html 94/357 . sabemos reconduzi­las ao seu vigor natural com passeios. uma lebre a tocar tambor. dai não se segue. a saltar. se a corrupção se mantém afastada. para que até mesmo www. não possamos nem andar. Mas objeta­se: não se faz um Mercúrio com qualquer madeira[5]. as sementes da ciência. etc. pudessem andar. um corvo. Ora. e tudo isto. nem raciocinar. e nós.. a adivinhar. 13. não apenas o chama e conduz. em pouco tempo. 12. todavia. corridas e com os exercício das profissões manuais.ebooksbrasil. e por caminhos incertos. Com efeito. etc. a caminhar. Respondo: mas de qualquer homem faz­se um homem. por natureza. a lutar.COMENIUS ainda que pouquíssimo. daí se segue necessariamente que eles não precisam senão de um ligeiríssimo estímulo e de uma direção inteligente. o domador de cavalos ensina um cavalo a trotar. desde que não falte a necessária instrução? Que hei­de acrescentar mais? Em alguns meses. da moral e da piedade. Respondo: mas não foram extintas. É. Segunda objeção 14. Uma bruxa frívola ensina um papagaio. imediatamente após terem sido criadas. Também. um cão a conduzir o arado. e aplicação. embora as duas primeiras criaturas. na verdade. uma vez que (como vimos no capítulo V). a voltear e a regular o movimento em conformidade com os sinais do chicote.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . a comer. existem. Um vulgar charlatão ensina um urso a fazer pantominas. se aprendemos sem grandes dificuldades a fazer aquilo que é próprio do corpo. E não poderá o homem ser facilmente educado naquelas coisas para as quais a natureza. se primeiro não aprendemos pela prática. Efetivamente. que essas coisas não possam aprender­se senão de modo confuso e penoso. uma pega. a imitar a voz humana ou certas melodias. fá­las. a beber. embora não seja conforme à natureza. mas até o atrai e arrasta? Tenhamos vergonha de o afirmar. Primeira objeção. verdadeiro (replica outro) que as nossas capacidades interiores foram enfraquecidas com a primeira queda. a saltar e a exercer profissões manuais.org/eLibris/didaticamagna. as forças do corpo estão muito enfraquecidas. em todos os homens (excetuamos os monstros de homens).

sólidos e seguros. quando e como cada coisa deve ser plantada e semeada? Acrescentarei ainda isto: não há no mundo um penhasco ou uma torre tão alta que não possa ser escalada por quem quer que tenha pés. qualquer coisa. se aqueles que chegam até certo ponto. Da mesma maneira. isso não quer dizer que para a inteligência humana haja qualquer cume inacessível. não faça germinar. Objetar­se­á ainda: há inteligências tão embotadas que é impossível fazer penetrar nelas seja o que for. Mas. 16. se o espelho está enodoado ou coberto de poeira. de modo que todos acabem por entender tudo. estimular­se­ão e limar­se­ão uns aos outros. www. ou seja. não reflita as imagens. se tão poucos chegam à sumidade do saber. 15. ou então. se a tábua é grosseira.COMENIUS os domesticadores de animais se não riam sarcasticamente na nossa cara. nela se façam degraus. de angústia. mas que os degraus não estão bem dispostos e que são curtos. Respondo: dificilmente se encontra um espelho tão sujo que. de cansaço e de vertigens. quemquer pode ser conduzido a qualquer altura. talhando as rochas no lugar e com a ordem apropriada. dificilmente se encontra uma tábua tão grosseira na qual. replica­se ainda. com o seu calor. desde que a ela se encostem as escadas necessárias. é necessário poli­la. Respondo: Que dificuldade é essa? Porventura haverá na natureza um objeto de cor tão sombria que não possa refletir­se num espelho. se não possa escrever.ebooksbrasil. a dificuldade intrínseca das coisas é tal que nem todos as entendem. e. se ponham defesas. desde que a pinte quem conheça a arte da pintura? Porventura haverá alguma semente ou raiz que a terra não receba no seu seio e. embora muitos para lá se encaminhem com ânimo ardente e valoroso. Mas. nivelados. antes de tudo. o não conseguem senão à custa de fadiga.org/eLibris/didaticamagna. Subindo por degraus devidamente dispostos. gastos e arruinados. é necessário limpá­lo. de qualquer modo. e. desde que haja quem saiba onde. Portanto. que o método é confuso. Terceira objeção. Então não recusarão o seu serviço. Quarta objeção. desde que seja devidamente colocado diante dele quando há luz? Porventura haverá alguma coisa que não possa ser pintada numa tela. do lado dos precipícios perigosos. tropeçando e caindo muitas vezes. de qualquer modo.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .html 95/357 . se os jovens forem aguçados e polidos.

e o outro. E se se demonstrar que a causa do desgosto pelo estudo são os próprios professores? Aristóteles afirmou que o desejo de saber é inato no homem[7] e. são afastadas das atrações inatas do espírito. embora haja alguns espíritos completamente inaptos para a cultura. então. o apetite de saber. em primeiro lugar. nem possam recolher­se facilmente. a petulância dos companheiros os atrai para a parte fróvola das coisas. embebida por um sabor. e reconduzir a natureza ao seu vigor próprio. terão a impressão de haver atingido o seu pleno grau de desenvolvimento. há sempre uma produção riquíssima. que assim é. penetrarão cada vez mais fundo nas coisas e farão tesouro de novas e utilissimas observações acerca das coisas. daqui resulta que nenhum desejo têm de conhecer o desconhecido[9]. ao passo que os mais bem dotados. porque. se conta que um filósofo.org/eLibris/didaticamagna. estendendo o seu apetite de um objeto a outro.ebooksbrasil. embora quisesse. regressará. por graça de Deus. por natureza. a nossa asserção será sempre verdadeira acerca das inteligências médias. Mas porque. é necessário expulsar desses jovens aquele torpor adventício. que os débeis mentais são tão raros como aqueles que. não queria[6]. mas a vontade. Mas www. o ser coxo e a debilidade de saúde raramente são congênitas ao homem. é certo que a cegueira. quaisquer que sejam os conhecimentos que tenham adquirido. (Com efeito. porque um. Quinta objeção. Faz­se ainda esta objeção: a alguns não falta a aptidão para os estudos. de que.html 96/357 . Finalmente. todavia. ainda há pouco. Respondo: precisamente por isso. mas contraem­se por culpa nossa. ocupada de um lado. a excessiva indulgência dos pais deprava nos filhos o apetite natural. embora pudesse. ao mesmo tempo. com certeza. por causa das ocupações cívicas ou áulicas. outras vezes. por vezes. são defeituosos do corpo. não podia aproveitar. Notar­se­á apenas esta diferença: os de inteligência mais lenta. não aprecia bem outro. enfadonho e inútil. Efetivamente. ou ainda pela visão de quaisquer coisas externas. um estúpido e outro insolente. a surdez. porque. Portanto. da mesma maneira que a língua. como um pedaço de madeira absolutamente impróprio para esculpir. no capítulo décimo primeiro[8]. assim também a mente. os mandou ambos embora. as próprias crianças. o mesmo acontece com a fraqueza intelectual. não atende suficientemente ao que lhe é oferecido do outro lado). por vezes. 17. tendo dois alunos. com efeito.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .COMENIUS Insisto firmemente na minha asserção. vimo­lo no capítulo quinto e. porque é bem firme o seu fundamento. e obrigá­los a estudar contra a vontade é. É fácil de ver.

18. e. Ocupam o primeiro lugar as inteligências penetrantes. Destes três grupos de dois. desenvolvem­se por si. e outras duras e obstinadas. para que não aconteça que definhem e se tornem prematuramente estéreis. I 19. todavia. purga­a. se o não consegue logo (e como seria possível consegui­lo?). como plantas de boa qualidade. uma jóia. antes de fiar. antes de tornear um pedaço de madeira. E havemos de admirar­nos que haja quem critique e fuja de semelhante método de educação? Devemos antes admirar­ nos que haja ainda quem se entregue a tais educadores.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . a batê­lo. antes de se pôr a instruir o aluno à força de regras. indigna­se. Outras são penetrantes mas lentas.html 97/357 . deve primeiro torná­lo ávido de cultura. não se lhes permitindo que andem exageradamente depressa. pronto a entregar­se a ela com entusiasmo. assim como o torneiro. enche­se de ira. a cardá­lo. a modelá­lo a seu modo. e o ferreiro. trabalha o couro. lava­a e carda­a. sendo. Mas quem alguma vez pensou nisso? Quase sempre. inclinadas para as letras. É necessário apenas usar de prudência. não sendo senão necessário ministrar­lhes o alimento da sabedoria. o professor toma o aluno tal qual o encontra. resulta que há seis espécies de inteligências. apto para a cultura e.COMENIUS quantos daqueles que assumem o encargo de formar a juventude pensam em torná­la primeiro apta para receber essa formação? Efetivamente. enfurece­se. antes de bater o ferro. conseqüentemente. o desbasta com o machado. Eis que se nos oferece a ocasião para fazer algumas advertências acerca das diferenças das inteligências: umas são penetrantes e outras obtusas. e começa logo a torneá­lo. e o fabricante de tecidos. assim também o professor. II 20. umas são. que são as mais aptas de todas para os estudos. a tecê­ lo.org/eLibris/didaticamagna. de si mesmas. Estas precisam apenas de ser estimuladas. Seis espécies de inteligências. mais ainda. umas são maleáveis e dóceis. urdir e tecer a lã. e outras deleitam­se em ocupações mecânicas. e o sapateiro. estica­o e pole­o muito bem. o aquece. ávidas de saber e fáceis de dirigir. www. antes de coser os sapatos. dóceis. pretendendo que ele se torne imediatamente uma beleza.ebooksbrasil.

sem lhe dar açoites. se não sabem servir dele!» E tratando o cavalo com arte admirável. se são bem orientadas. Plutarco. não sendo possível encontrar em todo o mundo um cavalo mais generoso que aquele e mais digno de tão grande herói. dura mais tempo. efetivamente.COMENIUS III 21. para que o consigam. e as coisas por elas observadas. Todavia. não se lhes escapam tão facilmente. se são devidamente disciplinados»[11]. assim também. alguém mostrava estranheza pela transformação operada na sua maneira de ser. estas inteligências conservam os conhecimentos durante mais tempo que as outras. mas antes. ajudando­as. ainda que uma só vez. mas lentas e obtusas. todavia. Filipe. ser www. de um cavalo que. Embora estas cheguem à meta mais tarde. de mais longa duração. grande chefe dos Atenienses: em adolescente. ou um grande mal»[10]. definham por culpa dos educadores. não só nessa altura. nada lhes exigindo severamente. ávidas de saber. nada lhes impondo violentamente. porque não sabem educar jovens ardorosos e livres»[12]. por isso. o resultado é. Assim como é mais difícil imprimir um selo no chumbo mas. porque demasiado selvagem. como costuma acontecer com os frutos serôdios. estimulando­as. Não devem. IV 22. conseguiu. deve condescender­se com a sua fraqueza. e em tudo. O que. depois de contar esta história.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . mas indomáveis e obstinadas.html 98/357 . mais tarde. ao mesmo tempo. nascidas bem. exclamou: «Que cavalo perdem estes que. não virás a ser nada de medíocre: ou serás um grande bem para a pátria. fazer­se transportar por ele. não suportava que ninguém o montasse. Estas são geralmente detestadas nas escolas e consideradas como se nada houvesse a esperar delas. por imperícia. Ocupam o terceiro lugar as inteligências penetrantes e ávidas de saber.org/eLibris/didaticamagna. Estas podem seguir as pegadas das que vão à frente.ebooksbrasil. mas durante a vida. Ocupam o quarto lugar as inteligências dóceis e. tolerando­as. queria desfazer­se. E quando. muitas vezes. com benignidade. que transformam cavalos em asnos. se verificou no Bucéfalo de Alexandre Magno. animando­as. mas. como de coisa inútil. era de caráter tão altivo que o seu mestre lhe disse: «Meu rapaz. ele costumava dizer: «Os poldros selvagens tornam­se os melhores cavalos. Vendo Alexandre que seu pai. arcescenta: «Aquele cavalo adverte­nos de que muitas inteligências. para que não desanimem. A história oferece­nos um exemplo em Temístocles. costumam tornar­se homens de valor. uma vez impresso.

mas. todavia. com a qual em vão se esperará construir um Mercúrio. lentos e preguiçosos. que se tornem bons por meio de uma boa educação. educar e formar todos os jovens. Ocupam o último lugar os de inteligência débil e. o agricultor consegue fazer uma árvore. podem ainda corrigir­se. V 23. «Não convém cultivar nem regar a terra arenosa». demonstra­se de quatro maneiras: 26. Se isso não for possível. está em nosso poder»[15]. mas ver se. ao menos a obstinação pode ser vencida e removida. se pode encontrar na natureza um antídoto[13]. com um só e o mesmo método. além disso. No entanto. destas inteligências tão degeneradas. O quinto lugar é ocupado por alguns de inteligência obtusa e. mas é necessário muita prudência e muita paciência. o que é uma prova insígne da benignidade de Deus.COMENIUS afastadas das escolas. disse Catão[14].7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Mas porque é certo que. www. não deve desesperar­se de todo. Primeira: todos os homens devem ser dirigidos para os mesmos fins — a sabedoria. de índole tão diversa. demonstram­ no estas quatro razões: I. VI 24.html 99/357 . Que. para toda a espécie de males.org/eLibris/didaticamagna. Que seja possível instruir. II. a moral e a perfeição. a não ser que uma invencível obstinação a isso se oponha. deverá então pôr­se de lado esse pedaço de madeira torcida e nodosa. 27. Efetivamente. é certo que. Eis o que ele diz: «está em nosso poder». da natureza torcida e malígna. apenas se encontrará uma em mil. todas as inteligências se podem tratar com a mesma arte e com o mesmo método. 25. de qualquer mergulhão. ao mesmo tempo. na sua maioria é gente perdida. utilizando a mesma arte em toda a plantação. O resumo do que foi dito encontra­se na seguinte sentença de Plutarco: «Não está nas mãos de ninguém que os seus filhos nasçam com estas ou aquelas qualidades.ebooksbrasil. Estes. e que as árvores estéreis por natureza se podem tornar frutíferas por uma plantação conveniente.

vemos que muitas inteligências precoces. para o corpo. o remédio mais adaptado é o método que. de modo a suprimir toda a deficiência e todo o excesso. todos os homens têm a mesma natureza humana. IV. que é a preguiça senão uma excessiva moleza do coração que necessita de energia? Por isso. pondo em equilíbrio os excessos e as insuficiências das inteligências. o nosso método encontra­se adaptado às inteligências médias (das quais há sempre muitíssimas). nem o acicate e o estimulo para incitar os mais lentos.ebooksbrasil. reduz tudo a uma espécie de harmonia e de suave concerto.org/eLibris/didaticamagna. a qual é necessário dispersar e aclarar por uma agitação mais freqüente? Que é a petulância e a altivez senão uma excessiva firmeza do coração. o remédio mais eficaz não é aquele que junta contrários a contrários (pois assim provoca­se uma luta mais violenta). os indolentes com os valorosos. do mesmo modo que as doenças do corpo são devidas a um excesso de humidade ou de secura. os recrutas se misturam com os veteranos. Segunda: embora dotados de inteligências diversas. digo que o melhor momento para remediar as deficiências e os excessos das inteligências.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . de tal maneira que nem faltem os freios para moderar as inteligências mais sutís (para que não enfraqueçam prematuramente). 29. por isso.html 100/357 . assim também. III. Segundo este critério. ficando o cérebro enfraquecido ou embrutecido. 30. pode acontecer que o espírito se disperse. de calor ou de frio. assim como. Por fim. ou são surpreendidas por uma morte prematura ou se embotam. Finalmente. Por exemplo: que é a acuidade da inteligência senão a sutileza e a agilidade dos espíritos animais no cérebro. mas aquele que procura a harmonia dos contrários. que é a obtusidade da inteligência senão a viscosa gordura e obscuridade dos espíritos no cérebro. Terceira: a diversidade das inteligências não é senão um excesso ou uma deficiência da harmonia natural.COMENIUS 28. e são levados a combater sob as mesmas bandeiras. jamais disposto a ceder? Esta deve ser tornada flexível por meio da disciplina. dotada dos mesmos órgãos. Com efeito. é quando elas são novas. contra os defeitos da mente humana. Ao contrário. e dirigidos pelos mesmos comandos durante www. da mesma maneira que. os débeis com os robustos. no exército. correndo rapidamente através dos nervos sensitivos e penetrando nas coisas? Se esta agilidade não for de qualquer modo coibida.

cada um persegue o inimigo enquanto quer e enquanto pode. 31.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . não apenas em relação ao lugar. Mas já é tempo de. com o ardor de que for capaz. cada um prosseguirá os estudos. obtida finalmente a vitória. em relação ao auxílio. mas. os mais estúpidos com os mais sagazes.COMENIUS todo o tempo que dura a batalha. finalmente. para que os vigie e dirija. sobretudo se o professor estiver atento a que tudo proceda segundo as normas da razão. www. e sejam guiados com as mesmas regras e com os mesmos exemplos. aproveitarão uns e outros. mas. quando o professor encontra um aluno mais inteligente. muito mais.ebooksbrasil. assim também. convém proceder de modo que os mais lentos se misturem com os mais velozes. no exército escolar. de tal maneira que. Depois de terem deixado as escolas.html 101/357 . deve confiar­lhe dois ou três dos mais lentos para que os instrua. e quando descobre um outro de boa índole deve confiar­lhe outros de temperamento mais fraco. Qual a prudência de que deve usar­se ao misturar inteligências de capacidades diversas. Entendo aquela «mistura». começarmos a explicar o nosso tema. Assim.org/eLibris/didaticamagna. durante todo o tempo em que têm necessidade de ser guiados. pilhando à sua vontade. os mais duros com os mais dóceis.

com tanta precisão. vacila.ebooksbrasil.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . o número. que é que faz com que o mundo seja o mundo e se mantenha na sua plenitude? Sem dúvida. com elegância e verdade. se se afasta da ordem. Se procurarmos que é que conserva no seu ser o universo. maiores e menores. debilita­se. Por isso. meses e dias? Unicamente a ordem imutável do firmamento. a qual é a disposição das coisas anteriores e posteriores. as formigas e as aranhas www. cambaleia e cai. durante todo o tempo em que conserva a ordem. segundo a prescrição da natureza. de animaizinhos que trabalham com exatidão e precisão singular. permanece escrupulosamente dentro dos seus próprios limites. Que é que faz com que as abelhas. Efetivamente. 1. 2. alguém disse. o fato de que cada criatura. consoante o lugar. Ilustra­se esta verdade com exemplos tirados: 1. 3.COMENIUS Capítulo XIII O FUNDAMENTO DA REFORMA DAS ESCOLAS É A ORDEM EXATA EM TUDO A ordem é a alma das coisas. que a ordem é a alma das coisas. do mundo. em anos. Que é que faz correr. o tempo dividido. de modo tão ordenado e sem qualquer confusão. de século em século. juntamente com todas as coisas particulares.org/eLibris/didaticamagna. verificamos que não é senão a ordem. conserva o seu estado e a sua integridade. do firmamento. as dimensões e o peso devido e conveniente a cada uma delas. 4. tudo aquilo que é ordenado. O que é evidente por toda a espécie de exemplos tirados de toda a natureza e da arte. o tempo. 3. 2. semelhantes e dissemelhantes. esta manutenção da ordem particular conserva a ordem do universo. Com efeito.html 102/357 .

se se move o primeiro. com o número reduzido de membros que o compõem.COMENIUS executem trabalhos tão exatos e precisos. e assim sucessivamente uns dos outros. porque é que. dependendo alguns dele imediatamente. o número e a medida. 6. todavia. pode realizar trabalhos de tão maravilhosa variedade.html 103/357 . 7. possa governar povos inteiros? De tal maneira que. que provém da mente. necessariamente tudo anda bem? Nada mais que a ordem. se o primeiro está parado. infundido no corpo. em todos os seus atos. do corpo humano. da sábia proporção de todos os membros. 6. em virtude da qual todos os membros estão unidos por vínculos perpétuos e se deixam mover em todas as direções a um sinal do primeiro movimento. Exatamente como os anéis de uma cadeia que. de um reino sabiamente administrado. e outros de cada um destes. 5. da nossa mente. que a inteligência do homem neles encontra matéria mais para admirar que para imitar? Nada mais que a sua habilidade inata para observar. estando ligados uns aos outros.org/eLibris/didaticamagna. que pode realizar um número de ações quase infinito. 4. e. embora as opiniões sejam tantas quantas as cabeças. não tendo motivos para desejar outros nem para ser diferente do que é? Isso resulta. ligados pelos vínculos da lei e da obediência.ebooksbrasil. todos seguem a vontade desse único homem. embora não seja dotado de instrumentos infinitos? Ou seja. Que é que permitiu que Hierão.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . se esse homem faz andar bem a administração. ao mesmo tempo. rei ou imperador. para realizar tantas ações? Nada mais que a ordem. sem dúvida. 7. estão sujeitos a esse sumo moderador do Estado. movem­se todos e. da máquina de Arquimedes. 5. estão todos parados. www. pudesse lançar ao mar uma mole tão grande que tantas centenas de homens haviam tentado em vão mover?[1]/ Apenas uma pequena máquina. como na relação de uns para com os outros. 8. sozinho. Que é que faz com que o corpo humano seja um organismo tão maravilhoso. tanto em si mesmos. Que é que faz com que um só espírito. a ordem. em virtude da qual todos. Que é que faz com que um só homem. baste para governar todo o corpo e. até ao último.

todo o aparelho se torna inútil. 9. dos remos. da devida proporção da bomba. da arte tipográfica. 10. do carro. na preparação. com os quais se destroiem muros. etc. eixos. timões. pergunto: que é que faz com que um carro. dos canhões. há perigo www.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . E.ebooksbrasil. roldanas e cordas. dos mastros. 11. Os terríveis efeitos dos canhões. uma peça ajudando a outra. e regressem sãos e salvos? Nada mais que a coordenação da quilha. 10. não provêm senão de uma ordem determinada dos maquinismos e da aplicação de substâncias ativas a substâncias passivas. Se algum deles vier a perder­se. da bússola e dos restantes instrumentos do navio. segundo as regras da arte. das antenas. se uma só destas peças se despedaça ou se quebra. para que aborde também o domínio das artes mecânicas. da boa estrutura das balas e. na sua disposição em páginas. fundição e acabamento dos tipos metálicos das letras. confiando­se ao mar furioso. a máquina já não serve para nada. a ordem observada na boa fabricação. ou seja.COMENIUS construída segundo as regras da arte e munida de numerosos cilindros. Se falta uma só destas coisas. a madeira e o ferro (efetivamente. ele é composto destas duas matérias) vá tão veloz atrás dos cavalos que correm à frente e sirva tão bem para transportar homens e coisas pesadas? Nada mais que a coordenação da madeira e do ferro. 11. atrelagens. etc. das velas.html 104/357 . finalmente.org/eLibris/didaticamagna. 9. ou seja. da boa direção dos tiros. de uma dose exata de nitrato misturado com enxofre (uma substância muito fria com uma substância muito quente). na sua distribuição nos caixotins. se aventurem até aos antípodas. do navio. em rodas. pela qual os livros são multiplicados rapidamente. Que é que faz com que os homens subam para um pedaço de madeira e. combinadas de tal maneira que. da suficiente quantidade de pólvora. as forças fossem multiplicadas. Que é que torna tão perfeita a arte tipográfica. se abatem torres e se desbaratam exércitos. corretamente? Sem dúvida. do leme. elegantemente. corte e dobragem do papel. 8. etc. 12. Com efeito. transformados.. da âncora. na sua colocação sob o prelo.

ou se torce. Se. tão regulares? Antes de ser inventado. enfim.COMENIUS de balanços.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . ou seja. que horas são? Qual a razão por que este instrumento desperta o homem à hora que ele quer e até acende a luz de tal maneira que. a razão por que no relógio. e até talvez os anos. 15. mas até nos permite ouvir. os meses. do relógio. e não só nos permite ver. o parafuso mais pequeno. religioso e doméstico. ou se parte. ainda que seja a rodinha mais pequena. como se alguém tivesse afirmado que as plantas e as pedras podiam caminhar? No entanto. Qual. as fases da lua. Todo o mistério do relógio consiste na ordem. ou anda mal. trabalhado e ligado de várias maneiras. ao acordarmos. Assim. vemos imediatamente o quarto iluminado? Qual a razão por que o relógio nos permite ver sucessivamenta também o calendário político. Deste modo se torna evidente que tudo depende apenas da ordem. A arte de ensinar nada mais exige. tudo se passa exatamente como num corpo vivo. as suas dimensões e a sua ordem para tornar aquela disposição tal que cada peça tem um papel determinado e meios para o desempenhar. imediatamente todo o relógio pára ou anda mal. a harmonia de cada uma com as que lhe estão em relação e leis mútuas para comunicar reciprocamente a força umas às outras. se dela não é digno este relógio? Acaso o metal. ou começa a estar bamba. produz movimentos espontâneos e assim marca harmonicamente os minutos. mesmo de longe e às escuras. instrumento que mede o tempo. portanto. 13. Espera encontrar­se uma forma de escolas semelhantes ao relógio. substância.ebooksbrasil.html 105/357 . os dias. de naufrágio e de morte.org/eLibris/didaticamagna. 14. Mas que força oculta anima o relógio? Nenhuma outra senão a força da ordem que manifestamente reina em todas as suas partes. a proporção exata de cada peça com as outras. não teria sido considerado uma coisa tão impossível. que uma www. tão constantes. a força proveniente da disposição de todas as suas peças. todavia. 12. inanimada. o curso dos planetas e os eclipses? Que coisa haverá digna de admiração. os olhos atestam que ele é uma coisa real. ou seja. as horas. que concorrem com o seu número. posto em movimento pelo próprio espírito. produz movimentos tão vivos. o metal. qualquer peça se estilhaça. de sua natureza. o eixo mais pequeno.

html 106/357 . construído segundo as regras da arte e elegantemente ornado de cinzeladuras variadas. com tanta certeza quanta pode obter­se de qualquer instrumento semelhante. portanto. finalmente. E. Se a conseguirmos estabelecer com exatidão. 16. das matérias e do método. E tão suave e agradavelmente como é suave e agradável o andamento de um tal autômato. em máquinas tipográficas. com letra elegantíssima. mil folhas por dia.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . casas. por mais numerosa que ela seja. em nome do Altíssimo.ebooksbrasil. não será mais difícil ensinar tudo à juventude escolar. E tudo andará com não menor prontidão que um relógio posto em movimento regular pelos seus pesos. ou remover. Procuremos. que imprimir. www. dar às escolas uma organização tal que corresponda.COMENIUS habilidosa repartição do tempo. construído segundo as regras da arte. ou atravessar num navio o oceano e atingir o novo mundo. em todos os pontos.org/eLibris/didaticamagna. torres ou qualquer outra espécie de pesos. Conclusão. à de um relógio. com a máquina de Arquimedes[2].

e. 1.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Os remédios contra os defeitos da natureza não devem procurar­se senão na natureza.org/eLibris/didaticamagna. Torne­se claro este assunto por meio de exemplos. em nome de Deus. Comecemos. 4.html 107/357 . Vê­se um peixe nadar na água? Para o peixe. as gaitas de foles e todos os www. o pulmão. Vê­se uma ave voar? Para ela. e em vez da cauda. capazes de sustentar um corpo tão pesado como o seu. encarregada de fechar a boca. os pés. como efetivamente é. estão os remos ou as velas. como sobre uma rocha imóvel. por sondar os fundamentos sobre os quais. do produzir sons 3. é uma coisa natural. e em vez da cauda. está o leme. a arte nada pode fazer. na base. do nadar 2. é munida de um fole. A natureza fornece­nos modelos do que deve fazer­se: 1. À sua imitação. Se o homem o quiser imitar. a não ser imitando a natureza[1]. é uma coisa natural. terá necessariamente que recorrer a instrumentos e a movimentos semelhantes. que é composta de anéis cartilaginosos. mas se este princípio é verdadeiro. constroiem­se as trombetas. Até mesmo os navios não podem construir­se senão sobre este modelo: em vez das barbatanas. e movê­los do mesmo modo que o peixe move as suas barbatanas. que põe a respiração em movimento. O órgão com o qual os animais produzem o som é a traquéia.ebooksbrasil.COMENIUS Capítulo XIV A ORDEM APRIMORADA DAS ESCOLAS DEVE IR BUSCAR­SE À NATUREZA E SER TAL QUE NENHUNS OBSTÁCULOS A POSSAM ENTRAVAR Os fundamentos da Arte devem ser procurados na natureza. possa edificar­se o método de ensinar e de aprender. quando Dédalo quis imitá­la. ou seja. e tem no seu vértice a laringe. em vez das barbatanas deve estender os braços. Mas. teve de munir­se de duas asas.

E esse instrumento é composto de pequenas rodas. produz algo de semelhante aos trovões. inventou­se um instrumento capaz de reproduzir exatamente o movimento rotatório diário do firmamento e de medir as horas. são postas bases imóveis. as outras (como o Criador deu aos astros a força de se moverem a si mesmos e de fazerem mover outros. sobe a qualquer altura. e no lugar das esferas móveis. mas que aconteça deve­ se à natureza. 5.org/eLibris/didaticamagna. 7. Observou­se o firmamento e verificou­se que havia um movimento perpétuo e que as várias revoluções dos astros produziam a variedade das estações que convêm ao nosso universo. do relampejar 4. Na verdade. juntamente consigo). no nosso instrumento. pois.html 108/357 . mas é também natural. mesmo em dois vasos comunicantes tão afastados um do outro lugar quanto se queira. mas também para que o movimento possa continuar indefinidamente. do céu. Análise do relógio para compreender bem toda a estrutura. com enxofre e nitrato. Mas foi necessário compor este instrumento de peças móveis e de peças imóveis. do conduzir a água para qualquer lugar.COMENIUS outros instrumentos de sopro. deve­se à arte. precisamente como o mundo. 5. as várias rodinhas. Experimentou­se então fazer aquedutos com canos. Observou­se que a água tende a nivelar­se. primeiro corpo fixo do mundo. por isso. não somente para que uma seja arrastada pela outra. Compreendeu­se que a substância que desencadeia das nuvens um fragor e arremessa fogo e pedras é nitrato inflamado e enxofre. fabrica­se a pólvora pírica que.ebooksbrasil. Este fato é artificial. Em conseqüência disso. guarnições. seja de que profundidade for. do medir o tempo 6. inflamando­se e saindo para fora dos canhões. e viu­ se que a água. juntamente consigo. 6.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . à sua imitação. foi necessário tomar emprestada da natureza a força geradora do www. colunas. à sua imitação. aos relâmpagos e aos raios. Mas como não se podia dar a uma roda a tarefa de girar sobre si mesma e de fazer girar. no lugar da terra. desde que desça de um lado tanto como sobe do outro. que aconteça desta ou daquela maneira.

html 109/357 . e. de modo algum pode errar­se»[2]. que desejamos seja a regra universal perfeita na arte de tudo ensinar e de tudo aprender. ou se faz uma longa mola de aço que. movida apenas por dois dentinhos. De tudo isto. Poderia. aquela que. ou do quarto de hora. faz surgir ou desaparecer o inverno. ao realizar esta ou aquela tarefa. que servem para aumentar ou diminuir o movimento. ou seja. as experiências não são muito seguras e o juízo www. por isso. ou se prende um peso ao eixo cilíndrico da roda mestra e. mediante o movimento das esferas celestes. opor­se a esta nossa grande esperança o aforismo de Hipócrates: <grego> isto é.COMENIUS movimento. o verão e o outono.org/eLibris/didaticamagna.ebooksbrasil. Temos precisamente essa esperança. Com base sólida neste princípio. E para que o movimento do relógio não seja excessivamente rápido. prosseguiremos de modo igual a ela.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . ligam­se aparelhos. tic­tac. os momentos oportunos passam depressa. juntamente consigo. Com efeito. é evidente que a ordem. «A vida é breve e a arte é longa. mas lento como o do céu. a primavera. E acrescenta: «Sob a direção da natureza. Àquela parte. que vai e vem. encaixam­se outras rodinhas de modo que a última. Conclusão acerca da imitação dos fatos naturais na arte didática. faz girar o eixo cilíndrico e a sua roda. pondo em ação os mesmos processos que a natureza põe em ação. representa o revezar­se da luz. feitos segundo as regras da arte. que deve dar o sinal da hora. vai para a frente e para trás e faz tic­tac. o revezar­se dos dias e das noites. nunca erraremos». precisamente do mesmo modo que a natureza. porém. enquanto o peso puxa para baixo. as coisas artificiais procederão tão facilmente e tão espontaneamente como facilmente e espontaneamente fluem as coisas naturais. e esta faz girar. no entanto. outras. enquanto se esforça por regressar à liberdade e por se estender. constrangida a volver em redor de um eixo cilíndrico. e assim sucessivamente. cada um deles dividido em meses. o eixo cilíndrico gira e faz girar a sua roda. consoante a necessidade. ou seja. o movimento gerado ou pela gravidade ou pela liberdade. Objeta­se com cinco obstáculos. 7. 8. Cicero escreveu: «Se seguirmos a natureza por guia. não deve ser procurada e não pode ser encontrada senão na escola da natureza. Com efeito.

por meio de longas observações e de repetidas experiências. assim ordenou. A imensa multidão das coisas que devem ser objeto do nosso conhecimento. freqüentemente fornece mais ocasião para coisas frívolas que para coisas sérias. já não sabemos fazer bom uso da vida. e o fim se anuncia desde o momento em que temos origem[5]. nos perdemos atrás de frivolidades. que são os mais preciosos para a cultura do espírito. e a idade que vem a seguir. Se todas estas coisas são verdadeiras. Neste aforismo. passa antes que dela se aproveite)[4]. mesmo agora que morremos quase no instante em que nascemos. Deus deu­nos. converter­se em bem. que aconteceria se tivéssemos a certeza de viver centenas ou milhares de anos? www. ao mesmo tempo. fiquemos na casca e não penetremos até ao âmago das coisas. não terminemos mais. a querermos introduzir tudo dentro dos limites do nosso entendimento. como é que nós ousamos prometer um método de estudos tão universal. na presente corrupção.html 110/357 . (Efetivamente.org/eLibris/didaticamagna. com sábio conselho. III. efetivamente. se alguma vez surge.COMENIUS acerca dos fatos é difícil»[3]. Responde­se: Que Deus. na multiplicidade tão intrincada das coisas. porque. a maioria das vezes. aqueles obstáculos foram criados pelo sapientíssimo árbitro das coisas. Efetivamente. A brevidade da vida que faz com que. e. A falta de tempo oportuno para aprender as artes e as ciências. tão fácil e tão seguro? Respondo: que estas coisas são absolutamente verdadeiras. passam­se. mostra­o também a experiência. V. facilmente muitíssimos fatos podem escapar até à investigação de observador mais sutíl. A fraqueza do nosso engenho e a obscuridade do nosso juízo que fazem com que. quer penetrar nas verdadeiras essências das coisas. se se comete ainda que seja um só erro.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .ebooksbrasil. prudentemente. e se. Com efeito. por Deus. mas que. toda a observação fica envolta na incerteza). portanto. sejamos tirados deste mundo precisamente quando nos preparamos para viver. 9. uma vida de breve duração. podem. tão certo. se. em divertimentos. mostra­o a experiência. Finalmente. são indicados cinco obstáculos por causa dos quais poucos conseguem chegar à sumidade do saber: I. mas para nosso bem. se apresenta alguma ocasião favorável. para estas coisas. a maioria das vezes. (Com efeito. II. de êxito mal seguro e incerto. que faz com que. dado como a vida está hoje organizada. muitas vezes. vê­se perante um trabalho muito penoso e. há remédios eficacíssimos. logo desaparece. IV. por vezes. se alguém. os anos da juventude.

nem encontrada com doçura». Nao poderão afastar­se senão: I. www. nem a verdade seria procurada com paixão. conceder­nos apenas o tempo que considerou suficiente para nos prepararmos para uma vida melhor. onde as pudéssemos agarrar.ebooksbrasil. se podem afastar os obstáculos que a divina Providência nos opôs extrinsecamente. Deus quis que as coisas fossem muitas. IV. se a soubermos utilizar.org/eLibris/didaticamagna. ver de que modo. por isso. também para utilidade nossa. Quis. E quis que assim fosse. diz Santo Agostinho. para nos servirem de ocupação. a vida é suficientemente longa. para aumentar a nossa aplicação. isto é. apercebendo­ nos disso. que emitir juízo acerca das coisas fosse difícil. para que aprendêssemos a estar atentos e víssemos a necessidade de entrar bem a fundo nas coisas.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . se tornasse mais manifesta com maior prazer nosso. de exercício e de instrução. de modo que chegue para a carreira que nos foi destinada. II. Importa. 12. «Efetivamente. Para este efeito. espalhada de maneira oculta por toda a parte. portanto. Quis que as ocasiões fossem fugazes para que.COMENIUS I Deus quis. 11. nos esforçássemos por agarrá­las. V. portanto. enfim. 14. 13. III. com a ajuda de Deus. se se entendesse tudo facilmente. 10.html 111/357 . para que se trabalhasse com maior empenho e com mais forte espírito de iniciativa. Prolongado a vida. Quis que as experiências fossem falazes. para que a sabedoria de Deus. Estes obstáculos podem prudentemente ser afastados.

de modo que correspondam à duração da vida. todavia. Ordem dos capítulos seguintes. a fim de que se aprenda facilmente. III. www. colocando. com a ajuda das indicações fornecidas pela natureza. em último lugar.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . — para abreviar os estudos. a tratar estas questões. o modo de abreviar os estudos. a fim de que se aprenda tudo o que é necessário. Abreviando os estudos. 15. descobramos os fundamentos: — para prolongar a vida.org/eLibris/didaticamagna. de modo que não surjam IV. — para aproveitar as ocasiões.ebooksbrasil. de modo que facilmente penetrem no âmago das coisas. portanto.html 112/357 . a fim de que se aprenda mais rapidamente. Despertando os engenhos. V. — para despertar os engenhos. Comecemos. para que. a fim de que se aprenda realmente.COMENIUS II. Aproveitando inutilmente. Colocando no lugar das observações vagas um fundamento estável e seguro. — para aguçar o juízo. as ocasiões. Trataremos estas cinco questões em cinco capítulos. a fim de que se aprenda solidamente.

aos corvos e a outros animais. em parte porque nos entregamos à violência. Mas é por nós abreviada. até aos cento e vinte anos. E acrescenta: «Foi­nos concedida numa vida suficientemente longa e suficientemente ampla para conduzir a bom termo as coisas mais importantes. pois nós próprios a gastamos perdulariamente. quer debilitando­lhe as forças. I e II). mas desperdiçamo­la.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Se alguns morrem antes destes limites (e quem ignora que muitos morrem na infância. tem em si tanta força vital que lhe basta naturalmente até aos sessenta anos. 2. E não devemos admirar­nos com isto. Aristóteles[1] e Hipócrates[2] lamentam­se da brevidade da vida e censuram a natureza por haver destinado uma duração tão curta à existência do homem. Um escritor notável (Hipólito Guarino) escreve e demonstra com argumentos que. como efetivamente é. porque gastamos os retalhos de tempo em coisas inúteis.ebooksbrasil.org/eLibris/didaticamagna. Se isto é verdade. Se se souber fazer bom uso da vida ela é longa». cometendo excessos vários ou não tendo em www. de modo que necessariamente a vida se extingue antes do seu termo natural. se vem à luz sem defeitos.COMENIUS Capítulo XV FUNDAMENTOS PARA PROLONGAR A VIDA Ao homem é concedida uma vida suficientemente longa. nem temos menos que o necessário de vida. e aquele que é de constituição fortíssima. então é por culpa nossa que a vida não chega nem sequer para esclarecer os assuntos da mais alta importância. que é chamado a tão altos destinos. mesmo o homem de mais delicada constituição.html 113/357 . cap. é por culpa dos homens que. 1. mas tornamo­la breve. na juventude e na idade viril?). enquanto que concedeu maior longevidade aos veados. Mas Sêneca responde sabiamente: «Não recebemos uma vida breve. e em parte. 3. desde que seja toda ela bem empregue» (Da brevidade da vida.

mas elevou­se de tal modo. mostrar com o seu exemplo (uma vez que toda a sua vida é alegórica) que. todos os dias. portanto. sujeitando­o. Não devemos. 50. contra Deus. antes de terem atingido os anos da virilidade. que acaso venham a gerar. E. o próprio Senhor Nosso Jesus Cristo. façamos de modo que a vida. quando o espírito conseguiu o seu próprio bem e se tornou senhor de si mesmo». e apressam a morte[3]. que. meu caro Lucílio.. realizou a grande obra da Redenção. querendo.COMENIUS consideração as reservas da vida. se é plena. Neste lugar. como fizeram: Alexandre Magno. não tanto com a força das armas. Além disso.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . mais cedo ou mais tarde. acima de tudo o que a inteligência humana pode atingir que foi considerado uma maravilha do seu século. desde que se saiba fazer bom uso do tempo. mas tinha vencido todo o mundo. e até o próprio Cristo. Exprobamos. para não citar outros exemplos. como uma pedra preciosa. como com a sabedoria dos seus planos e com a sua espantosa rapidez em executar as empresas <grego> Pico de Mirandola. Que mal há em sair cedo de um lugar de onde. queixar­nos da brevidade da vida. lhe bastam para se preparar para a eternidade. Meçamo­ www. num exíguo espaço de vida (por exemplo. ninguém. E atinge a sua plenitude. qualquer que seja o número de anos que caiba viver ao homem.ebooksbrasil. sem dúvida. no estudo da sabedoria. quer não a gastando toda em empreendimentos de valor.html 114/357 . embora tivessem tido uma vida longuíssima. não posso deixar de referir as áureas palavras pronunciadas por Sêneca (Carta 94) a este propósito: «Tenho encontrado muitos a recalcitrar com razão contra os homens. arruinam tanto a sua própria saúde como a dos filhos. mas um grande valor. tens de sair? A vida é longa. e não só possuía uma cultura prodigiosa.. 6. não tenha uma grande dimensão. chegaram onde outros nem sequer tentaram chegar. 40. embora não tivesse vivido sobre a terra mais que 34 anos. João Pico de Mirandola não chegou sequer à idade de Alexandre[4]. 4. 5. é possível realizar coisas muito importantes. prova­o o exemplo daqueles que. E acrescenta: «Suplico­te. Alexandre Magno morreu aos trinta e três anos.org/eLibris/didaticamagna. 30 anos). o destino.

onde fomos colocados pela benignidade de Deus. Contra os lamentos sobre a brevidade da vida. não a meta mais longínqua. contemplando as imagens abstraídas das coisas. mesmo que seja de breve duração. portanto. nem agir. Se. Defender o corpo das doenças e da morte. ora do outro.org/eLibris/didaticamagna. nem ver.html 115/357 .ebooksbrasil. Efetivamente. 2. e mesmo que se arruine. Queres saber durante quanto tempo. é necessário ter atentos cuidados com este tabernáculo que é o corpo. Daqui resulta www. porque nada pode ser objeto da inteligência que primeiro não tenha sido objeto dos sentidos. Dois remédios. eis. a alma é obrigada a emigrar imediatamente deste mundo. E logo a seguir: «Louvemos. e coloquemos no número dos felizes aquele que empregou bem o pouco de tempo que lhe foi concedido. ou seja. Porque devemos preservar o corpo das doenças? Porque ele é: 1. Segundo: porque o corpo foi feito. a mente recebe dos sentidos a matéria de todos os seus pensamentos e não pode desempenhar a função de pensar senão por meio da sensação interna. se quer estar o mais tempo possível e o melhor possível. sem ele. a alma. 8. Temos o dever de manter o corpo ao abrigo das doenças e das recaídas: primeiro. porque ele é a habitação. mas a mais elevada»[5]. Aquele que aí chega. por meio de rupturas que se abrem. para nós e para os nossos filhos (e também para as escolas). assim também a vida pode ser perfeita. sente a habitação incômoda. II. o seu hóspede. A duração da vida é uma coisa externa. não só para habitação da alma racional. I.COMENIUS la pelas ações. 7. estes dois remédios: — esforçar­se tanto quanto possível por: I. ao máximo. E de novo: «Assim como um homem pode ser perfeito. ela nada pode ouvir. Dispor a mente a fazer tudo com sensatez. e a única habitação da alma. porque viu a verdadeira luz e não foi um de tantos como há por aí. e. nem sequer pensar. no palácio do mundo. pouco a pouco. mesmo que seja de pequena estatura. se deveria viver? Até ao momento em que se tenha adquirido a sabedoria. e não pelo tempo». se o corpo se arruina. ora de um lado. a habitação da alma. e viveu verdadeiramente e em pleno vigor». portanto. por isso. atinge. o órgão da alma.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . mas também para seu órgão.

só os médicos podem falar com autoridade.COMENIUS que. Mas. de humidade continua. dos quais é impossível que não provenham doenças: «muitos morreram por voracidade. Tem necessidade de humidade. torna­se seco. Efetivamente. a má digestão. e se os membros do corpo estão doentes. Como. danificando o cérebro. E a regra da dieta ensina­se com o exemplo de uma árvore que tem necessidade: 1. de transpiração freqüente. jovens de sangue real. em geral. porque sem ela definha e seca. não é necessário apenas tomar alimentos comedidos. Por natureza. mas o homem sóbrio prolongará a vida» (Eclesiástico. e. mas com o líquido que convém a todos os vegetais. 3. por conseqüência. e morre de fome e de sede. foram considerados mais ágeis e mais www. Por isso. de repouso alternado. que os pais evitem habituar as crianças às substâncias excitantes. com água. ou seja. O nosso corpo mantém­se vigoroso por meio de uma dieta moderada. Com quanto mais moderação se ministrar os alimentos. mas o alimento não deve ser excessivo. sem ele. 37. a fim de que as funções digestivas não fiquem sobrecarregadas e oprimidas. 1. vê­se obrigado a espalhar pelos órgãos humores pouco ou nada digeridos. 10. e simples. porque o estômago fica tão cheio que não é capaz de digerir.ebooksbrasil. mas importa que a humidade seja moderada. 9. o corpo tem necessidade de alimento. acerca deste assunto. porque não foi escrito por mero acaso que Daniel e os seus companheiros. mas também alimentos simples. as doenças. pois. portanto. dos maus humores. numerosos são aqueles que arruinam as forças e a vida por excesso de alimento. se é excessiva. de um alimento moderado. 34). faz apodrecer as raízes.org/eLibris/didaticamagna. danifica­se a faculdade imaginativa. consagrados aos estudos. não se toma isto em consideração. Do mesmo modo. porque. particularmente as que são destinadas a seguir os estudos. O jardineiro não rega uma planta. da má digestão. faremos apenas algumas observações. tanto mais fácil e perfeita será a digestação. para manter o vigor da saúde. 2. Mas. com vinho ou com leite. por mais delicada que ela seja. De que modo? Por meio de dieta. é afetada também a mente. Por isso. servindo­nos do exemplo de uma árvore. Importa. o poeta teve razão em dizer: «Deve pedir­se uma mente sã num corpo são»[6]. os maus humores. embora se alimentassem com legumes e água.html 116/357 . a árvore tem necessidade de três coisas. do excesso de alimentação. a morte vem das doenças.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .

Mas é necessário. portanto. Naturalmente não é necessário que esteja sempre a produzir rebentos. prudente interromper também os trabalhos diurnos para respirar um pouco e entregar­se a conversas. 3. Destas três coisas (escupulosamente observadas) depende a conservação da vida. onde os sentidos externos e internos encontram repouso e prazer. para evitar o perigo de que trabalhem constrangidos pela violência. É.org/eLibris/didaticamagna. deve trabalhar também no seu interior. 12. www. digerir os sucos. de ginástica. música e outras coisas semelhantes. portanto. e também à própria terra: e para este efeito ordenou por meio de leis que. se desse repouso à terra (Levítico. Finalmente. languesce e morre. o que é mais. o corpo humano tem absoluta necessidade de movimento. 25. falarei mais pormenorizadamente noutro lugar[7]. para que. a qual é inimiga da natureza. 22 e ss. quer com o sono. de exercícios sérios ou de jogos. dar certo alívio. 11. tanto ao corpo como à mente. 1. se recuperassem as forças perdidas com as ocupações do dia. Doutro modo. por meio de intervalos. Uma grande parte. as chuvas e o frio. quer ainda com a conservação dos membros em repouso. Uma árvore tem necessidade também de transpirar e de se robustecer freqüentemente mediante os ventos. de quando em quando. 3 e 4). Se alguém observa estas três coisas (alimentar­se sobriamente. exercitar o corpo e ajudar a natureza). renovar as suas forças. criou a noite para os homens (e para os outros animais). da transpiração freqüente. 2.).html 117/357 . precisamente para dar repouso a todos os seres que crescem sobre a terra.ebooksbrasil. com qualquer recreação menor. por este meio. mais inteligentes que os outros. 13. e.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . a árvore tem necessidade de repouso. jogos. E Deus quer que ao verão suceda o inverno. de uma boa organização escolar deverá ser procurada numa conveniente repartição do trabalho e do repouso. que comiam as delícias da mesa do rei (Daniel. de repouso alternado. Do mesmo modo. brincadeiras. das férias e dos recreios. De modo semelhante. de tempos a tempos. salvo caso de força maior. Mas.COMENIUS gordos e. mas. de uma hora. acerca destas coisas. todos os sete anos. é impossível que não conserve durante muitíssimo tempo a saúde e a vida. flores e frutos.

crescem um pouco. Importa falar agora do modo de utilizar prudentemente o tempo que resta e que deve ser consagrado ao trabalho.. Importa utilizar bem o tempo de trabalho. oito horas para as ocupações externas (por exemplo. O dia natural tem 24 horas. É certo que em tão grande espaço de tempo. uns mais grossos e outros mais delgados. E há­de parecer impossível que. após trinta anos. É uma prova evidente disso o modo como crescem as árvores.html 118/357 . etc. em cada ano. observa­se que cresceram tanto que são já árvores muito grandes.COMENIUS II. adverte­o facilmente. A força do progresso é maravilhosa. Repartição exata do tempo. para comer.. e. segundo as necessidades da vida. após trinta anos. podemos aperceber­nos que crescem. todos os meses. em pouco tempo. vinte. em cada ano. que não é diversa a regra seguida pela mente que procura adquirir conhecimento das coisas. mas vemos que cresceu. divididas em três partes. ao crescer em estatura. de dias e de horas. para tratar da saúde. tens construída uma montanha. enquanto. as quais. e folhas e flores e frutos inumeráveis. e. Todas as semanas. Quem não ignora a força do progresso. temos 48 horas destinadas ao trabalho. desde que se ande. com ardor e com alegria. mas vê­se que. Trinta anos? Parece coisa insignificante e fácil de dizer. para conversar com os amigos.org/eLibris/didaticamagna. 15. 14. e em dez. porque isso se faz. as quais. E. nem mesmo com a vista mais perspicaz. Com efeito. por isso (sendo o sétimo dia completamente dedicado ao repouso). pode fazer­se muitas coisas. em vinte ou trinta anos. 16. para recreações honestas. ainda que se ande muito devagarinho.ebooksbrasil. pouco a pouco e insensivelmente. mas trinta anos compreendem um bom número de meses. 2495. trinta anos? www. dão: oito horas para o sono. de cada rebento desponta apenas um raminho. provam­no estes versos conhecidos: Acrescenta a uma pequena quantidade mais um pouco e ainda um pouquito.) e oito horas para enfrentar as ocupações sérias. o esforço do homem chegue a qualquer altura e a qualquer distância? Examinemos um pouco este problema. segue a mesma regra: não o vemos crescer. para vestir. uma árvore terá mil ramos.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . O nosso corpo.

Se. É disso que vamos agora falar. se se emprega toda bem»[9]. em cada hora. e chega para levar a bom termo as empresas mais importantes. 18. Sêneca disse com razão: «Se soubermos fazer bom uso da vida.ebooksbrasil. se aprender um só teorema de qualquer ciência. ou uma regra de uma arte prática. Por isso. www.html 119/357 . ou uma história interessante. que tesouro de instrução se conseguirá adquirir?! Conclusão. ou uma máxima sábia (e é evidente que isto se pode fazer sem nenhuma fadiga). ela é suficientemente longa. 17.org/eLibris/didaticamagna.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .COMENIUS A vida chega para juntar grandes tesouros de instrução. Tudo está em saber empregá­la toda bem.

morre a maior parte das plantazinhas. E. 26 e ss. COMO SE DEVE ENSINAR E APRENDER COM SEGURANÇA. Quem ignora que. sem que o homem disso se aperceba. ISTO É. e onde e quando e como.ebooksbrasil. o crescimento e o incremento virão por acréscimo. e. e a semente brota e cresce sem ele saber como. para semear e plantar. o Salvador mostra que Deus é que faz tudo em todas as coisas. Por isso. depois a espiga. ele é prudente.html 120/357 . 1. que ignora a arte de semear um jardim. ao contrário.). Como devem crescer também as coisas artificiais. É bela aquela parábola de Nosso Senhor Jesus Cristo. 4. e sabe o que deve fazer e o que deve deixar de fazer.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . e por último o trigo grado na espiga. quando o fruto está maduro. se algumas crescem bem. ao jardineiro. e que ao homem deixa também apenas o cuidado de receber fielmente no coração as sementes daquilo que lhe ensina. e que dorme e se levante noite e dia. mete logo a foice. 3. DE MODO QUE SEJA IMPOSSÍVEL NÃO OBTER BONS RESULTADOS As coisas naturais crescem espontaneamente. trabalha com empenho. Se. aqueles que instruem e educam a juventude não têm outra obrigação além de semear habilmente na alma dos jovens as sementes daquilo que têm de ensinar.COMENIUS Capítulo XVI REQUISITOS GERAIS PARA ENSINAR E PARA APRENDER. e de regar cuidadosamente as plantazinhas de Deus. se exige uma certa arte e uma certa habilidade? Na verdade. isso depende mais do acaso que da arte. referida pelo evangehsta: «O reino de Deus é como um homem que lança a semente à terra. 2. com certeza que não há o perigo de ele www. A perícia de plantar está na arte. Porque a terra por si mesma produz primeiramente a erva. porque está chegado o tempo da ceifa» (Marcos.org/eLibris/didaticamagna. Nesta parábola. Deus as fará germinar e crescer todas até ao seu pleno desenvolvimento.

conduzirei este jovem até este ponto. no capítulo XIV). 4. FUNDAMENTO I Fundamento I da natureza: www. de fato.ebooksbrasil. E se. servindo­nos do exemplo de uma ave que faz sair dos ovos os seus filhos. que são o objetivo do nosso estudo. para delas deduzir as nossas regras. esperamos que. são conhecidas. e deixá­lo­ei instruído desta ou daquela maneira. com certeza e sem erro possível. facilmente veremos como é que eles devem também ser imitados pelos formadores da juventude.». as coisas que tomamos como exemplo. E porquê assim? 6. os pintores e os arquitetos seguem felizmente os vestígios da natureza. observando como os jardineiros. as operações desta arte com as normas que regulam as operações da natureza (como vimos já.COMENIUS fazer qualquer coisa inutilmente. até hoje. ao progresso intelectual. com o máximo cuidado possível. ser nulo mesmo para os peritos (porque é quase impossível ao homem fazer tudo com tanta lucidez que não seja. porém. demasiado conhecidas e demasiado mastigadas. que se fazem com êxito no campo da natureza e da arte (fora das escolas). mas da arte de prevenir os acasos com prudência. Se a alguém estas coisas parecerem demasiado vulgares. por vezes. precisamente por isso. O método de educar deve basear­se na arte. O resultado pode. etc. Uma vez que. coisas menos conhecidas. também as nossas conclusões serão mais evidentes. Vê­lo­emos fazendo um paralelo entre as coisas materiais e as coisas artificiais.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .org/eLibris/didaticamagna. todavia. induzido em erro). perscrutemos os caminhos da natureza. uma ou outra vez. não falamos nem da prudência nem do acaso. de uma ou de outra maneira. o método de educar tem sido tão vago que dificilmente alguém ousaria dizer: «eu. lembre­se que pretendemos precisamente deduzir de coisas correntes e comummente conhecidas. importa ver se esta arte de plantar nos espíritos pode basear­se num fundamento tão sólido que conduza. em tantos anos. Mas. e.html 121/357 . Neste momento. 5. como este fundamento não pode consistir senão em conformar.

na parte mais quente do ano. quando a temperatura está ainda muito fria. juntamente com o sol. nessa altura. nem durante o outono (porque a seiva se retira para as raízes). Nas escolas. Não planta durante o inverno (porque. quando tudo está quente e se estiola. 7. quando a vitalidade de todas as coisas. cozer os tijolos. nem no verão (porque a seiva está já dispersa pelos ramos). está para surgir. quando o sol volta a dar vida e vigor a todos os seres.org/eLibris/didaticamagna. está em decrescimento. a partir das raízes. A natureza espera o momento favorável. para multiplicar a sua raça. a seiva está de tal modo aderente às raízes que não pode subir para alimentar os ramos). Não organizando cuidadosamente os exercícios de modo a que eles se desenrolem todos. peca­se. etc. abrir os alicerces. e o inverno. levantar os muros. Efetivamente. 8.. quando a seiva.. põe­nos no ninho. e ainda que a planta tem o seu tempo de abrolhar. mas durante a primavera. de amadurecer os frutos. deve cortar a madeira. o tempo de estrumar. segundo uma regra fixa. de florir. etc. não começa a trabalhar no inverno. abre­os. a fim de que. é necessário fazer qualquer coisa à volta das plantas. e. Nos jardins e em arquitetura é bem imitada a arte. pois. 9. de mondar. necessariamente. de podar. Também o jardineiro tem a preocupação de nada fazer fora de tempo. onde estão resguardados do frio.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . quando tudo está frio e inteiriçado.html 122/357 . II. a sua criatura se habitue à luz e ao calor. quando o tempo lho permite. Depois.COMENIUS Nada se faz fora do tempo. e as partes superiores da planta começam a apresentar vegetação. de dois modos. nem no verão. www. finalmente. quando o ar começa a aquecer. pouco a pouco. Por exemplo: uma ave. pelo que deve conhecer­ se o tempo oportuno de todos os trabalhos. inimigo das coisas novinhas. rebocá­los. começa a circular. Nas escolas verifica­se um duplo desvio relativamente a este modelo.ebooksbrasil. nem no outono. ou seja. mas na primavera. O arquiteto faz o mesmo. etc. a ave concebe os ovos e conserva­os no corpo. Não aproveitando o momento favorável para exercitar as inteligências. contra este fundamento: I. a pouco e pouco.

faz o ninho.a puerícia assemelha­se à primavera. III. Que as horas da manhã são as mais favoráveis aos estudos (porque. o arquiteto prudente.html 123/357 . a idade viril. só a muito custo podem concentrar­se. a velhice. Tríplice correção. a noite. antes de começar a introduzir­ lhe uma forma. Imitação. ao outono. de modo a não dar a aprender senão as coisas que os alunos sejam capazes de entender. Concluímos. ao inverno). porque a raiz da inteligência está ainda profundamente apegada ao chão.ebooksbrasil. choca­os. dispersas pela variedade das coisas.org/eLibris/didaticamagna. então. Da mesma maneira.COMENIUS Efetivamente. portanto: I. ao outono. de cal. e assim forma a sua criação e a faz sair da casca. finalmente. depois. também aqui. isto é. é demasiado tarde para instruir o homem. Por exemplo: a ave que quer produzir uma criatura semelhante a si. II. para que www. instruir na idade juvenil. de ferro e de outras coisas necessárias. FUNDAMENTO II Fundamento II: A matéria antes da forma. porque a inteligência e a memória estão já em regressão. 11. porque as forças da inteligência. 12. Importa. leva para o local montes de madeira. Durante a velhice. o meio dia. 10. Que a formação do homem deve começar na primavera da vida. A natureza prepara a matéria. quando o vigor da razão e da vida está em pleno crescimento. todas as faculdades crescem e lançam profundas raízes. a manhã corresponde à primavera. ao inverno). Que tudo o que deve aprender­se deve dispor­se segundo a idade. enquanto setá na primeira infância. onde põe os ovos. a juventude. portanto. No meio da vida. a criança.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . antes de começar a construção de um edifício. primeiro concebe­a em estado de embrião a partir de uma gota do seu sangue. a tarde. não pode ser instruída. é difícil. ao verão. ao verão. (Na verdade. na puerícia. de pedra.

porque não se preocupam em ter sempre preparados todos os utensílios — livros. quando se não tem ainda o material para ordenar. procede de um modo que é digno de dó. da física. as cozesse. pecam as escolas: Primeiro. mistura as cores. De igual modo. à procura de ervas e de raízes. Quase por toda a parte. coisa a polpa. através dos jardins e das florestas. mesmo nos livros que as escolas possuem. procura ter à mão os mergulhões..html 124/357 . os rebentões e todos os utensílios.org/eLibris/didaticamagna. a fazem. www. todas as vezes que tivesse de ministrar um remédio. e. prepara o fundo do quadro. etc. pinta. de modo que venha primeiro a matéria e depois a forma. quando era indispensável que tivesse à mão os remédios apropriados para cada caso. etc. pois estas são objeto tanto da inteligência como do discurso.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . com perda de tempo. somente depois. — para deles se servirem quando for preciso. etc. mas só quando esta ou aquela coisa é precisa. Também o jardineiro. porque. mas tendo a preocupação de começar a partir das coisas. que quer pintar qualquer coisa.COMENIUS depois os trabalhos não sejam atrasados por falta de materiais ou para que a solidez da construção não fique prejudicada. etc. embora seja impossível ordenar. estende­a na moldura. modelos. prepara a tela. Aberração. o pintor.. uma vez que as coisas são a substância e as palavras os acidentes. as distilasse. os alunos a aprender as regras da retórica. Segundo. corresse de cá para lá. amostras. pois obrigam. (1) As escolas ensinam a fazer um discurso antes de ensinar a conhecer as coisas sobre que deve versar o discurso. 13. coisa o corpo. deve ser ao mesmo tempo que estas coisas hão­de ser apresentadas à inteligência humana. não sei quando. mapas. finalmente. só então a procuram. os admitem ao estudo das ciências positivas (studia realia). ou a copiam. põe os pincéis ao alcance da mão e. quadros. e todas as vezes que o professor inexperiente ou negligente (e a raça destes é sempre a mais numerosa) se encontra nestes casos. durante anos. 14. Contra este fundamento. é o contrário que se faz: apresenta­se a ordem das coisas antes das próprias coisas. precisamente como um médico que. palavra a pele e a casca. ou a ditam. Mas. antes de começar a plantação.ebooksbrasil. não é observada a ordem natural. É o que demonstrarei com a ajuda de quatro exemplos: 15. da matemática. para não ter de procurar as coisas necessárias durante o trabalho. palavra o adorno.

III. nas enciclopédias.COMENIUS 16. mas um objeto tal que seja possível fazer sair dele uma avezinha. ou seja. ao menos. e aquelas o método das coisas. põe lá um ovo. (3) No mundo das disciplinas. 17. FUNDAMENTO III Fundamento III: A matéria deve ser tornada apta para receber a forma. mas a partir de autores apropriados. V. e só depois se ilustram com exemplos. ordenar e associar os vocábulos. porque não se principia por qualquer autor ou por qualquer dicionário convenientemente ilustrado. Resulta de tudo isto que. isto é. vêm as ciências e as aplicações. e a gramática apenas acrescente a forma. para corrigir radicalmente o método. por toda a parte. 19. Formar a inteligência antes da língua. Ter à mão os livros e todo o restante material escolar. Se no ninho cai qualquer pequena pedra ou outro objeto qualquer. é necessário: I. lança­o fora. Dar exemplos antes de ensinar as regras. a respeitosa distância. 20. não obstante estas conduzirem a aprender as coisas. 18.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . como coisa www. A natureza toma um sujeito apto para as operações que ela quer realizar ou. embora os autores (e os dicionários também. as artes colocam­se em primeiro lugar e. (4) Enfim. enquanto que a luz deve preceder a pessoa a quem se quer iluminar o caminho. Não aprender nenhuma língua a partir da gramática. II. (2) Também no estudo das línguas se procede erradamente. mas pela gramática. IV. Por exemplo: uma ave não põe no ninho uma coisa qualquer para chocar. a seu modo) forneçam a matéria do discurso. os vocábulos. prepara­o para o tornar apto para isso. ou seja. ensinam­se primeiro regras em abstrato. só depois. Colocar as disciplinas positivas (reales disciplinas) antes das disciplinas linguísticas e lógicas (organicis)[1].org/eLibris/didaticamagna. as leis para formar. ou seja.html 125/357 .ebooksbrasil.

4. têm tentado enxertar os garfos do saber. antes de haverem despertado o desejo de aprender naqueles que. não as recebem todas nas escolas.ebooksbrasil. isto é. 22. depois de cortada a melhor madeira que pode adquirir. transporta­o para o jardim e planta­o com todo o cuidado. não estavam dele inflamados. segundo a nossa intenção. não o submete à delicada operação da enxertia. limpa­o.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Chocando a matéria contida no ovo. fá­la secar. da moral e da piedade. e. se primeiro não vê que lançou raízes. ou então restaura e reforça aqueles que existiam já. antes que a planta a enxertar tivesse lançado as raízes. Não transportam essas plantazinhas para as plantações. a fim de que nenhuma parte da seiva possa circular a não ser para tornar forte o garfo. Também o pintor. desbasta­a. III. raspando­os. Do mesmo modo. Aberração. isto é. não tanto porque recebem alunos imbecis e estúpidos (uma vez que.html 126/357 . serra­a. Não podaram as plantazinhas ou os mergulhões. e proveniente de uma planta frutífera. em primeiro lugar esforça­se por tornar melhor a tela e o fundo.org/eLibris/didaticamagna. II. aplaina o terreno. 2. não libertaram os espíritos das ocupações www. isto é. 3. Imitação 21. revira­a e forma­a até que esteja apta para sair do ovo. antes de os plantar. de modo a poder utilizá­los.COMENIUS inútil. mantém­na quente. antes de o enxertar. o jardineiro: 1. a seguir. 24. lança os fundamentos. se não tem uma tela suficientemente boa ou se o fundo do quadro não é próprio para as cores. As escolas têm pecado contra este fundamento. A maioria das vezes. de tal maneira que todos aqueles que devem ser formados para o ofício de homem não sejam despedidos da oficina antes da sua completa formação. por natureza. alisando­os e preparando­os de qualquer modo para o uso desejado. o arquiteto. 23. De igual modo. escolhe o mergulhão mais vigoroso que pode. devem receber toda a espécie de jovens). mas na medida em que: I. arranca­lhe os seus primeiros rebentos e corta­lhe parte do tronco.

Mas faz cada coisa no tempo e lugar devidos. II. Imitação. as veias e os nervos. Correção. mas procede distintamente. daqui para o futuro: I. muito menos. num dado momento põe em ordem os ossos. ensina­a a voar. Por exemplo: a natureza. Efetivamente. Conseqüentemente. não constrói ao mesmo tempo as paredes. Libertem­se os alunos de toda a espécie de impedimentos. constrangendo­os a ocupar o seu lugar por meio da disciplina e obrigando­os a manter­se em ordem. FUNDAMENTO IV Fundamento IV: Todas as coisas se formam distintamente e nenhuma confusamente. 28. Fundamento II). põe o teto. «de nada serve fornecer regras. embora nos intervalos prepare o fundo de outros quadros. 26. e noutro ainda. Dela falaremos no capítulo seguinte. Deverá dispor­se a inteligência dos alunos para o estudo de qualquer matéria que comecem a estudar. distende a pele. 29.html 127/357 . robustece a carne. A natureza não realiza as suas obras na confusão. III.ebooksbrasil. De modo semelhante. (Deste assunto trataremos mais amplamente no capítulo seguinte. noutro momento. recobre­a de penas. Também o pintor não pinta.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .COMENIUS supérfluas. como diz Sêneca. O arquiteto. noutro momento. vinte ou trinta retratos.org/eLibris/didaticamagna. ao mesmo tempo. todavia. Todo aquele que for enviado à escola deverá ser assíduo. ou faça qualquer outra espécie de trabalho. mas trabalha com atenção em um só. o seu principal trabalho é sempre um só. quando faz os fundamentos. noutro momento. porque. 25. enquanto forma uma avezinha. 27. se primeiro se não suprime o que constitui obstáculo às regras»[2]. o jardineiro não faz vários enxertos ao www. etc. É uma verdade. e.

html 128/357 . suplico­vos. mas fá­los um a seguir ao outro. para não cairmos. enquanto a dialética afina a mente. depois. é tão louco como isso? O sapateiro. pois. fazer. ao mesmo tempo. com firme propósito. antes que os pães estejam cozidos. e. nas escolas clássicas. varia a matéria das lições e dos exercícios? Mas. etc. o qual (talvez por recomendação de seu pai) nunca se ocupava senão de uma só matéria de cada vez e nela fazia incidir todas as forças da sua mente[3]. quem pensa em muitas coisas ao mesmo tempo arrisca­se a não compreender seriamente nenhuma delas. ora metesse no forno alguns pães. quem não sabe que. e sei lá mais o quê. para se não enganar ou para não estragar a operação da natureza. não sejamos importunados pela língua grega. tentou seguir. uma após outra. www. Ou como se um padeiro. e adquiriu tantos conhecimentos artísticos e científicos. Sabia­o bem o grande José Escalígero.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . ora os pusesse de parte. de uma maneira ou de outra. não mete no forno outra fornada. Por exemplo: gramática latina e gramática grega. Efetivamente. de entres eles. 32. seis ou sete pares de sapatos. e de tal maneira que era mais versado em todos esses conhecimentos que aqueles que se dedicam a um só. se tornou perito em catorze línguas. Que. de tal modo que fosse necessário que cada pão fosse metido e tirado do forno muitíssimas vezes. um após o outro. O padeiro. as suas pegadas. em embaraços. quase em cada hora do dia. e ora pegasse neles todos. não o fez em vão. se não é isto a confusão? É como se se metesse. os alunos se ocupem apenas de uma matéria de cada vez. também nas escolas. Quem. Ora nas escolas reina a confusão. enquanto nos ocupamos da língua latina. retórica e talvez ainda poética. Daqui resultou que. não começa outro. Aberração. quantos os que caem sob o domínio do engenho humano. antes de ter terminado um par de sapatos. portanto. na cabeça de um sapateiro.org/eLibris/didaticamagna. pelo fato de se querer meter na cabeça dos alunos muitas coisas ao mesmo tempo. Imitemos.. Mas quem. estes exemplos e abstinhamo­nos de querer ensinar a dialética a quem estuda gramática.COMENIUS mesmo tempo.ebooksbrasil. 30. ora os tirasse de lá. Correção. e. que é a confusão. que esta não seja perturbada pela retórica. 31.

Deste modo. em vez de uma faca. aqueles professores que querem realizar a formação da juventude que lhes foi confiada. não extrai essas substâncias através da casca. E precisamente por isso estragam os alunos. ou seja. 35. antes de as terem explicado devidamente. 34. A natureza começa cada uma das suas operações pelas partes mais internas. www. mas faz uma fenda que vai até ao coração da planta e aí encaixa. Erram também aqueles que as querem explicar. não sabem como descobrir. 33. a árvore alimentada com o alimento da chuva ou nutrida pela seiva do terreno.ebooksbrasil. como se alguém. mas alimenta­se através dos poros das suas partes internas.html 129/357 . Aberração. Também o jardineiro não aplica os garfos á casca pela parte de fora. isto é. 36. isto é. E os animais não ministram os alimentos aos membros exteriores. ditando muitas coisas e mandando­as aprender de cor. para fazer uma fenda numa planta. a inteligência. mas as raízes. ou seja. mas não sabem como. depois. ou as penas. e nela enxertar os garfos das coisas ensinadas. o mais profundamente que pode. para os fazer crescer vigorosos. as partes exteriores. É por isso que o jardineiro não costuma regar os ramos. que os prepara e os envia para todo o corpo. Erram. Igualmente. e finalmente aparecerão flores e frutos. facilmente o vigor passará para o seio do homem. para a memória. no seu tempo próprio. pouco a pouco.COMENIUS FUNDAMENTO V Fundamento V: Primeiro as coisas interiores. mas ao estômago. Correção. e tapa de tal maneira bem as junturas que a seiva não possa sair por nenhuma parte. mas as vísceras.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . os garfos bem adaptados. portanto. o uso corrente da língua e a prática das coisas. a raíz. nem os enxerta à superfície do «cavalo». utilizasse uma bengala ou um bate­estacas. Por exemplo: a natureza não forma primeiro as unhas. mas vá imediatamente para o interior dos garfos e neles infunda toda a sua força.org/eLibris/didaticamagna. ou a pele da ave. se o educador da juventude cultiva sobretudo a raiz do saber.

a língua e as mãos. em segundo lugar. em conformidade com esse plano. em terceiro lugar. finalmente. e o movimento produzido pelo calor dá nascimento a uma rede de veias que oferece o esboço de toda a avezinha (a cabeça. a natureza não começa por formar a cabeça. FUNDAMENTO VI Fundamento VI: Primeiro as coisas gerais. www. de um ovo. o plano geral de todo o edifício. na sua mente. em embrião). com um pequeno pincel. Imitando este fato natural. cada parte se desenvolve até atingir a sua forma perfeita. Por isso. ou os olhos. A seguir. formar­se­á a inteligência para a compreensão das coisas. ou desenha­o em perspectiva no papel.ebooksbrasil. os pés. esculturas. e. 40. a memória. cobre a construção com o telhado. 39. daqui para o futuro: I. etc. Em primeiro lugar. ou um olho. lança os fundamentos e levanta os muros. mas aquece toda a massa do ovo. Por exemplo: querendo. Também o pintor que quer pintar o rosto humano. ocupa­se das partes mais pequenas. e finalmente forma os membros com todos os pormenores e adorna­os com cores perfeitamente distintas. produzir uma ave. 38.html 130/357 . Depois. o arquiteto começa por conceber. tapeçarias. forma o fundo do quadro. ou as penas.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . não imagina nem pinta primeiro uma orelha. etc. e. se vê que as proporções estão exatas. mas mantendo­se sempre nas linhas gerais. as asas. as quais devem tornar a casa perfeita: as portas.. e. II. (O que investigaremos no capítulo seguinte). desenha os intervalos entre as sombras e a luz. as janelas. finalmente. mas esboça com o carvão o rosto (ou o homem inteiro). Imitação. acrescenta­lhe os ornamentos: pinturas. pouco a pouco. Por último.COMENIUS 37.org/eLibris/didaticamagna. ou as unhas. ou o nariz ou a boca. etc. O professor deverá procurar todos os caminhos de abrir a inteligência e fazê­los percorrer de modo conveniente. Depois disso. as bancadas. ou então faz um modelo de madeira. A natureza começa todas as suas obras pelas coisas mais gerais e acaba pelas mais particulares.

por fim. depois. Para evitar esta desordem. mas habitualmente ninguém faz esse estudo prévio. Daí se segue também que se ensinam mal as artes. De modo idêntico. uma tal coordenação das matérias que os estudos que. uma forma mais perfeita. pareçam nada trazer de absolutamente novo. pouco a pouco.COMENIUS 41. o qual pode. não nasce nenhum ramo novo. Aberração. de confrontos de autores e de controvérsias. 42. de gramática grega com os seus dialetos.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . os fundamentos de uma instrução universal. se seguem. de comentários. e. Igualmente. também numa árvore.html 131/357 .ebooksbrasil. bosqueja­o em redor. mas aqueles que nasceram ao princípio alongam­se constantemente e formam novas pequenas ramagens. De onde se segue que o ensino das ciências é mal feito quando é fragmentário e quando não começa por um prévio esboço geral de todo o programa. da retórica e da metafísica. para lhe dar de qualquer modo o aspecto de estátua. que se destinam aos estudos. e que ninguém pode ser perfeitamente instruído numa ciência particular. isto é. Correção 45.org/eLibris/didaticamagna. 43. Que na mente das crianças. são empanturrados de gramática latina com todas as suas exceções e irregularidades. eis o remédio: I. ainda que o seu crescimento se prolongue por mais de cem anos. isto é. pois. o jardineiro não toma senão o esboço geral das plantas. toma um tronco rude. Efetimente. se façam entrar. as ciências e as línguas. se se não começa pelos seus primeiros rudimentos. o escultor. De igual modo. e dá­lhe primeiro uma forma grosseira. os infelizes dos alunos vêem­se arrasados sob uma montanha de regras prolixas. de explicações aos comentários. que quer fazer uma estátua. o garfo. quase logo. mas sejam apenas um desenvolvimento pormenorizado das coisas anteriores. rasga­lhe de modo perfeitíssimo cada um dos membros e reveste­os de cores. www. apenas admitidos aos estudos da dialética. lançar tantos ramos principais quantos são os seus rebentos. se não tem uma visão geral das outras ciências. enquanto para lá estão atônitos e sem saberem para que tudo aquilo possa servir. 44. logo desde o começo da sua formação.

Efetivamente. em terceiro lugar. mas alimenta­a ela. a que se acrescentam as irregularidades. mas exercita­a pouco a pouco. mas também gradualmente. Imitação 47. nada por saltos. pois poderá. a tentar voar fora do ninho. mais completamente. primeiro a estender as asas dentro do ninho. com efeito. ajuda­a a cobrir­se de penas. não lhe coloca logo em cima o teto. Que qualquer língua. e. por meio de sistemas completos. para que se apreenda o seu plano geral.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . FUNDAMENTO VII Fundamento VII: Tudo gradualmente.ebooksbrasil. de uma árvore para outra árvore. e não só gradualmente. mas constrói as paredes. entrega­a com confiança ao céu livre.COMENIUS II. 48. É também necessário que o jardineiro faça os seus trabalhos gradualmente: é necessário. depois. nem pelas paredes. Numa palavra. Mas vê­se que cada uma destas coisas quer ser feita. mas perto. que escolha os rebentões www. por meio de regras e exemplos. e depois de um monte para outro monte. a formação de uma avezinha passa pelas suas etapas.org/eLibris/didaticamagna. finalmente. assim também todas devem estar conexas entre si segundo uma ordem determinada. as quais não podem ser ultrapassadas nem transpostas. continuando a aquecê­la com o seu próprio calor. até que a avezinha. A natureza não dá saltos. ciência e arte se ensine: primeiro. saia para fora.html 132/357 . por meio de rudimentos muito simples. depois. comentá­la por si mesmo. quebrada a sua prisão. depois. a voar de ramo em ramo. mas procede gradualmente. por meio de comentários. e. não só no momento preciso. feitos os fundamentos. mas pelos alicerces. e assim. e. portanto. finalmente. depois a movê­las esguendo­se acima do ninho. e. Assim procede quem edifica uma casa: não começa pela armação do telhado. quem aprende uma coisa a partir dos seus fundamentos. se isso for necessário. 46. já não tem necessidade de comentários. Transposta esta etapa. pouco depois. Assim. mas também segundo uma série imutável de graus. a mãe da avezinha não lhe ordena imediatamente que se ponha a voar e a procurar alimentos (porque ainda não pode). assim como todas as coisas se ajudam mutuamente. Quando as penas estão já crescidas. não a impele imediatamente a voar fora do ninho.

não o abandona senão depois de o haver terminado. e assim sucessivamente. dia e hora seja atribuída a sua tarefa especial. III. A ave. facilmente nasce a confusão e a desordem. é quase impossível que o seu trabalho não resulte bem. portanto: I. de modo que nada seja deixado para trás e nada seja invertido na sua ordem. os pode. de todas estas coisas. quando por instinto começa a chocar os ovos. FUNDAMENTO VIII Fundamento VIII: Não se deve parar. com efeito. Correção.ebooksbrasil. evidente que não pode chegar­se a qualquer resultado válido. pois. não pode deixar de fazer­se nem sequer uma só. mas também de maneira que cada uma seja necessariamente estudada dentro dos limites fixados. nem fazer uma quando deve fazer­se outra. se as faz gradualmente e cada uma no seu devido tempo. não deixa de os chocar até a sua eclosão. facilmente alguma coisa se inverte. 50. II. quando empreende um trabalho. E. se se não estabelecem as metas e os meios para atingir as metas e a ordem para aplicar os meios. que os transplante. Daqui paia o futuro. de modo que os primeiros abram e iluminem o caminho aos segundos. E. Aberração. 51.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Distribua­se meticulosamente o tempo. se os professores. mês. se deixasse de o www. facilmente alguma coisa fica para trás. não distribuem as matérias. A natureza.html 133/357 .org/eLibris/didaticamagna. de modo que a cada ano. Distribua­se cuidadosamente a totalidade dos estudos em classes. 49. no decurso do seu ensino e no decurso dos estudos dos seus alunos. portanto. pois. Observe­se estritamente esse horário e essa distribuição das matérias escolares. não somente de maneira que a uma se suceda sempre outra.COMENIUS e abra as covas. lhes enxerte os garfos e lhes recubra as comissuras. Torna­se. a não ser depois de terminada a obra. os fenda.

se quer que as tintas se harmonizem melhor e adiram mais solidamente. pois. em cada hora. se se deixa arrefecer. tudo se esfria. a não ser uma vez terminado trabalho. Daqui se infere que constitui um grande dano enviar as crianças à escola por intervalos de meses ou de anos e. pois. Com efeito. constitui também um grande dano se. cheias de vida e cobertas de penas. depois. o sol. Aberração. Da mesma maneira. uma vez começado o retrato. sem nunca levar nenhuma seriamente até ao fim.ebooksbrasil. que nelas permaneça até se tornar www. não cessa de as manter quentes.org/eLibris/didaticamagna. gasta­se mais um pouco de tempo e mais um pouco de ferro. Mesmo quando as avezinhas sairam já da casca.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . até que. Efetivamente. entretanto. se fende. Imitação. Correção. tem todo o interesse em prosseguir a sua obra até ao fim. 54. não a abandona. Também o jardineiro prudente. devendo necessariarnente voltar a recorrer­se ao fogo. o feto arrefeceria e morreria. é ótimo método levar a construção de um edifício do princípio até ao fim. empregá­las noutras ocupações. e aquelas coisas que depois se lhes juntam já se não agarram tão solidamente: tudo. não é por mero acaso que se diz que se deve bater o ferro enquanto ele está quente. sem interrupção. constitui um grande dano que o professor ora inicie o aluno nesta matéria ora naquela. de cada vez que ensina. todas as vezes que o ferro é metido no fogo. Quem freqüenta as escolas. se interrompe o seu trabalho e se demora terminá­lo. 53.html 134/357 a o a a . estejam aptas a suportar a impressão do ar. se greta e se estraga. ainda que fosse apenas por derminada algumas horas. depois de haver começado plantação. em vão será batido com o martelo. Finalmente. a chuva e os ventos estragam as paredes. 52. De igual modo. não propõe e não termina um programa determinado. Onde falta este fervor. e. para que. se verifique um real progresso. perde sempre algo da sua substância. 6. por outros intervalos. em suma. de outro modo. pois. o pintor. I.Portanto.COMENIUS fazer. De igual modo. a seiva dos rebentões e dos garfos evapora­se e planta seca. 55.

Deve fazer­se tudo segundo o programa estabelecido. afasta do ninho as serpentes. Aberração. protege­os do vento forte. honesto e religioso. da poeira e das mãos de estranhos um retrato ainda fresco. sempre que se levanta uma dúvida acerca da matéria que devem ainda estudar. logo no início do estudo de uma nova disciplina. Não deve conceder­se a ninguém (seja sob que pretexto for) autorização para sair da escola e entregar­se a futilidades. afastado dos ruídos e das distrações. os abutres e outros animais nocivos. A escola deve estar num local tranqüilo. enquanto. isto é. III. www.org/eLibris/didaticamagna. o pintor protege do vento.COMENIUS um homem instruído. aquele que começar a instruir­se com controvérsias»[4]. a ave. cheios de erros e de confusões. bem como da chuva e do granizo. Comete­se também uma imprudência quando se não afasta a juventude dos livros torpes. 57. Além disso. O jardineiro. e não deixa cair nem arruinar­se aquilo que já construiu. assim como também das más companhias. Efetivamente. Também o arquiteto. aquece os ovos. A natureza evita deligentemente as coisas contrárias e prejudiciais. os tijolos e a cal. IV. 59. conserva seca a madeira. uma imprudência todas as vezes que. do calor intenso. 60. Com efeito. 58. II. portanto. proteje das cabras e das lebres as plantas jovens. tanto quanto lhe é possível. se propõe aos alunos uma matéria controversa.ebooksbrasil.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . 61. com a ajuda de uma paliçada ou de uma sebe. Comete­se.html 135/357 . a que equivale isso senão a dar fortes sacudidelas numa plantazinha desejosa de lançar as raízes? Hugo escreveu com razão: «Nunca chegará a atingir a verdade. chocando­os. De igual modo. FUNDAMENTO IX Fundamento IX: É necessário evitar as coisas contrárias. sem admitir qualquer hiato.

companhias dissolutas. III. Se todas estas regras forem observadas escrupulosamente. portanto. Não devem ser toleradas nas escolas. www. Que esses livros sejam tão cuidadosamente ilustrados que. possam ser considerados verdadeiros inspiradores de sabedoria. que é essencial: I. II. além dos da sua classe. Pense­se.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . de moralidade e de piedade.html 136/357 . 63.ebooksbrasil. Não dar aos alunos nenhuns outros livros. ou nas vizinhanças das escolas. será quase impossível que as escolas falhem na sua missão. justa e merecidamente.org/eLibris/didaticamagna. Conclusão.COMENIUS Correção. 62.

III.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . se: I. E se os espíritos não forem constrangidos a fazer nada mais que aquilo que desejam fazer espontaneamente. Dez fundamentos dessa facilidade. E fazendo ver a sua utilidade imediata.org/eLibris/didaticamagna. V. torna­se­nos evidente que a educação da juventude se processará facilmente. Se observarmos as pegadas da natureza. Proceder das coisas gerais para as coisas particulares. 1. VII. E das coisas mais fáceis para as mais difíceis. II. VI. colocando­as IX. Examinámos os meios. Se ninguém for demasiado sobrecarregado com trabalhos escolares. 2. segundo a idade e por efeito do método. vejamos agora de que modo aqueles mesmos meios devem ser aplicados às inteligências. antes da corrupção das inteligências.html 137/357 . www. Se todas as coisas forem imediatamente sob os sentidos. ensinadas. Se em tudo se proceder lentamente.ebooksbrasil. E se tudo se ensina sempre com um só e o mesmo método. é preciso procurar a facilidade. para que o seu emprego se faça com facilidade e com prazer. X. Se fizer com a devida preparação dos espíritos. graças aos quais o educador da juventude pode atingir com segurança o seu objetivo.COMENIUS Capítulo XVII FUNDAMENTOS PARA ENSINAR E APRENDER COM FACILIDADE Não basta fazer qualquer coisa com segurança. Começar cedo. VIII. IV.

7/8/13 DIDACTICA MAGNA . 5. 4. repito­o. 8. 7. bem limpos do líquido que anteriormente continham. ou apresenta rugas. tem necessidade de um pedaço de terreno desimpedido. se já antes tivesse começado a formar­se uma outra avezinha. pois via que era impossível infundir uma nova forma na matéria. e. De igual modo. ou então. pois a mente está já www.org/eLibris/didaticamagna. ao menos. Daqui. é necessário primeiro que a raspe e a limpe. quem quer guardar unguentos preciosos. Mas regressemos de novo às pegadas da natureza. Foi por esta razão que Aristóteles colocou o «estado de virgindade» (privatio) entre os princípios das coisas[1]. tanto mais embaraçada procede. quanto mais tarde começa a formação. Também o jardineiro planta muito bem as plantazinhas jovens. Mas se ela está já pintada. que quer construir uma casa. se segue: primeiro. E que. Uma ave. antes de suprimir a primeira. FUNDAMENTO I Fundamento I: Toma­se a matéria pura. deve necessariamente. com efeito. o arquiteto. em primeiro lugar. toma para o choco ovos frescos que contenham uma matéria puríssima. tudo se processará segundo um andamento suave e agradável. em vão se esperaria um bom resu1tado. 6. que as mentes jovens. Igualmente. demolir a velha. A natureza não começa senão partindo do estado de virgindade (a privatione). Também o pintor pinta muito bem numa tela que nunca serviu. Imitação. tem necessidade de frascos novos ou. 3. se acaso planta algumas que são já adultas.html 138/357 . se embebem bem dos estudos da sabedoria. é necessário que primeiro lhes corte os ramos e lhes tire todas as ocasiões de desperdiçar a seiva.ebooksbrasil. Aberração. se a quer construir no lugar de uma outra. ainda não habituadas a distrairem­se com outras ocupações.COMENIUS Assim. ou manchada.

ebooksbrasil. pois esta aprende­se mal sem aquela»[2].org/eLibris/didaticamagna.COMENIUS ocupada com outras coisas. pouco depois. antes de tudo. para um mesmo aluno e na mesma matéria. com fruto. Correção. 10. III. não haja senão um só professor.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Terceiro. de modo que obedeçam com prontidão ao menor sinal do professor. para que. Assim. www. sente prazer em ser aquecida pela mãe. agita­se naturalmente e rompe a casca com as patas ou com o bico. daí se segue a distração dos espíritos juvenis e os embaraços da sua formação. A naturerza predispõe a matéria de modo a tornar­se ávida de uma forma. Portanto: I. Que. FUNDAMENTO II Fundamento II: A matéria torna­se ávida de receber uma forma. a avezinha já formada no ovo. primeiro domam o cavalo com o freio e tornam­no obediente. Liberta daquela prisão. numa palavra. que uma criança não pode ser instruída. os tornem aptos para as restantes coisas. por isso. em voar. não começam pela educação moral. se eduquem os costumes das crianças. 9. II. Segundo. encarregando­se da formação de crianças já crescidas e de adolescentes. Sêneca disse com razão: «Primeiro aprende a moral e depois a ciência.html 139/357 . sente prazer em ser treinada no voo. Que a formação da juventude comece cedo. que agem como inexperientes aqueles que. e. sente prazer em olhar o céu. Que. É bem sabido que os domadores.. pois é quase impossível que todos empreguem o mesmo método. E Cícero escreveu: «A filosofia moral prepara os espíritos para receber a boa semente»[3]. sente prazer em que ela lhe dê de comer e. por vários mestres ao mesmo tempo. mas gradualmente. sendo ávida de uma perfeição maior. e só depois lhe ensinam a tomar esta ou aquela posição. domando­lhes as paixões. apressa­se avidamente a pôr em ação todas as suas funções naturais. abre o bico e engole a bicada.

de modo que nada magoe os alunos e os afaste de prosseguir os estudos. o desejo ardente de saber e de aprender. Os pais.COMENIUS Imitação. se fazem o elogio dos professores (e especialmente daquele a quem confiam os filhos).html 140/357 . se exaltam freqüentemente. pondo em relevo tanto a superioridade da sua instrução www. Efetivamente. 1) Pelos pais. que podem eles esperar? Se o teu estômago não recebe os alimentos com apetite e tu o queres atulhar. E Quintiliano escreveu: «A paixão de aprender depende da vontade. prometendo­lhes belos livros. 11. 14. pela escola. diante de seus filhos. de qualquer modo. pelos professores. aprenderás muito»[4]. Portanto. Portanto: I. cuidam mal dos interesses das crianças aqueles que as obrigam aos estudos pela força. pelo menos. pelas proprias coisas. 15. Correção 13. pelos pais. nas crianças. O desejo ardente acende­se e favorece­se nas crianças. Aberração. os benefícios da instrução e o valor das pessoas instruídas. belos vestidos ou qualquer outra coisa que lhes dê prazer. Por isso. 12. qualquer que seja o alimento que metas num estômago famélico. não podem vir­te senão nâuseas e vómitos. uma má digestão e dano para a saúde. Também o jardineiro deve necessariamente ter a preocupação de que a planta. ou. se os exortam ao amor pelo estudo. dizia Isócrates: <grego>: «Se gostas de aprender. que não pode ser forçada»[5]. Deve inflamar­se.ebooksbrasil. Ao contrário. pelo método e pelas autoridades civis.org/eLibris/didaticamagna. De que modo deve o desejo ardente de aprender ser excitado e favorecido nas crianças. provida da humidade e do calor vital necessário. II.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . cresça fresca e vigorosa. ele digere­o bem e transforma­o cuidadosamente em quilo e em sangue. O método de ensinar deve diminuir o trabalho de aprender.

repito. das flores e das plantas. mesmo em público. quer sejam retratos de homens ilustres. os alunos deverão ser conduzidos para recrearem os olhos com a vista das árvores. de geometria. www. numa palavra. instrumentos de ótica. mas também um jardim aonde. e não afastarem de si os espíritos com qualquer ato de aspereza. 17. 16. Se se tiver isto em consideração na construção das escolas. apresentando. por vezes. peras. não só um pedaço de terreno destinado a passeios e a jogos (que. o seu encanto e a sua facilidade. etc. chamando­os para junto de si. tratarem os alunos com afabilidade. todo ornado de pinturas. deve ser um edifício fechado. conseguirão facilmente que eles considerem o professor como um amigo. com atitudes e palavras paternais. se exaltarem os estudos empreendidos pelas crianças. de quando em quando.COMENIUS como a sua bondade para com os alunos (com efeito. Os professores. se os encarregarem de levar qualquer recado aos pais. os pais. o amor e a admiração são os sentimentos mais fortes para desenvolver o gosto da imitação). No interior. pelas crianças. facilmente conseguirão tornar­se senhores dos seus corações. e as disciplinas que ele ensina como dignas da sua dedicação. A própria escola deve ser num local agradável. No exterior. os filhos de desempenhar qualquer missão junto do professor.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . onde esperam ver e ouvir sempre qualquer coisa de novo. ou quaisquer baixos­relevos. se é cheia de beleza por dentro e por fora. Pela própria escola.). 4) Pelas coisas. lhes mostrarem aquilo que depois deverão aprender. limpo. bem iluminado. quer sejam cartas geográficas. se. veremos dentro em breve[6]). se louvarem os alunos mais diligentes (distribuindo mesmo. se. ou recordações históricas. de modo que eles sintam até mais prazer em estar na escola que em casa. mostrando a sua importância.ebooksbrasil. no exterior como no interior. é provável que as crianças vão à escola não menos gostosamente que quando vão a qualquer feira ou espetáculo. ou de lhe levar qualquer pequeno presente.org/eLibris/didaticamagna. como. deve haver. se forem afáveis e carinhosos. maçãs. por sua vez. mas os atraírem a si afetuosamente. adjacentes à escola. esferas armilares e outros objetos semelhantes que despertam a admiração das crianças e as atraem.html 141/357 . figuras. encarregam. um aspecto atraente. finalmente. 2) Pelos professores. doces. não devem negar­se às crianças. em certos momentos. nozes. se.

para que as inteligências sejam aliciadas pelo próprio método. aos mais estudiosos. Com efeito. 5) Pelo método (desde que seja natural e misture prudentemente o útil com o agradável) 19. com uma certa habilidade. Acerca disto. FUNDAMENTO III www.org/eLibris/didaticamagna. não é necessário constrangê­la. Também não é necessário pedir aos olhos que contemplem uma bela pintura ou aos ouvidos que ouçam uma bela melodia. sob a forma de conversas ou de charadas. Quais devam ser os requisitos do método natural.ebooksbrasil. nestes casos. mas sempre agradável. Para que a água corra ao longo de um declive. enfim. se assistem pessoalmente às provas públicas (quer sejam exercícios. e ainda as regras que se seguem. isto é. mesmo as mais sérias. Com efeito. e ela correrá imediatamente. Para que o próprio método excite o apetite dos estudos. mostra­no­lo o capítulo precedente. Também não é necessário pedir a uma ave que voe. falaremos mais amplamente no seu devido lugar[8]. sejam apresentadas num tom familiar e agradável. que os alunos. As próprias matérias de ensino atraem a juventude. com qualquer coisa menos séria que as lições.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . em competição. é necessario. 20. adoçá­lo. e se são intermeadas com qualquer gracejo ou. e. procurem adivinhar. de tal maneira que todas as coisas. basta abrir­lhe a gaiola. 6) Pelas autoridades civis.COMENIUS 18. é até. é a isto que se chama juntar o útil ao agradável[7]. às vezes. louvores e pequenos prêmios. que seja natural. basta que se levante o dique ou qualquer obstáculo que a retém. As autoridades civis e aqueles a quem incumbe o cuidado das escolas podem inflamar o zelo da juventude estudiosa. e misture prudentemente o útil com o agradável) Em segundo lugar. se são ministradas de modo adaptado à sua capacidade e com a maior clareza. declamações e disputas. quer sejam exames e promoções) e distribuem (sem parcialidade). necessário refreá­los. sob a forma de parábolas e de apólogos. ao menos. é necessário: primeiro. se se lhes dá ensejo disso. tudo o que é natural desenvolve­se espontaneamente.html 142/357 .

pela potência que opera no interior do caroço ou do rebento.org/eLibris/didaticamagna. assim também é certo que a instrução se concentra toda em pouquíssimos princípios. dos quais (desde que se conheçam as diferenças modais). a partir deles desenvolve­se uma outra árvore inteira. Com efeito. a partir dela. Aberração que faz estarrecer. Entretanto. Por exemplo: a substância de que há­de ser formada a ave encerra­se numa gota e está circundada de uma casca. toda a ave. Correção. e até de textos inteiros. mas fortes quanto à potência. deriva uma infinita multidão de corolários. se Deus quiser. pois. atulham a cabeça dos alunos com um caos de conclusões várias. 24. Que Deus tenha piedade do nosso século e abra os olhos da mente a alguém que consiga penetrar profundamente o nexo das coisas e o mostre aos outros! Pela nossa parte. Do mesmo modo. uma árvore. e a plantar árvores em vez de mergulhões. está toda concentrada. fazendo­as nascer de elementos pequenos quanto à massa. Contra este fundamento. do mesmo modo que. Todavia. para facilmente poder ser transportada no ventre e ser mantida quente no ninho. comete­se vulgarmente nas escolas um pecado enorme. em vez dos princípios fundamentais. potencialmente. 21. a maior parte dos professores esfalfa­se a semear ervas em vez de sementes. de uma árvore de raízes bem sólidas. pois. 22. o corpo da avezinha é formada pelo espírito aí encerrado. Ora. se os lanças à terra. em tempo oportuno.html 143/357 . e milhares de folhas. coisas mais importantes. ou nos rebentos dos ramos mais altos. porque depois. Deus revele. essa substância contém em si. por meio de outros. ou no caroço dos seus frutos. apresentaremos um esboço da nossa tentativa no Compêndio de Pansofia Cristã.ebooksbrasil. Imitação. assim como é certo que o mundo é composto de quatro elementos (apenas variam as formas). podem resultar centenas de ramos. A natureza produz todas as coisas. com a esperança humilde de que. de flores e de frutos.COMENIUS Fundamento III: Todas as coisas nascem de princípios próprios. 23. notem­se três coisas: www.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . por maior que seja.

nas escolas. finalmente. falaremos mais demoradamente no capítulo XXII. Igualmente. Aberração de vária espécie 27. e o árabe. a seguir a encaixá­la e. Toda a arte deve encerrar­se em muito poucas regras. como acontece: 1. as coisas mais fáceis. não devem aprender a língua vernácula através do latim. 2. aos mesmos principiantes. Cada regra deve ser seguida de numerosos exemplos que façam ver como é grande a variedade dos casos a que se estende a sua aplicação. finalmente. quando deve fazer­ se o contrário. se ensina o desconhecido por meio do igualmente desconhecido. que conhecem já. o que é o mesmo que explicar o hebraico com regras escritas em hebraico. quando se dão. mas exatíssimas. quando. depois abre as asas. que quer sair do ninho para voar. A natureza caminha das coisas mais fáceis para as mais difíceis. regras escritas em latim. mas devem aprender o latim mediante a língua vernácula. Por exemplo: a formação do ovo não começa pela parte mais dura. e deste modo se habitua a entregar­se ao céu imenso. quando se www. isto é. Imitação. aos principiantes de língua latina. batendo­as com mais força. 26. mas claríssimas.) 3. as quais.ebooksbrasil. Também a ave. primeiro aprende a cortar a madeira. Toda a regra deve estar contida em pouquíssimas palavras. primeiro finca os pés. primeiro. se dá como auxiliar um dicionário latino­vernáculo. pela casca. (Acerca desta aberração. Com efeito. 25.org/eLibris/didaticamagna.html 144/357 . são circundadas por uma pequena membrana e depois por um invólucro mais duro. etc. mas pela gema e pela clara. o carpinteiro. Age­se desasadamente todas as vezes que.COMENIUS I. depois a apará­la. II. a construir edifícios. III. com regras escritas em árabe. a seguir agita­as e. eleva­se. FUNDAMENTO IV Fundamento IV: Primeiro.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .

políticos.COMENIUS dá à criança um preceptor estrangeiro que não conhece a língua materna da criança. É necessário coordenar as matérias a ensinar. mas tirados da vida prática de todos os dias. a qual é necessário descobrir.). se ensina a juventude de todas as nações (francesa. uma relação particular e de certo modo própria. com as mesmas regras gramaticais (por exemplo.). com a língua latina. hungárica. desde o berço. as de Melanchton ou de Ramo)[9]. uma vez que ela é mais conhecida. Efetivamente.).ebooksbrasil. os de latim à língua materna. Exercitem­se primeiro os sentidos das crianças (o que é muito www. Correção. Se as gramáticas e os dicionários se adaptarem à língua mediante a qual se deve aprender a língua nova (por exemplo. se realmente se quer ensinar os jovens a penetrar rapidamente na índole da língua latina. De outro modo. e não comunicam senão por meio de gestos. etc. III. finalmente.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . nas primeiras vezes que se apresentam regras às crianças (por exemplo. deve ser ministrado primeiro. a mesma língua.org/eLibris/didaticamagna.). o desta.. de lógica. nem o emprego da regra. Quando o ensino do latim é paralelo ao da língua materna. boema ou polaca. etc. poéticos. V. de maneira que o aluno se habitue primeiro a compreendê­la (o que é muito fácil). alemã. etc.html 145/357 . de modo que primeiro se ensinem as que estão mais próximas. que podem eles edificar senão uma torre de Babel? 4. Todas as explicações são dadas numa língua conhecida. de retórica. finalmente. uma vez que cada língua tem. etc. se: I. devem ser ilustradas com exemplos não afastados da sua capacidade de compreensão (teológicos. 28. pois trata­se de uma improvisação). depois a escrevê­la (dando­lhe tempo para refletir) e. os de grego à latina. O professor e o aluno falam. não entenderão nem a regra. Corrigir­se­ão estes defeitos. Por isso. VII. a falá­la (o que é muito mais difícil. as que estão ainda mais afastadas. seguindo­se o da língua latina. VI. IV. Se o estudo da nova língua proceder gradualmente. comete­se também um grave erro contra a reta razão quando. II. etc. depois as que estão mais afastadas e. uma vez que não têm um instrumento comum a ambos para se entenderem.

. e. uma ave não lança os ovos no fogo. se vê que ele é bastante robusto. ao máximo. Fundamento IV). através da imaginação. mas procede lentamente. pois o saber começa a partir dos sentidos. o apresentar aos alunos várias matérias ao mesmo tempo. no mesmo ano. Todos esses exercícios devem ser feitos um após o outro. O jardineiro não enxerta muitos garfos num só pé. A natureza não se preclpita. para que os seus filhos nasçam mais depressa. etc. nasçam duas avezinhas. 29. e talvez também mesmo a retórica e a poética e a língua grega. com efeito. É criar a distração nos espíritos. nem depois. Efetivamente. A natureza não se sobrecarrega e contenta—se com pouco. passa para a memória. Também o arquiteto não constrói à pressa as paredes em cima dos fundamentos. gradualmente.COMENIUS fácil). FUNDAMENTO V Fundamento V: Nada de modo sobrecarregado. Aberração.org/eLibris/didaticamagna. pouco a pouco e cautelosamente. chega à inteligência das coisas universais. mas aquece­os docemente com o seu calor natural. acerca das coisas bem entendidas. mais facilmente!). Por exemplo: a natureza não exige que. Imitação 32.html 146/357 . mas dá­lhes. enxerta­lhe. e finalmente. 30. depois a memória. 31. apenas aquilo que é capaz de digerir a sua faculdade nutritiva. a seguir a inteligência. emite o juízo. para que cresçam mais depressa.ebooksbrasil. dois. ainda tenrinha. e por fim o juízo.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . (Ver o capítulo precedente. de um ovo. mas contenta­se com que nasça bem uma só. Imitação. pela indução a partir das coisas singulares. e o teto em cima das paredes. FUNDAMENTO VI Fundamento VI: Nada de modo precipitado. porque os www. os empanturra com alimentos (sufocá­los­ia. como a gramática e a dialética. e depois. o que permite chegar à certeza da ciência.

Também o jardineiro não pretende que a planta cresça logo no primeiro mês. 35. os estudos mais fáceis e mais atraentes aos estudantes aquele que: I. deixando correr livremente as outras coisas. conseqüentemente. durante seis.html 147/357 . 33. portanto. ainda não bem enxutos e consolidados. Na verdade. arruinam o edifício. em vez de o encher gota a gota.ebooksbrasil. os envia às lições públicas durante o menor número possível de horas. a aproxima do fogo ou espalha constantemente. reservando outro tanto de tempo para o estudo privado. em lições particulares. obrigá­los a ouvir exposições didáticas. cal viva. ou que dê fruto logo no primeiro ano. Correção. uma autêntica carnificina para os jovens: 1. cedem sob o peso. não anda à volta dela todos os dias. Tornará. Aberração 34. da mesma maneira que o médico. a compor exercícios e a atulhar a memória com uma multidão de coisas. pois as forças querem ser ajudadas e não oprimidas.COMENIUS fundamentos. nem.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . III. é apenas o ministro da natureza. como muitas vezes nós próprios vimos. idiotamente aquele que pretende ensinar aos alunos. Foi. lhes sobrecarrega o menos possível a memória. portanto. e. ou seja. se alguém pretende encher um pequeno frasco de gargalo estreito (a inteligência das crianças pode ser­lhe comparada)[10] à força. que adianta? Sem dúvida que a maior parte da água salta fora. mas quanto ele próprio deseja. lhes ensina todas as coisas de modo proporcionado www. não quanto eles podem entender. Por isso. até à náusea. durante quatro horas. ou seja. não pode terminar­se uma construção grandiosa em um ano. e. durante algum tempo. Por isso. em lições públicas e exercícios. e ainda. portanto. e o formador da juventude. II. todavia. nem a rega todos os dias. apenas obriga a aprender de cor as coisas fundamentais. para a aquecer.org/eLibris/didaticamagna. retê­los todos os dias. mas tem de demorar­se o tempo necessário. junto dela. e não o seu senhor. ou mesmo até ao delírio. sete e até oito horas. mas contenta­se com o modo como a rega o céu e a aquece o sol. e no frasco entra menos do que entraria se ela fosse introduzida pouco a pouco. Age. 2.

E não se obrigue uma criança a recitar de cor uma lição. etc. nem deixa cair o fruto. Faz­se. violência às inteligências: 1. aspiram a abrir­se. com o progredir da idade e dos estudos. mas apenas dá o seu impulso aos seres que atingiram o seu pleno desenvolvimento e aspiram a fazer a sua irrupção. A natureza. a não ser quando está já coberta de penas. portanto. a não ser aquilo que a inteligência compreendeu perfeitamente. nem a obriga a voar. não só admitem. a não ser depois de o haver feito amadurecer. a não ser quando tem já os membros bem conformados e robustecidos.org/eLibris/didaticamagna. senão quando a seiva.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . 37. nem a expulsa do ninho. nem deixa cair a flor. não constrange a avezinha a abandonar o ovo. A natureza não empurra nada. mas até desejam. os impele para fora.COMENIUS à sua capacidade. esclarecidas e ensinadas muito bem. nem faz desabrochar os botões. Nada se obrigue a aprender de cor. Correção. FUNDAMENTO VII Fundamento VII: Nada contra a vontade. a não ser depois que as folhas. A nada se obrigue a juventude. formadas juntamente com as flores. 38. a partir da seiva interna. todas as vezes que se constrangem a fazer coisas superiores à sua idade e à sua capacidade. a não ser àquilo que a idade e a inteligência. subindo pelas raízes. sem se ter a certeza de que ela a compreendeu. II. a não ser depois de haver mostrado a www. Daqui para o futuro.ebooksbrasil. a não ser quando vê que já sabe voar. 2. Também a árvore não lança os seus rebentos. Aberração. Nada se mande fazer. 36. com efeito. a qual. III. portanto: I. crescerá por si mesma. a não ser quando o fruto está já coberto com a pele.html 148/357 . todas as vezes que se obrigam a aprender de cor ou a fazer coisas que primeiro não foram explicadas.

a caminhar expeditamente. que ainda vacila. por isso. os não esclarece bem no que ele consiste. e finalmente a caminhar expeditamente: de onde se segue. etc. de várias maneiras. não só pronunciam as palavras. É. a este propósito. Mesmo depois de a avezinha sair do ovo. Por exemplo: ao ovo não falta o seu calor vital. Aberração. A natureza ensina­nos outra coisa.org/eLibris/didaticamagna. e depois a manter­se firmes nos pés e a andar devagarinho. a mãe conserva­a aquecida. depois a estar de pé. para as funções da vida. que se deve tolerar a fraqueza. Também as amas ajudam. os ajuda enquanto tentam fazê­lo. 41. tendo marcado aos alunos um trabalho. de vários modos. muito menos. e se o não fizesse. a agilidade na corrida. a saber. como pelas penas da ave que o choca. depois. apesar disso. deixando que elas lhes subam para cima e transportando­as de regresso ao ninho. A natureza ajuda­se a si mesma de todas as maneiras que pode. e até que disso tenha necessidade. podemos ver de que modo as cegonhas vão em ajuda das suas cegonhinhas. nem mostra como ele deve ser feito. providencia que ele seja ajudado tanto pelo calor do Sol. mostram­lhes o que significam essas palavras. Correção. ainda que tenham de agitar as asas. e. com as mãos.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .ebooksbrasil. mas os obriga a estar ali a suar e a sofrer sozinhos. mas.COMENIUS sua forma e indicado a regra que deve seguir­se para a executar. a manter­se de pé. depois. portanto: www. a fraqueza dos bebês: ensinam­lhes primeiro a levantar a cabeça. torna­se furioso. E. e se fazem qualquer coisa menos bem. 40. o pai da natureza. a mover os pés e a dar passos. diante dos sentidos. o obrigasse a andar à força de bastonadas. mas. Daqui para o futuro. depois a estar sentados.html 149/357 . Deus. os ensinam a falar. 39. Quando. FUNDAMENTO VIII Fundamento VIII: Tudo de modo evidente. e. forma­a e fortalece­a. cruel o professor que. Mas que é isto senão a verdadeira tortura da juventude? Seria o mesmo que se uma ama obrigasse um bebê. a seguir. enquanto não vem a força.

devem aprender. tudo o que ouvem e também o que lêem nos livros. Também tudo o que nasce numa árvore tem utilidade. Por exemplo: quando forma uma avezinha. que o tenham presente como os cinco dedos das próprias mãos. nos seus cadernos diários.html 150/357 . de modo que se não dê por terminado o estudo de nenhuma matéria. Tudo aquilo que deve ser aprendido pelos alunos.ebooksbrasil. o mais que se puder. mas represente­se também graficamente. utilize­se. FUNDAMENTO IX Fundamento IX: Tudo conforme a sua utilidade. mas também mais facilmente se exercita a memória. etc. porque assim. a língua à mão. as patas para correr. vê­se imediatamente que lhe dá as asas para voar. se isto se fizer. será bom que todas as coisas. não só se ajuda a imaginação. senão depois de ela estar suficientemente impressa nos ouvidos. A natureZa não produz senão aquilo que se revela imediatamente útil. que costumam ser estudadas em determinada classe. Por causa da instrução. ou seja. na inteligência e na memória. se não se aprende. ao mesmo tempo. Portanto: www. Por exemplo: associe­se sempre o ouvido à vista. para que chegue aos ouvidos. Com efeito. por sua vez. 42. para que se imprima na imaginação por intermédio dos olhos. etc. quer se trate de imagens e de baixo­relevos da disciplina que se está a estudar. Os estudantes.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . os sentidos. não se inflija nenhum açoite. A fim de que todas essas coisas se imprimam mais facilmente. a expor as idéias com a língua e a exprimi­las por meio de gestos. que não sabe ou não se preocupa em tornar o aluno dócil?) II. para produzir as mencionadas impressões. Com este objetivo. de quem é a culpa senão do professor. é enorme a ajuda que pode dar. III. mesmo a casca e a pelugem dos frutos. Tem relação com isto o fato de habituar os alunos a transcrever. não apenas se narre aquilo que se quer fazer aprender. nos olhos. sejam representadas graficamente nas paredes da sala de aula[11]: quer se trate de teoremas e de regras. 43.org/eLibris/didaticamagna.COMENIUS I. (Efetivamente. deve ser­lhes apresentado e explicado tão claramente.

terá tudo o que se lhe ensina. mudadas apenas algumas circunstâncias. e a criança. do mesmo modo que uma árvore se planta. se se lhe mostrar qual é o objetivo de cada coisa. por toda a parte e sempre.ebooksbrasil. a variedade do método. ainda não muito interessada em saber que essas coisas existem na natureza e como existem. assim acontece com todas. assim são todas as outras. e até a de todos os animais. não só diversos autores ensinarem as artes de modo diverso. uma folha. numa árvore. e assim como são este ano. mas até de um e o mesmo ensinar de modo diverso. assim serão no ano seguinte e sempre. na física. 44.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . para que saiba que sabe e se habitue a utilizá­la. na vida quotidiana. poderá acreditar nelas. na dialética. na aritmética. Sem este cuidado prévio. E isso deve verificar­se em todas as matérias: na gramática. portanto.org/eLibris/didaticamagna. A natureza faz todas as coisas uniformemente. Assim se verifica também nas plantas: do mesmo modo que uma erva nasce da sua semente e cresce. outro para a dialética. germina e floresce. 47. é como meter­lha na mão. mas a sua crença não constituirá ciência. 46. etc. Por exemplo: um método para a gramática. assim se processa a geração de todas as aves. Não se ensine senão aquilo que se apresenta como imediatamente útil. e em conformidade com a relação e o nexo comum que as coisas e as palavras têm entre si. Portanto: 45. etc. o fato de. E assim como é.html 151/357 . Aumentar­se­á ao estudante a facilidade da aprendizagem. se se lhe mostrar a utilidade que. ou seja. quando poderiam ensinar­se uniformemente. Mas. Aberração. acontecerá que tudo o que lhe contarem lhe parecerá um monstro de um mundo desconhecido.COMENIUS Imitação. FUNDAMENTO X Fundamento X: Todas as coisas uniformemente.. www. a juventude e torna os estudos excessivamente intrincados. na geometria. Confunde. Por exemplo: do mesmo modo que se processa a geração de uma ave.

Na mesma escola. As edições dos livros da mesma disciplina sejam. com um só e o mesmo método. seja a mesma a ordem e os processos de todos os exercícios. sem embaraços.ebooksbrasil.COMENIUS Correção. II. daqui paxa o futuro. com um só e mesmo método. todas as artes. Assim tudo progredirá facilmente. com um só e mesmo método. todas as línguas. procurar­se­á. que: I. tanto quanto possível. Por esta razão. www. Se ensinem.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . 48. todas as ciências. as mesmas.org/eLibris/didaticamagna.html 152/357 . III.

mas não se tendo detido demoradamente em nenhuma delas. ou então porque os alunos. Será possível encontrar o modo pelo qual alguém pode saber. se a memória estivesse sempre pronta a pôr à nossa disposição tudo o que. Das condições. ouvimos e compreendemos. Conseguir­se­á isso. 4. correspondendo bem ao seu ensino. mas ainda mais do que as que aprende. não somente aquelas coisas que aprende dos professores e dos vários autores. encontramos duas: ou porque as escolas. descurando as coisas mais importantes. nada nos escaparia! Mas. Mas haverá remédio para este mal? Sem dúvida. 3. E este segundo defeito é tão comum. se ocupam de banalidades e de frivolidades.. tendo passado a correr por cima de muitas matérias.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . 1. refletindo sobre os fundamentos das coisas. que poucos são aqueles que dele se não lamentam..org/eLibris/didaticamagna. alguma vez.ebooksbrasil. se. sem dúvida que andamos a transportar água com um crivo. isto é. Dupla causa. lemos. investigarmos por que vias ela produz criaturas de longa duração.COMENIUS Capítulo XVIII FUNDAMENTOS PARA ENSINAR E APRENDER SOLIDAMENTE Geralmente a instrução é superficial. não só aquelas coisas que aprende. mas também as que ele próprio aprende. As lamentações de muitos e os próprios fatos atestam que são poucos os que trazem da escola uma instrução sólida. e numerosos os que de lá saiem apenas com um verniz ou uma sombra de instrução. Se procurarmos as causas disso. porque é o contrário que se verifica. www. introduzidos de novo na escola da natureza. Efetivamente. como seríamos considerados pessoas instruídas! Em todas as ocasiões em que fôssemos postos à prova. 2. voltaram a desaprender aquilo que haviam aprendido.html 153/357 . O remédio para estes dois males deve pedir­se ao método natural.

não lhe faz escamas. nem qualquer outra coisa que ela não utilizará. nem barbatanas.html 154/357 . X.COMENIUS I. II. penas. Se todas as coisas que vêm a seguir se baseiam nas que estão antes. V. VI. todas as coisas não se apoiarem senão sobre esses fundamentos. as raízes. VIII.org/eLibris/didaticamagna. nem guelras. IX. etc. o cerne. E se esses fundamentos mergulharem bem fundo. o livrilho. Por exemplo: quando começa a formar a avezinha.ebooksbrasil. 6. mas faz­lhe a cabeça. mas faz­lhe a casca. nem quatro patas. FUNDAMENTO I Fundamento I: Não deve abordar­se nada do que nos não diz respeito. III. etc. as asas. Se todas as coisas forem ordenadas em proporção da inteligência. nem cornos. Se todas as coisas que têm entre si uma relação estreita. Se todas as coisas que devem ser distinguidas forem minuciosamente distinguidas. VII. o coração. IV. Imitação em coisas mecânicas. Examinemos cuidadosamente cada uma destas dez condições. à árvore. E se todos esses assuntos forem estudados sem os separar. De igual modo. Se todas as coisas forem consolidadas com exercícios contínuos. se mantêm constantemente relacionadas.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . quem deseja um campo. E se. 5. uma vinha ou um www. Do mesmo modo. olhos. a natureza não faz orelhas. etc.. pelos. A natureza não começa nada que seja inútil. da memória e da língua. depois. Se não se estudar senão assuntos que virão a ser de sólida utilidade. E se todos eles repousarem em fundamentos sólidos.

Jerônimo. de fibra forte e compacta.ebooksbrasil. não adquire colmo ou palha. para que servem as ninharias? Que interessa aprender coisas que nem trazem vantagem sólidas. Não se trate senão daquelas coisas que são solidamente úteis para a vida presente e para a vida futura. urtigas. precisamente aquelas coisas cujo conhecimento continuará no céu[1]). mas sementes e plantas da melhor espécie. é preciso (como. com efeito. Também o arquiteto.org/eLibris/didaticamagna. acabarão por desaparecer ou por se esquecer no meio das ocupações de todos os dias? A nossa breve vida comporta necessidades suficientes para a encher completamente. I. espinheiros e silvas. na realidade.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . com o andar da idade. Se. madeira de carvalho e de plantas semelhantes. mas pedras. portanto. 9. essas coisas devem ser de natureza a não impedirem a consecussão dos bens eternos e a produzirem um fruto sólido para a vida presente. a obrigação de não ocupar a juventude senão em coisas sérias. devem aprender­se. não cultiva lá zizânia. mesmo que não gastemos um momento sequer com essas futilidades. Deve tratar­se apenas de coisas sólidas.html 155/357 . vê­lo­emos mais adiante)[2]. mais ainda para a vida futura. ou madeira de salgueiro. Com efeito. FUNDAMENTO II Fundamento II: Não deve deixar de fazer­se nada que tenha interesse. tijolos. a quem as sabe. Nas escolas. As escolas têm. Também nas escolas. segundo o aviso de S. (Nesta terra. II. nem desvantagem a quem as ignora e que.COMENIUS pomar frutíferos. www. 7. que tem intenção de levantar construções sólidas. A natureza não omite nada de quanto se apercebe que pode ser útil para o corpo que forma. 8. ou lama. 10. portanto. efetivamente. (De que modo se devam tornar sérias as coisas jocosas. é) infundir na mente dos jovens algumas coisas também por causa da vida presente.

adestram a inteligência. facilmente as cores se despegam. ou seja. senão após haver lançado sólidos fundamentos. de modo a tornarem­no igualmente apto para os negócios desta vida e para a eternidade. Aberração www. como fundamento de todo o corpo. com efeito. que não só tornará a instrução defeituosa. 14. as escolas. sem raízes. Da mesma maneira. nem.html 156/357 . 11. pois. FUNDAMENTO III Fundamento III: As coisas sólidas devem basear­se solidamente.ebooksbrasil. em suma. nem as asas. para a qual tendem todas as coisas que se fazem neste mundo. A natureza não faz nada sem fundamento. A ciência e a arte. nem as unhas e a pele. Também o arquiteto não constrói a parte visível do edifício. mas também a moral e a piedade. necessariamente seca e morre. Se se deixa de aprender alguma dessas coisas. as vísceras (membros vitais) fazem as vezes das raízes. se deterioram e desbotam. De igual modo. pois nenhuma coisa pode ser sólida se não tem todas as partes bem ligadas. Ensine­se. 12. Imitação nas escolas. devem formá­lo todo. haverá um hiato. pois. não apenas as ciências e as artes. portanto. Na ave e em todos os outros animais.org/eLibris/didaticamagna. Imitação. Por isso. nenhuma daquelas coisas que dizem respeito à essência da ave (no seu gênero). tudo cairia em ruínas. são sempre as primeiras a formar­se. sem ele. o jardineiro prudente não a planta antes de ter verificado que as raízes são de boa qualidade. o pintor assenta as suas tintas sobre um fundo. mas abalará até a sua solidez. nas escolas. enquanto formam o homem. não lança rebentos para cima. a falar e a fazer racionalmente todas as coisas úteis. e. não se esquece de fazer­ lhe nem a cabeça. antes de lançar pela terra abaixo as raízes. ou. por isso. a língua e as mãos do homem a contemplar. nem as patas.COMENIUS Por exemplo: enquanto forma a avezinha. 13. de outro modo.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . portanto. É sabido que a planta. se o tenta.

Efetivamente. por tornar os alunos dóceis e atentos. logo no início. tanto mais segura está. do encanto e de qualquer outro aspecto da matéria a estudar. que resultado sólido pode esperar­se? Correção. esconde os membros vitais na parte mais interna do corpo. antes de se passar a tratar dela de uma maneira particular.html 157/357 . 2. sem atenção e sem compreender. Daqui para o futuro. logo desde os primeiros passos. II. a idéia geral de toda a matéria que eles vão estudar. 17. De resto. 18.ebooksbrasil. aquela que as lança apenas à flor da terra. delineado de modo generalíssimo. para que. da utilidade. do mesmo modo que o esqueleto é a base de todo o corpo humano. E a árvore quanto mais para o fundo lança as suas raízes. antes de tudo. Correção da aberração. a fim de que eles entendam. nos animais. 16. Ao começar­se seja que estudo for.org/eLibris/didaticamagna. Imprima­se sempre no espírito do estudante a idéia geral de uma língua ou de uma arte (a qual não é senão o seu resumo. Daqui resulta evidente que não só se deve excitar seriamente a docilidade no aluno. o que têm a fazer. o aluno veja. aos alunos. Não fazem repousar a instrução sobre semelhante fundamento os professores que: 1. se não esforçam. Assim. assim também o plano de uma arte é a base e o fundamento de toda essa arte. se a criança começa a aprender sem gosto. do campo que deve percorrer. por meio de argumentos tirados da excelência. toda a extensão e todos os limites e até a disposição das partes internas. de modo bem distinto. desperte­se um amor sério por ele nos alunos. mas também se deve imprimir profundamente nas inteligências a idéia geral da matéria a www. arranca­se facilmente. FUNDAMENTO IV Fundamento IV: Que os fundamentos sejam profundos. portanto: I. A natureza lança as raízes bem para o fundo.COMENIUS 15.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . mas contendo todas as suas partes). não dão.

tudo o que virá a ser a madeira. enxertá­lo no tronco. encaminha­a para o seu reservatório. as folhas. se um edifício precisa desses apoios. possa sugar a seiva das suas raízes. de frases. não sendo necessário ir a qualquer outra parte buscar os ramos e as folhas e aplicar­lhos. Da mesma maneira. para que ele. à árvore tudo vem a partir das raízes. incorporando­se na sua substância. pelos ramos. mas abre as veias de uma nascente viva.COMENIUS estudar. Efetivamente. antes de essa idéia geral estar plenamente compreendida e bem enraizada. De igual modo. na árvore. sem necessidade de apoios externos. nem espera as águas das chuvas.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . por meio de canais e de tubos subterrâneos. não transporta as águas de qualquer outro local. FUNDAMENTO V Fundamento V: Tudo a partir das próprias raízes. Também o arquiteto sensato constrói todas as partes do edifício de modo que. assentes sobre os seus próprios alicerces. se sustentem por si mesmas. as flores e os frutos. é necessário que todas as coisas sejam destiladas através das raízes. pelas folhas e pelos frutos. a casca. todavia. e depois circulem pelo tronco. não provém senão da raiz. segue­se que instruir bem a juventude não consiste em rechear os espíritos com um amontoado de palavras. E que ninguém seja admitido ao estudo aprofundado de uma arte ou de uma língua. é porque é defeituoso e ameaça ruína. todavia. 21. Deste modo. Por isso. e nada a partir de outro elemento. embora o jardineiro vá buscar o garfo a outro lugar. quem prepara uma piscina ou um poço de água. de sentenças e de opiniões www. estas não vão buscar­se àquelas de que uma outra ave se despojou.html 158/357 . Também na escola.org/eLibris/didaticamagna. mas despontam das partes íntimas do seu próprio corpo. quando uma ave deve revestir­se de penas. 19. Desta regra fundamental.ebooksbrasil. 22. 20. Imitação em coisas mecânicas. deve. e. De fato embora as chuvas caiam sobre a planta e o jardineiro a regue. Efetivamente. A natureza produz tudo a partir da raiz.

habituados apenas a transportar a carga dos outros. 24. quando o que se procura saber é como são verdadeiramente as coisas em si mesmas? Será que tudo o que fazemos na vida não consiste senão em andar atrás dos outros. tropeça ou perde o norte? Ó vós todos. que interessa distrair­se com as opiniões emitidas por vários autores acerca das coisas.html 159/357 . mostra­o www. assim. acerca disto ou daquilo.COMENIUS tiradas de vários autores. construindo uma ciência que não passava de uma manta de retalhos. sentenças. no ano seguinte. como o corvo de Esopo[3]. um terceiro ou até um décimo autor. pensou ou escreveu este ou aquele. não lhes têm mostrado as próprias coisas. A estes. e àvante para a meta! Se temos uma meta fixa e bem determinada. como por irrigá­la com águas alheias.org/eLibris/didaticamagna.ebooksbrasil. e. as escolas não se têm proposto realmente como objetivo habituar os espíritos a irem buscar o vigor às próprias raízes. deixai os caminhos tortuosos. as suas flores e os seus frutos. brotam os rebentos. e têm­se esforçado. 23. 25. e como. a tal ponto que chegou a pensar­se que a máxima erudição consistia em saber de cor opiniões discrepantes de muitos autores acerca de muitas coisas. rebanho de escravos. Que as escolas cometem o erro de ensinar a olhar com os olhos dos outros e a saborear com o coração dos outros. Daí que muitos não se ocuparam senão em respigar. a enfeitarem­se com as penas dos outros. e opiniões. Isto é. de vários autores. mas em abrir­lhes a inteligência à compreensão das coisas. que correm de cá para lá. como fazem as árvores. Mas. rebanho de escravos!»[4]. porque não havemos de esforçar­nos por atingi­la pelo caminho direto? Porque é que havemos de servir­nos mais dos olhos dos outros que dos nossos? A causa disto é o método defeituoso. Enorme aberração das escolas. De fato. frases. não tanto por cavar a fonte da inteligência neles escondida. como é que elas são por si e em si. as folhas. Até aqui. nasce de novo um outro ramo com as suas folhas. de modo que dela brotem arroios como de uma fonte de água viva. e em observar onde alguém se desvia. mas que é que. e. as flores e os frutos. Verniz da instrução superficial. por amor de Deus. mas têm­lhes ensinado apenas a munirem­se de pequenos ramos arrancados de outro lugar. de cada «olho».7/8/13 DIDACTICA MAGNA . repreende­os asperamente Horácio: «Imitadores. dos «olhos» das árvores.

quase nenhuma gramática ensina a compor um discurso. quem sabe coser bem um vestido. sem dúvida. neste assunto. nunca ninguém aprendeu a ser construtor. não considera uma arte o descosê­lo. de não reformar este método. e mais claro ainda. 27. Efetivamente. querendo que. de modo algum considera como uma arte a demolição. o qual não ensina a abrir as fontes e a derivar delas vários arroios. desbastado. nenhum dicionário (a mim parece assim. atinjamos as fontes. É realmente de admirar que. deve ser medido. se Deus o permitir. porque a instrução de www. nunca ninguém chegou a alfaiate.COMENIUS o método de todas as artes. com a ajuda de Deus. aí que reside a verdadeira causa da extrema lentidão dos nossos progressos. Os artesãos e os operários tratam melhor as suas coisas. 26. Sem dúvida. encaixado. Ninguém procura formar os costumes por meio de uma reforma interna das inclinações. por meio de definições e de divisões externas das virtudes. quanto a dicionários. é. mas todos esboçam superficialmente uma reforma moral. é construindo que lhe mostra quais os materiais que se devem escolher e como cada um deles. colocado. que este erro não tenha já sido corrigido pelos modernos. ou. de mesmo modo que.html 160/357 .ebooksbrasil. no Plano da Pansofia[7]. A incúria dos homens de estudo acerca das suas próprias coisas é duplamente nociva. ao menos. mostrarei o que penso. os antigos não tenham visto melhor que nós. Com efeito. através deles. mas todos a ensinam lendo o texto de Aristóteles ou de outro autor. levantado. no capítulo XXII) ensina a falar. e desfazendo vestidos. polido. quem é mestre na arte de construir. mas a analisá­lo. mas a compreender. Demolindo casas. falarmos do método especial de ensinar as artes e as línguas[6].7/8/13 DIDACTICA MAGNA . e até os danos. se se excetuar o polaco de Knapski[5]. Que digo? Porventura o carpinteiro mostra ao seu aprendiz a arte de fabricar casas. mas. Quase ninguém ensina a física por meio de demonstraçõse gráficas e de experiências.org/eLibris/didaticamagna. os inconvenientes. destruindo­as? Pelo contrário. apenas apresentando um montão confuso de frases. por sua vez. são manifestos: 1. etc. mas apenas mostra os arroios derivados dos autores. e nenhuma estilística mostra a maneira de compor elegantemente frases ou de as variar. Isto aparecerá mais claro quando.

embora se apresente adornada com ramos. FUNDAMENTO VI Fundamento VI: Todas as coisas distintamente. e não apenas as observações e os testemunhos alheios acerca das coisas. portanto.org/eLibris/didaticamagna. mas não sabem fazer bom uso delas. E isto equivale a dizer que é preciso caminhar de novo pelas pegadas dos mais antigos sábios. se reforce e se difunda por si mesma. se reduz a uma mera nomenclatura. lei: I. murcham e caem. mas do próprio arquétipo das coisas. não podem nem multiplicar­se nem durar muito tempo. Com efeito.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . isto é. constituída por uma colecção de várias sentenças e opiniões de diversos autores. II. se não mesmo da maioria. mas são amarradas externamente. Correção. uma vez que estas coisas não crescem de uma raiz própria. Nada ensinar apenas com argumentos de autoridade. aos carvalhos e às faias. Nada ensinar com o método analítico somente. sensível e racional. semelhante árvore não produz nenhuns frutos. sabem. cada vez mais robusta) e verdejante e apta para produzir flores e frutos. com um pedaço tirado daqui e outro de além.ebooksbrasil. e. III. não a ir buscar a ciência aos livros. porque a lnstrução. não é uma ciência universal que se mantenha. Derivar tudo dos princípios imutáveis das coisas. essa ciência. mas é uma espécie de manta de ratalhados. torna­se. flores e frutos. se se quer alcançar o conhecimento. Seja.html 161/357 . a qual. todavia. www. A conclusão de tudo isto é esta: tanto quanto possível. assemelha­se muito à árvore que é costume levantar em certas festas de aldeia. à terra. mas de preferência tudo com o método sintético. Efetivamente. está sempre vigorosa (mais ainda. a bem dizer de todos. que dela pendem. e até com grinaldas e coroas. de dia para dia. 2.COMENIUS muitos. a conhecer e a perscrutar as próprias coisas. a ela ligadas de vários modos. os homens devem ser ensinados. isto é. mas ao céu. 28. Mas a pessoa instruída a partir dos fundamentos é como uma árvore que tem raízes próprias e se alimenta de seiva própria. não de outras fontes. mas ensinar tudo por meio de demonstração. de fato. e os ramos. sem qualquer conexão e incapaz de produzir qualquer espécie de fruto sólido. recitar os termos e as regras das artes. por isso.

Importa. permanece isso mesmo e apenas se aperfeiçoa. sem nenhuma confusão. não só quem ensina.html 162/357 . por isso. é mais resistente e mais bela. etc. Portanto. 30. Todas as coisas explicadas. 32. nunca abandona as coisas velhas para fazer coisas novas. na instrução da juventude. coração. mas apenas continua.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .COMENIUS 29.. mas também quem aprende. de modo que. que todos os livros utilizados nas escolas sejam elaborados segundo este luminoso exemplo da natureza. www. e os que se fazem primeiro sejam consolidados pelos que vêm a seguir.ebooksbrasil. etc. Por exemplo: na formação do feto. fixem­se também na memória. importa fazer tudo o mais distintamente possível. lançar novos ramos. nunca pára. Uma árvore nascida de semente não deita fora os primeiros ramos com que nasceu. FUNDAMENTO VII Fundamento VII: Tudo em contínuo progresso. a substância que começou a tornar­se cabeça. que tenha estendido bem os braços dos ramos e das raízes. Também uma árvore. onde está e o que faz. Disponham­se todos os estudos de tal maneira que os seguintes se baseiem sempre nos precedentes. Deve imitar­se. todos os anos. nas escolas: I. depois de bem apreendidas pela inteligência. Deve imitar­se. Portanto. mas continua solicitamente a fornecer­lhe seiva vital. II. A natureza está em contínuo progresso. aumenta e aperfeiçoa as coisas que antes começara. entenda. 31.org/eLibris/didaticamagna. pés. tanto mais é capaz de um movimento mais distinto: como o cavalo mais que o boi. o lagarto mais que o caracol. para que possam. tanto mais minuciosamente a distingue. Por exemplo: quanto mais distintamente um animal tem os membros divididos em articulações. Quanto mais numerosos são os usos para que a natureza prepara determinada coisa.

quanto mais digere. E. tanto mais absorve. liga de todos os modos membro com membro. tanto mais fielmente as guardará.org/eLibris/didaticamagna.ebooksbrasil. aquela idade não sente a fadiga. porque nem sequer pensa nela. FUNDAMENTO VIII Fundamento VIII: Todas as coisas com nexos contínuos. do tronco os ramos. Confia­lhe.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . pois ela desenvolve­se. da raiz brota o tronco. sob este aspecto. e quanto mais robustamente cresce. A natureza liga todas as coisas com nexos contínuos. escreve: «Nunca deixes a memória sem fazer nada. Assim. dos ramos as ramagens. Quintitiano escreveu acertadamente: «Todo o progresso escolar depende da memória e é inútil ir à lição. dos rebentos as folhas. na Introdução à Sabedoria. Nada lhe é mais agradável e nada a desenvolve mais que o trabalho. Livro III)[9]. com cuidado e freqüentemente. nervo com nervo. neste método natural. 33. Também um animal. E da mesma maneira todas as coisas tomam naturalmente incremento em razão das suas próprias aquisições. Ora não se introduzem solidamente no espírito senão as coisas que forem bem entendidas e cuidadosamente confiadas à memória. etc. tanto mais cresce. as flores e os www. cultivando­a. e quanto mais cresce. tanto mais robustamente cresce. não pode proceder­se de outro modo senão assentando todas as coisas em bases sólidas. a memória alarga­se e torna­se capacíssima». Com efeito. exercite­se a memória. quanto menos coisas lhe confiares. Com efeito. provam­no os exemplos da natureza. Não deve. E Luis de Vives: «Durante a primeira idade. Por exemplo: quando forma uma avezinha. confie­se­lhe muitas coisas. quanto mais humidade absorve. sem fadiga e sem tédio. dos rebentões os rebentos. portanto. das ramagens os rebentões. tanto mais alimento deseja e digere. (Das Disciplinas. tudo o que precede deve servir de fundamento a tudo o que se segue. qualquer coisa: quanto mais coisas lhe confiares. isso constituirá o fundamento de um solidíssimo progresso. poupar­se a primeira idade (desde que se proceda racionalmente). todos os dias. Também numa árvore. 34. osso com osso. uma árvore. Porque.html 163/357 . tanto menos fielmente as guardará»[10].COMENIUS A memória deve ser aumentada e reforçada na primeira idade. se cada uma das coisas que ouvimos (ou lemos) desaparece»[8]. Que estes escritores dizem uma grande verdade.

ebooksbrasil. se se quer que ele dure.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . o forro e o teto com as paredes. II. Também num edifício. na qual nada se encontre que não tenha nascido da raiz comum e que não esteja assente no seu devido lugar. não constituem senão uma só e a mesma árvore.html 164/357 . as ramagens. porque é que na primeira e na segunda pessoa se usa o ablativo (com efeito. as folhas e os frutos. Tua refert. totus se diz mais apropriadamente de uma coisa sólida. as razões são os pregos. assim pensam) e na terceira o genitivo? Se eu disser que acontece assim porque Refert é.COMENIUS frutos. e que. neste lugar. de tal maneira que. Com efeito. o aluno bem depressa se esquecerá. 35. a não ser que seja muito estúpida. mas não der a razão. Daqui resulta que: I. Que significa ensinar pelas causas? 36. Os estudos da vida inteira devem ser dispostos de tal modo que constituam uma enciclopédia. como no caso presente. portanto. etc. devem não só combinar­se entre si. de algum coletivo. mas também encaixar­se de tal maneira que se unam firmemente e constituam uma casa. as fivelas e os ganchos que fazem estar uma coisa seguramente ligada e não a deixam cambalear nem cair. isto é. Por exemplo: se se puser a questão de saber se é mais correto dizer Totus populus ou Cunctus populus. as paredes com os alicerces. se o professor responder Cunctus populus. uma contração de Res fert (pela elisão do s). e depois novos rebentões. Todas as coisas que se ensinam devem de tal modo basear­se em razões sólidas que não deixem facilmente lugar nem à dúvida nem ao esquecimento. mas também porque não pode ser de outra maneira. www. Efetivamente. e cunctus. Deve imitar­se. disputam os gramáticos porque é que se diz Mea refert. embora sejam milhões os ramos..org/eLibris/didaticamagna. isto é. as maiores como as mínimas. não vejo como uma criança o possa esquecer. De igual modo. Consolidar todas as coisas com razões. mostrar não só como é que alguma coisa é. Ejus refert. Mas se disser que cunctus é uma contração de conjunctus e que. significa ensinar todas as coisas pelas suas causas. saber significa conhecer as coisas por meio das suas causas. todas as suas partes.

passarem do conhecimento de umas coisas para o de outras. Também no animal. assim como. assim. a origem de todas as palavras e a razão de todas as frases (ou construções) e os fundamentos de todas as regras nas artes e nas ciências (efetivamente. Mea refert. relativamente à quantidade e à qualidade. Ejus res fert (ou. se deveria dizer Mea res fert. antes de tudo. não trarei luz à mente do aluno? Em conclusão. Deve imitar­se. queremos que os alunos sejam ensinados a conhecer. uma vez que assim se abrem os olhos aos alunos. e não pelas raízes. pois o fruto é produzido pelos ramos. pois. e assim sucessivamente. Se crescesse apenas para debaixo da terra. não em raciocínios e hipóteses. FUNDAMENTO IX Fundamento IX: Todas as coisas segundo uma proporção contínua. os teoremas das ciências devem apoiar­se. debaixo da terra. seria inútil. por si. todas as coisas sejam ensinadas pelas suas causas. se a árvore crescesse apenas para cima. A natureza conserva uma justa proporção entre as raízes e os ramos. Portanto. tornando­os desejosos de. Assim também a instrução. Se os interiores estão bem. mas na demonstração primeira que é inerente às próprias coisas). Conclusão. 37. Ejus refert) e que. este exercício tem também uma notável utilidade. das coisas interiores para as exteriores. uma vez que é mantida de pé pelas raízes. Mea e Tua não são ablativos mas nominativos. Tua res fert. os membros exteriores crescem paralelamente com os interiores. também os exteriores se sentem bem. Além de um dulcíssirno prazer.COMENIUS por isso. as raízes se desenvolvem mais robustamente ou mais debilmente. embora. 39.html 165/357 . de modo distinto e expedito. nas escolas.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . não poderia manter­ se de pé. Com efeito. E é necessário que seja assim.org/eLibris/didaticamagna. Tua refert. em pleno ar.ebooksbrasil. assim também. 38. os ramos se desenvolvem mais robustamente ou mais debilmente. pois prepara o caminho para uma solidíssima instrução. de modo contracto. deva ser www.

é verdadeira a seguinte máxima: O teu saber nada vale.org/eLibris/didaticamagna.ebooksbrasil. e fazer várias tentativas de caminhar e de voar. e vice­versa. os seus ramos e as suas folhas. para que nada se saiba em vão. quanto mais freqüentemente é batida pelos ventos. se outro não sabe que tu sabes[11]. Mas. deve procurar­se que.COMENIUS concebida. FUNDAMENTO X Fundamento X: Todas as coisas com exercícios contínuos. Depois. incrementada e robustecida na raiz interior da inteligência. pelos trovões e pelos raios. Efetivamente. se ensine também a dizê­las e a fazê­las. para que nada se aprenda em vão. Por isso. dizendo­se até que as regiões batidas pelos ventos e pelos raios produzem madeira mais forte. Imitação em coisas mecânicas. www. mas também os vira. fazendo­a mover freqüentemente o bico e as patas. exercita e robustece a avezinha acabada de nascer. a pó­las em prática. pelo que. pense­se imediatamente na utilidade que ela pode vir a ter. pelo granizo. acerca deste assunto. 40. é um bem serem provadas pelos aguaceiros.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Também uma árvore. no fundamento seguinte. de um lado para o outro. sem dela fazer derivar imediatamente pequenos riachos. abrir. uma ave. não só mantém quentes os ovos com o choco. para que se mantenham igualmente quentes de todas as partes.html 166/357 . Portanto: I. Logo que uma coisa seja entendida. todavia. isto é. ao mesmo tempo que se ensina a entender as coisas. Assim. A natureza vivifica­se e robustece­se a si mesma com movimento constante. II. neste sentido. ou seja. comunicando­a a outros. 41. ao mesmo tempo. de modo visível. lance para fora. para todas as plantas. é necessário que. Logo que uma coisa seja entendida. nas galinhas e nas pombas que fazem nascer os seus filhos nas nossas casas). tanto mais viçosa se eleva no ar e tanto mais fundo lança as raízes. difunda­se de novo. (É fácil observar este fato nas patas. não se abra nenhuma fontezinha de ciência. bater e levantar as asas. falaremos mais amplamente. todos os dias.

também o arquiteto aprendeu a enxugar e a endurecer os seus trabalhos ao sol e ao vento. Procurar e tomar para si o alimento do espírito. De resto. ensina­ se. II. para que a certeza seja maior. de digestão e de assimilação. Deste modo. aos condiscípulos. ora o calor ora o frio. III. por sua vez. amolecendo muitas vezes. para que os outros o sirvam também). e desta maneira o faz provar. Com efeito. e. Tendo­o digerido. Os dois primeiros exercícios são bem conhecidos nas escolas. no corpo vivo. mas seria muito bom introduzi­lo. os movimentos de absorção. ou um condiscípulo. endureça ainda mais. 43. é absolutamente verdadeira esta www. Efetivamente. ensinam­no­lo os movimentos naturais que.COMENIUS 42. que possam confiar tudo à memória). servem a faculdade nutritiva. e o digere. ou um livro acerca das coisas que se ignoram. o ruminar e digerir. feitos quanto mais vezes e quanto melhor possível. tanto para se alimentar a si mesmo (deixando para si e assimilando uma parte do alimento digerido). confiando à memória as coisas conhecidas e entendidas. de igual modo multiplicará a doutrina quem sempre: I. a fim de que. cada membro serve os outros. o terceiro ainda o não é suficientemente.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Pergunta­se. como para o comunicar aos membros vizinhos. Dai resulta que a instrução não pode chegar a ser sólida. 44. contando.org/eLibris/didaticamagna. consultando o professor. para a conservação do todo (com efeito. ou seja. qual seja o melhor modo de fazer exercícios. no animal (e também na planta). e a quaisquer pessoas que se encontrem. o assimilar e o comunicar a outros.ebooksbrasil.html 167/357 . qualquer membro deseja o alimento para o digerir. Tendo­o encontrado e absorvido. senão a força de repetições e de exercícios. tomando apontamentos (pois são poucos aqueles de engenho tão feliz. da mesma maneira que. E o ferreiro. mete­o muitas vezes no fogo e na água. reter o que perguntou e ensinar o que reteve». para que o ferro endureça e aguente depois o corte. O modelo dos exercícios escolares deve ir buscar­se à natureza. Estas três coisas são expressas nos seguintes versos: «Três coisas oferecem ao aluno a oportunidade de superar o professor: perguntar muitas coisas. retém­se. todas as coisas aprendidas.

Por isso.html 168/357 . instrui­se a si mesmo». mas ainda porque encontra uma boa ocasião para penetrar mais a fundo nas coisas. e de explicado claramente o sentido das palavras. desde que haja quem o queira ouvir como mestre. aquilo que aprende. Não aconselho a que se observe. entre os seus alunos. homem eminente pelo saber. o qual (como se fosse já professor dos outros) repita. mande­se levantar outro para fazer o mesmo. Esta espécie de exercícios terá notável utilidade: I. se o professor de cada classe instituir. falando de si mesmo. tudo o que foi dito pelo professor: explique as regras com as mesmas palavras. O professor tornará os alunos sempre atentos às suas palavras. uma vez que. e quantos for necessário.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Utilidade destes exercícios. mande­se levantar qualquer dos alunos.ebooksbrasil. os reforça em si mesmo. a fim de que os de inteligência mais lenta. depois de brevemente apresentada a matéria a aprender.org/eLibris/didaticamagna. e de mostrada abertamente a aplicação da matéria. Joaquim Fortius. nesta caso. 45. com utilidade para um maior número de pessoas. conheci­as tão bem como aos próprios dedos da mão e julgava que só a morte lhas poderia arrebatar». animados pelo exemplo dos primeiros. Depois. isto é. mas aquelas que ensinou aos outros. dá o seguinte conselho: «o estudioso que deseja fazer grandes progressos. quem o queira fazer progredir»[12]. um terceiro e um quarto. afirma que «as coisas que. Mas isto far­se­á mais comodamente e. arranje alunos. possam mais facilmente segui­los. até que se veja claramente que todos compreenderam bem a lição e já são capazes de a repetir e de a ensinar. alguma vez. Assim falava este grande homem. Se acaso errar. todos os dias. mas aconselho que se chame primeiro os mais inteligentes. E acrescenta: «Vale bem a pena que alguém renuncie a quaisquer vantagens materiais. não só porque. enquanto todos os outros estão a ouvir. apenas ouviu ou leu. repetindo os próprios conhecimentos. aos quais ensine. qualquer deles deverá www. pela mesma ordem. o professor deverá corrigi­lo. ainda que tenha de pagar­lhe a peso de ouro». Por isso.COMENIUS máxima: «quem ensina os outros. Como deve introduzir­se nas escolas. este maravilhoso gênero de exercício. logo a seguir. do modo seguinte: em qualquer aula. sem dúvida. uma ordem rígida. Com efeito. e depois. lhe fugiam da memória dentro de um mês ou até mais cedo. mostre a sua aplicação por meio dos mesmos exemplos. 46.

mas até que todos as procurem. de tal maneira que. certos de haverem aprendido as coisas mais que claramente. o aluno é admitido a exercer como que o ofício do professor. despertará na sua mente um grande desejo e um grande ardor de aprender e adquirirá o dom de saber tratar. III.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Se algum. enquanto que os mais inteligentes. se se juntam em número bastante elevado. quer acerca de qualquer matéria nova que acaso se lhes apresente. II. O professor poderá verificar melhor se todas as regras expostas foram bem entendidas por todos. de qualquer assunto perante o público. daremos conselhos especiais. Uma vez que. Dado que as mesmas coisas se repetem muitas vezes. seja severamente castigado. Este treino da atenção. V. IV. tornará o jovem desperto para todas as ocupações da vida. dirigindo e moderando as discussões. mesmo os alunos de inteligência muito lenta acabarão por compreendê­ las. mesmo fora da escola. deste modo.ebooksbrasil. sentados ou a passear. por isso. para não deixar que nada lhe escape. os alunos podem. pois queremos que seja inflexível a lei segundo a qual ninguém. estarão seguros de haver fixado na memória todas as coisas. de boa ou de má vontade terá os ouvidos atentos. o que será de grande utilidade na vida. não só não fuja às ocasiões de ensinar e aprender. Quanto aos exercícios escritos (que são também uma ajuda válida para progredir solidamente).COMENIUS levantar­se e repetir toda a lição. de modo a poderem avançar para a frente ao lado dos outros. devem escolher um (à sorte ou por votação) que faça as vezes de professor. quer acerca de coisas aprendidas há pouco ou há muito tempo.html 169/357 . relendo­a depois à noite e de manhã. e. 47. nomeado pelos condiscípulos. reforçado por um exercício de alguns anos. cada um temerá tanto por si como pelos outros. apenas por divertimento e por prazer. Exercicio de ensinar os outros fora da escola. recusa. com grande vantagem para si e para os alunos. fará as devidas correções.org/eLibris/didaticamagna. Com esta repetição assim tantas vezes renovada. com palavra franca e coragem. ao www. a lição tornar­se­á mais familiar a todos do que estudando afincadamente durante longas horas em casa. Para semelhante exercício. se assim não aconteceu. discutir entre si. experimentarão um doce prazer. Além disso.

7/8/13 DIDACTICA MAGNA .ebooksbrasil. www.COMENIUS falarmos da escola de língua nacional e da escola clássica. nos capítulos XXIX e XXX.html 170/357 .org/eLibris/didaticamagna.

até ao presente. E então há­de ser precisamente apenas às pessoas que se dedicam ao estudo. levantam e transportam grandes pesos? E que os pesadores. dirá alguém.html 171/357 .org/eLibris/didaticamagna. muitas vezes. É necessário conhecer a doença antes do remédio. que hão­de faltar os meios para executar engenhosamente os próprios trabalhos? Que o próprio sentimento de honra nos obrigue a uma ardorosa emulação. Mas. na procura dos remédios susceptíveis de suprimir as dificuldades que.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . tão ampla e profunda. se se não procura economizar tempo e fadiga. quantas bibliotecas e quantas fadigas seriam necessárias para uma instrução universal deste gênero? Resposta: sem dúvida. sem nenhuma dificuldade? Quem não sabe que os mecânicos. a empresa tem uma extensão muito ampla e exige fadigas sem fim. Mas não poderemos encontrar os remédios.COMENIUS Capítulo XIX FUNDAMENTOS PARA ENSINAR COM VANTAJOSA RAPIDEZ Previne­se uma objeção acerca da dificuldade. sem primeiro termos descoberto as doenças e as causas das doenças. pesam coisas com muitas libras de peso? É bem verdade que. fazendo correr pelo fiel da balança ainda que seja uma só onça. 2. desenhando figuras de admirável variedade? Quem não sabe que os moleiros moem rapidamente milhares e milhares de grãos e que separam perfeitamente o farelo da farinha. e quase sem nenhuma fadiga. como o próprio mundo que se quer conquistar com o espírito. sem primeiro termos descoberto qual foi a causa que. com pequenas máquinas. a arte é tão longa. estas coisas são trabalhosas e demasiado demoradas. têm atormentado as instituições escolares. Com efeito. e que as coisas trabalhosas se podem transformar em vantajosas? Quem ignora que os tecelões tecem rapidamente milhares e milhares de fios. Ou seja.ebooksbrasil. a tal ponto retardou os trabalhos escolares e o seu progresso que a maior www. vale mais o jeito que a força. Quantos professores. Resposta: Importa procurar economizar tempo e fadiga 1. Mas quem não sabe que mesmo os trabalhos longos se podem encurtar.

durante alguns anos. ninguém nenhumas vias que www. Por exemplo: àqueles que principiavam a estudar os primeiros elementos das línguas. obrigavam­se apenas a aprender. que por natureza são conexas. Na escola de latim. quando se anda. a combater com palavras. mas por fragmentos. Quarta: Raras vezes. até às quais deviam ser conduzidos os alunos em cada ano. se atira e se recebe. 3. sem haver a preocupação de lhes ensinar coisas.org/eLibris/didaticamagna. Embora todas essas coisas (ler e escrever. quando se conversa. deixando­se para alguns meses depois o ensino da escrita. não conseguiram ainda penetrar em todas as ciências e em todas as artes. em qualquer lugar. Segunda: não estavam traçadas conduzisssem infalivelmente às metas. Terceira: as disciplinas. quando se joga a bola. De igual maneira. aos olhos dos alunos. II 4. mas mantendo­ as separadas. eram ensinadas sem atender às suas relações mútuas.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . de tal modo que os anos da adolescência se gastavam todos nos estudos da gramática. e algumas nem sequer as saudaram do limiar da porta. ensinava­se apenas a ler. palavras e coisas. aprender e ensinar) devam ser feitas tão simultaneamente como. em cada mês e em cada dia. nos seus devidos lugares. mas tudo era incerto e duvidoso. se ouve e se responde. e nunca a ensinar. mesmo que tenham passado toda a vida nas escolas. Oito causas dos atrasos escolares.ebooksbrasil. as artes e as ciências eram apresentadas de modo suficientemente enciclopédico.html 172/357 . III 5. IV 6. eram como que um montão de paus ou de sarmentos. deixando­se os estudos filosóficos para uma idade mais avançada. É sabido que são absolutamente verdadeiras as seguintes causas: I Primeira: não havia nenhumas metas fixas. Daí resultava que. se levantam e se abaixam os pés. como vimos já atrás. obrigavam­se os adolescentes.COMENIUS parte dos estudantes.

mas ninguém conseguia uma instrução verdadeiramente universal e. Sétima: E. permitia­se aos alunos. sem que os mestres o levassem a mal. o que é pior. Quinta: Utilizavam­se métodos múltiplos e vários: cada escola tinha o seu. e julgava­se que.COMENIUS pensando sequer na razão por que estavam juntas. possuir. VII 9. além dos livros de texto.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . fundamental. de modo que os alunos poucas vezes sabiam bem de que se tratava.html 173/357 . e os alunos. As conseqüências disso eram que um adquiria este conhecimento e outro aquele. Sexta: Faltava o processo de instruir ao mesmo tempo todos os alunos da mesma classe. faziam­no com tédio e aborrecimento. que podia daí resultar senão uma nova confusão? Com efeito. E. por isso.org/eLibris/didaticamagna. cada professor tinha o seu. ou tinham muitas ocasiões de ócio inútil. para ensinar uma e a mesma coisa. se acaso os alunos eram muitos. se eram vários os professores. antes mesmo de a elas se chegar.ebooksbrasil. e até o mesmo professor usava um para ensinar uma arte ou língua e outro para ensinar outra arte ou língua. na escola e fora da escola. fazendo­se um esforço inaudito para os instruir um por um. distraem os espíritos. acontecia que os professores tinham um trabalho de burro de carga. Por isso. quanto é para admirar que algum conseguisse desembaraçar­se daqueles www. e. quanto mais autores folheassem. V 7. VIII 10. de modo que muitos nem sequer as queriam começar a estudar. outros livros. quase em cada hora. e também que certas disciplinas fizessem nascer a náusea ou o desespero. ou. VI 8. não é tanto para admirar que poucos conseguissem percorrer todas as disciplinas. Oitava: Finalmente. quando não eram senão mais motivos de distração. assim como a multidão dos livros. Daqui as hesitações e os atrasos. eram propostas e realizadas tarefas diferentes. se lhes davam algum trabalho a fazer. nem sempre usava o mesmo método. tantas mais ocasiões se lhes ofereciam de fazer progressos. Para já não falar de que a multidão dos professores.

aos minerais. faz germinar. os caminhos que conduzem diretamente ao objetivo. rega todas as coisas. conserva imutavelmente a mesma forma. o sol. às plantas e aos animais. no mesmo gênero de coisas. com poucos. ja passados em revista. No mesmo tempo. todos os anos. 12.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . a deste ano. tendo em mente os modos. que é o melhor modelo que nos oferece a natureza. Com os mesmos raios. com que as escolas desempenham a sua missão. cada uma segundo a sua natureza própria. deveremos afastar estes obstáculos e estes atrasos. ou então (segundo a regra comum) não empregar muitos meios. onde. Aqui na terra. ou seja. Resumo das operações solares. O sol não se ocupa de cada um dos objetos. 11. Ou seja.COMENIUS labirintos. é possível conseguir o resultado. cujas espécies e indivíduos são infinitos). chega para todos e. portanto. o verão. e seguir apenas. o outono e o inverno.org/eLibris/didaticamagna. produzindo para todas as regiões a primavera. vida e vigor a todos os corpos. os modos como o sol realiza a sua função. todavia. Efetivamente. não obstante uma amadurecer os frutos mais cedo e outra mais tarde. II. o que não acontecia senão às inteligências mais bem dotadas. Para o futuro. devemos procurar imitar o sol. calor. etc. E mantém sempre a mesma ordem: a de hoje será a mesma de amanhã.html 174/357 . com o mesmo vento. com o mesmo calor e com o mesmo frio. III. incrementa todas as coisas. ventila todas as coisas. a mesma do ano seguinte e. 13. com a mesma condensação e dissolução das nuvens. sem rodeios. portanto. A regra para afastar estes atrasos deve ir buscar­se à natureza. www. IV. ilumina todas as coisas.ebooksbrasil. simples e compostos. embora ele desempenhe uma função difícil e quase infinita (a missão de espalhar por toda a terra os seus raios e de ministrar luz. por exemplo. Vejamos. I. de uma árvore ou de um animal. florir e frutificar as plantas. mas ilumina e aquece toda a terra. realiza com exatidão o giro que tem por missão realizar.

II. E se todas as coisas se ensinarem gradualmente. se dispender. não produz coisas inúteis. destroi­a e aniquila­a. VIII. de tal maneira que a inteligência se possa abrir como que com uma chave. como é certo que vemos o sol realizar. houver um só autor. em tudo. e as coisas se lhe possam manifestar espontaneamente. Todas as disciplinas e todas as línguas forem ensinadas com o mesmo método. 15. a partir dos seus fundamentos. Enfim.org/eLibris/didaticamagna. sem interrupções. é tão certo que o curso dos estudos se processará com mais facilidade e com mais rapidez. o pecíolo e o caroço. se puser de parte as coisas inúteis. VII.html 175/357 . E faz nascer todas as coisas das suas sementes e não de outra origem. Cada escola. todos os anos. o mesmo trabalho. 14. IV. de modo que todas as coisas aprendidas hoje sejam um reforço das aprendidas ontem e uma preparação para as que se aprenderão amanhã. E produz juntamente todas as coisas que devem existir juntamente: o tronco juntamente com a casca e com o cerne. o fruto juntamente com a casca. Todas as coisas que por natureza são conexas forem ensinadas em conexão umas com as outras. em comum. E faz crescer todas as coisas gradualmente.ebooksbrasil. como convém a cada uma. se I. Agiremos à imitação do sol. Para cada matéria. a flor juntamente com as folhas. www. VII. de modo breve e eficaz. e se porventura alguma nasce. para que umas preparem o caminho às outras e se acolham reciprocamente. se. V. o seu giro à volta do mundo inteiro. Enfim. VIII.COMENIUS V.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Todas as coisas forem ensinadas. Se pudermos introduzir nas escolas estes princípios pedagógicos. VI. VI. III. tiver um só professor. ou ao menos cada classe. Para todos aqueles que estão a assistir às lições.

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DIDACTICA MAGNA - COMENIUS

Entremos, portanto, no assunto, para que vejamos como é fácil pôr em prática estes nossos conselhos.

PROBLEMA 1
Como pode um só professor ser suficiente para qualquer número de alunos? Porque é que em cada escola deve haver um só professor. 1. 16. Não só afirmo que é possível que um só professor ensine algumas centenas de alunos, mas sustento que deve ser assim, pois isso é muito vantajoso para o professor e para os alunos. Aquele desempenhará, sem dúvida, as suas funções com tanto maior prazer quanto mais numerosos forem os alunos que vir diante de si (com efeito, até os mineiros exultam, quando vêem que o minério é abundante), e quanto mais ardoroso ele for, tanto mais atentos tornará os alunos. De modo igual, quanto mais numerosos forem os alunos, tanto maior prazer e utilidade sentirão (para todos os que trabalham constitui um grande conforto ter muitos companheiros de trabalho), uma vez que se estimularão e se ajudarão mutuamente, pois também esta idade sente os estímulos da emulação. Além disso, quando o professor é ouvido por poucos, facilmente esta ou aquela coisa passa inadvertida aos ouvidos de todos; quando é ouvido por muitos, cada um fixa quanto pode e depois, com as repetições, volta­se ao princípio em cada coisa, contribuindo todas as coisas para a utilidade de todos, uma vez que a inteligência de um afia a inteligência de outro, a memória de um, a memória de outro. Numa palavra, assim como o padeiro, com uma só fornada de massa e aquecendo uma só vez o forno, coze muitos pães, e o forneiro, muitos tijolos, e o tipógrafo, com uma só composição, tira centenas e milhares de cópias de um livro, assim também o professor, com os mesmos exercícios, pode, ao mesmo tempo e de uma só vez, ministrar o ensino a uma multidão de alunos, sem qualquer incômodo. Do mesmo modo que vemos também que um só tronco é suficiente para sustentar e embeber de seiva uma árvore, por mais ramos que ela tenha, e o sol é suficiente para fecundar toda a terra. Como é possível? Prova­se com exemplos da natureza.

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17. Mas como pode fazer­se isso? Vejamos, pelos exemplos da natureza, há pouco referidos, qual o modo de proceder. O tronco não se estende até às extremidades de todas as ramagens, mas, conservando­se no seu lugar, comunica a seiva aos ramos principais, que lhe estão imediatamente ligados, e estes comunicam­na a outros e assim sucessivamente até às últimas e mais pequeninas partes da árvore. Também o sol não incide, em particular, sobre cada uma das árvores, das ervas e dos animais, mas, espalhando os seus raios, do cimo dos céus, ilumina ao mesmo tempo todo um hemisfério, apropriando­se cada uma das coisas criadas da sua luz e do seu calor, para utilidade própria. Deve, todavia, observar­se também que a ação do sol é ajudada pela situação do lugar, pois os raios concentrados nos vales aquecem mais a região vizinha. Nas escolas deve imitar­se a natureza. 18. Portanto, se a organização escolar se conformar com estes exemplos naturais, com a mesma facilidade um só professor bastará para a educação de um grande número de alunos. Ou seja: I. Dividindo os alunos em classes. I. Se os alunos forem divididos em várias turmas, por exemplo de dez alunos cada uma; e se se colocar à frente de cada uma um aluno que vigie os outros, e à frente desses chefes de turma, outros alunos e assim sucessivamente até ao chefe supremo. II. Não dando lições a nenhum em separado, mas a todos em conjunto. II. Se nunca se instruir um aluno sozinho, nem privadamente fora da escola, nem publicamente na escola, mas todos ao mesmo tempo e de uma só vez. Por isso, o professor não deverá aproximar­se de nenhum aluno em particular, nem permitir que qualquer aluno, separando­se dos outros, se aproxime dele, mas, mantendo­se na cátedra (de onde pode ser visto e ouvido por todos), como o sol, espalhará os seus raios sobre todos; e todos, com os olhos, os ouvidos e os espíritos voltados para ele, receberão tudo o que ele exposer com palavras, ou mostrar com gestos ou gráficos. Deste modo, com um só vaso de cal poderão caiar­se, não duas paredes, mas muitíssimas[1]. III. Tornando todos atentos.

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19. Será preciso apenas habilidade para tornar atentos todos e cada um dos alunos, de tal modo que, acreditando que a boca do professor é (como efetivamente é) a fonte de onde para eles correm os arroios do saber, todas as vezes que notam que esta fonte se abre, se habituem a colocar logo debaixo dela o vaso da atenção, para que nada passe sem entrar no vaso. Por isso, o professor terá o máximo cuidado em nada dizer, se os alunos não estão a ouvir, e em nada ensinar, se não estão atentos. Se em algum lugar tem cabimento, é precisamente aqui que o tem esta advertência de Sêneca: «Não deve ensinar­se nada a não ser a quem tem vontade de escutar»[2]. E talvez também aquela sentença de Salomão: «O homem inteligente faz­se desejar» (Provérbios, 17, 27), isto é, não lança as suas palavras ao vento, mas no espírito dos homens. Como é isso possível? Com a ajuda dos monitores e com a ação do professor, seguindo oito vias. 20. Poderá despertar­se e manter­se viva a atenção, não só com a ajuda dos chefes de turma e de outros encarregados de qualquer vigilância (ou seja, de estar bem atentos aos outros), mas também e sobretudo pela ação do próprio professor, seguindo estas oito vias: 1. Se se esforçar por oferecer sempre aos alunos qualquer coisa de atraente e de interessante, pois assim os seus espíritos serão atraidos a ir à escola de boa vontade e dispostos a estar atentos. 2. Se, no princípio de cada lição, os espíritos dos alunos forem espevitados com a demonstração da importância da matéria a explicar, ou solicitados por meio de perguntas acerca de coisas já explicadas e que estejam em conexão com a matéria da lição desse dia, ou acerca de coisas ainda a explicar, a fim de que, apercebendo­se da sua ignorância acerca desse assunto, se lancem mais avidamente a adquirir conhecimento claro do tema. 3. Se o professor, mantendo­se num lugar elevado, lançar os olhos em redor e não permitir a nenhum aluno que faça outra coisa senão ter os olhos fixos nele. 4. Se ajudar a atenção dos alunos, apresentando todas as coisas, sempre que possível, aos sentidos, como mostrámos no capítulo XVII, fundamento VIII, regra III. Com efeito, isso facilita, não só a compreensão, mas também a atenção.

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5. Se, a determinada altura da lição, interrompendo a exposição, disser: «Fulano ou Sicrano, que é que acabei de dizer? Repete o último período; Fulano, diz a que propósito estamos a falar disto», e coisas semelhantes, para proveito de toda a classe. E se verificar que algum não estava atento, repreenda­o ou castigue­o. Assim, todos farão todo o esforço possível por estar atentos. 6. De igual modo, se o professor interrogar um aluno, e este não responder, passe ao segundo, ao terceiro, ao décimo, ao trigésimo, e convide­o a responder, sem lhe repetir a pergunta. Faça­se isto sempre com o objetivo de que, quando se diz uma coisa a um, todos se esforcem por estar atentos, e por tirar daí qualquer utilidade. 7. Pode também proceder­se do seguinte modo: se um ou dois não sabem determinada coisa, pergunte­se a toda a classe; e então aquele que responder em primeiro lugar ou que responder melhor, seja louvado diante de todos, para que sirva de exemplo à emulação. Se algum se enganar, seja corrigido, fazendo­lhe ver também o motivo do engano (que a um professor sagaz não será difícil descobrir) e fazendo­o desaparecer. O progresso rapidíssimo que se faz desta maneira é algo de incrível. 8. Finalmente, terminada a lição, dê­se aos alunos a oportunidade de perguntarem ao professor tudo o que quiserem, quer acerca de alguma dificuldade surgida nessa lição, quer em lições anteriores. Não deve, todavia, permitir­se pedidos de explicação em particular. É necessário que cada um consulte o professor em público, quer por si, quer por meio do seu chefe de turma (se este não foi capaz de dar­lhe uma resposta satisfatória), de modo que tudo se torne útil a todos, tanto as perguntas, como as respostas. Se algum faz um maior número de perguntas úteis, deve ser louvado mais freqüentemente, para que aos outros não faltem exemplos e incitamentos para serem diligentes. Quão grande é a utilidade da atenção assim exercitada. 21. Semelhante exercício quotidiano da atenção será útil aos adolescentes, não somente no presente, mas assim durante toda a vida. Habituados, com efeito, pela prática contínua de alguns anos, a fazer sempre aquilo que devem fazer, farão sempre tudo atentamente, sem esperar que os outros os advirtam ou estimulem. E se as escolas procederem assim, porque não há­de esperar­se que forneçam uma abundantíssima produção de homens de valor?

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Objeção: será possível que assim se atenda a todos e a cada um dos alunos? Respondo que sim: 1. Com a ajuda dos chefes de turma. 22. Pode, porém, objetar­se que é necessário uma vigilância particular, por exemplo, para ver como cada um conserva os livros asseados, como escreve corretamente as lições, como aprende bem de cor, etc. Ora, se os alunos são muitos, este trabalho exige muito tempo. Resposta: Não é necessário que o professor ouça sempre todos os alunos, nem que examine sempre os livros e os cadernos de todos, pois, tendo como ajudantes os chefes de turma, estes estarão atentos a que os alunos, colocados sob a sua responsabilidade, procedam como devem. 2. Com a habilidosa vigilância do próprio professor. 23. Pessoalmente, o professor, como inspetor supremo, deverá apenas estar atento ora a este, ora àquele aluno, para verificar a sua fidelidade, de modo especial daquele de quem desconfia. Por exemplo: mandará dizer a lição, aprendida de cor, a um, dois ou três ou mais alunos, um após o outro, tanto dos últimos como dos primeiros, enquanto toda a classe está a ouvir. Assim, todos sentirão necessidade de estar sempre preparados para responder, pois cada um terá receio de ser interrogado. Ou então, quando o professor vê que determinado aluno começa a responder desembaraçadamente, se está persuadido de que ele responderá bem no resto, ordena a outro que continui. Se também este mostra segurança, mande que o terceiro período ou o terceiro parágrafo seja dito por outro. Assim, examinando acerca de poucas coisas, certificar­se­á se todos estudaram a lição. Modo de examinar as lições ditadas e escritas. 24. Procede do mesmo modo relativamente às lições escritas, após haverem sido ditadas, se acaso as houver. Manda ler o escrito a um ou a dois ou, se necessário, a vários, com voz clara e distinta, e notando também expressamente os sinais de pontuação; os outros, olhando cada um o seu caderno, corrigem. Poderá, todavia, o professor, de vez enquando, examinar ele próprio os cadernos de um ou dois alunos, ao acaso; e, se for encontrado algum negligente, seja castigado. Modo de corrigir os exercícios de composição.

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25. Para corrigir os exercícios de composição, parece que será necessário um pouco mais de trabalho, mas, ainda aqui, não faltaremos com o nosso conselho àqueles que seguirem o caminho que indicámos. Por exemplo, nos exercícios de tradução, proceda­ se do seguinte modo: depois de todos, turma por turma, terem terminado a tradução, manda­se levantar um e desafiar o adversário que quiser. Logo que o adversário esteja de pé, o outro leia a sua tradução, um pedaço de cada vez, enquanto todos os outros escutam atentamente, e o professor (ou então o chefe de turma) está a vigiar, pelo menos para examinar a ortografia. Depois de ler um período, pára, mostrando o adversário os erros que acaso notou. A seguir, permite­se a todos os alunos daquela turma e, finalmente, a todos os alunos da classe, que façam a crítica daquele período; depois, se necessário, o professor faça as suas observações. Entretanto, todos observam os seus próprios cadernos, e, se cometeram erros iguais, corrigem­nos, exceto o adversário que deve conservar intacta a sua tradução para a crítica que se seguirá. Depois de bem examinado e de bem corrigido este período, passe­se a outro, e assim sucessivamente até ao fim. Então, o adversário lerá a sua tradução, seguindo o mesmo processo, mas estando atento aquele que o provocou, para que não leia uma tradução corrigida em vez da não corrigida. Far­se­á a critica de cada palavra, de cada frase e de cada conceito, seguindo o processo anteriormente usado. Depois, aplica­se o mesmo sistema com outro par de alunos, e com tantos outros pares quantos o tempo o permitir. Missão dos chefes de turma nesta matéria. 26. Mas os chefes de turma deverão vigiar: 1. que, antes que comece a correção, todos tenham terminado a tradução; 2. que, enquanto se faz a correção; todos estejam atentos, para corrigirem os próprios erros à medida que vão ouvindo os erros dos outros. Utilidade deste método. 27. Assim se conseguirá que: I. Ao professor seja diminuído o trabalho. II. Nenhum dos alunos seja esquecido e todos sejam instruídos.
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III. A atenção de todos seja mais viva. IV. Tudo o que, por qualquer razão, se disser a um, sirva igualmente a todos. V. A variedade das frases — pois, sendo diversos os alunos, será impossível que não usem frases diversas — sirva para formar e confirmar tanto o juízo acerca das coisas, como o uso da língua. V. Finalmente, feita a correção das traduções de dois ou três pares de alunos, aparecerá claro aos outros que pouco ou nada falta para corrigir. Por isso, o resto do tempo seja consagrado a todos em comum, para que aqueles que, ou têm qualquer dúvida acerca da sua própria tradução, ou crêem havê­la feito melhor que os outros, apresentam o seu ponto de vista e sobre ele se pronuncie um juízo. 28. Disse estas coisas acerca dos exercícios de tradução como que à maneira de exemplo, mas elas podem aplicar­se facilmente, em todas as classes, aos exercícios de estilo, de oratória, de lógica, de teologia, de filosofia, etc. 29. Assim se vê que um só professor pode bastar para centenas de alunos, sem que seja maior a sua fadiga do que se devesse trabalhar apenas para um ou dois alunos.

PROBLEMA II
como é possível ensinar a todos com os mesmos livros. A este propósito é necessário observar cinco coisas: I. Durante esse tempo não deve permitir­se outros livros. 30. Todos sabem que a pluralidade dos objetos distrai os sentidos. Conseguir­se­á, por isso, uma grande economia de fadiga e de tempo: Primeiro, se aos alunos se não permitirem senão os livros de texto da sua classe, a fim de que seja sempre posto em prática o mote que, nos tempos antigos, era repetido a todos os que ofereciam sacrifícios: Atenção! estás a oferecer um sacrifício![3]. Efetivamente, quanto menos os outros livros ocuparem os olhos, tanto mais os livros de texto ocuparão a mente. II. Dos livros de textos deve haver abundância. 31. Segundo, se todo o material escolar, isto é, quadros, cartazes,
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a escrever e a traduzir. se aceita que cumpriu o seu dever. 32. mas se tenha servido de uma tradução já feita. para que sejam uma imagem verdadeira de todo o universo (o qual deve ser mpresso nas mentes juvenis). vantajoso ter prontos. desde que aquilo que é necessário esteja pronto e o professor ensine o seu uso exato. fazem). em quantidade suficiente.COMENIUS livros elementares. Efetivamente. 33. de fato. textos ou traduções de textos. por isso. Previne­se uma objeção. dicionários. etc. III. quer maior segurança quanto aos erros. etc. e aqueles que hão­de verter­se para a língua materna. de modo muito mais útil. consolar. quanto tempo se perde! Será. Sejam feitos com primor e escritos em linguagem acessível. mesmo sem qualquer professor. sólido e aprimorado. tenham a tradução ao lado. fomentar a preguiça dos professores. todos os livros que se usam em todas as classes. deverão ser conformes às nossas leis da facilidade. portanto.. os quadros alfabéticos. de modo completo. E (o que vivamente desejo e inculco) que esses livros exponham todas as coisas de modo familiar e popular. para todas as escolas. a repetições e a tentativas de imitação. Porque convém compô­los em forma de diálogo? 34.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .). a explicações.org/eLibris/didaticamagna. exortar. para que tornem tudo acessível aos alunos. assim como se o pregador lê o texto sagrado da Bíblia.html 183/357 . Estes livros. pouco interessa). assim também aos alunos pouco importa que o próprio professor ou qualquer outro antes dele tenha preparado a sua lição. e explica e mostra a sua utilidade aos ouvintes (para os ensinar. enquanto os professores fazem (como. estiver preparado.ebooksbrasil. tudo o que é necessário. quer maior espaço de tempo para os exercícios práticos. que tudo esteja preparado. E não deve ter­se receio de. de modo que o entendam por si. assim. poderá dedicar­se. Gostaria que esses livros fossem compostos em forma de www. É bom. Com efeito. e contar. para que haja. para os alunos. etc. (uma vez que isso. para os ouvintes. pois. embora não tenha sido ele a traduzir o texto original. escrevem modelos de caligrafia e ditam regras. da solidez e da brevidade. tratados acerca das artes e das ciências. pois assim todo o tempo que deveria consagrar­se a ditar.

assim escreveu Cícero várias das suas obras e Santo Agostinho toda a sua teologia. 5. gravidade e prontidão. como ilustrações. não só a compreender as coisas úteis. como. sobretudo se nelas se misturam coisas agradáveis. escreveram os comediógrafos todas as suas observações acerca da decadência dos costumes. ou impossíveis ou árduas ou demasiado difíceis. em parte alguma. para que não imaginem que as coisas são. dessa maneira. os diálogos servem para facilitar as repetições. Será bom também que os livros utilizados sejam da mesma edição.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Com efeito. se se habitua. nestes casos. 3. assim também na mente dos alunos permanecem mais tenazmente fixas as coisas que aprendem por meio de uma comédia ou de uma conversação (pois. IV. O conteúdo dos livros deve pintar­se nas paredes. que um fato que apenas ouvimos referir. para advertência do povo. Finalmente.COMENIUS diálogo. assim escreveu Platão toda a sua filosofia. pois nada há de mais familiar nem de mais natural que a conversação. lhes parece não só ouvir.ebooksbrasil. pela variedade e troca dos interlocutores. mesmo quando estas são feitas privadamente entre os alunos. pelas seguintes razões: 1. porque. a juventude é para isso facilmente conduzida. para o nosso objetivo.org/eLibris/didaticamagna. Assim. Uma vez que a maior parte da nossa vida é constituída por conversas. 36. e para que. por causa das citações e da memória local. de tal modo que as páginas.html 184/357 . se dê motivo a atrasos. da mesma maneira que recordamos melhor um fato que nós próprios vimos. elegância. Será da maior utilidade. mas ainda a discorrer acerca delas com variedade. retratos www. como o demonstra a experiência. em forma de diálogo. V. mais facilmente se pode adaptar a matéria e o estilo aos espíritos juvenis. o homem pode ser conduzido onde se quer e sem que ele se aperceba disso. que se pinte nas paredes das aulas o resumo de todos os livros de cada classe. para eles. animam e reavivam a atenção. De uma só edição. 4. tanto o texto (com vigorosa brevidade). Os diálogos excitam. a fim de se adaptarem à capacidade dos leitores. 35. mais ainda. 2. não só o espírito se liberta do tédio. O diálogo torna a instrução mais sólida. pela qual. as linhas e todas as outras coisas concordem. pouco a pouco. se torna sempre mais desejoso de estar a ouvir. e pelos diferentes motivos e formas destas. mas também ver o fato) que as que apenas ouvem contar de uma forma nua pelo professor. precisamente pela variedade das perguntas e das respostas. estendendo mais o campo da sua atividade.

(Acerca destas pinturas. na mesma classe. quando todos estão a pensar e a trabalhar esforçadamente à volta da mesma coisa.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Também Deus encheu. de modo que todos. em tudo. todos os dias.COMENIUS e relevos. apenas uma matéria fosse estudada. estimulados. não foi sem razão que os antigos nos transmitiram este processo. entrando lá às escondidas. Com efeito. ao mesmo tempo. nas paredes do templo de Esculápio estavam inscritas as regras de toda a medicina. e quer instruir­nos por meio deles. as quais Hipócrates.html 185/357 . instruindo­os um a um. embora se dirija particularmente a um só. conduzindo­os em conjunto para a parada. em cada ano. Efetivamente. quer. estátuas e imagens. Assim como um oficial não ensina os exercícios aos recrutas. e. falaremos mais amplamente na descrição particular das classes)[5]. 2. 37. mostra a todos o uso das armas e o modo de as manejar. semana. a possam realizar e assim atinjam a meta juntamente. do mesmo modo que o sol não começa o seu trabalho à volta de todos os vegetais senão uma vez por ano (na primavera). copiou[4]. que os outros façam as mesmas coisas que este faz. assim também deve proceder. além disso. www. haja uma tarefa a realizar. como vivos representantes da sua sabedoria. que estejam atentos a este e procurem fazer os mesmos exercícios que este faz. na escola. e. Como é possível? 38.org/eLibris/didaticamagna. pelos quais os sentidos. o professor. mês. todos façam as mesmas coisas durante o mesmo tempo. Não abrir as escolas senão uma vez por ano. será necessário: 1. por todos. PROBLEMA III Como é possível que. Dispor tudo o que deve fazer­se. dia e até em cada hora. de maneira que. a memória e a inteligência dos estudantes sejam. todavia. pois assim o professor teria menos trabalho e os alunos aproveitariam mais. por toda a parte. depois corrigem­se uns aos outros com mútuas ajudas. É evidente que seria útil que. Porque convém que todos se ocupem de uma só coisa ao mesmo tempo.ebooksbrasil. Para que isso seja possível. um aguça o engenho do outro. sem tropeçar. este grande teatro do mundo de pinturas. mas.

Os livros bons devem preferir­se aos livros medíocres. Com efeito. As diferenças particulares notar­se­ão mais facilmente. portanto. permanecendo intactas as qualidades gerais e comuns do método. mas do critério do professor. 39. PROBLEMA IV Como é possível que se ensine todas as coisas com um só método. em todos os domínios. se pode ter compreensão clara de muitas coisas. mesmo de uma www. que.html 186/357 . o método natural. é certo que ao estômago humano dá mais alimento um pedaço de pão e um trago de vinho que um saco de palha ou de qualquer mixórdia. falaremos mais particularmente. PROBLEMA V Como. falando das regras. não sendo necessário senão introduzir­lhe uma luz para que ele veja imediatamente. 40. isto é. e não resulta da essência da matéria estudada. disse expressamente: «as sementes devem espalhar­se com justa medida. pois não importa que sejam muitas.COMENIUS Mas.org/eLibris/didaticamagna. constituirá para os alunos uma grande economia de tempo e de fadiga. demonstraremos que o método para ensinar todas as ciências não é senão um. Com efeito. no homem. O método natural não é senão um e deve ser utilizado em todos os domínios. existem todas as coisas. Com efeito.ebooksbrasil. XXI e XXII. o método natural. acerca disto. baseando­se esse critério na peculiar relação das línguas ou das artes entre si. dentro em breve. Nos capítulos XX. como não é senão um o método para ensinar todas as artes e as línguas. se acaso alguma se verifica num ou noutro domínio. se se fizerem ver particularmente. com poucas palavras. é tão ligeira que não pode constituir uma nova espécie de método. E Sêneca. E quem não sabe que. enquanto microcosmos <grego>. permanece assente aquilo que demonstrámos no capítulo V[7]. É melhor ter no bolso uma só moeda de ouro que cem moedas de chumbo. do mesmo modo que para os viajantes seguir por um caminho único e plano.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . a variação ou diversidade. e na capacidade e no progresso dos alunos. sem desvios. De modo algum é útil atormentar os espíritos com volumes ou discursos intermináveis. nos seus devidos lugares. Observar. mas que sejam boas»[6].

32. no relógio solar. isto é. onde se encontra então o sol. os pés permitem ao homem estar de pé. 8). mas bem escolhidas e por meio de teoremas e de regras facílimas de entender. com a mesma sombra. se façam duas ou três coisas. pois os seus membros crescem todos ao mesmo tempo. o pulmão. Com efeito. www. ou seja. que exponham as coisas sumariamente. O mesmo acontece nas coisas artificiais. produz o som. Além disso. com um só trabalho. embora estas três coisas sejam distintas entre si.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . 41. a boca é não só a porta do corpo. pode marcar as horas do dia (e isso até segundo diversos relógios). se podem fazer várias coisas. desenvolve­se para cima. andar para a frente e para trás. as flores e os frutos. ensina. Os exemplos da natureza mostram­nos que. o mesmo ponteiro. etc. para ensinar as artes e as línguas.org/eLibris/didaticamagna. PROBLEMA VI Como regular as coisas de modo que.html 187/357 . Uma árvore. para voltar e para parar o carro. ao mesmo tempo. mas também a mó e a tuba que ressoa. cada membro tem várias funções. que ponham sob os olhos dos alunos as coisas fundamentais. A mesma coisa pode observar­se num animal. muitas coisas em poucas palavras (como adverte o Eclesidstico. de modo que todas as outras coisas sejam naturalmente apreendidas pela inteligência. Nos carros. para baixo e para os lados. no mesmo tempo. faz crescer o tronco. o sinal do Zodíaco.COMENIUS pequena chama de candeia. o mesmo timão serve para dirigir. Também um bom orador e poeta. o dia do mês e muitas outras coisas. E a arte imita. de vários modos. ao mesmo tempo e com o mesmo trabalho. como livros fundamentais devem escolher­se ou fazer­se de novo volumes de pequeno tamanho e de notável utilidade. refresca o coração. com poucas palavras. A natureza mostra que. a casca. pode sair uma luz suficiente para um homem que estude de noite? Portanto. ventila o cérebro. a duração das noites e dos dias. Efetivamente. com a mesma obra. com um só trabaho. 42. e. comove e deleita. com a mesma respiração. se podem fazer diversas coisas. tais quais são. todas as vezes que se lhe ordena.ebooksbrasil.

para que cada trabalho produza mais que um fruto. Por força desta regra.COMENIUS Também as escolas a devem imitar. portanto. vice­versa. e. da mesma maneira que se vendem. não se ensinem nem se aprendam as palavras senão juntamente com as coisas. ouvem. coisas jocosas e coisas sérias. As palavras com as coisas. e. quem não exprime os sentimentos da própria alma é uma estátua. ao contrário. em toda a aprendizagem. Se quereis que sejam lidos certos www. como regra: Quanto mais alguém entende uma coisa. ler e escrever. Na verdade. Por exemplo: juntar as palavras e as coisas. além disso. a espada com a bainha. tudo o que vêem. Portanto. o que acontecerá se. e vice­ versa. Regule­se. mostrem­se­lhes as coisas que devem ser significadas com as palavras.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . o tronco com a casca e os frutos com a pele.html 188/357 . 44. 43. andarem juntamente as palavras com as coisas. e. Tenhamos. portanto. A norma geral para obter esse efeito é a seguinte: sempre e em toda a parte. tome­se o relativo com o seu correlativo. escreveu Sêneca na Carta 9[8]. «Importa proceder de modo que não sejamos escravos das palavras. Com efeito. todas as coisas semelhantes que possam excogitar­se. deverão banir­se das escolas todos os autores que apenas ensinam palavras. deve ter­se maior cuidado com aquilo que vale mais. e as coisas com as palavras. 45. que são as palavras senão os invólucros e as bainhas das coisas? Portanto. exercitar o estilo e o engenho.org/eLibris/didaticamagna. Norma geral acerca deste tema. Especialmente cinco coisas: I. inversamente. aprender e ensinar. formamos homens. e não fazem adquirir nenhum conhecimento de coisas úteis. Corolário: os livros palavrosos devem ser considerados bexigas cheias de vento. seja qual for a língua que os alunos aprendam. Efetivamente. segundo este modelo. quem tarameleia aquilo que não entendeu é um papagaio. para que a língua e a inteligência caminhem e se desenvolvam sempre a par. a formação da juventude. se compram e se transportam o vinho juntamente com a garrafa. e desejamos formá­los com economia de tempo e de fadiga. Não se permita a ninguém recitar aquilo que não entende.ebooksbrasil. apalpam e saboreiam. por meio de palavras. ou entender aquilo que não pode dizer. tanto mais se habitue a dizê­la. mas do sentido». mesmo a materna. Nós. aprenda a entender aquilo que diz. ensine­ se­lhes a exprimir.

Também os exercícios de leitura e de escrita se farão sempre juntos. Os exercícios escritos costumam geralmente fazer­se sem escolher a matéria e sem procurar a conexão dos temas. até que os alunos as saibam ler e escrever. a seguir. e coisas semelhantes).7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Eis. se tornam depois farrapos de papel. naquelas matérias que inculcam o conhecimento das coisas. é quase impossível excogitar para os alunos do a b c um estímulo ou um atrativo mais forte do que mandar­lhes aprender as letras. na qual se exercita a inteligência na aula. 47. acontece que. finalmente. neste caso. exercitar­se a pena naquela matéria científica ou literária. pois esse esforço poderá dispender­se mais uti1mente em coisas mais positivas. quando principiam a aprender a ler o latim. sem explicações prolixas e fatigantes e sem um esforço aturado de imitação. de modo especial. embora sejam elaborados com esforço. III. 46. portanto. de tal maneira que todos os frutos que se recolhem da leitura. ou ensaios de imitação. fazendo­as reler e copiar muitas e muitas vezes. constituirá uma economia de tempo e de fadiga repetir as declinações e as conjunções. aplicar­se este utilíssimo método de economia de tempo e de fadiga. fazei­os ler fora da escola. floresceram. exercícios da mente e da boca. porque é quase natural às crianças quererem pintar. Deve. mais ainda.html 189/357 . a sua força imaginativa desenvolver­se­á duplamente. de onde resulta que são meros exercícios de escrita e pouco ou nada exercitam a mente. Juntar a leitura e a escrita. entretanto. conheçam o significado das palavras com segurança e. ou relatos históricos (acerca dos inventores da arte de que se trata. escrevendo­as. saibam formar bem as desinências. ou. fazendo compor aos alunos. sem nenhuma utilidade para a vida. www. Na verdade. Assim. o grego e o hebraico. como escreve Santo Agostinho[10[ de si mesmo. ou comentários. ao mesmo tempo. portanto. e escrevendo progridamos. em qualquer gênero de estudos. como diz Sêneca[9]. Assim. deleitar­se­ão com este exercício. acerca dos lugares e das épocas.COMENIUS livros. II.org/eLibris/didaticamagna. a moral e a piedade. para que progredindo escrevamos. a pena os transforme num corpo. um quádruplo fruto de um só e mesmo trabalho! Poderá. por exemplo.ebooksbrasil. em que. com grande economia de tempo e de fadiga. Com efeito. mais tarde. exercitem­se naquelas matérias que posteriormente terão de aprender. quando souberem ler correntemente. de passagem e a correr. Os exercícios escritos sejam.

se. na primavera. não só a solidez. mas de modo que deles tirem prazer não menor do que se passassem os dias inteiros a jogar às pedrinhas»[12]. mas também a rapidez do progresso. E poderia. para ver quem conhece maior número. não só se tornará evidente quais os que. senadores. 49. no exército. embaixadores. Como se possa ensinar imediatamente tudo aquilo que se aprende. etc. enquanto que estas coisas são também recitadas pela língua. Do mesmo modo. V. dar­se o título de doutor. realizaremos plenamente o seguinte voto de Martinho Lutero: «ocupar a juventude. nos outros exercícios: por exemplo. as artes manuais. o exército. os negócios políticos. a quem maiores progressos fizer neste campo. mas como isto ajuda. que se concedem aos jovens para lhes recrear o espírito. É ainda possível preparar os espíritos para o estudo da medicina. IV. para maior estímulo. Efetivamente. mas também se acenderão imediatamente chamas no coração dos alunos. podem atribuir­se os títulos de general. As coisas jocosas devem juntar­se às sérias. Estas brincadeiras conduzem a coisas sérias. as escolas serão uma agradável preparação para a vida. secretários. diz respeito também ao argumento de que tratamos agora. Conjuguem­se o aprender e o ensinar. se as coisas jocosas. 48. permitindo­se uma sabatina.org/eLibris/didaticamagna.ebooksbrasil. primeiro ministro. Assim. por natureza. Então.COMENIUS para que.html 190/357 . Finalmente. os assuntos econômicos. presidentes das cdmaras. a arquitetura e outras coisas podem representar­se através dos instrumentos que lhes são próprios. www. assessores. são inclinados para a botânica. coronéis. com estudos sérios. a pena e a inteligência se exercitem. Assim. se conduzem a um campo ou a um jardim e se lhes mostra as espécies das ervas. o de rei. mostramo­lo no fim do capítulo XVIII[11]. V. PROBLEMA VII Como convém em tudo proceder gradualmente. marechal. nas escolas. licenciado ou bacharel em medicina. conseguir­se­á uma notável economia de tempo e de fadiga.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . forem tais que lhes representem ao vivo as coisas sérias da vida e criem neles o hábito das coisas sérias. capitães e porta­bandeiras.. conselheiros da coroa. etc. e ainda o de cônsul. na política. com o mesmo trabalho.

org/eLibris/didaticamagna. se tem dito que «não há coisa mais vã que saber e aprender muitas coisas. mas para a vida. onde devem lançar­se os fundamentos da sabedoria. portanto. Estudámos a maneira de usar o método gradual. É segundo essas normas que deverão redigir­se os livros de texto para as escolas de humanidades. Se. e ainda as esquisitices e coisas semelhantes dos poetas e dos comediógrafos de engenho luxurioso e até tendente para a lascívia. que as leia. VI. não sem razão. a fim de que a instrução. Pormenores insignificantes.COMENIUS O mistério da graduação diz respeito também a este assunto. coisas que não virão a servir para nada». 50. VII e VIII. São assim os nomes e a história dos ídolos e dos ritos pagãos. mas. para que. e ainda que «sabe. mas acrescentando­lhes algumas indicações metodológicas para os professores. quando temos tanta falta de tempo! Nada se aprende. ou seja. 51. e sem as quais. não quem sabe muitas coisas. nas escolas. fundamentos V. II. todavia. apenas para a escola.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . a moral e a piedade possam atingir gradualmente a sua perfeição. e no capítulo XVIII. Não tratar de coisas não necessárias (como são muitas das que se encontram nos livros dos pagãos). exclama Sêneca. PROBLEMA VIII Do modo de suprimir e de evitar os atrasos Não tratar de certas coisas. fundamentos V. I. São coisas não necessárias aquelas que não favorecem nem a moral. acerca do modo de usar bem e prontamente esses livros. «Que estultícia. 52. aprender coisas supérfluas. poderão tornar­se mais fáceis os trabalhos escolares. interessar a algum ler tais coisas nos autores por ele usados. mas quem sabe coisas úteis». III. no capítulo XVI. isto é. colocar diante dos alunos tais coisas não traz utilidade nenhuma.ebooksbrasil. fazendo alguma economia no ensino das coisas. a instrução não sofre qualquer dano. quando se sair da www.html 191/357 . VI e VII. nem a piedade. Coisas não necessárias. Coisas antipáticas (aliena). Uma vez que. se não se ensinar: I. uma ou outra vez.

mais tarde. por conseqüência. portanto. servirá uitilmente a Deus e à sociedade humana. é uma águia. nos estudos práticos. nas escolas. Não tratar de pormenores insignificantes. se vê que algum dos seus alunos está a fazer qualquer coisa contra a vontade[14]. III. Com efeito. hábil em todas as outras disciplinas. das árvores e dos animais. os quais penetram onde querem. E quando nenhum aluno for constrangido a fazer qualquer coisa contra a vontade. e nem todas as coisas se podem utilizar igualmente para os mesmos fins. nem formador. não o force. E como o professor é ministro.ebooksbrasil. relativamente à matemática. seja a quem for. 53. quebrado ou cortado um ramo a uma árvore. e o mesmo acontece com outros. e assim como um ser há­de tratar­se de um modo e outro de outro modo. no lugar que convém às suas capacidades. ou então o proveito não compensa o esforço. ou à poética. assim como é vária a índole das ervas. pois toda a força passa para eles. É certo que não faltam engenhos felizes. e. Um outro. os nomes dos seus instrumentos. e coisas semelhantes). ou não se aproveita nada. Basta. Do mesmo modo. etc. nada haverá que gere a náusea e entorpeça a mente. e tenha a esperança de que. enfadonho. mas cada um progredirá facilmente naqueles estudos para os quais (por disposição da divina providência) o arrasta um oculto instinto. num esforço inútil. Com efeito. São antipáticas as coisas que não são conformes ao engenho deste ou daquele. se perturbam e se obscurecem de modo estranho. perante certos objetos. Efetivamente.org/eLibris/didaticamagna.html 192/357 . Não tratar de coisas antipáticas (como são certos objetos para certos engenhos). como costuma acontecer. nas ciências especulativas. e não senhor. Nestes casos. não dá nada na música. que deve fazer­se? Querer tirar da natureza aquilo que ela não tem é lutar contra a natureza.COMENIUS escola. ou reformador da natureza. mas também não faltam aqueles que. assim também acontece com os engenhos dos homens. nada seja levado pelo vento»[13] II. os outros desenvolvem­se com mais vigor. passar em resenha os gêneros das coisas com as suas www.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Determinado indivíduo. ou à lógica. 54. é como um burro diante de uma lira. tornar­se­ia prolixo e confuso e. e ainda todas as atividades dos artistas. se alguém quisesse enumerar as mínimas particularidades (como todas as diferenças das ervas e dos animais. enquanto que. aquele aluno compensará em outra disciplina a deficiência naquela matéria.

tudo o resto se lhe entregará espontaneamente e passará para o seu poder. www. apresentar­se­ão por si à inteligência. as minúcias acabarão por esclarecer­se por si mesmas. e uma vez que uma boa parte deles nunca virão a ser usados. e expugnar as principais fortificações. mas atende aos aspectos mais importantes da guerra. Efetivamente. as outras coisas. com a certeza de que. assim como quem quer sair rapidamente vitorioso do inimigo.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . se vencer o grosso do exército. na ocasião propícia. não se demora a dar o assalto a todas as pequenas posições. desde que tal resenha seja completa e sólida.org/eLibris/didaticamagna. para quê obrigar os jovens a aprendê­los e a sobrecarregar com eles a memória? Eis o que queria dizer acerca da economia de tempo e de fadiga que pode fazer­se quando se ensina e quando se aprende.ebooksbrasil.html 193/357 .COMENIUS principais diferenças (mas verdadeiras). se se conseguir submeter à inteligência as coisas principais. ou seja. de modo que. assim também acontecerá no caso que nos interessa. A este gênero de obstáculos pertencem os vocabulários e os dicionários chamados completos. aqueles que abrangem todos os vocábulos de uma língua.

as artes. Que se lhe ofereçam as coisas que estão relacionadas com outras coisas. 1. Assim. Em resumo.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . a luz é a devida atenção. o objeto e a luz. Não está nas mãos de ninguém receber uma inteligência www. A ciência é a visão da mente.ebooksbrasil. de modo fácil. Disse «metodicamente». e então IV. Que os objetos lhe estejam próximos. acerca do modo de ensinar metodicamente as ciências. Como conservar puros os olhos da mente. sólido e rápido. finalmente. compreenderá tudo. 2. é preciso usar uma técnica própria. Dados estes meios. as observações dispersas. exigindo os mesmos requisitos que a visão dos olhos. 3. o objeto são todas as coisas colocadas fora e dentro da inteligência. se se quer ver as coisas tais como são.html 194/357 . segue­se a visão. I.COMENIUS Capítulo XX MÉTODO PARA ENSINAR AS CIÊNCIAS EM GERAL Os riachos devem confluir para um rio. Que tenha puros os olhos da inteligência. uma vez que não é senão uma visão interna das coisas. bem e depressa. as quatro condições seguintes: I. os olhos. exige os mesmos requisitos que a observação ou visão externa. aqui e além. com o devido método. assim também. Que preste atenção. Mas. as línguas. assim como. a fim de que as coisas se apresentem à inteligência de modo que esta as apreenda e conheça com prontidão e certeza. Ora os olhos da visão interna é a mente ou engenho.org/eLibris/didaticamagna. Reunamos. III. é preciso usar um método próprio. na visão externa. A ciência ou conhecimento das coisas. a moral e a piedade. 4. em um só lugar. devem proporcionar­se ao adolescente. ou seja. que deseja penetrar a fundo as partes mais intrincadas das ciências. II. na ciência. isto é.

suprema inspetora. desperdícios e coisas semelhantes. que esses mesmos objetos sejam apresentados aos sentidos. a mente (que é também um espelho). fornecem constantemente matéria. em nosso poder não permitir que estes nossos espelhos se embaciem de pó e percam o seu brilho. Tudo por meio da ação direta da vista. em primeiro lugar. verdadeiras e úteis. Portanto. Ora. vãs e inúteis da mente. Com efeito. a seu beneplácito. da poeira. significa habituar sensatamente a juventude às coisas honestas e úteis. e refletem­se demasiado debilmente no espelho. as audíveis ao ouvido. e as coisas afastadas não se refletem de modo algum. não brilham. a neblina e outras coisas semelhantes. as tangíveis ao tato. as coisas visíveis à vista. a nossa mó interior. Deus. em segundo lugar.COMENIUS dotada destas ou daquelas qualidades. 6. todavia.html 195/357 . mantendo­a afastada das ocupações frívolas. em vez de trigo e cevada. Isto baseia­se em três razões válidas: www. para que o espelho reflita bem os objetos. fundamento VIII. ou seja. e produzi­la­ão se se aproximam tanto que os impressionem. Preservar. sejam colocadas. a maioria das vezes (a não ser que a razão. Com efeito. é necessário que os objetos sejam sólidos e evidentes. tomada de qualquer parte. e coisas sólidas. Como aproximar os objetos. que produzam boa impressão nos sentidos e na imaginação. São pó as ocupações ociosas. Por isso. diante de vários sentidos. como se disse no capítulo XVII. portanto. as saborosas ao gosto. a que os sentidos externos. ser percepcionadas por vários sentidos. e se algumas podem. fornecem­lhe folhelhos. fornecem­lhe coisas vãs. mas. seus habituais ministros. palha. as odorosas ao olfato. 5. esteja bem atenta). os objetos que se quer fazer conhecer à juventude devem ser coisas. seja para os professores regra de ouro: que cada coisa seja apresentada àquele dos sentidos a que convém. o nosso espírito está em continuo movimento como uma mó que gira. estes olhos interiores. Tripla razão desta regra 7. II. não sombras de coisas. E então acontece como na mó: todos os buracos se enchem de pó. distribui estes espelhos da mente.org/eLibris/didaticamagna. ou seja. ao mesmo tempo. Está. e. areia. ao mesmo tempo. pouco consistentes.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .ebooksbrasil.

na inteligência. 2. porque os sentidos dão começo ao conhecimento. se alguma vez ouvi cantar um rouxinol. para se ter a certeza. o viu (mesmo que fosse em imagem). O conhecimento deve necessariamente principiar pelos sentidos (uma vez que nada se encontra na inteligência. se. Se julgamos que nos encontramos em presença de coisas contrárias à nossa própria experiência sensíve1.ebooksbrasil. ao conhecimento sensitivo. Em conseqüência disso. saboreei o açúcar.org/eLibris/didaticamagna. 2. Porque é que então o ensino há­de principiar por uma exposição verbal das coisas. que primeiro não tenha passado pelos sentidos). 1. tanto mais é certo. É prova disso o fato de que. Por isso.COMENIUS 1. Segunda: a verdade e a certeza da ciência também não dependem senão do testemunho dos sentidos. e depois. E porque os sentidos são o mais fiel dispenseiro da memória.html 196/357 . não nos deixamos convencer pelos testemunhos de outrem. se sabe para sempre. não nos fiamos na razão senão quanto ao que pode demonstrar­se com a indução específica de exemplos (e é pelos sentidos que se verifica se eles merecem fé).7/8/13 DIDACTICA MAGNA . De fato. estas coisas aderem fixadamente à memória e não podem desprender­se. Com efeito. se. é necessário fazer tudo para lhas ensinar todas por meio da ação direta da vista e da percepção sensível. Com efeito. essa demonstração sensível de todas as coisas tem por efeito que. graças aos sentidos. ao passo que. porque o confiam à memória.8. Daqui se vê que. ainda que uma só vez.porque o tornam certo. 9. e quem tomou parte pessoalmente numa empresa. e não por uma observação real dessas mesmas coisas? Somente depois de esta observação das coisas ter sido feita. ao menos uma vez. se alguma vez estive em Roma e a visitei (com a necessária atenção. no raciocínio ou na afirmação de outrem. tudo o que se sabe através dela. bem entendido). facilmente se pode imprimir na mente das crianças a história sagrada e outras histórias. se presta assentimento por si mesmo. virá a palavra. quanto mais o saber deriva dos sentidos. se queremos que os alunos saibam as coisas com verdade e com certeza. E é evidente que cada um de nós imagina mais facilmente e mais tenazmente o que é um rinoceronte. conhece a sua história www. as coisas imprimem­se primeiramente e imediatamente nos sentidos. recorre­se ao testemunho dos sentidos. se alguma vez vi um camelo. 3. com imagens. para a explicar melhor.

Assim conviria fazer também no ensino da física e de outras disciplinas. entende e recordar­se­á de todas as coisas com mais certeza do que quem leu extensos tratados de anatomia. de zoologia. os pulmões.ebooksbrasil. os tendões. Seria necessário. o fígado. para fazer estas coisas. escrevendo­se sobre cada uma delas o seu nome e aquilo para que serve. as veias e as artérias. ele entenderá todas as coisas como que divertindo­se e. que. Esqueleto artificial do corpo humano. se colocam os músculos. 10. Efetivamente. Todas estas partes do corpo humano devem. o resultado compensará todos os esforços. N.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Daqui a máxima: A observação ocular faz as vezes da demonstração. porém. modelos ou desenhos feitos especialmente para o ensino. portanto. Daqui o dito de Plauto: «Uma só testemunha ocular vale mais que dez testemunhas auriculares»[1]. Embora. Grande utilidade das imagens no ensino. modelos das coisas. para que observe todas as suas partes. o diafragma. de geodésia e de geografia.org/eLibris/didaticamagna. em nosso entender. os nervos. sem observação ocular. o funcionamento do corpo humano ensinar­se­á muito do corpo bem por meio de demonstrações oculares. se um estudante de história natural é conduzido a ver este manequim. todavia. diante dele. Se porventura não é possível ter as coisas à mão. o coração. é desmontado.html 197/357 . podem utilizar­se os representantes delas. em todos os campos do saber.COMENIUS com mais certeza do que se. Por exemplo. uma por uma. a ouvisse contar centenas de vezes. feitos de peles cheias de lã.B. a partir de então. uma vez. quem. se. tendo estado ausente. à volta de cada osso de um esqueleto humano (como aqueles que habitualmente se encontram nas Academias. Deste modo. pois nem sempre é possível ter à mão coisas verdadeiras). de modo a poder tê­ los à mão nas escolas. de geometria. seja necessária alguma despesa e um pouco de perícia. ser colocadas no seu devido lugar e ser proporcionadas. juntamente com as vísceras. www. que juntam imagens às suas descrições. observou atentamente a anatomia do corpo humano. E o de Horácio: «aquelas coisas que vêm pelos ouvidos despertam muito mais lentamente a atenção que as que se apresentam à fidelidade dos olhos do observador e que ele vê por si mesmo»[2]. compreenderá a estrutura do seu corpo. construir instrumentos deste gênero (isto é. ou então feitos de madeira). como foi já ultimamente posto em prática pelos professores de botânica. o estômago e os intestinos. isto é.

durante a noite. as ausentes por meio das presentes. O modo como isto deve ser feito.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . mostrámo­lo no capítulo XVII e no capítulo XIX.ebooksbrasil. lembre­se que. não se apercebem de muitas coisas que sucedem na sua presença. assim também o professor. Falemos agora da luz. as chuvas e os trovões[3]. Faremos bem. decalcando o processo deste método sobre a técnica da visão www. para que dê uma luz clara. ser submetidas aos sentidos. distraídos por outros pensamentos. e as invisíveis por meio das visíveis. mesmo que o objeto se encontre muito perto dos olhos. assim como. Que exige o método de apresentar as coisas por meio de uma luz clara? 13. Em que consiste a luz da atenção. o qual mostra artificialmente como se geram os ventos. graças à qual o aluno. se se diz ou se se mostra qualquer coisa a quem não está atento. todas as coisas foram feitas com perfeita harmonia. ou nas regiões ultramarinas). pois. 12. se quer iluminar com o conhecimento das coisas um aluno circundado pelas trevas da ignorância. deve necessariamente acender a lâmpada e espevitá­la muitas vezes. uma coisa. assim também. a primeira coisa que tem a fazer é despertar nele a atenção. aberta. deste modo. com a inteligência presente e.html 198/357 . Com efeito. IV.COMENIUS Se todas as coisas podem ser apresentadas aos sentidos. beba aquilo que se lhe ensina. a fim de que a mente. Portanto. 11. ela passar­lhe­á desapercebida aos sentidos. por obra da divina providência.org/eLibris/didaticamagna. A luz do saber é a atenção. Ainda relativamente à luz. ninguém vê seja o que for. Se alguém duvidasse que todas as coisas. é em vão que se colocam os objetos diante dos olhos. deve falar­se agora do modo ou do método de apresentar os objetos de tal maneira aos sentidos que eles produzam uma impressão duradoura. III. E não há dúvida que tais coisas podem ainda reduzir­se a maior evidência e a maior facilidade. O que dissemos refere­se à apresentação dos objetos aos sentidos. se ela falta. por assim dizer. como se vê acontecer àqueles que. recebe todas as coisas. como o demonstra com suficiente clareza o Macromicrocosmos de Roberto Fluttus. às escuras e com os olhos fechados. podem. do mesmo modo que quem quer mostrar a outro. sedenta das coisas. mesmo as espirituais e ausentes (as quais se encontram ou acontecem no céu ou nos abismos. de modo que as coisas superiores podem ser representadas por meio das inferiores.

14. Esclarece­se o assunto com um exemplo. preste­se atenção à diferença entre umas coisas e outras.org/eLibris/didaticamagna. 8. é preciso que. até que todas as particularidades sejam bem distinguidas. isto é. mas mantendo­a direita. a visão realiza­se adequadamente. os pormenores do texto serão muito menos claros). até que se entendam todas e cada uma em particular (efetivamente. abrangê­la toda. 8. tomado conhecimento de todas as coisas. a quem. 7. 3. se se apresenta aos olhos uma carta ou um livro do invés. Aplicação à arte de ensinar as ciências por meio de nove regras. de modo que os olhos possam. finalmente. depois. como pode lê­la?). de um só golpe. antes de tudo. de modo que não escape nada (de outra maneira. graças à percepção das diferenças. no exame de cada parte. Por exemplo: se alguém quer ler uma carta que lhe foi enviada por um amigo. 5. colocá­la diante dos olhos. mas em frente dos olhos. se a não vê. que a coloque direita diante de si (efetivamente. examinar cada uma das partes separadamente. 6. desde o princípio até ao fim.html 199/357 .ebooksbrasil. nove regras muito úteis: www. resultam. 7. 4. a vista não distingue). desliga­se e confunde­se o sentido). deve demorar­se em cada uma das coisas. seguindo uma ordem metódica. 6. um a seguir ao outro (se se toma um pedaço aqui e outro além. depois. se leia tudo o resto. 9. insistindo. 2.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . que a aproxime dos olhos a uma distância adequada (a demasiada distância. vê­se confusamente). se observem as coisas mais gerais da carta. Observando devidamente estas regras. é necessario: 1. mas à distância conveniente. se se dá à carta apenas uma rápida olhadela. 3. que a apresente aos olhos (pois. Ora. facilmente qualquer coisa de útil passará desapercebiçla à mente). é preciso que se leia ordenadamente cada período. um período daqui e outro de além. para os que ensinam as ciências. 9. a seguir. que. 5. 15. mas basta esquecer uma para que ela deixe de se realizar ou se realize mal. como estão no texto.COMENIUS externa. e não invertendo ou pondo de través a face da coisa. quando se quer ver uma coisa bem vista. não se tomará conhecimento de todas as coisas.Destas observações. 2. quem a escreve. quem os poderá ler?). é necessário: 1. que a ponha de frente (o que se vê de través. e. 4. e poderá mesmo acontecer que se não chegue ao objetivo principal). não demasiado longe. mais ou menos necessárias. ou de través. de onde e quando (sem o conhecimento prévio destas coisas. não de lado.

como costumam fazer aqueles que querem terminar o seu trabalho o mais cedo possível. de metáforas. quer por negligência. ensine­se de uma maneira direta. ensine­se tal qual é e acontece. fazendo­lhe ver a sua essência nuamente. II. IV. para as louvar ou rebaixar.ebooksbrasil. Tudo o que se ensina. Regra. e não de través. e não por meio de subterfúgios. os professores de manter qualquer coisa escondida dos alunos. e não com rodeios. isto é. o conhecimento é perfeito quando as coisas se conhecem tais quais são. Regra.org/eLibris/didaticamagna. trata­se aqui de enfrentar as coisas diretamente. e de utilidade certa.COMENIUS I. quer intencionalmente. se se não oferecem ao aluno aquelas coisas que ele deve saber. coloque­se diante dos olhos do aluno. confusa e obscuramente. portanto. Nestas coisas. Isto para que o aluno veja que aquilo que aprende não são coisas vindas do país da utopia[4] ou das idéias de Platão. figuras de retórica que se usam para engrandecer ou diminuir as coisas já conhecidas. Tudo o que se ensina. III.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . pelas suas causas. Assim. é necessário a boa fé e o zelo. Seja qual for a coisa. não somente as vemos.html 200/357 . ensine­se como coisa do mundo de hoje. Regra I. Ensine­se tudo o que se deve saber. a mente lançar­se­á a elas com maior ardor e discerni­las­á com maior exatidão. 18. 17. 16. pois se são conhecidas de modo diverso do que são. mas www. mas não para as fazer conhecer. o conhecimento não é verdadeiro conhecimento. mas as apreendemos com a vista. de alusões e de hipérboles. de onde as virá a saber? Abstenham­se. quando. Regra. como fazem habitualmente os invejosos e os desleais. Efetivamente. Efetivamente. vemos as coisas diretamente. Tudo o que se ensina. Com efeito. de palavras. mas coisas que verdadeiramente estão à nossa volta e cujo conhecimento perfeito é realmente útil para a vida.

responde a forma da coisa. A essência explica­se por meio destas perguntas: Que é? Qual é? Porquê? À pergunta que é. de vários outros modos. as que aconteceram depois. o gênero. Ora. A razão desta regra foi explicada no capítulo XVI. à pergunta porquê.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . colocando em primeiro lugar o que aconteceu em segundo lugar. Oferecer uma coisa para ser conhecida de modo geral. portanto. Além disso. aquela força pela qual a coisa se torna apta para o seu fim. se. as que aconteceram primeiro. Feito isto. esta deve ser oferecida segundo a posição em que está escrita. a missão e a finalidade da coisa. onde teve origem. destinada a governar as outras. pois ler uma carta ao invés ou de través é difícil. ofereça­se primeiro de modo geral. e depois por partes. com toda a certeza que se mergulhará o aluno na confusão. a estas coisas. será entendida facilmente e com segurança. Toda a coisa é tal como foi feita. a ordem natural. V. mais facilmente e com maior certeza. ela é explicada. poderá acrescentar­se certos acidentes. e. As coisas serão. é preciso estudar as partes do homem. Por exemplo: se se deseja dar ao aluno um verdadeiro conhecimento geral do homem dir­se­á: «O homem é: 1. é ensinar a verdadeira ciência da coisa. pois se é diferente de como foi feita. por quem foi feito. segundo a máxima que diz : saber é conhecer uma coisa pelas suas causas[5]. o método didático deve seguir a ordem das coisas: primeiro. explicar as causas da coisa. também de caráter geral. ou seja. o modo em virtude do qual a coisa é apta para o seu fim. Este é um conhecimento geral do homem. mas fundamental. se se explica uma coisa como ela acontece. Portanto. ou seja. o corpo e a alma. dotada da luz da razão. Do mesmo modo que. quando. a quem quer ler uma carta. 2. conhecidas melhor. responde o nome.COMENIUS erro. para que possa regular sabiamente as suas escolhas e as suas ações». depois. se forem conhecidas como estão feitas. Logo. por isso. Regra. fundamento VI. à pergunta qual é. decompondo o corpo por meio da anatomia dos membros. pois enuncia todas as coisas necessárias acerca do homem. responde a eficiência. a criatura de Deus mais perfeita. igualmente.html 201/357 . Se se quiser. 19. consiste em explicar a essência e os acidentes de toda essa coisa.org/eLibris/didaticamagna. a causa é o guia da mente.ebooksbrasil. e www. (per <grego>) e mudando. como. etc. ao contrário. 3. enriquecida com o dom de escolher e de fazer livremente qualquer coisa. Tudo o que se oferece ao conhecimento. toda a coisa é feita pelas suas causas. deve entender­se que foi alterada.

acontece graças ao movimento e o movimento implica sucessão. Conseguir­se­ á isso. O conhecimento perfeito de uma coisa obtém­se. ao mesmo tempo. não se ensine senão uma coisa só. até que as coisas www. para que as inteligências não sejam obstruídas. portanto. e. distinamente de uma coisa para outra. pode tirar­se­lhe a vida. etc. uma só rodinha partida. e. até que a tenha apreendido bem e saiba que a sabe. no relógio. e.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Regra. 21. mesmo as mais pequeninas. Nada acontece num instante. inculcando. Proceda­se. por vezes. VIII. nada é inútil. e nem até para duas letras. portanto. Regra.org/eLibris/didaticamagna. VII. embora estejam próximas uma da outra. se a um corpo vivo se tirar um só membro. nem mesmo para duas linhas. assim também a mente não pode especular senão acerca de uma só coisa durante o mesmo espaço de tempo. mas olha para elas sucessivamente.COMENIUS explicando a alma por meio das faculdades que a constituem.html 202/357 . senão dispersamente e confusamente (é evidente que quem lê um livro não pode olhar para duas páginas ao mesmo tempo. durante o mesmo tempo. a mais pequena palavra (como uma preposição ou uma conjunção) modifica e até inverte todo o sentido. a posição e as relações que umas têm com as outras. Tudo isto deve ser feito com a devida ordem. demorar­se com o aluno em qualquer parte do saber. Ensinem­se todas as coisas sucessivamente. sem omitir nenhuma. e sabendo o que é e para que serve cada uma delas. 20. portanto. E assim acontece em todas as coisas. voltar­se para dois ou três objetos. Conheçam­se todas as partes da coisa. Com efeito. Com efeito. no contexto de um discurso. conhecendo todas as suas partes. Regra. Deve. VI. uma após a outra). torcida ou deslocada pode fazer parar toda a máquina. respeitando a ordem.ebooksbrasil. pois. e. é precisamente na parte mais pequenina que reside a força das partes maiores. 22. examinando e repetindo. até que ela seja perfeitamente compreendida. muitas vezes. tudo o que acontece. nem sequer para duas palavras. assim como a vista não pode. E sabido que. Insista­se sobre cada matéria.

num determinado espaço de tempo e sem tédio. se estas regras se fixam e se observam estritamente. claro e certo. trabalhos de cinzel. introduzido no teatro do universo. é necessário submeter todas as ciências que se ensinam nas escolas a estas regras do método. não seja capaz de penetrar com a sua agudeza toda a magnificência das coisas ali expostas. www. Efetivamente. Regra. em plena luz.COMENIUS estejam bem fixas na mente. ver muito bem tudo o que nele se encontra: pinturas. e assim.org/eLibris/didaticamagna. Está contida uma grande verdade nesta máxima famosa (<grego>): Quem distingue bem. 24. tapeçarias e qualquer outro ornamento. será a consideração atenta das diferenças. no capítulo XVIII. será impossível que um jovem. As ciências que se ensinam nas escolas devem ser adornadas com este método. caminhar entre as obras de Deus e dos homens.html 203/357 . o remédio será a ordem. Apenas este processo fornece um conhecimento distinto. Mas. como mostrámos no capítulo XVIII. Efetivamente. IX. para que o conhecimento de todas as coisas seja distinto. com a mesma facilidade com que alguém. fundamento X. mas também a verdade das coisas depende das diferenças. ensina bem. não só a variedade. fundamento VI. introduzido num palácio real pode. no segundo caso.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . a não ser que se utilizem remédios: no primeiro caso. a fim de que o ensino não descarilhe e não falhe no seu objetivo. porque não é dado a todos poder exercer o ofício de professor com tudo o que ele exige de destreza. de modo que se torne sempre manifesto qual a diferença que vai de uma coisa a outra. de modo que se ensine uma coisa após outra. porque. Ensinem­se bem as diferenças das coisas.ebooksbrasil. como o enunciámos acima. a multidão das coisas perturba o aluno e a variedade confunde­o. 23.

o ensino da arte requer: 1. a sua aplicação é árdua e demorada. A matéria. 3. Depois (quando se possuem já os instrumentos.html 204/357 . e. proporcionando maravilhosas vantagens». Onze cânones acerca deste assunto: 4. Sendo as coisas assim. são de notar onze cânones: seis acerca da utilização. que é aquilo a que deve imprimir­se a nova forma. e não produz senão prazer. enquanto as utiliza. se acaso os comete.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . a dirigi­las bem. 3. para que os corrija. Três requisitos da arte. e dois acerca do exercício. para que não cometa erros. I www. E. exercícios freqüentes. para que deixe de errar. Outras tantas coias são requeridas para a ação prática. 1. O modelo ou imagem. até que tenha aprendido a trabalhar com segurança. com rapidez e sem cometer erros. Isto é. com a ajuda dos quais se executa o trabalho. 2. que é uma espécie de forma externa.COMENIUS Capítulo XXI MÉTODO PARA ENSINAR AS ARTES É preciso estudar mais as artes práticas que as ciências especulativas. que o artista observa e tenta reproduzir. 2. Os instrumentos. Finalmente.ebooksbrasil. diz Vives[1]. A arte requer três coisas: 1. «A teoria das coisas é fácil e breve. Relativamente a este assunto. que se ensine ao aluno onde e como cada uma destas três coisas deve ser utilizada.org/eLibris/didaticamagna. ao contrário. a matéria e o modelo). 2. a utilização devida destas três coisas. 3. ensine­se­lhe a afastar­se dos erros. a sua direção prudente. três acerca da direção. importa investigar com diligência o método de guiar facilmentc a juventude a pôr em prática as coisas que dizem respeito às artes técnicas.

também nas escolas. Além disso. fáceis de entender e de imitar. todos experimentarão a verdade do provérbio: fazendo aprendemos a fazer (Fabricando fabricamur). etc. ângulos retos ou círculos redondos. a régua e o compasso. Então.COMENIUS 5.. Portanto. haja figuras ou desenhos e modelos. mais com a prática que com palavras. Assim. II 6. quão pouco se recordam desta advertência as escolas! É sabido que entulham de tal maneira. Façam­se sempre os trabalhos segundo determinada forma e norma. e sem lhe haver mostrado o uso desses instrumentos. não pode ainda inventar nada de seu. para que aprendam a fabricar fabricando. Os mecânicos não detêm os aprendizes das suas artes com especulações teóricas. já não será absurdo exigir daquele a quem foi ministrada luz. uma vez que ignora o que deve fazer e como o deve fazer. normalmente. seria uma crueldade querer que trace linhas retas. a cantar cantando. que veja. mas breve e eficaz por meio de exemplos»[2]. por isso. procurar seriamente que. Observando essa forma e essa norma. mas põem­nos imediatamente a trabalhar. www. III 7. quer sejam planos ou «maquetes» das obras. finalmente. seria uma crueldade constranger alguém a fazer aquilo que tu queres. Mostre­se o uso dos instrumentos.ebooksbrasil. que trabalhe. quer sejam esboços ou desenhos das coisas.html 205/357 . verdadeiros. ignorando ele o que tu queres. deve aprender­se a escrever escrevendo. Do mesmo modo.org/eLibris/didaticamagna. mais com exemplos que com regras. para que as escolas não sejam senão oficinas onde se trabalha fervidamente. e como que caminhando pelas suas pegadas. pelos bons resultados da prática. a dançar dançando. a pintar pintando. etc. é necessário mostrar­lho. daquele que sabe já manejar os instrumentos. isto é. o aluno deve imitá­la. que comece a andar. daquele que já se mantém de pé. a raciocinar raciocinando. Com efeito. por isso. Importa. a falar falando. Mas. sem primeiro lhe ter metido nas mãos o esquadro. a esculpir esculpindo.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Já antigamente advertiu Quintiliano que «é longo e difícil o caminho por meio de regras. claros e simples. de todos os trabalhos que devem fazer­se na escola. Aprenda­se a fazer fazendo.

metem­lhes na mão os instrumentos e ensinam­lhes como os devem manejar.COMENIUS mesmo os principiantes de gramática. a traçar pequenas linhas. sem regras fatigantes e penosas. passe­se à estrutura dos períodos e daí a www. E quem ensina uma criança a ler. Com efeito. ninguém será capaz de adquirir o hábito de uma língua ou de uma arte. mas a pegar no machado. Portanto. é verdadeira esta bela máxima alemã: «Ein guter Vorgänger findet einen guten Nachgänger» (Um bom precursor encontra sempre um bom seguidor)[3]. Com efeito. etc. também a quem começa a estudar a gramática. primeiro deve pôr­se­lhe à frente palavras. ao passo que com exemplos até as cabeças mais rudes são ajudadas. para que os imitem (pois o homem é um animal imitador: (<grego>). se se enganam. não vemos que os mecânicos procedam de modo a ensinarem tantas regras aos seus aprendizes. e não com obras acabadas. a pôr em esquadria as traves e a perfurar barrotes. etc. O exercício deve começar com os primeiros rudimentos. a manejar os pincéis. Mas. Efetivamente. Além disso. mesmo sem regras. o carpinteiro não ensina. que eles. apenas graças à imitação. depois ensinar­lhe expressões de uma só proposição. e depois a tentar esboçar desenhos. mandam­nos observar os seus trabalhos. mais com o exemplo que com palavras. Deste modo. a cortar a madeira. vemos as crianças aprender a andar. a seguir unidas em palavras e finalmente em frases. mas as letras do alfabeto. mas.html 206/357 . com preceitos e regras. só com regras. a maioria das vezes. E também tem aqui cabimento o dito de Terêncio: «Vai à frente. mas. não sabem que fazer e começam antes a ficar estúpidos que a entender. que eu te seguirei»[4]. etc. logo nos primeiros dias. pode adquiri­lo perfeitamente.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . primeiro uma de cada vez. e imediatamente. Também o pintor não manda o seu aprendiz pintar rostos humanos. a correr. as regras são autênticos espinhos para os espíritos e exigem atenção e agudeza. na verdade. IV 8. a falar. depois unidas em sílabas. o seu aprendiz a construir torres e fortalezas de madeira. a entregar­se a jogos vários. uma de cada vez. não lhe coloca à frente um livro compacto. advertem­nos e corrigem­nos. e a prática mostra que a imitação facilmente consegue bons resultados. com exceções às regras e exceções às exceções. depois fazer­lhas juntar duas a duas.org/eLibris/didaticamagna. então.ebooksbrasil. depois de duas e de três. conduzidos estes à oficina. depois. com a prática. mas ensina­lhe a misturar as cores. a pregar pregos e a fazer encaixes.

um vestido. se deduzem outras.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . dadas e concedidas certas coisas. Por fim. mas de coisas familiares à criança. às exposições completas de temas. a mudar. de todos os modos possíveis. cada coisa tem relações com outra). à sua capacidade e à sua condição. para que ela entenda o que faz.html 207/357 . Por exemplo: a uma criança polaca. durante um certo tempo.org/eLibris/didaticamagna. uma árvore. a examinar em conjunto as coisas e os conceitos das coisas. a coordenar as coisas segundo as suas relações mútuas (com efeito. as frases simples em frases figuradas. por meio de perífrases. mas na sua língua. V 9. Se. não de Virgílio ou de Cícero ou de assuntos teológicos. Esta regra foi­nos sugerida pelo fundamento IX do capítulo XVII e pelo corolário VI do fundamento IV. para que a criança compreenda o emprego das regras da dialética. uma casa. uma escola. finalmente. no estudo da retórica. a defini­las e a classificá­ las. se caminha assim gradualmente. se o aluno se exercitar primeiro. que aprende a ler ou a escrever o alfabeto. passar­se­á aos ornarnentos de orações inteiras. como um livro. em grego ou árabe. depois. para não ser obrigado a combater com sombras. não se deve apresentar um texto em latim. passe­se aos discursos. e. aprender a esclarecê­los com outros de significado oposto. em qualquer arte. e a mudar os termos próprios em outros mediante metáforas. e depois a falar. no qual. Também na dialética. Assim. os progressos serão rápidos. ou seja. imediatamente a seguir. a deslocar as palavras para obter boa harmonia. tomados. fundamento IV. finalmente. e não antes. O fundamento disto foi exposto no capítulo XVII. Os primeiros exercícios dos principiantes sejam acerca de matéria conhecida. procurando resposta para estas perguntas: Que é? Acerca de quê? Por causa de quê? É necessária ou contingente? Naquelas coisas em que já estiver suficientemente exercitado. www. é impossivel não fazer progressos rápidos e sólidos.ebooksbrasil. a recolher sinônimos. deve ser exercitada com exemplos. passa­se ao ato do raciocínio. a seguir. Ela significa que o estudante não deve ser sobrecarregado com coisas desproporcionadas à sua idade. de qualquer maneira. quando souber fazer prontamente cada uma destas coisas. primeiro aprendam a distinguir as coisas e os conceitos acerca das coisas por meio dos gêneros e das diferenças. De modo semelhante.COMENIUS um discurso inteiro. políticos e médicos. de vários modos. depois aprender a dar a designação própria aos nomes. aos verbos e aos advérbios.

quanto mais a formação de uma coisa nova se apega à sua forma. etc.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . daquelas coisas que até então foram ditas acerca da árvore. dives pecoris. as suas partes subjetivas e acrescentadas. sirvam para todas as outras. quanto ao estilo. segundo a opinião de pessoas doutíssimas. Do mesmo modo. Uma vez que Cicero diz: «Eudemo.html 208/357 . as suas causas. com um. etc. modelos. dois ou três exemplos familiares. ou seja. porque se diz dives opum[5] manda­se a criança imitar e dizer dives nummorum. metal. fazendo passar a pena. Por exemplo: aqueles que aprendem a escrever tomem um papel fino e de qualquer modo transparente. poderá dizer­se: «Cicero.. na medida do possível.. dives pecuniae. o emprego das regras. que são tiradas do mesmo cunho. por meio de um raciocínio. os seus efeitos. Ou então imprimam­se. imitando­o. com aquela mesma forma. aquela escrita que desejam imitar. Efetivamente. são todas exatamente iguais. e a formar por si coisas semelhantes. se habituem a imitar aquelas letras. VI l0. em papel branco. e manda­se ao aluno formar outras semelhantes. Explicado deste modo. etc. é de longe o primeiro em astronomia»[6]. um pensamento ou um período. a imitação (ao menos a primeira) apegue­se estreitamente ao seu modelo. tanto ao seu cunho como umas com as outras. a mente e a língua se habituem a mover­se mais livremente e com mais segurança. pois assim poderão facilmente imitar os traços das letras que transparecem. toma­se de um autor uma frase. sendo já conhecidos. a sua classificação. também nos outros trabalhos. a seguir. e coloquem­lhe debaixo um modelo (<grego>). Portanto. numa cor atraente. gesso. fazer o mesmo em todos os outros casos. tanto melhor e mais exatamente é expressa a forma.org/eLibris/didaticamagna. Isto fará com que os exemplos tomados para explicar a primeira regra. se tomar (por exemplo) uma árvore: mostre­se o seu gênero. e igualmente os livros impressos e os trabalhos fundidos em cera. para que os alunos. cheia de tinta preta.COMENIUS etc. dives vinearum. no estudo da dialética. depois. A princípio. amarela ou escura. a sua diferença. é de longe o primeiro em www. Como as moedas. a imitação faça­se segundo a forma prescrita. como é que. etc. depois..ebooksbrasil. Como se. poderá ser mais livre. de quantas maneiras alguma coisa se pode predicar de uma árvore. se podem deduzir e demonstrar outras. a sua definição. segundo a opinião de oradores doutíssimos. o jovem poderá facilmente. até que as mãos. por via de imitação. através daqueles traços. etc. Por exemplo.

ora não foi pio. Com efeito. logo não é erudito».org/eLibris/didaticamagna. pois. brevíssimas. em qualquer trabalho. assim também de um modelo defeituoso não pode formar uma bela obra. sendo elas sólidas. nos limites do possível. ora é noite.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . se forem vacilantes. o resto seguir­se­á normalmente. «Caim ou foi pio ou foi ímpio. pinturas. assim como. E assim como os médicos observam que as irregularidades da primeira digestão se não corrigem na segunda e na terceira. Será necessário. ninguém pode traçar linhas retas. tudo vacilará. Timóteo. com uma régua curva. Por isso.ebooksbrasil. esforçar­se por que haja modelos verdadeiros. para que. Mas é necessário. Por exemplo: «ou é ignorante ou é erudito. fazia pagar as lições pelo dobro aos alunos que haviam já estudado os rudimentos daquela arte com outros professores. cujas portas foram expugnadas. aparecendo em lógica esta dilema: «ou é dia ou é noite. mais ainda. dizendo que isso implicava para ele uma duplicação de trabalho. se alguém consegue imitá­los bem. portanto. está já na mão www. fazer tudo para que os alunos procurem imitar o melhor possível os modelos da arte que estudam. no apostolado. superada esta dificuldade. para que se não afaste do modelo nem sequer no mínimo pormenor. segundo a opinião de toda a Igreja. assim também. É necessário. Isto. 12. da mesma maneira que uma cidade.html 209/357 .. Efetivamente. Do mesmo modo. é de longe o primeiro». as outras poderão construir­se solidamente.COMENIUS eloqüência» e «Paulo. quer sejam imagens das coisas. Os modelos a imitar sejam o mais perfeitos possível. pois primeiro tinha de fazer desaprender aquilo que haviam aprendido mal. professor de música. os primeiros erros prejudicam tudo o que vem a seguir. claríssimas. etc. O primeiro esforço de imitação seja o mais aprimorado possível. e depois ensinar­lho bem[7]. desenhos. ora é ignorante. inteligíveis por si mesmas e verdadeiras sem nenhuma exceção.. logo não é dia». durante toda a vida. aprenda a criança a imitar todos os contrários imediatos assim expostos. todas as primeiras coisas são como que os fundamentos das que virão a seguir. portanto. perfeitos. quer sejam prescrições e regras.» VII 11. simples e fáceis de imitar de tudo o que deve fazer­se na escola e. possa ser considerado perfeito na sua arte. naturalmente.

E que. Para que não aconteça como à criança a quem as talas foram de grande utilidade para aprender a dar os primeiros passos. 13. ora nós entendemos mais facilmente as nossas coisas que as alheias. Deve começar­se sempre pelas coisas mais fáceis. para que fim deve tender. 14.ebooksbrasil. Mas importa que essas regras sejam o mais breves e o mais claras possível. os exercícios sintéticos devem fazer­se antes. O erro seja corrigido pelo professor que assiste à lição. com exemplos tirados da natureza e das artes mecânicas. E o tempo que se gasta para consolidar bem os rudimentos não é tempo perdido. mesmo quando postas de parte. isto é. X. por isso. rapidamente e seguramente as coisas que vêm a seguir. sejam úteis para sempre. mostrámos. mostrando por onde se deve começar o trabalho. um sólido conhecimento da arte e a confiança e a segurança na imitação. Caminha suficientemente depressa quem nunca se afasta do caminho. No capítulo XVIII. fundamento V. O ensino perfeito da arte consiste na síntese e na análise. Os autores escondem com cuidado a arte das suas obras. como deve ir avançando e porque convém fazer cada coisa de determinada maneira. no nosso caso. abster­se de toda a precipitação. na maior parte das disciplinas. Acrescentamos agora que se devem ajuntar as normas e as regras que dirijam o trabalho e o perservem de erros. o principal papel cabe à síntese. mas representa uma grande economia de tempo e de fadiga. de modo que os www. 2. porém. antes de se haver consolidado com o necessário cuidado as coisas que estão primeiro.COMENIUS do vencedor. Os exercícios sintéticos devem ser feitos antes dos analíticos. porque permitirá dominar facilmente. IX. mostrando claramente o que no modelo se encontra de modo obscuro. que.org/eLibris/didaticamagna. mostram­no ainda as razões seguintes: 1. e depois deixaram de ter qualquer utilidade.html 210/357 . aquelas. que uma vez foram aprendidas. a que chamamos regras e exceções às regras.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Tudo isto fornecerá. mas acrescentando as observações. finalmente. Importa. para que se não envelheça em cima delas. para que nunca se passe às coisas que vêm a seguir. Ensinámos até aqui que as artes devem ensinar­se mais com exemplos que com regras.

e até certo ponto infinitos. ajuntar exercícios analíticos.org/eLibris/didaticamagna. o nosso primeiro intento é que os estudantes das artes se habituem a procurar novas invenções e não apenas a servir­se das que já foram realizadas. aos modelos. bifurcações e entroncamentos. logo à primeira vista. e observou. finalmente. são vários. Desejamos. até que tenham www. pelo espírito de emulação e de imitação. 3. os quais ele adapte. dessa arte. o hábito de produzir coisas semelhantes. os modos das coisas. acrescentando­se. examinem­se as obras alheias (mas de artistas de valor) e julguem­se em conformidade com os modelos e com as regras atrás referidas. (Ver o que foi dito também no capítulo XVIII. que se não tornam nossas a não ser que as adquiramos e conheçamos. que. ora. 15. aqui e além. de tudo aquilo que.ebooksbrasil. Estes exercícios devem ser continuados. as coisas. Com efeito. dificilmente nelas conseguem penetrar. Dêem­se. próprias e alheias. A vários. de tal maneira que não é possível condensar todas as coisas em regras. nem que estas estejam todas na cabeça de um só. preservem dos erros e permitam corrigir os erros cometidos. advertências e regras que exprimam as razões do que se fez e do que há­de fazer­se. devem gerar em nós. conhece bem uma estrada quem a percorreu freqüentes vezes de uma ponta à outra. O que se pretende atingir em primeiro lugar deve fazer­se em primeiro lugar. em qualquer arte. julgar­se com sensatez acerca das invenções e acerca da elegância das invenções. dirijam no esforço de imitar. quando já estiverem um pouco exercitados com as suas próprias rudes invenções. todas as encruzilhadas. ao lado.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . se façam modelos ou exemplares completos e perfeitos. todavia. Finalmente.html 211/357 . Resumo do que se disse. ao aluno outros e outros exemplos. todavia. depois. Com a continuação deste exercício poderá. XI 17. fundamento V). absolutamente necessário ajuntar a análise atenta das invenções e das obras dos outros. se costuma e se pode colocar perante os alunos. 16. portanto. um por um. Importa. quer para que aprendam a arte de esconder os artifícios. quer para que se ponha mais em evidência a aplicação das mesmas regras. Além disso.COMENIUS alunos. É. se deve. consegui­lo­ão. e por imitação faça outros semelhantes. todavia. é possível ver mais coisas.

Efetivamente. www.ebooksbrasil.org/eLibris/didaticamagna.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . só a prática faz os artistas[8].COMENIUS criado o hábito da arte.html 212/357 .

4. as dos países vizinhos. 3. como se disse no capítulo XIX. Ora. nem muitas. Efetivamente. deve caminhar paralelamente com as coisas.COMENIUS Capítulo XXII MÉTODO PARA ENSINAR AS LÍNGUAS Porque se devem aprender as línguas e quais. de modo que se aprenda a entender e a exprimir tanto as coisas como as palavras. o que é impossível. que as palavras não se www. que é a língua comum da gente instruída. são necessárias: a língua materna. Por isso. para os teólogos. até a perfeição. Com efeito. a língua húngara. mas apenas as necessárias. formamos homens. pois não há homens com quem as falemos. para os filósofos e para os médicos. Cada língua deve ser aprendida completamente? 2. não devem aprender­se todas. a latina. 1. além de que roubaria o tempo devido ao estudo das coisas.html 213/357 . não como uma parte da instrução ou da sabedoria. fundamento VI. o que é inútil. Não convém aprendê­las sem as coisas. em primeiro lugar. a romena e a turca). a grega e a hebraica. mas como um instrumento para adquirir a instrução e para a comunicar aos outros. Nem todas as línguas devem aprender­se em todas as suas partes. para tratar dos negócios domésticos. mas apenas tanto quanto é necessário. de uma parte. para ler livros sabiamente escritos.ebooksbrasil. Com os mesmos livros podem aprender­se as coisas e a língua. Basta aprender o suficiente para ler e entender os livros. não é necessário pronunciar tão perfeitamente a língua grega e a hebraica como a vernácula. de outra parte. especialmente na juventude. para os polacos. para entrar em relações com eles (assim. As línguas aprendem­se. a grega e a arábica.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Daqui se segue. e. e não papagaios. a língua alemã.org/eLibris/didaticamagna. O estudo das línguas. Corolários: 1.

coletânea de palavras arcaicas e pouco usadas. a capacidade das crianças. etc. Por esta razão. que são para homens feitos.COMENIUS devem aprender separadamente das coisas. Em primeiro lugar. aliás. enquanto estão unidas. A isto não atenderam alguns ampliadores da nossa Porta. que a encheram de palavras inusitadas. Com efeito. e não Cicero e outros autores. prontuários. não tendo jamais conversado com os sapateiros e com os operários de outras profissões.html 214/357 . interrompi a Segunda Porta da Latinidade. Às crianças deve oferecer­se temas infantis. uma vez que as coisas separadas das palavras nem existem. segue­se que não é necessário para ninguém conhecer completamente uma língua. 2. 5. 6.).org/eLibris/didaticamagna.ebooksbrasil. para observar todos os seus trabalhos e aprender a denominação de todos os instrumentos que eles manejam. e por isso o autor. dicionários. podem procurar­se em livros subsidiários (vocabulários. segue­se que as crianças devem formar tanto a sua inteligência como a sua língua. pois ele mesmo confessa que ignorava os termos técnicos dos artesãos[2]. nem sequer Cícero tinha um conhecimento total da língua latina (da qual. nem se entendem. por isso. 7. onde as palavras que formam as frases exprimem ao mesmo tempo a estrutura das coisas. e (ao que parece) com bons resultados[1]. é considerado o maior mestre). Kinerus. e se alguém procurasse aprendê­la completamente faria uma coisa ridícula e estúpida. Uma porta não deve ser senão uma porta. existem aqui ou além e desempenham esta ou aquela função. se ocorrem. que começara a «Segunda porta da latinidade» não a terminou. principalmente aquelas que ou nunca ocorrem ou. Em segundo lugar.) da «Porta» agiram inconsideradamente. Esta consideração levou­me a escrever a Porta das línguas (Janua Linguarum). E para que lhe serviria aprender tudo isso? Os ampliadores (Docemius. que havia começado. trabalhando de preferência sobre matérias que convêm às crianças e deixando as coisas próprias de homens feitos para outra altura da vida. significando coisas que ultrapassam em muito. as outras coisas devem reservar­se para outra altura. mas. elNão é necessário para ninguém conhecer uma língua completamente. etc.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . faz obra vã quem coloca diante das crianças Cícero e outros www.

antes que a falar. poderão utilmente confrontar­se. quando. como seria a língua de um povo vizinho. antes de a exercitar na dança.. antes que a discursar. a construir sílabas. a língua materna. a grega. a cavalgar um belo e longo pau. e percamos com palavras o tempo que deve empregar­se no estudo das coisas. (Sou de opinião. pouco a pouco. Oito regras acerca da poliglotia. exige necessariamente vários anos: por exemplo. com a prática. a hebraica. para aprender diversas línguas. uma gera confusão na outra. aquela que há­de utilizar­se em vez da materna. etc.html 215/357 .7/8/13 DIDACTICA MAGNA . À criança deve ensinar­se a dar passos. depois desta. com a ajuda de dicionários. A natureza não dá saltos. Quanto à poliglotia (<grego>). podendo o curso de cada uma delas realizar­se suficientemente bem no espaço de um ano. que as línguas vulgares devem aprender­se antes das línguas sábias). www. de outra modo. depois. Com efeito. Finalmente. e a falar. de gramáticas comparadas.ebooksbrasil. 8. A língua materna. II 10. oito ou dez anos. depois. isto é. a atividade principal (<grego>). com efeito. se dominarem essas línguas. etc. Ao estudo de cada determinado de tempo. a língua latina e. todavia. daquilo que é secundário. se não entendem as coisas. língua. e não ao mesmo tempo. e também os não dá a arte. porque se liga com as coisas que. Pode. quando imita a natureza. pois Cícero afirma que se não pode ensinar a discursar a quem não sabe falar[3]. tanto a língua como a inteligência se não aperfeiçoem senão gradualmente. de modo que. A seguir.org/eLibris/didaticamagna. sempre uma depois da outra. toda a infância e parte da puerícia. o método que encerro nas oito regras seguintes: I 9. Aprenda­se cada língua em separado. como podem entender a arte com que essas mesmas coisas são eficazmente expressas? Esse tempo dispende­se com maior utilidade em coisas mais humildes. consagre­se um período Para que não façamos. digo que tornará breve e suave o estudo. Primeiro.COMENIUS grandes autores que tratam de coisas que ultrapassam a capacidade infantil. passar­se a outra língua vulgar. antes de montar cavalos ricamente arreados. se apresentam à inteligência.

a húngara. têm já regras formuladas. mas também às línguas vulgares. tentando a imitação com a mão e com a língua.ebooksbrasil.COMENIUS o estudo da língua latina pode fazer­se num biênio. que as coisas e as palavras têm entre si. III 11.org/eLibris/didaticamagna. as quais necessariamente se devem aprender por meio de livros. porque é necessário fazer desta ou daquela maneira. para que se mostre apenas a diferença daquela relativamente a esta. a boema. Efetivamente. mas é até prejudicial. etc. pois. podem ser submetidas a regras e. pois também a língua italiana. transcrevendo. relendo. A norma para escrever as regras de uma nova língua seja uma língua já conhecida. dos verbos. IV Todavia. cânon I e XI. das analogias e das anomalias.html 216/357 . e não filosóficas. das frases. ao ver uma extensão e uma discordância maior que aquela que realmente existe. Isto é.. o do grego em um ano e o do hebraico num semestre. a francesa. das semelhanças e das dissemelhanças. V 13. mas expliquem. As regras das línguas sejam gramaticais. cânon II. as regras devem ajudar e confirmar a prática. Isto é. Por exemplo: ao ensinar a gramática grega. Como foi dito no capítulo anterior. Todas as línguas devem aprender­se mais com a prática que por meio de regras. a mente assusta­se. lendo. e dos nexos.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . o mais freqüentemente possível. pertence ao filósofo. Um exame mais sutil das causas e dos nexos. Veja­se o que foi dito no capítulo anterior. etc. não há necessidade de repetir as definições dos nomes. ouvindo. de fato. repetir os aspectos comuns. a alemã. dos www. não inquiram sutilmente acerca das razões e das causas dos vocábulos. e faz perder tempo ao filólogo. o que se faz e como se faz. de modo acessível. não somente é inútil. Este princípio aplica­se principalmente às línguas sábias. VI 14.

se se quiser. etc. e com a adição de exercícios feitos sobre matérias conhecidas. para delas se assenhorar mais facilmente e mais rapidamente.html 217/357 . sejam mais adaptados a ser aprendidos de cor.ebooksbrasil. DAS LÍNGUAS QUE SE DEVEM APRENDER DE MODO PERFEITO A prática exige que apenas se aprendam de modo quase perfeito duas línguas. pois freqüentemente ocorrem as mesmas palavras. por causa da sua brevidade. pois supõe­se que estas coisas já são sabidas. e tudo será mais distinto. e. advertimos que nem todas as línguas. coisas já suficientemente conhecidas. Em ordem a atingir este resultado. ao passo que os outros são mais adaptados para serem lidos e relidos. VIII 16. em suma. etc. Todas as línguas podem. etc.. À língua materna e à língua latina devemos consagrar um tal cuidado que acabemos por dominá­las perfeitamente.COMENIUS casos. Então. que se aprendem. (Ou então. podem aprender­se pela prática. Isto é. Para que não seja necessário constranger a mente a dirigir os seus esforços. ou. embora estes dois livros.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . será possível reduzir a gramática grega a algumas páginas. e estas duas por quatro graus. 17. já conhecida. apenas aquelas coisas em que a língua grega se afasta da latina. No princípio deste capítulo. portanto. o estudo destas línguas deve ser www. que assim melhor se insinuam na inteligência e na memória). desse modo.. ou as regras sintáticas que nada tragam de novo.org/eLibris/didaticamagna. Os primeiros exercícios de uma nova língua sejam acerca de matéria já conhecida. mas apenas sobre as palavras. Exponham­se. aprender­se por um só e mesmo método. o nosso Vestíbulo e a nossa Porta. ao mesmo tempo. dos tempos. devem aprender­se com o mesmo esmero. a distrair­se e a enfraquecer­se. sobre as coisas e sobre as palavras. VII 15. com a adição de regras facílimas. portanto. Essa matéria poderá ser ou os capítulos do catecismo ou da história sagrada. mais fácil e mais sólido. que mostrem apenas a diferença que medeia entre a língua conhecida primeiro e aquela que se quer estudar.

html 218/357 . florida. compilados para uso dos professores. desarticulado e cheio de lacunas. — a quarta é a idade viril. www.org/eLibris/didaticamagna. se os instrumentos para ensinar as línguas forem excelentes.COMENIUS distribuído por quatro idades: — a primeira é a idade infantil. Efetivamente. são. em que se aprende a falar com propriedade. — a terceira é a idade juvenil. crescente. ou seja. Além disso. se tanto os livros didáticos. em que se aprende a falar com rigor. tudo será confuso. não se pode andar para a frente com sucesso senão por graus. como os livros informativos.ebooksbrasil. de outro modo. em que se aprende a falar com elegância. para serem postos nas mãos dos alunos. em que se aprende a falar de um modo qualquer.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . uns e outros. — a segunda é a idade pueril. como a maioria de nós experimentámos em nós próprios. Porquê assim? 18. breves e metódicos. balbuciante. os estudantes de línguas podem ser conduzidos facilmente através destes quatro graus. vigorosa.

Deve ser precedido das regras sobre a investigação e a escolha das partes mais vigorosas de um discurso. O Vestíbulo Da língua II.html 219/357 . III. A Porta (por exemplo da língua latina). 23. ter anexas breves e claríssimas regras gramaticais. devem ser quatro. tendo anexas as tábuas das declinações e das conjugações. Deve. III. e de formar e construir as frases dessa língua. que exprimam ao vivo as coisas. de modo fácil e simples. acrescentam­se as regras para variar e colorir de mil maneiras as frases e os pensamentos. O Palácio com os seus livros auxiliares IV. reunidas sob a forma de pequenas frases. mais tarde. 21.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . O Palácio deve conter vários trechos acerca de todas as coisas. que ensinem. Dá­se o nome de Tesouro aos autores clássicos que escreveram.ebooksbrasil. assim como sobre a tradução exata dos idiotismos (o que é uma das regras mais importantes a observar). A Porta. acerca de qualquer assunto. com gravidade e vigor. II. cerca de oito mil. algumas centenas de vocábulos ligados em forma de pequenas frases.COMENIUS Os livros para ensinar uma língua devem ser de quatro espécies. O Palácio. O Tesouro I. O Tesouro de autores. O Vestíbulo deve conter matéria para balbuciantes. IV. na sua situação natural. 22.org/eLibris/didaticamagna. Os livros didáticos. conforme os graus da idade. Escolham­se alguns destes autores para ler nas escolas. cheios de todo o gênero de frases e de flores de elegância. 19. a maneira autêntica e genuína de escrever e de pronunciar as palavras. faça­se um catálogo para que se. além disso. a algum aluno surgir a ocasião ou o desejo de percorrer os www. O Vestíbulo 20. No fim. I. com notas marginais que indiquem de que autor foi tirado cada um dos escritos. A Porta deve conter todas as palavras mais usadas da língua. dos outros.

de expressões e de provérbios que se não possam judiciosamente pôr em ordem e confrontar com os do latim. onde serão coordenadas as diferentes expressões. se se é suficientemente hábil na arte de imitar e de formar termos. latim­latim (e.ebooksbrasil. depois. derivando­os dos semelhantes das línguas www. ou. a fim de que seja possível traduzir as expressões próprias por palavras próprias. grego­grego). verosimil que exista uma língua materna tão pobre que não possua uma quantidade suficiente de palavras. de tal maneira que tudo aquilo de que se tem necessidade aí se possa encontrar. 24.org/eLibris/didaticamagna. não há nenhuma língua materna que não possua essa quantidade de palavras. e que cada coisa esteja em perfeita correspondência. Livros Auxiliares.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . denominações e perífrases elegantes espalhadas no Palácio. os pensamentos figurados por palavras figuradas. Não é. a riqueza do latim. Tais são: I O vocabulário língua materna­latim e latim­materna. IV Finalmente. onde isso ocorrer. o dicionário fraseológico língua materna­língua materna. o Tesouro será auxiliado ou reforçado por um prontudrio universal. os provérbios por provérbios. com certeza. e apresentando a razão do seu significado[5].html 220/357 . a riqueza do grego). com efeito. os termos humorísticos por termos humorísticos. com os radicais e os seus derivados e compostos. os livros didáticos. o dicionário etimológico latim­língua materna. com o latim. que explique a riqueza de uma ou de outra língua (com a língua materna. se necessário. II Para a Porta. com a indicação dos autores de que foram tiradas. Dá­se o nome de livros auxiliares àqueles que ajudam a usar.COMENIUS autores que tratam exaustivamente desta ou daquela matéria. saiba quais são esses autores. de uma maneira mais rápida e com maior fruto. para o Vestíbulo [4]. etc. III Para o Palácio.

a Porta. Mas deixemos para outra ocasião a exposição completa acerca da estrutura desse Prontuário Universal. com igual claridade. 25.COMENIUS semelhantes. ou seja. Um tal «Promptuarium» universal não existe. Com efeito. ele faz seguir um número maior de palavras e de frases latinas. 26. não as compilou segundo a ordem que indicámos.html 221/357 . Segunda. diz respeito à organização especial das classes. É verdade que Rehor Knapaski. ou seja. de modo pormenorizado. o esplendor e a riqueza de uma e outra língua.org/eLibris/didaticamagna. as expressões desusadas. os termos próprios com os termos próprios. de modo a tornar­se patente. neste domínio. ele não compilou todas as palavras e frases da língua pátria. depois. que não fossem amontoadas de qualquer maneira. desejaríamos ver no Tesouro de Cnápio maior cuidado na ordenação das frases em séries. faltam estas três coisas: Primeira. de modo a fazer corresponder (na medida do possível) um termo com outro termo. escrevendo a obra intitulada Tesouro polaco­latino­grego[6]. os arcaicos com os arcaicos. o Palácio e o Tesouro. a cada palavra ou frase polaca. Mas. www. Discorrer acerca destas coisas. porém. ao passo que nós desejamos que a cada uma corresponda uma só. as mais difíceis e mais insólitas da poética. um grande serviço ao seu povo. além do do polaco G. a fim de que este prontuário sirva perfeitamente também para traduzir quaisquer livros do latim para a nossa língua. os figurados com os figurados. e vice­versa.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Não existe nenhum prontuário linguístico. as mais sublimes. Cnápio. mas que primeiro fossem apresentadas as fórmulas simples e históricas de exprimir as coisas. Em terceiro lugar. a fim de que todas as elegâncias dos latinos se transformem em elegâncias nossas. assim como também a exposição acerca do modo especial e do método de utilizar o Vestíbulo. prestou. a seguir. a perfeição da língua.ebooksbrasil. nesta obra de mérito. jesuíta polaco. para que se siga infalivelmente o resultado que pretendemos. e finalmente. as expressões mais elevadas da oratória. isto é. o caráter.

mas devíamos tê­las aprendido»[1]. Chegamos finalmente ao essencial: a moral e a piedade. Importa. Dezesseis cânones da moral.html 222/357 . O primeiro é o seguinte: Deve implantar­se na juventude todas as virtudes. por estabelecer com exatidão a arte de incutir no nosso espírito a moral e a piedade autênticas. não pode fazer­se nenhuma exceção. pois. nos elevamos verdadeiramente acima das outras criaturas e nos aproximamos mais de Deus. fortes e magnânimos. esforçar­se. II. e com razão. aquele dito de Sêneca (da Carta 89): «não devemos aprender estas coisas agora.COMENIUS Capítulo XXIII MÉTODO PARA ENSINAR A MORAL Tudo o que dissemos até aqui é acessório. aquilo que. Quais são então as obras acabadas? O estudo da sabedoria que nos torne sublimes. como ele diz: «os nossos trabalhos são rudimentos. até aqui. 1. Até aqui. indicámos com o nome de moral e de piedade. pois não são senão propedêuticas para coisas mais importantes. e. Impõe­se necessariamenie reduzi­las a normas de arte.org/eLibris/didaticamagna. 2. sem romper e perturbar a harmonia. ou seja.ebooksbrasil. portanto. 3. as artes e as línguas. mostrámos como se deve ensinar e aprender mais rapidamente as ciências. e por introduzi­las nas escolas. I. A propósito destas coisas.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . oficinas de homens. Sem dúvida. como são chamadas. por meio delas. vem­me à mente. para que estas sejam verdadeiramente. Efetivamente. quanto possível. A arte de formar os costumes tem dezesseis cânones principais. www. em matéria de retidão e de honestidade. sem excetuar nenhuma. e não obras acabadas».

e refreando a impaciência. a fim de que. e para que as partes. fortaleza e temperança. 7.html 223/357 . Ensinem­se e habituem­se a observar a temperança no comer e no beber.ebooksbrasil. Aprendam a fortaleza vencendo­se a si mesmos. Habitue­se. não assentem mal sobre as suas próprias bases. é preciso recordar constantemente aos jovens esta regra de ouro: Nada em excesso! 3. durante todo o tempo da sua instrução e educação. Em primeiro lugar. IV. justiça. E apegue­se às coisas retas e fuja das más. nem louvemos as que merecem vitupério. as quais opiniões cresçam juntamente com a idade. pois não se dá às coisas o seu valor próprio. o homem (continua Vives). para que não vituperemos as coisas dignas de louvor. a murmuração e a www. nasce todo o erro na mente dos homens e todo o vício. com efeito.org/eLibris/didaticamagna. desde pequenino. Daqui. o exato juízo acerca das coisas é o verdadeiro fundamento de toda a virtude. em tudo. Para isso. 6. dominando a paixão de discorrer. como se fossem vis. III. ou seja. na palavra e no silêncio. importa plantar as virtudes fundamentais.COMENIUS 4. ou rejeitemos as coisas preciosas. Para que o edifício não seja levantado sem alicerces. A prudência adquire­se por uma boa instrução. aprendendo a conhecer as verdadeiras diferenças das coisas e o seu valor. parem antes de atingirem a saciedade e o tédio. a ter opiniões exatas acerca das coisas. mais pernicioso que essa depravação dos juízos. ou de se divertir fora ou além do tempo próprio. no sono e na vigília. na vida humana. 5. São belas estas palavras de Vives: «A verdadeira sabedoria consiste em julgar as coisas com equidade. para que este hábito de proceder bem se converta nele como que numa segunda natureza»[2]. para que não procuremos as coisas vis como se fossem preciosas. a que se dá o nome de virtudes cardiais: prudência. V.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . não bem ligadas entre si. por isso. no trabalho e nos divertimentos. de modo que avaliemos cada coisa tal como ela é. Com efeito. e nada há.

e mostrando­ se prestáveis e amáveis. porque as crianças (ao menos. O fundamento disto está em habituar os alunos a proceder sempre em conformidade com a razão e nunca em conformidade com as inclinações e com as paixões. importa ensinar às crianças a não ter medo nem das faces humanas nem de nenhum trabalho honesto. Aprendam a justiça. portanto.org/eLibris/didaticamagna. habitue­as primeiro a prestar atenção ao que se lhes diz»[4]. quem quer instruir e educar crianças. porque as deve fazer e como as deve fazer.COMENIUS ira. a fim de que se não tornem ou morcegos ou misantropos (<grego>). o homem é um animal racional. www. para que o homem seja verdadeiramente senhor dos seus atos. desde a primeira idade. se. devem ser formados com os modos e métodos prescritos pelos cânones seguintes. Nesta virtude. mandriões[5] e pesos inúteis sobre a terra[6]. habituando­as a fazer de preferência a vontade dos outros que a própria. em tudo e sempre.html 224/357 . porque a vida se deve passar a conversar e a trabalhar. VII. Com efeito. antes de tudo ensinam­lhes a obedecer ao freio. de que está inundado o universo. Há duas espécies de fortaleza: franqueza honesta e perseverança nas fadigas. dando a cada um o que é seu. como nas outras acima mencionadas. «Aqueles que domesticam bem os cavalos. com a máxima prontidão. não fazendo mal a ninguém. será de grande proveito que se lhes ensine a maneira de exercitar a fortaleza e de se dominarem a si mesmas.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . portanto. a obedecer. 8. habitue­se a guiar­se pela razão ao deliberar quais são as ações boas. Que grande esperança não haveria de transformar para melhor as confusões humanas. nem todas) não são ainda capazes de proceder assim deliberadamente e assim racionalmente. Mas. todos se habituassem a fazer concessões mútuas e a proceder em tudo com base em razões válidas! VI. aos superiores. fugindo da mentira e dos enganos. A virtude cultiva­se com atos. 9. por exemplo. diz Lactâncio.ebooksbrasil. e não com palavras. Efetivamente. as quais são muito especialmente necessárias à juventude.

com os professores. é inerente à nossa natureza corrupta um grave vício. Finalmente. deverão chamá­lo ao bom caminho.. assim também se aprende a trabalhar trabalhando.html 225/357 . 12. Para que. com os criados e com outras pessoas. nada importa que façam uma coisa ou outra. que impele cada um a desejar apenas o www. com reis. com embaixadores de reis e de povos. Então. Efetivamente. A franqueza honesta adquire­se conversando freqüentemente com pessoas honestas e executando perante elas qualquer missão recebida. de grosseria ou de teimosia. se notarem em algum aluno um pouco de preguiça ou de temeridade. ou a sério ou como divertimento. na nossa educação universal. IX.org/eLibris/didaticamagna. com os condiscípulos. aos doze anos. Quando o momento e as circunstâncias o exigem. os professores deverão estar atentos. Assim como se aprende a fazer fazendo (como vimos já)[7]. camponeses e artesãos. se ensine a todos a imitar com êxito Alexandre. bem entendido) se transformem em energia e tornem intolerável ao homem laborioso a ociosidade estéril. habituando os alunos a conversar modestamente e a raciocinar todos os dias acerca de várias coisas.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Efetivamente. com os pais. desejando nós mantê­los ocupados. se fizerem sempre qualquer coisa. e. será necessário escrever regras de conversação e fazê­las pôr em prática. mesmo dos gracejos se podem tirar ensinamentos sérios e úteis. será verdadeiro aquilo que Sêneca diz: «O trabalho alimenta os espíritos fortes»[8]. sobre qualquer assunto. X. o egoísmo (<grego>). de modo que as contínuas ocupações do espírito. Aristóteles educou Alexandre de tal maneira que. é necessário incutir no espírito das crianças uma virtude irmã da justiça: a solicitude e o desvelo em servir os outros. e do corpo (moderadas. Entre as primeiras. Os jovens adquirirão a perseverança no trabalho. este sabia tratar com pessoas de todas as condições. 10. com sábios e com ignorantes. interrogava ou respondia com sensatez. 11. desde que façam qualquer coisa.COMENIUS VIII.ebooksbrasil. e. com este ou com aquele fim. com citadinos. etc.

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seu próprio bem­estar, sem se preocupar com o que acontece aos outros. Ora este vício é fonte de várias confusões nas coisas humanas, pois cada um se afana com os seus próprios negócios, sem olhar ao bem público. Importa, por isso, inculcar na juventude o objetivo da nossa vida, ou seja, que não nascemos apenas para nós, mas também para Deus e para o próximo, isto é, para a comunidade do gênero humano, a fim de que as crianças, seriamente persuadidas desta verdade, se habituem, desde pequeninas, a imitar Deus, os anjos, o sol, etc. e todas as outras criaturas mais generosas, isto é, desejem e se esforcem por ajudar, com os seus serviços, o maior número possível de pessoas. Assim, finalmente, a situação das coisas privadas e das coisas públicas seria feliz, se todos soubessem e quisessem cooperar nos interesses comuns e em tudo e sempre ajudar­se mutuamente. Os homens instruídos sabem e querem fazer assim. XI. 13. A formação das virtudes deve começar desde a mais tenra idade, antes que os espíritos tenham contraído vícios. Efetivamente, se num campo se não semeiam sementes boas, ele produzirá com certeza ervas. Mas que ervas? Cizânia e joio. Ora, se é uma alma que se deve cultivar, ela cultivar­se­á mais facilmente e com mais fundadas esperanças numa messe abundante, se for lavrada, semeada e sachada, logo no princípio da primavera. É muito importante habituar bem as crianças, desde a mais tenra idade[9], pois, «se um odor consegue infiltrar­ se num vaso novo. aí permanece durante muito tempo»[10]. XII. 14. As virtudes aprendem­se, praticando constantemente ações honestas. Vimos, com efeito, nos capítulos XX e XXI, que se aprende a conhecer conhecendo, e a fazer fazendo. Portanto, assim como as crianças aprendem facilmente a caminhar caminhando, a falar falando, a escrever escrevendo, etc., assim também aprenderão a obediência obedecendo, a abstinência abstendo­se, a veracidade dizendo a verdade, a constância sendo constantes, etc., desde que não falte quem lhes abra o caminho, com palavras e com exemplos. XIII.

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15. Os pais, as amas, os professores e os condiscípulos dêem exemplos de vida disciplinada, que, como faróis, brilhem sempre diante das crianças. Com efeito, as crianças são macaquinhos impacientes por imitar tudo o que vêem, o bem como o mal, sem que seja preciso mandar­lho; por isso, aprendem a imitar antes de aprender a conhecer. É evidente, porém, que devem ser postos diante das crianças tanto exemplos vivos, como exemplos históricos, mas principalmente exemplos vivos, pois deixam impressões mais fortes e mais duradouras. Se, portanto, os pais forem probos e fiéis guardiões da disciplina doméstica, e os professores forem realmente homens de eleição, admiráveis pelos seus costumes, teremos o meio maravilhoso de impelir fortemente os alunos para uma vida honesta. XIV. 16. Aos exemplos deve acrescentar­se, porém, preceitos e regras de vida. Isto é necessário para corrigir, ajudar e reforçar a imitação. (Veja­ se de novo o que foi dito no capítulo XXI, regra IX). Esses preceitos irão buscar­se à Sagrada Escritura e às máximas dos sábios. Por exemplo: porquê e como devemos preservar­nos da inveja? Com que armas devemos premunir o coração contra as dores e contra qualquer infelicidade que acaso possa cair sobre um homem? Como devemos moderar as alegrias? De que maneira se deve dominar a ira, afastar um amor ilícito, e outras coisas semelhantes? É fácil de entender que deve ter­se em conta a idade e o grau de progresso. XV. 17. É indispensável defender, com a máxima diligência, as crianças das más companhias, para que não sejam contagiadas por elas. Efetivamente, por causa da corrupção da nossa natureza, o mal acomete­nos, não só mais facilmente, mas também mais tenazmente. Importa, portanto, com todo o cuidado, manter longe da juventude todas as ocasiões de corrupção, como são as más companhias, as conversas grosseiras, as leituras frívolas e fúteis (pois os exemplos de vícios que se infiltram, quer pelos ouvidos, quer pelos olhos, são veneno para os espíritos); e,

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finalmente, a ociosidade, para que as crianças, estando sem fazer nada, não aprendam a fazer mal[11] ou se deixam invadir pelo torpor da alma. Será bom, portanto, mantê­los sempre ocupados, quer em coisas sérias, quer em divertimentos. O essencial é que nunca se deixem entregues à ociosidade. XVI. 18. E porque é quase impossível ter tal clarividência que se impeça que qualquer bocadinho de mal se insinue entre as crianças, é necessária a disciplina para fazer barreira aos maus costumes. Efetivamente, o nosso inimigo, Satanás, não só nos vigia enquanto dormimos, mas também quando estamos acordados e semeamos a boa semente nos campos da inteligência, para aí espalhar a sua cizânia; e enfim, a nossa própria natureza corrupta espreita furtivamente, aqui e além, de modo que é necessário impedir a passagem do mal com a força. Impede­se a passagem do mal com a disciplina, isto é, com repreensões e castigos, com palavras e com vergastadas, segundo os casos, mas sempre quando o fato ainda está fresco, a fim de que a planta do vício seja sufocada imediatamente apenas desponta, ou melhor, se possível, seja arrancada. Portanto, nas escolas, a disciplina deve ser severa, não tanto por causa das letras (as quais, ensinadas com um bom método, são delícias e atrativos para a inteligência humana), como por causa dos costumes. Mas, acerca da disciplina, falaremos ainda no capítulo XXVI.

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Capítulo XXIV
MÉTODO PARA INCUTIR A PIEDADE Se o espírito de piedade se pode ensinar metodicamente, como uma arte. 1. Embora a piedade seja um dom de Deus, e seja dada pelo céu, por obra e graça do Espírito Santo, uma vez, porém, que Este ordinariamente opera através dos meios ordinários, e assim escolhe para seus ministros os pais, os professores e os sacerdotes que, com cuidado fiel, devem plantar e regar as arvorezinhas do paraíso (Coríntios, I, 3, 6, 8), é justo que estes entendam a razão do seu ofício. Que se entende por piedade. 2. Que significa para nós a palavra piedade, já o mostrámos atrás[1], isto é, que o nosso coração (depois de embebido de um sentimento reto em matéria de fé e de religião) saiba, por toda a parte, procurar Deus (a quem a Sagrada Escritura chama rei escondido (Isaías, 45, 15) e rei invisível (Hebreus, II, 27), isto é, aquele que se cobre com o véu das suas obras, e, estando presente invisivelmente em todas as coisas visíveis, invisivelmente as rege); e, tendo­o encontrado, saiba segui­lo por toda a parte; e, tendo chegado até Ele, saiba gozá­lo para sempre. Três coisas. 1.2.3. Ao primeiro intento, chega­se com a inteligência; ao segundo, com a vontade; e ao terceiro, com a satisfação da consciência. Significado destas três coisas. 3. Procuramos Deus, observando através de toda a criação os vestígios da divindade. Seguimos Deus, entregando­nos inteiramente e em todas as coisas, à sua vontade, tanto para fazer como para sofrer tudo o que lhe agradar. Gozamos Deus, repousando no seu amor e no seu favor, de modo que, quer no céu quer na terra, nada exista para nós de mais desejável que o próprio Deus, nada de mais belo que pensar n’Ele, nada de mais

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doce que louvá­lo; e com tal intensidade que o nosso coração arda de amor por Ele. Três fontes e, conseqüentemente, três graus de beber. 4. Há para nós três fontes onde bebemos este amor, e três modos ou graus de o beber. A fonte é a tríplice Palavra de Deus: feita, escrita e inspirada. 5. As fontes são a Sagrada Escritura, o mundo e nós mesmos: na primeira, encontram­se as palavras de Deus, no segundo as obras e em nós os instintos. É para nós fora de dúvida que, pela Sagrada Escritura, se chega ao conhecimento e ao amor de Deus. Que através do mundo e da inteligente contemplação das suas maravilhas, que são obras de Deus, sejamos levados a sentir piedade para com Ele, dão­nos disso testemunho até os pagãos, os quais, apenas a partir da contemplação do mundo, foram levados à veneração da divindade, como é evidente pelo exemplo de Sócrates, de Platão, de Epiteto, de Sêneca e de outros, embora aquele seu sentimento de amor fosse imperfeito e se desviasse do seu objetivo, pois então os homens não eram ajudados por uma especial revelação divina. Mas que aqueles que se esforçam por atingir o conhecimento de Deus, através da sua Palavra e das suas obras, se inflamam de um amor ardentíssimo, é evidente pelo exemplo de Job, de Eliú[2], de David e de outras almas piedosas. E neste momento, convém observar a particular providência de Deus para conosco (o modo maravilhoso como nos formou, nos conservou até agora e nos governa), como o mostram, com o seu exemplo, David (Salmo 139)[3] e Job (cap. 10). Tríplice modo de beber nas três fontes. 6. O modo de haurir a piedade destas três fontes é tríplice: a meditação, a oração e a tentação[4]. O eminente Lutero disse que estas três coisas fazem teólogo; mas também o cristão em geral, só estas três coisas o podem fazer. I. Meditação. 7. A meditação é a consideração freqüente, atenta e devota das obras, das palavras e dos benefícios de Deus, e de como tudo provém de Deus (que opera ou permite) e de como, por caminhos maravilhosos, todos os desígnios da vontade divina são exatamente realizados.
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II. Oração. 8. A oração é a freqüente e, de certo modo, contínua aspiração para Deus, e a imploração da sua misericórdia, para que nos conserve e nos governe com o seu espírito. III. Tentação. 9. Finalmente, a tentação é a freqüente exploração do nosso progresso na piedade, quer seja feita por nós próprios, quer seja feita por outros, e a que, a seu modo, pertencem as tentações humanas, diabólicas e divinas. Com efeito, o homem deve tentar­ se constantemente a si mesmo, para ver se tem fé (Corintios, II, 13, 5) e para ver com que solicitude faz a vontade de Deus; e tem necessidade de ser posto à prova pelos homens, amigos e inimigos. Isto acontece quando aqueles que presidem devotamente aos outros se põem a explorar, com vigilante atenção e com investigações abertas ou ocultas, os progressos realizados, e quando Deus nos coloca ao lado um adversário, que nos ensine a refugiarmo­nos em Deus e nos mostre qual a força da fé que em nós existe. Finalmente, Deus costuma lançar também o próprio Satanás, ou até Ele mesmo insurgir­se contra o homem, para que se manifeste o que se encontra no seu coração. Todas estas coisas, portanto, devem ser incutidas na juventude cristã para que ela se habitue a elevar­se para Deus através de tudo o que existe, de tudo o que acontece e de tudo o que virá a acontecer, e a procurar a paz da alma somente n’Aquele que é a primeira e a mais perfeita de todas as coisas. O método da piedade encerra­se em 21 cânones. 11. O método especial para ensinar as coisas que dizem em respeito à piedade está contido nos vinte e um cânones seguintes: I. I. O cuidado para incutir a piedade comece nos primeiros anos da infância. Deve começar­se nos primeiros anos da infância, tanto porque não adiar tal cuidado é útil, como porque adiá­lo é perigoso. A própria razão nos mostra que as primeiras coisas devem ser feitas primeiro, e as melhores melhor. E que coisa pode estar primeiro ou é melhor que a piedade? Sem ela, qualquer outra atividade serve para pouco, ao passo que ela tem as promessas da vida
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presente e da vida futura (Timóteo, I, 4, 8). Uma só coisa é necessária (Lucas 10,42): procurar o reino de Deus, pois, a quem se preocupa com isso, tudo o resto lhe será dado por acréscimo (Mateus, 6, 33). É perigoso adiá­lo, pois, se os ânimos se não embebem do amor de Deus, quando são ainda tenros, facilmente, na vida prática, vivida durante algum tempo sem respeito pela divindade, se insinua em tácito desprezo pela mesma divindade e um espírito profano, que, depois, só com muita dificuldade, se arrancam, e, em certos casos, nunca mais é possível arrancar. Por isso, um profeta, lamentando o horrendo dilúvio de impiedade que havia invadido o seu povo, disse que já não havia ninguém a quem Deus ensinasse, a não ser «aos meninos acabados de desquitar, aos que acabam de ser desmamados» (Isaías, 28, 9). Acerca dos outros, um outro profeta disse que «não podem corrigir­se de modo a praticarem o bem, pois estão acostumados a fazer o mal» (Jeremias, 13, 23). II. 11. Portanto, logo que começam a servir­se dos olhos, da língua, das mãos e dos pés, aprendam as criancinhas a olhar os céus, a erguer as mãos, a pronunciar o nome de Deus e de Cristo, e ajoelhar­se diante da sua invisível majestade e a venerá­la. As criancinhas não são tão incapazes de aprender estas coisas, como o imaginam aqueles que, não atendendo a quanto é necessário fugir de Satanás, do mundo e nós mesmos, ministram um ensino de tamanha importância com grande negligência. Embora, a princípio, as crianças, uma vez que têm o uso da razão débil, não entendam bem o que significam aqueles atos religiosos, todavia, é de primária importância que saibam que devem fazer aquilo que, precisamente pela prática, aprendem que devem fazer. Efetivamente, depois de, à força de fazerem, terem aprendido aquilo que devem fazer, o que vem imediatamente a seguir poderá mais facilmente incutir­se no seu coração, de modo que comecem a entender que atos são aqueles que praticam, porque os praticam, e de que modo devem ser praticados. Deus ordenou, por meio de uma lei, que todas as primícias lhe fossem consagradas[5]; porque é que então se lhe não hão­de consagrar as primícias dos nossos pensamentos, das nossa palavras balbuciadas, dos nossos movimentos e ações? III. 12. Logo que as crianças têm idade suficiente para serem

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advirtam­se de que. horrores. e ambas são eternas.COMENIUS ensinadas. IV. VII. Conseqüentemente. mil vezes felizes[7]. para nos prepararmos convenientemente para entrarmos dignamente nas moradas eternas. a do segundo pelos demônios para o inferno[6]. mas que caminhamos para a eternidade. fora de Deus. de modo que teria sido melhor não terem nascido aqueles que virão a afastar­se de Deus e a precipitar­se no precipício da ruína eterna. Recordem­se­lhes freqüentemente estas coisas. VI. para onde emigram os homens: uma feliz com Deus. 13. a do primeiro pelos anjos para o céu. Isto pode ensinar­se facilmente. pois. Ensine­se ainda às crianças que há duas espécies de vida. cujas almas foram levadas. com os exemplos quotidianos daqueles que são arrebatados pela morte e passam para a outra vida: crianças. antes de tudo. sem fim. Ensine­se isto com o exemplo de Lázaro e do ricaço. e que aqui estamos apenas de passagem. fonte de luz e de vida. Efetivamente. tormentos e morte perpétua. aqueles que na terra regulam a sua vida de modo a serem considerados dignos de passarem para o seio de Deus. nada mais temos a fazer que prepararmo­nos para a vida que há­de vir. e outra infeliz no inferno. e descurarmos aquelas que nos acompanharão até à eternidade.html 233/357 . não há senão trevas. jovens e velhos. Ensine­se­lhes. seria uma loucura ocuparmo­nos de coisas que bem depressa temos de abandonar. para que se lembrem que ninguém pode permanecer para sempre aqui na terra. 16. neste mundo.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . caminham com Deus. 15. Aliás.org/eLibris/didaticamagna. 14.ebooksbrasil. Que passarão para o seio de Deus todos aqueles que. deve. V. ambos ainda www. (Como Enoch e Elias. infundir­se­lhes a convicção de que não estamos no mundo por causa desta vida. adolescentes. neste mundo. que são felizes.

ebooksbrasil. a leitura das Sagradas Escrituras excita e reaviva a recordação de Deus. não se preocupem demasiado com os cuidados desta vida. tudo aquilo que as crianças vêem. fazem e sofrem. desde o princípio da vida. depois da morte — Gênesis. devem fazê­lo precisamente para contemplarem o poder.. agradando­Lhe. as boas obras reforçam esta união. o mais que possam. 24. procuram o pão e as outras coisas necessárias à vida. o exercício do culto divino coloca Deus diante do homem e une­o a ele. Efetivamente. VIII. aquilo que Cristo disse ser «a única coisa necessária» (Lucas. aos trabalhos manuais.). mas procuram­nas precisamente para viverem comodamente. Ensinem­se todos os cristãos a ter sempre na boca e no coração esta verdade. porque mostram­nos que verdadeiramente caminhamos pelos caminhos ensinados por Deus. Que caminham com Deus aqueles que o têm diante dos olhos. Aprendam. e devem viver comodamente para servirem a Deus com alma tranqüila e alegre. erram e afastam­se da intenção do próprio Deus. a ocuparem­se. e para lhe agradarem. 19. nos exercícios do culto divino e nas boas obras corporais. Aqueles que fazem estas coisas com outro fim. IX. tocam. os outros. etc. Estas três práticas religiosas www.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . X. imediatamente ou mediatamente. etc. e. e para estarem eternamente com Ele. Ilustremos isto com exemplos: aqueles que se dedicam aos estudos e à vida contemplativa.org/eLibris/didaticamagna. à agricultura. e para assim se inflamarem de amor por Ele. difundidas por toda a parte. eternamente. habituem­se a referi­lo a Deus.42). servindo­O. 10. ouvem. se apegarem a Ele cada vez mais fortemente.html 234/357 . com Marta. o temem e observam os seus mandamentos. E isto é o essencial do homem (Totum Hominis) (Eclesiastes. Aqueles que se entregam aos trabalhos materiais. nas coisas que conduzem imediatamente a Deus: na leitura das Sagradas Escrituras. 12. de modo a nunca mais se desligarem. por amor. pois. Portanto. a fim de que. 13). 5. 17. a sabedoria e a bondade de Deus. 18.COMENIUS em vida.

acomoda­ se ao seu modo de viver. cantem alguns versículos. pela palavra do Deus vivo. e não o despreze. com este livro de Deus. dizendo que «os filhos de Deus nascem de uma semente incorruptível.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . mas também pelos turcos e pelos sarracenos. 20. com os grandes é mais que grande. para que pudesse ser lida e conhecida. na Exortação ao estudo da filosofia cristã. adquiram a sabedoria que os conduzirá à salvação (Timóteo. nenhum sexo. Cada um chegue onde pode. nós somos aquilo que forem as nossas conversas quotidianas. que a Sagrada Escritura seja. nenhuma condição. Pedro estendeu muito mais a eficácia dos livros sagrados. Erasmo discorreu belamente sobre este assunto na sua «Paraclesis». I. que é admirável mesmo para os maiores: com os pequenos é pequena. Poderia acontecer que muitos se rissem. à rabiça do arado.[9]. assiste de tal maneira aos mais pequenos.org/eLibris/didaticamagna. Portanto. I. 6). todos os jovens cristãos. nas escolas cristãs. nenhuma fortuna. odiando­se a si próprio». Não repele absolutamente ninguém. adapta­se igualmente bem a todos. nas escolas cristãs. não é tão comum e tão fruível por todos como a doutrina de Cristo. E acrescenta: «Prouvera a Deus que a Bíblia fosse traduzida em todas as línguas de todos os povos. 3. entretanto. diz. aquecendo­as. a exemplo de Timóteo. e que todas as conversas dos cristãos sejam sobre temas da Bíblia! Com efeito. consagrados a Deus pelo batismo). Já no seu tempo.ebooksbrasil. 1. E. alimentando­as com leite. Por isso. portanto. mas alguns ficariam encantados. «A Sagrada Escritura. o Alfa e o Omega. mais que com todos os outros livros. que permanece eternamente» (Pedro. oxalá os tecelões acompanhem qualquer trecho ao som da lançadeira. O sol. II. sustentando­as. e nós vemos que o Apóstolo S. etc. Não rejeita nenhuma idade.COMENIUS devem recomendar­se seriamente a todos os candidatos a uma vida piedosa (quais são todos os jovens cristãos. Quem vem atrás não inveje aquele que vai à frente. instruídos desde pequeninos nas Sagradas Escrituras. XI. Porque restringimos a poucos uma profissão www. cada um diga o que pode.html 235/357 . não só pelos escoceses e pelos irlandeses. 4. 15). Hyperius disse que o teólogo nasce na Escritura[8]. aquele que está em primeiro lugar encoraje o que o segue. tudo fazendo até que se tornem grandes em Cristo. Oxalá os camponeses. alimentados com as palavras da fé (Timóteo. ou seja. oxalá o viajante suavize a dureza do caminho com as narrações bíblicas. abaixa­se até às criancinhas. a não ser que esse mesmo se repila a si. 23).

»[12]. 7. certas coisas revela­as.org/eLibris/didaticamagna. nem de Ovídio. estas coisas a todos. todos os filhos dos cristãos são santos — Coríntios. nesta vida e na vida futura. para que saibam conscientemente mover­se dentro dos desígnios divinos. para que as façamos. portanto. mesmo aqueles que não entendia. E em toda a Sagrada Escritura nada se encontra que se não refira a qualquer destes assuntos. etc. nem de Terêncio. outras ordena­as. logo entre os abraços dos pais e entre as carícias das amas. etc. à caridade e à esperança. depois. se ergue toda a estrutura da religião e da piedade. Estas três virtudes são. Feliz aquele que a morte encontra com a Bíblia na mão! Todos. embebemo­nos dos princípios de Cristo. não ressoem os nomes nem de Plauto. abracemo­nos a ela.html 236/357 . dos elementos da Sagrada Escritura. portanto.COMENIUS comum a todos?»[10]. XIII. de David e de Cristo. mas os de Moisés. as crianças aos estudos bíblicos. Que a primeira palavra que se aprenda a balbucinar seja Cristo. outras ainda promete­as. no Compêndio de Teologia. beijemo­la e. 14). pois os costumes identificam­se com os estudos. Pense­se no modo de tornar a Bíblia tão familiar como o alfabeto à juventude consagrada a Deus (efetivamente. até que.»[11]. penetram profundíssimamente e permancem tenacíssimamente agarradas as primeiras coisas de que se embebe o virgem vaso da alma. os três máximos fundamentos a que se referem todas as coisas que a Deus aprouve manifestar­nos com as suas palavras. Efetivamente. assim também. com efeito. portanto. assim como todo o discurso é constituído por sons e por letras.ebooksbrasil. XII. Com efeito. dediquemo­nos continuamente a ela. como diz Santo Agostinho. se forme a primeira infância: desejaria que estas coisas lhe fossem ensinadas entre as primeiras. Que tudo o que se aprende através da Escritura se refira à fé. para que fossem amadas pelas crianças. E perto do fim: «Todos quantos jurámos no batismo sobre as palavras de Cristo (se acaso jurámos com toda a alma). Dediquem­se. O mesmo Erasmo. morramos por ela e transformemo­nos nela. para que as saibamos.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . nem de Aristóteles. amemo­la com todo o coração. com tácitos progressos. Com efeito. finalmente. Ensinem­se. www. se transformem em homens robustos em Cristo. para que as esperemos da sua benignidade. e que. Nas escolas cristãs. I. diz: «Não fiz uma ação de insensato aprendendo à letra os livros sagrados. 21. com os seus Evangelhos.

mostre os efeitos da sua vitalidade. com a sua luz. cumprindo as ordens de Deus. por isso. e as normas dadas às nossas ações e a beatitude prometida às pessoas tementes a Deus serão vãs. XIV. Desta maneira. mais ainda: um coração já efetivamente entregue a Deus. 20). e não pintada. esperava onde não havia motivo para esperar[13].). foi­lhe justamente tida em consideração. Todavia. 1. Abraão. tendo fé nas palavras de Deus. sereis felizes se as fizerdes» (João. se queremos ter verdadeiros cristãos. 23. sempre e por toda a parte preparado a submeter­se em tudo a Deus. esta fé. e. Com efeito. forte com as promessas de Deus. a cumprir o que Ele ordena e a esperar o que Ele promete. e não teóricos. desde os primeiros anos da sua formação. 13. freqüentes vezes.html 237/357 .7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Cristo diz: «Se sabeis estas coisas. assim como o sol. a fazer a experiência desta regra em si mesmos e a observá­la constantemente. a caridade e a esperança. Daí que apareça. É por isso que a Sagrada Escritura exige uma fé eficaz (Gálatas. I. e.org/eLibris/didaticamagna. viva e eficaz. Ensine­se a pôr em prática a fé. colocados sobre a mesa. com caridade ardente e com esperança firme. 5. se se ensinar às crianças (e a todos) a acreditar firmemente no que Deus revela. chama­lhe morta (Tiago. ministrada à nossa mente. e quer também uma esperança viva (Pedro. logo germina. se querem que a palavra de Deus infunda neles a virtude de se salvarem. acreditava mesmo em coisas incríveis para a razão humana. Ensinar­se­á a pôr adequadamente em prática a fé. A religião é viva. e os alimentos. 17). a todos aqueles que se entregam a Deus. fazia coisas duríssimas para o seu coração (como foi deixar a pátria. não saciam aquele que se recusa a comer. a advertência de que as coisas reveladas pela divina providência são reveladas para que as façamos. pai dos crentes. se as não abraçarmos com fé pronta. sacrificar o filho. assim também a luz divina. XV. É necessário. como uma semente viva que. 6) e. na Escritura. lançada em bom terreno. 3). E assim. nada revela a quem não quer abrir os olhos. devem ter um coração humilde e devoto.ebooksbrasil. Importa fazer notar e inculcar com diligência na mente dos jovens que. www.COMENIUS 22. se é privada de eficácia. importa ensinar. formar cristãos práticos. 2. a caridade e a esperança. com efeito. etc.

mas também porque os não podemos separar sem os perigo. e o externo. as nossas mentes subiriam. sem o interno. em adorá­lo de joelhos. tanto interno como externo. em cantar hinos de louvor. seja­lhe ensinado subordinadamente às Sagradas Escrituras. que lhe pertencem (Coríntios. para que o culto interno. até ao supremo e eterno senhor de todas as coisas. Oh! que Deus. O culto externo de Deus consiste em falar de Deus.). para os problemas morais. sem obstáculo. Deus www. notar e ver claramente que tudo é mera vaidade. I. 6. 5. XVI. tendo misericórdia de nós. precisamente para que ela possa. capaz de nos ensinar a voltar para Deus todas as coisas que estão fora de Deus. não arrefeça. nas quais se embaraça e se imerge o mundo! Assim teríamos uma espécie de escada sagrada. Por sua vez. públicos e privados. Estes dois cultos devem juntar­se e não separar­se: não somente porque é justo que Deus seja glorificado pelo nosso corpo e pelo nosso espírito. mediante todas as coisas que existem e que se fazem. se se não refere a Deus e à vida futura. pela qual. Mesmo tudo aquilo que se ensina à juventude cristã após a Sagrada Escritura (Ciências. 20).). não degenere em hipocrisia.html 238/357 . para a doce caridade de Cristo (Timóteo. que servem mais para destruir que para edificar a Igreja. etc. e de que se ocupa a inteligência humana. para os levarem a preocuparem­se com os problemas da consciência e da vida prática. 7. em renunciarmos a nós mesmos e em entregarmo­nos nas mãos de Deus. das especulações nuas e espinhosas. fonte da verdadeira felicidade[14]. na vontade pronta de fazer e de sofrer tudo o que agrada a Deus. alguns piedosos teólogos modernos procuraram arrancá­los de complicadas controvérsias. porque conduziu a filosofia. e os Apóstolos propuseram­se trazer os cristãos. I. e a voltar para o estudo das coisas celestes todas as ocupações desta vida. etc. Sócrates é louvado pelos antigos. das espinhosas questiúnculas da Lei.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . 25. Línguas. e. ou seja. por toda a parte. em pregar e ouvir a sua palavra. sem o externo. nos faça encontrar um modo e um método geral. Artes. 1.org/eLibris/didaticamagna. em temer e em amar a Deus.COMENIUS 24.ebooksbrasil. Ensine­se a todos a assistir religiosamente ao culto divino. Com efeito. 6. em freqüentar os sacramentos e em observar os outros ritos sagrados. o culto interno de Deus consiste em pensar continuamente que Deus está presente. da mesma maneira.

a misericórdia e a paciência. ou seja. externamente e internamente. desprezando o ministério externo.COMENIUS abomina os ritos externos. Portanto. mas também corporais e dotados de sentidos. Essas obras consistem em exercitar. e ensinasse que se deve adotar a Deus em espírito e verdade. Ensine­se­lhes também a distinguir acuradamente os fins dos benefícios e das condenações de Deus. 24). ordenou. O próprio Cristo. para que saibam fazer bom uso de todas as coisas. etc. se as práticas externas não estimulam as internas. como nós não somos meramente espirituais. pregava a palavra de Deus. etc. demonstra que está morta (Tiago.ebooksbrasil. ao mesmo tempo. freqüentava as reuniões sagradas. práticas externas. embora exija sobretudo práticas internas. ordenadas por Deus. 17). cultores de Deus superficiais. ao formarmos a juventude para a religião. todavia. se a nossa fé não produz estes frutos.» (Isaías. sem verdade interna: «quem pediu tais ofertas às vossas mãos?. e quer que sejam observadas. a justiça. ou então fanáticos. formemo­la por inteiro. excitar os nossos sentidos a fazer externamente aquilo que se deve fazer internamente em espírito e verdade. 2. Os da primeira espécie são: www.org/eLibris/didaticamagna. e as práticas internas não reavivam as externas. todavia. por conseqüência. XVIII 27. que se deleitam nos seus sonhos e. quer ser adorado em espírito e verdade (João. é necessário. pois. se quer ser salvadora.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .html 239/357 . Porque Deus é espírito. dissolvem a ordem e o decoro da Igreja. cantava hinos. a temperança. ia ouvir os Doutores da Lei e interrogava­os. 12 e noutros lugares). fingidos e simuladores. As crianças devem ser diligentemente habituadas às obras externas. Precisamente por isto. Fulgêncio (Carta 2 a Galla) divide os benefícios de Deus em três espécies[15]. que outros servem para adquirir a eternidade. Mas. adorava o Pai com a face por terra e prolongava essa adoração por noites inteiras. ou ainda gente fria. I. embora libertasse das cerimônias o culto prescrito no Novo Testamento. e que outros ainda se utilizam apenas na vida presente. Deus. para que saibam que o verdadeiro cristianismo está em demonstrar a sua fé com obras. 4. Ora ela deve ser viva. sem interrupção. para não formarmos hipócritas. XVII 26. e não façam mau uso de nada. Diz que alguns duram eternamente.

para que entendam que não podem ser discípulos de Cristo. os colocar à sua direita. 14). se não transportam sobre os seus ombros a Cruz de Cristo (veja­se Lucas. juntamente com Cristo. são de três espécies. como o inferno. para serem prolongados eternamente. Cristo. o qual convidou os outros a seguirem por esse caminho.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . 4 e 5) XIX 28. por assim dizer. alegria no Espírito Santo e caridade de Deus. de Judas e de outros. prefiram os bens que são apenas temporais. se não renunciam a si mesmos. como Lázaro. para.ebooksbrasil. para a carne.COMENIUS conhecimento de Deus. E embora a palavra Cruz seja a potência de Deus para salvar aqueles que acreditam. crucifica­os com Cristo. 35. não aqueles que apenas podem atingir o corpo. I. 7. para que não aconteça que. e se não estão preparados a seguir Deus durante toda a vida.org/eLibris/didaticamagna. criado segundo Deus. aos homens a distinguir todas as coisas. todavia. saiu desta vida.html 240/357 . precisamente por isso. a esperança e a misericórdia para com o próximo. enganados pelos bens sensíveis. O mistério da nossa salvação foi realizado na Cruz. versículo 27). de Antíoco. Da terceira espécie são a saúde. e por ele conduz aqueles a quem quer melhor. por si mesmos. na qual é crucificado o velho Adão. é feito de Cruz. para serem castigados eternamente. portanto. de Herodes. mas também levar a nossa alma para o inferno (Lucas. Apocalipse. e que. Deus castiga aqueles que ama e. e para que aprendam a recear. é loucura e estorvo (Coríntios. depois da ressurreição. de tal maneira que é necessário inculcar muito bem nos Cristãos esta verdade. os amigos e outros bens exteriores que. Por isso. por qualquer www. como o rico comilão[16]. não tanto os males presentes. e a temer sobretudo. E advirtam­se as crianças de que o caminho mais seguro da vida é o caminho da cruz. outros são poupados neste mundo. as riquezas. Do mesmo modo. 14. os sofrimentos de outros começam aqui na terra. como os de Saúl. isto é. Alguns (aos quais Deus estabeleceu poupar eternamente) são castigados neste mundo e transportam a sua cruz para que se tornem puros e brancos (Daniel. foi por ela que o Mestre. 11. Ensine­se. a qual se difunde nos nossos corações. para que viva o novo. ensine­se que as condenações de Deus. não nos tornam nem felizes nem infelizes. os seus castigos. Da segunda espécie são a fé. 1. 18). no céu. 12. mas aquele que pode não só perder o corpo.

perjuros. assim também é o único iniciador e aperfeiçoador da nossa fé. Deve providenciar­se para que. portanto. vivendo santíssimamente na humanidade assumida. infligida pelo crime de lesa­divindade. profanações do nome de Deus ou outras impiedades. e. a tempo. Isto é. que notem que ela não fica impune. [18] a nossa salvação corre um perigo gravíssimo. se apresentasse aos homens como modelo da vida divina.ebooksbrasil. na presente corrupção do mundo e da natureza. se deve temer. se a colocarmos sobre Cristo. com o próprio sangue. em casa ou na escola. e. invocar Cristo e só nele confiar.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . para qualquer parte que se voltem.org/eLibris/didaticamagna. feito Emanuel (Deus­homem). o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo[19]. colocamos em seguro a esperança da nossa salvação e dos nossos. reunisse os homens e Deus. E se alguma coisa acontece em contrário disto. observância da religião e pureza de consciência. mostrasse que a morte www. importa ensinar. nunca progredimos tanto como devíamos. na terra e no céu. sendo sempre mais dura que a pena infligida por uma ofensa cometida contra Prisciano[17]. acima de tudo e antes de tudo. se não vem em nossa ajuda. lavasse os nossos pecados. XXI 30. Finalmente. da nossa esperança e da nossa salvação. porque. e. nada valem.[20]. e. e no qual apenas se compraz o Pai. mas se castiga severamente. a nossa carne depravada cai facilmente na contemplação de si mesma e na soberba espiritual. e de tal maneira que a pena. enquanto se ensinam estas coisas às crianças. e. assim como é o vértice de toda a perfeição.COMENIUS parte por onde Ele queira conduzi­los. mas que. mesmo que progridamos alguma coisa. e assim (porque Deus resiste aos soberbos). precisamente para que. ressuscitando.html 241/357 . Assim. da nossa caridade. pela sua imperfeição. que os nossos bons estudos e as nossas boas obras. expiasse com o sacrifício de si mesmo as culpas do mundo. XX 29. a todos os cristãos. etc. morrendo inocentemente. enfim. não lhes seja dado nenhum exemplo em contrário. pedra angular[21]. encontrem reverência pela divindade. procure­se que as crianças não ouçam nem vejam blasfêmias. finalmente. o qual. com a sua perfeição. Efetivamente. mostre que é que. o Pai enviou Cristo do Céu à terra. É necessário. Cristo.

e. Amen. determinar o modo particular de realizar aptamente todas estas coisas. todavia. para que. penhor da nossa salvação. em todas as classes das escolas. estejamos também nós e contemplemos a sua glória. por todos os séculos dos séculos. Convém. 32.COMENIUS fora vencida com a morte.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . e depois nos ressuscitasse e levasse para si. e nos regesse e nos guardasse para a salvação.ebooksbrasil.org/eLibris/didaticamagna. etc. com o Pai e o Espírito Santo.html 242/357 . enquanto lutamos aqui na terra. www. e. A este único salvador de todos os homens. benção e glória. mediante o mesmo Espírito. e de lá enviando o Espírito Santo. habitasse em nós como Templos seus. onde Ele está. honra. 31. subndo ao céu. seja dado eterno louvor.

e que temos necessidade de procurar os cristãos no meio da cristandade. nascidos para o céu.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Catulos e Tíbulos. com a restante multidão dos pagãos. 2. as causas urgentes desta atitude. pois vemos que as principais escolas dos cristãos professam Cristo apenas de nome e. Daqui resulta que sabemos mais do mundo que de Cristo. Uma necessidade inevitável obriga­nos a desenvolver um pouco mais o assunto a que. se queremos ter escolas verdadeiramente cristãs. Plautos. de passagem.html 243/357 . Exporemos.COMENIUS Capítulo XXV SE REALMENTE QUEREMOS ESCOLAS REFORMADAS SEGUNDO AS VERDADEIRAS NORMAS DO AUTÊNTICO CRISTIANISMO.org/eLibris/didaticamagna. Ovídios. primeiro. OU DEVEM SER AFASTADOS DAS ESCOLAS. OS LIVROS DOS PAGÃOS. 3. O amor da glória de Deus e da salvação dos homens impele­nos a tratar com zelo este assunto. Em primeiro lugar. e. entre os mais eruditos e notáveis. Cíceros. não põem as suas delícias senão nos Terêncios. ensinaremos qual a cautela de que se deve usar relativamente a esses sábios. precisamente porque. Ora isto é um horrendo abuso da liberdade cristã. de resto. fornece o sangue e o espírito. Musas e Vênus. uma turpíssima profanação e uma coisa cheia de perigos. os nossos filhos. 1. mesmo a muitos teólogos. OU AO MENOS DEVEM SER UTILIZADOS COM MAIS CAUTELA QUE ATÉ AQUI[1] De que coisa se começa a persuadir neste capítulo. Cristo apenas fornece uma máscara. depois.ebooksbrasil. quando são bons. os seus ditos e os seus fatos. pois. para fazer nossos todos os seus pensamentos. Com efeito: Causas por que os livros pagãos devem ser excluídos das escolas cristãs e os livros divinos devem ser introduzidos: Primeira. e Aristóteles. importa afastar delas uma multidão de doutores pagãos. www. fizemos já menção no capítulo precedente. E com que zelo para com Deus.

E estas palavras. Observai­os e ponde­os em prática.» (Deuteronômio.ebooksbrasil. todas as outras coisas. dirão: «Apenas esta gente é um povo sábio e prudente» (Deuteronômio. todavia. 39). 4 e ss. os Anjos. ser formados como cidadãos para o céu e.COMENIUS renasceram por virtude do Espírito de Deus. para que ninguém venha a ser arrebatado pela morte sem estar preparado. 4. fala assim pela boca de Moisés: «Ouve. mas meditarás nele dia e noite para observar e cumprir tudo o que nele está escrito. 5 e 6).7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Devem. principalmente. pois está aqui a vossa sabedoria e a vossa prudência diante dos olhos dos povos. mas também porque as primeiras impressões permanecem profundamente gravadas na mente e (se são santas) tornam mais seguras todas as outras coisas que se devem tratar depois.org/eLibris/didaticamagna. ó Israel. durante a vida. Abraão. 19). deve procurar fazer­se isto antes de tudo. entretanto. devem tomar conhecimento com os habitantes do céu: Deus. não lhe mostrou outra escola além da dos seus átrios. E noutro lugar: «Porventura o povo não há­de consultar o seu Deus?» (Isaías. o Senhor nosso Deus é o único Senhor. E. E pela boca de David: «A doutrina de Jeová é íntegra e restauradora da alma. Deus. ouvindo estas coisas. que eu hoje te intimo. um auxílio suficientíssimo para a nossa fraqueza. 5. 4. e tu as ensinarás a teus filhos. não só por causa da incerteza desta vida. o testemunho de Jeová é www. declara­o com estas palavras: «Eis que vos ensinei os estatutos e os ordenamentos judiciários. 8. E em Josué ordena: «Não se aparte da tua boca o livro desta lei. por conseqüência. então levarás o teu caminho direito e prosperarás» (Josué. e ao levantar­ te. Jacob e outros. onde estabeleceu ser Ele mesmo o nosso professor. e as meditarás sentado em tua casa. Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração. Segunda. e estando no leito. postas de parte. nós os alunos. embora provesse abundantemente ao seu povo eleito. 8).). num e noutro caso. que te ensino o que é útil. a voz dos seus profetas. e de toda a tua alma. Em segundo lugar. 17). que te dirijo pelo caminho que segues» (Isaías. Com efeito. e andando pelo caminho. E que esta sua voz é luz fulgidíssima da nossa inteligência e regra perfeitíssima das nossas ações e. os quais. E Cristo diz: «Perscrutai as Escrituras» (João. Isac. e a doutrina. estarão gravadas no teu coração. E pela boca de Isaías: «Eu sou o Senhor teu Deus. 1. Cristo. 6.html 244/357 . 48. e com toda a tua força. etc. 5. Terceira.

«Estes jovens viram a luz.org/eLibris/didaticamagna. 36. 16 e 17). para repreender. e por isso não conheceram os seus preceitos» (Salmo 147. etc. conhece­a e descobriu todos os caminhos da sabedoria e ensinou­a a Jacob. «Não fez assim a nenhuma outra nação. Deus censurava­lhe não só a loucura. verdadeiramente iluminados) reconheceram também esta verdade e professaram­ na. www.html 245/357 . Quarta. 3. 12). nem foi vista em Temã. Finalmente. II. Igualmente os homens mais sábios (entenda­se cristãos. uma erudição vital. se não falarem segundo esta linguagem. Quando o seu povo se desviava da sua lei. pois. 21. João Crisóstomo diz: «Tudo aquilo que é necessário saber ou ignorar. 32.2).COMENIUS veraz e dá sabedoria aos ignorantes. ignoraram o caminho da sabedoria.» (Salmo 19. nem seus filhos a receberam. divinamente inspirada. não raiará para eles a luz da manhã» (Isaías. 1. Deus proibiu expressamente ao seu povo as doutrinas e os costumes dos pagãos: «Não aprendais os caminhos dos gentios» (disse Jeremias. 22. versículos 20. Não foi ouvida na terra de Canaã. seu servo. aprendemo­lo nas Escrituras»[2]. Também os filhos de Agar. seu amado» (Baruc. para corrigir. o Apóstolo atesta: «Toda a Escritura. Porquê assim? Porque «toda a sabedoria vem de Deus e com ele permanece para sempre». Quinta. 10. 37). para formar na justiça. e não entenderam as suas veredas. ela se retirou para longe deles. apto para toda a obra boa» (Timóteo. Mas aquele que sabe todas as coisas. a fim de que o homem de Deus seja perfeito. 3. e habitaram sobre a terra. E logo a seguir: «A raiz da sabedoria a quem foi jamais revelada?» (Eclesiástico. 3. 8). e a Israel. 7.ebooksbrasil. 1. etc. 20). a aula da verdade. mas ignoraram o caminho da sabedoria. S. e ocupa os alunos com pensamentos frutuosos. e não com vãos artifícios de palavras. 19­20). 6. deus de Acaron?» (IV Livro dos Reis. para vós virdes consultar Belsebu.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . os quais procuram a prudência que vem da terra. pois abandonava a fonte da sabedoria (Baruc. 3) «Porventura o povo não há­de consultar o seu Deus? Há­de ir falar com os mortos acerca dos vivos? Antes deve recorrer à lei e ao testemunho. uma disciplina certíssimamente singular. os fabulistas e os esquadrinhadores da inteligência. Além disso. E igualmente: «Porventura não há um Deus em Israel.»[3]. E Cassiodoro: «A Escritura é uma escola celeste. 1 e 6). é útil para ensinar. 8. 23. indo à procura dos atrativos da fantasia humana.

sempre que a Igreja se desviou das fontes de Israel. «Somos ditosos. e da sua boca sai a prudência e a ciência» (Provérbios. nela haurindo abundantemente a sabedoria verdadeira e celeste. filho de Sirac (no prólogo do seu livro). E. Efetivamente. declara: «O Senhor é quem dá a sabedoria. etc. 8.COMENIUS mas também a dupla malícia «porque o meu povo fez dois males: abandonaram­me a mim. porque os teus mandamentos são a minha meditação. o mais sábio dos mortais. ó Israel. através das lamentações dos profetas. os livros dos pagãos?[4]. o fato é suficientemente conhecido. Do sagrado código de Deus. que não podem reter as águas» (Jeremias. 2. Também Jesus. 6).7/8/13 DIDACTICA MAGNA . segundo o testemunho do próprio Deus (Deuteronômio. relativamente à Igreja cristã. para quem havemos nós de ir? Só tu tens palavras de vida eterna» (João. porque ele está sempre comigo. Sexta. 2. etc. nenhum se interessa. 9. afirma que a sua sabedoria foi haurida «na leitura da lei e dos profetas» (Eclesiástico). Sou mais prudente que todos os meus mestres. Porventura procedem de maneira diferente aqueles cristãos que têm sempre entre as mãos. 13).html 246/357 . a alegria dos santos. porque as coisas que agradam a Deus nos são manifestas» (Baruc. a verdadeira Igreja e os verdadeiros cultores de Deus não procuraram nenhuma outra escola. e cavaram para si cisternas. 10). 47). lamentando­se porque o seu povo tinha relações demasiado amistosas com os gentios. 98. cisternas rotas. De modo semelhante.). que sou a fonte de água viva. sempre permaneceu vigorosa a sinceridade da fé. Sétima. Por isso. Exemplos de todos os séculos mostram que. mas a nossa própria vida». que possa impunemente descurar­se. 4). 6. além da palavra de Deus. Relativamente à Igreja israelítica. Daqui. acrescenta: «Os multíplices ensinamentos da minha lei. 8. que é superior a toda a sabedoria mundana.» (Salmo 118. consideram­nos como coisa feita para os outros» (Oseias. de dia e de noite. Mas.ebooksbrasil. que por mim foram escritos. pela boca de Oseias.org/eLibris/didaticamagna. David diz de si mesmo: «Mais sábio que os meus inimigos me tornou o teu mandamento. 12). 69). sempre esse desvio foi ocasião de cismas e de erros. 32. «Senhor. logo que os pagãos www. como se se tratasse de uma coisa dos outros que a eles não diz respeito. apenas com a doutrina do Evangelho. sempre que foi governada pelos Apóstolos e por pessoas apostólicas. infere­se da história que. quando viam a luz na Luz de Deus (Salmo 35. 4. Salomão. embora ele não seja «coisa vã.

sob o nome de cristianismo. Deus infundiu neles o espírito de sonolência e fechou­lhes os olhos. Oitava. Deste modo. em lugar dos artigos da Fé. 20).org/eLibris/didaticamagna. E nós não nos envergonhamos de dar como pedagogos aos filhos do rei dos reis. aquele lascivo do Catulo. por isso. aquele Luciano. 29. Deus e a palavra de Deus. 10 e ss. e arrefeceu o primitivo ardor e solicitude em separar as doutrinas puras das impuras. não há nenhum outro caminho mais seguro que o de abandonar as dissertações sedutoras dos homens e regressar às únicas fontes puras de Israel. por Cristo. 10. mas pessoas graves. Precisamente por culpa daqueles mesmos que se jactavam de ser os únicos depositários da chave da sabedoria. 8. 54. Oh! quão verdadeiramente se verifica. que não dão ainda mostras de quererem desaparecer. a respeito destes. surgiu e reina o paganismo. «Por isso. 21).ebooksbrasil. os bobos. a caridade arrefeceu e a piedade extinguiu­se. aquilo que o Espírito Santo afirmou dos filósofos pagãos. com efeito. aquele brincalhão do Plauto. aos herdeiros da eternidade. aquele www. é evidente que espécie de mistura e de confusão de doutrinas resultou. Por isso. daí os dissídios e os litígios. aos irmãos de Cristo. os bufões. e. e retomar.). se realizará a profecia de Isaías: «todos os filhos da Igreja serão ensinados pelo Senhor» (Isaías. se começou a ler. Nem certamente a nossa dignidade de cristãos (que. pois temiam Deus segundo os mandamentos e as doutrinas dos homens. que aos filhos dos reis e dos príncipes não é costume dar como pedagogos os parasitas. dizendo que «se desvaneceram nos seus pensamentos e obscureceu­se o seu coração insensato» (Romanos. É evidente.html 247/357 .COMENIUS começaram a entrar em multidão na Igreja. os livros dos pagãos. e. surgiu uma infinidade de opiniões estranhas. um sacerdócio real[5] e herdeiros do céu) permite que nós e os nossos filhos nos abaixemos e nos prostituamos de modo a tratar os moralistas pagãos como amigos íntimos e façamos deles as nossas delícias. ímpio escarnecedor de Deus. por mestre e guia. finalmente. para que para eles toda a visão fosse como as palavras de um livro fechado. foi necessário que se realizasse em plenitude a ameaça de Jeová: «se eles não falarem segundo esta linguagem não raiará para eles a luz da manhã» (Isaías. primeiro privadamente e depois em público. perdeu­se essa chave.» (Isaías. em conseqüência disso.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . fomos feitos filhos de Deus. Efetivamente. 1. aquele impuro do Ovídio. nós e os nossos filhos. 13). Assim. etc. sábias e devotas. se a Igreja se quer purgar com bom resultado dos inquinamentos.

e que se estende a todos os usos desta vida e da vida futura. 25. onde faz de reitor e de mestre supremo o próprio Espírito Santo. nem aquilo que aconteceu àqueles que não prestaram atenção à seguinte ameaça: «O Senhor exterminará diante de ti aquelas nações. 7. etc. Cristo. abriu uma escola em sua casa para os filhos de Deus. de semelhante loucura! É tempo de terminar com ela. Tudo o que se ensina nesta escola ministra a todos uma ciência que é mais verdadeira. de professores e de mestres os profetas e os apóstolos. as primícias dos homens resgatados por Deus e pelo Cordeiro. 26). só a boca de Deus é a fonte de onde promanam todos os rios da verdadeira sabedoria. todos ensinando. o caminho da verdade e da salvação. 22. pois é este o único caminho de uma inefável. para que te não tornes anátema. não cobiçarás a prata nem o ouro de que são feitas. E no capítulo 12: «Quando o Senhor teu Deus tiver exterminado www. luminosamente. 11. para que não tropeces. e é justo seguir quem nos chama. visto serem a abominação do Senhor teu Deus. não podem deixar de remexer consigo nas mesmas imundícies aqueles que os freqüentam. estão atentos à sua boca e recebem no coração as suas palavras. Basta. todos homens santos. como ele o é» (Deuteronômio. Nona. uma vez que viveram sem esperança alguma de uma vida melhor e apenas pensaram em mergulhar­se no charco da vida presente. Felizes. Tu. l0). nem delas tomarás nada para ti. só a face de Deus é o luzeiro de onde se difundem os raios da verdadeira luz. queimarás no fogo as suas esculturas.COMENIUS obsceno do Marcial e outros do mesmo jaez. onde são alunos apenas os eleitos de Deus.ebooksbrasil.html 248/357 . os principados e as potestades que estão no céu (Efésios. 3. só a palavra de Deus é a raiz de onde despontam os verdadeiros gérmens da inteligência. que não conhecem nem temem o verdadeiro Deus? Os quais. E não levarás para tua casa coisa alguma de ídolo. e onde fazem de inspetores e de prefeitos os anjos e os arcanjos. basta. mais certa e mais perfeita que os raciocínios do cérebro humano. e fora dele não há outro. A escola de Deus.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . ó cristãos. porém. com a palavra e com o exemplo. todos dotados de verdadeira sabedoria. portanto. Nem deve passar­se em silêncio quão seriamente Deus proibiu ao seu povo as relíquias dos gentios. eterna sabedoria de Deus. Com efeito.org/eLibris/didaticamagna. pois Deus chama­nos a coisas melhores. aqueles que olham a face de Deus. verdadeira e eterna sabedoria.

29. objetará alguém. não acrescentes nem tires nada» (Deuteronômio. Então. eram obras das mãos humanas (é assim que Deus costuma falar ao exprobar a estultícia do idólatra). dizendo: Assim como estas nações adorarem os seus deuses. Que é que. Com efeito.COMENIUS diante de ti as nações em que entrares para as possuir. etc. 14). que considerava uma fábula a história de Cristo?[7] Por que espírito foi Bembo inspirado a dissuadir o Cardeal Sadoleto da leitura dos Livros Santos (sob o pretexto de que aquelas inépcias não eram dignas de um varão eminente?)[8]. Não farás assim com o Senhor teu Deus. agora. depois que elas tiverem sido destruídas à tua entrada. mas www. não haveremos de tomar juízo? Os livros dos pagãos são ídolos. porém. 24. Plauto. mesmo os mais sábios podem ser enganados (Colossences. e de te informar das suas cerimônias.org/eLibris/didaticamagna. Mas os livros não são ídolos. e as possuíres. Então. 8). do mesmo modo também eu os adorarei. 2. que o Senhor aborrece. faz precipitar no ateísmo tantos sábios italianos e outros?[9]. arrastam atrás de si com um odor verdadeiramente mortal! Evasão. 23). agora. tornados mais cautelosos pelo exemplo alheio. agora. Oxalá na Igreja de Cristo reformada não existam também aqueles que Cícero. e assim recaíram sempre na idolomania até à ruína dos dois reinos hebraicos.ebooksbrasil. Respondo: Mas são relíquias daquelas gentes que o Senhor nosso Deus dispersou da face do seu povo cristão.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . a plausibilidade da sabedoria carnal cega a mente. mas são mais perigosas que outrora. 12. o resplendor da prata e do ouro encandeava os olhos. O quê? Negas que os livros pagãos são ídolos? Quem é que então afastou de Cristo o imperador Juliano?[6] Quem fez perder a cabeça ao papa Leão X. Se alguém disser: o abuso não deve imputar­se às coisas. 13. depois da vitória. abstém­te de as imitar. 12. tivesse recordado aos israelitas este mandamento de Deus e os aconselhasse a abandonar os ídolos no que não foi obedecido. 10. são obras da inteligência humana. e ss. Porque elas fizeram pelos seus deuses todas as abominações. oferecendo­lhes seus filhos e filhas e queimando­os no fogo. estas relíquias pagãs tornaram­se para eles uma cilada. ainda hoje. Faze somente em honra do Senhor aquilo que eu te ordeno. E embora Josué (Josué. e habitares na sua terra. E nós. então ficavam presos no laço apenas aqueles cujos corações se embruteciam (Jeremias.). Ovídio.html 249/357 . como outrora.

sacerdotes principiantes. 5). Obedeçamos. conscientemente e voluntariamente. a Deus e não introduzamos ídolos nas nossas casas nem coloquemos Dragões ao lado da arca da aliança[10]. 22 e Colossences. Se não obedecemos a Deus. fogo comum).org/eLibris/didaticamagna. 14. não fazemos mais que expô­los ao furor da ira divina. Mas que são os filhos dos cristãos senão «um sacerdócio santo para oferecer sacrifícios espirituais. há cristãos piedosos aos quais a leitura dos pagãos não faz mal algum — o Apóstolo responde: «sabemos que o ídolo não é nada no mundo». Os efésios devem ser imitados. que nos aconselha coisas mais www.ebooksbrasil. material e diabólica.COMENIUS às pessoas. 1. filhos de Arão. 2. Alegoria. agradáveis a Deus»? (Pedro. segundo o testemunho do Apóstolo (Romanos. 4. E. fogo estranho à religião (isto é. e fazem­nos cair nas ciladas de Satanás. 10. recordado por Moisés alegoricamente.). de perigosas tentações e de maus desejos. antes. nelas infunde sonolência e nelas suscita sonhos que são causa de opiniões monstruosas.html 250/357 . 9). toleramos tais atrativos (quero dizer as várias invenções do cérebro humano ou ainda da fraude satânica). também aquele caso. Convém. com o qual Satanás embebeda as mentes incautas. não é e não deve ser estranha ao coração dos cristãos qualquer coisa que provenha de outro lugar e não do espírito de Deus? E não provém de Deus a maior parte dos delírios filosóficos e poéticos dos pagãos. «mas nem em todos há este conhecimento» (capaz de discernir). Na verdade. Porém. E. enquanto que é certo que esses atrativos fazem perder a cabeça a alguns. 1. para que a vossa liberdade se não torne ocasião de queda para os fracos» (Coríntios. S. 1 e ss. 9). para que não misturemos a sabedoria que vem do céu com a sabedoria terrena. em vez de fogo sagrado. ou seja. não sem razão. 15. nós não podemos ser escusados se. e até a muitos. Portanto. talvez tenha aqui cabimento. I. 2. embora o Deus misericordioso preserve muitos da ruína. 21. se enchemos os seus turíbulos. ter cuidado com estes filtros satânicos. nos seus turíbulos. 7. por isso. Nabad e Abiú. tendo colocado (porque não conheciam ainda bem o cerimonial). nem demos a Deus ocasiões para desabafar a sua justa ira contra os nossos filhos. 8. «Tende cautela.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . 8. todavia. as suas mentes. efetivamente. para incensar o Senhor. Jerônimo chamou à poesia vinho dos demônios[11]. com um fogo que lhes é estranho. ora. foram feridos pelo fogo de Deus e morreram diante do Senhor (Levítico. alindados de sutilezas e de elegâncias. pois.

só na Luz de Deus se vê a luz (Salmo 35. contorcendo­se como uma serpente. para nós que temos à mão chamas ardentes ofertadas em dom (a fulgidíssima palavra de Deus). se porventura se encontra qualquer jorro ou qualquer chispa de luz. no dia de juízo 1evantar­se­ão contra nós os Efésios. embora a quem está nas trevas pareçam um esplendor. imitar os gregos neste ponto (tendo. todavia. 1. está contida uma grande sabedoria. Vejamos. 5) Dissolvem­se agora as objeções. porque inundado pela barbárie.org/eLibris/didaticamagna. «Vós. porém. para mais facilmente afastar as trevas que nos foram deixadas pelo paganismo. sob pena de excomunhão. vinde e caminhemos na luz do nosso Deus» (Isaías. logo que a luz da divina sabedoria refulgiu a seus olhos. 2. 10). do Pai das luzes. 17. são pequenas centelhas. na Sagrada Escritura. Assim instam os racionalistas. em maior consideração o estudo das Sagradas Escrituras). tenha caído em grande ignorância e em muitas superstições. aos eclesiásticos e àqueles que professam a sua religião. todavia. levanta os olhos para o céu! De lá desce a luz verdadeira. tornados inúteis para eles cristãos (Atos dos Apóstolos. Ora.COMENIUS seguras. que utilidade podem trazer aquelas centelhas? Com efeito. da grande sabedoria contida nos livros dos pagãos. Nos livros dos filósofos. E a moderna Igreja grega.ebooksbrasil. queimaram todos os livros de argumento licencioso. mas os animais nascidos para a luz. embora tenha livros de filosofia e de poesia. não fazem mais que lamber o vidro. 19). os filósofos. para que se não veja obrigada a aceitar o obséquio da fé e a entregar­se a Deus. dos oradores e dos poetas. portanto. se disputam acerca da natureza. da casa de Jacob. os quais. Importa. conhecem­na bem diversamente. Daqui resultou que o mundo grego. Respondo: são dignos das trevas aqueles que desviam os olhos da luz. Ó homem fútil.html 251/357 . considerados os homens mais sábios do mundo. sem nunca atingir as papas. as quais. o próprio Senhor da natureza narra os grandes mistérios das suas obras. proibiu a sua leitura. com que razões se insurge contra estas coisas a razão humana. 19. explicando as primeiras e as últimas razões de todas as criaturas visíveis e www. 16. escritos na sua língua elegante por autores antigos. É certo que à coruja o crepúsculo parece o meio dia. mas foi até agora preservado por Deus do dilúvio anti­cristão dos erros. porém.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . que procuras a luz clara nas trevas do raciocínio humano. Nas obras humanas. pois. pois.

de tal maneira que não o julgamos sequer digno do último lugar. por amor das Sagradas Escrituras. nasce o Senhor e aí se vê a sua glória» (Isaías. no lugar onde trata do pecado)[14]. «Que interessa progredir nas doutrinas mundanas e languescer nas doutrinas divinas? Seguir as ficções caducas e ter fastio pelos mistérios celestes? É necessário abster­se de tais livros e. dos filhos das trevas. 60. Quanto de enfatuado e de soberba não há em Platão? E não me parece que uma inteligência sagaz e penetrante possa conseguir facilmente não contrair qualquer defeito da ambição platônica. fugir dos autores que deslumbram pelo seu estilo. mas. 2. senão a confiança e o amor de nós próprios? Cicero.org/eLibris/didaticamagna. Ora a Escritura contém verdadeiras e claras descrições das virtudes e profundas exortações. em Sion. possam exultar ainda mais no caminho da luz. uma autêntica paixão de polemizar.ebooksbrasil. A verdadeira filosofia não www. aos filhos da luz seja dada a liberdade de se abeirarem. ensinam a superstição. 2). 1. porém. é certo. se acaso ler os seus escritos. Filipe Melanchton pensa o seguinte: «Que ensinam em geral os filósofos. porque não estão embebidos nem do verdadeiro conhecimento de Deus. A este propósito. compadecer­se das trevas daqueles infelizes. notada a diferença. se preferem as suas centelhas à nossa luz. A doutrina de Aristóteles é. Eis o louvor de tais livros! São cascas sem miolo. e exemplos vivos de toda a espécie. que penetram até à medula dos ossos.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . «Eis que as trevas cobrem a terra e a escuridão os povos. cometem uma loucura intolerável e injuriosa contra Deus e contra a nossa alma. mas são destituídos de virtude e de sabedoria». Quando os pagãos querem ensinar a piedade.COMENIUS invisíveis. ensinam. acha que toda a razão de praticar a virtude nasce do amor de nós próprios e do egoísmo.html 252/357 . por vezes. que nos foi dada para nossa salvação. Embora. portanto. nem do verdadeiro conhecimento da sua vontade. não conseguem efetivamente voar. a filosofia. devem. entre os escritores de filosofia moral. por mais que esvoacem com toda a força. Se os filósofos falam de moral. da sua necessidade para a filosofia. etc. porém.» (Compêndio de Teologia. no seu livro «De finibus bonorum et malorum»[13]. se acaso algum deles ensina acertadamente. no seu conjunto. diz Santo Isidoro[12]. 5). a qual não pode haurir­se da Sagrada Escritura. para que. fazem como as avezinhas presas pelo visco que. 18. Dizem também: Se os escritores pagãos não ensinam retamente a Teologia. Respondo: A fonte da sabedoria é a palavra de Deus que está nos céus (Eclesiástico.

se ama o bem comum. Se. Mas será necessário angustiar e pôr assim sempre em dificuldades os israelitas? Não. sumo e verdadeiro bem»[15]. e estas coisas não podem aprender­se em parte alguma com mais verdade que da boca de Deus. aqui e além. nos filósofos pagãos. apenas consegue encontrar­se uma sombra.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . feitos à força de raciocínios e de flores oratórias. de tal maneira que se deve admirar o magistério do Espírito Santo. as coisas que se devem amar. mesmo naquela ciência externa.html 253/357 . isto é. que é Deus. Por isso. Deus e o próximo. com o fundamento e com o vínculo da fé e de uma firme concórdia. E alguns autores do nosso século[16] demonstraram já que. na Sagrada Escritura. pois não havia ferreiro na terra dos israelitas (Samuel. portanto. Aqui está também a mais louvável salvação do Estado: porque não se tutela da melhor maneira o bem­estar dos cidadãos.ebooksbrasil. nos descobre as razões das coisas naturais e artificiais.COMENIUS consiste senão no verdadeiro conhecimento de Deus e das suas obras. acerca de tudo isto. tecendo louvores à Sagrada Escritura. as enxadas. a enxada. principalmente quando é certo que isso traz o dano de que. a sabedoria verdadeira e celeste? Esforcemo­ nos. assim também pode ir buscar­se à filosofia pagã silogismos comuns. em vez dos escritores pagãos. prescrevendo assim regras para todo o gênero de vida. para termos em nossas casas tudo aquilo que pode tornar­nos sábios. enquanto que. se nós inculcarmos à juventude. afirma: «Aqui está a filosofia: porque todas as causas de todas as naturezas estão em Deus. ao mesmo tempo. Santo Agostinho. Aqui está a lógica: porque a verdade e a luz da razão humana não é senão Deus. mas de modo algum forneciam as espadas aos israelitas. juntamente com a vida. a que chamamos filosofia. o machado e o sacho. como então. e nos dá normas suficientes para pensar e operar sabiamente. seu criador.org/eLibris/didaticamagna. em que os filhos dos israelitas se viram obrigados a ir aos filisteus arranjar a relha do arado. ou seja. 19 e 20). Aqui está a Ética: porque a vida equilibrada e honesta não pode formar­se de outro modo senão amando. estão contidos. mas de www. que é que nos impede de esperar que volte até nós a sabedoria salomônica. é certo. mas. os princípios fundamentais de todas as ciências e de todas as artes filosóficas. um grande teólogo escreveu: «a bela sabedoria de Salomão está no fato de que introduziu a Lei de Deus nas casas. 13. com mais verdade que em outras obras. e por assim dizer profana. que procura informar­nos principalmente das coisas invisíveis e eternas. nas escolas e nas cortes». I. e amando­as como se deve. os filisteus forneciam. que as usariam contra eles. a não ser quando. portanto. É certo que houve uma época desgraçada. a lei de Deus.

COMENIUS modo algum as espadas e as lanças para debelar a impiedade e a superstição. portanto. por isso. nesses escritores. se quer insinuar­se no meio de nós. e. das quais é necessário afastar os olhos e os ouvidos dos cristãos. tabernas. Ao menos. 23. de igual modo. E. por causa da elegância do estilo. e outras cloacas semelhantes? Como efeito. nem tudo é mau. Horácio e outros são honestos e graves. é coisa muito perigosa. amores baixos. www. por causa do estilo. de cupidezas mundanas.html 254/357 . também estes são pagãos cegos que desviam as mentes dos leitores. Respondo: o mal.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . mas. 19. Plauto. devassidões. não se costuma. nem mesmo se pode. leiam Terêncio. 13). e como que empurrá­lo para a ruína? Mas dir­se­á: Nestes escritores. Marte. em guerra umas contra as outras! Evidentemente que enchem os seus discípulos de um espírito diferente daquele que Cristo neles quer infundir. do verdadeiro Deus para os deuses e deusas (Júpiter. de opiniões falsas. mesmo quando se lhes apresentam diante por mero acaso? Porventura julgamos que o homem está pouco depravado em si. E. o veneno faz sentir a sua força e provoca a morte a quem o toma. dar­lhe o veneno puro. além disso. os estudiosos da Latinidade. comesainas. necessariamente tem de adoçar os seus tóxicos infernais com o açúcar das carícias das suas ficções e discursos. baiúcas.ebooksbrasil. porém. e a vossa boca não deve pronunciá­lo» (Êxodo. Ovídio e outros semelhantes. mesmo para matar alguém. Ora Deus disse ao seu povo: «Não deveis recordar o nome dos deuses estrangeiros. apega­se­nos sempre mais facilmente. Exatamente assim. enviar a juventude onde o mal está misturado com o bem. enganos e outras coisas parecidas. para onde conduzem a juventude Terêncio.org/eLibris/didaticamagna. Primeira Resposta: Porventura. apesar disso. sem dúvida fingidas). Netuno. que caos de superstições. não havemos nós de mandar para o diabo o seu nefando artifício? Poderá dizer­se: Nem todos são porcos. Respondo: Todavia. mas misturado com os melhores manjares ou bebidas. estímulos e incentivos. antes a época de David e de Salomão. Cícero. Virgílio. o antigo homicida. Catulo. Conscientes disto. de tal modo que seja necessário ministrar­lhe do exterior formas de toda a espécie de torpezas. senão para lugares sórdidos como aqueles? Que espetáculo lhe oferecem senão facécias. bebedeiras. galhofas. portanto. havemos de levar os nossos filhos pelas tascas. Vênus. Cristo chama­nos para fora do mundo. Plauto e outros escritores semelhantes. lupanares. para que aprendam a falar. Fortuna e outras divindades. em que os filisteus foram vencidos e em que Israel reinava e gozava dos seus bens. Desejemos. Com efeito.

eles espalham a frivolidade. 14 e 15). de modo a serem preferidos aos nossos escritores sagrados? Acaso só eles nos mostram as elegâncias literárias? O mais perfeito artífice da língua é aquele que a criou. o Elícona e o Parnaso oferecem panoramas mais amenos que o Sinai. alegorias. Cristo ama os crédulos. parábolas e máximas? Nestas coisas. mais eficazes que o fogo que funde os metais e mais pesadas que o martelo que despedaça as pedras. Cristo recomenda a simplicidade das pombas. rios de Damasco (Livro dos Reis. eles para o orgulho. É uma imaginação leprosa preferir ao Jordão e às outras águas de Israel.ebooksbrasil. afinal.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . que o verdadeiro maná celeste e as fontes de Israel. eles instilam. Também Erasmo diz. Cristo ensina­nos a renúncia a nós mesmos. pois nesta erva as serpentes não se escondem. pergunto com as palavras do Apóstolo: «Que sociedade pode haver entre a luz e as trevas? E que concórdia entre Cristo e Belial? Ou que de comum entre o fiel e o infiel?» (Coríntios. 12).org/eLibris/didaticamagna. do mesmo modo. com razão. o Albana e o Farfar. a arte das sutilezas. É surdo o ouvido a que soa mais docemente a lira de Orfeu. figuras. Cristo aconselha a modéstia. metáforas. e as fontes de Castálio. das musas e das graças. É estragado a paladar. Acaso só eles formam tropos.html 255/357 . E. e os santos de Deus experimentam e pregam que as suas palavras são mais doces que o mel. 5. 20. Cristo chama para a humildade. a trompa de Homero e de Virgílio. de Cristo Salvador e dos vários dons do Espírito santo. É ramelosa a vista a que o Olimpo. II. que têm de belo e gracioso os escritores pagãos. os obstinados. o Sion. o espírito de Deus.COMENIUS eles imergem­nos no mundo. É cega aquela esperança que passeia pelos campos www. mais penetrantes que uma espada de dois gumes. que o nome adorável de Jeová. Acaso só os escritores pagãos contam histórias memoráveis? A nossa Bíblia está cheia de fatos verdadeiros e muito mais maravilhosos. os mais altos cimos foram por nós atingidos. que a harpa de David. para concluir com poucas palavras. de mil maneiras. E igualmente: «Assim como nos podemos deitar com segurança absoluta no trevo. o Ermon. ao qual sabem melhor o fingido néctar e a ambrósia. IV. 6. assim também devemos freqüentar aqueles livros onde não há nenhum veneno a temer»[18]. II. eles preferem os suspeitosos. não deve tocar­se num livro que contenha pensamentos pútridos»[17]. os disputadores. eles ensinam o amor a nós mesmos. É perverso o coração a que proporcionam maiores delícias os nomes dos deuses e das deusas. Resposta. nas suas Parábolas: «As abelhas abstêm­se das flores podres. o Tabor e o Monte das Oliveiras. Mas.

14). e fazer a sua distribuição pelos herdeiros do Senhor. naqueles. portanto. nestes. Efetivamente. É necessário. Finalmente. Resposta. todo o ouro e prata e qualquer outra coisa preciosa. as crianças e os fracos ficaram em casa.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . 3. tristes exemplos nos mostram quantos deles a filosofia dessa turba pagã separou de Cristo e precipitou no ateísmo. e finalmente acrescentava: «Se acaso ela deve demorar­se na literatura profana. se deve admitir­se algum dos pagãos nas nossas escolas. Que Deus suscite espíritos heróicos que recolham todas as florzinhas de elegância que se encontram nesses vastos desertos e se comprazam em transportá­las para os jardins da filosofia cristã. nos quais há a notar um menor número de erros e de superstições. que aconselhava se alimentasse a juventude cristã com as próprias Sagradas Escrituras. mas não exponhamos a juventude a esses perigos. de direito.org/eLibris/didaticamagna. que os escritores pagãos têm também elegâncias. Mas devemos enviar para junto deles os nossos filhos. em lugar seguro (Josué. se esses pagãos trucidassem ou ferissem ou levassem como escravos os nossos filhos? Infelizmente. mestres de virtude e de honestidade. Aceitemos. frases. insiste­se.COMENIUS Elíseos. Com efeito. Era este o conselho do grande Erasmo. pertencem à Igreja todas as propriedades dos gentios. estão feridos pela excomunhão. 22). uma atitude cheia de segurança enviar gente armada a roubar àqueles que. seja Sêneca. quanto a mm. que faríamos nós. pelo discernimento e pela piedade cristã. Seria.html 256/357 . ao passo que. tudo é fabuloso. é lícito. III. homens já firmes e robustos pela instrução. tudo é real e absolutamente verdadeiro. no entanto. avançaram armados e só com homens. 21. tendo intenção de ocupar um país de gentios para os Israelitas. portanto. ir para a frente e tomar posse dessas coisas. pois. é até conveniente. de preferência a passear pelos jardins do paraíso. para que não possa desejar­se algo de mais na nossa casa! IV. Resposta. 22. Resposta: Manassés e Efraim. Epiteto. para colherem essas florzitas? Acaso não é lícito despojar os egípcios e privá­los dos seus ornamentos? Sim. Façamos nós também assim: nós. Platão e outros semelhantes. tomemos essas partes dos escritores pagãos. gostaria que se demorasse naquela parte que está www. segundo as ordens de Deus (Êxodo. dignas de serem transferidas para nós.ebooksbrasil. 1. adágios e máximas morais. por disposição divina.

Resposta. além do qual estamos proibidos de procurar outro (Mateus. II. costumava perguntar­lhe se já tinha começado a estudar com outro professor. enquanto se lhe desenvolve a capacidade de discernimento. e. com temerária segurança. 18). Mas. 5. outros livros. 17. 15). todas as vezes que recebia um novo aluno. Efetivamente. Nós. 23. porém.COMENIUS mais próxima da literatura revelada» (Erasmo. 2. e pedimos e suplicamos que se não exponham às serpentes os filhos de Deus. Se respondia que não. Primeira Resposta: Esta é uma afirmação de quem está em erro. não é bom colocá­los diante da juventude. I. se primeiro não foram expurgados de modo a tirar­lhes os nomes dos deuses e qualquer outra coisa que saiba a superstição.ebooksbrasil. aqueles que incautamente patrocinam a causa de Satanás contra Cristo. ignora as Escrituras e não conhece a força de Deus. 3. e se os espíritos dos jovens não estão já bem firmes no cristianismo. eram necessários trabalhos dobrados: um para lhe fazer desaprender as coisas que havia aprendido mal. Entendamo­nos. objeção: da dificuldade da Sagrada Escritura para os primeiros anos. dobrava o preço. se respondia que sim. entretanto. para o ensinar. se lhes não dê ocasiões de beber venenos.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . portanto. o qual disse: «Deixai vir a mim as www.html 257/357 . mesmo estes escritores. e outro para lhe ensinar a arte verdadeira[20]. apresentando a razão de que. bem: não proibimos. Deus permitiu casar com virgens pagãs. Primeiro: é conhecida a história de Timóteo. Mas. 4a.org/eLibris/didaticamagna. por isso. 2. 23. recebia­o por um preço aceitável. no Compêndio de Teologia)[19]. se beberem alguma coisa mortífera. o qual. «Disse o espírito de Cristo que os filhos de Deus deviam ser alimentados com o leite sincero da palavra de Deus» (Pedro. dizem ainda: Os livros da Sagrada Escritura são demasiado difíceis para a juventude. de todo. 21. para que conheçam bem o privilégio celeste com que Cristo cumulou os crentes (note­se bem: os crentes): «manusearão serpentes e. Timóteo. não lhes fará mal» (Marcos. célebre músico de tempos passados. I. 16. com a condição de se lhes rapar os cabelos e cortar as unhas (Deuteronômio. e que. aos cristãos os escritores dos pagãos. embora tenhamos declarado a todo o gênero humano que o nosso mestre e doutor é Jesus Cristo. 12). deve meter­se­lhe nas mãos. mas queremos que se use de precaução. que não tenham ainda uma fé bem firme. O que demonstro de três maneiras. 8).

Resposta. Porque é que então se há­de contradizer a Deus. fresquíssimo. o Espírito Santo. cresçam e se desenvolvam» (Pedro. e a Ele consagrados pelo batismo. alimentadas com ele. 25. E David não afirma que «a lei do Senhor ministra a sabedoria às crianças» (Salmo 18. como disse. 8)? Note­se bem: às crianças. pelas tascas e por todas as estrumeiras e. ouvi­me e eu vos ensinarei o temor de Deus» (Salmo 33.org/eLibris/didaticamagna. II. convida as criancinhas para a sua escola. E não diz S. Resposta. pela misericórdia de Deus. filhos. Suplico. Pedro que «a palavra de Deus é o leite das crianças regeneradas. contra a vontade dele. e. não é a abominação de Deus? Estas coisas são horrendas.COMENIUS criancinhas e não as embaraceis» (Marcos. nas Sagradas www. III. e 13). 11. 12). Finalmente. nascidos para Cristo. É falso aquilo que apregoam: A Escritura é demasiado sublime e está acima da capacidade da idade infantil. 12.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . para que as reforme à sua maneira. aquilo que é consagrado a Moloc. salubérrimo. a conduzi­las a outro? A não ser que tenhamos receio que Cristo seja um ocioso que. de todo inocentes? Ou devem necessariamente lutar durante toda a vida. primeiro pelas oficinas dos outros e.ebooksbrasil. dulcíssimo. conduzimo­las daqui para além. confessamos que há. também para desaprender as coisas de que foram embebidos nos primeiros anos. com demasiada condescendência. 2.html 258/357 . levamo­las a Cristo. aos magistrados cristãos e aos chefes das Igrejas que não permitam que sejam oferecidos a Moloc os jovens cristãos. 24. haveremos de continuar. pela boca de David. 14). o qual lhes é dado para que. tanto mais que a doutrina pagã é uma comida dura de roer com os dentes. pelas tabernas. e até capaz de quebrar os próprios dentes? Por isso. para que os forme ele? Com efeito. Ou será que Deus não entendeu até que ponto a sua palavra é adaptada ao nosso espírito? (Deuteronômio. de fato. lhes ensine a sua moral. dizendo: «Vinde. Mas em que se pensa menos que nestes jovens infelizes e. 2)? Eis o leite de Deus. ou são absolutamente repelidos para longe de Cristo e são abandonados a Satanás. de modo que o alimento das criancinhas geradas para Deus seja a palavra de Deus. mas infelizmente são verdadeiras. conseqüentemente. finalmente. 31. quanto a este ponto. 10. I. quando estão já estragadas e contaminadas.

preservar­se­ão mais facilmente das corrupções mundanas e adquirirão aquela sabedoria que conduz à salvação. isto é. lugares de grande profundidade. Porque é que então se não remete para um tempo oportuno o estudo destes clássicos importantes. com estas palavras angélicas: «Não www. de preferência a doutrinas profanas. Finalmente. sentando­se aos pés de Cristo. instruídos desde a infância nas Sagradas Escrituras. mas a conduzam. linha por linha. 15). para lhe acender a luz da verdadeira inteligência e para lhe mostrar claramente iluminados os caminhos da salvação. se lhes deve dar professores tais que lhes incutam doutrinas celestes. 26. por conseqüência. por meio da fé que está em Cristo Jesus (Timóteo. de nada aproveitam. mas tais que neles os elefantes se afogam e os cordeiros nadam. como o provam os fatos. pouco a pouco. Conclusão. é impossível que não entre o espírito de graça. Cícero. em quem se dá a Deus e. ao querer notar a diferença entre os sábios do mundo. portanto. Efetivamente. depois. de preferência a doutrinas terrenas.) que se pretende oferecer à juventude cristã. que presunçosamente lêem as Escrituras.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Aos outros. a coisas mais elevadas. Concluamos. II. e que. 27.org/eLibris/didaticamagna. etc. e os filhos de Cristo. É certo. são tais como eles afirmam que é a Sagrada Escritura: difíceis e menos inteligíveis que ela para a juventude. com efeito. aprendendo a história sagrada. 3.ebooksbrasil. se deve formar cidadãos para o céu. fazer breves travessias. que vem do alto. Deste modo. Virgílio. Para terminar: aqueles autores (Terêncio. Efetivamente. numa só lição sobre Cícero aproveita mais que um adolescente que o aprenda todo. que se movem já no palco ou no foro. que se seguem. em vez da Bíblia. e não para o mundo. pensamentos morais e coisas semelhantes.COMENIUS Escrituras. doutrinas santas. tornam­se aptos para nadar nos mistérios da fé. não foram escritos para adolescentes. que. como escreveu elegantemente Santo Agostinho[21].html 259/357 . mas para homens de juízo maduro. E que necessidade há de ser conduzido imediatamente ao mar alto? Pode ir­se pouco a pouco. Primeiro importa costear os litorais da doutrina do catecismo. nas escolas cristãs. que não ultrapassem a capacidade da mente. abre os ouvidos à sabedoria. que um homem feito e que procede virilmente. Redarguição. se de fato são importantes? Mas é digno da maior consideração aquilo que disse já. que delas se aproximam com ânimo humilde e dócil.

ou de Túlio. Toma precaução. onde ele seja glorificado» (Isaías. que os nossos filhos sejam arbustos da plantação de Aristóteles. será arrancada pela raiz» (Mateus. se alguém quiser conduzir­te contra a ciência de Deus.ebooksbrasil. ou de Platão. a sentença já foi proferida: «Toda a planta que meu Pai celestial não plantou. ou de Plauto. 10. não cedas.COMENIUS pode a construção de um edifício humano erguer­se naquele lugar.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . não convém.html 260/357 . etc. II. 3). 61. E uma vez que Deus quer que sejamos «árvores de justiça e plantação de Jeová. De outro modo. 13). e. 5). 15. portanto. www. (Coríntios. onde se começa a ver a cidade do Altíssimo» (Livro IV de Esdras.org/eLibris/didaticamagna. 54). 10.

da parte dos professores e da parte dos alunos.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . como e quando deve usar uma sensata severidade. não só o fim. o fato não pode desfazer­se). com tal candura e tal sinceridade. Será. de pancadas e de varas. e por isso a deve receber com o mesmo ânimo com que costuma tomar os remédios receitados pelo médico. que aquele mesmo a quem a aplicamos se aperceba de que a pena disciplinar se lhe aplica para seu bem e que é ditada pelo afeto paterno que lhe dedicam aqueles que o dirigem. se as árvores não são podadas. assim também. tudo afrouxa. Não por causa dos estudos. se na escola falta a disciplina. Deve.org/eLibris/didaticamagna. Matéria por causa da qual se deve aplicar a disciplina aos alunos. Do mesmo modo. 2. Daqui não se segue que a escola deva estar cheia de gritos. 1. mas não porque exorbitou (efetivamente. logo nele nascem cizânia e outras ervas daninhas. mas cheia de vigilância e de atenção.ebooksbrasil. sem ira e sem ódio. assim como se se tira a água a um moinho. ele pára necessariamente. 1. 2. tornam­se selvagens e lançam rebentos inúteis. É verdadeiro o seguinte provérbio usado na língua popular boema: uma escola sem disciplina é um moinho sem água. mas para que não exorbite mais. que é a disciplina senão um processo adequado de tornar os discípulos verdadeiramente discípulos? Quanto à disciplina devem observar­se três coisas. 3. bom que o formador da juventude conheça.html 261/357 . para que não ignore porquê. Efetivamente. Fim da disciplina. se um campo não é sachado. mas também a matéria e a forma da disciplina. por isso. aplicar­se a disciplina sem paixão. creio que é doutrina aceite por todos que a disciplina se deve exercer contra quem exorbita. www. Com efeito. Antes de tudo. portanto.COMENIUS Capítulo XXVI DA DISCIPLINA ESCOLAR Nas escolas é necessária a disciplina.

com mais ternura as que são ainda tenrinhas. e não faz sentir a tesoura. se os estudos são adequadamente regulados (como ensinámos já). em vão que se emprega a força.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Desta prudência dá­nos mostras o próprio sol que. Se acontece diversamente. nem o atira contra uma parede. e. porém. Mas. um amor harmonioso dos estudos. Com efeito. fá­las crescer e ganhar vigor. Por isso. Como se devem estimular para os estudos. por si mesmos. têm muita força para gerar. Se. outras vezes. com uma palavra mais áspera e com uma repreensão dada em público. É desta maneira que deve chegar­se a criar. são. ao contrário. para ver a quem cabe o primeiro lugar ou a www.ebooksbrasil. nem.html 262/357 . ou ao menos mensais.org/eLibris/didaticamagna. elogiando os outros: «olha como estão atentos este teu colega e aquele. a culpa não é dos alunos. 5. nem as feridas às plantas que ainda as não podem suportar. tratando com mais delicadeza as plantas novinhas. outras vezes. na alma. mas dos professores. o tédio e a aversão contra elas. quando já são adultas e amadurecem os seus frutos e as suas sementes. é. no princípio da primavera. mas. Não deve empregar­se uma disciplina severa no que se refere aos estudos e às letras. é necessário espevitar e estimular. E o músico. ou o violino está desafinado. se se ignoram os métodos de atrair com arte os espíritos. mas apenas nos aspectos ligados aos costumes. mas procede com arte até que as tenha bem afinadas. por vezes. O jardineiro usa dos mesmos cuidados. lança­se sobre elas com toda a sua força. esta deve ser afastada com dieta e. insensivelmente. e a sua apatia em estupidez. mas aquecendo­as pouco a pouco. o efeito pode ser obtido por outros meios e melhores que as pancadas: às vezes. o amor das letras. finalmente. quando se adverte que à alma se apega a doença do tédio. nem a foice. ou a harpa.COMENIUS 4. logo desde o princípio. depois. atraiem e encantam a todos (se se excetuar os monstros de homens). não bate nas cordas com o punho ou com um pau. se a guitarra. suscitando o riso: «Então tu não entendes uma coisa tão fácil? Andas com o espírito a passear?» Podem ainda estabelecer­se «desafios» ou «sabatinas» semanais. se se quer evitar que a sua indiferença se transforme em hostilidade. nos alunos. pela sua doçura. e. não incide logo sobre as plantas novinhas e tenras. as estreita e queima com o seu calor. Os açoites e as pancadas não têm nenhuma força para inspirar. e como entendem bem todas as coisas! Porque é que tu és assim preguiçoso?». nos espíritos. atrativos para os espíritos. sem dúvida. nem a navalha. em vez de a tornar mais violenta com o emprego de remédios violentos. com remédios doces.

desde que se veja que isto não vai resultar num mero divertimento ou numa brincadeira. Ou seja: 1. como a blasfêmia. Porque razão se deve proceder assim. luz e calor. como quando algum aluno despreza as ordens do professor ou de qualquer outro superior. como ensinámos já noutro lugar.ebooksbrasil. e quando sabe o que deve fazer. solicitado por um colega para lhe ensinar qualquer coisa. A forma da disciplina é tomada do sol. mas. conscientemente. No entanto. aquele que alguém comete contra os homens e contra si mesmo é uma iniquidade a que se deve remediar com uma correção dura. 2. 3. 7. Em caso de qualquer ato de impiedade.html 263/357 . ou ainda de inveja e de preguiça. Por esta razão. é absolutamente necessário que o professor assista ao «desafio» e o dirija com seriedade e sem artifícios. se estimule e se fortaleça. 123 6. 8. os do segundo gênero arruinam a base de todas as virtudes (humildade e docilidade). Numa palavra. aquele que se comete contra Prisciano[1] é uma nódoa que se deve tirar com a esponja da repreensão. a reverência para com Deus. em tudo e sempre. o respeito para com o próximo e o desejo de cumprir os deveres e as obrigações da vida. Um ótimo método de regular a disciplina é­nos ensinado pelo Sol. o qual ministra às coisas que crescem: 1. sempre. Com efeito. deve aplicar­se uma disciplina mais severa e mais rígida àqueles que exorbitam no domínio dos costumes. e todas as faltas que se cometem abertamente contra a lei de Deus. censure e repreenda os mais negligentes e elogie publicamente os mais aplicados. o não faz. os do terceiro gênero inibem e retardam os progressos rápidos nos estudos. a obscenidade. a disciplina deve tender no sentido de que.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Em caso de contumácia e de malícia obstinada.COMENIUS honra de um elogio. mas para que o desejo do elogio e o medo do vitupério e da humilhação estimulem verdadeiramente à aplicação. e por isso inútil. através de um exercício e de uma prática constante. como quando um aluno. Em caso de soberba e de vaidade. aqueles delitos do primeiro gênero ofendem a majestade de Deus. se recusa a ajudá­lo. www.org/eLibris/didaticamagna. Disciplina por causa dos costumes. 3. O delito contra Deus é um desregramento que deve ser expiado com um duríssimo castigo.

quer repreenda.COMENIUS 2. Como deve proceder­se para utilizar este modelo. se não aproveitar àquele a quem é aplicada. acerca de alguns. 10. aos outros. do qual nada há a esperar. e antes de ele ser dado por incorregível. para que nada do que foi planeado seja abandonado. freqüentemente. II. naqueles que preparamos para Deus e para a Igreja. com a condição de que. para que os remédios extremos se não esgotem antes dos casos extremos. o diretor da escola esforçar­se­á por levar a juventude a cumprir o seu dever: 1. facilmente. raras vezes. não só despreza a disciplina. Se falta isto. À imitação do sol. Resumo. com intenção de edificar a todos e não de arruinar seja quem for. Todavia. quer mande. O resumo do que se disse e do que vai dizer­se seja o seguinte: a disciplina tenda para que. Com exemplos constantes. esta disciplina.ebooksbrasil. a remédios extremos. todavia. 3. Com palavras de formação. embora estas coisas tenham também a sua utilidade. 9. de modo a tornar tal www. se houver algum aluno com um espírito tão infeliz para quem estes remédios suaves não sejam suficientes.html 264/357 . quer ensine. importa recorrer a remédios mais violentos.org/eLibris/didaticamagna. como até se obstina contra ela. Ao menos. tudo o resto é vão. quer admoeste. por qualquer motivo. chuva e vento. 3. de exortação e de censura. Se o discípulo não vê bem claramente este amor e não está dele convencido. como freqüentemente acontece. 2. desde que se tenha o cuidado de não recorrer. pelo medo que lhes incute. Talvez. mostrando que é um modelo vivo de todas aquelas coisas para as quais os alunos devem preparar­se. mostre sempre bem claramente que faz tudo com amor paternal. III. ainda hoje seja verdadeiro o seguinte provérbio: o frígio não se corrige senão à força de pancadas[2]. como um terreno impróprio para qualquer cultura. raios e trovões.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . aproveitará. I. formemos e confirmemos constantemente a têmpera das inclinações.

editado em grego. 2) isto é. ou desprende­o com a lima. prende­lhe pedaços de cortiça que a mantenham à superfície da água. Também o pescador que pensou apanhar peixes em águas mais profundas. amor constantemente sincero e manifesto. 11). Doutor em Teologia. Esta têmpera das inclinações não pode obter­se com meios diversos daqueles que apontámos já: bons exemplos. mas até desejem vivamente ser conduzidos. mas. quem viu alguma vez (seja­me ainda lícito esclarecer este ponto com um exemplo) um ourives formar uma pequena imagem só à força de golpes? Ninguém. ou corta­o com a pinça. 2. gozem no Senhor (Ibid. acaba por polir e alisar a sua obra. deverá conduzi­la ao amor e ao zelo alegre. se é isso possível. Felizes os artífices desta têmpera! Feliz a juventude que tem tais mestres! 13. Tem aqui cabimento a opinião do eminente Eilhard Lubin. somente em casos muito extraordinários.ebooksbrasil. fulminando e trovejando abertamente. E julgamos nós poder formar uma pequena imagem do Deus vivo. o artista habilidoso não o bate impetuosamente com o martelo. e. fazendo tudo com cautela. Efetivamente. sempre com a intenção de que a severidade termine sempre no amor. escreveu estas palavras: «A outra coisa é que tudo o www. confiados à escola de Cristo. e não só se deixem conduzir de boa vontade onde devem ser conduzidos. 12. De modo semelhante.html 265/357 . e trabalhando na sua salvação com temor e tremor (Filipenses. quem resolveu fazer uma pesca de virtudes com a juventude.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . não prende à rede apenas pedaços de chumbo que a mergulhem na água e a obriguem a arrastar­se pelo fundo. fundindo­as que martelando­as. por outro lado. 11. mas. no prefácio ao Novo Testamento. com uma rede maior. do lado oposto. com impetos irracionais? Outro exemplo. não só amar. por um lado. humilde e obediente. para que «exultem com tremor» (Salmo 2. o qual. As imagens pequenas fazem­se melhor. deverá dominá­la pela severidade para a tornar temente. latim e alemão. mas extrai­ o suavemente com o martelinho. e. mesmo então. 2. E se lhe fica preso algum pedacito de metal supérfluo e inútil. palavras carinhosas. para que possam e saibam. uma criatura racional. dissertando acerca da reforma das escolas. pela afabilidade.org/eLibris/didaticamagna. 12). como também reverenciar os seus formadores. Por uma aplicação semelhante.COMENIUS têmpera semelhante àquela que Deus exige aos seus filhos.

e sejam empregadas com escravos ou com maus servos de espírito servil. se degolarão a si mesmos e aos outros.»[3]. sou de opinião de que as varas e as vergastas.org/eLibris/didaticamagna. espontaneamente e de boa vontade. todavia. se não empreguem nas escolas. não só por causa da sua índole.ebooksbrasil. outros gêneros de penas que podem ser aplicadas aos jovens que nasceram livres e de alma liberal. então estas e aqueles transformam­se em armas de vileza e serão espadas nas mãos de loucos furiosos que. Há. www. lhe seja exigido de modo que nada façam contra a vontade e à força. Estes devem ser notados a tempo e devem ser afastados das escolas. mas. instrumentos servís e de modo algum convenientes para pessoas livres. com elas.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . etc. própria de espíritos servís.COMENIUS que se propõe à juventude. Por isso. igualmente a tempo. mas sejam afastadas para longe. e com verdadeiro prazer do espírito.html 266/357 . que seja adaptado à sua capacidade. e se a estas péssimas qualidades se acrescentam os meios do saber e das artes. tanto quanto é possível. mas também por causa da sua perversidade. que quase sempre anda emparelhada com aquela.

www. em alguns meses. em geral. robustece­se. a experiência mostra que o corpo do homem.org/eLibris/didaticamagna. e cada um. Os artesãos começam por fixar aos seus aprendizes um certo tempo (dois anos. os quais se devem dividir tomando por guia a natureza. dentro desse espaço de tempo. o curso das lições deve estar terminado..ebooksbrasil. 1. todo o tempo da juventude (efetivamente. adquirindo vigor. três anos. os alunos terminem todo o curso geral dos estudos e saiam dessas oficinas de humanidade homens verdadeiramente instruídos. e estabelecer para as artes. verdadeiramente morigerados e verdadeiramente piedosos. ou então em um ano ou dois. o corpo de certos animais. cresce em estatura. até sete anos. depois. e não até mais tarde. para as ciências e para as línguas. de modo que. no nosso caso.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . e. mas o complexo de todas as artes liberais. conforme a sua arte é mais sutil ou mais complexa). EM CONFORMIDADE COM A IDADE E COM O APROVEITAMENTO A prudência dos filhos do século deve ser imitada pelos filhos da luz. 2. Efetivamente. não se trata de aprender uma só arte. fazer o mesmo nas nossas escolas. depois de instruído em tudo o que diz respeito àquela arte. de aprendiz torna­se oficial da sua arte. E este crescer lento (com efeito. até à idade de vinte e cinco anos. ou seja 24 anos.COMENIUS Capítulo XXVII AS INSTITUIÇÕES ESCOLARES DEVEM SER DE QUATRO GRAUS. precisamente para que o homem tenha todo o tempo necessário para se preparar para realizar as funções da vida.html 267/357 . atinge o seu máximo desenvolvimento) é de crer que a divina providência o tenha reservado à natureza humana. Para obter este escopo. Convém. juntamente com todas as ciências e algumas línguas). repartidos em períodos determinados. para exercitar os espíritos. desde a infância até à idade viril. muito maior. um determinado espaço de tempo. tomamos. etc. portanto. requer­se todo o tempo da juventude: 24 anos. Para uma educação perfeita do homem todo. e depois mestre. dentro desse período.

E é necessário que a escola materna exista em todas as casas. Dividiremos.org/eLibris/didaticamagna. em todas as comunas. 4. ou escola pública de língua vernácula. as disciplinas não devem ser ensinadas separadamente. Haverá. porque nas primeiras escolas todas as coisas serão ensinadas de modo geral e rudimentar. A escola primária (ludus literarius) . se expande em novas raízes e em novos ramos. não queremos.COMENIUS Deve ser repartido em quatro escolas. os sábios verdadeiramente sábios. A escola de latim ou o ginásio seja a escola da adolescência. mas sempre todas em conjunto. mas quanto à forma. Diferença das escolas em razão da forma dos exercícios. uma tríplice diferença. o ginásio. mas as mesmas coisas de maneira diversa. Da mesma maneira que uma árvore que. Primeiro. os cristãos verdadeiramente cristãos. A Academia e as viagens sejam a escola da juventude. portanto. que nelas se aprendam coisas diversas. atribuindo a cada uma destas partes seis anos e uma escola peculiar. em quatro partes distintas os anos da idade ascendente: infância. e conduzindo sempre mais acima. a escola de língua vernácula. adolescência e juventude. tudo será ensinado de maneira mais particularizada e distinta. da mesma maneira que uma árvore cresce sempre toda. seja a escola da puerícia. e assim cada vez mais se revigora e cada vez mais frutos produz. todas aquelas coisas que podem tornar os homens verdadeiramente homens. mas segundo a idade e o grau da preparação antecedente. III. O regaço materno seja a escola da infância. Embora estas escolas sejam diversas.html 268/357 . e isto durante este ano. em cada uma das suas partes.ebooksbrasil. 5. de modo que: I. todavia. nas escolas seguintes. em cada ano.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . todavia. Os trabalhos de cada uma destas escolas não devem diferir quanto à matéria. www. puerícia. a Academia em todos os reinos e até nas províncias mais importantes. enquanto estiver verdejante. II. 3. em todas as cidades. ou seja. IV. para o ano que vem e até daqui a cem anos. vilas e aldeias. Segundo as leis do método natural.

etc. a imaginação e a memória. Segundo. como exteriormente por meio das mãos e da língua. juntamente com os seus órgãos executores. com o estudo da dialética. Depois destes trabalhos preparatórios. cantando.ebooksbrasil.org/eLibris/didaticamagna. a retórica e a ética. formar­se­á a inteligência e o juízo de todas as coisas recolhidas através dos sentidos. habitue­se a vontade (que é o centro do homem e a diretora de todas as suas ações) a exercer legitimamente o seu império sobre todas as coisas. porque. da medicina para as funções vitais do corpo e da jurisprudência para os bens exteriores.COMENIUS 1. as mãos e a língua. imprimindo várias coisas na memória. confronte todas as coisas entre si e pondere­as. e. da gramática. Motivo desta gradação.html 269/357 . No ginásio. Com efeito. aos quais impressionam imediatamente. e noutras. excitados por essas imagens. a poética. por meio de minuciosas observações. devem aprender a exprimi­las e a reproduzi­las. quando esta é perturbada. medindo. Porque numa escola é necessário insistir mais numas coisas. o que formará a verdadeira inteligência das coisas e o verdadeiro juízo acerca das mesmas. agem como quem quisesse fazer www. e noutra de outra. ensinadas teórica e praticamente. lendo. na materna. se devem exercitar sobretudo os sentidos externos. 2. servindo­se da Teologia para a alma. as Academias formarão sobretudo aquelas coisas que dizem respeito à vontade. primeiro. o verdadeiro método de formar adequadamente os espíritos consiste precisamente em que. infelizmente. as coisas sejam apresentadas aos sentidos externos. Na escola primária. para lhes apreender as razões. da retórica e das outras ciências positivas e artes. na primeira escola. pesando. ou seja. 6. tanto interiormente por meio da reminiscência.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Mas. estes. 7. pintando. procedem assim aqueles que ensinam às crianças a lógica. Porque numa escola importa ensinar de uma maneira. Finalmente. devem exercitar­se os sentidos internos. contando. para que se habituem a aplicar­se bem aos próprios objetos e a conhecê­los distintamente. da filosofia para a mente. a refazê­la). Finalmente. E quando a sensação externa imprimiu nos sentidos internos as imagens das coisas. antes das coisas reais e sensíveis. entre a inteligência em ação. escrevendo. Querer formar a vontade antes da inteligência (como querer formar a inteligência antes da imaginação e a imaginação antes dos sentidos) é trabalho perdido. as faculdades que ensinam a conservar a harmonia (e.

os adolescentes que aspiram a coisas mais altas que os trabalhos manuais. nem às igrejas. Estas quatro espécies de escolas podem.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . bem exercitadas pelos cuidados dos pais e das amas. para que.COMENIUS dançar uma criancinha de dois anos.org/eLibris/didaticamagna. não sem razão. ver­se­á em breve. que recolhe os ricos frutos dos campos. assemelham­se às plantas que estão todas revestidas de flores e. e. exercitam a juventude de ambos os sexos. a escola primária representa o verão. faltem dirigentes competentes. comparar­se às quatro partes do ano: a escola materna faz lembrar a amena primavera. as criancinhas de seis anos. para os vários usos. nem às escolas. tomar a natureza por guia. a escola de latim deve educar sobretudo. para o desenvolvimento de uma. assim também nós somos de opinião de que. que possuem já conhecimento pleno das línguas e das artes. Também as árvores crescem gradualmente em quatro tempos. e as Academias devem formar os doutores e os futuros condutores dos outros. dos jardins e das vinhas. Os adolescentezinhos de doze anos assemelham­se às arvorezinhas que já têm ramos e lançam rebentos frutíferos. em tudo e sempre. 9. mas não se vê ainda bem que é que contêm esses rebentos. e outros naquelas. As quatro escolas correspondem às quatro pares do ano.ebooksbrasil. os frutos recolhidos. que nos mostra as espigas cheias e ainda certos frutos precoces. Mantemo­nos firmes na nossa opinião de. umas após as outras. Com efeito. Esta maneira de instruir e educar acuradamente a juventude pode comparar­se também ao cultivo dos jardins. a materna e a primária. e assim como esta manifesta as suas faculdades. 10. nem às administrações públicas. parecem semelhantes às arvorezinhas que foram carinhosamente plantadas. A terceira diferença reside em que as escolas inferiores. e os guarda nos armazéns da mente. 3. embelezada de rebentos e de florinhas de vária fragrância.html 270/357 . com isso. enraizaram bem e começam a lançar pequeninos ramos. finalmente. devemos esperar pelo desenvolvimento da outra. Porque uns se exercitam nestas. 8. de modo perfeito. oferecem um belo espetáculo aos olhos e um agradável odor ao nariz e prometem frutos saborosos para a boca. Os adolescentes de dezoito anos. www. que ainda mal se sustem em pé. a academia deve assemelhar­se ao inverno que prepara. para que possa ter­se com que viver durante todo o resto da vida. o ginásio corresponde ao outono.

COMENIUS Finalmente.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . www. os quais é tempo de colher e de utilizar de várias maneiras.html 271/357 . já plenamente cultivados com os estudos acadêmicos. Mas cada uma destas coisas deve ser exposta de uma maneira mais pormenorizada.org/eLibris/didaticamagna.ebooksbrasil. os jovens de vinte e quatro ou vinte e cinco anos. lembram as árvores cheias de frutos.

Catálogo das matérias a serem ensinadas nestas escolas. todas as coisas. são apreendidas pelas crianças com conceitos gerais e confusos: enquanto vêem alguma coisa. www. a pedra.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Começam. o ar. não existe. e só mais tarde. apenas é necessário que eles cresçam e se desenvolvam. nada. o ferro. a planta. 3. a neve.. 1. a ave.COMENIUS Capítulo XXVIII PLANO DA ESCOLA MATERNA Devem procurar­se primeiro as coisas principais.ebooksbrasil. apalpam. as quais coisas são precisamente os fundamentos da ciência metafísica. a entender os seguintes termos gerais: alguma coisa. existe. ao menos dos externos. nestes primeiros seis anos. Todos os ramos principais que uma árvore virá a ter. a chuva. saboreiam. pode conduzir­ se a criança de modo a não ignorar o que seja a água. pois todas as coisas. deverão ser­lhe plantadas logo nesta primeira escola. de tal maneira que. em que queremos instruir um homem para utilidade de toda a vida. Mostrá­ lo­emos com poucas palavras.html 272/357 . o fogo. quando. o boi. onde. a princípio. Nas ciências físicas. Estas coisas aprendem­se facilmente nesta idade e lançam os fundamentos da ciência natural. semelhante. logo nos primeiros anos. o gelo. etc. pouco a pouco.. tornar­ se­á claro a quem percorrer todos os gêneros de estudos. ela fá­los despontar do seu tronco. a erva. dissemelhante. II. mas não julgando que coisa seja em espécie. resumindo todas essas coisas em vinte pontos[1]. depois. desta maneira. a terra. etc. distinguindo o que seja. o peixe. A chamada Metafísica tem precisamente aqui o seu início. 2. de outra maneira. advertem que alguma coisa existe. Do mesmo modo. E deve também aprender a nomenclatura e o uso dos membros do seu próprio corpo. I. ouvem.org/eLibris/didaticamagna. etc. portanto. Que isto é possível.

A criança entende os rudimentos da ótica. Será o início da astronomia. 5. VIII. preto. etc. se a criança entende que significa pouco e muito. Igualmente. embora estas coisas sejam tratadas puerilmente. como é que tal ou tal indivíduo se comportou nesta ou naquela situação. 6. VI. ano. estrelas. 9. 10. Constitui o início da história poder recordar­se e passar em resenha os fatos acontecidos há pouco. semana. depois de amanhã. e vêem medir certas coisas www. amanhã. cruz. lua. dia.COMENIUS III. no dia anterior. se entenderem a que é que chamamos grande e pequeno. 7. um campo. vermelho.org/eLibris/didaticamagna. uma aldeia. um rio. comprido e breve. Lançam­se os fundamentos da cronologia. se entendem a que é que chamamos linha. etc. e o que significa verão. um vale. e ontem. inverno etc. etc. uma cidade.. se nota que três são mais que dois e que três mais um são quatro. um castelo. quando começa a distinguir e a designar a luz e as trevas e a sombra. Possuirão os rudimentos da geometria. se a criança entende o que significa hora. 4. Aprende os primórdios da geografia. grosso e fino. e notar que estas coisas nascem e se põem todos os dias.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . conhecer aquilo a que se chama céu. etc. segundo as ocasiões que lhe oferece o lugar onde é educada. V. círculo.html 273/357 . 8. IV. VII. largo e estreito. sol. e as diferenças entre as várias cores: branco. IX. se sabe contar ainda que seja até dez. Lançam­se as raízes da aritmética. quando começa a entender o que é um monte.ebooksbrasil.

se imitam os tropos e as figuras contidas nas conversas familiares. as sílabas e as palavras[2]. corrigir­se facilmente. 12. as crianças habituam­se também a perguntar qualquer coisa e a responder às perguntas que lhes são feitas. para saberem se é pesada ou leve.. com prudente método formativo. unir e desunir. de modo que aprendam a pronunciar com voz mais alta as últimas sílabas das perguntas e. mas até devem ser fomentadas e prudentemente dirigidas. nesta idade. com o braço. 14. e. importa ensinar­lhes que o gesto deve corresponder às palavras e que o tom da voz deve corresponder à qualidade da conversa. Em primeiro lugar. 11. XIV. etc. XIII. se qualquer coisa passa das medidas. XII. 15. se se lhes permite. Iniciam também o estudo da estática. etc. www. com voz mais baixa. X. dá prazer. como não são senão tentativas para produzir coisas segundo o modelo da natureza. não só não devem ser proibidas.org/eLibris/didaticamagna. em proferir articuladamente as letras. como às crianças. com os dedos. Começam o tirocínio das artes mecânicas. as últimas sílabas das respostas. A arte dialética da razão desponta já aqui e lança os seus gérmens: observando que as conversas se fazem por meio de perguntas e de respostas. A gramática infantil consistirá em pronunciar corretamente a língua materna. Estas coisas. e aprendem a pesar qualquer coisa com a mão. e até se lhes ensina a fazer qualquer coisa: por exemplo. isto é. e a não divagar. que a própria natureza como que ensina. e coisas semelhantes.COMENIUS com o palmo. Importa apenas ensinar­lhes a interrogar aptamente e a responder diretamente às perguntas. construir e destruir. Iniciam o estudo da retórica. ordenar as coisas desta ou daquela maneira. pode.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . transportar uma coisa daqui para além.html 274/357 . XI. 13. para que se habituem a fixar o pensamento no tema proposto.ebooksbrasil. se vêem pesar as coisas com a balança.

etc. quer métricos. faca.org/eLibris/didaticamagna. 18. se lhe fazem observar que certas pessoas da cidade se reunem na Câmara. pois os conhecimentos desta idade com dificuldade se projetam fora de casa. se queremos que as virtudes sejam como que congênitas à juventude bem formada. além dos necessários para saciar a fome e a sede. inquilino. as quais são chamadas Senadores. Por exemplo[3]: (1) a temperança: observe­se a capacidade do estômago. nesta primeira idade. de entre estes. A criança adquirirá o gosto pela poesia. XVI. receber fundamentos solidíssimos.COMENIUS XV. 16. de que estão bem providas todas as línguas. e.. etc. www. lhe ensinarem muitos pequenos poemas.html 275/357 . 19. ou seja. 20. mãe. se.. na escola materna. e dos utensílios domésticos: mesa. XVII. 17. Quanto à política. XVIII. (3) a veneração devida para com os superiores. criado. sobretudo de sentido moral. ser iniciada. um tem o nome de Presidente. etc. quarto. estábulo. a criança inicia­se nela mais dificilmente.ebooksbrasil. nos vestidos e também nos brinquedos e nos objetos de adorno das crianças deve ser esmerada. (2) a limpeza na mesa. o que terá lugar nos exercícios quotidianos de piedade. cozinha. aprendendo alguns dos mais fáceis salmos e hinos sagrados. A moral (ética) é a disciplina que. copo. XIX. quer rítmicos. Adquirirá os primórdios da música.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .. antes de todas. prato. e igualmente aprendendo os nomes das partes da casa: átrio. juntamente com o seu uso. outro o de Notário. criada. Os rudimentos de economia doméstica consistirão em aprender de cor o nome das pessoas de que consta a familia. quem se chama pai. e nunca se permita às crianças que tomem alimentos. todavia. etc. deverá. Pode. outro o de Secretário.

antes que as paixões irrompam mais violentamente e lancem raízes. não tocando. quer a brincar quer a sério (pois a brincadeira. em coisas não boas.org/eLibris/didaticamagna. é esta a virtude mais cristã e recomendada acima de todas pelo espírito de Cristo. de tal maneira que. e nada fazendo que cause tristeza ou inveja a outrem. se.COMENIUS (4) a obediência.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . e a refrearem e a não darem largas à ira. da vida inteira. (9) habituem­se as crianças. sejam domadas. mais ainda. Devem. não somente a não tagarelarem constantemente e a não dizerem tudo o que lhes vem à boca. principalmente com ela. (6) aprendam a justiça. mas também a guardar silêncio quando a ocasião o exige. de tal maneira que nunca se lhes permita que mintam ou enganem. (7) eduquem­se sobretudo para a caridade. para www. (12) Deve acrescentar­se também a urbanidade das atitudes. pode acabar por degenerar num dano sério). nem ocultando nada sem licença do dono. como é o caso quando outros falam. às ordens e às proibições. devem ser formadas sobretudo na paciência. impelido pela necessidade. na frigidíssima velhice do mundo presente. (10) Nesta primeira idade. a elas se dirige. da qual terão necessidade durante toda a vida. quando se produz algum acontecimento que exige o silêncio. conseguiremos a salvação da Igreja. quando está presente alguma pessoa de elevada categoria. ser nela exercitadas. (11) a cortesia e solicitude em servir os outros é o mais belo ornamento da juventude e. trabalhos e ocupações contínuas. nem guardando para si. (5) a veracidade religiosa em todas as coisas. etc.html 276/357 . o façam imediatamente. Com efeito. quer de caráter sério quer de caráter lúdico.ebooksbrasil. (8) as crianças devem ser também exercitadas em. por isso. para que estejam sempre prontas a distribuir pelas outras daquilo que têm. durante estes primeiros seis anos. sempre pronta e solícita. mais ainda. a fazê­lo espontaneamente. todas as vezes que alguém. para que a ociosidade se lhes torne insuportável. e as crianças se habituem a deixarem­se guiar pela razão e não pela paixão. nem levando para casa. para que sempre que se lhes ofereça a ocasião de servir e de ser agradável aos outros. se aquecer o coração dos homens.

A esta virtude pertencem a afabilidade das atitudes. como no programa das escolas que vêm a seguir. e. ao contrário. Estas serão as metas. pedir «por favor” quando necessitam de qualquer coisa. Finalmente. ocupados com os negócios domésticos. venerando­ o. porque os pais.org/eLibris/didaticamagna. Em segundo lugar. de modo a aprenderem de cor os principais pontos do catecismo e os fundamentos do cristianismo e. invocando­o.COMENIUS que nada façam ineptamente ou tolamente. não se pode mostrar por meio de quadros que programa se deva desenvolver em cada ano. poderá dizer­se dos filhos dos cristãos aquilo que o evangelista disse do próprio Cristo: que ele «crescia em sabedoria. Assim. os comecem a entender e a pôr em prática. em cada dia (como mostraremos ser necessário na escola primária e na de latim)[6]. E assim.ebooksbrasil. 2. porque o engenho e o desejo de aprender se manifestam de modo muito www. XX. as crianças de seis anos podem ser introduzidas no estudo da religião e da piedade[4]. em idade e em graça. onde se não faz outra coisa senão educar a juventude. e não se pode pormenorizar. 22. 52). em cada mês. se não pode prescrever nada de mais pormenorizado. Em primeiro lugar. beijando as mãos. ou seja. mas façam tudo com a devida modéstia. 21. responder aos cumprimentos. e dele esperando misericórdia na vida e na morte. 23. amando­o. fazendo uma modesta inclinação de cabeça. louvando­o. Utilidade da infância formada desta maneira. vendo Deus presente em toda a parte e considerando­o como vingador justíssimo do mal. não podem observar tão estritamente a ordem como nas escolas públicas.html 277/357 .7/8/13 DIDACTICA MAGNA . se habituem a não deixar de fazer nada de quanto bem se aperceberam que lhe agrada e a viver sob o olhar de Deus e (como diz a Escritura) a andar com Deus[5]. dizer «muito obrigado» quando recebem qualquer benefício. estas serão as tarefas da escola materna. a este propósito. como remunerador benigníssimo do bem. por duas razões. se habituem a não cometer nada de mal. diante de Deus e dos homens» (Lucas. e coisas semelhantes. cumprimentar. compenetradas do sentimento da divindade. Mas não se pode explicar mais pormenorizadamente. Porque é que. tanto quanto a idade o permite.

podem pintar­se pessoas com os seus distintivos. todavia. Pode. Neste livro. a lua. cavalos. e principalmente a luz e as trevas. Primeira: compilar um livro de conselhos para os pais e para as amas. etc. de geometria. II. Utilidade deste livro. um soldado com as armas. talhas.html 278/357 . fazer­se utilmente duas coisas. Neste livro. a colocar nas mãos das próprias crianças. aves.ebooksbrasil. peixes. o céu com o sol. aos cinco anos. e a vista ocupa um lugar importante entre os sentidos. 24. boi. Um opúsculo deste gênero (sob o título O informador da escola materna)[7] será por nós escrito.[8]. frigideiras. todas as coisas em que é necessário formar a infância. homens de várias idades e de várias estaturas. martelos. Por isso. e. Com efeito. plantas. e quais as maneiras e as regras que devem observar­se na fala e no gesto para incutir nas crianças as primeiras noções elementares. ovelhas. De igual modo. cão. e dizer de que ocasiões deve aproveitar­se para agir.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . as cores fundamentais. vales. há pouco delineado. com efeito. tesouras. de astronomia. e também os utensílios domésticos e os dos artesãos: panelas. para que não ignorem os seus deveres. um lavrador com a charrua. O exercitador dos sentidos. devem expor­se. 25. como nesta escola se deve sobretudo exercitar os sentidos a receber as impressões das coisas mais fáceis. mesmo segundo a ordem do programa didático. um carteiro a distribuir cartas. as nuvens. um cocheiro com o coche. árvore etc. pode pintar­se montes. de ótica.COMENIUS diverso nas crianças. dificilmente. Salvo duas grandes ajudas: I. www. uma por uma. conseguiremos o nosso objetivo se colocarmos sob os olhos das criancinhas todas as primeiras noções de história natural. outras. Algumas crianças de dois anos falam já desenvoltarnente e são capazes de tudo. as estrelas. é necessário confiar inteiramente à prudência dos pais a formação das criancinhas desta primeira idade.org/eLibris/didaticamagna. etc. uma inscrição a indicar o seu significado: cavalo. como um rei com o cetro e a coroa. sendo umas mais precoces e outras mais lentas. O informador da escola materna. Outra coisa que poderá ser útil aos exercícios da escola materna será um Livrinho de Imagens.. bois. em cima de cada figura. estão ao nível daquelas.

A utilidade deste livro é tríplice: 1.ebooksbrasil. www. 3. ensinando a ler as letras desses nomes.org/eLibris/didaticamagna. pois. como dissemos já. como as figuras das coisas têm o seu nome escrito por cima.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . 2.COMENIUS 26.html 279/357 . atrai os espíritos tenros a procurar em qualquer outro livro coisas para se divertir. ajuda a imprimir as coisas na mente das crianças. faz aprender a ler mais facilmente. poderá começar­se a ensinar a ler.

Zepper. às escolas de língua nacional.ebooksbrasil. No capítulo IX. não à escola de língua nacional. em conjunto. Não devem. eu proponho o caminho e o método que gostaria de ver seguido por aqueles que desejaria o mais bem instruídos possível». embora alguns sejam de opinião contrária. cap. no cap. na concórdia e no serviço mútuo. mas diretamente à escola de latim. Ora. Importa.org/eLibris/didaticamagna. qual a vocação de cada um. conduzi­los todos. portanto. deve ser enviada às escolas públicas. e umas e outras desenvolvem­se muito melhor depois. 1. Porque: 2. aconselham «a mandar às escolas de língua nacional apenas as raparigas e os rapazes que virão a dedicar­se às artes mecânicas. parece um verdadeiro ato de precipitação. aspiram a uma mais profunda cultura do espírito». 2. a fim de que todos se animem. querer determinar. mas aconselham a enviar. também na modéstia. 7. e. naquela idade. 6 da sua Escolástica[2]. as crianças que. demonstrei que toda a juventude. nem deve oferecer­se a alguns ocasião de se julgarem mais que outros e de os desprezarem. precisamente como se não pode ver quais as ervas que se devem arrancar e quais as www. se para os estudos ou para os trabalhos e artes manuais.html 280/357 .COMENIUS Capítulo XXIX PLANO DA ESCOLA DE LÍNGUA NACIONAL A escola de língua nacional deve ser anterior à de latim. queremos que todos se formem em todas as virtudes. se encorajem e se estimulem mutuamente.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Alsted acrescenta: «discorde quem quiser. por isso. 3. o método da nossa Didática obriga­nos a discordar. até onde é possível conduzi­los todos em conjunto. e Alsted. à volta dos seis anos. portanto. não se manifestam ainda bem nem as forças do engenho nem as inclinações da alma. Agora acrescento que toda a juventude deve ser confiada. pois. da sua Política eclesiastica[1]. primeiro. queremos dar a todos aqueles que nasceram homens uma instrução geral capaz de educar todas as faculdades humanas. segundo a intenção de seus pais. de um e outro sexo. Discordamos porque: 1. no livro 1. separar­se tão cedo uns dos outros.

que é a língua latina. Seria inoportuno perturbar uma tal intenção com um salto tão desmedido por cima de toda a língua nacional.org/eLibris/didaticamagna. mas também os outros. E não se abra a escola de latim apenas aos filhos dos ricos. 6. a nossa hipótese de quatro espécies de escolas. Finalmente. Procedendo assim. que o nosso método universal não aspira apenas a possuir essa ninfa. Mantendo. porque não são somente os filhos destes que nascem para subir aos altos graus nas magistraturas. e nem sempre começa a soprar em determinado tempo. cada vez mais. 3. Do mesmo modo que Cícero dizia que lhe era impossível ensinar a aprender a quem não sabia falar[3]. para nós. os alunos aprenderão a língua latina muito mais facilmente. não devem ser postos de parte como gente sem esperança.html 281/357 . O objetivo e a meta da escola de língua nacional é ensinar a toda www. ou dos nobres. por isso. Objetivos e metas da escola de língua nacional. dilinearemos como se segue a escola de língua nacional. pois bastará que adaptem às coisas por eles já conhecidas a nova nomenclatura latina e que depois. Em quinto lugar. mas pode ver­se quando estão já crescidas.ebooksbrasil. pois estabeleceu que esta deve dar a mão à outra e servir­lhe de guia. como demonstrámos no capítulo XVI. que contenham a nomenclatura das coisas. ou apenas daqueles que exercem as magistraturas. É preferível.COMENIUS que se devem conservar num jardim. é como querer ensinar equitação a quem não sabe ainda caminhar.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . portanto. geralmente objeto de um ardente amor. conduzir os alunos ao conhecimento do material linguístico com a ajuda de livros escritos em língua nacional. o Senhor). como a instrução que nós procuramos dar é uma instrução prática. portanto. acrescentem ao conhecimento prático das coisas o seu conhecimento teórico. 5. é possível. com igual facilidade. também o nosso método proclama que não convém ensinar o latim a quem não sabe ainda a sua língua nacional. fundamento IV. que. mas procura também o caminho a seguir para que possam dominar­se igualmente as línguas vernáculas de todos os povos (para que todos os espíritos louvem. querer ensinar uma língua estrangeira a quem não domina ainda a sua língua nacional. fazer as coisas separadamente. enquanto são novinhas. A quarta razão é. 4. com prudente gradação. O espírito sopra onde quer.

relativas à forma redonda do céu. por meio de números ou de cálculos. conforme a necessidade. Ou seja: I. a redenção e o modo como é sabiamente regido por Deus. os hinos e os cânticos espirituais. IV. e. primeiro caligraficamente. a distância. saibam na ponta da língua as histórias e as máximas principais de toda a Sagrada Escritura. Aprender de cor a maior parte das salmódias e dos hinos sagrados que são usados em vários lugares. para que as saibam recitar. o comprimento. Cantar melodias das mais correntes. adaptados à capacidade da sua idade.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . por último. em letras tipográficas ou à mão. às principais partes do mundo. ensinar também os rudimentos da música. VI. Não ignorarão a história geral do mundo: a criação. Medir. para que. VII. conheçam o suficiente para compreenderem aquilo que todos os dias vêem fazer em casa e na sociedade. entendam e comecem a pôr em prática os ensinamentos morais. depois rapidamente. mediante os salmos. ao globo terrestre suspenso no meio do espaço. e devidamente aplicadas por meio de exercícios. segundo as regras da arte. IX. II. a queda. Escrever. III.html 282/357 . V. XI. dos seis aos doze (ou treze) anos de idade. X. em conformidade com as regras gramaticais da língua nacional. etc. Aprendam as coisas principais da cosmografia. Além do catecismo. Ler correntemente tudo aquilo que. aquelas coisas que lhe serão úteis durante toda a vida. cantando­os em louvor de Deus nos seus corações. alimentados pelos louvores de Deus. as quais devem ser expostas do modo mais familiar. a largura. às várias sinuosidades dos mares e dos rios.COMENIUS a juventude. Contar.org/eLibris/didaticamagna. está escrito na língua nacional. e aos que tiverem mais aptidões para isso. Acerca das condições econômicas e políticas. aos mais www. de qualquer maneira. expressos em regras e ilustrados com exemplos. VIII.ebooksbrasil. saibam (como diz o Apóstolo) [4] ensinar­se e admoestar­se a si mesmos. Aprendam de cor. ao oceano que envolve a terra.

ou. não tenham necessidade de nenhum outro livro. enfim.ebooksbrasil. nada se deparará que seja de tal maneira novo do qual não tenham já haurido o gosto aqui. e com a ajuda destes livros possam ser conduzidos infalivelmente às metas fixadas. II. que. I. Se todas estas coisas forem capazmente ministradas nesta escola de língua nacional.COMENIUS importantes Estados da Europa. Meios aptos para atingir estes fins. tudo aquilo que cada um. é necessário que estes livros contenham todo www. Com efeito. As classes. deverá ler em qualquer livro. deve distribuir­se em seis classes (separadas. mesmo quanto ao lugar. que contenham todo o programa prescrito para essa classe (quanto à instrução. Porque é que nesta escola se propõem objetivos tão amplos. e.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . mais tarde. ou uma mais rica dilucidação ou uma dedução mais particular de coisas já antes conhecidas. 7. a agricultura ou os ofícios manuais. mas também aqueles que passam a exercer o comércio. as cidades. com maior facilidade. sobretudo. exercendo a sua própria arte. deverá fazer. Finalmente. se possível. durante o espaço de tempo em que os jovens são conduzidos pelo caminho destes estudos. e os homens experimentarão por si mesmos que são realmente aptos para aprender. por isso. não só aos adolescentes que entram para a escola latina. XII. acerca das artes mecânicas. a natureza revele aquilo para que cada um é mais fortemente inclinado. nada mais será que.html 283/357 . durante seis anos. para que. A população da escola de língua nacional. mais tarde. A cada classe sejam destinados livros de texto próprios. os rios e tudo o que há de mais notável na sua pátria. Os livros. 8.org/eLibris/didaticamagna. para que se não perturbem mutuamente). de ordem geral. acontecerá que. Para atingir este objetivo. se dedicará aos estudos. os montes. devem adquirir conhecimentos vários. à moral e à piedade). quer apenas com o objetivo de não serem tão crassamente ignorantes que não saibam o que se faz na vida humana. para fazer e para julgar melhor todas as coisas. quer para que. ou ouvir dos oradores sagrados ou de outros. II. e. temos os seguintes meios: I.

nesses livros. mais desconhecidos e mais difíceis. o seguinte promoverá a intelecção de aspectos mais especiais. A matéria dos livros das várias classes é a mesma: só a forma é diferente. e acerca da sua matéria e da sua forma. porque é que o livrinho da primeira classe se não há­de chamar Canteiro de violetas. 11. como pela forma. 12. e. pela sua suavidade. as coisas sérias e severas. Nestes livros. serão de utilidade ao homem sério. em conformidade com o número de classes. Deve. 10. jocosas e lúdicas. a seu tempo. e aprendê­las com facilidade e prazer.?[5]. e os principais e mais usados modos de dizer. tudo deverá ser adaptado à índole da idade. mas o primeiro apresentará os aspectos mais gerais. exprimam elegantemente todo o conteúdo do livro. são capazes de entender. todos os termos técnicos devem ser expressos em língua nacional. para fazer saborear novas delícias aos espíritos. para que possam aprender as coisas sérias que. Para aliciar as crianças.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Efetivamente. Espero que esses títulos sejam tirados das espécies dos jardins dessa ameníssima propriedade que é a escola. etc. importa misturar por toda a parte o útil ao agradável.html 284/357 .ebooksbrasil. o qual atraia os espíritos por meio dos seus encantos quase contínuos. e aborrecem. por natureza. Com efeito. porque a escola se compara a um jardim. são inclinados para as coisas agradáveis. segundo a sua idade. aliciem a juventude. mais fáceis. Portanto. falaremos mais pormenorizadamente noutro lugar. todos os nomes das coisas que as crianças. tudo seja adaptado aos espíritos infantis.COMENIUS o programa de língua nacional: por exemplo. Acrescento apenas isto: porque estes livros são escritos em língua nacional. adornem­se os livros com títulos bonitos. os quais. não tanto pelas matérias tratadas.org/eLibris/didaticamagna. Nestes livros. e os conduza até onde desejamos. mais conhecidos. www. Portanto. Que os livros sejam também ornados com títulos que. ou oferecerá um modo novo de considerar as mesmas coisas. em geral. Acerca destes livros. todavia. o da segunda Roseiral e o da terceira Vergel. diferentes entre si. haver a preocupação de que. ao mesmo tempo. 9. estes livros serão seis. todos tratarão de todas as coisas. como dentro em breve se mostrará.

mas apenas se crê que signifiquem aquilo que significam. não há nada de mais www.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . não os abandonam. para que não seja necessário depois aprender duas vezes os termos técnicos. objeta­se que é melhor que as crianças. portanto. não são entendidas. habituados aos seus termos. Também os latinos e os gregos tiveram de inventar primeiro as palavras e de as fazer entrar no uso corrente. se alguma língua se revela obscura. depois que foram aceites. Finalmente.COMENIUS também os termos técnicos devem ser expressos na língua nacional. os eruditos. 13. que devem ser iniciadas no estudo do latim. conseqüentemente. a princípio. para que tudo corra como um rio. e não deve usar­se de termos latinos ou gregos. pareceram­lhes tão ásperas e obscuras. Pode objetar­se.org/eLibris/didaticamagna. mesmo que essas línguas traduzam bem esses vocábulos. mas. devem ser explicadas. Razão: I. as palavras de uma língua estrangeira. e. Além disso. mas dos homens. e. como o aconselha o mesmo Stevinus aos seus compatriotas belgas e o mostrou elegantemente na sua Matemática[7]. Ora. queremos que se cultivem as línguas nacionais. todavia. Objeta­se ainda que. A culpa não é das línguas. não é necessária outra explicação além desta: tal palavra significa tal coisa. mutilada e imperfeita para significar aquilo que é necessário. Queremos proporcionar à juventude que entenda tudo sem perda de tempo. Resposta à primeira objeção. se habituem já aqui à língua dos eruditos. que eles próprios duvidaram se as deviam ou não cultivar. quando se trata de palavras familiares. Ao passo que.html 285/357 .ebooksbrasil. que nem todas as línguas são tão ricas de modo a poderem traduzir igualmente bem os vocábulos gregos e latinos. II. retém­se com grande dificuldade. e costuma objetar­se. que os empecilhos e os instrumentos de suplício estejam ausentes desta primeira informação. não à maneira dos franceses que conservam termos latinos e gregos que o povo não entende (é a censura formulada por Stevinus)[6]. Três objeções. 14. antes de serem entendidas. Queremos. Porquê? 1. e imediatamente se entende e se imprime na memória. mesmo depois de explicadas. mas exprimindo todas as coisas com palavras que o povo entenda. Mas responde­se a essas objeções.

se for necessário explicar qualquer ponto. os outros. enquanto um lê claramente e distintamente. de modo que. na sua língua. Então. olhando para os seus livrinhos. III. nós agora pensamos apenas nos ignorantes e no modo de os levar também a entender as artes liberais e as ciências. fá­lo­á do modo mais familiar.COMENIUS significativo. Quanto à segunda objeção: que os eruditos conservem para si a sua língua. também os mais lentos. portanto.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . finalmente. antes que em latim. como por chamarem a Deus Pai. 15. por ordem. as da tarde. II. sentirão tão pequeno incômodo por saberem os termos técnicos na sua língua pátria. Note­se que as lições devem ser muito breves. durante meia hora ou mais. É o que se verifica com as palavras ente. acidente. quididade. se aos homens não faltasse o engenho. Terceiro requisito: um bom método. qualidade. portanto. se dedicarão ao estudo das línguas. os alunos releiam. adaptadas aos tempos dos horários e à capacidade das inteligências infantis. o professor prelecionará a lição marcada no horário. no modo de lhes não falar com boca de estrangeiro e numa língua exótica. A terceira. nada a nenhuma língua. acompanhem em silêncio. enquanto todos os alunos estarão a ouvir. etc. para que seja impossível que os alunos não entendam. acontecerá que os mais inteligentes tentem recitar aquela lição sem livro e.html 286/357 . aquelas crianças que. 17. As outras poderão ser passadas utilmente nos trabalhos domésticos (principalmente nas famílias mais pobres) ou em quaisquer recreações honestas. substância. Finalmente. As horas da manhã devem ser consagradas a cultivar a inteligência e a memória. E. o qual consta de quatro leis. mais tarde. Não faltaria. e. A segunda. se se continuar a fazer assim. Não se dediquem diariarnente aos estudos públicos senão quatro horas: duas antes e duas depois do meio dia. essência. O terceiro requisito será um método fácil de apresentar estes livros à juventude. III. www. o qual condensaremos nas regras seguintes: I. Nas horas da manhã.org/eLibris/didaticamagna.ebooksbrasil. isto é. 16. mandará que. a exercitar as mãos e a voz.

html 287/357 . não a sua língua materna. entre a escola de língua nacional e a escola latina. 18. Reservamos as coisas mais particulares para outra ocasião. Porque aconselhamos que os alunos copiem os livros com a sua própria mão. ou seja. Conselho acerca do estudo das línguas dos povos vizinhos. Não é sem razão que aconselhamos que todas as crianças copiem com a sua própria mão. a ver quem repete com mais prontidão as lições anteriores ou quem escreve. nas quais não queremos que se trate nenhum tema novo. decorados e objeto de exercícios escritos e orais. Advertimos.COMENIUS IV. 2. Estas lições radicar­se­ão ainda melhor na mente dos alunos. Para os pais. em que têm dez. canta e conta com mais segurança e elegância.org/eLibris/didaticamagna. Efetivamente: 1. e se os livros de texto da escola de língua vernácula (já deles conhecidos. os seus filhos se ocupam daquilo de que devem ocupar­se. os seus livros impressos. nas mesmas matérias. todavia. copiados. 19. as crianças adquirirão o hábito de escrever caligraficamente. que. e em parte fazendo «sabatinas». Com este exercício quotidiano de escrita. O que se fará muito facilmente se forem enviados para um lugar onde se fale todos os dias. transcrevendo os próprios livros impressos. nas horas de depois do meio dia. e poderão mais facilmente julgar do aproveitamento dos filhos e até quanto estes acaso os superam a eles mesmos. nessa nova língua. façam­no nesta altura. etc. 3. o mais asseadamente possível. será um argumento evidentíssimo de que. se algumas das crianças quiserem dedicar­se ao estudo das línguas dos povos vizinhos. quanto à matéria) são por eles lidos. mas aquela que querem aprender. mas que se repita a mesma lição da manhã: em parte.ebooksbrasil. www. pois ocupa os sentidos durante mais tempo. hábito muito necessário para os estudos ulteriores e para os negócios da vida. na escola. rapidamente e ortograficamente. onze ou doze anos. Este trabalho serve para imprimir tudo mais profundamente na memória.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .

que o vulgo julga deverem ser ensinadas pelo professor de Filosofia.org/eLibris/didaticamagna. pois.ebooksbrasil.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . de modo perfeito.COMENIUS Capítulo XXX PLANO DA ESCOLA LATINA Meta desta escola: quatro línguas e toda a enciclopédia das artes. tanto em geral. queremos que haja também: VIII. a estrutura do corpo humano. ou seja. Dialéticos peritos em definir. VII. com quatro línguas. a Geografia e a maior parte da História são cegas. a natureza dos elementos. 2. sem estas. versados. nas coisas fundamentais. as diferenças dos animais. as propriedades das plantas e dos minerais. III. IV. ou seja. para que os alunos subam mais alto. considerando estas coisas. Gramáticos competentes para fornecer. Astrônomos.. Estas são as tão decantadas sete Artes liberais. VI. de modo que. como www. em latim e na língua nacional e. Músicos. Retóricos ou Oradores capazes de discorrer elegantemente sobre qualquer tema. tanto para as várias necessidades da vida. distinguir. em grego e em hebreu. na doutrina da esfera e no cômputo. as razões de todas as coisas. como porque estas ciências preparam e aguçam o engenho para as outras. Fixamos as metas a esta escola. práticos e teóricos. se abranja toda a enciclopédia das Artes. Naturalistas (Physici) que conheçam a composição do mundo. II. se necessário. argumentar e em rebater os argumentos dos outros. a Física. Geômetras. ao menos. consigamos: I. conduzindo devidamente os adolescentes por estas classes. Matemáticos e V.html 288/357 . etc. 1. Mas. de modo que.

haja seis classes. as suas ilhas. esgotar o oceano). X. nem a idade juvenil pode atingir a perfeição. e bem assim os vários costumes e ritos dos povos e dos homens. Será necessário que. começando a enumerar desde a mais baixa. XIII. XII. as quais. os adolescentes sejam.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . nem é possível. não só conheçam os fundamentos da sua fé. desde o começo do mundo. IX. Ética www.ebooksbrasil. pelo menos possuidores de sólidos fundamentos. e as suas divisões. política. mas possam eles próprios ir hauri­los nas Sagradas Escrituras. à agricultura e a todas as outras artes mecânicas. Gramática II. relativamente à vida econômica. os Estados. onde poderá assentar uma cultura mais perfeita. e saibam fazer observar aquelas e levar a fugir destes.COMENIUS são em si mesmas. Matemática IV. repartindo­se a instrução por seis anos. XI. os rios. se não perfeitos (como efeito. dos principais Estados e da Igreja. Geógrafos que tenham gravado na mente o globo terrestre. Caminho para atingir estes objetivos: seis classes. eclesiástica. Física III. etc. Cronologistas que saibam de cor a sucessão das várias épocas. terminado este curso de seis anos. podem receber os seguintes nomes: I. e ainda como coisas criadas para utilidade da nossa vida. em seis anos de instrução. etc. considerando tanto a sua idéia geral como a sua aplicação prática. o que compreende a parte que diz respeito à medicina. Historiadores que saibam enumerar a maior parte das mais notáveis transformações do gênero humano. os mares. em todas estas coisas. Desejamos que.html 289/357 . 4. Moralistas que conheçam exatamente os gêneros e as diferenças das virtudes e dos vícios. Finalmente. queremos fazer Teólogos que. 3.org/eLibris/didaticamagna.

html 290/357 . capítulo 1. como se ela fosse a porteira das outras disciplinas. Porque é que. uma vez que o raciocínio e o discurso se fundam nas coisas.COMENIUS V. Dialética VI. 6.ebooksbrasil. Espero que ninguém mova uma campanha contra nós.org/eLibris/didaticamagna. e. Embora muitos façam o contrário. Procedendo de modo diverso. Nesta parte (da Filosofia) é maior o prazer. pelo fato de pormos em primeiro lugar a gramática. homens doutos demonstraram que as ciências naturais devem colocar­se antes das ciências morais. ter­se­á à disposição todos os modos de discorrer e de falar. isto é. Portanto. apto para atrair e para prender. é absolutamente necessário que o fundamento seja lançado primeiro. se primeiro não concebeu. é aquele que consiste em adquirir conhecimento das coisas antes de se começar. por efeito de um esforço. finalmente. não deve vir imediatamente a dialética? 5. Convém. e consentirei e deliberarei que a Física se ensine em primeiro lugar. e de que o único método capaz de nos fazer progredir. mas ser­se­á pobre quanto às coisas a examinar e a aconselhar. fazer assim. Porém. da sua Fisiologia. Porque que é que a moral se coloca depois das ciências naturais. As coisas. Retórica. então.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . aqueles que consideram os costumes como se fossem leis. mas a razão e a língua apenas trabalham com as coisas e dependem delas: sem as coisas. ainda que a razão ou a língua se não ocupem delas. todavia. escreve: «Agrada­nos a opinião dos grandes autores. ou a julgá­ las a fundo ou a expô­las com estilo florido. pois estamos convencidos de que se deve ensinar as coisas antes do modo das coisas. de maneira segura e rápida. Lípsio. ou estúpido ou ridículo. talvez se admirem que coloquemos a dialética e a retórica depois das ciências positivas. ou se reduzem a nada. que poderá examinar­se ou aconselhar­se? Assim como é impossível que uma virgem dê à luz. a matéria antes da forma. e há também uma dignidade maior e um esplendor que excita a admiração. uma preparação e cultivo da alma de modo a ouvir­se com fruto as lições da Ética»[1]. ou tornam­se sons sem pensamento. depois a gramática. www. são aquilo que são. assim também é impossível que alguém fale das coisas racionalmente. no Livro I. se primeiro não tomou conhecimento das coisas. em si mesmas.

por isso. se aconselhou a exercitar os sentidos na escola de língua nacional e a aguçar os espíritos com as coisas sensíveis. preparação para o estudo da física).7/8/13 DIDACTICA MAGNA . 8. finalmente. aconselhamos que se apresente aos alunos uma ciência generalíssima.html 291/357 . se não põe a matemática antes da física? 7. por isso. não temos intenção de nos opor. cujo conhecimento fácil e verdadeiro dificilmente pode adquirir­se sem o ensino das ciências naturais. porque dispõem e excitam a estudar outras coisas mais afastadas dos sentidos. nós acrescentamos várias coisas artificiais. 2. a este propósito. No entanto. e Platão não admitia na sua Academia nenhum ageômetra (<grego>). Portanto. a exemplo dos antigos. porque estes servem como que de passagem para atingir e apreender melhor as coisas abstratas. e. seria mais correto chamar­lhe profísica (<grego>) ou hipofísica {<grego>}. A Física deve ser precedida da Metafísica: mas de qual? 9. são mais fáceis e mais certas. Quanto à matemática. as matérias a estudar se chamaram {Oacv~}.COMENIUS Porque é que. os nossos alunos já não serão totalmente ageômetras (<grego>).org/eLibris/didaticamagna. mais que outras. antes de chegar às mais sublimes especulações das quantidades. devemos fazer algumas considerações. os www. e vulgarmente Metafísica (em nosso entender. uma vez que: 1. ou seja. 3. estamos convencidos das nossas razões. por enquanto. Mas. Mas. O nosso método procede sempre gradualmente. Tudo isto é verdade. A razão é evidente. Depois de adquirido um conhecimento mediano da língua latina (através do Vestíbulo e da Porta.ebooksbrasil. é bom que se demore um pouco a ensinar as coisas concretas acerca dos corpos. e. os requisitos necessários. É certo que os antigos principiaram a observação das coisas pelos estudos matemáticos e. Ao programa da classe de matemática. como. nos sentidos e. por isso. se as razões dos outros ou mesmo a prática convencerem que é melhor proceder diversamente. porque as ciências que tratam de números e de quantidades baseiam­se. poderia duvidar­se se ela deve seguir ou anteceder a física. por exemplo. a que consagramos a primeira classe). a qual é chamada ciência primeira. disciplinas. Primeira Resposta. colocamos primeiro estas ciências. e concentram e fixam a força imaginativa. Esta ciência deve descobrir aos alunos os primeiros e os mais profundos fundamentos da natureza. portanto. ou seja.

como acontecia nos rudimentos da escola de língua nacional. como senhor das coisas. da Matemática e da Ética. etc. pois são como que princípios que qualquer dos sentidos apreende e admite só pela sua própria luz). Da essência das coisas. 12.org/eLibris/didaticamagna. Destas coisas gerais. Imediatamente a seguir. depois. para aprenderem a ver o que está e o que não está sob o nosso poder e sob o nosso arbítrio.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . a Ética. pela prática. com o nosso método. Mas estudem­ se todas estas coisas. isto é. A este estudo damos o nome de classe de Matemática. e nada parecerá absolutamente novo. será muito fácil). pois queremos reservar estas coisas integralmente para a quinta classe.COMENIUS atributos e as diferenças de todas as coisas. de modo breve. entendem­se muito facilmente. Classe de Dialética. os alunos deverão fazer especulações sobre o próprio homem com as ações da sua vontade livre. pois a maior parte deles parecerão já conhecidos. e dar a conhecer as leis mais gerais. as regras do raciocínio. poderão dirigir as observações para todos os particulares. na classe de Ética. passe­se imediatamente à observação do mundo visível. para que os alunos se habituem a considerar as causas e os efeitos das coisas. as definições. a que se pode dedicar. um trimestre (com efeito. Na classe de Dialética. já não apenas historicamente. a não ser a aplicação das leis gerais aos casos particulares. que seja objeto das controvérsias dos eruditos. Isto ensinar­se­á no quarto ano. ao máximo. queremos que se percorra o programa da Física. para que as maravilhas da natureza (reveladas na profísica) se tornem cada vez mais claras por meio de exemplos particulares escolhidos na própria natureza: Este estudo constituirá a classe de Física. passar­se­á então a uma observação mais acurada sobre os acidentes das coisas. mas teoricamente. os axiomas. depois de apresentadas. e se ventile tudo o que de mais importante lá se contém. Mas abstenham­se os professores de misturar com o programa destas primeiras quatro classes algo de controverso.ebooksbrasil. 10.html 292/357 . 11. como convém governar todas as coisas segundo as leis do universo. Então ensinar­se­á: Qual a origem da controvérsia? qual o seu estado atual? qual a tese e a antítese? www. Quando tiverem adquirido estes conhecimentos (e. o modelo e a estrutura de todas as coisas. A seguir à Física vem a Matemática. como se segue.

uma utilíssima explicação das coisas que não foram entendidas. todavia. mas deve percorrer­se novamente todos os campos da verdade e da variedade das coisas. e através dos quais se torne evidente que os nossos alunos aprenderam alguma coisa e que não estiveram na escola inutilmente. Assim. para que tudo aquilo que os alunos sabem que é verdadeiro.org/eLibris/didaticamagna. e. de todas as coisas ensinadas até aqui. graças aos estudos precedentes. por um lado. ou ainda. e. ensinar­se­á ainda a arte de raciocinar. e os jardins da honestidade humana e os paraísos da sabedoria divina. com o mesmo trabalho. de esclarecer as obscuras. tente­se a conciliação. adquirirão nesta classe uma nova bagagem. Classe de Retórica. se ambas as asserções contêm algo de verdadeiro.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . agradável e honesto. far­se­á. 15. com economia de tempo e de fadiga. uma agradabilíssima repetição do programa já estudado.html 293/357 . a ocasião de erro e a falácia dos argumentos da tese oposta. Para este efeito. de palavras. A última classe será a de Retórica. na qual queremos que se façam exercícios verdadeiramente práticos. se www. etc. de distinguir as ambíguas. se necessário. o saibam também dizer bem e. de defender as verdadeiras com as armas da própria verdade. de um razoável conhecimento de coisas de toda a espécie. ou seja. o saibam inculcar fortemente. fáceis e agradáveis. queremos formar a língua para uma sábia eloqüência àqueles de que até agora formámos principalmente a mente para a sabedoria. de um cabedal de conhecimentos não desprezível.ebooksbrasil. a força dos argumentos a favor da tese verdadeira. de determinar as gerais. de sentenças. Não convém. brevíssimas e claríssimas regras de eloqüência. bem assim. Acerca destas coisas particulares. de novo. bom e útil. isto é. de frases. ou seja.. demorar­se sempre nas mesmas matérias. portanto. estando já de posse. falaremos de novo. de rejeitar as falsas e. 14. Apresentadas. de histórias. à imitação dos melhores mestres na arte de dizer. por outro lado. de adágios. O estudo da história deve distribuir­se por todas as classes. e. de ordenar as coisas confusas com contínuos exemplos. de investigar as coisas desconhecidas. com um método breve e eficaz. enfim.COMENIUS com que argumentos verdadeiros ou prováveis se defende esta ou aquela? Procure­se depois descobrir o erro. 13. passe­se aos exercícios. segundo a máxima socrática «fala para que saiba quem és»[2]. Na verdade.

É. Seja­me lícito acrescentar apenas isto: Porque é evidente que o conhecimento da história é uma parte belíssima da instrução e é como que os olhos de toda a vida. Pensamos que será possível compilar. mas sobretudo da Pátria de cada um. mas até o torne mais suave. ou seja. que a História ocupe a primeira hora depois do meio dia. sendo a segunda hora consagrada a exercícios da pena. da palavra e das mãos. etc. História Universal. Tudo será exposto resumidamente. para que os nossos alunos não ignorem tudo aquilo que de memorável fez ou disse a antiguidade. sou de opinião de que a história seja distribuída por todas as classes deste sexênio. V. IV. História das ciências naturais.ebooksbrasil. em conformidade com o que é requerido pela matéria de cada classe. para que não aumente o trabalho dos alunos. Acerca do método especial que deve usar­se nestas escolas. Compêndio de história sagrada. III. VI. da qual a classe toma o nome. História das artes e das invenções.html 294/357 . segundo o programa seguinte.org/eLibris/didaticamagna. II. distribuído pelas seis classes: I. História da moral: exemplos mais excelentes de virtudes. Advertência acerca do método continuamente uniforme destas escolas. www. para cada classe.COMENIUS necessário. história de todo o mundo e dos principais povos. E como. etc. a não ser o seguinte: desejamos que as quatro horas de lições públicas sejam assim divididas: as duas horas da manhã (após um exercício de piedade) dediquem­se àquela ciência ou àquela arte. tratando apenas das coisas necessárias e omitindo as que não têm importância. um livrinho especial. que contenha um certo gênero de fatos históricos. e seja para eles como que o condimento dos estudos mais severos. 16. todavia. pois a prática nos ensinará tudo o resto.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . para desejar que este estudo seja ministrado com prudência. História dos ritos: acerca dos vários ritos dos povos. 17. nada direi agora.

que nas Academias: I.org/eLibris/didaticamagna.ebooksbrasil. o que nos parece exigir cada um destes votos. II. www. Se façam estudos verdadeiramente universais. Que tenham um método verdadeiramente universal. para imbuir todos aqueles que as freqüentam de uma erudição sólida. Vejamos agora. portanto. artes. modestamente. por direito.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Desejamos. eruditos e ardorosos. Que os cargos públicos não sejam confiados senão àqueles que nelas se prepararam com sucesso. que extraiam de si.COMENIUS Capítulo XXXI DA ACADEMIA Porque se trata aqui da Academia. II. Em verdade. III. 3. como de reservatórios vivos. e que são dignos e idôneos para que se lhes entregue com segurança o governo das coisas humanas. o nosso método não se estende até a Academia (Universidade). 2. e comuniquem a todos todas as coisas. I. faculdades e línguas. 1. Que sejam verdadeiramente Universidades. Se adotem os métodos mais fáceis e mais seguros. Mas que mal há em abordar este tema. Três votos a seu respeito. se deve deixar às Academias as partes mais elevadas e complementares de todas as ciências e todas as faculdades superiores. de tal maneira que nada exista nas letras e nas ciências humanas que lá se não ministre. e de uma Biblioteca seleta dos vários autores e de uso inteiramente comum. para dizer quais são os nossos votos a seu respeito? Dissemos atrás[1] que.html 295/357 . há necessidade: de Professores de todas as ciências. Para que os estudos acadêmicos sejam universais.

em primeiro lugar. para que pudessem deliberar quais dos jovens deviam ser enviados para a Universidade e quais os que deviam destinar­se aos outros gêneros de vida. Os trabalhos da Academia prosseguirão mais facilmente e com maior sucesso. todavia. igualmente. fosse feito. se. nasceram. lançando­ nos nós. honestos e solícitos. ou à Medicina.html 296/357 . haver o cuidado de que só vão para as Universidades os alunos diligentes. nestes ou naqueles estudos. segundo certos indícios mostram. ou à Política. para as profissões manuais. nada fazemos que seja digno de louvor. Com efeito. todos se esforçarão www. peca­se demasiado freqüentemente. somos mais competentes em qualquer outra coisa acessória (<grego>) que na nossa própria profissão. onde não há peste. Onde deve observar­se: 5. Em terceiro lugar. por instinto natural. Deve. os quais esbanjam. a nosso arbítrio. para a medicina ou para a jurisprudência. um exame público às capacidades dos alunos. só para lá forem enviados os engenhos mais seletos. para que. Daqui resulta que.ebooksbrasil. no termo da Escola Clássica. etc. um se torna músico. etc. de aconselhar que. assim como.org/eLibris/didaticamagna. quais os que deveriam dedicar­se à Teologia. e que elas não tolerem os falsos estudantes. assim também um é mais apto que outro para a teologia. melhor que outro. freqüentemente. III. os outros enviar­se­ ão para a charrua. orador. e. a natureza o destinou. ou saibam tudo (<grego>).. a despeito da nossa natureza. ou sejam sábios em tudo (<grego>). para que não faltem homens que saibam muito (<grego>). 6. aliás. Mas. portanto. Se.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . para o comércio. quanto a isto. fazer um Mercúrio de qualquer madeira[2]. a flor dos homens. sem atender às inclinações da natureza. naturalista. Assim. no ócio e no luxo. pelos Diretores das Escolas. Seria. de entre aqueles que fossem destinados para prosseguir os estudos. o tempo e o dinheiro. dando mau exemplo aos outros. em segundo lugar.COMENIUS 4. IV. não há contágio. poeta. e. convém estimular os engenhos heróicos para tudo. tendo em conta as suas inclinações naturais e ainda as necessidades da Igreja e do Estado. 7. cada um se aplicar ao estudo daquela disciplina para a qual. pois queremos.

Conselho acerca do resumo de autores de toda a espécie. aos médicos. para que ao menos adquirissem um conhecimento geral desses autores. porque é que. Lívio. de modo a poderem ser observadas com um só golpe de vista. o ajuda a observar com mais facilidade. Finalmente. Ora.org/eLibris/didaticamagna. Galeno. lhe caem sob os olhos. Em primeiro lugar. para fazer mais rapidamente as revisões necessárias dos autores e para deles extrair a substância que se fixa no espírito e se transforma em alimento vital.COMENIUS por cumprir o seu dever. e. encerrando províncias inteiras. para aqueles que (segundo o conselho de Sêneca)[3] desejassem familiarizar­se apenas com um autor (pois nem todas as coisas convêm igualmente a todos) pudessem escolher mais facilmente e mais judiciosamente. tendo saboreado vários autores. seria para desejar que se pedisse às pessoas doutas. Tácito. as cidades. Hipócrates. mas que se resumam as obras inteiras às coisas substanciais. da mesma maneira que. tivessem sentido que este ou aquele está mais em relação com os seus gostos.ebooksbrasil. para que este estudo não seja demasiado penoso. Efetivamente. com mais segurança e com maior prazer todas as particularidades que. se não há­de representar Cícero. o fato de ter conhecido no mapa a corografla de determinada região. S. que prestassem à juventude estudiosa o mesmo favor que os geógrafos prestam aos estudiosos da geografia. esses resumos prepararão muito bem para uma leitura mais frutuosa aqueles que deverão estudar as obras completas. a seguir. www. 8. Celso. Gélio. Platão. e pondo extensíssimas partes da terra e do mar sob os olhos. Atistóteles. Em segundo lugar. do mesmo modo que os pintores representam ao vivo as regiões. as casas e as pessoas. esses breviários servirão a todos. V. Em terceiro lugar. seja útil. Dissemos que. Plutarco. na Academia. se devia estudar todo o gênero de autores.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .html 297/357 . reinos e mundos em mapas. etc. Estes resumos dos autores teriam uma grande utilidade. contudo. quando. para aqueles que não têm tempo para ler obras extensas. 9. Jerônimo e tantos outros? Não digo que se deva fazer apenas extratos de sentenças e florilégios (como foi feito por alguns). aos teólogos. Conselho acerca da edição desses compêndios. aos filósofos. Santo Agostinho. para um viajante. Quádrupla utilidade desses livros.

parece que tudo aquilo que muitos leram se pode juntar num todo. devem distribuir­se pelos alunos todos os melhores autores que tratam desse assunto. VI. ou sobre uma dificuldade que algum tenha encontrado.html 298/357 . dizer quando é que é lícito a determinado aluno (seguindo­se.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . quando um professor trata publicamente de determinado tema. ou seja. ou sobre determinado ponto que acaso algum não tenha entendido. depois.org/eLibris/didaticamagna. quem se prepara para ler uma obra inteira. segundo o modelo dos Colégios de Gélio[4]. E. do mesmo modo que as escolas dos graus inferiores devem ser visitadas pelos seus diretores. Quanto aos exercícios acadêmicos. Por isso. para que os leiam privadamente. finalmente. para que. e que é também o voto de todas as pessoas de bem: Não sejam admitidos nos cargos públicos senão aqueles que são dignos. na aula de depois do meio dia. Conselho acerca da criação. na Academia. conseqüentemente. contudo. uma ordem determinada) responder e aos outros. o nosso último voto. serem juntados aos respectivos autores. não somente para que aproveite a todos. uma vez por ano. Terceiro voto: não conceder a coroa senão aos vitoriosos. terminar a controvérsia. julgar e pronunciar­se sobre se a resposta é satisfatória. possa ser satisfeito. a partir destes exercícios coletivos. Proceder­se­á do seguinte modo: os estudantes apresentarão questões. III. www. ou sobre uma opinião discordante que algum tenha descoberto no seu autor. Compete ao professor. Conseguir­se­á este desiderato.ebooksbrasil.COMENIUS 10. e. e coisas semelhantes. de «Colégios Gelianos» 11. mas ainda para que tudo se imprima melhor nos espíritos e. acerca de tudo quanto o professor prelecionou na lição antes do meio dia. far­se­á uma discussão. mas da consciência e do testemunho público de todos. se isso não depender do arbítrio privado de uma ou duas pessoas. Parece que. Assim. a seguir. 12. não sei se deverei introduzir Colóquios (<grego>) públicos. Poderiam esses sumários dos autores ser editados em separado (para uso dos mais pobres ou daqueles que não têm possibilidades de estudar integralmente os grandes volumes) e. possa primeiro apreender o resumo de toda ela. como presidente da reunião. recebam também as Academias a visita de inspetores do Estado. sem muita dificuldade. todos façam progressos verdadeiramente sólidos na teoria e na prática das ciências. em que participarão todos os alunos.

ou no fim dele). Por exemplo: questões várias. será convenientíssimo que o candidato (ou vários ao mesmo tempo) se coloque. quer da parte dos alunos. proponham­se ao candidato vários casos: de consciência. Verificarão aqueles que mais se distinguiram pela sua diligência e. Quanto à prática. perguntando­lhe: onde vem escrita esta. para a colação dos graus acadêmicos. de Hipócrates. E nem sequer é preciso mostrar quão necessária seria uma escola das escolas ou uma Sociedade Didática (Collegium www. até que se torne evidente que ele é capaz de emitir juízo acerca das coisas. Quem não esperaria que os alunos poriam toda a diligência no estudo. no meio da sala. Medo da vitória. ou aqueloutra coisa? Como pode estar de acordo com isto ou com aquilo? Conhece algum autor que está em desacordo? Qual? E que argumentos apresenta? E como resolver a questão? E outras coisas semelhantes. Acerca de uma escola das escolas: qual o seu objetivo e a sua utilidade. 15. 14.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . de doenças. a não ser talvez dizer que nos agrada. e está de acordo com os nossos princípios.org/eLibris/didaticamagna.html 299/357 . o qual proibia à juventude viajar antes de acalmar a excessiva impetuosidade da idade ardente e antes de adquirir a prudência e a capacidade necessária para viajar[5]. do Código de Direito. conferir­lhes­ão o grau de Doutor ou de Mestre. 13. se soubessem que teriam de enfrentar um exame tão público. não é necessária nenhuma advertência. a opinião de Platão.). quer da parte dos professores. sem o seu moderador. de processos. Quando às viagens (a que demos um lugar neste último sexênio. etc.COMENIUS que procurem conhecer o empenho com que foram feitas todas as coisas. tiradas de um texto (da Sagrada Escritura.ebooksbrasil. sabiamente e com verdadeiro fundamento. Se se não quer fazer apenas uma paródia. ou aquela. E então os mais doutos e os mais versados na prática proponham­lhe que faça tudo o que julgarem melhor para verificar o seu progresso teórico e prático. tão sério e tão severo? Das viagens. mas autênticas Disputas. para atestar publicamente o seu valor. E pergunte­se­lhe: como procederia neste ou naquele caso? E porque procederia assim? Insista­se com novas perguntas e com novos casos.

com melhor sucesso. como para isto não basta. ou. dessa maneira. www. a luz da sabedoria e para fazer sempre prosperar os interesses humanos com novas e utilíssimas invenções. Efetivamente. cada vez mais. se isso não for possível. Mas.org/eLibris/didaticamagna. a oficina vital que a todos forneceria suco. é necessário que muitos homens juntamente e sucessivamente continuem a obra começada. Este colégio universal seria para as outras escolas o que o estômago é para os membros do corpo. mesmo sem uma presença corporal.html 300/357 . Mas voltemos àquelas coisas que nos falta ainda dizer acerca das nossas escolas.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . 16. para depurar e difundir pelo gênero humano. ao menos entre os eruditos interessados em promover. a fundar em qualquer parte. temos de pensar em fazer progredir as boas empresas. vida e força. os fundamentos das ciências. nem um homem só. se não queremos estar sempre agarrados ao mesmo caminho.ebooksbrasil. a glória de Deus. ou seja.COMENIUS Didacticum)[6]. Os trabalhos desta sociedade devem tender para descobrir. ou até andar para trás. nem apenas a vida de um homem.

ebooksbrasil. Vantagens da imprensa sobre o manuscrito. ao contrário. o faziam talvez duzentos copistas. 3. os livros impressos são de tal maneira correspondentes uns aos www. todavia. 2. Efetivamente. entre a forma de instruir habitualmente usada até hoje e a nossa nova forma. Mas os fatos mostram quantas vantagens trouxe esta invenção. que com a vulgar ausência de método (<grego>). Desejamos que o método de ensinar atinja tal perfeição que. precisão e elegância. com um aproveitamento muito mais certo e com maior prazer. Resumo dos votos a satisfazer para que a arte didática atinja a precisão e a elegância da arte tipográfica. este novo método.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . mais custosa e mais trabalhosa. das páginas e das linhas. é mais acomodada para escrever livros com maior rapidez.html 301/357 . assim como a arte tipográfica. Em segundo lugar. embora mais difícil. e a arte da imprensa. apareça claramente que vai a diferença que vemos entre a arte de multiplicar os livros. assim também. É fácil pensar quão pouco útil pôde parecer o esforço do primeiro inventor da imprensa. 1. Não será fora de propósito que façamos o resumo. É o que vamos fazer. se for aceite nas escolas. quer dos nossos conselhos. esses manuscritos serão diferentes quanto ao número. quer dos nossos votos. embora a princípio meta medo com as suas dificuldades.COMENIUS Capítulo XXXII DA ORGANIZAÇÃO UNIVERSAL E PERFEITA DAS ESCOLAS Recapitulação do que foi dito. dois rapazes podem imprimir mais exemplares de determinado livro. todavia. dado o uso tão livre e tão rápido da pena. Em primeiro lugar. no mesmo tempo. forma e disposição das folhas. como era uso antigamente. copiando­os à pena.org/eLibris/didaticamagna. que depois foi descoberta e agora é usada[1]. servirá para instruir um número muito maior de alunos. do que. Discorremos largamente acerca da necessidade e do modo de reformar as escolas.

a qual talvez ele não fosse capaz de compor. mas é. se possa ensinar um número muito maior de alunos. dermos um reto ordenamento (efetivamente. assim como qualquer organista executa qualquer sinfonia. olhando para a partitura. corrigidas as provas tipográficas de um só exemplar. nem de executar de cor só com a voz ou com o órgão. <grego>). sejam eles quantos milhares forem. o que parece algo de incrível para quem não conhece a arte tipográfica. colocados nas suas mãos. não é certo que as cópias feitas à pena sejam corretas. assim também porque é que não há­de o professor ensinar na escola todas as coisas.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .COMENIUS outros que nem um ovo é tão semelhante a outro ovo. 4. apenas louvamos o método universal. 3. Finalmente. como sobretudo comunicar e infundir na juventude uma erudição já preparada e com instrumentos também já preparados. ao passo que pode imprimir­se em qualquer espécie de papel. mas somente o que é mais forte. se se não revêem. porque executam o trabalho. com um menor número de professores. que provoca o tédio. e recebam uma instrução polida e cheia de gravidade. se tudo aquilo que deverá ensinar e. Vantagem do método perfeito (o que preconizamos) relativamente ao método usado até hoje. não afirmamos que a nossa já seja assim. nem todo o papel é bom. Em terceiro lugar. Em quarto lugar. e isto verifica­se relativamente a todos os exemplares. 4. Com efeito. mesmos aqueles que não sabem escrever elegantemente. verdade. de fato. pois a missão de cada um não é tanto tirar da própria mente o que deve ensinar. que com o método até aqui usado. 2. mesmo sobre papiro muito fino e transparente. o tem escrito como que em partituras? www. etc. e se admitam a esta cultura mesmo aqueles que não são dotados de grandes inteligências e até os de inteligência lenta. sobre linho. para escrever (quando se escreve com a pena). todos os outros. os modos como o há­de ensinar. de tal maneira que: 1. podem imprimir elegantemente livros. serão hábeis para ensinar.ebooksbrasil. que não deixe trespassar a tinta. Ao contrário. o que se não pode fazer sem um multíplice trabalho. mesmo aqueles a quem a natureza não dotou de muita habilidade para ensinar. 5. bem assim. se não se confrontam e se não se corrigem cuidadosamente todas e cada uma delas. a tudo aquilo que diz respeito à nossa nova forma universal de instruir.org/eLibris/didaticamagna. mas por meio de caracteres propositadamente preparados para isso.html 302/357 . não com as próprias mãos. e os alunos se tornem verdadeiramente instruídos. finalmente. o que é uma particularidade cheia de elegância e de atrativos. Parece que nada acontecerá de diferente se. ficarão corrigidos.

E igualmente da arte didática. mas faz progredir melhor as que são mais brilhantes. E que razão haverá para que se não possa forjar um nome susceptível de convir à nossa nova Didática. O papel são os alunos. as coisas a aprender se imprimam nas mentes com pouca fadiga. A arte tipográfica tem os seus materiais e os seus trabalhos. os trabalhos são: a preparação do papel.COMENIUS Investigação mais particular deste assunto. e cada uma destas coisas faz­se de uma maneira especial. com a sua ajuda. modelado sobre a palavra tipografia? Mas exponhamos o assunto parte por parte.ebooksbrasil. 9.org/eLibris/didaticamagna. 5.. 6. Análise da arte tipográfica quanto aos materiais e aos trabalhos. colocar tinta nos tipos. com tinta. a secagem. e se se faz da maneira prescrita. O prelo é a disciplina escolar que a todos dispõe e impele para se embeberem dos ensinamentos. a tiragem das folhas. como o termo didacografia (<grego>). A tinta é a viva voz do professor que transfere o significado das coisas. O papel é bom. a correção das provas. Mas retomemos a comparação que fomos buscar à tipografia e utilizemo­la para explicar melhor ainda em que consiste o mecanismo regular do nosso método e para mostrar claramente que é possível imprimir as ciências no espírito da mesma maneira que. é possível imprimi­las no papel. tudo corre normalmente. etc. Relação entre os tipos e os livros didáticos. Os materiais principais são: o papel. a composição. tanto mais nitidamente recebe e representa as coisas impressas. Na Didacografia (agrada­me usar esta palavra). as tintas e o prelo. no entanto. Que papel se requer. 7.html 303/357 . a paginação. os tipos. Assim também o nosso método admite todas as inteligências. Os tipos são os livros didáticos e todos os outros instrumentos propositadamente preparados para que. quanto mais puro for. 8. A analogia entre os tipos metálicos e os nossos livros didáticos www. externamente. em cujos espíritos devem ser impressos os caracteres das ciências. dos livros para as mentes dos alunos. as coisas passam­se precisamente da mesma maneira. seja qual for a sua natureza.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .

deixando­se os outros sem se lhes tocar. porque é molesto. 13. assim como é necessário fundir. mas devem ser colocados ordenadamente em caixas e em caixotins. 4. de um mês. Igualmente.org/eLibris/didaticamagna. para que a ninguém esteja vedado aprender aquilo que pode aprender. Os tipos. 11. antes de começar a pôr em prática esse novo método. não se devem deixar espalhados aqui e além. as palavras em www. 3. tudo o que nos oferecem para aprendermos. para que possam estar sempre à mão para qualquer uso. aborrecido e prejudicial começar um trabalho e não o poder continuar por falta dos meios necessários. Do mesmo modo. 14. os nossos livros. Retiram­se das caixas apenas os tipos de que temos necessidade para executar determinada obra. Também se devem colocar nas mãos das crianças somente os livros didáticos de que têm necessidade na sua classe. em tarefas de um ano.ebooksbrasil. 12.html 304/357 . 6. 10. em primeiro lugar. Exige­se uma tal abundância de tipos que seja suficiente para os trabalhos que se quer executar. 5. o tipógrafo serve­se de um componedor para dispor linearmente os caracteres em palavras. polir e adaptar os tipos. mas repartido do modo mais distinto possível. para que nunca se encontre desprovido de qualquer dos tipos de que acaso venha a precisar. é necessária grande abundância de livros e de instrumentos didáticos. é necessário que os nossos livros contenham tudo aquilo que pertence à plena cultura dos espíritos. assim também é necessário preparar os instrumentos do novo método. antes de se começar a impressão dos livros. 2. O tipógrafo perfeito tem tipos de todas as espécies. Efetivamente. não o devem oferecer de modo confuso.COMENIUS (tais como nós queremos) é muito grande.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Do mesmo modo. de um dia e de uma hora. para que os outros não sejam ocasião de distração e de confusão. Finalmente.

de dois gêneros: verdadeiros livros de texto para os alunos. mas não deixam.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . a qual não dá a ninguém a possibilidade de não receber a cultura ministrada. quando estão enxutos. são realmente mudas. senão vestígios cegos. 16. Dois gêneros de livros didáticos. não pode fugir ao prelo (embora o papel www. Portanto. Os livros didáticos serão. os livros de texto. usam óleo puríssimo e pó de carvão de noz).COMENIUS linhas. permanecem também (pela ação do prelo) impressos no papel. mediante um método didático suave e simples. para que nada fique fora de proporção. mas. colocam diante delas. assim também as coisas que os mudos professores das crianças. não é feita com água. isto é. desaparecem. e assim. Finalmente. finalmente. devem escrever­se para uso deles Livros­ roteiros que os aconselhem quanto ao que hão­de fazer. pouco depois. assim como na imprensa qualquer papel. e juntamente consigo. aquilo que para os tipógrafos faz o prelo. no espírito dos alunos. que deve transformar­se em livro. Do mesmo modo.org/eLibris/didaticamagna. os alunos entendem verdadeiramente aquilo que aprendem. assim como os caracteres. assim também a voz do professor. nas escolas só a disciplina o consegue realizar. é necessário dar normas. Efetivamente. deve insinuar as coisas. tornam­se cheios de vida.ebooksbrasil. quando aos livros se junta a voz do professor (que explica tudo racionalmente. e tudo ensina a pôr em prática). e livros­roteiros (informatorii) para os professores. Dissemos que a tinta didática é a voz do professor. todavia. 17. A disciplina é o prelo didático. nele imprimem imagens visibilíssimas e quase indeléveis. mas com óleo (e aqueles que desejam receber o grande elogio de serem verdadeiramente artistas tipográficos. as linhas em colunas. embebidos de tinta. como óleo finíssimo. para que se não caia em erro. segundo a capacidade dos alunos. E como a tinta da imprensa é diferente da que se usa com a pena. ou seja. mas. deve insinuar­se. em que lugar e de que modo. que. para que aprendam a servir­se bem daqueles. 15. em conformidade com as quais executem as suas obras. portanto.html 305/357 . obscuras e imperfeitas. imprimem­se profundamente nos seus espíritos. Que é a tinta didática. aos educadores da juventude.

em cada ano. Efetivamente. pois. para que. Quantos deverão ser os exemplares de um dado livro. de preferência a fazer­se na Primavera ou noutra altura). Em segundo lugar. Disse também que se requeriam trabalhos determinados. o programa de cada classe possa ser desenvolvido e todos os alunos (a não ser que a deficiência mental de alguns o impeça). e deverá manter­se o mesmo número de folhas. Finalmente. Confronto proporcionado dos trabalhos. que todas as escolas públicas se abram e se encerrem uma vez por ano (temos razões para aconselhar que isso se faça no Outono. o castigo. conduzidos em conjunto para a meta.COMENIUS mais forte seja apertado mais fortemente. para que os eduque e instrua com os mesmos preceitos e os forme gradualmente. à terceira.org/eLibris/didaticamagna. 19. a repreensão. sem o aumentar nem o diminuir. outras tantas deverão ser as folhas a encher com o mesmo texto e com os mesmos caracteres. não admitindo nenhum na escola depois do princípio das lições. assim também quem vai à escola para se instruir deve sujeitar­se à disciplina comum. sejam promovidos em conjunto à classe superior. desde o princípio do livro até ao fim. e sem outro fim que não seja tornar todos os alunos punidos mais desejosos de tudo fazerem com a maior seriedade.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .ebooksbrasil. de outro modo. e que todos aprendam tudo. Será necessário. Do mesmo modo. o nosso método didático exige necessariamente que todos os alunos de uma escola sejam confiados ao mesmo professor. tirada a primeira folha para todos os exemplares. precisamente como acontece nas tipografias. para qualquer parte que se voltem. sem lacunas nem interrupções. alguns exemplares resultam defeituosos. portanto. é necessário acompanhá­las com os olhos. Assim se conseguirá que um só professor seja suficiente para uma população escolar mesmo muito numerosa. como a diligência e a inocência das crianças nunca nos oferecem uma confiança segura (são filhos de Adão). e o mais delicado mais delicadamente). se recusam obedecer aos sinais de repreensão e às advertências.html 306/357 . 18. desde o princípio até ao fim. Mas todas estas penas disciplinares devem ser aplicadas com prudência. e assim www. uma atenção contínua. se passa à segunda. com a qual se chamam ao caminho da razão e da obediência aqueles que exorbitam. nem deixando que nenhum se vá embora antes do fim. feitos de modo determinado. Resumirei também este assunto em breves palavras. Os graus da disciplina são os seguintes: primeiro. em que.

lendo­a.COMENIUS sucessivamente. e assim. para que a sua imagem fique claramente impressa no papel. Temos boas razões para aconselhar que se não dispendam a trabalhar nas escolas públicas mais de quatro horas por dia: duas antes e duas depois do meio dia. 21. Feito isto. www. as colunas e os parágrafos claramente distintos. em cada ano. em um dia e em uma hora. no capítulo XIX. 23. quantas coisas se podem ensinar e aprender. teremos 22 horas semanais de aula e (concedidos ainda os feriados necessários para as festas mais solenes) teremos cerca de mil horas por ano. com certos espaços vazios (requeridos. ensinámos que devia fazer­se.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Terminada a paginação da obra que deve ser impressa. em um mês. é impossível que cada classe não percorra todo o seu programa. vai buscar­se o papel e estende­se no seu lugar próprio. quer pela necessidade.html 307/357 . utilizando os processos de que falámos no mesmo capítulo. não atinja a sua meta. o professor coloca os alunos diante dos seus olhos. Efetivamente. se se procede sempre metodicamente. E se ao Sábado se fizer feriado de tarde e o Domingo for todo consagrado ao culto divino. para recreações honestas.. E. Também o professor ilustrará sempre com a própria voz a lição que dá em determinada hora. quer por uma melhor visão). Mas o papel. embebem­se de tinta os tipos metálicos. 5. para que se torne mais apto para receber a impressão. Do mesmo modo. 20. de determinada duração.ebooksbrasil. para que esteja à mão e não haja nada que atrase os trabalhos. para que os veja e para que todos o vejam sempre.org/eLibris/didaticamagna. Os livros mais elegantemente impressos têm os capítulos.. 4. Também o método didático deve necessariamente prescrever períodos de trabalho e períodos de repouso. importa na escola incitar constantemente os alunos a que estejam atentos. tanto marginais como interlineares. costuma humedecer­se e amolecer­se. como. esse método prescreve programas para serem desenvolvidos em um ano. 22. de modo a poder entender­se tudo claramente. E se se observarem bem estas prescrições. questão 1. relendo­a e explicando­a. em mil horas. Igualmente.

26.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Depois de impressas as folhas. com grande proveito para a prosperidade das coisas humanas.COMENIUS 6. quando os inspetores das escolas verificarem o aproveitamento dos alunos. para que. mande fazer o mesmo a cada um dos alunos. é legítimo esperar aquilo que os oráculos divinos nos www. o professor. eles o sigam. sem defeitos e em estado de serem expedidos e postos à venda. uma de cada vez. expõem­se ao ar e ao vento. depois de ter mostrado suficientemente o sentido de um trecho. 24. Por agora. Do mesmo modo. 7. 8. debaixo do prelo. no fim do ano. fiquem ditas estas coisas de maneira geral. para que possa ver­se claramente se os exemplares estão completos e íntegros. E porque nos esforçamos por multiplicar a instrução cristã. Conclusão. até que se tenha a certeza de que todo o programa se fixou na mente dos alunos. veículos da instrução. de exames e de «sabatinas». à medida que ele avança. para que os caracteres metálicos imprimam a sua própria figura em todas e em cada uma das folhas. Isto mesmo farão os exames públicos. 27.html 308/357 . as folhas são colocadas. 25. para infundir em todas as almas consagradas a Cristo a piedade. o saber e a honestidade dos costumes. recolhem­se todas as folhas impressas e põem­se em ordem. assim como. 26). para que sequem. Na escola. Neste momento. faça­se a ventilação das inteligências por meio de repetições. Imediatamente a seguir. que são a prova de que tudo o que devia ser aprendido foi. completamente aprendido. assim também. de fato. e passem do estado de discentes ao de cientes. descoberta a didacografia (<grego>) ou método universal (<grego>) é possível multiplicar os jovens instruídos. Por último. se multiplicaram os livros. para constatarem a sua solidez e a sua coesão. 6. descoberta a arte tipográfica.org/eLibris/didaticamagna.ebooksbrasil. e mostrado com alguns exemplos a facilidade de o imitar. segundo a máxima «a multidão dos sábios é a salvação do mundo» (Sabedoria. de serem lidos e utilizados. basta ter feito ver que. reservem­se as coisas mais particulares para ocasiões particulares[2]. terminada a tiragem do livro.

como o mar está cheio de água» (Isaías.html 309/357 . www.org/eLibris/didaticamagna.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .ebooksbrasil. 11.9).COMENIUS ordenam que esperemos: «que um dia a terra se encha do conhecimento do Senhor.

ou em qualquer escola particular. assim. até agora. 2.ebooksbrasil. privado de auxílios. pouco adiantou: ou foi acolhido pelas gargalhadas dos ignorantes. no decurso de tantos séculos. Importa pôr em movimento uma máquina preparada para se pôr em movimento. tornar­se uma realidade. Desde há mais de cem anos. Se alguém. 3. a construir sobre bons fundamentos. ou coberto pela inveja dos malévolos. espalhou­se uma grande quantidade de lamentações sobre a desordem das escolas e do método. não advirta como seria feliz a condição dos reinos e das repúblicas cristãs. É necessário. começou a fazer qualquer coisa. e. se fossem criadas escolas tal como nós as preconizamos. portanto. ponderada sob todos os seus aspectos a importância da nossa causa. com a ajuda de Deus. mas possam. Creio que já não haverá ninguém que. Creio dever agora acrescentar o que me parece indispensável para que os meus projetos não continuem apenas projetos.html 310/357 .org/eLibris/didaticamagna. com efeito. Mas com que proveito? As escolas permaneceram tais quais eram. todas as tentativas têm resultado vãs. ou então. pensou­se ansiosamente nos remédios. de qualquer maneira.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . ou ao menos. 1. ninguém tenha tido a ousadia de remediar os costumes tão bárbaros dos colégios e das academias[1]. Não sem razão. e. mas primeiro importa afastar com prudência e fortaleza www. seja posta em movimento. procurar e encontrar um processo pelo qual uma máquina tão bem construída. sobretudo nos últimos trinta anos. sucumbiu ao peso dos trabalhos. particularmente. Também por causa das escolas. João Cecilio Frey se admira e se indigna de que.COMENIUS Capítulo XXXIII DOS REQUISITOS NECESSÁRIOS PARA COMEÇAR A PÔR EM PRÁTICA ESTE MÉTODO UNIVERSAL Lamenta­se que as boas idéias nem sempre são postas em prática.

se não são afastados. N. e que podem continuar a impedir­lho. Mas facilmente pode encontrar­se remédio para tais dificuldades. pode tornar­se inútil toda uma máquina tão bem construída.COMENIUS os obstáculos que até agora lhe têm impedido o movimento. E. se tivessem de fixar­se em todas as cidades. Efetivamente. Por exemplo: primeiro. já aceite nas escolas. (Efetivamente. se está presente. abertas escolas por toda a parte. No entanto. apenas falta uma coisa: pessoas idôneas que a saibam inculcar na juventude). possam dirigi­las de modo que produzam o sólido fruto por nós desejado. 4. de menor importância. Aqui está o principal da questão.B.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . 7.html 311/357 . e outras coisas parecidas. Podem notar­se os seguintes impedimentos. 5. com que subsídios poderiam ajudar­se os filhos dos mais pobres a freqüentar a escola? 4. um homem eminente escreveu­nos dizendo que. 6. é fácil encontrar www.org/eLibris/didaticamagna. ou que aprendessem facilmente a desempenhar as suas funções em conformidade com os nossos planos. Uma só coisa é de extraordinária importância.ebooksbrasil. pois. fornecendo o material tipográfico. 1. pode pô­la toda em movimento: uma provisão suficiente de livros pan­metódicos[3]. acerca da nossa Porta. 5. Cinco impedimentos à reforma das escolas universais. falta de pessoas conhecedoras do método. ou. em muitos lugares. Sobretudo. da mesma maneira que. as quais. em todas as aldeias e em todos os lugares onde nascem e se educam homens para Cristo? 3. além disso. parece serem de temer os pseudo­sábios. se ela falta. 2. mesmo que houvesse professores assim competentes. como seria possível remunerá­los convenientemente. cujo coração se compraz na rotina dos velhos hábitos e que olham tudo quanto é novo com um franzir de sobrancelhas e uma pertinaz relutância. 8.

que. uma sociedade de pessoas escolhidas. é necessária a autoridade e a liberalidade de qualquer rei. aos pais. inflamai­ vos de zelo e nunca cesseis de rogar ao Deus dos deuses pelo feliz sucesso da nossa empresa.org/eLibris/didaticamagna.COMENIUS quem o possa. 11. portanto. e talvez até. e nela colaborando. cada um segundo os seus meios. É necessária. E esta preparação depende da constituição de uma sociedade de homens doutos. saiba e queira utilizar. Estas pessoas têm necessidade do favor. Mas esta empresa não pode ser obra de um só homem. da ajuda e da autoridade pública. enquanto ouvis que se discutem estes salutares projetos. portanto. ardorosos para o trabalho. uma vez preparados os meios necessários para a pan­ didática. com os vossos votos. os promotores e os diretores de que ela precisa. caríssimos pais. mas antes todos se esforcem por serem ministros da benignidade divina. de uma biblioteca e de todas as outras coisas indispensáveis. de um local tranqüilo e solitário. a cuja fé Deus confiou preciosíssimos tesouros. É necessário um colégio de doutores que coopere na realização da empresa. Por isso. que visa devotamente a aumentar a glória de Deus e a salvação dos homens. não seja suficiente a vida de um homem. Para constituir. disposta a fazer­nos participantes de si mesma por processos sempre novos e com tanta liberalidade. tratando­se de um projeto tão santo. insisti com as vossas súplicas. porém.ebooksbrasil. ninguém procure contrariá­lo. esta sociedade. e quem ofereça qualquer soma para imprimir bons e úteis livros. 10. e não tem conhecimento de tudo aquilo que é necessário colocar na pan­metódica (<grego>). vós. principalmente se está ocupado em outras coisas. príncipe ou república. as suas pequeninas imagens vivas. Importa.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . com os vossos sufrágios e as vossas solicitações www. hábeis. Portanto. associados para levar a bom termo uma empresa tão santa. e quem compre esses livros. Súplica 1. de preço acessível e de grande utilidade. 9. assim também seria fácil. se tudo se fizer dentro da máxima perfeição.html 312/357 . encontrar os fautores. o ponto central de toda esta questão está na preparação de livros pan­metódicos. para realizar tal trabalho.

ai daquele que. inflame e ilumine brilhantemente toda a nossa pátria.org/eLibris/didaticamagna. sendo vós chamados «a plantar os céus e a fundar a terra» (Isaías. e mesmo até os vossos archotes e os vossos foles. 25). também aos outros. 51. recusá­la­ia» (Carta 27)[4]. Se Ele quer que o seu fogo arda. que afirma: «Desejo transfundir nos outros tudo aquilo que sei». 16). 2. 3. preparando assim dignamente o caminho para aquela cultura mais universal. Efetivamente. Não negueis. da denigração e da oposição. de modo a ganharem outros. entretanto.29). não traz senão talvez os fumos da inveja. e esforçai­vos por fazer progredir também os outros na instrução. com o vosso prudente conselho. não hesiteis em trazer também as vossas centelhas. portanto. conforto das vossas fadigas. Temei. para que possais julgar destas coisas e. entregando­vos os seus filhos. 11. formadores da juventude. Vós também. e como ameaça os preguiçosos que enterram os seus talentos! (Mateus. 13. Lembrai­vos da remuneração que promete aos servos bons e fiéis que empregam os talentos que lhes foram confiados para negociar. 49). podendo trazer qualquer coisa para inflamar essas chamas.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . e que quero eu. que com fé consagrais os vossos esforços a plantar e a regar as pequeninas plantas do paraíso. portanto. Sirva­vos de estímulo o exemplo de Sêneca.html 313/357 . assim como a confiança em vós depositada pelos pais. www. Aos formadores da juventude. E vós também. Às pessoas ilustradas. até que o fogo desta luz. mas dizei antes com Moisés: «Quem me dera que todo o povo de Deus profetizasse!» (Números. para atiçar melhor este fogo sagrado. seja como que um fogo na medula dos vossos ossos que vos não dê a paz e. E igualmente: «Se a sabedoria me fosse dada com a condição de a manter fechada e de a não comunicar. de todo o povo cristão. 12. a ninguém. que só vós sejais instruídos. melhorar sempre mais os projetos bem ideados. poderá acontecer­vos coisa mais agradável que ver o fruto abundantíssimo das vossas fadigas? Que esta vossa celeste vocação. fazei sérios votos para que essas pequeninas plantas. Que cada um de vós pense nestas palavras de Cristo: «Eu vim trazer o fogo à terra. se tornem belas o mais cedo possível e se preparem para serem úteis no máximo grau. a quem Deus dotou de sabedoria e de juízo penetrante. senão que ele se acenda»? (Lucas. educai os vossos filhos no temor de Deus. por meio de vós.COMENIUS junto dos magnates e das pessoas instruídas.ebooksbrasil. 12. pessoas instruídas. o vosso saber e a vossa sabedoria.

«mesmo um camponês diz coisas muito oportunas. e tu ouves a sua voz. depois de ti. exortando. que.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . porque. aconselhando. que quem o governava efetivamente»[6]. és obrigado. nem para onde vai»[8]. Na verdade. E Cristo disse também: «O espírito sopra onde quer. às vezes. não só a servir pessoalmente a Deus. E que ninguém pense que isto não é obrigação sua. nem pela confiança na minha inteligência. suplico­vos. nós. pelo fato de virem de um homem menos instruído que ele. à Igreja e à Pátria. como disse Crísipo[7]. para honra de Deus e proveito das gerações futuras. pensaria mal se julgasse que estava dispensado da obrigação comum de favorecer a reorganização das escolas. e àquele que te chamou. as nossas www. se queres ser fiel à tua vocação. Efetivamente.COMENIUS Uma vez que. 14. Se alguém. públicas e particulares. formar bem a juventude. corrigindo. e talvez o que tu não sabes o saiba um burrinho».ebooksbrasil. portanto. A Sócrates foi tributado louvor. para que tudo aquilo que. nem pela esperança de daí tirar algum proveito pessoal. havemos de estar para aí ociosos.html 314/357 . haja quem faça o que tu fizeste. não se excetua ninguém. Peço também e suplico. nem pela sede da fama. Condenação de um preconceito e súplica aos doutos. estimulando. Um só espírito nos anime. não deixe de o fazer. preferiu dedicar­se à educação da juventude. mas também a procurar. seja quem for. dizendo «que era mais útil ao Estado quem tornava muitos cidadãos idôneos para o governo do Estado. Juro diante de Deus que não fui movido a fazer estas coisas. como homem prudente. enquanto os outros estão vigilantes? Neste assunto. que não ignoramos isto. mesmo que algum pudesse julgar que não nasceu para a escola ou ainda que não foi destinado para as funções da vocação eclesiástica. em nome de Deus. podendo prestar utilmente o seu contributo à pátria. exercendo qualquer outro cargo. advertindo. estimula­me de tal maneira que não posso deixar envolto no silêncio aquilo que um oculto instinto me sugere constantemente. os nossos votos. Na verdade. possa trazer para a realização de um objetivo tão comum e tão salutar. 15. mas não sabes de onde ele vem. é formar também e reformar a Igreja e o Estado[5].org/eLibris/didaticamagna. podendo fazer andar para a frente os nossos desejos. que nenhum douto despreze estas coisas. e àqueles para os quais foste enviado. política ou médica. mas o amor de Deus e o desejo de tornar melhores as coisas dos homens.

tomemos antes exemplo uns dos outros. que ourives se não alegra.ebooksbrasil. não entre sequer no coração de um de vós! Sois condutores dos outros para a caridade. os cordeiros (João. lhes faz resistência e os combate. mas também os seus cordeiros. E a razão disto é que os pastores apascentam mais facilmente as ovelhas que os cordeiros.html 315/357 . pois facilmente vejo que vós. Mas nós esperamos coisas melhores e mais condizentes com a vossa dignidade. detêm o primado»[9]. ó teólogos. não é egoísta. portanto. Que a inveja. a vós www. se da fábrica lhe é fornecido ouro puríssimo? Qual é o sapateiro que não prefere trabalhar com couros e peles bem curtidas? Sejamos. 21. Aos teólogos. com a vossa autoridade. não só as suas ovelhas. Se alguém prefere alunos rudes. 15). para que encontremos os instrumentos da verdade»[12].org/eLibris/didaticamagna. de direito e de fato.[11]. ó dominadores dos povos e governantes. que em nome de Deus presidis às coisas humanas. ó servos do Deus vivo. Venho a vós. saiba que declarará guerra. sem dúvida trai a própria ignorância! Com efeito. em vez disso. para que (segundo as palavras de S. não é ambiciosa. etc. Dirijo­me também a vós. Súplica contra a inveja. 16. e desejemos que as escolas nos forneçam alunos o mais bem formados possível. a qual não sente rivalidade. porque as ovelhas estão já habituadas às pastagens da vida. não a nós. 5. Não sintais inveja. Se vos agradar mais detê­la. Aos governantes. filhos da luz[10]. verificar­se­á aquilo que S. Deveis pensar que o Senhor confiou a Pedro que apascentasse. prudentes nas nossas empresas. à sua consciência e à natureza humana que quer que os bens públicos sejam comuns. também nós. podeis fazer muito para promover ou para deter a minha empresa. Bernardo costumava dizer: «Cristo não tem inimigos mais nocivos que aqueles que tem à sua volta. não pensa mal. e do cajado. de entre estes. 17. e. 4. que regula a disciplina. em primeiro lugar.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . nem que aqueles que. Gregório) «todos cheios de fé possamos conseguir tocar qualquer coisa em honra de Deus. em virtude da ordem que regula o rebanho. mas a Deus. se os outros fazem o que nem sequer vos veio à cabeça. 18.COMENIUS advertências e os nossos esforços.

I. no meio de tão horrendo dilúvio de confusões mundanas. etc. os materiais necessários (Reis. quando homem feito. 29). devem gastar­se cem para educar bem um só jovem. trata­se de algo muito mais importante. está. a quem. para edificar cidades. Vós sois os Davides e os Salomões que têm a obrigação de chamar os arquitetos para construir o templo do Senhor. com abundância. de santa memória. por Cristo. Lutero. para que este. e. Peço­vos. para que os artistas. 13). pois mostra­se o caminho verdadeiro. ou sobre o modo de conduzir o Estado e os particulares a uma maior prosperidade e segurança. 19. porque vós sois os Noés.. Súplica aos mesmos. se gasta uma só moeda de ouro.ebooksbrasil. Se. escreveu com razão: «Quando. se vós amardes as suas criancinhas e para elas construirdes sinagogas (Lucas. se viesse alguém prometer­vos conselhos sobre o modo de fortificar. no nosso caso. de tornar navegáveis todos os nossos rios e de os encher de mercadorias e de riquezas. mais que nas portas de bronze e nos ferrolhos de ferro. mais que nos esplêndidos palácios. Crônicas.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . 36).. achamos que são sábias estas palavras quando www. o homem bom e sábio (acrescenta Lutero) é o mais precioso tesouro de todo o Estado. mais que nos montes de ouro e de prata. pela salvação dos nossos filhos. suplico­vos. mas até lhes ficariam gratos por se ter mostrado tão devotamente solícito do vosso bem­estar e do dos vossos concidadãos. monumentos e arsenais. para a conservação da semente santa. com abundância. pois diz respeito à glória de Deus e à salvação dos povos. e de lhes fornecer.html 316/357 . não somente ouviriam esse conselheiro. 6). os vossos ouvidos. se. fortalezas.[13] (Estas idéias concordam com as de Salomão: Eclesiastes. para negócios deste gênero ou outros semelhantes. a divina providência encarregou de construir a Arca (Gênesis. muito séria. que Cristo amará. não sejam constrangidos a retardar os trabalhos que devem executar (Êxodo.COMENIUS principalmente se dirigem as nossas palavras. 7. escutai­me! A coisa e séria. que o Senhor encheu do seu espírito. exortando as cidades da Alemanha a erigir escolas. Efetivamente. Estou convencido da vossa devoção. concorrer com as vossas ofertas para a construção do santuário. Vós sois os centuriões. sobre o modo de instruir toda a juventude na arte militar. homens tais que. pois nele. com pequena despesa. portanto. todas as nossas cidades. repito. ó pais da Pátria. I. 5).org/eLibris/didaticamagna. 9. uns após outros. servirão a Pátria sem fim. 6. certo e seguro de conseguir. possa guiar os outros pelos caminhos da honestidade.. mais que os outros. Ora. a fim de que excogitem coisas engenhosas. Vós sois aqueles Príncipes que deveis.

não subirei ao estrado do meu leito. Tu. nem repouso às minhas pálpebras. Confirma. as vossas portas e desempedi as portas do mundo. tudo veio das tuas mãos. 9). e deles não há adiamento. dai ao Senhor e Ele vos retribuirá a cem por um. que haverá então de dizer­se. para que entre o rei da glória» (Salmo 24. que conosco habita na terra a sua glória? Exortação. dá­nos um coração alegre para servirmos a tua glória. que tudo recebemos só das tuas mãos? Somos peregrinos e forasteiros diante de ti. 7). ó Senhor. nosso Deus. é tua a magnificência. 2­5). 29). não darei sono aos meus olhos.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . 2. ó Deus. nosso Deus. a nenhuma despesa. Com efeito. teu é o reino. 21. ó Senhor. cada um dentro das suas possibilidades. nas tuas mãos está magnificar e confirmar seja o que for. Com efeito. assim como todos os nossos antepassados.org/eLibris/didaticamagna. Tudo o que existe no céu e na terra é teu. mas enviá­los como que em torrente? Quando se vê que a sua salutar ajuda se aproxima tanto. uma morada para o seu Tabernáculo» (Salmo 131. Não olheis. 29). 20. quando se escancara a porta para uma cultura tão universal e tão certa de absolutamente todos os espíritos? E quando Deus promete infundir em nós os seus dons. os nossos dias sobre a terra são como uma sombra. Sejam diáfanas as tuas obras para com os teus servos e as tuas belezas para com www.ebooksbrasil. esta promessa ao Deus de Jacob: Não entrarei na tenda da minha casa. e tu estás acima de todos os príncipes. Seja cada um de vós aquele David que «fez este juramento ao Senhor. Dá aos teus Salomões um coração perfeito para fazerem tudo o que conduz à tua glória (Crônicas. todavia. a força e a potência. não gota a gota.html 317/357 . tua é a glória. Efetivamente. portanto.COMENIUS afirmam que nada se deve poupar para educar bem um só jovem. Trazei ao Senhor. Oração a Deus. embora exija com todo o direito quem diz: «É minha a prata e é meu o ouro» (Ageu. 10). Ó Senhor. que somos nós. trazei­lhe glória e honra. aquilo que em nós operaste (Salmo 67. «Abri. 3. e não lançarei sobre vós as bençãos até à abundância» (Malaquias. até que encontre um lugar para o Senhor. portanto. ó princípes. é cheio de benignidade aquilo que acrescenta (exortando o povo a edificar o seu templo): «Fazei a prova para ver se eu não abrirei para vós as cataratas do céu. a glória e a vitória. ó filhos dos fortes. I. a força. Tuas são as riquezas. aquilo que preparamos em honra do teu santo nome.

nosso Deus. Finalmente. ó Senhor. e que seja Ele a dirigir as obras das nossas mãos (Salmo 90. 16). não sejamos confundidos eternamente.org/eLibris/didaticamagna. Esperámos em ti.html 318/357 . www. esteja conosco a suavidade de Jeová. Amen.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .COMENIUS os filhos deles.ebooksbrasil.

. [7] ­ STEPHANUS RITTER. Patrologia Graeca. in qua de Latina língua compendiose a pueris addiscenda exponitur. De divinatione. 1617. de colaboração com Ratke. uma Didática. [8] ­ ELIAS BODINUS. wie heutigen Tages der studirenden Jugend die rechten fundamenta verruckt und entzogen werden. 35.). pars II. Chaldaicae. Hamburgo. das ist wohlmeinender und in der Vernunft wohlbegründeter Unterricht. 1626 (Cf. 1616. 425). publicada postumamente: Christophori Helvici. durch was Mittel und Weis die Jugend die lateinische Sprach mit viel weniger als sonsten anzuwendeten Müh und Zeit fassen und begreifen möge. Leipzig. 71 e ss. [5] ­ EILHARDUS LUBINUS (1565­1621). Bericht von der Natur­und vernunftsmessigen Didactica oder Lehrkunst: Nebenst bellen and sonnenklaren Beweiss. Comênio cita pela 2a. Jungius: Kurzer Bericht von der Didactica oder Lebrkunst Wolfgangi Ratichii. 1621.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . epistola. [2] ­ Melanchthon a Camerarius. Corpus Reformatorum (Ph.ebooksbrasil. II. Glessen. STÖTZNER. 481. c. Halle. [4] ­ RATKE (1571­1635) era bem conhecido de Comênio pelos relatos dos seus colaboradores Ch. Ratichianische Schriften. www. apolog.COMENIUS Notas do Tradutor Saudação aos Leitores [1] ­ CÍCERO. Helwig e J.org/eLibris/didaticamagna.. [3] ­ S. Cum praeliminari.. col.html 319/357 . Hebraicae. Lib. Oratio sec.. 1614. edição: Rostock. § 4. libri didactici grammaticae universalis Latinae.. (Estes dois estudos foram reimpressos por P. Melanch. 16 (MIGNE. Leipzig.). Nova Didactica. em 19 de Setembro de 1544. 2. Opera Omnia. col. 1619. Opera Didactica Omnia. Graecae. GREGÓRIO NAZIANZENO. una cum generalis Didacticae delineatione et speciali ad colloquia familiaria applicatione. 1621. vol. 1892­93).. e Artickel auff welchen führnehmlich die Ratichianische Lehr Kunst berubet. Novi Jesu Christi Testamenti Graeco­Latino­Germanicae editionis pars prima . [6] ­ CHRISTOPH HELWIG (1581­1617) escreveu.. 1834 e ss. V. Glessen.

1619.. hoc est nova et compendiosissima ratio informandae pueritiae a primis litterarum (linguae Latinae et Germanicae) elementis usque ad perfectam grammatici sermonis cognitionem. 1649. De anima liber. Via ad divas scientias artesque. [13] ­ JANUS CAECILIUS FREY. Ephemerides totius línguae latinae unius anni spatio duabus singulorum dierum profestorum horis juxta praemissam didacticam ex vero fundamento facili methodo docendae et discendae.. Leipzig. 1619.org/eLibris/didaticamagna. [10] ­ EZECHIEL VOGEL. sermones extemporaneos nova et expeditissima. [11] ­ JACOB WOLFFSTIRN. e a Utopia «Christianopolis» ­ Reipublicae Christianopolitanae descriptio. www. 16c. VAL. 2a. Estrasburgo.. 24. in qua de latina lingua compendiose a pueris addiscenda exponitur. col. Cum praeliminari. Glessen. p. 1641). epistola. [15] ­ EILHARDUS LUBINUS (1565­1621). 1621. 1631.. Stuttgart. 81). (Cf. [16] ­ Salmo 8. Bremen.ebooksbrasil. 3.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Dos escritos deste teólogo de Württernberg.a ed.html 320/357 . línguarum notitiam. ANDREA (1586­1654). pars II.. Paris. Schola privata. ed. Opera Didactica Omnia. têm interesse pedagógico: Theophilus sive Consilium de Christiana religione sanctius colenda. Disputatio Castellana de methodo docendi artem quamvis intra octiduum. [14] ­ TERTULLIANUS. vita temperantius instituenda et literatura rationabilius docenda. 1628. (2. Novi Jesu Christi Testamenti. [12] ­ JOH..COMENIUS [9] ­ PHILIPP GLAUM.

www. 28. 4.. [6] ­ Salmo 36.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . 24: naturam expellas furca. tamen usque recurret.. [4] ­ Salmo 35.. I.org/eLibris/didaticamagna. 10. 12. 17.html 321/357 . [5] ­ Apocalipse. [2] ­ Atos dos Apóstolos.ebooksbrasil.COMENIUS A todos aqueles. 10. [1] ­ Cântico dos Cânticos.. Epist. 14. 2. [3] ­ HORÁCIO. 10.

. 29. GESSNER. 12. [3] ­ Mateus. Zurich.org/eLibris/didaticamagna. [2] ­ JOÃO STOBAIOS. De divinatione. II. 11. V. muito divulgada. Edição de A. todavia. 103. 4.COMENIUS Utilidade da Arte Didática [1] ­ CÍCERO. Leipzig. 1706. p. 1855. 16). ANDREA. de C. (ed. Theophilus. 39.ebooksbrasil. onde. Anthologion (Florilegiu). Diotógenes. www. 1543. 2.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Lucas. Comênio utilizou provavelmcntc a tradução. [4] ­ J. II. mas ao discípulo de Protágoras. cap. MEINEKZ.html 322/357 . de Leipzig. não a Diógenes. 95: (<grego>). o termo é atribuído.

Chil.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . edição de J. 95 (Opera Omnia.ebooksbrasil. Esta máxima e a sua história foram extensamente elucidadas por ERASMO. VI. 1. nos Adagia. 1703. cent.org/eLibris/didaticamagna. vol. CLERICUS.COMENIUS Capítulo I [1] ­ Pítaco é um dos sete sábios da Grécia. 258).html 323/357 . Leide. p. www. II.

html 324/357 . FESTUS. p. 21).ebooksbrasil. 1913.org/eLibris/didaticamagna. M. Leipzig.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . P.COMENIUS Capítulo II [1] ­ S. www. LINDSAY. De verborum significatu: «abitio» (ed. de W.

3 e Lucas. De natura deorum. 28. [5] ­ Cfr. LUÍS VIVES (1492­1540). I. 2. 11. 398. de J. de BEKKER. 6. embora não à letra.html 325/357 . 720 b). lib. 430 a) [12] ­ CÍCERO.COMENIUS Capítulo V [1] ­ Efésios. 92. 117. [6] ­ ARISTÓTETES.org/eLibris/didaticamagna. vol. ed. 3 (cd. II. [19] ­ HORÁCIO. Comênio cita por outra edição. BELTRAM. Patrologia Latina. 50. De concordia et discordia ia humano genere. p. Epist. www. [18] ­ Marcos. 1555. [4] ­ SÊNECA.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . [16] ­ CÍCERO. Roma. [13] ­ ARISTÓTELES. 308 e s. de BEKKER. 95.ebooksbrasil. Mateus. em Opera Omnia. 48. IV. Basileia. [10] ­ Por exemplo. III. Physicae Synopsis. p. [9] ­ SÊNECA. 1914. [17] ­ LACTÂNCIO. 1931. 42. ed. 5. [8] ­ Livro da Sabedoria. § 29­30. XI. [11] ­ ARISTÓTELES. 4 (ed. no Princípio (Academia de Berlim. 39 e s. 242). <grego>. de BEKKER. col. 182. 8. de O. III. p. 20. [15] ­ No cap. Epist. 14. IV. HENSE. I. § 2 (MIGNE. [2] ­ J. BERNARDO. 980). encontra­se o sentido desta frase. 1. 1. Divinarum institutionum. de A. 764.ed. I. [14] ­ SÊNECA. Metafísica. Epístola 106. 10. 13. [3] ­ O que está entre parêntesis é um aditamento de Comênio. [7] ­ S. 2. Tusculanarum Disputationum. Epist. De beneficiiis. Leipzig. IV do Timeu. REBER. 3. II. <grego>. vol. 21. ed. I.

Oper. L. www. 12. Paris.COMENIUS Capítulo VI [1] ­ Numerosos relatos sobre descobertas deste gênero podem ler­ se em J. [5] ­ PLATÃO. University of Denver Publications. Wolf children and feral man. De vitis philosophorum. 75. SINGH e R. CAMERARIUS. ZINGG. M. Nova York e Londres. [4] ­ SIMON GOULART. Nesta obra. VI. § 65.org/eLibris/didaticamagna. Leis. [2] ­ Não foi possível localizar esta passagem em Dresser. VI. 1602. etc.ebooksbrasil. 1600.html 326/357 .7/8/13 DIDACTICA MAGNA . [3] ­ PH. 766 a. A. há um capítulo intitulado Enfans nourris parmi les loups. 1941. I. Trhèsor d’histoires admirables. horarum subcisivarum cent. [6] ­ DIÓGENES LAÉRCIO. Frankfurt.

org/eLibris/didaticamagna. Epist. 2. www. [2] ­ SÊNECA. Cato Maior de Senectude. Epist. [3] ­ HORÁCIO. c.COMENIUS Capítulo VII [1] ­ CÍCERO. 4. 36. § 78. 21.ebooksbrasil. 69.html 327/357 . I.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .

448). A. W. III. 15.org/eLibris/didaticamagna. [3] ­ OVÍDIO.COMENIUS Capítulo VIII [1] ­ Cfr. Antiquilatum judaicarum.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . [2] ­ FLÁVIO JOSÉ. 34 (Clemen.html 328/357 . 106. www. I. MARTINHO LUTERO. 2.ebooksbrasil. 595 e s.. Ars amatoria.

Georg. 2. VI.org/eLibris/didaticamagna. Hyppolitos. 1. V. Romanos. 11. 44. 39. 40.). 1.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . De spiritu et littera (MIGNE. 17. 640 e ss.COMENIUS Capítulo IX [1] ­ Deuteronômio. 448­450.html 329/357 . [4] ­ Eclesiástico. [6] ­ EURÍPEDES. Pedro. Patrologia Latina. [2] ­ SANTO AGOSTINHO. vol. 145 C s.ebooksbrasil. 1. www.. [5] ­ JUVENAL. col. [3] ­ VIRGÍLIO. 199 e ss. 17. I.

[6] ­ Livro dos Provérbios. Leges illustris gymnasii Lesnensis. 15. Basileia. [5] ­ Embora não literalmente. coelique et terrae plantarium. Ratione morum. reparandamque in nobis totam divinam imaginem. 28. [8] ­ Entre esses outros lugares: Livro dos Provérbios. 9. ut per prophetam loquitur Deus» (Pars III. col. 3­4).org/eLibris/didaticamagna. Foi ridicularizado por Erasmo no diálogo «Ciceronianus». [2] ­ G.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . 1530 (ed. [7] ­ Cfr. 36 e s. mas a sua interpretação do Universo como harmonia e número. Bermannus sive de re metallica libri XII. Comênio escreveu que isto fora afirmado por um profeta: «Verbo.COMENIUS Capítulo X [1] ­ Aqui Comênio tem em vista. ou se era preferível adaptar o latim à evolução das várias épocas. [3] ­ CHR. humanitatis officina. Berlim.ebooksbrasil. totum hominem esse formandum ad humanitatem. o sentido desta frase encontra­se na Apologia de Platão. ad archetypi sui similitudinem: ut schola haec esse incipiat vere.html 330/357 . crítica. [4] ­ Nas Opera Didactica Omnia. especialmente a 914 e a 935. Cfr. LONGOLIUS (circa 1488­1522). quod esse debebant omnes. humanista francês. 1920). 15. www. 10. Salmo 110. não apenas a obra matemática de Pitágoras. AGRÍCOLA (1494­1555). Livro de Job. Erasmi Epistolas. ALLEN. sem dúvida. 1. 28. 10. travou célebre disputa com Erasmo sobre se devia imitar­se à letra a linguagem de Cícero.

7/8/13 DIDACTICA MAGNA .. Cum praeliminari..). 44­47. 7­8 b.org/eLibris/didaticamagna. W.COMENIUS Capítulo XI [1] ­ MARTINHO LUTERO. Novi Jesu Christi Testamenti Graeco­ Latino­ Germanicae editionis pars prima. An die Burgermeyster und Radherrn allerley Stedte ynn Deutschen landen. [3] ­ VIRGÍLIO. A.. 456 e as.. Aeneis. www. 560. (Clemen II. p.html 331/357 . 1524.n de Latina lingua compendiose a pueris addiscenda exponitur. p. XV. epistola in qua consiliu. 1617..ebooksbrasil. VIII. [2] ­ EILHARDUS LUBINUS.

[12] ­ PLUTARCO. Paris. [4] ­ A descoberta da pólvora pelo monge Berthold Schwarz não é historicamente certa. IV. vol.html 332/357 . Provavelmente. ver STEPHEN D’IRSAY. LANG (capítulo: «Discipulus»). [3] ­ Comênio considera João Fust o inventor da imprensa. 397: ignoti nulla cupido. de J. [7] ­ ARISTÓTELES. CLERICUS.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . cap. 1565. O aditamento.COMENIUS Capítulo XII [1] ­ Acerca do barco de Hierão. LANG. [13] ­ A doutrina dos «antídotos» desempenhou papel importante na filosofia e na medicina medievais. Adagia. Frankfurt. vol. II. Temistocles. Frankfurt. não provém de Plutarco. [8] ­ Ver o capítulo V.org/eLibris/didaticamagna. Apophthegmata V. ed. vol. col. 1703­1706. 1621. [11] ­ ERASMO. 206 d. 17 (ed. 2. Historia dei Mondo Nuovo. p. Themistocles. II. Histoire des Universités. Veneza. 45 (Opera. cent. 14 e ATHENAIOS. Comênio colheu estes dados no livro de G. Themistocles. a tradição familiar dos Fust afirma que Gutenberg aprendeu de Fust. ERASMO. 1933. Metafísica. OVÍDIO. Chil. www. Sobre o «Antidotarium». Marcellus. XI. CLERICUS. [10] ­ PLUTARCO. I. col. BENZONI. de BERKER. Com efeito. 18 (ed. IV. IV. escreveram PLUTARCO. capítulo: «Educatio». [9] ­ Cfr. III. V. 865. 6. CLERICUS. Alexandre. col. no princípio (ed. cap. editado por J. § 7 e o cap. todavia. I. de J. 537). esta narrativa do Florilegium Magnum.ebooksbrasil. que Arquimedes pôs em movimento. 244). Deipnosophistae. ver ERASMO. Leiden. mas do Florilegium Magnum editado por J. 980 a). 342). Ars amatoria. [6] ­ Comênio extraiu. [5] ­ Sobre este aforismo. por certo. vol. 1621. de J. [2] ­ Fernando de Castela. Apophthegmata V.

cap. 5.html 333/357 . 6. De agricultura. 104 e ss. [15] ­ PLUTARCO. [14] ­ CATÃO. cap VI. De educatione puerorum. www.ebooksbrasil.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .COMENIUS p.org/eLibris/didaticamagna.

o capítulo XII. www. 8. 5.ebooksbrasil. XIII.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . 5 e o cap.org/eLibris/didaticamagna.COMENIUS Capítulo XIII [1] ­ Cfr. o capítulo XII. [2] ­ Cfr.html 334/357 .

post haec occasio calva (Dist. min. Metafísica. MANILIUS. 3 (ed. em Poeta lat. de A.ebooksbrasil.html 335/357 . Aforismos.org/eLibris/didaticamagna. dimittere noli. II. I. CÍCERO. de BEKKER. IV (ed. IV. 1920) § 16. também COMENIUS. III. [3] ­ HIPÓCRATES. 26). [2] ­ Cfr.. 28. BAHRENS. 100. p. Leipzig. [4] ­ DIONISIUS CATO. 1881. Londres. E. Astronomicon. 1005 b). De Officiis. Dicta Catonis ad filium suum. 225: Rem tibi quam noces aptam. Orbis pictus: Prudentia. www. fronte capillata. [5] ­ M. edição de E.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . HOUSMAN. Cfr.COMENIUS Capítulo XIV [1] ­ ARISTÓTELES.

no princípio dos Aforismos.ebooksbrasil.COMENIUS Capítulo XV [1] ­ Com Sêneca (De brevitate vitae. § 3.html 336/357 . [7] ­ Informatorium der Mutter Schul. I. [8] ­ HESÍODO. De brevitate vitae. HEUBACH. Cfr. mais corretamente. 1. § 69. GUARINONIUS.org/eLibris/didaticamagna. Epist. pertence a Teofrasto. 1960. 93. cap. III. 2). Ingolstadt. [3] ­ H. [5] ­ SÊNECA. [9] ­ SÊNECA. Satirae. V. CÍCERO. § 1­8. cap.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Heidelberg. www. 356. IV. Comênio atribui a Aristóteles uma afirmação que. V p. [6] ­ JUVENAL. Die Grewel der Verwüstung menschlichen Greschlechts. X. Tuscul. nova edição de J. <grego>. 1610.. [2] ­ HIPÓCRATES. [4] ­ O humanista e filósofo italiano Pico della Mirandola faleceu aos 32 anos (1494). 361 e s. 28. 14 e ss.

durante muito tempo. considerado o fundador da filologia histórica.ebooksbrasil. In Ecclesiasten Homilia XVII (MIGNE. 95. [2] ­ SÊNECA. 237 e ss.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . [4] ­ HUGO DE S. vol. Patrologia Latina. Epist. [3] ­ J. 175.). VICTOR. col. 38.COMENIUS Capítulo XVI [1] ­ Reales disciplinas praemitti organicis: A palavra «organicis» contém uma referência às obras lógicas de Aristóteles. célebre filólogo e historiador (filho do igualmente célebre Júlio César Scalígero) foi. www. o conjunto das quais é conhecido pelo nome de Organon.org/eLibris/didaticamagna.html 337/357 . SCALÍGERO (1540­1609).

Instit. 27 e s. Tuscul. 192 a). 8. col. www. 13. Orat. [8] ­ Cap.COMENIUS Capítulo XVII [1] ­ ARISTÓTELES. Orat..html 338/357 . V. [6] ­ Capítulo XIX. Conselhos semelhantes podem ler­se na Cidade do Sol de Campanella. QUINTILIANO. col..ebooksbrasil. de BEKKER. sem dúvida pelo fato de as Gramáticas deles haverem sido traduzidas para checo. [4] ­ ISÓCRATES.org/eLibris/didaticamagna. [7] ­ HORÁCIO. Ramus. I.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . 3. Instit. 8 (ed. Física. [11] ­ Dados mais pormenorizados sobre este conselho encontram­se na «Scholae Pansophicae Pars II». 5. Epist. XIX. [10] ­ Cfr. Orat. 1496. do Florilegium Magnum. 1621. I.. II. LANG. § 50 e ainda no Informatorium der Mutter Schul. cap. 3. [2] ­ Comênio tirou esta citação. 9 (ed. por certo. § 18. [3] ­ CÍCERO. pars III. Capítulo: «Institutio». II. [5] ­ QUINTILIANO. ed. § 50. ad Demonicum. 14 e ss. de J. 343: Omne tulit punctum. 36 e ss. de BEKKER. Frankfurt. I. 2. em Opera Didactica Omnia. [9] ­ Comênio aduz Melanchthon e P. 191 b) e Cap. qui miscuit utile dulci.

Amesterdã. 53. Instit.ebooksbrasil. 1555. Comênio aprecia esta obra no cap. no seu tempo. Basileia. FEDRO.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Comênio escreveu várias obras. col. FORTIUS (Ringelberg). § 9 (MIGNE. Patrologia Latina. § 15. da versão para eBook]. 180­183. 19. 549). 3. Orat. 2. [11] ­ PERSIUS FLACCUS. Opera Didactica Ominia. 27. em Opera. I. JERÔNIMO. Epist. 1645. § 50. Fábulas 200 e 200b. LUIS VIVES. vol. [3] ­ ESOPO. Ver a nossa Introdução [Disponível apenas na edição em papel da Fundação Calouste Gulbenkian ­ N. Cfr. capítulo «De ratione docendi» (não à letra). [7] ­ Sobre a Pansofia.E. 1621­32) que.html 339/357 . [10] ­ J. De Tradendis disciplinis lib. vol. Epist. [6] ­ Capítulos XXI e XXII. em Opera. 1555. p. col. foi famoso. III. LUIS VIVES. 1. [12] ­ J. vol. I. I. II. XI. 22. pars III. 77. Basileia. www. 758 e ss. 468.org/eLibris/didaticamagna. Fábulas de Esopo. [5] ­ O jesuíta polaco REH0R KNAPSKI (1564­1638) compõs o Thesaurus Polono­Latino­Graecus (Cracóvia.. Grotii et aliorum Dissertationes de studiis instituendis». em «II. XXII. [8] ­ QUINTILIANO. [2] ­ Ver o capítulo XIX. I. p.COMENIUS Capítulo XVIII [1] ­ S. [4] ­ HORÁCIO. De ratione studii. 19. Satirae. Introductio ad Sapientiam. [9] ­ J.

. I. 1524. Minerva. [12] ­ MARTINHO LUTERO. [6] ­ SÊNECA. 321. Patrologia Latina. Epist. Epist. Epist. 585). [5] ­ Ver o capítulo XX. [9] ­ SÊNECA..ebooksbrasil. vol. 9. W. [2] ­ SÊNECA.). [3] ­ Cfr. [7] ­ Capítulo V. col. [8] ­ SÊNECA. Epist. cent. [13] ­ SÊNECA. 3 (edição de J. 12. VII. 9. ad famil. Naturalis historiae liber XXIX. XV. ERASMO. Fasti. 263). I. 29. chil. VII. § 5. 20.COMENIUS Capítulo XIX [1] ­ CÍCERO. 33.org/eLibris/didaticamagna. [14] ­ CÍCERO. Epist. § 2 (MIGNE. 29. Epist. Epist. OVÍDIO. [4] ­ PLÍNIO. p. 456 e ss.html 340/357 . 31. De Officiis. I. 1. id est adversante et repugnante natura. CLERICUS. An die Burgermeyster und Radherrn allerley Stedte ynn Deutschen landen. I. § 10. ut aiunt. II. [11] ­ Capítulo XVIII. II. Adagia. 20. [10] ­ SANTO AGOSTINHO. 143. A. 84. 110: invita. § 44­47. 48.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . 44­47 (Clemen. 2. www. 2. 2.

II. majoris scillicet et minoris. Truculentus. no capítulo Philosophia vere christiana seu meteorologica. Frankfurt. 602). [5] ­ ARISTÓTELES. V. 54 (ed. CLERICUS. 2 (edição de BEKKER. I. www. Adagia. 1626. [3] ­ ROBERT FLUDD (1574­1637). metaphysica.COMENIUS Capítulo XX [1] ­ PLAUTO.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . [4] ­ O fato de empregar a palavra Utopia não nos garante que Comênio tenha lido a obra de Thomas Morus com esse título. Secunda Pars: Microcosmi historia).ebooksbrasil. 180­182. II. Epist. 982). Utriusque cosmi. cap. 3. VI. Metafísica. physica atque technica historia (Prima Pars: Macrocosmi. chil.html 341/357 . cent. [2] ­ HORÁCIO. de J. ERASMO. 489.org/eLibris/didaticamagna. II.

[8] ­ OVÍDIO. [2] ­ Esta frase não é de Quintiliano. Orat. Ars amatoria. II. www. II. [3] ­ Citado em alemão por Comênio. 5. VI. 675 e s..html 342/357 . verso 171. Epist.org/eLibris/didaticamagna. [5] ­ VIRGÍLIO. Instit. 42. mas de Sêneca. 3.COMENIUS Capítulo XXI [1] ­ Não foi possível localizar esta citação. § 23. Aeneis.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . De divinatione. [6] ­ CÍCERO.ebooksbrasil. I. [7] ­ QUINTILIANO. II. [4] ­ TERÊNCIO. Andria. 87. Comênio volta a aduzir o mesmo exemplo no capítulo XXV. 3. 14.

4. De Oratore. em «Opera Didactica Omnia». 2. De fin. www. pars III.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .org/eLibris/didaticamagna. 175 e ss. sive lexicon Januale. [6] ­ REHOR KNAPASKI (1564­1638). sive seminarium línguarum et scientiarum omnium. [3] ­ CÍCERO.. III.ebooksbrasil. Janua línguarun. col. col.COMENIUS Capítulo XXII [1] ­ COMENIUS. [5] ­ Ver a Sylva Latinae Linguae. III. [4] ­ Ver o Repertorium Vestibulare sive lexici latini rudimentum. vocum derivatarum copiam explicans. Cracóvia. Thesaurus Polono­Latino­ Graecus.html 343/357 . pars III. em «Opera Didactica Omnia». 38. reserata. 1621­32. 1631. 219 e ss. [2] ­ CÍCERO. 10. Leszno.

[6] ­ Inutilia pondera terrae: expressão homérica (<grego>). COLUMELLA. [7] ­ Capítulo XXI. [4] ­ Tem em vista. § 3. ERASMO. a conhecida passagem de PLUTARCO. 1. I. cent. De rustica.org/eLibris/didaticamagna. LUIS VIVES. I. 69 e s. 272. Cfr. [5] ­ Ventres pigri: Cfr.). [3] ­ Ne quid nimis. a Epístola a Tito. De audiendo. Epist. Adagia. chil. Basileia. II. XI. 259). 2. 96 (ed.ebooksbrasil. I. 1555. [8] ­ SÊNECA. [10] ­ HORÁCIO. III. [9] ­ VIRGÍLIO. I (Opera.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . [11] ­ L. VI. 26: Nam illud verum est M. [2] ­ J. Epist. CLERICUS. I.html 344/357 . sem dúvida. § 5. 70 e s.. Introductio ad Sapientiam. de J. Epist.COMENIUS Capítulo XXIII [1] ­ SÊNECA. J. Georg. Catonis oraculum «nihil agendo homines male agere discunt». 4. 31. II. 12. M. 88. www.

II. 50. [3] ­ Salmo 138. den 119) reichlich furgestellet. Ausgew. 16. HOLBORN. [5] ­ Êxodo. 1704. vol. 34. meditatio. [4] ­ LUTERO. V. tentatio (W. edição de H. 19. [8] ­ ANDREAS GERARDUS HYPERIUS escreveu acerca do estudo da Sagrada Escritura pelos teólogos no segundo livro de De Theologo seu ratione studii theologici libri IV. München. 22. [2] ­ Ver o Livro de Job. 1933. 9 (MIGNE.html 345/357 . 12 e ss. 140 CD. 1539: Da wirstu drey Regel innen finden.ebooksbrasil. vol. col. II. 14. Epist. vol. Und heissen also: Oratio. 144 AC. col. [11] ­ Ibid. col. [13] ­ Gênesis. www. [12] ­ ERASMO. 19 e ss. col. 16 e ss. Werke. 65 cols. 659).. § 12­21 (MIGNE. De doctrina christiana.. no Prólogo da edição das suas obras escritas em alemão. [9] ­ ERASMO. [15] ­ FULGENTIUS. Leide. Patrologia Latina.org/eLibris/didaticamagna. § 6.COMENIUS Capítulo XXIV [1] ­ Capítulo IV. à escada da visão de Jacob: Gênesis. Opera. durch den gantzen Psalm (näml. 28. A. 32 e ss. 22. e acerca do estudo da Sagrada Escritura em geral no De sacrae scripturae lectione et meditatione quotidiana. ed. 140 A B. [14] ­ Alusão. p. 1. 132) SANTO AGOSTINHO. Basileia.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .. [6] ­ Lucas. 315­317). 42). Basileia. CLERICUS. 293 (CLERICUS. 1559. [7] ­ Expressão decalcada em VIRGÍLIO. cap. 1563. V. 23. [10] ­ Ibid. Patrologia Latina. 29­30. 94. Aeneis. de J. sem dúvida. Ratio seu methodus compendio perveniendi ad veram theologiam.

I. Tiago. a obra de maior autoridade para o estudo da Gramática Latina.COMENIUS [16] ­ Lucas. Este livro foi considerado. 4. Mateus. 19 e ss.20. 22. 2. e até à época de Comênio. Marcos. [18] ­ Pedro.42. 5. 29.ebooksbrasil. Institutiones Grammaticae.org/eLibris/didaticamagna.html 346/357 . 3. [21] ­ Salmo 117.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . 5. Efésios. www. 17. [20] ­ Mateus. 11. 1. 10. 16. 1. durante toda a Idade Média. [19] ­ João. 21. Marcos. 6. 12. [17] ­ PRISCIANUS (+ 526).

HORÁCIO. da época do Renascimento. 15. 15. todavia. II. sem dúvida. como aos humanistas italianos hereges do séc. G. col. É certo. II. que. com o Sozzinianismo. 52 (Clemen. I. Epist. JERÔNIMO. expressas. [3] ­ CASSIODORO. de autenticidade. vol.. 1 (MIGNE. Comentário à segunda Epístola a Timóteo. Theophilus (1a. último capítulo (MIGNE. por exemplo. 1649). destes dois cardeais e amigos. Expositio in Psalterium. [4] ­ Cfr. Londres. 2. Éditions du Seuil. [5] ­ Pedro.html 347/357 . IV) afastou­se do cristianismo por influência da filosofia neo­platônica. 114. BALE. Histoire de l’éducation dans l’antiquité. J. 3. na obra de J. Comênio travou polêmica. éd. Lat. 423­425. Diálogo III: De literatura christiana. Firenze.. C. Os seus escritos filosóficos haviam sido reeditados em 1583. 9. p. I.org/eLibris/didaticamagna. 3e.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Comênio foi nitidamente influenciado por esta obra. 70. no. The Pageant of Popes. ao passo que Bembo. Ver ainda MARTINHO LUTERO. Sansoni Editore. [8] ­ Tal conselho carece. 1939. A. Homilia LX. ed. [10] ­ Primeiro Livro dos Reis. seguia um humanismo muito mundano. ad Damasum.: Vos exemplaria Graeca nocturna versate manu. Comênio reflete aqui as opiniões tendenciosas dos protestantes acerca do Papado.. Paris. MARROU. 1955.. versate diurna. Eretici italiani dei cinquecento. 462). [11] ­ S. XVI. Patrologia Latina.ebooksbrasil. citamos apenas: H. ANDREAE. vol. W. [7] ­ Leão X foi Papa precisamente no tempo da Reforma (1513­ 1521). 2. [2] ­ CRISÓSTOMO. ps. 62). [6] ­ O imperador Juliano Apóstata (séc. 1574. www. Epist.COMENIUS Capítulo XXV [1] ­ Da vasta bibliografia sobre este tema. [9] ­ Não se refere tanto aos católicos romanos. Patrol. Sadoleto era partidário do movimento bíblico. 5. ver D. Ricerche storiche. de modo especial. até à sua posterior viragem. 116). Sobre o movimento dos «Eretici italiani». V. 268 e s. CANTIMORI.

não de Santo Agostinho. [18] ­ Ibid. III. de pecato. V. 13. Sententiarum Libri. Theophraste» (ed. vol. www. 82).. HOLBORN. quatenus illarum fundamenta ex Scriptura V. [20] ­ Ver cap. Epist. Moralium libri (MIGNE. CLERICUS. de J. 686). I. Theol. CLERICUS. e suas respectivas notas. Ratio seu methodus compendio perveniendi ad veram theologiam.ebooksbrasil. ed. § 12 e cap. Triumphus bibliorum sacrorum seu Encyclopoedia biblica. Werke. 190 (ed. 75. 5. 2. 3 (MIGNE.org/eLibris/didaticamagna. col. § 7 (MIGNE.html 348/357 . de H. vol. 137.. hypotyposes. III c. «Ex Aristotele. § 23. col. [13] ­ CÍCERO. 524). 33. XXI. [16] ­ Comênio pensa aqui sobretudo em ALSTED. [19] ­ ERASMO. 615 e s. 1933. Parabolae sive similia. [14] ­ MELANCHTON. Ausgw. Patrol. 1625. Lat. Patr. I. p. em «Corpus Reformatorum». mas de S. Patrologia Latina. Latina. München. 606 c). jurisprudentiae et medicinae sacrae itemque sacrosanctae theologiae. [17] ­ ERASMO. XXV. De fin. vol.COMENIUS [12] ­ SANTO ISIDORO DE SEVILHA. [15] ­ SANTO AGOSTINHO. col. GREGÓRIO MAGNO. T. 515). col. [21] ­ Trata­se.. de J.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . et N. 16. colliguntur. exhibens triunphum philosophiae. 101 e s. XXI. Plinio. 83. Frankfurt.

até depois da Renascença. de J. [2] ­ CÍCERO. Adagia. Novi Jesu Christi Testamanti Graeco­Latino­Germanicae editionis pars prima.html 349/357 . 27. Pro Flacco. Cum praeliminari.. epistola. VIII. 65.COMENIUS Capítulo XXVI [1] ­ Prisciano é um célebre gramático do séc. 1617.org/eLibris/didaticamagna.. VI. chil. CLERICUS. in qua consilium de Latina língua compendiose a pueris addiscenda exponitur. p. autor das Institutiones Grammaticae que foram livro de texto em quase todas as escolas da Europa... 36 (ed. 16­17.ebooksbrasil. www. II.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . I. ERASMO. [3] ­ EILHARDUS LUBINUS (1565­1621). cent. 311).

50. [3] ­ Cfr. IV. Europäische Literatur und lat. Bern. [6] ­ Cap. Vem publicada nas «Opera Didactica Omnia». e cap. R. p. col. Mittelalter. VI­VIII. XXIX e XXX. 198 e ss. CURTIUS.html 350/357 . § 5 e s. [8] ­ Sobre este tema. § 7. Informatorium der Mutter Schul. www. § 7­11. [5] ­ Gênesis.. IV. 1948.org/eLibris/didaticamagna. Informatorium.COMENIUS Capítulo XXVIII [1] ­ Cfr. IV. 22­24. ver E. Informatorium. X. [4] ­ Cfr. [2] ­ Sobre um tão amplo conceito de gramática. e cap.ebooksbrasil. pars I. IX. cap. e cap. ver o Orbis sensualium pictus. 5. [7] ­ Esta obra tem o seguinte título: Schola Infantiae sive de provida juventutis primo sexennio educatione. cap. cap.7/8/13 DIDACTICA MAGNA .

16. 3. www. Antuérpia. Lexicon Latino­Graeco­Ungaricum. [4] ­ Colossences. no cap. Viridarium. [3] ­ CÍCERO. cap. Herborn. Ver ainda A. [5] ­ Os nome que Comênio escolheu para esses seis livros são Violarium. 1645. matemático e físico holandês que escreveu em flamengo.html 351/357 . col. 10. 38. vol. [2] ­ J. [6] ­ SIMON STEVIN (1548­1620). Paradisus Animae. De oratore. ALSTED. Spirituale Balsamentum. 1513. pars I. VI.org/eLibris/didaticamagna. Ver «Opera Didactica Omnia». Só devem freqüentar a escola de língua materna os meninos «qui artibus mechanicis aliquando se applicabunt». H. onde as haja de latim. 1607. Frankfurt. p. 1630. Sapientiae Labyrinthus. 248 e s. I. Livro I. libri V. 1583. [7] ­ Problematum geometr. MOLNAR. Encyclopaedia septem tomis distincta.COMENIUS Capítulo XXIX [1] ­ WILHELM ZEPPER.ebooksbrasil. Herborn. VI de De politia ecclesiastica.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . recomenda que se não erijam escolas de língua materna. Rosarium. III.

2. 1. I. p. IV. Apophthegmata III.ebooksbrasil. Memorabilia Socrat. I. 156). CLERICUS. [2] ­ XENOFONTE.COMENIUS Capítulo XXX [1] ­ JUSTO LÍPSIO. Diss.org/eLibris/didaticamagna. 15.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . Socratica 10 (ed. Antuérpia. Physiologiae Stoicorum libri tres. 1604. 6. Livro. ERASMO. de J.. www.html 352/357 .

5 (949 E ­ 950 D). 2. Adag.COMENIUS Capítulo XXXI [1] ­ Capítulo XXVII. chil.org/eLibris/didaticamagna. § 6. cap. www. Epist. [6] ­ Esta idéia de uma Sociedade de Professores é mais amplamente desenvolvida por Comênio na Via lucis. cent. [5] ­ PLATÃO. Leis. [2] ­ ERASMO. [3] ­ SÊNECA. 18.ebooksbrasil. CLERICUS. cap. II. 45 (ed. 2. de J.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . [4] ­ As célebres Noctes Aticae de A. IV.html 353/357 .. XII. 537). II. Gellius estão escritas em forma de colóquios.

pars IV. Typographeum vivum. www. a este propósito. o opúsculo de COMÊNIO. Typographeum vivum.ebooksbrasil. col. [2] ­ Cfr.html 354/357 .org/eLibris/didaticamagna. ars compendiose. sapientiam non chartis sed ingeniis imprimendi.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . § 19 e ss. hoc est. 85­96.COMENIUS Capítulo XXXII [1] ­ Veja­se. et tamen copiose ac elegauter. em «Opera Didactica Omnia».

355. 220). 3. Epist. e cap. XV. 4. Via ad divas scientias artesque. § 23 e ss. 1524. [6] ­ XENOFONTE. cap.. GREGÓRIO MAGNO. I. 27.ebooksbrasil. 16. I. II. HORÁCIO. II. 1628. [3] ­ Sobre estes livros. XXVIII. II. 6. 1 (ed. ERASMO. 156). línguarum notitiam. seção 1. CÍCERO. col. de J. 8 [11] ­ Coríntios. [8] ­ João. Sermonis de Sanctis..7/8/13 DIDACTICA MAGNA . 2. CLERICUS. BERNARDO. § 19 e ss. A. 445 e 448). XXX. col. Moralium libri XXX. No texto lê­se. Paris. 15. De divinatione. sermones extemporaneos nova et expeditissima. W. Patrologia Latina. [5] ­ Cfr.COMENIUS Capítulo XXXIII [1] ­ JANUS CAECILIUS FREY (+1631). II. Epist. 13. [4] ­ SÊNECA. XXII.org/eLibris/didaticamagna. Patrol. p. chil. 183. [12] ­ S. Epist. cap. VI. [9] ­ S. de J. I. 6. [2] ­ Cfr.. § 16. I. CLERICUS. II. www. 50 e 34. [7] ­ ERASMO. Socratica 10 (ed. 3 (MIGNE. § 81 (MIGNE. 27.. ver cap. 8. 4. 3. Adagia.html 355/357 . vol. An die Burgermeyster und Radherrn allerley Stedte ynn Deutschen landen. 4. [10] ­ Lucas. Memorab. cent. Lat. [13] ­ MARTINHO LUTERO. IV. cap. (Clemen. vol. erradamente. 362). 569). Apophthemata III. 76.

Vedado todo e qualquer uso comercial.ebooksbrasil.gulbenkian.org/eLibris/didaticamagna.7/8/13 DIDACTICA MAGNA . colocando­a ao alcance de todos os responsáveis por processos educacionais. principalmente dos jovens.pt a cuja iniciativa deve a língua portuguesa o acesso a esta obra e a quem é atribuído o copyright da presente versão em eBook. Ao fazê­lo. Se algum direito patrimonial estiver sendo involuntariamente violado.COMENIUS Nota de Copyright A presente edicão em eBook é feita em “fair use”. sem nenhum objetivo comercial e visando contribuir para a divulgação desta obra fundamental.org para que a presente edicão seja imediatamente retirada do acesso público.html 356/357 . do tradutor e dentro dos objetivos da FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN www. favor comunicar à eBooksBrasil livros@ebooksBrasil. acreditamos estar em conformidade com os desejos do autor. www.

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