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A arquitectura ficou sozinha no seu castelo

21 de Maio de 2013 1 Comentários

Um dos arquitectos mais conhecidos e conceituados em Portugal também está a sofrer os efeitos da crise. Gonçalo Byrne que já teve 40 colaboradores no seu atelier tem agora apenas 10 e em entrevista ao Diário Imobiliário, assegura que não sabe o que irá acontecer até ao final do ano. Chegou a facturar três milhões de euros anuais em 2008 mas a partir de 2009 entrou em queda e nos últimos anos apresenta mesmo saldos negativos. Em tempos áureos chegou a ter cerca de 10 a 12 projectos por ano, agora a média é de dois a três e coisas pequenas. Nem mesmo a reabilitação é na sua opinião a salvação para a arquitectura, nem para o imobiliário.

Como vê o estado da arquitectura actual?
Estamos a viver um momento de muitas incertezas mas a visão de uma arquitectura espectacular tem de mudar. Não quer dizer que a arquitectura exótica, de espectáculo, de competição não vá continuar porque é o desejo de quase todos os arquitectos. Faz parte da nossa cultura mas esse tipo de arquitectura será cada vez mais para nichos. Contudo, há que estar receptivo a outros modelos. Há muito para reconsiderar na arquitectura, até no ensino.

O que deve mudar?
A primeira coisa que vai ter de se perder é a autonomia disciplinar da prática da arquitectura. O arquitecto vai ter de se mentalizar que não está sozinho na cidade, no edifício, na sociedade. Tem de ter uma atitude mais aberta e dialogante. Chegámos ao momento da saturação do arquitecto auto-centrado, ao edifício auto-referenciado, modelo de arquitectura voltado para si e para as suas obras. Não digo que este modelo vá acabar mas estão a surgir outros também estimulantes da própria discussão da disciplina. A arquitectura como prática afastou-se demasiado da vida das cidades, quase rejeitando-a porque considerava que era um problema de gestão de grandes interesses e a arquitectura era o último pólo de resistência. Acabou por ficar sozinha no seu castelo. Isto é um problema histórico, quando a arquitectura fraccionou-se do urbanismo. A arquitectura vai ter de aprender a dialogar mais, tem de se aperceber que existem outros temas onde tem de intervir, até na política da cidade. Outra área que

perante a situação actual. Em Itália já construí três. Desde os anos 60. dois em construção e ainda dois parados. os arquitectos também não estão e é preciso retomar o diálogo. Para muitos arquitectos darem a volta vai ser difícil. O discurso de estar a falar de arquitectura resvalou para a personagem quase como se tratasse de uma cotação bolsista dos autores e que estavam ao serviço de interesses. tem sido uma aposta no seu trabalho? Relativamente à internacionalização. Muitos estão a aproveitar para fazerem reciclagem em termos de formação. Esse lado fez uma coisa perversa porque a arquitectura ficou ao serviço de um discurso de interesses. Acredita que o estatuto de arquitecto 'estrela' prejudicou a visão da arquitectura? Siza por exemplo ajudou a tornar a arquitectura mediática e até foi positivo mas depois tem o lado negativo. Considera a que reabilitação pode ser uma saída para a arquitectura e o imobiliário? Estou pessimista até para a reabilitação. Mas também tem a ver com questões corporativas. já fiz alguns projectos. Angola também é complicado e Moçambique já é mais interessante e já tenho lá projectos. Quanto à internacionalização. A arquitectura é uma actividade que resulta num mundo de diálogo e se for bem-sucedida é muito enriquecedora. A reabilitação que está a actuar é para centros desertificados e são operações imobiliárias que serão feitas para nichos.tem estado ausente nos cursos de arquitectura é a gestão dos recursos. os urbanistas. elas existem mas neste momento estão fechadas. Também a reabilitação foi sempre considerada um parente pobre da arquitectura. A questão do espaço público é outro tema que raramente se fala em arquitectura. os historiadores não estão sós. o importante é que o projecto consiga atingir um objectivo e criar condições de vida estimulantes. mais de 80 a 90% da cidade está feita por outros ateliers de arquitectura. A migração para as cidades está estabilizada e a emigração abrandou. o reverso da medalha. Quais os projectos que mais lhe deu prazer realizar? . Mas é em Itália que gosto mais de trabalhar. Provavelmente tal como os engenheiros. a começar logo pelo reconhecimento do diploma. A eficiência energética deve também entrar no curso de arquitectura e estes são apenas alguns exemplos que devem fazer parte da formação e da especialidade da profissão. Contudo. Felizmente existem alguns ateliers que estão a entrar na reabilitação e estão a levar a construção com eles. Turismo Low Cost e pessoas de passagem não fazem crescer e desenvolver a cidade. 70 que a arquitectura rejeitou a relação com as técnicas da construção e o afastamento de outras áreas do sistema construtivo. Mais do que internacionalizar. Como deve o arquitecto encarar a nova situação profissional? Os arquitectos têm muita culpa pelo estado em que estão as coisas. Mas agora quando se faz a reabilitação é para a população que já lá não está. A ideia da reabilitação dos centros era evitar que a população saísse. Mas a parte mais difícil é que agora não há portas de abertura para nada. Tentei duas vezes em São Paulo no Brasil mas é muito difícil. Também não existe uma certeza no retorno ao mercado de arrendamento.

como no edifício do Museu. foram alguns que constituíram projectos emblemáticos no meu percurso. A Torre do Porto de Lisboa. o Museu Machado de Castro. O Teatro Tália. é um desafio.Gostei de todos mas claro que existem alguns pela sua especificidade e impacto foram importantes. trabalhar num edifício com mais de dois mil anos. o Banco de Portugal. .