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FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE

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Filosofia da cultura
Brasil: luxo ou originalidade

Luiz Sergio Coelho de Sampaio

EDITORA ÁGORA DA ILHA

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LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO

FICHA CATALOGRÁFICA
SAMPAIO, Luiz Sergio Coelho de - 1933 Filosofia da cultura / Brasil: luxo ou originalidade / Luiz Sergio Coelho de Sampaio Rio de Janeiro, março de 2002 páginas 378 Editora Ágora da Ilha Ciência filosófica Pesquisa ISBN 86854 CDD-100 CDD-0001.4

COPYRIGHT: Luiz Sergio Coelho de Sampaio

lscsampaio@openlink.com.br

Direitos desta edição reservados ao autor, conforme contrato com a Editora. É proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa do mesmo. Filosofia da cultura / Brasil: luxo ou originalidade - CIÊNCIA FILOSÓFICA / PESQUISA Capa: Talita Lobo Coelho de Sampaio Editor: Paulo França RIO DE JANEIRO, MARÇO DE 2002

EDITORA ÁGORA DA ILHA TEL.: 0 XX 21 - 3393-4212 agorailh@ruralrj.com.br

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE

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Para meus pais Ascendino e Maria da Paz, que lá ficaram fixos e incomunicáveis em duas dobras tristes do tempo. E também para Lailce e depois, por ordem de entrada em cena, para Tatiana, Thais, Talita, Henrique, Ivo e Felipe.

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE

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Sinopse
Uma proposta radical de revisão da noção de história, na
verdade, história da cultura (processo hiperdialético de realização plena do modo de ser-coletivo do homem, “fenomenologia do espírito” que ao invés de evitar a ciência e sua lógica, seja de fato capaz de subsumi-la). Tem como finalidade, entre outras, viabilizar a crítica da Modernidade, iluminar o horizonte de sua possível superação, reacender o pensamento utópico. Neste novo espaço histórico compreensivo situar o Brasil: reler sua real destinação, intuir suas responsabilidades maiores e contribuir para a implementação de suas estratégias de sobrevivência e realização.

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE

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Sumário
1. Porque, também, uma filosofia da cultura.......33 2. Bases lógicas para uma antropologia filosófica..39
2.1. 2.2. 2.3. 2.4. Preliminares............................................. 39 A lógica ressuscitada..................................40 Uma antropologia esperançosa...................53 Situação e perspectivas brasileiras............67

3. Acerca da lógica e da cultura........................71 4. Desejo, fingimento e superação na história da cultura.........................................................89

4.1. Considerações introdutórias.......................92 4.2. Uma cultura e suas três lógicas..................95 4.3. Desejo, fingimento e superação nas culturas lógico-diferenciais...........................................100

4.5. Especulações acerca do futuro da cultura.....131

4.3.1. Nos antigos impérios de base agrícola - o mito e a pseudo potência sacerdotal.....................101 4.3.2. Entre os gregos - a filosofia e a exorbitância dos poetas trágicos..............................................104 4.3.3. Na Modernidade - a física e a biopirotecnia..110

5. Modernidade – das origens à globalidade etnocida.........................................................135

5.1. Antecedentes da Modernidade....................138 5.2. A constituição lógica da Modernidade – verso e reverso.................................................143

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LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO
5.2.1. Ciência, sujeito liberal e, antes, a caça às bruxas....................................................................143 5.2.2. Do capitalismo produtivista ao capitalismo pleno, consumista e etnocida................................148

5.3. Antecedentes semíticos do fim da Modernidade...........................................................159

6. Crítica da Modernidade................................167
6.1. Introdução...............................................167 6.2. A rematada impotência das ideologias.........169 6.3. Para além das ideologias...........................176
6.3.1. Heidegger – a ciência e a técnica..................178 6.3.2. A Escola de Frankfurt – os meios de reprodução e comunicação de massa............................185

7. História da cultura segundo Toynbee, Tillich, Hegel e Marx.................................................193 8. Remanejamento das relações indivíduo/ sociedade na cultura nova lógico-qüinqüitária....203 9. Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultural.................225

9.1. Re-estruturaçào do território lógico................229 9.2. Re-conceituação do homem e do sentido da história da cultura...........................................233 9.3. Desvelamento da estrutura lógica das partículas elementares.............................................236 9.4. Princípio antrópico renovado.........................241 9.5. Re-significação cósmica da história da cultura.248

10. A superação das idolatrias – a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária...................253

10.1. A lógica ressuscitada e a instituição de um eixo onto-lógico aberto.....................................255 10.2. Superação da idolatria com o advento da cultura nova lógico-qüinqüitária........................259 10.3. A cotidiana, embora desapercebida, “experiência da ausência” do transcendente.............264 10.4. Afinal, Deus depois do adeus às idolatrias.269 10.5. Antecipações - a Revelação Cristã e a Confirmação (e exagerações) do Dogma Mariano....273

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11. Bases para a urgente formulação de uma estratégia (cultural) brasileira..........................279 12. Considerações gerais sobre a história da culturas – pré-requisito para a compreensão e avaliação da história, conjuntura e perspectivas brasileiras...............................................287

12.1. A história como processo hiperdialético....287 12.2. Um esboço de história da cultura.............295 12.3. Desejo, fingimento e superação................298 12.4. A Modernidade.......................................313 12.5. O Brasil e a Modernidade.........................317

com a presente coletânea Filosofia da cultura. nos quais. aos que o faziam e fazem vindo já de mais longe. vieram os tempos da “Nova República”. foi o tempo da “Revolução”. com esta obra. Dentre as virtudes genéricas deste trabalho não posso deixar . oferecendo-nos. se mantém viva em Tobias Barreto e se solidifica no que se convencionou denominar de culturalismo brasileiro. obviamente. Refiro-me especificamente a Luiz Sergio Coelho de Sampaio que. que registro a ressurgência do que até então fora uma obsessiva preocupação dos mais expressivos intelectuais brasileiros . com satisfação. está também dando continuidade a uma tradição já bem nossa. vem reavivar aquela tradição.decifrar o ser e a destinação do Brasil. É interessante assinalar que Sampaio. É. A seguir. Digo pensá-lo e não “desconstrui-lo”. de buscar na filosofia os meios conceituais para iluminar os caminhos e descaminhos da brasilidade. pois.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 11 Prefácio Luxo ou originalidade − a propósito da problemática cultural brasileira Depois do ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros. uma alternativa completamente nova para nossa auto-compreensão. Não me refiro. Tal disposição nasce com a própria filosofia no Brasil. praticamente extingue-se entre nós o interesse em pensar o Brasil. cada dia que passa. menor se mostra o interesse pelo Brasil. Primeiro. que trouxe o desinteresse pelo pensar. 1955-1964). posso dizê-lo. cuja figura exponencial é Miguel Reale [1].

sim. terceiro. que se sabe sempre possível. mas o fazendo de maneira essencialmente crítica e inovadora. deixa de permanecer válido e atual). entre o abstrato e o concreto e. o fato da filosofia que lhe serve de base se constituir numa produção própria. Preliminares lógico-filosóficos – ser e pensar para além da ciência O melhor caminho para a compreensão das idéias filosóficas de Sampaio é a epoché para valer . o grande problema da filosofia hoje seria medir-se com a ciência. cuja verdade assumida. ao invés de apenas repetir ou resumir o que havia dito (que. desde Parmênides. visando sobretudo o melhor proveito do leitor. sobretudo.proporcionar uma nova e mais profunda compreensão da problemática cultural brasileira -. indo mais além. Vejamos em detalhes cada um destes aspectos específicos. radicada. O pensamento não poderia tolerar que. 1. nem por isso. é adaequatio. Para Sampaio a linha mestra da filosofia ocidental. à problemática cultural brasileira. está na postulação de ser e pensar como o mesmo. um grau superior de simplicidade e clareza. embora já tivesse tido a oportunidade de analisar detidamente o pensamento filosófico de Sampaio [2]. entre o especulativo e o pragmático. sem mais.12 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO de assinalar o vertiginoso encurtamento de famigeradas distâncias: entre o denso e o legível. o trato da problemática brasileira não se detém. mais valeria tudo reconsiderar. para desta sorte conquistar. se aventurando o autor a traçar os lineamentos de uma corajosa e incisiva ação estratégica cultural. Trata-se sobretudo de aceder ao chamamento das coisas e dos acontecimentos como tais. de antemão. na mera compreensão. Com respeito ao seu objetivo específico . Nestas . Por isso. algo lhe pudesse para sempre escapar. um mero sinal de adesão acadêmica oportuna a uma corrente filosófica de prestígio. segundo. como de costume. a renúncia àquela pretensão. sabese. achei que. sendo justificadamente mediada por uma sólida antropologia filosófica que se completa com uma conseqüente antropologia histórico-cultural. na tradição filosófica ocidental. destacaria três importantes aspectos: primeiro. precisamente. que a reflexão filosófica não se aplica ali. Por isso.a epoché como um honesto esforço de suspensão de preconceitos e não como flatus vocis.

fosse mesmo este o caso. mais precisamente. de todo o território lógico conhecido. nada melhor do que subir nos ombros dos gigantes predecessores.antes e mais do que fenomenologia uma lógica. o procurado deveria estar por todo canto. da Ciência da Lógica consumada. por sua própria índole. que ombros mais altos. justamente por se almejar entre elas a mais alta.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 13 circunstâncias. É exatamente aqui que Sampaio consegue ser surpreendentemente óbvio: embora as aparências encaminhassem noutro sentido. sobre a ciência impera. o âmbito mais próprio e inevitável do problema. a rigor. quando já convicto estava de que sua filosofia (como qualquer outra). sim. pois. a de se ultrapassar a dialética e alcançar um pensar maior ou mais complexo. Tudo bastante simples: a referência. a lógica. abdica de sua própria essência. a lógica clássica formal que. Isto posto. Sampaio vai então circunscrever toda uma plêiade de pensadores “desviantes” . Ora. seria Hegel. precisando dar conta de seu próprio fundamento. a partir dela. teria que ser . haveria do que os de Hegel?! Sobretudo. algo superior ou mais à frente da lógica clássica imperante. no trânsito. a tarefa. sempre dissimulado. Tratando-se de filosofia.Pascal (que jamais cede quanto aos direitos do coração). oportunamente recalcado. de recuar. ou a filosofia se deixa marginalizar. Em síntese: passar da dialética à hiperdialética. reta e imediatamente. porém. pelo contrário. iluminar-se-ia naturalmente um novo território lógico por conquistar. procurar “algo menor”. Já se disse. Tudo se resumiria. que. Kierkegaard (entrincheirado por trás do parado- . em se conseguir levar aquela postulação mestra para além dos limites do saber científico [3]. cuja recuperação pudesse levar à re-significação da lógica clássica formal e. a questão primordial não estava em procurar. algo que fora deixado para trás. que é o mesmo que compreendê-la em sua motivação desejosa e significação social última. agora evidente. com inteira razão. o Hegel da maturidade. como tão judiciosamente observa Heidegger [4]. para enxergar mais longe. capaz de “ultrapensar” a ciência ou. no âmbito da Modernidade. assume-se “pensamento das pequenas causas ou das realidades parciais e a varejo”. Tratava-se. além de sempre bem largos. ou enfrenta o desafio de pensar de mais alto a ciência. subsumindo a lógica clássica formal. todo o tempo presente.

que ele denomina lógica da diferença ou. lógica da simples diferença. assim como a lógica clássica ou da dupla diferença.a nossa própria Modernidade. podia ser agora propriamente caracterizada como lógica da diferença reiterada. Com esta concepção. Nietzsche (apostando no retorno vigoroso do mesmo). A partir daí vislumbrava-se a verdade de um pensar potente para de fato compreender a ciência (e fazê-la instrumento) e a própria cultura que a sacraliza . a simples condição de lógica recalcada revela-a como lógica trágica. restaura-se o mundo da lógica conforme esta de fato se apresenta na tradição filosófica. Era ainda esta mesma lógica que operava nos inconscientes que a psicanálise tanto espreitava. Lacan iria isolar e denominar. Com exatidão. Deleuze (surfando entre dobras e diferimentos) e outros . pressupunha a dialética. inclusive. lógica do significante [5]. Podemos sumariar as concepções filosóficas de Sampaio [6] dizendo que a lógica deve ser considerada um saber sobre os modos efetivos de pensar e não mera convencionalidade lingüístico-formal. porque a patrística agostiniana precede a escolástica tomista. podia-se então dizer que a dialética sucedia à lógica da diferença. e tantas e tantas outras coisas mais. Daí porque Platão precede a Aristóteles. sucedia a dialética. tal como hoje reivindicam os poderes acadêmicos. Tornava-se então mais do que evidente que a lógica clássica e agora também da dupla diferença. que. Ora. no dizer de Sampaio. subsumindo-a em conjunto com a lógica da simples diferença (ciclo contra-dialéico). lógica cínica dominadora. Duas seriam então as lógicas fundamentais: a lógica da identi- . porque o pai mítico precede ao filho submisso à lei de seus pares tanto quanto à gramática. subsumindo-a em conjunto com a lógica da identidade (ciclo dialético). também com muita propriedade. A lógica clássica.14 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO xo). E o que era mais importante: havia uma hiperdialética sucedendo a lógica clássica e subsumindo-a junto. Heidegger (à escuta nostálgica do logos heraclítico). porque o socialismo científico do Outubro Vermelho teria mesmo que fracassar um dia diante dos desafios da ciência e da técnica. de modo necessário e desde sempre. mais exatamente. com a dialética e suas lógicas geradoras.e identificá-los como filósofos desta lógica esquecida.

Enquanto a dialética é um pensar sintético da totalidade enquanto tal. assim. também a si mesma. Por outro lado. síntese das lógicas da identidade. respectivamente.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 15 dade (ou transcendental) e a lógica da diferença. para que se vislumbre o caminho para a superação do “pensamento único” (D/2). com o concurso da noção de síntese dialética generalizada representada por “ / ” (uma generalização da “intraduzível” aufheben hegeliana). mas ao próprio poder fatual da ciência) e. Cada lógica subsumindo todas as anteriores de que é síntese e. a lógica clássica se constitui como uma analítica das totalidades por convenção. I/D/D=I/D/2. D/D/D=D/3. também. D/D=D/2. na ordem lógico qüinqüitário (I/D/2). e o que é real é racional). por convenção. só que agora. das vicissitudes histórico-ideológicas dos últimos quase duzentos anos. dialética trinitária. que se faz passar hoje por hegemônico. síntese das lógicas da identidade. como havia sido posta por Parmênides (pois o mesmo é ser e pensar) ou dialético trinitário (I/D). hiperdialética qüinqüitária. são gerados os nomes de todas as demais lógicas. simbolizadas. definitivamente claro. seguindo velha tradição. lógica da tripla diferença. síntese das lógicas da identidade e da diferença. Estas considerações formais são essenciais para que se possa dar conta do poder da ciência (hoje sob a forma de obsessiva informatização/sistematização do mundo) e para a compreensão. por I e D. de que maneira a lógica clássica formal (lógica da ciência. A partir delas. da diferença. D/D=D/2) subsume a dialética hegeliano/marxista (I/D). I/D/D/D=I/D/3 e assim por diante. lógica da dupla diferença ou clássica. Sampaio deixa. a correspondência estrita entre ser e pensar. como reposta por Hegel (O que é racional é real. a confrontação da dialética trinitária (I/D) com a hiperdialética qüinqüitária (I/D/D=I/D/2) é fundamental para a compreensão das limitações da filosofia hegeliana e marxista (frente não apenas à crítica científica. da diferença e dialética. deste modo. dialética e clássica formal. e não apenas na ordem transcendental (I). como a supera ao mesmo tempo que dela herda o poder totalizador. Aceita Sampaio a crítica heideggeriana relativa ao afastamento entre ser e pensar desde Platão e sua derivação em ontoteologia. Reafirma. em profundidade. mas se recusa a confundir “co-pertinência” com estrita correspon- . ditas lógicas compostas: I/D.

pode-se afirmar que o desvelamento/ordenação do universo lógico (ou seja. o necessário produto e meio correlato desta sua capacidade operatória. cínicas ou demissionárias. Neste universo onto-lógico desdobrado nada existe de fato superior à hiperdialética qüinqüitária (I/D/D = I/D/2). afirma Sampaio: . em todas as instâncias. ganha aqui uma resposta bem precisa. Esta última atitude distinguiria justamente as filosofias da esperança (Nietzsche as chamaria filosofias do ressentimento). reverte-se o processo de “degradação do homem” promovido pela modernidade.[8] A velha razão suficiente leibniziana que responde à questão ontológica (no caso: por quê existe a cultura e não tão apenas nada de cultura. pelo darwinismo e mais recentemente pelas estruturas por si agentes e falantes. A passagem da natureza . aliás. das demais filosofias ..por isso pode ele hoje bem parametrizar a história da filosofia (história do esquecimento da questão do ser).. Passando pela antropologia filosófica e. da “mesmidade” de ser e pensar. implica uma completa reestruturação do universo dos existentes. e é precisamente este o nível que se deve atribuir ao ser humano e à cultura.representada pelos animais superiores dotados de sistema nervoso central (os cordados). a uma antropologia cultural de índole histórica hiperdialética Seguindo as indicações de Sampaio. a que ele diz se filiar.trágicas ou nostálgicas. associada à postulação. em plena consonância com o que está posto pela moderna antropologia estrutural. ou seja. dos modos efetivos de pensar). que a ciência vinha progressivamente reduzindo à pura materialidade calculada (ciência bioquímica) e esta a Nada adequadamente recurvado (ciência cosmológica atual no que ela deriva da Relatividade Geral) [7]. capazes portanto de operar com . daí. Natureza?). Isto posto.16 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO dência.das lunetas ao Hubble -. onde então se pode repor a questão do estatuto do ser do homem. restabelece-se a posição pinacular do homem no universo que lhe vinha sendo repetidamente roubada pelos telescópios . Esse afastamento era inexorável . 2. O estado de “co-pertinência” entre ser e pensar só pode ser de novo alcançado como resultante de uma visada transcendente.

sem prejuízo. como razão aristotélica (D/D). já a posteriori articulado. do seu ser identitário. mas assim o foi desde os tempos de Heráclito e com maior certeza nos de Aristóteles. como capacidade essencialmente analítica não podia caracterizar o homem em sua totalidade ou “maximalidade”. o fato é que. expressa em termos antropológicos.à cultura (I/D/D) se fez pela invenção/incorporação de uma segunda diferença (D) . a duplicava ou reiterava. O logos ampliava a capacidade lógico-analítica do animal. dir-se-ia agora). O único erro aí cometido teria sido fazer do logos uma diferença essencial e irredutível. existencial ou subjetivamente operatório. dado que o logos. que vinha por si só caracterizar o ser humano e não para se articular e/ou ampliar características e potencialidades operatórias de algum modo semelhantes pré-existentes. A passagem do animal . E. Tratava-se de uma concepção inconsistente. a diferença que os separava foi considerada como de natureza lógica: o homem é o animal habitado pelo logos.a diferença clânica. entretanto.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 17 símbolos convencionais (I/D) . pois perdia em termos de integridade e auto-determinação. Identifique-se o logos com a razão (a)colhedora heideggeriana (D) e/ou. desde que viesse para se compor com características operatórias animais similares pré-existentes e de certo modo re-produzindo-as em nível operatório superior. porém. seu estatuto lógico tem que ser na verdade lógico qüinqüitário ou hiperdialético. o homem estaria ganhando de um lado e perdendo de outro. e até muito mais. com o logos. Se assim fosse. o homem podia operar de modo duplamente lógico-diferencial (racionalmente. Do ponto de vista instrumental ou objetivamente operatório o homem é sem dúvida ser racional. Precisamente aproveitando-se deste equívoco foi que o pensamento cristão pode realizar o prodígio de transformar a diferença que diferenciava numa identidade. Inaceitável. a rigor. O logos poderia se constituir deveras numa diferença especificamente humana. capacidades sintéticas já reconhecidas como operantes no reino animal superior. habitado pelo logos. ao preservar sua capacidade lógico-identitária herdada da animalidade superior (cordados). Não se pode precisar a partir de quando a questão do ser do homem veio referenciar-se ao ser animal. como era de se esperar.

Esta se atualizaria ainda doutros modos. D/2}: o par {I e D/2} representando o masculino (pai e filho). seria um dentre muitos modos de manifestação . mas no fato de estar repondo a questão em seus devidos termos. por conseqüência. o importante não está na resposta que viria dar. espírito etc. ou mesmo profundeza cultural (D) ao historicismo materialista de Marx (I/D). e o par {I/D e D}. o fizeram em relação aos negros escravos e hesitaram não fazê-lo em relação aos índios). tanto (I) / (D/2) quanto (I/D)/(D) são .privilegiado. ou corporeidade libidinal (D) ao historicismo absoluto de Hegel (I/D). Apenas isto entretanto não basta. I/D. Masculino/ feminino são assim os dois modos possíveis de realização do ser hiperdialético (I/D/2). restituindo ao animal a integridade lógica (I) e. contrastando com a bipolaridade {I e D} animal macho/fêmea.sopro. o feminino (filha e mãe). de modo hiperdialético qüinqüitário (I/D/D).18 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ao homem não se devia mais a algo da ordem lógica da diferença.. é verdade . ou seja. historicidade (I/D) à antropologia estrutural lévistraussiana (D). negar “animalidade” aos animais (como. Observa Sampaio que quando Lévy-Bruhl coloca o problema da vigência de uma mentalidade pré-lógica entre os povos primitivos em contraposição a um pensamento verdadeiramente lógico dos povos modernos. pois continuaríamos insistindo perigosamente no mesmo equívoco grego. pois. nem mesmo depois de especificada a diferença clânica. Para a antropologia filosófica de Sampaio bastaria dizer que o animal superior opera de modo dialético trinitário (I/D) e o homem. indiferentemente.daquela produção “genea-lógica”. lógico-diferenciais. ao mesmo tempo. que permite a definição de regras de proibição de incesto em paralelo à imposição da exogamia. Não se apercebiam que isto era. alma. tal como o haviam feito os gregos [9]. se pergunta se os primitivos têm ou não lógica (clássica formal). A diferença clânica. consciência. por exemplo. mas sim da identidade . a historicidade hiperdialética (I/D/D). E é precisamente neste ponto que se deve retificar o pensamento estruturalista moderno. liberdade. mediante uma segunda diferença. A sexualidade humana. Veja-se como se queira: estar-se-ia assim conferindo. a historicidade dialética I/D). isto é. D. para daí então alcançar. passa a ser definida como diagonal de uma estrutura lógica quadripolar {I. mais tarde.

Segundo ainda Sampaio entre as grandes tarefas da antropologia filosófica (ou filosofia da cultura) estaria o empenho na decifração da significação cósmica e religiosa do homem.do princípio antrópico [12]. mas sim o descenso do homem ao nível dos entes científicos. entretanto. pois. o super-cosmos elevado à altura do homem logicamente à sua espera. para a moderna organização racional do trabalho. segundo o princípio. cremos que nada há por enquanto de relevante. A significação religiosa do homem. estando nós ainda sob o impacto do anúncio da “morte de Deus”. Somos de opinião... Os caminhos para tanto pressupõem. mas significante . uma renovação profunda de nossas concepções onto-lógicas. [13] . o sentido de sua existência frente ao Absoluto. onde Sampaio afirma: Quanto à significação religiosa. muito mais. uma prova de que aquelas constantes teriam sido “intencional e convenientemente ajustadas”. Na versão fraca do princípio.nem forte. Ele aceita a postulação de um princípio que guarde a inspiração do original. e certamente. na versão forte. O princípio baseia-se na constatação de que o curso do big bang. orientado exatamente no sentido inverso: . é pormenorizadamente tratada em A superação das idolatrias . não há ascensão. Sampaio acha que isto não nos deve consolar. porém. porque na verdade aí se revela mais uma vez a pré-potência do pensar científico. dando alma a uma nova versão . nem fraca. para as vestes e pinturas corporais consideradas como sendo uma terceira pele [10]. ao invés do super-homem. que com o declínio da cultura científica moderna esta questão recuperará o seu interesse maior. uma feliz coincidência. Estruturações semelhantes vigeriam para as línguas naturais. está em estreita dependência da precisão dos valores de um pequeno conjunto de constantes físicas universais.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 19 iguais a I/D/D = I/D/2. entrementes. vale dizer.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária. que depois de quinze bilhões de anos levou à emergência da espécie humana. não importa a versão. Circula hoje a idéia de um princípio antrópico [11] postulando a existência de uma correspondência constitutiva entre o cosmos e o homem.

para Paul .e a historicidade das culturas que se revela. O desvelamento de uma lógica implica necessariamente que dela se alcance uma representação simbólica objetiva. na linhagem das culturas lógicas identitárias (culturas do tempo. prometéica. de transição etc. modos simétricos de um delirante estado almejado de perfeição. do sujeito coletivo ou comunitário (I/D). Começa-se com as culturas tribais de caçadores/coletores do paleolítico.não há quem não esteja a seu favor -. ela se concentra exclusivamente sobre a questão de quem deva ser o sujeito da ciência: para o paradigma anglo-saxão. na variação temporal de seu vigor criativo. a direita. cristã patrística trinitária I/D. Depois vêm as culturas propriamente lógicas: judaica. a rigor. Esquerda e direita. nada podem contra a Modernidade..20 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO A conciliação entre a tese da equivalência de todos os homens no que lhes é essencial e distintivo . A esquerda. telúrico ou libidinal (D). em cada cultura. trata-se do sujeito liberal (I). na enorme disparidade de poder de determinação de uma sobre outra. para a direita. D. dentre outras maneiras. A cultura moderna está associada à ciência e à lógica clássica formal que a governa. é resolvida por Sampaio concebendo a história humana como história do insistente (mas não monotônico) autodesvelamento do seu próprio ser lógico-qüinqüitário [14]. D/D=D/2.seu nível lógico operatório . greco-romana. do sujeito inconsciente cultural. tem por essência a sacralização e guarda de seu núcleo lógico invariante. científica. como demonstrado pela História. No entanto. pré-I (uma proto-identidade que ainda se ignora) seguem-se as culturas neolíticas ou imperiais antigas de base agrícola. lutando pelo perfeição ética (I/D). A religião. Hoje. domina a cultura moderna. do Deus único. pois. Estas formam a seqüência das culturas nodais. pela perfeição estética (D). romântico. mistas (de que seríamos um bom exemplo). processo hiperdialético de desvelamento do seu próprio modo de ser lógico. A visão ideológica da Modernidade não tem a menor preocupação em fazer a crítica da ciência . para a esquerda. são seus próprios modos “desviantes”. mas a própria complexidade do processo hiperdialético permite uma série de tipos não nodais: anômalas. I. A história do homem seria assim a história da cultura. a Modernidade só será superada por uma cultura nova. pré-D (uma proto-diferença).

terá que necessariamente desmascará-la por este estratagema. Como fazê-lo sem antes iluminar o horizonte de sua superação possível? A re-historicização da Modernidade é para Sampaio uma condição sin ne qua non para hoje pensar (e agir) subversivamente. que por isso irá se constituir em lógica de seu permanente desassossego.. é o melhor que poderia . isto é. o poderoso “motor” oculto das grandes realizações humanas.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 21 Tillich. toda cultura finge já ser ou incorporar as virtudes daquela que a ameaça e esta. sob “forma” ou “roupagem” sacralizada. A efetividade da crítica e dos esforços para a superação da Modernidade exige portanto sua prévia re-historização. mas também com a lógica que ela supera e recalca. assim como com a lógica da cultura que a irá suceder. sublimam-se na produção de tantas e tantas riquezas em termos de costumes. instituições. Segundo Sampaio estaria aí identificado: . Para se alcançar uma mais exata compreensão da dinâmica cultural. para Toynbee) [15] enfim. afinal. como as culturas. conhecimentos. similar ao desejo inconsciente pessoal. convenhamos. culturas espirituais. uma nova utopia em seu justo sentido.. Isto nos faz compreender. simula ou finge ser o que ainda virá. que busca sem descanso recuperá-lo. pode enfim abrir novos caminhos para uma melhor compreensão da efetiva articulação entre ser-social e ser-pessoal. para superá-la. ou seja. Sampaio propõe que se correlacione uma cultura não só com uma lógica manifestamente assumida (oficial ou sacralizada). fica a lógica da cultura que irá suceder à cultura de referência.[16] Esta concepção parece ser de grande importância teórica na medida em que o reconhecimento de um desejo social. que. O ser correlato à lógica recalcada acaba se transformando no objeto de desejo da cultura de referência. Como diz Sampaio: Toda cultura. mais intensamente quanto mais chegada à maturidade. Ao sentir-se ameaçada. De outro lado. porém. o desejo da cultura. pensada por sua lógica oficial. através de um processo de reiteradas substituições. técnicas e múltiplas artes.

A partir daí. escolástica. na circunstância. Por outro lado. seu real desejo será da ordem da lógica que a antecede. A impressão é que melhor não se poderia pretender. ou seja. Mais importante do que tudo. mas sob a “forma” incorruptível ou espiritualizada (I/D). à vista da aproximação da era da ciência. cgs. A propósito disto. pois não há melhores indicadores do real nível de vitalidade da Modernidade. seria que o esquema não falhasse na compreensão da Modernidade. seja capaz de dar conta das passagens críticas do processo histórico cultural. não haja quem não desconfie que um tal esquematismo. [17] Acredito que. Sampaio identifica a física como o cerne da Modernidade em razão de sua obsessiva pretensão de medir (D/D) o mundo tido como simples manifestações do unotrino (I/D). porém. Como cultura dialéticotrinitária (I/D). espaço e matéria (por isso. nesta cultura. etc). então. à primeira vista.tempo. chega-se a uma compreensão da história da física de inexcedível clareza [18]. Aí. Tal desejo encontra precisamente na arte sua melhor expressão metafórica. lógica da diferença (D). o corpo. Sampaio chama a nossa atenção para a grande quantidade por aí de “museus abarrotados de arte sacra” cristã. mks. de modo confesso. não mais platônico-agostiniana (I/D). não se exclui desta perplexidade. fazendo com que ela. são bastantes os sistemas de medidas. se irá ver a cultura medieval cristã antecipar-se fingindo-se já Moderna. racional. Isto nada mais é do que querer ver o mundo reduzido a apenas três variáveis fundamentais . mas aristotélico-tomista (D/D). assim tão drástico. Não se pode por isso mesmo relaxar na vigilância dos sinais que possam testemunhar do vigor da física. como encontrar um bom contra-exemplo para pô-la em cheque? Em contrapartida os exemplos favoráveis não faltam. mormente em seu momento atual. Depois. assuma um papel de excepcional relevância. seria preciso observar as manobras de fingimento que denunciam o grau de temor da Modernidade em relação ao seu futuro.22 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mesmo fazer para embaraçar o curso do processo hiperdialético da História. Até o próprio Sampaio. como o da cultura cristã trinitária. os acontecimentos são por demais claros e “auspiciosos”: . enfim.

pelo . menos retrospectivo do que propriamente prospectivo. a promessa do homem quimicamente puro e sem defeitos de usura ou de fabricação . etc. um imerso na Modernidade. já. a boa nova: os prodígios da biopirotecnia. se assistirá à reação desesperada: a ordem virá para a degola dos recém nascidos. sempre com a mesma implícita conotação econômica. biblicamente instruídos. As opções culturais brasileiras – luxo ou originalidade (e seus riscos) Existe um quase consenso acerca de que o Brasil ocuparia uma posição de marginalidade em relação à Modernidade. Esta seria nossa razão de ser histórica. tida como de atraso. Parece-lhe paradoxal que uma nação nascida com a própria Modernidade possa. o que justificaria os seus ingentes e continuados esforços para superar tal situação. sem jamais esquecer ou menosprezar as grandes lições da História (da cultura). Sampaio não nega a condição de marginalidade nem o malestar daí decorrente. Ademais.alcançar o atual paradigma social anglo-saxão. Ou será que. tal como interpretada pelas elites políticas e intelectuais da nação. em última instância. mas bem outra sua natureza: ele seria mais cultural do que econômico. Brasil-Bélgica/ Brasil-Índia. já não se anteciparam financiando programas de esterilização em massa?! [19] Como recusar tantas e tamanhas evidências?! Para Sampaio seria esta a hora de agir. todos os dias. como se reservando para algo maior ainda por se realizar [20]. Ele acredita que dualismo há. ter problemas crônicos de nela ingressar. mas desconfia da natureza que em geral se lhe atribui. As ideologias têm de comum o propósito de apenas substituir o sujeito individualista sujeitado à ciência por um outro: a esquerda. sem mais.a vida eterna. Como sempre. Haveriam sim dois brasis.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 23 Na TV e por todo canto. 3. aquela condição marginal tem sido diagnosticada como a conseqüência de um persistente dualismo: Brasil moderno/Brasil arcaico. outro que a ela se recusa. mas com toda a prudência. Isto traz implícito que teríamos mesmo uma só destinação . etc. Já houve um grande esforço para se chegar a uma interpretação ideológica da marginalidade brasileira e Sampaio debita seu fracasso a causas que lhe são imanentes.

Sampaio. fosse à esquerda. E chama a atenção que nas circunstâncias atuais. mas ocupando todos os lugares?! Jamais houve ou poderia ter havido saída lateral. mesmo que não seja esta sua intenção. esperança bem fundada de uma nova cultura. A única saída viável estaria em investir numa crítica da cultura capaz de desbloquear o horizonte histórico. uma concepção da história da cultura como auto-desvelamento do ser lógico do homem é o bastante para re-historicizar a Modernidade e iluminar o horizonte de sua possível superação. Conforme Sampaio. a crítica ideológica é o que mais pode desejar o pensamento único. Com o descortino dos mecanismos lógicos da dinâmica cultural em Desejo. pelo sujeito romântico ou libidinal.24 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO sujeito coletivo. o Brasil se caracteriza pela confluência de um amplo leque de culturas. faz as vezes de profeta. para evitar maiores riscos. Fingimento e Superação na História da Cultura [22]. econômicos e culturais. o que no fundo traduz idêntico desejo por um capitalismo perfeito. Como se viu anteriormente. É também por isso que Sampaio acha insuficiente a crítica frankfurtiana. a direita. como para além da lógica clássica existe uma lógica hiperdialética qüinqüitária. Volta ele então à Historia do Brasil para compreender que sua marginalidade é também de certo modo resistência propositada. para além da Modernidade científica e “mercado-lógica” existe a esperança. seus beneficiários não se disporiam até a ajudar (financeiramente. relativizar a Modernidade permitindo que a vista alcance mais além. na medida em que ela não admite qualquer possibilidade de que se transcender a cultura em que se vive. Quem sabe. Assim. todos nós estaríamos capacitados a de pronto perscrutar os sinais de fraqueza e declínio. o que leva a uma angustiosa inação [21]. que é sua especialidade) os seus velhos inimigos para que por aí fiquem vagando impotentes. Esboçando as características mais marcantes da cultura nova. Ele mostra que dentre elas estariam a re-significação cósmica [23] e religiosa [24] do homem e a completa renovação das relações indivíduo/sociedade sob os aspectos políticos. bem como as oportunidades de ação cultural que ao mesmo tempo acelerem e minimizem os custos (historicamente enormes) do processo de superação da Modernidade. dificulta a sua . que se por um lado. fosse à direita.

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 25 modernização. bem outra é reconhecê-lo ou não como acontecimento. No caso presente. ordenar a degola dos nossos terroristas recém-nascidos onde. e tenta a todos seduzir ofertando a vida eterna aqui mesmo na Terra através dos poderes cada dia maiores do que ele jocosamente chama bio(piro)tecnologia. estes possam ser para ela mais perigosos. mas não o vimos aportar a solução: o ódio das elites ao povão . como nos instrui o Velho e o Novo Testamento. a TV. Afinal. entretanto. quando desesperada. que seria aquela do esmorecimento do vigor criativo dos laboratórios científicos centrais. a seu ver. No entanto. ela irá. ao que pudemos perceber. vale dizer. já hoje finge ser sua própria posteridade. Sugere Sampaio que o Brasil se constitui. Por tudo isso. em entrar para o “Primeiro Mundo”. E que portanto o Brasil não tem uma só destinação possível. a fazer nascer no mundo uma nova cultura. ainda que um pouco tardiamente. não estamos onde tudo acaba. mas pode alternativamente lançar-se na grande aventura da construção de um novo modo de ser pessoal. fica um sério problema que ele identifica. qual a significação última desta desmedida NARRATIVA de Luiz Sergio Coelho de Sampaio jus- . Deduz-se daí que a opção pela originalidade não está isenta de grandes riscos. tanto denotativo e preciso. mostram insistentemente todos os meios de comunicação de massa. muito ao contrário. em especial. coletivo e cósmico. finge-se pós-modernidade. no único perigo real para a cultura dominante e também por isso. aqui se concluiria. a seus cálculos. a defesa da língua (pelo uso. estaria a preservação com unhas e dentes das condições mínimas vitais para a criação e circulação da produção cultural brasileira e.a continuada traição das elites políticas/econômicas e a alienação das elites culturais. por outro lado. a causa vale a pena. estamos sim onde tudo a rigor começaria. A cultura dominante. Apreciar e mesmo julgar um trabalho intelectual é uma coisa. deve-se desenvolver em e para o Brasil uma estratégia cultural para sobreviver até à chegada da melhor hora. No cerne desta estratégia. constitui a base necessária à edificação de uma cultura nova realmente após moderna. para os próprios brasileiros. E. Fosse o caso geral. quanto ao limite expressivo) e da nossa música em todas as suas variantes. mas duas: ou o luxo ou a originalidade. em especial. Pode por isso continuar insistindo. Mas de qualquer modo. talvez.

Segundo Sampaio. 1998. cit. C. “Reflexões. Porto Alegre. “Acerca da lógica e da cultura”. Rio de Janeiro.26 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tamente neste momento de convergência do pós-moderno europeu continental e do pragmático anglo-saxão transatlântico (especialmente. 1999. 9. Oficina do Autor/etc. novembro de 1994. S. Rio de Janeiro. Indiana U. Por fim. pode-se dizer que os cordados são dotados de uma dupla pele. fasc. CÔRTES GUIMARÃES. acerca do advento da cultura nova pós-científica” in Pensamento original made in Brazil./FINEP. acabando de acordarem que a grande narrativa simplesmente não há?! Aquiles Côrtes Guimarães do Departamento de Filosofia do IFCS-UFRJ NOTAS 1. HEIDEGGER. SAMPAIO. L. de. capaz de se por na pele do outro (simbolicamente expresso pelo uso . in Lógica ressuscitada – Sete ensaios. “Lógica da diferença” in Revista brasileira de filosofia. S. 10. Tendências da filosofia brasileira contemporânea . 8. op.os neohegelianos. EDIPUCRS. Rorty). Problemática do culturalismo. de. SAMPAIO. M. L. L. 6. “A grande tarefa de nosso tempo: Uma nova filosofia” in Revista brasileira de filosofia. Aquiles. “Noções de antropo-logia”. PAIM. C. aliás. ______. 7. Projeto de pesquisa para o CNPq. logicamente otimistas. Aquiles. e também “Sumário das contribuições à filosofia da parte de Luiz Sergio Coelho de Sampaio”. in Pensamento original made in Brazil. S.. fasc. já está em Nietzsche. Paulo. Rio de Janeiro. isto é. 1999. 1995. S. op.” 4. o homem. ______. CÔRTES GUIMARÃES. C. 2000. S. Sumário das contribuições à filosofia.194. SAMPAIO. Incluído no volume ora prefaciado. 1988. cit. Dado que o sistema nervoso central deriva da invaginação do próprio ectoderma. Rio de Janeiro. EdUERJ. ser vivo implica ser dotado de uma membrana osmótica – a primeira pele. Paulo. que em O livro do filósofo afirma: “Não se trata de aniquilar a ciência. mas de dominá-la. 189. P. Esta disposição geral. Bloomington. 2. Hegel’s pPhenomenology of spirit. 5. 3. abril/junho 1999. capaz da piedade (Rousseau). de. Antônio.

fingimento e superação na História da Cultura”. “Bases para a urgente formulação de uma estratégia (cultural) brasileira”. logicamente otimistas. . 23. mais recente. Tillich. “A superação das idolatrias . S. figuradamente. 1998. 11. cit.______. op. Incluído no volume ora prefaciado. 24. SAMPAIO. op. ______. op. Incluído no volume ora prefaciado 17. Incluído no volume ora prefaciado. Incluído no volume ora prefaciado. “Desejo. in Lógica ressuscitada – Sete ensaios. cit. Ibid. Rio de Janeiro. cit. Incluído no volume ora prefaciado. “A história da cultura segundo Toynbee. outubro de 1999. novembro de 1999. 16. “Reflexões. Hegel e Marx”. de uma terceira pele. julho de 1999. 20. “Princípio antrópico . cit. Incluído no volume ora prefaciado.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária”. acerca do advento da cultura nova pós-científica”. novembro de 1999. 19. “Re-significação cósmica do homem e do processo de sua autorealização cultural”. “Re-significação cósmica do homem e do processo de sua autorealização cultural”.______. op. C. cit. Apontamentos para uma história da física moderna. setembro. 21. de.______.______.um novo fundamento e uma significação renovada”. S. op. “Crítica da modernidade”. 1999. SAMPAIO. UAB. fingimento e superação na História da Cultura”. ______. Rio de Janeiro. 12.______.______. Rio de Janeiro. “Desejo. Ibid. Rio de Janeiro. 13. “Noções de Antropo-logia”. de. Rio de Janeiro. 1993/1997 e. 14.______. 18. op. 15. L. “A superação das idolatrias . C. 22.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 27 de roupas ou pinturas corporais).______. L. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária”. cit. seria dotado.

das antropologias de diferentes matizes. mas. hipótese aventada por LévyBruhl e que teria sido radicalmente banida pela antropologia estrutural lévi-straussiana? E o reflexo. estatísticas de importação de secos e molhados ou faturas sacadas contra a Santa Casa da Misericórdia? É óbvio: nisso não há mal algum. pelo mais inócuo: o exercício de vasculhar receitas em antigas farmácias homeopáticas. não apenas o que há para . refletir: por que. além da etnologia. uma filosofia da cultura? Por que existe a cultura e não somente nada (de cultura. da sociologia da cultura. natureza)? Pôr em dúvida: estaria mesmo encerrada a disputa acerca de um suposto pensamento pré-lógico dos “povos primitivos”. Considerar o novo mapa do território lógico. aqui . de tal querela? O que. de coração aberto. não garante verdades de bom peso. acolhendo. lógica que há muito parecia morta. na verdade. também. tão só.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 29 Apresentação O que se pretende? Inicialmente. ganhou-se até agora substituindo o evolucionismo (discurso do colonizador de maus bofes) pelo relativismo multiculturalista (discurso do bem-bom colonizado) ou. a lógica ressuscitada. às vezes. até pelo contrário. ou sobretudo. Recomeçar: preliminarmente. cortada e as partes defumadas pelo formalismo imperante. isto é.este é modo preponderante do “acontecer” no Brasil -.

E. Um zoom sobre as origens e fases da Modernidade para melhor inspecionar-lhe as entranhas (como foi um dia prática de adivinhos). em novos termos (vale dizer. as raízes de uma antropologia lógico-filosófica – o homem como ser mundano lógico-qüinqüitário. logo. Retomar: agora. de transição etc. desnecessariamente violentas (é só somar seus mortos empilhados ou no ar volatilizados ao longo do século XX). especialmente. em todos os jornais impressos e nos horários. na física – o unotrino sob a roupagem lógica clássica formal. a partir daí. Por conseqüência. Revisitar: a história da cultura doravante considerada como o processo do paulatino (nem monótono. das primeiras originarse-iam. Não há saída nem à esquerda nem à direita. também. justo por tanto. desde os pequenos bandos de caçadores/coletores do paleolítico à atualidade. das TVs. calculado na cruz – e não se deixar enrolar pela promessa da vida eterna now. não nos basta a crítica da técnica. mesmo reconhecendo os méritos. fingimento e superação na história da cultura. primeiro e único. desde os gregos). teríamos que considerar pouco mais que meia dúzia de culturas nodais e inúmeras culturas não-nodais – arcaicas. de mil maneiras. assim como as enrolações . Chegandose à Modernidade. mas nem por isso tornado santo ou absoluto). tida esta como apenas um modo metafísico de ser do homem (Heidegger). sim.30 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO recuperar. posto inteiro na ciência. – que. mistas. atentar para o seu desejo. Descartar as ideologias por impotência e. por obra e graça da biopirotecnia que se anuncia. Escarafunchar a dinâmica cultural em sua essência: desejo. mas igualmente o que há para se avançar e conquistar. bem à vista. dos nobres aos mais pobres. sem descanso. Fixar. nem monotônico) auto-desvelamento do ser lógico-hiperdialético do homem (uma renovada fenomenologia de um espírito mais elevado. a temática lógica/cultura.

não deixar qualquer falsa passagem. criminalizou todo e qualquer ato de legítima defesa cultural (com exceção. mas infelizmente se deixou dobrar frente à fantasiosa onipotência do discurso científico. por sua vez. se assanhar e se prostituir com as sobras da Modernidade. se arriscar na criação de uma nova cultura. vermelha e negra por todos os lados. já nos espera. acima. Resistir: olhar e não desviar os olhos do que se verá. Enfrentar a questão cultural brasileira na presente conjuntura. Forçar. de outro lado. religioso e social. escolher o luxo (que agora já é lixo) ou a originalidade. Cassirer compreendia e queria assim. escolher o que. Três idéias que se poderia dizer kantianas. e avançar. pois não há outra alternativa metodológica à crítica lógicofilosófica da cultura. também copiando) o fascismo. que. Tão propositada quanto obsessivamente. econômica e propriamente cultural. Ganhar. a certeza de que uma cultura nova lógico-hiperdialética advirá. não fora a troca que fizemos da temática da alma por aquela do indivíduo/sociedade. Pintar e bordar com linha grossa – é o que nos é hoje permitido – como a cultura nova implicará na re-significação do homem sob três grandes aspectos: cósmico. este. em suas dimensões política. então. esta bem mais sutil. Anunciar bem alto: temos opções – de um lado. apesar da grande armação. do caráter não extensional pela autoreferencialidade. não enrubescer. mas também não amarelar. a re-historização da Modernidade. naturalmente. da cultura hegemônica etnocida e suas cúmplices e/ . com fundamento na substituição preventiva. faturando (de certo modo. de qualquer maneira. driblando a censura branca . nem que seja um mero “buraco de verme .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 31 comunicativas em que se transmudou a badalada Escola de Frankfurt. Concitar à resistência: assumir os riscos da opção pela cultura nova lógicohiperdialética.

tentam elas nos fazer acreditar. coincide já agora com aquela da restauração da legalidade. não se deixará superar sem antes ordenar a degola de todos os supostos terroristas recém-nascidos. por algum tempo. depois que chegamos ao ponto de ver um Presidente da República e seus pares quadrilheiros tramaram a substituição do sufixo BRAS no nome de uma empresa brasileira por considerá-lo depreciativo. Ter bem presente que é para voltar tão logo se possa. E. deixando claro para as histórias futuras que a traição das elites políticas e a demissão das elites intelectuais do Brazil nunca foi assim tão ingênua quanto de costume. posto que a causa. este texto passa a ser também um brado de protesto e uma clara conclamação à resistência ativa e por todos os meios efetivos e eficientes. depois dos fatos acontecidos. é preciso se fazer estratego: se abaixar no mato ou fugir. Por isso. hoje. tenha sobrado alguma coisa!). da compostura da autoridade e da dignidade da nação (na hipótese que desta. posto que a escolha fundamental terá que ser sempre a liberdade e não as águas do Nilo. para o Egito. Ouvir com seriedade o alerta bíblico reiterado: a Modernidade. no fundo. .32 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ou associadas). Estampar o registro de pelo menos uma dentre as muitas intervenções por nós realizadas em foros governamentais e acadêmicos. como qualquer outra cultura lógicodiferencial.

mais de mériter ce bonheur. elaborando modelos. a arqueologia” das culturas (ou das mentalidades) e. muitas vezes lidando com informações de segunda mão. antropologias de diversos matizes .evolucionista. Cassirer – Logique des sciences de la culture Por que também uma filosofia. procedendo a análises comparativas inter-culturais e a descrição e avaliação de eventuais processos interativos entre culturas [1]. funcionalista e estrutural -. a antropologia especificamente cultural. estribando-se sobretudo no trabalho de campo. se para cuidar da cultura já temos a etnografia. explicitando inter-relações funcionais entre os múltiplos aspectos. por um viés fenomenológico/descritivo. a etnologia. uma filosofia da cultura Ce que la culture promet aux hommes.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 33 1 Porque. por um viés mais compreensivo. A antropologia. ao se perguntar pelo homem em . estudando as relações com o meio geográfico. a sociologia da cultura? Poder-se-ia argumentar que a etnografia e a etnologia cuidariam apenas de culturas particulares: a primeira. a segunda. ainda que um tanto redutora. também. et c’est la seule chose qu’elle puisse leur donner. E. a história da cultura (ou das civilizações). ce n’est pas de gagner le bonheur suprême.

assume um ponto de vista dialético. mas se justifica pela seleção e ênfase que dá às manifestações propriamente simbólicas (língua. neste quadro de referência. funcionalista. procurando delinear uma totalidade/processo em que as culturas se apresentam apenas como momentos de relativa estabilidade. inconsciente para seus portadores. tomando a sociedade como um objeto em si (sistema social). todos eles justificados por sua contribuição à sobrevivência do grupo. já menos antipática. irredutível.34 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO geral. para a antropologia política. à exaustão. que se aproxima da antropologia estrutural. A sociologia desde suas origens se assume ciência positiva. por definição. os processos de reprodução dos seus poderes e de sua integridade. prefere ver a cultura como sendo a realização de imensa teia descentrada de relações. em sua versão estruturalista as culturas se apresentariam como realizações. arte. Em sua versão evolucionista ela se preocupa em adjudicar posições mais ou menos retardatárias numa escala que iria da animalidade à cultura do antropólogo em exercício. a sociologia da cultura vai se apresentar como o estudo do sub- . com elevado grau de congruência. representações e fórmulas rituais religiosas etc. deixando o resto a cargo de antropologias vizinhas: para a antropologia econômica ficam os processos de reprodução material do grupo concreto. em boa medida.). admite que a integridade do sercultural corre por conta da cerrada e coerente trama de relações entre os seus diversos aspectos e dos seus mecanismos internos de auto-regulação. A história das culturas. topa de imediato com a cultura como sendo seu traço mais essencial. configurando uma mentalidade ou o “estilo de vida” de uma época. A antropologia cultural é quase um pleonasmo. A arqueologia das culturas ou das mentalidades. das possibilidades combinatórias de uma matriz ou estrutura formal subjacente. A partir daí confunde-se o ser homem e ser cultural.

com ares de certa gravidade. para descartar ou subsumir é tradicionalmente aquele da pergunta pelo ser. fosse onde fosse. depois de tudo isso. Não queremos dizer aqui que a preocupação ontológica seja coisa inteiramente nova no âmbito dos estudos da cultura. valeria compararmos. desta sorte. que poderia trazer ainda de novo a filosofia da cultura? O ponto de vista da filosofia. transladada agora para o âmbito regional da cultura: por que há cultura e não tão apenas nada (de cultura. voltada para o esclarecimento da diferença originária e abissal entre cultura e nada de cultura (Natureza). filosofia da cultura. Para ilustrar. que podemos já agora identificar como sendo Natureza). enquanto que na filosofia da cultura a preocupação básica seria onto-lógica. O que se quer aqui precisamente enfatizar é tão apenas que um tal questionamento não poderá deixar de estar presente de maneira conspícua num texto que se intitula. ínclita guardiã da diferença onto-lógica. pela essência última da cultura. Bem. para afirmar ou para negar. No cerne da filosofia da cultura estaria pois a pergunta pelo ser da cultura. diferença primordial entre o ser e o nada. ao lado do sistema econômico e do sistema político. Estariam também no círculo das preocupações da filosofia da cultura (ou da antropologia filosófica) .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 35 sistema cultural (ou simbólico) de uma particular sociedade. de dar conta da diferença entre culturas estatuídas e até mesmo de universais culturais. a etnologia e a filosofia da cultura: a primeira teria uma preocupação apenas ôntica. por exemplo. pelo ser do homem. não se distinguiria de uma ontologia fundamental. sinteticamente expresso por Leibniz [2]: por que existe algo e não tão somente nada? A filosofia. a especificidade da filosofia da cultura recairia justamente no enfrentamento daquela mesma pergunta. Ela de fato sempre esteve presente quando se perguntou de modo radical e sem preconceitos. Isto posto.

apenas uma grande obra bastaria -. ele põe a alma. a impossibilidade de uma efetiva totalização experiencial -. o Absoluto e a sociedade . é necessariamente referencial de si próprio. dado que o que aí se está buscando é um sentido último.o cosmos. a auto-contextualidade social se torna também imperativa na medida em que reconhecemos na cultura o fundamento último da unidade do sersocial. O cosmos precisa ser seu próprio referencial (eis a razão profunda das discussões acerca do papel da teoria da relatividade na cosmologia). qual o sentido da existência humana frente ao Absoluto. sem referentes objetivos [3]. ainda que de maneira si- . a divergência se deve a que o critério de seleção em Kant é francamente negativo . qual o significado real das relações indivíduo/sociedade? Somos quase que imediatamente impelidos à comparação destes três contextos . enquanto que o nosso é intencionalmente positivo . por conseqüência. quase que só pelo nome.a infinitude. A experiência de qualquer autêntica obra de arte . mas a auto-referencialidade. de modo equivalente. Destoariam elas em apenas um ponto: onde pomos a sociedade. que representa a condição de ser-social do homem ou. qual o sentido da presença do homem no cosmos? Segunda.a auto-referencialidade.com as três idéias da razão pura kantiana. qual seria sua significação em âmbito religioso? Terceiro.36 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tudo aquilo que de mais relevante houvesse no sentido de garantir a consistência da resposta dada à questão: que é o homem? Se aceitarmos que a significação é sobretudo uma exigência de contextualidade. pode facilmente nos instruir sobre o que significa ser. A nosso juízo. chegaríamos à conclusão que três grandes questões se nos impõem: Primeira. o Absoluto. por fim. ou seja. a nosso juízo. não deve ser pois a perigosa infinitude [4]. totalidades não acessíveis à experiência e. O critério de escolha das idéias/contextos.

com a psicanálise.estreitamente dependente dos valores de um pequeno conjunto de constantes universais . Sem isto torna-se impossível perceber a complementaridade onto-lógica que condiciona. o referencial de si mesmo! A questão da significação cósmica do homem vem sendo completamente renovada em função dos recentes progressos da cosmologia científica. estando nós ainda sob o impacto do anúncio da “morte de Deus”. indivíduo e sociedade. A filosofia da cultura. e isto. já pelo que lhe vem da tradição. no nosso entendimento. cremos que nada há por enquanto de relevante. uma renovação profunda das concepções onto-lógicas vigentes [7]. muitas vezes. e isto ocorre.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 37 mulada. A relação indivíduo/sociedade [8] precisa ter sua compreensão radicalmente revista para que se afaste em definitivo a simplória conotação topológica conteúdo/ continente que. é única (afora. convenhamos.e a existência da espécie humana. que afinal. pelo fato da filosofia não se recusar a atribuir seu próprio status àquilo mesmo que a nega. lembremos o já acontecido com todos os positivismos e o que hoje acontece. que consideramos inevitável. naturalmente. entretanto. recuperará o seu interesse maior. Quanto à significação religiosa. estabelecendo um compromisso originário entre o processo cósmico (hipótese do big bang) . o próprio Criador) a dar testemunho daquele processo [6]. não . Os caminhos para tanto pressupõem. até de maneira radical. de parte a parte. talvez. é um saber com a peculiaridade de incorporar sua própria história. bem sob nosso olhar. segundo as três dimensões fundamentais do ser-social – o político. de costume. o econômico e o propriamente cultural. Já circula amplamente nos meios mais cultivados [5] a hipótese de vigência do chamado princípio antrópico. Só para exemplificar. se lhe dá. que com o declínio da cultura científica moderna esta questão. A filosofia. Somos de opinião.

38 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO deveria se constituir numa exceção. . deve ela também se interessar pelas novas oportunidades de testes de coerência e adensamento da significação de suas concepções e até por acompanhar os movimentos de aberta contestação às suas posições conceituais. em todas as antropologias específicas (política. e de tudo mais que à sua volta acontece e que por natureza nela e por ela reverbera. nos saberes psíquicos e vai por aí a fora. nas histórias de longo curso. econômica. na lingüística. a filosofia da cultura é sobretudo o exercício do auto-conhecimento da própria cultura. Em suma. Assim. E estas oportunidades estão por toda parte: para começar. sem restrições de qualquer sorte. cultural). na etnologia.

na medida em que defendemos uma estreita correspondência entre ser e pensar. a ontologia tende a confundirse com a lógica. em consonância com uma velha tradição que remonta a Parmênides.1 – Preliminares .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 39 2 Bases lógicas para uma antropologia filosófica J’appelle philosophe contemporain celui qui a le courage de traverser sans faiblir la antiphilosophie de Lacan. Ils ne sont pas nombreux. 2. não obviamente no sentido restrito que esta última vem assumindo nos meios acadêmicos. de uma antropologia [1] e. tentar satisfazer nossa curiosidade acerca da situação atual e das perspectivas brasileiras sob este crucial enfoque. passa por Platão e chega até Hegel. mas naquele que esteve sempre presente no curso da história da filosofia. aliás. seguindo um pouco mais além. Tudo isto irá requerer a exposição prévia dos nossos supostos filosóficos. Conditions Nosso principal objetivo aqui é apresentar as linhas gerais de uma antropologia filosófica ou. e que buscaremos também aqui resgatar. Alain Badiou. Nesta concepção filosófica. o que para nós seria o mesmo. que serão fundamentalmente lógicos.

ou ainda. lógicas que não podem por qualquer modo ser uma “derivada” da outra. seria a lógica do mesmo. a primeira. c) Existem duas lógicas fundamentais. do pensar inconsciente. vale dizer. considerado isto de uma maneira mais geral. lógica do paradoxo (Kierkegaard). mas também o pensar dialético (pensar síntese do um e do múltiplo) visando a idéia (Platão) ou ainda a História (Hegel).2 . de algum modo. lógica I. su- 2. e mais ainda o pensar hiperdialético (pensar síntese do um. b) A tematização de um modo de pensar e a sua expressão discursiva arrazoada ou paraformal constituem uma lógica. que iremos denominar lógica da diferença ou. sumariamente. por sua peculiar natureza as lógicas historicamente atingem diferentes graus de formalização. até hoje mal cernida pela tradição . do transcendentalismo fenomenológico de Husserl . logos heraclítico (segundo Heidegger).40 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO As nossas principais teses lógicas – como já dito. lógica do pior (Rosset) etc. o “ilógico” nietzschiano. o ser capaz de discurso. do múltiplo e do múltiplo do múltiplo) que visaria o ser humano. a segunda. seria a lógica do outro. do sujeito transcendental ou crítico da ciência em Kant. lógica do significante (Lacan). o mesmo. igualmente onto-lógicas – seriam as seguintes: a) Ser e pensar são.lógica do coração (Pascal).A lógica ressuscitada . já bem identificada pela tradição. do pensar consciente.por isso a denominamos lógica transcendental ou da identidade. a lógica clássica ou aristotélica. mas nenhuma pôde ou poderá neste mister exceder aquela cuja especificidade é a forma abstraída. que inclua não apenas o pensar que visa o um. porém. lógica implícita do cogito cartesiano. ou.

D/D = = D/2. é a lógica dialética. I/D/D= = I/D/2. D}. I/D. na verdade. Na prática isto quer dizer que qualquer ocorrência de I na designação de uma lógica resultante da articulação de quaisquer seqüência ordenada de lógicas.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE mariamente. lógica D. onde I faz o papel de elemento neutro ou nulo à direita [3]. D/D = D/2. contratualmente . 41 d) Todas as demais lógicas “derivariam das lógicas fundamentais. A segunda. doravante. não podendo obedecer ao princípio do terço excluído. síntese das lógicas da identidade e da diferença. pode ou deve ser desprezada. o degrau um daquela. I/D/D/D = I/D/3 e assim por diante. o que já não acontece com não-A que carrega inexoravelmente uma certa franja de indefinição dada a inesgotabilidade (pelo menos prática) do mundo. D/D/D =D/3. esta que passa a ser considerada. como por exemplo. A é algo por constituição sempre bem definido. Esta última designação tem um sentido profundo.a). Estas denominações sintéticas das lógicas constituem um semimonóide [2] livre gerado pelo conjunto {I. por exemplo. depois. ou ainda (D)/(I/D)/(I)=D/D. que não seja aquela de primeiro lugar à esquerda. através de uma operação que denominamos síntese dialética generalizada simbolizada por uma /. Teríamos assim as lógicas derivadas I/D. que não pode jamais confundir-se com uma operação de tipo matemático ou formal. e) A primeira lógica derivada. porque uma simples diferença A e sua negação não-A não formam uma par simétrico. Para contornar esta assimetria fazemos uma primeira diferenciação D1 discriminando S e não-S (ver figura 2. portanto. ela é uma generalização da aufheben hegeliana. será identificada à lógica clássica ou aristotélica. o produto cartesiano. I/I/D/I= I/D. lógica do terceiro excluído.

mas ao mesmo tempo conservam integrando) as que lhe são anteriores e.Diferença e dupla diferença f) Todas as lógicas derivadas subsumem (superam. D/D = D/2 [4]. As demais lógicas sintéticas não foram ainda identificadas e nomeadas por razões que esperamos fiquem claras ao cabo do presente trabalho. não-não-A e A passam a ser também equivalentes. S im p les d iferen a nª o nª o - D u pla d iferen a nª o . também a si próprias. sim. a lógica dialética. . I/D mais a lógica clássica (ou da dupla diferença) D/D = D/2 e. doravante. Assim sendo. A e não-A tornam-se simétricos. interna ou condicionada a S. o que vem constituir uma das formulações do autêntico princípio do terceiro excluído. a si própria. aí então introduzimos uma segunda diferença D2. passa a ser por nós preferencialmente denominada lógica da dupla diferença ou. a si mesma. agora. Nestas circunstâncias.A A = n ª o -n ª o -A D D D Figura 2. de modo compacto. subsume a lógica da identidade I. assim.a . ainda por convenção. por convenção. já a lógica hiperdialética I/D/D = I/D/2 subsume as lógicas I. Esta. D.42 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO desconsideramos não-S o que transforma S numa totalidade por convenção. bem definidos ou esgotáveis. por exemplo. ou de mesma natureza. I/D. a lógica da diferença D e. por convenção. princípio este por nós considerado como realmente característico da lógica clássica. porque ambos são.

0 . po ssibil. C o sm .0 2 ∀x ∃φ(x) D =D 1 . da Id e n tid .b apresentamos alguns exemplos. Figura 2. inconscientemente.-1 2 3 S =1 eu . em geral.d o m u nd o C o res a zu l b ran co ve rm elh o pre to P o s.ele G eo m Øtric a . A steca Sul O este L este N orte u m b. D. da L g. D/2. etc. D ifere n . Na figura 2.b . L g ic a C lÆ ssica H ip e rd ia.-1 3 ∃x φ(x ) H =1 1 ∀x φ(x ) A =1 1 . c o n tin ge n. L g ic a . – as lógicas admitem um sem número de representações outras já efetivamente produzida pelas diferentes culturas históricas. F am iliar p ai m e filha filho fam lia Verb o au x. S er ter h av e r esta r am a r?! A n im al Æ g u ia se rpe n te le ª o to uro h om em S ign o zo diac . I/D.Representações histórico/culturais das lógicas . D i-m e n sı es s/L ac an im ag in. A q u Æ rio E scorp iª o L eª o To u ro L ibra C an cer A ire s C ap ric. GŒ m eo s P e ix es S ag itÆ rio V irg em C an do m b lØ IfÆ O x alÆ O gu m Exu M o d alid a de ne cesse c. L g ic a D ialØt. sem qualquer pretensão de esgotá-los. R e p ese n ta ª o L g.tu. P r prio s G eo m Øtric a ∃x φ(x ) I =I 1 .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 43 g) Além da algébrica – I. N u m Øric a 1 2 3 4 5 E lem e n to s ar Æ g ua fog o te rra q uinta e ssŒ n. im p o ssib. (sign ific an te ) R eal sim b lic o M atem as laca nian o s O p erad o re s Val.

vale dizer. a D/D = D/2 associamos dois segmentos de reta ortogonais.c . tendo por base um “cubo” em n dimensões. o mesmo I em cima e em baixo .Representações canônicas À lógica I associamos um ponto numa dimensão própria independente daquelas do conjunto das diferenças. de modo que no todo ficaríamos com um segmento de reta na vertical tendo na extremidade superior um I e na inferior D/0 = I. Figura 2. ou seja.c). a D/D/D = D/3. por uma pirâmide de base quadrada. e assim sucessivamente (ver figura 2. e a lógica I/D/2. três segmentos ortogonais.44 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Vamos agora deter-nos um pouco mais demoradamente sobre o que denominamos representação geométrica canônica. representada então por um triângulo. precisaria ser uma “pirâmide” cuja base estaria reduzida a apenas um ponto. um quadrado. de sorte que à lógica I/D/n fica associada uma “pirâmide” em n+1 dimensões. por coerência. um cubo. No caso de I propriamente dita a representação canônica. À lógica D associamos o segmento de reta. para preservar a coerência com as demais. Como exemplo daríamos a lógica dialética I/D.

2. os três primeiros. definem planos onto-lógicos. ditos mundanos. respectivamente. 1. às quais irão corresponder. o trinitário ou objetivo correlato a I/D e o qüinqüitário [5] ou subjetivo correlato a I/D/2. seriam: o unário ou fenomênico correlato a I ( I/D/0 = I/I = I ). I/D. SER DISCURSIVO SER SISTÊMICO NÍVEL SUBJETIVO N=2 I D D/ I/D CONSCIÊNCIA ROJETO HISTÓRIA Figura 2. por derradeiro. no plano subjetivo temos cinco lógicas subsumidas. I. no plano objetivo são três as lógicas subsumidas. h) Somente as lógicas da família I. (Ver figura 2.d) I NÍVEL FENOMÊNICO N=0 SER FENOMÊNICO D/ I/D 0 =I SER OBJETIVO OU SIMBÓLICO NÍVEL OBJETIVO N=1 I I/D/2 D DURAÇÃO OBJETIVA 2 INCONSC. da lógica do mesmo.. a duração (temporalidade objetiva). isto é. da forma I/D/n com n = 0. D. . RES EXTENSA SER SUBJETIVO (PESSOAL OU SOCIAL). I/D.. como seria natural supor.Níveis onto-lógicos No plano fenomênico temos apenas subsumida a lógica I à qual corresponderá o ser enquanto tal (ou ser fenomênico). a res extensa (ou a espacialidade) e o ser simbólico (o conceito ou a idéia). D. D/2 e I/D/2.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 45 nos mostra tratar-se.. I.d .

D/2 e I/D/2 -.e) I I/D D I/D/ 2 D/2 D/0 =I I D I I/D Figura 2. Como conseqüência. a outras ex-totalidades. do lado da realidade visada. a história . o ser consciente como projeto. respectivamente. o que estava sendo pensado por D vai necessariamente se deslocar e ser re-pensado pela lógica D/2.Remanejamento onto-lógico Não é muito difícil compreender: no plano ontológico objetivo I/D visa-se necessariamente uma totalidade que. no plano seguinte. vale dizer. o sistema (ou papel organizacional) e o ser subjetivo na plenitude. acontece um remanejamento geral do ser visado. precisa ser repensada. pela lógica D. o inconsciente (ou ser desejante). seja ele pessoal ou social. i) A passagem de um plano onto-lógico ao que lhe segue não se faz por simples agregação de ambos os lados. ao se passar de I/D a I/D/2 dáse. na circunstância.46 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO que terão como correlatos. de um lado. por exemplo. porém. precisa ser previamente des-totalizada para que possa ser então articulada. através de leis convencionais ou de regras. a mera agregação de duas novas lógicas . doravante tornada lógica das regras . (Ver figura 2.e .

que irá visar signos. relevantes e unívocos apenas no contexto do discurso visado por I/D/2. O desconhecimento deste imperioso fenômeno de remanejamento é fonte de dificuldades crônicas em quase todos os campos do saber [6]. mas que deixa de sê-lo no plano subjetivo. estes passam a ser visados por D. j) Além do remanejamento. A outra posição disponível não é. pois. então. deslocadas para um outro plano. Chamamos a isto recalque lógico. no caso de uma eventual doença ou acidente. como apenas significantes a serem articulados por regras sintáticas (morfológicas ou gramaticais) D/2 e assim constituir um suprasignificante de um supra-signo ou discurso a ser desvelado pela lógica disponível I/D/2. como é de sua natureza. Um bom exemplo seria aquele do corpo físico pensado por D no plano objetivo. isto é. na passagem. a subjetividade se desagrega e o corpo físico vem. inclusive. a ser de novo pensado enquanto tal. . vale dizer.f) As lógicas que desvelavam determinados aspectos de realidade são.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 47 constitutivas de um agregado de maior hierarquia. onde D passa a pensar o corpo libidinal. Tomemos a semiologia como referência: I/D no plano onto-lógico objetivo pensa os signos. representativo de uma nova totalidade a emergir no nível I/D/2. “im-pensados” e impensáveis”. (Ver figura 2. agora. D/2 e sim I/D. mas signos contextuais. o que deixa os referidos aspectos. acontece um outro importante fenômeno na passagem de um plano ontológico ao subseqüente e que denominamos recalque lógico. e sim alguma coisa muito mais grave: a lógica para poder efetivamente visá-lo. do mais conspícuo dentre os saberes científicos – a física. no plano subjetivo. porque a algo estaria faltando mais do que o significante apropriado. sim.

contudo. Isto nos assegura que o visado pela lógica de maior nível de um plano torna-se. Como exemplo. o que permite uma articulação. tome-se a lógica I/D visando. de algum modo. parcial (D).Articulação dos níveis onto-lógicos Existe.48 I I/D LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO I/D/ 2 D I D/ 0=I Pré-I Pré-D D I D/2 I/D Pré-I Pré-D Pré-Pré-I Pré-Pré-D Figura 2. através de seus matemas. no plano objetivo (I/D): o pleno domínio do signo convencional (episódio bíblico do bezerro de ouro) vai se mostrar condição necessária para que se possa pensar. da seqüência dos planos onto-lógicos. uma exceção justificada por um princípio geral de continuidade do mundo e da vida. o Deus único (I). l) Heidegger descobriu o comprometimento ontológico da verdade: verdade como alétheia (I) contraposta à verdade como adaequatio (D/2) (ver figura 2. ainda que apenas formal.g). parcial e total (I/D) e nem . no plano subjetivo (I/D/2). pensável pela lógica I no plano subseqüente.f . Lacan estendeu-a. de impossibilidade da ocorrência de saltos instantâneos. para as quatro lógicas de base: verdade total (I). vale dizer.

I/D. Assim. por exemplo. respectivamente. a contar de I/D. D/2 e I/D/2. HEIDEGGER Adaequatio LACAN Parcial PROPOSTA Amor Gozo D/ 2 D Nem Parcial nem Total 2 D/ I/D/ 2 D I Alétheia I Total I/D Parcial e Total Alétheia Subjetiva Adaequatio D/ 2 V it I I/D r ia Alétheia Objetiva Pré-I Afecção ou Percepção Pré-D Pré-Pré-I Pré-Pré-D Alétheia Fenomênica Figura 2. especificamente.g . isto é. seguindo a seqüência de estruturas onto-lógicas definidas no item anterior: alétheia fenomênica (I na estrutura onto-lógica de mesmo nome). na estrutura ontológica subjetiva I/D/2 ). em virtude do seu caráter derivado. que nada quer com a verdade (D/2). D. o que é o mesmo. a lei do n+1 excluído. na estrutura onto-lógica objetiva I/D).As verdades Nós podemos agora ir um pouco mais longe.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 49 parcial nem total. à . respectivamente. adaequatio e amor (correspondentes a I. estará associado o princípio do no máximo n ou. I/D. vitória [ 8]. A cada uma das demais lógicas. gozo [7]. D. para a qual tem-se n = 1. afecção ou percepção e êxtase simbólico (correspondentes a I. expresso por Xn(ψ) = ψ. I tal que I2 (ψ) = I(ψ) (reflexividade ou lei do pelo menos um) e D tal que D 3 ( ψ ) = D(ψ ) (lei da negação em sua maior generalidade ou lei do pelo menos dois). m) Os símbolos I e D podem ser tomados como operadores. alétheia objetiva. alétheia subjetiva.

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lógica dialética I/D estará associado o princípio do no máximo um, ou, o que lhe é equivalente, o princípio do segundo excluído, vale dizer, da totalidade, expresso por um operador H, H tal que H(ψ)= ψ; à lógica D/2, que segue imediatamente a I/D, estará associado, como é bem sabido, o princípio do terceiro excluído, expresso por um operador A, A tal que A2 (ψ) = ψ; e daí por diante; n) A homogeneização dos princípios das lógicas e de sua expressão operatória estabelecidas no item anterior, permite que a elas sejam aplicados os mesmos procedimentos formais da mecânica quântica, em particular, o postulado que formaliza o ato de mensuração expresso por Op ψ = lψ[9] onde Op é um operador hermitiano[10] representativo de um determinado instrumento de medida, ψ uma função representativa de um estado de coisas do mundo e λ um número. (Ver figura 2.h) Esta última equação, em associação com a equação caraterística de cada uma das lógicas conforme definida no item m anterior, permite que para cada uma delas seja determinado, de maneira unívoca, um conjunto de valores de λ, designados valores próprios (em lógica, denominados valores de verdade ) do operador em questão.
OP
Med.
1

i t 0

OP
Med. 2

i

* *= a
1 1 +a2 2

i …

i OP( i) = i i

i

Figura 2.h - Lógicas como operadores

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À semelhança do que ocorre na mecânica quântica, na qual o conjunto dos valores de λ representa o “lado objetivo ou mensurável do mundo físico, os valores de λ vão representar aqui a realidade visada pela lógica em consideração. No caso da lógica I, associada ao operador de mesma designação, teríamos como valores próprios 1 e 0 , ou se quisermos, o ser e o nada, respectivamente. (Ver figura 2.i) Já no caso de D, associado também a um operador de mesma designação, os valores próprios seriam 1, -1 e 0, respectivamente, o verdadeiro, o falso e, de duas uma: o paradoxal, se a negação de 0 for tomada como sendo 1; o nem verdadeiro nem falso, se estabelecermos -1 como a negação de 0. Em se tratando de I/D, associada ao operador H, temos apenas o valor 1, identificado com a noção de totalidade lógica. Por fim, no caso de D/2, os valores próprios do operador A que a representa seriam 1 e -1, o verdadeiro e o falso, sem confusão (ou superposição) e sem a possibilidade de qualquer outro valor, vale dizer, de qualquer terceiro; por isso, entre outras fortes razões, a lógica D/2 foi por nós identificada como sendo a lógica clássica.
L. transcendent.
I2=IeIψ=λψ

L. da diferen a
D3 = D e Dψ = λ ψ -1

0

0

1

1

L. dialØ tica
H = 1 e Hψ = λ ψ

L. clÆ ssica
A2 = 1 e Aψ = λ ψ -1

L. q inq itÆ ria
S3 = 1 e S ψ = λ ψ e2πi/3 e-2πi/3

1

1

1

Figura 2.i - Valores próprios das lógicas

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LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO

Constata-se que a lógica D, objetivamente considerada, é dentre as lógicas de base, a mais rica, o que tem implicações antropológicas da maior importância. Este inesperado encontro da lógica com a mecânica quântica não é uma curiosidade, uma simples casualidade; é, sim, um encontro nas profundezas do conhecimento, que não se sabe bem porque, demorou tanto a acontecer; com ele dá-se uma mútua iluminação destes dois saberes cuja extensão não poderíamos aqui avaliar; o) As lógicas diferenciais Dn possuem 2(n - 1) valores próprios e as lógicas derivadas identitárias I/D/n, 2n –1 valores. No caso da lógica I/D/2 teremos (2 x 2) - 1 = 3 valores próprios (1; -0,5 + 0,667i; -0,5 - 0,667i); verifica-se que a projeção no eixo de I/D/2 (1; -0,5 - 0,5 = = -1; 0,667i -0,667i = 0) dos valores próprios de I/D/2 são idênticos aos valores próprios de D, razão pela qual a lógica do inconsciente D constituise numa representação fiel, ainda que reduzida. (Ver figura 2.j) realI/D/2 teremos (2 x 2) - 1 = 3 valores próprios (1; -0,5 + 0,667i; - 0,5 - 0,667i); verifica-se que a projeção no eixo de I/D/2 (1; - 0,5 -0,5 = -1; 0,667i -0,667i = 0) dos valores próprios de I/D/2 são idênticos aos valores próprios de D, razão pela qual a lógica do inconsciente D constitui-se numa representação fiel, ainda que reduzida. (Ver figura 2.j) real
VALORES DE VERDADE DA LÓGICA QÜINQÜITÁRIA
TU - 2 i/3 1 -1/2 -1/2 1 - 3 i/2 3 i/2 ELE

VALORES DE VERDADE DA LÓGICA DA DIFERENÇA -1 FALSO

e

e2

i/3

0 INDEFINIDO
EIXO IMAG.

1 EU
EIXO REAL

1 VERDADEIRO
EIXO REAL

Figura 2.j - Valores próprios de I/D/2

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Partindo destas proposições gerais sobre as lógicas, com a simples adjunção de algumas teses específicas, poderemos chegar a uma sólida antropologia filosófica. Vejamos: a) À diferença dos demais animais cordados superiores que operam a síntese do um e do múltiplo, isto é, I/D [11] e que lhes possibilita o acesso ao símbolo convencional, o homem é capaz de proceder à síntese da identidade, da diferença e ainda da dupla diferença, que o faz um ser lógico-qüinqüitário, ou seja, de nível lógico I/D/2. Isto está empiricamente atestado, dentre muitas maneiras, pela capacidade humana da discursividade (o simbólico articulado pela gramática). A moderna antropologia estrutural, tomando o registro da sexualidade, postula que o homem, do ponto de vista formal, está determinado pela dupla diferença: a primeira diferença, de estofo biológico - macho versus fêmea - e ainda uma segunda, de estofo propriamente cultural, dita diferença clânica. (Ver figura 2.l, a seguir.)
ANIMAL
I D1
Diferença Sexual Biológica

2.3 - Uma antropologia esperançosa

HOMEM
I/D I D1 I/D D2 I/D/2

Diferença Diferença Sexual Clânica Biológica

Figura 2.l - O homem como animal qüinqüitário Se a estas articularmos a identidade - pré-condição necessária do reconhecimento e assunção dos quatro pólos definidos pela dupla diferença chegamos finalmente à síntese por nós proposta: I/D/2 [12]. O caráter identitário (consciente) do homem

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LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO

– descurado pelo estruturalismo, ainda que com atenuantes –, pode ser de pronto justificado se o assimilarmos a uma diferença colapsada [13] que, no registro da sexualidade, seria a diferença sexualmente maduro versus imaturo, na qual, de modo geral, o mesmo ser humano, no correr de sua vida, acaba ocupando as duas posições; b) À lógica qüinqüitária devemos associar um horizonte lógico, um além de I/D/D = I/D/2, a fim de que esta não se torne para os homens, ao mesmo tempo, lógica do Absoluto, tal como se deu com Hegel ao nível dialético trinitário, e que o levou a um iniludível panteísmo. Esta possibilidade do ser humano terá que estar suportada pela vivência de uma falta, que identificamos como sendo a impotência de abarcar ou dar conta, globalmente, de sua própria experiência inter-subjetiva. A lógica do saber sobre uma instância ontológica está necessariamente um degrau lógico acima de sua lógica de referência [14], de modo que, para o ser humano, de nível I/D/2, o saber respectivo será de nível D/D/D = D/3, logo, acima da sua capacidade lógica. (Ver figura 2.m). Em resumo, o ser humano é um ser lógico qüinqüitário incorporando um horizonte lógico que o transcende e que lhe é acessível (conquanto que dependente de uma decisão, visto existir a D/3 D/ 2 opção de considerar a falta como pura HORIZONTE imanência) como I/D/ 2 vivência de uma fal- I/D ta no âmbito de sua experiência de serHOMEM 2 D com-outro, diante D/ da qual ele não pode evitar o risco, deixar I I/D de responder com a Figura 2.m O homem e confiança ou negar seu horizonte lógico o amor;

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c) Pode-se constatar de modo empírico que nada existe no mundo que, no eixo lógico aqui considerado, supere o homem; restitui-se-lhe, assim, a posição pinacular na mundanalidade que, na Modernidade, lhe vinha sendo repetidamente roubada pelos telescópios – das lunetas ao Hubble –, pelo darwinismo e mais recentemente pelas estruturas por si agentes e falantes. Como conseqüência, doravante, todo saber deve ser considerado saber antropo-lógico: saber reduzido ou parcial (ciências “duras”), saber humano propriamente dito e saber especulativo (teologia natural recuperada) tal como começam a se dar conta alguns cientistas menos blindados quando aceitam discutir, pelo menos em sua versão fraca, o princípio antrópico [15]; d) Como já enfaticamente repetido, o ser humano é de nível lógico I/D/2, lógica que subsume, além de si própria, as que lhe antecedem: I, D, I/D, D/2, estas quatro por nós denominadas lógicas de base. Isto leva a admitir que no ser humano a sexualidade precise ser re-definida, deixando de ser bipolar (representável por um segmento de reta), como nos outros animais, para tornar-se tetrapolar (representável por um quadrado). O par diagonal {I, D/2} designa o masculino e o par diagonal {I/D, D} o feminino; e como (I)/(D/2) tanto quanto (I/D)/(D) são iguais a I/D/D = I/D/2, conclui-se imediatamente (ver figura 2.n) que masculino e feminino são modos onto-lógicos de realização do ser humano. É importante notar que existem três modos possíveis de clivagem, por pares, das quatro lógicas de base: primeiro, a “sexuada” que acabamos de ver; segundo, a filosófica grega ou ontológica, contrapondo o lógico-identitário (I, I/D) ao lógicodiferencial (D, D/2); terceiro, a filosófica moderna ou epistêmica, contrapondo o “subjetivo” (I, D) e o “objetivo” (I/D, D/2).

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I/D/ D
2

LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO
I/D/ D
2

D/ 2

D/

2

I
MASCULINO

I/D

I
FEMININO

I/D

Figura 2.n - Masculino x feminino Não é difícil perceber que, de todas, a primeira é a mais relevante, na medida em que ela é a única verdadeiramente simétrica e que, por isto mesmo, aponta inequivocamente para o mais acima, isto é, para a síntese qüinqüitária I/D/2. Aliás, excluída a tradição judaico-cristã, parece-nos que todas as demais culturas sentiram bem isto, embora constrangidas a expressá-lo pela óbvia metáfora (mito) sexual biológica! e) Todos os homens de todas as culturas são logicamente equivalentes (tese homóloga àquela do estruturalismo estabelecendo a equivalência de todas as culturas em razão da presença universal da lei de dupla face da exogamia/proibição do incesto, com a única diferença que esta é de nível lógico quaternário, enquanto que a nossa, de nível qüinqüitário. Fato é, entretanto, que as culturas ainda assim se distinguem de modo flagrante e essencial, mormente quando em confronto umas com as outras. Para compatibilizar estas duas determinações assim tão contraditórias – sem trapacear apelando a fatores extra-culturais –, não nos resta outro caminho senão o de caracterizar cada cultura pelo nível de desvelamento do seu próprio ser qüinqüitário a que estaria necessariamente associada uma representação objetiva ou simbólica;

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em outras palavras, uma cultura é determinada pela lógica mais ou menos implícita do seu núcleo religioso ou sacralizado – cultura do deus “unário (judaica), cultura prometéica ou do que é somente na medida em que se opõe aos deuses (greco-romana), cultura do deus trinitário (cristã patrística) e assim por diante. Existem culturas que não chegam a nenhum grau de desvelamento de seu ser lógicoqüinqüitário – elas serão chamadas culturas ecológicas –; quando nela predominar a identificação à Natureza, a denominaremos cultura do tipo pré-I (cultura paleolítica dos povos caçadores/coletores tendentes ao nomadismo ao igualitarismo e ao xamanismo) e quando predominar a contraposição à Natureza, a denominaremos cultura do tipo pré-D (cultura neolítica, sedentária, hierarquizada, dispondo de classe sacerdotal, com escrita e naturalmente escribas, com trabalho ordenado, de base agrícola estável). Desenha-se, assim, uma história da cultura em estreita consonância com uma filosofia da História, cuja essência seria o cumprimento de uma destinação. É preciso, entretanto, alertar que tal cumprimento não seja confundido com aquele implícito na concepção “unária” (I) ou judaica da História, que nos exige a fé para sua consumação; nem aquele implícito na concepção trinitária (I/D) ou hegeliano-marxista, que nos exige o completo engajamento; trata-se aqui, de maneira coerente, de uma concepção qüinqüitária (I/D/2) da História síntese hiperdialética das anteriores - para o cumprimento da qual exigir-se-á tanto a fé inabalável, quanto o irrestrito engajamento. f) Às culturas que correspondem de modo estrito a uma lógica e que historicamente foram as primeiras a fazê-lo, damos a denominação de tipo puro ou nodal (ver figura 2.o); às demais, a denominação de culturas não nodais. Recapitulando, e atendo-nos apenas “Ocidente”, as culturas nodais já

mistura de D com I/D.58 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO consumadas seriam as do tipo pré-I (paleolítica. de base agrícola estável. a saber: culturas de transição. ficando assim sujeita a permanentes e radicais conflitos internos. que sobreviveram mesmo depois de superadas. como os impérios da antigüidade). na sua versão paradigmática. ao mesmo tempo. criada mais de 1500 anos após o advento do judaísmo I. cerca de 1000 anos após o apogeu da cultura grega (D). como seriam os casos dos judeus e dos índios brasileiros enquanto não aculturados (se sobrar algum depois do advento da “República nova”?!). pré-D (neolítica. mas não chega a alcançar o monoteísmo [16]. culturas mistas ou ecléticas. a “cultura das Missões”. não se enquadrariam em qualquer destes tipos continuando a ser consideradas nodais. nesta. consumado tempos após a realização histórica do mesmo (um bom exemplo é o da cultura islâmica do Deus único radical (I). porém. tudo se passa como se I aprisionasse dentro de si. mas não chegam a alcançar o tipo nodal subseqüente (talvez o melhor exemplo seja o da cultura egípcia que tenta. I (judaica profética). por isso ficamos apenas em três: a cultura bizantina. D/2 jesuítico. . sedentária. caçadores/coletores de tendência nômade). D e I/D. D (greco-romana). I/D (cristã patrística) e D/2 (moderna. I. culturas anacrônicas. “socialismo moreno”. mistura de pré-D com I/D para formar um sujeito não sujeitado de D/2!). tendo I como sujeito intervalar aos sistemas). mistura de pré-I dos índios guaranis com o par I/D. As culturas não nodais distribuem-se por vários tipos. que partem de um tipo nodal. um tipo nodal. que tentam a mistura de tipos nodais (os exemplos seriam inúmeros. o “projeto cultural cubano”. e aproximadamente 300 depois da consolidação do cristianismo patrístico (I/D) no Concílio de Nicéia. É preciso advertir que culturas nodais a seu tempo.

o . que no caso paradigmático. D. de nível lógico transcendental I. presentemente vivendo sua fase civilizatória. informacional/globalizante. tendo como motor principal o inconsciente “industrialmente” domesticado pelo marketing. pré-D. (Ver figura 2. ela só “vigora” com os préstimos de um sujeito intervalar. é o sujeito liberal. sujeitado.Culturas nodais g) A humanidade. vive já há algum tempo o predomínio da cultura científica. I. Sendo D/2 a lógica da morte. ou seja. de nível lógico D/ 2. I/D. depois de passar pelas culturas pré-I.) .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 59 I/D/ Cultura GrecoRomana 2 Cultura Nova Qüinqüitária D D/ 2 Cultura Moderna I/D Cultura Cristã Patrística Cultura Judaica I Pré-I Cultura Paleolítica Pré-D Cultura Neolítica Pré-Pré-D Pré-Pré-I Proibição do incesto/ Exogamia Figura 2.p. anglo-saxônico ou o herói fordiano [17].

também ilusória ou apenas transitoriamente dominante. ilusória ou apenas transitoriamente dominante. Não é preciso enfatizar que o paradigma liberal não fracassa (o que nada tem a ver com a condição de ser historicamente . que identificamos com o jesuitismo. de um lado. inexoravelmente destinadas ao fracasso pelo prosaico fato de que D/ 2 . telúrico. subsumindo I.60 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Sujeito Romântico D Pentecostal Fascista Pa r A ng ad lo igm -s ax a ôn ic o D/ 2 Ciência Jesuítico Socialista I I/D Sujeito Liberal Sujeito Coletivo Fig. .p . pentecostalismo etc. de outro lado. 2. machista. sujeito libidinal D. lógicas que foram recalcadas a ferro e fogo para viabilizar a instauração da Modernidade. – ideologias à direita. pelo sujeito romântico. que identificamos com o fascismo. Elas são únicas justamente na medida em que propõem um sujeito I/D ou D (o par das lógicas femininas). movimentos carismáticos. aparentetemente. D. ou em seu modo arcaico.A cultura moderna e suas variantes As únicas alternativas ideo-lógicas de subversão da Modernidade seriam. é forçoso que se reconheça. I/D. não admite outra dominação que não a sua própria. a substituição do sujeito I pelo sujeito coletivo I/D (representado por um sujeito simbólico absoluto). deixa então de ser paradoxal que coincidam os períodos de caça às bruxas e de afirmação da ciência e do capitalismo paradigmático. vale dizer. Ambas as ideo-logias. o marxismo etc.ideologias à esquerda -.

ela será. os fins da cultura X. no sentido que esta última assume com o estruturalismo (D). de um processo puramente ascendente. por formas pseudo utópicas. conquanto seu curso seja inexoravelmente. pois. Seja uma cultura genérica X. visto que geradas por X mesmo (como é o caso do comunismo e do fascismo na Modernidade). haverá um. ainda que après coup. por muitos modos. Olhemos um pouco mais de perto dinâmica cultural.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 61 superável. Começaríamos observando que ela não é lógico-dialética. sim. A História como história (I/D) da cultura. h) Focalizemos um pouco mais detidamente a problemática da dinâmica cultural. ascendente. Em meio à pletora dos fundamentalismos reativos mais ou menos desesperados. transformando em instrumento. no plano cultural. Não se trata. e então.sua universalização ou horizontalização aparentemente irresistível. a cultura X. mas que admite recuos. processo de cumprimento de uma destinação. àquela de Marx no irá passar do estágio de cultura propriamente dita ao de civilização . é necessariamente lógico qüinqüitária ( (I/D)/(D) = (I/D/2) ). só será sucedida pela cultura X+1 em condições extremas: esgotamento de suas possibilidades (tese homóloga.q ) e. mas na verdade já exangue. que é bem mais complexa do que supunha Hegel. por sua própria natureza. provocar o . desconstruções. ele irá provocar um período mais ou menos extenso de graves tensões. do formalismo sem conteúdo (tipo fariseu) ou de sua variante terrorista (tipo zelote) (ver figura 2. referido à cultua X-1 (tipo essênio) que se distinguirá por sua disposição de subsumir. Este fundamentalismo X-1 será de fato o único capaz de fazer frente à cultura imperante. importunada pela cultura X-1 que a antecedeu: sob o modo negocial ou de simples adesismo (tipo saduceu). ainda. marginalidades e retornos ao proscênio histórico. é ser já per-vertido. Ela. como veremos adiante). pois.

uma ortodoxia de nível X-1.1 (Ex. Com a falência do “materialismo real” a Teologia da Libertação.: Zelotes) Figura 2. mbaísmo verde. mas pelo seu próprio desvirtuamento ao abandonar a dialética do sentido ou do espírito (I/D como lógica suprema da estrutura onto-lógica objetiva) para se assumir dialética da história (I/D como uma entre outras lógicas de base na estrutura onto-lógica I/D/2).: Cultura Cristã) Cultura X (Ex. depois do comunismo e do fascismo. Cultura X +1 (Ex.: Cultura Greco-romana)) FUNDAMENTALISMO X .: Fariseus) TERRORISMO (Ex. . deixar como um testemunho histórico vivo. como era fácil prever. é o “inimigo” eleito pelo próprio stablishment cultural.1 (Ex.: Saduceus) FORMALISMO (Ex.A passagem de uma cultura diferencial à cultura subseqüente Na Modernidade este fundamentalismo realmente eficaz deverá ser o cristão originário ou patrístico (ou o equivalente em outras tradições culturais.: Essênios) Cultura X . O movimento denominado Teologia da Libertação deixou de ser uma real ameaça à civilização reinante. bigbangismo. confundindo-se assim com o marxismo. como a chinesa ou a hindu) e jamais o fundamentalismo islâmico que.62 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO desvelamento da nova cultura e. eventualmente.: Cultura Judaica) COLABORACIONISMO (Ex.q . metamorfoseouse em baleísmo. não pelo reacionarismo da Cúria Romana.

podemos especular um pouco sobre o assunto. não vislumbramos a mesma regularidade encontrada no caso anterior. em uma cultura de nível lógico X? Duas coisas saltam imediatamente à vista: de um lado. de paralisar a História. tudo isto no sentido de congelar o poder não só espiritual. em geral. pois. isto é. No processo de superação de uma cultura da identidade genérica.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 63 qüinqüiforcismo espiritual e outros ismos marqueteiros. é de sua natureza. com a lógica X. no que resulta D/n+1). porque esta é justamente a prerrogativa específica do ser-social nesta cultura. mas é impossível que o faça. i) Qual a relação essencial entre ser-individual e ser-coletivo ou sociedade. com a lógica I. enfim. necessariamente. como se fora ela um modo de consolidar ou mesmo eternizar a sua dominação. Pode-se daí depreender o modo específico de articulação de indivíduo e sociedade. sermúltiplo. mas também temporal da Igreja. o saber de I/D/n é precisamente D/n+1 (para se obter a estrutura epistemológica referente a um nível onto-lógico qualquer I/D/n. como sa- . bastaria anular o I da auto-identificação e substituí-lo por um D do distanciamento. com a escolástica. Levando-se isto em conta. porém. de outro lado. o indivíduo de qualquer cultura opera. apenas por si. o sersocial opera necessariamente com X. mas é impossível fazê-lo com I. podemos conjeturar que o progressivo saber de si de uma cultura identitária é que possibilitaria e induziria a referida passagem. As passagens similares anteriores mereceriam uma pesquisa detalhada. I/D/n. Esta explicação cabe razoavelmente bem para a passagem do cristianismo patrístico (I/D) à Modernidade (D/2): o processo iniciar-se-ia com o movimento monacal. Sabemos que. continuaria com a tradução para o latim do corpus aristotélico e sua ampla divulgação pelo Ocidente.

mercado . eles fazem valer os seus desejos (D). no geral. vale dizer. Figura 2.64 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO bemos.r). através de um processo competitivo . e a sociedade provê sua capacidade de decisão (I) por um processo social de nível X a partir da capacidade de decisão (I) dos indivíduos. (Ver figura 2. de nível lógico D/2: os indivíduos contribuem com seu poder decisório (I). para a ← . para a formação da decisão coletiva (I). através de um processo contábil escrutínio .r . que as lógicas dos processos de mediação nos extremos estão invertidas em relação às lógicas de procedência.(D/2). seria natural generalizar e dizer que as lógicas dos processos mediadores mantêm-se.Articulação dos “extremos” Como o processo mediador no extremo I ← X é do tipo I (uma identificação) e no outro extremo I X é do tipo X. uma velha questão filosófica [18]! Os indivíduos suprem seu caráter X por um processo de identificação (I) com o caráter X coletivo. em ordem inversa relativamente às lógicas de procedência também para todos os casos intermediários entre I e X.(I/D). Tomemos oexemplo da Modernidade.

nos tempos modernos.Formação paradigmática moderna Este seria apenas o paradigma. pelo planejamento central (D/2) e não pelo mercado competitivo (I/D). por eleição (D/2). ou seja. isto é. o processo de determinação do desejo coletivo (D) passou a ser feito através do cálculo. INDIVÍDUO SER-SOCIAL Fig. como compensação. por fim eles se aculturam (D/2) identificando-se (I) com os papéis disponíveis na organização social (D/2). ou seja. eles formam o seu patrimônio pessoal (I/D) apropriando-se (D) do patrimônio coletivo . j) Todas as culturas históricas têm sido castradoras dos indivíduos simplesmente porque .s . o processos de decisão coletiva (I). pelo violento mercado político (I/D) ao invés de sê-lo de modo paradigmático pelo cálculo.demanda global . entretanto.s. passou a ser feito de modo competitivo desregrado. podendo ocorrer.(I/D).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 65 formação do desejo coletivo . a URSS apresentou a anomalia de inversão de dois de seus processos: de um lado. Para dar apenas um exemplo. Ver figura 2. muitas espécies de distorções.o excedente ou capital .(D). 2. de outro lado.

da história ainda restrita. vale dizer. deveras. devemos lembrar. de I/D/2. do saber científico (porque este. que ora pensa hegemonicamente o homem. tão dramática e cruenta quanto a passagem de pré-D a I. sem que o faça. coincide com um bem conhecido juízo freudiano. como história (I/D) da cultura (D). não passará ainda de um derivativo ou um soporífero para as tribulações de um dia inteiro de submissão à lógica da dupla diferença. verá inverter-se tal relação).66 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO sempre abaixo da potencialidade lógica dos homens.j do item anterior A lógica ressuscitada) e. A passagem de D/2 a I/D/2 será. l) A grande interrogação que nos fica é aquela de . aliás. como hoje sintomaticamente se vê por toda parte. inclusive figura 2. ainda bem mais. vale dizer. Estas subsunções implicam necessariamente reações. Esta última. A superação da Modernidade assinala o fim do sub-reptício predomínio histórico do inconsciente. mas não com a sua desesperança [19]. tendo-se em conta o seu caráter de matriz objetiva de todas as lógicas de base (ver itens n e o. positivistas e fisicalistas que lhe são afins (D/2). No plano “especulativo” a nova cultura engendrará um novo saber (I/D/2) na seqüência das filosofias transcendentais (I) e dialéticas (I/D). as mais encarniçadas serão as dos saberes da diferença (porque a lógica do inconsciente irá perder o governo da história da cultura. constituiu-se no momento ímpar do auto-desvelamento da cultura em sua essencialidade lógica (bastaria lembrar o episódio vétero-testamentário da adoração do bezerro de ouro!). Um indicador do efetivo engendramento do saber hiperdialético qüinqüitário está precisamente na sua capacidade de enfrentamento crítico direto da ciência. o que. que as estará subsumindo juntamente com o saber psicanalítico e as “anti-filosofias” da diferença que lhe são correlatas (D) e com o saber científico e as “anti-filosofias” empiristas.

num exasperado esforço de síntese. Eis aí. do sujeito da ciência. além. ou seja.4 . o “espaço lógico” de onde há-de-vir(á) o Deus que nos poderá salvar. vale dizer. O diagnóstico é em essência correto. sim. a nosso juízo.A situação e perspectivas brasileiras . nosso quadro referencial lógico ressuscitado e antropológico esperançoso. passará direto à cultura I/D/2 que incorpora. mas requer alguns esclarecimentos. Diante disto tudo. no âmago. de uma outra grave questão: aquela do sujeito da Modernidade ou. que desde seus alvores possuiu uma agro-indústria exportadora significativa – tanto em termos de quantidade quanto de qualidade – antes mesmo de que se tivesse formado um verdadeiro mercado interno? Como. que deixa acima de si mesma. seu horizonte transcendente. mais precisamente. a um novo humanismo que o fará ídolo de si mesmo – tal como ocorreria com o hegelianismo e de fato ocorreu com o marxismo real dele derivado pela esquerda – ou se. se começamos justamente pelo que se tem ainda hoje como o mais supimpa?! Toda discussão acerca da Modernidade é. regenerado. fundamentais: a) Como se falar de incompatibilidade com a Modernidade no caso de uma nação que se inaugura com a própria Modernidade. que poderíamos dizer acerca da situação brasileira atual e de suas perspectivas. evitando esse grave pecado de soberba. tanto em relação à Modernidade quanto à nova cultura qüinqüitária? O cerne da problemática social do Brasil já foi por muitos bem diagnosticada [20]: a existência de uma certa incompatibilidade do seu processo de formação cultural com a Modernidade.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 67 se o homem passará da cultura D/2 à cultura I/D/2 “pura”. Com a ciência estão todos 2. de modo essencial. o encobrimento ou disfarce.

os positivistas e os neopositivistas. desde que ela venha para preservar fronteiras. vale dizer. o fazedor de futuros. Para nós brasileiros. esteja ele ainda enrustido na linguagem. embora achemos que não sabem até hoje bem o porquê. Isto acontece. por uma Modernidade (D/2) já em processo de esgotamento e para a qual carecemos da necessária vocação his- . e os internacionalistas também. o futuro a Deus pertence. naturalmente. seja ele de fato. em função do peso histórico dos jesuítas (I/D) sobre nosso sistema educacional [23]. desde que ela venha ao serviço do sujeito romântico (se isso fosse garantido. os nacionalistas. em função do peso de sua herança cultural africana (pré-D. b) O paradoxal que muitos aí enxergam. pela opção preferencial (não exclusiva) do povão pelo sujeito libidinal. desde que para pulverizá-las. como bem assinala Wisnik já citada na nota 20). até Nietzsche e Heidegger amariam a ciência e não vituperariam as vicissitudes da técnica) e a esquerda. não está onde parece. contra o sujeito lógico I. todos. desde que ela venha para fortalecer o sujeito coletivo. científicos. em suma. Assim. contra o empresário schumpeteriano. idem. ao contrário.68 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO de acordo: a direita. Tudo porque não se trata de um problema de lugar – encontrar um lugar na Modernidade ou um modo de inserção num mundo “globalizado” –. o seu representante absoluto. como shall ou como will [21]. a aludida incompatibilidade não é nem poderia ser de modo algum com a Modernidade em seus aspectos objetivos. da mesma família que D). a grande “diferença” de Macunaíma. enfim. de um lado. de outro lado. técnicos e burocráticos. mas sim em não estar em parte alguma. e sim de tempo: decidir pelo curto prazo. pela opção preferencial das elites [22]pelo sujeito absoluto enquanto representação do sujeito coletivo. em especial. Nossa grande implicância está dirigida contra o sujeito de projeto (este último.

sofrimentos. é o verdadeiro Custo Brasil! Diante de tudo isto. depois dizimados ou “reduzidos”. ora pela inveja ou simples cobiça. observaria o lúcido Caetano Veloso. os cristãos-novos e judaizantes perseguidos. ora pela fé oficial. por todas as grandes cidades do país este. os incontáveis mulatos. os mamelucos enfurnados pelo sertão sofrendo e cometendo atrocidades. mortes e mil outras tragédias que. ainda hoje. no âmago. sim. não seria demais lembrar que os custos inevitáveis historicamente constatáveis para se erigir uma cultura são cerca de 500 a 600 anos de opressões. tantos desterrados. mas que acabaram encompridando e alargando em muito a base territorial da nação. sem falar nas legiões de crianças abandonadas e de idosos desvalidos. em que estamos a toda hora enredados. pela cultura nova qüinqüitária (I/D/2).t) Para concluir. sim. (Ver figura 2. cafuzos e caboclos perdendo suas almas para legá-las à formação da alma brasileira. aliás bem cariocas: nossa escolha essencial é entre o luxo e a originalidade? Este é o nosso verdadeiro nó cego. violências. mas. de natureza eminentemente temporal. não frente a um perigo objetivo. entre nós brasileiros. trememos e traímo-nos constantemente. já foram mais do que pagos – que o digam os índios. poupança forçada que se esvai em pagamentos de juros sobre juros indecentes. injustiças. ainda permanecer na dúvida acerca da causa em que devemos a vera nos engajar por todos os meios e modos a nosso alcance?! Guardadas as de- . diante da responsabilidade em assumir nossa indelével destinação. no caso do Brasil. os negros vindos escravos da África para penar nos engenhos e nas lavras.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 69 tórico-cultural ou. para a qual estaríamos já irrevogavelmente vocacionados? Em outras palavras. caçados. quem poderia. multidões percebendo os mais vis salários do mundo. anos e anos a fio. fazê-lo pelo longo prazo. parece-nos. mas que a rigor já não mais existe.

. as lutas recentes contra o autoritarismo e a corrupção – que o primeiro não inventou. viciado e sobretudo manipulado. pela grande mídia. por si se agigantaram e acabaram hoje perdendo toda qualificação através do processo de globalização da insensibilidade e do cinismo.t . é o modo próprio. agindo com um pouco de molecagem que. ou. com imaginação e coragem criar novos e levá-los realmente a sério. não passaram de um ensaio bem canhestro. 2. São estes processos de luta que precisamos sem pena abandonar ou rever. a propósito. a seguir.70 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Fig. mais propício e não menos propiciatório de já irmos cozinhando e provando a nova cultura qüinqüitenária. mas deixou rolar – e que. quando conveniente.Opções brasileiras: luxo ou originalidade vidas proporções. o que para nós seria o mesmo.

trespassado pela emoção. entre os antropólogos da atualidade. Segundo esta última.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 71 3 Acerca da lógica e da cultura La razón exige y reclama que exista una ciencia universal de todas as ciencias. adstrito à pura forma. Opinamos que isto deva ser repensado em profundidade. A tese teria sido mesmo abandonada pelo próprio autor [3]. e não propriamente na lógica.. primeiro. de um pensamento ainda pré-lógico.. De modo geral. eivado de sentimentos. los de las otras ciencias más particulares. contrastando com o pensamento propriamente lógico acabado. Doctor Illuminatus in Ars magna et ultima. mas de qualquer modo contestada pela antropologia estrutural de Lévi-Strauss [4]. porque não . entre os povos primitivos. o tema lógica versus cultura vem imediatamente referenciado a Lévy-Bruhl [2] e à sua tese da prevalência. y com pricipios universales en los que se hallen implícitos y contenidos como lo particular en lo universal. A diferença aparente dos desempenhos discursivos de uns e outros estaria na constância com que os primitivos se valem do processo de bricolage [5] simbólica. nenhuma diferença haveria entre a lógica dos povos primitivos e aquela dos povos modernos. dos povos modernos.[1] Raimundo Lulio.

agora dito com bem maior cuidado. e no entanto paradoxalmente imprecisa. em acordo com a moda atual. tudo isto convergindo para a demarcação precisa e o completo re-mapeamento do território lógico. da antropologia filosófica) estaria precisamente a questão da mutação lógica que levou ao advento da cultura. No Brasil. cujas origens certamente se perdem nos tempos. como também sua marginália histórica. segundo. no cerne da filosofia da cultura (ou o que para nós é o mesmo. o que. Comecemos tomando como referência um esquema de compreensão evolutivo do ser humano. diga-se de passagem. naturalmente. porque parece-nos estar ali também implícita uma concepção restrita.representada pelo animalidade em seu estado de máximo desenvolvimento -. Nosso objetivo aqui é voltar à questão para discutila num âmbito maior e certamente mais apropriado. um mero oportuno acadêmico. a qual se vem juntar uma diferença específica. A reabertura da questão lógica versus cultura ou. mas em flagrante desacordo com o melhor da tradição filosófica. vige esta mesma referenciação. não nos deve causar espanto. pois. destarte. Paralelamente estaremos superiormente armados com uma renovada concepção da lógica [8] que resgata não apenas a riqueza da tradição. ela se faz necessária em razão de que. aquele do pensamento filosófico estrito senso. do que seria a lógica. nos irá remeter à velha Grécia [7]. a mesma lógica que. levando então à emergência do homem e consequentemente da cul- . depois a acompanha e lhe marca passo.72 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO aceitarmos esta separação drástica ali implícita entre o lógico e o simbólico (simplesmente porque existe a questão do estatuto lógico do próprio simbólico). apenas com a agravante da rigidez própria dos copistas e dos pobres de espírito [6]. lógica ressuscitada versus cultura não é aqui. Parte-se da natureza . já o demonstramos alhures [9].

Na circunstância. não importa se transcendental. CAPACIDADE DE MOVIMENTO AUTÔNOMO CULTURA HOMEM CAPACIDADE DE PENSAR ANALÍTICA Figura 3. sendo este último. o logos originário. precisamente. o modo como ele acabaria se mostrando. pois . (ver figura 3. além destas. dialético ou formal. ainda não degenerado em logos metafísico. um poder de auto-determinação. que o logos aristotélico não era mais o logos heraclítico. detinha a mais e com exclusividade a função intelectiva. Entre os gregos este esquema bastante simples já vigorava de um modo preciso: o ponto de partida era então a animalidade superior à qual se agregava como diferença específica o logos ou a razão discursiva e chegava-se assim ao homem. já sem seu maior vigor. O ser humano. O homem era pois o animal superior onde ademais habitava o logos. a posse da razão discursiva (logos) [10].1).1 – O homem grego Segundo Aristóteles. animal racional. no próprio Aristóteles. Pode-se argumentar. como provavelmente o faria Heidegger [11].FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 73 tura. entretanto. isto pouco pesa. de evidente caráter lógico-transcendental ou identitário (I). a animalidade superior incorporava não apenas as funções vegetativas – de nutrição e de reprodução – como também as funções sensitivas – compreendendo os diversos modos sensoriais. a que se acrescia a autonomia locomotora. do ponto de vista formal. logo. Observe-se que o poder de por si e propositadamente movimentar-se é.

inconveniente que viria ser justamente contornado. mas sim pelo que. A nosso ver a diferença especificamente humana não pode valer pelo que traz em si. sejamos obrigados – depois de Heidegger – a deixar em aberto a questão do logos cosiderado: se o simples lógico-diferencial (Heráclito) [12] ou se o duplamente diferencial ou formal (Aristóteles). porque a “razão”. veremos adiante. pelo moderno estruturalismo antropológico. como capacidade analítica que realmente é. mormente quando já se tem por estabelecido que os animais superiores dispõem de uma capacidade sintética ou identitária inquestionavelmente manifesta em sua auto-determinação locomotriz. Segundo. para desta sorte ampliálas ou multiplicá-las. porque ao admiti-lo estamos implicitamente diluindo o caráter evolutivo da passagem considerada – o novo. Do nosso ponto de vista. o que fazia ser a humanidade era algo de natureza essencialmente lógica. Isto interpõe um degrau exagerado de descontinuidade entre o animal e o homem. dir-se-ia que para . Em termos estritamente lógicos. potencializa e/ou amplia. Dito em outras palavras: a razão grega valia por si e não como produto resultante de um poder diferencial que se vinha articular à outros poderes ou potencialidades operatórias similares pré-existentes. no sentido de que ela ali funciona como uma “essência” constitutiva e não como um atributo superveniente. a principal crítica à concepção grega do homem deve incidir sobre o caráter tipicamente agregativo/substantivo dado à razão (ou logos). por si só. Primeiro. articulando-se. fica o fato que. lógico-diferencial ou analítica. mais precisamente. de fato.74 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO opte-se por uma ou por outra interpretação. para os gregos. não pode caracterizar o ser humano em sua totalidade ou “maximalidade”. tal como anteriormente assinalado [13]. O essencialismo grego suscita. conquanto. é e diz tudo. duas sérias objeções.

recusou a essência evolutiva do esquema grego e assumiu. Com Platão chegava-se. que se confunde com o pensar da identidade recuperada para além da diferença. De um lado. sob o aspecto formal. Entrementes. embora conferindo uma especial dignidade ao homem. no caso. A propósito. de outro lado. pois a dialética (própria e apta a pensar a idéia ou o conceito) era algo inerente ao próprio destino do pensamento grego. àquilo que concretiza a passagem da . como se lê em seu diálogo Parmênides [14]. Foi precisamente a esta conclusão que chegou Platão – é verdade que por motivações e caminhos outros –. pervertendo-o do ponto de vista lógico. a criação do homem a partir do barro (natureza ou apenas res extensa) preserva. o parecer nietzscheano e reiterado por Heidegger que Platão teria traído o espírito filosófico grego é uma reprimenda completamente descabida. ou seja. como reza o Gênesis. um criacionismo paralelo de todos os entes. ainda que entendida metaforicamente. sendo o animal superior pelo menos lógico-identitário (I) e a razão pelo menos lógico-diferencial (D). algo que a ele em algum momento se desvelaria decretando – tem-se até o direito de lamentá-lo! – a sua própria superação.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 75 os gregos. atribui-se um caráter puramente identitário (I) à diferença que fez ser o homem. também da história da cultura). portanto lógico-dialético (I/D). no entanto. de fato. mas pela inexorável exigência (lógica) da história (hiperdialética) em seu processo de auto-realização [15]. res extensa (D). o ser humano teria que ser pelo menos lógico-dialético (I/D). o que acontecia não por força de uma infidelidade ou de uma traição. O cristianismo trinitário. parte-se da matéria inerte ou da animalidade bruta ou carnal. seja pela posição última na ordem da Criação. o esquema compreensivo que vimos tomando por referência. ao termo de uma etapa da história do pensamento (e. seja pelo atributo da semelhança ao Criador.

transcendental ou identitária (I). consciência moral. conservavam o mesmo esquema conceitual dos gregos. matéria perecível. NATUREZA BARRO/CORPO CULTURA HOMEM: CORPO E ALMA SOPRO ALMA Figura 3. isto significava um evidente retrocesso relativamente ao que haviam pensado os gregos. Como se vê. alma. Seguindo seu antecedente judaico. D) e alma (imaterial e eterna. liberdade. com a completa inversão das lógicas em jogo: aquela de partida era agora diferencial (D) e a nova. Só assim se justificava a semelhança do homem ao seu Criador.2 – O homem cristão O mais espantoso nisto tudo é que o pensamento antropológico cristão não se apercebia da absurdidade da inversão. lógico-diferencial. Assim.2). o homem passava a ser concebido como um misto heteróclito de corpo (natureza. porém. livre arbítrio. a passagem do animal ao homem não se devia mais. que negando consciên- . lógico-identitária. Ao cabo. mas sim de ordem lógico-identitária sopro. tudo isto era sem dúvida o que poderia haver de mais coerente com o estatuto lógico-trinitário (I/D) da cultura cristã – a dignidade do homem se devia à interveniência da alma (I) pertencente à mesma família lógica (lógico-identitária) a que pertencia o próprio ser divino (I/D). pura consciência..76 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO natureza à cultura. Aliás. I) (ver figura 3. como para os gregos. espírito (mesmo que decaído) etc. o cristianismo realiza a proeza de transformar a diferença que fazia a diferença numa identidade. interveniente. a algo de ordem lógico-diferencial. No entretanto.

de índios e negros africanos. porém. portanto sob o império da lógica da dupla diferença (D/D). é levado ao reconhecimento do outro (cultural) como um igual. infelizmente. entre o animal e o homem [16].FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 77 cia ou capacidade lógico-sintética aos animais superiores abria uma brecha para que daí a pouco os interesses coloniais levantassem também duvidas quanto à humanidade dos não-europeus cristãos. sabemos todos. parecia preservar a concepção cristã: em Descartes. sua “espessura” lógica se ampliara fazendo explodir a estreiteza referencial da dialética cristã (I/D). lógico- . O Iluminismo continental [17] dos séculos XVII e XVIII. a circunstância de se tratar agora de uma res extensa submetida aos poderes de uma geometria métrica. em particular. no caso. a princípio. Em suma. A Modernidade. Instalada irreversivelmente a Modernidade. mas na liberdade-operativa. pura reflexividade (I). acabou considerado. a ciência lançava-se à tarefa de homogeneização de todas as coisas. o homem cartesiano não podia ser mais concebido como um ser lógico-trinitário. E isto. acabou mesmo acontecendo. com plena justiça e de modo quase unânime. mas não altera o estatuto lógico-transcendental do ser próprio de todos os homens (a especificidade humana não estava mais na alma-substantiva. enquanto que a res cogitans se constituía como lógico-identitária. o inorgânico e o orgânico. apesar de ainda carregar tantos vezos medievais. provocado pelo ciclo dos grandes “descobrimentos” e colonizações. o macro-molecular e o vivo. demolindo as tradicionais diferenças entre o nada e a matéria. depois. o homem se estruturava ainda como misto de corpo e alma. auto-transparência. de muçulmanos e judeus. É exatamente por isso que Descartes. ambas se mantinham idênticas em seu estatuto lógico. entretanto. Havia. enfim. concomitantemente res extensa e res cogitans. o primeiro filósofo da Modernidade.

que. A essência lógica do trabalho é a diferença. e o latino. naturalmente. Com isso começava de fato uma nova era na antropologia. na medida em que ele rompe abertamente com o inconsistente transcendentalismo cristão. Nas proximidades ainda do macaco. O marxismo. a que devemos o primeiro passo efetivo para a refundação da antropologia moderna. mas o trabalho (D). uma espécie de anglosaxão retardado e muitos degraus abaixo. posto que assim rompia-se com a concepção cristã que via na passagem do animal ao homem a intervenção de algo da ordem da identidade. estávamos nós. não mais a alma ou algo equivalente. se pode conceber como uma espécie de neoliberalismo antropológico). pois trabalho é precisamente o esforço que visa a outra coisa que ele próprio [18]. europeus. busca estabelecer a continuidade (ou a indiferença) entre natureza e cultura: o primitivo era um macaco evoluído. entretanto. não possuía a “espessura lógica” suficiente para acomodar (ou poder compreender) a dupla diferença (D/D). Em nada surpreende que deixassem de lado exatamente a problemática existencial e histórica da cultura. a . brasileiros miscigenados (aliás. Surge então a antropologia funcionalista. Paralelamente. não pode ir muito mais longe em razão de que. herdeiro da dialética hegeliana (I/D). uma nova maneira de fazer prosperar o cientificismo antropológico sem os inconvenientes do etnocentrismo desabusado e ostensivo do evolucionismo cultural darwinista. por retroação. Chegamos então à teoria da evolução de Darwin (que hoje.78 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO transcendental). argentinos e a “elite” brasileira no poder continuam firmemente a crer até hoje). como a liberdade. (I). interpondo entre o animal superior e o homem. desenvolvia-se o marxismo. como é próprio de todo cientificismo. como no fundo da alma.

agora sim. mas como usuários de uma outra lógica. Voltando à tradição propriamente antropológica acadêmica. pergunta se eles tinham lógica (clássica). ele renova radicalmente a indagação antropológica: ao invés de perguntar como se fizeram os jesuítas. tratava-se de uma lógica onde sentimentos e emoções ainda tinham um grande peso no processo de produção da “verdade inferida”.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 79 lógica da ciência que à época já se apresentava como o traço fundamental da Modernidade [19]. entre os povos primitivos. Quando este faz uso desta expressão para caracterizar o pensamento dos povos primitivos. Com ele um grande passo é dado em direção de uma nova antropologia. Além de pugnar por um posicionamento mais “empático” do antropólogo em relação às cultura primitivas transformada em objeto” de estudo. de um pensar por analogias e proximidades significativamente carregado de sentimentos e emoções. já no início do século XX deparamonos. É evidente. se os primitivos tinham alma. que a pergunta por si valia imensamente mais do que a resposta que se lhe viesse dar. não o faz no sentido de que fossem destituídos de lógica (o que seria mesmo um absurdo. Logique des sentiments é mesmo o título de sua principal obra) [22]. Esta concepção remontava. razão pela qual ele pode ser com justiça considerado um dos fundadores da antropologia moderna. Perdoe-nos o leitor uma digressão relativamente longa acerca das origens da noção de pré-lógico em Lévy-Bruhl. que afirmava a prevalência. pois destituído de lógica é sinônimo de destituído de pensamento). Esta noção de pensamento pré-lógico em Lévy- . lógica que diferiria (o que não quer dizer que se opusesse ou negasse) da lógica formal hegemônica do Ocidente. pelo menos. com a figura de Lévy-Bruhl [20]. a Théodule Ribot (psicólogo francês conhecedor e apreciador sob muitos aspectos da psicanálise freudiana [21]. no caso.

foi trazer novamente a questão da cultura para o âmbito da lógica tal como ela fora posta originalmente pelos gregos. Eis que na segunda metade do século XX emerge a antropologia estrutural. pois é justamente ela que tem servido de pretexto para desmerecer a obra de um dos mais importantes estudiosos da formação da cultura brasileira – Arthur Ramos –. pré-condição da instituição do que seria a lei convencional por excelência: a lei de proibição do incesto. ao “totalitarismo” hegeliano! No âmbito da cultura. tanto quanto em LévyBruhl e Ribot. facilmente identificamos sua lógica como aquela dos processos primários freudianos. de Freud. ainda que bem tardia. não quer dizer destituído de lógica. na fonologia diferencial de Jackobson e sobretudo na teoria do inconsciente. Em suma. particularmente. e de outro. assume-se que em qualquer circunstância o verdadeiro objeto científico é o ser-sincrônico e não o especulativo vir-a-ser-diacrônico – uma reação. Nestes três últimos casos há de comum o abandono da indagação pela origem ou pelo ser (como vir-a-ser) para se tomar como “objeto” próprio do saber a diferença já instaurada. sobre a logique du sentiment de Ribot [23]. em Rousseau e no materialismo dialético marxista (anti-transcendental). O principal mérito de Lévy-Bruhl. bastante próxima pois da ulterior lógica lacaniana do significante [24]. que.80 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Bruhl aqui no Brasil originou uma predisposição cheia de veneno e má fé. afirmávamos. inspirada. é inquestionavelmente óbvio que o termo pré-lógico em Arthur Ramos. contraface . sabemos. na lingüística sincrônica de Saussure. Em suma. busca-se então a diferença humana já universalmente operante que vai ser identificada como a diferença clânica. de um lado. Pasmem: lendo o livro de Ribot. é um declarado admirador da obra de LévyBruhl e bem informado sobre suas fontes. mas sujeito à lógica do sentimento.

no quadro mais amplo de uma estrutura lógica tetrapolar. levarmos em conta que tal aproximação tem como pano de fundo a lógica. Como conseqüência imediata. mas vinha para se articular à diferença sexual animal bi-polar macho/fêmea. A troca das mulheres entre homens assim sub-agrupados se constituía no paradigma de todas as demais trocas e por conseqüência da solidariedade social. Desta forma. agora. bem ao contrário do que nos queria fazer acreditar o cristianismo doutrinário. Com isto instituíase a circulação das mulheres entre os homens reunidos em clãs. deixava a simples pela dupla diferença. emerge aqui uma importante novidade: é que tal diferença não mais valia por si. a sexualidade humana se via compelida à redefinição. na verdade. . DIFERENÇA SEXUAL MACHO/FÊMEA DUPLA DIFERENÇA MATEMAS DA "SEXUAÇÃO" MASCULINO/FEMININO PRIMEIRA DIFERENÇA DUPLA DIFERENÇA DIFERENÇA CLÂNICA SEGUNDA DIFERENÇA Fig. ou seja.3 . 3. justamente. Entrementes. Não é pois mero acaso que a “sexuação” humana em Lacan viesse encontrar sua melhor expressão nos famigerados matemas. Ver figura 3.A diferença clânica no estruturalismo Como é bem sabido. expressões não apenas de fisionomia.3. retornava-se em definitivo a um dos aspectos fundamentais da concepção grega: a passagem do animal ao homem devia-se a um poder diferencial e não identitário.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 81 da obrigatoriedade da exogamia. a importante contribuição lacaniana à compreensão da sexualidade humana tem como antecedente o estruturalismo antropológico de Lévi-Strauss e isto só pode ser devidamente compreendido e apreciado se.

mas muito bem articuladas entre si [26]. por exemplo. que estas não são relações isoladas. familiarizado com a doutrina estruturalista. que viesse acompanhado de dois outros grandes retrocessos. o par esquerda (c)/direita (d). no simples átomo do parentesco não estariam implicadas tão apenas duas. sobretudo. consangüinidade e filiação? Não é muito difícil demonstrar que a dupla diferença é o bastante para a definição das referidas relações. Devemos aqui abrir um parêntese. Como as três relações são equivalentes (ou quase). Alguém. podemos redesenhar o quadrado tomando quaisquer duas relações para formar os lados do quadrado. Ver figura 3. diríamos que. entretanto. poderia estranhar nossa insistência na necessidade e mais ainda na suficiência da dupla diferença para a caracterização daquilo que é essencial e propriamente humano. de fato. pena. Agora fica evidente que podemos formar um terceiro par com os termos diagonais do quadrado (e/f).4 . uma diferença ilustrando o par em cima (a)/em baixo (b) e a outra. sem dúvida. três relações fundamentais – aliança.4. a c e b f d a c f e d b e a d c b f Figura 3.Duas diferenças e três relações Voltando à nossa linha de raciocínio. O primeiro deles refere-se ao “logicismo” grego: no . A dupla diferença. o estruturalismo representa um grande avanço em relação ao pensamento antropológico grego. ficando a terceira automaticamente definida pelas duas diagonais.82 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mas. Porém. de essência realmente lógicas [25]. mas. pode ser representada por um quadrado.

especificamente dos cordados. Podemos considerar macho/fêmea como realizações de uma diferença D. Entretanto. a gramática é uma estrutura legal convencional necessariamente sujeita à lógica da dupla diferença D/D [29]. formalmente. facilmente constatamos sua radical incapacidade em relação à articulação gramatical (D/D). tanto a diferença sexual de partida quanto a segunda diferença clânica valem por si. O segundo retrocesso em relação aos gregos refere-se ao “esquecimento” do caráter lógico-identitário dos animais superiores. são ambas leis societárias convencionais. ele é tão apenas uma realização possível de um esquema lógico. em que pese a denominação geral de estruturalismo antropológico dado a esta corrente de pensamento. mesmo já biologicamente marcado. Negar isto é não con- . A lei da proibição do incesto é. Queremos dizer que. como deveras o faz [27]. são “substanciais e não apenas realizações de uma matriz essencialmente formal. pois é inegável o poder de simbolização arbitrária dos animais superiores. Ao mesmo tempo. que está presente mesmo no registro sexual. pois o animal. identifica-se ou assume sua determinação sexual: ele não é apenas macho. uma gramática. pensá-la apenas no âmbito da res extensa. De fato. Para ficarmos apenas num exemplo: a passagem da capacidade de operação simbólica (I/D) dos animais superiores à capacidade simbólico-discursiva (I/D/D) – proposicional no dizer de Cassirer [28] – do homem exige igualmente a introdução de uma segunda diferença. ele é macho que se assume macho. Passando-se do registro sexual ao simbólico. por mais significativo que seja o “modelo sexual”. sua capacidade de operar dialeticamente (I/D) [30]. o mesmo se dando com a fêmea. isto não passa de uma simplificação. que pode também realizar-se sob outros aspectos. percebe-se isso ainda com maior clareza.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 83 estruturalismo. ou seja.

porém. já a posteriori articulada. ser racional. seu estatuto lógico global tem que ser. sem dúvida. habitado pelo logos. no concomitante exercício de sua capacidade lógicoidentitária herdada da animalidade superior. “duplicandoa” ou reiterando-a. é verdade . o fato é que. Identifique-se o logos com a razão (a)colhedora heideggeriana (D) e/ou. porém. Para nós. Do ponto de vista instrumental. que permite a definição de regras de proibição de incesto paralelamente à imposição da exogamia.84 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO seguir distinguir a enorme diferença entre os pares porca/porco e porca/parafuso. lógico-qüinqüitário ou hiperdialético (I/D/D).daquela produção “genea-lógica”. o homem se capacita a operar a nível duplamente lógico diferencial (racionalmente). o homem é. teríamos que recuperar o que o estruturalismo desaprendeu dos gregos. bastaria dizer que o animal superior (cordados) opera a nível lógico dialético trinitário (I/D) e o homem a nível lógico hiperdialético qüinqüitário (I/D/D) (ver figura 3. e fazendo-o sem prejuízo do seu ser sintético. a rigor. Com efeito. existencial ou subjetivamente. portanto. na condição de ele vir para se compor com poderes e potencialidades operatórias animais similares pré-existentes e de certo modo reproduzi-las em nível operatório superior.5). o logos estaria assim ampliando a capacidade lógico-analítica dos seres vivos. ou objetivamente operatório. seria um dentre muitos modos possíveis de manifestação . poderíamos agora aceitar que o logos constituísse a diferença especificamente humana. como razão formal aristotélica (D/D). na verdade. Voltando aos gregos. A diferença clânica. . Em compensação.privilegiado.

nossa referência de partida. que poderíamos denominar pósestruturarista (concepção estruturalista à qual restituímos a identidade perdida). Em princípio.5 – O homem lógico-qúinqüitário Não é de admirar que culturas identitárias (judaico-critãs) atribuam à intervenção de uma identidade como sendo a razão de passagem da animalidade ao homem. o homem como síntese de I e D/D é de certo modo assumir um parti-pris machista [31]. como Aristóteles. com aquela de chegada. pareceria que a segunda é um simples complemento da primeira: conceber. Do mesmo modo as culturas lógico diferenciais (pagãs. Ver figura 3. concebê-lo como síntese de I/D e D não seria assumir um parti-pris complementar feminista?! I D/D I/D/D I/D D I/D/D Figura 3.6 – Concepções masculina e feminina .6. grega e moderna) atribuirão aquela passagem a uma diferença.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 85 I/D D I/D/D Figura 3. da natureza à cultura. Incoerente seria que o fizessem ao contrário ou mesmo indiferentemente! Seria interessante compararmos agora a antropologia aristotélica.

mas a ela não se reduz. que é. fica por aí evidente quão equivocado é o costume corrente de contrapor natureza e cultura de maneira meramente especular. a diferença clânica. Gostaríamos ainda de chamar a atenção para o fato de que o esclarecimento da relação lógica versus cultura provoca uma reviravolta da velha querela acerca das relações entre natureza e cultura. A prestigiosa razão suficiente leibniziana que busca responder à questão ontológica (no caso: porque existe a cultura e não tão apenas nada de cultura. aqui uma simetria. Voltaremos ao assunto um pouco mais adiante. Ora.7. inclusive com ajuda da figura 3.à cultura (I/D/D) se fez pela invenção/incorporação de uma segunda diferença (D) -. como mostra a figura 3.representada pelos animais superiores dotados de sistema nervoso central (os cordados). não perdemos a precisão lógica da diferença que faz a diferença animal/homem e tornamos bem mais compreensível a incomensurável força do logos no homem. Natureza e cultura se opõem. sim. em termos antropológicos. apenas superficial. logos de certo modo herdado e logos ao quadrado. ganha então uma resposta bem precisa: a passagem da natureza . guardando um iniludível relacionamento hierárquico. Existiria. mas como termos de uma seqüência. uma seqüência aberta. A nossa concepção é definitivamente não-machista.7. natureza?) [32]. de estofo lógico-qüinqüitário (I/D/D=I/D/2). ela permanece. de estofo lógico transcendental (I). concomitantemente. Esta abertura é essencial para que o homem possa se .86 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Parece-nos que não. pelo menos do ponto de vista especulativo. pressupõe deveras uma certa sensibilidade para o ser-feminino. E. sim. segue com a natureza. no entanto. Não rebaixamos a lógica do animal de I/D para I. de estofo lógico dialética (I/D) e chega à cultura. logo. capazes portanto de operar com símbolos convencionais (I/D) . A seqüência começa com o ser. ou seja.

ou seja. sem. E escapamos também assim dos humanismos de qualquer espécie. Ela só nos parece de nível superior por efeito da atividade humana de mensuração. A religiosidade. como pergunta pelo Absoluto. Concluiríamos afirmando que não há como pensar a filosofia da cultura.7 – Natureza versus cultura É importante notar que o estatuto dialético da natureza só é alcançado ao nível dos animais cordados capazes de operar com símbolos convencionais. . A natureza enquanto mundo físico. I/D/ 2 I/D I Cultura Natureza Ser Figura 3. pode então permanecer como ainda legítima. entretanto. de fazê-la geométrica. na verdade não passaria do estatuto lógico diferencial (res extensa). a “diferença” ontológica homem/natureza ou cultura/natureza sem o concurso da lógica. por isto se tomar por Absoluto. ou seja.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 87 posicionar de fato no ápice da escala dos entes mundanos. sem que se pense porque se pôde deveras chegar a pensar nisso. ou seja.

Os homens do neolítico. mil anos depois fazer levitar catedrais góticas inteiras e por fim legar museus repletos de arte sacra e em cima o presente Papa. afora sua triste lembrança. inventam as consoantes e assim a escola. tiveram que inventar os mitos que os inventassem. sua escrita mais suas criptas funerárias. fingimento e superação na história da cultura Os povos caçadores/coletores viveram porque ignoraram sua lógica e assim tiveram o que comer. a agricultura a sustentá-los. legaram a arte na e pela pedra em Lascaux. donde a paidéia e a pergunta pelo ser (sem a responder). assentados. e ainda honrar profetas bem mais do que quadros sacerdotais. ao tentarem viver mais além. O povo judeu. Dispondo da dialética platônica pode o Medievo reanimar o Corpus Christi.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 89 4 Desejo. A Modernidade pariu as “tecnologias” financeiras que transformam tempo em dinheiro tão eficientemente que não sobrou nenhum para criar e poder legar nada que prestasse. o gosto da guerra e legaram. Os gregos. soube se libertar do bezerro de ouro e pode legar a lógica em pessoa (Eu sou o que sou). os vencedores. inventando as vogais. e ainda nos deram de quebra o logos e a poesia trágica exorbitante. Altamira. por freqüentar o deserto e o cativeiro. . Dordonha e Chauvet.

Já se reparou que tudo tendo seu preço. o que se pode é bem dizer a insignificância que se vive. pelo menos um pouco de ar para que o pensar não sufoque e sucumba. negociar. que veio para se apossar no atacado de todos os corações e imaginários? Enquanto isso. é verdade). Como conseguir ser subversivo na era em que o filósofo e filólogo virtuoso comete muitos acertos. o Nada não é mais nada. deixando de herança seu lugar ao longínquo poeta (grego)? Ainda anuncia. e com isso foi-se à breca a temporalidade. senão a subversão. que agora só mesmo um deus pode vir salvar-nos. pelo menos na atual circunstância. não há cura. terapeutas pela palavra assumidos.seu preço arbitrado pelo mercado expresso num código de barras? Nada há mais para acontecer senão negociar. concluem que. enquanto espera por si. a mega-indústria do inconsciente. e porque também alguns erros (graves. se demite. corpo e alma. os futuros e junto todas as liberdades? Agora. Como conseguir. na Modernidade que virou a própria pós-modernidade? Na era em que nada mais escapa à suprema medida . negociar-se. os artesãos do que é outro.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 91 Antes de mais nada Como conseguir ser subversivo naquela que se anuncia a era de todas as eras. só na TV você decide! Como conseguir ser subversivo na era do marketing. que é . no círculo de aço-cromo-níquel da prostituição generalizada. na melhor das hipóteses. zombeteiro.

em princípio. de natureza hiperdialética (I/D/D = I/D/2). a dialética trinitária. dialética (I/D) e clássica. mas. válida para todos os homens em todos os tempos e lugares . tomando-se por termo de comparação. Aliás. ainda que em nome de Deus. algo ainda mais complexo. entre muitas outras coisas próprias aos homens. a fenomenologia do espírito de Hegel.Considerações introdutórias . como conseguir re-haver. formal ou da dupla diferença (D/D=D/2). o poder de discurso em sua dimensão plena [4]. operando uma complexa lógica hiperdialética síntese das lógicas da identidade ou transcendental (I) [3]. caracterizamos o homem como o ente capacitado a operar no nível hiperdialético ou lógico-qüinqüitário [2]. atestada de muitos modos. da diferença (D). Atente-se que este não seria um processo dialético no sentido hegeliano-marxista (I/D). pela dissimetria de suas relações lógicas de determinação e pela flagrante assimetria do poder de influência de umas sobre as outras)? Lá mesmo sugerimos uma resposta: concebendo-se a história da cultura como um processo de auto-desvelamento do próprio ser do homem. Os animais cordados (dotados de sistema nervoso central) atuariam no nível lógico dialético. entre eles. ao menos. mas a “razão” humana iria mais além.92 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO quem. o poderá deveras salvar? Falando com bastante simplicidade.com a tese da historicidade das culturas (a nosso ver. de um lado.1. Isto deixa de ser uma excepcional novidade se considerarmos que esta mesma lógica qüinqüitária (I/D/D=I/D/2) governa. como poderia a nível hiperdialético qüinqüitário ser diferente? É uma simples questão de consistência 4. a esperança? Em Noções de antropo-logia [1]. de outro. pela variabilidade temporal do vigor criativo das culturas. Perguntamo-nos já naquela oportunidade: como compatibilizar esta caracterização .

seria preciso considerar também etapas históricas precedentes em que não se teria dado ainda um passo objetivo ou.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 93 ou até de simplória regra de três! Toda cultura teria. um essencial e particular comprometimento lógico [5]. da diferença D. a seguir. primeira cultura que desvela e alcança a objetivação simbólica do ser lógico em geral. I. cultura tribal. uma outra em que prepondera o sentido da diferença (cultura da pré-diferença ou pré-D). assim. distinguindo-se uma primeira variante onde prevalece o sentido da identidade (cultura da pré-identidade ou pré-I) e. Elas serão de modo genérico denominadas etapas ecológicas [7]. comprometimento que em nenhum outro lugar melhor se mostra do que nos princípios dogmáticos de sua religião oficial ou dominante [6]. ambas naturalmente referidas à Natureza. teríamos a seguinte seqüência de culturas nodais (ver figura 4. cultura judaica. Resumidamente. . dos bandos primitivos de caçadores/coletores do paleolítico. Além das etapas marcadas por cada uma das lógicas subsumidas pela hiperdialética qüinqüitária (da identidade I. e focalizando apenas o Ocidente e o Oriente Próximo [8]. pré-D. começando no período mesolítico e alcançando o apogeu com os grandes impérios da antigüidade. Esta última seria a expressão simbólica coletivamente objetivada da lógica por ela assumida e sacralizada. e que lhe confere. dialética I/D. Os tipos culturais que inauguram cada uma das etapas deste processo de desvelamento serão denominados culturas nodais. clássica ou formal D/D = D/2 e a própria I/D/D = I/D/2).1): pré-I. melhor. representativamente lógico na direção daquele desvelamento. as condições de um efetivo exercício estabilizador da ordem social. inclusive. cultura sedentária de base agrária.

94 CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO I/D/ 2 D/ CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA 2 CULTURA MODERNA CÍNICA I/D D CULTURA GREGA TRÁGICA CULTURA JUDAICA I Pré-D CULTURAS LÓGICAS CULTURA AGRÍCOLA CULTURAS ECOLÓGICAS CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/COLETORES Pré-I Figura 4. até muito mais. A tese uma cultura. que hoje domina o mundo. para a tristeza e incômodo de todos os ideólogos e crentes da vida eterna da Modernidade (tanto do paradigma anglo-saxão. que só se pode manter porque os próprios fatos insistem em não desmenti-la. I/D. cultura moderna de base científica. sobretudo. pela primeira vez. ainda por vir. e. uma manifesta síntese das culturas anteriores. por todos os títulos. porque. já capaz de se perguntar pelo ser e pela sua própria lógica (logos). não castradora. quanto de suas indefectíveis alas esquerda e direita). cultura prometéica grega. mais precisões e. diríamos: em especial. Por certo há que se exigir mais. uma cultura à medida exata do homem. uma lógica é obviamente uma desmedida simplificação. D/2. cultura medieval cristã (patrística). As culturas nodais D. mais numerosas e profundas incursões . I/D/2.1. cultura hiperdialética qüinqüitária.

três lógicas. Nossa tese central aqui não será mais. não discordamos).que determina o que ela. Tentemos melhor esclarecer. sim. 4. Cada cultura tinha já sua lógica de referência era essa nossa tese anterior [9]. entretanto. porém. toda cultura de algum modo dá testemunho de outras lógicas. com aquela que a todas elas subsume (a hiperdialética qüinqüitária que caracteriza essencialmente o homem. que ajudem a avaliar a potência e traçar os limites de validade desta concepção. inclusive. tem o sentido profundo de uma passagem do enfoque estático ou arqueológico para o enfoque dinâmico ou propriamente histórico das culturas. Uma cultura e três lógicas . ora clandestinos. o que implicava no reconhecimento de uma certa equivalência de todas as culturas (tese esta muito cara a estruturalistas e relativistas da moda e da qual. já foi assinalado. o seu próprio futuro que resolveu madrugar.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 95 especulativas. Agora. São vínculos ora claros e assumidos. com cada uma das demais lógicas mundanas. é óbvio. precisou ser feita preservando-se o postulado da igualdade de todos os homens. a segunda. fingir que não mais é o que é e. Esta mudança. A adjudicação de uma lógica a uma cultura. intentará simular ser.2. Em outras palavras. por coerência. correspondente à cultura que a antecedeu . algumas de alto risco. Neste sentido é que vamos aqui tentar explorar ainda um pouco mais este veio dos determinantes lógicos da cultura.que determina o seu ser desejante. como até agora. como se verá. em que pese seu parti pris lógico. ela fica necessariamente associada a mais outras duas lógicas: a primeira. uma cultura. fonte de seu vigor criativo -. uma lógica. correspondente à cultura que a irá suceder . vale dizer. numa artimanha defensiva. algo bem mais arriscado e complexo: uma cultura.

o branco.o número 4.o número 5. as pirâmides de base quadrada. o círculo.o número 3. lógica formal D/2 . os dedos da mão grupados em 2 mais 2 mais 1. o homem e a quinta-essência. que relações com outras lógicas poderiam em princípio ser as mais relevantes? Por quê? Responderíamos que justo aquelas relações que ela mantém com as suas lógicas imediatamente vizinhas: a) de um lado. a terra e o touro. com a lógica da cultura que lhe antecedeu .96 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Para convencer-nos. a água e a serpente em hélice ou distendida. triângulos. lógica hiperdialética I/D/2 . e que por vezes “retorna” ou se revolta como num sonho -. o vermelho. com a lógica da cultura que lhe sucederá. as figuras especulares. procede a real ameaça à sua domi- . o ponto. b) de outro lado. bastaria pinçar alguns exemplos em meio à profusão de manifestações arquetípicas encontráveis nas culturas históricas: lógica da identidade I . seu permanente pesadelo . o ar e a águia. o fogo e o leão. o segmento de reta. mas que de algum modo permanece subsumida.lógica que teve que ser superada (ou recalcada). o negro. triângulos de círculos ou nós borromeanos. os quadriláteros em geral e as cruzes.de onde. o azul. por suposto. para que ela pudesse advir em seu lugar. lógica da diferença D . a estrela socialista. mandalas [10] de toda sorte.o número 1.o número 2. Dentro desse quadro geral. a serpente que se devora pelo rabo (o ser-um como resultado do colapso de uma diferença). os gêmeos. seria de bom alvitre que se indagasse: para uma cultura comprometida com determinada lógica. lógica dialética I/D .

que já soube incorporar os seus ameaçadores ao mesmo tempo que fascinantes poderes? (Ver ainda figura 4. toda cultura ao se afirmar estará automaticamente subsumindo aquela que a precede. não se pode simplesmente apagá-la. sente qual deve ser o seu inexorável destino: acabar superada ou marginalizada pela cultura associada à lógica imediatamente subsequente à sua. Cria-se assim um vazio ou uma falta cujo impossível preenchimento será daí por diante insistentemente perseguido. Tenta-se então recuperar este objeto perdido captando-o ou “ vestindo-o” com a nova lógica. pelo menos. (Ver figura 4. 97 Do ponto de vista lógico. Com isto.2) . que poderia haver de melhor senão simular ou fingir que ela de algum modo já se tornou aquele novo ser cultural ou. técnicas e múltiplas artes.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE nação de época.2) Ao mesmo tempo toda cultura tem o pré-sentimento de sua fragilidade constitutiva ante ao próprio processo histórico-cultural. Identificamos aí o poderoso “motor” oculto das grandes realizações humanas. ou seja. perde-se o objeto que fora antes o mais digno e próprio de ser pensado. Para conjurar tal tipo de ameaça congênita. o que. por suposto. conhecimentos. instituições. o desejo da cultura [11]. Desde sempre. é de algum modo silenciá-la ou recalcá-la. sublimam-se na produção de tantas e tantas riquezas em termos de costumes. através de um processo de reiteradas substituições. afinal. Tendo-se em conta que a lógica anterior já foi reconhecida e bem exercida. O que acontece aqui guarda grande semelhança com o que a psicanálise já observou no processo de estruturação lógico-emocional dos indivíduos. de modo mais ou menos claro. Isto nos faz compreender. na verdade. o que se pode. como as culturas. é uma impossibilidade.

CULTURA ANTERIOR RECALCADA DESEJO Figura 4. finge tão completamente que chega a fingir que é pós-moderno o moderno que deveras jamais deixou nem pode por si largar de ser.metaforiza a chegada de uma nova cultura que a todas estaria subsumindo. Este estratagema fica ainda mais visível na arquitetura dita pós-moderna. pela calúnia. para a consumação do seu destino e de sua própria superação histórica. Toda cultura. mas que ao final é o que a empurra para a frente. e que a dissimulação aqui . pelas ideologias. Lógica anter.98 CULTURA POR VIR LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Pseudo auto-superação CULTURA DE REFERÊNCIA FINGIMENTO Fim da simulação usurpadora SUPERAÇÃO Lógica poster. Toda cultura teria pois uma disposição desejante. logo no momento em que esta passa por uma de suas crises mais agudas. Modelo lógico Um exemplo salta de imediato à vista: a insistência dos ideólogos da Modernidade. que é seu verdadeiro motor imanente. simula ou finge ser o que ainda virá. é o melhor que poderia mesmo fazer para embaraçar o curso do processo hiperdialético da História. hoje. por exemplo) -. mais intensamente quanto mais chegada à maturidade. Lógica de refer.2. tanto de suas excelsas realizações. tentando convencer-nos de que o mundo já entrou na pós-modernidade. Deve-se observar que uma cultura se vale de muitos e diversos mecanismos de auto-justificação . como de seus piores feitos. que.pela violência em resposta ou preventiva (como a degola dos recém-nascidos). convenhamos. onde uma mixórdia de estilos incluído aí o próprio velho moderno .

as conquistas “materiais” da cultura lógicodiferencial em processo de superação (D/n)). O golpe fatal sobre qualquer cultura.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 99 aludida é apenas um dentre eles. ela já percebe delineados em seu horizonte. mesmo certo de como e de que mal vai morrer?! Neste particular. pode-se perceber que o movimento de sua superação se dá. E quando isto acontecer. será ela acusada justamente de usurpação de um lugar que não lhe era lógica e historicamente destinado. O mesmo esquema geral contínua válido no caso das culturas lógico-identitárias (I/D/n). é o referido mecanismo de fingimento que assume o papel principal. pois. os contornos da nova cultura que virá sucedê-la. No entanto. quem pode ser condenado por tentar sobreviver. e que de maneira inexorável irá confrontá-la. Tendo-se por referência apenas as culturas lógico-diferenciais [12]. simulando se sobre-viver. sem que isto implique conotações organicistas descabidas. só que a di- . ameaçadores. Mas afinal. precisamente em seu fingimento. um radical comprometimento lógico-identitário (I/D/n-1)) com uma mui corajosa determinação de instrumentalizar o que até então era tido como valor supremo (no caso. todas o pressentem sem engano possível. também não se pode ter dúvidas. como não poderia mesmo deixar de ser. só que ao seu jeito.lutam para viver. A visibilidade deste processo não deve ser lá muito fácil para os seus protagonistas na medida em que as forças reais da subversão estarão necessariamente ali operando a difícil combinação de um ideário fundamentalista (no caso. pelo abandono de uma identidade ab initio perdida (I/D/n-1) em favor de uma identidade prospectiva (I/D/n) situada além da diferença (D/n) específica que ela por definição encarna. as culturas são como todos nós . na fase de esgotamento do vigor criativo de uma cultura. formalmente. só poderá vir mesmo da cultura que assumirá a lógica imediatamente superior à sua.

exige um pouco mais de “engenhosidade” para o seu efetivo enquadramento no nosso esquema geral. sua arte mimética exacerbada e sua superação pela cultura lógico-dialética do espírito. como se fora tudo um simples renascimento. evitando ter que tratar logo de início com a cultura tribal de caçadores/coletores do paleolítico. do uno- 4. Começamos com as culturas de antigos impérios de base agrícola (pré-D). enfim. do conceito. tanto quanto terá sido negado. do desvanecimento do seu próprio desejo. seu fingimento idolátrico sacerdotal e sua superação pela cultura da lógica do mesmo (I). no que se refere ao seu desejo. do esgotamento de seu vigor criativo. com sua filosofia desejante. de outro lado. Por razões estritamente didáticas. em especial. fingimento e superação nas culturas lógico-diferenciais . enfim.100 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO fícil e surpreendente equilibração se dará. depois. que pela peculiaridade de ser justo a primeira. que se estava já gerando em suas próprias dobras. A probabilidade de subversão/superação de uma cultura cresce naturalmente na proporção do seu cansaço. Desejo. destacando seu desejo mítico. tendo de um lado. Alem do mais.3. Ao invés de apresentarmos as culturas em sua estrita ordem lógica/cronológica preferimos fazêlo só subsidiariamente deste modo. decidimos começar a exposição com a classe das culturas diferenciais. a entusiasta recuperação da sensibilidade e de alguns aspectos materiais da cultura lógico-diferencial anterior (D/n) e. agora. o fruto esperado. veremos os gregos (D). a interiorização ou subjetivação da espiritualidade em curso de superação (I/D/n). da idéia. margens e desvãos [13]. preferimos dar prioridade à classificação identitária/diferencial. Acabou-se o tesão! Ela será então ultrapassada por uma nova cultura.

Como bem observa Mircea Eliade. teremos o que mais de perto nos interessa. cabe perfeitamente à cultura dos impérios antigos de base agrícola (pré-D). a definitiva troca da temporalidade itinerante pela espacialidade fixa. (negritos nossos) [14] . A agricultura tomada como base da subsistência.o mito e a pseudo potência sacerdotal Nosso modelo lógico articulando uma cultura a três lógicas. por isso é substancialmente mito de uma filiação imaginária. com sua Física sofisticada e intensamente desejante. sua prodigiosa capacidade de simulação tecnológica e.1. talvez. a liberdade pelo cativeiro.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 101 trino (I/D). Significam. a Modernidade (D/D = D/2). em razão de inexcedível soberba e prepotência. em desabalada carreira para sua própria superação pela cultura hiperdialética qüinqüitária (I/D/D = I/D/2 ).o vínculo permanente da população a um determinado espaço geográfico. veremos. quer a cerealicultura (Tais mitos são mais raros. nas culturas evoluídas. a primeira na ordem da família das culturas lógico-diferenciais. em essência. na formação de estoques e na sua distribuição. acompanhada de investimentos na organização da produção. metaforicamente. e por vezes radicalmente reinterpretados. O mito vem suprir exatamente este desejo de origem (ou de um pai). como também na previsão e regularização das águas vão constituir a razão e suporte do sedentarismo . perdidas também as marcas de uma origem que não pode ser mais recuperada. Tempo perdido. 4.3. A maioria dos mitos de origem foi recolhida entre populações primitivas que praticam quer a vegetocultura . por último. Nos antigos impérios de base agrícola .

Neste tipo de cultura. um entre os múltiplos atributos dos entes. apoderase de alguns grãos e com eles recompensa os seres humanos. E. é desejo de reconhecimento na ordem do tempo. o sentido permanece ainda afeito ao traço. Quanto aos mitos referentes à origem da cerealicultura. (negritos nossos) [15] O mito. mas no céu. que. Para tanto e muito mais. por isso não chega ela a vivenciar a completa convencionalidade do signo que lhe daria acesso ao ilimitado mundo das idéias ou dos conceitos. Este teria subido aos céus e roubado aos deuses as primeiras sementes que aqui na Terra viriam dar origem à agricultura: O etnólogo alemão Ad. requerendo assim o “diálogo” com antepassados e pósteros. inventa-se a escrita possibilitando trazer pedaços do passado sempre presentes e também a certeza de uma pétrea presença gravada no futuro. o constituiu. mas sentido apenas como índex ou como análogo. o simbólico refém da espacialidade que. nas culturas de base agrícola (pré-D). colocam em cena um furto primordial: os cereais existem. em essência.102 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Tratando-se de uma cultura lógico-diferencial. ciosamente guardados pelos deuses. Jensen dava a esses dois tipos de mitologia os nomes de “Hainuwele” e “Prometeu” e os relacionava respectivamente com a civilização dos paleocultivadores (vegetocultura) e com a dos agricultores propriamente ditos (cerealicultura). as culturas de base agrícola terão sua fundação atribuída a um personagem na linhagem dos heróis prometéicos. malgrado. entretanto. Ali vige o simbólico. é a expressão mais viva de seu desejo de origem (pré-I). Jensen julgava que o mito de Hainuwele é específico aos paleocultivadores de tubérculos. É então pela idolatria sistematizada que esta cul- . um herói civilizador sobe ao céu.

verdes e cinzas plúmbeos um Deus que já não se pode mais adular. (Ver figura 4. A superação desta cultura se dará pelo advento da cultura lógica da identidade. para fazer frente à grande ameaça do conceito. em definitivo saída da Natureza para o mun- .Cultura imperial de base agrícola (pré-D) Tudo isto. que poderá ser manipulado com o concurso de fórmulas e práticas significantes. A todas as coisas. ora metonímicas (análogas aos processos primários psicanalíticos de condensação e deslocamento). que irá permitir a expressão do lógico enquanto tal. dotado da terrível autonomia lógica de poder ser e se dizer apenas aquele que é (ou será).3) D CULTURA JUDAICA DESEJO DA TERRA PROMETIDA MONOTEÍSMO JUDAICO I MAGIA (ANALÓGICA) PINTURA RUPESTRE Pré-D Pré-I CULTURA AGRÍCOLA CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/COLETORES MITO (DE ORIGEM) O ANIMALIDADE Figura 4. absoluto transcendente. por nada subornável. uma intencionalidade atuante ainda que oculta. percebem já pairando no céu de suas cidades e aldeias entre azuis. ora metafóricas.3 . Como se fora numa pintura de Chagall. vivas ou inanimadas. da religião do Deus único.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 103 tura irá fingir a posse de poderes conceituais que verdadeiramente ainda não têm. é atribuído um sentido. como assinalamos. Eis ai a essência da magia idolátrica: simulação de um poder simbólico pleno ainda por comparecer.

posição que vai lhe custar o mais alto preço. necessita ser levada às últimas conseqüências. Esta relação com os deuses é crucial. Daí. Não é por acaso que aí comparece a primeira religião do livro. reunidos de dia.três mil ou mais outros vinte tantos mil. porque isto significaria a renúncia ao seu próprio ser que é doravante ser outro (dos deuses). en correspondance avec le détournement catégorique du divin. sabemos todos. religião que vem justamente para denunciar os falsos poderes da magia sacerdotal e suprimir. assumant ainsi la différentiation par laquelle. é Moisés. (negritos nossos) [17] .a filosofia e a exorbitância dos poetas trágicos Chegamos aos gregos com sua lógica do outro ou da diferença (D) [16 ] que vem em sucessão e contraposição à lógica do mesmo ou da identidade (I). constituírem os gregos a cultura trágica por excelência. plus essentielle encore est l’infidelité où il se détourne comme un traître.3. il est plus authentiquement lui-même que par la nostalgie de l’Un-Tout. à noite. não importa -. Isto é bem ressaltado por Beaufret ao comentar as concepções hölderlinianas sobre o que deveria ser a autenticidade grega: S’il y faut la fidelité. o círculo de seus adoradores . entrementes. E se vê condenado a não mais retroceder. O personagem símbolo aqui é Prometeu. Para que seja realmente autêntica. Este é o sentido profundo da revolução cultural perpetrada pelo povo judeu. inseparável do prédomínio do simbólico pleno ou convencional. cuja gigantesca e emblemática figura. à volta do bezerro de ouro. 4. Entre os gregos .2.104 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO do da Lógica ou da Idéia (Hegel). a fio de faca. que roubando o fogo divino assume a posição do outro dos deuses.

uma profusão de profetas e suas duras admoestações contra a infidelidade dos homens à Promessa (que não é produto de roubo. que se alimenta o vigor criativo dos gregos. em especial. e não da outra. e esta interpretação fica especialmente reforçada quando a vemos contraposta. Hölderlin e Beaufret. O que ambos não chegam a perceber. ao invés. por falta do distanciamento. à filosofia. mas. Para compreendê-lo em toda sua significação. é que a relação especular “sincrônica” (entre homens e deuses. consumar-se-ia irrevogavelmente o autêntico ser grego.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 105 Nos próprios termos de Hölderlin. à nostalgia do um-todo. ou seja. do um-todo ou do Deus único. no final do texto citado. grega é mais propriamente o perguntar do que o ser. não produz filósofos e perguntas. A filosofia teria sido assim a busca inconsciente desejosa do ser uno (I) que a cultura grega (lógico diferencial D) recalcara em razão mesmo no seu processo constitutivo. considerada por eles fundamento lógico do trágico). precisamos ter na devida conta que a filosofia vale menos pelo ser (I) que visa do que pelo distanciamento (D) que viabiliza a pergunta pelo ser (Aristóteles). porque é desta última. Reparando bem.4) . Só desta maneira. o homem grego precisava responder o détournement catégorique do divino com seu próprio détournerment em relação a Ele. e isto precisa ser necessariamente assim porque a essência formal da diferença primordial está na especularidade [18]. daquilo que foi e agora é falta). Nesta. (figura 4. veremos que a pátria do ser como tal. não é de modo algum mais essencial aos gregos do que a “especularidade diacrônica” entre a poesia trágica (simulacro da idéia que ainda estar por vir) e a filosofia (nostalgia do um-todo. mas Graça!).

Cultura prometéica grega (D) A arte grega. sombra [19] Estes mesmos versos são comentados por Françoise Dastur em Hölderlin: Tragédia e Modernidade. pretensa extensão da natureza . particularmente a poesia trágica.do que esta deveria. Afirma ela. La Grèce. vale uma vez mais apelar à sensibilidade do poeta: Leur volonté fut certes d’instituer Un empire de l’art mais là Le natif par eux Fut renié et. além. mas não chegara a realizar -. Trata-se do modo próprio prospectivo/defensivo do ser grego.106 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO D/ 2 CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA DESEJO DO CORPO RESSUSCIT. de modo incontestável. a dissimulação que ela realmente é. DIALÉTICA PLATÔNICA I/D D POESIA EXORBITANTE FARISEANISNO (ESCRIBAS) CULTURA GREGA TRÁGICA FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA CULTURA JUDAICA I Pré-D Figura 4. grega no caso.4 . Para deixar isto ainda mais transparente. com certa gravidade: .fazer passar o não-todo pela totalidade fingindo ser sua própria posteridade. é ao mesmo tempo imitação (mimesis) e. malabarismo para uma sobrevivência impossível . É pois uma prerrogativa específica da cultura lógico-diferencial. o que encobre/ revela. simular sua própria auto-superação como arte. lamentablement. beauté suprême.

a arte tornou-se para eles não só modo de expressão e autocompreensão. Apenas veríamos em Platão menos um traidor [21] do que um clarividente.que então exorbitava . alguém que não faltou aos seus. sendo tam- .seria necessário aduzir . como idéia ou conceito dialético-trinitário (I/D). Hölderlin chega a tomar a tragédia grega como o correlato de uma intuição intelectual. um bem adequado operador para trazer à tona uma pretensa universalidade. A observação de Heidegger de que Platão representa o fim da filosofia grega é de uma precisão cirúrgica a laser. mais individual. com a agravante de terem sido alertados em tempo por um dos seus maiores . Enfaticamente ele observa: Esse tom fundamental é menos vivo do que o lírico. ou.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 107 Os gregos não foram capazes de retornar ao que lhes era propriamente pátrio. mas também a grande arma na luta pela sua impossível auto-preservação. Não conseguiram regressar ao pátrio. não por serem imitadores. sabemos. alertando-os do que significava a velha e radical inimizade entre a poesia . ou seja. porque . demasiadamente exato. como se vê. morrendo de excesso de arte porque não conseguiram conciliar em si. por excesso de fingimento. (negritos nossos) [20] Exato. como bem registra A República [22]. mas por sua pretensão de fazer passar o belo pelo verdadeiro.e a filosofia. natureza e cultura. para que fosse ele buscado além.Platão. à fonte de seu próprio vigor. desde que a interpretemos corretamente como o abandono do uno (I) aquém da diferença (D). Ali dizia de quantos perigos correriam deixando à solta os seu poetas trágicos. viria a ser a prerrogativa própria do conceito [23]. o que. a verdade da parte pela da totalidade. à imitação da própria imitação. Por isso. Teriam morrido assim os gregos por excesso de arte.

(negritos nossos) [26] (p. Fink nos agracia com um comentário de grande precisão: C’est là le sens de la critique platonicienne de la poésie. 90) Quanto à essência do conflito opondo Platão e os poetas trágicos.. mimésis. mas era algo essencial à .. Il interprète plutôt le beau comme chemin et échelon vers le vrai. comme préfigure du vrai qui ne s’ouvre qu’à la seule pensée pure. subsistant en dehors ou même au-dessus de la philosophie.. imitation d’une imitation. Platon n’oppose pas simplement cet autre mythe disant que le vrai est le seul beau authentique. Cette critique ne rejette pas absolument la poésie. originelle. elle rejette seulement la prétension d’une poésie qui revendiquerait une vérité propre. de la philosophie seulement aussi longtemps qu’elle admet que la philosophie lui imprime son caractère. .. para Platão. 92) Muito importante é observar que.. La poésie est essenciellemente mimétique.108 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO bém mais universal e o mais universal.. o conflito com a poesia trágica exorbitante não tinha nada de acidental. [25] (p. la poésie imite le vrai savoir. Eugen Fink no que respeita a pretensão do belo ao vero.. la poésie devient alors. Cependent elle est imitatio. par conséquent sans savoir réelllement. afirma que: Au mythe des poètes prétendant que le beau est vrai. Dans un pressentiment obscur. desde que possamos nós também escapar à sedução exorbitante do que era justamente o mais próprio dos poetas trágicos naquela quadra da história grega. (negritos nossos) [24] Perceber tudo isso não é assim tão difícil.

esboça seus primeiros traços em Platão. a cultura dialético-trinitária (I/D) se anuncia justamente nesta confrontação de Platão com os trágicos. onde se fixa em definitivo o símbolo da Trindade. que é a intervenção indireta da lógica formal D/2 na concepção da idéia platônica. Assim. (negritos e colchete nossos) [27] (p.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 109 própria afirmação da filosofia (bem entendido. on lui arracha son prétendu masque divin. A identificação do mundo das idéias com o real. o conceito I/D perde boa parte de sua autonomia referencial para ficar quase que reduzido à pura intensividade [28] ou a seu ser sintático (D/2). la riguer du concept remit à sa place sa sagesse usurpée. O desenrolar desse processo é de uma extrema riqueza: é a história da edificação da cultura cristã (patrística ou fundamentalista trinitária). Com isto. dissimulado. mais do que 600 anos após. no conflito da idéia com o excessivo poético que. paralelamente à concepção da matemática como linguagem da perfeição. passa necessariamente pelo evento Cristo/Filho/Logos de Deus (o Crucificado) e chega. que. Le poète de l’épopée homérique et de la tragédie attique fut l’auteur des jeux. a analítica aristotélica (D/2) já era uma potencialidade que de um modo ou de outro acabaria emergindo da im- . 101) A nosso juízo. como visto. Há aqui um importante detalhe a acrescentar. dialética da idéia} dirigea une violente attaque. fazem de Platão um formalista radical avant la lettre (no sentido mesmo atual da filosofia da matemática). à sua solene e irrevogável fisionomia no Concílio de Nicéia. vinha usurpar o lugar de uma futura emergência. des spectacles contre qui la pensée métaphysique {isto é. como ele e não Heidegger a concebia: dialética da idéia ou do conceito): Il lui fallut quitter le cothurne avec lequel il avait foulé le théâtre tragique. num certo sentido.

Tudo isto. corrente elétrica. densidade e o diabo [31]. que não surrupiaram sementes ou fogo aos deuses. a biotecnologia.Na Modernidade . força. fundamentalmente nostálgica no que tange ao seu objeto uno-trino desejado (I/D). Sua face desejante situa-se bem no cerne da sua gloriosa cientificidade . De fato. sua face disfarce é a técnica e seus excessos. constata-se com facilidade. Seus grandes heróis são Galileu.a Física [30]. 4. que fora recalcada pelo próprio advento da cultura moderna (D/2).suficientes para especificar qualquer sistema completo de medidas físicas abrangendo velocidade. . jamais. Em suma. essência lógica da cultura medieval cristã (I/D).tempo (T). desejoso do uno-trino (I/D). particularmente. entretanto. Discute-se tudo na física. em linguagem matemática) segundo os quais o mundo fora criado. a física é realmente moderna nos seus métodos e na sua escrita (D/2). hoje. põe-se em questão mesmo o estatuto de seus conceitos mais primitivos. pressão.a física e a biopirotecnia Chegamos por fim à Modernidade comprometida com a lógica formal (D/2) [29]. espaço (L) e matéria (M) . a física é produto do exercício de um pensamento sistematizador (D/2).3.5) . contudo. energia.3. Einstein e tantos outros. spin. que sejam eles três . indução magnética. aceleração. (figura 4. é herdado pelo universo conceitual cristão com sua crônica ambigüidade platônico/aristotélica. mas sim os “planos” (escritos. temperatura. agostiniano/tomista que seus diligentes teólogos não se cansam de tentar maquiar. Newton. dialético/formal. no entanto. Em suas grandes crises.110 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO precisão mesma das concepções platônicas sobre o conceito (as vacilações de Platão no Parmênides dão disto uma boa medida).

a história da física moderna é a incansável busca da relativização daquelas três grandezas através da determinação de seu mútuo comprometimento.Cultura científica moderna O mais notável dos feitos de Newton .relatividade restrita. daí porque. fixar as três dimensões essenciais e irredutíveis do ser físico: tempo.pré-assistido por Galileu e alguns outros -. simularia esta perfeição onto-lógica através da promessa da assintótica eternidade biológica. com sua mecânica.e a concomitante introdução de constantes universais correlatas [32]. Isto vem sendo feito através da postulação das modernas teorias não newtonianas . em especial a biotecnologia. De outro lado. a partir de então. à plenitude lógica. como se fossem três absolutos . seja pela substituição de órgãos gastos por outros novos de laboratório artificialmente produzidos (os transplantes seriam já uma preparação . espaço e matéria. Na cultura nova lógico-qüinqüitária o homem teria chegado ao seu pleno auto-desvelamento.tempo absoluto. Um evidente e bem compacto oxímoro. O fez. de certo modo. está a técnica pela qual a modernidade científica simula que estaríamos já no após-modernidade hiperdialética.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA DESEJO DE QUE? HIPERDIALÉTICA ESCOLÁSTICA (TOMISMO) 2 111 I/D/ BIOPIROTECNOLOGIA D/ 2 CULTURA MODERNA CÍNICA FÍSICA (CÁLCULODO UNO/TRINO) CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA I/D D Figura 4. eletro-dinâmica quântica .5 . foi. entretanto. espaço absoluto e matéria impenetrável e substancialmente indestrutível. A técnica. relatividade geral. mecânica quântica. enganadora.

não é tecnologia. O avião já em vôo. mas tão apenas de subordinação da lógica transcendental das determinações à lógica formal da ciência . insensíveis. metamorfoseado. deixa bem à mostra quão circenses são nossas atuais “políticas de importação de tecnologia”. omissos. contra a morte em geral no mundo. não se sabe como. também a inabalável determinação para fazê-lo (I). de sorte que em sua lógica estão necessariamente implicadas. Continuaremos tal como somos . A digitalização já se desenha como a grande arma contra o aumento da entropia. fazendo-se cínico coro com os arautos do Departamento de Estado. não ocorre ali propriamente um processo de síntese. com toda sua carga hereditária e de vivências acumuladas. não chega à hiperdialética qüinqüitária I/D/2. de outro lado. constituindo-se apenas em seu arremedo. como também da recomposição informacional de todas as coisas. de um lado. a determinação ou o empenho numa realização.egoístas. a propósito. a lógica clássica ou formal D/2 e a lógica transcendental ou da identidade I. Para se chegar a voar é preciso. em compensação. sem imaginação. É o velho “demônio” de volta. mas novo saber cristalizado (D/2). assim para toda a eternidade. seres vivos e memórias. em juvenil anjo de Maxwell. agora. o saber científico.112 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO para tanto). inclusive. mas. pois. Na técnica concorrem. de modo obrigatório.à lógica . Ela traz implícita a promessa tanto da preservação incólume. futuramente. sim. A lógica da técnica. entretanto. além de um saber aerodinâmico (D/2). É também o fim da História que tanto se apregoa. o que. do homem em todos os seus pormenores. cada dia mais carentes de tudo (pois o marketing chega sempre à nossa frente) -. respectivamente. mesquinhos. seja intervindo e consertando os defeitos de programação genética ou desarmando seus gatilhos internos disparadores da morte. nada solidários.

coetâneo e co-fundador à fixação das bases da cientificidade que viria justamente constituir a essência da Modernidade?! [35] Eis. mas tão apenas conjecturas. o eterno retorno revigorado dos esquemas teóricos. como discurso pleno hiperdialético-qüinqüitário (I/D/2).sob a égide férrea sempre da primeira. por razões óbvias. Poder-se-ia assim dizer. lógicas justamente recalcadas pela cultura moderna D/2. a recuperação das lógicas da diferença D e dialética I/D. ver como se dará a superação da atual cultura. em linhas muito gerais. Pode-se facilmente prever a vinda de um Platão (que provavelmente não será um. para expulsar os tecnólogos da Nova República de Verdade. ou seja. . entretanto.ciência e consciência. da razão autenticamente feminina [34]. que a técnica realiza a simulação da lógica qüinqúitária I/D/2 através da pseudo síntese machista da ciência D/2 e de seu sujeito assujeitado (I) . reparando nas vicissitudes por que passou a filosofia. além. exigiria muito mais: para começar. o homem da nova cultura hiperdialética qüinqüitária. Como olvidarmos três séculos de caça às bruxas (ou à sexualidade feminina). É óbvio que isto não vai representar o fim da ciência e da técnica. . A verdadeira síntese qüinqüitária I/D/2. não se pode apresentar ainda fatos. com toda a precisão. Podemos valer-nos de um paralelo com a cultura grega e. Não é difícil. mas talvez milhões ao mesmo tempo.a sistematicidade -. um novo Platão que abandone o uno-trino (I/D) aquém da dupla diferença (D/2) científica. lá. das regras de poder. a rigor. das organizações burocráticas e similares. animados já por uma nova e autêntica espiritualidade qüinqüitária). Daqui por diante. como a técnica se faz usurpadora do lugar onde pode advir o homem em sua plenitude. para buscá-lo à frente.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 113 transcendental cabe apenas a função menor de viabilizar a reprodução de sistemas . como diria Richard Morse [33].

1 .4. que dominou o período paleolítico. 4.a animalidade e a “semeadura” rupestre Vamos enfim examinar o caso da cultura nômade tribal de caçadores/coletores. ficando a prometida cultura nova qüinqüitária (I/D/2) para ser tratada num item específico a seguir.1. fingimento e superação nas culturas lógico-identitárias . e que por ser lógica e historicamen- 4. cultura judaica (I) e cultura cristã patrística (I/D) -.cultura das tribos nômades de caçadores/coletores (pré-I). Podemos então estabelecer o seguinte tabela resumo dos comprometimentos lógicos das culturas lógico-diferenciais: • Tabela 4.114 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mas tão somente a sua subordinação aos interesses de uma humanidade por fim em seu estado de plenitude hiperdialética. COMPROMETIMENTOS L GICOS NAS CULTURAS L GICODIFERENCIAIS FINGIMENTO SUPERAÇÃO • DESEJO CULTURAS LÓGICODIFERENCIAIS BASE AGRÍCOLA PRÉ-D GREGA D MODERNA D/2 MITO IDOLATRIA SACERDOTAL PRÉ-D→PRÉ-I PRÉ-D ≈ I FILOSOFIA D→ FÍSICA D/2 → I/D MONOTEÍSMO MOISÉS PRÉ-D→ I POESIA TRINITARISMO EXORBITANTE PLATÃO D ≈ I/D D → I/D BIOPIROTECNIA D/2 ≈ I/D/2 CULTURA QÜINQÜITÁRIA D/2 → I/D/2 Serão aqui consideradas apenas as culturas lógico-identitárias historicamente já realizadas .Entre os bandos caçadores/coletores do paleolítico .4 .Desejo.

como a água na água. diríamos que no estágio da cultura tribal de caçadores o homem já conquistou o estatuto lógico (Pré-I). Já pertence. nos dá uma curiosa e acurada descrição do modo de ser no mundo que o alimentar-se e ser alimento para outros animais acarreta: o ente vive a absoluta imanência. ao mundo da cultura. porém. na sua própria expressão. ele reconhecia. que caçava onças com ira e culpas multiplicadas por se tratar de desavença entre parentes. enquanto que ela mantém-se em posição de completa identificação com a mesma. é um preciso precioso testemunho de como tal relação primordial é deveras vivida [37]. vamos nos defrontar com questões tais como: Que sentido poderia ter a noção de uma “lógica” pré-pré-D? Como pode se estruturar o desejo numa cultura cuja lógica é a primeira? Nestas circunstâncias. no entanto. recordemos. Em razão mesmo de sua posição lógico-hierárquica. ignorando simbólica e objetivamente que a tem.6) . de onde poderá surgir o movimento de sua superação? O agrupamento humano identificado como préidentitário. Georges Bataille. vê-se compelida a assumir o estado de animalidade “pura” de onde proveio. para sobreviver.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 115 te primeira. possui a capacidade lógicoqüinqüitária (I/D/2) que caracteriza todo os seres humanos. para sobreviver. mas. em Théorie de la religion [36]. apresenta algumas peculiaridades bastante interessantes . no caso. (Ver figura 4. Em outras palavras. pois. que ao fim de contas representa sua própria animalidade ancestral. ver-se obrigada a viver da caça a outros animais. Diferencia-se da cultura Pré-D porque esta se põe como outra da natureza. A condição de caçador o identifica com a caça. Meu tio o Iauaretê. vê-se obrigado a voltar-se para um modo de vida meramente animal (Pré-Pré-D).

. Embora ainda não se tenha um conhecimento acabado do universo religioso paleolítico. pulsão de morte de um diferencial lógico por força do imperativo de sobrevivência. Por um lado. deveríamos aqui precisar: não se trata de uma volta ao inorgânico. em que pese sua peculiar posição na hierarquia das lógicas. a existência de um certo tipo de “xamanismo” na época paleolítica parece assegurada.. mas da renúncia a um ganho lógico (ganho de I/D para I/D/2). o xamanismo domina ainda em nossos dias a ideologia religiosa dos caçadores e dos que vivem do pastoreio. nem assim constitui uma verdadeira exceção. o fato é que já se pode lá assegurar a vigência de algum tipo de xamanismo. . Apenas.116 I LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO PINTURA RUPESTRE Pré-D CULTURA AGRÍCOLA MITO (DE ORIGEM) HERÓI MÍTICO CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/COLETORES IDENTIFICAÇÃO À CONDIÇÃO ANIMAL Pré-I CULTURA ANIMALIDADE O ANIMALIDADE Figura 4. no que tange ao seu modo desejante. mortos ou vivos. Segundo Eliade. compulsão do orgânico a retornar ao inorgânico de onde se originou. in- . Com isso. Fingimento e superação da cultura tribal Não é difícil perceber o paralelo entre esta condição e aquela que Freud caracterizou como sendo comandada pela pulsão de morte. (negritos nossos) [38] Sabe-se também que este é um universo religioso dominado pele lógica da identidade de todos os entes. ou seja. concluímos que as culturas tribais.6. animais e homens.

em La pintura prehistórica. Para tanto. isto é. seria fundamentalmente uma artimanha (intencional sem ser necessariamente consciente) criada pelos seus xamãs para conservar seu poder. Isto posto. a caça: . isto é. postergando o advento da cultura de base agrícola regulada. ciervos. [39] O fingimento nas culturas tribais. da caça aleatória para a caça assegurada. e também de “ser possuído” pela alma de um morto ou de um animal. Isto fica evidente em suas práticas cerimoniais. cabras monteses. (figura 7) Las pinturas {do Levante espanhol} son todas de animales: caballos.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 117 clusive também os deuses. de penetrar nos corpos dos humanos. aduzindo ainda que todas possuem um fim muito bem determinado. alguns felinos. ser de nível lógico Pré-I e tentar se passar por Pré-D. uros (colchetes nossos) [40]. fica fácil reconhecer o que realmente significam as belas pinturas nas paredes das cavernas datando justamente do paleolítico superior. Observa Brodrick. cabras. conforme nos informa ainda Eliade: O êxtase xamânico implica além disso a possibilidade de “possuir”. que seria o êxito naquilo que para tais comunidades é o mais essencial. ou ainda por um espírito ou por um deus. precisaria simular a passagem da caça no tempo para a “caça no espaço”.

Toda esta artimanha representativa. aqui. que vai se propor à recuperação do outro (a Natureza). mas como o que se tem para conquistar pelo trabalho. uma nova cultura cultura do neolítico e logo a seguir também das idades do bronze e do ferro. . por força de um movimento de subversão cultural. no entanto. não mais como o que se perdeu. Espanha No cabe duda de que la pintura prehistórica se ejecutó para ser utilizada. significa inquestionavelmente que se estaria assegurando uma regularidade na caça de certo modo equivalente à que lhes poderia proporcionar a agricultura que já se lhes avizinhava como uma nova possibilidade de vida. especificamente. pelo trabalho agrícola. irá por água abaixo. (negritos nossos) [41] Êxito. y que se utilizó para algún fin determinado.Caçada de veados.7 . Para el hombre primitivo éxito significa suerte en la caza.118 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Figura 4. Castellón. Se há dicho que la religión es en su origen una técnica para obtener éxitos.

e sim o escraviza.4.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 119 Visa-se o outro agora como meio. Conforme observa Brodrick. 4. también se utilizaba. A agricultura se tornando um fato. naturalmente. os desenhos começam a perder a sua função e vão se tornando mais e mais abstratos: El arte esquemático.a terra prometida e a exterioridade farisaica A condição para a objetivação simbólica coletiva do ser-lógico do homem é. A los dibujos mágicos suceden los esquemas mágicos. pero artes que todavía están íntimamente ligadas a la religión y a la magia. O autor da proeza está historicamente perdido. aparece un nuevo modo de vida y com él nuevas artes destinadas a nuevos fines. as pinturas rupestres do paleolítico superior vão logo perder seu caráter realista.2 . que surge de la pintura naturalista del paleolítico. tendendo a um esquematismo que muito provavelmente será a origem dos primeiros sistemas de escrita ideogrâmica. entronizado nos mitos de origem que vão caraterizar o universo religioso desejante da cultura lógica Pré-D (Ver notas 14 e 15).Na cultura judaica . com o advento da agricultura. bem acorde com a essência da linhagem das culturas lógico-diferenciais: como já vimos. Esta plenitude é alcançada com a pura convencionalidade do . Después de la revolución que causaron la agricultura y las primeiras civilizaciones originadas en la propia agricultura. O identificamos como o herói prometéico. estilizado. [42] Não se poderia esperar mesmo outra coisa. trata-se do personagem que sobe aos céus e lá rouba aos deuses as sementes que vão propiciar o advento da agrícola. o domínio pleno do próprio ser-simbólico. não mais se o devora. e mesmo em se tratando de um semelhante. contudo.

estariam representados pela dupla experiência da economia pastoril e da agricultura. pelos partidários de Moisés. um passo gigantesco na história da cultura. na calada da noite. Em termos puramente lógicos. logicamente. Este foi. o episódio representa a “tomada de consciência” ou a objetivação simbólica coletiva do ser-lógico do homem. ou seja. o acesso ao pensar dialético (tal como há muito compreendido por Platão). Com o signo convencional é que se chega à completa separação entre a coisa e sua representação verbal.formalmente. do ponto de vista lógico. acontece aí a definitiva diferenciação do pensar dialético (I/D) a partir de sua matriz lógico diferencial (D). esta mesma tensão também está presente no episódio envolvendo Abel e Caim . A conquista do simbólico convencional pressupõe. o conflito entre temporalidade e espacialidade. simulando possuir uma determinação ou um poder fundador que não tinha).120 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO significante com respeito ao significado. sendo o signo cujo significante ainda guarda alguma semelhança estrutural com aquilo que representa) [43]. Daí. a grande importância que devemos atribuir ao episódio bíblico da adoração do bezerro de ouro. O termo convencional vem aqui se contrapor a analógico (este último. sem dúvida. da liberdade no deserto e do cativeiro no Egito. pois retirou o homem da esfera ecológica para re-situá-lo na esfera lógica que lhe era já constitutiva. entre identidade (I) e . Estes. de milhares de adoradores diurnos do ídolo. Isto veio representar a vitória do convencional/lógico (I) sobre o analógico/ mágico (na verdade. à capacitação para a síntese de opostos. Em suma. um pré-D fingindo-se de I. A significação dramática dessa passagem fica bem marcada pela reação irada de Moisés quebrando as Tábuas da Lei gravadas pelo próprio Deus e depois com a trama e a degola. na cultura judaica. como indica o nome.

Israel. representar de maneira apropriada a lógica da identidade ou transcendental. nada se funda [44]. Só a partir daí (I). isso pareceria um contra-senso: sacrificar o próprio descendente para garantir a descendência. O sentido profundo do episódio. Tudo se passa como préI e pré-D levassem à síntese pré-I/D (superação do analógico) que por sua vez vai eqüivaler ao lógico transcendental I “objetivado” (auto-definição lógica do Absoluto). mas não é suficiente ainda para a determinação de seu desejo mais recôndito e que será a razão de seu viver profundo e motor da criação de um riquíssimo acervo cultural. Assim. retroativamente. a essência mesma do ser-lógico.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 121 diferença (D). poderá algum dia haver um filho que se autonomize ou rebele (D) e. Tudo isto serve bem para a caracterização do serlógico judaico. Agora que era alcançada a plenitude simbólica. depois. e sem este. então. mas sobretudo compreender a auto-definição do seu Deus: Eu sou o que sou (ou serei). não há princípio. é que se podia. Outro episódio bíblico reitera o estatuto lógicotranscendental ou identitário da cultura judaica: é a disposição de Abraão em aceitar o sacrifício do seu filho Isaac como o preço imposto pelo Deus todo poderoso para a sobrevivência de seu povo. está em que só o sacrifício do filho define um pai enquanto tal. sim. a recalcou e desta maneira transformou-a no seu impossível . Só esta experiência aguda de opostos e a tensão que ela suscita. foi possível a Moisés não só “ouvir”. A lógica do pai é precisamente a lógica transcendental ou da identidade (I). entretanto. por ter rompido com o estado ecológico. especificamente com a sua realização lógico diferencial (pré-D). A princípio. simbolicamente assumida por Abraão naquele episódio. aconteça a reconciliação amorosa entre ambos (I/D). pôde proporcionar as condições para a realização da síntese dialética que vem dar aceso ao simbólico acabado.

babilônios. persas (enquanto força militar) -. uma reação ao sionismo na medida em que a efetiva conquista de uma terra poderia enfraquecer o seu desejo mais essencial e levar mesmo à dissolução desta cultura milenar. tais infortúnios acabavam sempre se constituindo num motivo para o maior reforço de seu desejo pela terra. a cultura da diferença.8) I/D FARISEANISNO (ESCRIBAS) D CULTURA GREGA FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA CULTURA JUDAICA PROMETEU (CRISTO CRUCIFICADO) I MAGIA (ANALÓGICA) DESEJO DA TERRA PROMETIDA Pré-D Pré-I CULTURA AGRÍCOLA Figura 4. e até hoje persiste. que exatamente assinala o ser diferente vis-à-vis a Natureza) . como bem sabemos.assírios. com o advento do cristianismo. pelo contrário.122 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO objeto de desejo: a terra (aquela sobre a qual se exerce o trabalho.Desejo. A cultura judaica só veio ser profundamente abalada no contato com a cultura grega. As reações à cultura greco-romana (prometéica.8 . em particular seus reiterados constrangimentos e desterros impostos pelo arbítrio de seus vencedores e/ou senhores .a Terra Prometida. A partir daí ela passa a viver uma permanente e dramática tensão interna que só se irá resolver muito mais tarde. Fossem quais fossem as derrotas militares judaicas. nada podia abalar a cultura judaica. (figura 4. da diferença). foram múltiplas: . fingimento e superação na cultura judaica Tanto isto é verdade que entre os próprios judeus houve.

a aludida independência relativa permite que se levante a questão acerca de quem efetiva- . nunca é demais lembrar que a filosofia. muito especialmente. Devemos. como deveria ser. à moda grega. a meia adesão dos saduceus e. como. Estes últimos acabam sendo os mais importantes porque se valem da “estratégia” do fingimento. em um conjunto de convencionalidades sociais. e voltar inclusive a ter um papel ativo à frente do processo cultural global. não está até hoje bem determinado o grau de influência das culturas semíticas sobre os gregos presentes na costa da Ásia Menor. Futuros estudos sobre este assunto poderão revelar se de fato existiu tal influência e sua extensão. insistindo mais uma vez em que. por tratar-se aqui de um processo hiperdialético. a pergunta pelo ser-um. ter em conta que as lógicas da identidade e da diferença são ambas fundamentais [47]. o terrorismo zelote. como um “resto” [46]. aliás. preliminarmente. Consideremos agora a delicada questão da superação da cultura judaica. Ademais. o superado/subsumido pode sobreviver como tal e também por si. Contudo. emerge exatamente nas colônias gregas em ilhas próximas ou na própria orla da Ásia Menor. mera exterioridade. o que possibilitaria às culturas judaica e grega se desenvolverem com uma certa independência uma da outra. Os Evangelhos Sinóticos são bastante eloqüentes e insistentes nesta espécie de acusação a escribas e fariseus [45]. porque tentam barrar a penetração da cultura da diferença através da “demonstração” de sua não necessidade.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 123 as revoltas armadas macabéias. inicialmente como comerciantes e depois como colonos. Isto é feito esvaziando-se a interioridade da lei mosaica e transformando-a. A propósito. Bem. o “fundamentalismo de fachada dos escribas/ fariseus. a cultura judaica (I) precedeu a cultura grega (D). acabou sendo o caso dos judeus no nascimento da Modernidade.

lógico diferencial (D) com a cultura judaica lógico-identitária (I). O conflito desde o começo com fariseus e escribas fingidores. e mesmo tempos depois. A diáspora judaica. com o seu Deus Uno-Trino) foi um processo lógica e historicamente bastante complexo na medida que está aí implícita a mediação de uma cultura prometéica ou da diferença. Preocupadas com sua re-integração. A nosso juízo. Só nos parece a segunda em razão do modo que toda esta passagem é contada pelos cristãos interessados em omitir o que fora verdadeiramente subsumido [48].No cristianismo medieval . inequivocamente. o cristianismo escamoteou a real subsunção da cultura grega (D) através da artimanha de sua apropriação/ internalização simbólica. Entrementes. é o produto inquestionável do encontro da cultura grega. A passagem do judaísmo (Primeira Aliança. chegou a ser numericamente importante [49]. Voltaremos a este importante assunto no item a seguir. com o seu Deus Único) ao cristianismo (Segunda Aliança.4. e a grande maioria de seus membros falava apenas o Grego e o dialeto local. desde Alexandre até a época de Cristo. a primeira. as autoridades religiosas judaicas promoveram a tradução da Torah para o grego: trata-se da famosa Setenta (LXX ou Setuagina) [50]. como não lhe interessava uma ruptura ainda maior com sua herança judaica. a cruci- .124 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mente teria consumado a superação histórica do judaísmo . a exata versão que posteriormente serviu de base para a composição do Evangelho cristão.o corpo ressuscitado e o “lixo” escolástico O cristianismo originário (patrístico).3 .a cultura greco-romana ou a cristã (patrística). 4. como por todos bem sabido. A transposição da Torah para o grego pode ser considerada como o mais importante acontecimento antecipador do cristianismo.

Era o corpo (o Filho encarnado). Devemos ver aí o corpo mesmo. O Cristo ressuscitado é exatamente esta referência ou protótipo daquilo que era então prometido a todos os mortais.Deus meu. sensível e sensual (bio-psíquico). indo por isso ocupar a posição lógico-diferencial (D). mas sob a lógica da espiritualidade (I/D). A omissão das últimas palavras do Cristo Crucificado . escamoteiam lamentavelmente os traços daquele prodígio. A localização do desejo do cristianismo a partir daí se faz sem dificuldade. semeado desprezível. em conjunto. corpo beatífico necessário e suficiente para o exercício do amor a Deus (figura 4.Amor e símbolo da reconciliação entre Pai (I) e Filho (D). Deus meu. segundo São João) coetânea ao abandono pelo Pai. ressuscita cheio de força. o corpo ressuscita incorruptível. O desejo do cristianismo estava pois na recuperação do corpo (D). Sabemos que é o próprio Cristo que faz a comunicação que precisaria se anular como presença visível (significante. a descida ao reino das trevas. como em São João. A figura do Cristo Crucificado e abandonado o faz logicamente outro do Pai (I). da doença. por que me abandonaste [51] -. D) entre os homens para que em seu lugar adviesse o Espírito Santo . da dor e sobretudo da corrupção . ressuscita reluzente de glória.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 125 ficação (de responsabilidade dos fariseus. depois a ressurreição tendo como contrapartida o envio do Espírito Santo. semeado na fraqueza. ressuscita corpo espiritual [52]. mas como corpo biológico. Trata-se do que fora antes pensado pela lógica da diferença (D).o corpo prometido. lógico dialético I/D.9). formam uma bem arquitetada recapitulação simbólica. A partir daí . portanto. agora livre do peso. não como apenas corpo físico. São Paulo não poderia ser mais explícito e claro sobre este assunto: O mesmo se dá com a ressurreição dos mortos: semeado corruptível. entretanto. semeado corpo psíquico.

então. a representação de um corpo dis-psicologizado e reespiritualizado pela frontalidade. E como.9 . estabilidade de composição e olhar fixo vigilante das personas re- .” Dizendo isso. disse-lhes: “Tendes o que comer?” Apresentaram-lhe um pedaço de peixe assado. Tomou-o. de um lado.126 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO melhor se compreende o episódio narrado por Lucas em que Cristo aparece aos seus discípulos desafiando-os insistentemente para que o toquem: “Vede minhas mãos e meus pés: Sou eu! Apalpai-me e entendei que um espírito não tem carne.Desejo. e comeu-o diante deles. em especial nas artes românica e bizantina. irradiando a mais excelsa espiritualidade (figura 4. nem ossos. mostrou-lhes as mãos e os pés. [53] I/D/ 2 ESCOLÁSTICA (TOMISMO) D/ 2 CULTURA MODERNA FÍSICA (CÁLCULODO UNO/TRINO) GALILEU/NEWTON CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA DESEJO DO CORPO RESSUSCITADO I/D D POESIA EXORBITANTE CULTURA GREGA I Figura 4. não podiam acreditar ainda e permaneciam surpresos.10). por causa da alegria. Destaca-se. a insistência no corpo crucificado e ao mesmo tempo imponderável. como estais vendo que eu tenho. de outro lado. fingimento e superação na cultura cristã patrística Esse desejo de um impossível corpo (D) espiritualizado (I/D) está profusa e ricamente expresso na arte sacra cristã.

Há um consenso mais ou menos geral que com Pedro Abelardo (1079-1142) vem ter início todo um processo de fundamentação racional das crenças em desfavor dos “argumentos de autoridade”. . Vale a pena aqui chamar a atenção para algo muito especial no que respeita à relação entre arte e cultura na cristandade (autenticamente trinitária). A ameaça à hegemonia epocal do cristianismo trinitário começa a se delinear entre os séculos XI e XII. na medida em que ela. no alvor do século XII. mas a idolatria.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 127 presentadas (figura 4. e portanto desejosa não da corporeidade e sim do uno-trino. já comprometida com a Modernidade. inclusive em âmbito teológico. o primeiro surto de atividade econômica de caráter propriamente moderno pelo peso dado à técnica e à racionalização da produção. Embora seja um exagero afirmar que o Ocidente desconhecia a obra aristotélica (o Organon era certamente conhecido). que Gimpel. desde sempre. a verdade é que ela só teve divulgação ampla para se tornar uma real ameaça à cultura estabelecida a partir dos fins do século XII.11). O desejo de ser-cristão se realiza simbolicamente na própria arte. quando os árabes promovem uma enxurrada de traduções de textos recuperados na sua expansão ao Oriente. Ele é basicamente um lógico. Aí está também a razão profunda da Reforma. se dispensar das imagens. o primeiro lógico moderno. mencionaríamos. tendo deixado uma Logica ingredientibus (Lógica para principiantes) destinada ao ensino das categorias aristotélicas A seguir destacaríamos a tradução para o latim das obras de Aristóteles. resolve denominar Revolução Industrial da Idade Média [54]. se constituiu na própria espiritualização (I/D) da materialidade (D). acusadas de favorecer não a fé. Por último. valendo-se de um aparente paradoxismo. Destacaríamos três importantes acontecimentos.

pois o que ela deixa claro é que São Tomás. para o . A meta estipulada foi a conquista da Universidade de Paris que. O Absoluto racionalizado se antecipava para tentar impedir o advento da Razão absolutizada. Sobre o último corre uma célebre anedota: o Doutor Angélico. já se constituía num dos principais centros de saber da Europa. Ravena. séc. Buscava-se assim demonstrar a não necessidade da ciência. melhor preparada. já em seu leito de morte.10. embora recém-fundada. instado a manifestar-se sobre o valor real de sua grandiosa obra. Esta gigantesca operação diversionista. na medida em que a teologia era então não apenas um affaire de pura fé.” Não importa aqui a verdade histórica.11. Basílica de São Vital. A primeira investida coube a Santo Alberto Magno (12061280) e uma segunda. mas também justificada pela razão. VI) A reação à ameaça da razão formal se dá justamente pela aristotelização da teologia antes radicalmente platônico-trinitária (Patrística).128 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Figura 4. XII) Figura 4. teria respondido simplesmente: “Um lixo. Imperadores Justiniano e Teodora (Mosaico. por ser a mais recente de todas. séc. foi também a mais firmemente intencionada em toda a história da cultura. a seu discípulo São Tomás de Aquino (1225-1274). “cumpria ordens”. O Cristo Crucificado (Românico alemão. disciplinado.

Kepler e. Quem lá vivia. a consolidação de estados nacionais. vão se empenhar em minimizar o poder da Igreja promovendo. Reacendia-se o processo de acumulação financeira dos banqueiros intersticiais que. a ciência se consolida com Copérnico. [55] Já no início do século XIV. Aristóteles: When I think of this lamentable state of affairs. Os acontecimentos se atropelam: descobre-se a imprensa. ao sentiremse já suficientemente fortes. a teologia racionalista de São Tomás de Aquino e por trás de tudo. em especial Lutero. acelerando a deterioração do nível ético da hierarquia e acabando por provocar a Reforma. ao mesmo tempo que. especificamente . ficaríamos com a Reforma. Descartes define o novo mundo como espaço medido tendo por sujeito o cogito. Caso fôssemos obrigados a escolher um marco de referência para a superação em definitivo da cultura cristã. A “lógica espacial” das nações impunha que nítidas linhas de fronteiras (e aduanas para bens físicos) se formassem. caía automaticamente de algum lado (ganhava uma nacionalidade). fora especialmente preparado e apoiado. Galileu. A acusação dos reformadores na esfera doutrinária. atinge frontalmente a Universidade (Paris. constituíam um poderoso mercado financeiro inter-nacional. de modo que com elas desapareciam os espaços intersticiais entre feudos. entre outras coisas. a recuperação demográfica permite a retomada do processo de modernização econômica que se havia interrompido com as grandes epidemias e as tumultuadas cruzadas. Não se deve estranhar que tal guinada ideo-lógica acabasse se mostrando contraproducente. com Newton. pela teia de suas ligações afetivas e de mútua confiança. definitivamente.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 129 que. diga-se de passagem. antes de qualquer outra). I cannot avoid believing that the Evil One introduced the study of Aristotle. vêm os Descobrimentos [56].

conforme mostra a tabela 4. Isto posto. o sujeito individualista liberal. jesuítico.2: • CULTURAS LÓGICOIDENTITÁRIAS TRIBAL PRÉ-I JUDAICA I CRISTÃ PATRÍSTICA I/D QÜINQÜITÁR. HERÓI MÍTICO PRÉ-I→ANIM. AGRÍCOLA MORTE CULT. PRÉ-I ≈ PRÉ-D PRÉ-I→ PRÉ-D PROMESSA FARISEUS/ TERRA PROM. este sujeito foi posto pelo protestantismo como sendo o sujeito da fé. a posteriori.2. já que esta não tem como por si suceder-se? Como todos sabemos hoje. COMPROMETIMENTOS LÓGICOS NAS CULTURAS LÓGICO-IDENTITÁRIAS DESEJO FINGIMENTO SUPERAÇÃO PULSÃO DE XAMANISMO CULT. ESCRIBAS I → PRÉ-D I≈D CORPO INCORRUP.130 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO pela separação radical que ela impõe à fé e à razão. os seus prejuízos. RUPEST. procurando minimizar. É precisamente isto que acaba resolvendo o grande problema que à nova cultura se impunha: quem deveria ser o sujeito autônomo da ciência. podemos então estabelecer o resumo dos comprometimentos lógicos das culturas lógicoidentitárias (agora incluindo a cultura nova qüinqüitária). A Contra-reforma e correlatamente o Barroco já são manifestações do cristianismo superado. CIENTÍFICA TOMISMO GALILEU I/D→ D/2 I/D ≈ D/2 O VERO TRANSCENDENTE . PINT. I/D/2 • Tabela 4. I/D → D CRISTO CRUCIFICADO/FILHO I→D ESCOLÁSTICA C.

se contarmos também as culturas ecológicas. a cultura cristã trinitária. Especulações acerca do futuro da cultura Exatamente porque o processo hiperdialético qüinqüitário (I/D/2) é uma dialética de dialéticas. Agora. aquela dos bandos e tribos de caçadores/coletores do paleolítico (pré-I). a totalidade das figuras anteriores relativas a cada um dos momentos da história da cultura antes recenseados. articulada de modo rigoroso.12 reúne. degrau zero da dialeticidade (I). foi igualmente pré-dialética (préI/D). Já vimos (item 4. A figura 4. é que ele pode escapar às dificuldades do processo simplesmente dialético (I/D) no que tange às problemáticas de origem e destinação [57]. a que preceder. Do mesmo modo. O sentido disto é óbvio: a pré-condição do cristianismo não teria sido precisamente Jesus. é o momento de vermos como tudo se resolve também satisfatoriamente com respeito ao tipo cultural derradeiro. além de trinitária torna-se ao mesmo tempo pré-qüinqüitária (pré-I/D/2). Tendo o homem alcançado o último estágio de seu desenvol- . a cultura judaica. ao mesmo tempo em que elas são o que são. mundanamente.3. a cultura lógico-qüinqüitária (I/D/2). o homem perfeito? E é por tudo isto que a cultura hiperdialética qüinqüitária significa o termo do processo de auto-desvelamento do ser-lógico do homem. Assim. A pergunta que logo salta à vista refere-se ao desejo da cultura lógico-qüinqúitária.1) como se pode preservar a generalidade do processo hiperdialético com respeito à cultura originária. na conquista do simbólico convencional ou pleno.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 131 Esta visão de conjunto das culturas lógicoidentitárias deixa evidente que. são também pré-formações das culturas da mesma classe que as sucederão. ainda que lógico– transcendental (I). pré-I e pré-D. 4. pois é óbvio que nada mais há.5. subsumindo assim o processo transcendental unário.

fingimento e superação na história da cultura Esta simples colocação nos faz lembrar que em todos os estágios culturais anteriores o que impulsionava a cultura em direção às suas tão de um desejo de morte da cultura ou da humanidade (ou seja. da lógica qüinqüitária recém conquistada) que. seria mesmo o homem da cultura qüinqüitária desejoso do ser-sistêmico-calculado antes governado pela lógica da dupla diferença (D/2)? CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA HIPERDIALÉTICA ESCOLÁSTICA (TOMISMO) I/D/ 2 BIOPIROTECNOLOGIA D/ 2 CULTURA MODERNA CÍNICA FÍSICA (CÁLCULODO UNO/TRINO) GALILEU/NEWTON CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA DESEJO DO CORPO RESSUSCIT.132 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO vimento onto-lógico. Desejo. aquele desejo passa- . Nas culturas subsequentes. era a condição mesma de sua sobrevivência física. e tendo-se em conta que este seria também o momento de seu pleno autodesvelamento. Embora onto-logicamente distinto. DIALÉTICA PLATÔNICA I/D D POESIA EXORBITANTE FARISEANISNO (ESCRIBAS) CULTURA GREGA TRÁGICA FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA PROMETEU (CRISTO CRUCIFICADO) CULTURA JUDAICA DESEJO DA TERRA PROMETIDA MONOTEÍSMO JUDAICO I MAGIA (ANALÓGICA) PINTURA RUPESTRE Pré-D Pré-I CULTURA AGRÍCOLA HERÓI MÍTICO CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/COLETORES IDENTIFICAÇÃO À CONDIÇÃO ANIMAL MITO (DE ORIGEM) CULTURA ANIMALIDADE O ANIMALIDADE Figura 12. como poderia ele se manter desejoso de algo menor. simplesmente não comeria. tal como vinha acontecendo nas demais culturas? A manter-se o mesmo padrão. se o homem não se identificasse à caça. como vimos.

o desejo (D) e seu “objeto” (I/D) não achegam a ultrapassar a lógica qüinqüitária do ser humano I/D/2. agora justificadamente tido por espúrio (figura 4. cujo desejo vem ser pelo uno-trino (ver item 4. de sorte que sua articulação se mantinha. Isto não traz nenhuma inconsistência em virtude de que se tratou sempre de desejo por algo igual ou inferior ao ser-dialético (I/D).3. de modo coerente.13 à direita). articulados.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 133 va a ser. O mais espantoso. pois seria a única “seqüência de movimentos” admitindo um quarto elemento (figura 13 à esquerda).3 anterior). ao mesmo tempo. Pode-se constatar facilmente que isto funciona para todas as culturas. Mas então seríamos obrigados a aceitar que não haveria mais desejo na cultura lógico-qüinqúitária? Ela nada realizaria de relevante. Ele ape- . inclusive para a Modernidade. sempre inferior à capacidade lógica humana I/D/2. o que é o mesmo que afirmar que a evolução cultural humana veio se fazendo de modo inconsciente. ao contrário de todas as culturas anteriores. (D)/(I/D) = D/2 ≤ I/D/2. Tudo isto pôde se manter assim porque quem presidia de fato ao processo cultural em sua globalidade era a lógica do inconsciente (D). o que nos parece uma obviedade. desejo de poder na medida em que uma lógica vinha se apoderar do que fora já pensado por uma lógica menor anterior (ou por ela subsumida). ocorre quando constatamos que um hipotético desejo da cultura qüinqüitária (I/D/2) pelo ser-sistêmico ou objeto científico calculado (que se revelara à lógica formal D/2) viria quebrar toda a harmonia do quadro geral do processo de desenvolvimento cultural. mas apenas mudaria de sinal. ou seja. entretanto. simplesmente por ter afinal coincidido consigo mesma? Nossa resposta seria no exato sentido contrário: o desejo não desapareceria. Constata-se sem dificuldade que a simetria global se recompõe à perfeição tão logo removamos aquele movimento hipotético”.

Terá ele então superado em definitivo seus antigos modos idolátricos (porque desejosos do que era inferior a seu próprio nível onto-lógico) para viver. jamais se poderá sabê-lo com certeza) [58]. voltado para o mais alto.O desejo na cultura qüinqüitária O homem estará deste modo experimentando um sentimento completamente novo de religiosidade. por isso desejo de poder. para se transformar em desejo apontando para “cima . a vida autêntica a que fora destinado. DESEJO DE MORTE OU DE PODER HIPOTÉTICO DESEJO QÜINQÜITÁRIO I/D/ 2 DESEJO DO REALMENTE TRANSCENDENTE 3 D/ 2 I/D/ 2 3 D/ 2 3 4 3 I/D 3 3 3 2 3 3 I/D 3 2 3 2 D 2 D 3 2 I 2 2 I 1 2 1 1 1 Pré-D 2 1 1 2 1 Pré-D 2 2 1 1 Pré-I O Pré-I 1 1 O Figura 4. deixando de ser desejo voltado para “baixo . para o que é de fato transcendente (não importa que este exista ou não. pelo mais elevado. pela vez primeira. .134 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO nas estaria se reorientando.13 . num sentido que até agora não se lhe tinha ainda revelado.

um retrospecto histórico judicioso. só por aí.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 135 5 A Modernidade – das origens à globalidade etnocida QUESTÃO VII: Se as Bruxas são capazes de Desviar o Intelecto dos Homens para o Amor ou para o Ódio. com maior probabilidade. 1484. Malleus maleficarum – O martelo das feiticeiras. Fazendo apenas um corte no tempo lá por volta do ano 1300 ou 1400 e comparando Europa Ocidental.. e pensamos que nunca o foi. mas sem que se necessitasse entrar em pormenores. conseguiríamos atinar em qual das três. tornaria mais ou menos óbvia a resposta a essa questão – uma nova cultura estaria. de um recurso retórico com propósitos meramente didáticos. De qualquer . dificilmente. Europa Oriental e Extremo Oriente. É óbvio que não é este aqui o caso. QUESTÃO XIV: A Monstruosidade dos Crimes de Bruxaria. iria emergir uma nova cultura. onde se mostra a Necessidade de trazer a lume a Verdade sobre Toda a Matéria. Algumas vezes fomos acusados de fazer previsões a posteriori. mas há ainda muitas outras gravíssimas QUESTÕES. valemo-nos apenas.. tanto aqui como alhures. naquele momento. Entretanto. à beira de eclodir no ocidente europeu.

tal como uma cultura trinitária homóloga deve tê-lo feito no extremo oriente. há como se fartar noutras passagens do presente trabalho. como deveras aconteceu. a dar exatos dois passos culturais atrás. O semitismo judaico. Uma metáfora meio mecânica. nos interstícios feudais. que ampliara sua presença no Ocidente com a invasão. e que a partir do ano 700 veio ser palco da invasão semítica islâmica. A força da cultura greco-romana não tinha ainda se apagado inteiramente da memória coletiva. resistindo. como boa parte dos muçulmanos. Isto se deveu ao fato da invasão islâmica ter ocorrido antes que a cultura cristã trinitária (Patrística) tivesse tido tempo suficiente para levar sua raízes a uma maior profundidade. numa fase de instabilidade e de mudanças aceleradas. Contudo. I). D). dali mesmo onde se instala.136 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO modo. o Ocidente foi violentamente puxado para trás e reagiu atirando-se com todo o ímpeto para a frente. De certa maneira isto representava uma tentativa de obrigá-la a um recuo. e a Europa teria simplesmente se volatilizado. quem quiser previsões futurológicas para valer. Fora o Islã bem sucedido. I/D) à lógica do Deus-Uno (lógico transcendental. com Constantino. desfazendo-se assim de uma diferença já conquistada (seu passado greco-romano. da lógica do Deus Uno-Trino (lógico dialético. pode se desenvolver e tempos depois estimular decididamente o . iria ingressar. meio psicológica. se tornado mera província peninsular asiática. pode nos ajudar na compreensão do que aconteceu: ainda não completamente estabilizado. como certa feita fez um famoso físico e cosmólogo brasileiro: “Ah!!! Mas nada disso que você diz sobre o que virá daqui para a frente está ainda empiricamente comprovado!” Não devemos esquecer que a Europa Ocidental fora cristianizada no início do século IV. e. Só não é justo que depois exclame. até simplória. não se retirou in totum.

depois. Quem ignora o que isto quer dizer? Este capítulo apresenta uma primeira parte onde se procura detalhar os antecedentes da Modernidade a partir justamente das invasões muçulmanas e uma segunda parte onde tratamos diretamente da geração da Modernidade e de suas duas grandes etapas históricas. são os alemães e parcialmente os latinos europeus. pelos alicerces – a caça às bruxas – e só depois. de outro. com o curso da luta e com o peso da língua e doutras tradições greco-romanas. ambas da família das lógicas identitárias). do ponto de vista apenas lógico. Num primeiro momento. Nesta segunda parte. o surgimento do sujeito liberal. acabou tomando um sentido extrafamíliar. assim. O confronto islâmico/europeu. a semítica (I). a indo-européia (D). Como é impossível o recuo cultural. Ao contrario dos anglo-saxões. marcadas por seu modo econômico produtivista e. . uma nova cultura de base científica eclode na Europa. consumista. O item final será dedicado ao dramático papel das culturas semíticas na passagem à cultura nova. a novidade será a de começar pelo óbvio.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 137 processo de superação do cristianismo trinitário. sim. e. calculadora do mundo (D/D). tratar da construção aparente: a ciência e o sujeito liberal a ela sujeitado. uma disputa entre famílias lógicas – de um lado. se afigurava a princípio uma disputa intrafamiliar (lógica da identidade I versus lógica dialética I/D. após. a única opção para a Europa era mesmo partir para a edificação de uma cultura cínica lógico-formal. isto é. dá-se a aristotelização da teologia cristã (Escolástica) e a constituição dos estados nacionais. reativamente. que mantêm ainda bem vivo este legado arcaico da Modernidade ao se quererem modernos (D/D) e herdeiros diretos e exclusivos dos gregos (D). Contudo. à frente os franceses. que no caso seria a volta à cultura greco-romana (D).

Entrementes. e o norte da África. como diz o nome. Foram estes que agindo desta forma impediram a consecução do propósito geopolítico dos poderosos atlantes – fechar o cerco ao Mediterrãneo. um mar em meio à grande vastidão de terras.1. No caso. a oeste e relativamente próxima das colunas de Hércules. vale a pena que relembremos rapidamente velha lição sobre os antecedentes da geopolítica. Antecedentes da Modernidade [1] . não importa sua potência.1) Como o Oceano Atlântico Norte praticamente não existia. do Estreito de Gibraltar ao Egito. pequenos povos. desde que internamente unidos e decididos pela liberdade. poderiam resistir-lhes. (Figura 5. o grande mar daquele mundo era mesmo o Mediterrâneo. Em tais circunstâncias. 5. não importa se realidade histórica ou surrealidade mítica! No Timeu de Platâo (2) lemos que havia. só alcançaria a onipotência (e de quebra a prepotência) conseguindo fazer daquele único grande mar interno um mare nostrum. até o Mar Tirreno (sudoeste da Itália). tão poderoso que além de seu próprio espaço insular dominava também a Europa. e assim o fizeram os gregos e seus vizinhos.138 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Antes de abordarmos a questão dos antecedentes da Modernidade. Na ilha formara-se um magnífico império. os atlantes não tinham porque fazer exceção. qualquer império. ainda maior do que toda a Ásia – a Atlântida – acompanhada de muitas outras pequenas ilhas que facilitavam a comunicação entre ela. uma ilha enorme. a Europa e a África.

Na medida em que teve elã e forças para assim atuar. Sua grande estratégia geopolítica repetiu.Estratégia do Império Atlante Como para os gregos os homens são exatamente o outro dos deuses. Bem. aquela mesma dos romanos: a . em todos estes acontecimentos ficaram eles apenas assistindo lá de cima. que há muito assumira foros intra-semíticos. não poderia ter tido outro desiderato. depois de tudo decidido.1 . acreditamos nós. senão. nem provocaram terremotos providenciais com enormes lajes caindo sobre os opressores. O Islã. logicamente tardio e radical [3]. não seria nada plausível esperar que eles se dispusessem a fazer alianças com criaturas tão pouco confiáveis. valendo-se apenas de sua unidade interna e de seu amor à liberdade. estava também ensejando um ajuste de contas. é que os deuses decidiram fazer afundar a Atlântida. Agora. de cabeça para baixo. vamos aos fatos. não importa quanto tenha sido seu grau de consciência ou intencionalidade.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 139 Figura 5. isto é. Os pequenos povos tiveram que se virar sozinhos. não fizeram mares ad hoc se abrirem e fecharem. e era tanto ansiado [4]. sem mover uma palha: não lançaram pestes. prometéicos. o de tentar implodir a cristandade. por isso. talvez para se divertirem.

Adentram a Europa por esta segunda porta e só são detidos ao sul da Alemanha. conforme o lado) a estratégia muçulmana de envolvimento do Mediterrâneo. por um e por outro lado. em 711.2) Os muçulmanos atravessam o Estreito de Gibraltar e logo ocupam toda a Península Ibérica destruindo. Frustava-se desta sorte (boa ou má. à esquerda e direita. conquanto que. é aí que entra. justamente. . Pela direita. a expectativa de provocar um retrocesso da História. por volta de 1500. o reino visigodo que lá se instalara. como bem sabem os sicilianos. tendo eles estado já bem próximo de realizá-la. que veio pôr fim ao Império Bizantino. a não ser que alguém se assuma. a famigerada figura de Abraão à Santa Clara [5]. Dizemos isto no sentido de que os romanos partiam para fazer e fechar o cerco a partir da Península Itálica e o Islão pretendeu fazê-lo chegando. seu grande êxito na referida estratégia só é alcançado com a tomada de Constantinopla (1453). sujeito de família (família lógica identitária/temporal ou lógica diferencial/espacial) Entrementes. Frustava-se também sua tentativa etnocida de implodir a cristandade. e com ela. Por não haver retrocessos. do lado esquerdo da Europa. não há vingança plena na História. algo de relevante já acontecera poucos anos antes da Batalha de Poitiers.140 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO transformação do imenso Mediterrâneo num mare nostrum. por cima. Tudo corria bem e célere pela esquerda até que foram derrotados a oeste da França por Carlos Martel na Batalha de Poitiers (732). (Figura 5. em tempos desencontrados. daquela mesma península. também por baixo.

Deste foco de .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 141 Estratégia romana Estratégia muçulmana Figura 5. cristão convicto. resiste à invasão muçulmana fazendo da caverna de Covadonga seu quartel-general. um príncipe visigodo. Dali parte para suas razias até que é perseguido e cercado em seu próprio refúgio. mas deixando incólumes Pelayo e os seus soldados.2 – Estratégias romana e islâmica Em 718. Os mouros chegam a invadir a caverna. Pelayo. atingindo fundo os invasores. mas um providencial tremor de terra faz desabar parte da montanha.

por seus bons serviços bélicos. recebendo. vital para a constituição da Europa moderna. a medicina e. o condado de Porto Cale. de cuja união nasce Don Afonso Henrique. com base em sua sólida unidade cultural. um mercado financeiro acoplado ao sistema periódico das feiras que se expandia à sombra da miríade de castelos feudais. Textos aristotélicos trazidos pelos árabes começam a ser traduzidos do grego para o latim. armas. por conseqüência. e este. Casa-se com uma filha do rei de Leão. É nesta condição de marginalidade que pequenas populações judaicas se preservam e desenvolvem atividades que lhes serão típicas. que se lhe torna possível promover e acelerar a formação – pela força de dinheiro. Os mouros são por fim expulsos do ocidente europeu em 1492 numa longuíssima guerra. se comparada com a da cultura de mesmo nível lógico no Oriente. a cartografia.142 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO resistência é que parte o processo da reconquista da Península Ibérica. ditando a derrocada do cristianismo lógico-trinitário (I/D). Henrique da Borgonha vem se aliar ao Reino de Leão na luta contra os sarracenos. em boa parte. por eruditos judeus. mas boa parte dos judeus que os acompanhavam ficaram nos interstícios extra-feudais [6]. ameaças e núpcias –. dos estados nacionais europeus modernos. É tal o desenvolvimento destas feiras e. como o artesanato de calçados. do mercado financeiro associado. já a partir do ano . Pelayo torna-se rei de Astúrias. pode-se mesmo dizer que de vida curta. sobretudo. nosso imenso Portugal. unindo-se posteriormente a Aragão e Castela. durando mais do que 700 anos. vão juntos formar a Espanha moderna. No curso destas lutas. futuro rei do Porto Cale independente. Isto irá liquidar com o poder absoluto político/cultural da Santa Sé. Ainda no ano de 718. reino que se expande vindo depois a chamar-se Reino de Leão. conseguem estruturar.

o que permitirá melhor compreender seu caráter de “genérico” (sexuado) e o porquê da existência dos dois modos sucessivos de suas correlatas formações econômicas – o capitalismo produtivista e o capitalismo pleno ou consumista. não se deu em razão de terem as forças produtivas alcançado um certo patamar de eficácia. vale dizer. com um pouco de argúcia cultural e grandes fundos financeiros.2.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 143 1000. sujeito liberal e caça às bruxas O surgimento do processo de acumulação. 5. Se não fora possível pela força fazer implodir (voltar ao Deus-Uno) o cristianismo trinitário.2. saberá aqui mesmo logo adiante. do ponto de vista econômico. A constituição lógica da Modernidade – verso e reverso .Ciência. daí. ganhos de eficiência no aparelho produtivo: este meio foi a técnica sistema- 5. se não. tornara-se possível. um dos pilares do modo de produção capitalista que. do Deus Mercado). de forma regular e persistente. fazer eclodir na Europa a Modernidade. o epílogo está pronto para quem tiver coragem de decifrá-lo! Nestas considerações preparatórias vamos expor nossa visão do processo de constituição lógica da Modernidade. é a intervenção semítica que faz a Europa ocidental indo-européia passar tão rapidamente da lógica da simples diferença D (do politeísmo greco-romano) à lógica dialética trinitária I/D (do Deus Uno-Trino) e. Em meados do século XIII. mas sim por ter sido encontrado um meio de injetar. Em suma. caracteriza a Modernidade. à lógica formal ou científica D/D (do Deus desempregado. O que veio a seguir já se sabe [7]. aproveitando agora a direção do vento – direção em que irreversivelmente ao homem desvelase sua própria lógica –. Santo Alberto Magno e São Tomás de Aquino procedem à irreversível racionalização ou aristotelização da teologia cristã.1.

144 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ticamente alimentada e aprimorada pela ciência. Sabemos que o capital é o “excedente” [9] apropriado – no capitalismo. Entretanto. Ora. retorna ao sistema produtivo na forma de mais instalações e equipamentos. degrau após degrau. quando isso era ensaiado. em boa medida. de maneira privada e necessariamente autoritária. e tal como Sísifo. O argumento marxista que atribui o advento do capitalismo ao fato de se ter atingido um determinado patamar de produtividade se nos afigura um ótimo exemplo da aplicação da “lei de transformação da quantidade em qualidade”. Para que tal não aconteça existe uma única solução: que – des- . o fato é que tudo isso acaba sendo integralmente devolvido (a preço de custo) às massas consumidoras na forma de depreciação. isto é. a vê inexoravelmente despencar escada abaixo. novas competências técnicas adquiridas. em períodos subseqüentes. como é óbvio. Muitas vezes. mas como um acontecimento exógeno/contingente à esfera propriamente econômica. conseguir de novo se apropriar dos excedentes. só renunciam a consumo quando estão de regime!) – que. só pode ser criado às expensas do consumidor (capitalistas. hoje. se mantidas estas condições gerais. um péssimo exemplo de explicação [8]. isto é. terá que fazê-lo numa proporção sempre superior àquela do período precedente [10]. acréscimo de estoques de matéria-prima e de produtos acabados. Noções muito elementares de contabilidade de custos bastam para compreender isto e também que um tal processo só pode ter continuidade se o empresário. logo. ainda que em parcelas escalonadamente diferidas – o empresário eleva sua pedra. acabará por matar à míngua sua galinha dos ovos de ouro. Acrescentaríamos que melhoria técnica sempre houve. porque o não consumido. E para que possa se dizer minimamente esperto. como nas corporações medievais. era drasticamente reprimido por severos e até cruéis regulamentos. “seus” trabalhadores. o “excedente”.

Em termos bem diretos: Capitalismo é o modo de produção próprio à Modernidade. bastante potente. em princípio.3. lógica do terceiro excluído ou da dupla diferença [11]. uma lógica: no caso do saber científico a lógica clássica. é preciso que. Por isso. Não é difícil compreender que por trás do aumento de produtividade esteja. necessariamente. bem se sabe. nenhum sistema. tanto quanto. assome e de pronto se dissolva um sujeito transcendental. entretanto. Correlato a um saber há obrigatoriamente um modo de pensar. Assim. a ciência. . e entre um e outra. como esforçamo-nos por ilustrar na figura 5. a melhoria das técnicas e. entre um sistema e outro. tem como característica essencial o aprisionamento do que se considere digno de ser pensado num “universo” por tácita convenção pré-determinado. por trás desta. esgotável/calculável. prático ou teórico. por conseqüência. poderia evoluir para acompanhar as vicissitudes que sempre o rio da história [12] nos traz.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 145 contada a pequena taxa de crescimento da população ativa – a produtividade do trabalho social médio cresça de modo continuado e compensatório relativamente ao acréscimo da taxa de exploração dos trabalhadores (mais-valia. para que uma cultura científica possa sobreviver. a matemática e uma parafernália de instrumentos de medida capazes de alimentá-la. que tem como seu núcleo exclusivo e irredutível a ciência e sua lógica calculadora do mundo. diriam os marxistas). ano após ano. no curso do tempo. rolar sua pedra sempre um pouquinho mais para o alto. intervalar e por isso sujeitado ao processo. A lógica clássica. Voltando ao mito: o empresário capitalista para sobreviver precisará. vale dizer. para recompor um novo sistema em substituição ao anterior. concreto ou simbólico.

não se sustentaria sem sólidas fundações. então.O sujeito intervalar como condição de sobrevivência do ser-sistêmico Costuma-se atribuir a Abelardo a iniciativa de contrapor a racionalidade (moderna) ao “argumento” de autoridade de tanto sabor e prestígio na cultura cristã medieval. a potência mediadora do clero burocrático – interpondo-se entre o Céu e os demais entes terrenos – . este sujeito é livre em relação aos sistemas (ou à ciência). que suprime. Como mostra a figura 1. se consolidar política/espetacularmente com a revolução inglesa do começo do século XVII. (Ver figura 5.3 . a face aparente risonha ou afirmativa da Modernidade. contudo. tornando imperiosa a questão: se no verso estavam a ciência e seu sujeito li- . ou de modo significativo minimiza. ele está inapelavelmente acorrentado ao processo geral de instituição da racionalidade: a rigor é um sujeito sujeitado à nova cientificidade que vinha assumir o governo do mundo. a seguir. mas de modo algum um autêntico self made man [13]. o sujeito liberal intervalar pôde tomar dimensão social para.146 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO SUJEITO LIBERAL INTERVALAR I SISTEMA SISTEMA RIO HIPERDIALÉTICO Figura 5. Ciência e sujeito liberal consciente – sujeito fordiano para os amantes do cinema [14] – passam a constituir.4) Todo este edifício. Com o movimento protestante.

A face aparente ou afirmativa da Modernidade Todos nós temos alguma informação acerca do longo processo (instrutivo e punitivo) de caça às bruxas. que é neste mesmo período que se consolida a maioria dos Estados europeus modernos. Se era verdade que no verso tinha-se a instituição da ciência e seu sujeito liberal intervalar.000 mulheres teriam sido torturadas e . sobretudo. aproximadamente entre os acmes de Copérnico e Galileu. E ainda. no entanto o consideramos um episódio histórico anômalo.4 .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 147 beral intervalar. o que constituiria o reverso de tamanha magnificência? E. que ele corre em paralelo com a institucionalização do pensamento científico. entretanto. simplesmente esquecemos que aqueles episódios dramaticamente repressivos ocorriam justamente após a racionalização (aristotelização) da teologia cristã programada por Santo Alberto Magno e tão bem executada por São Tomás de Aquino. Neste processo de caça às bruxas. subterrâneo. no reverso. capítulo derradeiro de uma Idade de Trevas”. adiantava-se o penoso trabalho das fundações: o resfriamento a ferros e fogo da feminilidade. Ademais. Deixamos de notar. sintoma desesperado de uma cultura que desmorona. mais do que 100. o mais intrigante: como poderia toda esta azáfama fundacional acontecer e ter passado até hoje completamente despercebida? INSTITUCIONALIZAÇÃO DO SUJEITO LIBERAL INSTITUCIONALIZAÇÃO DA CIÊNCIA Figura 5.

5. a melhor forma de apequenar o desejo no homem era sufocar o desejo na mulher.5 . Para que os homens se concentrassem no cálculo de todas as coisas do mundo nada de mais funcional poderia haver. do que “esfriar” as mulheres – e isso esteve sempre bem posto nos propósitos e discurso protestantes. se recalcasse a feminilidade – de um lado. Dava-se. inconsciente/lógica da diferença. calvinistas. particularmente. Essas duas . na circunstância. ciência/lógica clássica.148 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mortas [15]. E o processo inquisitorial de caça às bruxas veio exatamente para concretizá-lo. Como o desejo é desejo de desejo. no jargão lacaniano [16]).Processo de estruturação lógico.5) INSTITUCIONALIZAÇÃO DO SUJEITO LIBERAL INSTITUCIONALIZAÇÃO DA CIÊNCIA SUPERFICIAL PROFUNDO RECALQUE DA FEMINILIDADE CAÇA ÀS BRUXAS Figura 5.hierárquica da Modernidade A rigor. nada mais nada menos.Do capitalismo produtivista ao capitalismo pleno. consumista e etnocida Na essência do capitalismo está pois a negação do desejo inconsciente e da história.2. desejo de reconhecimento. lógica dialética e lógica da diferença (ou igualmente lógica do significante. do outro. isto fora de certo modo inevitável: para ressaltar a masculinidade e suas lógicas – de um lado. do outro.2 . história/lógica dialética. que o recalque da história (sentido/espírito) e do desejo inconsciente e de suas lógicas associadas – respectivamente. o sujeito liberal/lógica transcendental – era preciso que. (Ver figura 5. concomitantemente.

a rigor. Propunham uma solução. (Ver figura 5. conquanto que antes censurada. Num primeiro momento o capitalismo faz retornar a história. Suas características óbvias e decantadas – a racionalidade objetiva e o espírito individual de iniciativa – não seriam nega- . contudo. sim. já degenerada em história calculada. desnaturada. mero processo de acumulação de capital.6) SUJEITO LIBERAL HISTÓRIA DEGENERADA EM ACUMULAÇÃO DE CAPITAL CIÊNCIA HISTÓRIA Figura 5.6 – A volta da história como progresso Basta observarmos o que é hoje uma empresa: ela é norteada prioritariamente pelo cálculo da taxa de retorno de capital. Que se busca com isso? Tão apenas calcular o futuro. recalcadas. mas pugnando pela substituição “corretiva” do sujeito liberal pelo sujeito coletivo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 149 posições lógicas femininas. no entretanto. representado este por um poder simbólico/absoluto. sempre acabam voltando. propondo-se ela mesma como exemplar. não se apagam ou desaparecem: de um modo ou de outro. O maior mérito do marxismo está na sua acuidade para explicitar. pela metade. não conseguiam fazer uma crítica objetiva mais profunda da nova realidade científica/econômica que surgia sob seus olhos. O “mal-estar” provocado pelo capitalismo produtivista foi a razão mesma do surgimento da ordem dos jesuítas. os determinantes profundos do modo de produção próprio à Modernidade. Foram eles os primeiros a aceitar a ciência. reduzi-lo a progresso [17].

assim.7) Agora se pode ver com maior nitidez as razões da derrelição das propostas comunistas e socialistas.150 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO das. E é isso que vemos hoje por todo canto. experimenta um certo refreamento com a Grande Depressão. tinha uma causa oculta e imanente – o processo de acumulação de capital. Como resposta às pressões revolucionárias e reformistas que se avolumavam por todo o século XIX e mais se aguçam nos primórdios do século XX. e que nela prevaleceu. mas. o capitalismo viu-se compelido a lançar mão de sua maior reserva estratégica – o desejo recalcado das massas [18]. desde seus primórdios ao início do século XX. O desejo inconsciente teria sido afinal domesticado e integrado à economia. Contudo. o modo de produção próprio à Modernidade. mas primordialmente da capacidade de manipulação do imaginário das grandes massas pelas “técnicas” de marketing. pronto e acabado. agora exaurido em suas reservas estratégicas (afora um bilhão de chineses trabalhando 10 ou mais horas por dia a 50 dólares por mês. Configurava-se. não vem apenas do ímpeto do processo de acumulação. . a Guerra Fria é a oportunidade para a sua vitória definitiva. O fascismo. uma reação premonitória desesperada ao domínio iminente do capitalismo de marketing. o mais importante para a compreensão de tudo aquilo que surgia. um presente inesperado que lhe fez o PCC). O dinamismo da economia atual não vem mais da produção. fez às vezes de grande prova de passagem. como vimos. tomou fôlego no início do novo século com a produção automobilística norte-americana. finalmente. (Ver figura 5. Somos de opinião que o capitalismo de marketing ou consumista já se anunciava teoricamente com os marginalistas austríacos [19] três décadas antes do fim do século XIX. no entanto. Podemos denominar capitalismo produtivista ou de simples acumulação a este primeiro modo de produção vinculado à Modernidade.

o que se fez através do processo de caça às bruxas. pré-condição formal da instituição da proibição do incesto/obrigatoriedade da exogamia. havendo passado por uma profunda metamorfose.. ademais. uma empreitada cultural concreta e metaforicamente sexuada: ela estabelece a dominação socio-lógica do masculino sobre o feminino.7 . Como ficou demonstrado. a Modernidade foi e continua a ser. pelo esfriamento à força da desmesurada” sexualidade feminina. não são fenômenos assim tão .Do capitalismo produtivista ao capitalismo pleno ou consumista É boa a hora para procedermos a um resumo do que se disse até aqui. que segundo Max Weber constituiriam a essência da Modernidade. CAPITALISMO PRODUTIVISTA SUJEITO LIBERAL HISTÓRIA DEGENERADA EM ACUMULAÇÃO DE CAPITAL CAPITALISMO CONSUMISTA DESEJO DOMESTICADO PELO MARKETING CIÊNCIA SUJEITO LIBERAL CIÊNCIA HISTÓRIA DEGENERADA EM ACUMULAÇÃO DE CAPITAL HISTÓRIA DESEJO HISTÓRIA Figura 5. o que transformava as mulheres em objeto paradigmático da troca. mas uma crítica pela metade. Vimos que a Modernidade começa. justamente quando os homens (cultura) impuseram em seus próprios bandos a diferença clânica. ou seja.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 151 A esquerda não fazia uma crítica equivocada do capitalismo. pelas fundações e pela construção e alocação de seus porões. Aliás. era o próprio Marx que nos advertia que nenhuma formação social poderia ser de fato derrubada antes de ver esgotadas todas as suas potencialidades realizadoras. como todo edifício. A racionalidade generalizada e o correlato desencantamento do mundo. só conseguindo reagir com retardo – seu inimigo tornara-se já outro. recapitulando por isso o “mito” de que a sociedade se teria constituído pelo “rebaixamento” do feminino (natureza).. no âmago.

de um lado. intervalar e sujeitado da ciência [20].152 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO gerais e muito menos tão profundos como ele acreditava. de outro lado. desde que antes se tivesse bem trancafiada em seus obscuros porões a “irracionalidade feminina. transmudado em demanda agregada – como gostam de chamá-lo os economistas –. como todo recalcado. apenas na superfície. de maneira irretorquível.8) O feminino. (Ver figura 5. SABER DO MASCULINO ASSUMIDO SABER DO FEMININO OU SABER RECALCADO SABER DO CONSCIENTE CIÊNCIA SABER DO INCONSCIENTE FREUD SABER DA HISTÓRIA MARXISMO Figura 5. O protestantismo é sua instituição difusa e a revolução liberal do século XVII na Inglaterra sua consolidação político/espetacular. Racionalidade sim. retorna para se integrar à funcionalidade da formação cultural: primeiramente. como desejo domesticado pelo marketing. Fica assim estabelecido. depois. mas não supresso. o caráter estruturalmente sexuado da Modernidade: segundo a hierarquia. transmudada em progresso ou processo de acumulação de capital. conforme ilustra a figura 5. O advento da ciência e da organização burocrático/racional foi apenas o primeiro passo na afirmação da lógica do masculino que estava já determinada a um passo complementar – a constituição do sujeito liberal como sujeito apropriado.Estrutura lógico-sexuada da Modernidade com seus respectivos saberes Quando Marx denuncia o processo de acumulação de capital como o verdadeiro motor do capitalis- . como história censurada. o masculino (ciência e consciência) em cima e o feminino (história e inconsciente) embaixo.8 .7 à direita.

diríamos. Em suma.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 153 mo (da primeira fase do modo de produção próprio à Modernidade. toma como bandeira revolucionária a edificação do socialismo científico. Marx rejeita coerentemente as filosofias da consciência. Depois de tantas e profundas críticas. A ciência ficava mesmo onde estava. com bem maior propriedade). também. Na verdade. individualista. Em termos filosóficos. rebaixado). vale dizer. e colocar em seu lugar o ser coletivo ou corporativo. Chama sua concepção teórica materialismo histórico (em contraposição a um pressuposto idealismo histórico de seu antigo mestre Hegel). à política propriamente dita. é aquele capaz e apropriado ao desvelamento do ser-histórico. alia-se à ciência. a face reversa ou o recalcado em que se apoiava o modo de produção moderno. tenta também inverter a direção de subordinação em que se encontrava o sujeito liberal. depois. o sujeito liberal. assumindo seu . em terrorismo de estado. entretanto. sobejamente demonstrado por Hegel. ainda que pela metade. reivindica para seu pensamento o caráter genérico da cientificidade e. propõe-se tão apenas desalojar o sujeito já sujeitado da ciência. Que seria então da consciência e da liberdade? Recusado o cogito. embora dele melhor fosse nem falar. quando passa da teoria à práxis. o ser transparente a si próprio. em contraposição ao socialismo utópico ou idealista de seus precursores franceses. e que destarte degenera [21]. o que traduz uma impossibilidade lógica. para nossa perplexidade. pode ele descobrir. era desalojado (em verdade. Assim. Paradoxalmente. que facilmente se degrada em oportunismo. apenas o sujeito liberal. só podia fazê-lo valendo-se do pensar dialético que. ele se vê compelido a pôr em seu lugar o ser transparente à História: a liberdade passa a ser tão apenas consciência da ou transparência à necessidade histórica. onde justamente residiria o núcleo duro do capitalismo. em especial Descartes e Kant. o inconsciente.

Num primeiro movimento. Era o advento do capitalismo de marketing ou consumista. Ela surge no momento histórico em que o capitalismo atinge sua plenitude lógico-estrutural com a mobilização de sua grande reserva estratégica – o inconsciente das grandes massas. se propõe apenas à permuta do sujeito da ciência. de uma verdadeira revolução (cultural) alicerçada na crítica da cientificidade. à construção do cientificismo perfeito. ao invés de uma real subversão da Modernidade. a psicanálise vem precisamente completar o processo de desvelamento do recalcado constitutivo da Modernidade – o inconsciente. ao desvelar de um lado. objetivo (material)/ subjetivo (ideal). O marxismo teve de fato o grande mérito de dar a partida ao processo de desvelamento dos porões ou do reverso da Modernidade. Contudo. foi o fato de que.9) É quase inacreditável que a psicanálise acabasse seguindo rumo perfeitamente simétrico especular ao marxismo. ainda mais grave. ou seja. No fundo. viabilizada pelo desenvolvimento dos meios de comunicação de massa e das “técnicas” de propaganda. mas na sua proposta de ação concreta. (Ver figura 5. a Modernidade per- . o que propunha o marxismo não era mais que substituir a crucial problemática masculino/feminino pela já gasta problemática epistemológica (marca característica do período moderno da filosofia) de cabeça para baixo.154 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO lugar o sujeito coletivo. Tudo isto acontecia como um quase natural desdobramento da domesticação. Foi deste modo que um autêntico ímpeto revolucionário transmudou-se numa força culturalmente reacionária. o capitalismo sem jaça. um a um. do vigor desejante dos imaginários. Também com isso. por atacado. de outro vinha precisamente para encobrir o caráter sexuado da Modernidade.

O imperialismo. Tratando-se.9 . a cura. e põe a nu o processo pelo qual se dava a estruturação do psiquismo – segunda tópica: id. o indivíduo como ser de desejo. não iria propor como solução uma revolução social. se via então transformado em máquina exterminadora das demais culturas [23]. um a um. a Modernidade trocava sua condição de feroz opressora. dos indivíduos. de vetor de universalização de uma cultura [22]. de uma problemática do ser-subjetivo. O grande problema é que o próprio Freud não abria mão de reivindicar o estatuto de ciência para a psicanálise (ao mesmo tempo que remoía e resmungava.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 155 dia o caráter desbravador próprio de toda cultura e assumia o caráter civilizatório/conservador. Este último era a presença legal/ repressora da civilização (cultura) internalizada no próprio psiquismo. mas. no caso. pela de impiedosa etnocida. com propriedade. como o marxismo. hiperdimensionando a incompreensão da .A sub-reptícia dissolução do caráter sexuado da Modernidade Freud desvela o inconsciente. ou seja. DES-SEXUALIZAÇÃO MARXISTA MARXISMO (SOCIALISMO CIENTÍFICO) CIÊNCIA SABER OBJETIVO OU MATERIALISTA SABER SUBJETIVO OU IDEALISTA ESTRUTURA SEXUADA DA MODERNIDADE PSICANÁLISE FILOSOFIA TRANSCENDENTAL SABER DO MASCULINO ASSUMIDO SABER DO FEMININO OU SABER RECALCADO SABER DO CONSCIENTE CIÊNCIA SABER DO INCONSCIENTE FREUD SABER DA HISTÓRIA MARXISMO DES-SEXUALIZAÇÃO FREUDIANA PSICANÁLISE (CIENTÍFICA) CIÊNCIA SABER DA DIFERENÇA SABER DA IDENTIDADE FILOSOFIA TRANSCENDENTAL FILOSOFIA DIALÉTICA Figura 5. ego e superego. até então um modo de dominação econômica.

mas às . ao invés de se estruturar lógica e originariamente como masculino/feminino. como já fizera Marx. Freud. de outro lado. o cartesianismo lógico-transcendental: Je pense où je ne suis pas. Visa.156 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO comunidade científica). como fazia o marxismo em relação à problemática epistemológica) e ao mesmo tempo trágico. dilui-se. Chega mesmo a cortar pontes que se sabe já antes transitadas. donc je suis où je ne pense pas [24] e. se diria melhor) o sujeito liberal ou cartesiano e pôr o sujeito inconsciente em seu lugar. mas sem pequenas fobias a leituras filosóficas. Velada por uma problemática ontológica. Lacan. (Ver uma vez mais a figura 5. agora o fazia como diferença/ identidade. o hegelianismo lógico-dialético: A Aufhebung é um desses bonitos sonhos da filosofia. [25] Em suma. uma segunda vez. característico de seus primórdios pré-socráticos: o pensar do mesmo ou do um (lógica da identidade) contrapondo-se à lógica do outro ou do múltiplo (lógica da diferença). especulativas ou materialistas (especialmente Hegel e Marx). A problemática humana assume assim um caráter ontológico (também de cabeça para baixo. sexualizava o indivíduo desde criancinha. na verdade. sem descuidar de simultaneamente declarar guerra à filosofia em duas frentes – ocidental e oriental – às filosofias transcendentais ou da consciência (especialmente Descartes e Kant) e às filosofias dialéticas. a Modernidade. o caráter estruturalmente sexuado da Modernidade.9) O grande paradoxo: a psicanálise. Com isso. um declarado radical freudiano. se alia à ciência contra a filosofia a fim de desalojar (rebaixar. é extremamente incisivo em seus ataques. de um lado.

não há como negar. crente no princípio da conservação da “energia sexual”. o advento de uma cultura nova. recuperando sua integridade [27]).. a verdade parcial sim. perdia. como já sabemos. Aqui. desta sorte. seu elã subversivo para se tornar uma dentre outras forças reacionárias.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 157 expensas da sexualidade sócio-cultural.. mas uma insubordinação e. mas articulada à verdade total e parcial. Não haverá uma inversão de mando. velava o real caráter repressivo da Modernidade. [26] Deste modo. a necessidade . as mulheres logo se opõem à civilização e demonstram sua influência retardante e coibidora . não como apenas não-todo. como se depreende do próprio texto freudiano: Nem todas as civilizações vão igualmente longe nisso. Seguindo o próprio Freud. A liberação do feminino será apenas meio. no caso. seu fim estará além de si mesma: ela significará.? A nosso juízo. e a estrutura econômica da sociedade também influencia a quantidade de liberdade sexual remanescente. a civilização está obedecendo às leis da necessidade econômica. a real liberação da humanidade.. masculinas e femininas. posto que sua superação só se poderá dar pela sublevação do recalcado.. visto que uma grande quantidade de energia psíquica que ela utiliza para seus próprios fins tem que ser retirada da sexualidade. nem sempre alcançando a exata medida. como sexualizar algo sem retirar (ou trazer de volta) a necessária energia de algum outro lugar. suportada pela síntese simultânea de todas as lógicas de base. É da maior importância que fique bem à mostra o caráter sexuado da Modernidade. Não foram raros os que chegaram a sentir. do feminino (inteiro e não despedaçado. a re-sexualização do ser-social é uma condição necessária para a superação da Modernidade. de repente. sim. Além do mais.

agora elevada ao quadrado. não perde. isto é. porque ele sabe bem criticar a ciência. concordamos que de maneira até bem surpreendente. Afirmamos acima a “perfeição” da oposição Marx/Freud. de suas alunas peladonas). desejaríamos deixar uma palavra acerca da simetria especular marxismo/psicanálise que vem aqui deslocar. com o que se vê inapelavelmente condenado ao imobilismo (ante o desfile desafiador. preso entre instrumentos. pois. se mostrou a Escola de Frankfurt. mas sem chegar entretanto à completa compreensão do papel da ciência na formação cultural moderna. Antes de concluir este item. mas pretendendo fazê-lo justamente sob a égide do que era seu comum equívoco – a devoção à ciência. aquela com que estamos há muito acostumados – marxismo/fascismo. se o marxismo. em especial. de modo equivalente. e o uso torto maldoso dos meios de comunicação de massa. de articular Marx e Freud numa só compreensão. como também do sujeito liberal. instalações e grades. por essência). levada ao delírio –.158 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO de se restaurar a integridade subversiva do ser-feminino. quanto ao valor da ciência. a psicanálise. mas não consegue vislumbrar qualquer possibilidade de transcender à sua própria cultura (científica. ao optar pelo sujeito coletivo. é um crítico acerbo da ciência e da técnica. Ora. esquerda/direita. quem seja o verdadeiro inimigo. seu vizinho. temporária ou eternamente?) ao fascismo. Heidegger. de vista. acabou enquadrado. em pleno estrado magistral. o que o fez associar-se (pela metade. Bem menos equivocada. A posição de Adorno é muito instrutiva. juízo de valor este que nos obriga a mostrar onde estaria escondida a “imperfeição” da oposição esquerda/direita. mas prefere descarregar seu ressentimento contra o marxismo. propõe como solução a revolução social. Um dos primeiros foi Reich. optando pelo sujeito inconscien- . ou. coerentemente. este sim.

. Antecedentes semíticos do fim da Modernidade . Como a cultura nova é de natureza hiperdialética (I/D/D). Observando bem. o caleidoscópico mundo cultural muçulmano (I).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 159 te. pertencente à família lógicoidentitária. Ela soa deveras paradoxal (como um dia soou a expressão inversa socialismo num só país). pois isto já está feito com bastante detalhes em diferentes oportunidades [28]. e. a família das culturas lógico-identitárias (Is) (exclusive o Extremo Oriente. portanto. entretanto.3. propor como solução uma revolução social. mas perderia automaticamente tal caráter tão logo nos dispuséssemos a aceitar a existência real e não apenas retórica de um inconsciente coletivo (como bem sabemos fizeram os junguianos) . Nossa tarefa. a auto-denominação nacional socialismo por si só diz tudo. à parte e tardio. terá coerentemente que propor como solução a cura. O título do presente item. se vê bastante simplificada quando constatamos que precisaremos nos ocupar apenas 5. Vê-se que. Queremos aqui focalizar apenas o papel que. Daí. desconsiderada apenas a cultura paleolítica auroreal (pré-I). Não vamos tratar propriamente dos estertores da Modernidade. somos levados a imaginar que será intensamente dramática a situação e o comportamento dessas culturas nos momentos que irão anteceder à efetiva superação da Modernidade. um a um. pelo menos durante sua etapa fundadora) se confunde com a classe das culturas semíticas. pronto se depreende que a anomalia do fascismo ou “nacional socialismo está exatamente no fato de ele optar pelo sujeito inconsciente (romântico ou telúrico) e. nos acontecimentos que estariam por vir.. terão as formações culturais semíticas – as culturas nodais judaica (originária) (I) e cristã patrística trinitária (I/D) e. diz bem o que pretendemos. embora soando um tanto estranho. ao mesmo tempo.

é que ela mesma acabou se transformando. vimos. O grande drama que vive hoje a família semítica ou identitária – e que dentro em breve terá que vivê-lo ainda mais intensamente –. mas não à cadeia de sistemas que se sucedem. de per si. foi precisamente a característica letal da razão formal que deu ensejo a que uma determinada formação cultural arcaica viesse a ela se acoplar de modo visceral. por sua localização. vive uma ‘justificada’ ilusão de liberdade. a qual. distribuição topológica. já fragilizada. para destarte provê-la de uma prótese vivificante [32]. A variante cultural semítica que assumiu este papel foi justamente. Afirmamos isto num duplo e grave sentido: a) Sob um ângulo.160 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO com as culturas judaica e muçulmana. melhor adaptado às circunstâncias históricas sempre cambiantes. com a passagem da fase produtivista à fase consumista. pois a cultura cristã (patrística ou trinitária). na sua maior inimiga. escolha e sabedoria estratégica. é a presença ativa da cultura judaica que viabiliza a Modernidade. Ao contribuir decisivamente para a realização da cadeia que o aprisiona. a cultura muçulmana. por motivos que esperamos ter deixado suficientemente claros nos dois itens anteriores. Já estamos bem cientes de que a modernidade científica (D/D) [30] não poderia ter sobrevivido e chegado à sua pujança atual sem a instituição de um sujeito (I) intervalar à racionalidade cristalizada. nesta condição. Ora. sente fundo esta real ameaça e reage desesperada. praticamente hoje se extinguiu [29]. por via destas peripécias. capaz de sempre substituir um sistema que se torna obsoleto por um novo. a cultura judaica da diáspora européia ocidental. salta à vista. tornou-se compulsivamente etnocida. seu papel é francamente intervalar e tributário [31]. culturas . Ele é de fato um sujeito livre em relação a determinado sistema.

os adoradores do bezerro de ouro. de um lado. o trinitarismo universalista. intensificando-se a crise da Modernidade. o Holocausto venha a se constituir no fulcro . constatamos um racha entre. Moisés e seus partidários. Se isto permitiu. como a cultura neolítica negra. o nacionalismo ritualístico formal fariseu. também no advento do cristianismo (I/D) vimos um racha entre. a justa avaliação e análise do “histórico familiar” levam-nos a conjeturar que o mais provável é que o colapso da Modernidade seja precedido de uma cisão profunda no seio do judaísmo. irá renegar a postura prómodernidade de quase um milênio (postura que se enrijece depois da expulsão da Espanha). e de outro.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 161 logicamente mais primitivas. uma parte da comunidade. nos contemple com o mais belo de seus frutos: a cultura nova hiperdialética qüinqüitária. á sua própria consumação e.. através de sua formação cínica anglo-saxônica). Seriam muitos os caminhos logicamente concebíveis para se chegar à cultura nova. Deveras.. impedindo que a própria família cultural lógico-identitária se desdobre em direção ao mais elevado. por outro lado. fez. e do outro. quebrar a hegemonia asfixiante do trinitarismo cristão medieval. como a ameríndia do norte. Porém. b) Sob outro ângulo. por sua dimensão real e pelo investimento simbólico que vem acumulando. talvez a maior. é ela que dá sustentação à Modernidade. é razoável esperar que. Com estes precedente históricos. É também muito provável que. de um lado. especialmente na diáspora da América e Europa Ocidental. no advento do judaísmo (I). e outras que não se cuidarem. cujo significado não teria sido outro senão a servidão voluntária vis-à-vis o racionalismo cientificista (D/D). foram já exterminadas ou vão inexoravelmente em tal direção. desta sorte. de um lado. a liderança cultural do mundo guinar em favor da família lógico-diferencial (ora dominante.

tal como fora antes dado . só que em estado de falta. Ele terá seu sentido reciclado. O historicismo tradicional tornavase assim o degrau zero da dialética. Além de vivenciar a eternidade no próprio curso da história.162 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO emblemático desta reviravolta. como antigamente. De certo modo. independente do tamanho de seus pecados e infidelidades. onde o outro é ainda o mesmo. o povo judeu tinha a opção de. doravante. configurando uma Terceira Aliança. Esta parte da comunidade irá então se juntar a outras forças culturais emergentes. Israel passava a contar com verdadeiros inimigos externos. dar oportunidade a que seu historicismo unário se bifurcasse. ao ajudar a empurrar o cristianismo patrístico trinitário (I/D) em direção à escolástica lógico-formal (D/D). Em contraposição se podia agora assumir uma historicidade plenamente dialética. O papel de maior ou menor proeminência da comunidade judaica reconvertida em marcha para a cultura nova dependerá menos dela do que de quanto e quando outras forças sócio-culturais resistentes à Modernidade tenham conseguido tomar consciência de sua destinação possível e se arregimentar de modo eficaz para a sua consecução. passando a ser considerado menos um crime que um castigo ordenado pelo próprio Deus para punir uma grave falta no cumprimento dos sagrados deveres da Aliança (precisamente a adesão subordinada à Modernidade científica). já agora impossível de ser violada. esta tensão interna já existe há muito entre os judeus e está precisa e profundamente gravada no conflito entre o historicismo unário tradicional (I) e o historicismo trinitário moderno (I/D) [33]. o judaísmo pode ocupar o lugar que assim vagava . ficando todo o vir a ser determinado integralmente pela polaridade obediência/rebeldia. onde vinha operar o deveras outro. Na realidade. vivenciá-la também como o caminhar para o eterno. isto é.

Yerushalmi. O Holocausto não teria sido suficiente. [34] (negritos nossos) A reentrada dos judeus na História é um fato. é o fantasma que tanto inquieta e suscita ações preventivas. não pela bigorna do historiador. mas pelo cadinho do romancista. alternativamente interpretável como grave ofensa à Lei. [35] . ainda resiste. por conseqüência. que no fundo não visam outra coisa senão impedir que se realize a vontade soberana de seu próprio Deus. a comunidade judaica vive uma vida bifurcada. mas não tenho dúvidas de que sua imagem esteja sendo forjada. Como resultado da emancipação da diáspora e da soberania nacional em Israel. e ainda assim sua percepção de como chegaram ali e de onde estão é freqüentemente mais mítica do que real. portanto.. prestes a atrair sobre a comunidade a justa ira divina. podemos estimar sua profundidade pelo peso que a cultura judaica teve e ainda tem na construção do mercado financeiro internacional e na constituição do sujeito da ciência.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 163 aos cristãos originários. em seu livro Zakhor. apesar de tudo. retrata bem esta forte tensão interna no judaísmo de nosso tempo: Atualmente. que. Sob a ótica desta última. o sucesso mundano seria. A vida bifurcada reflete o conflito entre estes fatos assumidos e o compromisso com a tradicional concepção unária da história. O mesmo autor acrescenta: O Holocausto já engendrou mais pesquisas históricas que qualquer acontecimento da história judaica. os judeus reentraram completamente na corrente da história. em verdade. duas das mais fundamentais instituições da Modernidade.. o correlato do serviço que se presta à lógica do inimigo e. Isto nos dá uma medida da intensidade do drama que representa hoje aquela vida bifurcada.

. aquele que opõe os EUA ao “terrorismo” islâmico. como tradicionalmente. não mais são interpretados de modo alegórico. na segunda metade opôs os EUA à URSS e agora. já no século XXI. os conflitos que em sua primeira metade opuseram as grandes nações européias. naturalmente. No recém-acabado século XX. A nosso juízo... pois a imagem daquela grande tragédia estaria sendo cosida alhures. posto que a verdade da nova cultura irá se revelar justamente pela leitura. [37] Mas não ficam só aí os sintomas. desde já se poderia saber. vale dizer. São justamente nossas incursões de certo modo furtivas ao romance [36]. como se fossem “as guerras de Gog e Magog”. que hoje mais de perto prenuncia este modo de acesso à verdade do ser hiperdialético. esta última assertiva reflete uma profunda intuição. Muito pelo contrário.. nos cadinhos dos romancistas. uma renovada acepção de leitura. escrito ou filmado. conclui que este será um esforço baldado. não vem para ficar. nos referidos conflitos os judeus se encon- . necessariamente também de evocação. que poderia colocar em dúvida o significado e valor do que ele chama ‘emancipação da diáspora’ ocidental –. E se lamenta ele com boa razão: O divórcio entre história e literatura tem sido calamitoso para a narrativa histórica em geral e a judaica em particular. Yerushalmi percebe bem a concentração de estudos históricos em torno do Holocausto e mesmo sem atinar (ou resistindo a atinar?!) com o verdadeiro significado do fenômeno – um desesperado esforço de destarte subtraí-lo a uma interpretação tradicional unária (mítica?!). Não. isto nos parece uma leitura simplista.164 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Pareceria a princípio paradoxal: a nova historicidade hoje dominante. Aqueles que estão alienados do passado não podem ser levados a ele somente através da explicações.

Podemos entretanto ficar certos de que nenhuma das duas correntes irá prevalecer a médio ou longo prazo. A tensão só poderá aumentar. nesse interregno.10). Na concepção unária. Desde que isto está muito bem posto e atestado na Torá. (Ver figura 5.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 165 tram bem firmes aliados sempre de um dos lados. que os próprios (pelo menos os maiores beneficiários) tentam dissimular. há um processo temporal que vai da Criação a uma Escatologia. Como é possível que a mais tradicional corrente ideológica de uma cultura descobridora da significação da história possa ser anti-histórica? [38] Na verdade. até que venha ocorrer uma síntese hiperdialética (I/D/D) que subsuma o historicismo unário da fé (I) e o historicismo trinitário do engajamento (I/D). abertamente. o mais que pode acontecer é a desobediência à Lei e o castigo. forçando a história unária a sair do seu recolhimento e vir se articular com a história universal. Tal engajamento nestes eventos precisa ser rápido e intensamente encoberto pelo historicismo dialético moderno para impedir a todo custo a insurgência de interpretações ‘míticas’ tradicionais. o historicismo alemão do século XIX. Não é nenhuma surpresa que a maioria dos historiadores modernos (dialéticos) estejam nas universidades americanas e européias e que esta corrente aparente hoje deter uma posição de hegemonia. que poderia depois suceder na história. . contudo. que não fosse outra vez as mesmas faltas e as mesmas punições? Isto é completamente incompatível com o papel que os judeus assumiram na Modernidade. que de certo modo traduz uma capitulação lógico-cultural. O tradicionalismo judaico poderia parecer a muitos um anti-historicismo. o que soaria para nós como um paradoxo. como de fato ensaiou a Renascença (século XVI) e depois. ele é tão somente anti-dialético e reage mais fortemente quanto mais se vê ameaçado pelas concepções modernas de historicidade.

166 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Futura concepção qüinqüitária da História. a dialética propriamente dita (I/D) seu momento de antítese e. afinal. Hiperdialética. são meras especulações lógicas. pode ser considerada como uma dialética das dialéticas.10 – Da “vida bifurcada” à resolução lógico-qüinqüitária A hiperdialética. onde a lógica transcendental (I) é seu momento de tese. antecipada pelo romance “VIDA BIFURCADA” I/D/D I I/D I I/D I Figura 5. . a hiperdialética seu momento de síntese (I/D/D) [39]. já mostramos com detalhes. Estas não são profecias [40]. se bem que um pouco entradas já no novo ‘espírito qüinqüitário’.

Criticam. a linguagem e até a ciência são hoje vistos como diversas variações de um tema comum . a religião. imprecando um contra o outro. ou um estádio histórico superior. Agora. T. em essência. pertence àquilo sobre o qual imagina alçar-se. na realidade.1. Crítica cultural e sociedade O mito. Seu semblante feroz parece assustar o poder que por sua vez simula que ao vê-la treme de medo e ambos. Começamos com a crítica que aí está. mas tacita- 6. mas. Nem serão aqui contados. W. podemos identificar três posições críticas em relação à Modernidade. talheres e cristais conservam suas mãos limpas. Há os que se alimentam só das sobras e migalhas. apenas para ocupar lugar. Ensaio sobre o Homem.e a tarefa da filosofia é tornar esse tema audível e compreensível. Não valem mais do que estas cinco linhas. achando que com este prudente distanciamento das baixelas. Introdução . Adorno.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 167 6 Crítica da Modernidade O crítico da cultura fala como se representasse uma natureza intacta. Ernest Cassirer. a arte. é como preferem legitimar.

Em suma. mas não conseguindo vislumbrar o que a possa suceder. trata-se da única posição subversiva. tomando-a não como um modo de produção. mas no encobrimento de sua mortal fragilidade. na medida em que se dispõe à crítica da Modernidade. deve-se reconhecer. assim que mostre o menor sinal de esmorecimento. Em segundo lugar. só se dispõe mesmo a voltar atrás. à esquerda e à direita do paradigma anglo-saxão moderno. à Grécia e seus poetas trágicos. desconsiderando que estes já eram lá censurados por exorbitar em dialética e fingimento.168 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mente justos e acertados. as que ultrapassam as ideologi- . da autenticidade onto-lógica. Contestam o poder porque o querem o mais perfeito. cujo vigor se sustenta na ciência desejosa (do uno/trino) e no seu preciso complemento . não na soma de suas virtudes. Haveria ainda uma última posição crítica. com fé e engajamento. ora o uso sócio-espetacular dos meios de reprodução e comunicação. seriam três as posições que se pretendem críticas da Modernidade que aqui examinaremos: as ideologias. mas pelo que realmente é: uma cultura tipo nodal. para mais além da Modernidade. Somente desta posição é que se estará deveras enfrentando essa nossa velha preguiça de pensar o novo e. a de quem espia da quinta margem do rio a história da cultura passando ao encontro de si mesma. correndo os riscos inerentes à procura. de prontidão para suportá-lo pegando de cada lado pelo sovaco. Procede à critica da Modernidade.o sujeito liberal sujeitado. É o que denominamos ideologia. conseguem destarte afastar quaisquer terceiros e por aí o perigo de uma veraz subversão. A rigor.ora a ciência (ou a técnica) como expressão terminal de uma insidiosa metafísica. há quem deveras critique o poder imperante porque já é capaz de reconhecer e apontar para o que lhe é o mais próprio . naturalmente.

vivendo a cultura científico/tecnológica. para completar. mas ficam aquém da crítica radical à cultura. que. pelos impérios de base agrícola da Antigüidade. Este já teria passado por duas etapas ditas ecológicas [4]. Em termos econômicos (obvi- 6. cuja tônica é a identificação com a Natureza (em termos lógicos.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 169 as. como um ser lógico-qüinqüitário [1].2. a segunda. esta última. indivíduo ou coletividade. se coloca como o outro da Natureza (da pré-diferença ou pré-D). dialético. unidade dos dois anteriores (I/D) e formal. em decorrência do próprio êxito. na qual a verticalidade criadora. a história da cultura é então concebida como processo hiperdialético de auto-desvelamento do ser próprio do homem [3]. vai sendo aos poucos substituída pela horizontalidade imperial. Esta se encontraria agora em sua fase civilizatória. numa estreita homologia ao que a civilização romana foi para a cultura grega. representada pelas sociedades tribais de caçadores/ coletores do paleolítico. em sua linha de avanço. capaz de operar um pensamento hiperdialético (I/D/D=I/D/2)[2] síntese do pensar da identidade (I). e. cultura cristã trinitária (dialética ou I/D) e. Estaria hoje a humanidade. A rematada impotência das ideologias . governada pela lógica formal ou da dupla diferença (D/D = D/2). do terceiro excluído ou da dupla diferença (D/D=D/2). Partimos de uma antropologia filosófica que concebe o homem. da dupla diferença ou D/D=D/2). clássico. cultura moderna ou científico/ tecnológica (formal. já na atualidade. a primeira. da diferença (D). isto é. dizemos cultura da pré-identidade ou pré-I). De modo conseqüente. Seguiram-se as etapas propriamente lógicas: cultura judaica (da identidade ou I). pelo trabalho. cultura greco-romana (da diferença ou D).

isto é. a um inconseqüente capitalismo financeiro internacional.e aquilo que mais abertamente expõe sua fragilidade congênita . todas elas já historicamente exercidas e. o que está por trás de todas as disputas ideológicas do mundo moderno. é a questão do sujeito da ciência. Para ilustrar isto de maneira exemplar. em especial nos últimos 150 anos. Ora. não pode ter outra função senão a de bloquear os caminhos que podem levar. como veremos. de fato. uma promessa que não tem outro propósito senão o de tornar dispensável o advento do homem pleno lógico-qüinqüitário. podemos tomar algo bem familiar a nós brasileiros - . à subversão da Modernidade. para permitir o mapeamento de todas as alternativas críticas ideológicas. ainda que descolado. proporcionar-lhe a imprescindível orientação e dela colher o primeiro e o melhor proveito? Insistimos no aspecto dissimulado das ideologias porque elas deixam sempre intocadas. A simples caracterização da Modernidade como cultura governada pela lógica clássica ou da dupla diferença (D/D=D/2) é o bastante. aliás. mas de seu modo fingido. paralelo.170 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO amente redutores). deixar de lado justamente aquilo que constitui a essência mesma do dinamismo da Modernidade a ciência . a ciência e a técnica. financiá-la. ao abrigo de qualquer suspeita. Mas o subterfúgio não pára aí. que é o que hoje mais se quer ver. isto significa a passagem do capitalismo nacional de produção ao capitalismo globalizado de consumo. esgotadas em suas promessas. Quem deva ser o seu sujeito. podendo voltar sobre si próprio como dissimulação da própria dissimulação. da promessa enganadora nela implícita de levar o homem à perfeição (biológica) ou à vida eterna [5].a técnica exorbitante . Para nós. quem deve desenvolvê-la. Na verdade. dissimulada. Atente-se que a fragilidade não é da técnica enquanto tal. de certo modo.

no nosso caso particular. uma discussão sobre a adaptação da racionalidade moderna (capitalista) ao âmbito da latinidade. acriticamente a favor da ciência e da técnica? O rótulo Positivismo. a arte vira técnica de marketing (ou. intacto. O leitor pode estar satisfeito. aquele que se decide pelo sujeito liberal I. instalações). parte superior) O poder hierárquico da lógica da dupla diferença funcionaliza o que seria próprio e específico às lógicas subordinadas: a política torna-se ciência política. É ele o sujeito que assegura com sua viva determinação ou iniciativa a continuidade da cultura da morte. pois chegam a se fantasiar de sociais-democratas para melhor impor sua prática neoliberal. mas os dissimuladores não. em estado de degradação voluntária. de como proceder a substituição ali do indivíduo liberal anglo-saxão (I) por um presumido espirito comunitário (I/D) da latinidade jesuítica [6]. socialista de verdade. de uma latinidade aquecida pelo trópico. revolucionária . Dentre as “opções” ideológicas.1.jesuítica. no lugar de outro já gasto ou ultrapassado pelos acontecimentos. já de origem. comunista. tal como ele. concomitantemente invertendo o . a psicologia da consciência torna-se psicologia adaptativa do eu. (Ver figura 6. Isto eqüivalia a uma discussão acerca do sujeito da razão científica (D/2). Nos extremos. trazia. distinguiríamos inicialmente o paradigma anglo-saxão. mas sim vétero-liberal! Bem. cinematográfico sujeito john fordiano . incansável empresário schumpeteriano. não têm limites.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 171 o Positivismo. que também não é neo.que propõe a substituição do sujeito liberal I pelo sujeito coletivo (politicamente articulado) I/D. mas apenas para colocar um sistema novo. temos de um lado a “opção” de esquerda . velada. Que pode isto significar se todos as correntes ideológicas são. que de fato transcende os sistemas.

telúrico. pelo sujeito libidinal. De modo quase simétrico.1 à esquerda) A designação socialismo (I/D) científico (D/2) não lhe poderia ser mais apropriada.fascista.1. pelo sujeito romântico. o “povo” ou. tradicionalista -.172 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO sentido de sua relação de subordinação com respeito à ciência. à direita) Figura 6. (Ver figura 6. agora. igualmente invertendo o sentido da relação subordinativa vis-à-vis a ciência.1. temos a “opção” de direita . na sua versão mais primitiva. (Ver figura 6. porém. nazista.As ideologias . que vai propor também a substituição do sujeito I.

E mais. organização do ensino básico) e o Movimento de 64 (aniquilamento das ideologias “exóticas” internacionais. basta-lhes a lógica im-pessoal de um hiper-estático poder burocrático. na medida em que sua oposição à “opção de esquerda não acontece entre o nacional (D) e o científico (D/2). Há. porém. Haveria ainda uma quarta possibilidade. indefectivelmente acompanhada de propostas de modernização científico-tecnológica da produção e do sistema educacional. Esta observação é importante na medida em que o aludido fenômeno aparece reiteradamente na história luso-brasileira. mesmo que fossem elas próprias. agora restrito ou particularizado (o nacional).é. que seria a recusa de qualquer sujeito . pelo deslocamento do social universal (ou internacional) em favor do mesmo social. uma razão profunda para esta equivocação: é que com freqüência uma formação ideológica de direita se apresenta não como uma troca de sujeito. . mas como se fora uma simples particularização de um sujeito já dado. que não se interessam por quaisquer sujeitos.nazista . mas precisamente entre o nacional particular (D) e o comunitário universal (I/D). criação das grandes empresas públicas. instalação do Colégio dos Nobres) e o salazarismo. de algum modo. e no Brasil o getulismo (consolidação do mercado interno.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 173 Alertaríamos que a designação nacional (D) socialista (I/D) . implantação da Cadeira de Moral e Civismo em âmbito nacional vendendo a imagem do Brasil Grande) e talvez muitos outros. profissionalização na educação básica. Assim foi gerado em Portugal o pombalismo (expulsão do jesuitismo internacional. as leis trabalhistas.é a posição das “cúrias”. D/2. Sua designação mais própria seria nacional (D) científico (D/2) contrastando com socialismo (I/D) científico (D/2). enganosa. especificamente. ademais.

saúde. educação. SUJEITO CO LETIVO R Ú SS IA I/D SOCIALISMO CIENTÍFICO A O M XÃ IG S A D A R LO PA NG A D/ 2 M O D E R N IDA D L Ó G IC A D A C IÊ N C IA NACIONAL SOCIALISMO OU "NACIONAL CIENTÍFICO“ AM ÉR ICA I D "E U R O PA" SUJEITO LIBERAL SUJEITO ROM Â NTICO OU NAC ION AL . Por isso. Ver figura 6. Na opção nazi-fascista.174 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Como já tivemos oportunidade de mostrar [7].2.subsume as lógicas I. e uma burocracia de estado vai assumir um poder totalitário em seu exclusivo proveito.2 . esquerda e direita. qualquer destas “opções” vai se inverter. D e I/D .. trata-se de direcionar a ciência e a técnica para a solução dos grandes e urgentes problemas (ditos) sociais . Em ambos os casos chega-se a uma impossibilidade. habitação etc. as inversões propostas sempre revertem. pois. e não ao contrário. Assim necessariamente acontece porque a lógica D/2 .alimentação.que governa a ciência .Sujeitos e inversões ideológicas Na opção jesuítica ou comunista.governando seus pretendidos e pretensiosos sujeitos -. as duas “opções extremas. se iludem com a possibilidade de promoverem a inversão da relação de subordinação entre a ciência e seu sujeito. o que ."POV O" Figura 6. mais dia menos dia. trata-se da pretensão de colocar a ciência e a técnica a serviço da preservação dos valores e da integridade do “espírito do povo” (D).

tendo-se em conta a essencial indiferença das diferenças ideológicas. o sujeito liberal se afigura um sujeito realmente transcendente ao sistema (I). No paradigma anglo-saxão o sentido da subordinação aparece tal como logicamente deve ser: por definição. dos românticos e seus derivados. assunto a que voltaremos mais detalhadamente no próximo item. fica aqui mais do que evidente. decidindo sistematicamen- . a ele sujeitado. na medida em que só lhe é permitido operar de modo intervalar entre sistemas (D/2) que se superpõem e se sucedem. nada de estranho quanto à afinidade entre o sintomático helenismo desmedido dos filósofos e poetas alemães. Esta é uma configuração essencialmente perversa. e a força que na Alemanha assumiu o fascismo. acordes em nada pensar para realmente mudar. da “pedagogia” grandiloqüente do realismo socialista e assemelhados. um sintoma anotado com grande acuidade por Walter Benjamin: “Eis a estetização da política. porém. A similitude da “opção” de direita com a problemática cultural grega. acabando todas reunidas em torno do pensamento único. pois. Não há. Uma conseqüência também evidente da posição de direita é a supremacia atribuída à estética D (ou à poesia. ou à música dramática) sobre a política I/D.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 175 acarreta a perversão dos “projetos políticos que se dizem fundamentados naquelas “opções . como a história do século XX bem o demonstrou. como a prática do fascismo. O comunismo responde com a politização da arte. A propósito. examinada por nós anteriormente [9]. não nos pode causar grande surpresa o troca-troca ideológico das “elites” do Brasil. [10]” Na “opção” de esquerda acontece precisamente o contrário: a prevalência do político sobre a arte. que por isso mesmo jamais perverte [8]. em especial. como se depreende da teatralidade do barroco jesuítico.

onde verdadeiramente começa o processo de crise e superação da Modernidade. revistas e principalmente nos jornais e especiais das TVs [11]. da Modernidade. Justamente estribados nesta compreensão geral é que negamos qualquer valor realmente subversivo à ação exclusivamente político-ideológica.3. Paralelamente. Depois de fazerem das eleições um só balcão de negócios. a dissimulação que é presentemente a técnica. para mais agravar sua constitutiva fragilidade. o passo decisivo para o encontro do homem consigo mesmo. Só assim poderemos começar a nos mobilizar para a verdadeira subversão da Modernidade. conluio com o que há de pior na Modernidade. indefectivelmente presente em todos os diários. simulando que tudo aí acontece democraticamente. para compreender de onde ainda dimana o seu vigor. A insistência numa tomada de posição exclusiva de tal natureza nesta altura da História já não é mais um equívoco (que já antes era grave). Recapitulando. consideramos as ideologias como 6. Para não compactuar com o que aí está. que bem sabemos agora o porquê.176 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO te contra os mais elementares interesses da maioria do povo brasileiro. na verdade. apenas (logicamente) para frente e para o alto. de estofo lógico-filosófico. será preciso denunciar. Não há saída nem à esquerda nem à direita. que é real. Para além das ideologias . o que nela representa a ciência e em particular a física. é necessário proceder a uma crítica radical. afinal. Podemos agora nos aventurar para além do âmbito das ideologias. chegam ao ponto de controlar cuidadosamente a “compra de votos no Legislativo para assegurar uma cota de votos-contra. alta traição aos interesses da humanidade. para o apressamento da chegada da nova cultura hiperdialética qüinqüitária. em especial a biotecnologia. é. é hoje.

Na figura 6. a compreensão do processo de crise e superação da Modernidade requer exatamente o contrário: que concentremos nosso esforço crítico sobre a ciência e a técnica. o enfoque ideológico. e. tentando decifrar os mecanismos ilusionistas associados à técnica. de um lado. . qual deva ser o sujeito da ciência e o sentido de sua relação de subordinação a ela.3 tentamos pôr em evidência a relação conceitual conflituosa entre. sincrônico. representado por um plano solidário à própria Modernidade. cuja característica central é a desconsideração da ciência como questão (aqui não se discriminando ciência e técnica). o enfoque crítico. questionando-as. diacrônico. de outro lado. assumem. o homem jamais abandonará a busca da autenticidade. em contrapartida. como sua questão maior.como é o caso na atualidade do chamado processo de globalização -. representado por uma linha que traspassa a Modernidade. não irá faltar de modo algum ao encontro marcado que tem consigo mesmo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 177 um fenômeno social típico do mundo moderno. Ora. Pouco importam os percalços temporários .ao mesmo tempo para trás (ciência) e para a frente (técnica exorbitante) -. mas que vista de um pouco mais longe se nos afigura como inexoravelmente ascensional. Localmente (isto é. lógico-filosófico da problemática cultural. buscando uma avaliação objetiva das condições de continuidade do vigor criativo da ciência. reacionário. visto de dentro da própria Modernidade) existiria ali uma certa ambigüidade processual .

3. de alguém que fizesse uma aberta “opção” por um sujeito da ciência . Heidegger – a ciência e a técnica Estamos agora um pouco menos mal preparados para enfrentar questões de maior complexidade.por exemplo. Parece-nos que o que mais tem atrapalhado a compreensão daqueles acontecimentos históricos envolvendo o filósofo alemão tem sido a atitude apaixonada de todas as par- .3 .178 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO O HOMEM EM BUSCA DE SI MESMO (I/D/ 2 ) "LINHA DIACRÔ NICA" DO PRO C. Que pensaríamos. do affaire Heidegger e o nazismo (incluída aí a ultrasensível questão do anti-semitismo). mas precisamente do caso Heidegger. então. ou nem um nem outro?! O leitor já deve ter percebido que não estamos diante de uma situação hipotética qualquer. pelo “povo” .1. ao mesmo tempo fosse um crítico feroz da ciência e da técnica? Seria ele um mero reacionário de direita ou um profeta da cultura nova? Ou ambos.e. o fato é que até hoje não foi tratado com a devida profundidade e amplitude. especificamente. CULT URAL TÉCNICA EXORBITANTE "PLANO SINCRÔNICO" IDEOLÓGICO Direita MODERNIDADE Esquerda D/ 2 CIÊNCIA NOSTÁLGICA (I/D) Figura 6. Embora este já se tenha tornado um tema recorrente.Plano sincrônico ideológico versus linha diacrônica do processo cultural 6.

Começaríamos lembrando que coube em parte aos alemães do sudeste a resistência à penetração islâmica na Europa via oriente [12]. É preciso compreender que sem uma vigorosa reação à expansão semítica. entre as quais estavam algumas de já tradicionais banqueiros. toma-se como pressuposto que ele tivesse. tal qual ocorreu em Espanha e Portugal. a mais dramática em . Sendo ele o maior dos filósofos de nosso tempo. que a colocação maniqueísta: Heidegger. a Europa simplesmente não existiria e talvez ainda não tivéssemos nem mesmo entrado na Modernidade. a plena compreensão e o acesso às informações suficientes sobre a situação alemã e internacional. razão pela qual consideramos imprescindível que se explicite e se aceite o contraditório e o paradoxal das palavras e das atitudes. Isto representou um grande impulso no processo de “modernização econômica” da Alemanha. anjo ou capeta. os judeus. Aí está.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 179 tes. o que fortemente impactou a intelectualidade alemã [14]. Este processo num primeiro momento é anti-islâmico. está muito longe de ser verdadeiro. por volta de 1800. a nosso juízo. Isto. justo por isso. valeria fazer um breve resumo da história do anti-semitismo alemão. uma das raízes mais antigas e fundas do anti-semitismo europeu. porque é exatamente daí que se pode derivar os mais importantes ensinamentos. Preliminarmente. sem dúvida. Nada pior. com intensos reflexos na sua vida cultural. mas tem como seqüela desdobrar-se para alcançar seus primos remanescentes. quando ocorre uma significativa migração de famílias judias para Frankfurt. na circunstância. em particular. pois. É a partir de então que esta cidade passa a se constituir num dos principais centros financeiros da Europa [13]. O surto de helenismo exacerbado e excludente talvez tenha sido sua irada reação inconsciente e. à época do seu reitorado. o alemão. Há um outro importante momento histórico. para então bem decidir.

Outro episódio de peso foi a chegada à Alemanha. com a expansão do capitalismo financeiro internacionalizado. se apoderar por atacado do imaginário do outro [16]. doravante. só se faria pela prévia agressão à cultura (dos outros). na Alemanha o nazismo ganhou a proporção que tomou. Isto implicava que a expansão capitalista. ou nazismo. a agressão cultural passou a ser condição do lucro. sim. É exatamente aí que a designação nacional socialismo. o capitalismo sofre uma grande mutação: a função de principal motor do sistema passa da acumulação/produção para o marketing/consumo. Este movimento representa o abandono da expectativa da consolidação de um proletariado revolucionário internacional (I/D) . suas esperanças revolucionárias se voltam para a pequeno-burguesia nacional (D). ainda na passagem para o século XX. econômica e emocionalmente. Antes. Nesta nova etapa da expansão capitalista importa. A agressão à cultura era então uma conseqüência do lucro desordenadamente buscado. do movimento soreliano [15]. .para ele já se tornara evidente o processo de aburguesamento das massas européias logo aos alvores da era do marketing e do consumismo. tem sua razão histórica. Com o capitalismo de marketing o processo se inverte: doravante é a desarticulação da cultura (ou sub-cultura) periférica e das relações sociais tradicionais que se torna pré-condição da penetração econômica global. chamamos a atenção para o fato de que. Em conseqüência. a implantação de atividades agrícolas ou extrativo minerais na periferia do capitalismo acabava provocando a desorganização das relações sociais em geral e do mundo da cultura. antes de mais nada. no início desse século. Por tudo isso. que era quem mais sofria. O nazismo acabou sendo. Por fim. fenômeno que não pode ser de modo algum explicado pelo ativismo de um punhado de desatinados.180 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO suas conseqüências.

I/D/2 VONTADE POLÍTICA OU “ VONTADE COLETIVA” HISTÓRIA CIÊNCIA I/D F E S R CO A N LA K F D U E R T D/ A ÃO IC Ç N A C UL É T IM S D E I/ D /2 2 H P E H O V ID IS O E G T G Ó E R R IC O I VONTADE INDIVIDUAL D VONTADE NACIONAL OU VONTADE DO POVO CULTURA Figura 6. D. que a Europa (tendo a Alemanha como centro). a estetização da política!). pelas águas do Reno e do Neckar. Ver figura 5. senão do sujeito da ciência? Onde então poderia estar. lá pelos meados da década de 30.Heidegger e a questão ideológica . que não na posição lógico-diferencial D? Ver figura 6. em particular da Alemanha. pelo trágico. pelos gregos. faz sua opção a que não se pode negar o caráter ideológico: o faz pelo sujeito romântico. Heidegger [18] afirma. De quem estaria falando Heidegger. pelo torrão natal. pela Floresta Negra. acrescentaríamos nós) e de outro a América (tendo como sujeito da ciência o indivíduo liberal I).4. telúrico. diríamos nós) entre duas tenazes: de um lado a Rússia (tendo como sujeito da ciência o ser coletivo I/D. este sujeito desejado. está metafisicamente (logicamente. Em suma: pelo sujeito lógico diferencial ou prometéico. no caso da Europa.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 181 uma reação antecipada ao capitalismo consumista ou de marketing (além de representar. naturalmente.4 . pelo povo.4. É neste contexto histórico que Heidegger. pela poesia. o filósofo [17]. segundo ele. como o socialismo soviético foi uma reação retardada ao capitalismo produtivista ou de acumulação (além de representar a politização da arte!).

A técnica é algo de natureza metafísica (no caso. I/D) [21]: El concepto no es aquí ya más lo pensado.4 deixa bastante claro que não se pode logicamente contrapor povo e técnica. como se pôde ver. Não se precisa do livro do Victor Farias [19] para se chegar a esta conclusão. Sob este ponto de vista. De la necesidad de superar este antiguo “concepto” se sigue una mayor amplitud del novo concepto. I) para a diagonal feminina (D. Ademais. ser reduzida a uma mera tomada de posição ideológica precisamente em razão da crítica insistente e feroz que faz à ciência e à técnica. A figura 6. não pode caber a mínima dúvida quanto ao seu profundo e prolongado comprometimento com o nazismo. (colchetes nossos) [22] De fato.182 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Depois disso. lo imaginado (lógica). um radical crítico de sua cultura. sob o poder castrador do ultimo [20]. Isto significa que ele vai muito além dos limites estreitos da questão ideológica e se coloca como um verdadeiro filósofo de sua época. a algo de determinado nível lógico só se pode contrapor algo . além das ideologias). Heidegger é de uma enorme clarividência. ela é uma articulação entre a vontade individual (determinação de projeto) (I) e o saber científico (D/2). Sua posição não pode. a técnica é o próprio modo de ser do homem quando concebido como apenas animal racional. Estos son los conceptos fundamentales de nuestro futuro. mas é bem o seu simulacro. É certo que ela não chega a ser lógico-qüinqúitária (I/D/2). entretanto. e isto vinha já de Aristóteles. Heidegger então anuncia com bastante clareza em que direção irá se mover. no lo racional en oposición a lo irracional (porque esta definición se basa en la frase: el hombre es un animal {I} racional {D/2}. basta saber ler a própria lógica da situação e das escolhas possíveis. deslocando-se da diagonal machista (D/2.

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 183 de um nível lógico igual ou superior. estaria pois essencialmente associada à problemática de sua entrada ou saída na história (I/D). Assim. contra a sociedade tecnificada (D/2 I) dever-se-ia confrontar não apenas o povo (enquanto apenas vontade. D). um desdobrar-se em seu próprio ser aberto (além de D). é uma história sujeitada à lógica da repetição (do mesmo!). a História. a história aqui se reduz ao acontecer da própria tradição. Ella es el carácter más propio del acontecer y lleva la determinatión propia por sobre nosotros hacia el futuro. [25] (negritos nossos) Lo que es desde lo ya sido es la tradición. Tornar-se um povo histórico não é uma necessidade. para o nosso filósofo. síntese da identidade e da diferença (I/D). mas o povo e sua vontade de tornar-se um povo histórico (D I/D). ela aqui se mantém ← ← . entrementes. o acontecer só verdadeiramente acontece como modo próprio de ser da tradição: Historia y acontecer no son ya más un continuo de sucesos: Acontecer es tradiction. não é algo inerente à condição de ser povo. Pelo já visto. él pasa a la historia (futuro) en tanto que se sale da historia (pasado). Embora a lógica da história seja a dialética. em Heidegger. nada tem de uma simples sucessão de acontecimentos fortuitos destituídos de significação. na direção do futuro: .El pueblo es hecho por la historia. [26] (negritos nossos) A opção pelo sujeito povo (D). mas uma decisão (não necessariamente consciente). vale dizer. [24] Entrementes. [23] Cuando um pueblo pasa a la historia ello quiere decir: él entra al futuro.

o que a rigor propõe é a substituição da técnica machista (D/2 I) por uma anti-técnica feminista (D I/D). mas o tempo histórico das culturas.184 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ainda refém de sua proveniência. que não era o espaço. que aquilo que vinha para se contrapor à técnica. tal como a técnica. deveras o fazia. imaginamos. mais um modo pseudo-lógicoqüinqüitário (pseudo I/D/2). Por tudo isso cometeu muitos e sérios enganos. sem conseguir deixar de ser. constitui uma evidente anomalia lógica. Heidegger. talvez. por pressupô-lo apenas lógico-dialético trinitário (hegeliano) e não o que verdadeiramente é. (Ver figura 6. Em suma. teria tido o maior horror a Lacan e seus “matemas da sexuação” ! [28] b) Não distingue ciência e técnica no que lhes é o ← ← . Isto vai implicar em que sua crítica da técnica (governada pela lógica formal D/2. um pseudo ser lógicoqüinqúitário) acabe desembocando numa anti-técnica (governada pela lógica da diferença D tendo a lógica dialética I/D a seu serviço. tendo a lógica da identidade I a seu serviço. Tira bom proveito de um certo descentramento alemão em relação à Modernidade. sujeitada à lógica da diferença (D). a nosso juízo. mas acaba sendo também vítima desta mesma excentricidade [27]. que se pode assim resumir: a) Embora tenha escapado dos estreitos limites do reacionário plano ideológico.2) Em que pese a sagacidade e o poder de enxergar para além das ideologias e mais ainda para aquém de seu próprio tempo seguindo ao reverso as marcas significantes deixadas meio às sendas do esquecimento do ser. pois. Heidegger não consegue ir muito mais longe do que lhe facultava sua própria cultura. porém. apenas um simulacro. também um pseudo ser lógico-qüinqüitário). A sujeição da história à tradição. Conclui-se. hiperdialético ou lógico-qüinqüitário. não consegue se assenhorar do aberto em que se viu. portanto.

por isso sub-avalia a força criativa da ciência e não consegue perceber quanta oportunidade há para denunciar a fragilidade da técnica quando em estado de ilusionista exorbitância. não chega a se configurar como uma verdadeira escola de pensamento: It may even be questioned whether they have anything in common beyond the programme for a restatement of Marxisme in the form of a ‘critical theory of society’.a exorbitância poética dos gregos -. mas nas suas máscaras sedutoras. de uma práxis política desastrada? Seu “fracasso” na reitoria – isto é.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 185 mais essencial. [29) .os meios de reprodução e comunicação de massa Vale a pena aqui fazer uma breve referência à Escola de Frankfurt (sempre Frankfurt!). mas no que figura ser. em conseguir realizar uma reforma radical de sua própria universidade –. daí. A Escola de Frankfurt . o que a Escola acaba mesmo realizando é uma “inversão interna” no esquema lógico heideggeriano. sua orientação diametralmente divergente na ordem do tempo: a primeira desejosa do que foi. Como pretendemos mostrar. entretanto.3. talvez desencaminhado pelos hinos e encantos de Hölderlin. É um juízo quase unânime que a Escola de Frankfurt. Havia um precedente que lhe era bem familiar . que ela é ainda maior para com Heidegger. como seria possível escapar à impotência. dela não se apercebeu.2. vá sugerir a volta à mesma exorbitância poética grega! 6. Sem isto. parece-nos. no fim de seu périplo filosófico. não em seu rosto. em que pese o nome. É bem conhecida a sua dívida para com Marx (I/D) e Freud (D). c) Não percebe que o problema da técnica não está no que ela é. a nosso juízo se deve justamente a esta sub-avalição do poder da ciência na Modernidade. não se deve estranhar que. ou pior. a segunda fingindo ser já o que está ainda por vir. porém. vale dizer.

barra-se qualquer pretensão de onipotência do conceito. sempre existiria um outro. podemos chegar a uma visão relativamente coerente e precisa sobre o que de fato pretendem os defensores da Teoria Crítica. porém. no caso. Isto significa que a noção de totalidade. seja sobrevalorando o momento negativo da dialética em detrimento do seu momento de síntese. com a lógica do outro ou da diferença. Não importa a ordem de apresentação nem o peso relativo de cada um dos “lances ou movimentos” por eles realizados. Tanto para Horkheimer como para Adorno. insistindo na sua desabsolutização.5. seja dando mais peso à Fenomenologia do espírito e menos à Lógica hegelianas (Habermas). verdade do ser dialético. valendo-nos de uma estratégia geral de envolvimento. denuncia-se abertamente a aproximação do marxismo com o positivismo cientificista. Vejamos: a) Todos os membros reconhecidos da Escola passam pelo marxismo. b) Seguindo Karl Korsch (Marxismo e Filosofia 1923). na conjunção dialética e materialismo. pela dialética. Ver figura 6. não importam o âmbito e as circunstâncias. consequentemente. completude e eficácia teórica. entrementes. por exemplo. da “dialética negativa” de Adorno. pelo menos a nível lógicodialético. perde seu peso metafísico e por conseqüência deixa de se constituir suporte para os extremismos totalitários. importa sim o seu conjunto que acaba se mostrando de surpreendente harmonia. Deste modo. como também de equivalência de ser e pensar. é o último que torna a primeira um processo infinitamente aberto. ali- . como é o caso. A desabsolutização da dialética é justamente o que vai permitir a sua articulação com outra lógica. Isto é feito de diferentes maneiras. que.186 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Seria mesmo assim? Realmente reconhecemos uma certa dificuldade em apresentar uma lista de concepções comuns à Escola.

é comum à toda a Escola como assinala Kortian: The Critical Theory of Frankfurt School simply reproduces this metacritical paradigm in its merciless attacks on any rehabilitation of a prima philosophia. com estas. na verdade. também taxando como suspeita a aproximação do próprio Freud com o positivismo. porém. [30]. não pelo transcendentalismo. a lógica transcendental ou da identidade que lhes dá suporte. teria suas raízes nas inegáveis ambigüidades do próprio Marx com respeito ao valor da ciência e da técnica. mas. Adorno é o mais crítico da razão identitária que a seu ver necessariamente suprime as diferenças.A formação lógica da Teoria Crítica d) Rejeitando a prima philosophia e as filosofias subjetivistas e. . Kant e Fichte são aceitos.5 . Figura 6. Este posicionamento. c) Aceitação da psicanálise como um real contrapeso a eventuais desvios conceptualistas totalitários da dialética. obviamente.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 187 ás. rejeita-se abertamente à psicanálise o estatuto de cientificidade com que tanto sonhara Freud. pelo valor que dão aos imperativos da razão prática.

f) Embora não se furtem à pesquisa empírica. da dialética I/D sobre a lógica da diferença D. por dentro. rejeitam liminarmente o método e a postura objetivista da ciência por incapaz de dar conta da especificidade e da complexidade do ser histórico.4. fazem uma crítica radical da técnica moderna e das ideologias que as justificam seja explicitamente.188 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO e) Não é de se estranhar que a estima pela psicanálise venha de par com a valorização da arte. nada melhor do que a arte para romper. na Modernidade. Para Adorno. Horkheimer lamenta que a Modernidade tenha cortado do âmbito da verdade não apenas a política e a religião. por serem de Frankfurt e não da pequenina Messkirch. só que partindo de uma crítica profunda da noção weberiana de racionalidade. Marcuse. porém. mas principalmente a arte. e demonstra como. a própria técnica transformouse em ideologia. na região de Baden! Ver figura 6. deixando uma única alternativa: o comprometimento da Escola de Frankfurt com a mesma diagonal feminina por que optara Heidegger. Talvez. Operando no “espaço lógico” o conjunto destas disposições se mostra extremamente constringente. A Teoria Crítica é assim um pensamento que con- . vindo da esfera de influência heideggeriana. denunciam que a história reduzida a simples natureza leva a que a práxis se reduza inexoravelmente à técnica. Hoje a cultura teria se transformado em mera indústria de diversão para mistificação das massas. Habermas segue na mesma direção. quem sabe. Adorno rebela-se contra a tecnificação que se faz hoje em escala planetária. g) A tudo isso colmatando. portanto. em sua autojustificação. as falsas totalidades. seja por ardilosa omissão. não podia deixar de atacar a tecnocracia e o totalitarismo inerente à razão técnica e científica. invertendo a direção da relação de soberania – agora.

a Escola de Frankfurt. com a sua “indústria cultural”. que acredita que a Modernidade. e sabemos hoje bem o porquê: não pretenderam outra coisa senão alcançar o capitalismo perfeito através da simples troca do sujeito sujeitado da ciência. Vimos também que poucos conseguiram até hoje ultrapassar os estreitos limites da crítica ideológica. excetuando-se. em todas as logias -. ficando esta sempre impensada. a Modernidade é antes de tudo uma cultura em cujo âmago vive a ciência com o seu inesgotável poder de cálculo de todas as coisas deste e doutros mundos. fechou todas as portas que pudessem nos levar a um ponto de vista a ela transcendente [31].um dos mais proeminentes membros da Escola -. os dois. na era do pensamento único.em todas as universidades. trata-se ainda de um pensar tolhido. levado às últimas conseqüências. Heidegger e. é porque não nos interessa mesmo a salvação. Entretanto. Em Heidegger. Se insistirmos em abdicar de pensá-la. Não há mesmo saída à esquerda nem à direita. primeiro. Definitivamente.como degraus ou como enormes pedras. tal como a técnica que ele critica. depois. a Modernidade não se reduz a um simples modo de produção. Crítica radical da cultura .4. por via reversa. não alcança a altura suficiente para se constituir numa instância crítica radical da cultura. conforme o uso que deles se faça. em que pese a pretensão.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 189 segue romper com o conservadorismo ideológico. Ora. Não há dúvida de que faliram as ideologias. qualquer que esta possa ser. não fo- 6. deixando-a à vontade para pensar-nos. mas. como contemporaneamente acontece por toda parte . modos de pensar a meio caminho entre a penúria que ora se vive e o pensar pleno lógico-qüinqüitário . São. Foi por assim acreditar que acabamos todos caindo onde caímos. Esse juízo é emitido pelo próprio Adorno .

Que era então o logos heraclítico que a própria filosofia paradoxalmente desconhecia? No referencial ali tacitamente assumido.190 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ram eles longe o suficiente para se constituírem como verdadeiras instâncias críticas da cultura e. que acaba sendo também a denúncia dos limite da crítica ideológica da Modernidade. em lógica formal (D/D=D/2). não se pode pretender chegar à crítica da Modernidade sem um pensamento resoluto disposto a medir-se com a ciência. A nosso juízo. é se colocar à espera de um deus que se crê infantilmente vá um dia se arrepender e voltar. É fazer tábua rasa. Tudo isto veio se repetir. não apenas da filosofia. ou mesmo à só palavra poética. tintim por tintim. também da ciência. em lógica dialética (I/D). pleitear o retorno ao logos heraclítico. na era da ciência e da técnica. nada menos. nada mais. mas quanto à sua significação e. por ser tal. preferiríamos nós). No imaginário e na prática. embora insuficiente.que precisamente. Hegel e Leibniz. com Platão. ainda de sua época grega: com Parmênides o logos se degradava em lógica transcendental (I). é lógica da diferença recalcada -. sobretudo. de mais do que 2000 anos de história. às suas ardilosas promessas. a pior das emendas! O esforço heideggeriano de denúncia da essência metafísica da técnica (da ciência. não será entretanto perdido se vier contribuir para que a filosofia reconquiste seu vigor originário grego. Hoje. do que o pensar da diferença (D) [32]. respectivamente. Heidegger chamou nossa atenção para o fato de que os descaminhos da filosofia já vinham de bem longe. Isto implicaria avan- . por conseqüência. sob o império da lógica da dupla diferença (D/D) . mas da humanidade concreta no inexorável e penoso curso de seu auto-desvelamento. com Aristóteles. na Modernidade com as filosofias de Kant. não obviamente naquilo que respeita a seus métodos e resultados. lógica por lógica. igualmente.

Como poderia estar a ciência disposta à crítica profunda da Modernidade se é ela própria o seu fundamento? Em tal circunstância. É óbvio que esta não é sua tarefa. E a ciência? Da ciência. à sua própria plenitude onto-lógica. mas coerentemente de um rio amazônico bem mais caudaloso. como sendo o saber das culturas em desaparecimento. Não há mais qualquer outra alternativa para um efetivo exercício crítico radical da Modernidade senão se postar à quinta margem do rio . ou seja. Jamais tivemos ou poderemos ter uma crítica científica da Modernidade. entre outras coisas. vazando assim os próprios olhos para não ver que não era o destino. incompatível com sua própria lógica. em especial da cultura Moderna. porque hiperdialético qüinqüitário -. ao invés de retroceder. mas chegando e se achegando enfim à sua morada. preventivamente. trata-se sobretudo de uma tarefa para o Pensamento (tomado em sua acepção máxima mundana. dialético trinitário. de onde se pode espiar o homem cansado e sofrido. implicaria hoje na assunção. onde vige o princípio da falsa identidade [33]).não falamos do rio temperado e montanhoso de Heráclito. Mesmo a antropologia já se declarou. não há o que se esperar.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 191 çar. pela voz de seus maiores e com ares de sonsa gravidade. . de um poderio hiperdialético qüinqüitário que a capacite para a urgente e imprescindível tarefa de crítica radical da cultura. mas sua própria cultura que perpetrava tal extermínio em escala planetária. a crítica da Modernidade se constituiria em auto-crítica da ciência (diga-se de passagem. lógico-qüinqüitária).

. então.....FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 193 7 História da cultura segundo Toynbee.. portanto........ Pela razão óbvia de termos adotado uma concepção hiperdialética. E tornou a dissolver-se nele.. mas a sociedade burguesa só alcança a consagração no mundo cristão............ é mais do que natural que................ E quando algum autor se declara adepto e de fato se utiliza de uma concepção lógica explícita.. à esquerda) [1] não difere assim tão extraordinariamente de outras conspícuas e bem conhecidas concepções. desde o primeiro instante.... o cristão prático e o cristão prático se fez novamente judeu........... Karl Marx.. como teremos oportunidade de adiante constatar. O cristão foi.... . A história da cultura aqui representada apenas pela sucessão de suas culturas nodais (figura 7...... o judeu teórico.. casos particulares ou modelos reduzidos.1.... de generalidade extrema...... como é o caso de Hegel e Marx (lógico-dialética). . a simplificação a que aludimos se torna imediatamente visível. Hegel e Marx O judaísmo atinge seu apogeu com a consagração da sociedade burguesa.. portanto.. quando se lhe comparadas........ O cristianismo brotou do judaísmo..... Tillich.... A questão judaica... o judeu é...... outras concepções do processo histórico apareçam como meras simplificações...

Comparandoas . o preclaro teólogo alemão. Ao final de sua vida intelectual. cada civilização tem de fato o seu próprio ciclo de vida. que seguiria uma tendência ascendente. expressa por uma religiosidade cada vez mais abstrata (espiritual) e de âmbito mais universal. para comprová-lo. isto não a obriga necessariamente a percorrer uma seqüência de fases pré-fixadas. e do ser lógicoidentitário (I) com o caráter espiritualista. não suficientemente nítida. Neste. Paul Tillich. Inicialmente examinaremos as concepções de Toynbee e Tillich. nos seus resultados bastante próximas da nossa. constatamos que a última não é mais do que uma versão simplificada (lógico-trinitária) e. ora espiritualista. . porém. nós mesmos nos serviremos de uma representação geométrica trinitária (sucessão de formas triangulares) e não. Toynbee delineou uma filosofia da história na qual se alternariam culturas de caráter ora materialista. emigrado depois da Segunda Grande Guerra para os EUA. O primeiro toma as civilizações como os reais sujeitos do processo histórico e adota uma concepção que poderíamos denominar de organicismo mitigado [3]. Estas últimas teriam implicitamente o comando global do processo. da primeira. ainda por cima. ademais. de uma representação propriamente lógico-qüinqüitária. bastando. na qual a forma piramidal (hiperdialética) apareceria subsumindo as formas triangulares (dialéticas) [2]. que se proceda à mais ou menos óbvia identificação do ser logico-diferencial (D) com o caráter materialista. como seria conseqüente e mais funcional.a nossa proposta hiperdialética e a “filosofia da história” de Toynbee -.194 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Para facilitar comparações. ela pode sempre alongar sua existência à proporção que consiga dar respostas adequadas e eficientes aos desafios contingentes com que se venha defrontar.

temporalidade.[4] O papel que a tensão tempo (I)/espaço (D) exerce é. o “motor da história não é o desafio contingente versus resposta. entretanto. de fato. Ernst Cassirer. Outro grande filósofo alemão da cultura. vale dizer. nas formações culturais históricas. constatamos. que elas coincidem exatamente com o que caracterizamos como culturas lógico-identitárias (família I). como em Toynbee.n. espacialidade e a luta pelo predomínio em que estão permanentemente empenhadas: L’âme humaine et l’histoire humaine sont dans une large mesure déterminées par la lutte entre l’espace et le temps. como não poderia deixar mesmo de ser. de importância primordial na estruturação da mente humana e acaba por isso se refletindo no próprio processo de sua objetivação simbólica coletiva. em profundidade. Aqui. também vem chamar a nossa atenção quanto à importância da análise das experiências de tempo (I) e espaço (D) para a compreensão. [n.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 195 trabalha diretamente com as culturas e adota uma concepção também implicitamente dialética do processo histórico. aliás. da problemática antropológica: Descrever e analisar o caráter específico que o espaço e o tempo assumem na experiência humana é uma das tarefas mais atraentes e importantes de uma filosofia antropológica. [negritos nossos. tendo-se aí a cultura judaica por seu ilustre paradigma: . mas um a priori constitutivo da própria mente humana .] [5] Ao percorrermos a lista das culturas que Tillich aponta como comprometidas com o tempo.

) As culturas do espaço.n. Admitido . ambos declaradamente lógico-dialéticos. Estas duas concepções da história são sobremaneira interessantes na medida em que não são apenas simplificações ou reduções. devemos atentar. e o que é mais curioso. também): Ce n’est que dans l’homme que le victoire finale du temps devient possible. cada uma a seu modo. para o seu radical apego à coerência lógica (dialética). verdadeiras deformações da concepção hiperdialética.196 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Le peuple juif est comme aucun autre nation le peuple du temps. mais usual. a torcida é para um dos lados. cada uma com seu específico e dissimulado propósito. mas que a nosso ver deturpa a intenção hegeliana).)[7] Depois disto tudo só nos resta afirmar que a concepção do processo histórico em Tillich pode ser também considerada como tão apenas uma versão simplificada da nossa proposta hiperdialética. pelas culturas do tempo. em suma. aqui. vão ser então identificadas como lógico-diferenciais (família D). mas porque constituem. O último diz adotar uma versão materialista da dialética. é a nossa. Car l’homme est capable d’agir en vue d’une fin située par-delá sa propre mort. como em Toynbee. sempre a mesma tendenciosidade (que. pelas culturas espirituais. lá. Para melhor compreendermos como foi possível a deformação conceitual cometida por Hegel. [6] (n. Os casos mais interessantes vão ser os de Hegel e Marx. Il représente la lutte permanente que se livret depuis toujours l’espace et le temps. não escondemos.n. Aqui. em primeiro lugar. também. grega e moderna. enquanto que o primeiro adota uma versão especulativa (preferimos a denominação especulativa à idealista. (n.

precisa demonstrar a todo custo que a cultura judaica pertence à família das culturas Diabólicas. ou seja. ele se vê obrigado a afirmar coerentemente que tal processo deva conduzir ao desvelamento de um ser lógico-dialético e não a outro qualquer tipo de realidade [8]. com o telúrico vigor que afinal o engendrara. por razões “psico-sociais” [9]. deslocados de sua real posição lógico-identitária (I) para a posição lógico-diferencial arcaica (pré-D). ambas ainda referidas à Natureza) em direção às culturas propriamente lógicas. respondendo à indagação de Moisés: “Eu sou o que sou (ou serei)”. sua meta tem que ser a auto-realização do espírito como espírito absoluto . por ex- . passíveis da acusação de terem instaurado um pérfido dualismo. portanto.1. Hegel. Tal passagem se confirma com o episódio da auto-definição essencialmente lógica de Deus. o Estado prussiano. esta deixa consequentemente de ser.[10] Com o “rebaixamento” da cultura judaica. à direita). lógico-D-iferenciais. Sua expressão política.o perfeito e acabado ser lógico-trinitário (I/D). depois diferencial. Os judeus são. assinala a passagem do analógico ao plenamente convencional. uma concepção abstrata e alienada da essência humana (figura 7. se afigurando então como a realização/institucionalização deste mesmo ser lógico-trinitário! Espantoso! Em segundo lugar. podese então trazer a cultura grega para o seu indevido lugar. Ele produz esta “demonstração” valendo-se exatamente da passagem bíblica referente à adoração do bezerro de ouro que. Esta deve ser. desta sorte. Hegel toma estes episódios como significantes da ruptura dos vínculos do homem com a Natureza. portanto. no plano simbólico. Ela também representa.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 197 o caráter dialético da história. se o processo histórico ainda se encontra em aberto. o trânsito das culturas ecológicas (inicialmente identitária. Ora. com muita precisão. a destinação da cultura alemã.

mas o dualismo corpo/alma. Uma cultura realmente da identidade (I) produz profetas e não filósofos. Depois de todos estes malabarismos. seu profeta. não é mais o Deus Uno-Trino. pois o desejo do cristianismo é precisamente a “espiritualização” (I/D) do corpo (D). na filosofia. fica aberto o lugar para que uma nova realidade advenha em I/D. em I/D/D. Um absurdo completo. a cultura trágica ou prometéica (D) para ressurgir como cultura identitária (I). Hegel pôde deslocar a cultura cristã trinitária da posição I/D para D.198 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO celência. como ele equivocadamente inferira. adivinhamos. com Hegel. é o lugar de onde se pergunta pelo ser (distanciamento D) e não o do ser desejado (I). já lá instalado à espera para dar-lhe as boas vindas (assim como. metaforizada à exaustão na “sublimação” da cal. os primeiros e mais dedicados amigos do ser [11]. Não percebeu Hegel que grego. HISTÓRIA HIPERDIALÉTICA DA CULTURA HEGEL: HISTÓRIA DIALÉTICA (VISTA PELA ÓTICA DA FENOMENOLOGIA DO ESPÍRITO) ONDE SE DEGRADA A CULTURA JUDAICA CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA I/D/ 2 D/2 CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA CULTURA MODERNA CÍNICA CULTURA ALEMÃ CULTURA GREGA TRÁGICA I/D D I/D D CULTURA CRISTÃ CULTURA JUDAICA I Pré-D CULTURA AGRÍCOLA CULTURAS LÓGICAS CULTURAS ECOLÓGICAS CULTURA GREGA TRÁGICA I PASSAGEM DEGRADANTE Pré-D CULTURA PRIMITIVA CULTURA JUDAICA CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/ COLETORES Pré-I Pré-I Figura 7.1 – Hegel e a história da cultura . como atesta o incomensurável acervo da arte sacra que ele nos legou [12]. para ele. agora!). dirão com malícia que estamos nós à espera do Brasil. da tela e da pedra. O essencial no cristianismo. o novo Estado alemão. Valendo-se da mesma artimanha.

tratavase. Seria então o caso de se indagar por que seria Hegel tão cego à lógica formal (D/D) já ele sentado sobre ela? Em outras palavras..? O caso Marx é tão ou mais interessante que o anterior. Já se iam para mais de 600 anos que morrera Abelardo. Babilônia. A escolha da denominação escravista é um ato falho que vem ratificar o que estamos afirmando. (figura 7. que a realidade maior fosse de nível lógico dialético (I/D) e que a cultura judaica fosse dualista (pré-D). A maior parte da . Deveras. todos de nível lógico pré-D) com a cultura trágica grega (de nível lógico D). fosse qual fosse a data que tomássemos para o seu nascimento.2. e o faz por meio da identificação da cultura de base agrícola dos grandes impérios da Antiguidade (Suméria. agora colocadas ambas sob a rubrica comum: modo de produção escravista. só um gênio seria capaz de tais proezas: afirmar. Marx simplesmente curto-circuita a cultura judaica. desaparece da cena histórica a cultura judaica e com ela todas as suas articulações conceituais (lógicas) e históricas com as demais culturas.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 199 É importante lembrar que tudo isto acontecia numa Europa já imersa em plena cultura científica moderna. Assim. além de grande filósofo. 500 que morrera São Tomás. um ainda maior neurótico obsessivo. seria ele. Com isso. governada pela lógica clássica ou da dupla diferença (D/D). e o Egito antigo é um ótimo exemplo disso. O escravismo é uma extensão mais ou menos permanente de um verdadeiro modo de produção. 100 que morrera Galileu. 50 que se instalara a revolução industrial inglesa. de colocar a filosofia de Hegel de cabeça para baixo! Para tanto. Assíria. Egito etc. à direita). a artimanha não sendo mais aquela de deformar (a lógica das virtudes da cultura judaica.. naquela altura dos acontecimentos. Pérsia. mas de simplesmente subtraíla à “objetividade cientifica” [13]. e isto foi dito até com bastante franqueza. como em Hegel.

mas reduzindo-a a I.a cultura tribal de caçadores/coletores do paleolítico com comunismo primitivo. mas reduzida a I/D. em especial. na posição D/D.2 . na posição I/D. onde justamente estava inconscientemente Marx. ). D. em préI. por fim. a cultura científica moderna com capitalismo. mas reduzindo-a a D. e . é só identificar . diga-se de passagem . apagam-se completamente as marcas da passagem das culturas ecológicas (Pré-I e. e sem esta ruptura presente.corretamente. a sociedade sem classes..200 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO produção egípcia não era escravista (os egípcios não eram escravos em suas terras).Marx e a história da cultura No mais. pré-D) para as culturas propriamente lógicas (I.. apenas podia se dizer escravista. a cultura cristã patrística com feudalismo. O mais importante é que. com a escamoteação da cultura judaica. Fica ainda o espaço suficiente para a conclusão do processo histórico através do advento do comunismo. DA CULTURA ONDE É ESCAMOTEADAA CULTURA JUDAICA) COMUNISMO AVANÇADO CULTURA MODERNA CÍNICA FEUDALISMO CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA I/D I/D/2 D D/ 2 I/D I ESCRAVISMO CAPITALISMO I/D/2 D/ 2 I/D D CULTURA GREGA TRÁGICA CULTURA CRISTÃ PATRÍSTICA Pré-D CULTURA JUDAICA D CULTURA JUDAICA I Pré-D CULTURA AGRÍCOLA CULTURAS LÓGICAS CULTURAS ECOLÓGICAS I PASSAGEM ESCAMOTEADA Pré-D Pré-I ESCRAVISMO CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/ COLETORES Pré-I COMUNIASMO PRIMITIVO Figura 7. em I/D/D.. HISTÓRIA HIPERDIALÉTICA DA CULTURA MARXISMO: HISTÓRIA DIALÉTICA MATERIALISTA (HIST. Assim fica bastante claro que a escolha do nome escravista para este modo de produção só se justifica da perspectiva judaica.

sem precisar acabar os seus.2. verifica-se como ele pode deveras realizar toda esta mirabolante deformação histórica. a concepção ecológica (materialista. causar nenhum espanto.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 201 bem aparente. notas introdutórias e mesmo posfácios. A história da cultura se reduz com este “apagamento” a um mero processo de desenvolvimento das forças produtivas em seu sentido puramente material. podia harmoniosamente conviver com a sua histeria (I/D). também dialético (I/D). Pela simples contemplação da figura 7. escrevendo prefácios. E com isso ficamos nós sem nada saber de como foi possível a Marx. Marx. . tomando a infraestrutura material (ecológica ou econômica) da sociedade como determinante. dis-pensador da cultura judaica. de cabo a rabo. que embora dialético (I/D) não conseguia se desembaraçar de sua neurose obsessiva (D/D). toda a produção lógico/simbólica se reduzindo a mera super-estrutura determinada [14].. Ao contrário de Hegel. que Marx acreditasse estar colocando o mundo filosófico de cabeça para cima. portanto. Não nos pode. ficando assim obrigado a escrever. sempre o mesmo livro (o mesmo sistema). chegar afinal onde chegou.. se poderia também dizer) da realidade social pode se prolongar e dominar a totalidade do processo histórico.

. Hegel. a nosso ver. aspectos da nova cultura lógico-qüinqüitária que virá suceder à atual Modernidade.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 203 8 Remanejamento das relações indivíduo/ sociedade na cultura nova lógico-qüinqüitária É portanto mediante a cultura que o indivíduo tem aqui vigência e efetividade. O tema central aqui é a relação entre indivíduo e sociedade. a nosso juízo. até hoje sem uma resposta aceitável. . conteúdo/continente? Como bem sabemos. esta é uma antiga questão filosófica [1].. Fenomenologia do espírito. II Este ensaio é o primeiro de uma trilogia em que assumimos o elevado risco de tentar delinear. homem/ cosmos e homem/Absoluto. Consideramos que este é o momento oportuno para . Começaríamos indagando: elas variariam ou não em função do tipo (lógico) da cultura considerada? Podemos tomá-las como um caso particular da também velha questão dos universais? Podemos tão somente reduzi-las a uma relação topológica. tanto tem de cultura. mais intensa e profundamente estarão contribuindo para a resignificação contextual do ser humano: falamos das relações homem/sociedade. com algum precisão. quanto tem de efetividade e poder. Os aspectos aqui considerados são aqueles que na nova cultura.

1. indivíduo e sociedade. a nossa grande esperança . Figura 8.1 . Coloquemos. em muito pouco tempo . já com vista à cultura nova lógico-qüinqüitária que. por apenas reconhecer um determinado nível lógico que ela absolutiza/sacraliza em sua religião oficial ou hegemônica e que sanciona por todos os meios.204 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO buscar-lhe uma resposta clara.estaremos adentrando. por último. dialético (I/D). simples diferencial (D). lado a lado.Relações políticas e culturais invariantes numa cultura de nível lógico X . ela se caracteriza justamente por um parti pris lógico. eles se constituem como entes de nível lógico-qüinqüitário [2]. em especial. Sabemos também que seja qual for a cultura. De per si. sem dúvida. isto é. tal como ilustra a figura 8. portanto.esta é. operando e existindo em cinco níveis ontológicos: transcendental ou identitário (I). agora. hiperdialético (I/D/D=I/D/2). por suas normas e práticas educacionais [3]. clássico formal ou duplamente diferencial (D/D=D/2) e. embora tenha todos os seus membros de nível lógico-qüinqüitário (I/D/2).

qualquer que seja a cultura focalizada. o processo de produção da deci- . por exemplo. naturalmente. O primeiro modo de articulação. o que nos leva a acreditar que. De outro lado. seu poder de decisão estrito senso. que é necessariamente portador de cultura. falta-lhe por si a cultura.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 205 Isto posto. é aquele em que os indivíduos suprem sua carência cultural constitutiva assumindo ou se deixando tomar pelos esquemas de percepção. veremos sempre o indivíduo operando necessariamente em nível lógico transcendental (I). seu poder de autodeterminação. estruturas conceituais (a língua. depreende-se que devam existir ao menos dois modos invariantes de articulação entre indivíduo e sociedade. pois esta última é uma prerrogativa essencial do ser-coletivo. não pode por si determinar-se. Daí. Deste modo é que eles podem atingir seu mais elevado nível de estruturação interna e relacional. em especial. não importa o tipo de cultura sob consideração. duas coisas saltam imediatamente à vista: de um lado. O segundo. O mais interessante a observar é que o processo de assunção da cultura pelos indivíduos se faz por identificação. como é o caso. Em contrapartida. que diríamos cultural. de modo simétrico. tal como ilustra ainda a figura 8. aquilo que é falta constitutiva do ser-coletivo. ele não estaria garantindo o que lhe é mais essencial: sua integridade. em especial) e valores gerais que constituem a cultura de nível lógico X. a partir de sua capacidade individual de autodeterminação ou decisão. sua liberdade. uma operação de natureza lógico-identitária (I).1. da língua. é aquele em que os indivíduos entram num processo interativo para produzirem. este mesmo ser-coletivo. caso contrário. em razão mesmo de ser múltiplo. dentro do que permite a cultura de nível lógico X. que denominamos político. ou seja.

1. confundindo-se o ser social com o ser político. tudo isso é apenas uma disposição normativa. Entre os gregos da idade clássica não havia a menor dúvida que o fosse. ao político e cultural. Além das dimensões política (que engloba o poder ou a formação da determinação coletiva) e cultural (que engloba o sentido compartido que faz a unidade coletiva). Como já adjudicamos os níveis lógicos extremos I e X. nada há de mais natural do que a política. se valer daquilo que a sociedade tem de melhor ou mais sofisticado – a essência (lógica) assumida de sua cultura. na Ética a Nicômacos [5]. Aceitar que o processo mediador num extremo ← (X X) é do tipo lógico-transcendental I (uma identificação) e no extremo oposto (I I) é do tipo lógico X. a política era considerada a primeira dentre as ciências e o homem o animal político [6] por excelência. em termos de distorções estruturais compensatórias alhures. a fazer corresponder os níveis intermediários (entre I e X.206 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO são coletiva articulando as determinações individuais se faça por um modo operatório de nível lógico X [4]. que denominamos dimensão econômica [7]. Para Aristóteles. é o mesmo que dizer que as lógicas dos processos de mediação nos extremos do leque das rela- ← . em geral. em especial. no mais elevado dentre os modos de interação social. dos meios para a sua reprodução material. respectivamente. todo ser social comporta ainda uma terceira dimensão fundamental voltada para o provimento de meios em geral. Sugerimos que se volte a ver a figura 8. por uma questão de completitude. somos obrigados. para a sua própria consecução. Como exemplificaremos adiante. exclusive) à dimensão econômica. pois a política se constitui. Em outras palavras. embora devamos saber que toda violação acaba tendo lá seu justo preço. É bem razoável pensarmos assim. ou pelo menos assim deveria ser.

a realidade suprema aí seria o Espírito (I/D) e os indivíduos se tornariam cultos através do processo de identificação (I) com o espírito (I/D) de sua época. Para ilustrarmos tudo que foi até agora dito. portanto. por conseqüência. quanto no sentido inverso. o nível cultural (coletivo) seria lógico-dialético. mas em todos os níveis dentro dos limites da lógica da cultura considerada. O processo de decisão coletiva (I) derivaria da autodeterminação individual (I) por meio de um processo de luta (I/D). tanto no sentido do indivíduo para a sociedade. Seria. Havendo um exato nível médio ele será igualmente determinado. no geral. muitos diriam que nem sempre assim acontece: a decisão poderia vir do diálogo e até como fruto maduro de um estado de comunhão.2. produto da .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 207 ções indivíduo/sociedade culturalmente reconhecidas estão na ordem invertida em relação às lógicas que governam aquilo que elas justamente articulam. não apenas nos extremos. O estado de máxima elevação cultural seria o êxtase diante do Espirito de Deus. naturalmente. Por certo. vale dizer. tal como ilustra a figura 8. à esquerda. que todas estas assertivas valem apenas como uma norma. Nesta cultura. O sentido da determinação a partir de um qualquer dos extremos acompanharia àquele deste extremo. Insistimos. (D/D=D/2) Sabemos que a cultura cristã medieval é lógicotrinitária que. uma vez mais. em ordem inversa relativamente às lógicas dos aspectos individuais/societários articulados. a meio caminho. mas sua força determinativa iria se atenuando (permitindo que a determinação também se exerça mais e mais no sentido oposto) à proporção que nos aproximássemos do outro extremo e se inverteria. sacraliza a lógica dialética (I/D). natural generalizar e dizer que as lógicas dos processos mediadores mantêmse. tomemos o caso das culturas cristã medieval (I/D) e científica moderna.

não importa. de caráter plebiscitário ou representativo (ver figura 8.2 . Num dos extremos. logicamente D). aqui conta apenas a lógica do processo. . isto é. de nível lógico-clássico formal (D/D=D/2). estribados no costume e na autoridade (incluída aí a força ou a ameaça de utilizá-la). portanto. que em qualquer destas hipóteses continuaria sendo obviamente dialética.Relações indivíduo/sociedade nas culturas cristã medieval e científica moderna Vejamos agora o caso da cultura científica moderna. O processo de distribuição social de seu resultado nada mais seria que a simples apropriação (D) pelo próprio trabalhador (camponês. à direita). consubstanciado apenas no trabalho (esforço que se faz com vistas a outra coisa que ele próprio. Figura 8. em geral) ou por terceiros. eleitoral.208 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO graça derramada pelo Espírito (I/D). teríamos o processo político produzindo a decisão coletiva (I) a partir das decisões individuais (I) mediante um procedimento contábil (D/D). A dimensão econômica nesta cultura restringir-se-ia ao nível lógico-diferencial.2.

seu modo de ser social. Por isso. sob o aspecto dialético. no caso da dialética não lhe corresponde a história. então. Em termos econômicos. Precisamos lembrar que na cultura moderna (D/D) as lógicas femininas {D e I/D}. estão de fato presentes e operantes. Facilmente identificamos o D individual como sendo o desejo. no entanto. É. mas tão apenas o progresso. a demanda individual e o D coletivo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 209 O ser individualmente culto se realiza por simples identificação (I) com os papéis definidos pela organização (D/D=D/2) social. de maneira essencialmente invertida ou distorcida [10]. que individualmente teria que ser produzido a partir do I/D coletivo através de um processo lógico D.no caráter social do excedente acumulado. por simples questão de simetria. pois. estamos tratando do capital (I/D) [8]. em termos econômicos. cuja determinação flui aí no sentido do coletivo para o individual. a nosso ver. através de um processo lógico-dialético (I/D). induzida pelo cálculo da taxa de retorno do capital. A propósito. no nível D. a história desnaturada. Teríamos ainda que considerar o nível lógico I/D. Quem desconhece o gráfico ascendente levemente serreado do processo da acumulação de capital . do capital -. Do ponto de vista lógico ou formal. O indivíduo sentese culto na medida em que se identifica com seus diferentes papeis ou correspondente títulos e tabuletas à porta. que no fundo governam a dimensão econômica. ficasse muito longe de perceber que esta assertiva tinha validade apenas do ponto de vista de uma cultura determinada. ou seja. embora. através da apropriação privada (D) [9] do capital social (I/D) que os indivíduos completam. como sendo a demanda agregada e. era justamente nisto que insistia Marx . por fim. o coletivo precisaria ser produzido a partir do individual. Sobram assim dois níveis lógicos para serem adjudicados à dimensão sócio-econômica. o processo I/D como sendo o mercado competitivo. ou.

Resumindo. para a formação da decisão coletiva (I). Interessava-lhe apenas os estratos lógicos D e I/D determinantes. através de um processo contábil. isto é. que forma o seu patrimônio pessoal (I/D) apropriando-se (D) de parte do patrimônio coletivo. mas pela apropriação de parte do patrimônio coletivo acumulado. Em razão mesmo da ideologia de esquerda que orientou sua formação . Vamos considerar o exemplo excepcionalmente didático da União Soviética. o capital social (I/D). do modo de produção/distribuição. de modo coletivo. e da apropriação do excedente ou capital. Desta sorte. respectivamente. não pelo engajamento na história (que a ideologia dominante chega a crer que já não há mais).210 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO pendurado na parede ao fundo dos retratos dos expoentes da vida econômica moderna?! Assim. sente-se naturalmente um excluído. os indivíduos completam o processo de sua integração à modernidade. que faz valer os seus desejos pessoais (D) na formação do desejo coletivo ou demanda agregada (D) através de um processo competitivo.o materialismo dialético -. e que completa seu processo de integração identificando-se (I) com os múltiplos papéis definidos pela organização social (D/2). mesmo que trabalhe. que se almejava fosse feita segundo sua natureza. e até muito. segundo o paradigma anglo-saxão. Neste ponto vale a pena voltarmos à questão da normatividade dos esquemas lógicos aqui apresentados. ao invés . a demanda agregada (D). apenas a dimensão econômica moderna (associada às lógicas D e I/D) foi considerada como socialmente relevante. que se imaginava devesse ser atendido pelo cálculo. é o que contribui com seu poder decisório (I). o político (I) e o cultural (D/D) ficavam assim reduzidos a simples efeitos secundários ou de super-estrutura. o escrutínio (D/2). Quem não consegue do capital sua cota parte. diríamos que o indivíduo moderno. o mercado (I/D).

Inversões soviéticas do paradigma moderno Porém.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 211 de ser produzida através do mercado (I/D).3. o indivíduo deveria doravante com ele se identificar (I). passando então a mediar a decisão coletiva (I). passava lá a ser produzida pelo cálculo (D/D). as distorções não paravam aí. E foi mesmo para facilitar ao máximo esta identificação que se desenvolveu a estética socialista. Sendo vedada também a apropriação privada (D) do capital (I/D). Fig. bem característico das construções públicas soviéticas. passava a se fazer pelo mercado concorrencial (I/D) da intriga e da violência entre os membros de um círculo partidário restrito (algumas vezes. por um efeito de re-equilibração estrutural. ou seja. pelo diálogo. aliás. como mostra a figura 8. a lógica do mercado (I/D) tinha que se deslocar. através de um processo de planejamento centralizado. Como bem . o tão enfático realismo socialista. em conformidade com sua essência (o que estaria sendo aplaudido pelo próprio Marx). outras por inspiração do “espírito partidário”!).8. A política. como nas nações lideres da Modernidade. Em conseqüência. ao invés de eleições amplas e cálculo de votos (D/D).3.

a esta altura. Por isso. que viriam então a ser utilizados como moeda de troca. as três dimensões sociais estariam se confundindo parcial ou totalmente. acontecia a apropriação privada (D). levando a administração pública a um grave processo de desagregação funcional e ética. entre as culturas menos sofisticadas (pré-I e pré-D). por membros do aparelho de estado da enorme quantidade de papéis ou cargos públicos (D/D=D/2). esta que por seu turno viria a se tornar o apanágio do fascismo. econômicas e culturais em sociedades de nível cultural abaixo da dialética (I/D). ainda mais instigante. em contrapartida. quem sabe. posto que tão somente a partir desta estava assegurada a existência de pelo menos um nível lógico para cada uma das três referidas dimensões sociais. Seria o caso de se perguntar agora: como seriam aquelas relações entre os gregos (cultura D) e entre os judeus (cultura I).212 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO observou Walter Benjamin [11]. Teríamos apenas que admitir que. Como dissemos. ou.4. por termos evitado a questão das relações políticas. naquelas culturas mais elementares. como já sugere a própria figura 8. quando não se dispõe “culturalmente” de lógicas em número suficiente? Na verdade. até nos censurado. já terá percebido e. Nosso arguto leitor. uma alteração lógica cá tende a provocar uma alteração estrutural compensatória acolá. era a politização da arte em contraposição à estetização da política. não há a menor dificuldade teórica. .

Não se tratava de uma simples preocupação de conjuntura.é que a política pode enfim ganhar sua autonomia. discutese acerbamente a quem se deveria conceder o estatuto de exemplaridade trágica. se ao Édipo Rei ou à Antígona de Sófocles [13].FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 213 Figura 8. as dimensões política e econômica estariam essencialmente comprometidas com a dimensão cultural. Percebe-se agora com clareza que aquele que opta por Antígona está.Fusão das dimensões sociais Assim. enfatizando a corre- . Podemos agora melhor compreender as intensas e profundas discussões gregas – sofista. Aristóteles – em torno da política. até o advento da cultura judaica. Platão. vemos que é neste mesmo lugar que vai necessariamente nascer a política como uma dimensão autônoma da vida social.4 . Entre os estudiosos da cultura grega. Já vimos que a filosofia (a pergunta pelo ser ou pelo que é o mesmo) nasce onde nasce a tragédia [12]. mas reflexo do privilégio excepcional de a estar vivenciando em statu nascendi. Sócrates. de modo intencional ou não.cultura lógicodiferencial (D) . não fazendo então muito sentido distinguir uma das outras. Somente a partir dos gregos .

também não faltou foram normas severas e mecanismos eficazes limitando a criatividade técnico-econômica. num exato paralelo com o acontecido com a política entre os gregos. que absurdamente transmuda meios . existe entre a política e o espírito da tragédia. O efeito quantitativo. Estas considerações. em razão da ameaça que a autonomização recém-consumada da esfera econômica podia trazer para a integridade social. Algo bem semelhante não teria ocorrido antes. o que mais importa é o descontrole em que caem as forças econômicas represadas na cultura anterior. já desnaturadas: o desejo individual domesticado pelo marketing e a história transformada em processo de acumulação pré-calculada de capital. porém. Na verdade. vindo a ocupar dois níveis lógicos. De fato. o que lá não faltou foi o dinamismo econômico. não é o mais importante. A grande surpresa para o que se tem por saber histórico corrente é constatarmos que só a partir da cultura cristã medieval é que se destaca a dimensão econômica (ver figura 8. retornarem com enorme virulência [ 15].214 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO lação (logicamente fundamentada) que. Com a Modernidade a dimensão econômica vai ganhar ainda maior peso. no entanto. na Modernidade elas são primeiramente recalcadas para. em especial. com respeito à política?! Um exemplo bastante óbvio daquela disposição encontramos nos drásticos regulamentos “auto-impostos” às corporações de ofício medievais. como de costume. bem ao contrário do que amiúde se diz. a nosso ver. Retornam. O que. já são mais do que suficientes para provocar uma profunda revisão de nossa compreensão da Idade Média. entre os gregos. ainda que em nível muito abstrato. entretanto. de sua vida econômica e do papel que as autoridades governamentais [14] e eclesiástica católicas devem ter exercido no que tange à sua rígida regulação. Este processo ideo-lógico (ou teratológico).4). acabamos de ver.

É em torno dela que ainda se acordam todos solidários: vétero e neoliberais. As três culturas Pré-I. Na verdade. que os mais exaltados críticos da Modernidade. e a segunda por constituir apenas o ciclo inicial de uma estrutura majorante. marxistas e fascistas. apenas num pretenso estado de delirante perfeição [16]. D e I/D. aquela que define o ser subjetivo (I/D/D). elas fazem parte de uma estrutura dialética compreendendo as culturas Pré-I. aquela que define o ser objetivo (I/D).5. tal como ilustra a figura 8. pela intervenção de forças obscuras.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 215 em fins. Deve-se notar. desaparecera. ou pior. sem falarmos dos invertebrados sociais-democratas da moda. meios transmudados em fins. era o estágio de desenvolvimento das forças produtivas (ou seja da técnica) que de fato parametrizava a história humana [17]. que ao invés da lógica. agora definidas com precisão e objetividade como sendo as culturas nodais Pré-I e PréD. que é similar à estrutura compreendendo as culturas I. permanece ainda agora tal qual. não se propuseram outra coisa senão deixar tudo essencialmente no mesmo. que elas se mantêm distintas pelo fato de a primeira constituir uma estrutura lógico-dialética autônoma ou completa.4. vai conseguir escapar da lixeira da história (hiperdialética da cultura)?! Examinemos um pouco mais detidamente a figura 7. Pré-D e I serão por isto . Pré-D e Pré-I/D (esta que se confunde com I). é de tal modo profundo e inconsciente. na esfera do pensar para valer. tendo conseguido mesmo instaurar um estado revolucionário. o que. dando lugar a uma história econômica ou história dos modos de produção. E esta impressão. Fixava-se a impressão de que a história da cultura. entrementes. na parte referente às culturas primitivas. em especial. hiperdialética qüinqüitária. ainda de cabeça para baixo. Quem não compartilha de toda esta loucura?! Por isso. hoje. apesar de todo o acontecido.

tudo. de PROD. caracterizando-se por isso como uma cultura de passagem ou de articulação. mas sim dois momentos.216 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ditas objetivistas. se para a cultura judaica (I) tudo. em nível subjetivo. é troca ou reciprocidade. o antitético e o sintético. é cultura. como a seguir veremos: a) Da mesma maneira que a cultura judaica (I) representa. ESCRAVISTA DEBRAY: ESCRIBA = POLÍTICO PRÉ-I NÍVEL FENOMÊNICO MEIO = OUTRO OBJETIVO PRÉ-D PRÉ-PRÉ-I PRÉ-PRÉ-D Figura 8. seria tanto objetivista quanto subjetivista. assim. forte e afirmativo. um estado cultural de indiferença do cultural/econômico/ político. como de costume. de uma tríade da qual ainda participa o fenomênico como sendo seu momento primeiro. SER SUBJETIVO PESSOAL OU SOCIAL I/D/D NÍVEL SUBJETIVO OUTRO SUBJETIVO EXTERNO D D/D OUTROS SUBJETIVOS. EXTERNO E INTERNO I PRÉ-I/D=I NÍVEL OBJETIVO I/D MARX: M. a cultura tribal de caçadores coletores do paleolítico (Pré-I) representa. A cultura judaica. em nível objetivo. É extremamente importante observar que a partir de agora as noções de objetivo e subjetivo não constituem mais. um par de opostos. para a cultura tribal (Pré-I). D. o estado cultural que deixa na indiferença uso/meio/troca (que em termos econômicos vêm realizar-se como valores de uso/trabalho/troca). I/D. I. no fundo. D/D e I/D/D subjetivistas.5 – Os outros . tético. e as cinco culturas I. no fundo. As conclusões que podemos daí tirar são muitas e importantes.

a lógica D deve se chamar lógica do significante).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 217 b) A cultura subjetivista D. Isto acontece pelo interesse ideológico. em espe- . já o vimos.é que. que caracteriza precisamente a noção de meio. culturas lógico-diferenciais . nem sempre consciente. tem como especificidade a emergência do outro objetivo. se vê a relação de similitude degenerar em simples identidade. mais do que sua iluminação [18]. apenas entre as do meio. finalmente. também. com ela. do totemismo nas culturas neolíticas Pré-D. A propósito. Com isto podese agora bem distinguir o animismo nas culturas paleolíticas Pré-I. a classe sacerdotal. como escrita ou presença significante (por isso. mas tão apenas um desdobramento. de I (judaica) com I/D (cristã medieval). O meio vai se realizar de múltiplos modos: como ação mediadora.Pré-D e D . que realiza a instrumentalização da religião como forma de controle social. já por nós analisado em detalhes [19]. e. com mais freqüência. Entretanto. é dos mais flagrantes: ele reduz e engloba estas duas culturas num mesmo modo de produção. cultura neolítica de base agrícola. assinala o momento da diferenciação do outro subjetivo ou intencional. A correlata cultura “objetivista” PréD. O caso Marx. trabalho. cultura greco-romana. tem toda razão Lévi-Strauss quando afirma que a escrita parece favorecer a exploração dos homens. dito escravista (escravismo que nem pode ser propriamente considerado um modo de produção. também do nascimento do político como dimensão autônoma do ser social. Com a escrita nasce a função de escriba e. também. ou seja. de préD (neolítica de base agrícola) com D (greco-romana). para Lacan. operado por xamãs isolados. operado por uma classe sacerdotal. c) É evidente a similitude da cultura pré-I (paleolítica tribal) com I (judaica). de se colocar a cultura judaica (I) acima de qualquer consideração teórica.

que se denuncia já no próprio título de sua conhecida obra: O escriba (Pré-D) – Gênese do político (D) [20]. que a bem fundada associação lacaniana entre lógica do significante (PréD) e lógica do inconsciente (D) não pode ser aí computada. A elisão da passagem do objetivo (Pré-D) ao subjetivo (I) é a elisão do exato momento em que a humanidade se dá conta. que emergira com a cultura Pré-D. A classe sacerdotal (que na origem freqüentemente . Em outras palavras. embora sendo ambos governados pela mesma lógica D. porque a identificação que ele faz atem-se apenas ao nível lógico (ou “formal”) e não “substancial”.218 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ciais circunstâncias. Advertimos.história da cultura . significante (objetivo) e inconsciente (subjetivo) são obviamente distintos. as confusões entre Pré-D e D são quase que a norma e tão amiudadas que deixamos ao leitor o fácil exercício de inventoriá-las. do seu modo ser lógico. tão bem ilustrado pelo episódio da confrontação da tábua (escrita em caracteres convencionais) da lei e o bezerro de ouro. É precisamente esta operação de ocultação que permite a Marx transmudar a história humana . de verdadeiros modos de produção). diferencia-se a noção de troca em geral ou de reciprocidade como base da vida social. Outro exemplo conhecido é o de Regis Debray. d) Na cultura judaica (Pré-I/D que é o mesmo que I). A instituição do profetismo judaico dá um testemunho eloqüente de que para tanto seria imprescindível que de algum modo fosse confrontado o poder da classe sacerdotal (Sinédrio). que teoriza sobre o inconsciente justamente governado pela lógica da diferença (D).em mera história dialética materialista ou econômica. coletiva e simbolicamente. entretanto. Na psicanálise. sendo por isso correta. Este acontecimento é formalmente correlato à compreensão social do papel do simbólico pleno ou convencional.

pois. permanecendo o Absoluto com seus específicos direitos. podemos começar a enfrentar aquilo que é nosso objetivo maior neste trabalho: delinear como seriam as relações sociais – políticas. menos ainda. como sempre. É importante observar que este novo espírito qüinqüitário não pode de modo algum ser confundido com o Espírito Santo. o máximo dos máximos. como mostra a figura 8. porque são ambos apenas trinitários. Primeiramente.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 219 se identifica com a classe dos escribas) nasce com o totemismo. o novo espírito hiperdialético não se pretende logicamente máximo. Isto posto. por identificação (I) com a cultura. com o novo espírito qüinqüitário (I/D/D). porque. . e ao se apossar sub-repticiamente [21] dos deuses institui a idolatria. Dada a novidade e sobretudo a complexidade da questão. vamos começar pelos extremos. econômicas e culturais – na cultura nova lógicoqüinqüitária. como ser-de-horizonte [22]. além. fundamento ideológico da dominação social que ela vai exercer. não teremos alcançado resultados com a precisão e clareza que de início almejávamos. nem com o espírito absoluto de Hegel. à diferença destes. que parecem ser os de mais fácil compreensão. ao final. ele se quer tão apenas espírito humano em sua plenitude lógico-qüinqüitária.6. no caso. Desde já desculpamo-nos com o leitor. e depois. O processo de integração propriamente cultural do indivíduo será feito.

do oligopólio dos meios de comunicação de massa e do marketing de todos os dias. em função da disponibilidade de vastas redes tele-informacionais. até com grande freqüência. o novo modo de decisão coletiva (I/D/D). de todas as horas. completamente corrompidos e desmoralizados que estão pela força do dinheiro. embora possamos antecipar que os mecanismos plebiscitários existirão. como na Modernidade. concreta e detalhadamente. os sistemas eleitorais vigentes hoje por toda parte não passam de rematada farsa. a partir do voto dos indivíduos (I). mas se constituirão apenas num elemento entre outros em meio à sofisticada trama do novo processo político. é difícil responder.220 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Figura 8.Relação indivíduo/sociedade na cultura nova qüinqüitária No extremo oposto a legitimidade política não será mais um resultado contábil (D/D). Como será. Quando é eleito um novo Papa diz-se que o foi por uma decisão dos cardeais sob a inquestionável inspiração . Aliás.6 .

etc. depois. mas. guardando-nos ciosamente de a eles não . que assim se afigura.ligação das caixas dos supermercados ao controle de estoques. entrementes. a integração dos diversos sub-processos econômicos . por se mostrar. à empresa única . mas persistente baixa das taxas de lucros empresariais. Não fica então a mínima dúvida quanto a como funcionará o sistema produção/consumo na nova cultura: teremos uma oferta/demanda completamente planejada. que na Modernidade é mediada pelo mercado (I/D). podemos pensar numa decisão inspirada pelo Espírito Qüinqüitário. Paralelamente. pensaria Hegel. por um cálculo (D/D). não por uma autoritária declaração de inquestionabilidade a priori. Em contrapartida. enfim. na nova cultura passará a ser realizada por um processo lógico contábil. e todos conectados ao sistema bancário. até que se chegue. vale dizer. ou seja. resistente a todo e qualquer questionamento! Vejamos agora os três estratos econômicos. a formação de densa e extensa rede tele-informacional. sem que haja a necessidade de um órgão central de planejamento. apenas teremos ou ocuparemos estes ou aqueles cargos. melhor diríamos. Para fazermos uma idéia do que será o processo decisório na cultura nova.com isto. teremos o fim da competição e do mercado de bens de consumo. a formação da demanda agregada a partir da demanda individual. As pré-condições para que isso venha ocorrer já estão em acelerado processo de concretização: primeiro. não nos identificaremos (I) mais com os papéis econômico-sociais (D/D)). deste aos fornecedores. Quanto à formação do D coletivo a partir do D individual. Eis aí mais uma das inesperadas artimanhas da História. destes às suas plantas fabris e respectivos fornecedores etc. a gradual.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 221 do Espírito Santo. apenas por si e a posteriori. por sua vez. calculada. levará inexoravelmente às fusões. muito ao contrário.

222 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO nos identificarmos. na verdade é o que ali simplesmente não existe. que se autodenomina classe média. sem qualquer sentido. entretanto. qualidade total. e não se trata de uma questão de fato. etc. E mais: tudo acontecendo bem no cerne da vida econômica da nova cultura qüinqüitária? Pelo que vimos até aqui. Acreditar em mula sem cabeça é muito menos irracional do que acreditar em capitais voláteis. Aliás. como “exige” a lógica global desta cultura (alguns poucos apropriam-se de quase tudo. da sobra. valendo isto também no sentido inverso. não passa de ficção da pior espécie. competitividade empresarial. se pararmos um pouco para pensar. direitos do consumidor. o mercado de capitais. em . o que procuramos é tão simplesmente o mercado de capitais?! Talvez um mercado de capitais renovado?! Esta resposta meio maquinal parece. sob o ponto de vista econômico. o aspecto pessoal dialético (I/D) determinando o aspecto dialético coletivo (I/D) através de um processo lógico-dialético (I/D). Chegamos agora ao que se nos afigura o mais difícil de se prever. mas de pura lógica. sociedade da informação etc. precisamente. não importa se oficial ou contestatória. se bem atentarmos. um bom número. Ao contrário do que todo mundo acredita. a mais típica das instituições da cultura capitalista moderna. déficit primário. Então. a princípio. Já vimos que na Modernidade os indivíduos se apropriam (D) simplesmente do excedente coletivo (I/D). por difícil de se bem compreender: que significa. poderíamos identificar I/D como o excedente ou capital e o processo de articulação I/D como mercado. e a mais desabalada dentre todas as ficções: o mercado de capitais. o que denominamos teoria econômica. veremos que ela pelo menos nos leva a compreender a natureza de nossas dificuldades. que ainda assim é boa bolada. opinião pública internacional.

eis. na verdade. mas que ele é. para a surpresa de todos nós. no cerne da vida econômica existirá. O que denominamos mercado de capitais é apenas um mercado secundário. hoje.). O mercado de capitais é exatamente a ficção que esconde esta simples e evidente verdade. do que realmente se trata. que o atual predomínio do econômico de fato existe. Na segunda. a economia está associada às lógicas femininas .. Na cultura nova qüinqüitária. veremos que na primeira ela aparece pela primeira vez como uma dimensão social autônoma. O inacreditável aqui é que tal arte de fingimento pudesse chegar um dia a tais prodígios. Se examinarmos o papel da economia na seqüência das culturas .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 223 forma de cotas de fundos de pensão etc. observaríamos que o fato da dimensão econômica vir ocupar agora três níveis lógicos {D. o maior dos espetáculos da Terra! [23] Tudo isto deixaria de soar assim tão esturdio se levássemos verdadeiramente a sério o que se diz em Desejo. I/D e D/D} pode dar a impressão de que com a cultura nova qüinqüitária iremos ingressar na era da mais completa hegemonia do econômico em relação às duas outras dimensões do social. dando a impressão de ser o ser que é sem ter jamais sido gerado . E não estaríamos já vivendo numa tal situação? Diríamos que não. mas estrita e explicitamente controlada. uma marca da Modernidade em declínio. em que tudo aquilo que foi cruamente apropriado circula com enorme estardalhaço.I/D (medieval cristã). em detalhes.. o mercado de capitais! Só precisamos agora especificar.. D/D (científica moderna). conjunto de atividades meio. como isto irá funcionar. mantida como o que verdadeiramente é. fingimento e superação na História da cultura [24]: todas as culturas. à vera. Finalizando. vendo-se em perigo. I/D/D (nova qüinqüitária) -. a política e a cultural. fingem já ser aquela que a irá superar. dentro tantos.

De fato. É importante compreender que. a economia só na sua aparência sintomática pode se afigurar como onipotente. Quem queira ver. mas conservadas e não. mas desta feita todas determinando. Como se fôssemos hoje uma cultura com sérios transtornos mentais. recalcadas. Do ponto de vista lógico. um efeito de cultura. suprimidas.o desejo transformado em demanda comercial. de modo explicito. porém. completamente subordinada às duas outras dimensões sociais. verá que. mesmo em se tratando da Modernidade. outra face da volta do recalcado e já desnaturado . isto significa que as lógica femininas {D e I/D} estarão sendo abertamente subsumidas. as lógicas econômicas seriam realmente três {D. sua intenção sendo sempre decidida e inequivocamente etnocida. todo o marketing multinacional só aparentemente é comercial. . desejo domesticado pelas técnicas de marketing e a história transformada em história calculada. o predomínio da economia é. Teremos por isso uma economia superiormente dinâmica. isto só não é muito grave por representar um mal transitório inerente a uma fase necessária do nosso processo de autodesvelamento. de volta. como na Modernidade. progresso.224 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO recalcadas {D e I/D} e o predomínio do econômico é tão apenas um efeito sintomático. subrepticiamente imperantes. marginais que somos à Modernidade paradigmática anglo-saxã. desnaturadas e. Isto também significa que aquilo que é em essência meio se vê de maneira absurda transmutado em fim. processo de acumulação de capital. I/D e D/D}. à cultural e à política. conjuntos de atividades meio. por exemplo. ou seja. antigas ou em processo de gestação. Na terceira. na verdade. a ação econômica é apenas o modo preferencial da cultura moderna hegemônica agredir as outras culturas. Do nosso ponto de vista.

eram seis os degraus (dias ou eras) da Criação. na interseção da materialidade com a espiritualidade. como expiação pelo pecado de desmedida curiosidade. esturdia “matéria-prima” da criação divina. o mundo criado. Abaixo de tudo. exclusivo. Protágoras Já vigeram hierarquias que abarcavam o homem e tudo mais que se pudesse imaginar. (figura 9. onde vinha situar-se. o homem. tinha um lugar proeminente. das que são enquanto são. das que não são enquanto não são. o homem. habitada por anjos organizados em nove coros e demônios em hordas ou avulsos.1) O homem cristão tornava-se então síntese de cor- . espiritual. a seus pés. mesmo que rebaixado em alguns pontos.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 225 9 Re-significação cósmica do homem e do processo de auto-determinação cultural O homem é a medida de todas as coisas. onisciente e onipotente. distribuído em três ordens: a superior. Na cosmologia bíblica. abarcando a totalidade dos seres inorgânicos e ainda o multifário mundo dos vegetais e animais. permaneceu Deus. material. o mais bem acabado e porque também feito à semelhança do Criador. A teologia cristã acolheu e re-elaborou a hierarquia vétero-testamentária: acima de tudo. naturalmente. uma ordem intermédia. o nada que é nada. sendo o derradeiro. a inferior.

Entrementes. Isto fica bastante claro na hierarquia cristã.226 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO po e de alma. dissimulado. concebidas como degraus ou quanta de perfeição. Mesmo quando valemo-nos da modalidade ‘infinita’ é ainda o aspecto quantitativo. portanto. que persiste. do lógicodiferencial (D) [1] e do lógico-identitário (I). DEUS UNO/TRINO Anjos e demônios Mundo espiritual Homem A CRIAÇÃO corpo/alma Mundo Inanimados. embora nada assim tão excepcional: sempre o terceiro. diferindo entretanto no grau de sua perfeição. estas e outras similares hierarqui- . onde Deus e homem são ambos lógicotrinitários (I/D).1 – Hierarquia cristã dos existentes É importante notar que estas hierarquias. não importa se contado de cima para baixo ou em sentido contrário. material vegetais e animais NADA Figura 9. no seu estatuto da infinita perfeição. o Uno/ Trino (I/D). do espacial e do temporal. de estatuto lógico-dialético (I/D) para que assim se assemelhasse (logicamente) ao seu Criador. são na verdade quantitativas. embora substantivas na sua fisionomia. O homem tinha também aqui o seu lugar distinguido.

Este é o incontornável pré-requisito para que possamos vir a dispor de uma nova referência para a ordenação dos existentes. como na atualidade sói acontecer. que garantia estas hierarquias. que a pensemos de verdade. nestas cínicas (bem mais do que trágicas) circunstâncias. que desta sorte marchava pelos próprios pés para a vala comum do Cosmos. pela mensuração. pelo que se poderá então restituir ao homem a devida dignidade onto-lógica e alcançar- . na ocasional falta desta. o que é o mesmo. que não seja tão apenas quantitativa. Ele remonta à Grécia: a Parmênides. em nível dialético (I/D). todos os valores. o infalível mercado [3]. Para tanto. Acreditamos que daí partindo se consiga aportar sem maiores dificuldades à uma nova hierarquização dos existentes. desta vez o pensamento visando a História ou. em nível transcendental (I). Como fomos informados por Zaratustra. exige que confrontemos de maneira resoluta a ciência. um lugar para o homem. a renovação da hierarquia dos existentes passa a ter como condição primeira e necessária a reordenação dos modos de pensar ou. como nos quer impor a ciência. o pensamento visando o ser. Encontrar de novo. que veio justamente para aplainar. Vem de volta revigorado na Modernidade com Hegel. no limite. a seguir. em plena praça pública aconteceu primeiro a morte matada de Deus. de algum modo são o mesmo.as lógicas.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 227 as foram paulatina e inexoravelmente erodidas pela ciência [2]. não se fazendo esperar. o espírito absoluto. em nível dialético (I/ D). ao invés de nos deixarmos por ela pensar. a nosso juízo. e. veio a morte do homem. a reordenação dos seus saberes correspondentes . Recuperado o princípio. está também implícito em Platão. desta feita o pensamento visando a idéia ou o conceito. deve-se começar resgatando o velho preceito filosófico que estabelece que ser e pensar.

A partir daí nasce (2) uma nova e mais precisa concepção do homem.Etapas que levariam à re-significação da história da cultura Como primeiro momento deste processo (1) vislumbramos uma reorganização geral do território lógico. Surpreendente para todos. do que vem sendo até agora a história da cultura. I/D. Distinguiríamos. Desvelamento da estrut.o eixo das lógicas. 2. lógica das partículas elementares I a I/D/D 5.. sem dúvida. Reestruturação do território lógico. a re-significação do seu processo de auto-realização (a história da cultura).. em primeira instância. o homem restituído ao pináculo do Cosmos Figura 9. 3. . o eixo onto-lógico I.228 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mos. D.. que tem por imediato corolário a reavaliação.2).Re-significação cósmica da história da cultura. Princípio antrópico renovado. algumas que estão já em curso ou até mesmo concretizadas (figura 9. em princípio.. Redefinição do homem e da história da cultura I/D/D 1. cinco grandes etapas neste processo de des-encobrimento conceptual. (3) será constatar que a mesma estrutura lógica que parametriza a história da cultura vai se revelar igualmente razão organizadora do mundo . 4.2 . como tanto desejamos. dando ensejo à explicitação/ institucionalização de um novo e potente eixo reordenador de todas as coisas deste e doutros mundos .

Rosset). como conseqüência. para além dessas. que se re-significa a partir daí. o eixo onto-lógico Este trabalho já está de certo modo realizado [6]. Kierkegaard. Re-estruturação do território lógico.não só na tradição filosófica dos não conformistas” (Pascal. quanto hegeliano/marxista) e a lógica transcendental (implícita no cogito cartesiano. especificamente do elenco das partículas elementares. tanto da cultura em processo. que até então. como na lingüística saussureana. sempre às esgueiras. Ortega y Gasset. doravante solidamente estabelecido. irá (5) então suscitar uma re-leitura [5] da história da cultura. estará proporcionando (4) um novo fundamento ao princípio antrópico [4]. Heidegger. Depois. que se encontrava já presente . mas até então não realizado. bem próximo do modo como já são hoje concebidas. era apenas um lugar marcado. criticista-kantiana e fenomenológico-husserliana). forte ou fraca. de uma lógica da simples diferença. A homologia desvelada exata pelo comum-estruturar-se-segundo-as-lógicas. Deleuze. na antropologia estrutural e também . também. O princípio antrópico. mas também em outras áreas do saber.é de seu feitio. a sugestiva promessa do reencontro do homem e do Cosmos. agora de caráter cósmico. Começa com a recuperação das lógicas segundo a tradição: além da unanimemente reconhecida lógica clássica (aristotélica e simbólica moderna).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 229 micro-físico. sempre a meio caminho . arrola-se também a dialética (tanto platônica. quanto da base sobre a qual erige-se o universo físico. 9. teremos também de algum modo enriquecida nossa compreensão da cosmogênese (teoria do big bang).1. que ganha assim uma segunda e definitiva significação. Nietzsche. como acontecimento auroreal da história humana. fosse qual fosse a versão. pela constatação da necessidade de se assumir a existência.

. Na esfera do formalismo acadêmico em voga. D/D=D/2.um.lógica da identidade (ou transcendental) (I) e lógica da diferença (D) -. tanto paraconsistentes (ou paradoxais). D/D/D = = D/3. exemplificado pela seqüência dos números naturais (I ≈ 0. quanto paracompletas (ou intuicionistas) [7]. Uma engenhosa re-nomeação.. I/D/D/D=I/D/3. de modo natural. ter-se-ia também que considerar as lógicas de fato desviantes. D.. D/D/D/D ≈4. a lógica da dupla diferença (D/D=D/2).. que não deixa de ser por isto menos pertinente. D/D/D ≈ 3. o monóide livre fundamental. I/D/D = I/D/2. sem descanso. sugerir a hipótese de que todas as lógicas possam ser geradas a partir de apenas duas . mais um. como uma exceção. e assim por diante. facilmente identificada à lógicas clássica ou do terceiro excluído.) constitui o mais simples semimonóide livre [8]. a lógica da tríplice diferença (D/D/D=D/3).. a hiperdialética qüinqüitária (I/D/D=I/D/2). D ≈1.). I/D. noção que subsume a “intraduzível” aufheben hegeliana. Ao colocálos em confronto. vale dizer. na medida em que incorpora o essencialmente outro. um evidente sinal de sua profunda essencialidade. etc. limitando-se à mera “contabilização dos existentes” . tendo-se em conta que este é um ente formal ainda mais primitivo do que o mais simples dentre os entes matemáticos. Sabe-se que a seqüência das lógicas (I. mais um. que está aberto . através da operação de síntese dialética generalizada ( / ). Com isso são geradas a própria dialética (I/D). -. . destas quatro lógicas de base vem. enquanto que o semimonóide livre fundamental (seqüência das lógicas) é por essência criativo.230 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO na psicanálise (desde Freud e especialmente na lógica lacaniana do significante). D/D ≈ 2. verificamos que o monóide livre fundamental (seqüência dos números naturais) não gera qualquer novidade.

.3.definem níveis onto-lógicos que se articulariam de múltiplos modos. I I/D D I/D/ 2 D/ 2 I= D/ 0 I D I I/D PRÉ-I= PRÉ-D PRÉ-I PRÉ-D PRÉ-PRÉ-I= PRÉ-PRÉ-D Figura 9.. As lógicas identitárias .. I/D. I/D/2. tal como ilustra a figura 9.I.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 231 ao permanente “trabalho do negativo ..3 – Encadeamento das estruturas lógicas . sendo o mais simples dentre eles aquele que identifica a lógica superior de um nível à lógica inicial (sempre I) do nível imediatamente subseqüente.

simples produtora de um número sucessor (parte esquerda da figura 9. e ainda.4).232 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Qual o sentido profundo desta articulação? Ela nos fala da essencial correlação que precisa existir entre o estatuto lógico da realidade que tenhamos admitido e aquele do processo que a pode deveras gerar ou desvelar.4 – Processo versus realidade Em suma.4). como em Hegel. que se inaugura com Parmênides. quando comparamos diferentes modos de ser e seus respectivos processos de desvelamento. Parece-nos isto bastante intuitivo. prossegue com Platão e se reafirma com Hegel. o processo que a gera ou desvela terá que ser lógico-dialético (parte central da figura 9. Se. não .4). se estiver em causa a geração ou o desvelamento do ser lógico-qüinqüitário. a pré-disposição filosófica que identifica ser e pensar. se a realidade maior que se quer visar for a história ou o espírito absoluto. o processo que a gera ou desvela será naturalmente aquele da reiteração do mesmo. em especial. a realidade maior que se visa é a simples existência contábil. só se irá entregar no curso de um complexo processo hiperdialético qüinqüitário (parte direita da figura 9. na sua plenitude. 1 2 3 I I/D I/D I I/D D I/D/ 2 D/ 2 0 1 2 I= D/0 I D I D I= D/0 I D I I/D 0 1 Pré-I= Pré-D Pré-I Pré-D Pré-I= Pré-D Pré-I Pré-D 0 Pré-Pré-I= Pré-Pré-D Pré-Pré-I= Pré-Pré-D Figura 9. podemos ter a certeza de que este. por exemplo. como acontece na matemática.

do ser simbólico proposicional (Cassirer). Agora. Re-conceituação do homem e do sentido da história da cultura . A rigor. É o caso. no entanto. também. A partir daí a história da cultura pode ser compreendida como processo de auto-desvelamento simbólico. tomando-se como referência o eixo das lógicas. do homem como animal dotado do logos (Aristóteles). O mais avançado dos mamíferos não passa da capacidade lógico-trinitária ou dialética (I/D). assim. que lhe permite operar com símbolos plenamente convencionais. um essencial e particular comprometimento lógico que em nenhum outro lugar melhor se mostra do que nos princípios dogmáticos 9. do “inventor” da diferença clânica que viabiliza a instituição das regras de proibição do incesto e correlata obrigatoriedade da exogamia (antropologia estrutural). a simples confrontação do homem com todos os demais entes mundanos é o bastante para justificar sua colocação na posição extrema superior . nada além. Ser e pensar são o mesmo. mas apenas subsumidas.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 233 pode de modo algum ser interrompida ou esquecida. Outras conceituações não são por isso rejeitadas. torna-se possível a conceituação precisa do ser humano como ser lógico-qüinqüitártio.apenas o homem é capaz de operar em nível lógico-qüinqüitário (I/D/D=I/D/2). é bem verdade [9]. notáveis. a nível hiperdialético ou lógico-qüinqüitário. tais caracterizações constituem exemplificações concretas mais ou menos íntegras daquela capacidade lógica fundamental. objetivo do ser próprio do homem. Com a recuperação da lógica em seu sentido tradicional e mais amplo. por exemplo.2. Toda cultura teria. mormente depois que tivermos compreendido que ela é a única via que nos pode levar à subversão/superação da Modernidade.

Esta última seria a expressão simbólica coletivamente objetivada da lógica por ela assumida e sacralizada. a capacidade de longa sobrevivência produziria culturas arcaicas. onde se “inventa” o trabalho e como conseqüência. a continuidade do próprio processo histórico produziria culturas de transição. Resumidamente. come- . uma outra em que prepondera o sentido da diferença também em relação à natureza. a seguir. inclusive. especialmente quando intenso. distinguindo-se uma primeira variante onde prevalece o sentido da identidade com a natureza (cultura da pré-identidade ou pré-I) e. destes e de outros tipos não-nodais. cultura sedentária de base agrária.teríamos a seguinte seqüência de culturas nodais: pré-I. seria preciso considerar também etapas históricas precedentes em que não se teria dado ainda um passo objetivo simbólico na direção daquele desvelamento. ou seja. focalizando apenas uma área restrita . as condições de um efetivo exercício estabilizador da ordem social. Elas serão de modo genérico denominadas etapas ecológicas. Além das etapas marcadas por cada uma das lógicas subsumidas pela hiperdialética qüinqüitária (da identidade I. e que lhe confere. entretanto. de imediato. pré-D. cultura tribal. o trabalho alienado (cultura da pré-diferença ou pré-D).234 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO de sua religião oficial ou dominante. Os tipos (num sentido webberiano do termo) culturais que inauguram cada uma das etapas deste processo de desvelamento são por nós denominados culturas nodais. da diferença D. produziria culturas de tipo misto. dos bandos primitivos de caçadores/coletores do paleolítico. dialética I/D. O contato cultural.o Ocidente e o Oriente Próximo . clássica ou formal D/D=D/2 e a própria I/D/D=I/D/2). não nos ocuparemos disto.

cultura prometéica grega. cultura medieval cristã (patrística). pela primeira vez. D.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 235 çando no período mesolítico e alcançando o apogeu com os grandes impérios da Antigüidade. Cultura tribal I Cultura judaica I/D Cultura nova I/D/ 2 Cultura moderna D/ 2 Cultura grega D I 0 I = D/ Animalidade Cultura tribal D Cultura imperial agrícola I Cultura judaica I/D Cultura cristã (patrística) PRÉ-D PRÉ-I Animalidade PRÉ-I Cultura tribal PRÉ-D Cultura imperial agrícola PRÉ-PRÉ-D PRÉ-PRÉ-I Animalidade Figura 9. cultura hiperdialética qüinqüitária.5 – História da cultura. que hoje domina o mundo. por todos os títulos. porque. já capaz de se perguntar pelo ser e pela sua própria lógica (logos). I. de pré-I a I/D/2 . ainda por vir. uma cultura à medida do homem (figura 9. D/D ou D/2. cultura judaica.5). e. cultura moderna de base científica. primeira cultura que desvela e alcança a objetivação simbólica do ser lógico em geral. I/D. I/D/D ou I/D/ 2 . uma manifesta síntese das culturas anteriores. não castradora.

forças da natureza. com toda a certeza. De modo conseqüente contaríamos seis. ou o ingresso na pósmodernidade. justamente por serem entes derivados. justamente por serem mais elementares). Com isto. Falsidades mais falsidades. forte (gluônica) e fraca –. tendo como ponto de partida a recontagem do número de forças realmente atuantes na natureza [10].3. nos espera. mecanismo pelo qual se proporciona massa explícita às partículas) e a antiga força forte de Yukawa (que garantia a integridade do núcleo atômico. Trata-se basicamente de incluir. pode-se de imediato perceber a sua estruturalidade conjunta: de um lado.236 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Esta ordenação lógica das culturas é suficiente para deixar a nu o discurso ideológico que alardeia o fim da História. Preliminarmente. ao invés de apenas quatro. será preciso proceder a uma re-interpretação dos dados atuais da micro-física. fraca e forte de Yukawa. implicando menores níveis energéticos). dando-se como prova a promiscuidade de todos os estilos em arte. as delícias de não ter mais nada a pensar. Desvelamento da estrutura lógica das partículas elementares . uma nova cultura de caráter lógico-qüinqüitário. redutíveis às primeiras (eletromagnética. gravitacional e forte gluônica. com todos seus mediadores ainda não detectados. de outro. três forças compostas. que é mediada por pions). Tomando-se agora como referência o modelo 9. substituída pelo toma lá dá cá das negociações e negociatas. três forças simples (de Higgs. com todos os seus mediadores já detectados. oferecendo-se como justificativa a vigência do pensamento único e outros despautérios de igual jaez por aí forçados a circular. portanto. além das quatro forças hoje reconhecidas – gravitacional. eletromagnética. ou pior. também a força de Higgs (suscitada no processo de unificação eletrofraca.

(t) tau b s u t c d neut. que atesta a impossibilidade de sua existência em estado de isolamento. chegamos à conclusão de que devemos preservar integralmente o bloco formado pelos três pares de léptons (elétron/ neutrino do elétron. bosons fracos e fóton QUARKS: ainda existentes.1 .MODELOS PARA AS PARTÍCULAS ELEMENTARES MODELO STANDARD FERMIONS LÉPTONS QUARKS MODELO ALTERNATIVO PARTÍCULAS FUNDAMENTAIS FERMIONS BOSONS SIMPLES neut.1 nos permite uma visão comparativa do modelo standard com o modelo ora proposto.(m) mion neut. mion/neutrino do mion e tau/ neutrino do tau). que não contradiz qualquer dado empírico e simetriza. podendo ser agora redefinidos para evitar as cargas fracionárias Aceitando-se a modificação por nos sugerida. pion b. bem melhor equilibrado: TABELA 9. em termos de férmions e bosons o modelo. graviton.(e) elétron neut.(t) neut. porém.(e) elétron BOSONS: gluon. torna-se relativamente fácil comprovar a perfeita homologia .(m) tau mion gluon graviton p/Higgs COMPOST. porém.1. como entes de razão. ou seja. aceitando-se a substituição do conjunto dos seis quarks pelo conjunto dos seis bosons representativos das forças.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 237 standard (Tabela 9. substituindo os correspondentes três pares de quarks pelos três pares de bosons mediadores de forças. A Tabela 9. à esquerda). considerados entes de razão. o que não deixa de estar acorde com a experiência empírica.fracos fóton neut. Os quarks continuariam existindo. porém.

exceto uma.e[↑] = e[↓] + γ[↑↑] -. basta que acompanhemos. conforme ilustra a figura 9. tendo por condição a simples inversão de seu spin. Nos restaria apenas preencher a posição Pré-PréD. Apenas este conjunto de equações representativo da desintegração do tau e o pressuposto bastante intuitivo de que todos os bosons (mediadores de força) devam ser alocados a posições lógico-diferenciais e todos os fermions (“peças elementares” de construção) a posições lógico-identitárias. Para evidenciá-la.238 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO existente entre o elenco fundamental de partículas com as lógicas. tendo ainda disponíveis os três bosons simples (partícula de Higgs. as etapas do processo de desintegração de apenas uma partícula.6 [11]. uma a uma. por exemplo. talvez. todas as posições das estruturas lógicas. da radiação sincrotron provocada pela aceleração circular do elétron. por suposto. o tau: τ(I/D/2)= =ντ(I/D) + π(D/2)= =ντ(I/D) + νµ(I) + µ(I/D)= =ντ(I/D) + νµ(I) + νµ(I) + W(D)= =ν τ(I/D) + ν µ (I) + ν µ (I) + ν e(PrØ -I) + e(I) Como é bem sabido. com quase nenhuma hesitação. o que nos permite dar ainda mais um passo na seqüência de equações anteriores: =ντ(I/D) + νµ(I) + νµ(I) + νe(PrØ -I) + e(I) + γ(PrØ -D) + e(I). É o caso. graviton e gluon). Sendo a posi- . a mais complexa delas. um elétron pode ceder parte de sua energia cinética emitindo um fóton. são suficientes para permitir-nos preencher.

6 [12]. Não se pode ter grande dúvida de que este deva ser a partícula de Higgs. precisa receber mesmo a alocação de um boson.(mion) I/D Próton/Nêutron Tau I/D/ 2 Gluon Bos. Neutrino (elétron) I Elétron Neutr.Fracos D Pion D/ 2 I 0 I= D/ Partícula Neutrino de Higgs (elétron) D I I/D Muon Neutr. que age mediando estruturas já bem complexas (os quarks no interior dos barions). naturalmente. Teríamos então.Muon PRÉ-I PRÉ-D Partícula de Higgs PRÉ-I Neutrino (elétron) PRÉ-PRÉ-D PRÉ-PRÉ-I Partícula de Higgs Figura 9.(tau) {Quarks} PRÉ-D Fóton Graviton Fóton Elétron Graviton Neutr. a partícula de Higgs em Pré-Pré-D. isto porque o graviton só pode atuar depois que a massa houver se manifestado. Também não poderia ser o gluon.6 – Lógica das partículas elementares. com o que se completa a adjudicação das partículas elementares às lógicas conforme ilustra a figura 9. ficando o graviton junto ao fóton em pré-D e o gluon junto aos bosons fracos (W ± e Z0) em D. de pré-I a I/D/2 .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 239 ção Pré-Pré-D uma posição lógico-diferencial.

um valor completamente arbitrário . servindo justamente para estruturar o mediador de uma força composta correlata (por isso. estranhamente. b) ademais. verificamos que três são mais elementares. em sintonia com o resto do modelo. como já tivemos oportunidade de demonstrar [13]. hoje experimental e definitivamente estabelecido e para os quais os físicos não encontram uma justificativa teórica. os cientistas não querem ou não conseguem enxergar! c) o sub-modelo dos quarks é absorvido pelo novo modelo.para serem seis (como os léptons e os quarks). seria. os três níveis de férmions (agora também de bosons elementares]. a palavra mais adequada) o número de forças. contando-se seis. que não são mais hoje considerados partículas elementares . semelhantes aos quarks do modelo standard. na circunstância. com a vantagem de poderem dispensar as incômodas cargas fracionárias). . é uma exigência lógica. deixam de ser quatro . O modelo ora proposto tem inúmeras vantagens sobre o modelo standard.240 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO A alocação dos nucleons . na medida em que todos o bárions passam a ser considerados modos excitados de “partículas lógico-qüinqüitárias” (formalmente redutíveis a três “partículas lógico-trinitárias” [14]. resolve-se o grave problema de não se dispor até hoje da menor justificação na distribuição das características das forças.próton e nêutron. a redução já realizada da força de Yukawa à força forte gluônica é disto a prova irretorquível que.junto com o tau em I/D/2 tem um excepcional significado que deixamos para comentar um pouco mais adiante.no caso. todas elas com características determináveis a priori em função daquelas das forças simples). dentre as quais destacaríamos: a) acaba-se com o absurdo de não se contar corretamente (honestamente.

finalmente. seria apenas um fato: uma 9. São geralmente reconhecidas duas versões do princípio. desde o big bang o Universo já guardava em suas potencialidades a matriz do homem. Tudo isto não nos pareceria assim tão surpreendente se tivéssemos todos uma maior familiaridade com a filosofia da Física. ab initio. as determinações lógicas do mundo físico são muito mais profundas do que estariam os físicos dispostos a admitir [15]. e o homem a ele. Quanta simplicidade e clareza! Bastaria considerarmos que a Física nasce de uma decisão cultural (logo. a priori. então. quase tão drástica e dramática quanto o foi a da Filosofia para os gregos: para estes. de caráter nada experimental). espaço e matéria)! O princípio antrópico [16] emerge da constatação de que admitidas variações.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 241 os estados lógico-qüinqüitárias de mínima energia são ocupados pelos nucleons. ao homem. apesar de todas as evidências acerca da incomensurável diversidade fenomênica do mundo. De fato. d) e. duas interpretações do que. para os modernos é apenas algo levemente mais complicado . eis a essência do princípio. forçando-se um pouco a mão fecha-se o círculo: este Universo destinava-se. Admitindo-se que só o homem é capaz de conhecer as leis que regem o Universo e suas respectivas constantes. a realidade (desejada) é o ser-um. ainda que diminutas nos valores das constantes universais [17].4.o ser-uno-trino (tempo. Conclusão: se as constantes universais sempre o foram constantes e universais. conforme o acima exposto. transtornar-se-ia de tal sorte a história do Universo que se faria impossível o advento do homem. o mais importante: põe-se às claras a estrutura lógica subjacente ao elenco das partículas elementares. o próton e o nêutron. a nosso ver. Princípio antrópico renovado .

que. uma versão fraca. O princípio. se fossem o mesmo. conforme Hugh Everett. fruto de uma única tirada. ou seqüenciais. tratar-se-ia da introdução de uma causa final). ainda sofre o repúdio. todas elas resultantes de flutuações quânticas de um “vácuo” altamente energizado (universos aleatórios. em que os valores das atuais constantes universais seriam na verdade uma realização totalmente probabilística. Para estes críticos. teríamos que pensar a questão das constantes concomitantemente à da estipulação das formas funcionais. para a . não temos visto mencionado aquele que nos parece dentre todos o mais decisivo dos argumentos. talvez. o ajustador de constantes. de parte de um Deus que desejava ver por terceiros louvada sua bela obra. se fossem deuses diferentes. Entrementes. uma entre inumeráveis outras já realizadas ou em processo permanente de realização. garantido o valor das constantes universais. em que se pressupõe que ocorreu um pré-ajuste intencional das constantes. a não aceitação de que se introduza no domínio científico outra espécie de causa que não a eficiente (no caso. um pouco menos na fraca. mas o simples produto de um descontrolado impulso especulativo. que desmoraliza a versão forte e debilita aquela que já se tem como versão fraca do princípio: o que determina o curso do Universo não é apenas o valor das constantes. haveríamos que pressupor também um deus montador de formas funcionais.242 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO versão forte. da maioria dos cientistas. o princípio antrópico não seria um verdadeiro princípio científico. por exemplo. mas fundamentalmente a forma das equações. Dentre os mais freqüentes e potentes argumentos que lhe são contrapostos destacaríamos dois: primeiro. não se estará automaticamente assegurando o aparecimento do homem. mais na sua versão forte. além do deus ajustador de constantes. Assim sendo. segunda. paralelos. segundo John Wheeler [18]). questão cujo sentido estaria ainda por ser precisado.

não passou de uma intuição ainda obscura. ele não poderia mesmo consumar-se. de outro a antropogia filosófica sustentada por uma lógica ressuscitada. e de outro a história da cultura como processo de desvelamento do ser (lógico) do homem é. pela lógica hiperdialética qüinqüitária que. porém. no entanto. numa versão ainda mais radical. em especial. de um lado. e aquela que . na medida em que não falamos apenas de condições gerais de possibilidade de uma convergência. afora a grandiosidade da intenção. mas. mas como uma antropologia renovada. realizado. A homologia entre. ainda permanece não visitado. ele requer também o comparecimento efetivo e independente do homem através da antropologia. apenas a partir da física ou da cosmologia. pelo menos. que caracteriza o elenco das partículas elementares. Por definição mesmo do que seja um encontro. Podemos assim afirmar que estamos frente a uma reafirmação do antigo principio. não seria propriamente um deus. a cosmologia/física. das modalidades de crítica contra ele até hoje assacadas. Como então sair de tal imbroglio? Somos de opinião que o princípio. o conjunto formado pelas partículas elementares. sim. até hoje. mas apenas um demiurgo delegado ou subcontratante. de simples demarcação de um lugar de encontro que. traria ao princípio um verdadeiro sentido que o deixaria a salvo. nos moldes daquela por nós já delineada [19]. de um lado. no caso. é marca distintiva essencial do ser humano. a nosso juízo. o novo fundamento que necessitávamos para o princípio antrópico. Isto sim. se estaria carecendo de uma justificação para o princípio antrópico que conjugasse. entendida esta não como uma entre outras das chamadas “ciências humanas”. para nós. tendo por base uma concepção alargada da lógica. de um fato extraordinário: a perfeita homologia entre a estrutura lógica (I/D/D). Em suma.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 243 nossa sensibilidade.

serem também alocadas à mesma posição I/D/D . se constitui no paradigma concreto da logicidade qüinqüitária? Para responder é necessário compreender como “a partir do” tau podem se formar estruturas homólogas. D/D ou D/2 (porque baseadas no conhecimento objetivo do mundo). rever nota 5 deste capítulo). por isso. mais estáveis. porém. a propósito. próton e nêutron. Mesmo considerando que o princípio já esteja suficientemente justificado.4) é ocupada pela partícula tau. Que pode isso significar.referimo-nos aos nucleons. alça o Universo à altura do homem. como acima mostrado. Acontece que existem outras partículas (barions) de mesma estrutura. o que de certa forma rebaixava o homem. entre mundo e pensamento do mundo. ou seja. enquanto que. a correspondência se estabelece a nível qüinqüitária I/D/D (a leitura da estrutura das partículas eqüivale à leitura de um texto. inversa e coerentemente. ao cabo de 4 etapas. A similitude entre a lógica das partículas e a lógica do ser humano vai a detalhes verdadeiramente insuspeitáveis. É importante observar que as antigas versões do princípio antrópico estabeleciam uma correspondência homem/universo a nível científico. em função de que ela se desintegra. em 5 partículas realmente fundamentais e estáveis: τ = ντ + νµ + νµ + νe + e. não precisamos temer os riscos de ir ainda um pouco mais longe. mas de nível energético mais baixo (menor massa) e por conseqüência bem mais estáveis [20]. que precisam. se o tau. o que. na versão por nós ora proposta.244 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO referencia o processo de auto-realização cultural do homem. Vimos que a posição I/D/D no quadro lógico das partículas (figura 9. Isto é realmente possível através da substituição do neutrino do tau .

quando isolado.7 – O tau e os nucleons O nêutron (I/D/D). TAU PRÓTON ( e +e) 0 NÊUTRON (W+q) e e e e e e W e q Figura 9. o que vai “ensejar” justamente a formação de um próton. por não poder existir em estado de isolamento. como ilustra a figura 9. . sobra um quark (q)(I/D). determinada por seu modo de desintegração.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 245 na estrutura do tau. Nesta última os neutrinos do mion (nm) já estão saturados (por estarem ali presentes o neutrino do mion e a sua respectiva antipartícula). é sem qualquer dúvida feminina [21] . que por sua vez também se desintegra num elétron (e)(I) e num neutrino do elétron (ne)(Pré-I). a outra. que. “ensejando” precisamente a formação de um nêutron. usa a própria energia cinética ou a interação com outra partícula para se transformar num próton (I/D/D). isto é. por ser mais pesado do que o próton.7. por um anti-elétron (e). razão pela qual só existem duas possibilidades de substituição do neutrino do tau (nt): uma.fundada num boson fraco W (D) e num quark q(I/D). por um neutrino do elétron (ne). se desintegra (vida média de 925 s) pela força fraca. emite um W(D). Com a desintegração. Vê-se que a “sexualidade” do nêutron.

É interessante observar que o nêutron (feminino) só se conserva como tal na proximidade do próton (masculino). e esta é a razão pela qual a partir daí poderem se formar os demais agregados físicos – átomos. parte inferior). a criança. como acreditava Freud?! O próton. “masculinizando-se”. fundada num elétron e(I) e num píon p(D/D= =D/2). No processo de desenvolvimento normal. o nêutron se desintegra. O nêutron. a desintegração almejada só poderia se dar pela emissão de um píon zero. constitui-se na mais estável de todas as estruturas qüinqüitárias. mas sim a passagem a um nível de estruturação lógica máxi- . servindo apenas para ampliar. macromoléculas e assim por diante (figura 9.8. O mais surpreendente é que vamos encontrar uma situação absolutamente análoga quando examinamos o processo de desenvolvimento do ser humano. após enfrentar e superar a problemática edipiana consumaria sua “opção” sexual definitiva e entraria numa fase de latência [24] à espera da maturação orgânica funcional. segundo Freud. por ser a partícula de menor massa. Entretanto. como já dissemos.GUT). isolado.246 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO A comunidade dos físicos aposta na desintegração do próton como um dos modos de referendar a atual proposta de unificação da força forte com a força eletro-fraca (Teoria da Grande Unificação . ainda mais. De qualquer modo. Para nós não haveria propriamente tal fase de latência. não seria exagero dizer) desintegração foram negativas. quando em interação com o próton no núcleo atômico. deixando como resto um elétron. todas as experiências visando a comprovação da aludida (ardentemente desejada. moléculas. embora fisiologicamente definida macho ou fêmea. no interior do núcleo. o valor estimado da vida média do próton (já agora superior a 1032 anos [22]). também se torna estável [23]. Sua “sexualidade” é pois inequivocamente masculina. Só existiria então um tipo de “energia sexual ou libido”.

caracterizada pela auto-suficiência e onipotência que a incapacita à composição de agregados estáveis de nível superior e. instável. viria para obrigála a uma auto-realização. Muitos psicólogos já chegaram à conclusão de que a criança.8 – Agregação para além de I/D/D Assim.ENTRE PARTÍCULAS ÁTOMOS/MOLÉCULAS TAU I/D/ 2 NÊUTRON (I/D)/(D) NÚCLEOS I/D/2 (I)/(D/2 ) D/ 2 PRÓTON PION Figura 9. AGREGAÇÃO ALÉM DE I/D/ . entretanto.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 247 ma I/D/D=I/D/2. ainda de nível lógico- . em certo momento do seu desenvolvimento (lógico/lingüística). que de certo modo caracteriza o andrógino. ainda por cima.ENTRE HUMANOS GRUPOS SOCIAIS ANDRÓGINO 2 I/D/ 2 FEMININO (I/D)/(D) FAMÍLIA I/D/2 MASCULINO (I)/(D/ 2 ) D/ 2 AGREGAÇÃO ALÉM DE I/D/ 2 . assume ares de onipotência bem de acordo com a postura andrógina a que nos referimos. veríamos a criança ingressar numa fase crítica. A maturação sexual. ao invés de ingressar numa tranqüila fase de espera. deixando-a suscetível de regredir (se desintegrar) a estados anteriores menos estruturados.

Ele o faz valendo-se do mito dos andróginos.5. a propósito. isto é. estava tudo já escrito no diminuto par de nucleons próton e nêutron . Vimos anteriormente que em suas grandes linhas a história da cultura era aquela do autodesvelamento do ser lógico-qüinqüitário do homem. Em outras palavras. Como se pode ver. Com o princípio antrópico consolidado.248 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO qüinqüitário. correspondente a uma das duas possíveis diagonais de I/D/D: ou (I)/(D/D). feminina. rebeladas contra os deuses. viria corroborar a tese da significação cósmica da sexualidade humana. evidente: o homem (ou a cultura) é o “lugar” onde o Universo dá conta de si mesmo em seu mais elevado nível. isto é. Tudo isto já aparece de forma alegórica no Banquete de Platão [26]. serem secionadas bem ao meio. condenadas assim à eterna busca de uma integridade perdida.primeiro a “família” [25]. tiveram como castigo. por tão grande ousadia. mais estável. Estes foram criaturas que.esperando apenas por ser “lido”. Esta seria a origem mítica do desejo e do amor. o que. Re-significação cósmica da história da cultura . Malgrado a irrecusável homologia entre a estrutura das partículas elementares e as lógicas opera- 9.. depois a assembléia de pares. quando ali é dada a palavra a Aristófanes para que exponha sua concepção do desejo e do amor. a nação etc. porém. Ela é uma realização a nível superior (consciente e simbolicamente representada) da lógica qüinqüitária no Universo. A partir daí então é que se podem constituir os agregados humanos . ou (I/D)/(D). masculina. obrigá-la a assumir uma sexualidade propriamente humana ou socio-lógica. ficamos certos de que o homem representa o ponto mais alto do ser do mundo e o seu processo de auto-desvelamento ganha um sentido cósmico.

FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 249 das pelo homem. o ADN do espírito [28]. sim.massa. que postula a presença de um certo grau de consciência ou subjetividade a nível das próprias partículas elementares.. A consideramos totalmente descabida. é uma transposição formal ou estrutural da microfísica para o homem do tipo programa produto. mas não num grau menor ou imperfeito. depois aos orgânicos até a constituição do código genético: chega-se à vida. Prossegue com a evolução propriamente biológica que começa com os seres unicelulares e vai até os cordados. outro. tão apenas na modalidade programática. Sem receio poder-se-ia então dizer que as partículas elementares seriam. propriamente físico ou concreto. Pelo contrário. Neste sentido. átomos. à animalidade estrito senso. spin. Sob o primeiro destes aspectos as partículas caracterizar-se-iam individualmente por um conjunto de propriedades estritamente físicas mensuráveis . na medida em que deixa transparecer uma conotação substancialista da consciência. como dissemos. começa então a evolu- ← . carga etc. pode-se dizer que as partículas elementares contêm em potência ou programaticamente a subjetividade. encampando a visão teillardiana [27]. devemos afirmar que a contém de forma completa e perfeita. diríamos. é importante frisar que não estamos. numa ainda mais sofisticada e mal conhecida modalidade programática do programático. porém. Diríamos que chega-se. ou talvez mesmo. A partir daí dá-se um processo ascendente ou evolutivo que passa pela formação dos núcleos. Precisemos um pouco mais esta idéia: as partículas elementares. se apresentariam sob um duplo aspecto: um. inclusive a subjetividade humana. ou coisa similar. simbólico. ainda que de uma maneira um tanto alegórica. compostos inorgânicos. assim. O que se pode aceitar. para sustentarmos que contêm. seres vivos dotados de sistema nervoso central. de modo algum.

que nos diz direta e imediatamente. A nosso juízo. I/D/D -. é um mundo para o homem e vice-versa. O elenco de partículas elementares se apresenta.I. desde a origem. O que lemos aí outra coisa não é senão o código genético do “espirito humano”. concreta. também diretamente lê-las. por fim. faz então emergir a cultura. que este mundo. I/D. ao invés de só mensurá-las e/ou determinar empiricamente suas múltiplas formas e comportamentos agregados. à cultura que se põe à altura do próprio homem. devemos esclarecer que ele se refere não a partículas isoladas. de sorte que.250 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ção propriamente animal. Quanto ao aspecto simbólico. a partir do que entramos num processo de evolução caracteristicamente socio-lógico. a cultura nova lógicoqüinqüitária (I/D/D). ou equivalentemente da diferença clânica.6. um processo sobretudo de desenvolvimento do sistema nervoso central que conduz à formação e desenvolvimento da neocórtex. o processo seguirá inexoravelmente até o surgimento da cultura nova qüinqüitária. pela nova leitura. uma mensagem cifrada: em algum lugar. como uma estrutura significante. vale dizer. pois. advirá o homem e a cultura como processo de sua auto-realização. de natureza simbólica. algum dia. Um segundo modo de realização haveria. de modo alternativo. Pode-se. chegando-se deste modo ao homem. assim. Como mostramos na figura 9. A “invenção da gramática. em grau de plenitude. mas ao seu conjunto básico completo. considerar o processo de ascensão físico-químico-biológico como um dos modos de realização da mensagem. as partículas se organizam numa obediência rigorosa à seqüência e às articulações das estruturas lógicas . que leva ao surgimento do homem e da cultura e. . uma primeira consecução. podemos. da cultura que desvela e assume. a destinação lógico/emocional do homem.

com o conseqüente abrasamento da Terra. densidade. e passa a ser. portanto. sim. o próprio Universo. exaurido.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 251 É pelo menos curioso observar que o ADN do espírito e o “ADN da vida material estavam potencial e concomitantemente definidos nas partículas elementares desde o big bang. das que são enquanto são. O antropologismo deixa. Há tempo mais do que suficiente para que o homem (na verdade. que levará o Sol. pelo grau de realização de sua destinação. das que não são enquanto não são. auto-desvelamento ou objetivação simbólica do seu modo de ser lógico. se mude de um lugar para outro. ou mesmo pelo sofisticado sinal de sua curvatura -. ser feita (ou só) referenciada a parâmetros físicos . temperatura de seu ruído de fótons ou neutrinos de fundo. justo onde impera o seu máximo vigor lógico-qüinqüitário). é e será sempre sua pró- . de ser um grave pecado ou mero infantilismo ontológica para transformar-se em exigência de uma superior coerência. ainda que esdrúxula. mas sim pelo mesmo parâmetro que mede a cultura. a transformar-se numa estrela gigante vermelha. por exemplo. a vida humana sobre a Terra. como em geral se imagina. não é mais.pela idade. O episódico. a partir de agora. ou seja. que é. A avaliação última ou mais significativa do estado do Universo não pode. afinal. separação espírito/matéria. estas considerações são mais do que suficientes para liquidar de vez com a persistente. volume. o esgotamento do processo de queima do hidrogênio. Entretanto. Ademais. o que nos leva a concluir que a vida teve que se realizar para que o espírito pudesse deveras se realizar. o primeiro só se poderia realizar tendo a segunda como suporte. sobretudo. para onde. Assim já o pressentira Protágoras: o homem é a medida de todas as coisas. Não nos deixemos surpreender daqui para frente com a repentina inversão de muitas significações. por isso.

Como podemos doravante sustentar que a vida não tem sentido? Que nossa vocação é mesmo o niilismo? Que causa ainda maior estaríamos exigindo para admitir que a vida vale a pena? Diante destes fatos. damo-nos conta agora de que sua chegada é um acontecimento maior não apenas na história da humanidade. hoje.252 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO pria morada. mas igualmente daquela do próprio Cosmos. com respeito á cultura nova lógico-qüinqúitária. que haveria de mais degradante. do que a deserção (dos que o sabem agora e dos demais. que já bem antes a adivinhavam) da luta pelo advento da cultura nova lógico-qüinqüitária? . Particularmente.

culturas lógico-identitárias . a que denominamos cultura nova lógico-qüinqüitária . greco-romana (D) e científica ou moderna (D/D=D/2) [4]. nós [3]. o eminente historiador britânico. as denominamos.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 253 10 Superação das idolatrias – a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária La religion. opondo culturas do tempo e do espaço. dos impérios de base agrícola da Antigüidade (pré-D). en tant qu’elle est une préoccupation ultime. vocacionada para a temporalidade e para a conquista de um superior patamar de espiritualidade. tomando como exclusivo parâmetro a lógica. ora materialistas. Por este simples vai e vem histórico e tendo-se ainda em consideração o caráter cínico materialista contábil da Modernidade. est la substance qui donne son sens à la culture. ora espiritualistas. Paul Tillich – Théologie de la culture Toynbee [1]. já discriminava vagas civilizatórias alternantes. et la culture est la totalité des formes à travers lesquelles la préoccupation fondamentale de la religion peut s’exprimer. o preclaro teólogo teuto-americano da cultura. Paul Tillich [2].e culturas lógico-diferenciais neolítica. podemos de pronto inferir que a esta última irá suceder uma cultura da linhagem lógico-identitária. respectivamente. faz discriminação similar.dos bandos de caçadores/ coletores do paleolítico (pré-I). judaica (I) e cristã patrística (I/D) .

um pouco que seja. Nela veremos a revivescência de uma autêntica e consistente religiosidade. teológico) e penetrar. por conseqüência. com o Absoluto. que ela estará ressurgindo integralmente renovada em seus fundamentos e em suas práticas. em sua significação mais profunda. nos deverá trazer de volta a preocupação. à vera. seguiremos o seguinte roteiro: A l gica ressuscitada O eixo onto-l gico aberto Comprometimento l gico da cultura Dire ª o e sentido da morada divina O homem como ser l gico-q inq itÆ rio Desejo de ser (menos) da cultura Reversª o do desejo na cultura q inq itÆ ria ExperiŒ ncia da ausŒ ncia do transcendente Deus Uno-Trino-. contudo. Nosso propósito aqui será o de tentar explicitar as preliminares deste renascimento religioso (e. Para tanto. portanto. confundido com a ola carismático/ midiático/supermercadológica que invade e infecta hoje os interstícios.254 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO (I/D/D=I/D/2). com o transcendente e lá pelos seus confins.. desvãos e madrugadas da cultura científica dominante.. o que não pode ser. devendo-se atentar. -SeptendecitÆ rio Antecipa ı es na Revelação Cristã . Esta cultura nova. de modo algum.

haverá o despertar de um real desejo coletivo pelo transcendente. De um lado. A partir daí. como sói acontecer. e a recuperação do sentido da experiência interpessoal da ausência do transcendente – é o que nos irá reto conduzir ao desvelamento pós-idolátrico do Absoluto Uno-Trino-.A lógica ressuscitada e a instituição de um eixo onto-lógico aberto . se constitui necessariamente como “experiência de uma ausência ou de uma falta”.. De outro lado.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 255 Partimos. que. sem nenhuma dúvida. de maneira conseqüente. implícitos na lógica dos diversos modos da Revelação Cristã. A convergência destas três poderosas determinações – o desvelamento da direção em que se possa buscar o Absoluto. da lógica ressuscitada que irá se constituir no grande eixo paramétrico a referenciar todos os existentes..1. de algum modo. apenas formal. Mas a abertura desta possibilidade. Este trabalho já está de certo modo realizado [5]. deverá vir ainda acompanhada de dois outros acontecimentos de grande significação para a história humana. agora voltado para o mais alto.-Septendecitário (I/D/D/D/D= =I/D/ 4 ). mas geralmente mal percebida: a experiência interpessoal do transcendente. Com isso. não teremos dificuldades em reconhecer. a reorientação do desejo coletivo. teremos definido a direção e o sentido em que se pode encetar. Começa com a recuperação das lógicas segundo a bem estabelecida tradição filosófica: além da una- 10. o advento da religiosidade lógico-qüinqüintária. como tal. já antecipam este grande acontecimento da história humana que será. a busca do Absoluto. acontecimento deveras revolucionário. os traços que. atuais e concebíveis. haverá a resignificação dramática de uma experiência bem cotidiana. representando o definitivo abandono da idolatria até hoje vigorante em todas as culturas históricas.

.. não só na tradição filosófica dos “não conformistas” (Pascal.é de seu feitio. para além dessas. sempre às esgueiras.) constitui o mais simples dos . sugerir a hipótese de que todas as lógicas possam ser geradas a partir de apenas duas: da lógica da identidade (ou transcendental) (I) e da lógica da diferença (D). A geração se daria através da operação de síntese dialética generalizada ( / ). D. I/D/D=I/D/2. Heidegger. são geradas a própria dialética (I/D). vem. mas também em outras áreas do saber. a lógica da tríplice diferença (D/D/D=D/3) e assim por diante. Uma arguta re-nomeação destas quatro lógicas de base . Ortega y Gasset. de modo quase natural. sempre a meio caminho -. a lógica da dupla diferença (D/D=D/2). D/D=D/2. D/D/D=D/3. Com isso.. de uma lógica da simples diferença. Na esfera do formalismo acadêmico em voga. noção que subsume a “intraduzível” aufheben hegeliana [6]. como na psicanálise (desde Freud e especialmente na lógica lacaniana do significante) e também na antropologia estrutural. embora desviantes. Kierkegaard. Esta já se encontrava presente . I/D. Sabemos que a seqüência das lógicas (I. como uma honrosa exceção. pela constatação da necessidade de se assumir a vigência.que não deixa de ser por isto menos correta e pertinente -.256 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO nimemente reconhecida lógica clássica (aristotélica e simbólica moderna). Nietzsche. a hiperdialética qüinqüitária (I/D/D=I/D/2). Deleuze). Depois. arrola-se também a dialética (tanto platônica. facilmente identificada à lógicas clássica ou do terceiro excluído. I/D/D/D= =I/D/ 3 . ter-se-ia também que considerar as poucas lógicas de fato lógicas. sem descanso. as paraconsistentes (ou paradoxais) e as paracompletas (ou intuicionistas). quanto hegeliano/marxista) e a lógica transcendental (implícita no cogito cartesiano. no criticismo kantiana e na fenomenologia husserliana).

I/D.1. As lógicas identitárias . . I/D/2. sendo o mais simples dentre eles aquele que identifica a lógica superior de um nível à lógica inicial (sempre I) do nível imediatamente subseqüente. I I/D D I/D/ 2 D/ 2 I= D/ 0 I D I I/D PRÉ-I= PRÉ-D PRÉ-I PRÉ-D PRÉ-PRÉ-I= PRÉ-PRÉ-D Figura 10.Encadeamento das estruturas lógicas . um evidente sinal de sua profunda essencialidade.1 ... tendo-se em conta que o semimonóide é um ente formal ainda mais primitivo do que o mais simples dentre os entes matemáticos . tal como ilustra a figura 10.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 257 semimonóides livres [7].os números naturais..I.definem níveis onto-lógicos que se articulariam de múltiplos modos.

dentre os quais poderá estar e imperar o inexcedível. na posição I/D. O eixo lógico desvelado. acreditamos que agora. o ser discursivo e o homem. Devemos notar que a simples instituição do eixo onto-lógico tem. que nos traz a possibilidade formal de conceber algo para além do humano. prontas a aceitá-lo como uma “força” ou uma “energia” cósmica.258 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Todos os entes mundanos podem ser posicionados nesta escala paramétrica constituída pelas lógicas: o puro ser. de imediato. em nível lógico-dialético. pois impede. é a recusa em aceitar um Deus de semblante humano . o ser simbólico e os animais capazes de operá-lo. Em princípio. um velho de longas barbas -. se venha a imaginar um Absoluto abaixo do nível humano. que a institui em nível lógico-transcendental. entretanto. A este respeito. permite também recapitular e estender a verdade da mais vetusta e essencial dentre as correlações filosóficas: aquela que vige entre ser e pensar. Ela remonta a Parmênides. temos aí uma escala aberta. vale dizer. é retomada por Hegel. na posição I. um poderoso efeito profilático conceitual. Um verdadeiro disparate. pseudo I/D) [8]. Como o menor (logicamente) pode criar o maior? O segundo é o de . A partir de então. pois o “velho barbudo” é de estatuto lógico I/D/2. na melhor das hipóteses. seu exclusivo usuário. vale a pena citar três equívocos doutrinários bem atuais.diz-se jocosamente. estando. definitivamente. o Absoluto. presentemente a reconhecemos também válida em nível lógico-qüinqüitário. bastante comum entre as pessoas “mais educadas” de nossa sociedade. e assim tudo o mais. pode o eixo lógico complementarmente assumir um superior caráter onto-lógico. enquanto que forças e energias são de estatuto lógico D (ou. na posição superior (I/D/D=I/D/2). ainda mesmo quando se lhe venha a atribuir o esturdio caráter de infinitude. é importante observar. O primeiro.

E por que não também para a filosofia? De certo modo. não há bons e maus infinitos – pelo menos para a teologia.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 259 boa parte dos atuais seguidores do pentecostalismo [9]. mas um verdadeiro número. Ao contrário do que acreditava Hegel. Ao fazer do homem a arena onde se defrontam o espírito de Deus (I/D) e o maligno (D). o número infinito não é algo além ou acima dos números. O fundamental é. tornou-se possível. tanto católica quanto protestante. aliás. A noção de infinito é essencial e irredutivelmente quantitativa. O mesmo vale para o segmento de reta infinito: ele é necessariamente um segmento de reta. só que maior do que qualquer segmento que se possa efetivamente exibir. o que se nos afigura um absurdo. o segmento. Isto vale para qualquer tipo de infinito. como já tivemos oportunidade de alertar [10]. corretamente. é da essência de qualquer infinito manter-se qualitativamente o mesmo que o seu finito de referência. pois. A grande questão é que deste modo o homem passa a ter um estatuto lógico superior àquele do Espirito Absoluto. Superação da idolatria com o advento da cultura lógico-qüinqüitária Com a recuperação da lógica em seu sentido tradicional e mais amplo. pois. que o número permaneça qualitativamente número. 10.2. Por exemplo. é de adjudicar o atributo infinito ao Absoluto. aliás muito freqüente na teologia cristã. o estatuto lógico-qüinqüitário ((I/D) x (D)=I/D/2).o . como vimos. O terceiro equívoco. A esperteza de se introduzir a “noção” de infinito qualitativo é totalmente descabida. lhe adjudicam automática e. entre outras coisas de grande importância. qualitativamente segmento. só que maior que qualquer número que se possa de modo ostensivo apresentar. o que só faz obscurecer o seu entendimento. fora do estrito âmbito da matemática. que se alcançasse uma conceituação precisa do ser humano . todo infinito é péssimo.

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ente lógico-qüinqüitártio por excelência [11]. A simples confrontação do homem com todos os demais entes mundanos é o bastante para justificar sua colocação na posição mais elevada do eixo das lógicas, visto que apenas ele é capaz de operar em nível hiperdialético ou lógico-qüinqüitário (I/D/D=I/D/2). O mais avançado dos mamíferos não vai além da capacidade lógico-trinitária ou dialética (I/D), esta que lhe permite operar com símbolos convencionais acabados, mas não com o discurso articulado (ou, o que seria sua principal pré-condição: operar com os conectivos lógico-proposicionais). A partir daí, a história da cultura pode ser compreendida como o processo do progressivo autodesvelamento simbólico objetivo do ser próprio do homem [12]. Toda cultura teria, assim, um essencial e particular comprometimento lógico que em nenhum outro lugar melhor se mostra do que nos princípios dogmáticos de sua religião oficial ou dominante. Esta última seria a expressão simbólica coletivamente objetivada da lógica por ela assumida e sacralizada, e que lhe confere, inclusive, as condições de um efetivo exercício estabilizador da ordem social. Os tipos (num sentido webberiano do termo) culturais que inauguram cada uma das etapas deste processo de desvelamento são por nós denominados culturas nodais. Além das etapas marcadas por cada uma das lógicas subsumidas pela hiperdialética qüinqüitária (da identidade I, da diferença D, dialética I/D, clássica ou formal D/D=D/2 e a própria I/D/D=I/D/2), seria preciso considerar também etapas históricas precedentes em que não se teria dado ainda um passo objetivo simbólico na direção daquele desvelamento. Elas serão, de modo genérico, denominadas etapas ecológicas, distinguindo-se uma primeira variante onde prevalece o sentido da identidade com a natureza (cultura da pré-identidade ou pré-I) e, a seguir,

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uma outra em que prepondera o sentido da diferença também em relação à natureza, ou seja, onde se “inventa o trabalho e de imediato o trabalho alienado (cultura da pré-diferença ou pré-D). O contato cultural, especialmente quando intenso, produziria culturas de tipo misto; a continuidade do próprio processo histórico produziria culturas de transição; a capacidade de longa sobrevivência produziria culturas arcaicas; destes e de outros tipos não-nodais, entretanto, não nos ocuparemos aqui. Resumidamente, focalizando apenas uma área restrita - o Ocidente e o Oriente Próximo - teríamos a seguinte seqüência de culturas nodais: pré-I, cultura tribal, dos bandos primitivos de caçadores/coletores do paleolítico; pré-D, cultura sedentária de base agrária, começando no período mesolítico e alcançando o apogeu com os grandes impérios da Antigüidade; I, cultura judaica, primeira cultura que desvela e alcança a objetivação simbólica do ser lógico em geral; D, cultura prometéica grega, já capaz de se perguntar pelo ser e pela sua própria lógica (logos); I/D, cultura medieval cristã (patrística), por todos os títulos, uma manifesta síntese das culturas anteriores; D/2, cultura moderna de base científica, que hoje domina o mundo; e, ainda por vir, I/D/2, cultura hiperdialética qüinqüitária, não castradora, porque, pela primeira vez, uma cultura à medida exata do homem. Como já visto [13], até que chegue a termo o processo de auto-desvelamento lógico da cultura, o dinamismo social tem se nutrindo, ainda que possa parecer paradoxal, de um desejo de regressão a níveis lógicos inferiores ao que teria já sido alcan-

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çado pela humanidade, por isso, em essência, um desejo de poder ou de morte, como se diria no jargão freudiano. Note-se que o mais velho ancestral do desejo de morte é coetâneo à própria instituição da cultura (I/D/2), como desejo de retorno à animalidade (I/D), que é logicamente eqüivalente ao desejo de violação da proibição do incesto. O que Freud não teve chance de perceber foi que, chegando a humanidade à altura de si mesma, vale dizer, ao desvelamento de seu privativo ao mesmo tempo que constitutivo caráter lógico-qüinqüitário (I/D/2), não teria ela outra alternativa senão redirecionar este seu desejo mais íntimo, desta feita, para cima, pela primeira vez em direção àquilo que lhe fosse verdadeiramente transcendente. Recordando, deuses já foram o todo ecológico e seus elementos - rios, lagos, montanhas e outros mais - já foram o Uno e o Uno/Trino, o múltiplo trágico e, quando reiterado, destarte, o múltiplo calculável, em geral, infinitamente mais isto e mais aquilo, entrementes, concebidos sempre abaixo da potencialidade lógica do apenas ser humano, de modo a que jamais escapassem ao estrito controle das instâncias sacerdotais. É precisamente isto que irá definitivamente mudar. Não há dúvida de que a sacralização da lógica de uma cultura tem por si um papel crucial na estabilidade desta cultura, podendo por isso ser considerado um invariante cultural. Entretanto, o fato da lógica assim simbolicamente sacralizada ter estado reiteradamente abaixo do nível lógico dos homens em particular dos homens que constituem a classe sacerdotal encarregada de zelar pelo sagrado -, dava ensejo a que estes, maliciosamente, pusessem a sobredita “superioridade” lógica para funcionar em seu próprio proveito. Mantendo deus em estado de total submissão podiam exercer um tirânico controle social, fosse de modo direto (por exemplo, sociedades teocráticas da América pré-colombiana,

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fase primeva da história egípcia etc.), fosse indiretamente, associando-se à plutocracia dominante (por exemplo, o Brasil, por quase toda sua história). Foi nestas condições que a idolatria ganhou um suplemento de valor que a fez ainda mais prosperar. A cultura Moderna, como suas antecessoras, não falta a este padrão, como mostra a parte esquerda da figura 10.2. Entrementes, com o advento da cultura nova lógico-qüinqüitária, a sacralização terá que incidir sobre a própria lógica hiperdialética qüinqüitária, o que automaticamente retira a possibilidade da dominação lógica do sacralizado, inviabilizando, por conseqüência, que se faça da simples administração religiosa um meio de dominação social. Mesmo que ocorresse uma acidental idolatria lógico-qüinqüitária, ou seja, um humanismo sacralizado, ele seria bastante instável e logo superado no processo de busca de uma mais consistente religiosidade.
CULTURA MODERNA CULTURA QÜINQÜITÁRIA
DESEJO DO REALMENTE TRANSCENDENTE
2

ESCOLÁSTICA

D/2

DESEJO INCONSISTENTE

I/D/

BIOPIROTECNIA
D/
2

I/D D

A FÍSICA DESEJO DO UNO-TRINO COMO DESEJO DE MORTE OU DE PODER

I/D

FÍSICA

Figura 10.2 – A reversão do desejo na cultura lógico- qüinqüitária Acresça-se ainda que a cultura lógico-qüinqüitária não pode, por múltiplas e ponderáveis razões [14], sustentar um desejo para baixo - no caso, este seria

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o desejo do ser-sistêmico abandonado pela lógica D/D, que se teria deixado subsumir por I/D/D -, tal como veio ocorrendo com as demais culturas. Dentre aquelas razões, destacaríamos o fato de que o advento da cultura qüinqüitária representa a chegada a uma destinação, a um estado de transparente autenticidade. Insistir, a partir de então, num desejo para menos, é decidir pela recusa de si próprio! Em outras palavras, a tensão entre ser e desejo de ser (que antecede mesmo a tensão entre ser e dever ser), que agora com mais precisão caracterizaríamos como desejo de ser (menos), não se sustenta na plenitude lógico qüinqüitária, a não ser que o diferencial de ser se re-oriente, se transmude em um novo desejo de ser (mais). Assim, chegando a humanidade à cultura lógico-qüinqüitária, veremos seu desejo mais profundo se inverter, deixar de ser um desejo de regressão ou de morte para se constituir num desejo de progressão e de vida. Ver parte direita da figura 10.2. Isto tudo irá representar uma profunda revolução psíquica e social, na medida em que a humanidade estará, desta sorte, alcançando pela vez primeira um estágio de autêntica e consistente religiosidade, abandonando para sempre o que foi sua disposição lógico-idolátrica de muitas e muitas eras. Podemos concluir este item certos da radical solidariedade entre o advento da cultura nova lógicoqüinqüitária e a emergência de uma religiosidade radicalmente renovada, com a qual a humanidade terá deixado de lado sua velha disposição idolátrica e seu antigo desejo de poder ou de morte, em favor de um desejo realmente amoroso de ser mais.

Todos os estudiosos da cultura identificam no homem de todas as épocas a existência de um impulso para o que lhe transcendia, que nomeavam

10.3. A cotidiana, embora desapercebida, “experiência da ausência” do transcendente

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religiosidade. Com a Modernidade, a ciência que tudo invade e calcula, “naturalizou as formações históricas concretas de religiosidade, tornando-as, destarte, conspícuos objetos do saber científico. Enquanto a religiosidade dos povos primitivos ficava por conta da tradicional antropologia, instituíase a sociologia da religião para o estudo científico da religiosidade das culturas “mais avançadas”. Para muitos, até tão distantes entre si como Hegel e Comte, a religião seria tão apenas um momento ou estágio de compreensão do mundo, a ser superado pela filosofia ou pela ciência. Com Freud ela é considerada um verdadeiro transtorno psíquico coletivo, uma ilusão obsessiva que o saber psicanalítico (científico!) acabaria por superar, ou melhor, curar. De fato, se o impulso religioso tivesse como motivação apenas o consolo imaginário diante da finitude (ou da consciência da morte), todos estes críticos da sociedade poderiam ter razão e a religiosidade ser considerada hoje um fenômeno social em extinção. A nosso juízo, entretanto, a religiosidade tem um fundamento mais radical e permanente, pois estaria baseada numa experiência cotidiana e fundamental de todo o ser humano, que não seria propriamente a do Absoluto, mas de sua gritante ausência. Assim, para nós continuará a fazer sentido falar em religiosidade, mesmo após a era da ciência. O homem, por ser consciente, ou seja, operar com a lógica transcendental, faz-se portador de uma falta originária correlata à sua inextinguível angústia existencial. Ser é ser sempre à beira de um insondável abismo, o Nada. Isto é muito bem sabido, mas em geral estamos pouco atentos para uma outra falta, que não é de origem, mas de destino ou de significação. Sabemos que a lógica do “espaço” epistemo-lógico [15] correspondente a um determinado nível onto-lógi-

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co fica determinada pela simples substituição da identidade (I) por uma diferença (D) correspondente à essência do conhecer, que é se deixar determinar completamente pelo outro (objeto). Para alcançarmos a lógica do espaço práxio-lógico (ou da ação) correspondente, basta-nos re-incorporar a identidade (I) o que traduz o retorno à cena do ser subjetivo e de seu poder de auto e hetero-determinação. Assim, por exemplo, a nível do ser objetivo (I/D), o saber correspondente será a ciência D/ 2, isto é, (D)/(I/D)=D/ 2), e o agir, a técnica I/D/2, isto é, (I/D)/(I/D)=I/D/2. Semelhantemente, no caso do homem caracterizado como ente lógico-qüinqüitário (I/D/2) as estruturas epistemo-lógica e praxio-lógica respectivas seriam D/3, isto é, (D/(I/D/2)/D=D/3 e I/D/3, isto é, (I/D)/(I/(D/2)= =I/D/3. Ora, estas estruturas - epistemo-lógica e práxio-lógica - não são inteiramente acessíveis ao homem, que sabemos limitado à lógica hiperdialética I/D/2. Como, porém, os demais elementos de ambas as estruturas lhe são acessíveis, as posições lógicas D/3 e I/D/3 , ainda que não diretamente acessíveis, acabam sendo vivenciadas como falhas ou carências estruturais. Ver figura 10.3. Esta é apenas uma descrição em termos lógicos da vivência cotidiana relativas à impossibilidade de compreensão completa do outro e, muito menos, de conseguirmos dominá-lo. Isto deixa mais do que evidente que a condição de escravo, ou mesmo a de neocolonizado (ameaça concreta que paira hoje sobre nós, brasileiros), encerra, no fundo, uma degradação onto-lógica.

. seja fidei (K. mas. O insistente apelo a um presumido conhecimento por analogia. caso contrário. esta poderia facilmente se confundir com uma simples alucinação. o da abertura para o transcendente. no homem estão presentes dois diferentes tipos de falta. Eis aí. ou transcendental. A falta estrutural por nós assimilada contorna a dificuldade. O reconhecimento deste segundo tipo – falta estrutural – resolve um problema crônico de toda teologia. um modo de expressão. que exige o prévio conhecimento tanto do significado quanto do significante.3 Falhas estruturais epistemo-lógica e práxio-lógica humanas Assim. pois o mais está presente no menos. não passou sempre de um ardil. esta que podemos também denominar ausência viva do transcendente. pois. a base vivencial real para a admissão. sim. Barth) [16]. a falta originária. e a falta de significação. porque a analogia não é nem pode ser um modo de saber. seja entis (S. embora como falta. conseqüente busca e aceitação do transcendente.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE ESTRUTURA EPISTEMO-LÓGICA SUBJETIVA ESTRUTURA PRÁXIO-LÓGICA SUBJETIVA 267 I/D/ D/ I/D D I 2 3 D/ I/D/2 3 D/ I/D 2 D/ I/D/2 3 D/ I/D 2 D I I/D D/ 2 Figura 10. Tomás). qual seja. a da identificação de uma motivação concretamente vivida que justificasse a prontidão para a recepção da mensagem revelada.

alguns menos. Isto significa igualmente que o homem passa a habitar a linguagem. respectivamente. que se realiza .. num horizonte transcendente. A insistência em que o homem deva incorporar seu próprio horizonte transcendente é de fundamental importância por múltiplas e importantíssimas razões. reduzindo o saber sobre o ser subjetivo a impossíveis ciências humanas. Dentre elas. lhe dá acesso ao símbolo já inteiramente convencional (o que não quer dizer não motivado) e que a lógica I/D/2 do homem lhe dá acesso ao discurso que. Tudo isto nos remete a uma mais precisa conceituação do homem. nem necessitando lembrá-los todos. outros um pouco mais próximos da intuição. [17] Existem ainda muitos outros modos de se mostrar a presença do referido horizonte. gostaríamos de chamar a atenção para o fato de que a lógica I/D. outros um pouco menos convincentes. devendo-se precisar que a contextualidade aqui implicada é aberta.268 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO No plano do saber.. mas igualmente pelo que se possa ainda um dia dizer. cujo acesso lhe é facultado pela vivência direta da falta estrutural epistemológica (D/3) e das falhas estruturais práxio-lógicas (D/3 e I/D/ 3 ). determinada não só por todos os já ditos. Não podendo. faz emergir o sentido intensivo ou contextual. do animal dotado de sistema nervoso central. alguns mais. de nível lógico I/D/2. No plano da ação procede-se à sutura de D/3 e I/D/3. destacaríamos. mais do que constituir um super símbolo. onde estão co-presentes o ser e seu próprio horizonte: O homem é um ser lógico qüinqüitário. como diria Heidegger [18]. primeiro. não raro sutura-se D/3 com D/2. o que reduz as inesgotáveis práticas intersubjetivas a meras técnicas de sedução e manipulação. com D/2 e I/D/2. . vale dizer.

Antes de mais nada instituímos o eixo onto-lógico no qual podiam-se distribuir todos os existente mundanos e no prolongamento do qual se poderia buscar coerentemente o Absoluto. Vimos também que esta era a situação do conhecimento e da ação intersubjetiva – na primeira. Depois. na segunda. precisávamos ainda de uma efetiva e vivida janela para o transcendente. e. para se tornar um desejo verdadeiramente amoroso pelo mais alto.4. Desde então seria toda a força da cultura que nos estaria empurrando em direção ao Absoluto realmente transcendente. uma falha numa configuração cujos elementos nos fossem em boa parte acessíveis. Depois. porque a presença deste horizonte de ser “junto” ao próprio ser é o que possibilita a emergência e insistência tensional entre ser e deveser.” Recordemos.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 269 que tal horizonte impede que ele se feche sobre si mesmo. a exemplo do que aconteceu em Hegel. que a filosofia acabe se reduzindo a um humanismo e a religiosidade a um panteísmo. que seria ocupado pela lógica D/3. que teria por isso que ser uma falta estrutural. consequentemente. tudo seria permitido. que deixaria de ser um desejo para baixo. desejo de morte e poder. Afinal. nos são vedados 10. vimos que com o advento da cultura lógico-qüinqüitária aconteceria a reversão da direção do desejo da cultura. Nota-se então que a emergência da dimensão ética é correlata à vivência do transcendente. da emergência da dimensão ética no mundo. o que bem justifica o que dizia o personagem dostoievskiano: “Se Deus não existisse. Entrementes. e vimos que isto só era possível como presença de uma falta. consequentemente. nos é vedado o acesso a um único elemento da estrutura que representa o referencial global daquela situação. Deus depois do adeus às idolatrias .

vale dizer que ele. subjetivo (I/D/2) – ficava bastante óbvio que o Absoluto precisaria ser buscado no prolongamento desta seqüência onto-lógica. a situação geral dos planos e respectivos níveis seria: . ele poderia ser D/n. é porque a estrutura epistemológica correspondente se reduz a D. como no caso do nível fenomênico. Se isto. Não é definitivamente este o nosso caso. com n superior a três ou I/D/n. O mesmo valeria para o agir absoluto. o Absoluto – em suma. no seu limite autodesvelador. Uma conclusão bem diferente daquela de Hegel que atribui ao homem o serdialético e faz deste mesmo ser. vale dizer. a qualidade de ser Uno. Ora. “sujeito” e “objeto” se mantêm em estado de copertinência. assim. são justamente as vivências destas faltas que evidenciam ao homem que ele não se constitui no nível lógico máximo. quando. uma simultânea e paradoxal afirmação de humanismo e de panteísmo. ambos na posição I [20]. pode estar habitando um espaço ontológico que o transcende. que para Ele. na verdade. onde D é apenas uma referência externa. com n superior a dois [19]. mas que também o são ser e conhecer e ser e agir. Em princípio. com o estabelecimento dos níveis onto-lógicos – fenomênico (I). na verdade. se ser e conhecer são o mesmo. Ora. Podemos. Podemos encontrar uma boa pista para a determinação do estatuto lógico do Absoluto se admitirmos. Ora. objetivo (I/D). Vamos de pronto abandonar a primeira hipótese porque nela o Absoluto não constitui por si uma instância onto-lógica e também porque ela não preserva. como é quase um consenso. ou quase. ao fim. restringirmo-nos ao Absoluto concebido como ser-lógico de nível I/D/n com n>2. não só ser e pensar são o mesmo. D/3 e I/D/3.270 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO dois dos nove elementos estruturais de maior nível.

Teríamos. também. o que dá ao primeiro uma superioridade fechada. . cujas respectivas estruturas epistemo-lógicos e práxio-lógico seriam D/2 e I/D/2. com a introdução de um nível onto-lógico intermediário onde n=3.. freqüentemente. I/D D/ 2 Nível Subjet.. I/D/n . mais uma vez o insistente e condenável vezo pelos infinitos e transfinitos matemáticos! Acrescentaríamos ainda que esta proposição . Nível Subjet.. Plano onto-lógico Plano epistemo-lógico Plano práxio-lógico I D I/D Nível Objet.. tal reação é um mero preconceito quantitativo... uma autoridade que não pode nem mesmo ser desafiada..... dever-se-ia fazer n=4.. assim: Nível Fenom.. na verdade. D I/D Para que a distância entre o Absoluto e o homem se mantenha de pelo menos duas diferenças. para que seja preservada a máxima simetria do quadro anterior. Nível Absoluto Plano onto-lógico Plano epistemo-lógico Plano práxio-lógico I D I/D I/D D/2 I/D/ 2 I/D/2 D/3 I/D/ 3 .. como se ela significasse uma limitação à grandeza divina.. Nível Objet. reações.. Temos a experiência de que tal afirmação suscita.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 271 Nível Fenôm.. e. I/D/2 D/ 3 Nível Nível Intermd. Absoluto I/D/3 D/ 2 I/D/4 D I/D I/D/2 I/D/3 I/D/2 Isto é o suficiente para que possamos sacar algumas importantes conclusões teológicas: a) O Absoluto constituir-se-ia na instância ontológica de nível I/D/4....

pois 17(2x2x2x2+1) são as posições na estrutura lógica de I/D/4.4 – Semelhança do homem a Deus c) O Absoluto seria.272 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO pode ser interpretada como o simples auto-reconhecimento dos limites imaginativos do homem. b) A semelhança de homem a Deus. Notar que isto não se aplica nem mesmo aos entes angélicos (ou demoníacos).. I/D. D/2 e I/D/2) representam. I/D/2. e) Existe um nível intermediário entre o do homem e o do Absoluto que. ganha aqui sua plena significação.4). Septendencitário. é reconhecido pela . d) Seu conhecer é um estrito correlato de Seu ser. ambos em estado de co-pertinência na posição I da estrutura epistemológica D. o Absoluto poderia até ultrapassar I/D/4.. finalmente. aliás. também Eneário e. I/D/3 e I/D/4) (ver figura 10. D. as instância onto-lógicas de Deus Uno-Trino. em outras palavras. similar em tudo seria também o Seu agir. à perfeição. mas nós não teríamos condições de saber o que isso poderia significar. além de Uno-TrinoQüinqüitário. na medida em que as lógicas humanas (I.-Septendecitário (I. O ABSOLUTO I/D/ 4 O TRANSCENDENTE I/D/ 3 2 O HOMEM I/D/2 D/ 2 I/D D I I/D/ I/D I O SER O SER Figura 10. I/D. tão enfatizada pela teologia judaico/cristã.

Embora a revelação plena do Absoluto UnoTrino-.. mormente quando estas pertencem à mesma família. a que damos a denominação de nível angélico. que precisava ser enfrentado pela teologia. Antecipações . traços do monoteísmo já se haviam manifestado em culturas pré-lógicas. Talvez não por falta de vontade e coragem. pouco importa suas existências efetivas. em princípio. aquele próprio tanto a anjos como a demônios. que homem poderia compreendê-lo em sua plenitude? Quem poderia simplesmente se considerar à altura da mensagem? Trata-se de um paradoxo. pelo menos na aparência.. por exemplo. ainda que de modo fragmentar e inconsciente. visto que o conteúdo significativo revelado continua.a Revelação Cristã e a Confirmação (e exagerações) do Dogma Mariano . traços da cultura cínica moderna. em outras culturas. Entrementes.5. jamais o foi.para Karl Rahner [21] a radical inclinação à autocomunicação seria parte mesmo de Sua “essência” -. Deus pode dizer quem de fato é . excedendo à capacidade lógica do receptor. mas de um instrumental lógico de suficiente potência 10. pois.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 273 maioria das grandes religiões do mundo. já sabemos agora. assim como traços do trinitarismo cristão. a nosso juízo. Isto não seria uma novidade na história da cultura. até aí o problema permanece. É mais ou menos evidente a razão pela qual a Revelação tenha sido a solução encontrada para que o menor pudesse ascender a algum conhecimento do maior. mas que. “medidos” em termos de complexidade lógica.-Septendecitário seja uma prerrogativa reservada à cultura lógico-qüinqüitária. não podemos negar que alguns de seus traços possam já se ter manifestado. porém. na cultura judaica. maior e menor. na cultura trágica grega.

no homem qüinqüitário I/D/2 ? Pode-se agora vislumbrar uma resposta. acessível à compreensão humana. porém. O Absoluto aparece assim como que dotado de um conjunto de atributos que são de algum modo extensões lógicas .5 ilustra bem tudo o que aqui está posto. ou seja. pelo menos I/D/4 . no caso. enquanto tal. deveras. como ocupante da posição D numa estrutura I/D. e muito menos quantitativamente infinitas -. logicamente não cabe . sem deixar de sê-lo.seja fragmentada em “pedaços”. possa existir encarnado como homem (I/D/2). pior seria. a mensagem eu sou o que sou (ou serei) sendo.e não analógica [22]. conquanto tenha ela seu alto preço. todos eles logicamente iguais ou menores do que I/ D/2. Em nossa sistemática simbólica. daqueles do próprio homem. é que Deus (I/D/4). O modo paradigmático de fazê-lo. poderemos facilmente constatar. E se não fora assim. . o Absoluto e seus inexcedíveis poderes. que é não conseguir preservar incólume o estatuto lógico da mensagem. A condição geral para a recepção é que a autocomunicação divina . A figura 10. podemos colocar a questão em termos bastante diretos: como é possível ao Absoluto Septendecitário I/D/4 revelar-se aonde. e nesta circunstância proclame-se Filho numa configuração trinitária.especificamente. pode agora imaginá-Lo por trás de uma descrição cujos termos e sintaxe lhe são por completo acessíveis. Nada aqui excedeu ao “tamanho” lógico I/D/2.274 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO para tanto. pois estaríamos nos enleando num paradoxo ainda mais grave do que aquele que tínhamos de partida. Atente-se: o receptor da mensagem continua a ignorar o que possa ser.

após a Ressurreição. o Cristo que ocupava a posição de Filho (D) na Trindade (I/D) vai ocupar a posição de Filho (D/2) na estrutura qüinqüitária (I/D/2).a Encarnação Podemos ainda identificar um segundo modo (na circunstância.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE LUGAR DO ESPÍRITO (TRINITÁRIO) CONSEQÜÊNCIA LÓGICA: DEUS SEPTENDECITÁRIO 275 LUGAR DO PAI LUGAR DO FILHO CRISTO HOMEM QÜINQÜITÁRIO I/D/ QUE DECLARA OCUPAR A POSIÇÃO D EM I/D 2 Figura 10. muito adequadamente denominada Corpo (D) Místico de Cristo (D) . Em vista do remanejamento onto-lógico [23] que necessariamente ocorre na passagem da estrutura trinitária (I/D) à qüinqüitária (I/D/2).6. Trata-se da proclamação do Dogma Mariano (1950): Maria. Ver figura 10. e. mais uma Confirmação do que uma nova Revelação) em que todos os elementos da mensagem revelada se mantêm ainda inferiores a I/D/2. mas uma organização (D/2). mulher. para ocupar a posição I/D (por isso. tão necessária e insistentemente Virgem) numa estrutura qüinqüitária I/D/2. como fora o caso do Filho. logo. sim. não propriamente uma eclesia.5 . de nível I/D/2.como seria compulsório. Ele.A Revelação paradigmática . é assunta ao Céu. se constitui membro da Sagrada Família (I/D/2) e o seu correlato terreno passa a ser a Igreja. não para ocupar a posição D numa estrutura trinitária I/D. porém. uma .

esta estrutura lógica é manifestamente sobre-humana... definidas como as diagonais . a Cúria pode errar em tudo.6 . Como já mostramos em outra oportunidade [24]. isto é. I/D. Tomando-se por paralelo a sexualidade humana. apresentar-se exteriormente como uma organização. Maria só poderia ser mesmo assunta para a posição que o referido remanejamento deixara vaga.Revelação (Confirmação) Septendecitária por via do Dogma Mariano É interessante observar que neste modo revelador a Igreja vai ocupar a posição D/2. ESPÍRITO PENTECOSTAL CONSEQÜÊNCIA LÓGICA: DEUS SEPTENDECITÁRIO LUGAR DO FILHO CRISTO RESSUSCITADO CORPO MÍSTICO IGREJA 2 MARIA MULHER QÜINQÜITÁRIA ASSUNTA I / D / LUGAR DO PAI LUGAR DA VIRGEM Figura 10.276 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO dupla diferença. posição que sabemos caber necessariamente à filha virgem. diríamos até delirante. menos em lógica. enquanto que sua essência lógica passa automaticamente a ser I/D/D/D=I/D/3. LUGAR DO ESPÍRITO (QÜINQÜITÁRIO) FAMÍLIA SAGRADA LUGAR DA MÃE INCONSC. Como se vê.

I/D com D/2.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 277 de I/D/2 (I com D/2. 1 SE XO P A I O U G U IA O N IS C IE N T E O 2 SEXO E L IT E . todos eles formalmente mais pobres do que os dois que acabamos de apresentar.7. o segundo.7 . o que vem explicar. D/2. a forte resistência dos protestante à promulgação do Dogma Mariano. Ver figura 10. temos então definidos três modos de ser sexual a nível I/D/3: o primeiro. Só para exemplificar. infalível porque dotado da capacidade de imediata compreensão inter-subjetiva. o feminino). I/D com D. os crentes. P A R T ID O OU CLERO O 3 SE XO CASTRADO . reduzidos apenas à sua primeira componente I/D/2. e I/D/2.O sexo dos anjos (ou demônios) É bastante evidente que assim se estabelece uma relação hierárquica extremamente rígida entre o Príncipe. o clero e os crentes. único (I). I/D/2 com D. À primeira corresponde a figura do papa. o masculino. o terceiro. uma comunidade (I/D) dotada do saber científico (D/2). I com D/3. o clero (especialmente o jesuítico). para que não se veja associado ao mal (D). À segunda. tomemos a mais simples dentre todas . I/D. À terceira. sobre-humana (D/3). porém. Existiriam ainda outros modos reveladores combinando algumas das lógicas I. POVÃO " A N IM A L I Z A D O " O I/ D / 3 I/ D / 3 I/ D / 3 I D / 3 I/ D D / 2 I/ D / 2 O MAL OU O IN C O N S C IE N T E D Figura 10. D. de maneira muito óbvia. o grande rebanho.

Ela corresponde ao episódio em que Deus se revela a Moisés dizendo ser aquele que é (ou será). de uma revelação de Deus (I/D/4).278 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO as combinações: I. não enquanto tal. sem dúvida. Trata-se. I e I. . mas em seu modo mais elementar do Ser Único Criador frente à insignificância do ente criado.

Elas visavam apenas a substituir o sujeito liberal (sujeitado) da ciência. não somos coetâneos à Modernidade? Já não seria tempo de trocarmos o nosso crônico mazombismo acadêmico pelo gosto de uma autêntica auto-compreensão? 11. A nulidade crítica das ideologias não autoriza mais esperanças.1.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 279 11 Bases para a urgente formulação de uma estratégia (cultural) brasileira Em Pasárgada tem tudo É outra civilização. 11. junta-se o mal-estar da condição de “marginalidade voluntária”.2. Manoel Bandeira. A causa. de bruços. que. op- . a violenta impotência (que era já constitutiva) das ideologias [1]. dizem: o dualismo. no entanto. que pode haver de mais constrangedor do que estar sempre por baixo. A insistência e os repetidos fracassos dos projetos de modernização geram o cansaço. os gozos minguados e quase sempre frustros ou ad aeternum diferidos. Triste situação a brasileira: ao mal-estar na Modernidade. com enxurradas de fotos. Deveras. concomitante a uma furtiva inversão de mando: a esquerda. é flagrante paradoxo. O século XX demonstrou. alguns nos chamam Belíndia. na era da prostituição generalizada? Os ônus por anos a dentro chegam sempre de véspera e agigantados. e às vezes por trás também fatos.

histórico-cultural) para mais além das ideologias. Uma história hiperdialética é o mínimo que se requer. contemplamos a seqüência já realizada. Propõe-se então a releitura da história da cultura parametrizada pela lógica [3]. idem para os híbridos – a “história” das mentalidades e o conglomerado frankfurtiano. Mas não se provou que não possa haver alguma saída. entretecidas e pró-jetadas [4]. todas. daí. por coerência. também três tempos para cada: o tem- . perfeito. Necessidade de uma pirueta. Heidegger vale ser atentamente ouvido. o que. do hegelianismo e do marxismo. Não há mesmo saídas laterais. 11. para dar conta do processo de autodesvelamento do ser hiperdialético qüinqüitário do homem.antes ressuscitadas. o círculo quadrado. o capitalismo sem jaça. (ver figura 11) 11.4. Torna-se agora óbvia a carência de uma compreensão histórica profunda (logo. Uma cultura e doravante três lógicas associadas. Em conseqüência.as mesmas que lá estão mais ou menos soterradas na tradição . o império hoje do pensamento único. a mais ousada: a passagem da estática à dinâmica cultural [6]. pelo sujeito romântico ou telúrico. mas não seguido (tal como valem os poetas). muito nítida. das culturas nodais (lógico-inaugurais). nada tem a ver com a nauseabunda e rose-blair terceira via(dagem) social-democrata (mais uma!). da lingüística e do estruturalismo antropológico. Em retrospecto. desde a irrupção das tribos nômades de caçadores/coletores do paleolítico à atual modernidade científica [5]. obviamente. por si e conjuntamente reavaliadas. de um lado. exige-se sejam as lógicas . é inegável a insuficiência [2].280 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tando pelo sujeito coletivo.3. a direita. da psicanálise. e de outro. E a filosofia e mais as outras tantas “ciências” do homem? Embora precisem ser todas elas levadas em conta e muito a sério. Almejavam. por suposto. Como condição.

o tempo intenso do desejo de sua lógica recalcada e o tempo desesperado fingindo ter-se tornado a lógica de sua própria posteridade. na continuidade. à esquerda e à direita. pela ordem.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 281 po morno da lógica que ela sacraliza. o Protestantismo e a incontornável invenção. hoje. “história” calculada) e. o desejo da volta à animalidade (o mais velho ancestral do “desejo de morte”). as correlatas “contestações” ideológicas. note-se. ora. 11. lógico-diferencial. Recordando: o confronto com o fingimento escolástico (reza a anedota que um ‘lixo’. o mesmo já do avesso.que o diga Vieira! . são os museus abarrotados de arte sacra!). do sujeito liberal (no cinema. ainda vigente. A força do impossível desejo de regressão lógica é o melhor guia no retrospecto reiterado: na vertente lógico-identitária. Inicialmente. que queremos ver pelas costas (não nossas. sucessivamente. Tudo tão célere . a prémodernidade ibérica. sim. sucessivamente. daí. as navegações e a expulsão suicida . o desejo de origem (o mito).dos cognominados da nação’. da mecânica newtoniana de pontos materiais ao campo escalar de Higgs [7]). mas domesticados adrede pelo marketing). o desejo do ser-uno (a velha filosofia) e. no dizer já moribundo do disciplinado e terno Doutor Angélico). Um zoom sobre a Modernidade [8]. na outra vertente. preteridos!) e o desejo do corpo espiritualizado incorruptível (é só lembrar quantos. mas dela). pela sola fide. o capitalismo calvinista de acumulação intensiva (a história desnaturada. o desejo da terra prometida (à exceção dos meio-irmãos filhos da empregada.5. o desejo do ser-uno-trino (a física. a tortura metódica (para que se confessassem números) de todas as coisas por meio de instrumentos e a medida pela fé de imaginários excessos sexuais femininos – enquanto se forjava o novo órganon exercitava-se à larga a caça às bruxas. o didático herói john fordiano). o capitalismo consumista extensivo (desejos.

após. obra de seletos mulatos. meio sonolentos. conquanto que descentrada!) e cultural [9]. pela primeira vez. os brasileiros. o ser-feminino à altura exata do ser-masculino. em direção ao ser de fato transcendente. cada um trazendo sua cota parte à nossa bela geléia geral. a formação de uma interioridade. a re-significação religiosa (o fim das idolatrias. Entrementes. nem tanto. os homens só de carne e osso!). com a descoberta das minas de fundos de rio. é preciso estar alerta . Agora nós. por fora a tez. a viabilização da oferta planejada. Fontes diversas recapitulando a história hiperdialética da cultura. a certeza de uma cultura futura hiperdialética qüinqüitária. Enfim. Para desvelar e seduzir (e por que não também um pouco para dar partida a hiperdialética qüinqüitária: o remanejamento das relações indivíduo/sociedade no plano político. a nova verdade qüinqüitária e seu método correlato: o amor pela “leitura” [12]. 11.282 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO que talvez se tenha hoje já à mostra os primeiros sinais do inexorável declínio. a história desbloqueada. O peculiar processo de formação da cultura brasileira [13]. a inteligência e a sensibilidade destes e de muitos outros. 11. por dentro. e. Sobretudo.7.6. do fundamento lógico de todas as dominações sacerdotais [11]). a re-significação cósmica do homem (tanto quanto do cosmos pela cultura!) [10]. por conseqüência. Como tanto se almeja (mais os tempos. econômico – entre as surpresas. obra de desmedidos mamelucos. Etapas intermediárias: a formação de uma territorialidade. aqui. expressa pela reversão do desejo da cultura. o mesmo valendo para as respectivas verdades: gozo e vitória nivelados à alétheia e adaequatio (o que nada tem a ver com o retorno ao mítico andrógino de Aristófanes). sobremodo. por não se tratar até agora de obra acabada.

de ser-com-o-outro. como se fosse a última e única. a outra. a grande “marginalha” rural e suburbana. Na linha de frente (do inimigo). deveras. na cara. a popular auroreal pela originalidade [14].do princípio antrópico [15]). apenas pelas suas sobras e dejetos). E por que não. um se pôr sempre um pouco à parte à modernização: trata-se do povão fiel ao seu destino. em verdade.nem forte. atenção. em tudo clarividente. o paradoxal dualismo: na verdade. Ela é o cumprimento de uma destinação por demais humana. que em essência é cultural e por isso. todos os dias. na linha de resistência. nossa elite burra. Há opções. Reagindo à inexorável superação. sempre viva.8. Na TV e por todo canto. o super-cosmos. elevado à altura do homem logicamente à sua espera. a boa nova: os . De modo algum somos Belíndia. nem fraca. Mas. resolutamente etnocida. mas a vontade de Pasárgada.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 283 aos perigos da globalização. em seu propósito último. mas prospectiva. onde. amigos do rei. cruel e debochada. para quem possa e as queira: uma. escancarada. que é a gente que de fato conta se o caso é cultura (não economia & finanças). despudoradamente entreguista. Clarifica-se. 11. 11. a artimanha de se fingir sua própria posteridade: eis. afinal. dando alma a uma nova versão . sem deixar de ser também sobre-humana (ao invés do superhomem. subserviente. Para nossa sorte. a originalidade? Trata-se da edificação da cultura nova hiperdialética qüinqüitária . seremos tudo e por cima todos. um reservar-se. pedante – para cima. de ser-com-todo-mundoem-paz-com-o-Absoluto.um novo modo de ser-consigo-mesmo. trombeteada. mas significante .9. a pós-modernidade. à capela e murmúrio. a elitista retardatária pelo luxo (a rigor. para baixo. uma resistência não reativa. à uma. prepotente.

a promessa do homem quimicamente puro e sem defeitos de usura ou de fabricação . falando mais e o melhor possível. a necessidade iniludível de uma estratégia de sobrevivência pelo tempo que resta à Modernidade para que não faltemos ao encontro com a nossa destinação. outro. por certo fará vir ao mundo a cultura nova. para não perder o fôlego. de repente. já. a ordem tem que ser (culturalmente) sobreviver a qualquer preço. nos atirado de alma e corpo inteiro à lata de lixo. todos de braços dados. pela grande depressão psíquica (ou cultural).. batucando. teremos.284 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO prodígios da biopirotecnia. já não se anteciparam financiando programas de esterilização em massa?! 11. ainda que bem menos dotado e pré-destinado. mas da própria . seguida. em última instância. [16] Pessoalmente. não só da história hiperdialética da cultura. Se fracassarmos. um dia.10 Por isso. e. é difícil resistir?! No entanto. por desídia. sim. Como sempre. para não perder a língua. nenhuma marcha interminável de fileiras. por uns tempos. como de costume. a trena e o cronômetro).. Dentre todos os fundamentalistas (reacionários). por amarelamento (como em 50 e 98). alhures.a vida eterna. seja preciso refugiarmo-nos no Egito ou nos agacharmos no mato. virá a grande depressão (econômica). se verá a reação desesperada: a ordem virá para a degola dos perigosos terroristas recém-nascidos. não repudiar. biblicamente instruídos. Nas ruas. nenhuma classe atrás das barricadas. mas deveras subsumir a ciência (com sua lógica. Na circunstância. Ou será que. grave impiedade ou. ademais. tornando-se destarte a decisiva força revolucionária. ainda que numa caixa de fósforos. depois outra e mais outra. seus cálculos e seus três indefectíveis instrumentos – a balança. nem explosões de casacos ou carros-bomba. Talvez. haverá um (bastará um) pequeno grupo (LXX é um bom número!) que irá se propor.

.I/D) 2 5 D/D CULTURA MODERNA 1 CULTURA MARGINAL BRASILEIRA 8 FIM.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 285 cosmogênese. Com que cara iremos nos apresentar no Juízo Final. POR OPÇÃO PELO LUXO 10 IMPOTÊNCIA DA CRÍTICA IDEOLÓGICA: DE DIREITA (FASCISMO SUJEITO ROMÂNTICO .?! CARACTERÍSTICAS DA CULTURA NOVA QÜINQÜITÁRIA Remanejamento das relações indivíduo/sociedade Re-significação cósmica Re-significação religiosa Real liberação do ser-feminino A verdade: o amor pela "leitura" 6 CULTURA QÜINQÜITÁRIA I/D/D HISTÓRIA DESBLOQUEADA ESTRATÉGIA DE SOBREVIVÊNCIA PARA A CONSUMAÇÃO DE UMA DESTINAÇÃO ASSUMIDA A 9 FINGIMENTO: BIOPIROTECNIA.. A DEGOLA DOS RECÉM NASCIDOS OPÇÃO PELA ORIGINALIDADE 4 I/D D I CRÍTICA DA CULTURA: ARQUEOLOGIA DA CULTURA PROCESSO DE FORMAÇÃO DA CULTURA BRASILEIRA 7 3 pré-D pré-I HUMANIDADE (I/D/D) ANIMALIDADE (I/D) Figura 11.D) E DE ESQUERDA (MARXISMO SUJEITO COLETIVO . Situação cultural brasileira .

Nestas circunstâncias. de uma filosofia ou. além de um entre muitos expediente para uma boa comunicação. A noção de História estaria originalmente associada à lógica transcendental ou da identidade (I) [3]. estaremos nós aqui falando do futuro? É o que tentaremos precisar neste item introdutório. de uma lógica da História.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 287 12 Considerações gerais sobre a história da cultura – pré-requisito para a compreensão e avaliação da história. Ernst Cassirer L’âme humaine et l’histoire humaine sont dans une large mesure déterminées par la lutte entre l’espace et le temps. De que lugar [2]. dito com maior precisão. 12.A História como processo hiperdialético qüinqüitário . proceder à explicitação de tal pressuposto é. conjuntura e perspectivas brasileiras [1] Descrever e analisar o caráter específico que o espaço e o tempo assumem na experiência humana é uma das tarefas mais atraentes e importantes de uma filosofia antropológica.1 . também um imperativo de mínima ética. Paul Tillich Não existe a menor possibilidade de nos lançarmos aos estudos do futuro sem a prévia assunção de uma concepção.

que iremos denominar com o neologismo unária. são mera conseqüência de incidentais descumprimentos pelos homens dos mandamentos divinos e do justo castigo que lhes é por isso infligido. CÍNICA CULTURA (MENTALIDADES) (D) ARQUEOL.1 .1) HISTÓRIA NOVA HIPERDIALÉTICA (I/D/D) QÜINQÜITÁRIA FÉ E ENGAJAMENTO HISTÓRIA (I/D) HISTÓRIA HEGELIANA LÓGICO-DIALÉTICA(I/D) TRINITÁRIA ENGAJAMENTO “HISTÓRIA” SISTÊMICA LÓGICO-FORMAL (D/D) CALCULADORA CONSC. para ela. solidária à verdade do Deus único. origem e destino. DAS MENTALIDADES LÓGICO-DIFERENCIAL(D) HERMENÊUTICA CONSC. os “acontecimentos” intermédios. Ela é a História que se interessa primordialmente pelos extremos. (Ver figura 12. momentos de criação e consumação dos tempos (escatologia). TRÁGICA HISTÓRIA JUDAICA LÓGICO-TRANSCEDENTAL(I) UNÁRIA FÉ Figura 12. a liberdade e a própria consciência.Concepções da História . Esta é a primeira dentre as concepções de história. história judaica.288 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO que é o modo específico de se poder pensar a temporalidade. O que esta concepção reclama de nós não pode ser outra coisa senão a fé inabalável de que Jó nos dá o melhor dos exemplos.

é a totalidade. de sorte que a verdadeira história só pode ser aquela da totalidade lógico-dialética em busca de si mesmo. o nosso engajamento. a noção de História ficou radicalmente associada à lógica dialética. o juízo final. como vimos. a denominação de concepção trinitária. fazendo do conflito ou das contradições internas o seu verdadeiro motor. a História seria o próprio processo de autodesvelamento do espírito absoluto [5]. Concordemos em adiar por momentos uma resposta. ela apresenta uma deficiência intrínseca que a incapacita para a compreensão de origem e destino – daí. desvinculada do diálogo com outras modos de pensar. esta história pode assumir também feição materialista. A verdade da dialética. a dialética cria um modo imanente de dinamismo. a que damos. entrementes. a nosso ver. como enfatizava Lukács [4]. como em Marx/Engels. o comunismo primitivo. a revolução. Além da versão original hegeliana. Ao internar a diferença. Ela é uma história que solicita. o que torna esta história especialmente apta para explicar as mil peripécias do devir. concluiu coerentemente Hegel. pode facilmente degenerar em lógica da oportunidade e nosso engajamento em mero oportunismo. Em compensação. Como fazer compatíveis a temporalidade lógico-identitária e a espacialidade lógico-diferencial? Apelando à velha dialética? Mas esta está. a sociedade sem classes e outras miragens para obnubilar a referida deficiência lógica. Considerada sua essência lógico-diferencial. Note-se. por isso. Assim. se constitui num evidente contra-senso. A noção de História é freqüentemente estendida para abarcar concepções lógico-diferencias que em essência a negam. es- . especulativa (melhor dito do que idealista). sobretudo. o paraíso.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 289 Depois de Hegel. que a dialética. e isto. aqui também envolvida para poder dar a necessária volta por cima. síntese das lógicas da identidade e da diferença.

os exemplo clássicos seriam Spengler [10] e Toynbee [11]. De um lado. de confessa inspiração nietzscheana. deveríamos chamar arqueologia das mentalidades ou da cultura. É um pensamento que abre mão do diacrônico em favor do sincrônico. desta prolifera uma variante que poderíamos chamar “história científica e bem remunerada”. contextual. mas o desdobramento epocal das mil máscaras do trágico se mostrando e se apagando num des-propositado jogo de forças.290 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tas paradoxais concepções históricas só podem se apresentar de duas maneiras. é a alegre (trágica) aceitação do jogo [9]. sobretudo. Identificam e medem fatores determinantes de seu surgimento. preocupando-se com as estruturas ou estratos profundos (em boa parte inconscientes) que constituem a alma de um agrupamento humano ou de uma época. conforme sua opção lógica subjacente. da condição a que fomos atirados não se sabe por que deuses tão francamente anti-einsteinianos. da busca da explicitação de um sentido coletivo. É uma concepção. o estruturalismo antropológico de Lévi-Strauss [7] e. de sua continuidade. O que nos é dado. onde impera o eterno retorno do mesmo. que procura isolar “unidades históricas” relativamente estáveis (em geral civilizações) para daí inferir padrões de regularidade. com bem maior propriedade. a genealogia de Foucault [8]. marcada por uma visão trágica do homem e da sociedade. Sua postura é fundamentalmente hermenêutica: trata-se. O homem não viveria propriamente uma história. governado por uma lógica da repetição. em geral. na circunstância. Teríamos como exemplos a escola francesa da “história das mentalidades” [6]. está a “história das mentalidades que. de inspiração organicista. desenvolvida com o fim estratégico de permitir a mais tranqüila reprodução dos poderes. pre- . Hoje. De outro lado temos a “história” embalada como produto científico. de seu apogeu e de sua queda.

como dissemos. História não há mesmo mais. é um indefinido. ou seja. outra à lógica clássica. embora seja o maior dos escândalos que não faça parte da cultura comum do cidadão [13]. uma vinculando-se à lógica da diferença.Lógica da diferença versus lógica da dupla diferença . (Ver figura 12. pois se trata de uma questão vital. solicitam mais verbas. por seu parti pris lógico. afinal. aos desgraçados.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 291 tendem-se um cálculo a médio prazo do ser temporal. Quando procedemos a uma diferenciação qualquer B. característica inalienável da lógica clássica. DIFERENÇA D DUPLA DIFERENÇA D/2 NãoB B NãoB B NãoA A=NãoNãoA UNIVERSO CONVENCIONAL B = NãoNãoB Figura 12. Isto é simplesmente impossível porque NãoB.2 . esta última precisando ser compreendida pelo que verdadeiramente é: uma lógica da dupla diferença. para ela. Aos poderes. Não podemos aqui evitar uma breve digressão lógica. que suicidem-se [12]. cuja negação não pode jamais vir a se constituir em algo melhor definido do que o próprio NãoB. para deste modo poder se igualar a B. o que é já o suficiente para revelar seu caráter cínico. que Não (NãoB) se iguale a B. não nos é garantido o princípio do terceiro excluído.2). diferentemente de B. Estas duas concepções se distinguem.

dialética (concepção hegeliana/marxista ou trinitária I/D) e clássica. proceder a uma segunda diferenciação A. e no entanto. do terceiro excluído ou. propriamente temporais) da História em um mesmo quadro referencial tem agora sua grande compensação. precisaremos tomar por referência uma primeira discriminação. O contra-senso da inclusão de concepções logicodiferenciais (espaciais e não. I/D. seja seguindo . sim. em que estão presentes as lógicas da identidade (concepção judaica ou unária I). como deveria ser. como requer o princípio do terceiro excluído. ainda mais precisamente. muito bem simbolizada por Prometeu. Melhor a denominaríamos. fazer de conta que B é uma totalidade e aí então. lógica da dupla da diferença (concepção cínica D/D=D/2). D/D). formal. Muito simples.292 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Para garantirmos a validade do aludido princípio. da diferença (concepção trágica D). Desenha-se um referencial perfeitamente homólogo à estrutura das lógicas de base [14]. é tão só esta artimanha que permite o obsessivo cálculo de todas as coisas deste e doutros mundos promovido pela Modernidade. porque NãoA é tão bem definido quanto A. O caráter trágico da lógica da simples diferença (D) vem de que ela é o pensar da separação (relativamente ao Um/Ilimitado). é que podemos ter de fato Não(NãoA) = A. e abandonar NãoB. de um faz de conta. seja seguindo o vai e vem das concepções da histórias em geral (I. D. nele. Agora. esta mera convenção promovida ao estatuto de verdade absoluta (exclusivismo da lógica clássica). por isto. A lógica clássica ou da dupla diferença (D/D=D/2) deriva de um artifício. Agora nos é dado facilmente perceber o óbvio: que. em contraposição à lógica da simples diferença. B. lógica da dupla diferença. que uma primeira diferença pode produzir uma veraz totalidade. ou seja. transforma-a em lógica cínica.

Haveria ainda muito mais que o leitor poderá por si descobrir.(I/D)/(D)= I/D/D=I/D/2 -. transcendental e dialética trinitária. Esta pode ser compreendida de diferentes modos. I/D/2) da já bem conhecida lógica dialética (trinitária. como lógica do processo de auto-desvelamento do homem. tal como está destacado na figura 1. como uma síntese da concepção dialética hegeliana (I/D) com a hermenêutica das mentalidades (D). coerentemente na linhagem das lógicas identitárias.à existência de um quinto lugar. lógico qüinqüitária . numa síntese maior. só que. agora sim. de nível hiperdialético ou lógico-qüinqüitário (I/D/D=I/D/2). onde poderá situarse uma nova concepção da história. tido agora não como um espírito-lógico-trinitário (I/D). desta feita. à maneira de Hegel frente à sua dialética. Preliminarmente apresentamos na figura 12. entre eles. mas como um bem mais complexo ser–lógicoqüinqüitário (I/D/D=I/D/2). chegamos sempre ao mesmo destino . síntese das concepções genuinamente temporais da história. Somos agora forçados a uma nova e breve digressão para salientarmos alguns dos principais traços que diferenciam a lógica hiperdialética (qüinqüitária.3 a dialética em dois ciclos subsequentes para fazê-la mais facilmente comparável à lógica qüinqüitária. . Ela pode também ser entendida como uma dialética da dialética. Não é só: também pode ser compreendida de per si. resultando. I/D) [15].FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 293 diretamente a linhagem das lógicas da temporalidade (I e I/D).

3 .294 DUPLO CICLO DIALÉTICO-TRINITÁRIO LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO CICLO HIPERDIALÉTICO QÜINQÜITÁRIO I/D I I/D I CICLO DIALÉTICO I/D/D D I/D CICLO DIALÉTICO D/D CICLO CONTRA-DIALÉTICO CICLO DIALÉTICO D I D Figura 12. Só depois o processo segue em direção a uma síntese maior. ao primeiro ciclo dialético. precisaremos assumir para poder efetivamente pensar a História da Cultura em toda sua amplitude. que sabemos garantidora. aquilo que esteja a emergir para além da Modernidade. em especial. Um lugar por demais alto. lógica da dupla-diferença. tanto para o olhar.Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária Fica aqui evidente a maior complexidade da hiperdialética na medida em que nesta. mas sim um ciclo contra-dialético. que vai dar ensejo à síntese lógica clássica ou da dupla diferença. dos procedimentos de cálculo do mundo que caracterizam essencialmente a Modernidade. quanto aos riscos a serem assumidos. sabemos bem. um lugar de ar rarefeito. segue-se não outro ciclo da mesma natureza. cuja complexidade vai inclusive requerer uma terceira dimensão representativa [16]. De todas as lógicas mundanas [18] tão só a hiperdialética qüinqüitária subsume a lógica clássica. certa- . Torna-se mais do que evidente que apenas desta perspectiva lógico-qüinqüitária é que se poderá proceder ã crítica radical da Modernidade [17]. em última instância. necessária e coerentemente. É a concepção lógico-qüinqüitária da história que.

enxergou sua ciência desde sempre em crise. a assunção de um ponto de vista antropo-lógico que. Perguntamo-nos naquela oportunidade: como compatibilizar esta caracterização . dialética (I/D) e clássica. respirar um pouco de esperança. na medida em que. Os animais cordados operariam no nível lógico dialético (I/D). a maioria dos antropólogos . mas a razão humana iria mais além. nem bem constituída.com 12. Citamos isto para que não alimentemos qualquer ilusão com respeito a quão estranho irá aparecer ao saber antropológico estabelecido. se põe na contramão. já contemplava ela a desaparição de seus mais caros objetos. de certo modo. formal ou da dupla diferença (D/2). Um esboço de história da Cultura .válida para todos os homens em todos os tempos e lugares . Morgan. mormente aqui em Pindorama. Segundo nos informa Márcio Goldman [19]. alerta ainda à espera de seu objeto. ela suscita e nos solicita tanto pela fé quanto para o engajamento.2.e cita Frazer. Isto deixa de ser uma excepcional novidade se considerarmos que esta mesma lógica qüinqüitária (I/D/2) governa. o discurso articulado em sua plena acepção [21]. enfim. da diferença (D).FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 295 mente. pouco mais do que nomeado . lugar onde se pode.a cultura nova lógico-qüinqüitária! Devemos convir que deve soar ainda bastante estranha esta nossa pretensão de antropafagiar a ciência em nome e proveito da esperança ! Em Noções de antropo-logia [20] caracterizamos o homem como o ente dotado de um poder hiperdialético ou lógico-qüinqüitário. entre muitas outras coisas próprias aos homens. Por também subsumir as concepções judaica e hegeliana da história. mas mesmo assim. operando uma complexa lógica hiperdialética síntese das lógicas da identidade ou transcendental (I). Tylor e Lévi-Strauss .

da diferença D. depois. distinguindo-se uma primeira variante onde prevalece o sentido da identidade (cultura da pré-identidade ou pré-I).296 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO a tese da historicidade das culturas (a nosso ver. Atente-se que este não seria um processo dialético no sentido hegeliano-marxista (I/D). dialética I/D. Além das etapas marcadas por cada uma das lógicas subsumidas pela hiperdialética qüinqüitária (da identidade I. (Ver figura 12. Aliás. as condições de um efetivo exercício estabilizador da ordem social. atestada de muitos modos. Elas serão genericamente denominadas etapas ecológicas [24]. Esta última seria a expressão simbólica. da lógica por ela assumida e sacralizada. pela idade. mas algo ainda mais complexo. e que lhe confere. clássica ou formal D/2 e a própria I/D/2).4) . ambas naturalmente referidas à Natureza. mas não ainda um passo de natureza propriamente lógica na direção daquele desvelamento. um essencial e particular comprometimento lógico [22]. uma outra em que prepondera o sentido da diferença (cultura da pré-diferença ou pré-D). coletivamente objetivada. inclusive. de natureza hiperdialética (I/D/2). Os tipos culturais que inauguram cada uma das etapas deste processo de desvelamento são por nós denominados culturas nodais. entre eles. comprometimento que em nenhum outro lugar melhor se mostra do que nos princípios dogmáticos de sua religião oficial ou dominante [23]. por uma questão de coerência com o que vimos até aqui. seria preciso considerar também etapas históricas precedentes em que teriam ocorrido significativos avanços. como poderia ser diferente? Toda cultura teria. pela variabilidade no tempo do seu vigor criativo e pela flagrante assimetria do poder de influência de umas sobre as outras)? Lá mesmo sugerimos uma resposta: concebendo a história da cultura como um processo de autodesvelamento do próprio ser do homem. assim.

teríamos a seguinte seqüência histórica de culturas nodais: pré-I. uma cultura à medida exata do homem. começando no período mesolítico e alcançando o apogeu com os grandes impérios da antigüidade. pela primeira vez. cultura moderna de base científica. primeira cultura que desvela e alcança a objetivação simbólica do ser lógico em geral. dos bandos primitivos de caçadores/coletores do paleolítico. cultura hiperdialética qüinqüitária. . D. I. cultura tribal. D/2. já capaz de se perguntar pelo ser e pela sua própria lógica (logos). cultura medieval cristã (patrística). cultura prometéica grega. compreendendo apenas o Ocidente e o Oriente Próximo. cultura judaica. e. cultura sedentária de base agrária.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 297 Resumidamente e focalizando uma área restrita. uma manifesta síntese das culturas anteriores [25] . I/D. pré-D. não castradora. por todos os títulos. que hoje domina o mundo. ainda por vir. I/D/2. porque.

a aparentemente desmedida simplificação da tese uma cultura.298 CULTURA NOVA LÓGICO-QÜINQÜITÁRIA I/D/D LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO CULTURA MODERNA CIENTÍFICA OU SISTÊMICA D/D CULTURA CRISTÃ TRINITÁRIA (PATRÍSTICA) I/D CULTURA GRECO-ROMANA PROMETÉICA D CULTURA JUDAICA SIMBÓLICO CONVENCIONAL E MONOTEÍSTA I CULTURAS PROPRIAMENTE LÓGICAS CULTURA AGRÍCOLA DOS IMPÉRIOS DA ANTIGUIDADE PRÉ-D CULTURA TRIBAL PALEOLÍTICA CAÇADORES/COLETORES PRÉ-I CULTURAS ECOLÓGICAS Figura 12. fingimento e superação . algo bem mais arriscado e complexo: uma cultura. porém. até aqui.Esboço de uma História das Culturas Nodais É importante notar a perfeita homologia entre as figuras 1 e 4. uma lógica. tão bem sustentar-se. que vem demonstrar que por trás de ambas opera um mesmo arcabouço lógico. Por isso. descontado nesta última o “detalhe” das culturas “ecológicas”. pôde. Nossa tese central daqui por diante.4 . entretanto. 12. Desejo.3. uma lógica. não será mais uma cultura.

sim. associada a mais outras duas: a primeira. Em outras palavras. de algum modo. numa artimanha defensiva. já foi assinalado.que era nossa tese anterior . dá testemunho de outras lógicas. correspondente à cultura que a irá suceder que determina o que ela. A adjudicação de uma lógica a uma cultura. Tentemos melhor esclarecer. Cada cultura tem sua lógica de referência . e da qual não discordamos). o que implicava no reconhecimento de uma certa equivalência de todas as culturas (tese esta muito cara a estruturalistas e relativistas da moda. os gêmeos. correspondente à cultura que a antecedeu . triângulos de círculos .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 299 três lógicas [26]. o fogo e o leão. Para convencer-nos. vale dizer. como se verá. a cobra que se devora pela própria cauda. fonte de seu vigor criativo -. ora clandestinos.o número 3. com cada uma das demais lógicas mundanas. tem o sentido profundo de uma passagem do enfoque estático ou arqueológico para o enfoque dinâmico ou propriamente histórico das culturas. toda cultura. o segmento de reta.o número 2. em que pese seu parti pris lógico. o ar e a águia. o vermelho. lógica dialética I/D . bastaria lembrar a profusão de manifestações arquetípicas que se pode recolher nas culturas históricas: lógica da identidade I . intentará simular ser.ficando. inclusive com aquela que a todas estas subsume. agora.o número 1. o ponto. o seu próprio futuro que teria resolvido madrugar. figuras especulares em geral. triângulos. a água e a serpente em hélice ou distendida. mas. o círculo. Esta mudança (de 1 para 3). lógica da diferença D . precisou ser feita mantido o postulado da igualdade de todos os homens. o branco. São vínculos ora claros e assumidos. fingir que não mais é o que é.que determina o seu ser “desejante”. a segunda. o azul.

para que ela pudesse advir em seu lugar. os dedos da mão grupados em 2 mais 2 mais 1. mandalas [27] de toda sorte. procede a real ameaça à sua dominação de época. com a lógica da cultura que lhe sucederá. b) de outro lado. a terra e o touro.o número 4. seu permanente pesadelo . lógica formal D/D ou D/2 . as pirâmides de base quadrada. mas que de algum modo permanece subsumida. a estrela socialista.de onde.5): a) de um lado.300 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ou nó borromeano. . seria de bom alvitre que se indagasse: para uma cultura comprometida com determinada lógica. por suposto.lógica que teve que ser superada (ou recalcada). os quadriláteros em geral e as cruzes. que relações com outras lógicas poderiam em princípio ser as mais relevantes? E por quê? Responderíamos que justo aquelas relações que ela mantém com as suas lógicas imediatamente vizinhas (Ver figura 12. lógica hiperdialética I/D/D ou I/D/2 . o negro. e que por vezes “retorna” ou se re-volta como num sonho -. Dentro desse quadro geral.o número 5. o homem e a quinta-essência. com a lógica da cultura que lhe antecedeu .

sublimam-se na produção de tantas e tantas riquezas em termos de costumes. conhecimentos. através de um processo de reiteradas substituições. Cria-se assim um vazio ou uma falta cujo impossível preenchimento será daí por diante insistentemente perseguido. Identificamos aí o poderoso “motor” oculto das grandes realizações humanas.Desejo. instituições. forçá-la a abandonar o já pensado por outro por pensar.5 . ou seja. como as culturas. toda cultura ao se afirmar estará automaticamente subsumindo aquela que a precede. Ao mesmo tempo toda cultura tem o pré-sentimento de sua fragilidade constitutiva ante ao próprio processo histórico-cultural. na verdade. recalcá-la ou. fingimento e superação Do ponto de vista lógico. de modo mais ou menos claro.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE CULTURA POR VIR 301 FINGIMENTO SUPERAÇÃO CULTURA DE REFERÊNCIA DESEJO CULTURA ANTERIOR RECALCADA Figura 12. o que é ainda mais sutil. sente qual deve ser o seu inexorável destino: acabar superada ou margi- . não se pode simplesmente apagá-la. Tendo-se em conta que a lógica anterior já foi reconhecida e duradouramente exercida. técnicas e múltiplas artes. afinal. o desejo da cultura [28]. o que se pode. Desde sempre. é de algum modo silenciá-la. Isto nos faz compreender. O que acontece aqui guarda grande semelhança com o que a psicanálise já observou no processo de estruturação lógico/emocional dos indivíduos.

uma disposição desejante.5) Toda cultura teria. ou. para a consumação do seu destino e de sua própria superação histórica. pois. pelas ideologias. só poderá vir mesmo da cultura que assumirá a lógica imediatamente superior à sua. como de seus piores feitos. até preventivamente mandando executar os recém-nascidos. Toda cultura. ameaçadores. que. pelo menos. é o melhor que poderia mesmo fazer para tentar embaraçar o curso do processo hiperdialético da História. que poderia haver de melhor senão simular ou fingir que de algum modo já se tornou aquele novo ser cultural. como não poderia mesmo deixar de ser. e que de maneira inexorável irá confrontá-la. E quando isto acontecer. inclusive aquelas à esquerda e à direita. Para conjurar tal tipo de ameaça congênita. simula ou finge ser o que ainda virá. O golpe fatal sobre qualquer cultura. na fase de esgotamento do vigor criativo de uma cultura. mais intensamente quanto mais chegada à maturidade. pois já começam a se delinear em seu horizonte. será ela acusada justamente de usurpação de um lugar que não lhe era lógica e historicamente destinado.302 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO nalizada pela cultura associada à lógica imediatamente subsequente à sua. também não se pode ter dúvidas. No entanto. todas o pressentem. precisamente em seu fingimento. mas que ao final é o que a empurra para a frente. Deve-se observar que uma cultura se vale de muitos e diversos mecanismos de auto-justificação (pela violência. convenhamos. que é seu verdadeiro motor imanente. é o referido mecanismo de fingimento que assume o papel principal. tanto de suas excelsas realizações. que já soube incorporar os seus ameaçadores ao mesmo tempo que fascinantes poderes? (Ver ainda figura 12. os contornos da nova cultura que virá sucedê-la. . e tantos mais) e que a dissimulação aqui aludida é apenas um dentre eles.

O primeiro. na formação de estoques e na sua distribuição. Como bem observa Mircea Eliade. seria o das culturas dos grandes impérios de base agrícola.o vínculo permanente da população a um determinado espaço geográfico. na medida em que as forças reais da subversão estarão necessariamente ali operando a difícil combinação de um ideário fundamentalista (por isso podem parecer retrógradas) com uma corajosa determinação de instrumentalizar o que até então era tido como valor supremo (por isso podem parecer delirantes). por isso é substancialmente mito de uma filiação imaginária. do esgotamento de seu vigor criativo. como também na previsão e regularização das águas vão constituir a razão e suporte do sedentarismo .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 303 A visibilidade deste processo não deve ser lá muito fácil para os seus protagonistas. tanto quanto terá sido negado que estava já em gestação nas suas próprias dobras. do desvanecimento do seu próprio desejo. a primeira na ordem da família das culturas lógico-diferenciais. metaforicamente. margens e desvãos [29]. Significam. em essência. A probabilidade de subversão de uma cultura cresce naturalmente na proporção do seu cansaço. a definitiva troca da temporalidade itinerante pela espacialidade fixa. Tempo perdido. Acabou-se o tesão! Ela será então ultrapassada por uma nova cultura. enfim. O mito vem suprir exatamente este desejo de origem. Tomemos alguns exemplos. da Antigüidade (pré-D). A maioria dos mitos de origem foi recolhida entre populações primitivas que praticam quer a vegetocultura . quer a cerealicultura (Tais mitos são mais ra- . o fruto esperado. acompanhada de investimentos na organização da produção. perdidas também as marcas de uma origem que não pode ser mais recuperada. a liberdade pelo cativeiro. A agricultura tomada como base da subsistência.

não chega ela a vivenciar a completa convencionalidade do signo que lhe daria acesso ao ilimitado mundo das idéias ou dos conceitos. (negritos nossos) [30]. vivas ou inanimadas. uma intencionalidade atuante. malgrado. como assinalamos. possibilitando trazer pedaços do passado sempre presentes e também a certeza de uma pétrea presença gravada no futuro. que poderá ser manipulado com o concurso de fórmulas e práticas significantes. É então pela idolatria sistematizada que esta cultura irá fingir a posse de poderes conceituais que verdadeiramente ainda não têm. o sentido permanece ainda afeito ao traço. Para tanto e muito mais. mas sentido apenas como índex ou como análogo. e por vezes radicalmente reinterpretados. para fazer frente à grande ameaça do conceito. o simbólico refém da espacialidade que. entretanto. nas culturas de base agrícola (pré-D). que. em essência. ainda que oculta. é atribuído um sentido. A todas as coisas. é a expressão mais viva de seu desejo de origem (pré-I). o constituiu. Neste tipo de cultura. ainda como um entre os múltiplos atributos dos entes. ora metonímicas (análogas aos processos primários inconscientes de condensação e deslocamento).304 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO ros. requerendo assim o “diálogo” com antepassados e pósteros. Ali vige o simbólico. Eis ai a essência da magia idolátrica: simulação de um poder simbólico pleno ainda por comparecer. é desejo de reconhecimento na ordem do tempo. que irá permitir a .6) Tudo isto. ora metafóricas. as culturas de base agrícola terão sua fundação atribuída a um personagem na linhagem dos heróis prometéicos. Este teria subido aos céus e roubado aos deuses as primeiras sementes que aqui na Terra viriam dar origem à agricultura: O mito. por isso. Tratando-se de uma cultura lógico-diferencial. inventa-se a escrita. (Ver figura 12. nas culturas evoluídas.

da religião do Deus único. Como se fora numa pintura de Chagall. dotado da terrível autonomia lógica de poder ser e se dizer apenas aquele que é (ou será). Este é o sentido profundo da revolução cultural perpetrada pelo povo judeu. percebem já pairando no céu de suas cidades e aldeias entre azuis. cuja gigantesca e emblemática figura.três mil ou mais outros vinte tantos mil. por nada subornável. inseparável do pré-domínio do simbólico pleno ou convencional. verdes e cinzas plúmbeos um Deus que já não se pode mais adular.6 . à noite. que estiveram reunidos de dia. absoluto transcendente. em definitivo saída da Natureza para o mundo da Lógica ou da pré-Idéia. não importa -. a fio de espada. sabemos to- .Cultura imperial de base agrícola (pré-D) Não é por acaso que aí comparece a primeira religião do livro. religião que vem justamente para denunciar os falsos poderes da magia sacerdotal e suprimir.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 305 expressão do lógico enquanto tal. o círculo de seus adoradores . CULTURA MONOTEÍSTA MAGIA ANALÓGICA I JUDAÍSMO MOSAICO Pré-D Pré-I MITO CULTURA AGRÍCOLA CULTURA TRIBAL Figura 12. A superação desta cultura se dará pelo advento da cultura lógica da identidade. à volta do bezerro de ouro.

que vem em sucessão e contraposição à lógica do mesmo ou da identidade (I). é Moisés. um de costas para o outro.306 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO dos. que se pode considerar como o fundamento lógico do trágico). porque é desta última. não é de modo algum mais essencial aos gregos do que a “especularidade diacrônica” entre a poesia trágica (simulacro da idéia que ainda estar por vir) e a filosofia (nostalgia do um-todo. A relação especular “sincrônica” (entre homens e deuses. E se vê condenado a não mais retroceder. posição que vai lhe custar o mais alto preço. porque isto significaria a renúncia ao seu próprio ser.Cultura prometéica grega (D) .7) CULTURA DO CONCEITO OU DO ESPÍRITO CRISTÃ DIALÉTICA PLATÔNICA POESIA EXORBITANTE I/D D I CULTURA GREGA CULTURA DA IDENTIDADE FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA Figura 12. que é doravante ser outro (dos deuses). Um segundo exemplo seria o da cultura grega comprometida com a lógica do outro ou da diferença (D). e não da outra. que se alimentará o vigor criativo dos gregos. que roubando o fogo divino assume a posição do outro dos deuses. (Ver figura 12. Daí constituírem os gregos a cultura trágica por excelência. diria Hölderlin.7 . em especial. daquilo que foi e agora é falta). O personagem símbolo aqui é Prometeu.

simular sua própria auto-superação como arte. mas não chegara a realizar -. La Grèce. malabarismo para uma sobrevivência impossível . além. Reparando bem. É pois uma prerrogativa específica da cultura lógico-diferencial. à imitação da própria imitação. veremos que a pátria do ser. grega é mais propriamente o perguntar do que o ser. grega no caso. como tal. ao invés. a dissimulação que ela realmente é. sombra [31] Teriam morrido assim os gregos por excesso de arte. mas Graça!). A filosofia teria sido assim a busca inconsciente desejosa do ser uno (I) que a cultura grega (lógico diferencial D) recalcara em razão mesmo no seu processo constitutivo. ou seja. não produz filósofos e perguntas. Trata-se do modo próprio prospectivo/defensivo do ser grego. Nesta. beauté suprême. é ao mesmo tempo imitação (mimesis) e. lamentablement. por excesso de fingimento. particularmente a poesia trágica. por falta do distanciamento. pretensa extensão da Natureza .Hölderlin -: Leur volonté fut certes d’instituer Un empire de l’art mais là Le natif par eux Fut renié et.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 307 Para compreendê-lo em toda sua significação.do que esta deveria. precisamos ter na devida conta que a filosofia vale menos pelo ser (I) que visa do que pelo distanciamento (D) que viabiliza a pergunta pelo ser (Aristóteles). mas. com a agravante de te- . o que encobre/ revela. Para deixar isto ainda mais transparente. de modo incontestável. uma profusão de profetas e suas duras admoestações aos homens pela sua infidelidade à Promessa (que não é produto de roubo.fazer passar o não-todo pela totalidade fingindo ser sua própria posteridade. do um-todo ou do Deus único. A arte grega. vale aqui apelar à sensibilidade do poeta .

sendo também mais universal e o mais universal. Ali dizia de quantos perigos correriam deixando à solta os seu poetas trágicos. A observação de Heidegger de que Platão representa o fim da filosofia grega é de uma precisão micrométrica. afirma que: Au mythe des poètes prétendant que le beau est vrai. Por isso.308 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO rem sido alertados em tempo por um dos seus maiores . mais individual. mas por sua pretensão de fazer passar o belo pelo verdadeiro. para que fosse ele buscado além. o que. chega a tomar a tragédia grega como o correlato de uma intuição intelectual.. Hölderlin.Platão. no que respeita a pretensão do belo ao vero. Apenas veríamos em Platão menos um traidor [32] do que um clarividente. como idéia ou conceito dialético-trinitário (I/D). alertando-os do que significava a velha e radical inimizade entre a poesia .. Eugen Fink. desde que possamos nós também escapar à sedução exorbitante do que era justamente o mais próprio dos poetas trágicos naquela quadra da história grega. Platon n’oppose pas simplement cet autre mythe disant que le vrai est le seul beau authentique. sabemos. como bem registra A República [33]. não por serem imitadores.que então exorbitava . já lembrado. um bem adequado operador para trazer à tona uma pretensa universalidade. (negritos nossos)[35] Perceber tudo isso não é assim tão difícil. Il interprète plutôt le beau .e a filosofia. alguém que não faltou aos seus. viria a ser a prerrogativa própria da idéia (ou do conceito) [34]. desde que a interpretemos corretamente como o abandono do uno (I) aquém da diferença (D). como se vê. a verdade da parte pela da totalidade. Enfaticamente ele observa: Esse tom fundamental é menos vivo do que o lírico.

como ele e não Heidegger a concebia: dialética da idéia ou do conceito): Il lui fallut quitter le cothurne avec lequel il avait foulé le théâtre tragique. par conséquent sans savoir réelllement. Fink nos proporciona um comentário de grande precisão: C’est là le sens de la critique platonicienne de la poésie. de la philosophie seulement aussi longtemps qu’elle admet que la philosophie lui imprime son caractère. subsistant en dehors ou même au-dessus de la philosophie. des spectacles contre qui la pensée métaphysique { isto é. dialética da idéia} dirigea une violente attaque. . para Platão. (negritos e colchete nossos)[38] ... mimésis. la poésie devient alors. [36] Quanto à essência do conflito opondo Platão e os poetas trágicos. comme préfigure du vrai qui ne s’ouvre qu’à la seule pensée pure. la riguer du concept remit à sa place sa sagesse usurpée.. La poésie est essenciellemente mimétique.. imitation d’une imitation. originelle. Cette critique ne rejette pas absolument la poésie. Cependent elle est imitatio.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 309 comme chemin et échelon vers le vrai. mas era algo essencial à própria afirmação da filosofia (bem entendido. elle rejette seulement la prétension d’une poésie qui revendiquerait une vérité propre.. la poésie imite le vrai savoir. Dans un pressentiment obscur. Le poète de l’épopée homérique et de la tragédie attique fut l’auteur des jeux. (negritos nossos)[37] Muito importante é observar que. on lui arracha son prétendu masque divin. o conflito com a poesia trágica exorbitante não tinha nada de acidental.

vamos tomar o caso da cultura nômade tribal de caçadores/coletores que dominou o período paleolítico e que. porém. em Théorie de la religion [39]. isto é. por ser lógica e historicamente primeira. onde se fixa em definitivo o símbolo da Trindade. vinha usurpar o lugar de uma futura emergência. pois. passa necessariamente pelo evento Cristo/Filho/Logos de Deus (o Crucificado) e chega mais do que 600 anos após à sua solene e irrevogável fisionomia no Concílio de Nicéia. no caso. vamos nos defrontar com questões tais como: Que sentido poderia ter a noção de uma “lógica” anterior à “lógica”. como visto. vê-se compelida a assumir o estado de animalidade “pura” de onde proveio. Georges Bataille. no conflito da idéia com o excessivo poético que. ao mundo da cultura. possui a capacidade lógicoqüinqüitária (I/D/D= =I/D/2) que caracteriza todo os seres humanos. a cultura dialético-trinitária (I/D) se anuncia justamente nesta confrontação de Platão com os trágicos. Diferencia-se da cultura de base agrícola (Pré-D) porque esta se põe como outra da Natureza. Já pertence. Como último exemplo. apresenta algumas interessantes peculiaridades. de onde poderá surgir o movimento de sua superação? O agrupamento humano identificado como préidentitário. recordemos. enquanto que ela mantém-se em posição de completa identificação com a mesma. nos dá uma curiosa e acurada descrição do modo de ser no mundo que o . a pré-I? Como poderia se estruturar o desejo numa cultura cuja lógica é a primeira? Nestas circunstâncias. O desenrolar desse processo é de uma extrema riqueza: é a história da edificação da cultura cristã (patrística ou fundamentalista trinitária).310 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO A nosso juízo. viver da caça a outros animais. que. ignorando simbólica e objetivamente que a tem. para sobreviver. no entanto. Em razão mesmo de sua posição lógico-hierárquica. esboça seus primeiros traços em Platão. dissimulado.

8. Com isso. diríamos que no estágio da cultura tribal de caçadores o homem já conquistou o estatuto lógico (pré-I). mas. na sua própria expressão. para sobreviver. pulsão de morte de um diferencial lógico por força do imperativo de sobrevivência. A condição de caçador o identifica com a caça. (Ver figura 12. Fingimento e superação da cultura tribal Não é difícil perceber o paralelo entre esta condição e aquela que Freud caracterizou como sendo comandada pela pulsão de morte. Embora ainda não se tenha um conhecimento acabado do universo religioso paleolítico. Apenas deveríamos aqui precisar: não se trata de uma volta ao inorgânico.ganho da animalidade (I/D) para humanidade (I/D/2). o fato é que já se pode lá assegurar a . mas da renúncia a um ganho lógico . Em outras palavras. que ao fim de contas representa sua própria animalidade ancestral. compulsão do orgânico a retornar ao inorgânico de onde se originou.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 311 alimentar-se de e ser alimento por outros animais acarreta: o ente vive a absoluta imanência. nem assim constituem uma verdadeira exceção. no que tange ao seu modo desejante. concluímos que as culturas tribais. como a água na água. ou seja. em que pese sua peculiar posição na hierarquia das lógicas. vê-se obrigado a voltar-se para um modo de vida meramente animal (anterior a pré-I).8) PINTURA RUPESTRE CULTURA AGRÍCOLA CULTURA TRIBAL DE CAÇADORES/ COLETORES Pré-D Pré-I HERÓI MÍTICO CULTURA ANIMALIDADE IDENTIFICAÇÃO À CONDIÇÃO ANIMAL O ANIMALIDADE Figura 12.

O autor da proeza está historicamente perdido. precisariam simular a passagem da caça no tempo para a “caça no espaço”. Isto fica evidente em suas práticas cerimoniais. pelo trabalho agrícola. ser de nível lógico Pré-I e tentar se passar por Pré-D. e também de “ser possuído” pela alma de um morto ou de um animal. de penetrar nos corpos dos humanos. fica fácil reconhecer o que realmente significam as belas pinturas nas paredes das cavernas datando justamente do paleolítico superior. Reconhecemos aí o herói . (Ver figura 9) Toda esta artimanha representativa. irá por água abaixo. inclusive também os deuses. postergando o advento da cultura de base agrícola. isto é. mortos ou vivos. mas como o que se tem para conquistar pelo trabalho. não mais se o devora e sim o escraviza. animais e homens. contudo. Isto posto. que vai se propor à recuperação do outro (a Natureza). especificamente. Visa-se o outro agora como meio. seria fundamentalmente uma artimanha (intencional sem ser necessariamente consciente!) criada pelos xamãs para a conservação de seus poderes. [40] O fingimento nas culturas tribais. e mesmo em se tratando de um semelhante. Para tanto. Eliade: O êxtase xamânico implica além disso a possibilidade de “possuir”. ou ainda por um espírito ou por um deus. por força de um movimento de subversão cultural. conforme nos ensina ainda. não mais como o que se perdeu. no entanto. da caça aleatória para a caça assegurada. Sabe-se também que este é um universo religioso dominado pela lógica da identidade de todos os entes. quando já se desenhava para eles o espectro da agricultura. entronizado nos mitos de origem que vão caraterizar o universo religioso desejante da cultura de base agrícolas (Pré-D). isto é.312 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO vigência de algum tipo de xamanismo.

sua face disfarce é a técnica e seus excessos.suficientes para especificar qualquer sistema completo de medidas físicas abrangendo velocidade. spin. a Física é realmente moderna nos seus métodos e na sua escrita (D/2). a Física é produto do exercício de um pensamento sistematizador (D/2).a Física [42]. O fez. bem acorde com a essência da linhagem das culturas lógico-diferenciais: como já vimos. que sejam eles três . temperatura e o diabo [43].tempo ab- 12. porém. fixar as três dimensões essenciais e irredutíveis do ser físico: tempo. com sua mecânica. De fato. Discute-se tudo na Física. mas as equações matemáticas segundo os quais o mundo fora criado. particularmente hoje. que fora recalcada pelo próprio advento da cultura moderna (D/2). corrente elétrica. trata-se do personagem que sobe aos céus e lá rouba aos deuses as sementes que vão propiciar o advento da sociedade de base agrícola. a biopirotecnologia. Chegamos por fim à Modernidade comprometida com a lógica formal (D/2) [41]. fundamentalmente nostálgica no que tange ao seu objeto unotrino desejado (I/D). Em suas grandes crises. espaço (L) e matéria (M) . como se fossem três absolutos . põe-se em questão mesmo o estatuto de seus conceitos mais primitivos. desejosa do uno-trino (I/D). energia. jamais. Sua face desejante situa-se bem no cerne de seu glorioso cientificismo .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 313 prometéico. entretanto.tempo (T). porém. Em suma. força.4. entretanto.pré-assistido por Galileu e alguns outros . espaço e matéria. que não surrupiaram sementes ou fogo aos deuses. Seus grandes heróis são Galileu.foi. indução magnética. aceleração. A Modernidade . pressão. Einstein e tantos outros. (Ver figura12. essência lógica da cultura medieval cristã (I/D). Newton.10) O mais notável dos feitos de Newton .

Isto vem sendo feito através da postulação das modernas teorias não newtonianas . espaço absoluto e matéria impenetrável e substancialmente indestrutível. relatividade geral.relatividade restrita. a partir de então. seja pela substituição de órgãos gastos por outros novos de laboratório artificialmente produzi- . simularia esta perfeição onto-lógica através da promessa da assintótica eternidade biológica.e a concomitante introdução de constantes universais correlatas [44]. à plenitude lógica. eletrodinâmica quântica . daí porque. a história da Física moderna é a incansável busca da relativização daquelas três grandezas através da determinação de seu comprometimento mútuo.314 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO soluto. A técnica. CULTURA NOVA LÓGICO-QÜINQÜITÁRIA POR VIR I/D/ SUPERAÇÃO 2 PÓS-MODERNIDADE BIOTECNOLOGIA ESPETACULAR CULTURA CIENTÍFICA MODERNA D/2 I/D CULTURA TRINITÁRIA CRISTÃ FÍSICA (CÁLCULO DO UNO/TRINO: REDUZUIDO A TEMPO. em especial a biotecnologia. de certo modo. Na cultura nova lógico-qüinqüitária o homem teria chegado ao seu pleno auto-desvelamento. ESPAÇO E MASSA) Figura 12.10 – A Modernidade De outro lado. está a técnica pela qual a modernidade científica simula que estaríamos já no após-modernidade hiperdialética. mecânica quântica. Se não uma “heresia triteísta . enganadora. pelo menos um gritante e bem compacto oxímoro.

É o velho demônio” de volta. o que. Ela traz implícita a promessa tanto da preservação incólume como da recomposição informacional de todas as coisas. não chega à hiperdialética qüinqüitária (I/D/2). Na técnica concorrem. nada solidários. de modo obrigatório. a propósito. respectivamente.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 315 dos (os transplantes seriam já uma preparação para tanto). constituindo-se apenas em seu arremedo. mas novo saber cristalizado (D/2).egoístas. insensíveis. enfatuados. A lógica da técnica. de um lado. cada dia mais carentes de tudo (pois o marketing chega sempre à nossa frente) -. Continuaremos tal como somos . deixa bem à mostra (e de costas) quão risíveis são nossas atuais “políticas de importação de tecnologia”. omissos. também a inabalável determinação para fazê-lo (I). fazendo-se cínico coro com os arautos do Departamento de Estado. entretanto. inclusive. mas tão apenas de subordinação da lógica transcendental das de- . pois. Para se chegar a voar é preciso. seres vivos e memórias. mas. não ocorre ali propriamente um processo de síntese. em compensação. a determinação ou o empenho numa realização. contra a morte em geral no mundo. de sorte que em sua lógica estão necessariamente implicadas. do homem em todos os seus pormenores. não se sabe como. em juvenil anjo de Maxwell. agora. É também o fim da História que tanto se apregoa. de outro lado. com toda sua carga hereditária e de vivências acumuladas. o saber científico. seja intervindo e consertando os defeitos de programação genética ou desarmando seus gatilhos internos disparadores da morte. a lógica clássica ou formal (D/2) e a lógica transcendental ou da identidade (I). futuramente. sem qualquer imaginação. metamorfoseado. assim para toda a eternidade! A digitalização já se desenha como a grande arma contra o aumento da entropia. sim. mesquinhos. O avião já em vôo não é tecnologia. além de um saber da aerodinâmica (D/2).

não se pode apresentar ainda fatos. Como olvidarmos três séculos de caça às bruxas (ou à sexualidade feminina). Poder-se-ia assim dizer. ou seja. vislumbrar como se dará a superação da Modernidade. o homem da nova cultura hiperdialética qüinqüitária. mas talvez milhões ao mesmo tempo. coetâneo e co-fundador na fixação das bases do cientificismo que viria justamente constituir a essência da modernidade?! [46] Eis. com toda a precisão. a rigor. para expulsar os tecnólogos da Nova República de Verdade. um novo Platão que abandone o uno-trino (I/D) aquém da dupla diferença (D/2) científica para buscá-lo à frente. em linhas muito gerais. como discurso pleno hiperdialético-qüinqüitário (I/D/2). exigiria muito mais: para começar. Podemos valer-nos de um paralelo com a cultura grega e. o eterno retorno revigorado dos esquemas teóricos. animados já por uma nova e autêntica espiritualidade qüinqüitária).a sistematicidade -. lá. É óbvio que isto não vai representar o fim da ciência e da técnica. além. Pode-se facilmente prever a vinda de um Platão (que provavelmente não será um. das organizações burocráticas e similares.316 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO terminações à lógica formal da ciência . a recuperação das lógicas da diferença (D) e dialética (I/D). por razões óbvias. lógicas justamente recalcadas pela cultura moderna (D/2). reparando nas vicissitudes por que passou a filosofia. da razão autenticamente feminina [45]. que a técnica realiza a simulação da lógica qüinqúitária (I/D/2) através da pseudo síntese machista da ciência (D/2) e de seu sujeito sujeitado (I). Daqui por diante. das regras de poder. entretanto. A verdadeira síntese qüinqüitária (I/D/2). como a técnica se faz usurpadora do lugar onde pode advir o homem em sua plenitude. Não é difícil.à lógica transcendental cabe apenas a função menor de viabilizar a reprodução de sistemas . . mas tão apenas conjecturas.

Desde Raízes do Brasil. como uma nação que nasce com a Modernidade. tendo como seu sujeito. A Modernidade. o cogito. fundada por Portugal. completa- 12. todo esse alarido sobre a modernização brasileira. é.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 317 mas tão somente a sua subordinação ao Pensamento.5. aos interesses de uma humanidade por fim em seu estado de plenitude hiperdialética. Ainda que inconscientemente. Vamos tentar esclarecê-lo com a ajuda da figura 12. Mas acho que temos que aprofundar e entender melhor como se dá essa incompatibilidade e porque persiste este dilema. tem que ser olhada não como a questão da opção por um paradigma. uma nação que chegou a liderar o processo europeu de modernização. ou melhor. Este é verdadeiramente o nosso grande conflito interno. de Sérgio Buarque de Holanda. entrementes. e a Modernidade. O Brasil e a Modernidade . para nós. Por quê? Porque afirmou que o mundo objetivo era geometria. ali está posto de maneira implícita. a problemática brasileira é posta em termos do dilema ser ou modernizar [47]. entre a formação cultural brasileira. mas como a questão da sua ocultação ou dissimulação. A partir daí fica fácil perceber a essência do problema da incompatibilidade entre a formação social do Brasil. Entretanto.11. pode ter o problema de se haver com a Modernidade? Não pode ser isto. como de resto todo o discurso (ideológico) sobre a Modernidade. o que se está sempre na verdade evitando ou ocultando é a questão de quem deva ser o sujeito da modernização (racionalização) que. no fundo. Em suma. um discurso acerca de qual opção de sujeito da ciência se intenciona deveras dissimular. obedecendo à lógica do terceiro excluído. era ser-calculável. Sabemos todos que Descartes é quem inaugura (reflexivamente) a Modernidade.

de uma catástrofe natural ou artificial. Figura 12. põe de novo o sistema em funcionamento. de um bando de assaltantes. de ETs. depois de derrotar a adversidade. o famigerado herói fordiano .318 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO mente transparente a si mesmo.uma caricatura. sujeito liberal. mas nunca a comunidade – e. que pode ser a chegada da estrada de ferro. sujeito de projeto. obviamente -: existe um sistema comunitário funcionando. aí ocorre o contingente. de índios. [48] Todos os filmes americanos são a mesma coisa . se quisermos. de qualquer coisa que o faz degringolar.11 . ou.Problemática cultural brasileira . Então surge um sujeito isolado – às vezes até um punhado de indivíduos isolados.

depois também vendem para cá sem correrem o menor perigo de que os imitemos. não dá para ele próprio gerar outra coisa. o cientificismo.é o cemitério.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 319 Quem viu. mas como simples entretenimento). Desvelar e instalar o sujeito da ciência. não uma lição de vida (cultural americana. demorou cerca de 500 anos. o sujeito liberal. não se podia mesmo ter uma cultura viva que fosse estritamente científica. Quando se faz um sistema de folha de pagamento. a lógica do sistema é a lógica da morte. uma álgebra axiomatizada. é a junta médica que pretende fazê-lo –. Dançando com lobos. portanto. ainda que similar. Para tanto. que tinha uma tática e ele executa outra por conta própria. ou 1100. porque nós não conseguimos ver o filme. por exemplo. não pela adoção do cientificismo. E ganhou vários Oscars! E muita gente pensa ingenuamente que eles perdem tempo em Hollywood fazendo filmes só para nos enganar. poderia facilmente perceber isso: o sujeito se rebela contra a junta médica – não é um médico que vai cortar a perna do herói. contra o exército americano. contra o regimento. com a própria Igreja tentando demonstrar para todo mundo que a ciência seria desnecessária. mas pela descoberta do sujeito que . um organograma. O que se pode sacralizar. a única coisa que se enquadra bem nesta lógica . Não! Eles fazem filmes para reiterar o que são.um retângulo com uma porção de retângulos dentro . para educar. A consolidação da Modernidade. passando do radical trinitarismo de Santo Agostinho (dialético I/D) para o tomismo (lógico-clássico D/2). nós vemos outro filme. O sistema não pode por si produzir outro sistema. a lógica funerária. não é o sistema vigente [49]. ao final. ou seja. mas a cultura da sistematicidade. é uma história de seguidas insubordinações. Tudo começa no ano 1000. sujeito intervalar entre dois sistemas. ou 1250. É necessário para tanto um sujeito fordiano. procedia à aristotelização de sua teologia. Porém. Logo.

por quem e em proveito de quem? No paradigma anglo-saxão. porém. a turma à “esquerda” contra-ataca. por exemplo. Assistindo-se a uma reunião em Brasília sobre. a Igreja deixou emergir o jesuitismo latente. não constituíram/ consolidaram o sujeito que lhes seria apropriado. Existiriam alternativas? O mais interessante é que esta questão se pôs logo no início da Modernidade. veremos a turma que segue o paradigma americano propor que as verbas sejam dadas aos indivíduos que apresentem o melhor projeto. É sempre a mesma coisa! Nós temos uma enorme dificuldade em aceitar aquele su- . havia a necessidade de dar-lhe uma resposta. todos os cientistas estão a serviço da reprodução dos sistemas. ou seja. a ciência vai ser feita para quem. Embora Portugal e Espanha tivessem dado partida à Modernidade. Então. à racionalização/burocratização do mundo. foi obra dos protestantes [50].320 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO lhe seria próprio. obviamente representado por um sujeito simbólico absoluto (delegado do Absoluto). sujeito de projeto. há também uma liberdade de fato. Ou melhor. que formula uma contra-proposta (contrareforma): no lugar do sujeito calvinista (I) colocar-seia um sujeito coletivo (I/D). Por isso. para permitir que os sistemas se reproduzam. propondo que as verbas sejam destinadas à criação de tecnologias que venham contribuir para resolver os graves problemas “sociais” [52]. A cúpula da Igreja não queria discutir sujeito nenhum. mas o expulsaram! [51] O problema é pois quem deva ser o sujeito do sistema. precisamente aquela de um sujeito fordiano. imediatamente. o sujeito liberal. o tinham por lá até bastante. não se mantiveram na vanguarda porque acreditaram que lhes bastasse o Tratado de Tordesilhas (a lógica do terceiro excluído imposto ao mundo com a benção de Deus). depois que o protestantismo colocou a sua solução. desenvolvimento tecnológico.

inclusive científico. Quem leu o livro do Pietro Redondi. foram se formar na Sorbonne.de querer aparecer. e os ibéricos mais ainda o apertam até que a Ordem é “dissolvida”. que sobe no muro e passa três anos procrastinando a decisão. Em que escola Lenin poderia ter aprendido o que fazer?! A exata fórmula jesuítica! É o maior absurdo dizer que a Igreja era contra a ciência se os jesuítas. isto é. e. É incrível a carga que o Marquês de Pombal e os espanhóis fazem sobre a Ordem dos Jesuítas.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 321 jeito individualista. se tornar um mau exemplo. [53] verifica claramente que o problema de Galileu não é com a Igreja. todo jesuíta é formado em alguma coisa de cunho acadêmico. no caso. Catarina da Rússia então os recebe na Polônia e chega a ameaçar o Papa: se insistisse em dissolver a Ordem em seus domínios. fazer sucesso. com os jesuítas. era uma parte da Polônia ocupada. e nada tem a ver com a ciência propriamente dita.não é o que diz Redondi. a proposta jesuítica é a de um sujeito coletivo que. Ele foi acusado formalmente do não cumprimento de sua palavra e. até hoje. exatamente por tal. pressionam um Papa. ser aquele que fazia ciência para ele próprio “faturar”. entrementes. no fundo . uma boa leva de seus integrantes continuou se refugiando na Rússia que. que acaba louco. A Polônia ficou católico-romana exatamente porque o Papa recuou. desde o fundador. o sujeito liberal ou fordiano. precisa ser representado por um sujeito emblemático absoluto: é a proposta ciência e absolutismo. E. pressionam o seguinte. Galileu herético. ela ordenaria “ortodoxar” a Polônia”. Santo Inácio. sim. mas do texto facilmente se o depreende . ele fez de conta que acabou com a Ordem. Com que finalidade? Para ajudar numa reforma educacional. para os jesuítas. Resumindo. mas com um sujeito coletivo representado pelo monarca absoluto. uma reforma “modernizadora” no sentido dos tzares: ciência sim. a ciência deveria ser feita coleti- .

Começou-se lá com a intenção de colocar a ciência a serviço do coletivo (NEP). é também disso uma variante. e não tributário ou intervalar. Isto é a grande ilusão de todas as esquerdas. que faz do último sujeito tributário do primeiro [ver de novo figura 12. O que há aí de importante que precisa ser visto? A maioria das “pessoas de esquerda” no Brasil acha isso bom e nós também. sub-repticiamente também se propõe inverter a seta. no caso.322 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO vamente e em benefício da coletividade.11). do Japão. não vai perverter jamais [54]. é uma solução impossível. Então. resultou. Em última instância. como mostramos no item 1. O que se está chamando hoje capitalismo confucionista. Basta lembrar a expressão socialismo científico: socialismo é o sujei- . pois. pois o indivíduo do projeto (I) está a serviço do sistema. só que optar pelo sujeito coletivo e ao mesmo tempo fazê-lo determinante. Ficou desde então este tipo de “alternativa . de fato. ela é produto já de um ciclo contra-dialético. é ciência (D/2) com sujeito coletivo (I/D) representado pelo Imperador. Tudo por uma simples razão: a lógica clássica (D/2) pressupõe e subsume a dialética (I/D). pelo Secretário Geral do Partido Comunista Chinês no continente e pelo patriarca da “família alargada” na diáspora chinesa por todo o mundo. já estando pervertido. Mas quando é proposta a solução à esquerda (D/2 com I/D). ou capitalismo oriental. mas sabe-se hoje no que isto. A seta que iria do sujeito coletivo para a ciência vai se inverter e se irá ter uma burocracia usando de uma ideologia para dominar a massa. O capitalismo anglo-saxão não tem esse problema. é a lógica do sistema (D/2) que prevalece e o exemplo evidente é a URSS. não se pode inverter a seta que no capitalismo anglo-saxão ou paradigmático vai do sistema para o sujeito. a primeira é lógica de um pensar mais poderoso do que a última. pretende-se que a comunidade ou o ser-comunitário (I/D) vá se servir da ciência (D/2) em seu próprio benefício.

de certa forma. isto porque são elas justamente as lógicas que a Modernidade está recalcando/desnaturando. na verdade. a Modernidade). a estabilidade do emprego etc. Pelo mesmo raciocínio. é apenas o lugar para uma crítica. . entretanto. portanto. é repetir Descartes. os possíveis lugares de sua crítica. ele só está resistindo um pouco mais à perversão em razão de sua grande homogeneidade cultural.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 323 to como ser coletivo (I/D) e científico é o mundo objetivo (D/2). que é a do sujeito romântico. Existe. uma outra alternativa. se baseia em ambos: ele é a afirmação das lógicas da diagonal masculina (I e D/2). a posição dialética (I/D) não é o lugar de uma solução. baseado num sujeito coletivo (I/D). entretanto. povo. Maior evidência não existe! Não é isso que toda empresa faz? Sozinha. Marx é importante para criticar o capitalismo (melhor diríamos. sujeito inconsciente. Precisa-se explicar mais?! O Japão vai pelo mesmo caminho. As outras duas lógicas (I/D e D) constituem o avesso da Modernidade. O que faz ela da dialética (I/D). da História? A faz história calculada. ou seja.. isto está hoje mais do que comprovado. sujeito telúrico. mas estão agora acabando com o respeito aos velhos. a lógica clássica posta a serviço da dialética. eles aprenderam a bem usar a ciência e a técnica.o que. sendo. bem perto de nós. quem está apostando na China como a grande nação capitalista do século XXI irá se decepcionar. Assim. Com o esfacelamento da URSS. o que levará à sua própria dissolução cultural. sujeito poético. Entremos numa empresa qualquer: a primeira coisa que se irá constatar é a obsessiva pré-ocupação com o cálculo da taxa de retorno do capital. ou. o empresário samurai. ele se baseia na racionalização do mundo (D/ 2 ) ou então no sujeito schumpeteriano (I) . Todos que se manifestam a favor do capitalismo dizem que. em essência. mas não para propor um sistema alternativo. A Modernidade.

uma pseudo alternativa para a Modernidade. e o fascismo é uma resposta antecipada ao consumismo. Foi precisamente por isto que o fascismo apareceu tardiamente (como força social) em relação ao socialismo. mas igualmente os EUA (sujeito I). ou seja. o comunismo não tem mais futuro.que sabe bem o que é cultura e sua importância. mas o mesmo não se pode ainda seguramente afirmar do fascismo! Entrementes. vale dizer. vigente no paradigma anglo-saxão. Vê-se agora uma simetria temporal perfeita: o marxismo é uma resposta retardada ao cálculo da História. A tendência da “elite” brasileira – a generalização aqui é. Para Heidegger. antes do que em qualquer outro lugar. Foi precisamente por isso que ela respondeu por antecipação ao consumismo [55]. o capitalismo e o seu novo motor. Por isso. sem dúvida. melhor dito. porque tem lá sua cabeça jesuítica. à acumulação pré-calculada do capital. é óbvio . entretanto. e como já se viu. Nós temos uma formação ibérica forte. mas no aspecto educacional sempre houve a preponderância do luso-jesuítico. O fascismo é uma alternativa. (Retornar à figura 12. Lá começou-se a sentir. ou capitalismo de marketing.11) A Alemanha tem uma elite . o marketing. perverte. bem depressa. mas sempre com a consciência culpada. velhos rivais do logos heraclítico (D) [56]. Se fraqueja com a idade. Ele pode ficar rico. como um agressor da cultura.324 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO sujeito libidinal. justo quando o capitalismo começava a deixar de ser produtivista para tornar-se essencialmente consumista. com o sujeito romântico (D) no lugar do sujeito liberal (I).bem diferente da nossa. o inimigo da Alemanha (dizia Europa) não era apenas a URSS (sujeito I/D). O indivíduo aqui tem mesmo vergonha de ter lucro. porque também inverte a direção da determinação ciência/sujeito. um exagero – é comunitário/absolutista (I/D). não faz uma grande doação benemerente a .

Ou seja. Há um artigo seu. Não se aproveita nada – é o que o Roberto Campos nos ensina.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 325 uma universidade ou instituição filantrópica. Boa parte de nossa “elite” política. pela concorrência. na circunstância) para sujeito ostensivamente libidinal (D)! E o povão [57]. Não há quem não o queira. a dificuldade de modernizar o Brasil. incrível. mas para então poder gozar mais. e vende a economia brasileira em bloco para empresários monopolistas estrangeiros. sem ninguém ver ou atrapalhar). O atual Governo está mais ou menos seguindo esta dupla receita: põe a classe média para vender cachorro-quente e assim. o Brasil está sendo construído. no qual afirma que o índio é preguiçoso. com isso. e ninguém quer saber do projeto (I). dizem de um lado. na sexta à noite. empresarial e até intelectual está traindo a causa brasileira. no juízo (ou ausência de juízo) dele. embora nós não queiramos ver (por isso se diz que o Brasil cresce à noite. trabalhar racional e disciplinadamente sim. ou mesmo fazê-lo o ano inteiro para poder desfilar condignamente no Carnaval. inves- . mas simplesmente muda (se fantasia. mais precisamente. não dá para fazer nada. O único jeito de o fazer é acabar com a elite. matar de fome a baiana do acarajé. vale dizer. se diz que com esse “povinho” não dá. o negro só quer saber de magia e o português é patrimonialista. pré-D). melhor se diria. Daí. com toda nossa herança histórico-cultural. poder tomar sossegadamente sua cerveja com os amigos. Trabalhar duro a semana inteira para. Por que não se consegue modernizar o Brasil? Porque a elite puxa para o sujeito coletivo/absolutista (I/D) e o povão puxa para o sujeito libidinal (D. como nos EUA. De outro lado. puxa para o lado do sujeito libidinal (uma forma arcaica de D: pré-D). principalmente onde pesa mais a cultura africana. mas ninguém quer se botar no devido lugar (I). Entrementes.

Ademais. Em suma. Construir uma cultura é tarefa para 500 anos ou mais. pelo menos. porque temos. eclesiásticas e intelectuais. Só há uma coisa para a qual temos vocação: é a síntese lógicoqüinqüitária. militares. Eu não digo que o Brasil está pronto. por vir. Há. ele o é deveras à originalidade. na síntese. que está. haveremos de chegar lá. na qual exatamente deveríamos apostar. empresariais. ele está quase. para quê? Para ocultar nossa grande alternativa. todos os componentes de base para tanto. . ainda. no pensamento único. o Brasil não é um bom candidato ao luxo. e também não adianta insistir em entrar para a Modernidade. como acreditava Darcy Ribeiro. e nós já estamos bem próximos de alcançá-los! Apesar da cegueira das nossas “elites” políticas. mais do que quaisquer outros. para nós não há saída à esquerda e não há saída à direita. um nível de desenvolvimento cultural que seria o de uma cultura qüinqüitária.326 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tindo no fim da História.

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Notas

Capítulo 1

1. THOMAS, Louis-Vincent. A etnologia, mistificações e desmistificações in História da Filosofia – Idéias e doutrinas, dir. F. Châtelet, v.7. Rio de Janeiro, Zahar, 1974 2. LEIBNIZ, G. W. Princípios da Natureza e da Graça in Obras Escolhidas, Lisboa, L. Horizonte, ?. p. 149. 3. KANT, Crítica da Razão Pura, Lisboa, Gulbenkian, 1989. 4. O infinito matemático é um artifício para justamente ocultar, no mundo da matemática, a problemática do Absoluto, assim como o zero é o artifício similar para ocultar o Nada, que nos imporia a incômoda questão da origem dos números. Portanto, a atribuição da infinitude, qualificada ou não, feita ao Absoluto é um péssimo costume dos teólogos, na medida que sua essência é precisamente a ocultação, se não do Absoluto, pelo menos da visibilidade de sua simples problemática. 5. Só para exemplificar: I think the Anthropic Cosmological Principle brings us to an idea perhaps as old as humanity itself: that we are not at all just an accidental anomaly, the microscopic caprice of a tiny particle whirling in the endless depths of the universe. Instead, we are mysteriously connected to the entire universe, we are mirroured in it, just as the entire evolution of the universe is mirroured in us. HAVEL., Vacláv. The Need for Transcendence in the Postmdern World in THE FUTURIST, July-August, 1995. p.48. 6. SAMPAIO, L. S. C. de. Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultural. Rio de Janeiro, setembro, 1999 7. ______. Superação das idolatrias - a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária, Rio de Janeiro, novembro de 1999. 8. ______. Remanejamento das Relações Indivíduo/Sociedade na Cultura Nova Lógico-qüinqüitária. Rio de Janeiro, janeiro, 2000 (acrescentado a posteriori).

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1. Não desconhecemos que expressão semelhante foi usada há muito por George Balandier no título mesmo de seu livro ANTHROPO-LOGiQUES, Paris, PUF, 1974, mas, o próprio leitor poderá verificar, com uma motivação bem diferente da nossa. 2.Um semimonóide é uma estrutura algébrica, por nós definida, munida de uma operação genérica / gozando das propriedades de fechamento, associatividade e de existência de um elemento neutro ou nulo apenas de um dos lados, não importa se a direita ou a esquerda. Ele é dito livre quando seus elementos são gerados, ainda pela operação/, indefinidamente, a partir de um conjunto finito de elementos fundamentais. Ver Sampaio, L. S. C. de, A matematicidade da matemática surpreendida em sua própria casa, nua, na passagem dos semigrupos aos monóides in Lógica Ressuscitada – Sete ensaios, Rio de Janeiro, EdUERJ, 1999. 3. Ser um operador nulo à direita é não exercer qualquer efeito quando ocorre à direita de outro operador. Assim, no monóide livre básico que representa a estrutura formal das lógicas,temos para qualquer X, X/I=X, em particular, D/I=D, o que já não acontece quando I ocorre à esquerda, pois, I/D ¹D. 4. Uma observação importantíssima é a de que, por exemplo, em sua máxima generalidade, D/2 não é uma forma abreviada de D/D, mas de (D)/(I/D), e que portanto a lógica clássica pressupõe a lógica dialética e, de certo modo, nega ao mesmo tempo que herda boa parte de seu enorme poder: a lógica clássica é, por isto mesmo, uma lógica das totalidades convencionadas, destarte, pai e mãe da matemática. Para maiores detalhes, ver SAMPAIO, L. S. C. de Lacan e as lógicas, Rio, 1992 (xerografado) e, ainda do mesmo autor, Dialética trinitária versus hiper-dialética qüinqüitária, in Lógica Ressuscitada – Sete Ensaios, op. cit. 5. O termo qüinqüitário, no presente contexto, refere-se a uma lógica que subsume cinco lógicas, ou seja, à lógica I/D/2, assim como o termo unário referenciar-se-ia a uma lógica que subsume apenas a si mesma, a lógica transcendental ou da identidade I, e o termo trinitário, a uma lógica que subsume três lógicas, vale dizer, à lógica dialética I/D. 6. Na impossibilidade de explicações mais demoradas, confiamos nos conhecimentos e na intuição do leitor para identificar em alguns campos de saber o exato momento de passagem da estrutura conceitual trinitária à qüinqüitária. Na física, ele situar-se-ia na passagem dos leptons aos barions; na psicanálise, na passagem da fase fálica àquela de assunção da sexualidade propriamente humana ou tetrapolar; em eco-

Capítulo 2

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nomia, na passagem do feudalismo ao capitalismo; na etnologia, na passagem da cultura cristã trinitária ou patrística à modernidade cietífico-tecnológica; na semiologia, na passagem do símbolo ao discurso. 7. Acompanhando com atenção o seguinte texto lacaniano, mais facilmente consolidaremos nossa certeza de que a lógica da diferença D, também lógica do significante e da verdade parcial, tem por verdade própria o gozo: “Isso só se goza por corporizá-lo de maneira significante. O que implica algo que não o partes extra partes da substância extensa. Como o sublinha admiravelmente essa espécie de kantiano que era Sade, só se pode gozar de uma parte do corpo do Outro, pela simples razão de que jamais se viu um corpo enrolar-se completamente, até incluí-lo e fagocitá-lo, em torno do corpo do Outro. É por isso que somos reduzidos a um estreitamentozinho assim, a tomarmos um antebraço, ou não importa o quê - puxa!”. O Seminário, livro 20, Rio de Janeiro, Zahar, 1982, p. 35. Negritos nossos. 8. Quanto a que a dialética I/D tenha a vitória como sua verdade própria é suficiente atentarmos para o fato de que a História, por definição, já fez a sua escolha: sempre, pela “razão’” do vencedor. Ela é parcial e total pela simples razão de que todos os elementos em luta querem impor ao todo sua verdade, por definição, parcial ou partidária, o que aliás é uma impossibilidade. Muito se reclama por aí de que não se façam histórias dos vencidos; não poderia ser doutra forma, já que a verdade da dialética é mesmo a vitória. O que aconteceu de pior com o marxismo real não veio de uma acidental loucura, mas, de modo inexorável, de sua herança lógico-hegeliana. Para que ninguém se sinta com isso acabrunhado ou desiludido, alertamos que a dialética I/D, para o homem, não é sua lógica maior. 9. Trata-se do postulado que na física interna a ação de medir, que, em sua idade clássica, era algo de fantasmagórico; isto tornou-se essencial para a mecânica quântica cujos objetos são, em geral, microdimensionais e por isso facilmente perturbáveis. A rigor, o postulado refere-se a uma segunda medida que, em razão da continuidade do mundo, se executada imediatamente após a primeira, precisaria repetirlhe o resultado. Na primeira, teríamos Opy* fornecendo um número n e jogando o mundo num estado y ligeiramente diferente de y*. 10. Operadores hermitianos são aqueles cujos valores próprios são sempre números reais. Na lógica, tivemos que abandonar esta restrição que vige na mecânica quântica para podermos incluir num mesmo formalismo também o operador S, S tal que S3(y) = y, que representa a lógica do ser

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humano em sua plenitude, ou seja, I/D/2 , que dentre seus três valores próprios possui dois deles com parte imaginária. A propósito, esta é a “razão formal pela qual o ser humano só chega à plenitude em no mínimo três (correlatos aos pronomes pessoais eu, tu, ele ou nós, vós, eles), como já observaram Freud e, com maior precisão, Lacan em seus Seminários. 11. Ouve-se dizer que ao animais são capazes de operar por reflexos condicionados, como se esta locução fosse uma explicação “materialista” em bases empíricas do comportamento animal. De fato ela é importante, mas apenas do ponto de vista lógico: a palavra reflexo é obviamente de natureza lógica I e a palavra condicionado, isto é, determinado por outro e não por si, de natureza lógica D; portanto, em conjunto, a locução define uma capacidade lógico-dialética I/D. Assim, o cachorro de Pavlov, é mais hegeliano do que marxista, mais dialético idealista do que propriamente materialista. 12. À lógica I/D/2 correspondem tanto o indivíduo quanto o coletivo, em particular, a família nuclear e, às quatro lógicas por ela subsumidas, os componentes familiares típicos: os masculinos, I ao pai e D/2 ao filho; os femininos, D à mãe e I/D à filha (ou virgem). Pareceria haver aqui um conflito agudo com a noção de família nuclear do estruturalismo, na qual se incluiria o tio materno e não a filha. Acontece que se pode “provar” que as duas noções são equivalentes diferençando-se apenas em que a estruturalista é a posteriori da troca e a nossa, a priori da mesma. Ademais, a lógica a ser adjudicada ao tio materno, seria precisamente I/D na medida em que ele é pai (I) na outra (D) família nuclear, no sentido por nós proposto. Devemos declarar que estes esclarecimentos só se tornaram possíveis graças às observações críticas do antropólogo Mercio Pereira Gomes a quem, obviamente, agradecemos, mas que nada tem a ver com o modo pelo qual tentamos superá-las. 13. Dizemos com toda a generalidade porque, seja no sentido teológico judaico-cristão, seja no da cosmologia moderna (hipótese do big bang). o mundo advindo terá que sê-lo necessariamente como espacial, como essencialmente res extensa, logo, múltiplo. A identidade só pode aí emergir por um artifício a posteriori que seria aquele do colapso de alguma diferença disponível. A força lógica deste argumento pode ser constatada na física moderna - nos modelos cosmológicos a 10 dimensões em que 6 colapsam , embora não desapareçam, resultando em nosso mundo aparente de 3+1 dimensões -, como também na embriologia, onde o tubo neural, inclusive o cérebro, resultam da invaginação (colapso) do tecido ectodérmico sensível, inicialmente disposto apenas como uma superfície.

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14. A pergunta pelo ser (I) exige a diferença ou o logos, ou seja, a filosofia (D); a pergunta pelo ser-objetivo (I/D) exige a dupla diferença, ou seja, a ciência (D/D) e portanto a pergunta pelo ser-humano (I/D/D) exigiria a tripla diferença, ou seja, “as ciências humanas”, o que , felizmente, é uma impossibilidade lógica, pois D/D/D não cabe em I/D/D. Ver Lógica e Realidade in Lógica Ressuscitada – Sete Ensaios, op. cit.. 15. O princípio antrópico emerge da constatação de que admitidas mínimas variações nos valores das constantes universais transtornar-se-ia de tal sorte a história do Universo, que se tornaria impossível o advento do homem. Conclusão: se as constantes universais sempre o foram, constantes e universais, então, desde o big bang, o Universo já guardava em suas potencialidades a matriz do homem. Admitindo-se que só o homem é capaz de conhecer as leis que regem o Universo e suas respectivas constantes, fecha-se o círculo: este Universo destinava-se, ab initio, ao homem, e o homem a ele; este é, em essência, o conteúdo do princípio antrópico. O princípio ainda sofre o repúdio de um número significativo de cosmólogos, entrementes, elaboramolhe uma versão baseada em argumentos não só físicos, mas igualmente lógicos, que não o deixa sujeito às restrições mais freqüentes até hoje contra ele levantadas. Para detalhes, ver Pricípio antrópico, a seguir neste volume. 16. Admitindo-se que a cultura egípcia, de fato, abeirou-se do monoteísmo. Ver especificamente MOISÉS E O MONOTEÍSMO - Freud, Obras psicológicas completas, v. XXIII, Imago, Rio, 1975 - sem que seja necessário concordar em toda latitude com as teses ali defendidas. 17. A referência aqui é ao diretor cinematográfico John Ford irlandês, embora atuando nos EUA - em cujos filmes era freqüente a presença do herói solitário que sempre aparecia para repor a ordem no “sistema” contingentemente perturbado, e tão logo o conseguia, deixava-se ir embora, solitário como chegara, pelas estradas. Pode-se haver algo mais expressivo do que isto, no caso?! 18. A relação indivíduo/coletivo ou indivíduo/História é de fato um velho questão que se arrasta até hoje, como se pode constatar pelo uso tão insistente das expressões de conotação matemática excluídos e inclusão social. O tema, não há dúvida, tem sido muito maltratado pelos pensadores da sociedade. Os marxistas, em especial, sempre o tiveram atravessado na garganta, desde Lenin, passando por Plekhànov, Adam Schaff, R. Garaudy, até chegarmos a Alain Badiou, que nos primórdios dos anos 80 denunciou com todas as letras a carência de uma teoria do sujeito no marxismo clássico, sem a qual, é óbvio, tal problemática não poderia ser

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adequadamente tratada; ver Alain Badiou, Théorie du sujet, Paris, Seuil, 1982. 19. Ver especialmente O MAL-ESTAR NA CIVILIZAÇÃO, Freud, Obras psicológicas completas, v. XXI, Imago, 1974. 20. Referimo-nos entre tantos outros a Sérgio Buarque de Holanda, Fernando Novaes e José Miguel Wisnik. 21. Há muito fomos despertados para este tipo de questão pela leitura do provocante Linguagem e Realidade do pensador tcheco Vilém Flusser, publicado em 1963, quando ele ainda lecionava no Brasil. Só algum tempo depois é que tivemos notícia da tese similar hoje largamente conhecida como hipótese Whorf-Sapir. 22. O termo elite tem aqui um sentido bastante largo para ser aplicado o todos aqueles que exercem quaisquer posições de mando, não importa o nível da escala sócio-econômica considerada. 23. Em todas estas considerações omitimos o peso da nossa cultura autóctone, que classificamos como Pré-I ou ainda muito próxima deste tipo nodal. Em nossa opnião este tipo, por ser o mais originário, não traria um peso específico justamente por incarnar a cultura em sua generalidade. Não descartamos que uma compreensão mais profunda da problemática cultural brasileira venha nos obrigar a uma revisão profunda desta opinião.

Capítulo 3

1. Citado por I. M. BOCHENSKI, Historia de la Lógica Formal, Madrid, Gredos, 1976, p. 288. Tanto Bochenski quanto GILSON, Etiene (A filosofia na Idade Média, S Paulo, Martins Fontes, 1998) dão testemunho que a mathesis universalis de Leibinz teria sua inspiração na Ars Magna et Ultima de Lúlio. 2. LÉVY-BRUHL, La Mentalité Primitive, Paris, Retz, 1976 3. _______. Les Carnet de Lucien Lévy-Bruhl, Paris, PUF, 1949. 4. LÉVI-STRAUSS, Claude Antropologia Estrutural Um e Dois, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1976 5. Bricolage: em geral, técnica oportunística de construção de novos objetos a partir do reaproveitamento de velhos objetos, de suas partes, até de seus caco ou pedaços. No caso, o termo está sendo transposto par o terreno simbólico e o reaproveitamento é fundamentalmente o de partes de estruturas conceituais já usadas em outros contextos. 6. Numa das sessões do XVII Congresso Nacional da SUSSESO, em 1984, quando ingenuamente falamos em pensamento pré-lógico - não no sentido de destituído de lógica, mas de ainda incapaz de uma representação simbólica objetiva de seu uso -, um companheiro de mesa, famoso

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antropólogo, do alto de sua autoridade midiático-doutoral, na impossibilidade de queimar-nos vivo pela heresia, teve um verdadeiro chilique diante do público. Inesquecível! 7. A remissão aos gregos é, na verdade, de natureza temática, pois como bem observou Mercio Pereira Gomes, do ponto de vista existencial, deveríamos remetermo-nos aos povos mais primitivos que, para simplesmente preservarem sua identidade, se vêm obrigados à operação lógica de nadificação do outro, ou seja, a se instituírem como os únicos verdadeiros humanos. Quanto às nossas opiniões, ver SAMPAIO, L. S. C. de, Noções de Antropo-logia. Rio de Janeiro, UAB, dezembro de 1996. (xerografado) e Desejo, fingimento e superação na história da cultura, Rio de Janeiro, 1998 (xerografado) 8. SAMPAIO, L. S. C. de. Noções Elementares de Lógica – Compacto, versão abreviada e significativamente modificada do volume I de obra homônima, Rio de Janeiro, I. CulturaNova, 1991 (xerografado) ou, numa versão mais recente BARBOSA, M. C. As Lógicas - As lógicas ressuscitadas segundo Luiz Sergio Coelho de Sampaio. S. Paulo, Makron Books,1998. 9. SAMPAIO, Noções de antropo-logia, op. cit. . 10. ARISTÓTELES, Política, Brasília, UnB, 1988. I,2,1253 a 11.HEIDEGGER, M., Heráclito Rio de Janeiro, Relume Dumará, 1998. Também nossos comentários em SAMPAIO, L. C. S. de, Crítica da Cultura. Rio de Janeiro, 1999. 12.Poder-se-ia argüir que em Heráclito o logos não é propriamente um atributo do homem como seria a razão em Aristóteles. Contudo, a confrontação continuaria ainda assim pertinente na medida em que, para Heráclito, estaria implícita como característica especificamente humana a capacidade de “escuta” do logos. 13. A afirmação que a competência para pensar, ou seja, para operar segundo a lógica está fundamentalmente associada à existência do sistema nervoso central (SNC) parece-nos óbvia, embora não nos pareça ainda fácil apontar em todos os casos as bases fisiológicas em que se apoia tal certeza. Vamos tentar justificar a afirmação precisamente no caso que nos parece de todos o mais problemático: o pensar consciente governado pela lógica transcendental (I). Começamos rastreando o processo de formação do SNC. Já mesmo em alguns entes unicelulares se pode distinguir regiões especificamente sensitivas e outras motoras (USHERWOOD, P. N. R. Sistemas nervosos, S. Paulo, Nacional-EDUSP, 1977). O primeiro passo na especialização funcional a nível celular se dá nos organismos pluricelulares, quando aparecem algumas células com funções exclusivamente sensoriais, e outras, exclusivamente motoras. Temos um terceiro momento, presente já em alguns

Dizemos que há uma superação desta limitação quando “informações substantivas” recebem codificação de mesma natureza que “informações relacionais” (informação sobre relações de “informações substantivas”) e “informações processuais” (informações sobre transformações de “informações substanciais”). Consuma-se um novo passo com o aparecimento dos gânglios – formação cerrada de corpos neurais – que assumem. isto irá viabilizar o aumento do porte do animal sem perdas no grau já alcançado de integridade/integração. as funções de integração de informações provenientes de diferentes órgãos sensoriais. Importa destacar que o simples aparecimento de células especializadas em transmissão é a pré-condição da digitalização dos sinais nervosos. isto é. assumirão funções de comutação de sinais. possibilitando a ativação de canais de transmissão de alta velocidade. que paralelamente expande sua complexidade por meio de “dobramentos e redobramentos” que vão acabar dando o aspecto típico do cérebro humano. Estes canais permitem que sejam conservados os tempos de resposta mesmo a maiores distâncias. o rombencéfalo. adicionalmente. que informações provenientes de órgãos de sensibilidade diferenciadas sejam representadas por sinais elétricos digitais da mesmo tipo. ainda vindo no mesmo sentido. o mesencéfalo ou cérebro médio. Esta homogeneidade de codificação. temos regiões especializadas no trato de canais olfativos.334 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO celenterados. cinestésicos e luminosos. entre outras. Do ponto de vista funcional. O passo seguinte é o aparecimento do tubo neural nos vertebrados e do cérebro: série de três intumescências que se formam na extremidade do referido tubo. Contando do extremo para traz temos o prosencéfalo (que ainda se diferencia em telencéfalo e diencéfalo). A expansão envolvente da formação extrema (antes preponderantemente olfativa) dá nascimento à córtex. posto que só assim o animal terá condições de uma representação simultânea e compatí- . entre algumas outras. Com o cérebro surge a possibilidade de um verdadeiro processamento de sinais o que pressupõe a superação das limitações hierárquicas dos tipos (no preciso sentido que lhe dá Bertrand Russell). Consolida-se um novo degrau de complexidade/especialização com a emergência de células inter-neuroniais que. a nosso juízo. e por fim. em que aparecem células com função especializadas na pura transmissão de sinais (neurônios propriamente ditos) ligando células sensoriais a células motoras. é uma condição fundamental para a emergência da consciência. que ocorra uma homogeneização na codificação dos sinais digitais. O surgimento de gânglios com funções integradoras pressupõe.

através dos nervos aferente. em cuja extremidade anterior. que conduziu à emergência dos vertebrados é. Um fenômeno de enorme relevância é o modo como se dá a formação topológica do SNC dos vertebrados. desenvolver-se-á o cérebro. cerca de 10 vezes mais numerosas do que os próprios neurônios. Este processo permite a formação de um tubo superficial. ECTODERMA SENSÍVEL DISPOSITIVOS MOTORES TUBO ÓRGÃOS SENSORIAIS NERVOS AFERENTES NEURAL (INTERIORIDADE) NERVOS EFERENTES ÓRGÃOS MOTORES . Pode ser facilmente observado nos jovens embriões dos vertebrados como o tubo neural se forma pelo processo de invaginação do ectoderma dorsal. através dos nervos eferentes. já o vimos. Trata-se do processo de formação do tubo neural. que a seguir se interioriza e em torno do qual virá se formar a coluna vertebral protetora. A figura a seguir nos mostra uma seqüência esquemática das fases de formação do tubo neural explicitando suas ligações com os órgãos sensoriais.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 335 vel tanto dos estados do mundo exterior quanto de seus próprios estados internos e de suas respectivas modificações. de certo modo. Não temos espaço aqui para entrar em detalhes acerca das células gliares. e com os órgãos motores. que por sua atividade “auxiliar de limpeza” podem garantir a permanente condição de higiene num exíguo espaço onde ocorre tão gigantesco nível de atividades. recapitulado na sua ontogênese (fim da quarta semana). Este fenômeno que ocorreu no curso da filogênese.

As considerações topológicas referentes à formação do SNC nestes animais evidencia que. Brain. Esta especial orientação vai. diríamos que a base filosófico para a operação lógico-diferencial (D) poderia estar. o que nos obriga a descartar o simples modelo bipolar em favor de um modelo tetrerapolar. este espaço imaginário chega a constituir um mundo onde se pode dar explicações para o bem e o mal. in-in-put. Antes de encerrarmos esta nota. sobretudo. a operação de identidade (I) se alicerçaria na homogeneidade da codificação no que diz respeito aos tipos lógicos e. gozar o ilimitado poético e até. Se o consideramos como sendo uma superfície orientada – suposição inteiramente razoável se tivermos em conta que se trata de um tecido de células sensíveis – constataremos que o SNC. que nele se cria um espaço interno em que se pode representar tanto o meio como seus próprios impulsos e disposições do próprio organismo. eles seriam dotados de um espaço interno. Numa linguagem um tanto informal. onde haveria espaço para discriminar quatro e não apenas duas intervenções: in-out-put. Alianza. em si. suplementarmente. dramática e definitivamente. U. no próprio processo de formação do SNC por via da invaginação do ectoderma. em termos de in-put e out-put e de uma única função de transformação os articulando. de um avesso. No homem. 1972]. aproveitamos a ocasião para chamar a atenção sobre a insuficiência dos modelos condutivistas freqüentemente propostos para vertebrados. Methuen. behaviour and evolution. Em suma. na codificação digital dos impulsos das células sensíveis e. diríamos que o animal passa a dispor. El Cerebro. Constitui-se assim um espaço imaginário onde é possível até refugiar-se momentaneamente fugindo às excessivas pressões do mundo. em direção contrária àquela do ectoderma que lhe deu origem [OAKLEY. simular diferentes cursos de ação sem ter que pagar o imprevisível preço de uma efetiva experimentação. pois. e além. constituir uma interioridade no corpo (espacial) do animal. London. out-in-put. de certo modo. Por outro lado. onde pode localizar suas origens míticas. de um lado. M. Madrid. David A. poderíamos estabelecer as . na homogeneização desta codificações com relação à diversidade de sensibilidades em jogo (diversos sentidos). constituiu-se também como uma superfície igualmente orientada. levadas em consideração as orientações das superfícies em jogo. 1979 e SMITH. porém. C.336 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Seria importante enfatizar alguns dos aspectos topológicos deste processo de invaginação do ectoderma. Nestas circunstâncias. outout-put. proporse como seu próprio enigma ou pura e simplesmente dissolver-se na loucura. incluindo às vezes o próprio homem.

C. 1999 17. S. S. Fingimento e Subversão na História da Cultura.in-input put SNC ação out-in. Reflexões. 16. Parmênides. a essência do trabalho é se constituir num esforço que visa outra coisa que si mesmo. com a des-razão (coração. Inst..out-output put 14.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE seguintes correspondências: Sensação ↔ in-in-put Percepção ↔ in-out-put+ in-in-put Sensação cinestésica ↔ out-in-put Ação ↔ out-in-put + out-out-put. Não estamos aqui referendando a concepção marxista sobre o trabalho. esquema lógico que desde Descartes caracteriza a Modernidade: logo. Para maiores detalhes ver figura abaixo. 337 percepção in-out. Um exame mais atento mostrará que o mais importante no Iluminismo é o que ele se propõe fazer. L. . Muito pelo contrário.. logicamente otimistas. sendo por isso. SAMPAIO. De modo geral o Iluminismo está comprometido com a liberdade (I) e com a razão formal (D/D). Sabemos que a citação aqui do Iluminismo é uma simplificação. instinto. Não foi. talvez excessiva. 19. acerca do advento da cultura nova pós-científica in Pensamento Original Made in Brazil. PLATON. Flammarion. pois. SAMPAIO. de Desejo. necessária e essencialmente trabalho alienado. Paris. C. C. logicamente otimistas. intuição. de . S. 1988 (xerografado). Oficina do Autor/ etc. que acabava de ser recalcada justamente pela razão científica (D/D). de Reflexões. 1967 15.. Cultura-Nova. na circunstância. L.. o capitalismo que criou o trabalho alienado nem o comunismo poderia aboli-lo. 18. Lógica e Economia. acerca do advento da cultura nova pós-científica. emoção etc. Rio de Janeiro. natureza. não é aí que vamos encontrar sua razão de ser nem aquela de suas variantes. Rio de Janeiro. SAMPAIO. 1999. op. SAMPAIO. L. cit. Rio de Janeiro. Théététe.) (D).

Zahar. O fundamento disto se encontra na teoria dos grupos. formado por dois elementos.Théodule Ribot é citado duas vezes no volume 1 e muitas no volume 2 da História da Psicanálise na França de E. cuja tabela de multiplicação é x a b a a b b b a O grupo de Klein é o quadrado do grupo binário acima. Th. constatamos que ele pertenceu justamente a Arthur Ramos e guarda suas inúmeras anotações manuscritas à margem e em pequenos pedaços de papel nele inseridos. Philosophique. cuja tabela de multiplicação é: x ac ad bc bd ac ac ad bc bd ad ad ac bd bc bc bc bd ac ad bd bd bc ad ac . op. como inspirador de algumas idéias de Charcot e outras coisas mais. 24. LÉVY-BRUHL. particularmente nas propriedades do denominado grupo de Klein. 1920 23. Binet. de Lacan e as Lógicas in Lógica ressuscitada. Como curiosidade. Rio de Janeiro. relatamos que ao consultar o exemplar de Logique du Sentiment de Ribot existente na Biblioteca Nacional. La Logique des Sentiments._______. Fica a sugestão. a e b. Afora a identidade isolada.Arthur Ramos conhecia a fundo não só a obra de LévyBruhl como também suas fontes. La logique affective et la psychanalyse. F. Taine –. L.338 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO 20.d). o grupo mais simples é o binário. na companhia de Janet. Paris. LXXVIII 22. S. como introdutor do modelo jacksoniano na França. 1914. La Mentalité Primitive. 1989 – em geral. Entretanto sua ligação com a pasicanálise ficaria bem melhor definida se transladássemo-nos para o plano lógico.SAMPAIO. Rio. 26. forçando um confronto entre sua Logique du Sentiment e a lógica do significante lacaniana. 25. C. isto é. Alcan.RIBOT. 21. ROUDINESCO. R. por exemplo. EdUERJ.b) pelo grupo homólogo (c. o produto do grupo (a. cit.

Desde que saibamos procurar. operando por reflexo condicionado. Este grupo aparece por toda parte. C. S. 1999. 1988. logo.b) e (c. Portanto.. 1997 29. na própria obra dos estruturalistas não faltariam muitos outros exemplos. D}.. Já aconteceu mais do que uma vez em aula que esta nossa afirmação fosse contestada. Ser humano é. sendo-lhe contraposta a “descoberta” pavloviana que o animal. como a roupa (ou a pintura dos corpos) representando uma terceira pele. estaria operando segundo o famigerado “mecanismo” do reflexo condicionado. um diferença suplementar. uma terceira pele. a rigor. 28. perfazendo pois um “articulado” de três peles. mas nada explica. porque ele é simplesmente uma espécie de simulação formal (é óbvio que drasticamente empobrecida) da verdadeira dupla diferença que fez ser o homem. L. C. seguindo indicações lacanianas definimos o masculino pela par lógico {I. Introdução a uma filosofia da cultura humana. também. ICN. EMBRATEL/UAB. Ele poderia ter chegado à mesma conclusão sem ter aporrinhado tanto seus cachorros.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 339 As duas diferenças seriam representadas pelos subgrupos (a. S. pelos pares ad. é uma dupla pele. A condição humana requereria. Paulo. bastando que se mantivesse fiel ao que lhe prescrevia a lógica do Partido.5 h de duração. Rio. aquilo que só é em razão de outro. III e IV em 2 vídeos. com cerca de 3. Rio de Janeiro. S. I. trata-se de uma ratificação: a palavra (arco) reflexo é claramente lógicoidentitária (I) e a palavra condicionado. Ë precisamente isto que está logicamente por traz da piedade em J-J Rousseau. de Por que. Ensaio sobre o Homem. 32. Pavlov nomeia (até muito corretamente). SAMPAIO.. uma filosofia da cultura. D/D} e o feminino pelo par {I/D.Existem outros bem interessantes. . justamente.d) e as três relações articuladas. é inquestionavelmente lógico-diferencial (D). de Introdução à Antropologia Cultural. portanto. onde. 27. Só na aparência isto é uma objeção. A condição animal capaz de operar I/D requer um SNC e este. 1993 ou alternativamente Noções elementares de lógica . o animal estará na verdade operando segundo a lógica dialética (I/D). L. como vimos na extensa nota 13. II. Martins Fontes. Ernst. os elementos não identitários ( não ac) do grupo de Klein. CASSIRER. Ver capítulo 2 anterior. 30. 31.Compacto.SAMPAIO. ser capaz de se por na pele do outro. no caso. bc e bd.

de. O termo hiperdialética refere-se a uma lógica mais complexa do que a lógica dialética. cit. Makron Books. um pouco abusivamente. S. 1993. Noções de antropo-logia. I/D (lógica dialética). A linguagem natural é (1) sua própria metalinguagem (I). são apenas uma taquigrafia. 1996 (xerografado) ou BARBOSA. EMBRATEL/ UAB. Esta. C. tendo-se em conta seu ilimitado poder metafórico (I/D/2). Dado o processo de relacionamento entre culturas (um processo hiperdialético. pela velha caracterização aristotélica que considera o homem um animal racional. Elas aqui estão porque acreditamos que alguém. Para maiores detalhes. 5. D. como sabemos. muito mais complexo do que a monotonicamente ascensional dialética hegeliano-marxista). desde que não as tema. Noções de antropologia. possa tê-las como um conveniente e simples apoio didático. a designação qüinqüitária. ver SAMPAIO. SAMPAIO. I. UAB. de. As demais lógicas seriam delas derivadas através da operação de síntese dialética generalizada simbolizada por “/ ”. Ademais. 4. op. Existiriam duas lógicas fundamentais: I (lógica transcendental ou da identidade) e D (lógica da diferença). Rio de Janeiro. Alternativamente. uma simbologia mnemônica para designar as diversas lógicas da tradição. I/D etc. III e IV. a ultima é por nós considerada a lógica própria e exclusiva do ser humano. além destas últimas.340 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO SAMPAIO. tomando-se. a própria dialética e a lógica formal ou clássica. 1996. as duas caracterizações não seriam assim tão díspares. pelo mesmo autor. são inúmeros os casos de cul- Capítulo 4 . L. também conveniente. I/D/D=I/D/2 (lógica hiperdialética ou qüinqüitária) etc. UAB. Rio de Janeiro. (3) é um ser histórico por isso tão facilmente persegue o que acontece (I/D). Rio de Janeiro. As expressões I. enquanto que a primeira sintetiza. 1998. animal como dotado de consciência (I) e razão como capacidade lógico formal (D/ 2 ). Na esfera mundana. Rio de Janeiro. então a diferença talvez não seja mais nenhuma. M. Se considerarmos que ela subsume a si mesma. As Lógicas. serão então cinco as lógicas subsumidas. II. Noções de antropo-logia. (5) é complacente ao Absoluto. (4) tem poderes formais ou demonstrativos (D/2). constitui-se numa síntese das lógicas da identidade e da diferença. (2) só é na medida em que remete a outro (D). Se tomarmos o termo razão (logos) em sua pressuposta largueza heraclítica. É bom alertar que o presente texto foi construído para ser lido independente destas referências taquigráficas. o vídeo Antropologia cultural. então. C. Teríamos. daí. Luiz Sergio C. D/D=D/2 (lógica clássica).

precisamente. vale dizer. Ademais. além. cabendo-lhes pois a designação de culturas ecológicas. Não é surpresa. Por isso representam e sacralizam sua relação com a Natureza. Não é aqui o lugar para aprofundar este assunto. op. em um modo próprio . é produto da sacralização de sua lógica própria. 11. a síntese da identidade com a dupla diferença. ou seja. De qualquer modo. por Reich (!) e pela Escola de Frankfurt. aquela identificada por Ribot (de influência freudiana) como. num sentido bem preciso de que são culturas que operam logicamente. Culturas associadas às lógicas em que prevalece a diferença sobre a identidade. Poder-se-ia usar a expressão pré-lógica. isto é. não se dão conta que o fazem. tendo-se em conta que Lévi-Bruhl usou a expressão pré-lógico não no sentido de destituído de lógica. como em todas as culturas. que os psicanalistas de orientação junguiana tenham observado a freqüente ocorrência de mandalas nos desenhos de pacientes em início de processo de recuperação. chegou bastante cedo ao trinitarismo (I/D). de hoje “modernizar-se”. entre outros. A religião estrutura-se hoje como um supermercado de deuses. para o bem ou para o mal. logique du sentiment. Símbolos geométricos que tomam como formas básicas quadrados ou cruzes (D/2) e círculos (I ou I/D) que articulados vão representar a síntese da identidade e da diferença ou. 9. se usássemos a expressão pré-lógica desencadearíamos uma terrível tempestade por parte de estruturalistas/ relativistas que tão logo nos acusariam de repetir um sério pecado cometido por Lévi-Bruhl. Paris. 12. no caso a lógica clássica ou do terceiro excluído. 8. 6. 7. A percepção do ritmo de sucessão lógica das culturas depende de uma certa familiaridade com a história tradicional da área considerada.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 341 turas logicamente híbridas.como combinatória em um conjunto já dado de deuses e religiões. cit. porém. a hiperdialética qüinqüitária (I/D/2). crenças e ritos. . pode-se dizer que a China. segundo o teólogo da cultura Paul Tillich o espaço sobre o tempo (Théologie de la Culture. 10. Modernidade. Aliás. uma polêmica cheia de veneno e má fé. pois. não conseguiram conferir-lhe uma expressão simbólica e coletiva estável. aí se demorou tanto tempo que tem dificuldade de “recordar” suas fases lógicas anteriores e justamente por isso de se projetar. Por isso ela é politeísta. cuja necessidade foi há muito pressentida. mas como dotado de uma outra lógica. SAMPAIO. mas na verdade é este o modo pelo qual se pode abrir um caminho realmente profícuo para articulação das idéias de Marx e Freud. Noções de antropo-logia. daí porque não nos arriscamos à inclusão do Oriente. por exemplo.

vol. 13. o falso e. onde cabem apenas os estados verdadeiro e falso. 59-60 16. Isto não quer dizer que o EUA já seja o último dos modernos e que o Brasil não vá faltar à sua destinação (outro. um terceiro. daí. Arnold Toynbee. Sob este prisma sabem eles que somos seu mais temível inimigo.342 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Denoel/ Gonthier. A supressão do estado indefinido se faz partindo-se de uma primeira diferenciação. pois. 14. Rio de Janeiro. 1978. . Se este último é tomado como o verdadeiro e falso ao mesmo tempo. p. desconsiderado. 15. 58. Mircea. O indeterminado. terá como falsa sua negação. das relações EUA/Brasil. o valor indefinido. os subservientes negociadores (?!) do atual governo brasileiro.o mundo se apresenta como sobredeterminado. transformando-a convencionalmente numa totalidade pela desconsideração da sua exterioridade.1968). uma segunda diferença. mas aquela possibilidade está já inscrita nos “inconscientes coletivizados” de todos nós. segundo o historiador das civilizaçòes. sua negação sendo destarte o verdadeiro. constitui-se no constante pano de fundo de suas amistosas/rancorosas e por isso sempre tensas relações políticas. a nossa preferência pela designação lógica do terceiro excluído.o mundo se apresenta como subdeterminado. Madrid. porém. Por isso. pode certamente assumi-la encorajado pelos nossos freqüentes “amarelamentos”). a materialidade sobre a espiritualidade (Estudio de la Historia. 1981). por suposto. e impondo-lhe então. um dos mais prováveis candidatos à realização da cultura nova qüinqüitária. daí a designação lógica da dupla diferença. O primeiro crê representar hoje a quinta-essência (finge. ELIADE. Zahar. enquanto que o segundo é um marginal. Ibid. Excluem-se aqui. pois na verdade não passa de ser a quarta-essência) da cultura. temos a versão paraconsistente da lógica da diferença . pp. 3. A lógica clássica ou aristotélica é uma lógica mais restrita do que a lógica da diferença. v. Um pensar apenas diferencial (D) comporta os seguintes estados: o verdadeiro. Compendio IX/XII. 1.Este tipo de consideração é fundamental para a compreensão. isto é. representando o nem verdadeiro nem falso. internamente. lá e cá. o paradoxal. História das Crenças e das Idéias Religiosas. como a Índia. em profundidade. o indefinido. e teremos então a versão paracompleta ou intuicionista da lógica da diferença . Tomo I. Alianza.

onde ela não é nem uma coisa nem outra. uma primeira. D1. Estes três estados podem muito bem ser expressos pela tríade numérica 1. BEAUFRET. 1983 p. podemos nos valer da metáfora gráfica a seguir. No caso. -1. Monfort. Noções elementares de lógica .Compacto. o esquerdo e um estado intermediário “pontual”. 0. S. L Ó G IC A D A R E F L E X Ã O D L Ó G IC A D A IN V E R S Ã O D / 2 R (a ) D D a a D/ R (R ( a ) )= I ( a ) a D / (a ) -1 2 2 R2 = I a 1 2 R (R ( a ) ) D (a ) Uma inversão pode ser concebida como uma dupla reflexão. por onde poderá se dar a passagem de um a outro dos estado anteriores. ICN. Tomando-se por referência a reflexão no plano vertical. A parte inferior da figura mostra que os estados de uma reflexão especular são três e não apenas dois. seriam eles: o direito. nem esquerda. Para melhor compreender a natureza da diferença ou negação no caso da lógica da diferença D e da lógica clássica ou formal D/2 (a que estamos habituados). Já no caso da inversão estão implicados apenas dois estados e podemos passar de um ao outro por uma simples rotação ou deslocamento espacial. Brionne. Isto vai requerer a passagem por um estado intermediário em que ela se “desespacializa” (e o par se dissimetriza). nem direita. as luvas são a imagem reflexa uma da outra. transformar uma noutra. C. uma segunda. D2. a correspondente re- . Abstratamente talvez as coisas pareçam mais complicadas do que realmente são. 17. Hölderlin et Sophocle. para fazê-las coincidir. No caso da reflexão. Rio. ou seja. G. 1988. de Sampaio. relativa a um plano horizontal. J. precisaremos que uma delas vire do avesso. relativa a um plano vertical.25 18.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE DIFERENÇA D NãoB B B NãoB NãoA A=NãoNãoA 343 DUPLA DIFERENÇA D/ 2 Ver L.

1994. o grande culpado.DASTUR. pois. com inexcedível propriedade. F. aliás uma constante no pensamento alemão de lá até hoje. é a ocasião para relatar que boa parte do que vai no corpo deste artigo foi provocado pelas discussões com o amigo Aluisio Pereira de Menezes (que nem por isso tem a menor culpa do que aqui está sendo dito) em torno do tema Hölderlin e a essência do trágico. sua falta de sentido.Heidegger se comporta com Platão assim como muitos de nós brasileiros costumamos fazer: se alguém previu algo de mau e aconteceu é. -1. Como pensar em tragédia (D) da época da cultura cínica D/2)?! 20. A nosso juízo exclusivo.Oevres Complètes. Esta. a diferenciação ou negação na lógica da dupla diferença D/2. R O M A N T IS M O A L E M Ã O 2 I/D / H Ö L D E R LIN A P O L ÍN E O D/ I/D REC ALQ UE DA ID E N T ID A D E I 2 D/ 2 CU LTU R A MODERN T R A G É D IA (M IM E S IS ) T R A G É D IA M ODERNA ? D CU LTURA GREGA D IO N IS ÍA C O D P R É -D H O M É R IC O P R É -I Hölderlin consegue captar bem a inversão de posição que se opera entre os gregos e a Modernidade. Vê-se bem no esquema acima como surge a sua preocupação com uma pressuposta “tragédia moderna” e as razões profundas de sua impossibilidade ou até mesmo. François. e sendo-lhes assim tão . a dificuldade em se conseguir seguir o pensamento do poeta alemão está no recalque que implicitamente faz das lógicas identitarias (as culturas judaica I e cristã I/D. 19. p. sem dúvida. para que o tivesse feito precisava antes tê-lo ouvido dos deuses (pois o futuro só a eles pertence) . 228. aquela da lógica da simples diferença D. Reflexões. Rio de Janeiro. a propósito. Relume-Dumará. justo a lógica clássica ou. Hölderlin: Tragédia e Modernidade in Höderlin.Hölderlin. 21. em que não há lugar para terceiro. O verdadeiramente outro de um Deus que lhes virava a face.344 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO presentação numérica seria pois 1. lógica do terceiro excluído. A reflexão especular representa a diferenciação ou negação primordial. e a inversão. só se consumaria se virassem -Lhe a face também.

que se constitui destarte em analítica das universalidades ou totalidades por convenção. ICN. e sentido intensivo é aquele dado por um conjunto articulado de termos considerado equivalente ao termo em questão. 29. é bom aduzir que não é de agora. Nesta última acepção o termo precisa fazer parte de um sistema dotado de uma sintaxe. Sentido extensivo é o conjunto de referentes a que um termo se aplica. 1966. Ibid. Ver Reflexões. Rio. grama e segundo) ou mks (metro. por isso as subsume. ou pior. A matemática formalista pretenderia reduzir todo sentido à pura intensividade. é síntese da lógica da diferença D e da dialética I/D. A lógica clássica ou da dupla diferença. Em símbolos: (D)/(I/D) = D/2. Paulo. Finalmente.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 345 íntimo. 101 28. L. para que a poesia não nos acuse de dureza e rusticidade. moderadamente otimistas acerca do advento de uma cultura nova qüinqúitária.opus citado.. S. em parte. A República. massa (M) e tempo (T). 23. Platão. Os sistemas de medidas da Física têm necessidade de definir apenas três grandezas fundamentais: comprimento (L). em sua máxima generalidade. Por exemplo. (negritos nossos) 24. Quem já não viu. Difusão Européia do Livro. ARISTÓTELES. Le Jeu comme Symbole du Monde. 1959. sem a menor cerimônia. 31. S. 25. 2000. 92 27. X Platão. SAMPAIO. sistema cgs (centímetro. por não termos lhe dado atenção? Um mal caráter! concluem. Minuit. Rio de Janeiro. A pretensão à universalidade da poesia (trágica. É preciso ter perdido a sensibilidade para não se maravilhar com tamanha ousadia. 59. Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. p. Assim. sim. FINEP/ etc. 90. 30. A República. uma distinção que vem dos estóicos. p. como podemos ver em Aristóteles: Por tal motivo a poesia é a mais filosófica e de caráter mais elevado que a história. C. porque não lhes convenceu de pelo menos trocar o pior por algo um pouquinho melhor?! Só por vingança. herdado pela lógica clássica. de. foi vítima deste tipo de “ilação”? 22. SOCRATES: . Reflexões. 26. Arte Retórica e Arte Poética. o ser como totalidade visado pela lógica dialética é. 1966. sua oposição à filosofia.. Eugen. FINK. Intensivo aqui se contrapõe a extensivo. p. X. porém. l. Todas as demais grandezas físicas . muita antiga. Ibid. Atena.. 1955. quilograma e segundo). inclusive) é crença corrente entre os gregos. p. S. porque a poesia permanece no universal e a história estuda apenas o particular. Paulo. Paris. 1995.

Brasília. como nos outros animais. BRODRICK. Rio de Janeiro. 9. de. p. I. O Espelho de Próspero. O par diagonal {I. 35. D/2. João. p. Estas estórias. o vídeo Antropologia cultural. D } o feminino. C.O ser humano é de nível lógico I/D/2 . pelo mesmo autor.II e IV. D. opus citado. opus citado. 33. 1969. 1993/97. 32. 23 41. SAMPAIO. A H. George. que masculino e feminino são modos onto-lógicos de realização do ser humano (I/D/2). F. (en)cantador. para tornar-se tetrapolar (representável por um quadrado). I/D. Ibid. de. 42. Théorie de la Religion. Na modernidade capitalista. Paulo. R. imediatamente. S. José Olympio. tanto quanto (I/D)/(D) = = I/D/2. além de si própria. mas de gente. igualmente mencionado. Companhia das Letras. 43 40. A Questão Cultural – Palestra proferida no Workshop sobre A Questão Cultural. como só ele. 44. Noções de antropo-logia. SAMPAIO. Económica. e como (I)/(D/2 ) = I/D/2 . estas quatro por nós denominadas lógicas de base. 1973 37. 1956. Nestas circunstâncias. L. L. Paris. La Pintura Prehistórica. como era meu tio. Ibid. S.MORSE. C. S. sob os auspícios da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. p. S. Isto leva a que no ser humano a “sexuação” biológica venha a ser re-definida.346 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO estão a partir daí especificadas sem qualquer ambigüidade. SAMPAIO. 1988. de C. o povo nada mais tinha a fazer senão esperar sentado! O problema real e apavorante para a “elite” no poder era o Doutor Ulisses Guima- . de. Cultura e Idéias nas Américas. México. 37 39. Parcialmente publicado no JB em 07/09/80. C. S. C. Toda a “elite brasileira” quis enterrá-lo como se ele fosse o Moisés. A Permanente Revolução do Analógico ao Convencional – Rio de Janeiro. UAB. p. Gallimard. de. 11 43. não de onças de humores e cores variadas. aquele que havia guiado o povo à beira da Terra Prometida. Rio de Janeiro. 36. as que lhe antecedem: I. feito desejo domesticado pelo marketing. Esta feliz lembrança se deve a José Miguel Wisnik. lógica que subsume. 38. 34. conclui-se. p. ELIADE. BATAILLE.II. D/2} designa o masculino e o par diagonal {I/D. L. 1996 (xerografado): O melhor exemplo disso já foi aqui mencionado pelo Professor Janine Ribeiro – o enterro do Doutor Tancredo Neves. L. Apontamentos para uma história da física moderna. SAMPAIO. deixe de ser bipolar (representável por um segmento de reta). Ibid. assim como. GUIMARÃES RODA. out. M. a história (I/D) se vê degradada em progresso ou acumulação de capital e o inconsciente (D) desnaturado.

como todos nós vimos na TV). Esta “injustificada” omissão do cristianismo na passagem da cultura grega à Modernidade é uma represália à omissão feita pelas culturas semíticas do momento trágico grego na passagem do judaísmo ao cristianismo.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 347 rães. a superação num processo hiperdialético lógico-qüinqüitário não impede a sobrevivência por si (não apenas subsumida) de uma cultura e nem mesmo que ela venha a exercer um papel crítico posterior na história da cultura.IDENTITÁRIAS CULTURAS PAGÃS OU LÓGICO-DIFERENCIAIS CULTURA MODERNA REPRESÁLIA: OPERAÇÃO DE INTERNAÇÃO DO OPOSTO CULTURA CRISTÃ PLATÃO TEÓLOGO segundo Nietzsche e Heidegger CRISTO TRÁGICO segundo Evangelhos Sinóticos OPERAÇÃO DE INTERNAÇÃO DO OPOSTO CULTURA GREGA CULTURA JUDAICA . É bastante sintomático que tantas coisas relevantes presentes nos Sinóticos . M. o nosso Abraão. para evitar um suposto derramamento de sangue. pisa sempre na bola. Ao contrário do que aconteceria num processo dialético lógico-trinitário.agora. que tinha que mandar o filho para o sacrifício. anteriormente mencionada. Lógicas fundamentais são aquelas capazes de gerar todas as demais por um especial processo de síntese dialética generalizada. CULTURAS SEMÍTICAS OU LÓGICO. ou seja. por isso mais longe dos acontecimento e mais perto das conveniências de um movimento sócio-religioso já triunfante. 46. ou seja. 48. C. As Lógicas. op. a censura aos escribas e fariseus. na “hora H”. o sentimento de abandono do Cristo na cruz . São elas apenas duas: a lógica da identidade ou transcendental (I) e da diferença (D). que representava Abraão e não Moisés. mandar o povão subir nos tanques (feito o que aconteceu na Rússia e se tentou lá na China. Ver BARBOSA. João. E a gente não começa nunca! 45. seja lá quem for. e ele aí foi para casa com enxaqueca. tardio.desapareçam do Evangelho de S. cit. Resto no seu sentido aritmético. com toda a certeza. 47.

que internaliza o momento diferencial (D) ao mundo semítico. que tenta justamente substituir o sujeito liberal (I) pelo sujeito romântico ou inconsciente coletivo (D) e depois sonha que pode ir do grego (D) à modernidade científica (D/D) sem passar por I/D. 49. porque esta. adota precisamente o sujeito liberal (I) como sujeito da ciência (D/D). Johson situa a diáspora judaica ao tempo de . na passagem de pré-I a I. Chega-se ao detalhe de Platão vir se confrontar com os poetas exorbitantes (que fingem a dispensabilidade do conceito I/D) tal como o Cristo se confrontou com os fariseus (que fingem a dispensabilidade do significante D). anglo-saxônica.348 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO O Platão “teólogo dialético trinitário. para não sucumbir. D DISPOSIÇÃO PARANÓICA I REAÇÃO ANTI-SEMITISMO = ANTI-D PARMÊNIDES "PROFETA" DO SER AÇÃO ANTI--"ARIANISMO" = ANTI-I MOISÉS ADOTADO PELOS EGÍPCIOS Pré-D Pré-I DISPOSIÇÃO ESQUIZOFRÊNICA Concluindo. tanto em Nietzsche quanto em Heidegger. É curioso observar que tudo isto vem reproduzir o ciclo anterior. que internaliza o momento dialético (I/D) ao ocidente pagão é a contrapartida vingativa do Cristo trágico dos Sinóticos. abandonado pelo Pai. Diz-se que ainda antes de Cristo até cerca de 10% da população da Europa ocidental e África do Norte era de origem judaica. a família ariana (D) vai à forra imaginando passar da cultura pré-D (mítica) à cultura D (trágica) valendo-se de Parmênides para omitir o momento identitário I. não podemos deixar de assinalar que o “antisemitismo” da Modernidade não pode se manifestar em sua formação paradigmática. em que a família semítica (I). se vale de Moises para poder omitir o momento pré-D (egípcio). o anti-semitismo só irá se manifestar na variante ideológica à direita da Modernidade.

tornando-se assim uma dialética das dialéticas.por suposto. que já andou por várias editoras que sempre “gentilmente” o recusaram. opus cit.5 milhões de pessoas. de Noções de Teo-logia. SAMPAIO. porque inspiradas -. Vale a pena observar que os Descobrimentos vêm acompanhados da entronização da lógica clássica ou do terceiro excluído: O Tratado de Tordesilhas. talvez porque nes- . 51. Jean. LUTER. A lógica da identidade I é tida então como o degrau zero da dialeticidade. contra apenas 1 milhão na Palestina. I Coríntios 15. com exclusão de qualquer outros? Se quisessem participar. Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. 57. JOHSON. Zahar. começando em meados do século III a. etc. p. 42-44 53. 12 50. daí o nome Setenta. Paul. 58. 471 56. 1976. p. Ver SAMPAIO.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 349 Cristo em cerca de 4. UAB. 1977 55. L. A hiperdialética I/D/2 pode ser considerada como uma síntese das lógicas identitárias anteriores . avalizado pelo próprio representante de Deus. contrabandistas. 1961. An Appeal to the Rulling Class of German Nationality as to the Amelioration of the State of Christendom. Reza a tradição que setenta sábios teriam sido convocados para traduções independentes. A History of Christianity. Lucas 24. 46 52. N. C. Sendo o homem de nível lógico I/D/2.. C. teriam que se conformar mesmo com os papéis marginais de piratas. 1520 in Selection from His Writings. GIMPEL. A lógica dialética dá conta das peripécias da história. o Papa. LXX ou Setuagina. A tradução se fez por partes. Confrontadas a posteriori todas teriam sido coincidentes . e terminado em 1 a. não estabelecia que as novas terras seriam de Portugal ou de Espanha. Capítulo 5 1. York. S. C. A Revolução Industrial da Idade Média. mas tem dificuldade de explicar origem e destino enquanto que a lógica da identidade só se interessa mesmo pela origem e pelo fim dos tempos. Este texto é parte de nossa obra maior Filosofia da Cultura – Brasil. Martin. New York. Mateus 27. luxo ou originalidade. só poderá ter obviamente representações fragmentadas do Absoluto. 39-43 54.da identidade I e dialética propriamente dita I/D -. Aí se mostra como ocorre a real experiência do possível transcendente e se especula acerca do seu estatuto lógico.. Doubleday. que seria I/D/4.1997. Rio de Janeiro. Macmillan. Rio de Janeiro.

Sua unidade cultural.350 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO tes tempos de intolerância democrática (ou plutocrática. Les Belles Lettres. depois. SAMPAIO Luiz Sergio Coelho de. pp. PLATON. a defesa das culturas (com exclusão das dominantes) tenha sido criminalizada. a ciência e. a constituição de seu sujeito liberal correlato. daquele que confronta os deuses) e a cultura dialética trinitária (do Deus Uno-Trino cristão). no prelo) . a definitiva separação dos cristãos. do homem prometéico. tornando-se assim a base para a solidificação do complementar mercado financeiro internacional. entretanto permanecia. Critias. 5. 7. ou seja. ao contrário. 1985. a constituição dos alicerces. naturais de alguma parte. dos romanos. do real como outro. Uma nação moderna. que Heidegger faz sua primeira aparição política/pública. através do recalque da sexualidade (irracionalidade) feminina. havia muito. Filosofia da Cultura – Brasil. ou melhor. tardio (século VII) porque ela é uma cultura lógico-identitária (do real e do Deus único). Por isso. Tudo começa com as invasões de Alexandre. Radical porque tardio. quem sabe. Paris. de Pluto. constitui-se numa reserva de mercado. nações modernas têm sua unidade fundada no Outro. como é o caso da cultura judaica. Realmente. herói da resistência a invasão muçulmana da Europa. acaba precisamente aonde uma outra começa. Justamente por esta particular topo-logia é que houve um espaço físico para que a cultura judaica pudesse se preservar e desenvolver. O interesse por Abraão à Santa Clara reacendeu quando Victor Farias. logo á frente. Primeiro. a cultura da diferença (grega. Sabe-se quão doloroso foi para os judeus o contato com a cultura grega. a própria cultura da identidade (judaica). depois. 4. Timée. que editor iria querer correr riscos de tal natureza?! 2. da Dieneylandia). doravante. que só surge depois que o mundo já conhecera. em Heidegger e o Nazismo. ou seja. pela caça às bruxas. 136-137 3. A formação dos estados nacionais (mercados econômicos nacionais) acabava com este espaço. Feudos (trinitário imperfeito) tem a unidade garantida por sua semelhança à Cidade de Deus (trinitário perfeito). luxo ou originalidade (algum dia . mas fazia dos judeus. chamou a atenção para o fato que foi justamente na cerimônia de inauguração de uma estátua deste religioso. a cultura muçulmana não constitui na História uma cultura nodal (culturas que inauguram um novo modo de ser e pensar o mundo). sujeitado. 6. cujas portas são aduanas frente a frente. a invenção da racionalidade masculina: como primeiro passo. um intenso drama que termina só com sua auto-mutilação.

onde cabem apenas os estados verdadeiro e falso. pois. o valor indefinido. o “leva” para a esfera política. transformando-a convencionalmente numa totalidade pela desconsideração da sua exterioridade. daí a designação lógica da dupla diferença (D/D ou D/2). O diabo é que o empresário capitalista devolve o excedente à esfera econômica e fica obrigado a retirar à frente. Como podemos encontrar em qualquer manual elementar de economia. 9. Um faraó se apropria do excedente e. pois a taxa de formação de excedente. a lei transforma quantidade/qualidade em qualidade/quantidade. e teremos então a versão paracompleta ou intuicionista da lógica da diferença . construindo uma pirâmide. DIFERENÇA D NãoB B B NãoB NãoA A=NãoNãoA DUPLA DIFERENÇA D/ 2 A supressão do estado indefinido se faz partindo-se de uma primeira diferenciação. Rio de Janeiro. a nossa preferência pela designação lógica do terceiro excluído. temos a versão paraconsistente da lógica da diferença . Não é difícil imaginar que isto viesse a acontecer quando toda uma população era por outra militarmente vencida e escravizada. Y= DK + C 10. O indeterminado. A quantidade anterior está acompanhada de uma qualidade e a qualidade posterior também acompanhada de uma quantidade. sua negação sendo destarte o verdadeiro. Se este último é tomado como o verdadeiro e falso ao mesmo tempo. do prestígio. de. de sorte que. ou seja. a rigor. o excedente DK é o produto global Y menos o consumo C. . terá como falsa sua negação. o falso e.o mundo se apresenta como subdeterminado. internamente. o que a faz uma lei lingüística. um terceiro.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 351 8. desconsiderado. ou de mais-valia. o argumento marxista não tem fundamento histórico. tudo aquilo e mais algum. isto é. A lógica clássica ou aristotélica é uma lógica mais restrita do que a lógica da diferença. 1988 (xerografado) Um pensar apenas diferencial (D) comporta os seguintes estados: o verdadeiro. S. L. Lógica e Economia.o mundo se apresenta como sobredeterminado. representando o nem verdadeiro nem falso. o paradoxal. em muitos momentos históricos se manteve por largo tempo acima da taxa vigorante na época que viu surgir o capitalismo. o indefinido. Além do mais. sem que tal modo de produção tivesse emergido. e impondo-lhe então. Ver SAMPAIO. C. uma segunda diferença. e duvidosa. daí. IC-N.

Rio de Janeiro. Entendida. pelas estradas. Também chamada escola marginalista neo-clássica. como é contextualmente lícito. C de. e que à época eram bem numerosas. 19. EdUnB. Trata-se de uma evidente alusão ao rio heraclítico (dialético). Introdução à Antropologia Cultural. III e IV em 2 vídeos. que estaria assim perdendo seu potencial revolucionário. Dicionário de Política . a democracia como ideologia da “mediocridade” liberal. A referência aqui é ao diretor cinematográfico americano John Ford (na verdade. correndo no sentido de uma perfeição crescente. Embora o termo já se encontre entre os antigos (Lucrécio). constituindo-se num detalhado manual de identificação. Rio de Janeiro. 18. porém aqui um rio bem mais caudaloso (hiperdialético) para poder extravasar a todo cerco racional/ científico. 2000. 1966. deixava-se ir embora. algo mais sugestivo?! 14. do início do século XX e que pode ser considerado um antecedente do fascismo. 2000. mas no “corte”. BOBBIO. não mais na oferta (projeto). mas apenas elo de ligação. G. 1989. tão solitário quanto chegara. Brasília. e logo que a conseguia. vale aqui lembrar o movimento soreliano (referência a Georges Sorel). A propósito. 13. surgida na Áustria. alegando a ocorrência de um processo de aburguesamento do proletariado. de Lacan e as lógicas in Lógica Ressuscitada – Sete Ensaios. C.. no caso. Poderia haver. 12. e SPRENGER. só com Giordano Bruno. Diccionario de Filosofia.. EMBRATEL/UAB. e PASQUINO. Bodin e especialmente Francis Bacon. Ver Sternhell. Sznajder. EdUERJ. cumulativo. J. FCE. N. 1983 e ainda ABBAGNANO. I. isto é. H. 16. México. Naissance de l’idéologie fasciste. mas na demanda (desejo). Gallimard.. N. por . II. S. Ele vai da esquerda para a direita. Paris. Malleus Maleficarum (Martelo das feiticeiras). julgamento e castigo de mulheres que praticavam a cópula com o demônio. Ver SAMPAIO. instrução de culpa. A obra data de 1484. Ver SAMPAIO. S. 17. L.5 horas de duração. O teor ideológico não está propriamente no self made man. NATTEUCCI. N. com cerca de 3. que não deixa aparecer que tal personagem não é origem. e Ashéri. que se subordina à continuidade do processo de sistematização do mundo. conluio dos fracos contra os nobres e fortes. 1994. nascido na Irlanda) em cujos filmes era freqüente a presença do herói solitário que sempre aparecia para repor a ordem no “sistema” contingentemente perturbado. L. que vai situar a fonte do dinamismo econômico. no fim do terceiro quartel do século XIX. Rosa dos Tempos.352 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO 11. fica muito claro o aforismo nietzscheano: Ele (Renan) queria. contra os aristocratas. KRAMER. 15. adquire o sentido moderno: modo de ser do processo histórico.

Exatamente como faz a Santa Sé e outras menores. 277 26. p. 25. LACAN. 1966. já terão ido direto para o inferno. tomada em seu sentido genérico. A esquerda percebe bem o caráter subordinado do sujeito liberal. síntese das lógicas da identidade e da diferença) e a relação invertida re-verte e os bons propósitos lá se vão. 125. por esta santa via. 21. Se estas. Crepúsculo dos Ídolos. Relume–Dumará.. resultante do processo de horizontalização de uma cultura. conseguirem pelo menos salvar sua continuidade bioquímica. v. A palavra cultura estaria reservada para uma formação social que inaugura um novo modo de ser. ser-com-o-outro. ligar em uníssono la science e la noblesse: mas a ciência pertence à democracia. L’instance de la lettre dans l’inconscient ou la raison depuis Freud in Écrits I. civilização referenciar-se-ia a uma formação social mais ampla. Crítica da Modernidade. 1982. 23. O Mal-Estar na Civilização.p.. para nós estaria vinculada a uma determinada lógica.pois sua cultura e sua alma. J.65 (parênteses e negritos nossos) 20. além de substituí-lo pelo sujeito coletivo se propõe a inversão da relação de mando vis-à-vis a ciência. etc. ser-no-mundo e ser-frente-ao-Absoluto. uma referência às noções de verdade parcial e total em Lacan. J. comentam entre si a excelência dos “novos” produtos). Repare-se nos freqüentes anúncios de grandes empresas multinacionais mostrando como seus produtos automobilísticos e de informática são completamente compatíveis com as diferentes culturas (berberes montados em camelos atravessando um deserto. cultura anglo-saxônica/ civilização informacional globalizada. Rio de Janeiro. 27. ver BARBOSA. 115. Marcelo C. respectivamente pp. S. Ed. Paris. Na verdade crua e bem nua. a lógica clássica subsume a dialética.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 353 exemplo. As lógicas - . Zahar. XXI. Atente-se para o fato que onde aqui aparece o termo civilização. julho de 1999 (xerocado). Rio de Janeiro. 124. estarão com muita sorte. que. mais recente. Acontece que a lógica da ciência (a lógica clássica ou da dupla diferença) é mais potente que a lógica do ser-coletivo (dialética. Ver SAMPAIO. O Seminário. Aqui. du Seuil. esquimós apertados em seu iglu etc. por isso. Os exemplos mais claros seriam cultura grega/civilização romana e. em nosso léxico estaria o termo cultura. ao cabo. convencendo populações autóctones que a evangelização é perfeitamente compatível com a preservação das suas culturas. FREUD. livro 20. freirinhas italianas passeando no pátio silencioso de seu convento. Nietzsche. A propósito. LACAN.. 24. e isso é palpável. Standard Brasileira das Obras Completas. p.

Makron Books..1998. Os judeus só fizeram valorizar a posteriori esta diferenciação. e não sossegou enquanto não fez do movimento transformador (I/D) mera derivada de posição (de mando) (D/D)..... mas ao próprio Homem ou à primeira cultura que deveras realizou a proeza. o ...... 28...... O cristianismo brotou do judaísmo. Isto fica evidente na física (saber paradigmático da Modernidade) que insiste em reduzir o mundo tão apenas a três grandezas pré-emolduradas pelo cálculo (sistemas cgs. A separação radical só existe nas palavras... assinalando-lhe o caráter lógico/religioso.. O cristão foi. O homem não é o outro da natureza........ Depois desse escandaloso deslocamento.... Este se equivoca duplamente em relação aos judeus.... etc.... Hegel ficou obrigado a trazer o grego do trágico politeísta para o lugar do um (filosofia!)..... mas a sociedade burguesa só alcança a consagração no mundo cristão... Só um grande gênio seria capaz de tamanha distorção onto-lógica! 32.... mas produto de uma auto-diferenciação desta última. que trocou a seqüência contábil dos números (monóide.. Estamos aqui considerando que a aristotelização da teologia católica significou o fim do trinitarismo dialético patrístico.. mais adiante... E tornou a dissolver-se nele... .......... mks..... usamos a expressão de per si para indicar que o trinitarismo dialético pode subsistir dissimulado..... Ademais... boa parte de seus ativistas se converteu ao capitalismo-solidário-cósmico-ecológico......... Isto é também evidente na matemática ocidental. menos pela repressão da Cúria do que por sua excessiva e equivocada aproximação com o marxismo...... a teologia da libertação foi uma tentativa (mesmo?) neste sentido.... teremos oportunidade de exemplificá-lo... 29..).. no texto.... desde o primeiro instante...... Isto não quer dizer que não possa ressurgir.. como se fora apenas uma variante da cultura unária. perdido na passagem da cultura cristâ (I/D) à Modernidade (D/D).. a “culpa” disto não cabe aos judeus. com a técnica) é um juízo preconcebido que vem de Hegel (e é assumido por Heidegger)... mas sem explicitar seu sentido –. Com a derrocada comunista.... mas que degenerou. 31.. I/D) pelo grupo algébrico (D/D) – Oswald Spengler já observara isto em A Decadência do Ocidente... Ver capítulos 4 e 8-11 da presente obra. O comprometimento direto e visceral da cultura judaica com a dominação da natureza (se diz hoje. A ciência tem por desejo o cálculo do Uno-Trino..... o judeu teórico.. 30.. e o trinitário cristão para o lugar do dois (separação corpo/espírito). O judaísmo atinge seu apogeu com a consagração da sociedade burguesa...354 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO As lógicas ressuscitadas segundo Luiz Sergio Coelho de Sampaio..... São Paulo. Depois...

p.. 117. concebida agora em termos do desafio divino e resposta humana. A Questão Judaica. p. C. teólogos que estão sendo forçados a aprender a irreversibilidade da ciência (D/D). C. o cristão prático e o cristão prático se fez novamente judeu. Noções de antropo-logia. mais perto de nós. mas persistiram. p. tanto objetiva como subjetivamente. O romance pode nos antecipar o que será a verdade pela leitura. Lógica trinitária versus lógica qüinqütária in Lógica Ressuscitada – Sete ensaios. 33. na defesa meio inconsciente do historicismo dialético. Quanto à questão da leitura. Yerushalmi. Agora sim.5 Ibid. pois do princípio ao fim expressa. p. L. Especialmente item 7. S. portanto. de. ver SAMPAIO. fica bem clara qual foi a lógica (I/D/D)! Capítulo 6 1. L. Imago. mas persistiram. 40. não serão necessários xamãs. Marx. Ibid. porque cria um espaço virtual andrógino onde interagem autor e leitores. 117 38. EdUERJ. Rio de Ja- . cit. 1992. de. 37. SAMPAIO. D) é o que nos permite anteexperienciar. imaginariamente. o encontro crucial entre o homem e o divino deslocou-se do reino da natureza e do cosmos para o plano da história. H. quanto a poetas. ao persistirem. cit. Bastariam dois exemplos: Tolstoi e. de. Rio de Janeiro..1 da presente obra 34. por vezes. Ver especialmente item 9. filósofos e mesmo cientistas. 35. S. op. Y. 2000. o que não se coaduna com a aguda percepção que ele mesmo tem da essência histórica do judaísmo originário: .115 36.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 355 judeu é. profetas que foram forçados a aprender a irreversibilidade da filosofia (D). K. o novo mundo lógicoqüinqüitário. C.Este livro merece ser lido na íntegra. tornar-se-ão enfim boa gente (I/D/D). Zakhor – História judaica e memória judaica. diante disto. Lógica Ressuscitada – Sete ensaios. a tensão entre a corrente moderna trinitária (a que o autor se filia sem esconder uma certa culpa) e a corrente tradicional unária (da qual o autor não consegue se desvencilhar). como ficam Hegel e Heidegger? 39. Na cultura nova. A síntese romanesca do masculino (I. tornaram-se profetas (I). talvez se encontre lá alguma serventia. Zakhor. A propósito (ver nota 31 acima). D/D) com feminino (I/D. SAMPAIO. L. Rio de Janeiro. tornaramse teólogos (I/D). op. YERUSHALMI. Breve fenomenologia do espirito qüinqüitário Xamãs (pré I) que foram forçados a aprender a irreversibilidade do mito-poético (proto D). S. 28. Milan Kundera. se embaraça e dá uma conotação antihistórica ao tradicionalismo. profetas e teólogos.

são apenas uma taquigrafia. D. Noções de Antropo-logia e Vídeos já citados 4. (negritos nossos) DUFOUR. tendo-se em conta que Lévi-Bruhl usou a expressão pré-lógico não no sentido de destituído de lógica. UAB. de prometer a vida eterna onde impera . por via de sua técnica. se usássemos a expressão pré-lógica desencadearíamos uma terrível tempestade por parte de estruturalistas/relativistas que tão logo nos acusariam de repetir um sério pecado cometido por Lévi-Bruhl. de. uma polêmica cheia de veneno e má fé. Na esfera mundana. Les mystères de la trinité. Makron Books. Elas aqui estão porque acreditamos que alguém. 1996. precisamente. desde que não as tema. UAB. 1990. ver SAMPAIO. 1996 (xerografado) ou BARBOSA. Alternativamente. 2. acceptait la mort. Gallimard. III e IV. possa tê-las como um conveniente e simples apoio didático. pelo mesmo autor. Para maiores detalhes. Aliás. não se dão conta que o fazem. D/D=D/2 (lógica clássica). então. Rio de Janeiro. As expressões I. Existiriam duas lógicas fundamentais: I (lógica transcendental ou da identidade) e D (lógica da diferença). Poder-se-ia usar a expressão pré-lógica. Leia-se trinitaire como cultura lógico-dialética trinitária e binaire como cultura lógico formal ou moderna. Paris. alors que l’autre. Rio de Janeiro. Teríamos. porém. Ademais. para simular a presença do homem lógico-qüinqüitário já em seu seio.356 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO neiro. I/D (lógica dialética). isto é. É bom alertar que o presente texto foi construído para ser lido independente destas referências taquigráficas. num sentido bem preciso de que são culturas que operam logicamente. O que este autor não chega a perceber é que a erradicação da morte (biológica) é uma artimanha da Modernidade. l’homme trinitaire. I. l’homme binaire. As Lógicas. Car la différrence des deux hommes en presence est que l’un. o vídeo Antropologia cultural. veut en fin de compte l’érradication de la mort. aquela identificada por Ribot (de influência freudiana) como. faisait de la représentation de la mort dans la vie le fondement de son ordre symbolique et du lien social. II. M. DR. Por isso representam e sacralizam sua relação com a Natureza. Rio de Janeiro. I/D etc. cabendolhes pois a designação de culturas ecológicas. Noções de antropo-logia. mas como dotado de uma outra lógica. 1993. 1998. logique du sentiment. uma simbologia mnemônica para designar as diversas lógicas da tradição. EMBRATEL/ UAB. C. 3. 5. SAMPAIO. I/D/D=I/D/2 (lógica hiperdialética ou qüinqüitária) etc. As demais lógicas seriam delas derivadas através da operação de síntese dialética generalizada simbolizada por “/ ”. Luiz Sergio C. não conseguiram conferir-lhe uma expressão simbólica e coletiva estável. a ultima é por nós considerada a lógica própria e exclusiva do ser humano.

York. do social (sócio-cultural) para o individual (psíquico).” SACHAR. Companhia das Letras. Rio de Janeiro.123. diariamente. Paulo. 11. SAMPAIO. 196. J. 1970. SAMPAIO. p. N.. S. promete-a assintoticamente ao invés de. Howard M. Apenas levados por este estudo. cautelosa. BENJAMIN. ela é. Enquanto a Religião. bastante coerente na medida em que tal inversão é a exata contrapartida da mudança de ponto de vista. em suas manifestações públicas no início e no fim de carreira. Item 3. nada há de errado nesta inversão. Em jogo. 43 per cent of the entire jewish capital was owned by sixty families. pois até hoje só pode proclamar um único sucesso. Hegel a Francfort de Bernard Bourgeois. Paris. à exclusão dos suicidas. Victor. É eletrizante e interessa (inconscientemente) a todos. 1988. 9. The Course of Modern Jewish History. 8. 7. desenrola-se na TV. Paris. M. Entretanto. Não é por acaso que Heidegger. fingimento e superação na história da cultura. 12. S. está sendo usado no sentido inverso daquele que ele tem na psiquiatria e na psicanálise. 14. a vida eterna. de Desejo. justamente intitulado Jewish Economic Life and the Frankfurt Tradition. with its Jewish population of six hundred families. naturalmente. tomada pela soberba. L. “And in 1800 in Frankfurt am Main. Trata-se de um estudo acerca dos textos sobre o cristianismo e o judaísmo elaborados por Hegel em sua estadia em Frankfurt. C. pelo contrário. . A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica in Obras Escolhidas.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 357 6. a Ciência. W. com sua tática de ir pouco a pouco amealhando adiamentos. para provocar tamanha ira ao . Delta Book. Noções de Antropo-logia e Vídeos já citados. Cultura e Idéias nas Américas. FARIAS. 1987 13. dezembro de 1998. R. most of them living in the squalid Judengass. fomos aos textos de Hegel e daí direto a procurar algum estudo sobre o que estavam fazendo os judeus lá. O Espelho de Próspero. S. promete-a para depois de. do ponto de vista lógico. perverso é o sujeito (I) que aceita a lei (D/2) desde que esta seja a sua própria. 1. Heidegger et le nazisme. p. Enquanto concentramos nossa atenção acadêmica nas novelas. Vrin. refere-se a Abrahan de Sancta Clara. 1977. Nestas últimas. Paulo. Indeed. who in turn controlled the twelve largest investiment firms in the city. 1985. v. O trecho acima foi tirado do capítulo VI. É importante atentar que aqui o termo perversão. Frankfurt may well be termed the cradle of Jewish finance in Europe. o combate da Ciência contra a Religião. herói da resistência à penetração islâmica na Alemanha. Brasiliense.2 10. MORSE. Verdier.

quando tempo significar apenas rapidez.então. consideradas metafisicamente. são ambas a mesma coisa: a mesma fúria sem consolo da técnica desenfreada e da organização sem fundamento do homem normal. ver Sternhell. . hoje que não somos mais gregos. Paris. justamente então continua ainda a atravessar toda essa assombração.Fichte.existirão museus de horrores onde serão exibidas as peças promocionais que hoje infestam os nossos “meios de comunicação”. 16. dentre as mais relevantes tarefas da filosofia. Ficamos simplesmente perplexos quando se levanta a questão de uma filosofia brasileira e logo acorrem os defensores da “filosofia perene” dizendo que isto não faz sentido. 18. encontramos diversas obras. como História. Heidegger e Habermas. houver desaparecido da existência de todos os povos. Naissance de l’idéologie fasciste. cada um deles com seu. com a Rússia de um lado e a América de outro. quando as cifras em milhões dos comícios de massa forem um triunfo. Ajudados por nosso amigo Nelson Kuperman. se tivermos sorte . a pergunta: para quê? para onde? e o que agora? Estamos entre tenazes. se encontra hoje entre dois grandes tenazes. já citada na nota 46 anterior. Dentro de uns 200 anos . Schelling. numa cegueira incurável sempre a ponto de apunhalar-se a si mesma. E é precisamente isto que faz “amarelar” os nossos. é a crítica da cultura em que o próprio filósofo está imerso (Cassirer). A Alemanha. Ninguém estará mais interessado nos instrumentos de tortura corporal da cultura cristã medieval (I/D). Gallimard. Nietzsche. Rússia e América. Como sustentar tal posição diante do cortejo de filósofos alemães . porém a mais importante delas para o que nos interessava foi a de Sachar. Essa Europa.358 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO nosso filósofo. Hegel. como um fantasma. mais ou menos explícito. 15. Discurso à Nação Alemã debaixo do braço?! Isso lá acontece porque sabem que. Sznajder. como o grande homem de um povo. 1989.ou menos. supor- . quando qualquer acontecimento em qualquer lugar e a qualquer tempo se tiver tornado acessível com qualquer rapidez. pois tal aproximação conspurcaria a nobre filosofia. 17. e Ashéri. estando no meio . quando um atentado a um Rei na França e um concerto sinfônico em Tókio puder ser “vivido” simultaneamente. só para ficar com os mais importantes -. mas nos instrumentos psíquicos de apropriação do imaginário alheio usados pelos psicovampiros da cultura da Modernidade que havia já sido superada. quando o pugilista valer. Referência a Georges Sorel. Quando o mais afastado rincão do globo tiver sido conquistado técnicamente e explorado economicamente. A propósito. instantaneidade e simultaneidade e o tempo.

e como (I)/(D/2 ) = I/D/2 . p. ao domínio originário das potências do Ser. que esse povo ex-ponha Historicamente a si mesmo e a História do Ocidente. 1991. para tornar-se tetrapolar (representável por um quadrado). Paris. além de si própria. estas quatro por nós denominadas lógicas de base. 79-80 19. Isso implica e exige . imediatamente. D. D/2} designa o masculino e o par diagonal {I/D. FARIAS. Elisabeth. o mais ameaçado.Lecciones de M. lhe é necessária também a firme determinação de fazê-lo (I). que masculino e feminino são modos onto-lógicos de realização do ser humano (I/D/2). 43 24. ibid. Verdier. a partir do cerne de seu acontecimento futuro. Barcelona. uma “vantagem econômico-competitiva” como. Fayard. ROUDINESCO. I/D. É uma vantagem. Heidegger (semestre verano 1934) en el legado de Helene Weiss. 77 23. irão certamente acreditar nossos “sociais-democrtas”. Introdução à metafísica. pp. O par diagonal {I.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 359 ta a maior pressão das tenazes. M. Podemos exemplificar: para que um homem consiga voar. é de novo simples saber. deixe de ser bipolar (representável por um segmento de reta). HEIDEGGER. 75 26. 43 25. como nos outros animais. uma enorme vantagem como pressente qualquer estrangeiro de sensibilidade que aqui aporta. 73 27. depois de pronto e voando. Heidegger et le nazisme. Tempo Brasileiro. Lógica . Isto nos dá certas vantagens. Paris. ibid. M. 28. definitivamente. Anthropos. p. mas que não é. saber materializado (D/2). 1987 20. 22. as que lhe antecedem: I. Isto leva a que no ser humano a “sexuação” biológica venha a ser redefinida. mas. como até mesmo . Tudo isto deve se constituir numa inestimável lição para todos nós brasileiros. ibid. em tudo isso é o povo metafísico. não lhe basta um profundo conhecimento de aerodinâmica (D/D= D/2). lógica que subsume. Rio de Janeiro. Jacques Lacan – Esquisse d’une vie. Esta e as próximas citações provêm todas de HEIDEGGER. 1993. D } o feminino. O avião. Victor. conclui-se. histoire d’un système de pensée. desse modo. 1966. D/2. tanto quanto (I/D)/(D) = = I/D/2. p. É o povo que tem mais vizinhos e. O ser humano é de nível lógico I/D/2 . mas também nos torna vítimas potenciais desta mesma excentricidade. que vivenciamos uma posição excêntrica em relação à cultura paradigmática anglo-saxônica. 21.p. embora de um outro tipo que a dos alemães de então. p. A autora fornece informações suficientes para que acreditemos numa forte rejeição de Heidegger às idéias. ao terem notícia. ibid.

Denoël/ Gonthier. Bernard. S. De Gruyter. C. Cambridge UP . Gabriel Cohn. SAMPAIO. 1968. F. Hegel à Frankfort. C. Howard M. 1998. S. Na lógica clássica este princípio é escamoteado e substituído por sua ausência ou sua múmia. CASSRER. in Os Pensadores. Org. 3. Ernst. KORTIAN. Garbis. Ensaio sobre o Homem . o principal indutor do processo de modernização da Alemanha. 1997 6. de.Writings in the Philosophy of Culture. Martins Fontes. Paulo. L. S. a identidade “estática” A(x) = A(x) ou abreviadamente A=A. SAMPAIO. p. 9. cit. 1. Desejo. Ibid. O verdadeiro e óbvio princípio da identidade é A(A(x)=A(x).360 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO à pessoa de Lacan 29.Introdução a uma filosofia da cultura humana. 1990. p. BOURGEOIS. A. Cambridge. especialmente. p. Noções de Antropo-logia. SACHAR. Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultura. C. Rio de janeiro. 1970 e SAMPAIO. TILLICH. Madrid. 1999. L. Paulo. Rio de Janeiro. S. cit. 1974 e também Lecciones Capítulo 7 . SAMPAIO. Estudio de la Historia. 4. 1996 2. op. Delta Book. 41 7. A Lógica da Diferença. Paris. 41. Ibid. 5. Adorno. M. The Course of Modern Jewish History. 8. a propósito. 1980. W. a possibilidade do exercício da auto-crítica. setembro de 1999. Ver. 25 30. A compreensão disto está na reação da intelectualidade alemã à migração judaica. Abril. S. Paulo. Ver. L. de. 43 31. de. 10. L. Paris. Palmer. T. episódio este que acabou sendo. TOYNBEE. Rio de Janeiro. 3 v. 49. Paul. ed. UAB. Théologie de la Culture. York. J. Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultura. para Frankfurt por volta de 1800. C. C. G. 33. principalmente de famílias de banqueiros. fingimento e superação na história da cultura. EGEL. Alianza. de. Ática. Paul. S. 1986 e entrevista a Der Spiegel. ADORNO. S. 32. p.2 Berlin. 1969. Théologie de la Culture. v. Metacritique – The Philosophical Argument of Jürgen Habermas. talvez. 1977. p. Crítica Cultural e Sociedade in Theodor W. TILLICH. L. XXX. in S. N. op. de. Rio de Janeiro. 1981. em conseqüência. v. SAMPAIO. W. que traduz justamente a propriedade de reflexibilidade e. o capítulo III. Introdução à história da filisofia. La Lutte entre le Temps et l’Espace e também a coletânea póstuma Main Works . Vrin.

Robert. 13. Rio. J-P. tal problemática não poderia ser adequadamente tratada. Adam Schaff. Madrid. D e até no início de D/D (quando não se tinha ainda definitivamente explicitado e fixado o seu sujeito apropriado. Théorie du sujet. 2. cit. 5. UnB. Ética a Nicômacos. 1982. P. Os marxistas. tem sido muito maltratado pelos pensadores do ser social. UAB. 11. ______. sempre o tiveram atravessado na garganta. que nos primórdios dos anos 80 denunciou com todas as letras a carência de uma teoria do sujeito no marxismo clássico. I. Política. dezembro de 1996. 1988 e comentários por Capítulo 8 . L’“Aufklärung” et la question juive e SARTRE. Ibid. com cerca de 3. 1969. Marx and the Philosophy of Culture. Achiamé. 3. 1985. II. Seuil. London. Ibid. op. EMBRATEL/UAB. R. fingimento e superação na história da cultura. 6. Paris. A Questão Judaica. o sujeito liberal). fingimento e superação na história da cultura. Paris. A relação indivíduo/coletivo ou indivíduo/História é de fato uma velha questão que se arrasta até hoje. Existiria. III e IV em 2 vídeos. 1994.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 361 sobre la filosofia de la historia universal. s/d. D’AMICO. Alianza.5 h de duração. Noções de Antropo-logia. MARX. como se pode constatar pelo uso tão insistente das expressões de conotação matemática excluídos e inclusão social. 1982. cit. Houve escravidão nas culturas pré-D. Desejo. da sua exploração. desde Lenin. é óbvio. ARISTÓTELES. especificamente. passando por Plekhànov.. Rio de Janeiro. sem a qual. Garaudy. Aristote et le Lycée in Histoire de la Philosophie 1. Encyclopédie de la Pléiade. como também Introdução à Antropologia Cultural. 12. livro I e comentários de AUBENQUE. Ver. La Question juive. SAMPAIO. ver Alain Badiou. ARENDT. Um exame mais cuidadoso do embasamento teórico do pensamento de Marx pode mostrar que seu “economicismo” não era assim tão radical como em geral se o considera. 4. em especial. Brasília. por conseqüência. 1. Isto tornou-se verossímil porque as culturas lógico-diferenciais foram as inventoras do trabalho (que pressupõe o colocar-se como outro da natureza) e. Brasília. Desejo. não há dúvida. entretanto. o fato que o desejo da cultura lógicoidentitária é pré-lógico-diferencial. UnB. até chegarmos a Alain Badiou. para comparação.. Ver também. O tema. Mas isto seria apenas uma desculpa para alguém de menor estatura e pretensão SAMPAIO. Hannah. op. K.(?) 14. 1994. a Terra Prometida.

junho de 1995. Na operação financeira troca-se o mesmo (I). op. SAMPAIO. 11.362 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO MORRALL. e mais recente- . ter. S. op. S. logicamente otimistas. A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica in Obras Escolhidas. A dimensão delirante da crítica ideo-lógica à Modernidade foi por nós analisada em Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. O recalque das lógicas femininas se fez preponderantemente pela Inquisição.I) diferentes (D) para cada um dos operadores. Paulo. Noções de Antropo-logia. W. e também Crítica da Modernidade. cap. BENJAMIN. Oficina do Autor/etc. Na troca de mercadorias está envolvida a mesma (I) quantidade de trabalho (valor trabalho . Cultura-Nova. Brasiliense. Seria o caso agora de se perguntar se a conversão de Constantino teria sido um acerto de contas teológico ou financeiro! 15. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Brasília . 18 14. antecedendo ao liberalismo político e à revolução industrial. Mito e tragédia na Grécia Antiga. haver e estar) mantêm uma correspondência bastante estreita com as quatro lógicas de base (I.. Desejo. I/D. 1999. corresponde exatamente a lógica da simples diferença (D).196. 1998 como também Reflexões. John B.D) com utilidades (valor de uso . Inst. Ao verbo ter. Desejo. p. Paulo. D/D). 1988 (xerografado) 9. 12. D. S.. 1985. Lógica e Economia. só que em quantidades diferentes (D) em datas distintas. só justificado como uma “operação” ideológica para elidir a dimensão cultural e assim destruir a priori qualquer intento de uma real compreensão da dinâmica social e de uma conseqüente ação subversiva. C. pois. S. 1999 13. acerca do advento da cultura nova pós-científica in Pensamento Original Made in Brazil. julho de 1999. de se considerar a economia como dimensão primordial da vida social. Rio de Janeiro. Aristóteles. VERNANT. Rio de janeiro. Fingimento e Superação na História da Cultura. L. 1981 7. Rio de Janeiro.. Os verbos auxiliares em Português (ser. Perspectiva. Jean-Pierre et VIDAL-NAQUET. Ambas são. envolvendo necessariamente o mesmo (I) e o outro (D). de natureza dialética (I/D). o que é um evidente erro de categoria. de. S. 1999. cit. Ed. 16. a econômica e a social mesmo. de. cit. v. 1. 2 10. Rio de Janeiro. C. p. Há uma quase unanimidade no Brasil em considerar as três dimensões fundamentais do social como sendo a política. hoje tão comum. UnB. L. Fingimento e Superação na História da Cultura. 8. de A Lógica da Diferença. SAMPAIO. Pierre. dinheiro por dinheiro. C. já o demonstramos. Fica aqui também evidente o absurdo. SAMPAIO. pelo processo de caça às bruxas coetâneo à consolidação da ciência. L.

20. p. Ibid. DEBRAY. L. Reflexões. S. SAMPAIO. Desejo. moderadamente otimistas. mas não cumprida de suas análises. Hegel e Marx. C. Rio de Janeiro.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária. Rio de Janeiro. novembro de 1999. SAMPAIO. C. 21. Rio de Janeiro. D e suas combinações são uma forma abreviada de referirmo-nos às lógicas da identidade.1997. Hegel e Marx. um terá mesmo que ceder. de história da cultura segundo Toynbee. 24. Régis. 22. Em caso de conflito entre o Papa e o Mercado. O Escriba – Gênese do Político. de. acerca do advento da cultura nova lógico-qüinqüintária in Pensamento Original Made in Brazil. SAMPAIO. Na esfera lógico-clássica ou científica alcança-se à verdade pela verificação empírica ou pela dedução a partir de um modelo formal consensado pela comunidade especializada. 18. respectivamente. como lá se chegaria? Como se deve entender a “causalidade” lógico-qüinqüitária? Talvez o melhor exemplo que possamos hoje dar seja este da leitura que fundamenta a nossa própria versão do princípio antrópico. L. outubro de 1999. SAMPAIO. a verdade como sintoma. 4. o fingimento cultural é o caminho para a verdade. 24 19. cit.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária.. L. S. cit. mas também uma crítica implícita à profundidade prometida.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 363 mente em A superação das idolatrias . S. Rio de Janeiro. op. 5. mas hoje baixa liquidez. 23. Tillich. Princípio Antrópico . 1983. C. cit. O Escriba – Gênese do Político. C. da diferença e às suas sínteses reiteradas. A .um novo fundamento e uma significação renovada. Trata-se de uma óbvia referência A Sociedade do Espetáculo de Michel Debord. 1999 3. de. Oficina do Autor/etc. UAB. invertida. Tillich. L. op. Retour. SAMPAIO. Capítulo 9 1. op. As letras I. Como em psicanálise. Rio de Janeiro. de. E na esfera lógico-qüinqüitária. O modo como isto acontece no pensamento marxista é detalhadamente exposto em SAMPAIO. A superação das idolatrias . L. C. dada a própria essência da infalibilidade. e terá que ser o primeiro que tem patrimônio. A história da cultura segundo Toynbee. 17. Este texto foi escrito de modo a ser compreendido independentemente da referência a estas abreviações que aí estão para facilitar a compreensão dos leitores que tenham uma anterior familiaridade com elas. Citado em DEBRAY. L. R. de. 2. op. S. C. Fingimento e Superação na História da Cultura. S. S. Ninguém melhor para dizer o futuro do que quem se vê por ele ameaçado de morte. de. cit.

Makron Books. de. I/D. em 3 . 1988 (xerografado) ou Noções elementares de lógica . Princípio antópico. 1988 e ainda BARBOSA. das adjudicações aqui feitas. Rio de Janeiro. não importa se a direita ou a esquerda. item 4. UAB. EMBRATEL. ainda bastante constringente. por nós definida. porém. de. por exemplo) se alocada em I/D. SAMPAIO. entretanto. de. Inst. S.. the Class of Fermions and the Six Bosons Mediating Natural Forces. I/D/D. D/D. ou seja. C. cit.. se alocada a D/D.. S. Cultura-Nova. C. tal qual postas por Deus. nua. munida de uma operação genérica / gozando das propriedades de fechamento.. O monóide é um semimonóide em que a operação de identidade é simétrica. foi proposta por Galileu e outros precursores da ciência moderna. D. por exemplo. L. indefinidamente. mesmo no detalhe. Paulo. Teríamos então o monóide livre fundamental I. L. de. C. Rio de Janeiro.Compacto. D/D.As lógicas ressuscitadas segundo Luiz Sergio Coelho de Sampaio. agindo igualmente à esquerda e à direita. é interessante lembrar. A matematicidade da matemática surpreendida em sua própria casa. 1999 (aguardando publicação) 8. op. a seqüência dos naturais. S. As Lógicas da Diferença – Rio de Janeiro. a partir de um conjunto finito de elementos. The Octect of the Physical Beings – Vacuum. O monóide livre fundamental seria pois I. Esta justificativa é a mais sumária e intuitiva que conhecemos. D. Noções Elementares de Lógica – Tomo I. por exemplo) . I. L. Rio de Janeiro. S. D. Ver Sampaio. S. apenas como uma esperteza para contornar a incômoda censura eclesiástica de sua época. mas tão apenas a monótona escala de seus instrumentos de medida. ainda pela operação /.. L. S. Ele é dito livre quando seus elementos são gerados. C. 11. de. não liam as próprias coisas. 7. conquanto que não a mais completa. 1984 e ainda Lógica da Diferença. 1998. Marcelo C. Nela está implícito que. D/D/D. Rio. Ver SAMPAIO. C.. 9. Rio de Janeiro.. As lógicas . SAMPAIO. L. na passagem dos semigrupos aos monóides. Na realidade. SAMPAIO. Também versão na língua portuguesa. uma partícula alocada a D deva se desintegrar em duas partículas estáveis (W = ν + e ou γ = e + e.364 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO noção de leitura como produtora de verdade. 1995 (xerografado). associatividade e de existência de um elemento neutro ou nulo apenas de um dos lados. 6. Noções de Antropo-logia. em 4. por exemplo. O leitor poderá encontrar por si muitas e muitas outras e se surpreenderá de jamais encontrar nada que o leve a duvidar. (xerografado) 10. 1998 (xerografado). Um semimonóide é uma estrutura algébrica. dezembro de 1996. ele é dito fundamental se são apenas 2 os elementos geradores. SAMPAIO. (π0 = γ + γ = e + e + e + e.

poderíamos ter. s. D. SAMPAIO. P. Ademais. 1994. op. op. 18. com cargas fracionárias do modelo standard. como a do fóton e do graviton. ainda uma conseqüência do trauma que vem dos tempos em que eles eram obrigados a prestar contas à teologia oficial. Oxford. et LAMBERT. 13. Le principe anthopique .FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE (µ = ν µ + W = ν µ + ν e + e. Champs/ Flammarion. d. segundo o modelo standard). cit. Os barions constituem uma estrutura qüinqüitária formada por três estruturas trinitárias (os quarks. c. que vai elucidar como de fato operam as forças simples. o mais recente.um novo fundamento e uma significação renovada. and TIPLER. SAMPAIO. b e t. op.Quatro constantes relativas às intensidades das “quatro” forças da natureza e pouco mais do que uma dúzia de constantes relativa às características das partículas elementares. DEMARET. Colin. 14. J. cit. as massas referidas são: tau . Indicamos ainda dois excelentes livros sobre o assunto: BORROW. isto contribui para maior simetria do modelo. D. Para mais detalhes. ver nosso trabalho citado na nota 10 anterior. 12. de. Nome proposto pelo astrofísico australiano Brandon Carter para um pretenso princípio estabelecendo uma correlação profunda entre o homem e o cosmos. que justamente já apresentava dois casos de dupla alocação de fermions (elétron junto com neutrino do mion e mion com neutrino do tau). A. A topologia é tal que não deixa qualquer dúvida quanto à impossibilidade da existência de quarks em estado de isolamento. Ao invés dos quarks u. Paris. F.L’Homme est-il le centre de l’Univers? Paris. Xuan Thuan. em Pré-D. As alocações conjuntas. Oxford U.. Un Astrophysien.. Talvez. Ver SAMPAIO. Reflexões. S. TRINH. Princípio Antrópico . Medidas em Mev/c2. 1988 e. moderadamente otimistas. por exemplo) 365 . acerca do advento da cultura nova lógico-qüinqüitária. op. não constituem dificuldades. 1995. The Octect of the Physical Beings. L. 16. Ver SAMPAIO. J. Noções de Antropo-logia. no novo moBARION QÜINQÜITÁRIO QUARK TRINITÁRIO GLUON GLUON QUARK TRINITÁRIO GLUON QUARK TRINITÁRIO 15. J. 17. 19. C. cit. The anthropic cosmological principle. mas uma sugestão acerca de um recôndito parentesco entre elas. cit 20.

Mesmo que se contestasse a necessidade da família burguesa. e como (I)/(D/2 ) = I/D/2. Em Freud. teríamos que admitir em substituição um agregado de mesma natureza sexo-lógica.30. que embora redutora. além de si própria. Esta. a propósito. Fedro.5. pois só vai até I/D . ‘o que quer uma mulher?’. O ser humano é de nível lógico I/D/2. imediatamente.Um valor desmesurado dado que a unidade natural de tempo cósmico (tempo de Planck) vale apenas 10–43 s e o próprio Universo tem apenas cerca de 1. é suficiente para compreender a lógica do rapaz (D/2. que o fez no contexto de um teoria da relatividade geral complexa. Isto leva a que no ser humano a “sexuação” biológica venha a ser redefinida. só depois. D/2} designa o masculino e o par diagonal {I/D. que masculino e feminino são modos onto-lógicos de realização do ser humano (I/D/2). 27. e é precisamente isto que impede a desintegração do nêutron. Para resolver este problema é necessário levar a criança de ambos os sexos à posição I/D/2 e. Théorie de la relativité complexe. 23.daí. o que não vale para agregados de nível superior. Ediouro. L. I). 1996. I/D. É um absurdo. PLATÃO. a problemática edipiana vai apenas até a aceitação da lógica da castração (D/2). necessariamente sexo-lógico. etc. conclui-se. tanto quanto (I/D)/(D) = I/D/2. 25. cit. Lacan et logiques. 1977. a ideologia burguesa que pretende constituir a sociedade a partir de indivíduos (pseudo-andróginos-virtuais. lógica que subsume. Rio de Janeiro. pode haver uma opção sexual adulta. para tornar-se tetrapolar (representável por um quadrado).2.366 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO =1784. 21. 26. O par diagonal {I. D } o feminino. é a prova da igualdade fundamental de homens e mulheres. estas quatro por nós denominadas lógicas de base. A Michel. Menon. de. Banquete. SAMPAIO.próton = 938. deixe de ser bipolar (representável por um segmento de reta). D. CHARON. As idéias de Teillard de Chardin fizeram escola e foram retomadas inclusive por físicos . D) fica logicamente diminuído. Esta é uma forte razão suplementar para que a antiga força forte piônica deva ser considerada ainda uma força de per si. 1992. . op. etc. Com isto. C. 24. D/2. nêutron = 939. como é o caso de Charon. S. Rio de Janeiro. por suposto). 28. como nos outros animais.1010 anos.Ver SAMPAIO. o feminino (I/D. Princípio antrópico. Colocamos o termo ‘família’ entre aspas para chamar a atenção de que se trata de um agregado de base.57. J. sim. No interior do núcleo (à distância de 10-15 m) prótons e nêutrons trocam pions (força forte de Yukawa). expressões tão chocantes como ‘a mulher não possui superego!’. as que lhe antecedem: I. Paris. 22.

L. ver SAMPAIO. Paul. fasc. nua. de. Para maiores detalhes. de. É bom alertar que o presente texto foi construído para ser lido independente destas referências taquigráficas.. As Lógicas. (xerografado) 4. Paulo. A sociedade do futuro. agindo igualmente à esquerda e à direita.. associatividade e de existência de um elemento neutro ou nulo apenas de um dos lados. Rio de Janeiro. Denoel/ Gonthier. Elas aqui estão porque acreditamos que alguém. I/D etc. SAMPAIO. D. Noções de Antropo-logia.. indefinidamente. O monóide é um semimonóide em que a operação de identidade é simétrica. Paris. I/D/D=I/D/2 (lógica hiperdialética ou qüinqüitária) etc. S. a seqüência dos naturais. SAMPAIO. Théologie de la culture. 5. Um semimonóide é uma estrutura algébrica. 1998. D/D=D/2 (lógica clássica). enquanto que a nossa síntese dialética generalizada pode operar reiteradamente sobre elas e seus anteriores produtos. I/D. Ele é dito livre quando seus elementos são gerados. 1996 (xerografado) ou BARBOSA. a partir de um conjunto finito de elementos. Ver Sampaio. de. Noções de antropo-logia. Na esfera mundana. L. Rio de Janeiro. TILLICH. ou seja. então. TOYNBEE. uma simbologia mnemônica para designar as diversas lógicas da tradição.. 1968 3. abris/junho 1999 6. por nós definida. D/D/D. M. As demais lógicas seriam delas derivadas através da operação de síntese dialética generalizada simbolizada por “/ ”. Existiriam duas lógicas fundamentais: I (lógica transcendental ou da identidade) e D (lógica da diferença). Zahar. D. UAB. Makron Books. na passagem dos Capítulo 10 . A aufheben hegeliana opera apenas a síntese das lógicas da identidade e da diferença. Rio de Janeiro. munida de uma operação genérica “/” gozando das propriedades de fechamento. C. dezembro de 1996. Rio de Janeiro. A matematicidade da matemática surpreendida em sua própria casa. C. D/D. são apenas uma taquigrafia. possa tê-las como um conveniente e simples apoio didático. não importa se a direita ou a esquerda. S. ainda pela operação /”. por exemplo.. C. (EdUERJ 2000) Revista Brasileira de Filosofia. Teríamos então o monóide livre fundamental I. D/D. C. S.. L. Luiz Sergio C. ele é dito fundamental se são apenas 2 os elementos geradores. I/D (lógica dialética). D. O monóide livre fundamental seria pois I. Teríamos. D. 7. de. I. desde que não as tema. Lógica da Diferença. I/D/D. Rio de Janeiro. As expressões I. S. UAB. Arnold.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 367 1.194. a ultima é por nós considerada a lógica própria e exclusiva do ser humano. 1979 2..

C. 1988 e Noções Elementares de Lógica – Compacto. C. Luiz Sergio C. de Desejo. S. S. Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. CulturaNova. HEIDEGGER. S. junho de 1995.2 .34. S. S. L. C. Hague. SAMPAIO. Noções de teo-logia. de. Curso fundamental sobre la fé. Ver SAMPAIO.Questão de método. pp. 23. Rio de Janeiro. SAMPAIO. C. L. Rio de Janeiro. Karl. 19. Paulo. p. 18. de. na transcendência. dezembro. 10. Rio de Janeiro. 8. com ela não se confunde.As lógicas ressuscitadas segundo Luiz Sergio Coelho de Sampaio. L. de. C. de. 13. 16. Herder. 23-24 21. de. 1993/1997. pp. a última identifica-se com a metafísica no seu sentido pejorativo. SAMPAIO. Rio de Janeiro. As lógicas . opus cit. não diferem em muito daqueles que se obtinham por via da analogia entis. 2 v. Luiz Sergio C. UAB. 47-48. Apontamentos para uma história da física moderna. M. 12. 1997. Inst. Existe uma fortíssima razão de simetria que não pode ser aqui convenientemente exposta. S. Ver especialmente. opus cit. C. SAMPAIO. S. de outro. de Desejo. estagiário do DRH da EMBRATEL. SAMPAIO. L. Ibid. Rio. C.1998 24. Paris. Noções de onto-teo-logia. S. Rio. Noções Elementares de Lógica – Tomo I. Noções de antropo-logia. Rio de Janeiro. . Barcelona. SAMPAIO. Rio de Janeiro. com o pensar de uma era ainda por vir: era da cultura nova qüinqüitária. a nosso juízo. 1984. L’être et le temps. de. tal como já insinuamos. RAHNER. 1998 (xerografado) 14. SAMPAIO. SAMPAIO. S. a primeira. UAB.V . 17. Os resultados a que chega a analogia fidei. IC-N.33 20. 1991. Noções de teo-logia. (xerografado).368 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO semigrupos aos monóides. Noções de teo-logia. Ibid. C. L. cit. da imanência de Deus. que eu chefiava em 1993. o que é corroborado por Battista Mondin (The principle of analogy in protestant and catholic theology. (xerografado) 11. 1968) que observa que entre as duas analogias não há outra diferença que aquela da simples ênfase relativa. L. 1996. 15. Gallimard. Ver SAMPAIO. 1985. 22. fingimento e superação na história da cultura. Fui chamado a atenção para o fato por um bolsista. L. I. Noções de teo-logia. opus cit. de. de. como também BARBOSA. Rio de Janeiro. de. S. 1964. Cultura-Nova. Ver especialmente item 1. de um lado. Marcelo Celani. op. 1995 (xerografado). Makron Books. porém. C. fingimento e superação na história da cultura. (xerografado) 9. cap. L. L. SAMPAIO. A expressão onto-teo-logia no título do trabalho em questão é uma óbvia alusão à ontoteologia heideggeriana.

. UAB. _____. Rio de Janeiro._____. e Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultural. uma versão abreviada e significativamente modificada do volume I da obra homônima e ainda Lógica da Diferença in Revista Brasileira de Filosofia. Apontamentos para uma história da física moderna. C. novembro de 1999 12. _____. e também A Questão Cultural – Palestra proferida no Workshop sobre A Questão Cultural. Brasília. Rio de Janeiro. S. op. cit._____. III e IV em 2 vídeos. 1998 8. op.. julho de 1999. Paulo. Introdução à Antropologia Cultural. acerca do advento da cultura nova pós-científica in Pensamento Original Made in Brazil. Rio de Janeiro. Princípio Antrópico. _____. . 1993/1997 e The Octect of the Physical Beings – Vacuum. Rio de Janeiro. UAB.. _____. A superação das idolatrias . Rio de Janeiro.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE (xerografado) 369 Capítulo 11 1. 10. Rio de Janeiro. fasc. cit. fevereiro de 1997 e ainda Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultural. 2. UAB. _____. dezembro de 1996 e A história da cultura segundo Toynbee. de. Ibid. op. Rio de Janeiro. Noções Elementares de Lógica – Compacto.um novo fundamento e uma significação renovada. logicamente otimistas. Oficina do Autor/etc. UnB. 1999 9. cit. Rio de Janeiro. vídeos. Introdução à Antropologia Cultural. palestra no Evento anúncio do Programa do Laboratório de Estudos do Futuro. Fingimento e Subversão ma história da Cultura. 1999. ICN. Noções de Antropo-logia. 11.5 h de duração. 13.194. setembro. Desejo. 1994 e também Considerações Gerais sobre a História da Cultura – Pré-requisito para a Compreensão e Avaliação da Situação Brasileira. 4. cit. S. 1996 14. op.. EMBRATEL/UAB. II. op. Brasília.a religiosidade na cultura nova lógico-qüinqüitária. cit. _____. outubro de 1999._____. SAMPAIO. _____. cit. Hegel e Marx._____. op. 1991.. Crítica da Modernidade. Tillich. com cerca de 3. sob os auspícios da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. 1998 7. _____. _____. Rio de Janeiro. out. abris/junho 1999 5. Rio de Janeiro. Princípio Antrópico . 15. I. 6. Reflexões. Rio de Janeiro. 1999 3. L. the Class of Fermions and the Six Bosons Mediating Natural Forces. Noções de Antropo-logia. Noções de Antropo-logia. Re-significação cósmica do homem e do processo de sua auto-realização cultural.

Considerávamos que. mas especialmente como uma terceira tentativa de resposta àquela . Roberto Cardoso de Oliveira. Não é preciso enfatizar o quanto nos sentimos honrados por lá estar presentes e o melhor que podíamos fazer para nos aproximarmos um pouco do talhe da oportunidade que se nos era oferecida seria evitar as trivialidades. 2. op. Fingimento e Subversão ma História da Cultura. independentemente da resposta dada pelo pensador francês. o emérito professor Dr. quando no almoço que precedeu à nossa apresentação. Por isso. na nossa opinião. cit. sim. agora. Desejo. o que em si não traduzia nenhum menosprezo. os déjà-pensées. que seria o coordenador das apresentações da tarde. sem dúvida. Capítulo 12 1. esta nossa velha preguiça de pensar o novo. perguntava-se se eles tinham lógica (clássica). Ainda. não estávamos ainda bem certos do que comemorar: se um. negamos e coetaneamente já somos. tema sobre o qual ele mesmo havia escrito um livro que tínhamos já na pasta e à mão. Tentamos por duas vezes responder que partíamos da problemática levantada por Lévy-Bruhl referente à questão do pensamento pré-lógico dos primitivos.370 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO 16. arrojado descobrimento europeu ou se o início das tribulações e das penas de gentes que já aqui haviam e outras chegadas de outras partes que estão fazendo emergir. mas levou-nos à convicção que não respondêramos satisfatoriamente à sua pergunta do almoço. A série de eventos. O professor Dr. de algum modo. inclusive para lhe pedir que o autografasse. pois. presidindo a Mesa nos apresentou à platéia como economista e especialista em informática. era de excepcional oportunidade e de uma grande importância. Dr. nos perguntou de que “lugar” nós iríamos falar. Roberto Cardoso de Oliveira. enfatizando que este primeiro item valeria por si. uma nova cultura sob o sol dos trópicos. Lauro Morhy no evento Anúncio do PROGRAMA DO LABORATÓRIO DE ESTUDOS DO FUTURO. posteriormente. as referências eruditas gratuitas e outras velharias para enfrentar. durante a nossa exposição fizemos reiteradas alusões ao episódio. O presente texto teve origem nas notas para uma palestra realizada a convite do Magnífico Reitor da UnB. às vésperas do ano 2000. a nosso juízo bem melhor. _____. Estas notas de palestra já estavam obviamente alinhavadas. a pergunta por si constituía-se numa revolução: não se indagava mais se os primitivos tinham alma. que estava sendo anunciada como atividade central do Laboratório de Estudos de Futuro para o próximo biênio. a Invenção do Brasil. que. espero que para muito breve.

nos arquivos da UnB que. Histoire des Mentalités. 3. Kostas. por sua vez. 1998. O psicanalista francês André Green. A. As demais lógicas seriam delas derivadas através da operação de síntese dialética generalizada simbolizada por “/ ”. 1977 e também FINK. Noções de antropo-logia. 1960 4. Compendio I/IV. Paris. Paris. I/D etc. D. 5. Histoire et Conscience de Classe. Vozes. consultar registro televisivo da sessão. HEGEL.” Provocações do pensar. 10. desde que não as tema. a seu ver. Madrid. UnB. I/D/D=I/D/2 (lógica hiperdialética ou qüinqüitária) etc. 19 de out. A Arqueologia do Saber. 1972. 9. só poderá ser bem compreendido com a ajuda desta nota. Paulo. 6. Teoria da História. entrevista de André Green em Jornal do Brasil. Le Jeu comme symbole du monde.). Elas aqui estão porque acreditamos que alguém. ver SAMPAIO. uma simbologia mnemônica para designar as diversas lógicas da tradição. de Minuit. recentemente instado a justificar o seu pessimismo em relação ao mundo atual. Para qualquer dúvida sobre esta nota. M. Fenomenología del Espírito. possa tê-las como um conveniente e simples apoio de leitura. O. Gallimard. Paulo. LUKACS. C. F. W. M. Teríamos. Cultrix. Petrópolis. I/D (lógica dialética). Rio de Janeiro. UAB. M. Na esfera mundana. Georg. As Lógicas. TOYNBEE. Para maiores detalhes. G. SPENGLER. . Existiriam duas lógicas fundamentais: I (lógica transcendental ou da identidade) e D (lógica da diferença). 1966.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 371 sua mui justa e sábia indagação. declarou que. 1972. D/D=D/2 (lógica clássica). Paris. Paris. 12. “a proposta de nossos políticos para as gerações modernas é ‘suicidem-se’. 13. México. DUBY. são apenas uma taquigrafia. A Decadência do Ocidente. AXELOS. Georges. (org. 8. 2. C. B. C. Makron Books. 7. 1981. É bom alertar que o presente texto foi construído para ser lido independente destas referências taquigráficas. de 1996. Luiz Sergio C. Alianza. de Minuit. S. S. 1982. BARBOSA. História: método sem objetivo específico in NIZZA da SILVA. As expressões I. a ultima é por nós considerada a lógica própria e exclusiva do ser humano. M. Eugen. 1996 (xerografado) ou BARBOSA. Estudio de la Historia. FCE. 1998. de Minuit. As lógicas – As Lógicas Ressuscitadas Segundo Luiz Sergio Coelho de Sampaio. então. Contribuition à la Logique. Rio de Janeiro. de. 1971. Idéias. 1976. LÉVI-STRAUSS. Brasília. FOUCAULT.

Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. C. porque suas diagonais. SAMPAIO. L. (2) só é na medida em que remete a outro (D). de . um pouco abusivamente. Rio de Janeiro. 1996. pelo mesmo autor. GOLDMAN. Este conjunto. Desejo. A linguagem natural é (1) sua própria metalinguagem (I). SAMPAIO. op. 1993. S. II. SAMPAIO. UERJ (no prelo) 16. Ademais. da diferença (D). As lógicas de base são as lógicas propriamente subsumidas pela hiperdialética qüinqüitária: I. Rio de Janeiro. S. Ver BARBOSA. que forma a base da pirâmide representativa de I/D/D.372 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO Makron Book. inclusive o homem. são inúmeros os casos de culturas logicamente híbridas. é produto da . Razão e Diferença. III e IV. I. 15. C. Dado o processo de relacionamento entre culturas (um processo hiperdialético. como em todas as culturas. então a diferença talvez não seja mais nenhuma. a pirâmide de base quadrada. de. 1998. 17. Isto é valido inclusive para a Modernidade. A religião na Modernidade. é de grande importância. as duas caracterizações não seriam assim tão díspares. o vídeo Antropologia cultural. 22. Alternativamente. EMBRATEL/ UAB. dialética (I/D). 1995. op. muito mais complexo do que a monotonicamente ascensional dialética hegeliano-marxista). cit. entre outra coisas. Se tomarmos o termo razão (logos) em sua pressuposta largueza heraclítica. 23. sendo a mais comum e sugestiva. clássica ou da dupla diferença (D/D) e qüinqüitária (I/D/D) que permitem pensar todos os entes mundanos. Noções de antropo-logia. S. Ed. UFRJ/Gripho. tomando-se. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. do saber inter-subjetivo (por isso. D. UAB. 14.15. de. é impossível o calculo do outro!) 19. animal como dotado de consciência (I) e razão como capacidade lógico formal (D/2). I/D e D/D. As Lógicas. Rio de Janeiro. pela velha caracterização aristotélica que considera o homem um animal racional.humano. Noções de antropo-logia. in Sete ensaios a partir da lógica ressuscitada. 21. SAMPAIO. (4) tem poderes formais ou demonstrativos (D/2). C. É o conjunto das lógicas da identidade (I). embora não permitam dar conta de modo compreensivo. (5) é complacente ao Absoluto. tendo-se em conta seu ilimitado poder metafórico (I/D/2). (3) é um ser histórico por isso tão facilmente persegue o devir (I/D). segundo Lacan. L. A representação arquetípica da lógica qüinqüitária aparece em quase todas as culturas como uma figura de 5 elementos. Márcio. Fingimento e Subversão na História da Cultura. cit. permitem a re-definição ou sobre-impressão da sexualidade no ser. 1994 20. L. 1998 18.

mas um superior processo hiperdialético qüinqüitário. Isto tem implicações de uma incalculável amplitude que não podemos (ou talvez nem soubéssemos) aqui explorar.como combinatória em um conjunto já dado de deuses e religiões. a síntese da identidade com a dupla diferença. pois na ver- .. além. de. num sentido bem preciso de que são culturas que operam logicamente. mas na verdade é este o modo pelo qual se pode abrir um caminho realmente profícuo para articulação das idéias de Marx e Freud. Aliás. crenças e ritos. Por isso representam e sacralizam sua relação com a Natureza. o cristianismo patrístico aparece como histórica. não se dão conta que o fazem. S. 28. entre outros. Não é aqui o lugar para aprofundar este assunto. logique du sentiment. se usássemos a expressão pré-lógica desencadearíamos uma terrível tempestade por parte de estruturalistas/ relativistas que tão logo nos acusariam de repetir um sério pecado cometido por Lévi-Bruhl. a hiperdialética qüinqüitária (I/D/2). das relações EUA/Brasil.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 373 sacralização de sua lógica própria. I. porém. como pseudoqüinqüitário. ou seja. Por isso ela é politeísta. 24. Desejo. 25.. 29.pré-I. não conseguiram conferir-lhe uma expressão simbólica e coletiva estável. aquela identificada por Ribot (de influência freudiana) como. mas não logicamente qüinqüitário. uma polêmica cheia de veneno e má fé. Poder-se-ia usar a expressão pré-lógica. mas como dotado de uma outra lógica. 26. pré-D. contudo. precisamente. em um modo próprio . que isto é o suficiente para demonstrar em definitivo que a História não é um processo dialético trinitário hegeliano (apenas). Não é surpresa. 27. Observaríamos. tendo-se em conta que Lévi-Bruhl usou a expressão pré-lógico não no sentido de destituído de lógica. Este tipo de consideração é fundamental para a compreensão. em profundidade. pois. C. L. cabendo-lhes pois a designação de culturas ecológicas. cuja necessidade foi há muito pressentida. no caso a lógica clássica ou do terceiro excluído. Símbolos geométricos que tomam como formas básicas quadrados ou cruzes (D/2) e círculos (I ou I/D) que articulados vão representar a síntese da identidade e da diferença ou. como mereceriam. SAMPAIO. isto é. op. isto é. A religião estrutura-se hoje como um supermercado de deuses. O primeiro crê representar hoje a quinta-essência (finge. Consideradas todas as culturas nodais anteriores (ecológicas e propriamente lógicas. cit. que os psicanalistas de orientação junguiana tenham observado a freqüente ocorrência de mandalas nos desenhos de pacientes em início de processo de recuperação. D e I/D). ao todo 5 . Ademais. por Reich (!) e pela Escola de Frankfurt.

A pretensão à universalidade da poesia (trágica. Reflexões. lá e cá. para que a poesia não nos acuse de dureza e rusticidade. Heidegger se comporta com Platão assim como muitos de nós brasileiros costumamos fazer: se alguém previu algo que acabou acontecendo. porém. História das Crenças e das Idéias Religiosas. Rio de Janeiro. 43 41. sim. 1978. porém. Isto não quer dizer que o EUA já seja o último dos modernos e que o Brasil não vá faltar à sua destinação (outro. 90. 34. 228. Paris. S. 58. constitui-se no constante pano de fundo de suas amistosas/rancorosas e por isso sempre tensas relações políticas. mas aquela possibilidade está já inscrita nos “inconscientes coletivizados” de todos nós. muita antiga. Le Jeu comme Symbole du Monde. ou pior. como a Índia. porque a poesia permanece no universal e a história estuda apenas o particular . enquanto que o segundo é um marginal. 40. sua oposição à filosofia. p. Sob este prisma sabem eles que somos seu mais temível inimigo. um dos mais prováveis candidatos à realização da cultura nova qüinqüitária. Exclui-se aqui. p. George. SOCRATES: . 101 39. por não termos lhe dado atenção? Um mal caráter! concluem. Em símbolos: (D)/(I/D) = D/2. é síntese da lógica da diferença D e da dialética I/D. Atena. para que o tivesse feito precisava antes tê-lo ouvido dos deuses (pois o futuro só a eles pertence) . p. BATAILLE. p. como podemos ver em Aristóteles: Por tal motivo a poesia é a mais filosófica e de caráter mais elevado que a história. 59. ARISTÓTELES. Hölderlin. Paris. Eugen. 36. Platão. 31. foi vítima deste tipo de “ ilação”? 33.. Zahar. porque não lhes convenceu de pelo menos trocar o pior por algo um pouquinho melhor?! Só por vingança. A lógica clássica ou da dupla diferença. é ele sem dúvida o grande culpado. 30. por isso as subsume. F. ELIADE. Minuit. Oevres Complètes. Tomo I. Difusão Européia do Livro. 1966 p. As- .. inclusive) é crença corrente entre os gregos. S. vol. pode certamente assumi-la encorajado pelos nossos freqüentes “amarelamentos”).374 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO dade não passa de ser a quarta-essência) da cultura. ibid. ELIADE. Finalmente. 1959. em sua máxima generalidade. p. (negritos nossos) 35. 1. op. Théorie de la Religion. 37. Arte Retórica e Arte Poética. 1955. cit.. Por isso. pois. por excepcional (de exceção) o atual momento destas relações. 92 38. sem a menor cerimônia. Paulo. 1966. e sendo-lhes assim tão íntimo.opus citado. p. é bom aduzir que não é de agora. ib1973. 32. Quem já não viu. FINK. Mircea. A República. Gallimard. Paulo. ibid.

II e IV. C. por suposto. O I. 45. quilograma e segundo). o ser como totalidade visado pela lógica dialética é. UAB. como nos outros animais. 50. (2000) 43. Os sistemas de medidas da Física têm necessidade de definir apenas três grandezas fundamentais: comprimento (L). as que lhe antecedem: I. Todas as demais grandezas físicas estão a partir daí especificadas sem qualquer ambigüidade. 47. conclui-se. Rio de Janeiro. a Igreja Católica sempre namorou a ciência. pelo mesmo autor. 42. grama e segundo) ou mks (metro. estas quatro por nós denominadas lógicas de base. A separação drástica luterana entre fé e razão. Ao contrário do que se diz por aí. Por exemplo.. e como (I)/(D/2 ) = I/D/2 . A Questão Cultural – Palestra proferida no workshop sobre A Questão Cultural.II. herdado pela lógica clássica. lógica que subsume. massa (M) e tempo (T). SAMPAIO. a história (I/D) se vê degradada em progresso ou acumulação de capital e o inconsciente (D) desnaturado. moderadamente otimistas acerca do advento de uma cultura nova qüinqüitária. não pegou. Noções de antropo-logia. SAMPAIO. que masculino e feminino são modos onto-lógicos de realização do ser humano (I/D/2). constata que isto foi tentado. feito desejo domesticado pelo marketing. 1995. Rio de Janeiro. C. Na modernidade capitalista. 49. O ser humano é de nível lógico I/D/2. SAMPAIO. além de si própria. sob os auspícios da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. mas sim o que era necessário . deixe de ser bipolar (representável por um segmento de reta). O par diagonal {I. mas felizmente para eles. ICN. que se constitui destarte em analítica das universalidades ou totalidades por convenção. Vide a última Carta Encíclica – “FIDES ET RATIO”. É preciso ter perdido a sensibilidade para não se maravilhar com tamanha ousadia. não criou a ciência. Ver Reflexões. Isto leva a que no ser humano a “sexuação” biológica venha a ser re-definida. Dialética trinitária versus hiperdialética qüinqüitária. Quem vai a Westminster e vê o túmulo de Newton no centro mesmo da catedral. I/D. S. de. out. D/2} designa o masculino e o par diagonal {I/D. S. Brasília. 1993/97. D. tanto quanto (I/D)/(D) = I/D/2. o grande realizador cinematográfico irlandês. imediatamente. de. assim como. o vídeo Antropologia cultural. igualmente mencionado. opus citado. Rio. L. FINEP/ etc.. 46. Apontamentos para uma história da física moderna. em parte. S. 44. de. C. (xerografado) 48. Referência a John Ford. 1996. para tornar-se tetrapolar (representável por um quadrado). D } o feminino. D/2. L. a maior parte de sua carreira atuando em Hollywood.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 375 sim. L. sistema cgs (centímetro. ingleses.

1991. são ambas a mesma coisa: a mesma fúria sem consolo da técnica desenfreada e da organização sem fundamento do homem normal. mas. que esse povo ex-ponha Histo- . foram já muitos e entre eles o Padre Antônio Vieira. 55. Pessoal e social são sempre anti-simétricos. Os denominados problemas sociais nada mais são do que a banda podre do modelo econômico vigente. 54. como História. Rússia e América. estando no meio . que pela ousadia quase foi executado pela Inquisição. acontece precisamente o contrário. se encontra hoje entre dois grandes tenazes. 52. quando as cifras em milhões dos comícios de massa forem um triunfo. 56. econômico e social mesmo. para se constituir em sujeito da ciência. com a Rússia de um lado e a América de outro. na perversão social. instantaneidade e simultaneidade e o tempo. o mais ameaçado. perguntaríamos nós). quando tempo significar apenas rapidez. houver desaparecido da existência de todos os povos. Segundo um programa de TV focalizando cada um dos países europeus. Não somos nós a dizer isto. numa cegueira incurável sempre a ponto de apunhalar-se a si mesma. consideradas metafisicamente. quando o pugilista valer. Paulo. quando um atentado a um Rei na França e um concerto sinfônico em Tókio poder ser “vivido” simultaneamente. como o grande homem de um povo.376 LUIZ SERGIO COELHO DE SAMPAIO para criar uma sociedade ou cultura científica: nada mais nada menos do que o sujeito liberal liberado para ser sujeitado à ciência ou. justamente então continua ainda a atravessar toda essa assombração. como um fantasma. simplesmente. em tudo isso é o povo metafísico. REDONDI. então. Companhia das Letras. a pergunta: para quê? para onde? e o que agora? Estamos entre tenazes. desse modo. Na perversão pessoal. Quando o mais afastado rincão do globo tiver sido conquistado tecnicamente e explorado economicamente. tipo de psicose. Aqui deveria entrar o cultural e é precisamente para ocultá-lo que se comete o absurdo de considerar o social parte própria de si mesmo. quando qualquer acontecimento em qualquer lugar e a qualquer tempo se tiver tornado acessível com qualquer rapidez. Não há nada mais ridículo do que dividir o social em político. S. Pietro. existe um empenho deliberado (por quem?) em desenvolver a gastronomia alemã com a finalidade de atenuar sua pressuposta inclinação belicista (ou anti-consumista. é o sujeito (I) que se sobrepõe à lei (D/D). Essa Europa. Galileu Herético. É o povo que tem mais vizinhos e. 53. Isso implica e exige . A Alemanha. suporta a maior pressão das tenazes. 51.

a partir do cerne de seu acontecimento futuro. Tempo Brasileiro. tipicamente brasileira. é seu justo contrário. M. HEIDEGGER. que de certo modo pode incluir todos.FILOSOFIA DA CULTURA / BRASIL: LUXO OU ORIGINALIDADE 377 ricamente a si mesmo e a História do Ocidente. desde que em estado de congraçamento. tornando-se assim um autêntico empresário schumpeteriano (I) (caso verídico ocorrido no Rio). Introdução à metafísica. 57. não importa que tenha extremos. por exemplo é freqüentado pelo povão. assim mesmo entre aspas. . Povão é empregado aqui como uma verdadeira categoria sociológica. O Maracanã. 1966. ao domínio originário das potências do Ser. 79-80. A “elite”. incluindo até um miserável que se pôs sob um viaduto (D) recém-inaugurado e com um giz delimitou internamente retângulos (D) para alugá-los a outros ainda mais miseráveis. pp. uma geral e uma tribuna de honra. Rio de Janeiro.

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