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A EXPERIÊNCIA MÁGICA1

Conjuradores em todas as partes do mundo e em todos os períodos da história, sempre procuraram apresentar maravilhas e mistérios para o espanto, alegria, inspiração e às vezes até mesmo horror de suas plateias. Podemos igualmente dizer que, com relação a esses públicos, mágicos procuram proporcionar-lhes uma experiência única: uma experiência mágica. Mas o que é a experiência mágica? Quero sugerir alguns dos elementos que compõem essa experiência. Ao fazer isso, eu certamente não estou sugerindo que minha lista é de forma alguma exaustiva. Outros escritores, de fato, pode ter formas igualmente plausíveis, ainda que diferentes, de arranjar este tipo de material. Antes de estabelecer os elementos que escolhi, eu acho que é importante entender duas coisas que a experiência mágica não é. Só vou mencionar brevemente aqui porque sua importância total ficará mais claro à medida que prosseguirmos. Primeiro, eu entendo que a experiência mágica não é a experiência de um quebra-cabeça. Eu afirmo, sim, que, enquanto um truque mágico pode ser visto como algo a ser descoberto ou resolvido, ele não precisa ser. Ele pode ser visto, ao contrário, como algo a ser experimentado por sua pura maravilha e espanto. Segundo, a experiência da magia não é a experiência de confusão . Dai Vernon, uma das vozes mais influentes na conjuração no século XX, repetidamente insistiu que mágica não é confusão. Na verdade, uma das coisas que o trabalho de magia faz é com que tudo parece tão claro, simples e justo ao longo do caminho. Eu diria que, de fato, a estrutura das mais enganosas performances mágicas é algo que parece com isto: o público acredita "sim, isso era justo - sim, isso é justo - e, sim, que é justo. Uau! Isso foi surpreendente!" Uma vez que o público torna-se confuso, sua confusão destrói a experiência mágica. Se eu estou confuso, eu tenho a sensação de que alguma coisa (qualquer coisa) poderia ter acontecido e que eu não percebi por causa da minha confusão. Estar em tal estado não é experimentar algo mágico. Para a mágica criar impacto, deve haver grande clareza e foco. Para repetir, um membro do público tem que acreditar que tudo o que foi visto era justo e honesto. Se, por exemplo, eu vejo o mágico fazer um movimento estranho com as cartas de baralho, especialmente um movimento que também telegrafa o fato que eu não deveria ver, a experiência mágica nunca é realizada. Eu não sei o que o mágico fez com as cartas, mas eu sei que algo foi feito, e esse conhecimento em si simplesmente destrói a experiência de magia. Como um membro do público, a minha experiência com tal mágico pode, na melhor das hipóteses, ser a experiência de assistir a um manipulador de cartas. Tem-se uma experiência de magia somente quando não há consciência de maquinações secretas ou de manobras de prestidigitação.

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BURGER, Eugene; NEALE, Robert E.; MINCH, Stephen. Magic and meaning. U.S.A: Hermetic Press, 1995, p 13-24. Tradução para fins didáticos de Paulo Balardim.

Agora que temos em mente duas coisas que a experiência mágica não é, deixe-me considerar alguns dos elementos que compõem o que é a experiência mágica.

Esperar o inesperado Cem anos atrás, um público nativo americano observou o xamã ou medico da tribo que preparou uma demonstração de suas maravilhas. Recentemente, uma plateia no espetáculo de Siegfried e Roy, no Hotel Mirage, em Las Vegas, maravilhou-se com a imensidão do palco e do número aparentemente incontável de equipamentos de iluminação. O xamã depois mostrou um pequeno saco de pano, para que se percebesse que estava vazio, e produziu duas cobras vivas dentro dele. Siegfried e Roy produzem um leão, vários tigres e um elefante. O que me interessa aqui não é a conjuração específica que foi apresentada em qualquer ocasião. Estou interessado, sim, no estado de espírito dos membros da plateia antes desses respectivos shows começarem. Uma plateia pronta para ver a magia está no estado de espera2 de que algo maravilhoso aconteça. Como Max Marven uma vez apontou para mim, eles estão esperando o inesperado. E os magos não podem decepcionar seu público. Consideremos por um momento alguns exemplos da magia que os magos contemporâneos normalmente executam.  Uma moeda é colocada na mão direita do performer. A mão esquerda é colocada por baixo do tampo da mesa. A mão direita bate contra a mesa e em seguida, ergue-se. A moeda não está lá. A mão esquerda remove a moeda por debaixo da mesa.  Um elefante é levado para uma tenda que, quase imediatamente, cai vazia no chão.  A assistente do mágico se deita em um sofá. Em seguida, serenamente, sobe e flutua no ar. A lista poderia continuar. Em cada um desses exemplos, estamos confrontados com algo acontecendo que não se espera que aconteça. O público da mágica está em um estado de esperar o inesperado antes do espetáculo começar. Se o público que assiste a um show de mágica está em estado de esperar o inesperado, imagine a sensação de magia que aparece em um público quando a magia em si, vem como uma surpresa completa. Surpresa, eu acho, está no coração da magia. Mesmo se nós somos capazes de antecipar o que o efeito mágico será (como quando vemos a adorável assistente do mágico deitar no sofá, e dizemos a nós mesmos de que ela provavelmente vai flutuar no ar), o fato de que ela então flutua em seguida, torna-se e continua a ser uma experiência surpreendente, mesmo que seja em pequeno nível. O impacto da magia, é claro, é muito maior quando os membros da plateia não podem antecipar o que a surpresa real será, porque, então, a experiência mágica será ainda mais intensa.

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Poderia se utilizar aqui o termo "expectação". (N.T.)

Experimentando o impossível Há, é claro, para a experiência de mágica, mais do que uma experiência de algo que é inesperado e surpreendente. Os três exemplos de magia acima são inesperados e surpreendentes, com certeza, mas eles também são mais do que isso. Em cada caso algo aconteceu, algo que nós normalmente descrevemos como impossível. Fazer tais julgamentos, naturalmente, implica algum tipo de comparação entre o que nós experimentamos em uma performance mágica, por um lado, e o que vivenciamos em nosso cotidiano, por outro. Nós insistimos que a lei da gravidade proíbe corpos humanos de flutuar no ar. Nós não acreditamos que os elefantes podem desaparecer ou que as moedas podem penetrar sólidos tampos de mesa. Estes padrões do que achamos que é possível e do que é impossível são trazidos por nós para o desempenho mágico. À luz dos nossos preconceitos cotidianos e expectativas, então, experimentamos as coisas que acontecem em uma performance mágica como coisas que normalmente descrevemos como impossível. Em uma performance mágica ficamos cara a cara com o inesperado e com o impossível na vida.

Experimentando o não-racional Pelo fato de a magia nos colocar face a face com as coisas que são impossíveis, ela nos atrai para uma sensibilidade que atinge outra dimensão de consciência para além da caracterizada através do pensamento racional. Holger Kalweit sugeriu que "mágica não é nada mais do que a experiência de uma dimensão transpessoal" e, como a religião, tem sua origem em estados alterados de consciência. A experiência mágica nos move a contemplar a realidade de um reino não-racional de consciência e experiência. Através dos séculos, esta dimensão não-racional tem sido caracterizada por uma variedade de palavras, incluindo espanto, encantamento e admiração. Estas são, evidentemente, palavras inadequadas. A triste tragédia dessas palavras é que, através do uso excessivo e errado, temos reduzido-as a meras sombras de si mesmas. No entanto, estas são palavras estranhas e poderosas. Se pensarmos sobre elas, elas também são palavras inquietantes porque vêm até nós, não apenas como um convite, mas também como um desafio. "O homem que perdeu seu poder de admiração", escreveu o cientista Albert Einstein, "é um homem morto". Talvez as coisas mais próximas da magia, neste sentido, são os sonhos e os contos de fadas. Muitas vezes me pergunto se uma das experiências que deram origem à idéia de magia, ou que certamente reforçou a noção de magia, uma vez que apareceu, não foi o sonho de nossos antepassados. Se quisermos experimentar em primeira mão um reino mágico, precisamos apenas ir para a cama à noite e dormir e sonhar. O mundo dos sonhos é um universo mágico onde tudo pode - e freqüentemente faz - acontecer. Tempo e espaço se tornam elásticos e fluidos em nossos sonhos. A idéia de causalidade, de um evento que acontece e que definitivamente e claramente faz algumas outras coisas acontecer, muitas

vezes, não parecem existir em tudo neste mundo. A hora do sonho é um momento de transformação mágica. Em muitos lugares, o conto de fadas começa da mesma maneira, "era uma vez ..." e sabemos que, a partir destas palavras, estamos prestes a entrar em um mundo cuja realidade é estranhamente diferente da nossa realidade racional cotidiana. No conto de fadas, o sapo insignificante pode ser um príncipe, as pessoas podem dormir por centenas de anos, os desejos podem ser concedidos magicamente, os animais podem falar e usar aventais, chapéus e outras peças de roupas, e as coisas em geral não são sempre exatamente o que eles parecem ser. Eu suspeito que as crianças entram no mundo do conto de fadas principalmente por causa da maravilha não-racional e encantamento dele. Eu fiz. Ali, a dimensão do não-racional tem um importante papel na experiência mágica. Um dos meus escritores mágicos favoritos, o falecido S.H. Sharpe, da Grã-Bretanha, escreveu: "O propósito subjacente da magia em seus muitos aspectos não é enganar as pessoas, mas incentivá-las a aproximar Vida e Cosmos em um estado de maravilha". (SHARPE, p 4) Esta visão está distante do que ouvimos do típico mágico céticodesmistificador, uma postura adotada por um número surpreendentemente grande de conjuradores contemporâneos. Considere, por exemplo, estas palavras do arqui-desmistificador da América, meu amigo James Randi:
Vivemos em uma sociedade que está ampliando as fronteiras do conhecimento em um ritmo sem precedentes e não podemos manternos com muito mais do que uma pequena parte do que nos é disponibilizado. Misturar a nossa entrada de dados com noções infantis de magia e fantasia é incapacitar a nossa percepção do mundo que nos rodeia. Temos de chegar à verdade, não aos fantasmas de absurdos mortos. (Grifo nosso)

Sim, mas Pilatos perguntou a Jesus, "o que é a verdade?"3 É verdade simplesmente ser restrito, pura e exclusivamente, às atividades da mente racional? O que Randi aqui chama de "entrada de dados" também pode ser pensado como nossas vidas. E, assim, devemos nos perguntar se há um lugar apropriado para o não-racional, para a fantasia e para a imaginação, a intuição, a maravilha e a magica em nossas vidas - ou se, ao invés disso, estas são apenas "noções infantis" que os adultos devem deixar para trás. Para mim, eu estaria de acordo com Jane Yolen, uma escritora de livros para crianças, que diz que a necessidade de imaginação, fantasia e admiração é tão grande para adultos quanto para crianças. Ela escreve:
E para os adultos, o mundo dos livros de fantasia nos trás de volta as grandes palavras de poder que, a fim de sermos domados, foram
3

Aqui o autor se refere à passagem bíblica que trata do encontro entre Pôncio Pilatos e Jesus Cristo. "Pilatos perguntou a Jesus: 'O que é a verdade?', E Jesus não deu nenhuma resposta ... Pilatos estava olhando para a resposta e não podia ver, é por isso que ele pediu. A palavra não precisava ser falada, porque a Palavra estava em carne, de pé na frente dele. A resposta foi encarnada e posicionada diante de seus olhos. Jesus é a Verdade. Deus revelou-se na carne, e Pilatos - um homem com olhos e ouvidos não podia ver ou ouvir. É pelo Espírito Santo que olhamos para Jesus e encontramos a resposta para a pergunta de Pilatos. A resposta foi revelada. No entanto, as pessoas ainda perguntam: 'O que é a verdade?'" Retirado do site http://mrrives.com/Gezer/?p=1414, acesso em 11/03/2013. (N.T.) Tradução minha

retiradas do nosso vocabulário adulto. Estas palavras são a pornografia da inocência, as palavras que os adultos já não se atrevem a usar com outros adultos, e assim nós rimos delas e 4 destinamo-las para o espaço infantil , mascarando o medo com o cinismo. Estas são as palavras que foram forjadas na terra, ar, fogo e água da existência humana. E as palavras são: Bom - Mal - Coragem - Honra - Verdade - Ódio - Amor

Histórias de fantasia são importantes para todos. Para as crianças, Yolen insiste, são importantes porque "a história de fantasia clássica é uma missão em que um (geralmente) herói pequeno, impotente ou heroína vai em busca de alguma coisa mágica e, no processo, cresce." (Yolen, p 76) Mais do que isso: "o livro de fantasia empurra o leitor para um confronto com grandes mistérios da vida, as grandes incógnitas que assustam a todos nós." (Yolen, p 73) Tendo em vista Yolen, então, é precisamente através do nosso envolvimento com histórias de fantasia e fantasia que somos capazes de despertar "a magia dentro de todos nós - a capacidade de mudar as nossas próprias vidas, a capacidade de controlar nossos próprios destinos." (Yolen, p 38) Não é, então, que a racionalidade deva ser rejeitada e descartada. Pelo contrário, deve ser completada através do acesso à dimensões não-racionais da nossa consciência.

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No texto original temos a palavra 'nursery', que pode ser traduzida literalmente como, viveiro ou berçário ou ainda, quarto de crianças. (N.T)