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Políticas públicas

A questão do uso e abuso de drogas no contexto da políticas sociais brasileiras
Delma P. O. Souza*

Da problemática Refletir sobre a questão do uso e abuso de drogas no contexto brasileiro ou sobre quaisquer questões relacionadas à problemática complexa, ampla e que ultrapassa as limitações dos diferentes campos científicos, os limites geográficos e políticos de um país, é concordar implicitamente, que o problema não vem ao longo de décadas sendo tratado com a devida seriedade. Prevalece ainda o sensacionalismo, o estigma, as deduções moralistas e as conseqüências penais. Em nosso país o poder público vem adotando e enfrentando o assunto sem vinculação com a estrutura social, econômica e cultural. É notório o fato de os órgãos oficiais trabalharem, na maioria das vezes, com informações sobre as substâncias psicoativas ignorando as
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Técnica-administrativa da UFMT/Mestranda da Área de Farmacologia do Curso de Mestrado e Doutorado em Saúde e Ambiente. Professora da Rede Estadual. Rev. Educ. Pública., Cuiabá, v. 5, n. 8, jul./dez. 1996. 115

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peculiaridade dos contextos regionais e implementando pacotes de cobertura preventiva e repressiva de outros países de realidade sociocultural diferenciada da realidade brasileira. As drogas sempre existiram na humanidade com diferentes finalidades de uso, porém o seu uso indevido nas sociedades ocidentais contemporâneas se explica através de dois momentos históricos: o fim do século XIX /início do século XX e o momento atual (décadas de 80 e 90). Ambos os períodos caracterizam-se pela alta intolerância da sociedade civil e do Estado no tocante ao abuso das drogas, o qual propiciou intervenções anti-drogas concretizadas nos movimentos de massa, ações legislativas, políticas e as campanhas dos meios de comunicação. O primeiro período de intolerância às drogas surge devido a mudanças fundamentais na sociedade; entre eles estão o processo de urbanização e industrialização, que possibilitaram a produção em série do álcool e do tabaco, como também o avanço da química orgânica e da tecnologia que viabilizaram as condições para que novos produtos fossem obtidos (heroína, morfina e cocaína), oportunizando aumento do consumo geral de drogas. A classificação das drogas lícitas (álcool, tabaco) e ilícitas (cocaína, maconha, LSD, heroína), associa-se à forte relação entre drogas, poder e dominação que envolve o Estado, as instituições e as relações político-econômicas, uma vez que, para Levine (1978), os processos sociais e históricos têm levado os movimentos anti-drogas a cumprirem nas sociedades urbano-industriais papéis de demarcarem fronteiras sociais, de consolidarem estereótipos étnicos e sexuais, de fortalecerem sentimentos de nação, classe, de legitimarem ações repressivas e de controle. No Brasil, para compreender o que acontece no fim do século XIX /início do século XX, Adiala (1985), num enfoque psicossocial, atribui a presença da droga às suas propriedades simbólicas, com efeito cultural devido a que as mesmas permitem a delimitação dos
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É nesse momento que as drogas aparecem como um problema público e contribuem para legitimar ações repressivas e de controle em relação às classes subalternas (negros e mulatos). a taxa de prevalência do consumo de drogas. dentre 225. As drogas tornam-se ameaça à qualidade racial do país devido levar ao crime. O estudo de Parreiras. as décadas de 60 e 70 marcaram em vários países. inclusive no Brasil. Os dados disponíveis no contexto mundial. Educ. Pública. 4. que as tentativas de discriminar e reprimir o uso de drogas encontraram pouco apelo social e legitimidade devido a não haver consistentes movimentos de massa contra os entorpecentes. citado por Morgado (1983). Acrescenta o autor que o uso de drogas. onde vários países vivem um segundo ciclo de intolerância que guarda semelhanças com o primeiro. (Cotrim 1992). uma vez que a realidade se organiza ao redor de certas normas. em relação às que às precederam. foi realizado através dos dados obtidos em 187 instituições. No século XX. à loucura.198 pacientes internados. indicam um aumento do consumo de drogas em muitos países. o cenário das drogas passa por um processo de mudança. nos últimos vinte anos.Políticas públicas domínios sociais precisos. Cuiabá. era relativamente baixa. v. um período de acentuado consumo de drogas em relação aos períodos anteriores.. junto a pacientes internados por Droga. 5. Há concordância na grande maioria dos estudos de concentrar o Rev. por dependência de álcool./dez. até à década de sessenta. n. 8. iniciado em fins do século XIX. passando a ameaçar a qualidade racial do país. que não o álcool.. como um problema público no Brasil. 1992). 1996. jul. à degeneração física e moral. remonta às últimas décadas do século XIX e se articula ao processo de controle da medicina por agentes especializados no tratamento de saúde como forma de combater as causas dos males do Brasil configurados no clima tropical e na miscigenação racial. (Cotrim. no fim da década de 70. Este estudo mostra que. Verifica-se nestas décadas (60 e 70). Os dados obtidos mostraram que.46 % eram pacientes de drogas e 93. 117 .9%. Porém.

jul. atingindo 16. havendo poucos dados disponíveis entre os adolescentes que estão fora do sistema escolar. conta-se com mais dois levantamentos realizados em 1989 e 1993 sobre o uso de drogas entre a população estudantil de 1º e 2º graus pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas . sendo as substâncias mais usadas em 1º lugar os solventes seguido pela maconha e a cola de sapateiro vem ganhando a preferência dos usuários como droga de início (Bortoletto.5% em 93 e o de anticolinérgicos. Os resultados mostraram que os solventes (loló. O percentual de usuários (pelo menos uma vez) de maconha subiu de 3.149 Estudantes. No Brasil./dez.2% em 93. O que não acontece com os meninos e meninas de rua. que comparados com os estudantes e com a literatura internacional.4% em 89 para 4. 8. n.CEBRID. Os resultados obtidos revelam um consumo de drogas significativo na população estudada. O primeiro levantamento. nas dez capitais brasileiras. somalíum) ocupam o 1º e 2º lugar seguidos das anfetaminas(moderex) e da Maconha. de Rev.7% em 89 para 1.1993 ). Atualmente. Educ. realizado no período de novembro de 1986 a julho de 1988. Cuiabá. lança-perfume) e os ansiolíticos (diazepan. foi desenvolvido por pesquisadores do Departamento de Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina. O primeiro levantamento sobre o uso de drogas por estudantes do I e II graus da rede estadual de ensino abrangeu dez capitais brasileiras. pesquisa realizada em três capitais. os quais demonstram que o número de escolares nos dois graus de ensino que usaram cocaína pelo menos uma vez na vida aumentou 0. v.Políticas públicas consumo de drogas entre os estudantes. Pública. porém o estudo mais abrangente já efetuado na população estudantil e de "meninos de rua". já existem vários trabalhos setorizados sobre o uso de drogas.. teve solicitação dos Ministérios da Saúde e da Justiça visando à obtenção de dados que permitam realizar um diagnóstico da extensão do problema para subsidiar os programas de prevenção e tratamento. constitui-se em sério grupo de risco. 118 . 5. 1996. porém não constitui um quadro alarmante.

segundo a pesquisa de 93. esse índice era de 3. Os três levantamentos realizados apontam para ascensão do consumo de drogas. como nos anos de 1987 e 1989. 8. 3.. a iniciação às drogas é muito precoce pois 14. Da população estudada verifica-se que entre os estudantes brasileiros.8% dos escolares que já haviam usado algum tipo de droga pelo menos uma vez contra 26. Pública.1% em 89. a função de evitar que sua juventude descrente das perspectivas de educação. quando se realizou o primeiro levantamento./dez. jul. O único grupo de fármacos em queda significativa é o dos barbitúricos (soníferos): de 2. Em se tratando da população dos meninos e meninas em situação de rua no ano de 1993. n. muitos jovens Rev. por outro lado.1% em 89 para 1. Educ. 119 . escolar e expulsas da escola não tem outro caminho senão delinqüir. um derivado da cocaína. O crack. Em relação aos solventes. Cuiabá.Políticas públicas 1.5% dos escolares na faixa etária dos 10 aos 12 anos já usaram algum psicotrópico. por aqueles com menos de 11 anos de idade. Observa-se que a queda do consumo entre os períodos compreendidos entre 89 e 93 é insignificante tendo em vista que os índices continuam superiores aos do ano de 87 (21. 5. trabalho caia nos perigosos estados de "desorientação e de ilegalidade". A tenra idade para o consumo de drogas é outro aspecto preocupante.0% são usuários freqüentes (mais de seis vezes por mês) de drogas. inclusive. estes continuam sendo as drogas mais conhecidas pelos estudantes. em 93 22. 1996. o consumo de droga continua freqüente. Em 89.5% e em 87. ou seja. É realidade que por falta de oportunidades de inserção no mercado regular de trabalho.1%). As drogas mais comuns continuam sendo os solventes e a maconha. de 2.4º. Para o Estado é um fato social preocupante dada a sua função de controle das políticas sociais. só foi apontado em São Paulo. Para Adorno (1992). segundo Offe.7%.0% (89) para 1. de estarem na escola. Por outro lado.3% em 93. em segundo lugar a maconha e os ansiolíticos. a maior parte das crianças e adolescentes desprovidos do amparo familiar. v.

E quando ele decide desenvolver ações. A conseqüência desta política é manifestada pela ansiedade do jovem da década de 90 com a educação de baixa qualidade ou mesmo pela indefinição de uma carreira profissional que o impulsiona muitas das vezes em buscar nas drogas a resolução de suas angústias e frustrações. Desde a década de 30 o Estado vem assumindo função ativa na regulamentação dos problemas sociais. v. jul. à semelhança do que vinha acorrendo no âmbito internacional. mas sim de uma política de produção e crescimento econômico pródigo para poucos e excludentes para a maioria da população. Da política Para refletir sobre a Política Nacional de Drogas não se pode excluir o papel das Políticas Sociais do Estado brasileiro. 120 . 8. Rev. geralmente. Educ. Assim. são setorizadas sem o enfrentamento da problemática na sua essência. veremos que até pouco tempo ele tem agido muito mais pela repressão do que pelo enfrentamento das causas que levam ao abuso de drogas. Pública. os dados epidemiológicos até então levantados retratam apenas as freqüências e tendências do uso das diversas substâncias consumidas pela população de estudantes e meninos e meninas de rua. Cuiabá./dez. 1996. 5. Assim a política desenvolvimentista implementada no país desde as últimas décadas não se preocupou com a criação de uma política de qualidade de vida do cidadão brasileiro e sua interação com o meio ambiente.Políticas públicas buscam nas drogas uma saída e. Na verdade. fazem do comércio do narcotráfico principal alternativa de sobrevivência.. uma vez dependente. Com a mudança da economia agroexportadora para a urbana-industrial o Estado brasileiro passou a interferir nas relações capital e trabalho. 0s motivos da busca da alteração psíquica do comportamento não pode estar dissociada das relações sociais estabelecidas entre o homem e a sociedade. n. estas. se analisarmos qual tem sido o real posicionamento do Estado brasileiro diante da toxicomania.

a droga sempre esteve presente. n. entre outras variáveis.969. regulamentado pelo Decreto 14. v. inspirado na Convenção Internacional de Haia de 1912. a Lei 6368/76 significou progresso em relação às legislações anteriores porém está agora a merecer reexame e correções.Políticas públicas As políticas sociais brasileiras. Educ. culminando com a Legislação anti-drogas em vigor sob a Lei 6368/76./dez. Fiscalização e Repressão de Entorpecentes. Cuiabá. Com as mudanças sócio-econômicas. criadas e institucionalizadas desde a década de 30. entretanto sua inclusão nos Planos Nacionais de Desenvolvimento de dá pela utilização de recursos indiretos pelo Estado. de 03/09/. vieram a ser incluídas no planejamento nacional a partir da década de 70. nas suas relações contraditórias com as reivindicações de bem-estar pela sociedade (Pereira. Pública. bem como os movimentos antidrogas a nível nacional.1988). penais foram sancionados. mas com forte influência externa. 1996. No entendimento de vários legisladores. registro. 8. 5. comércio. prescrição médica. internação judicial e voluntária de toxicômanos em sanatórios.. 121 . Dentre as contradições contidas na lei destaca-se o fato de a pena dada ao dependente e ao traficante ser a mesma. vários decretos de abrangências normativas. as primeiras ações sobre a toxicomania advêm do Decreto Legislativo nº 4294. Este aparato legal determina a criação de um Sistema Nacional de Prevenção. estar inerente nas tensões contraditórias de carências impostas pelo modelo sócio-econômico adotado. Na época de sua criação. Numa perspectiva jurídico-médica. políticas e culturais ocorridas no país. profissionais da saúde e educação é que os usuários de drogas não devem ser considerados vítimas inocentes. de 06 de julho de 1922. No processo histórico da humanidade. todavia somente deveriam responder pelos seus Rev. porém o seu uso abusivo nas sociedades contemporâneas sugere. revelando em importância os dispositivos sobre importação de entorpecentes. Antes não priorizava nenhum plano orgânico de correções dos desequilíbrios econômicos e sociais. jul.

O Conselho Federal de Entorpecentes . Na realidade. tolerado socialmente. em 10/04/92. n. v. jul. A vertente consumo tem.PND. por temer as penalidades contidas na Lei 6368/76. 8. Assim toda a questão está presentemente entregue a essa " visão simplista". o usuário de drogas ilícitas. 3º. cabendo ao legislador cuidar de ambas as vertentes./dez. a qual passa a constituir fonte oficial de referência para formulação de uma nova Política Nacional de Drogas . não pelo seu uso. 1996. ou não procura o auxílio da saúde ou sua entrada em hospitais se dá por alcoolismo (droga lícita). resultando que o problema da droga é compreendido nessa "política" como sendo sempre um "caso de polícia" ou de "doença mental". Cuiabá. 122 . com instituições governamentais. órgão normativo e coordenador da Política Nacional de Drogas .Políticas públicas crimes praticados.110 . no usuário com suas diferentes espécies. desenvolve suas diretrizes de ações com os Conselhos Estaduais de Entorpecentes CONENS. 4º de 10/09/80. o Rev. não-governamentais nacionais e estrangeiras. tendo dois eixos fundamentais : a oferta e o consumo. A esse sistema basicamente informado pela visão jurídico-penal está associada a perspectiva médico-psiquiátrica.. documento contendo diretrizes de uma Política Nacional de Drogas.em decorrência de determinações contidas no Decreto nº 85. vinculado ao Ministério da Justiça. o centro de suas atenções e a vertente oferta ocupa-se do tráfico ilícito e de todas as ações próprias à sua realização. como refere Carlini e cols. art. Educ. entre elas os Ministérios da Educação e Saúde. entretanto a matéria específica de cada uma exige a adoção de diferentes tratamentos. 5. O CONFEM elabora. Pública. cristalizada num sistema de "auto-referencial" que se reproduz ideológica e materialmante. Como também é polêmico afirmar-se que a legislação brasileira teria a finalidade de prevenir o uso de drogas e recuperar os dependentes. e I e art.CONFEM. É reconhecido pelo CONFEM que de fato o Brasil adota uma política de criminalização de certas drogas.

Rev. que assegure uma Política Nacional de Drogas compatível com a realidade do país e do homem nas suas múltiplas interações com o seu meio. O CONFEN./dez.Políticas públicas que não condiz com a lei em vigor que é penal apoiada pela óptica "psiquiatrizada". Numa retrospectiva no tempo. entretanto. na questão da prevenção. Impõe-se ao CONFEN desencadear junto com a sociedade civil a revisão da Lei 6. verifica-se que o Ministério da Educação e do Desporto vem implementando programas preventivos para o abuso de drogas. 5. dos quais é área onde a comunidade pode e deve participar. v. A implementação dos trabalhos de prevenção devem se dar em três níveis: primário (antecipar ao início da experiência). em arquivos pessoais e na memória de seus participantes. suas diretrizes sobre drogas. conta com várias frentes de atuação da sociedade. para implementar as diretrizes da Política Nacional de Droga. 8. encontrando-se dispersos nas bibliotecas públicas. 1996. porém as áreas de educação e da saúde como serviços essenciais da população e garantidos pela Constituição Brasileira. Pública. tendo por objetivo a centralidade da pessoa humana e ocupar de todas as drogas psicoativas lícitas e ilícitas pois faz parte da história do ser humano a sua relação com as mesmas no intuito de ampliar o seu campo de percepção ou de alterar o seu estado físico ou psíquico. VII da Constituição do Brasil. propõe-se programas de prevenção. Educ. segundo COTRIM (1992). n. as experiências dos programas oficiais de educação nunca foram sistematizadas. Cuiabá. de 21/10//76. secundária (atalhar problemas decorrentes do uso de drogas) e terciária (promover a inserção da pessoa na atividades sociais). mais especificamente. em consonância com as do Conselho. No tocante à Legislação reconhece-se que a política de incriminação ao uso de drogas é inútil. & 3º.. jul. 227. 123 . elaboraram.368. a lei em vigor e os projetos em andamento contrariam os programas de prevenção de abrangência integral bem como o Art. Em relação às duas vertentes.

objetivou esclarecer estudantes secundaristas sobre os mecanismos de ação das drogas psicotrópicas através de palestras proferidas por equipes de estudantes de medicina. O programa é fruto de um momento de transição devido às prerrogativas da Lei 6368/76. que só foram instituídos legalmente em 1980 através do decreto 65. O insucesso do programa se deu devido à que sua criação foi muito mais uma resposta a determinadas pressões sociais do que propriamente uma proposta de trabalho. Educ. 1996. 124 . Cuiabá.Políticas públicas O primeiro programa oficial de abrangência nacional. intitulado Programa Educacional sobre Tóxicos. jul. 5. Fundação Cenafor e da Escola Paulista de Medicina. por motivo de as metas estarem incompatíveis com os recursos humanos disponíveis e pela distância com a realidade. v. 8. O programa em questão não foi implementado. os programas de educação sobre drogas ficam delimitados aos próprios currículos de ciências e os professores passaram a ser agentes desta prevenção. Acredita-se que as dificuldades sentidas pela esfera federal não foram menores do que as encontradas pelas estaduais e/ou municipais. Com esta lei. O programa termina no ano de 76. com a aprovação da nova lei de entorpecentes do país (Lei 6368/76). às Secretarias Estaduais de Educação para análise e adaptações necessárias ao atendimento das peculariedades de cada região. sob a responsabilidade do Ministério da Educação e Cultura.. implementado no período de 1972 a 1975. Pública. n. surge o Programa Educativo de Prevenção ao Uso de Tóxicos para Estudantes de 1º e 2º graus sob a responsabilidade do Ministério da Saúde e do Conselho Federal de Educação. treinados e supervisionados por docente./dez. da criação de um Sistema Nacional e o CONFEN.110/80. No ano 1979. e remetido à Secretaria de1° e 2° graus do MEC. Adotou-se o método de transmissão de informações com base científica. tornou-se Parecer do Conselho Federal de Educação (CFE 1681/79). as quais propiciaram o surgimento do Programa Nacional Rev.

PREVIDA. Educação e Vida . para que se possa. cujo principais diretrizes consistem em: . Ceará. no Município ou nas escolas. com os Centros Regionais de Referência existentes e a serem criados. 1996. Mais recentemente./dez.as ações de educação preventiva devem desenvolver-se em estreita cooperação com as universidades. 5. o Ministério da Educação realizou reunião técnica de prevenção de drogas a qual foram convocados nove Estados (Bahia. Cuiabá. 125 . Minas Gerais. . sendo incorporado ao Ministério da Educação no período de 1985 à 1988. das freqüências de uso. n. muitas vezes empreendidas para preencher o vazio institucional. seja no Estado. com as instituições que já envidam esforços na área e com os centros de tratamento. planejar intervenções adequadas e que coadunem com os princípios pautados. Rio de Janeiro. . personalizadores e holísticos. jul.Políticas públicas de Prevenção. sendo que sua responsabilidade constitucional deve ser assumida pelas autoridades.que as ações pedagógicas devem ser inseridas num contexto social amplo e serem sistemáticas e contínuas. dos tipos de drogas e usuários. no período de 25 à 27 de março de 1992. como um programa não-governamental. a serem garantidos pelos responsáveis a nível de MEC e dos órgãos estaduais. Pública. Paraíba. 8. Educ. Pará. . democráticos. Santa Catarina e São Paulo) para estabelecerem diretrizes para um Programa Nacional de Educação Preventiva na área de drogas. v. e devem incentivar a cooperação dos alunos e a integração participativa com toda a comunidade escolar. Mato Grosso do Sul.que a implantação do programa deve ser percebida pelo mapeamento diagnóstico da situação das drogas. em oposição a ações isoladas e iniciativas particulares ou momentâneas. a partir da avaliação da situação real do consumo. tanto para Rev..os programas de educação preventiva a serem implantados devem basear-se em princípios científicos. em 1982. cabendo ao Ministério decidir quanto à política de implementação a ser proposta aos Estados.

/dez.deve-se procurar interações intersetoriais permanentes. jul. em referência às drogas.. na elaboração do Programa de Prevenção ao Uso de Tóxicos para Estudantes de 1º e 2º graus em 1979. v. . com o apoio do CONFEM e a cooperação dos órgãos respectivos das Nações Unidas. que descriminaliza o dependente de droga perante a lei. Educ. através do Conselho Federal de Educação (COTRIM. para garantir a permanência e integração dos programas a serem implantados. . Rev. realizada no período de 1 a 4/12/92.Políticas públicas assegurar retaguarda para o encaminhamento de usuários como para alimentar a reflexão multi-disciplinar e participativa sobre os conteúdos dessas ações. prioritariamente desenvolvidas pelo Ministério da Saúde. 8. em particular entre o MEC e o Ministério da Saúde. 1996. 126 . traçou-se as seguintes diretrizes: .assegurar que seja discriminalizado o usuário e dependente de drogas.1992).garantir o acesso e a permanência nas escolas. . não cabendo procedimentos penais. através de sua Divisão de Educação em Saúde. ficando a participação do MEC restrita a emitir um parecer sobre a documentação já concluída. dos usuários e/ou dependentes de substâncias psicoativas. O financiamento destas campanhas poderia ter como fonte de recursos os impostos arrecadados decorrentes da produção e comercialização de bebidas alcoólicas. de todos os níveis. Cuiabá. mas sim encaminhamento para assistência à saúde. Foi ele que teve a iniciativa de articulação com o Ministério da Educação.apoiar a proposta do CONFEN. Pública. -promover campanhas de saúde pública para combater o alcoolismo. 5. n. Na II Conferência Nacional de Saúde Mental. A participação do Ministério da Saúde na questão do uso abusivo de drogas tem sido significativa.

Políticas públicas . n. v. .criar programas específicos para o tratamento de alcoolistas e demais dependentes químicos. 127 . O que tem existido ao longo dos períodos históricos da sociedade brasileira é a força do cumprimento do Decretos Leis no ângulo meramente repressivo.modificar o art. Existem propostas que precisam ser implementadas e devidamente avaliadas. Pública./dez. tabaco. numa configuração jurídico-médica. 1996. . visando a contemplar o seu tratamento e reabilitação.buscar que também sejam reconhecidas as drogas ditas lícitas como causa de adoecimento psíquico (álcool. a serem prestados por equipes capacitadas. Educ. 5. dado o seu caráter compensatório e muitas vezes experimental com participação de profissionais não qualificados para tal questão. econômicas e sociais do país. Considerações finais A conclusão a que se pode chegar a respeito da Política Nacional de Drogas no Brasil vinculada às Políticas Sociais é que ela não existe de fato. Assim as propostas oficiais voltadas para a questão do abuso de drogas tanto à nível do Ministério da Justiça como da Saúde e da Educação requerem integração e consolidação nas suas especificidades. Eles não conseguiram ir além do que distribuir contingências sociais. tendo o homem na sua totalidade sem perder de vista as diferenciações culturais. Rev. 16 do Código Penal referente ao alcoolista e drogadito. tanto no nível ambulatorial quanto nas unidades de internação. Cuiabá. não cumprindo com as finalidades maiores e mais amplas na diminuição do uso abusivo de drogas. não atingindo a todos. Os programas preventivos surgiram recentemente (década de 70) sob forma de compensação seletiva. para que as metas traçadas não sofram descontinuidades. tranqüilizante e outros). jul. 8. constituídas por profissionais de nível superior e por agentes de saúde. mantendo as penalidades ao traficante..

jul. Baratta (1991) reconhece que as investigações científicas têm demonstrado a existência de outros efeitos como o da sua criminalização no que tange não só ao drogadito. mas ao restante da sociedade. . não queremos negar méritos às instituições que planejam e executam as Políticas Sociais no que se refere ao uso indevido de drogas. entre outras. a temática drogas no governo do Estado de São Paulo já não é um problema só da esfera da saúde. Rev. Se tomarmos o homem como referência. v. Pública. da falta de controle de qualidade das substâncias. saúde e da justiça. requerem uma visão holística. mas se tivermos o sistema como centro de referência./dez. a criminalização favorece a alta de preço da substância. . 8. as conseqüências advindas da natureza farmacológica das drogas.. A nível nacional. no sentido de que os efeitos mais graves advêm: . bem como desencadear a delinqüência entre os jovens levando-os a cometerem delitos para satisfazer às necessidades decorrentes de sua dependência. 5. Com estas considerações. Segundo Paschoa. não nos resta dúvida de que a atual política vem atuando segundo a racionalidade desse sistema com êxito.Políticas públicas Assim. a saúde psíquica do consumidor. 1996. da educação. deve-se falar em fracasso. conferindo poder econômico aos traficantes da droga. pois a acumulação de capital é uma regra de ouro na reprodução do sistema sendo a economia das drogas parte integrante do mecanismo ilegal da acumulação. o autor reafirma sua visão de que não parece correto falar do fracasso da política sobre drogas. aliada a uma vontade política do Estado em viabilizá-las. Cuiabá. n. Outros sistemas de controle (terapêuticoassistencial). a criminalização tem determinado condições que contradizem aos métodos modernos do ponto de vista científico. 128 . danos à saúde do dependente. da falta que o sistema penal revelou-se ineficiente ao controle da droga ilícita. Com isto.. do aspecto econômico. percebe-se que as ações requerem melhor integração nas áreas de educação. Educ.

Referências bibliográficas ADIALA. Rio de Janeiro. 1996. Cuiabá.. os quais devem ser enfrentados na arena política. Por fim. o Conselho Estadual de Entorpecentes e os vários Conselhos Municipais. envolvendo as várias Secretarias de Estado. Cabe sua implementação pelo Estado e pela Sociedade. Fundação Casa Rui Barbosa. v. 1985. é fundamental voltar-se para as questões socio-culturais do país. as diretrizes traçadas recentemente de uma Política Nacional de Drogas sugere-se estarem pautadas nos princípios fundamentais da democracia. J. uma vez que a grande maioria dos modelos já adotados se basearam em preconceitos.. É tratado como um programa intersetorial. o problema é o seu uso indevido. Rev. técnicos. A. Cremos que algumas desmistificações podem ser arroladas. políticos. jul. soluções advindas de outras realidades. sendo de suma importância ao planejador das políticas sociais ter claros os objetivos que procura atingir./dez. n. até com a preocupação de sua adequação às peculiaridades e à realidade sócio-cultural da população.Políticas públicas da segurança. C. Pública. a comunidade científica e sociedade civil. a falta de conhecimentos sobre os seus efeitos e a importância que ele vem significar na vida do homem frente aos seus problemas da esfera social. c) garantir a implantação e continuidade das propostas a nível nacional em ação conjunta com todos os órgãos responsáveis pelas políticas sociais. 5. Criminalização dos Entropecentes. mas sim do governo como um todo. b) não esquecer nos programas preventivos que o homem é o fim e não o meio. tendo em vista o repensar crítico das ações preventivas inerentes às políticas sociais traçadas pelo Estado: a) o uso de drogas na sociedade nunca será erradicado. 8. 129 . Educ. faz parte da cultura do homem.

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realizada em 1931.Políticas públicas O público e o privado na educação brasileira: o processo de elaboração da nova LDB. 8. Educ. quando os distintos grupos lutam para que suas idéias se façam presentes no texto Constitucional. Os temas "sobre o ensino religioso (ER) e sobre o papel do Estado na fixação do Plano Nacional de Educação (PNE) foram os mais discutidos. 132 . cujos marcos estão colocados a partir dos anos 20. v. promovidas pela Associação Brasileira de Educação (ABE). Rev. Cuiabá. e católicos. Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. 1996. n./dez. De igual forma o foram a * Professora do Departamento de Educação. os liberais vêm a público expor as suas idéias através do "Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova" (1932). Pública. As Conferências Nacionais de Educação. tendo como redator Fernando de Azevedo.. A disputa entre liberais e católicos (reunidos na Liga Eleitoral Católica-LEC) acentua-se em torno da Constituição de 1934. Regina Tereza Cestari de Oliveira* A história da educação brasileira é permeada pelo conflito ideológico entre o público e o privado. Centro Universitário de Corumbá. Após a IV Conferência Nacional de Educação. que defendem o ensino público a cargo do Estado. que defendem a liberdade de ensino. jul. são palco do embate entre pioneiros da escola nova. 5.

Cuiabá. 1996. argumentando "que estes propugnam por uma educação materialista e atéia. abrangendo uma parcela maior da população. pela escola privada.. Alguns indicadores mostra-nos a extensão do empreendimento privado na educação: a investida do setor empresarial no ensino superior. Embora ocorra o crescimento quantitativo de escolas públicas. 1991:10). exclusivamente nas mãos do Estado. a ocupação privilegiada dos representantes das escolas particulares tanto no Conselho Federal como nos Conselhos Estaduais de Educação. entre outros ( ADORNO. os representantes católicos e os donos de escolas particulares. aglutinando forças e grupos de pressão sobre o Congresso Nacional. a política de distribuição de verbas que penaliza o ensino público. está o Fórum de Educação na Constituinte em Defesa do Ensino Público e Rev. Esse embate acirra-se. que. 8. Pública. novamente. 5. n. Ao final prevalecem os interesses da iniciativa particular. 1979: 79-81). dirigem ataques aos defensores da escola pública. Educ. Após 1964. atrelando a escolarização de amplas camadas da população à lógica do mercado./dez. a livre iniciativa nas escolas particulares" (CURY. por seu lado. uma política privatista se estabelece. 1988: 115). de certa forma. para depois introduzir no país um regime totalitário" (BUFFA. jul. e. Com o Estado Novo (1937-1945) o embate entre o ensino público e o ensino particular é. v. De um lado.Políticas públicas questão da gratuidade. o Estado ditatorial redefine a política educacional visando adequá-la ao novo panorama econômico e político. Na luta pela escola pública reuniram-se educadores liberais (idealistas e pragmatistas) e os de tendência socialista. a partir de 1948 com a prolongada tramitação do Projeto de Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). da 'colaboração recíproca' entre igreja e Estado. O conflito entre o ensino público e o ensino particular volta à tona na elaboração da Constituição de 1988. silenciado. a insistência em uma formação técnica e profissional. 133 .

Educ. e. por sua vez. n. além de serem destinados para o ensino público. "comprovem finalidade não lucrativa e apliquem seus excedentes financeiros em educação". bem como autorização e avaliação da qualidade feitas pelo Poder Público. será efetivado através da garantia de alguns dispositivos como: o ensino fundamental obrigatório e gratuito. podem ser dirigidos às escolas comunitárias. O ensino é "livre à iniciativa privada" desde que sejam atendidas as seguintes condições: cumprimento das normas gerais da educação nacional.. v. estão os atuais privatistas divididos em correntes que expressam interesses distintos: a corrente confessional. que defende a não interferência do Estado nas escolas privadas. 1996. que defende verbas públicas para as escolas particulares sem fins lucrativos. Rev. composto de 15 entidades representativas da sociedade civil./dez. a obrigatoriedade e gratuidade do ensino como direito público e subjetivo (Art. reunida em torno da Associação Brasileira de Escolas Superiores (ABESC) e da Associação de Educação Católica (AEC). e "assegurem a destinação de seu patrimônio à outra escola comunitária. jul. 5. 208. a extensão progressiva da obrigatoriedade e gratuidade ao ensino médio. O "dever do Estado" com a educação. que defende o destino de verbas públicas exclusivamente para o ensino público. O texto Constitucional mantém o direito da iniciativa privada investir em educação ao estabelecer como um dos princípios do ensino a "coexistência de instituições públicas e privadas" (Art. estabelece uma proposta conciliadora ao admitir que os recursos públicos. 8. I e II). 134 . 209. De outro. 206. IV). Porém. II e § 1º). Pública. (Art. 206. confessionais ou filantrópicas que. estabelece que "a educação é direito de todos e dever do Estado e da família" (Art. III). 205) e garante a "gratuidade do ensino em estabelecimentos oficiais" (Art.Políticas públicas Gratuito. Cuiabá. A Constituição promulgada em 5 de outubro de 1988. filantrópica ou confessional. a corrente ligada aos "empresários da educação" reunida em torno da Federação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino (FENEM). I.

(Art. em dezembro do mesmo ano (48ª legislatura: a “legislatura da Constituinte"). no caso de encerramento de suas atividades". v. 5. n. diferenciando. que coloca a exigência de uma nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. à Comissão de Educação da Câmara dos Deputados. com o projeto da Nova LDB encaminhado pelo deputado Octávio Elísio. Trata-se de uma formulação inédita que implica na aceitação de uma escola privada na qual a atividade educacional é utilizada como uma opção lucrativa (CURY. 1987: 146). jul. na medida em que desfigura o projeto original. o setor privado em escolas particulares lucrativas e aquelas sem fins lucrativos (comunitárias. Educ. 213. E no que se refere às Leis 5. portanto. Posteriormente são anexados a ele sete projetos de parlamentares com a mesma amplitude e mais dezoito que tratam de problemas educacionais específicos. No caso da Lei 4. 8. Com isso. filantrópicas e confessionais).Políticas públicas ou ao Poder Público. Pública.258/88)./dez.024/61 (Lei de Diretrizez e Bases da Educação Nacional). O fato é que. explicitamente. a Constituição estabelece dois gêneros de escolas: as públicas e as privadas. A Nova LDB. enviados ao Legislativo. na medida em que garante e aperfeiçoa a orientação impressa aos projetos originais ( Cf.. Após a promulgação da Constituição de 1988 e atendendo ao dispositivo do texto Constitucional. o deputado Octávio Elísio (PSDB/MG) encaminha o projeto de LDB (Projeto nº 1. de sua autoria . 135 . Cuiabá. pela primeira vez na história da educação brasileira um projeto é de iniciativa parlamentar.540/68 (Lei da Reforma Universitária) e 5. SAVIANI. ao contrário das leis de ensino anteriores que tiveram origem em projetos oriundos do Poder Executivo. 1992: 76). 1996. o Congresso Nacional desempenha a função de deformação.692/71 (que fixa diretrizes e bases para o ensino de 1º e 2º graus) a função de preservação. tem sua origem no âmbito do Poder Legislativo. I e II). Rev.

Pública. O fato é que o capitalismo. da Universidade de Brasília. com a colaboração do Professor Jacques Velloso. 5. Registra-se um período de grande efervescência expressa pela liberdade de imprensa. nos anos 80 . O contexto brasileiro. com o esboço de um texto legal. embora a maioria não usufruisse dos resultados do progresso econômico. pela reorganização partidária.um início de conversa". está marcado por uma grande crise do ponto de vista econômico e social (a inflação. 1995: 25). pelas eleições. a corrupção. multiplicação dos movimentos sociais urbanos e do campo).. O processo de dilapidação do Estado brasileiro. A falência econômica é atribuída em grande parte a um Estado em crise. buscando o retorno à democracia. também. também. o esgotamento da dívida interna e externa. paradoxal e contraditoriamente. a fome e a miséria). Educ. a sociedade civil mostra um grande vigor. de crescimento da organização política dos educadores (CBEs. os desmandos governamentais. Em termos da ampliação da crise econômica e do agravamento dos problemas sociais. A crise econômica que o país vive não se caracteriza como uma crise local. denominada "Contribuição à elaboração da Nova LDB . a recessão que gera o desemprego. hoje. jul. ANDES. 1996./dez. Em termos políticos. enfim.Políticas públicas O projeto inicial é baseado em contribuição elaborada pelo professor Dermeval Saviani. Em termos educacionais é um período. 8. n. encaminhada à XI Reunião Anual da ANPED. começa com a ditadura e prossegue sem interrupções no governo "democrático" de José Sarney (OLIVEIRA. A problemática do Estado brasileiro não é original. v. A economia que vinha se desempenhando no sentido crescente. ANPED). 136 . a década de 1980 é definida como "década perdida". O projeto conta. Cuiabá. está experimentando uma Rev. pelo fortalecimento e aparecimento de novos sujeitos sociais ( criação das três grandes centrais sindicais. diminui acentuadamente o seu nível de crescimento ao longo da década de 80. realizada em Porto Alegre em abril de 1988. no capítulo referente aos recursos financeiros.

passam a se constituir no modelo para os países latino-americanos. em seguida. as políticas adotadas pelos governos Thatcher e Reagan. em função de motivos econômicos e sociais.1988:10). 5. 137 . para abranger toda a concepção Keynesiana de intervenção pública na economia. moderna. do seu papel e de suas funções) é o ponto central da ideologia neoliberal. a "crise do padrão de financiamento público" do Estado Providência. 8. como o capitalismo jamais havia produzido no passado" (ANDERSON./dez. "Nem se deve imaginar que o capital dos EUA seja menos afetado por ela que o da Grã Bretanha e da Europa " (MÉSZAROS. 1983:88). em escala verdadeiramente mundial. ampliando-se. A postura neo-liberal chega nesses países de forma Rev. como afirma Oliveira. Isso significa que a redução do Estado (do seu tamanho. ganha força a tendência. 1986: 160). jul. que denuncia o caráter intervencionista do Estado. A esse respeito Perry Anderson afirma: " Tudo o que podemos dizer é que este é um movimento ideológico. As alternativas em jogo favorecem a emergência de um novo discurso burguês. do Estado mínimo. Os princípios básicos da concepção neo-liberal são da liberdade e da primazia do mercado sobre o Estado. Pública. Ou melhor.. do individual sobre o coletivo e. Cuiabá. 1996. Instala-se a "crise do Estado" ou a "crise do Estado providência". de rever o papel do Estado e redimensioná-lo. Esse quadro faz emergir os estudos que enfatizam os obstáculos ao prosseguimento e à ampliação do intervencionismo do Estado. Crescem os debates em torno das alternativas: estatização ou privatização. responsável pelo déficit público nos países industrializados (OLIVEIRA. Assim. denominado neo-liberal. derivadamente. A crítica mais acentuada dos neo-liberais ao Estado tem como ponto de partida o ataque ao Estado de Bem-Estar Social (Welfare State). aquele que não intervém no livre jogo dos agentes econômicos (DRAIBE. Nessa conjuntura. 1995: 22). principalmente nos países do primeiro mundo. contra o Estado máximo advoga-se o Estado mínimo. Educ. v. ou seja.Políticas públicas profunda crise. n. Nesse momento.

na Costa Rica de 28% a 16% (VILAS. O Congresso. " todo o esforço foi feito no sentido de não se deixar de consultar nenhuma entidade ou órgão de âmbito nacional. agora. 1996. 138 . O confronto entre o ensino público e o ensino privado não só permanece como se aprofunda no processo de elaboração da Nova LDB que ocorre em três etapas. A primeira começa em março de 1989. deputado Ubiratan Aguiar (PMDB/CE) institui um Grupo de Trabalho. Educ. Nos meses de abril. em que a Nova LDB é elaborada. com desafios cruciais a serem enfrentados pela nossa sociedade. Algumas dessas entidades apresentam propostas completas de Lei de Diretrizes e Bases. no Brasil de mais de 8% a menos de 5%. Podemos exemplificar. Cuiabá. 5./dez. Pública. De acordo com o relator. que adota como procedimento a consulta à sociedade civil organizada. quando o presidente da Comissão de Educação da Câmara Federal. estabelecendo novos laços de dependência dos países periféricos em relação aos países de capitalismo avançado. ou seja. visando o encaminhamento de propostas para a sua elaboracão. Rev. 1991: 110).. O Congresso que recebe o projeto não é mais representado pelo bipartidarismo. n. v. 8. os gastos governamentais com educação diminuiram na Argentina de quase 20% do PIB a menos de 7%. maio e junho de 1989. Assim. são ouvidos em audiências cerca de 40 representantes de entidades e dirigentes de órgãos ligados à educacão. acentua-se a tendência de diminuição dos gastos públicos públicos na América Latina. sistema partidário criado pela ditadura. é o contexto de uma nova realidade internacional e de uma nova correlação de forças internas.Políticas públicas a atender às exigências das instituições financeiras (FMI. etc). BID. é representado pelo pluripartidarismo. o deputado Átila Lyra (PFL/PI) coordenador adjunto e o deputado Jorge Hage (PSDB/BA) relator. jul. com dados do Banco Mundial (1990) mostrando que entre o início da década de 70 e final da década de 80. O que procuramos enfatizar. expressando interesses econômicos e sociais distintos. formado pelo deputado Florestan Fernandes (PT/SP) coordenador.

não mais com entidades. Pública. questões polêmicas como educacão e trabalho. Apesar da ação das forças privatistas. tendo início a terceira etapa do processo: discussão e votação pelos membros da Comissão. 1990). O relator apresenta a primeira versão de seu substitutivo. 8. Em março de 1990. entre outras. mas sim com educadores. com 206 capítulos. Rev. v. em dezembro de 1989. com uma nova série de audiências públicas. "teve início um dos mais profícuos e eficientes processos de negociação e construção coletiva de um projeto de que se tem notícia na casa" (HAGE.100 destaques (pontos de divergência) apresentados pelos parlamentares sobre 531 emendas rejeitadas. com cerca de 1. 5. 139 . fundamental e média).Políticas públicas representativo de qualquer segmento relevante da educacão (HAGE. dessa vez. Nessa etapa. Amplia-se esse dever para com o ensino médio e institui-se a educação básica e unitária (incluindo a educação infantil. ou mesmo sobre o texto da proposta. 1989: 2). ensino superior../dez. mantendo as linhas gerais do primeiro. No segundo semestre de 1989. educacão infantil. bem como contidas nos projetos a ele anexados. jul. com a reabertura das atividades legislativas e com a Comissão de Educação recomposta e sob a presidência do deputado Carlos Sant'Anna (PMDB/BA) e coordenação do deputado Bezerra de Mello (PMDB/CE) é retomada a tramitação da Nova LDB. nas palavras do relator. em agosto de 1989. Cuiabá. Educ. tem início a segunda etapa do processo. especialistas e pesquisadores convidados para debater em simpósios temáticos. com 181 capítulos. o dever do Estado para com a educação constitui-se no eixo principal do substitutivo. reunindo idéias contidas no projeto do deputado Octavio Elisio. sistemas de administração da educação. financiamento. 1996. n. de suas emendas encaminhadas através de ofícios durante o período das audiências . Com base nas contribuições recebidas o relator apresenta. a segunda versão do seu substitutivo.

em sua terceira versão. 140 . possibilitando uma transparência no desenrolar das negociações sobre temas decisivos " (FERNANDES. 1990) O processo de "conciliação aberta" é interrompido a partir da tramitação do projeto de LDB na Comissão de Finanças. caracteriza-se pelo seu avanço. Finalmente. suas propostas. em favor das posições mais conservadoras e sem maiores compromissos com as idéias fulcrais do substitutivo (escola pública. o projeto não tem a acolhida que se esperava . prontamente. Rev. Fernandes caracteriza essa etapa de tramitação como um processo de "conciliação aberta" e destaca que valeu ao relator e à equipe constituída "por deputados com horizontes intelectuais distintos e em confronto conhecido quanto à aplicação de verbas públicas. tendo em vista a correlação de forças. igualdade de oportunidades. 8. 1996./dez. 5. recebendo 1. com a introdução de subemendas que alteram questões essenciais do projeto. na medida em que os defensores do ensino público encontram dificuldades para debater com a relatora. jul. educacionais e sindicais) tem uma atuação significativa. e . O substitutivo é aprovado nessa Comissão. n. A negociação. sendo aprovado por unanimidade. etc. é a estratégia utilizada. democratização. Cuiabá. capítulo por capítulo. a mediação empreendida pelos integrantes do Fórum. manifestando-se. em janeiro de 1991. Pública.263 emendas dos parlamentares. Encaminhado ao plenário da Câmara Federal. privilegiando interesses de grupos privados. qualidade do ensino. e não o confronto direto.. no período de 9 de maio a 28 de junho de 1990. Nesse sentido. segundo Hage.Políticas públicas Em reuniões diárias de intensa negociação. " a correlação de forças político-partidárias apontava algo em torno de 25 contra 10. 1990 ª :128). reunindo 26 entidades de caráter nacional ( científicas.) (HAGE. O Fórum Nacional em Defesa da Escola Pública. é votado. artigo por artigo. com algumas questões essenciais de mérito mantidas. v. Educ. a única via possível. quando encerra-se a votação. o substitutivo. durante todo o processo de elaboração da Nova LDB. pois entre outros fatores. O projeto.

São Paulo.Deputado Jorge Hage. 141 . Projeto de lei . Papirus.Diretrizes e Bases da Educação Nacional .. Carlos Roberto Jamil. com os dispositivos introduzidos pela Deputada Ângela Amin (PDS/SC) e enviado para o Senado Federal. n. Educ.Políticas públicas na sua versão final. Pablo. a criação do Conselho Nacional de Educação) e os partidos políticos assumem posições que evidenciam.1989. BRASIL. Projeto de lei . In: SADER. São Paulo. Ideologias em conflito: escola pública e escola privada. Emir. 4. 8. Ester. 1988.Deputado Jorge Hage.Substitutivo do relator . CEDES. Perry. de forma acentuada. Educação e patrimonialismo. 368-78. ________. p. Ideologia e educação brasileira: católicos e liberais. São Paulo. Brasília. GENTILI. acirra-se o debate em torno das questões conflituosas ( como o destino das verbas públicas. 1995. Senado Federal. Paz e Terra. agosto. 5. Sergio. CADERNOS CEDES. 1975. Cuiabá. Cortez & Moraes. para a maioria da população.Diretrizes e Bases da Educação Nacional 2º Substitutivo do Relator . Rev. é aprovado em plenário no dia 13 de maio de 1993. Pública. Cortez/Autores Associados. Referências bibliográficas ADORNO.. s. Pós-neoliberalismo : as políticas sociais e o Estado democrático. Constituição da República Federativa do Brasil. CURY. 1992./dez. Balanço do Neoliberalismo. ed. versus a escola privada. ANDERSON. Brasília. as diferentes tendências que têm por parâmetro a escola pública. CÂMARA DOS DEPUTADOS. 1996. jul. d. 1988. Na Câmara dos Deputados. 42. BUFFA. Brasília. Campinas. v. n. SP.

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