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Também somos o chumbo das balas, por Eliane Brum Enviado por luisnassif, qua, 03/07/2013 - 18:00

Por MiriamL Da Época Também somos o chumbo das balas O Brasil não mudará em profundidade enquanto a classe média sentir mais os feridos da Paulista do que os mortos da Maré ELIANE BRUM Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista. Autora de um romance - Uma Duas (LeYa) - e de três livros de reportagem: Coluna Prestes – O avesso da lenda (Artes e Ofícios), A vida que ninguém vê (Arquipélago, Prêmio Jabuti 2007) e O olho da rua - uma repórter em busca da literatura da vida real (Globo). elianebrum@uol.com.br Twitter: @brumelianebrum

Você está na sala assistindo à TV. Ou está no restaurante, com seus amigos. Ou está voltando para casa depois de um dia de trabalho. Você ouve tiros, você ouve bombas, você ouve gritos. Você olha e vê a polícia militar ocupando o seu bairro, a sua rua. É difícil enxergar, por causa das bombas de gás lacrimogêneo, o que aumenta o seu medo. Logo, você está sem luz, porque a polícia atirou nos transformadores. O garçom que o atendia cai morto com uma bala na cabeça. O adolescente que você conhece desde pequeno cai morto. Um motorista está dirigindo a sua van e cai ferido por um tiro. Agora você está aterrorizado. Os gritos soam cada vez mais perto e você ouve a porta da casa do seu vizinho ser arrombada por policiais, que quebram tudo, gritam com ele e com sua família. Em seguida você vê os policiais saírem arrastando um saco preto. E sabe que é o seu vizinho dentro dele. Por quê? Você não pergunta o porquê, do contrário será o próximo a ser esculachado, a ter todos os seus bens, duramente conquistados com trabalho, destruídos. Se você está em casa, não pode sair. Se você está na rua, não pode entrar.

seria um “upgrade”. Você não faz nada porque não aconteceu com você. policiais ocuparam a favela. no Complexo da Maré. muitos daqueles que foram atingidos por balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo eram seus filhos. como se sabe e tem se provado a cada manifestação. houve um choque da classe média porque. porque nenhuma terá sido capaz de superar o fosso de uma sociedade desigual. Você não faz nada especialmente porque se sente a salvo. E. E muitos policiais devem ter se surpreendido com a reação da opinião . mas em todo o Brasil. Isso só acontece na favela. Um sargento do BOPE morreu e a vingança da polícia começou. porque sabe que não apenas não aconteceu. Com a justificativa de que pessoas se aproveitavam da manifestação que ocorria na Avenida Brasil – o nome sempre tão simbólico – para fazer arrastão. como não acontecerá com você. aqueles que trabalham para você em serviços mal remunerados. dessa vez. na segunda-feira passada (24/6). portanto. se esse algo ainda mais profundo não mudar. com os outros. Os brasileiros foram às ruas. tão profundo que levaremos muito tempo para compreender. Não aconteceu e não acontecerá no seu bairro. irmãos e amigos. A polícia fez.O que você faz? Nada. Balas de borracha. nenhuma outra mudança terá o peso de uma transformação. Mas algo de ainda mais profundo não mudou. Como era possível que isso acontecesse? Era possível porque a polícia militar – e não só a de São Paulo. entre eles “três moradores inocentes”. Quase com a mesma truculência. o que é ensinada e autorizada a fazer. o que está acostumada a fazer no dia a dia das periferias e favelas. Aconteceu na Nova Holanda. provocando uma ampliação dos movimentos de protesto não só em São Paulo. no Rio de Janeiro. A desigualdade que se perpetua no concreto da vida cotidiana começa e persiste na cabeça de cada um. Quando a polícia paulista reprimiu com violência os manifestantes de 13 de junho. atravessou a madrugada e boa parte da terça-feira. Saldo final: 10 mortos. porque algumas vozes se levantaram para lembrar que nas margens as balas são de chumbo. algo de profundo mudou nas últimas semanas. como foi dito em tom irônico. nas diversas cidades – agiu no centro com quase a mesma truculência com que cotidianamente age nas favelas e nas periferias.

pudessem ter suas casas invadidas. reconheceríamos os rostos dos que tombam e estaríamos lá. do contrário essa polícia não seguiria existindo e agindo impunemente. como sempre fazemos com as monstruosidades que nos envergonham. ainda que não confessado. O garçom que caiu morto com um tiro na cabeça é Eraldo Santos da Silva. mesmo que trabalhem dura e honestamente. seus bens destruídos e suas vidas extintas. E. limitadas às mesmas organizações de direitos humanos de sempre. Se justifica e legitima de várias maneiras – e também por aqueles que sentem menos a violência da Maré do que a da Paulista. E.pública. se justifica e legitima a violência da polícia. aterrorizados com a possibilidade de sermos os próximos a virar estatística. até então. No momento em que os mortos da Maré incomodam menos que os feridos da Paulista ou de outros lugares do Brasil. ainda que o massacre tenha tido repercussão. a começar pela diferença das balas. 35 anos. Sem precisar assumir que essa polícia existe como resultado de uma forma de ver a sociedade e se posicionar nela – uma forma que perpetua a desigualdade. vive-se como se os mais pobres. os que moram em favelas e periferias. dividindo o país entre aqueles que são cidadãos e têm direitos e aqueles que não têm nenhum direito porque. ela foi muito menor e menos abrangente do que quando a violência foi usada no centro de qualquer cidade. Quem estava no restaurante contou que os policiais do BOPE atiraram no transformador para o local ficar às escuras e então mudar a cena do crime. E perceber que essa polícia reflete pelo menos uma de suas faces. apesar de ela ser numa proporção muito maior. O garoto de 16 anos que foi . Se justifica e se legitima e se perpetua porque. mas claramente expressado. Por quê? Seriam os brasileiros da Maré ou de outras favelas menos brasileiros do que os outros? Seriam os humanos da Maré ou de outras periferias menos humanos do que os outros? Sangrariam e doeriam os moradores da Maré menos do que os outros? É preciso que a classe média se olhe no espelho. são criminalizados por serem pobres. em vez de balas de borracha. retirando as cápsulas do chão. especialmente no Rio de Janeiro. se existe mesmo o desejo real de mudança. as balas eram de chumbo. mas às vezes o óbvio é esquecido em nome da conveniência. já que agem dessa maneira há tanto tempo e as reclamações em geral ficavam. Em vez de feridos. houve mortos. É preciso que se olhe no espelho para encarar sua alma deformada. Parece óbvio. É fácil renegar a polícia militar como algo que não nos diz respeito. Se fosse você ou eu na Maré. E então veio a Maré.

A polícia disse que ele estava com uma arma na mão. dentro de um saco preto. às vezes nem vira conversa. de fato. Mas isso não acontece com você. que nesse caso foi assumida e amplificada por parte da imprensa. nem com seus filhos. ao afirmar que a polícia reconheceu a morte de “inocentes” na Maré. a ideia de que ao menos esses três não deveriam ter sido assassinados. de 41 anos. mesmo quando olhamos para uns e outros apenas pela TV? O que torna isso possível? É preciso parar e pensar. Engraxava sapatos e vendia biscoitos nos congestionamentos da Linha Vermelha para sobreviver. Por esse não sentir que não surpreende ninguém ao redor.assassinado se chama Jonatha Farias da Silva. justificando. mas por esse não sentir que se repete distraído no cotidiano. Foi levado ao hospital por moradores. ouviu seus gritos – “Me larga! Socorro!” – e o viu ser retirado de lá. ainda que não aconteça. Só depois uma ONG obteve a promessa de uma ambulância para buscá-lo. É cúmplice não apenas por omissão. como é possível sentirmos menos? Ou mesmo não sentir? Ou ainda viver como se isso fosse normal? Ou olhar distraidamente para a notícia no jornal e pensar: “mais uma chacina na favela”? Em que nos transformamos ao sentir menos a morte de uns do que a de outros. Mas. Nem comigo. Você ainda poderia ser a empregada doméstica que ouviu os policiais arrombarem a porta da casa do seu vizinho. São vários os discursos que se imiscuem na vida cotidiana e penetram em nossos corações e mentes. só morrem porque parte da sociedade brasileira sente menos a sua morte. mas várias pessoas que o conhecem desde criança afirmam ser impossível. que assim morrem. por mais que recusemos essa imagem no espelho. mas despachado para casa com a bala ainda alojada no glúteo. a dor de uns do que a de outros. Por oposição. Porque esses. cabe a pergunta: e os outros deveriam? . Essa polícia que mata nos reflete. A frase tem tom de denúncia. de que a polícia teria admitido que “três moradores mortos eram inocentes”. de que a vida dos mesmos de sempre vale menos do que a dos mesmos de sempre. Jonatha é descrito como um menino tímido e muito sozinho que perdeu a mãe de tuberculose aos 11 anos e vivia com um irmão mais velho num quarto de quatro metros quadrados. Um desses discursos é a afirmação. O motorista ferido quando dirigia a van alvejada por tiros é Cláudio Duarte Rodrigues. A declaração expressa. enquanto sonhava com ser mecânico. legitimando e perpetuando a ideia de que a vida de uns vale menos do que a de outros.

Em um artigo no site do Observatório de Favelas. então. “morreu ao resistir à prisão”. E parece ter sido fácil para a classe média aceitar que o “efeito colateral” é a morte dos filhos. com o aval de uma parte significativa da sociedade. parece um comentário “natural. A palavra “confronto” encobre forças desiguais – e o que tem sido chamado de “confronto” seguidamente não é o que diz ser. racional e equilibrado”. perto de manifestantes que praticavam ações violentas em frente à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Mas não seriam todos “inocentes”. dos pais e das mães dos pobres.Essa frase diz ainda mais: se “três são inocentes”. dos irmãos. Eliana Sousa Silva. Como se a polícia. Como afirma Eliana. os supostamente “bandidos”. ser mortos? É isso o que se diz nas entrelinhas. que é a aceitação da pena de morte de suspeitos. nem sequer os hediondos. como . faz uma análise da frase dita na TV pelo consultor de segurança pública Rodrigo Pimentel: “Fuzil deve ser utilizado em guerra. Nem mesmo se estranha que na favela pode. “troca de tiros” são algumas das expressões entranhadas nos nossos dias como se tudo explicassem. fora uma ou outra voz. como a dela. se atribui expressões como “efeito colateral”. aceita-se automaticamente e sem maior investigação que os demais seriam suspeitos de tráfico e outros crimes – e destes. até julgamento em contrário. Mesmo para a morte de “inocentes”. “traficantes”. o que ele está dizendo? Que na favela pode. a imagem de um policial militar atirando para o alto com uma metralhadora. quase nada ou nada é contado. em operações policiais em comunidades e favelas. Não é uma arma para se utilizar em área urbana”. não causa nenhuma surpresa. Ele criticava. executa suspeitos. que vale a pena ser lido (aqui). Como se isso fosse corriqueiro – e não monstruoso. A aceitação dessa quebra cotidiana da lei pelo Estado está presente na narrativa dos acontecimentos – e a imprensa tem um papel importante na reprodução desse discurso: “três deles eram inocentes”. portanto. Como se uma das forças em confronto não encarnasse o Estado e tivesse. E. os supostamente “não inocentes”. diretora da Redes da Maré e da Divisão de Integração Universidade Comunidade PR5/UFRJ. Mesmo em confrontos de fato trata-se o que é desigual como se fosse igual. mas. “vândalos” poderiam. fora as mesmas vozes dissonantes de sempre. em 18/6. também simbolicamente. “morreram em confronto”. de fato. dentro do ritual jurídico previsto pelo Estado de direito? Sem contar que a lei brasileira não prevê a pena de morte de julgados e condenados por crimes. nos protestos do centro não. Ou seja. Mas o Estado. É nesse ponto que se oculta algo ainda pior contido nesse discurso. de respeitar a lei e seguir parâmetros rígidos de conduta – e não igualar-se a quem supostamente está no outro lado.

Responsabilizamos o governador do Estado e o secretário de Segurança Pública pelas ações policiais nas favelas. depois.aconteceu na Maré. disposto a começar a curar sua abissal e histórica cisão. inclusive o sargento do BOPE. “Estado que mata. (Eliane Brum escreve às segundas-feiras) . de fato. com concentração na passarela 9 da Avenida Brasil. o verbo que precede a ação – ou a anula. A questão é que. tem de fato. Tem autorização porque uma parcela da sociedade primeiro criminaliza os pobres – e. Exigimos um pedido de desculpas pelo massacre e o compromisso com o fim das incursões policiais nas favelas cariocas. apenas. como sempre. diz a chamada na internet. naturaliza a sua morte. tivesse autorização para se vingar pela morte – lamentável – do sargento do BOPE. E o sargento do BOPE Ednelson Jerônimo dos Santos Silva. É por isso que a polícia faz o que faz – porque pode. entrando na favela e arrebentando. E pode porque permitimos. Sentir. sustentadas no uso do Caveirão e de armas de guerra”. Este ato poderá se tornar um momento de inflexão nos protestos que atravessam o país. ou acompanhados pelas mesmas organizações de direitos humanos de sempre – ou se o Brasil está. “Não é mais aceitável a política militarizada da operação do estado nos territórios populares. Saberemos então se os cidadãos das favelas estarão sozinhos. E tem porque a classe média sente menos a dor dos pobres. mas de parte considerável dessa mesma classe média que vai às ruas gritar pelo fim da corrupção. nunca mais!” é o chamado de um ato ecumênico marcado para as 15h desta terça-feira (2/7). é também uma vítima desse sistema avalizado por uma parte significativa da sociedade dita “de bem”. anunciada como “sem violência e pacífica”. como se esses locais fossem moradas de pessoas sem direitos. 42 anos. se a polícia não tem autorização de direito. esta de alma. pretende lembrar os 10 mortos de 24 e 25 de junho. A autorização não é dos suspeitos de sempre. A manifestação. pelos moradores da Maré. do que sofrer menos pelos mortos da Maré do que pelos feridos da Paulista? A autorização para a morte dos pobres é de cada um que sente mais as balas de borracha da Paulista do que as balas de chumbo da Maré. Mas haverá corrupção maior.