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A mentira no Basquetebol…

A mentira no basquetebol…

Mário Silva - 2013

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A mentira no Basquetebol…

1.INTRODUÇÂO
Muito se fala na crise do basquetebol. E, regra geral, quando se discute, pouco ou nada se fala da crise ao nível da planificação estratégica e dos princípios de jogo. A mentira no basquetebol começa por existir na falta de respeito pela essência do jogo. No basquetebol actual é cada vez mais difícil criar situações de vantagem no ataque. As surpresas de ordem táctica acabaram graças ao “Scouting”, ao treino e às capacidades técnicas e físicas dos atletas. Dispor de informação é hoje fácil. Basta aceder à Internet. Copiar é algo que todos os treinadores fazem e não é motivo de vergonha. O maior problema está em não entendermos que equipa temos e onde estamos inseridos. O basquetebol continua a ajustar-se de forma regular as regras o que só nos pode deixar satisfeitos e nos obriga a procurar novas opções de forma a influenciarmos o jogo As defesas são cada vez mais agressivas, procurando impedir a aplicação dos conceitos básicos do ataque (mudanças do lado da bola, ângulos de passe, linhas de passe, eficácia lançamentos, bloqueios, seleção lançamento e lançador). Na actualidade a resposta de muitos treinadores passa por obrigarem os defensores a terem de se aplicar num movimento inicial (corte ou bloqueio) de forma a que quando tenham de intervir na acção principal o façam de forma deficiente e atrasada. Este é o meu ponto de partida.

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2.AINDA O VELHO ATAQUE DE PRINCETON…
Comecemos então pela estratégia de desequilíbrio da defesa. Uma das formas de a executar passa pelo uso do “False Motion”. Tomemos como exemplo o velho ataque Princeton que tem por base o movimento constante da bola e dos jogadores. Recorrendo aos passes, cortes nas costas e bloqueios indirectos e directos executados de forma disciplinada e colectiva para criar lançamentos fáceis.

A bibliografia sobre o ataque Princeton é bastante ampla e tem sofrido várias alterações adaptadas à evolução do jogo. Muitas equipas da NBA e College aproveitaram as ideias do treinador Pete Carril (Princeton College).

A disposição inicial do ataque é com “4 around” (4 jogadores no perímetro e um jogador dentro), o que possibilita boas opções no jogo interior (“Single Post”). A circulação rápida da bola e o constante movimento dos jogadores que recorrem frequentemente ao corte agressiva nas costas (“Back Door” ) são a imagem de marca de Princeton . A posterior ocupação coerente dos espaços, a rotação dos jogadores exteriores e o uso dos bloqueios completam este modelo.

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O ataque Princeton tem por objectivo procurar ganhar vantagens a partir do PR /Pop Out no lado 2 a que se junta um “Staggered Screen ” e um “Triângulo” no lado 3. Executando o movimento de forma directa (“Motion Wing”) facilitamos a tarefa a quem defende.

Contudo se entramos no “False Motion” mantemos a defesa ocupada e fora das posições mais favoráveis para depois entramos no ataque Princeton, executando o movimento principal com sucesso no lado oposto ao inicial. 1 passa a 2 e corta para o lado contrário. 4 Roda no perímetro e ocupa a posição anterior de 1.

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3 Bloqueia para 1 e aclara para o canto contrário. 5 Muda de lado.

Assim com a mudança do lado da bola (“Revers Action”), inventada por Pete Newel, criamos problemas à defesa nos ajustes e damos inicio ao movimento principal . A bola voltou às mãos de 1 que joga “P.R.”/”P.Out “ do lado oposto com 5.

4 passa a 1 e faz “Staggered Screen” com 2 para libertar 3.

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3.GANHAR VANTAGENS A PARTIR DOS BLOQUEIOS
A vantagem ofensiva pode ser também conseguida com o recurso aos bloqueios. A regra não é nova e é simples: um primeiro bloqueio que funciona com manobra de diversão seguida do bloqueio principal onde temos vantagem a partir do erro defensivo. As combinações são múltiplas, vejamos alguns exemplos: 3.1.Bloqueio Directo +Bloqueio Indirecto A defesa dos bloqueios Indirectos (“Grandes/Pequenos”) faz parte das preocupações dos treinadores. A forma de defender esta acção vai depender evidentemente das características dos jogadores envolvidos no movimento. A coordenação entre os defesas envolvidos vai depender o sucesso dos mesmos. Com o objectivo de impedir a coordenação entre os defesas uma das estratégias passa por utilizar um bloqueio directo ( “False Play”) seguido da acção principal (Bloqueio indirecto), o que obriga o defesa do bloqueador 05 a defender uma acção prévia (“P.R.”) à acção principal (B.I.) 5 Bloqueia directo para 1 e na continuação bloqueia indirecto para 2. Obrigamos assim o defesa 05 a defender uma acção inicial de alto risco (“P.R.”) o que vai complicar em muito a tarefa da defesa do Bloqueio indirecto (52). É determinante que a acção de 1 seja agressiva (ataca o cesto) para comprometer o defesa 05 focandolhe a atenção na bola (1ª acção).

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3.2.Bloqueio Indirecto + Bloqueio Directo

Provavelmente a acção a que os treinadores dedicam mais tempo na defesa é o Bloqueio directo. Já lá vai o tempo em que a defesa do 1x1 era predominante. A maioria dos ataques inclui bloqueios directos centrais, laterais, com mais ou com menos atacantes do lado da bola. As equipas de qualidade estão preparadas para todas estas acções. A defesa está focada no portador da bola e tem um alto grau de automatização entre o defensor do portador da bola e o defensor do bloqueador, enquanto os restantes defensores estão preparados para ajudar e entrar nas rotações. Um bloqueio indirecto prévio, sobre o jogador que posteriormente bloqueará directo cria uma desvantagem inicial ao defesa o que provocará um desajuste defensivo na defesa do jogador com bola. O defesa do bloqueador (05) chega normalmente fora do tempo e complica a estratégia da defesa do bloqueio directo central. Suponhamos uma equipa que tem por estratégia defender o Bloqueio Central Directo com “Show and recoverd”. Se efectuarmos o movimento directamente , tal é possível de executar por parte de quem defende.

Se usarmos o “False Play” (Bloqueio indirecto 25) é mais difícil a tarefa do defesa 05. É fundamental que 2 estabeleça contacto com o defesa 05 de

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forma a atrasar a sua acção posterior. O bloqueado ( 5 ) deve esperar pelo bloqueio , para criar vantagem e evitar a falta ofensiva. 3.3.Bloqueio Directo + Bloqueio Directo Suponhamos agora que a defesa pretende opor-se ao bloqueio directo lateral com o recurso ao “Funel”/”Linha” (desviar para a linha ).

O bloqueador 5 deve modificar o ângulo de bloqueio (passa a vertical). 1 ataca 05 e obriga-o a focar a sua atenção na bola. 5 abre no perímetro e pode lançar da zona central ou optar por mudar o lado da bola e entrar no bloqueio directo com 2. O defesa 05 não tem assim tempo para manter a regra da defesa do bloqueio directo em “Linha”

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3.4.Bloqueio Indirecto + Bloqueio Indirecto

O defesa 04 é obrigado a ajudar na defesa do bloqueio indirecto Horizontal (43) cujo objectivo é libertar 3 perto do cesto. 1 bloqueia indirecto (14) a recuperação de 04 criando uma vantagem para 4 no perímetro ou obrigando a uma troca (01-04).

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4. “False Play” na final da NBA .

Quem seguiu com atenção e com “olhos” de treinador a Final 2013 da NBA encontrou no ataque tanto dos Spurs como de Miami a utilização deste conceito.

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Este ataque de San Antonio é um exemplo básico:

O base Tony Parker entra no ataque, passa a Manu Ginobil e corta .

Na continuação o poste Tim Duncan Bloqueia Indirecto para o base (Corte UCLA), obrigando o defesa do bloqueador (Chris Bosh) a entrar na acção inicial.

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Duncan na sequência bloqueia directo para o base Parker (acção principal).

O defesa 05 de Miami (Bosh) está agora envolvido na acção da defesa da acção principal (bloqueio directo - Pop Out) e vai libertar o seu atacante directo Duncan que lança sem oposição.

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5. “False Play” na LIGA ACB.

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A Final da Liga ACB foi renhida e bem disputada. E Real Madrid e Barcelona também aplicam de quando em vez o conceito. Na Liga espanhola tal como como na NBA muitas equipas continuam a usar o ataque “Hawks” .Vejamos um dos ataques do Real Madrid , que recorre a um bloqueio inicial indirecto em diagonal, seguido de um directo e de mais um indirecto :

O poste Begic (16) bloqueia indirecto para Caroll (20)

Begic (12) bloqueia directo para Llull (23) O defesa do bloqueador Tomic (44) envolvido na defesa do bloqueio inicial em diagonal fica longe da segunda acção (bloqueio directo).
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Na continuação Begic ( 16) bloqueia para Caroll (20) e mais uma vez Tomic anda perdido nas acções e não colabora na defesa do bloqueio indirecto.

Carrol (20) com vantagem em relação ao seu defensor directo Olenson (24), lança sem oposição.

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O “False Play” na LPB

A maioria das equipas que participaram no último campeonato tinham também no seu modelo de jogo ofensivo o False Play. A título de exemplo alguns “False Plays” elementares que utilizei esta época na LPB.

O Algés recorreu ao ataque Princeton (2.3) como movimento primário.

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7.1. “X Move + False play”

1 passa a 5 e corta sobre o bloqueio indirecto de 3. 2 corta sobre o bloqueio de 3. 1 e 2 ocupam posições nos blocos. 3 3 abre no perímetro e recebe de 5.

1 e 2 aproveitam os bloqueios indirectos de 4 e 5 e abrem no perímetro. O atacante 3 passa a 2e bloqueia lado contrário para 1 5 bloqueia indirecto horizontal para 4 (False play). 4 sai a bloquear directo 2 e jogam Pop Out. 5 ganha posição interior.

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7.2. “Flare Screen” 1 recebe bloqueio de 3 e passa junto ao bloqueador (ofensivo) para forçar a ajuda de 03 (“Help”). Ao mesmo tempo 5 bloqueia para 2 (“Flare screen”) criando opção para este receber e lançar .

7.3.”Two Post Cross” O popular ataque #Horns também não escapou à “moda”. Os atacantes 4 e 5 executam um bloqueio indirecto inicial antes de entrarem no Bloqueio directo.

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8.Conclusões Finais :
Faz sentido o uso do False Play quando a defesa coloca problemas complicados ao ataque. Na minha modesta opinião, o mesmo deixa de fazer sentido quando tal não acontece e a solução tradicional de ir logo para os bloqueios indirectos e indirectos é claramente mais eficaz. Já vi também usar o False Play contra defesa Zona. Confesso que não vejo vantagens… É frequente com a utilização do False Play que as equipas criem soluções pobres. Tomemos como exemplo uma das mais utilizadas no nosso basquetebol: Bloqueio Indirecto + Bloqueio directo. A bola fica demasiado tempo nas mãos do base que espera pelo bloqueio directo enquanto decorre a coreografia… O 1º bloqueio é falso, logo a defesa não defende também. Isto é o atacante que bloqueia e o que recebe o bloqueio não são ofensivos e não criam linhas de passe.

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Se é verdade que 05 vem na maioria das vezes atrasado e mal colocado, também é verdade que muitas vezes a zona pintada está congestionada e os jogadores do perímetro mal colocados o que dificulta a comunicação com o portador da bola que quase sempre opta pela acção individual. Ficamos com um movimento pobre sem passes, sem movimento da bola e com soluções pobres PR sem soluções complementares

É normal vermos muitos sistemas de ataque onde se abusa do drible para se chegar à opção final do bloqueio com 1 só passe ou nenhum. Os conceitos tácitos da Táctica Individual mal apreendidos transformam-se em erros de difícil solução. 8.1.Ganhar vantagem com a táctica individual. Já poucos se lembram do Coach Dean Smith (NC) que dizia : “Nós acreditamos que é necessário movimentar a defesa antes de entrarmos nas penetrações . A regra dos 3 passes faz sentido. Ficam 3 jogadores contentes porque tocaram na bola. Após cada 3 passes obrigatório passar dentro. A % lançamentos aumenta quantos mais passes fazemos.”

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Do mesmo modo outro mito da modalidade Boby Knight acrescentava: “O bloqueio é a acção ofensiva mais difícil de defender. Movimento da bola e dos jogadores, bons passes e bloqueios aumenta a possibilidade de criarmos bons lançamentos.”

Podemos também ganhar vantagens a partir da melhoria da técnica dos nossos jogadores e da melhoria da sua capacidade de leitura (táctica individual), mas isso dá trabalho…Quantos mais recursos técnicos têm os nossos jogadores mais opções e melhores decisões tomam. Ensinar os jogadores a conhecer o jogo de forma a que as acções individuais lhes permitam tomar a iniciativa, adaptando-se à acção do adversário, usando de forma inteligente a técnica e a criatividade. Para que sejam eficientes temos que lhes dar mais do que as ferramentas para jogar (técnica individual). Os jogadores têm de estar preparados para reconhecer o que está a defesa a fazer e atacar em conformidade. Do diálogo permanente entre a defesa e o ataque surge a natural evolução do jogo. Mas face aos múltiplos problemas colocados pela defesa o que fazer? Mudar as jogadas? Introduzir o false play? Substituir os jogadores? Trabalhar a táctica individual? Melhorar os fundamentos dos jogadores?

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Na minha opinião o essencial para por manter os conceitos do ataque e ajudar os jogadores a fazerem uma melhor leitura da defesa, procedendo aos ajustes necessários mas mantendo a estrutura inicial dos movimentos. Na revista o Treinador nº 37 (outubro de 1997) escrevi um artigo denominado “A evolução do ataque ao longo da época”, um artigo que continua actual. Aí mostrava claramente o meu ponto de vista relativamente ao tema. A leitura da defesa, a capacidade técnica, a velocidade de execução e a capacidade de adaptação a novas situações ditavam cada vez mais as leis no jogo. Em relação a isso nada do que afirmei se alterou, muito pelo contrário. Continuo assim a defender o método clássico de “ler a defesa e reagir em conformidade”. Se a defesa faz ( “What if de defense…” ) …o ataque responde com… Claro está que é mais complicado que a coreografia do “False Play”, já que implica conhecimentos por parte de quem ensina. Tomemos como exemplo básico o Bloqueio directo.  E se o defesa passa por cima do bloqueio ….

1 ataca o cesto em drible

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 E se o defesa 02 ajuda ….

1 passa para o canto e 2 lança (Kick out pass)

 E se o defesa passa por trás do bloqueio …

1 lança (“Pull up Jumper”)

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 E se a defesa troca …

Aproveitar o Mismatch interior ou exterior  E se a defesa faz Trap..

1 ajusta a trajectória drible (“String out”)

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3 linhas de passe Publiquei recentemente , 19 Junho 2013, no meu blogue http://coachmariosilva.blogspot.pt/ uma iniciativa ofensiva de Rudy Fernandes que mostra claramente que a técnica e a leitura de jogo podem criar vantagem de forma mais simples e eficaz.

O gesto técnico de Rudy Fernandez, num dos jogos finais do Play Off da Liga ACB, prova, mais uma vez, que é a técnica que resolve quase tudo no basquetebol...

Se nos dermos ao trabalho de estudar os DVD’s rapidamente concluímos que a maioria dos pontos obtidos pelas nossas equipas são provenientes de ressaltos ofensivos, lances livres concretizados, contra ataques e “booken plays”. Isto é, apenas 20% dos pontos são originários dos denominados set plays o que contrasta claramente com aquilo que fazemos no treino, onde 80% do tempo é passado a treinar as “jogadas” e apenas 20 % com os princípios elementares do jogo. Para quê então gastar tanto tempo com algo que nos dá tão fraca produção de pontos? Uma pergunta que considero mais do que pertinente.
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Devemos treinar os fundamentos e a táctica individual ou dar uma “ajuda “ (saltando as tais etapas com a táctica )? Ganhar vantagens a partir da Táctica e do False Play parece estar na moda. A coreografia é bonita e dá bem menos trabalho que ensinar os fundamentos básicos do jogo… E sem eles, sem os princípios do jogo, arriscamo-nos a condenar ainda mais o basquetebol português a anos de decadência, o que colocará em causa o futuro da modalidade. Penso ser da maior urgência combater uma das maiores mentiras no basquetebol – a de trocar a essência do jogo por variantes que só fazem sentido se incorporadas numa lógica de apologia dos fundamentos.

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