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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SUL CÂMPUS DE AQUIDAUANA DEPARTAMENTO DE LETRAS

ANÁLISE DE POEMAS

Acadêmica: Márcia Helena Franco Disciplina: Literatura Brasileira Contemporânea Professora: Msc. Maria Aparecida Barboza 3ª série

Aquidauana-MS Junho/2001

com isto. A alusão à figura de Jesus Cristo é imediata.Matéria X Espírito Não há dúvidas de que o poema de Décio Pignatari é uma obra concretista. essa imagem representa uma antítese e o único verso verbal do poema mantém essa idéia: a inscrição “Cr$isto” traz o ideograma $ logo após as letras Cr. ter capital resolverá o problema). Ela representa o domínio que os Estados Unidos mantêm sobre os demais países do globo. Consegue-se. o símbolo $ posposto às letras Cr pode também expressar que a única solução para combater a submissão econômica do Brasil em relação aos Estados Unidos é a valorização da moeda nacional. completada logo em seguida pelo verso “Cr$isto é a solução”. Têm-se. O uso da estruturação poética convencional verifica-se completamente abolido. nos remetendo à representação de cruzeiro – Cr$. de cabelos compridos. É notória a fama cultivada no mundo pela cédula monetária de um dólar americano. Normalíssimo não fosse o seu espaço central estar preenchido pela figura de um homem barbado. O espaço gráfico apresenta significação. um amálgama de idéias que permite leituras ambíguas: a análise espiritual evidencia que “Cristo é a solução” (a fé é a resposta para as necessidades do homem) e o entendimento material. que “Cr$ isto é a solução” (o cruzeiro. A figura de Jesus nos possibilita visualizar a transposição poética para valores inversamente proporcionais: o material e o espiritual. na mesma “moeda”. Tal tropo pode ser entendido como a intenção de retratar o conflito humano entre as forças do espírito e da matéria. expressão de dor e. Pode-se entender que o eu-lírico ou as equipara e as deseja. Assim. uma coroa de espinhos.. pois somente o verbal não consegue extravasar todas as impressões pretendidas pelo eu-lírico. duas das figuras mais conhecidas do mundo. De qualquer forma. O título do poema é um símbolo não-verbal: uma nota de um dólar americano.. constata-se uma “profanação” poética: símbolos antitéticos unidos que pretendem chocar. ou anseia mostrar a ganância material do homem. Entretanto. denunciar e fazer arte através 2 .

cit..da crítica irônica do eu-lírico. pois constituem a sobreposição de sentidos. o poema “ Não há vagas”. Essa construção acarreta o processo de encadeamento. valores e posicionamentos do indivíduo e da coletividade. senhores. Não cabem no poema o gás a luz o telefone a sonegação do leite da carne do açúcar do pão O funcionário público não cabe no poema com seu salário de fome sua vida fechada em arquivos. A ruptura com as formas poéticas canônicas também é visível pela ausência de rimas. está fechado: “não há vagas” Só cabe no poema o homem sem estômago a mulher de nuvens a fruta sem preço O poema. p. Não há vagas Ferreira Gullar O preço do feijão do arroz não cabe no poema. Por que “o preço do feijão não caberia no poema”? O texto poético não constitui um campo vasto em que para o eu-lírico tudo é possível? Antes de qualquer abordagem é preciso entender que esta poesia participante representa a expressão indignada da miséria social brasileira e da ausência de liberdade que se seguiu ao golpe militar de 64. O eu-lírico tenta se rebelar contra a censura já no campo topográfico: abóli o verso clássico e opta pela sua não-linearidade. senhores. não fede nem cheira (Op. Não há melodia. pode parecer um texto nonsense. que prende ainda mais a atenção do leitor. de Ferreira Gullar. 44-5) Há vagas: somente na ficção Em uma única leitura. pois não há motivos para o 3 . embora de forma menos intensa que os concretistas. presente em todo o texto. Como não cabe no poema o operário que esmerila seu dia de aço e carvão nas oficinas escuras __ por que o poema.

pois esta constitui apenas ficção. que não pretendem ser enxovalhados pela camada intelectual da população. o eu-lírico. A linguagem empregada em todo o texto é simples e o emprego constante de vocativos intenciona um retrato da oralidade. senhores. não fede nem cheira. Somente a utopia cabe no poema e a situação do país naquele momento estava longe do modelo desejado. representam uma cruel realidade. tenta argumentar que a preocupação com o conteúdo poemático é vã: não há por que se importar com a produção literária.” Com este chavão. descaradamente. O eu-lírico afirma que nada de real cabe no poema. A “chave” para a interpretação do poema está na última estrofe. As necessidades básicas dos seres humanos não podem ser matéria de poesia porque. fuga da realidade. Essa característica pode ser conivente ao desejo (reprimido pelo regime militar vigente) de desvelar as vozes. 4 . Isto pode consistir na denúncia de que a realidade observada por ele é muito cruel. por não poderem ser supridas. O vocativo “senhores” identifica o “tu” e se dirige àqueles que estão interessados no conteúdo da obra: os integrantes do governo. Essa realidade é marcada no texto pela presença constante dos substantivos concretos. muito bem velada: “O poema.“canto” – o eu-lírico está descontente com o regime ditatorial a que está submetido.