Durante o período colonial, no Brasil Imperial, existia um Estado que se ocupava da reprodução de relações sociais ainda marcadamente escravistas

, onde a mobilidade social estava obstaculizada pela própria lógica sistêmica e os conflitos se davam basicamente dentro das oligarquias dominantes. Neste sentido, a administração pública era uma consequência desta estrutura sóciopolítica, configurando uma estrutura jurídico-política que muitas vezes poderia ser vista como pouco eficiente ou de baixa racionalidade para nossos padrões hodiernos, mas que tinha uma lógica própria quando se recupera as determinações inerentes ao modo de produção escravista moderno (ver também Décio Saes) que vigorava no Brasil. As transformações inerentes ao modo de produção, com a transição do sistema escravista para o capitalismo incipiente brasileiro é que vão exigir novas modalidades de administração pública no brasil. Assim, o Brasil imperial possui um Estado e uma administração pública (sem incorrer aqui em anacronismos) configurados à lógica de reprodução da dominação de classes vigente. Quando nos defrontamos com as características da administração pública colonial não podemos simplesmente falar em excrecência, em irracionalidades, mas em um esquema jurídico politico em reciprocidade com as relações sociais vigentes. O texto de Costa recupera essas características a partir de uma síntese de Prado Jr: “a centralização, a ausência de diferenciação (de funções), o mimetismo, a profusão e minudência das normas, o formalismo e a morosidade”. Numa sociedade colonial escravista não existe qualquer referência a uma administração pública referendada no mérito ou em racionalização de funções, pois a própria ordem escravista não comporta tais adjetivações. Estas perspectivas vão se desenvolvendo a partir da constituição de uma sociedade capitalista, o que vai obrigando ao fim do escravismo, a elaboração de uma constituição que defina os direitos civis dos cidadãos (especialmente trabalhadores). Podemos recuperar de Costa a informação de que a administração pombalina enseja esse ar de racionalização exatamente por se tratar de uma perspectiva de mudança social em direção a uma perspectiva capitalista. Neste sentido, a “racionalidade ordenadora” da administração pública no período colonial que se estruturava na base de “ordenamentos que não obedeciam a princípios uniformes e claros sobre a divisão de trabalhos” e tarefas públicos, recebe um novo direcionamento no sentido de atender um novo contexto histórico. No fundo, a estrutura do Estado colonial era um transplante das instituições metropolitanas. A crise deste estado colonial, mais as mudanças trazidas pela implantação da família real vão ensejar a constituição propriamente dita de um Estado nacional e a formação da administração pública. A estrutura pública existente no Brasil antes da República, enquanto transplante da forma metropolitana, operava sob uma dinâmica fortemente centralizadora. O governador da capitania, com forte viés militar, detinha o poder administrativo, supervisionando o poder militar, geral e fazendário. Portanto, o evento marco dessa transformação é a vinda da família real para o Brasil, pois tal fato vai ensejar a constituição de um aparato de Estado necessário para fazer frente à nova realidade presente em solo brasileiro. Inúmeras instituições e organizações foram plasmadas neste momento e serão de grande importância para a vida política brasileira, no sentido de sua soberania e possibilidade de autogoverno. Tais mudanças vão imprimir um

a crise do Império.novo caráter ao aparelho de Estado brasileiro. Como assevera Costa a lógica de seu “aparelho” de Estado era “arbitrar os conflitos entre frações das classes dominantes e sustentar a ordem monárquica. como desdobramento da derrocada do trabalho escravo. mas como um importante fator jurídico e político para o desenvolvimento de uma nova fase do Estado brasileiro. Quando esta estrutura social desmorona. como fica claro na Constituição de 1824. que a criação do espaço público caminha na mesma perspectiva que a formação da burguesia nacional. Será. Pedro I aprofunda as mudanças no Estado. . não apenas como reflexo da mudança socioeconômica. Podemos assim dizer. não basta dizermos que o Estado do período colonial ou imperial era uma obra disfuncional ou até irracional. que rompe com o estágio anterior por encampar como principio definidor a racionalização e modernização como concebido pela teoria weberiana. tornando irreversíveis suas novas prerrogativas. as disputas entre centralização e descentralização das províncias. quando a burguesia nacional começa a se dinamizar. uma nova estrutura estatal também vai se plasmando. mas uma determinação histórico social. A independência só faz reforçar a nova lógica administrativa. Com a derrota de Napoleão e o retorno de D. o príncipe D. apoiada na grande propriedade rural. Neste sentido. na economia primário-exportadora e no trabalho escravo em declínio”. Em síntese. João para Portugal. quando novos personagens civis surgem (os trabalhadores assalariados). a constituição do Estado Nacional brasileiro não é obra do acaso. no entanto. a guerra do Paraguai e a saúde de D. apesar da continuidade da centralização. Apenas no período da Regência é que se toma alguma providência no sentido contrário com a criação do cargo de presidente do conselho de ministros. Pedro II que permitirão um salto racionalizador que caminha pari passu com as mudanças econômicas e sociais da estrutura das relações sociais no Brasil.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful