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APOSTILA DE PÓS GRADUAÇÃO – ÁREA COMUM PROFº MICHAEL HUDSON

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DISCIPLINA: PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO

o que significa exatamente aplicar de maneira correta à educação os princípios da psicologia. 2000) Thorndike em 1906 dizia que a eficiência de qualquer profissão depende amplamente do grau em que se torne científica. operações matemáticas. ciências. da dissimulação desses processos. Existem profundas discrepâncias quanto aos princípios que devem ser aplicados. que tem suas raízes nos grandes sistemas de pensamento e nas teorias filosóficas anteriores ao surgimento da “psicologia científica”. etc. Contudo. a escola tem três tarefas básicas a desempenhar a favor dos interesses das classes populares. deverá propor a síntese entre os passos anteriores. foi objeto de múltiplas interpretações. noções fundamentais de história. Em segundo lugar. em que aspecto ou aspectos da educação devem ser usados e. Finalmente. “Ela atua como um instrumento de dominação.” (Miranda. deverá facilitar a apropriação e valorização das características socioculturais próprias das classes populares. Thorndike concluiu que todo conhecimento da psicologia que tivesse a possibilidade de ser quantificado podia ser aplicado à educação. o qual nomeou. segundo Coll (2004) tem sua origem na crença de que a educação e o ensino podem melhorar sensivelmente com a utilização adequada dos conhecimentos psicológicos. funcionando como reprodutora das classes sociais. possibilitando a crítica dos conteúdos ideológicos propostos pela cultura . geografia. Situa-se o surgimento da Psicologia da Educação por volta de 1903. esta área de estudos e lhe deu corpo doutrinário. através de processos de seleção e exclusão dos mais pobres e.1 1 PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO EM NÍVEL DE LATO SENSU A existência da psicologia da educação como uma área de conhecimento e de saberes teóricos e práticos claramente identificáveis. a escola deverá garantir a aprendizagem de certos conteúdos essenciais da chamada cultura básica (leitura. A educação e os padrões de socialização A escola não é neutra.). (Goulart. Tal convicção. e como consequência da primeira. pela primeira vez. ao mesmo tempo. A profissão do ensino melhorará à medida que o trabalho de seus membros seja presidido por espírito e métodos científicos. de maneira muito particular. escrita. Primeiramente. Na edição de 1913 e 1914. esse papel não se realiza perfeitamente. Em nossa opinião. quando foi lançado o livro de Thorndike. 2001). pois a escola que atende às finalidades dos dominadores pode também representar um espaço vivo e dinâmico para os dominados.

propiciar o desenvolvimento harmonioso da individualidade em consonância com as expectativas da sociedade. até mesmo. disponibilidades psicológicas. como enfatiza Miranda (2001). Para a pedagogia tradicional a ideia de criança é o que ela deverá ser se for adequadamente educada. Para Charlot (1979. não impede de lançá-las como projeção daquilo que poderá vir-a-ser. Condições biológicas. . desenvolver as potencialidades. o que ocorre é que a sociedade determina as condições de educabilidade da criança. É preciso reconhecer com profundidade os padrões de socialização da criança. Ambas conservam a ideia de natureza infantil. 54-55) O fato de essas funções não constituírem hoje uma prática concreta nas escolas. pág. aspectos que precisarão ser separados para que seja possível a tarefa da escola de assegurar ao aluno a aprendizagem de um conteúdo mínimo. o problema não é investigar como a criança se socializa. Isso possibilitaria extrair os aspectos que irão direcionar a prática pedagógica e. Educar seria essencialmente cultivar o indivíduo. desdobrar sua natureza. Acreditar numa capacidade própria do indivíduo (natural) para a socialização explicaria facilmente a marginalidade social por uma incapacidade de adaptação do indivíduo às normas sociais. Libâneo (2001) lembra que ao conceber a criança como possuindo atributos universais do gênero humano. pág. caberia à educação atualizar estes atributos naturais. A tarefa da educação é favorecer seu desenvolvimento natural e espontâneo.259) a socialização deve ser tratada como um processo evolutivo da condição social da criança. 1983. são todas mediações entre o indivíduo e a sociedade. Na pedagogia tradicional e na pedagogia nova.2 dominante e a reapropriação do saber que já foi alienado das classes populares pela dominação. (Miranda. e que permitem ou dificultam à criança apropriar-se do patrimônio cultural. Assim. Cabe à educação ensinar normas e conteúdos moralmente sadios que contrariem sua natureza selvagem. A pedagogia nova vê à criança como um ser pleno para a auto realização em cada etapa do desenvolvimento. um produto da vontade e ação humana. econômicos. Quando relegada à sua própria sorte é facilmente corrompida pelo mal. O ato educativo é uma totalidade na qual afluem fatores (sociais. psicológicos) que se constituem nas condições para o desenvolvimento individual. É naturalmente pura e ingênua e poderá ser corrompida se não for protegida e respeitada. 2001) Na educação é possível distinguir duas concepções distintas de criança. condições sociais. (Miranda. Na verdade. mas “como a sociedade socializa a criança”.

Para despertar nos alunos a vontade de aprender. isto é. (Libâneo. fruto de múltiplas determinações. só poderá ocorrer sobre os conteúdos que a sociedade lhe dá. sobre as condições de vida real que ela lhe permite ter.” Portanto na busca da compreensão sobre o indivíduo ou as causas de seus comportamentos é indiscutivelmente necessário situa-lo no contexto de uma existência socialmente configurada. o professor deveria levar em consideração o conhecimento das crianças. vale dizer. por mais sui generis que se possa ser. na França. fruto do seu meio. aproximando as crianças dos conhecimentos da comunidade elas podem transformálos e.3 construindo-se pela sua própria atividade. “Por mais que enfatizemos a unicidade. e esta anterioridade decorre da história da sociedade e do grupo social no qual o indivíduo nasce. O desafio do educador. sem saber nada sobre a língua e que . Para Freinet. é e traz para a situação pedagógica as condições de vida real que o meio social lhe permite ser e ter. O lugar que cada sujeito ocupa na hierarquia de classes decodifica e modifica suas percepções. que considerava teórica e desligada da vida. Célestin Freinet propunha uma mudança na escola. A práxis é o movimento que eleva o homem de sua condição de produto das circunstâncias anteriormente determinadas à condição de consciência. ações concretas através das quais se efetue a mediação entre o saber escolar e as condições de vida e de trabalho dos alunos. assim modificar a sociedade em que vivem. O que pressupõe que cada ação pedagógica compreenda o significado social de cada comportamento no conjunto das condições de existência em que ocorre. para Silvia Lane (1980). sua relação com o futuro. permeada em suas condições de vida e trabalho em uma sociedade de classes. 2001. 156) A psicologia não individualista Compreender a escola na dialética indivíduo-sociedade significa ao mesmo tempo um processo de cultivo individual (promover mudanças no indivíduo) e de integração social (intervir num processo de mudança social). segundo Libâneo (2001) está em criar formas de trabalho pedagógico. Esse indivíduo concreto. sua relação com as instituições sociais e expectativas sociais em geral. pág. como ser humano. assumir que tanto os processos internos como os estímulos externos têm um significado anterior à existência desse indivíduo. Desde os anos de 1920. a individualidade de cada ser humano. Essa perspectiva também é adotada pela psicolinguista argentina Emilia Ferreiro (1979) que acredita que as crianças não chegam à escola vazias. como ser social. A consideração de uma dimensão histórica na psicologia e pedagogia significa.

segundo Libâneo (2001). O movimento escolanovista vem restaurar a credibilidade na escola. como inteligência e estados emocionais. É quando começa a vender sua força de trabalho que o homem se define como livre. Nas escolas. sob forte inspiração positivista. 130) A psicologia que se desenvolve na segunda metade do século XIX vem acentuar a ideia de natureza humana individual. Para Vygotsky o indivíduo não nasce pronto nem é cópia do ambiente externo. como comportamento natural. portanto. e do respeito mútuo no lugar do respeito unilateral. É na relação da criança com o mundo físico e social que promove seu desenvolvimento cognitivo.4 diagnosticar o que elas já sabem antes de entrar na escola é um passo essencial do processo de alfabetização. a Psicologia Moderna. "A psicologia. 2001. que cada indivíduo possui ." (Miranda. 2001) A ênfase na capacidade individual. Em sua evolução intelectual há uma interação constante e ininterrupta entre processos internos e influencias do mundo social. isso significa democratizar as relações para formar sujeitos autônomos. na historia individual. conforme era proclamado pela ideologia liberal. afirmando que o fracasso de seus alunos se deve a diferenças individuais. Acreditava que o desenvolvimento é fruto das experiências do indivíduo. Mas ser construtivista não é deixar o aluno livre. Para Piaget o que permite a construção da autonomia é o estabelecimento da cooperação em vez da coação. (Miranda. A crença na educação como equalizadora de oportunidades é abalada pela incapacidade da escola de cumprir sua função de universalidade. mas cada um dá significado particular a essas vivencias. O professor deve proporcionar um conflito cognitivo para que novos conhecimentos sejam produzidos. acreditando que ele evoluirá sozinho. A ideia de uma essência humana pré-social concebe a personalidade humana individual como um caso particular da personalidade humana básica. reduz a realidade social do homem ao seu componente psíquico. o que pressupõe. Piaget mostra que o homem estabelece desde o nascimento uma relação de interação com o meio. faz com que a pedagogia vá buscar suporte teórico na Biologia e na Pedagogia. igualmente individualista. Assim. pré-determinados. O isolamento individual aparece como fazendo parte da condição humana. que vem ao auxílio da Pedagogia Nova será. pág. como indivíduo. no processo de desenvolvimento. na idéia de anormalidade. O jeito de “apreender“ o mundo é individual. Nas primeiras décadas do século XX Lev Vygotsky se contrapôs ao pensamento inatista. naturalista e biológica. segundo o qual as pessoas já nascem com suas características. A psicologia moderna se desenvolve no mesmo período em que ganha força o movimento da Escola Nova. por sua vez.

um animador cultural. O processo educativo seria um ato político. como condição para a redução das desigualdades de origem social. 2001. é a aquisição de conhecimentos e habilidades que. como condição para redução das desigualdades de origem social. Existem padrões de comportamento a serem ensinados ou modificados. Para ele. ao ponto de os professores passarem a explicar o comportamento dos alunos por meio de termos como inibição. Paulo Freire acreditava que o professor deveria se comportar como um provocador de situações. Ao lado de outras mediações. uma ação que resultaria em uma relação de domínio ou de liberdade entre as pessoas. assumindo formas pedagógicas. era preciso ensiná-la a ler o mundo. tanto no nível intrapessoal quanto no nível da influencia do meio. Mialaret (1976) define o ato pedagógico como uma atividade sistemática de interação entre seres sociais. Para Libâneo (2001) a ênfase nas necessidades e interesses espontâneos do educando resultou na psicologização das situações escolares. 165). etc. não havia educação neutra. imaturidade. Em uma pedagogia social o objetivo da escola será garantir a todos o saber e as capacidades necessárias a um domínio de todos os campos da atividade humana. pág. Chega-se assim à ideia corrente de ajustamento social aplicada à psicologia e à educação.5 características que são universais e independem da influencia do meio social. . cabendo à psicologia conhecer esses traços universais. Antes de ensinar uma pessoa a ler as palavras.” (Libâneo. Uma pedagogia que libertasse as pessoas oprimidas deveria passar por um intenso diálogo entre professores e alunos. interação essa que se configura numa ação exercida sobre sujeitos visando provocar neles mudanças tão eficazes que os torne elementos ativos desta própria ação exercida. agressividade. Em uma pedagogia social o objetivo da escola será garantir a todos o saber e as capacidades necessárias a um domínio de todos os campos da atividade humana. onde todos devem aprender em comunhão. O individualismo em pedagogia acentuou-se significativamente com o desenvolvimento da psicologia humanista. A Pedagogia social de Paulo Freire Em Pedagogia do Oprimido Paulo Freire (1968) dá as linhas da educação popular que desejava. que divulgou a educação como processo de adequação pessoal frente às influencias ambientais. cabe-lhe instrumentalizar os alunos para superar sua condição de classe tal qual mantida pela estrutura social. bloqueios. “Se assume o papel de agente de mudança nas relações sociais. que se tornam universais e compulsórios. garantirão a inserção das classes populares num projeto amplo de transformação social.

mas deve intervir no nível de aspiração. E essa ética que tange o ato educativo enquanto prática formadora não é a “ética menor”. autoconceitos. 1983. o psicólogo entendido como trabalhador social. a dedicar-se aos estudos. a não ser assumindo-se como sujeitos éticos.” (Freire. atitudes. . ter uma esperança no futuro. historicamente comprometidos com o processo de mudança. teria como papel “atuar e refletir com os indivíduos para conscientizar-se junto com eles das reais dificuldades da sua sociedade. já que ele fornece as bases para o trabalho escolar. A introdução de conhecimentos não visa o acúmulo de informações. Levar em conta no trabalho pedagógico com os alunos as práticas de vida das quais participam e as relações sociais que a sustentam. Paulo Freire (1983) alertava para o fato de que cabe aos profissionais de um modo geral e aos profissionais que atuam na educação constituírem-se como trabalhadores sociais. de mercado. como sujeitos históricos. e nesse caso a escolaridade pode não fazer muito sentido. (Libâneo. a ter vontade de aprender. transformadores. oferecer modelos de identificação que possam mostrar suas possibilidades. Da prática para a teoria. O ponto inicial de qualquer plano de ensino é a consideração dos antecedentes sociais. de ir para frente. da opção. como impõem certos limites para o desenvolvimento das capacidades envolvidas no ato de aprender. para regressar à prática. numa nova perspectiva de ação sobre o mundo social. mas uma reelaboração mental que se traduzirá em comportamentos práticos. Assim. assim. Buscar apoios pedagógicos nas próprias condições sociais concretas dos alunos é uma forma de colher os meios de levar um aluno com dificuldades escolares a interessar-se pelas atividades. Como da motivação inicial depende o êxito dos outros processos colocados em ação pelo professor. 2001) É preciso transformar o meio sociocultural dos alunos em objeto de estudo. pois garante compreender o processo de conhecimento como intervenção do sujeito no mundo objetivo e a modificação do sujeito em decorrência de sua ação sobre esse mundo objetivo. A condução do ensino é responsabilidade do professor e da escola. 2001) Muitos alunos não têm perspectivas de futuro. que se curva obediente aos interesses do lucro. Libâneo (2001) esclarece que é preciso despertar no aluno a vontade de crescer. São as condições sócias concretas que determinam necessidades. interesses. da cisão. pág. levando efetivamente à passagem do individual ao social. (Libâneo. 56) Para Paulo Freire (1996) não é possível assumir-se como sujeitos da procura.6 A pedagogia social crítica assume uma posição de síntese. restrita. O trabalho pedagógico não deve restringir-se a métodos. da ruptura.

(.. 1983. no momento em que os indivíduos. 19-20) Freire (1996) coloca à escola o dever de não só respeitar os saberes com que os educandos chegam a ela. só há uma saída para a prática educativa: adaptar o educando a esta realidade que não pode ser mudada. “É. pág. que anima o discurso neoliberal anda solta no mundo. a mudança da estrutura. 256). Mas a mudança da percepção da realidade. pág. As relações sociais caracterizam-se como palco onde as significações são coletivamente produzidas e particularmente apropriadas. obra de Thomas Kuhn que foi publicada no início dos anos sessenta. Entendendo a ato educativo como uma totalidade. imobilizante.. discutir com os alunos a razão de ser de alguns desses saberes em relação com o ensino de conteúdos.” (Zanella. são capazes de perceber o condicionamento de sua percepção pela estrutura em que se encontram. Para Zanella (1998) nesse processo de atuação conjunta. embora isso não signifique. E intervindo em um processo de mudança individual dos atores da educação e em uma busca de mudanças sociais. que antes era vista como algo imutável. significa para os indivíduos vê-la como realmente é: uma realidade histórico cultural. ainda. 2. Para ele. suscitou elevada polêmica entre os estudiosos de Filosofia da Ciência e teve alguns de seus conceitos posteriormente reformulados pelo autor – especialmente no posfácio que passou a figurar no livro a partir de 1969. sua percepção muda. Com ares de pós-modernidade. 50). que só pode ser apreendida como o resultado de fatores estruturais amplos. de produção coletiva de uma nova práxis educativa.7 A ideologia fatalista. pois. Embora as idéias de . de histórica e cultural.. tomando por base A Estrutura das Revoluções Científicas.. 1996. criada pelos homens e que pode ser transformada por eles. mas também. Repensar o papel do psicólogo escolar requer superar a visão técnica e individualista da profissão. transformar a experiência educativa em puro treinamento técnico é amesquinhar o que há de fundamentalmente humano no exercício educativo: o seu caráter formador. atuando e refletindo. a passa a ser ou a virar “quase-natural. insiste em convencer-nos de que nada podemos contra a realidade social que. (Freire. humana. .) Do ponto de vista de tal ideologia. 1998. nas relações sociais que os homens constituem-se enquanto sujeitos. AS NOÇÕES DE PARADIGMA E CIÊNCIA NORMAL APLICADAS À PSICOLOGIA Proponho tratar as várias teorias que compõem o campo da Psicologia como paradigmas. (Freire. enquanto capazes de regular a própria conduta e vontade. pág. o psicólogo pode contribuir em muito com a análise e redimensionamento das relações sociais que se estabelecem no contexto educacional.

certas formulações originais contidas no amplo espectro das teorias psicológicas podem ser nomeadas paradigmas. na elaboração da Epistemologia Genética. creio ser possível tomá-las apenas a título de empréstimo parcial. dá ênfase às ações exteriores do organismo. o que define "implicitamente os problemas e métodos legítimos de um campo de pesquisa para as gerações posteriores de praticantes da ciência". Desse modo. cada qual à sua maneira. tais realizações atraem um "grupo duradouro de partidários. acima de tudo. da criança ao adulto. ao fazê-lo. Embora esses paradigmas sejam limitadores do campo de visão do praticante da ciência. O Comportamentalismo. vocabulário e.30). conceitos. Piaget apresenta uma teoria para explicar as formas elementares do conhecimento e o modo como estas formas se desenvolvem. são exemplos de realizações científicas que conquistaram o reconhecimento de parcelas da comunidade científica e propuseram. e define a "interpretação" como o instrumento adequado para tanto. afastando-os de outras formas de atividade científica dissimilares". definições sobre o que é relevante investigar. . p. ou matrizes disciplinares. bem como os de Watson. os trabalhos de Pavlov.29). Ao mesmo tempo. ao fundar a Psicanálise. o que sugere ao cientista a necessidade de trabalhar com métodos de observação e entrevista clínica para apreender a mudança das estruturas cognitivas. Cada um deles possui parâmetros delimitadores que dizem respeito a procedimentos. p. Para ficar em nossos exemplos. O que caracteriza um paradigma é o fato de conter realizações científicas "reconhecidas durante algum tempo por alguma comunidade científica específica como proporcionando os fundamentos para sua prática posterior" (Kuhn. ao estabelecerem as bases para o Comportamentalismo e os escritos de Piaget. deixam desafiadores problemas a serem solucionados pela comunidade que compartilha seus princípios. trata-se de realizações "suficientemente abertas para deixar toda espécie de problemas para serem resolvidos pelo grupo redefinido de praticantes da ciência" (idem. 1990. a Psicanálise visa a compreender as forças inconscientes em sua luta contra as exigências da realidade. métodos e valores.8 Kuhn sejam bastante sugestivas. Skinner e outros psicólogos norte-americanos. o que encaminha as ações do pesquisador para métodos de observação e registro do comportamento observável. repudiando conceitos mentalistas tidos como impossíveis de serem apreendidos objetivamente. tanto na versão associacionista russa quanto na vertente ambientalista norte-americana. como logo mais se verá. Tomadas na concepção de seus autores principais. a obra de Freud. métodos e problemas específicos para a compreensão de aspectos da psicologia humana. conforme Kuhn mostrou preferir no posfácio acima mencionado.

a uma reflexão sobre o papel da ciência no planejamento da cultura.50). conquistado por um paradigma. portanto. muitas delas obtidas em laboratório com animais inferiores. É com base nestes aspectos – e em alguns outros que logo mais serão explicitados – que proponho a denominação kuhniana de paradigma para as teorias psicológicas. muito menos como um conjunto de técnicas psicoterapêuticas do que como uma concepção a respeito das relações entre o indivíduo e a cultura. uma promessa de sucesso que pode ser descoberta em exemplos selecionados e ainda incompletos". A vantagem oferecida por este empenho encontra-se justamente em tornar possível distinguir com mais clareza a especificidade que envolve o trabalho científico. que acompanhou de perto o avanço de seu projeto de investigação das estruturas cognitivas. É sabido que Freud dedicou pelo menos os últimos cinquenta anos de sua vida à elaboração da Psicanálise. especificidade esta que o distingue . Nos exemplos aqui enfocados. discutindo o desenvolvimento moral da criança. "Nesse caso experiências são necessárias para permitir uma escolha entre modos alternativos de aplicação do paradigma à nova área de interesse" (idem. atualização que se obtém ampliando-se o conhecimento daqueles fatos que o paradigma apresenta como particularmente relevantes. a realizar o "trabalho de limpeza" que todo paradigma requer. empenha-se em aprimorá-lo. quando de sua primeira aparição". Algo semelhante pode ser dito quanto a Skinner. tanto no âmbito como na precisão. "muito limitado. Tanto é assim que suas ideias podem ser avaliadas.9 Os problemas não resolvidos pelas formulações paradigmáticas animam seus seguidores. em geral. métodos e soluções apresentados pelo paradigma a áreas de interesse não contempladas originalmente pelas formulações paradigmáticas. um paradigma "é. dessa última modalidade de ciência normal. Dentre as várias modalidades de exercício da ciência normal. (idem. A ciência normal consiste na atualização dessa promessa. há uma espécie que consiste na busca de adequação dos referenciais. Piaget. p. assim. não se furtou a expandi-lo em várias direções. que buscou aplicar suas constatações. é aquele que. definidos por Kuhn como cientistas normais. tendo tido oportunidade de experimentar sua adequação a terrenos não diretamente vinculados à clínica psicológica. p. Isto é assim porque todo paradigma é. De início. aumentando-se a correlação entre esses fatos e as predições do paradigma e articulando-se ainda mais o próprio paradigma. elaborando estudos de caráter sociológico e sobre o progresso das ciências.44) O cientista normal. em grande parte. participando. os próprios autores dos paradigmas em questão encarregaram-se de iniciar o "trabalho de limpeza" das proposições que eles mesmos elaboraram. hoje.

Se visto mais globalmente. rompendo uns com os outros. ao passo que Piaget fundamenta sua teoria numa ampla discussão com o empirismo. esse fenômeno revela que os paradigmas psicológicos são transposições. setor privilegiado pelo autor . num mesmo momento histórico. departamentos e instituições de pesquisa. mas apenas nos limites do campo da Psicologia mesma. "valores" e expressões que permitem "generalizações simbólicas" sobre o objeto em estudo. portanto. creio que a visão de Kuhn quanto ao modo como os paradigmas se estabelecem e são superados. Kuhn esclareceu que seria preferível referir-se a conjuntos compostos por "crenças". em outros. há representantes de paradigmas psicológicos diferentes e conflitantes. e tentativas de superação. diante da tradição do pensamento ocidental. conjuntos estes que são compartilhados por diferentes grupos – às vezes pequenos – de cientistas. todos eles atuando com semelhante prestígio – maior em determinados locais. de tempos em tempos. No âmbito da Psicologia . O campo da Psicologia talvez possa ser melhor caracterizado. o que de fato não seria cabível afirmar no caso da Psicologia. como a Física. Outra consideração que merece reparo é quanto ao caráter "sem precedentes" que Kuhn atribui aos paradigmas.10 das exigências que cercam a prática educacional. uns pelos outros. necessita maiores esclarecimentos. em que uma matriz disciplinar é aceita por uma parcela da comunidade científica ao mesmo tempo que outras parcelas dão preferência a correntes alternativas. No mais. torna-se mais plausível a possibilidade de compreender a realidade do campo aqui enfocado. concepção que vai de encontro à crença no progresso linear das ciências. dentre outras vertentes do pensamento filosófico. menor em outros. Mediante esta nova conceituação. por exemplo. como um campo em que os paradigmas surgem como inéditos e revolucionários. ideia que lhe permite ver o avanço científico como um processo que ocorre por "rupturas" entre um paradigma que surge e o que se encontra em vigor. esta concepção parecia sugerir a existência. a hegemonia de um único paradigma em determinado campo científico. exibem com clareza suas raízes positivistas. Posteriormente.e o mesmo poderia ser discutido no terreno das ciências naturais. Quando formulada pela primeira vez. Os comportamentalistas. de questões já colocadas pela Filosofia . em certos casos.as matrizes disciplinares podem ter suas origens rastreadas e localizadas nas escolas filosóficas que as precederam. No amplo cenário de nossas universidades. ao rever seu escrito e introduzir a expressão matriz disciplinar. de fato. em que há grande diversidade de correntes de pensamento em disputa sem qualquer indício de superação de umas pelas outras. por meio de rupturas sucessivas.

um paradigma facilmente aplicável à educação. o que o torna. Freud. como o "ensino programado" e o emprego de "máquinas de ensinar". É certo que alguns dos criadores dos paradigmas aqui analisados envolveram-se diretamente com os problemas da educação. e. mais amplamente. pois como se sabe o paradigma freudiano foi desenvolvido para atender a demandas oriundas da clínica psicológica. em seu livro Tecnologia do Ensino (Skinner. . tratou-se originalmente de uma iniciativa para construir uma teoria geral que contemplasse as leis de regularidade e uniformidade do comportamento humano. p. no campo específico da educação escolar. O Comportamentalismo ensina como instalar respostas novas e modificar padrões de respostas já existentes. Toda a psicologia piagetiana constitui. 1967). A Psicanálise constitui a demonstração mais óbvia dessa afirmação. então. para explicar como nasce e evolui a competência do indivíduo para apreender abstratamente o mundo que o cerca. Piaget foi em busca da Psicologia (Coll & Gillièron. em suma. procedendo deste modo. o que se mostrou inviável por intermédio do uso exclusivo dos métodos da própria Filosofia. A tal ponto que o próprio Skinner. 1978). aplicando suas formulações a "novas áreas de interesse". o que permite ver o comportamento como resultado de arranjos no meio em que se localiza o indivíduo. O caso de Skinner é exemplar. portanto. as transposições de suas formulações paradigmáticas para o âmbito da escola. sendo seu propósito inicial encontrar um meio eficiente para curar neuroses (cf. Skinner. a bem da verdade. pois de certos princípios comportamentalistas decorrem sugestões de elevado interesse para organizar o processo de ensino e aprendizagem escolar. como diria Kuhn. 1987. 1972) elaborou propostas bem delineadas para o ambiente escolar.15). um conjunto de teses formuladas para responder a questões relacionadas com a origem e o desenvolvimento da capacidade cognitiva do ser humano. Quanto ao Comportamentalismo. muito menos.11 3. Assim. Com eles começaram. OS PARADIGMAS PSICOLÓGICOS E A EDUCAÇÃO ESCOLAR Nenhuma das matrizes disciplinares da Psicologia foi criada com o intuito de responder a questões formuladas no terreno da educação em geral e. dada a necessidade de bases empíricas que permitissem "uma ponte sólida entre a biologia e a epistemologia". na condição de cientistas normais. Sobre a teoria piagetiana. Uma das teses fundamentais desse paradigma diz que o organismo – seja ele animal inferior ou superior – responde a estímulos ambientais. é preciso lembrar que sua problemática primeira encontrava-se vinculada à área da epistemologia: o propósito de Piaget era "abordar o estudo do conhecimento através de uma epistemologia de natureza biológica". em que estivessem descritas as relações entre as respostas emitidas por um organismo e os estímulos ambientais (cf.

pela educação familiar e. sem levar em conta supostos fatores subjetivos. Para ficar no exemplo dado. ao versar sobre o desenvolvimento da personalidade. quando a Pedagogia tenta apossar-se dos conhecimentos científicos da Psicologia. Pode-se chegar a semelhante conclusão tomando o caso de Freud. mais adiante. Kupfer. pode fazê-lo sob a égide de orientações pedagógicas as mais diversas. mas o mesmo não se dá quando se trata de organizar o processo de ensino e aprendizagem. Não sendo adepto. desenvolvida como atividade de ciência normal. as sugestões de Skinner quanto ao modo de organizar a educação escolar não são as únicas possíveis ou as únicas que devam ser consideradas pelos adeptos de seu paradigma. se é certo que os paradigmas psicológicos não nasceram para resolver problemas educacionais em geral ou problemas específicos da educação escolar. representante internalizado das imposições morais transmitidas. inicialmente. vincular uma vertente do pensamento educacional a conceitos extraídos de uma teoria psicológica. concluiu que pouco poderia ser conseguido por pais e professores. uma vez que o inconsciente é um território insondável. entretanto. é preciso reconhecer. quer na escola. Consequentemente. em alguns casos. que toda e qualquer utilização educacional dos saberes oriundos da Psicologia é passível de discussão. torna-se muito difícil. mas não se sente obrigado a concordar que a escola deva ser composta por alunos diante de máquinas de ensinar. em alguns textos e passagens de sua obra. quer fora dela (cf. tornou-se totalmente descrente da possibilidade de a Psicanálise contribuir para a educação de crianças e jovens. constitui uma ideia a ser necessariamente aceita pelos seguidores dessa corrente. é preciso admitir que alguns paradigmas contêm formulações que implicam reflexões problematizadoras e soluções de interesse inegável para os educadores. A teoria freudiana. 1992). . oferecia certa margem de reflexão a respeito dos procedimentos educacionais. No final da vida. de concepções ambientalistas. controlar e modificar. A tese de que o comportamento é algo que se pode instalar. cujas teses a respeito da sexualidade infantil enfatizaram ser a constituição do ego um resultado do combate entre as pulsões do id e as restrições do superego. esta empresa não se confunde com o estabelecimento das teses paradigmáticas. pelos educadores profissionais.12 Assim. Mas. arriscado e. No entanto. leviano. o professor torna-se comportamentalista. também. como se algum saber deste terreno fosse responsável exclusivo pelas práticas contidas naquele. e o próprio Freud o fez. Ao admitir a noção de que o comportamento do educando é passível de controle por meio dos estímulos fornecidos em sala de aula. Além disso. ainda que o fundador do paradigma tenha se envolvido pessoalmente nela.

. como a Antropologia. Pode contribuir. Kupfer conclui: Pode-se dizer. . ou a Filosofia. capacitando-o para o melhor desempenho de suas funções próprias. Impossibilitada de inspirar métodos pedagógicos. no processo de avaliação da aprendizagem. algo inimaginável numa teoria que aceite a noção de inconsciente – o lugar do imponderável. Nada mais se pode esperar dela. O exemplo mais categórico foi sua própria filha. daquilo que escapa à linguagem da razão. e que reduzi-la a "uma pedagogia apressada ou a um culturalismo simplista" seria inadequado (Mauco. propriamente. Mauco admite. que a Psicanálise pode ser útil aos educadores. do imprevisto. ao elucidar as relações da criança com a família. tem apenas uma vaga imagem do que pode estar ocorrendo com o aluno. uma posição. por exemplo. Idéia semelhante é defendida por Maria Cristina Kupfer. a Psicanálise pode fornecer ao professor condições para lidar com indivíduos em situação de aprendizagem. um modo de ver e de entender sua prática educativa. se não enquanto método de interpretação. por isso. "mas um método de investigação no domínio do simbolismo inconsciente". p. cuja utilidade é evidentemente limitada aos domínios do consultório. não tem como saber em que medida a relação transferencial estabelecida entre ele e o educando está interferindo no trabalho pedagógico. do educando com o educador e a economia psíquica do profissional da educação. À imagem do psicoterapeuta. Mais ainda. Anna Freud. para formar seu pensamento. o educador inspirado na Psicanálise deve renunciar ao controle intensivo sobre seus educandos. têm admitido que a concepção freudiana não pode ser entendida como uma ciência psicológica. mas apta a sustentar uma nova visão dos processos educacionais.d. ao menos como fonte para a compreensão do desenvolvimento psíquico e afetivo do ser humano. em igualdade de condições com diversas outras disciplinas. naturalmente. Mais recentemente. como Georges Mauco. com Psicanálise para Pedagogos (Freud.13 Suas opiniões neste terreno não impediram que muitos cientistas normais de orientação psicanalítica tratassem de fazer o que o mestre considerava impossível. para quem não é possível criar uma metodologia pedagógica fundamentada na Psicanálise porque todo método implica certo grau de ordenação e previsibilidade. estudiosos. dependendo. entretanto. 1974). 192). pois não tem acesso direto à repercussão dos conteúdos escolares no inconsciente do aprendiz. das possibilidades subjetivas de cada educador. É um saber que pode gerar. Cessa aí. no entanto. a Psicanálise pode ser útil ao questionamento dos vínculos de autoridade na sala de aula em abordagens pedagógicas avessas aos moldes tradicionalistas. que a Psicanálise pode transmitir ao educador (e não à Pedagogia. como um todo instituído) uma ética. a atuação da Psicanálise. s. Assim. uma filosofia de trabalho.

vale considerar aqui o depoimento colhido por Mário Sérgio Vasconcelos em que Therezinha Rey relata as impressões do pesquisador genebrino sobre sua visita ao Brasil. como ele desejava.58). sob a motivação dos encargos que assumiu junto ao "Bureau International d’Education". "debates mais profundos sobre biologia e epistemologia" (Vasconcelos. 1996. Quanto a Piaget. . e por não terem ocorrido. p. no ano de 1949. (Kupfer.14 caso se queira ser coerente com aquilo que se constituiu essencialmente: a aventura freudiana. Piaget teria ficado descontente por ter sido abordado por pessoas cujo interesse exclusivo era a Educação. p. 1992. entre 1929 e 196 ATIVIDADE EM GRUPOS. alguns textos sobre educação escolar foram por ele produzidos.97). Embora estes fossem os interesses prioritários de Piaget.