TIAGO DA SILVA CABRAL

XENA
~A Prenda de Ares~

2013

CABRAL, Tiago da Silva. “Xena – A Prenda de Ares”. Edição do Autor. Barra Mansa – 2013. Imagem original da capa: “Xena into the dark” por amberj8. Obtido em < http://amberj8.deviantart.com/art/ Xena-Into-the-Dark-194689597 > em 10/07/2013. Montagem por Tiago Cabral. Este material não pode ser reproduzido sem autorização do autor. Disponível exclusivamente na página do próprio autor “Tiago Cabral” no Scribd.com. Este material não possui fins comerciais e sua venda é proibida. Xena : “The Warrior Princes” criada por John Schulian e Robert Tapert. Todos os direitos reservados. QUER MAIS? www.kbgames.com.br Email:. tiagocabralkb@gmail.com Me siga no Twitter: @Wordmen

I
O ruído do atrito da pedra com a lâmina da espada se espalhava por toda a floresta. Os animais, se já não afastados pela fogueira acesa, já não se aproximavam pelo barulho agudo, incômodo e áspero emitido sempre numa constância precisa de intervalos. Quando o som da lâmina ainda vibrando ecoava suave pelo ar logo era seguido de um novo ruído áspero da pedra em atrito com o metal polido. O ar úmido já fazia aparecerem gotas de orvalho nas sombras, que refletiam timidamente a luz dourada da fogueira e a figura feminina solitária com sua espada. Então, o ruído cessou. Ela olhou para a lâmina que refletia de volta o olhar azul celeste vindo de seus olhos. Aquela lâmina que já havia se sujado de sangue muitas vezes. Sangue inocente. Ela sabe que macular esta mesma lâmina com sangue culpado não vai abafar os sons das almas que atormentam seus sonhos. Mesmo assim ela continua. Quem sou eu pra julgar quem é ou não culpado? Mais uma noite sem sono; mais uma noite em que os sonhos bons não vieram confortá-la. Apenas o ressentimento e o remorso vieram visitá-la hoje. Então ela continua a afiar o motivo pelo qual ela ainda continua viva. A vingança?, não, ela já não existe mais. Perdeu-se entre o ódio e o medo, mas o fim a que ela veio continua: a batalha nunca termina pra ela. Então vem o sentimento macabro de que é apenas mais uma alma penada no mundo, um soldado sem exército enlouquecido por uma guerra que, pra ele, ainda não terminou. Fecha os olhos, princesa, pois hoje à bondosa floresta te dará o abraço de boa noite, e te confortará enquanto as estrelas, cintilantes, contarão histórias belas e mágicas. Até que o próprio Morfeu se encarregue de trazer o mais belo dos sonhos pra você... Embalada pela memória vívida das palavras de sua mãe, ela então conseguiu um pouco de descanso. Em seus sonhos, imagens turvas e chamas que dançam por sobre as casas. Centenas de pés marcham como se fossem apenas um par. E uma noite fria e barulhenta na qual uma pequena garota acorda em meio a uma verdadeira guerra. Uma pequena e inocente, agora entre corpos sem compreender que aquelas figuras, inanimadas e banhadas em sangue. Agora estavam mortas. “Xena, venha pra cá!” ordena sua mãe à porta de casa. A menina corre e abraça a mãe. Nenhuma lágrima desce de seus olhos ao ver o terreno de sua casa coberto de corpos. Ela simplesmente pensa que tinha feito algo errado pra sua mãe gritar.

– Onde está papai? Onde estão meus irmãos? – pergunta ela. – Eles foram para a guerra, aquela que papai sempre fala. Foram lutar por nossas vidas, por nossas terras! – Por que não podemos lutar também? – O mundo é perigoso, minha filha. Ele tem muitas ameaças, e a guerra pode-se dizer que é a pior delas. Os homens são mais fortes, eles devem nos proteger, seria muito triste pra eles perder a mim e a você. Por isso eles enfrentam os perigos, pra nos proteger... – diz sua mãe abaixando pra falar com ela e a abraçando novamente. – O mundo é perigoso, e só eles enfrentam o perigo. Deve ser por isso que o mundo é deles, minha filha. Vamos entrar. O quintal está sujo de mais. – E era como se o sol começasse a nascer e aquecer seu corpo enquanto ela abraça sua mãe. Quando ela dá o primeiro passo dentro de casa, o cadáver de um dos soldados agarra seu calcanhar. NÓS SOMOS O PERIGO!!! E então, ofegante, a guerreira desperta com a espada em punho. O sol já havia nascido e a fogueira se apagado. Era hora de partir.

II Apolo já arrastava o sol pelo céu azul acima das copas das árvores com sua carruagem quando ela partiu. Cada passo era cauteloso, seus ouvidos atentos a qualquer ruído. A vida lhe ensinou a suspeitar de tudo e de todos. Olhando para o chão ela se agachou e viu uma pegada onde olhos não treinados não poderiam ver. As simples folhas amassadas de certa forma davam a ela o tamanho, o peso e o rumo de seu dono. Ela tocou o chão e sentia a como se pudesse tocar os pés daquele que passara por ali a pouco tempo, seu alvo, seu objetivo. Ela aprendeu isso como se fosse de pouca utilidade, um pai ensinando à filha aquilo que achava que ela nunca iria usar: Sinta, sinta os pés de quem passou por aqui; Sinta, a dor das folhas amassadas, e elas lhe contarão quão pesado era o dono das pegadas; Sinta o passo, e veja onde pés apressados ou não queriam chegar; Escute a voz de gaia e ela lhe dirá onde o dono do rastro agora está. Ela seguiu então para nordeste, indo para a direção de lembranças. A floresta era quieta e acolhedora. As sombras eram atrativas e seguras, mas nelas moravam lembranças, fantasmas que tomavam sua mente apenas com o fechar momentâneo dos olhos: O som das espadas parecia ainda viajar no ar. Ela pode sentir. As memórias de um passado distante nesse momento são tão vívidas quanto o presente: – Não! Um homem já grisalho cambaleia diante da porta de sua casa. A mãe de Xena tentava socorre-lo. – Eles investiram sobre nós com tal fúria como se incitados pelo próprio Ares! – Ele diz. Uma lâmina brilha sob a luz da lua na escura noite, quando chamas pareciam ter caído dos céus sobre as moradas em Amphilopolis e o homem dá seu último suspiro enquanto suas forças desvanecem na tentativa de tocar pela última vez sua filha. – Pa...Pai.. – A pequena Xena sibilia chocada. Aquela seria uma imagem que estaria marcada em sua mente para toda a sua vida.

Os soldados entram na casa. Estão sujos de sangue seco por sobre suas vestes. Olhares profundos e perversos vasculham o local até pousar sobre sua mãe, todos eles. – Filha, saia... – diz sua mãe quase quase sem coragem o suficiente para falar. – Filha, por sua mãe, saia! É o meu último pedido, seja forte, mais forte do que eu... Corra!. O cheiro pútrido daqueles homens já havia tomado a humilde casa. As chamas das tochas tremeluzem enquanto o vento frio vindo da porta aberta luta contra elas. Como se levada por aquele vento, ela corre sem pensar. Corre segurando o choro, corre tapando sua boca tentando ser forte, mais forte do que aquilo que sentia. Um dos soldados faz um gesto com a cabeça em direção a pequena menina, demonstrando a intenção de segui-la, mas um outro puxa o seu braço olhando profundamente para a mãe. Enquanto a mulher se movia levemente apenas dando passos para traz os homens se aproximavam. Ela pede para que o estupro seja rápido, e a morte lhe receba fria e consoladora logo em seguida, mas sabia que havia destino pior. As ruas são frias à noite, e a comida é pouca; Os anos se passavam enquanto estrangeiros roubavam aquilo que era da terra deles; Navios chegam vazios e saem cheios; A escória passa a ser vista no belo portuário, onde muitas riquezas são dadas aos que não mereciam; Athenas nos abandonou... Entre o povo que se reúne para tentar sobreviver, ela come pouco e mal. Restos dados com segundas intenções a uma quase moça, já na alvorada da puberdade... – Athenas entregou Amphilopolis a Phelipe II – comentavam alguns poucos temerosos nas sombras. – Os deuses não olharam para nós... A justiça de Athena não chegou até Amphilopolis. Piratas. Sujos e nojentos aparecem distorcidos como sombras formadas por uma tocha ao vento.

– Carne fresca para se vender. Quem não precisa de prostitutas? Ainda mais uma tão jovem e bela quanto essa... Percebeu finalmente que sua infância já havia sido furtada há muito tempo, se viu mulher mal sabendo se distinguir da menina. Ela ainda era inocente, correndo levada pelo vento frio da noite, mas então a mulher a possuiu e revelou que a menina nunca poderia voltar para casa. “Seja forte, minha filha... Mais forte que eu...” Quando deu por si, já estava presa junto à carga de um navio. Ao olhar em volta ela viu dezenas de outros olhares tristes, magoados pela subvida nas trevas da cidade esquecida pelos deuses. Ambas com um passado e um provável destino em comum: o sofrimento.

III O hálito gélido da noite já pousava sobre a floresta enquanto o sol se punha no horizonte dando início a mais uma noite: o momento ideal para atacar aquele que, solitário, se preparava para descansar a noite. Por que ele viaja sozinho? Há algo de estranho... O momento era ideal: ele se preparava para assar algo que caçara durante o dia para se fartar e repor as energias gastas num longo dia de viajem. Ela desembainhou a espada sorrateiramente, nem mesmo o mais atento guerreiro poderia ter percebido. O líder de um grupo de saqueadores que ela não conseguiu deter eficientemente. Um fim devia ser dado àquela maldade. Será que estou mesmo certa?Ele pode redimir como eu... Não havia tempo para titubear, não agora. Xena aproximou-se então o máximo que pode sem ser notada e preparou então um golpe fatal. Ela era encorajada pelas faces aterrorizadoras das vítimas daquele impiedoso vilão. Ele foi impiedoso com inocentes, não devo ter pena dele! Ela sentiu a dor semelhante a uma ponta de espada penetrando em sua pele, mas era apenas um pouco mais delicada a arma que a feria. "Sentiu seu corpo amolecer enquanto caía sobre aquele a quem iria matar" – Tão fácil quanto pegar um coelho numa armadilha. A escuridão cobriu tudo, e nem mesmo a luz da fogueira tão próxima poderia alcançá-la. Ela acordou com as mãos dormentes, amarradas com força e brutalidade com uma corda. Homens, uma dezena no mínimo, gargalhavam com maldade em suas vozes ásperas, algumas estridentes e agudas que eram para o ouvido como o som de uma faca arranhando o mármore, e outros tão graves quanto o mugido de touros que agora roucos assemelhavam-se vozes de demônios antigos. Todos eles falavam e gargalhavam. Era como o inferno em uníssono. Uma orquestra sombria de instrumentos macabros. Até que aquele que ela iria matar percebeu o de Xena. Ele, sentado a diante, deu um tapa no homem ao seu lado e apontou para ela. Aproximou-se então, tanto que ela podia sentir o cheio pútrido de seus dentes e sua suja barba tocar seu rosto, a repulsa a esse gesto foi instintiva. – Ora, se não é aquela que chamam de ‘princesa guerreira’, aquela que luta com tal ferocidade que parece abençoada pelo próprio Ares! ’, ao meu ver, essa dama não seria capaz nem mesmo de erguer uma arma! Quanto a Ares, ela

deve ser mais uma de suas concubinas espalhadas pelo mundo, eu não daria mais –, disse ele sorrindo – Pois não vai nos agraciar com sua voz que deve ser tão suave quanto à seda, a julgar pelo belo rosto, comcubina de Ares? Após este cortejo os campangas gargalharam. Olhando em volta rapidamente, ela contou quantos soldados havia no local. Ao contrário do que pensavam, ela já esperava por aquilo. A única surpresa foi a capacidade daqueles tolos homens de conceber um plano razoável. Mas falharam miserávelmente quando não acabaram com a vida dela enquanto estava inconsciente. Subestimar um inimigo é sempre um erro... – Agora, chega de cortejos. – disse ele já praticamente em cima dela. – Adivinhe por que não amarramos suas pernas? As manteremos suficientemente abertas para nos divertimos antes de acabar com você. Sobreviver, a primeira lição. Aquela não era a primeira vez que ela se via naquela situação. E ela pode sentir novamente aquelas lembranças macabras da vida cruél pela qual teve que passar: – É bom testar a mercadoria antes de vende-la! –, diz o pirata ao seu capitão examinando sem pudor as mulheres que haviam capturado no porto que tinha acabado de deixar para traz, a jovem Xena era uma delas. Apalpava-lhes seios e coxas sem discriminação e examina os dentes assim como se faz com cavalos, além de revirar suas roupas em busca de alguma marca que indicasse doença Mas com a pequena jovem ele é mais gentil: apesar de seu olhar penetrante e dos punhos cerrados, ele alisa seu rosto de Xena com carinho por mais que ela tente se desvincilhar das mão sujas do velho e perverso marujo. – Seu tolo –, diz o capitão, o seu falar era grosso e ríspido. – Não sabe que pagam mais caro por virgens? – e saiu. O marujo decrépito olha perverso e cobiçoso para Xena, avaliando-a em cada detalhe: observa seu corpo belo e jovial, suas curvas suaves sob a pouca e rústica vestimenta. Seu rosto belo, mas de feições severas que o encara com um penetrante e desafiador olhar azul. Ele então coça os piolhentos fios de sua barba e se aproxima lambando os lábios pútridos desejosamente. – Quem iria perceber? Por você vale a pena desobedecer ao capitão. Ela é arrastada até um dos cantos do sujos e mal iluminados do interior navio. Então é atirada sobre uma monte de feno sob o olhar malicioso e perverso do homem, que logo começa com empolgação a retirar seu cinto onde estava pendurada sua espada na bainha, objeto logo focado por ela.

– Deixa-me ver bem o meu prêmio – diz o homem rasgando ferozmente as humildes roupas dela. Ela se encolhe tentando cobrir-se, pois está agora praticamente nua. O medo finalmente toma conta do seu corpo. Ela fecha com força os olhos enquanto o velho fedorento observa tateando seu corpo. Seja forte, minha filha, seja forte. Mais forte que eu. Ela ainda pode ouvir os gritos lamentosos de sua mãe enquanto corria pela noite fria. Seus gritos só eram interrompidos por um esforçado “não olhe para trás”. Mais forte do que eu... Ele está tão próximo que Xena pode sentir seu hálito nojento poluindo o ar enquanto soprava por seus dentes produzindo um fraco chiado quando ele ordenava que ela não fizesse barulho. MAIS FORTE DO QUE EU! Como uma cobra ela se esquiva do homem que se deitava sobre ela. Sobrevivência. Suas mãos, livres, tomam a espada que jazia no chão. Ele, não tem tempo para nada além de gritar enquanto ela o golpeia diversas vezes no peito, até o momento em que simplesmente parou de se mexer, mas ela não. O capitão abre a porta e ve um banho de sangue, assim como uma mulher segurando uma espada no mesmo estado. Seu corpo nú iluminado pela fraca luz que entrava pela janela, sua pele tingida de vermelho. O olhar dela para o corpo era frio e nada arrependido. Uma figura bela, tão formosa quanto uma ninfa, ou até mesmo na ousadia de um pensamento tão bela quanto à própria Afrodite e tão ameaçadora quanto o próprio Ares. – Pelos deuses! – Grunhiu o capitão surpreso, mas admirado. – Uma arma útil. Uma ameaça inexpressiva, quem sabe... Uma assassina nata? Porém, agora, no meio da floresta, cercada de malfeitores ela não era mais uma menina, ela já era uma assassina. Porém havia outro homem nojento sobre ela, e só as pernas desamarradas. Com três golpes ele estava inconsciente no chão, cerca de dez homens vinham na sua direção. O primeiro ela derrubou com um simples golpe, do segundo ela roubou a espada, que ela usou para cortar a corda que prendia as mãos. Então, armada, em poucos instantes a cena havia se repetido, mas agora havia mais corpos e ela estava vestida como uma guerreira. Porém o sangue que cobria Xena denunciava que, apesar de ser uma guerreira, no

fundo aquela menina, aquela sobrevivente, também estava segurando aquela lâmina. – Assassina, uma bela assassina – disse o capitão. – Seja uma dos meus. Ela ergueu a espada ameaçando-o. O homem gargalhou. – Não pense que terá tanta sorte quanto teve com esse idiota beberrão, aliás, eu mesmo estava pra fazer isso, mas a minha preguiça não deixou –, disse o capitão sorrindo sob a densa e grisalha barba. – Este velho ainda tem seus truques. Truques que podem ser úteis a alguém com tanta determinação. Ele coloca a espada sobre o ombro num gesto relaxado. – Não quero que se deite com ninguém. Só quero que os faça acreditar que irão ter com afrodite enquanto que, na verdade, conhecerão o frio hálito de Hades! Você é a prenda de Ares! A morte como meio de vida. Sobrevivência?

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