IGREJA LUTERANA

(ISSN 0103-779X)
CONSELHO EDITORIAL: Acir Raymann, editor Elmer N. Flor Gerhard Grasel Vilson Scholz DIRETOR GERAL: Hans Horsch ASSISTÊNCIA ADMINISTRATIVA: Cláudio Kaminski EXPEDIÇÃO: Zely S. Steyer PROFESSORES: Acir Raymann, Christiano J. Steyer, Elmer N. Flor Gerhard Grasel, Hans Horsch, Paulo M. Nerbas, Vilson Scholz, Walter O. Steyer e Norberto E. Heine(CAAPP) IGREJA LUTERANA:(ISSN 0103-779X) é uma revista semestral de teologia publicada em Junho e Novembro pela Faculdade de Teologia do Seminário Concórdia, da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB), São Leopoldo, Rio Grande do Sul. IGREJA LUTERANA está indexada em Bibliografia Bíblica Latino-Americana. Os originais dos artigos, publicados ou não, não serão devolvidos. Aceita-se permuta com revistas congêneres. Toda correspondência deve ser enviada ao seguinte endereço: Revista IGREJA LUTERANA Seminário Concórdia Caixa Postal, 202 93001-970 - São Leopoldo, RS

IGREJA LUTERANA
Volume 52 Novembro 1993 Número 2

ÍNDICE

EDITORIAIS Nota do Editor Fórum ................. .122 .123

ARTIGOS Semeando o Grão de Mostarda John Hartmeister O Estudo da História Eclesiástica Louis C. Rehfeldt Cristo, o Modelo do Cura D'Almas Paul W. Schelp. 144 141 126

"Lembra-te dos Tempos da Antigüidade...": uma história do Seminário Otto A. Goerl .153

AUXÍLIOS HOMILÉTICOS DEVOÇÕES LIVROS .

.175 240 . . 2.49

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EDITORIAIS

Nota Do editor:
Este número de Igreja Luterana é dedicado ao 90º aniversário de fundação do Seminário Concórdia. Deus tem abençoado sobremaneira o Seminário em sua trajetória longeva assinalada por mudanças em geografia, língua, cultura. Daquele início modesto, porém visionário, em Bom Jesus, permanecem as reminiscências que acompanham hoje um Seminário de reconhecimento nacional e internacional. Mais de 500 pastores buscaram nele sua formação teológica, escriturística, luterana, confessional e que se propaga no Brasil e em mais sete outros países. Para celebrar este evento, o Conselho Editorial de Igreja Luterana decidiu reimprimir artigos de ex-diretores do Seminário que já ingressaram na Igreja Triunfante. A única exceção é o artigo do Dr. Otto A. Goerl, hoje com 88 anos de idade, resultado da transcrição de uma palestra por ele proferida nas comemorações do 80- aniversário desta instituição. Com esta iniciativa, é desejo do Conselho Editorial tributar honra a homens de fé, liderança e ousadia que no turbilhão das atividades cotidianas do ensino e pregação ainda reservavam tempo para legar às gerações futuras um reflexo de sua teologia e experiência no Santo Ministério. Esperemos que a visão, teologia e poimênica desses líderes, que aqui a muitos representam, ajudem a manter - e a redirecionar se preciso - a perspectiva do Seminário em sua caminhada histórica - escatológica ad maiorem Dei gloriam. - AR

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FÓRUM

Domingo: final de semana?
Em tempos recentes, nossa agenda pastoral (agenda Concórdia) removeu o domingo para o fim da semana, assim que, onde antes se via o domingo, agora aparece a segunda-feira. A explicação, não oficial, que me foi dada é esta: os pastores programam de segunda ou terça a domingo e por isso é mais prático ter a semana disposta daquela maneira. Por outro lado, isto também pode ser um reflexo de nossa visão de sábado e domingo como "final de semana". Por que estaria eu levantando esta questão? Minha reflexão poderá ser interpretada como a de um reacionário que se vê frustrado em encontrar um calendário que difere dos calendários aos quais está habituado. Outro dirá que discutir calendários não fica longe de discutir o sexo dos anjos. Em todo caso, entendo que a reflexão se justifica. Se é verdade que uma razão de ordem prática, isto é, a semana do pastor determinou a alteração do calendário, por que não se começou a semana com a terça-feira, já que para muitos pastores o "fim-de-semana" se estende até a segunda-feira? Teológica ou liturgicamente falando, teria sido mais sensato começar a semana com o sábado, e não com a segunda-feira. Minha preocupação maior reside nisto: consciente ou inconscientemente a igreja está adotando e sancionando uma visão secularizada da semana. Todo mundo fala, "bom fim-de-semana", e entende por isso "bom final de sexta, bom sábado, e bom domingo". "Precisamos nos adaptar aos tempos", dirá alguém. Mas deveria a igreja ajudar a "sacramentar" esta visão secularizada do domingo? Temos razões suficientes para isto? Penso que não. Ao contrário, entendo que há bons motivos para que, ao menos na igreja, se deixem as coisas como sempre foram. Antes de mais nada, o domingo sempre foi, ao menos desde os tempos bíblicos, o primeiro dia da semana. Como primeiro dia (ou oitavo dia) ele lembra e simboliza a nova criação iniciada na ressurreição de Cristo. Isto por si só já justificaria todo esforço para se manter viva a lembrança de que o domingo é começo, não fim. Por outro lado, este primeiro dia, santificado pelo exercitar-se na palavra de Deus e pela participação no

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Santo sacramento, é dedicado ao Senhor como as primícias de nosso tempo. Reservamos para tanto, não os últimos suspiros de um fim- de-semana preguicento, mas os primeiros momentos da semana que inicia. Qualquer um destes dois argumentos me parece muito mais imponente do que qualquer razão de ordem prática, mesmo que tenha a ver com a rotina de trabalho do pastor.

Vilson Scholz

Pastor: equipador dos santos para o ministério?
Já se tornou corrente entre nós insistir que uma das funções - ou até mesmo a função - do pastor é equipar os santos. Com os ventos do movimento "Church Growth" soprando em nosso meio, tudo indica que passaremos a ouvir cada vez mais este discurso. Perguntaria alguém: "E o que tem de errado com isto? A passagem de Efésios 4.12 não deixa claro que o Senhor exaltado deu o ministério à igreja "com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço"? De fato, lendo o texto da tradução Almeida Revista e Atualizada (ARA), parece não restar dúvida de que isto é assim. E se se consultar outras traduções modernas (portuguesas, inglesas, etc.) a coisa parece ficar mais clara ainda. Parece haver um consenso de que esta é a leitura do texto. Diante disso, qualquer tentativa de sugerir que o texto não está sendo entendido corretamente pode parecer um exercício de futilidade. Talvez seja impossível neste espaço demonstrar que tal tradução está incorreta. O que pretendo fazer é, no mínimo, indicar que aquela não é a única leitura possível. A rigor, trata-se de uma forma nova, moderna, de entender o texto. Até meados do século XX costumava-se ler este texto numa versão diferente. A diferença em relação ao texto que conhecemos residia numa vírgula separando também as duas primeiras locuções preposicionais do versículo 12: Ele deu o ministério "com vistas ao aperfeiçoamento do santos, para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo". A Almeida Revista e Corrigida (ARC) reflete esta compreensão do texto. Assim também a Bíblia Vozes: "É ele que a uns fez apóstolos àqueles pastores e doutores, para o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, na edificação do corpo de Cristo." Na impossibilidade de apresentar toda uma bateria de argumentos, quero ao menos compartilhar parte da argumentação apresentada pelo

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biblista australiano Dr. Henry P. Hamann, num artigo publicado na edição de janeiro de 1988 do Concórdia Journal (revista do Concórdia Seminary, St. Louis, EE.UU). O Dr. Hamann afirma que o apoio lingüístico para a difundida tradução moderna é nulo. Ele se baseia em dados como estes: Na literatura grega, bíblica e profana, katartismós ("aperfeiçoamento") nunca aparece seguido de outra locução preposicional a lhe completar o sentido. Isto sugere que, em termos lingüísticos, é mais correto inserir a vírgula após "santos" do que deixá-la fora. Por outro lado, no Novo Testamento, diakonía ("serviço") nunca é qualquer tipo de serviço, mas sempre um serviço especial. Logo, parece justificado entender diakonía no sentido de "serviço ministerial". Conclui o Dr. Hamann que a tradução que omite a vírgula (ARA) se deve mais a considerações de natureza dogmática do que a argumentos lingüísticos. Começou a ser defendida nos idos da década de 1940 e foi popularizada pelo Conselho Mundial de Igrejas. Sua intenção é, ao que parece, combater uma visão clericalista e enfatizar a participação dos leigos no trabalho da igreja. Já segundo Hamann, as duas leituras podem ser vistas como clericalistas, pois a "prioridade" dos pastores é mantida em ambas. Quanto aos leigos a atividade destes aparece em Ef 4.16! O argumento final de Hamann é que compreensão do texto refletida na ARA parece pressupor um conceito de igreja que se assemelha a uma empresa ou grande companhia, na qual diferentes pessoas cumprem diferentes tarefas que contribuem para o sucesso do empreendimento. O pastor por sua vez é visto como um burocrata ou treinador de pessoal, dizendo a cada um o que lhe compete fazer. Hamann nos lembra que esta não é a imagem da igreja no Novo Testamento. O que vemos no Novo Testamento é uma igreja que se reúne aqui e acolá, nesta cidade ou naquela vila, para culto, oração, e para edificação mútua na fé. Evangelização ou crescimento da igreja no estilo do Novo Testamento aparece em passagens como Mt 5.16, 1 Pe 2.11-12, 1 Pe 3.1, 1 Pe 3.15, e não em Ef 4.12!

Vilson Scholz

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ARTIGOS

Semeando o Grão de Mostarda
John Hartmeister
De quando se resolve começar O desejo de formar um ministério autóctone no Brasil veio conosco desde o Seminário em St. Louis. Diante de nós tínhamos o exemplo dos pais em Perry County, no Missuri. A maioria dentre nós havia visto a veneranda cabana de pau roliço em Altenburg, que se achava então num pasto e se nos apontava como o primeiro ginásio do Sínodo de Missuri. Da história eclesiástica, sob A. L Graebner, aprendêramos pelo exemplo dos Suecos do Deleware que a Igreja sem ministério autóctone está fadada a extinguir-se. Chegáramos ao Brasil com o propósito de plantar a Igreja da doutrina pura. Se é que a nossa obra se devesse coroar de êxito, necessário nos era possuir uma escola para formação de obreiros nativos da Igreja. Um periódico local (Der Bote von São Lourenço) trouxe a comunicação, datada em 26 de abril de 1903 e assinada por J. Hartmeister, que a Conferência Pastoral de São Lourenço, em sua reunião, de 20 a 22 de abril de 1903, havia considerado o assunto pertinente ao preparo de um ministério autóctone para a Igreja Luterana do Brasil. Fora deliberado iniciar a obra em Bom Jesus. Foram membros desta conferência: F. Brandt de Morro Redondo, R. Mueller de São Pedro, H. Stiemke de Santa Eulália, A. Vogel de Santa Coleta e J. Hartmeister de Bom Jesus. Também assistira à conferência o pastor W. Mahler de Porto Alegre, diretor de nossa missão no Brasil. A mesma durou de segunda a quarta-feira, 20 a 22 de abril de 1903. O pastor Mahler demorou-se ainda depois da conferência e pregou

Dr, John Hartmeister foi fundador, professor e diretor do Instituto de Bom Jesus, Sao Lourenço, Pelotas, RS, de 1903-1905. A primeira parte deste artigo foi publicada no Mensageiro Luterano, ano 36 (1): 2-4, jan 1951 e (2): 11-12, fev 1951. A segunda parte, que inicia com o subtítulo "Visita à nossa missão", foi traduzida do inglês pelo Prof. Christiano J. Steyer.
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em Bom Jesus no domingo seguinte, 26 de abril de 1903, por ocasião da primeira festa missionária aí realizada. Depois do culto, apresentou à congregação em Bom Jesus a resolução da conferência e obteve o seu consentimento ao nosso projeto. Desta transação todavia não se guardaram minutas por escrito. As dificuldades despontam Por volta de 22 de julho de 1903,1.800 tijolos haviam sido comprados ao preço de 63 mil réis (valor aproximado de 320 cruzeiros atuais), todavia ainda não arrumados. Antes de se colocarem os tijolos, deu-se um fato que ameaçou pôr termo a todo o nosso projeto. Passarei a narrá-lo segundo me veio ao conhecimento. Numa tarde de domingo, minha esposa eu nos achávamos sentados em nossa cozinha agradavelmente confortável, diante de uma xícara de café. Eis quando percebemos um grupo de gente nossa reunindo-se na estrada no ângulo em que ficava a nossa Igreja. Sugeri que possivelmente estariam promovendo alguma venda de cavalos. Tão pouco sabíamos dos motivos reais daquele ajuntamento. Transcorrido um bom tempo, dois membros da diretoria da comunidade penetraram em nossa cozinha com uma expressão mais de acanhamento nos semblantes. Podíamos ver que na sua mente havia qualquer cousa, contudo não nos mostrávamos ansiosos em descobrir o que seria. Oferecemos-lhes café e bolo, porém declinaram e nada disseram. Por minha vez mantive-me também em silêncio e nenhuma pergunta lhes fiz. Foi um momento embaraçoso, mais para eles que para nós, porque estávamos de consciência tranqüila. Finalmente um dos homens saiu-se num rompante: - A congregação não quer que o senhor construa. Falei: - Construir o quê ? - Bem, isto para que o senhor tem aí os tijolos. - Por quê? - disse eu - A congregação permitiu esta construção por ocasião da sessão quando aqui esteve o pastor Mahler. - Mudaram de idéia; agora não o querem. Não adiantava querer argumentar com estes homens; haviam sido mandados pelo povo na estrada junto à Igreja. Procurei falar ao grupo; porém quando estava pronto para ir ter com eles, já se haviam dispersado. Disse aos dois homens que permanecia na resolução da congregação e levaria avante a construção. A reunião na estrada não constituía reunião legítima da congregação, e eu não lhe reconheceria a demanda. Eles partiram.

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Torna corpo a excitação A excitação no seio da congregação, porém, continuava tomando vulto. O homem que eu contratara para colocar os tijolos recusou trabalhar. À noitinha no dia seguinte ouvimos muitos cavalheiros passarem montados por nosso sítio. Na outra manhã saberíamos o que vinha a ser aquilo. Praticamente o mesmo grupo que domingo à tarde se congregara na estrada na curva em que ficava a igreja reunira-se naquela noite de segunda-feira em casa de um colono. Tornaram a vir aqueles dois mesmos membros da diretoria (o terceiro membro da diretoria da congregação não simpatizava com o grupo e não tomou parte no seu empreendimento) e apresentaram uma folha contendo nomes, com a explicação de que todos aqueles homens se opunham à construção. Caso persistisse em prosseguir, teria de sair dentro de três meses. Era a minha resignação pelo que lhes dizia respeito. (Exigia uma lei tácita que a congregação permitisse ao pastor ou professor três meses de prazo para procura de outro lugar, quando o quisessem despedir; e do pregador ou professor se exigia igualmente que permitisse à congregação o mesmo prazo de graça para procura de outro homem). Compreendi que a situação se fizera perigosíssima. Todavia não permiti que me dominasse a excitação por causa disto. Disse novamente aos homens que a reunião não era legal e que a sua petição não era petição em absoluto. Percorrendo com os olhos a sua lista de nomes, descobri que apenas a metade dos membros da congregação aproximadamente se achava naquela lista. Descobri ainda que alguns daqueles nomes eram espúrios. Ao perguntar aos homens: - Esteve este na reunião? - Disseram: - Não, mas sabemos que se opõe à construção. Podia ser que fosse verdade, todavia o fato de haverem escrito o seu nome na petição tornou nula toda aquela lista de nomes. Fiz então uma proposta àquela comissão. - Não desistirei deste projeto nem irei dentro de três meses. Porém isto farei: convocarei uma assembléia regular de toda a congregação, e aí vamos discutir o assunto. E o que então decidir a congregação, a isto me aterei. Isto pareceu plausível, e eles se tranqüilizaram. Enquanto Emílio Wille (agora pastor naquela mesma congregação, em 1947) se punha a caminho em busca dos membros da Conferência de São Lourenço com o fim de os convocar para uma reunião de emergência no domingo seguinte, eu em casa me estafava em descobrir a razão ou causa de toda aquela excitação na comunidade. Fui ter com o colono em cuja residência se realizara a reunião de protesto na noite de segunda-feira.

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Era o cabeça da oposição. Aqui vim saber que pessoas de fora haviam prevenido a nossa gente para que não nos permitissem construção em seu terreno. Pois, se o fizessem nós poríamos a mão no seu terreno e o tomaríamos para nós. (Era a reputação em que ao tempo eram tidos os americanos do norte no Brasil). Uma Idéia destas era, naturalmente, ridícula, contudo criara todos aqueles distúrbios. Não procurei desmenti-lo ou convencê-los do contrário. Vali-me daquilo para torná-los partícipes do empreendimento. Argumentei: Se era assim como diziam, a melhor maneira então seria para eles fazerem mesmos a construção, e jamais requisitaríamos qualquer de suas propriedades. O cabeça aceitou a proposta, e eu a guardei de reserva para a reunião que fôra marcada para o domingo próximo.

Foi uma semana de grande agitação para nós. Quinta, nasceu-nos o segundo filho; sábado, chegaram os irmãos da conferencia e havia que lhes dar de comer e os alojar num só quarto, porquanto minha esposa e o nenê se achavam no outro quarto, Tínhamos em nossa casa apenas dois quartos. Um dos irmãos concordou amavelmente em pregar para mim no domingo de manhã. Depois do culto, reaiizou-se a assembléia da congregação, não na igreja, mas no espaço entre a casa e a cozinha. Eu me achava de pé sobre a escada da casa para anunciar a finalidade daquela reunião. No momento em que mencionei "construção", deu-se o pandemônio. Alguns gritaram: "Não se construirá!"; outros: "Há de se construir!" (Em dialeto germânico: "Et schall nicht bugt warn !"; "Et schall doch bugt warn!"). Não me foi possível intercalar uma palavra sequer. Deixei, pois, que gritassem durante algum tempo. De dois em dois agarraram-se pela lapela do casaco e berraram a sua opinião cada qual nos ouvidos do outro. Um berrava a favor da construção, outro contra. Um jovem alegou a presença de um velho na assembléia. (Era costume que só os que possuíssem terras tinham direito de voto. Os velhos que houvessem passado para os filhos as suas terras já não tinham direitos congregacionais). Aquele velho justificou a sua presença alegando que substituía o filho, que não pudera estar presente, e permitiram-lhe que ficasse. Vitória ganha Seguindo-se uma pausa, pedi-lhes que me ouvissem. Espliquei-lhes de novo o nosso projeto e me reportei à resolução da congregação em presença de Mahler. A seguir mencionei os distúrbios recentes e as suas razões aduzidas e, em conclusão, saí com a solução sugerida. Eu restringira tanto o custo líquido do material para a construção de uma só peça que poderiam facilmente custeá-lo. Orçava em 5 mil réis por membro.
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Assumindo as despesas, a construção proposta se tornaria propriedade deles, e ninguém lha poderia tirar. Quando se lhes pediu a sua opinião, os amigos de nosso projeto puseram-se a persuadir os outros a que votassem a favor. - Sue, Gustav, dat koent wi wol dohn; dat is jo nich vael." ("Vês, Gustavo, bem que o podemos fazer; pois não é muito"). Novamente se havia estabelecido na congregação a paz e harmonia. Para ter certeza para o futuro, perguntei a alguns da oposição se pagariam a sua quota chegada que fosse a hora do pagamento. Cada um asseverou que pagaria se o fizessem os outros. Todavia, quando chegou a hora do pagamento, houve um nozinho. Era de regra que cada membro pagasse de acordo com o tamanho de sua colônia. Se possuísse um lote ou meio lote pagaria uma quota parte. Se possuísse dois lotes, pagaria o dobro do montante de uma quota parte, e se possuísse três lotes, pagaria o triplo do montante. (Lote era um pedaço de terra de 220 por 2.200 metros, com a parte estreita da colônia para a estrada). Ora, sucedeu que o homem com três lotes esteve a favor da construção. Todavia, quando chegada a hora do pagamento, resolveu pagar simplesmente uma quota parte, uma vez que não eram gastos regulares da congregação. Os outros contudo insistiram em que devia pagar três vezes o montante que pagara. Foi preciso usar de finura e tato para o levar a pagar a sua quota proporcional, mas finalmente o fez. Somente um membro do sexo feminino recusou terminantemente a pagar a sua quota. Em vista disto também alguns homens se recusaram. Eu lhes falei: "Senhores, então vão permitir que uma mulher os retenha de fazer o que prometeram fazer? Se esta mulher não quer pagar, deixemo-la em paz; dispomos de recursos para lhe dar esta quantia. - Isto deu resultado. Todos pagaram, à exceção daquela mulher. Um monumento Trinta e três anos mais tarde, foi pela congregação erigido um monumento de granito naquele mesmo ponto junto à igreja em que se realizou aquela primeira reunião de protesto. O monumento mede aproximadamente 12 pés de altura. Foi inaugurado no dia 8 de março de 1936, quando em Bom Jesus se realizou uma convenção sinodal. O prof. Paul Schelp de Porto Alegre proferiu a alocução inaugural e fez a oração de inauguração. Traz o monumento a seguinte inscrição: "Denkstein zur Gruendung dez Konkordia Seminars der Evangelisch-Lutherischen Synod von Brasilien

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1903. Gott zur Ehre, der Kirche zum Heil." ("Monumento comemorativo da Fundação do Seminário Concórdia do Sínodo Evangélico Luterano do Brasil, 1903. Para honra de Deus e para o bem da Igreja"). O trabalho de gravação no monumento foi feito por um austríaco de nome Auer. Fora ele um católico, mas em Solidez converteu-se ao luteranismo. Fez o favor em gratidão pela paz de espírito que encontrara na Igreja Luterana por meio de nossa missão. A construção ultimada Voltamos para 1903. Depois que a congregação reconsentiu na obra, não nos demoramos a começar. O livro de jubileu Fuenfundzwanzig Jahre unter dem Suedlichen Kreuz apresenta à página 83 uma fotografia do quarto que construímos para os nossos rapazes. Ocupava uma extremidade de um galpão ou celeiro. Na armação do edifício estavam metidos os tijolos. Dispunha de uma janela. A porta que dava acesso ao quarto achava-se no interior do celeiro. Junto à janela havia para os rapazes uma mesa comprida onde trabalhar e estudar. Um banco fazia as vezes de cadeiras. Na parte traseira do quarto ficavam as acomodações de dormir, camas fixas com guardas, sobrepostas, como os leitos nos navios. Nas paredes havia espaço para as suas roupas de trabalho e debaixo das camas para os seus baús e arcas. Um lampião a querosene fornecia a luz. Não sabíamos ao tempo de nenhuma outra fonte de luz. O quarto não era rebocado nem provido de aquecimento algum. Dias houve na estação mais fria em que não era possível aos rapazes trabalhar e estudar aí. Vinham então à nossa cozinha, onde também tomavam conosco sempre as suas refeições. Abre-se a escola Na tarde do dia 27 de outubro de 1903 iniciou-se o trabalho com três rapazes: Emílio Wille, de uma congregação vizinha; Henrique Drews e Evaldo Hirschmann, de nossa primeira congregação em São Pedro, ambos ainda não confirmados, mas contando quinze anos de idade. Foram confirmados no ano seguinte em sua congregação de origem pelo seu próprio pastor. Semanas depois chegou Franz Hoffmann de Santa Coleta. O último estudante chegou a 2 de março de 1904, provindo do nordeste, onde fora assistente do pastor H. Wittrock, dirigindo uma escola em Osório. Adolfo Flor principiou a sua longa jornada em janeiro. Viajou a pé, a cavalo e de vapor. Nosso quartinho estava agora superlotado, contudo o serviço prosseguiu a despeito das dificuldades. O retrato destes primeiros achava-se estampado no livro Fuenfundzwanzig Jahre unter dem Suedlichen Kreuz,

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à página 88. (Presentemente, 1947, apenas um deles, Emílio Wille, continua ativo como pastor de congregação em Bom Jesus. H. Drews não concluiu os seus estudos, Flor faleceu em Maratá há muitos anos atrás, Franz Hoffmann aposentou-se e Evaldo Hirschmann entrou também para a Igreja Triunfante). O trabalho no instituto O trabalho no Instituo principiou apenas alguns dias antes da publicação do Ev. Luth. Kirchenblatt fuer Suedamerika. É evidente que as páginas deste jornal fossem freqüentemente usadas para chamar a atenção de nossa gente para a causa de nossa escola. Dois artigos foram publicados pouco depois de começado o trabalho. Num terceiro descreve-se a rotina diária no Instituto. Encontramos este artigo no no 23 do vol. I, pag 180, 1º de outubro, 1904. O trabalho progredira então por um ano mais ou menos. Citamos em tradução: "A viagem de nossa estação de Pelotas dura aproximadamente dia e meio. Primeiro a estrada atravessa baixas esplanadas onde há muitas rezes pastando. Nossa Colônia São Lourenço fica situada na área revestida de matas. Em alguns pontos a estrada atravessa a floresta. Esta colônia de alemães foi estabelecida há mais ou menos 40 anos. Nosso destino é a colônia chamada Bom Jesus, ainda chamada também Estrada Velha ou Pommernstrasse. Todos aqui, à exceção de um só, vieram da Pomerânia e falam o baixo alemão. "A igreja em Bom Jesus, que também serve de escola para as crianças da congregação e de sala de aulas para o nosso Instituto, é de alvenaria, estucada por fora com cimento e na parte interna com barro e caiada. Cinco janelas em cada lado permitem a entrada de luz. A parte superior das janelas é arqueada e revestida de vidraça colorida. A igreja ocupa o ponto mais alto na vizinhança, sendo que o terreno se estende em declive em todas as direções. "A retaguarda da igreja para as bandas do Leste fica o cemitério, a Oeste o presbitério e um pomar de pêssegos. O panorama à distância por sobre campos e matas é belo, especialmente quando uma espessa névoa cobre os vales mais baixos. "A cerca de quarenta metros do presbitério fica o quarto dos rapazes, onde estudam e dormem. As suas refeições a tomam à mesa do pastor na cozinha. São preparadas pela esposa do pastor com a ajuda de um dos rapazes. Os outros quatro trabalham de manhã na lavoura. A principal hora de estudo vem depois da ceia. As noites são em geral frescas e muito apropriadas para estudo bem como para descansar e dormir.

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"O sol nascente encontra-nos em geral à mesa do desjejum. Cada um dos 5 rapazes tem sua tarefa a realizar: mungir duas vacas, dar de comer às galinhas, carregar água de um poço 400 metros mais ou menos distante da casa, partir lenha, varrer o pátio, etc. Após o café matinal e a ceia fazem-se as devoções diárias. Às sete chegam as crianças para a escola. Durante as horas da manhã o pastor está ocupado na escola com as crianças até 11 h ou 11 h30min aproximadamente. "O tempo entre o almoço e 14h30min é empregado pelos rapazes para repassar as lições e repousar. Às 14h30min começa o trabalho com a classe. Segue-se rigidamente um plano de estudo. Segundas, quartas e sextas, principiamos nosso trabalho com uma lição de Catecismo; as terças, quintas e sábados são dedicados às Histórias Bíblicas. Desta forma o trabalho de cada dia é iniciado com religião. Todo o Catecismo Menor foi decorado, também todos os versículos na parte de Schwan e quinze hinos e seis salmos. No segundo ano começamos com o estudo da Confissão de Augsburgo, que estava contida atrás no hinário alemão. "Três horas na semana eram reservadas para a aritmética. Os problemas e as regras eram explicadas num pequeno quadro negro e as novas lições ditadas para os seus cadernos de apontamentos. Três horas na semana também eram dedicadas ao estudo do alemão. Não dispúnhamos de nenhum outro compêndio além do Third Reader (Terceiro Livro de Leitura) da Neue Serie (Nova Série) da Concordia Publishing House. Estudamos a matéria de leitura também quanto ao conteúdo. Cada estudante lê uma oração. Sua pronúncia, acentuação e inflexão de voz são criticadas, corrigidas e melhoradas. As explicações ao conteúdo da matéria da lição são restringidas ao mínimo para que sobre tempo para a lição gramatical. O artigo lido tem de fornecer os exemplos para os elementos gramaticais. As regras gramaticais são copiadas nos cadernos de apontamentos. Cada terceira semana exige-se uma redação, às vezes sobre um tópico marcado, outras sobre algo de própria escolha. (O último trabalho de Adolf Flor consistiu na descrição de sua viagem de Cruz Alta a Bom Jesus. Foi uma longa história e em certos momentos bastante emocionante. Li-a com profundo interesse. J. Hartmeister. 1947). "Para estudo da história universal empregamos um primoroso compendiozinho, Weltgeschichte de Kappe, para geografia, porém não dispúnhamos de compêndio, de mapas, de globo. A mesma cousa era com o estudo de botânica, zoologia e latim. Toda a matéria letiva tinha de ser ditada e assente em cadernos de apontamento. Dedicamos uma ou duas horas por semana a estas matérias. No tocante ao português, sabiam os estudantes mais que o professor. Deixamos, pois que praticassem um pouco sob a nossa supervisão.
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"Aquelas duas horas entre 14h30min e 17h passam rapidamente entre profícuo labor. Como seria diferente, se estudantes e professor pudessem devotar todo o seu tempo e esforço a este trabalho." O autor deste artigo no Kirchenblatt concluiu com o apelo: "Se é para a Igreja Luterana do Brasil se manter e florescer, torna-se imperioso o preparo de professores e pregadores. Onde os encontramos? Até o presente (quatro anos) o Sínodo de Missouri os tem enviado da América do Norte. Atualmente há, porém, no Sínodo grande escassez de pregadores e professores. Somente neste ano (1904) foram chamados setenta e dois professores, e apenas de vinte e sete se dispunha. É, pois, óbvio que as nossas congregações não podem ser atendidas segundo as suas necessidades. A única solução é preparar os nossos próprios rapazes em nosso próprio país para o trabalho na Igreja. O começo foi feito e foi descrito nas linhas precedentes. Será pois, do interesse de todas as congregações do nosso Distrito constituir fileira atrás do Instituto para formação de professores e pregadores em Bom Jesus". Visita à nossa missão Para as congregações brasileiras bem como para nosso Instituto, 1904 foi um ano memorável. O Presidente do Departamento de Missão para a América do Sul, Rev. Louis Lochner de Chicago, visitou todo o trabalho missionário a pedido do Sínodo. O resultado desta visita foi a formação de um novo distrito sinodal, o Distrito Brasileiro.Naquela época era o décimo quinto. A fundação foi em 24 de junho de 1904 na localidade de Rincão São Pedro, na congregação do Pastor J. Harder. A nova organização foi formada por 14 pastores, 10 congregações e um professor. O Pastor Lochner presidiu a sessão. Ele havia visitado a maioria de nossas congregações de forma que possuía uma boa visão geral da situação. Sua série de visitas iniciou no mesmo local onde o Rev. C. J. Broders começou nossa missão em 1900. Durante toda a visitação o Pastor Lochner esteve acompanhado do rev. W. Mahler. Em São Pedro prepararam uma calorosa recepção ao visitante de sorte que, desde o início, ele teve uma boa impressão da missão brasileira. O mesmo, no entanto, não se repetiu em outros lugares, especialmente em Bom Jesus, como saberemos mais diante. A visitação em Bom Jesus Tivemos alguma dificuldade para conseguir que os Pastores Lochner e Mahler visitassem nossa paróquia. Era costume que cada congregação buscasse os visitantes na congregação vizinha. Quando chegou nossa vez, julgamos que deveríamos buscá-los na congregação do Pastor Vogel em

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Santa Coleta. Era viagem de um dia inteiro e não havia estrada boa que ligasse as duas localidades. Na minha congregação não pude encontrar alguém que estivesse disposto a empreender tal jornada, nem por amor nem por dinheiro. Além disso, eles nem queriam a visita deste homem da América do Norte. Nesta emergência alguém praticou um gesto de verdadeiro amor e amizade. 0 pai do estudante Wille não pertencia à nossa congregação, no entanto freqüentava nossos cultos desde o início e seus filhos estudavam em nossa escola. Este declarou-se disposto a buscar os dois pastores, Lochner e Mahler, e, de fato, os trouxe até nossa porta. Chegaram tarde na noite, cansados e exaustos. Receberam cordiais boas vindas, uma boa sopa e, logo mais, uma cama macia. O Pastor Lochner proferiu o sermão na manhã seguinte. Estava programado que, na mesma tarde, ele dirigiria a visitação à congregação. Justamente nesta data a congregação iria reunir-se para a sua assembléia trimestral ordinária. (As assembléias da congregação não se realizavam na igreja. O povo achava não ser apropriado que tais assembléias acontecessem na casa de Deus, recinto muito reverenciado por eles. Discussões violentas se travavam nas assembléias e em raras ocasiões até resultavam em cabeças sangrentas. Assim é que as assembléias ordinárias eram convocadas para as residências dos membros da diretoria.) Nesta ocasião a convocação foi para a casa de nosso vizinho mais próximo. Não precisávamos estar presentes para os assuntos administrativos da congregação, de forma que ficamos aguardando na casa pastoral. Pedi que alguém enviasse um jovem para nossa casa tão logo os assuntos administrativos estivessem concluídos. Excepcionalmente desta vez os assuntos administrativos tomaram bastante tempo, mas finalmente um rapaz veio avisar-nos que eles estavam prontos. Encontramos a congregação muito bem representada numa grande sala da casa de um agricultor. Apresentei o visitante da América do Norte. O Pastor Mahler era bem conhecido e não precisava ser apresentado. O Pastor Lochner iniciou sua visitação entregando as saudações dos irmãos da América do Norte e a seguir falou em detalhes a respeito de nosso trabalho no Brasil. Finalmente fez as costumeiras perguntas a respeito do trabalho do pastor na congregação. "Divide ele corretamente lei e evangelho?" Nenhuma resposta. "Instrui ele diligentemente as crianças na doutrina cristã?" Nenhuma resposta. Isto, no entanto, não poderia continuar assim, pois o visitante precisaria ter respostas para suas perguntas. Tornou-se mais prático. Dirigiu sua pergunta a respeito de instruir crianças a um homem idoso sentado perto dele. Desta vez ele obteve resposta: "Ik hev keen kinner mehr in de schaul" ("Não tenho mais crianças na escola"). Então ele fez a mesma pergunta a uma pessoa mais jovem. Este respondeu: "Ik hev noch keen kinner in de schaul" ("Eu ainda não tenho crianças na escola"). Os recursos do visitante, porém, ainda não estavam esgotados.
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Perguntou se eles haviam estado na igreja num culto de Confirmação e se os confirmandos conseguiam responder. "Sim, sim," isto haviam escutado. Após este exame nada intensivo mas muito exaustivo, o visitante sentou-se e não fez mais perguntas. Ele estava liqüidado. Seguiu-se um silêncio constrangedor. Finalmente sugeri aos membros da congregação que agradecessem as saudações que o visitante trouxe dos irmãos dos Estados Unidos e que ele também fosse, ao retornar, o portador de nossas saudações a eles. Eles, no entanto, acharam melhor não fazê-lo. Estavam desconfiados de que algo poderia estar atrás de tudo isso. Quando expliquei que se tratava apenas de um gesto de cortesia, assim como também respondemos a saudação de uma pessoa de cor que nos cumprimenta na rua, eles assim mesmo continuaram desconfiados. "Wi willt mit der Synode nix to dohn hebbn" ("Nós não queremos nenhum envolvimento com o Sínodo"). Isto foi demais para nosso visitante. Agora a sua paciência estava esgotada. Colocou as mãos na cabeça e disse: "Nun, wenn Ihr nicht grüssen wollt, dann lasst es bleiben. Adje!" ("Se vocês não querem nem ao menos enviar saudações, então deixem. Tchau!"). Dito isto, ele saiu e nós o seguimos. Este foi o primeiro contato que ele teve com o povo e com o qual nós precisávamos lidar durante os sete dias da semana. Por um bom espaço de tempo ele não conseguiu recuperar sua tranqüilidade. Foi preciso que o Pastor Mahler empregasse toda a sua capacidade de persuasão junto ao nosso ilustre visitante para neutralizar o impacto que ele havia sofrido. "Veja," assim ouvi o Pastor Mahler falar quando estavam sozinhos, "este povo deseja que lhes anunciemos a Palavra de Deus. Esta manhã eles ouviram atentamente o que você lhes anunciou no sermão. O fato de eles nada quererem com o Sínodo é porque não compreendem do que se trata." O povo não entendeu os motivos da visita do Pastor Lochner, por isto lhe deram tal recepção. Mais tarde ouvi uma observação que um membro da congregação fez antes de um culto: "Duesse (Hartmeister) het ju den Strick um den Hals legt, un duesse (Lochner) kuemmt nu un tuet em to" ("Este sujeito (Hartmeister) colocou a corda ao redor de seu pescoço e este outro (Lochner) vem agora para apertá-lo mais ainda".) Com esta disposição de ânimo dificilmente conseguiriam dar um cordial bem-vindo ao visitante da América do Norte. A visita ao instituto O Pastor Lochner também visitou e examinou meu trabalho com os cinco rapazes. Pareceu-me ter ficado com impressão favorável. Também certificou-se das dificuldades com as quais estávamos lutando. Suas palavras de apoio foram: "Hartmeister, Ihnen soll geholfen werden" (Hartmeis136

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ter, você vai receber auxílio"). Este apoio deu-nos grande ânimo. Quando Lochner e Mahler partiram, estávamos cheios de novas esperanças para nosso Instituto. A organização do Sínodo Em junho daquele ano, 1904, o Distrito Brasileiro do Sínodo foi organizado em Rincão São Pedro. A terceira parte da tarde do segundo dia foi quase inteiramente dedicada para discutir assuntos relativos ao Instituto. Um completo relatório foi entregue ao Sínodo sobre as atividades desenvolvidas até então. As dificuldades sob as quais estávamos expostos foram levadas ao conhecimento dos irmãos. Declarei que eu não seria capaz de levar o trabalho avante, no futuro, caso não recebesse auxílio, especialmente financeiro. Providenciar alimentação e parte da vestimenta para cinco rapazes e para uma família de quatro pessoas, com um salário de $400 por ano, não era possível. Cozinhar, lavar e remendar a roupa, estava além das forças físicas da esposa do Pastor que, além disso, precisava cuidar de dois filhos pequenos. Dos $400 nada sobrava para pagar uma auxiliar. Os irmãos ali reunidos estavam dispostos a auxiliar-nos financeiramente, mas cada qual, a duras penas, tinha apenas o suficiente para sua própria família. Todos, igualmente, apenas recebiam $400. O Sínodo deu atenção a nosso pedido e o Pastor Lochner endossou nosso trabalho afetuosamente. O Sínodo aprovou a resolução da Conferência de São Lourenço fixando o Instituto em Bom Jesus. O Sínodo assumiu o Instituto como um projeto seu. Muitas resoluções foram aprovadas pelo Sínodo para nos auxiliar. Todas as congregações receberam esclarecimentos sobre o trabalho do Instituto e foram solicitadas a enviar donativos. Como resultado destes pedidos uma congregação enviou dez mil réis, cerca de 2,50 dólares. Uma outra enviou meio mil réis, cerca de 65 cents. Os representantes das congregações, presentes na Convenção, levantaram ofertas num total de 40$500, mais ao menos dez dólares, para o Instituto. Uma outra resolução pedia que as pastores Vogel e Schulz, de São Lourenço, auxiliassem no Instituto. No entanto esta resolução mostrouse inteiramente inexeqüível. Também foi resolvido que a Conferência Noroeste desse início a um trabalho igual. Isto nunca aconteceu. Apenas com resoluções não se constrói nem se mantém faculdades e seminários. Todas as boas resoluções do Sínodo em Rincão São Pedro não aliviaram nossa situação. Lochner nunca cumpriu a promessa que me havia feito, "Hartmeister, Ihnen soll geholfen werden" ("Hartmeister, você vai receber auxílio"). Foi assim que continuamos levando o trabalho avante tão bem quanto possível, com os meios que tínhamos a disposição. Os rapazes trabalharam arduamente e sofreram conosco. Se não podíamos comprar

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manteiga para o pão, comíamos banha. Era mais barata. Quando não podíamos pagar ajuda, fazíamos o trabalho nós mesmos. E a maior parte do trabalho braçal recaía sobre minha esposa. Os rapazes ajudavam tão bem quanto possível, mas a maior parte das tarefas somente ela podia fazer.

O fim do começo
Em setembro de 1904 nossa pequena filha faleceu de coqueluche. Isto foi um grande choque para minha esposa e desde aquele acontecimento suas forças, a olhos vistos, começaram a minguar. Ela, porém, deu todas as suas forças pela causa do Instituto até o início de 1905. Então desfaleceu completamente e senti que meu dever era o de dar a ela toda a atenção e cuidado. Enviei os rapazes para casa quando estavam no início de seu segundo ano de estudo, dizendo-lhes que os chamaria de volta tão logo pudéssemos continuar o trabalho. As coisas, porém, foram de mal a pior em nossa família. Não vislumbrei outra solução a não ser voltar aos Estados Unidos, pelo menos por algum tempo, até que minha esposa recuperasse sua saúde. Em maio de 1905 o Pastor Emil Schulz, de São Pedro, tornou-se meu sucessor. De acordo com a resolução do Sínodo ele deveria assumir 0 trabalho que eu estava fazendo. Ele, porém não o fez. Evidentemente, percebeu que era preciso mais do que os recursos de um homem com um salário de $400 para levar avante o trabalho de nosso Instituto. Foi assim que o Instituto chegou ao fim, pelo menos durante algum tempo. A segunda Convenção do Sínodo em 1905 A seguinte Convenção do Sínodo teve lugar em Jaguari de 28 de abril a 2 de maio de 1905. Ainda estávamos em Bom Jesus, mas julgamos ser impossível participar deste evento. Além disto, estávamos decididos a voltar aos Estados Unidos. O Sínodo censurou o fechamento do Instituto, mas nada fez para que o trabalho pudesse prosseguir. Assim como as coisas estavam, não podíamos continuar. Diziam que o Instituto era uma "batata quente" e resolveram transferi-lo para Porto Alegre. Consideraram, porém, muito alto o custo da transferência para que fosse realizada imediatamente. Durante dois anos o Instituto permaneceu morto. Reconhecimento de nosso trabalho O trabalho que fizemos com os cinco rapazes foi reconhecido. Todos os cinco foram solicitados a prestar auxílio em escolas. O Kirchenblatt de 1 de agosto de I906, p. 117, escreve a respeito do Instituto: "Aquele começo, embora tenha sido pequeno, já trouxe ricos frutos. Os alunos mais velhos do Instituto em Bom Jesus têm atuação excelente nas escolas onde fomos 138
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obrigados a colocá-los premidos pelas circunstâncias"... ("bewaehren sich vorzueglich in den Schulaemtern, die wir ihnen notgedrungen uebertragen mussten"). Também o Der Lutheraner de St. Louis daquela época escreve a respeito de nosso Instituto: "Parece ser absolutamente necessário continuar com o Instituto de Bom Jesus e sustentá-lo devidamente a fim de que rapazes de lá possam receber formação para atuarem na igreja". Dois dos nossos estudantes em Springfield Embora tenhamos sido forçados a deixar o trabalho no Instituto que tanto amávamos e que dirigimos até não podermos mais continuar, não abandonamos a causa. Dois de nossos rapazes nos enviaram apelos para que os auxiliássemos a virem aos Estados Unidos, a fim de que pudessem concluir seus estudos em alguma de nossas instituições sinodais. Após muitos esforços conseguimos que Flor e Wille ingressassem em nosso Seminário de Springfield, em 1907. Formaram-se após três anos, em 1910. Ambos tornaram-se fiéis e eficientes obreiros em sua terra natal. Foram os primeiros frutos de nossos humildes esforços no Instituto de Bom Jesus.

A continuação
Uma nova etapa da História do Instituto começou quando abriu suas portas em Porto Alegre. Mas mesmo ali, desde o início, o trabalho foi cercado de muitas dificuldades. Em 1 de fevereiro de 1907, o Kirchenblatt anunciou a abertura do Instituto em Porto Alegre para quarta-feira, 10 de abril. Foi alugado um prédio conveniente, chamado um segundo pastor para a congregação de Porto Alegre e uma senhora foi contratada para a cozinha. O Pastor Mahler passou a dirigira instituição assistido pelo Pastor Wegehaupt. Tudo estava pronto para cumprir-se a resolução do Sínodo de Jaguari em 1905 a respeito da transferência do Instituto de Bom Jesus para Porto Alegre. No entanto, em 15 de abril de 1907 o Kirchenblatt trouxe uma nota anunciando que a abertura do Instituto fora adiada porque não haviam chegado alunos. Finalmente, em 1 de maio de 1907, o trabalho começou com quatro rapazes, dois de São Lourenço. Já então foram tomadas providências para um melhor apoio financeiro. Cada estudante devia pagar 25 mil réis mensais para a pensão. O Kirchenblatt publicou um veemente pedido por auxílio, escrito pelo Pastor Wegehaupt que naquela data era o administrador da escola. A conferência pastoral de 6 abril instituiu um fundo especial para estudantes necessitados. Começaram a vir contribuições de muitos lugares, como demonstram os recibos publicados pelo Kirchenblatt. O Instituto em Bom Jesus também conseguiu, indiretamente, que a causa da educação ficasse favoravelmente conhecida em toda a colônia

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de São Lourenço. Isto é provado pelo fato de oito dos primeiros estudantes em Porto Alegre terem vindo de São Lourenço. Após o Instituto haver sido transferido para Porto Alegre o seu sustento e o dos estudantes vinha com mais naturalidade, embora ainda não de modo suficiente. Em 1908 foi anunciado um déficit na caixa dos estudantes no valor de 390 mil réis embora 2610 mil réis houvessem sido contribuídos por pessoas e congregações. O Sínodo da América do Norte também prometeu pagar o aluguel do alojamento dos rapazes e para dois professores no valor de 200 mil réis por mês. O Pastor Wegehaupt foi então escolhido como professor e diretor do Instituto. No Sínodo em Sítio (Vila Progresso), de 13 a 18 de janeiro de 1908, o nome foi mudado de Instituto para Seminário Concórdia. Com o honroso nome "Concórdia" o nosso, antes humilde "Instituto", juntou-se à honrosa linha dos muitos "Concórdia" do Sínodo. Com um nome diferente, num local diferente e com o apoio decisivo do Sínodo, o anterior "Instituto para Treinamento de Professores e Pastores" cresceu e floresceu. O grão de mostarda tornou-se uma árvore. A Deus seja toda a honra e glória.

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O Estudo da História Eclesiástica
Louis C. Rehfeldt
A História Eclesiástica é aquela matéria do curso teológico que compreende e transmite os conhecimentos da fundação, progresso e conservação da Igreja Cristã e suas instituições, a fim de habilitar os estudantes a aproveitar estes conhecimentos na propagação, aplicação e defesa das verdades divinas. Como cada obreiro procura aperfeiçoar-se cada vez mais no seu trabalho, assim também o ministro do Evangelho sempre de novo deve procurar informar-se acerca do passado da igreja, suas lutas e vitórias, para que isto lhe sirva de estímulo no seu cargo. Como todo o estudo tem por fim a aquisição de conhecimentos, assim também o estudo da História Eclesiástica visa a aquisisão de conhecimentos determinados, isto é, a aquisição de conhecimentos da história da igreja. Aquilo de que o estudante da história especialmente deve procurar adquirir conceitos acertados, são a vida a obra das pessoas das quais a história trata. Cada pessoa que entra em cena na história, é um indivíduo que existiu e agiu como os indivíduos hoje também existem e trabalham. O estudante nunca deve perder de vista este fato. Certamente cada indivíduo é melhor conhecedor de si mesmo. Querendo conhecer as pessoas da história, devemos, por isto, procurar saber o que elas dizem de si mesmas. Para conhecer o apóstolo Paulo, convém ouvir o que ele tem de dizer de si mesmo. O "Paulo de Tarso" de Huberto Rohden, excelente livro que é, não pode dar-nos novos aspectos da vida do grande apóstolo, passando além do que o apóstolo revelou de si mesmo, mas pode-nos apresentar a vida e a obra do vaso eleito por Deus sob novos pontos de vista. O grande campeão da verdade Atanásio não é aquilo que os inimigos disseram dele. Quem nos pode dar os fatos da vida e obra de Atanásio, tão somente é o próprio Atanásio. Tantas vezes teve de fugir, de modo que nem os amigos muito menos os inimigos sabiam do seu paradeiro, como podem então dar informações exatas dele? Mas quando ouvimos Atanásio falar de si mesmo, quando ele relata os sofrimentos que padeceu, as lutas que travou, as boas intenções que sempre tinha, então sabemos que ele fala com acerto, porque uma pessoa acompanhava Atanásio no seu trabalho em Alexandria, no Concilio de Nicéia, no deserto do Alto Egito, em Constantinopla, em Roma,

Este artigo foi publicado pela primeira vez em Igreja Luterana, Porto Alegre, Ano V (8): 113-115, ago. 1944. Dr. Louis C. Rehfeldt foi professor do Seminário Concórdia de 1918-1959 e seu diretor interino de 1937-1938.
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de dia e de noite; esta pessoa era o próprio Atanásio. Só ele, por isto, pode dar-nos informações autênticas de si. Aqui surge uma dificuldade. Quem possui as obras de Atanásio? Entre nós poucos serão tão felizes de serem possuidores de um livro escrito por Atanásio. Com o apóstolo Paulo o caso já é outro. Temos a história dele nos Atos dos Apóstolos e temos as suas epístolas. Também acerca de Atanásio podemos adquirir conhecimentos fidedignos. Homens que merecem nossa confiança, possuidores de obras de Atanásio, relatam em compêndios de História Eclesiástica e em Enciclopédias o que há de essencial e verdadeiro na vida deste grande homem. Demoramos com Atanásio não por ser ele a pessoa principal ou única de quem a História Eclesiástica trata, mas para mostrar o que é o essencial no estudo; as fontes devem ser autênticas. Outra circunstância de primeira importância no estudo das pessoas da história é ter bem presente a época da vida e do trabalho de que fala o autor que estudamos. Do Agostinho, filho de Mônica, bem sabemos que ele foi outro antes de ouvir o célebre orador sacro Ambrósio. Das suas "confissões" podemos conhecê-lo como atravessou diversos períodos na sua formação. Ouvindo dele, pois, importa saber de que época da sua vida se trata. É a sua luta contra Pelágio que mais nos deve interessar. Ou tratando do próprio Lutero, temos um Lutero bem diferente antes de 1520 do que depois desta data. Uma vez desembaraçado dos empecilhos papais que o acorrentaram, a linguagem dele torna-se bem diferente. Em Melanchthon temos de distinguir bem o amigo e colaborador de Lutero e o pisa-mansinho dos colóquios reconciliatórios propostos por Carlos V depois da morte de Lutero. Grande foi o prejuízo que ele causou à causa do Evangelho pelas alterações feitas nos seus "Loci" e pelo "ínterim de Leipzig". No estudo da vida e obra das pessoas da História Eclesiástica a que nos interessa acima de tudo é a sua interpretação das Santas Escrituras. Não recorremos às biografias destes homens para conhecer a sua orientação teológica. Estudamos as suas obras. Lutero não nos deixou umas "confissões" ou uma autobiografia, mas ele nos deixou as suas obras reformatórias, o Cativeiro Babilônico da Igreja, de Servo Arbítrio, suas obras catequéticas, e principalmente seus sermões. Dos seus sermões aprendemos como ele ensinou o caminho à salvação ao povo. Para ele só havia um meio de se salvar, isto é pela fé na obra salvadora de Cristo. O estudo meticuloso de uma meia dúzia de sermões de Lutero vale mais para conhecer o grande reformador do que o estudo de longas biografias dele escritas por pessoas que não podem compreender a orientação de Lutero. Querendo conhecer o grande discípulo de Lutero Dr. Walther, fundador de nossa amada Igreja Evangélica Luterana no novo mundo, não devemos
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procurar saber o que foi escrito dele nas revistas e nos livros de seus adversários, mas devemos estudar os seus sermões. Nestes encontramos 0 fiel defensor dos três princípios da Reforma: Sola Scriptura, Sola Gratia, Sola Fides! Escusado é dizer que não queremos excluir por completo o estudo dos livros de outros que tratam dos grandes personagens da História Eclesiástica. Certamente o imperador Constantino o Grande representou papel assaz importante na história da igreja, mas não sabemos se escreveu cousa alguma acerca das lutas da Igreja do seu tempo. Temos na História de Eusébio muita cousa a respeito de Constantino e suas relações para com a igreja. Eusébio era o douto bispo de Cesaréia e amigo de Constantino. Mas justamente esta última circunstância às vezes recomenda cautela no estudo da "Vida de Constantino" de Eusébio. O amigo íntimo muitas vezes corre perigo de elogiar demasiadamente o seu protetor e favorecedor. Para julgar imparcialmente o que Eusébio relata do seu imperador, devemos procurar ouvir também outros autores que conheciam as condições e acontecimentos da época. Eusébio não foi testemunha ocular de muitas cousas que ele relata. Ouviu de outros ou do próprio Constantino as cousas que escreve. O que devemos dizer a favor de Eusébio é que ele sempre procura reproduzir as citações de seus informantes. - Tendo diante de nós duas biografias, por exemplo, de Calvino, um escrita por um genuíno calvinista e a outra por um adversário da doutrina da predestinação de Calvino, e se as duas biografias se contradizem em certos pontos, qual das duas queremos crer? Não resta dúvida, o correligionário de Calvino estará mais apto para interpretar o seu mestre do que o adversário. Mas aqui também devemos dizer que não se deve rejeitar por completo o que diz o inimigo. Ele às vezes dá-nos outro ponto de vista para o nosso estudo. Que a vida e a obra dos grandes vultos da História Eclesiástica nos sirvam de estímulo. Que suas vitórias nos ensinem que o nosso trabalho na seara do Senhor nunca será em vão.

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Cristo, o modelo do cura d'alma
Paul W. Schelp
Por cura d'almas entendemos o exercício de nosso ofício ministerial em relação ao indivíduo. Não há dúvida de que um pastor também cuida das almas que lhe foram confiadas quando prega, ministra o ensino confirmatório, em assembléias da congregação, e na celebração da Santa Ceia. No entanto, não designamos isso de cura d'almas. Por cura d'almas entendemos aquela atividade do pastor em que ele sai à procura do indivíduo e lhe ministra aquilo que necessita. O Cristo cura d'almas é descrito de forma maravilhosa na conhecida história do jovem e rico fariseu (Marcos 10.17-27). Aí temos um jovem que às pressas veio ter com Jesus, prostrando-se em terra. Vinha, não com queixas ou acusações, mas com uma alma angustiada pela dúvida. Sua alma estava enferma e clamava por socorro. Aquele homem ansiava por salvação. Se alguma vez já houve necessidade de cura d'almas, esta foi a ocasião. Jesus não seria o grande Redentor que é, se sua grandeza não tivesse aparecido nesta ocasião. O que acima de tudo nos impressiona nesta história é a atitude de Cristo em relação a esse jovem fariseu. Depois de nos contar que Jesus apresentou ao jovem os dez mandamentos, para convencê-lo de sua pecaminosidade, e que o pobre e cego fariseu respondeu que a todos esses tinha observado desde a sua juventude, Marcos insere na narrativa as seguintes palavras: "Mas Jesus, fitando-o, o amou". Neste ponto chega aos nossos ouvidos, vinda do íntimo de nosso coração, uma voz que protesta, dizendo ser injusto o santo e perfeito Filho de Deus amar uma pessoa mais do que outra. As vezes uma tal observação aparece também por escrito, mas ela depõe contra um bom conhecimento bíblico. Na Escritura se diz, em diferentes passagens, que Cristo amou determinadas pessoas mais do que outras. João, por exemplo,

Originalmente este artigo foi publicado em alemão em três números de Igreja Luterana: Porto Alegre, Ano X (11-12): 239-241, nov.dez. 1949; Ano XI (3-4): 61-63, mar.-abr. 1950; Ano XI (7-8): 133-136, jul.-ago. 1950. Dr. Paul W. Schelp foi professor do Seminário Concórdia de 1920-1969 e diretor interino do Seminário Concórdia de 1922-1925 e 1958-1961. Este artigo foi traduzido pelo Dr. Vison Scholz.
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repetidas vezes afirma ser ele o discípulo a quem Jesus amava. Isto não faz sentido algum, a menos que com isto se esteja querendo dizer que Cristo o amava de uma forma toda especial. E quando Marta e Maria mandam dizer a Jesus, "Senhor, está enfermo aquele a quem amas", elas estão, com estas palavras, apresentando Lázaro como alguém que de modo todo especial foi objeto do amor de Jesus. Nestes casos, no entanto, ninguém se escandaliza, pois não se está apresentando Jesus em seu amor pelos pecadores, mas se está falando de laços naturais que ligavam o Jesus homem a seus pais, seus parentes, e seus amigos. Além disso, lemos Lucas 15.7: "Digo-vos que assim haverá maior júbilo no céu por um pecador que se arrepende, do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento". Marcos 10.21: "Mas Jesus, fitando-o, o amou". Ah, sim, não há dúvida nenhuma de que Cristo ama todas as pessoas, também seus piores inimigos, também os mais emperdernidos dos fariseus. Não há dúvida nenhuma de que também suas lágrimas derramadas por causa de Jerusalém foram, de fato, lágrimas de amor. Agora, sempre que no ministério de Cristo um determinado pecador precisava ser socorrido, o amor com que o Salvador amava a todos era dedicado de forma toda especial àquela uma pessoa. Era um amor que tomava conta do seu ser, a ponto de levá-lo a esquecer-se do restante da humanidade. Há mais alegria, no coração de Jesus, por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos. Jesus se dedicava a tal pessoa com todas as forças do seu ser. E esse amor que Jesus tinha por um pobre pecador podia ser tão intenso e exigir uma tal dedicação de energia que aparentemente ele ficava fora de si. Os discípulos chegaram a pensar, numa dessas ocasiões, que ele tinha enlouquecido. A verdadeira cura d'almas só é possível com amor igual a esse. Por isso não admira que Moisés tenha dito a Deus, quando Deus queria destruir o povo de Israel por causa da sua idolatria: "Agora, pois, perdoa-lhe o pecado; ou, se não, risca-me, peço-te, do livro que escreveste". (Ex 32.32). Movido pela dor e tristeza diante do perigo que o povo corria e preocupado com o futuro e o bem-estar eterno do povo, Moisés esquece completamente de si mesmo. Mais intenso ainda é o amor de Paulo, conforme a carta aos Romanos (Rm 9.3): "Eu mesmo desejaria ser anátema, separado de Cristo, por amor de meus irmãos, meus compatriotas, segundo a carne". A tradução de Lutero, "eu desejei", não reproduz corretamente o sentido do original. Paulo não diz "eu desejei", "eu desejo", ou "eu poderia desejar". Ao contrário, ele emprega o imperfeito sem a partícula "em", o que se traduz por "eu desejaria". Trata-se de uma condição irreal. Um exemplo: "Eu iria para a cidade, se tivesse tempo". Esta ação não pode ser concretizada, pois do contrário

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eu iria neste exato momento. Semelhantemente Paulo: "Eu desejaria neste instante ser de fato amaldiçoado por Deus", se fosse viável e possível conseguir a redenção de seus irmãos através do sacrifício de sua própria alma. Isto é o que ele diz com toda a sinceridade. Trata-se, sem dúvida, de uma força incrível, uma intensa paixão pelo seu povo que ultrapassa em muito os limites de uma simples empatia. O comentarista Bengel, em seu Gnomon, diz o seguinte a respeito dessa passagem: "Nem todo mundo consegue compreender isso. Palavras humanas não conseguem exprimir o que se passa no coração de almas santas.... Não é fácil falar da intensidade do amor de Moisés e Paulo, pois assim como um menino não consegue compreender a bravura de um notável guerreiro também a limitada escala de nossas faculdades mentais não consegue atingir um tal grau de amor". A passagem de Marcos também nos ensina o que levou o Senhor a amar aquele jovem daquela forma e a ficar tão triste diante da fracassada tentativa do mesmo em se salvar. Qual a causa do amor de Jesus? Teria sido a juventude daquele que veio em busca de socorro e salvação? Não, pois o Senhor, com tristeza, se volta a seus discípulos e diz: "Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas!" Ele estava se referindo ao prejuízo que a riqueza tinha trazido àquele homem. Teria sido a boa educação e a erudição dele? Não, pois Jesus diz em outra passagem que Deus revelou as coisas espirituais aos pequeninos, ocultando-as aos sábios e entendidos. Teria sido a posição social do homem, como líder da sinagoga que era? Não, pois em sua cura d'almas o Senhor repetidas vezes se dirigiu aos pobres e desprezados. Maria exulta: "Ele contemplou na humildade da sua serva". Então por certo a causa desse interesse todo especial do Senhor foi a vida virtuosa daquele homem. Nada poderia ser mais tolo, pois exatamente neste texto o Senhor se esforça por convencer um fariseu da total depravação de sua alma pecadora, mostrando-lhe que diante de Deus não passava de assassino, ladrão, e idolatra. O que foi então que atraiu o Salvador àquele jovem? O que levou aquele jovem a se prostar diante do Salvador foi a sua ânsia por salvação, ânsia esta estampada em seu rosto, aquele desejo de herdar a vida eterna, aquela busca honesta pela salvação de sua alma. Conseguimos nós pastores desenvolver a cura d'almas com uma tal mentalidade? Conseguimos nós ver na pessoa que será alvo de nossa cura d'almas, não os trapos ou a roupa de seda, não o título de doutor ou o analfabetismo, não a dignidade de presidente ou a vergonha do condenado, não a brancura ou a negritude da pele, mas tão-só e apenas a alma que está se perdendo, mas pela qual Cristo pagou precioso preço? Se for assim,

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então por amor a esta uma alma esqueceremos quinhentas outras, que neste instante não precisam de ajuda. Jesus, fitando o jovem, o amou. O texto tem a nos ensinar mais ainda sobre cura d'almas. Atentemos para os versículos finais: "Jesus disse a seus discípulos: Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas! Os discípulos estranharam estas palavras; mas Jesus insistiu em dizer-lhes (a estranheza dos discípulos não levou o Senhor a abrandar seu discurso; ao contrário, ele foi ainda mais enfático): Filhos, quão difícil é para os que confiam nas riquezas entrar no reino de Deus! É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus. Eles ficaram sobremodo maravilhados, dizendo entre si: Então, quem pode ser salvo? Jesus, porém, fitando neles o olhar, disse: Para os homens é impossível; contudo, não para Deus, porque para Deus tudo é possível". Destes versículos eu concluo o seguinte, em termos da atitude de Jesus: No que diz respeito ao que os homens podem fazer por sua salvação ele foi o maior pessimista que já existiu. No que diz respeito ao que Deus faz, o maior otimista. Por isso entendo que uma tal mentalidade é extremamente importante num verdadeiro cura d'almas. As palavras de Jesus são duras. No início em todo caso ele disse apenas isto: Quão dificilmente os ricos entrarão no reino de Deus. Isto não exclui a possibilidade, ao menos se levarmos em conta o que Jesus diz, de um rico entrar no reino. Diante da admiração dos discípulos, o Senhor esclarece que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no reino de Deus. Existem aqueles que explicam isto, dizendo que no muro da cidade de Jerusalém havia uma portinha com o nome de "Fundo-de-Agulha" e que um camelo somente conseguia passar depois que toda a carga tinha sido tirada de seu dorso e ele tinha se ajoelhado. Assim também um rico, antes de poder entrar no reino de Deus, teria que se desfazer da carga de sua riqueza e cair de joelhos, arrependido. Precisamos de uma explicação tão complicada assim? Nada disso. O Senhor disse pura e simplesmente isto: Um camelo não passa pelo fundo de uma agulha, e um rico é incapaz de encontrar o caminho ao céu. Tanto um como o outro são impossíveis. Foi assim que os discípulos entenderam as palavras de Jesus, levando-os a ampliar a pergunta: Quem, então, pode ser salvo? E Cristo, referindo-se não mais exclusivamente aos ricos, mas a todos, disse: "Para os homens é impossível". A expressão "para os homens" (pará anthropois) engloba muito mais do que a expressão inicial "um rico", incluindo todos os homens . O termo "impossível" (adúnaton) vai muito além da frase "quão dificilmente" (pos duskolon) e elimina de vez qualquer esperança de auto-salvação. Cristo sabia que o ser humano está morto em

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delitos e pecados, e que o ser humano por sua própria razão ou força não pode crer em Deus nem vir a ele. Se um cura d!almas carece desta visão, o objeto de sua atividade passa a ser totalmente equivocado. Irá se preocupar apenas em animar as pessoas a contribuírem para a salvação de suas almas ou em melhorar as condições de vida de seus membros. Li recentemente um livro em que se narra a história de um modelar pastor episcopal. Que quadro mais triste aquele que se desenrolou diante de meus olhos! Como aquele pastor se esforçou em ajudar um jovem casal, em providenciar melhores condições de moradia para os pobres, em desenvolver a autoconfiança numa jovem tímida. Agora, aquele pobre pastor não conseguiu ver em seus membros almas que estavam irremediavelmente perdidas. Um pastor deve sempre, antes de tudo, salvar almas, e se depois disso um pastor ou uma congregação ainda puderem fazer algo por um membro, que coloquem em prática sua fé cristã. Em segundo lugar, se não tiver essa visão, um cura d'almas nunca reconhecerá a verdadeira importância de sua atividade de cura. Se ele não for um pessimista, assim como Cristo o foi, então tomará seus membros por parcialmente ou totalmente bons. Pensará que não há maiores perigos e adormecerá em seu posto. É claro que um pai de família não deveria acreditar que seu filho ou sua filha estão envolvidos nesse ou naquele pecado, a menos que exista comprovação, mas ele deveria contar com a possibilidade de que, devido à total corrupção da natureza humana, eles cometam qualquer tipo de pecado, o que muitas vezes é o caso. Se tiver isto em mente, um pai ou um professor ficará atento, e passará a ver e notar coisas que de outra forma não notaria. O mesmo vale para o cura d'almas. Dá pena aquele pastor que se acomoda na poltrona, cruza as mãos sobre o peito e diz: No que diz respeito aos membros de minha congregação, nenhum perigo à vista! Nosso Salvador foi também o maior otimista, na medida em que atentou para o que Deus fez e ainda faz. Diante da pergunta dos discípulos, "então, quem pode ser salvo?", ele deu a seguinte resposta: "Para os homens é impossível; contudo, não para Deus, porque para Deus tudo é possível". "Visto que para Deus tudo é possível, também pessoas ricas como Abraão, Jó e Davi entraram no reino de Deus. Também pobres como Lázaro, a viúva pobre, o malfeitor na cruz. Cremos e somos salvos pela operação de seu poder divino". Graças a Deus, podemos ser também tão otimistas quanto Cristo. O evangelho é o poder de Deus para salvação. Se vamos de casa em casa, advertindo o pecador impenitente com a lei e consolando o desanimado e

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desconsolado com a mensagem do evangelho, saibamos que isto não é tarefa desprezível ou inútil. Confiemos na palavra de Deus e tratemos de aplicá-la. Ela dá frutos. Ela não volta vazia. Meu caro ministro da palavra, se em teu trabalho de cura d'almas te ocorrer o seguinte pensamento: "Como é difícil interessar as pessoas pelo cristianismo!", então trata de tirar isso da cabeça e, com alegria considera nisso: "Para os homens é impossível, mas não para Deus". E, a exemplo do apóstolo Paulo em tais circunstâncias, conclua com esta triunfante doxologia: "A este Deus seja o louvor de eternidade a eternidade. Amém". Resta uma pergunta: Por que será que, por vezes, a cura d'almas é tarefa tão difícil? Porque aqui se trata não apenas da doutrina, de princípios bíblicos, mas também da aplicação dos mesmos. Se quero saber se um princípio é correto, preciso examiná-lo à luz da Escritura. Logo, preciso conhecer a Bíblia, se quiser elaborar princípios, testá-los, defendê-los ou corrigi-los. Se, no entanto, quiser aplicar esse princípio à vida de alguém, então preciso conhecer também as circunstâncias, as causas, as motivações. Assim, para a cura d'almas se precisa, não apenas conhecimento bíblico, mas também conhecimento do ser humano. É preciso estar familiarizado não apenas com o ponto-de-vista de Deus em relação a determinado assunto, mas também com o ponto-de-vista do objeto de minha atividade de cura d'almas. Um exemplo vai ajudar a esclarecer isto. Se o Henrique e a Maria vêm falar comigo, dizendo que querem se casar, preciso saber, não apenas o que a Escritura tem a dizer sobre o matrimônio, mas também qual a situação em que este jovem casal se encontra. Se alguém vem ao pastor em busca de orientação, cumpre ao pastor, não apenas saber o que a Escritura tem a dizer, mas também estar em condições de investigar o que a pessoa que veio procurá-lo pensa sobre aquele assunto, o que o preocupa, até que ponto o que ele pensa está correto, onde ele tira conclusões erradas, etc. Não basta ao cura d'almas conhecer a distinção entre lei e evangelho: ele precisa igualmente saber do que aquela pessoa que está diante dele naquele momento precisa. Quem é competente para tanto? Se já houve alguém competente nessa área, este foi o amado Salvador. No texto que estamos considerando vemos a clara percepção que nosso Salvador teve, não somente da doutrina do "somente-por- graça", mas também da situação do jovem que veio se aconselhar com ele. Muitas coisas chamavam a atenção na conduta e na fala daquele jovem. Embora de posição social elevada, ele se ajoelhou diante do Senhor. Isto podia ser interpretado como um gesto sincero ou como um terrívei caso

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de hipocrisia. Ele chama Jesus de Mestre (didáskale), considerando-se, portanto, um aluno que quer aprender algo. Ele pergunta: "Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?" Toda pergunta encerra uma série de afirmações. Antes de mais nada o jovem está declarando que ainda não tem a vida eterna. Em segundo lugar, que ele gostaria de tê-la. Terceiro, que se pode obtê-la através da prática de determinados atos. Quarto, que uma pessoa pode satisfazer o que dela se exige. Quinto, que Jesus praticou o bem, pois chama-o de bom. Tudo isso o jovem fariseu diz a respeito de si mesmo e de Jesus. Diz mais ainda. Diz que não sabe que boa obra ainda lhe falta. Isto quem deve saber é o Salvador, razão por que fez a pergunta. Eis o caso. Qual será a resposta de um bom cura d'almas? Antes de responder, e preciso saber com certeza qual o problema da outra pessoa. Jesus reconheceu que ao jovem fariseu não bastava a palavra de Deus. Aquele jovem pensava que na Bíblia não encontraria a resposta para a sua pergunta, motivo pelo qual entrou em contato com Jesus. Em sua opinião, Jesus é aquele que realizou aquela boa obra especial que é necessária. O que Deus diz tem menos importância e ele não leva muito a sério. O caso dele é parecido com o do rico no inferno, o qual também achava que Moisés e os profetas não eram o bastante e que ele tinha descoberto um outro caminho, a saber, a aparição de um morto. A resposta de Abraão neste caso, apontando para Moisés e os profetas, é também a resposta de Jesus ao jovem fariseu. Ele pergunta: Por que me chamas bom? E logo dá a resposta: Ninguém é bom senão o Deus único. Se me tomas por alguém que conseguiu a façanha de ter alcançado a salvação pela prática do bem, por que então vens a mim? Nestes casos a gente se dirige a Deus. Por isso, meu caro fariseu, vamos à Escritura Sagrada e ouçamos os mandamentos que Deus deu. A resposta do fariseu, "tudo isso tenho cumprido", bem como a acurada observação pessoal de Jesus lhe permitiram ver o outro grande mal que afligia aquele fariseu: estava apegado aos bens deste mundo. Estava disposto a abrir mão de qualquer coisa, se os mandamentos de Deus assim o exigissem, desde que pudesse reter seus bens. Por isso o Senhor diz com muita ênfase: Uma coisa é necessária. Trata-se de apenas uma coisa, e uma tal que não pode simplesmente ser acrescentada às outras, pois é totalmente diferente. "Vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres!" Isto era algo que ele não podia colocar em prática apenas exteriormente. O fato de estar preso aos bens deste mundo não lhe possibilitou manter as aparências e fazer o que Jesus dizia. Jesus encontrou o ponto fraco onde era possível perfurar a couraça da justiça exterior e chegar ao coração daquele homem. Jesus lhe disse: "Homem, todo o teu coração precisa ser transformado. Visto que teu pecado específico é o amor ao dinheiro, essa

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transformação precisa chegar também ao coração e incluir também este". Jesus sentiu que aquele homem, caso examinasse toda a sua vida sob este enfoque, reconheceria que grande pecador de fato era. Jesus sabia que aquele homem poderia se arrepender de seu pecado. Jesus, no entanto, não deixa aquele homem ir embora sem antes lhe pregar o evangelho. Ele acrescenta: "Vem, e segue-me". Penso que cada um de nós gostaria de ter ouvido este "vem, e segue-me " de Jesus. Reconhece também que tu mesmo não podes te socorrer, tu que até agora tens sido escravo do pecado e servo do dinheiro. Em mim, o Senhor, encontrarás redenção. O diagnóstico do Salvador foi perfeito. Suas palavras calaram fundo. Atravessaram o manto da justiça própria e tocaram o coração e a alma. O jovem ficou todo aborrecido, isto é, as feições do rosto e a cabeça inclinada imediatamente indicaram a tristeza que tinha tomado conta de seu coração. Ele deu meia-volta e retirou-se triste. Pois bem, dirá alguém, está claro que a cura d'almas do Salvador não foi bem sucedida e que, portanto, seu método não é adequado. A isto dou uma resposta dupla: Em primeiro lugar, a cura d'almas nunca é vã, se for vista como uma oportunidade em que verdades divinas são dirigidas à alma da pessoa. A semeadura foi feita, e a semente não ficou na superfície, senão que penetrou o solo. Mais do que semear não nos compete de qualquer forma. Eu quisera que todos nós tivéssemos um tal sucesso no espalhar da semente! Isto seria tudo de que precisaríamos. Em segundo lugar, devemos levar em conta que talvez teríamos tido razões para duvidar da seriedade e da sinceridade do fariseu, se ele imediatamente tivesse obedecido a Jesus. Está certo que ele se afastou de Jesus, mas levou consigo o que Jesus lhe disse. Uma mudança daquele porte requer um longo conflito interior. É atrás de portas trancadas que na maioria das vezes são travadas as longas e renhidas batalhas com o diabo e a própria carne. Muitas vezes é apenas depois de um longo tempo que o pecador, com a ajuda de Deus, emerge vitorioso de um tal conflito! Embora a Bíblia não nos relate o que aconteceu posteriormente àquele jovem rico, não seria de admirar se no dia do juízo final o encontrássemos no céu. Que lição tiramos disso para nossa atividade de cura d'almas? Antes de mais nada, que falemos menos e ouçamos mais. Deixa falar aquele que está enfermo na alma! Tu, escuta! Se ele se abre e diz o que o incomoda, poderás detectar qual é o problema maior. Portanto, ouve atentamente e

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reflete em cada palavra que a pessoa diz. Por desrespeitarem este princípio, muitas vezes pastores erram e não têm êxito em sua cura d'almas. A resposta para cada caso e as condições de salvar almas imortais nos vêm unicamente da correta aplicação de lei e evangelho.

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"Lembra-te dos Dias da Antigüidade. Uma História do Seminário

Otto A. Goerl
Gostaria de colocar uma palavra já várias vezes citada: o importante não somos nós, o importante é a obra que fazemos. Tenho nesta hora a oportunidade de falar da história do Seminário. Eu atribuo isto ao fato de me considerarem, todos, como eu também me considero, uma peça de museu. Convivi nos primórdios do Seminário. Pela graça divina no Seminário tive o prazer de conhecer quase todos os líderes da igreja dos tempos do pioneirismo. Assim a minha palestra não vai ser uma conferência, vai ser apenas uma palestra informal. O tempo que me foi dado foi de três horas. Comecei com o relógio na mão para que no fim desta manhã não aconteça a mim aquilo que ocorreu a um congressista que fez uma conferência bastante longa. No caminho para casa a esposa dele lhe confiou o seguinte: "Meu bem, eu não tenho certeza se teus ouvintes saíram enriquecidos da tua palestra, mas de uma coisa estou certa, eles ficaram um bocado mais velhos!" (Risos...) A Bíblia é um livro quase que único no mundo que aponta de maneira especial para o amanhã, para o futuro, para a eternidade. Mas a Bíblia também é um livro que nos faz parar, girar e olhar para trás. Procurei na Chave Bíblica o verbete "lembrar". Encontrei mais de cem. Certamente haverá mais de duzentos verbetes de "recordar" e "lembrar". Por quê?

Dr. Otto A. Goerl proferiu esta palestra no Seminário Concórdia, em Porto Alegre, no dia 27 de outubro de 1983, em comemoração aos 80 anos de fundação desta instituição. Dr. Goerl foi professor do Seminário de 1940-1979 e seu diretor de 1950-1961. A transcrição voz/audio foi feita pelo estudante do Seminário Concórdia Rafael J. Nerbas.

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Porque lembrar o passado, lembrar a história da nossa igreja, a história do Seminário, significa lembrar aquilo que Deus fez por nós. Moisés ao sair com o povo do Egito, diante de todo esse povo, exclama: "Lembraivos deste mesmo dia em que saístes do Egito, da casa da servidão". E chegando à destra da entrada na terra da promissão ele, que não podia acompanhar o povo no seu cântico, diz o seguinte: "Lembra-te dos dias da antiguidade, atenta para os anos de gerações e gerações; pergunta a teu pai, e ele te informará, aos teus anciãos, e eles te dirão. Quando o Altíssimo distribuía as heranças às nações, quando separava os filhos dos homens uns dos outros, fixou o termo dos povos, segundo o número dos filhos de Israel" [Dt 32.7-8]. E quando Deus separou os filhos dos povos, Deus formou o Seu povo, que deveria ser o portador das promessas divinas, e que devia mais tarde, então, ser o cenário da vinda do próprio Filho de Deus. Josué, ao entrar na Terra da Promissão, recebe ordens de Deus, para um programa específico. Eles reuniram-se junto ao Jordão. As águas iam parar da esquerda para a direita, iam se amontoar. Então deviam entrar os sacerdotes com a arca, colocar-se no meio do leito. A homens escolhidos por Josué com antecedência é dito: "Passai adiante da arca do Senhor vosso Deus ao meio do Jordão; e cada um levante sobre o ombro uma pedra segundo o número das tribos dos filhos de Israel; para que isso seja por sinal entre vós; e quando vossos filhos no futuro perguntarem dizendo: Que vos significam estas pedras? Então lhes direis que as águas do Jordão foram cortadas diante da arca da aliança do Senhor; em passando ela foram as águas do Jordão cortadas. Estas pedras serão para sempre por memorial aos filhos de Israel". [Js 4.5-7]. Deus vivo está no meio de vós. O Senhor fará maravilhas no meio de vós. O Seminário ontem e hoje significa história. O que é história? Diz o filósofo Bergson: na verdade só há dois tempos: o passado e o futuro, porque o presente é a ponta extrema do passado. E nós poderíamos acrescentar que também é a ponta do futuro, mas realmente se encontram juntos e é tão difícil separá-los. O ontem e o amanhã trocaram meios com o hoje. Mas vamos tentar o possível. Afrânio Peixoto, médico, historiador, e que escreveu vários livros de história, pedagogia, diz que toda a história deveria ser escrita de 20 em 20 anos. E cita outro autor que diz: a história do passado é a história contemporânea. Chegamos agora a um ponto importante, meus amigos. Eu li num número de Nostra Vita, no verso, essas palavras: "Todo elogio ao passado é uma crítica ao presente". Fiquei meditando nisso. Será que é assim? Explico o porquê deste dito: entre nós nos identificamos com tudo aquilo que lemos, com tudo aquilo que vem do passado. Lá está a Escola Dominical... a professora contando a história de Golias... Davi, pequenino,

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na frente do gigante. Os rapazes especialmente se sentem identificados com aquela história... Já vêem os músculos! Cada um pensa: Ah, eu faria 0 mesmo! Já atirei com funda!... No meu tempo, antigamente, aqui, nos campos do bairro Navegantes, todo mundo sabia o que era funda. Então aquilo pegava a gente. E as meninas ouvindo a história de Moisés... Aquele menininho lá chorando! Coitadinho! Naquela cesta de vime, junto aos juncos, no rio Nilo. Também têm aqueles sentimentos maternais, se sentem presentes naquela cena, e também agiriam assim como agiu a princesa. Nós nos identificamos - e agora vem o principal: nós então fazemos comparações, instintivamente, inconscientemente fazemos comparações. Então de vez em quando surgia uma pergunta na classe: "Seu professor, como era antigamente?" Os estudantes, eles eram os mesmos, qual a diferença? Escreve uma autora e diz o seguinte: ao observarmos, estudarmos o passado, sejamos objetivos, não sejamos egoístas e impessoais, mas sim solidários. Mas eu acrescentaria o seguinte: ao estudar o passado, também do Seminário, nós devemos ver três fatores: as fases, o contexto e os impactos. Vamos às fases. De quem? Do homem: infância, fase da criança, adolescência, mocidade, maturidade e velhice. Será que julgamentos de um fato de qualquer acontecimento será o mesmo na idade número 2, ou 1 até e depois 3, 4, 5? Não! Todos concordam. Não será o mesmo. Eu tenho dois livros sobre D. Pedro II. Li um e fiquei entusiasmado e o segundo livro foi aquela ducha fria. Dois autores não se eqüivalem. Ah, mas aí tem outras coisas ainda! Mas quanto a isto o próprio apóstolo Paulo em I Co 13 diz: Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino, quando cheguei a ser homem, desisti das coisas próprias de menino. Assim concordamos agora com o dito de Nostra Vita, esta revista preciosa que continuo a assinar: "O elogio do passado é uma crítica ao presente". Eu acho que não cem por cento. Depende, como se diz daquela grande evasiva: depende exatamente disto, e também depende daquilo, e também depende daquilo. O contexto é meio longo. Vou primeiro citar então os impactos. Nós tivemos no curso da nossa igreja, no curso da história do nosso Seminário, vários impactos que mexeram bastante, que interferiram neste curso de acontecimentos. Tivemos duas grandes guerras. Eu tive oportunidade de conviver com a 1 - Guerra e desde o começo com a 2- Guerra. A 1- de 14 até 18, a segunda de 39 a 45. Houve muitas mudanças aqui. Especialmente com a nacionalização, com a mudança de idioma. De repente o pastor tinha que pregar somente em língua portuguesa. O hinário era em português. A maioria dos nossos velhos membros da comunidade nem entendiam a metade dos vocábulos. Até o próprio canto sobrava no

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começo. Sobravam sílabas no fim da linha porque não juntavam as vogais. Cantavam como no alemão, talvez também como outras línguas. Quer dizer, havia tantas coisas nesta mudança durante a nacionalização. Foi um grande impacto. Agora olhemos para o contexto. O contexto deve sempre ser observado ao se apreciar e julgar a história do passado. Olhando o currículo da vida, a velocidade louca de hoje, o pastor que está no púlpito: poderia ele pregar duas horas como no século XVI, XVII? Alguns pastores pregavam duas horas. Quando faleceu o grande dogmático Johann Gerhard, no sermão fúnebre, o pastor elogiou uma qualidade sua: ele nunca cochilava durante o sermão. No tempo de Lutero se pregava uma hora, hora e meia. Hoje nós diríamos: impossível! No parlamento inglês, eles constataram que os oradores de hoje falam duas vezes mais depressa que antigamente. O ritmo hoje é um ritmo louco. E não só quanto a sermão, quanto a discursos e assim por diante, mas em tudo, os homens não tem mais tempo para nada. Escreveu uma vez um homem o seguinte: meu pai no século passado ainda trabalhava seis dias por semana, dez horas por dia mas ele tinha mais tempo para conviver com os filhos do que hoje tenho com 5 dias de trabalho e só 8 horas por dia. Há tantas outras coisas que atraem, que tiram o tempo e desintegram aquela vivência de antigamente. Em segundo lugar, a faixa econômica, o modus vivendi. Lutero se levantava de manhã lá na sua cela, tomava seu café com pão, manteiga e assim por diante. Ao meio-dia comia batata, feijão, arroz, etc... Nada disso! Café não havia. Chá não havia. Batata inglesa ou batata doce não havia. Aipim não havia. Mas então o que comia e como vivia Lutero? Havia aveia e mais umas coisas que plantavam na horta. A única coisa que havia era a caça. Havia muito mato. E depois da guerra dos Trinta Anos era quase só mato, uma selva, diz um historiador. Quer dizer que aquilo salvava tudo, mas café e chá não tinha. Leite havia, sim. E então havia também sopa de manhã, sopa de cerveja. Cerveja era uma bebida do povo. Já os historiadores vêem o contexto. Os historiadores das seitas entretanto disseram que Lutero era alcoólatra, que bebia muita cerveja. Tá certo. Mas todo mundo bebia. A cerveja é bem prática. Faziam sopa daquilo de manhã. A medicina, meus amigos! Nossos índios aqui que foram descobertos pelos europeus ensinavam medicina à Europa. Naquela época as nossas ervas medicinais eram farmácias que estavam aqui ao alcance de todos. O atraso na Europa em matéria de medicina naquela época era grande. A medicina moderna também começou neste século, fim do século passado. Coitado de Lutero na hora da morte teve de tomar como remédio corno de veado raspado. Aquele pó, tinha que tomar aquilo. Os médicos não sabiam prá quê! O que iam fazer? Qualquer coisa tinha de ser feita.

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Agora, o principal: cultura e ensino. Quando Melanchton, no fim do ano, já preparando-se para o outro, falou aos estudantes, estimulou-os a tomarem parte nas aulas de matemática. Havia poucos interessados. Então ele prometeu um professor que iria ensinar matemática com um método novo. Ele ia ensinar a divisão, multiplicação. Vamos dizer: mas como estavam atrasados em Wüttenberg! Todo mundo estava atrasado, em comparação com hoje. Daqui a 200 anos, se o mundo existir até lá, vão dizer: como estavam atrasadíssimos no século XX! Nós aqui! Não esqueçam, o Seminário também estava atrasado nos primeiros anos. Claro que estávamos atrasados, todo mundo estava atrasado. Não havia universidade em Porto Alegre em 1940 quando eu vim prá cá. Havia faculdades. Lá se formou a universidade. Quando fui para São Paulo em 1933 justamente haviam começado lá uma universidade. O secretário de educação do estado de São Paulo havia enviado emissários para a Europa, Alemanha, Suíça, França, para buscar professores para a nova universidade. Já havia escola de direito, arquitetura, mas não havia curso de filosofia ainda, enfim, uma universidade completa. Eu cheguei a conhecer alguns deles porque eram judeus alemães e eu tinha relação com um deles que era da nossa comunidade e por intermédio dele cheguei a conhecer outros. Mas então vamos falar do atraso de São Paulo, o atraso de Porto Alegre, o atraso do Seminário, quando nos tempos de pioneirismo o ensino era rudimentar, como veremos ainda. E quanto à cultura vamos falar da biblioteca, dos livros. Não havia livros no Brasil sobre muitas matérias. Arquitetura, medicina sim; mas digamos educação, pedagogia, não. Nos fins da década de 20 e depois na década de 30 começaram algumas traduções de livros em espanhol e alemão. Eu sei que quando tinha de ensinar, por exemplo, história da educação, ou outra matéria da didática, não tinha quase nada em mãos, nem a biblioteca tinha. Nem tínhamos praticamente biblioteca. Só uns poucos livros, era tudo raro ainda. Lutero escreveu as teses em papel e colocou lá em Wüttenberg e é só. Não havia ainda jornal, ou revista teológica, não havia rádio e assim por diante. Tudo era primitivo. Nós aqui no Brasil também. Não podemos comparar hoje com o ontem e anteontem. Os Inícios Seminário nasceu dentro da missão. E a missão começa com um nome: Brutschin. Era um pastor formado na Suíça e enviado por uma comissão de missão para o Brasil. Ele naufragou aqui na costa do RS mas todos se salvaram perdendo, naturalmente, toda a bagagem. Ele tinha um amigo na Alemanha que foi para os EUA e se filiou à nossa igreja. Recebia de lá o Der Lutheraner e a revista teológica de Lehre und Wehre. E descobriu assim a igreja verdadeiramente luterana. Abandonou assim a aqui chamada

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Confissão Luterana e pediu um pastor de lá. Infelizmente no começo o presidente do Sínodo de Missouri naquela época, fim do século passado, era o pastor Schwan. Ele esteve uns quatro anos na Bahia de 1844-50 como preceptor. Como era de uso naquela época, os fazendeiros tinham preceptor para os próprios filhos. Também trabalhou na missão, pregou. Mas ele abandonou tudo e voltou aos EUA. Veio então um pedido daqui do sul para a igreja mãe que mandasse um missionário, mas ele era contra. Vira a índole do povo e achou quase impossível a missão vingar neste solo. Até que em 1899 houve nova eleição e aí o Dr. Pieper, conhecemos o dogmático Pieper, foi eleito presidente e foi resolvido que começaria a missão aqui. Mandaram o Pastor Broders para estudar, investigar, pesquisar o nosso solo para fins de missão. Ele também não foi bem sucedido e já estava de viagem para casa, novamente desaconselhando a igreja de aqui tentar uma missão. Ele visitara colônias alemãs, a primeira e especialmente a segunda, terceira geração e ficou decepcionado. Numa picada havia uma igreja quase sempre vazia e onze salões de baile. Mas, passando por Pelotas descobriu lá colonos que vieram do interior de São Lourenço e ficou sabendo que havia um grupo de luteranos naquela região. Foi junto com um deles e foi levado à casa do Sr. Augusto Gowert. Aquela casa ainda existe hoje. Eu cheguei a vê-la há poucos anos pela primeira vez. Querem conservar aquela casa onde ele pernoitou e onde então começou o nosso trabalho. Reuniram-se os membros e fundaram uma comunidade. Eu cheguei a conhecer aquela capela improvisada que não era bem uma capela, era uma venda que foi comprada e transformada num salão de cultos. Cheguei a conhecer porque tornou-se depois o galpão da casa pastoral. Em 1901 foi enviado o pastor Mahler ainda quando Broders estava aqui. Mahler foi enviado como diretor da missão porque Broders, que fora capelão do exército americano na guerra contra a Espanha, só veio como prospector. Agora viria o diretor da missão que devia então organizar aqui o trabalho. Mahler era missionário exemplar, evangélico, amigo de todos eu me incluo. Ele conseguia captar a simpatia. Certo dia eu entro no corredor e ele me faz parar com a mão sobre minha cabeça e diz umas palavras amáveis. Eu nunca vou esquecer este gesto. Depois notei porque os membros antigos da Comunidade "Cristo" falavam com todo respeito e toda simpatia deste pastor. Ele transmitia o evangelho só pelos gestos e pelo relacionamento. Agora havia quatro pastores aqui no sul, depois vieram em 1902 cinco pastores e um professor, em 1903 quatro pastores e em 1904, um pastor. Chegamos então a esta situação: havia 3 regiões que deram início ao trabalho. A região sul, Porto Alegre e Noroeste, com Cruz Alta mais ou menos no centro.

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Instituto

Em 1903 13 pastores se reuniram em conferência aqui do sul - sul significava Bom Jesus. Todos se alojaram na casa pastoral, do Rev. Hartmeister. E então antes de começar a conferência de noite estavam reunidos lá na cozinha. Acho que não havia sala naquela casa. Tudo era pobre. Falaram sobre o futuro. Tiveram aquela visão, a grande visão, não que lá onde eles estavam aquilo florescesse e fosse para frente. Não! Estavam por assim dizer cercados de inimizade, ódio. De quem? Dos pseudo-pastores. Eram, muitas vezes, fugitivos da Alemanha por motivos políticos. Tinham alguma cultura mas haviam fracassado por causa da bebida também. Agora eles vêem um pastor, que veio dos EUA ainda, um americano. Vem com dólar! Eles são alemães, levaram então para esta área, para esta faixa toda a luta, já havia também naquela época um jornal o São Lourenço Bote. Então começou a injúria, uma cruzada de difamação contra os nossos. Agora não esqueçam, estas primeiras comunidades tinham sempre um cerne sadio, membros luteranos convictos, mas a grande maioria não. Mesmo assim eles reconheceram, olhando para o futuro, para o amanhã: nós precisamos de gente daqui onde estamos, do Brasil. Precisamos de brasileiros para trabalhar no campo da missão. Mas a igreja-mãe não podia enviar tantos, pois vieram muitos pedidos destas três regiões, e não podiam receber tantos de lá num ano. Em 1904 veio só um pastor, um ano depois não veio nenhum. Resolveram então fundar o Seminário. Agora não um Seminário teológico com tantos cursos . Primeiro um Instituto para formar professores porque a nossa igreja trabalhava naquela época sempre na escola paroquial. A missão começava sempre com escola paroquial. E não tinham professor. Havia uns leigos que sabiam ler um pouco melhor que se tornavam professores. Então resolveram de noite lá, com lamparina, conforme um deles depois relata, fundar o Seminário, o Instituto. Agora onde, como, com que meios? Só podia ser em Bom Jesus. Porque lá havia um galpão, "galpão hífen galinheiro". De lá podia se tirar tudo o que tinha, fazer um anexo com pedras e então teríamos um Seminário. A comunidade concordou, mas quando os de fora - não esqueçam que eram pomeranos, que têm uma cabeça-dura, sim, eu tenho 50% de sangue pomerano - descobriram isto, esbravejaram: vocês vão permitir aos pastores americanos que vieram com seu dólar construir um Instituto? Eles vão tomar conta de tudo. Isto se repetia depois, 20 ou 30 anos depois quando eu pratiquei por lá. Não queriam registrar estatutos porque diziam: nós somos vendidos, vamos perder tudo! O velho pastor Reschke trabalhou muitos anos também numa colônia assim de pomeranos. Eles não queriam estatutos. Um dia ele disse: meus amigos, todas as comunidades têm um nome, mas nós não. Como nos chamamos? Ah, então vamos escolher um

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nome bonito. Escolheram um nome. E agora, o que nós cremos? Não queremos confessar o que cremos? Sim! Sim! O que cremos irmãos, o que está na Bíblia, sim na Bíblia, confissões, Catecismo? Os estatutos ficaram finalmente prontos. Foi assim, mas depois de anos. E naquela época então era aquela gritaria: não queremos que os americanos construam aqui. E houve então bastante briga na comunidade. O pastor fez uma proposta: se vocês têm medo que o Sínodo tire de vocês, porque vocês não constroem então? Com a construção por conta de vocês, vai ser tudo de vocês. O terreno é de vocês, o galpão já é de vocês, e agora ainda aquele um quartinho também é de vocês. Ah, é assim? Um pergunta ao outro: eu concordo se todos concordam. Todos concordaram. Então vieram os tijolos, um pedreiro, fizeram o quê? Aquele anexo da frente que se vê lá. Uma porta, uma janela. Era o instituto. Agora havia então a porta de madeira, a janela de madeira, e havia então uma mesa, havia lá uns bancos também, parece que dois bancos, e depois aqueles beliches. Quem fez este trabalho foi o pastor Hartmeister, futuro professor e diretor. Ele fez todo o trabalho de marcenaria. Agora estava tudo pronto. E então neste dia, nesta data, era terça-feira, !às 14h começou a funcionar aquilo que seria mais tarde o nosso Seminário. Não havia sinos para repicar. Não havia o coral luterano para ali cantar; não havia um conselho administrativo presente; não havia uma representação das 14 comunidades que já existiam espalhadas. Não havia nada! Mas havia aquela choupana, um homem que estava pronto para assumir o trabalho e havia uma mulher que estava pronta a arcar com o resto. Fora das aulas, com o "resto" significava cozinhar para 10 pessoas. E olhem, eles estavam na idade de 15-17 anos! Só a família e mais uma serviçal que não tinha muita experiência. Na colônia sim, mas cozinhar! Que significa refeições? O pão! Não havia padeiro não; a schmier tinha de ser cozinhada. Iam buscar a comida na roça, e antes da colheita havia falta, sim, porque não podiam comprar, não tinham dinheiro, não havia caixa. Que coisa linda, não havia caixa para o seminário! Ninguém ajudou no começo. Mais: lavar a roupa, remendar, passar a ferro. Aquele ferro! Não como hoje, elétrico, é só ligar, tinha que ser naquele ferro com brasa... Tinham duas filhinhas. Uma morreu. A mulher ficou doente. Foi um sacrifício, um grande sacrifício. Mas o que os sustentava e os mantinha em pé era esta visão: um instituto para formação de professores, e mais tarde ministros para a igreja. Agora ele, vamos voltar a ele, o professor. De manhã ele dava as aulas na escola paroquial. Todos os pastores lecionavam, praticamente todos, durante muitos anos. Tinha ainda a instrução de confirmandos, os cultos aos domingos, visita a doentes, os enterros, casamentos. Sobrava só a

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tarde, com interrupções, para as aulas. De manhã os alunos tinham de trabalhar na roça, plantar, capinar, fazer todos esses serviços. À tarde entravam então na igreja. Lá na igreja, aquele cheiro característico daquelas lousas de pedra onde escrevia antigamente. Não sei se alguém passou por isso também. Alguém conhece isso ainda? Eu só conheci isso antigamente. Para limpar a pedra, cuspiam. Esse cheiro ficava quase meio ano depois ainda lá dentro. É característico. Como a farmácia tem um cheiro característico, as escolas também tinham. (...) Mas vamos fazer menção também do plano de estudos. Um educador americano disse certa vez que uma universidade se forma desta maneira: num banco está sentado numa extremidade o professor, e noutra extremidade o aluno. Não era bem assim. Vamos tirar o chapéu em espírito ante o professor e os alunos daquela primeira turma. Eu vou ler aqui o que eles passaram num ano e pouco: todo o Catecismo, completo; decoravam o texto, versículos e até perguntas e respostas. Decoraram também histórias bíblicas, 15 hinos e 6 salmos. Estudaram a Confissão de Augsburgo - ela estava no hinário. Livro de leitura arranjaram de uma ou de outra forma em alemão, português. Lá encontraram um pouquinho da história do Brasil, parece que tinham um ou dois só, história do Brasil e um pouco geografia de acordo com os exames que o professor fazia num pequeno quadro negro onde desenhava os países principais, etc. Em ciências naturais passaram a zoologia. Também só o pastor tinha o livro, tudo era ditado e eles tinham de fazer anotações. Cadernos havia, não usavam mais lousa não. Eu encontrei também um livro de matemática em português. Mas agora eu tiro o chapéu: latim. É incrível o que eles passavam em latim, sem livro, passaram as declinações todas, alguém se recorda ainda, 1ª, 2ª, 3ª, 4ª, 5ª ? E agora as conjugações inclusive as irregulares. É possível? Foi possível. Podemos explicar em parte. Eu descobri este fenômeno! Na colônia, no meu tempo, 50 anos atrás, os alunos tinham uma memória, uma concentração invejável. Eles podiam decorar com facilidade; na cidade os alunos ganhavam na leitura porque eles tinham mais estímulos, letreiros em toda parte, em casa também ajudavam. Esses estímulos faltavam na colônia. Na aritmética ganhavam sempre, mas na memorização do Catecismo ganhavam os da colônia. É interessante. Daí então eles poderem de fato completar em um ano mais ou menos este programa. Só queria lembrar ainda que o instituto foi só até o começo de 1903 quando a esposa do pastor sucumbiu, no falecimento então da primogênita. Aí resolveram voltar para os EUA. Em 1905 a convenção que se reuniu em Jaguari resolveu transferir o Instituto para Porto Alegre. Em 1963, quando festejamos aqui os 60 anos de existência do Instituto, a Faculdade então

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conferiu a estes três homens, professor Mahler, Hartmeister e Vogel, o título de Doutor Honoris Causa. Porto Alegre Começa então agora um novo capítulo. Porto Alegre, 1907. O Seminário abriu suas portas. Onde? Em casas alugadas. Primeiro na Av. Pátria, depois na Voluntários da Pátria. Voltando um pouquinho, o pastor Mahler chegou a descobrir aqui em Navegantes um terreno propício para fundar uma comunidade luterana. Numa viagem que ele tinha feito para Santa Maria, Cruz Alta - Santa Maria, ele, na volta passou, em 1901 ainda, por Estância Velha. Chegou a Porto Alegre para pegar um navio. Naquela época viajava-se de navio, daqui a Pelotas. Perdeu o navio. E na conversa com um garçon que era de Navegantes ficou sabendo que havia famílias luteranas aqui em Navegantes, que não tinham comunidade, não queriam filiar-se à comunidade Batista Alemã, que existia e também não queriam filiar-se à igreja de Confissão, como se diz hoje. Disse ainda o garçon que havia uma família que tinha um nenê para batizar, e não sabia para onde ir. Aí o pastor Mahler foi e fez o primeiro batismo luterano aqui em Porto Alegre. Recebeu depois o chamado em 1902; chegou para Porto Alegre e fundouse aqui a comunidade. Quer dizer que, como em Bom Jesus, também em Porto Alegre o Seminário implantou-se no seio de uma comunidade, uma comunidade muito, muito ativa. No primeiro culto que ele realizou havia só 18 pessoas e chovia. No segundo, 28; no 3º já havia 56 pessoas. A escola começou com 18 alunos e logo teve 60 e tantos alunos. A juventude era uma maravilha. A juventude formou-se com 28 jovens e no ano seguinte já eram 56 jovens. Publicaram mais tarde uma revista da juventude. Tiveram belos programas, aos quais pude assistir mais tarde. Uma organização com dinamismo tentava trazer e aqui então agora acolher o jovem seminário. Agora, era tudo primitivo lá também. Chovia muito dentro daquele prédio bonito, que fora a mansão parece de um barão, um vice-governador, ou uma coisa assim, disseram. Então veio a idéia de se comprar um terreno e construir. A igreja-mãe ajudou, e foi então inaugurado o prédio do novo Seminário em 1912. A igreja tinha, junto com a comunidade Cristo, uma quadra toda: Roosevelt, Pátria, Maranhão e Minas Gerais, que mais tarde foi alargada e converteu-se em Farrapos, tirando uma boa fatia dos terrenos. Uma quadra toda era nossa. Havia tanto campo ainda, tanto espaço no Navegantes naquela época. Porto Alegre talvez tivesse pouco mais de 100 mil habitantes. Havia bondes. Já eram bondes elétricos. No começo ainda não, era um bonde a tração de, se não me engano, três mulas. No meu tempo já era elétrico. Porto Alegre era uma cidade pacata. Havia só umas chaminés fumegantes, bastante indústria. Lá fora era justamente a área da indústria, com muitos operários. Pode-se dizer então que estávamos de

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novo no começo: primitivismo! Amigos, quando eu entrei no Seminário em 1918-19 não havia água corrente, não se podia abrir a torneira. Havia um poço, sim, mas ele só tinha água no inverno, quando chovia muito. E ainda era salobra, não se podia tomar. Mas para que temos ainda o Guaíba? Para que temos ainda os chafarizes que a prefeitura havia construído? Um ficava na Ernesto Fontoura, mas era fraco. O outro ficava na rua São Pedro. Era longe para andar com carrinho de mão, com latas e outras coisas grandes para buscar água para a cozinha, para tomar, para fazer limpeza. Para limpeza os alunos foram algumas vezes até o Guaíba para buscar água de lá. Mas não se assustem, a limpeza não era grande coisa. Não vou elogiar os estudantes não. Para limpar as vidraças bastava uma vez por ano. Tínhamos um cubículo com uma mangueira, sim, para não falar em ducha, mas precisávamos buscar a água. Um buscou. Eu me recordo tão bem. Era o professor Otacílio Schueler. Naquela época não era professor ainda. Estava contente para na outra manhã tomar um banho mas quando chegou, já havia um outro lá. (Risos). Agora vou falar em latim, não gosto muito do assunto, mas vou falar. Em latim chama-se latrina: olhem no dicionário, nós não falamos assim, falamos em "casinha", falamos em Hâuschen, mas no latim é latrina. É amigos, não havendo água, que fazer então? Bem, havia carros que passavam pelas ruas. Primeiro pensei que eles tinham barris de chopp lá dentro. Que nada! Eram assim mais estreitos, mais altos, com uma tampa. Depois parafusavam o "barril". Buscavam então aquilo que estava na latrina. Mas era muita gente. Então os pequeninos - eu era o menor de todos na minha classe - tínhamos de fazer valetas... Depois fazer o enterro lá... (Risos...) São coisinhas de nada. O apóstolo Paulo também não tinha uma vida melhor; isso é um consolo para nós. Agora, em fatos. Veio a influenza espanhola. Foi uma epidemia que grassou em 1918-19 por todo mundo - é gripe! Mas esta gripe, naquela época, foi comparada num livro de medicina que tenho com a grande mortandade do ano 1348, quando a Peste Negra assolou o mundo. A Peste Negra era a peste bubônica. Também havia aqui de vez em quando casos de peste bubônica, mas esta gripe dizimou no mínimo 20 milhões de pessoas. Era triste. Eu estava no Seminário em 1918 e acompanhei alguém para a casa de uma família conhecida aqui defronte do prado. O prado não existe mais. Há agora uma praça lá. Mas a casa existe ainda hoje. Essa pessoa me disse: "Olha, vou visitar uma família. Perderam um rapaz, um moço de 19, 20 anos." Chegamos lá. Estava a irmã, que também depois morreu de gripe. Numa semana dois casos numa família. Eu não entrei, era menino ainda. Fiquei lá fora, mas fui ao portão lá na frente. Então via passar aquela, como se chamava ainda? Maria Mulata! Uma coisa assim. Era um

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tipo de esquife grande, uma carrocinha puxada por dois animais ou um animal até, com uma tampa atrás, por onde colocavam o esquife bem provisório, geralmente apenas as pessoas mortas. Comecei a contar 7 numa tardezinha, numa hora talvez. Era incrível! Doença em toda parte. Muitos morreram. No interior houve famílias onde todos morreram, também os pequenos, ninguém podia ajudar um ao outro. Morreram de fome. Cada um tinha o suficiente para tratar de si: não podia ajudar o outro. O Seminário fechou. Mais um desses choques foi a política quando veio a 1- Guerra. O Seminário recebeu ordem para fechar. Por quê? Porque falava-se alemão. Pastores não podiam pregar mais aqui em Porto Alegre. Era-lhes permitido ler, pelo menos ler o sermão. O velho pastor Kunstmann era o nosso pastor naquela época. Ele lia então o sermão ou fazia de conta. Tinha lá uma estantezinha e um papel e acho que ali não estava escrito o sermão; só a disposição, e lia. Ou de casa em casa. E não só o fechamento meus amigos, também se tratava de perseguição. Foram queimadas casas de negócio no centro, por exemplo, o Clube Germânia, clubes alemães, e casas de negócio como Hotel Schmidt, na Voluntários da Pátria. Eu era aluno da escola ainda. Tínhamos de esconder depressa todos os livros que tínhamos em alemão debaixo da escola. Ficamos só com uns poucos livros em português que tínhamos naquela época. Estávamos com medo também de sermos atingidos à noite. Muitas famílias compravam víveres com medo que tudo seria fechado. A ameaça estava no ar. A Alemanha entrou na guerra, e o Brasil era contra a Alemanha, etc. e todo que tem nome alemão, que fala alemão é inimigo do Brasil. Mas o Seminário abriu novamente. Em março ou abril, me parece que foi março de 1919, o Seminário abriu novamente suas portas. Eu entrei com aquela turma. Sapos Um dia eu tive de levar uma carta do velho professor Kunstmann ao correio, não ao correio, foi a um outro membro da comissão. A carta era pesada, meio aberta, bem, então, eu não sou curioso não, mas... (Risos...) Eu só vi uma coisa de compra de terreno. Pronto! Lá começou então aquela guerra. la continuar entre nós alunos. Deixar Navegantes! Onde já tínhamos luz elétrica, água não, mas já tínhamos luz elétrica, tudo mais perto, a igreja estava perto, agora ir para o morro, que eu cheguei a conhecer depois, amigos, que era este morro aqui? Bem, é o que hoje é, mas não tinha nada. Somente esta casa aqui. 0 que houve depois era um galpão, não era um galpão, era um estábulo. Nesta casa morava uma viúva, dona Maria La Granja Mostardeiro. Os Mostardeiro são desta família. Ela achou o lugar aprazível. Aqui atrás o mato, imaginem, mato na cidade, coisa linda! E na frente então Porto Alegre, pacífica, deitada lá. O que se ouvia então à

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tardezinha especialmente - a atmosfera era diferente - ouviam-se certos gritos, os cachorros latirem, tudo tão poético! Ouvia-se os navios que entravam, também os trens, se podia ouvir de tudo. Não havia essas barreiras de cimento armado como há hoje. Tudo lindo! Mas ela morou acho que só três anos aqui, se tanto, e vendeu a casa depressa. Descobrimos depois porquê. Rua existia unicamente essa, que se chamava Avenida Maria, porque ela chamava-se Maria. A única casa. Havia umas choupanas, uma vendinha aí no meio, uma cachorrada que tomava conta das ruas, sim, porque não passava gente. Quando vinha um logo chamava a atenção de um grupo de cachorros. Havia pessoas jogando aquele jogo de osso proibido. Olhavam para a gente, a gente era secreta talvez. Quantas vezes olhavam assim. Paravam até uma época, depois se acostumaram com os estudantes. A rua subia. Esse trecho todo que vemos era um barranco alto. O professor Rehfeldt, que morava na casa de lá, tinha a entrada para auto pela Pedro Ivo. Agora tem um metro e meio a dois metros de altura porque baixaram a rua. Nós escorregávamos em tempo de chuva. Tínhamos que ir no escuro. Não havia iluminação. Escorregávamos e caíamos com as duas mãos então no barro para não sujar as roupas domingueiras. A rua terminava aqui no portão. Quando cheguei em 1940 para cá, a rua terminava ainda aqui, porque o resto era banhado. Não havia Petrópolis, não havia o bairro Auxiliadora. Havia só essa casa aqui naquela época. A Bordini também não existia. Era tudo campo. Campo com bastante buracos, de onde tiravam granito. Esse morro aqui é mina de granito, de granito azul. Então qualquer construtor vinha para cá. Mandavam operários, tiravam o granito e deixavam o buraco. Havia água lá dentro, e onde há água há muitos mosquitos. Ninguém compreendeu por que saímos lá de baixo, sim, agora se vê, tudo bem. Agora concordamos sim, mas naquela época se dizia: Navegantes é baixo, depois há muita humidade e quando chove há muitos mosquitos. Mas os mosquitos aqui eram superiores àqueles de lá. Aqui havia o banhado, um pequeno banhado com uma pequena ilha. Em tempo bem seco secava tudo. Quando chovia bastante então tínhamos água bem perto porque havia um poço lá longe. Esse poço tinha tanta água como no banhado ao lado. Estavam no mesmo nível sempre. Baixava no verão. Tínhamos lá uma bomba, um cano que vinha de lá e trazia água para cá. Mas para que dava esta água? Para cozinhar apenas; para beber já não dava mais. Buscávamos água de uma fonte aqui em baixo, na descida, defronte da minha casa lá prá baixo. Lá havia uma fonte; de lá buscávamos então a água, mas tínhamos de fervê-la. Outros também descobriram: os malandros. Os malandros tomaram conta aqui deste mato. Mais de uma vez a polícia veio para cá, chamada pelos estudantes, porque víamos fumaça lá. Logo descobrimos então porque a dona Maria Mostardeiro saiu daqui. Era quase impossível viver em paz aqui. Não só os mosquitos, como

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as rãs, os sapos. Era uma coisa linda de noite ouvir aquele coro, aqueles coros fazendo uma competição. Ouvia-se sempre "-ão! -ão! -ão!"... De repente, veio o estribilho todo... (Risos). Era incrível! Eu não conhecia isto ainda. Mas de todos matizes! Era uma coisa linda! Havia de tudo, mas o pior eram os ladrões. Mas onde íamos morar aqui? As condições eram quase as mesmas de Bom Jesus. Em 21 em março de 1920 começamos aqui. O que havia aqui? Atrás desta casa onde morava a viúva havia a garagem dela, que era o nosso refeitório, nosso music hall. Tínhamos uma vitrola que alguém nos deu de presente, não sei mais quem foi. Depois havia um galinheiro, sim, usávamos o galinheiro depois para morar lá. Como lá em Bom Jesus, a mesma coisa. Vemos como este ciclo sempre volta. E havia o estábulo. Mas sabem o que é um estábulo! Um Kuhstalll Bois eu acho que ela não tinha mas vacas sim. O estábulo era longo. Tinha 18 metros por 5 ou 6 metros de largura. Havia só tampas para abrir e depois em cima só o telhado, as telhas. Significa que havia espaço não só para os mosquitos entrarem de noite, mas para o minuano também De vez em quando podia se ver as estrelas através das frestas... Quando chegamos, as vacas tinham saído mas os terneiros entraram. Não podíamos botar a cama lá mas tínhamos que pôr a cama lá. Por sorte estava seco em baixo, aquelas "placas". Ninguém levou aquilo. Não dava tempo, então a gente mexia um pouco para não botar a cama bem lá no meio, e não sabíamos o tempo quando as vacas tinham saído. Então veio atrasado, um carpinteiro lá da comunidade "Cristo" - porque havia só esta comunidade na época - e colocou duas ou três tábuas. Todos já estavam lá esperando: uma fila para botar a cama em cima das tábuas. Aos poucos fecharam tudo e esse estéreo, estrume tão precioso, foi jogado fora. Quando chovia cada um tinha que arranjar um guarda-chuva para não ter a cama toda molhada. A parte da frente era usada como classe. Lá tínhamos nossas aulas, e atrás era o dormitório. O curso teológico entrou aqui neste prédio. Éramos duas classes: o curso teológico que tinha mais ou menos 10, 11 e a nossa classe que tinha uns 15 mais ou menos. Assim funcionamos alguns anos. Tiros Agora, esses impactos pequenos e miudinhos, que levaram dona Maria a vender tudo isto aqui, eram tantos que nós também não podíamos trabalhar com tranqüilidade. Tínhamos que pôr guardas Sá fora. Quem eram os guardas? Nós, estudantes, naturalmente. Um mais velho e outro mais novo. O mais velho tinha direito à pistola carregada, e o mais novo o direito de levar a espada, a espada dos turcos, como nós dizíamos. Era de um pastor que havia vindo da Alemanha como missionário entre os índios. Deixou depois, e passou para a nossa igreja. Voltou e deixou umas caixas
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grandes. Os estudantes vasculharam tudo e viram armas lá dentro: também duas espadas e uma porção de flechas e arcos dos índios, legítimos, não made in Japan. Com as espadas montávamos guarda todas as noites. Tenho aqui no meu diário, por exemplo, em setembro, 1921, "roubo da vitrola". Essa linda vitrola foi roubada de noite. No outro dia a bomba do poço foi roubada. Em outras noites, quando já tínhamos a bomba nova, tiraram os canos que apareciam, porque o terreno era assim, ondulado, e o cano estava à mostra. Certo dia levantamos de manhã e... onde está a cerca? Aqui tinha uma cerca! (Risos...) Essa casa de moradia era separada e as vacas estavam por aqui. Havia uma cerca de tela por aqui, sim; ontem estava ainda, hoje de manhã não mais. Muitas vezes a gente via alguém atrás de um arbusto aqui; o estudante se assustava e ele também se assustava e fugia. Então fomos assumira guarda. Posso contar só da minha guarda. Eu tinha o meu parceiro. Tinha uns meses a mais que eu por isso tinha o revólver. Eu, a espada. Vínhamos lá de baixo até aqui em cima sempre espiando a cerca, porque atrás da cerca estava o mato. De lá eles podiam observar tudo, ainda mais naquela bela noite de luar. De repente vimos alguma coisa entre os arbustos aqui. Já a pistola ia "assim" mas por sorte não atirou. Era uma vaca que havia entrado. Uma noite ouvimos tiros. Eram dois colegas meus que estavam vigiando. Os ladrões sabiam que havia guardas, mesmo assim entraram porque estava chovendo e achavam que os guardas não iam estar por perto. Estavam. Ouvimos os gritos: "pega ladrão!". Dois tiros. Contaram depois que não queriam matar, atiravam para o chão ou para o ar. Só queriam assustar. Disseram que um ladrão que vinha à frente disse um palavrão, foi devagar até à cerca e fugiu. Sabia que nós não iríamos matar ninguém. Quantas vezes entraram pelas telhas, levaram roupa de cama, sapatos, casacos, etc. Todos já éramos pobres; levaram o que queriam. Nós sentíamos muito a falta de água, como já dissemos, e luz. Não havia luz elétrica. Mais tarde arrumou-se um dínamo, que gerava luz até aqui embaixo daquele prédio, onde hoje é a lavanderia. Houve muitos incovenientes, mas tínhamos que nos acostumar. Contudo, sempre com a saudade do "Egito" que ficara para trás: Navegantes. Mont Serrat A primeira formatura que houve aqui no Mont Serrat foi em agosto de 1921, com 11 candidatos. No Jubileu de Prata da Igreja o Seminário já havia formado 36 pastores e 5 professores. Aquele instituto, aquela sementezinha já produzira então tantos frutos. (...)

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Os Cursos Os cursos no começo compreendiam 3 anos de Pré e 3 anos de teologia: 6 anos. Amigos, podem fazer comparações com hoje. Podemos falar em primitivismo, mas precisava-se olhar para o contexto, a necessidade. Além disso, não se exigia tanto naquela época. Nossa igreja estava bem longe da grande faixa, da grande estrada da sociedade e do mundo de então. Estávamos aqui trabalhando na colônia praticamente, em alemão, vocês entendem? Mas, já no meu tempo, o estudo todo abrangia 7 anos. Imaginem quando um estudante entrava no seminário com 13 anos, como entraram vários, com que idade se formava? Tinham eles maturidade? Eu tive essa experiência. Entrei com 13 anos. Era o caso do pai do pastor Carlos H. Warth e do professor Otacilio Schueler também. Eram os dois mais moços. Vou contar ainda isso. Foi uma classe que se formou em 1921. Então os professores acharam: esses dois são jovens demais. Vamos deixá-los ainda no Seminário. Os outros se formaram na Igreja "Cristo". No correr da semana os professores disseram: como vamos agora lecionar a mesma coisa a esses dois? Vamos também formar estes dois. E eles se formaram. Sabem qual foi o evangelho do domingo sobre o que se pregou? O fariseu e o publicano! Perguntou-me o professor Schueler: quem de nós dois era o fariseu e quem era o publicano?... (Risos). Agora vamos falar agora da reorganização. Nós, de acordo com os dados, temos uma família grande de 4 cursos: Teologia, Curso Normal, Ginasial, Colégial. Tudo junto, debaixo de um teto, por assim dizer, é humanamente impossível. Olhem os dados: 114 no Ginasial, 77 Colegial, 14 no Normal e 43 no Teológico. Deixemos o Normal de lado agora por uma outra razão. Se alguém pergunta porque o Seminário acabou com o curso normal? Minha resposta sempre foi esta: nós não acabamos, ele acabou. Por si. Não havia mais interessados. De novo vamos ver aqueles círculos, de novo aquela faixa. Era uma época em que as comunidades começaram a se tornar independentes. Houve certa pressão. Sustentar o pastor com família e casa, e agora mais o professor com família e casa? Era impossível. Então muitas escolas passaram para o regime do município, da prefeitura, e então os professores não tinham mais chance de ser aquilo que podiam. Muitos professores se formaram aqui, tornaram-se depois professores e foram secundários, fizeram cursos ainda, quer dizer, parou simplesmente, não houve a intenção nossa por assim dizer. Foi enviada uma moção para o Sínodo para que se eliminasse o ginásio. Razões? Há várias razões. Um pequeno de 13 anos que vem lá do Paraná, Espírito Santo e sai para longe de casa, não acha aqui o lar que devia achar. Com tanta gente reunida, não acha. Quantas saudades! Um estudante quis morrer, queria morrer de saudade de casa. Noutro caso a
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mãe tinha saudades enormes do filho. Eu mandei uma vez um cartão tínhamos cartão do Seminário - e então ela me escreveu depois e contou: atrás daquela janela lá mora meu filho, sempre olhando a janela com saudades do filho. Terceiro caso: vem um pai do Espírito Santo, com um filho e mais dois outros. Sete dias e noites em viagem naqueles bancos, segunda classe, bancos de madeira. Chegou aqui cansadíssimo, morto. No outro dia voltou por causa do trabalho dele. Quatorze dias de viagem num banco, não sei se alguém de vocês já fez isto. Outro pai veio, trouxe o filho mas veio infelizmente dois dias antes do tempo. Como aqui estava desolado, muito quieto ele não se sentiu bem. Voltou levando o filho consigo, achando que esta atmosfera aqui, tudo vazio, não era lugar para o filho. Então surgiu esta idéia, devido a este fato de um pai do Espírito Santo fazer sete dias de viagem para trazer o filho. Falamos com o presidente Hasse naquela época: devemos ter no Espírito Santo um pré, independente do curso que formar. Então lá resolveram, lá fizeram, em São João Grande, um colégio. O pastor e mais um professor, Osvaldo Schueler, começaram a dar aulas de 48 até 57. Como aquilo era muito retirado, foram então para Baixo-Guandu. Lá esteve o professor Roberto Seide. Aquele então era um ginásio oficial. A prefeitura havia cedido o terreno. Em São João um membro havia cedido duas colônias com casa e com plantação de café para o funcionamento da escola preparatória. Lá se formaram também alguns professores - não sinodais ainda - mas já podiam lecionar nas escolas. Depois de Baixo Guandu foi para o Rio, e do Rio foi então para São Paulo. Funcionou 11 anos lá em São Paulo. Posteriormente fechou e agora recomeçou. Nossa moção que foi feita aqui não foi aceita lá. Foi aceita, sim, oficialmente, mas nos seguintes termos: que nós deveríamos ter mais de um ginásio: Santa Rosa, aqui em Porto Alegre, Linha Brasil e ainda outros ginásios para que esses pequenos não se separassem das famílias por tantos anos. Poderiam também economizar bastante. Mas aquilo levou tempo. Vejam que se levou então a São Leopoldo o Pré, e o Ginásio se extinguiu por força de lei. Algumas datas são importantes: 1958 - pela primeira vez houve uma separação dos cursos Normal naquela época ainda, curso Teológico e o Pré. Foi eleito diretor do Pré o professor Amo Gueths; do Normal foi eleito mais tarde o professor Roberto Seide, depois o professor Geraldo Steyer. Agora, rapidamente, uma amostra de como se trabalhava, isto é, de como os professores eram naquela época pressionados a lecionar, por assim dizer. Formou-se naquela época a ASTE (Associação dos Seminários Teológicos Evangélicos) aqui do Brasil. 0 Seminário é um dos fundadores da ASTE. Havia diretrizes com respeito ao programa, ao corpo
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docente. A ASTE estabelecia o que seria o ideal a um professor na média: uma ou duas cadeiras apenas. De preferência uma cadeira só e somente 6 aulas por semana, de acordo com os moldes europeus, as universidades na Europa e EUA. Podia dar mais aulas mas na mesma matéria, em dois, três turnos. Esse ideal foi aceito como norma pela ASTE aqui do Brasil. Procurando aqui em minhas anotações - eu só posso citar o que tenho em mãos - descobri um cartão de 1950 e pouco. Nós tínhamos 6 aulas, 6 dias por semana, inclusive sábados, junto com todas as turmas. Eu tinha que dar, além da Direção, 24 aulas, mas 13 disciplinas diferentes. Lecionava Dogmática, Simbólica, Homilética (3 cursos), História da Pedagogia, Didática (2 cursos), Educação Cristã, Educação e Canto. Querem também a música? Estudei também uns anos. Todos os professores eram músicos. "Quem sabe sabe, quem não sabe ensina". Tinha que ensinar violino, imaginem, e harmônio também, depois do meio-dia, quando o aluno estava "assim" e o professor também estava "assim", depois de 6 aulas de manhã. Eram tempos anormais. Sempre dizia aos estudantes: eu tenho pena de vocês, mas as condições são assim, a situação é assim, o contexto todo é assim. Lá fora também é assim. Como já disse, em Porto Alegre não havia universidade ainda quando eu comecei aqui em 1940. Agora imaginem nós devíamos ser aqui há 20 anos atrás o que somos hoje? Impossível! Ninguém pode esperar esta inversão. Alunos Agora, o corpo discente. De onde vinham os estudantes? A maior parte vinha das colônias. Lá estava o grosso das nossas comunidades. Mas da minha classe havia 10 que vieram da Alemanha para estudar aqui. Alguns se formaram aqui, uns foram para a Argentina e outros desistiram. Quer dizer que nós tínhamos uma aculturação. Tanto para a igreja como para a Faculdade. Aculturação significa o cômputo de forças, fatores, que ajudam a melhorar. Para ser bem franco, meus amigos, naquela época não havia "guinchos" e "relinchos" nos corredores, sabem por quê? Eu tinha colegas da Alemanha. Três passaram pela 1ª Guerra, uma parte pelo menos. O pai do professor Steyer trabalhou para a guerra. O pastor Wille era homem da metralhadora, na linha de frente da guerra. O outro, pastor Rötting era um da cavalaria; andava sempre na nossa frente, como um cavalarísta mesmo. Havia então uma elite que veio de fora. Uma outra civilização no meio da nossa civilização. Quando entramos no Seminário lá em baixo, meus amigos, eu vou confessar: pé no chão. Havia a ordem para ter calçado. Calçado? Nossa gente era pobre. A gente ia para a escola só no inverno com calçado, era tamanco então. Mas nem chinelo, só quando era domin-

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go. Para a igreja, sim, só sapato. Então vejam, neste ambiente entraram estes adultos de uma outra civilização e se formou então uma aculturação. Havia o gosto pela música, como há agora, uma coisa linda! Mas naquela época não era tão fácil assim. Formou-se também uma orquestra. O professor Rehfeldt comprou com o seu dinheiro uns 6 ou 8 violinos e um cello. Mandou vir da Alemanha. Os estudantes o pagavam em prestações. Formaram uma pequena orquestra. Pastor Wille ensaiava cello e nós violino. Em todo caso, havia também o incremento de uma vida cultural aqui dentro, entre nós. Foi um tempo lindo nesse sentido. Também veio da Argentina o nosso querido Fred. Uma boa pessoa. Tinha só um defeito: não sabia ler nem escrever! (Risos...) Não havia classe para ele. Não era possível. Nós ajudávamos um ao outro nas diversas matérias, mas para ele tínhamos que começar com a cartilha. Foi mandado para casa. E havia um outro, muito experimentado na vida. Da Argentina foi para a Alemanha. Misturando-se com a bagagem, não pagou passagem. Lá recebeu então grátis a volta para a Argentina. Certamente os pais não sabiam o que fazer com ele. Veio para cá. Era um bom rapaz também, mas não tinha nada que ver com o ministério. Também voltou, então. Essas coisas aconteciam sim. Veio um terceiro. Este se destacou tanto numa classe abaixo da minha que mais tarde foi enviado para os EUA, o Alexander Heidel. Ele decorava os versículos em grego e hebraico. Citava-os na classe nas línguas originais. Lá nos EUA trabalhou na Universidade de Chicago, lecionando hebraico. Trabalhou num dicionário hebraico, e nas suas aulas ele tinha rabinos. Mas ele cometeu um erro, e nós sofremos com este erro: ele não voltou para cá. Então a Igreja-mãe disse que não podíamos mais mandar rapazes daqui para lá. Aqui nesta esquina eu conversei com o Dr. Streufert. Uma bela pessoa. Discutiu muito. Se os estudantes do Brasil vão para lá, chegam a conhecer os carros, essas amenidades da vida, vão conhecer uma moça, vão casar lá, depois não voltam mais. Tivemos um exemplo. Assim de fato levou anos até que se apagasse aquela impressão que foi feita. Altos e baixos haverá em toda parte, também aqui no Seminário. Nem todos os jovens que entram são jovens cristãos. Nem todos tiveram uma mãe piedosa, um pai piedoso, que os orientasse bem. Um pai mandou 3 filhos para cá e me disse porque: não podia mais com eles em casa. Mas, foi muito simples. Depois de 1 ou 2 anos ele disse: vocês fizeram maravilhas aqui. Não! É que aqui temos regras, orientações, horários, etc. Os rapazes tornaram-se bons estudantes e bons obreiros da fé. Um outro pai mandou 3 filhos para cá. Eu acho que pela mesma razão. Mas aquilo não funcionou. Sei que nosso zelador, senhor Rath, mais de uma vez chegou ao meu gabinete com um molho de chaves e atirou-o em cima da mesa: "Herr Direktor, Ich gehe weck!", "Senhor Diretor, eu vou embora!". E eu sempre

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acrescentava: "Seu Rath, eu vou junto!". (Risos...) Em pouco tempo os 3 foram embora. (...)

Por quê?
João 3.30 diz: "Convém que ele cresça e que eu diminua". O que dissemos no começo, o que importa é o trabalho, a missão, não as pessoas. Dois profetas, Isaías e Malaquias, projetaram sua figura para dentro do Novo Testamento. Quatro evangelistas citaram sua história. Um anjo apareceu para anunciar sua vinda. Agora, meus amigos, quanto tempo João Batista pôde exercer seu cargo? Ele que era o orador das massas? Um ano e oito meses. Só! Por que Deus não deixou ser 2 , 5 , 10, 20, 30, 40, 50 anos? Lá está ele, 11 meses no porão de Maquerus, entre a Arábia e a Judéia. Tem de morrer pelo capricho de uma mulher, numa atmosfera carregada de vinho e frivolidade. Por quê? Tivemos um pastor aqui no Brasil que veio da Argentina. Era sustentado por duas irmãs porque não tinha mais os pais. Elas pagavam o estudo dele. Ele trabalhou com todo afinco, com todo dinamismo durante 5 meses e meio. Morreu de tuberculose. Perguntamos: porquê? Pastor Enge morreu com 26 anos, após 4 anos de trabalho. Aqui se formou um estudante Prockch, em 1933. Foi ajudar um pastor nas férias e, 3 semanas depois, morre afogado no rio Tramandaí. Nosso pastor Steyer, meu colega, depois de 8 anos de trabalho, morreu em 1933 também. O professor Rupp morreu acidentado em 1961, em Goiás. Martin Flor morreu na frente do Instituto, em São Leopoldo. Osvaldo Schueler morreu aqui, de repente, de derrame cerebral. Um estudante recém formado, Matte, em 1978 morre afogado. Depois um estagiário, antes de poder voltar para a comunidade que tanto o queria e estimava. Aqui no próprio Seminário, o primeiro que morreu foi um Krieser, neste prédio aqui, em 1923. Mais tarde Hartwig, poucas semanas antes da formatura. Então perguntamos: por quê? Nós não somos importantes. Quando Melanchton morreu em 1560, havia um bilhete em cima da mesa. De um lado estava escrito o que nos interessa: "Minha alma, tu subirás para a luz, tu verás Deus e verás o seu Filho, nosso Salvador". Mais ou menos assim. "E então conhecerás os grandiosos mistérios de Deus com respeito à minha vida. Por que Deus me fez assim?". Nele convém crescer. (...)

Hoje e amanhã
Hoje nós vemos o que há lá fora. Deus nos colocou dentro deste labirinto de idéias e filosofias vãs. Queria citar aqui dois nomes não da Igreja. Wiiliam Durant diz o seguinte numa de suas obras: "A conduta humana e a fé sofrem hoje as mais profundas perturbações. Sentimos a nossa vida moral ameaçada. Há a desintegração dos antigos costumes e da antiga fé.
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A marcha da mudança operada hoje não tem precedentes. Todas as coisas fluem sem ponto de apoio. E debatemo-nos na correnteza. Boiamos num mar de racionalização e dúvida; nossos conhecimentos nos destroem". Agora de um ministro da Aeronáutica de 1968: "Os homens como que perderam os pontos cardeais que os orientavam. Há gigantescos choques de interesses, de confusos ideais, de babilônicas reinvindicações". São dois os grandes estigmas na igreja de hoje: 1)ecumenismo: formar uma só igreja, vamos todos ser irmãos; não vamos olhar para o que se faz, mas para aquilo que nos une. 2) desvio da missão: missão não é evangelho social, mas a salvação da alma. Eu não ouvi um único discurso do Papa quando esteve no Brasil que falasse em salvação da alma. Era somente sobre a melhoria da situação, miserável sim, de muitos grupos na sua vida social somente. Mas não sobre a salvação da alma. A Carta aos Hebreus diz: "Jesus Cristo ontem e hoje é o mesmo e o será para sempre". Jesus, com a sua doutrina, com a sua mensagem; Jesus com seu exemplo, sua linguagem. Vamos seguir os passos. Antes de tudo, antes de sermos enviados, apóstolos, devemos ser discípulos de Jesus. Antes disso. Não é o quadro de formatura na parede. Ser discípulo de Cristo. Ele disse: "Se permanecerdes na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará". E libertará aqueles que vos ouvirem mais tarde. A linguagem de Jesus é sempre a mesma carregada de amor. Saibamos usar esta linguagem. Eu quero citar dois velhinhos: o falecido pastor Doege e um que era velhinho quando deixei aquela comunidade lá na colônia. Este segundo, fez uma construção em Bom Jesus quando lá foi erguido o monumento do Seminário. Eu tinha falado da missão em São Paulo. Caminhamos juntos então até nos separarmos para cada um ir ao seu alojamento. Ele me parou e disse: "Junge Pastor Goerl, Deus lhe dê um coração grande". E foi embora. Essa palavra me acompanhou durante anos. Que quer dizer um "coração grande"? Compreendi melhor quando o velho pastor Doege me falou numa ocasião: se eu precisasse agora novamente começar meu ministério, eu iria usar muito mais amor, muito mais compreensão. Uma dica direta agora: ponham em prova o seu amor, o seu coração aberto para a congregação. Faça um teste neste sentido. Tomem nota num papel quais são as "ovelhas negras", aqueles que incomodam o pastor, que incomodam a diretoria, que sempre tem que gritar, resmungar. A estes devem amar primeiro. Salvar sua alma. Eu cometi erros neste sentido. Ah, o pastor logo se apruma: "sou pastor! eu sei! eu estudei! Quem quiser ser luterano precisa fazer isso, aquilo." Assim não são cristãos, assim não salvamos almas, mas entender porque, e mostrar a ele com toda paciência. Jesus disse uma vez: "Vós não entendeis minha linguagem". Qual a linguagem de Jesus? Já falei sobre o

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conteúdo, mas há a maneira também. O maior exemplo era esse: as criancinhas. Os discípulos querem reter as mães. Que fez Jesus com estas criancinhas? Falou com elas? Instruiu-as nos 10 Mandamentos? Nas partes principais do Catecismo? Usou a linguagem do amor. Levou as crianças ao colo, afagou, acariciou, orou com elas, abençoou as crianças. Elas nunca iriam esquecer aquilo. Jesus me teve nos braços. Jesus me amou. Esse contato. Não olhem só para os membros bons, líderes da comunidade. Olhem para grandes e pequenos, jovens, mas sempre com coração grande e cheio de amor. Assim, meus amigos, vocês passarão pelo grande exame que Jesus fez com seus discípulos, a primeira turma de teologia do Novo Testamento. Examinou mais de uma vez. Não pelas matérias como grego, hebraico, aramaico, não. Mas Jesus diz: "Quem diz o povo ser o Filho do Homem?" Depois deles citarem Elias, Jeremias, e os profetas, Jesus diz: "Quem dizeis vós que eu sou?" O segundo exame foi aquele quando ele perguntou. Também vós quereis ir embora, afastar-vos, depois de tantos impactos hoje no mundo, com um luteranismo falso, acomodado? Aí disse Pedro: "Para quem iremos nós? Porque nós temos conhecido e reconhecido que tu és o Filho de Deus" Então faltou a pergunta final que viria mais tarde ainda: "Simão, filho de João, amas-me?" Lá está a fonte do amor. A fonte é Jesus e o amor que recebemos Dele. Recebi no Dia do Professor um cartão do diretor e que está em cima da minha mesa: "Nisso consiste o amor: não em que nós o tenhamos amado, mas em que Ele nos amou." Mensageiros deste amor é o que eu desejo a todos vocês. Obrigado.

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AUXÍLIOS HOMILÉTICOS
Série Trienal - B Leitura do Antigo Testamento PRIMEIRO DOMINGO NO ADVENTO 28 de Novembro de 1993 Isaías 63.16b-17; 64.1-18
Introdução

Faz sentido comemorar o primeiro domingo no Advento? Qual a característica especial deste domingo? Nós já não esquecemos, há muito tempo, do "porquê" da comemoração daquele dia no início do ano eclesiástico? Observando a realidade, dentro e fora da igreja cristã, constatamos de que a "vida" dos homens parece ficar cada vez mais problemática. Registramos, por um lado, uma crescente indiferença nas pessoas, isto é, cada um puxa a "brasa" para o seu lado e não se importa o que acontece com o seu próximo. O processo de secularização avançou de tal maneira que milhões de pessoas não sentem mais a necessidade de uma vida espiritual e de piedade. Por outro lado, detectamos sinais claros e angustiantes de que algo não está bem na humanidade, nos povos e com as pessoas. Logo, a ausência de uma vida espiritual provoca conseqüências preocupantes no ser humano. Há falta de paz entre os povos. A violência aumenta assustadoramente. Valores éticos se tornaram irrelevantes. Aumenta o sofrimento nos homens, pois eles não conseguem mais ajustar o ambiente vivencial que criaram. O tempo está maduro para a interferência de Deus na vida dos homens. É necessário que os homens reconheçam a sua necessidade de receber auxílio divino, pois somente a vinda do Senhor e a força de seu poder podem provocar mudanças e fornecer poderosa redenção. Contexto O profeta Isaías é o mensageiro de Deus. Como tal tem o dever de apontar as irregularidades no relacionamento entre Deus e seu povo. Toda situação calamitosa do povo do Senhor (cf. Is 64.10-12) tem a sua origem na rebeldia (Is 63.10) e na iniqüidade (Is 64.9) daqueles que foram chamados por Deus. São aqueles que se "apartaram" do Senhor e "esqueceram" o seu santo nome, aqueles que servem à "deusa Fortuna" e seguem o "deus Destino" (Is 65.11;). O povo de Deus vive nitidamente uma situação de juízo. Está condenado a viver segundo os seus próprios princípios, que causaram
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a santa ira de Deus sobre aqueles que irritaram abertamente o Senhor pelas práticas idólatras cometidas (Is 65. 3). Israel foi abandonado por Deus pela desobediência e pelo sincretismo vivido. Agora sente as conseqüências deste abandono e se defronta com as evidências negativas e anuladoras de uma vida sem a devida orientação espiritual, dada por Deus. A voz do profeta reflete a ansiedade do povo abandonado e arrependido, pois o vazio existencial preocupa e causa maiores estragos ainda. Texto Transparece, neste texto, um pedido, uma súplica. O povo de Deus sofre com o silêncio de Deus. Tudo indica de que aqueles que abandonaram uma vida com Deus agora enfrentam uma vida sem Deus. Querer viver uma vida sem orientação espiritual significa ser entregue ao caos. Onde o Espírito de Deus não cria ordem, reina automaticamente a desordem. A partir de um sentimento de desamparo, no meio de uma situação criada pelo espírito de auto-suficiência e orgulho humano, o povo de Deus se lembra de sua origem. Clama veementemente ao pai (Is 63.16), pedindo socorro e interferência numa situação, marcada pelas conseqüências amargurantes do pecado. O povo lembra do passado (Is 64. 2-4) e da manifestação gloriosa de Deus no meio dele. Podemos afirmar que o texto reflete uma clara conscientização do povo de Deus sobre sua atual situação. Não é pela primeira vez que o "pai" se manifestou como protetor e redentor de seu povo. Em sua situação penosa o povo clama ao pai e pergunta pelo "porquê" de seu "desviar do caminho" e do "endurecer do seu coração". Não é o momento de atribuir ao Senhor a culpa pelos desvios. É o momento de reconhecer onde encontrar o início de uma jornada que afasta de Deus. É o coração humano que quer se tornar independente e que não quer "temer o nome do Senhor". O resultado desta conscientização do homem sobre si e sobre o que faz, ou deixou de fazer, deverá ser o arrependimento profundo sobre o acontecido e a busca de uma nova vida. O texto reflete uma situação de contrição profunda sobre o acontecido e o pedido insistente "Volta, por amor dos teus servos" (Is 63.17). O texto surge de uma situação de penúria e de infortúnio. Esta situação causou, no povo de Deus, o reconhecimento e a confissão de seus pecados. O povo declara a sua dependência de Deus. Sem "ele" nada pode fazer. Toda existência do povo jaz totalmente na misericórdia de Deus. Perder esta misericórdia divina significa estar entregue à carência e ao sentimento de estar perdido. Por isso encontramos sinais claros da esperança em Deus. O povo "perdido" pede a volta de Deus. Precisa a sua orientação e a sua dedicação. Em última análise: o povo clama por reden-

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ção. Está no cativeiro e recorre à justiça divina que julga e salva. A justiça divina foi revelada "de fé em fé" (cf. Rm 1.16-17) e requer um compromisso claro do povo do Senhor perante aquele que veio para salvar o perdido e abandonado. Proposta Homilética Celebrar o dia do "Advento" não significa seguir uma tradição somente. Vivemos um momento histórico decisivo. Devemos ser conscientizados "existencialmente" que necessitamos de Deus. A antiga oração da igreja "Vem, Senhor Jesus" parece muito mais atual do que pensamos. A igreja necessita da interferência do Senhor da igreja. "Salve-nos Senhor, se não pereceremos". Também a IELB necessita uma conscientização clara sobre o "porquê" de sua existência e missão como povo do Senhor. Necessita reconhecer o pecado aberto e oculto e a proposta de, com o auxílio de Deus mudar a sua vida em pensamento e ação. Sem "ele", o Cristo vivo e atuante, nada podemos fazer. Sugestão de Tema: O Senhor da igreja ouve e atende o clamor de seu povo 1. Necessitamos reconhecer e confessar os nossos pecados 2. Esperamos ardentemente a vinda do Senhor 3. Queremos ser transformados pela oferta da redenção

Hans Horsch

SEGUNDO DOMINGO NO ADVENTO 5 de Dezembro de 1993 Isaías 40.1-11
A temática das leituras Salmo 19 - Este salmo de Davi é uma meditação em que o autor agradece a Deus por tudo que Ele fez e faz para nos reconciliar com Ele. Os céus e todo o universo proclamam a grandeza e glória do Deus Eterno. Na Sua Lei, Sua revelação aos seres caídos em pecado, Ele fala, comunica Sua vontade e propósitos. Através dessa palavra revelada, a lei no sentido mais amplo, Ele restaura e alma de suas criatura quebradas pelo pecado.

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Nessa palavra restauradora o ser humano pode confiar e assim tornar-se sábio para a vida eterna. 2 Pe 3.8-14 - Como filhos de Deus esperamos a 2- vinda de Cristo. Esperamos, mas não é fácil esperar. Enquanto esperamos, somos ativos no mundo. Sabemos qual é nosso serviço e nossa missão. Sabemos o que fazer e por que fazer. Preparamos a sua 2- vinda, o 2- advento. E esse preparo consiste no arrependimento diário de nós mesmos e também inclui o desejo de levar e mensagem poderosa de Deus a outros que não a conhecem, para que ninguém se perca, mas todos cheguem ao arrependimento. Vivemos esperando os novos céus e a nova terra, a realização plena de nossa esperança. O evangelho de Mc 1.1 -8 fala da figura ímpar no deserto - João Batista. Ele é o mensageiro que haveria de preparar o caminho do Messias. Ele é o que iria apontar para Aquele que é o Cordeiro de Deus, a quem João Batista não era nem digno de desatar as correias das sandálias. Isaías falou em preparar o caminho. João prepara o caminho com sua mensagem de arrependimento. Com a vinda de João, a maior promessa de todos os tempos estava se cumprindo, a saber, no tempo certo, na plenitude do tempo, Deus de fato tinha enviado Seu Filho. O Verbo se fez gente. Temos paz, porque Deus está conosco, para realizar a obra da reconciliação. O contexto histórico do texto Em 587 a.C. Jerusalém foi invadida pelos babilônios e grande parte do povo foi deportada para a distante Babilônia. O poderoso rei Nabucodonosor governava com extrema força esse império conquistado a ferro e fogo. No seu plano de ocupação dos territórios conquistados, Nabucodonosor adotara a política de trazer deportadas as lideranças da população derrotada. Essa estratégia esvaziava e enfraquecia a resistência dos derrotados. Nessa situação estava uma significativa parte do povo de Israel. Eram exilados submetidos à força do rei pagão. Com a morte de Nabucodonosor começa uma decadência que culmina com a derrota dos exércitos babilônicos diante da figura do novo conquistador - Ciro - rei da Pérsia, que tinha uma outra política. No início do exílio, é possível que muitos tenham tido esperança que essa experiência seria por curto tempo. Mas o tempo foi passando e o quadro triste do exílio permaneceu. Em meio a essa situação diversos pensamentos poderiam ter ocupado as mentes dos israelitas. Uns poderiam pensar: "os deuses da Babilônia triunfaram", outros: "Javé nos largou,

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abandonou de vez" ou "bem que Javé nos avisou através dos profetas, e nós não levamos a sério. Agora Ele cumpriu o que havia dito!" O povo certamente tinha saudade e vontade de retornar à pátria, e estar próximo do santuário central de Jerusalém, referencial de identidade para o povo. O profeta Isaías recebeu ordens de Deus para proclamar que o fim da deportação estaria próximo e que o povo poderia voltar à sua terra, conduzido por Deus. Essa boa nova de esperança está no texto de Is 40.1 -11 e seu contexto. O texto a) Consolai o meu povo A repetição "Consolai, consolai o meu povo", indica que havia urgência para que esse consolo fosse dado, proclamado. O povo, mais do que nunca, precisava ser reanimado, consolado. Consolo é o grande tema da livro do profeta Isaías. O povo exilado e cativo está carente daquele consolo que só seu Deus pode oferecer. E se Deus oferece consolo ao povo desobediente é porque Deus é misericordioso. Há perdão, esperança e liberdade a vista porque Javé ama seu povo apesar de tudo. Javé quer que aconteça um novo começo, depois dessa experiência de castigo merecido. Um tempo novo está por vir, anuncia o profeta. Mas a libertação de Israel da escravidão babilônica foi apenas um passo para o cumprimento do tempo novo, pois na plenitude do tempo Deus envia seu próprio Filho para libertar toda a humanidade da escravidão do pecado! Num momento de pessimismo e depressão, Deus proclamou consolo e esperança ao povo exilado. O profeta Isaías, no entanto, não apenas vê a libertação política do povo de Israel, como vê e anuncia a salvação no Messias prometido, a salvação do cativeiro diabólico. As promessas de Javé se cumpriram. O povo voltou para casa e foi consolado em seu sofrimento. A promessa do Salvador também se cumpriu, e tivemos entre nós o Consolador por excelência. Jesus Cristo. A palavra da consolação se fez consolo entre nós. b) Preparai o caminho Preparar significa tirar os empecilhos, os obstáculos que dificultam ou até impedem o uso da estrada. A ordem é de preparar e endireitar o caminho/a estrada para/de Javé/nosso Deus. Sim, todo esse preparo visa
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o encontro do Rei Javé com seu povo. Preparar o caminho do Senhor é em última análise a volta para o Senhor, a reconciliação. Arrependimento é para ser a estrada dentro do coração humano pela qual Deus virá para o encontro com seu povo. De fato havia e há muitos empecilhos no coração humano que impedem a vinda e o encontro do Rei com seu povo. Esses empecilhos precisam ser removidos. Precisa haver mudança, arrependimento. Isso é verdade para o povo no exílio e para nós hoje, com nossos caminhos tortos. A idéia de preparar uma estrada para Deus tem os seus paralelos nas majestosas estradas da Babilônia. O aterrar dos vales, o nivelar dos outeiros e montes e o retificar do que é tortuoso são descrições da ação de Deus na história. E Cristo é Aquele que abriu o caminho para sempre, morrendo para pagar a dívida de todos os nossos pecados. Crer, confiar nessa verdade implica que tudo o que há de orgulho em nós tem que curvar-se. Diante Dele não temos nada a apresentar ou mostrar. Ele nivela tudo e todos. Advento é tempo especial de refletir sobre a estrada da nossa vida. É tempo de reconhecer e identificar "os buracos, as curvas, o nível acidentado de nossa estrada, que anda quase que intransitável". Advento é tempo de confessar os estragos que causamos com nosso amor-próprio, tornando difícil a comunicação com nosso próximo. Nada melhor para esse tempo de celebração do Natal do que colocar em dia os caminhos de nossa vida, preparar a 2- vinda do Senhor com nosso diário e contínuo arrependimento. c) Toda a carne é erva (vv. 6-8) O profeta compara a pessoa humana com as plantas e as ervas que crescem, florescem e morrem. Tudo morre e tudo desaparece. Também o império babilônico é erva, é transitório. O poder do opressor também tem seu fim. d) Sião anuncia boas novas (vv. 9-11) A Sião cabe anunciar: Eis aí está o teu Deus! Em meio á morte e corruptibilidade deste mundo, a Palavra do Senhor é referencial permanente, firme, imutável até a eternidade. O profeta encoraja a que o povo anuncie as boas novas com alegria. Essa ainda é hoje a tarefa e missão da igreja no mundo: proclamar as boas novas da salvação em Cristo com alegria. Proposta homilética Tema: Consolai o meu povo!

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I- Consolar é a obra própria e principal de Deus A- Consolar é ajudar alguém a respirar em meio ao sufoco. É ajudar alguém para que tenha ar para poder continuar sua caminhada. Consolar é animar, dar vida, alívio. B- Deus é a única fonte do verdadeiro consolo. Em meio ao sufoco de uma existência desarmônica, sem muito sentido e respostas, Deus, o Consolador por excelência, oferece o ar da vida, o consolo da verdadeira paz e a esperança da vida que não tem fim. Nele, e só nele, está toda consolação. C- O Eterno nos consola com/em Sua Palavra e sacramentos, aliviando nossa aflição e culpa. D- Deus também nos consola através da prática do amor de nosso próximo e irmão na fé. II- C o m o pecador todo ser humano é por natureza um grande desconsolado. A- Devido ao pecado, todos necessitam do consolo do C O N S O L A DOR. B- Angústia, desespero, desânimo, culpa, desesperança, sensação de vazio são marcas na criatura humana que não desaparecem c o m o passar do tempo. Em sua essência o ser humano é e continuará sendo o mesmo em todos os tempos e lugares. C- Cristo, o consolo de Deus feito gente, é para todos. III- O povo consolado tem o ministério da consolação A- A comunidade consolada é chamada por Deus a anunciar o consolo. B- Todos os cristãos são instrumentos de Deus para restaurar o sofredor aflito e perdido. C- A igreja realiza a missão de Deus através da pregação da Palavra e dos sacramentos. Essa pregação consola os aflitos e também aflige os consolados. D- A comunidade cristã também consola os aflitos e sofredores c o m sua prática de amor e serviço cristão. E- Esse consolo é levado ao necessitado corporativa ou individualmente. Testemunho e ação individual e congregacional se completam, não se excluem mutuamente.

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Conclusão Tanto o AT como o NT revelam o Evangelho, a boa nova do consolo que há no Messias e nascido em Belém. Declarados justos, sem mérito nosso, pela fé no Salvador, temos a paz, o consolo, a esperança e a liberdade que "excede todo o entendimento humano" (Fp 4.7).

Gerhard Grasel

TERCEIRO DOMINGO NO ADVENTO 12 de Dezembro de 1993 Isaías 61.1-3,10-11
A leitura do dia Causa surpresa encontrar o texto de Isaías 61 em paralelismo temático com alguns versículos de João 1, que falam de João Batista. É bem verdade que, em Isaías 61, não se identifica o referente daquele "eu". A princípio é o próprio Isaías que tem uma mensagem de restauração para um povo arruinado, como indica o v. 4. Mas o que ele anuncia nos três primeiros versículos transcende em muito uma simples volta do exílio. Funciona, então, como tipo da era messiânica. O cumprimento, ainda que incipiente, se dá no ministério de Cristo. Ou, se preferir, o antítipo daquele que fala em Isaías 61 é Jesus Cristo. Lucas 4 deixa isto claro. Embora não seja de todo impossível enquadrar João Batista neste esquema, prefiro sugerir que se abra mão da tentativa de relacionar os dois textos (Is 61 e Jo 1) e se prepare um bom sermão sobre o texto do AT. O contorno da perícope litúrgica é interessante. A inclusão dos w. vv 10-11 dá um colorido todo especial ao texto, pois ali temos a gratidão do povo de Deus pela salvação que ele opera. O contexto Importante é lembrar o contexto amplo desta porção de Isaías, que tem uma dimensão histórica (volta do exílio) e uma dimensão escatologica (reino de Deus). O texto O exemplo de outros tantos oráculos proféticos, este texto se enquadra no gênero poético. No dizer de Walter Roehrs, "o fato de a paz de Deus exceder todo entendimento (Fp 4.7) faz com que o profeta tenha de se valer
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de comparações e figuras tiradas de situações concretas da vida". São belas imagens que vale à pena explanar no sermão. Notar os verbos "pregar", "proclamar", "apregoar". Temos aí a atividade de um profeta, isto é, o ministério profético de Cristo (continuado em sua igreja). Significativa é a imagem do "ano aceitável do Senhor" (v. 2) Percebe-se aí uma alusão ao ano de jubileu, ocasião em que, segundo o que a lei prescrevia (cf. Lv 25.10), todos os escravos deveriam ser libertos e as terras voltariam as seus donos originais. Pois aqui o ano de jubileu aparece como tipo dos tempos do fim. A este ano aceitável se contrasta o dia da vingança. E isto já encaminha a reflexão homilética. Proposta homilética O texto tem muito a dizer a gente que vive entre os dois grandes adventos de Cristo. O que Isaías 61 anuncia se cumpriu parcialmente no ministério de Cristo e continua se cumprindo no anúncio da palavra de Deus hoje. Seu cumprimento pleno se dará no último advento de Cristo. O aspecto do "já cumprido" aparece especialmente nos vv. 10-11. Notável é a polaridade lei-evangelho presente neste texto. Por um lado temos quebrantados, cativos, algemados, gente que chora, luto, cinzas, pranto, espírito angustiado. Isto se relaciona a um "dia da vingança do nosso Deus". Por outro lado há anúncio de boas-novas, cura, proclamação de libertação, libertação, consolo, coroa, óleo de alegria, veste de louvor. Isto tudo se encaixa no "ano aceitável do SENHOR". Qualquer um desses pares, como, por exemplo, "Coroa em vez de cinzas", poderia fornecer o tema do sermão. O mais abrangente de todos, no entanto, seria um tema semelhante a este: "Advento: Proclamação do ano aceitável e do dia da vingança de nosso Deus". Paralelos aparecem em Is 49.8,9 e 2 Co 6.2.

Vilson Scholz

QUARTO DOMINGO NO ADVENTO 19 de Dezembro de 1993 2 Samuel 7.(7-1) 8,11,16
Leitura do Dia O Senhor cumpre as promessas feitas a Davi. Contexto O Senhor havia dado grandes bênçãos a Davi: a conquista de Sião pela expulsão dos jebuseus (5.6-10); o rei de Tiro tornara-se seu amigo

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(5.11 -12);derrotara os filisteus, tradicionais inimigos de Israel (5.17-25). Davi também trouxe para Jerusalém a arca da aliança do Senhor (6.1-19). Este gesto foi um testemunho público de que ele considerava Jeová rei e senhor sobre ele e sobre todo o Israel (Sl 132.3-5). Além disto Davi pode residir em sua própria casa em Sião. Agora que os inimigos não mais o molestavam (7.1), tratou de providenciar um local digno para a arca da aliança. Ele morava em casa de cedro - luxo para aquela época - mas a arca não se encontrava em local que pudesse representar de maneira expressiva a presença do Senhor no meio de Israel. Este fato deveria ser reparado. Foi então que Davi resolveu construir um templo. Seria a casa do rei e senhor de Israel, um lugar para o seu trono (a arca) e um local onde Israel pudesse adorar. Comunica sua resolução ao profeta Nata. Este, entusiasmado com o plano, dá "luz verde" a Davi (v.3). Na mesma noite, porém, o Senhor veio a Nata para que este falasse a Sua resposta ao plano de Davi. Deus começa afirmando que desde a saída dos filhos de Israel do Egito, de lugar em lugar, ele esteve presente com seu povo, numa tenda, no tabernáculo. O texto V.7 Em nenhuma ocasião o SENHOR havia exigido dos líderes do povo que construíssem um santuário e, mesmo agora, ainda não havia chegado a hora de isto acontecer. V.8 Davi não entendia as prioridades do SENHOR. Entre as nações pagas corria a idéia de que os deuses somente estavam interessados nos seres humanos como construtores e mantenedores de santuários. O Senhor, porém, estava interessado em que os líderes de Israel apascentassem o seu povo. Por isso é que também escolheu a Davi, tomando-o do campo, do trabalho de pastorear ovelhas. V.9 O que Davi realizou, na verdade foi o Senhor quem o fez. "Eliminei os teus inimigos diante de ti, e fiz grande o teu nome, como só os grandes têm na terra". A pessoa primeiro precisa reconhecer que é Deus quem a abençoa. Só então estará disposta a ofertar algo ao Senhor. Até que Israel pudesse vencer os inimigos e tomar conta da terra prometida pelo Senhor, também o símbolo da presença do Senhor, a arca, deveria permanecer numa tenda, habitação de peregrinos, sempre provisória. O reino de Deus em Israel começou a estabelecer-se mais concretamente através de Davi, quando Deus submeteu-lhe todos os inimigos e assegurou a posse da terra e do trono a ele, e, para o futuro, aos seus descendentes. Deus estava prestes a firmar este seu propósito ao edificar

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casa a Davi (casa aqui significa dinastia, Lc 2.4). Quando esta seria estabelecida então sim o descendente de Davi edificaria o templo, dedicando-o ao Senhor. Isto é apresentado em mais detalhes nos vv. 12-16. V.10 "Prepararei Sugar para o meu povo, para Israel". Foi para este propósito que Deus escolheu Davi para ser rei sobre Israel. V.11 Com um jogo de palavras Deus diz que Davi não era para construir-lhe uma casa (templo). Antes Deus iria construir uma casa (dinastia real) para Davi e esta duraria para sempre. V. 16 A promessa "a tua casa e o teu reino serão firmados para sempre" se refere à posteridade (casa) de Davi iniciando com Salomão e continuando com Jesus Cristo (da tribo de Judá e da descendência de Davi). O reino de Cristo é pelos séculos dos séculos. Com isto estão perpetuados a casa (dinastia) e o reino de Davi. A presença do SENHOR não está limitada a um prédio como o que Salomão iria edificar e que posteriormente seria destruído. Assim corno o Senhor esteve com seu povo antes da construção do templo, assim ele continuaria para sempre com seu povo, mesmo que o templo viesse a desaparecer, o que efetivamente ocorreu. O Verbo, Deus mesmo, habitou entre nós (Jo 1.14) e Jesus prometeu "eis que estou convosco todos os dias..." Mt 28.20. Jesus havia dito aos judeus: "destruí este templo (seu corpo), e em três dias o reedificarei" (Jo 2.19). Quando a dinastia real de Davi caiu, nasceu Jesus, da semente de Davi segundo a carne, para reerguer o trono de Davi conforme as palavras do anjo a Maria no momento da anunciação: "Deus, o Senhor, lhe dará o trono de Davi, seu pai; ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reinado não terá fim" (Lc 1.32,33). De fato, Deus lhe entregou o governo de todas as cousas (Jo 3.35). Através de Cristo, a casa de Davi reina e reinará para sempre (SI 89.35-37). Ele iria providenciar redenção para o povo de Deus (Is 9.6,7; 11.1-16; Jr 23,5-6; 30.8,9; 33.14-16; Ez 34. 23,24; 37.24,25). Sugestão de Tema e Partes A promessa de Deus feita a Davi se cumpre com Jesus 1. Jesus, para sempre, é a continuação da dinastia de Davi 2. Jesus, para sempre, governa o povo de Deus

Christiano Joaquim Steyer

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NATAL - FESTA DO NASCIMENTO DE NOSSO SENHOR 25 de Dezembro de 1993 Isaías 62.10-12
As leituras do dia Salmo 98: Esse salmo pertence ao grupo dos que possuem um tema comum (SI 95-100): O Senhor governa sobre toda a criação e é o Deus da aliança com Israel. Nestes salmos, assim como no em epígrafe, o salmista inclui a idéia de que a salvação divina deverá se tornar conhecida "por todos os confins da terra" (v.3). A salvação providenciada pelo Senhor é universal. Tito 3.4-7: Deus manifestou sua bondade para com a humanidade, através do nascimento do Salvador, que mais tarde foi pregado na cruz. Essa mesma bondade é manifestada concretamente a cada um de nós, no batismo. É a ação do Senhor que antecede e providencia a salvação universal. Lucas 2.1-10: É o registro histórico da salvação universal preparada pelo Senhor. O Messias prometido aos antigos nasce em Belém, como Emanuel, Salvador de todos e de cada ser humano em particular. Que notícia! Que alegria! O Contexto O ministério de Isaías ocorreu em tempos muito difíceis na história de Judá. O povo dividido tentava livramento através de alianças humanas. Isaías lembrava e Exortava para que a confiança da nação fosse depositada em Deus. E mais: como sinal de livramento Isaías proclamava e profetizava o nascimento do Messias, traçando alguns aspectos da natureza do seu reino. O propósito de Isaías, especialmente nos capítulos 40 - 66, é mostrar a maneira espiritual de andar e o destino do povo de Deus. O Texto A notícia da chegada do Messias é a mais importante e alegre que poderia acontecer. "Eis aqui vos trago boa nova de GRANDE ALEGRIA" (Lc 2.10), disse o anjo aos pastores nos campos de Belém. Nós hoje ainda precisamos da alegria e felicidade do Natal, que pode transformar pessoas e o mundo. Vejamos por que: V. 10: Os cristãos são as únicas pessoas verdadeiramente felizes aqui no mundo e desfrutam das bênçãos do Senhor com a devida e sincera gratidão. Além disso, eles convidam todos os filhos e filhas de Sião a compartilhar sua felicidade junto ao nome dado pelo Senhor. "Passai, 186
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passai pelas portas ...": assim os irmãos e irmãs da igreja apelam aos que ainda estão fora, convidando-os para se juntarem e prepararem-se para o grande encontro final. Para tanto, removem todos os obstáculos e empecilhos e reúnem-se, com poder, sob a bandeira da cruz. v. 11: "Eis que vem o teu Salvador", trazendo os troféus de sua vitória sobre os inimigos da humanidade e oferecendo-os a todos os crentes. Verdadeiramente, o Salvador vem: 1º humanado, na forma de servo; 2° vem continuamente, invisivelmente, pelo Espírito Santo em Palavra e sacramentos; 3º virá, visivelmente para todos, não mais na forma de servo, mas em grande poder e glória. É necessário que a noiva (Igreja) esteja preparada para a vinda do noivo (Jesus). v. 12: "Povo santo" porque "remidos do Senhor" e por serem "remidos do Senhor" são "povo santo", ou seja, os que receberam e usufruem da salvação preparada para eles. De que jeito: arrependendo-se de todos os seus pecados e confiando plenamente em que "o sangue de Jesus Cristo nos purifica de todo pecado" (1 Jo 1.7). Resultado: Sião, o povo santo, a Procurada, a Cidade não deserta, inteiramente obra da graça divina. Natal é tempo de festa, presentes, alegria, corações felizes pela vida aqui e pela que há de vir. A glória da igreja é real e é concreta: "nada nos poderá separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor" (Rm 8.39). Tudo isso desde agora, em meio às tribulações destes tempos do fim, completando-se sem mais nenhuma restrição, no lar celestial. Sugestões homiléticas: NATAL: corações felizes do povo santo, remidos do Senhor! I Convite para todos encontrarem o Messias que veio; II É proclamada a salvação universal oferecida por Ele; III A glória da igreja, obra da graça divina, se manifesta desde agora, completando-se no lar celestial.

Norberto E. Heine

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PRIMEIRO DOMINGO APÓS NATAL 26 de Dezembro de 1993 Isaías 45.22-25

Natal - festa do amor de Deus (1 Jo 4.9) Natal - festa da "boa nova de grande alegria" (Lc 2.10) v. 22 Olhai para mim, e sede salvos, vós, todos os termos da terra; porque eu sou Deus, e não há outro. Por que nós cristãos, ano após ano, celebramos o nascimento de Jesus? Por que o Natal enche de alegria nossos corações? O que há de diferente neste "menino de Belém"? Seria o fato de ele ter nascido pobre, numa estrebaria, tendo uma manjedoura como berço? Evidentemente que não! O idoso Simeão, como ouvimos no Evangelho, nos aponta o motivo da nossa celebração, a razão da nossa alegria: "os meus olhos já viram a tua salvação" (Lc 2.30). Este "menino de Belém" é o Salvador. Ele é o Messias, o Cristo, anunciado por Deus desde o jardim do Éden (Gn 3.15), e profetizado durante todo o período do Antigo Testamento, que na "plenitude do tempo", nasceu para resgatar os que estavam sob a lei (Gl 4.4,5). Foi por isso que o nosso Salvador teve de nascer como "menino", como verdadeiro homem, para, em lugar de todos os homens, cumprir a lei, padecer e sofrer, "a fim de que recebêssemos a adoção de filhos" (Gl 4.5). Através deste "menino de Belém" Deus "reconciliou consigo o mundo" (1 Co 5.19). Por isso agora o seu convite, estendido não apenas ao Israel do Antigo Testamento, mas a "todos os termos da terra": "Olhai para mim, e sede salvos". (Ilustração Nu 21.4-9). Ou nas palavras do próprio Jesus: "Vinde a mim todos ..." (Mt 11.28). Assim olhar para o menino Jesus é crer nele: É adorá-lo como os magos do oriente (Mt 2.11) É presenteá-lo com "ouro, incenso e mirra (Mt 2.11) v. 23 Por mim mesmo tenho jurado; da minha boca saiu o que é justo, e a minha palavra não tornará atrás. Diante de mim se dobrará todo joelho, e jurará toda língua. Em que consiste o juramento de Deus? Que palavra de justiça saiu da sua boca e da qual não tornará atrás? O apóstolo Paulo nos responde em Rm 1.17: "a justiça de Deus se revela no evangelho", a "boa nova de grande alegria", de Deus ter providenciado a salvação do homem. Através
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de Adão entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a eterna condenação. Através do segundo Adão, Cristo, veio a redenção, a salvação eterna. E pelo "menino de Belém", Deus estende agora o seu convite, "a todos os termos da terra": "Olhai para mim, e sede salvos". Os magos do oriente, apesar da distância que os separava de Belém da Judéia, tão logo viram a estrela que lhes anunciou o nascimento do Messias, puseram-se a caminho de Belém. E, "entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, o adoraram ..." (Mt 2.11). No Evangelho deste domingo (Lc 2.25-38), ouvimos como Simeão profetizou a respeito do menino Jesus, ao dizer para José e Maria: "Eis que este menino está destinado tanto para ruína como para levantamento de muitos em Israel, e para ser alvo de contradições" (Lc 2.34). Em Jesus a humanidade se divide. "Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado" (Mc 16.16). Assim nem todos, a exemplo dos magos, se ajoelham e adoram o "menino de Belém". Mas no dia do Juízo Final, quando findar o "tempo da graça", Jesus virá novamente de forma visível à terra, desta vez, porém, não na pessoa de um menino, mas na sua glória divina, como SENHOR. Então todos indistintamente terão de ajoelhar-se perante ele. Aos que o rejeitaram, aos que o desprezaram, aos que não o queriam adorar como "menino de Belém", virão nele um Juiz zeloso, que lhes pronunciará a sentença fatídica: "Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno..." (Mt 25.41). Mas os que "olharam" para ele, nele creram como Messias, a exemplo dos magos do oriente, também o adoraram como Salvador, ouvirão o terno convite: "Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo" (Mt 25.34). v. 24 De mim se dirá: Tão-somente no SENHOR há justiça e força; até ele virão e serão envergonhados todos os que se irritarem contra ele. Herodes, ao ser informado do nascimento de Jesus, irritou-se e imediatamente planejou matá-lo (Mt 2.13-18). A "irritação" contra Jesus também hoje se manifesta continuamente pelo desprezo, indiferença, calúnia e mesmo perseguição a sua Igreja. No dia do Juízo Final, no entanto, todos terão de confessar e reconhecer "a justiça e a força de Deus". Terão de reconhecê-lo também como único Deus. Terão de confessar a justiça de Deus no evangelho, que tanto desprezaram. Terão de reconhecer a justiça de Deus em condená-los, pois no tempo da graça, se "irritaram" contra o "menino de Belém", não olhando para ele como o Messias, o Cristo. Terão de forçosamente reconhecer o poder deste "menino de Belém", que com seu sacrifício vicário "destruiu as obras do diabo" (1 Jo 3.8). A sua vergonha por terem desprezado o convite de Deus: "Olhai para mim, e sede salvos", os acompanhará e fará parte dos seus tormentos eternos.
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v. 25 Mas no SENHOR será justificada toda a descendência de Israel, e nele se gloriará. Os cristãos, ao contrário dos descrentes, dos ímpios, dos ateus, serão justificados no SENHOR. Deus mostrará, especialmente para aqueles que se haviam irritado contra este "menino de Belém", como o seu sacrifício vicário na cruz do Calvário, foi imputado aos cristãos. Assim que estes são declarados salvos, não por obras ou méritos próprios, mas única e exclusivamente por causa do Messias, do Cristo (Rm 4.25). E assim como para os descrentes a rejeição do convite de Deus em adorar o "menino de Belém" lhes será causa de eterno tormento, para os cristãos, o amor de Deus em Cristo Jesus, lhes será motivo de louvor e glória pelos séculos sem fim.

OLHAI PARA MIM, E SEDE SALVOS
1. Diante de mim se dobrará todo joelho 2. No SENHOR será justificada toda a descendência de Israel

Walter O. Steyer

SEGUNDO DOMINGO APÓS NATAL 2 de Janeiro de 1994 Isaías 61.10-62.3
Leituras O Salmo 147 é expressivo no louvor a Yahweh porque Ele governa Seu povo e o mundo. O contexto aparentemente é o de Neemias 12.27-43, ocasião em que os muros de Jerusalém estão finalmente reconstruídos e o povo se regozija. Os vv. 12-20 compreendem o louvor ao SENHOR pelo que Ele tem feito especialmente a Sião. A epístola da mesma forma inicia com ações bendizentes. Àquele que nos escolheu em Cristo "para louvor e glória de sua graça". O santo evangelho é o clímax da mensagem natalina, revelando o Verbo encarnado e de quem recebemos "plenitude de graça sobre graça". Texto A perspectiva profética de Isaías perpassa o presente fracasso de Judá e se aconchega no cumprimento das graciosas promessas de Deus a esse povo. O capítulo 61, estrategicamente colocado na terceira tríade
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(cap. 58-66) do "Livro da Consolação" (cap. 40-66) de Isaías, ergue-se na firme esperança da libertação do pecado (cap. 40-48) e no sacrifício redentor do Servo (cap. 49-57). A primeira parte do cap. 61 apresenta o Servo em outra nuance: ressurgido,vivo,nopleno exercício de Sua atividade messiânica. A perícope de hoje fala de uma degria e de uma festa singulares que só podem ser entendidas na perspectiva do Servo vivo e presente ainda sob os sons e o brilho do Natal. O Natal é alegria para o povo de Deus. Esta alegria é expressa enfaticamente no texto pelo emprego do verbo no infinitivo absoluto acompanhado da forma conjugada (em ARA traduzido por "muito"). A forma taghêl é jussiva, razão pela qual sugere uma indução quase impositiva à alegria. O uso de nephesh implica uma alegria profunda, intensa, não dependente de circunstâncias exteriores (cf. o Magnificat em Lucas, esp. 1.46-47). A cláusula kî dá a razão para o regozijo, uma razão também enfatizada pelo emprego de expressões sinônimas em forma de quiasmo. "Manto" (me îl) é a capa exterior que completa a indumentária do rico, do nobre, de príncipes, profetas e sacerdotes. "Justiça" (tsedaqah) não deve ser entendida como justiça no sentido moral porém como sinônimo de yesha', "salvação", "escolha", "eleição" (cf. a epístola de hoje). A segunda parte do versículo mostra como Yahweh envelopa Seu povo na salvação. A alegria de nubentes é escolhida para representar este profundo e sincero regozijo. Escondida no cantinho do coração esta alegria não se expressa de forma efusiva e barulhenta, mas pelos seus ornamentos. O termo pe'er é usado com redação à tiara sacerdotal (Ex 39.28 e Ez 44.18). Os enfeites da noiva apontam para o orgulho que ela tem de seu vestido nupcial. A Igreja deve orgulhar-se do manto que o SENHOR colocou sobre ela. No v. 11 a promessa de salvação torna-se ainda mais incisiva. Há uma comparação com as leis da natureza, numa referência direta a Gn 1.11-12, 2.9, 8.22. A terra por si não pode produzir nada. Ela é sem forma, vazia, árida. Nós somos assim. Por vezes achamos que podemos produzir algo por nós mesmos. Na verdade, o SENHOR (Yahweh), que é Senhor (acionai), é quem faz brotar (tzamach, no Hiphil) a vida. Os vv. 1 -2 mostram que o Natal é alegria para as nações ao verem a salvação. Deus quer que a glória da Sua Igreja se tome um fato. Os verbos e substantivos do v. 1 seguem num crescendo e, novamente, em quiasmo. O segundo verbo (shaqat) é mais forte do que o anterior (chashah), assim como "descansar" é mais forte do que "fazer uma pausa". De igual modo, "resplendor" (nogah), empregado para descrever uma luz branda (50.10 e 60.19), não é comparável a "tocha" (lappid), "luz da aurora". A antítese
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evidentemente são as trevas (cf. evangelho, esp. os vv. 4-5), onde estão as nações. Quando a justiça de Sião brotar, as nações a verão. O verbo ra'ah significa não apenas "ver", mas um notar atento que envolve reação. O v. 3 mostra que o Natal é alegria para o próprio Deus. A obra do Messias, do Servo, do Príncipe da Paz tem sua culminância plasmada neste versículo. A Igreja é uma coroa de glória, diadema real nas mãos do SENHOR. A coroa real representa o mais glorioso, belo e precioso ornamento. Esta é a descrição da Igreja. É a obra de arte do SENHOR, colocada em exposição por Ele mesmo para o encanto, admiração e atração do mundo. Por ora a coroa (a Igreja, nós) está em suas mãos; mas o gesto final será o Pai colocá-la em Sua própria cabeça como símbolo de honra e glória. Neste segundo dia do Ano as rádios já suspenderam a transmissão de hinos de Natal. As televisões preocupam-se com a retrospectiva de 1993 que passou. Entretanto, a perícope de hoje mostra que: Ainda é Natal: a alegria continua Acir Raymann

PRIMEIRO DOMINGO APÓS EPIFANIA O BATISMO DE NOSSO SENHOR 9 de Janeiro de 1994 Isaías 42.1-7
As Leituras do Dia SI 45.7-9: Este salmo foi composto como um cântico de amor ou uma canção de núpcias. Falando proféticamente de Jesus, o salmista diz que o Rei "ama a justiça e odeia a iniqüidade". Por isto, Deus o ungiu com "a óleo de alegria". Is 42.1-7: O Servo do Senhor é escolhido por Deus e, pelo poder do Espírito, promulga o direito aos gentios. De maneira humilde e suave, O Servo abrirá os olhos aos cegos e tirará da prisão os cativos. At 10.11-18: Como resposta ao pedido de Cornélio, "ouvir tudo o que te foi ordenado da parte do Senhor", Pedro relata a narrativa do batismo de Jesus. Deus, diz Pedro, ungiu a Jesus com o Espírito Santo e poder e ele "andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo".

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Mc 1.4-11: Jesus veio da Galiléia e foi batizado por João no Jordão. Ao sair da água, os céus se rasgaram e o Espírito Santo desceu como uma pomba sobre Jesus e foi ouvida uma voz dizendo, "Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo". O Tema Central do Dia Nas leituras do dia juntam-se vários temas importantes, os quais provêem um expressivo número de aplicações homiléticas em potencial. 0 tema de Epifania, a manifestação da glória de Cristo aos gentios, é evidente em todas as leituras. 0 Espírito Santo, poderosamente presente nestes textos, é utilizado pelo Pai como o instrumento da sua afirmação do Filho. A justiça de Deus em Cristo, Sua alegria e amor pelo Filho, Sua escolha e unção do Amado, tudo é manifesto nessas leituras. Epifania começa e termina com a afirmação do Pai, de que Jesus é o seu Filho (o batismo de Jesus e a transfiguração, Mc 9.7). O derramamento do Espírito sobre Jesus prefigura o derramamento do Espírito sobre seus discípulos (Jo 20.22) no dia de Pentecostes (At 2). E, da mesma forma, o batismo de Jesus prefigura e prenuncia o batismo que ele mesmo instituirá com o propósito de nos incluir ("todas as nações", Mt 28.19) em sua gloriosa casa, o lar de todos os fiéis. Em suma, o tema unificante das leituras é a grande alegria e a antecipação. E este, por sua vez, é produto da glória do Filho revelada na afirmação do Pai e no poder do Espírito para estabelecer justiça e salvação entre todos os povos. O Contexto O texto de Isaias 42.1-7 está próximo da segunda parte deste livro que começa com as lindas palavras: "Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus. Falai ao coração de Jerusalém..." Neste ponto, Isaías fala da glorificação futura do povo de Deus, a igreja. Is 42, "O Cântico do Servo", relata que o Senhor revela sua glória ao oferecer e amparar o seu Servo. É este Servo quem trará a salvação aos fiéis de Israel e aos crentes entre os gentios e quem promulgará o julgamento de destruição contra as nações ímpias e os infiéis de Israel. O Texto v. 1: A expressão Eis aqui é um chamamento para que seja dada atenção à mensagem que segue. É o início de uma mensagem notável. A palavra Servo é usada enfaticamente no versículo e distinguida de outros servos. São três as formas desta distinção: Primeiro, ele é escolhido pelo próprio Deus. Segundo, é Deus mesmo quem o sustenta. Terceiro, Deus
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derrama sobre ele o seu Espírito. Notoriamente, ele é um Servo diferente de outros. Ele é sustentado e equipado pelo Senhor para realizar a Sua missão. E, esta missão é promulgar o direito (mishpat) aos gentios. Note-se que o Servo não apenas anuncia a justiça, mas a realiza, a promulga, a personifica (veja v. 7). A referência ao escolhido de Deus como Servo não é uma expressão de desvalorização, mas uma relação singular para com Deus, para um propósito também singular. v. 2: O profeta usa três negativas neste versículo para descrever a maneira não ostentosa do Servo em contraste com os soberanos terrenos. O Servo e sua justiça virão silenciosamente, sem clamor ou grito - como um bebê na manjedoura, como um homem sendo batizado quietamente no rio Jordão, como um homem inocente morrendo na cruz sem protestar sua falta de culpabilidade. v. 3: O profeta usa mais duas negativas que fazem referência à atitude de Servo em relação aos quebrantados e sofredores. Ele não esmagará a cana quebrada nem apagará a torcida que fumega, mas promulgará o direito. Ele vem em justiça às pessoas cuja esperança está quase extinguida, a pessoas como você e eu. v. 4: Isaías utiliza ainda mais duas negativas (agora sete no total) para descrever a atitude do próprio Servo no seu serviço. Não desanimará (no hebraico "não escurecerá"; as mesmas metáforas de v. 3 continuam aqui) e não se quebrará (não será esmagado) testificam que seu serviço será difícil e que seus inimigos lhe resistirão. O Servo, no entanto, terá sucesso na terra (b'eretz), sucesso universal. v. 5: A magnitude da mensagem é fortalecida e confirmada por Deus, o criador (bara'). Ele é o Deus criador (El) e o Deus da aliança israelita (Yahweh). Tudo o que é e que continua a ser é dele. v. 6: Ele, origem e preservação de tudo o que há, chama o Servo. E este chamamento não é arbitrário, mas em justiça (b'zedek), isto é, de acordo com Sua própria natureza e propósitos justos. O propósito para o qual Deus chama e sustenta o Servo é para que ele possa ser, de forma concreta, personificada, uma aliança a Israel, uma luz de salvação aos gentios. v. 7: O objetivo glorioso do Servo de Deus é que ele seja a Luz do mundo para os que andam cegamente na obscuridade e a Aliança da graça para os que jazem na escravidão do pecado. Esta é uma obra que os homens não podem fazer por si mesmos. O Servo tem que fazer isto por eles.

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Disposição Não deveríamos deixar de usar este dia, o batismo do Senhor, como oportunidade para pregar sobre o batismo. O tema unificador do dia é a grande alegria e antecipação produzidas quando a glória do Filho é revelada na afirmação do Pai no poder do Espírito para estabelecer justiça e salvação entre todos os povos. A salvação universal se torna nossa salvação precisamente pelo batismo. Pela água e pela palavra o nosso humilde Servo nos recebe em seu glorioso reino. Pelo batismo vivemos com Ele e compartilhamos da afirmação do Pai e do poder do Espírito. Temos que ser como o Servo, humildes, porque sem Ele, somos apenas canas quebradas e torcidas que fumegam. Então, que alegria podemos ter em nosso batismo? Como é que podemos guardar esta mensagem salvífica entre nós? Claramente queremos proclamar a mensagem poderosa do Servo humilde a todos os povos.

Jack A.O. Preus III São Leopoldo, RS

SEGUNDO DOMINGO APÓS EPIFANIA 16 de Janeiro de 1994 1 Samuel 3.1-10
Leitura do Dia O Salmo 67 é um cântico de ação de graças e menciona diversos efeitos da obra salvadora de Deus no crente: ele se alegra, exulta, louva e teme a Deus. Na epístola, o apóstolo recomenda ao cristão oferecer o próprio corpo e a vida, puros e sem mancha, para se unir ao Senhor e servi-lo. O evangelho apresenta verbos de movimento - segue, vem, - e de observação - vê, achamos - para o discípulo que se aproxima do Mestre, e se lhe promete:. "Pois maiores coisas do que estas verás!" Afinal, a Leitura do AT completa esta imagem, pois Samuel é chamado ao ofício profético num momento difícil da história de Israel. Ele se dispõe a ouvir, atender e transmitir a palavra que recebe. Contexto Samuel, como pessoa, é fruto de oração ardente por parte de sua mãe, e seu nome significa "ouvido por Deus" ou "pedido de Deus". Toda a sua vida passou a ser uma vida de oração, intercessão e sacrifício mediador

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em favor do povo de Deus. Samuel é, pois, um tipo perfeito do profeta que viria a ser, e do grande profeta Cristo, para quem apontou por sua vida e mensagem. Foi trazido ao templo do Senhor (leia-se tabernáculo de Silo) por sua mãe,em cumprimento de um voto que fizera. Na visão do texto inicia e é iniciado no ministério profético. No contexto posterior (3.20) é chamado e confirmado como iniciador da ordem de "profeta do Senhor" (cf. At 3.24). A mediação entre Deus e seu povo estava mudando de forma, de sonhos e visões, da presença no santíssimo, sobre a arca da aliança para uma presença de maior mobilidade, por sua palavra na boca dos profetas, para que se pudesse ouvir em toda a parte sobre o juízo e a salvação de Deus. Texto V. 1 - O "jovem" Samuel (naár) é uma expressão que informa que ele já havia crescido e depõe em favor de sua habilitação intelectual e funcional (servia ao Senhor) para receber a revelação divina. - "palavra mui rara" (iakár): a forma anterior de revelação por sonhos, visões e assemelhados havia cessado desde Gideão. A presente manifestação, chamada de visão (chazôn) no v. 15, sugere que se tratava de um momento de crise e de depravação moral e religiosa. Vv. 2-3" - Descreve-se o cenário em que ocorrerá a revelação divina. O local era o tabernáculo de Silo, aqui chamado heicál Yahweh, templo do Senhor, pois ali se encontrava a arca. Heicál descreve todo o santuário (cf. Sl 11.4), o espaço em que se manifestava a presença de Yahweh sobre a arca, no propiciatório. A expressão "lâmpada de Deus" se refere ao candelabro de ouro, com sete lâmpadas (Ex 25.31 ss), que era aceso ao escurecer e representava a presença de Deus de noite. Vv. 4-7 - Os dois primeiros chamados de Deus foram recebidos de forma equivocada, tanto por Samuel como por Eli. Não conhecer o Senhor quer dizer aqui que Samuel ainda não tinha a noção exata do ministério em que seria investido. A atividade profética de falar por ordem do Senhor inicia, para Samuel, com a presente visão. A palavra do Senhor se manifesta por intermédio de Samuel, mas sua atuação profética é apenas esporádica. Pertence, na realidade, à categoria dos juizes de Israel, dos quais é o último. No entanto, Samuel pode ser considerado tipo dos 3 ofícios de Cristo (profeta, sacerdote e juiz ou líder político, introdutor do reinado, a pedido do povo e por ordem de Deus). Vv. 8-10 - O chamado e a resposta de Samuel têm seu desfecho após a terceira edição. Eli se deu conta da origem divina da convocação e orientou seu afilhado sobre como deveria responder. Foi o que Samuel fez. Discernir a voz de Deus em meio à noite e em meio às dificuldades da vida

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não é fácil para os envolvido, atordoados pela sonolência, tentações, inconformismos e surdez espiritual. Ao pé do Sinal o povo temeu e tremeu Em Is 66.2, Deus diz pelo profeta que "o homem para quem olharei é este: o aflito e abatido de espírito e que treme da minha palavra". "Fala, Senhor, porque o teu servo ouve!" Ao dispor-se a ouvir, Samuel ainda não sabia o que lhe seria revelado. A palavra divina abriu-lhe os horizontes e descortinou toda a gravidade da situação de Israel, começando pelas suas lideranças espirituais. A mesma palavra equipou sua mente para guardar o que ouviu e soltou a sua língua para transmitir a dura mensagem ao destinatário, o sacerdote Eli. "Quem é de Deus, ouve as palavras de Deus" (Jo 8.47), lei e evangelho, juízo e salvação. Para uma época em que ninguém mais escuta, ou em que se precisa pagar um profissional para escutar, pareceria mais adequado dizer: Cala, porque eu falo. A vida de santificação do crente precisa progredir nessa escuta, precisa falar e transmitir essa mensagem da palavra divina, tornando-nos "praticantes da palavra e não somente ouvintes" (Tg 1.22). Proposta Homilética O Chamado de Deus a Samuel, um exemplo para a nossa entrada em comunhão com o Senhor: 1. Deus mesmo opera no preparo da ocasião e da tarefa 2. Samuel se orienta para ouvi-la e atendê-la 3. Como cristãos, acordamos para o serviço do Senhor OU: O FALA SENHOR expressa: 1. consciência da presença de Deus, com atenção; 2. aceitação da mensagem do Mestre, com boa disposição; 3. prontidão para o serviço, com dedicação.

Elmer Flor

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TERCEIRO DOMINGO APÓS EPIFANIA
23 de Janeiro de 1994 Jonas 3.1-5,10
Leitura do Dia O ponto de relacionamento das leituras do dia pode ser assim descrito: A Confiança no Deus Eterno e sua Palavra. Examinando-as em separado, vemos que: No Salmo (62.5-12), Davi fala de sua confiança somente no Senhor. A partir da sua confiança ele exorta a que demonstremos a mesma atitude, alertando também para o perigo de se colocar a confiança em outra coisa, principalmente nas riquezas, quando estas começam a prosperar; Na Epístola (1 Co 7.29-31), apesar de estranhar a presença desta perícope extraída de um contexto abordando o casamento, lendo especialmente os versículos seguintes (32-34), entenderemos a razão de sua presença na temática do dia. As coisas deste mundo, que Deus coloca nas mãos dos homens, não devem se constituir no objetivo final de nossa existência. A vida cristã caracteriza-se pela comunhão com o Senhor acima de qualquer outro valor. Apegar-se ao que passa como o maior valor existente é ser enganado. As aparências deste mundo passam, mas o Senhor é imutável. O correto, portanto é confiar nele sobre tudo o mais. Algumas coisas, todavia, podem se interpor entre o desejo de buscar ao Senhor sempre e a prática deste desejo. Tais coisas podem estar entre as preocupações inerentes ao casamento, especialmente em tempos de tribulação, situação apontada pelo apóstolo. O apóstolo procura, sem dúvida, colocar diante dos seus leitores uma situação que julga ser a mais conveniente para uma vida voltada acima de tudo para a comunhão com Deus. Dentro deste contexto entendemos o significado da perícope dentro da temática do dia. Não é o casamento o maior valor; chorar não é a única realidade; o que produz alegria neste mundo não é o mais importante; as propriedades adquiridas não se constituem na maior riqueza. Tudo pertence a este mundo, que irá passar juntamente com aquilo que nos proporciona. Apenas a comunhão com Deus irá nos agraciar com valores reais e não aparentes, duradouros (eternos) e não passageiros; No Evangelho (Mc 1.14-20), encontramos o chamado ao discipulado feito por Jesus a Simão, André, Tiago e João. Lá também há material condizente com a temática do dia. Havia duas propostas de vida diante daqueles homens chamados por Jesus: continuarem pescadores ou seguirem a Jesus. Falou mais alto para a escolha a confiança no convite e na

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promessa de Jesus (venham - serão pescadores de homens). Tratou-se de uma decisão tomada com base na confiança na pessoa de Cristo e naquilo que dele ouviram. Estava a confiança acima de tudo o mais. Contexto e Texto 0 texto de Jn 3.1-5,10 apresenta três partes bem definidas. 1º) Versículos 1 a 4 mostram-nos a mensagem levada a Nínive por Jonas, após ser este novamente enviado pelo Senhor. Era uma mensagem dura, de lei, mostrando que aquele povo se encontrava sob o juízo divino em razão de sua incredulidade e maldades. "Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida" proclama o profeta a mando de Deus. "Será subvertida" (v. 4) é a tradução para o mesmo termo usado no original hebraico para descrever a destruição de Sodoma e Gomorra (Gn 19.25). A grandeza da cidade não escondia sua maldade. 2º) Versículo 5 revela-nos a reação dos habitantes da cidade à mensagem do profeta em nome do Senhor. O que se destaca? A seriedade com que os ninivitas encararam a pregação ouvida. Ela os denunciava e acusava; no entanto, vinha de Deus e, por isso, nela creram. Na verdade, estavam crendo no próprio Deus. A reação daquelas pessoas não se ajusta aquilo que por vezes percebemos nos outros e, por que não dizer, em nós também, ou seja, um desagrado diante da pregação da lei e, conseqüentemente, pouca atenção ao seu conteúdo. Há quem prefere (nós? ) ouvir mais aquilo que julgamos que nos convém ou que gostamos de ouvir. Sem dúvida de que a denúncia e acusação da lei fica de fora dos parâmetros estabelecidos pela nossa preferência. A palavra de Deus, contudo, é um todo onde estão presentes lei e evangelho, com funções próprias, visando à vida de comunhão com o Senhor. Rejeitar a uma dessas partes, lei ou evangelho, implicará numa compreensão deturpada daquilo que é necessário ouvir. A fé dos ninivitas levou-os ao arrependimento e à conversão, acompanhados da súplica pela misericórdia divina. 3°) Versículo 10 apresenta-nos a bem-aventurança vinda sobre Nínive em razão de sua fé na mensagem de Deus. Creram, arrependeram-se, clamaram e esperaram ... e o Senhor viu! Viu e se mostrou compassivo e misericordioso. "Arrependeu-se do mal que tinha dito lhes faria, e não o fez, é a linguagem antropomórfica da Escritura para descrever a misericórdia divina para com os pecadores arrependidos. Digno de nota ressaltar que não há arrependimento sem fé na palavra de Deus. Que resultado maravilhoso os ninivitas colheram por terem confiado naquilo que Deus lhes mandou anunciar! Vale ainda lembrar que a misericórdia divina para com os ninivitas assegura a universalidade da graça de Deus, pois foi alcançada

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a um povo estranho a Israel. Sob a universalidade dessa graça também fomos colocados por Deus, embora não sendo "israelitas segundo a carne". Proposta Homilética A sugestão é a seguinte: a partir do texto, sob o tema: A Confiança no Deus Eterno e sua Palavra, prepare-se a mensagem na seqüência das três partes bem definidas no texto de Jn 3.1-5, 10, ou seja: 1º) A mensagem anunciada. 2º) A reação à mensagem. 3º) O resultado do crer na mensagem.

Paulo Moisés Nerbas

CUARTO DOMINGO DESPUÉS DE EPIFANIA 30 de enero de 1994 Deuteronomio 18:15-20
Lecturas del dia SI. 1 - La bienaventuranza de vivir, meditar y poner en práctica Ia Palabra del Senor trae frutos que el salmista compara con el árbol que tiene la mejor ubicación, está plantado cerca de la corriente de água que le proporciona aquello que es vital para subsistir y aún más, para crecer. Dt. 18:1-13 - El Señor Dios envia su Palabra que es profecia y cumplimiento. Palabra que da y engendra vida. Muchos han sido los mensajeros del Senor, pero como el profeta del que Moisés habla no hubo ni habrá otro igual. 1 Co. 8:1 -13 - El conocimiento de Dios es el amor que procede de un corazón limpio. Dice Pablo: "Si alguien ama a Dios, Dios lo conoce a él". Este conocimiento por parte del cristiano incluye la confesión de que "hay un solo Dios y un solo senor Jesucristo, en quien tenemos libertad". Libertad que será usada para testimoniar de Cristo a quienes no le conocen. Mc. 1:21 -28 - La autoridad de Cristo se manifiesta de muchas maneras y en todas partes. En la sinagoga Jesus manifesto una autoridad plena cuando enseñaba y predicaba. Su palabra era mandato divino. Aún los

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espíritus impuros le obedêcían. Cristo, Profeta excelente de Dios traía en su palabra cumplimiento a la promesa de Dios. Contexto Todo el libro de Deuteronomio es una preparación del pueblo de Israel que se encontraba a punto de ingresar en la tierra prometida. Moisés, con espíritu pastoral, presenta la Palabra de Dios incluyendo la seria exhortación contenida en la ley. previniendo de los riesgos que correrían al estar asentados en la nueva tierra y exhortando a ser fieles al pacto que Dios había hecho con ellos. Por otra parte, Moisés trae un mensaje de gran consuelo y fortaleza, que es la promesa mesiánica respecto del "Profeta Cristo" que habría de venir. Texto v. 15: Este versículo es el clímax de todo el libro. Aqui la motivación que Moisés viene desarrollando para apuntar hacia la centralidad de Ia Palabra de Dios como autoridad suprema para el pueblo escogido, es ligada a la persona de un profeta cuyas características distintivas serían: a) "saldrá de entre ustedes", b) "será como yo" (Moisés), c) "deberan obedecerlo". La similitud del profeta que habría de venir, en relación a Moisés, no tenía que ver con su personalidad o alguna otra característica personal sino más bien por la autoridad, por el oficio y por la unicidad (único), de su función. ver 34:10. Lutero amplia este concepto cuando dice: "...es necesario que este profeta que es como Moisés - en cuanto a autoridad de ensenanza y mandamiento, esto es, lo que significa cuando dice "como yo" - sea superior a Moisés y ensene cosas mas grandes..." Y dice aún más.-"...Pero no puede haber otra palabra más allá de lo que dijo Moisés, a menos que sea el Evangelio, porque todo lo que corresponde a la ensenanza de la ley ya ha sido comunicada amplia y perfectamente por Moisés, así que nada más puede ser agregado... Por Io tanto, es necesario que El sea un maestro (profeta) de vida, de gracia, y de justicia, del mismo modo que Moisés fue maestro de pecado, de ira y de muerte..." (LW IX, 176-178). W. 19-20: Aqui aparece una segunda característica de Ia unicidad del profeta, la palabra que él traiga será la que determine cuán genuína y veraz sea cualquier palabra traída o predicada por quien aspire ser considerado profeta. La marca que deberá tener cualquiera que anuncie Ia palabra traída por el Profeta del Senor, será ante todo Ia obediência incondicional, y no la contradirá en ninguna de sus partes, tampoco la alterará, "ni una jota ni una tilde será cambiada" (Mt 5:17 ss.). Esta Palabra

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que al ser oída traerá vida y poder a la vida del pueblo de Dios es aquella que el escritor a los hebreos trae, cf. Heb. 4:12. Propuesta homilética/Tema y Partes El Profeta Cristo es !a reveíación plena del consejo de Dios. a - El consejo de Dios es la Ley. 1 - que revela el pecado y la muerte. 2 - que revela la ira de Dios. 3 - que revela la condenación eterna, b - El consejo de Dios es el Evangelio. 1 - que restablece la comunión con Dios. 2 - que anuncia y da perdón y vida. 3 - que da salvación eterna. Jorge Groh Buenos Aires, Argentina

O QUINTO DOMINGO APÓS EPIFANIA 6 de Fevereiro de 1994 Sofonias 3.14-20
História O profeta Sofonias, segundo seu livro, era filho de Cusi e bisneto de um certo Ezequias, talvez o próprio rei Ezequias, o que faria com que o profeta tivesse "sangue nobre". Parece que morava em Jerusalém mesmo (1.5). Ele proclama sua mensagem uma pouco antes do reinado do rei Josias, ou talvez até mesmo já na primeira parte do reinado deste. As condições morais e religiosas do povo há tempo não são boas, devido à péssima influência dos reinados de Manasses e Amom (cf. 3.1 -3,7). O perigo babilônio, também, há anos torna-se cada vez mais presente. Por isso a mensagem de Sofonias é pessimista na sua quase totalidade: o dia do Senhor virá e nada poderá detê-lo. Com ele vem o juízo sobre Judá e os demais povos. Somente um "restante" (3.13) estará a salvo. Mas, ao fim, o profeta vê raios de esperança. A partir de 3.8, o discurso muda totalmente. Agora temos palavras de conforto e especialmente de incentivo à alegria, por que o Senhor não deixará as coisas como estão.

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Texto O temo principal desta perícope é um apelo à alegria. Jerusalém precisa alegrar-se. Vemos isto na própria abertura (3.14), onde os imperativos conclamam à alegria e ao júbilo: raní (rnh - berrar, gritar, gritar de júbilo, gritar de alegria); harfu (rw'- Hifil: gritar, berrar, bradar, romper em gritaria, gritar em triunfo, jubilar); simhî (smh - alegrar-se, estar alegre/contente) e 'alzí (lz - exultar, jubilar). A força do apelo nos faz quase uma multidão em êxtase, aos gritos, não podendo mais conter-se em vista de tanta alegria. É uma grande festa da restauração, cheia de canto e alegria. Há dois motivos para toda essa alegria: 1. o juízo (mispat) é suspenso e o inimigo (oêb) é afastado (15) e 2. acontece uma renovação interna (kainief - aqui as traduções seguem a LXX e não o texto massorético, pois este traz jahªris, "ele se calará"; o aparato crítico da BHS sugere jehades "renovará", em ternos de consoantes apenas uma troca de "r" por "d", letras muito parecidas em habraico) (17). Estes dois acontecimentos somente se tornam realidade mediante a intervenção poderosa do SENHOR (jhwh) na história. Ele é o sujeito das ações;o SENHOR suspende os juízos, afasta o inimigo e renova o seu povo, porque está presente no meio dele com o seu amor (17). Lutero: (15) denn der Herr hat deine Strafe weggenommen und deine Feinde abgewendet... (17) denn der Herr, dein Gott, ist bei dir, ein starker Heiland; er wird sich uber dich freuen und dir freundlich sein und vergeben und wird uber dir mit Schall froehlich sein. Mensagem Transportar a mensagem de Sofonias ao seu povo para a realidade de nossas congregações luteranas hoje não é algofácil. Entretanto, a ponte, que justamente torna este texto atemporal e eterniza a sua mensagem, é a ação de Deus no meio do seu povo. Lei: as previsões para o povo de Israel são catastróficas. Seu desapego à palavra de Deus e sua lassidão moral estão por terminar, porque o juízo é iminente. Condenados estão também todos aqueles que não fazem parte deste povo, mas que igualmente vivem no pecado. Também estamos às voltas com estes problemas hoje. Em nossa sociedade, moral e ética são considerados conceitos arcaicos, que servem simplesmente para tirar a "liberdade" das pessoas. Em conseqüência, a sociedade se desagrega, mergulha na corrupção, lascívia, violência, etc. Presenciamos também o que poderíamos chamar de "êxodo" dos membros das congregações em direção ao mundo, há esvaziamento, inércia e até mesmo descaso no meio da Igreja. Não demonstram estes fatores o afastamento de Deus e o seu conseqüente juízo?

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Evangelho: Nem tudo está perdido; porque Deus está presente entre o seu povo. Para os israelitas, houve uma restauração promovida pelo piedoso rei Josias (primeira metade do século VII a.C). Por meio de seus servos fiéis Deus conserva para si um núcleo fiel, no meio do qual ele pode estar presente. A este pequeno "rebanho",por meio da fé, o SENHOR suspende a condenação, afasta o inimigo e renova para uma nova vida. A figura do servo fiel nos leva diretamente a Cristo (Josias pode ser considerado um "tipo" de Cristo). Por causa dele está suspensa a condenação que pairava sobre nós e nos oprimia. Agora estamos livres. No seu sacrifício vicário e ressurreição ele vence os inimigos do povo de Deus, que procuram sempre de novo nos aprisionar. Por meio da sua ação na Palavra e nos Sacramentos ele nos renova pelo seu amor: se alguém está em Cristo, é nova criatura (2 Co 5.17). Sugestão para esboço: Introdução: comparação entre a realidade sócio-político-religiosa da época de Sofonias com a atual, grardadas as devidas proporções. Estamos alegres, apesar de tudo! A nossa condenação foi suspensa; Os nossos inimigos foram afastados; Somos dia-a-dia renovados por Deus em amor; Agrardamos o dia do Senhor, a libertação final.

Gilberto V. da Silva São Leopoldo, RS

ÚLTIMO DOMINGO APÓS EPIFANIA 13 de Fevereiro de 1994 2 Reis 2.1-12
Leituras do Dia Deus revela sua glória na transfiguração de Jesus diante dos três discípulos, na vitória de Deus sobre os deuses que não são, e na vida dos que são "transformados de glória em glória pelo Espírito." Contexto e texto Os dois livros dos Reis são uma só obra literária chamada simplesmente de "Reis" na tradição hebraica. A divisão em dois livros foi introduzida

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pelos tradutores da Septuaginta e seguiria na Vulgata e na maioria das versões modernas. A divisão, feita em lugar apropriado mas arbitrário, faz com que a história do reinado de Acazias apareça no final do primeiro (22.52-54) e início do segundo (1.1-18) livro dos Reis. A parte mais longa do ministério de Elias é narrada no primeiro livro dos Reis (especialmente nos capítulos 17 e 19). O relato da transmissão do ministério a Eliseu está em 2 Reis (1.1 -2.18). Elias foi um profeta muito especial: Origem humilde (não se sabe ao certo onde em Gileade ficava Tisbé) e modos simples (2 Rs 1.8), chamado e preparado por Deus de forma muito peculiar (1 Rs 17), de grande poder espiritual e confiança absoluta nas promessas de Deus, intenso amor para com as pessoas, anseio profundo pela conversão do povo e de seus governantes, ira santa contra os inimigos de Yahweh. O significado do nome de Elias - "O Senhor é meu Deus" - também era a essência da sua mensagem (1 Rs 18.39) na missão de combater com rigor e vigor, por palavra e ação, o culto a Baal e os que o praticavam, em meio à grave crise provocada pelo rei Acazias, que promovia tal idolatria e culto ofensivos ao Deus Eterno. Deus revelara a Elias que em breve o tomaria da terra (v.1). Elias o revelou a Eliseu (v 8). Consciente da separação iminente (w. 2, 3, 4, 5, 6) e de que deveria continuar o ministério de Elias, Eliseu não queria ficar longe de seu preceptor por nenhum instante. Desejava aprender mais. Queria conselhos, encorajamento e consolo. Ao implorar "Peço-te que me toque por herança porção dobrada do teu espírito", Eliseu não sonhava com ser maior do que Elias, mas referia-se às leis de herança que estabeleciam porção dobrada para os primogênitos (Dt 21.15-17). Elias sabia que só Deus pode conferir tal poder, mas também experimentara em sua vida como Deus capacita com poderes e dons especiais aos embaixadores que chama e unge (1 Rs 19.16, 19-21). Deus atendeu o pedido de Eliseu quando carro e cavalos de fogo levaram Elias ao céu num redemoinho. Eliseu experimentou que havia herdado o poder e espírito de Elias ao ferir as águas do Jordão. Cinqüenta homens dos discípulos dos profetas tornaram-se testemunhas oculares da extraordinária transferência de ministério, poder e espírito de Elias para Eliseu. Antes de ser levado por Deus, Elias foi visitar as companhias de discípulos de profetas em Betei (v. 2), Jerico (v. 5) e Gilgal (4.38). Estes sabiam que Deus levaria a Elias para junto de Si e ouviam a reação um tanto

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zangada de Eliseu quando pensavam revelar-lhe um segredo que já conhecia. Proposta Homilética Multidões prestam culto aos Baals inventados por eles mesmos (exemplificar) ou anunciados por profetas que não falam da parte de Yahweh (exemplificar). "Baal e seus seguidores" também hoje não suportam o poder e espírito de Elias: Yahweh é o meu Deus e único Senhor! "Eu sou" - Yahweh - revela-se aos homens como único Deus e Senhor: - A Elias e outros profetas, em visões e palavras diretas. - Aos discípulos pelo ensino e exemplo dos mestres. - Nas Escrituras e, especialmente, em seu Filho Jesus Cristo, "fazendo sábios para a salvação mediante a fé." "Eu sou" quer os "seguidores de Baal" creiam e vivam: - Pela palavra pregada, fé ativa e esperança vivida. - Discípulos (pastores e líderes leigos) cumprindo seu ministério com zelo, no poder que Deus supre e na certeza de vitória.

Johannes H. Gedrat Saint Louis, MO, USA

PRIMEIRO DOMINGO NA QUARESMA 20 de Fevereiro de 1994 Gênesis 22.1-18
Tradicionalmente o tema para o primeiro domingo de quaresma é a tentação, particularmente a tentação de Jesus no deserto, como o evangelho do dia determina. A série trienal segue aqui a tradição. Na série B lemos o relato da tentação de Jesus segundo o evangelho de Marcos (1.12-15). A leitura do Antigo Testamento, a perícope aqui estudada, Gênesis 22.1 -18, acompanha esta temática, nos relatando a provação à qual Abraão foi

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submetido. O pedido de Deus a Abraão para sacrificar seu único filho Isaque dirige nossa atenção ao sacrifício do unigênito Filho de Deus na cruz. Aqui a leitura da epístola (Romanos 8.31-39) oferece material suplementar. Confere por exemplo o versículo 32: ''Aquele que não poupou seu próprio Filho, antes, por todos nós, o entregou", o que define o caráter tipologico da nossa perícope. v.1 - O versículo com a palavra-chave para a compreensão correta do texto. Trata-se da palavra nisah de nasah (tentar, tentar, provar). O leitor sabe desde o primeiro versículo da perícope que Deus põe à prova a fé de Abraão. Isto Abraão, é claro, não sabia. É sempre assim na tentação. Entretanto no plano de Deus a saída da tentação já está desde o principio estabelecida. Deus provera! O que vale é crer na promessa, apesar de tudo. O objetivo da tentação na vida dos filhos de Deus nunca é a perda da fé, mas o fortalecimento da mesma. Confere também a explicação da sexta petição da oração do Pai Nosso. Uma concordância bíblica oferecerá sem dúvida bastante material suplementar quanto ao emprego e sentido da palavra provar/tentar. Vale a pena consultar. v. 2 - O monte na terra de Moriá é em 2 Crônicas 3.1 identificado como o morro em Jerusalém, no qual Salomão edificou a casa do SENHOR. O holocausto era o sacrifício no qual o animal era todo queimado e consumido pelo fogo. O holocausto representava a entrega completa do pecador ao Senhor. Nada retendo para si, tudo pertencia a Deus. Exatamente isto era o sentido do holocausto, a total dependência do homem, que por causa do pecado deve tudo a Deus, inclusive sua vida (cf. Romanos 12.1). Assim no Antigo Testamento todo primogênito era doado ao Senhor (Êxodo 22.29). O povo de Israel sabia que não podia agradar a Deus com as coisas que no momento para si não tinham valor. Não se davam as sobras para Deus (como agem os cristãos hoje?). A absolvição do pecador não se baseia num simples ato simbólico (cf. Miquéias 6.7). É graça divina que Deus deu oportunidade para resgatar o filho primogênito através do sacrifício de animal (cf. Êxodo 13.13ss). O que aconteceu por fim também no caso do nosso texto (v. 13). Tudo isto apontava para um sacrifício no futuro, quando Cristo na cruz ofereceu-se uma vez para sempre para reconciliar o mundo com Deus (cf. Hebreus 9 e 10). Deus não poupou a si mesmo aquilo que no ultimo momento poupou a Abraão, de entregar seu único Filho (cf. epístola do dia). Deus provera! O texto não descreve o que Abraão sentiu quando recebeu a ordem de sacrificar em holocausto seu único filho. Isaque era o longamente prometido e esperado filho. Mas não somente isso, ele também era o portador da grande promessa divina. Deus tinha prometido que faria dele um grande povo e que da sua descendência nasceria Aquele em que todos
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os povos da terra seriam benditos. O que Abraão deve ter pensado? Como a fé dele está sendo provada! Mas ele confia, apesar de tudo. Cf. Hebreus 11.17-19. Deus acima de tudo! v. 6 - O fato de Isaque carregar a lenha nas costas nos lembra, especialmente agora na quaresma, Aquele que mais tarde, no Novo Testamento, carregaria o madeiro no qual seria crucificado. vv. 7-8 - Abraão demonstrou pela sua resposta à pergunta de Isaque uma confiança absoluta no Senhor. "Deus provera". Três vezes a palavra daah aparece no texto (aqui e mais duas vezes no v. 14). Deus tanto vê como prove. Ele sabe o que precisamos, vê nossas necessidades e proverá a seu tempo. vv. 11-12 - Abraão "passou" na prova. Cf. 1 Coríntios 10.13. O "agora eu sei" é um antropomorfismo. vv. 13-14 - Deus proverá! Confere também acima v. 2. vv. 15-18 - Deus reafirma sua promessa anteriormente feita a Abraão (cf. Gênesis 12). Promessa de salvação para todos. A seguinte disposição poderia ser usada: Deus proverá: I - Pela promessa II - Na tentação III - A salvação O exemplo de Abraão no seu comportamento na tentação e a sua fé, a ação divina, tudo isto relacionado com a obra de Cristo poderiam ser alguns pontos a destacar Gijsbertus van Hattem Antwerpen, Bélgica.

SEGUNDO DOMINGO NA QUARESMA 27 de Fevereiro de 1994 Gênesis 28.10-17 (18-22)
Leituras O Salmo 142 enfatiza a certeza da presença de Yahweh como refúgio ao salmista nas horas de infortúnio. A epístola fala da esperança que recebemos pela reconciliação que Deus fez com Seu povo pela fé. Seguir a Cristo e Seu evangelho é a tônica de Mc 8.31-38.

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Texto e sugestões Homiléticas Tivéssemos que nos identificar com um dos patriarcas, qual deles teria maior aceitação? Abraão? Alguns poderiam argumentar que ele estaria num pedestal muito elevado de fidelidade, integridade, persistência. Isaque? Alguns diriam que ele não teve muita expressão em sua trajetória patriarcal. Jacó? Alguns relutariam baseados em seus atos moralmente questionáveis. Mas, talvez por isso mesmo Jacó, por ser mais "humano", mais "real", mais "chão", mais perto do que somos, fosse a o patriarca com quem nós mais facilmente nos identificaríamos. Jacó acabara de enganar Esaú e está fugindo dele e da Terra Prometida. Truques, artimanhas, enganos são fatores que vão caracterizar a relação dele com Labão. Tal situação só chegará ao fim quando Jacó, em seu retorno do exílio, lutar com o Anjo em Peniel num momento de reconsagração em que até seu nome será mudado para "Israel". É curioso, entretanto, que não haja nada no texto que nos induza a afirmar que Jacó seja um hipócrita. Ao contrário, as palavras do SENHOR a ele são de promessa, evangelho, como foram para Abraão. Nestas palavras está a bênção tripartite da terra, descendência e presença divina. Destas três promessas, a da presença do SENHOR é a mais relevante e consoladora. E YAHWEH está presente com Jacó em sua jornada, seu sonho, no topo da escada ( alau no v. 13 deveria ser traduzido por "No topo dela") Tecnicamente sullâm denota uma rampa, talvez com degraus, não "escada". A imagem evocada é a de um zigurate, um monte artificial encimado por um templo semelhante à torre de Babel e às pirâmides dos maias e astecas aqui mais perto de nós. Cada uma destas construções era considerada como "porta dos céus". Na verdade, "Babel" significa "porta de Deus". Este mesmo testemunho Jacó dá ao mudar o nome daquele lugar de "Luz" para "Betei", ou seja, "casa de Deus" ou "igreja". Importante neste contexto é que a Escritura endossa o que chamamos de tipologia vertical das autênticas "casas de Deus" na terra com a "casa" ou "templo" de Deus no céu. Ocorre aqui no texto, com o tabernáculo em Êxodo (descrito como miniatura do templo celeste) e o templo de Salomão (cf. Hebreus). A tipologia vertical atinge seu clímax quando o Verbo de Deus "tabernaculiza" com os homens. Ao encontrar-se com Natanael, Jesus o lembra deste sonho de Jacó como um tipo de Si mesmo como a única porta para o céu. Não é sem razão que dominicalmente a Igreja Cristã celebra a presença real do SENHOR no "topo da rampa" ao cantar em seu culto o Sanctus "juntamente com os anjos e arcanjos".

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A presença dos anjos é marcante, mas é o SENHOR quem está no topo da rampa para estender a promessa a Jacó. A terceira promessa é especialmente apropriada para Jacó. Para um homem que foge de sua terra, esta, no momento, não é relevante. Para quem no momento não tem intenção de casar, a descendência não é significativa. Mas a presença divina é fundamental (v. 15). Esta promessa ecoa no Novo Testamento, primeiro como essência da aliança de Deus para todos os tempos e que se encarna no Emanuel, no Deus-conosco; depois, como parte integrante das palavras de Jesus na Grande Comissão. O texto conclui com uma resposta de Jacó à promessa: um voto. É preciso confessar que temos dificuldades em falar em voto. Na verdade, ele pode ser abusado. Contudo, o voto faz parte de uma categoria de sacrifícios do Antigo Testamento, o das ofertas voluntárias. Também nós fazemos uso do voto: batismo, confirmação, confissão de pecados, ordenação no Santo Ministério. A cláusula "se" no v. 20 não deve ser entendida como resposta de um barganhador, mas sim como promessa, desejo sincero de um crente em resposta, especialmente, à da presença divina. Se dentre os patriarcas nos identificamos mais com Jacó em suas fraquezas, é bom também que nos identifiquemos com ele em suas grandezas, ou seja, pedir e reconhecer a presença do SENHOR em nossa jornada, sonhos, no topo da rampa - e que respondamos a Ele com voto confiante. Desta forma Deus também nos levará a nós, exilados, de volta para nossa terra natal. Tema: Sê tu presente aqui, SENHOR. Acir Raymann

TERCEIRO DOMINGO DA QUARESMA 6 de Março de 1994 Êxodo 20.1-17
Leituras do dia a) Salmo 19.7-14: É um maravilhoso comercial que apresenta um produto único, sem igual: A Lei do Senhor. b) 1 Co 1.22-25: A epístola nos apresenta o poder e sabedoria de Deus: Jesus Cristo, Aquele que cumpriu toda a Lei de Deus perfeitamente e em nosso lugar.

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c) Jo 2.13-22: O evangelho traz o relato da purificação do templo. Lembrando-nos que todos os servos de Deus devem zelar pela pureza da Casa do Senhor, a Igreja Cristã, para que ela não fique contaminada por grandes ofensas e pecados. E o paradigma que está à disposição de todos os servos do Senhor para a execução desta tarefa é este único: a Lei de Deus. Contexto O contexto nos relata a subida de Moisés ao Monte Sinai para receber de Deus as tábuas da Lei e de como o povo de Israel não podia se aproximar do monte, nem tocá-lo. Todo o contexto nos lembra do fato de que os crentes do Novo Testamento não vêm para um monte que não pode ser tocado, pois arde em fogo, mas ao Monte Sião e à cidade do Deus vivo e a Jesus, o Mediador da Nova Aliança, e ao sangue da aspersão, que fala coisas superiores ao que fala o próprio Abel. (Hb 12.18-24) Texto O texto é o Decálogo. Os Dez Mandamentos são como dez grandes tesouros repletos das mais surpreendentes e maravilhosas gemas e verdades, e a menos que a pessoa penetre num estudo minucioso de cada um deles não descobrirá a preciosidade que eles são para a humanidade. Apesar disso, podemos extrair um deles do conjunto, e que serve de base para os demais. E este é o primeiro mandamento, pois ele é o ponto de partida, do qual todos os outros dependem: "Não terás outros deuses diante de mim" (v.3). A opinião geral é que Moisés escreveu os Dez Mandanentos, mas Moisés afirma (Ex 31.18) que foi Deus quem lhe deu estes mandamentos nas duas tábuas do testemunho, tábuas de pedra, escritas pelo dedo de Deus. Nenhuma outra parte da Bíblia foi escrita desta maneira. De todas as outras partes da Escritura é dito o seguinte: "Homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo" (2 Pe 1.21). Mas não poderia ser Moisés o autor dos Dez Mandamentos? Isto é completamente impossível. Como sabemos, Moisés nasceu e cresceu no Egito. E a religião do Egito incluía no seu culto a adoração a uma centena de objetos e criaturas (No Museu do Cairo há uma sala de relíquias que eram adoradas no Egito no tempo de Moisés e dos israelitas). A influência desta religião, com sua centena de objetos e criaturas de adoração, fica comprovada quando Arão, o irmão de Moisés, fez um bezerro de ouro, supondo que algum infortúnio tivesse acontecido a Moisés quando este estava no Monte Sinai, por causa de sua demora. Ele, simplesmente, copiou algo que conhecia do culto egípcio e que o povo israelita também conhecia,

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pois caíram por terra diante da imagem e a adoraram. Por isso, foge à lógica supor que Moisés, que cresceu em meio a um ambiente onde eram adoradas uma infinidade de relíquias, pudesse produzir, por ele mesmo, um documento que estabelece um único Deus e que proíbe todo o culto idólatra ao qual ele estava tão acostumado. Disposição TEMA: A MAIOR E MELHOR LEI DO MUNDO Introdução: A importância e a necessidade de leis para a convivência social. Os benefícios usufruídos por todos aqueles que conhecem a Lei Maior e a cumprem. I - Por que este tema: a maior e melhor lei do mundo? A. Por causa do seu autor B. Por que ela é necessária para a convivência humana C. Por que ela é permanente a) o caracter único do primeiro manuscrito (Ex 31.18) b) o testemunho do tempo: mais de 28 séculos c) o testemunho de Jesus Cristo: Mt 5.18 II- O primeiro mandamento: Não terás outros deuses... A. Este mandamento faz justiça somente ao verdadeiro Deus a) que Deus é este que exige esta exclusividade e primazia? -como revelado pelas suas obras -como revelado na Sua Palavra (Ex 3.14) B. Por que este mandamento foi e é necessário? a) por causa da inclinação do ser humano por divindades (por natureza) b) por causa da poderosa influência das coisas temporais, cegando-nos para os Interesses maiores C. Por que deveríamos obedecer a este mandamento? a) At 17.28 b) o maravilhoso privilégio da nossa existência D. A amplitude deste mandamento a) A explicação de Lutero: Catecismo - temer é respeitar, e respeitar é ouvir o que o outro tem para dizer b) Quando colocamos o temer a Ele em 1º lugar? c) Onde colocamos o amor a Ele em 1- lugar?

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d) Por que colocar a confiança nele em 1º lugar? e) Como, então, tememos, amamos e confiamos em Deus? E. A promessa que há neste mandamento a) Aquilo que o homem semear, isto também ceifará: Deus é zeloso, que visita a iniqüidade... b) Deus é misericordioso até mil gerações daqueles que o amam e guardam estes mandamentos.

Mário Lehenbauer Castro, PR

QUARTO DOMINGO NA QUARESMA 13 de março de 1994 Números 21.4-9
Leituras do Dia O evangelho do dia, Jo 3.12-21, é a continuação do diálogo de Jesus com Nicodemos. Nos apresenta não só o versículo resumo do Evangelho, mas também o texto como um todo é a essência do Evangelho (na verdade da lei e do Evangelho). Este mesmo texto faz clara relação entre a Serpente de bronze (texto da mensagem) e a morte de Jesus na Cruz. A epístola do dia (Ef 2.4-10) é igualmente um texto chave do NT, que ressalta a riqueza do amor de Deus, a graça salvadora e imerecida e a fé que se agarra a esta graça. O Salmo do dia (SI 27) ressalta a segurança e salvação que somente se encontra em Deus, em meio a ameaças e perigos que nos rodeiam. O versículo primeiro do SI. poderia muito bem ser o tema do domingo: "O Deus Eterno é a minha luz e a minha salvação"(SI 27.1). Olhando para o texto da mensagem - o texto do AT (Nm 21.4-9), não é difícil encontrar uma ligação entre todos estes textos de domingo, isto se torna ainda mais fácil ao nos darmos conta que estamos na época da Quaresma quando queremos de forma especial lembrar o sofrimento e morte do Salvador Jesus Cristo. - Momento máximo da graça de Deus que veio ao nosso socorro na perdição. Graça imerecida tornada realidade por um ato, não conforme o raciocínio e a lógica humana - mas de acordo com o incompreensível mistério do amor de Deus.
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Contexto Israel se encontrava em suas caminhadas pelo deserto, liderados por Moisés. Era um tempo de caminhadas difíceis. Tempo em que Deus ensinava e se revelava ao seu povo de modo bem especial. Tempo de lutas contra inimigos traiçoeiros. Tempo em que o SENHOR queria levar o seu povo a ter completa confiança nele. Arão e Miriam haviam falecido recentemente (Nm 20). No cap. 20 temos também o registro do pedido de Moisés ao rei de Edom para que fosse permitido ao povo passar pelas suas terras. O pedido foi negado sob ameaças e um ataque do exército dos edomitas ao povo de Israel. Assim Israel teve que rodear a terra de Edom. Neste caminho Israel foi atacado por um rei Cananeu chamado Arade, o qual foi derrotado e destruído (Nm 21.1-3). v.4 - A viagem ao redor da terra de Edom deve ter sido muito cansativa e difícil, pois neste caminho "o povo se tornou impaciente". Esta impaciência demonstra a grande dificuldade que este povo tinha em esperar no SENHOR e de colocar toda sua confiança nele. v.5 - A impaciência e a falta de confiança levaram o povo novamente, como havia acontecido tantas vezes, a murmurar e a falar contra Deus e contra o seu servo Moisés (cf. Ex 16; Dt 11.4). Este é o último registro destas reclamações a respeito do seu alimento e o desejo dos caminhos do Egito. Elas falam do maná que Deus lhes fazia cair do céu, de forma desrespeitosa. O vocábulo "vil"(qeloqel) pode derivar do "qillel"- "desprazer" ou do "qal" "leve". Levando isto em conta, a Bíblia de Jerusalém usa aqui o termo "alimento de penúria" (sobre maná veja SI 78.24-25; 105.40; Jo 3.31). v.6 - Esta murmuração e revolta do povo provocou a ira de Deus, como acontecera em outras ocasiões (cf. Nm 11.33). Desta vez a ira de Deus se mostrou em forma de cobras venenosas cujas picadas lavavam à morte. v . 7 - 0 castigo de Deus levou o povo a reconhecer seu erro e a arrepender-se. Pedem a Moisés que interceda para que as cobras fossem retiradas de seu meio. Vv.8 e 9 - A oração de Moisés foi respondida, mas a resposta não foi exatamente como o povo a queria, isto é, que as serpentes fossem tiradas do seu meio. Deus tinha algo importante para ensinar ao povo. A cura exigia fé e confiança em Deus. Quem olhasse para a serpente de bronze, obedecendo e confiando na ordem e providência de Deus, receberia a cura. Sem dúvida, o povo entendeu que não era a serpente de bronze, mas sim o SENHOR, que dera esta estranha ordem, era o autor da cura. Mais tarde esta serpente de bronze se tornou objeto de superstição e idolatria (f 2 Rs
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18.4). Em escavações arqueológicas, nas proximidades onde aconteceu o que o nosso texto relata, se encontraram várias serpentes de cobre que, se supõe, tenham sido usadas para proteção contra cobras venenosas. O Salvador Jesus (no evangelho do dia) mostra como esta serpente de bronze aponta para Ele próprio, que se deu por nós no madeiro do Calvário "para que todo aquele que nele crê não morra, mas tenha a vida eterna"(Jo3.16). Proposta Homilética Para a mensagem, de forma muito apropriada, todas as leituras podem ser aproveitadas. Sugere-se que o tema central da mensagem explore a maneira como Deus escolheu libertar o povo de Israel das serpentes, e a partir daí passe a explorar o evangelho do dia, que aponta para a maneira como Deus escolheu salvar a humanidade - maneira desprezada pelos homens (Jo 3.19). Uma idéia de esboço: A INCRÍVEL SALVAÇÃO DE DEUS 1. Assim Israel foi salvo por uma serpente de bronze 2. Assim você foi salvo por alguém pendurado na cruz de madeira.

Mário Sonntag Carambeí, PR

QUINTO DOMINGO DA QUARESMA 20 de Março de 1994 Jeremias 31.31-34
Leitura do Dia Entre os pontos que podem ser destacados como relacionando se nas diversas leituras do dia, destacamos a questão sobre o conhecer do caminho do Senhor. No Salmo 51.10-15, o salmista proclama o caminho de Deus (v.13) como o perdão dos pecados, que traz um coração puro, alegria e louvor. No Evangelho - João 12.20-33 quando gregos pedem para conhecer Jesus, este fala sobre o caminho da cruz - o seu sofrimento, que trará como fruto a salvação de muitos. O tema do sofrimento de Cristo e o

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resultado de salvação aparece também na Epístola - Hebreus 5.7-9. No Antigo Testamento -Jeremias 31.31 -34 - o conhecer a Deus passa pela nova aliança, que consiste no perdão dos pecados. Um tema para o dia poderia ser: "Conhecemos o caminho de Deus ao conhecermos e desfrutarmos o seu perdão". Contexto Jeremias viveu numa época muito conturbada para Judá (o Reino do Sul). O profeta encontrou muita oposição e fez inimigos poderosos por causa de sua proclamação. Em tempos de aparente paz falava do cativeiro; depois, ao ser levado parte do povo para a Babilônia, anunciava a restauração. Sua obra, afinal, como de todo pregador do Reino, era de derrubar e edificar, pela Palavra (1.9,10). No trecho de 30.1 a 33.26 encontra-se o cerne da promessa de restauração de Judá. O mesmo Deus que espalhou seu povo, há de trazê-lo de volta, agora para uma nova aliança, com uma profunda mudança interior do povo, visto que Deus permanecia o mesmo, digno de ser ouvido e confiado em todas as suas promessas. Texto V. 31 - Há um tom escatológico na proclamação: "Eis dias estão chegando". Jerusalém durará pouco tempo; o juízo de Deus se abate sobre Judá. Mas há esperança no futuro e esta se deposita unicamente no que Deus mesmo está para fazer. Uma "nova aliança" entrará em vigor. Alianças eram comuns no Antigo Oriente. Vale lembrar que a aliança de Deus com seu povo tem uma profunda diferença dos "tratados de suserania" entre nações. Nestes cada povo participava da aliança com uma ação concreta, de sua decisão e implementação. Na aliança de Deus é Ele que faz a aliança. Seu povo a recebe! A conseqüência da aliança (não é base, mas resultado) é a confissão, adoração e serviço do povo da aliança. [Sobre a "nova aliança" e seu relacionamento com a "antiga aliança", remetemos o leitor para o excelente estudo de Walter C. Kaiser Jr., em seu livro Teologia do Antigo Testamento, (edições Vida Nova), p. 239-243]. Uma boa maneira de enriquecer o estudo para o sermão é listar as verdades apresentadas pelos textos no Antigo Testamento que falam da aliança (por exemplo: Is 24.5; 42.6; 49.8; 54.10; 55.3; 59.21; 61.8; Jr 32.40; 50.5; Ez 16.60; 34.25; 37.26; Os 2.18-20) e também, no Novo Testamento, passagens onde nosso texto é citado ou o assunto aparece (por exemplo: na Ceia do Senhor - Mt. 26.28 e paralelos; 2 Co 3.6; Rm 11.27; Hb 8.8-12 e contexto; 9.15; 10.16,17 e contexto; 12.24). V. 32 - É preciso que Deus faça uma nova aliança com os homens. Não porque a antiga fosse ruim, nem porque fosse preciso um "progresso na revelação" (como erradamente argumenta Kaiser), mas porque os

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homens a "anularam' (heb.: parar = quebrar, frustrar, tornar sem efeito) conforme Jr 11.10; Dt 31.16,20; Lv 26.15; Ez 44.7; Gn 17.14; Is 24.5. Note-se a referência ao êxodo, ao se falar da antiga aliança; agora, novamente num momento de crise, no exílio babilônico, Deus fala da aliança. Assim, a aliança de Deus c o m os homens está sempre em um contexto de salvação - é a aliança que visa à salvação do povo de Deus. A ligação c o m a obra de Cristo e, particularmente, c o m a Ceia do Senhor - é evidente! V. 33 - O conteúdo da aliança é manifesto: Deus vai dar, colocar (natan) no íntimo ( qereb), vai escrever (katab) no coração... Torati (minha "Torah" = palavra, Lei; e não "minhas leis", c o m o na tradução Almeida). A Torah de Deus, tão fácil (e muitas vezes erradamente) traduzida por "lei", pode ser melhor compreendida c o m o "Palavra", ou até mesmo "doutrina", "instrução". N ã o "leis", mas a palavra de Deus vai ser por Ele escrita, dada, colocada no interior do homem. Que descrição maravilhosa para a obra do Espírito Santo, ao operar nos corações a fé nas promessas de Deus! Não há "decisão pessoal", nem um "entregar ou abrir o coração para Deus"; é Ele mesmo que faz a obra (fé é d o m de Deus - Ef 2.8; 1 Co 12.3), pela Palavra da promessa. E a promessa é esta, a mesma tantas vezes anunciada no AT: "Serei para eles Deus e eles serão para mim povo". (Recomenda-se a releitura da explicação de Lutero para o 1º mandamento, no Catecismo Maior, sobre o "Que significa ter um Deus"). V. 34 - Pela aliança vem conhecimento de Deus. Um conhecimento muito especial, visto que yada' refere-se a um conhecer c o m afeto. Importante é notar o "pois" antes da ultima cláusula. Este conhecer a Deus c o m confiança e amor vem por causa do perdão dos pecados. Deus promete não mais "lembrar" dos pecados. O verbo zakar é mais do que uma lembrança intelectual; é uma lembrança c o m sentimento, é um lembrar que afeta a a ç ã o de quem se lembra. Deus não se lembrará dos pecados, isto é, os pecados não provocarão em Deus aquela que seria a ação própria: condenação. A linguagem concreta sobre o perdão é característica do AT (por exemplo: Is 38.17; 43.25; Mq 7.18,19; Sl 103.12). Isto pode ser usado no sermão para enfatizar a certeza e o consolo do perdão de Deus. Proposta Homilética Tema: Conheces o Senhor? I. Ele é o Deus que renova a Aliança II. Ele é o Deus que imprime a Aliança nos corações III. Ele é o Deus que é conhecido pelo perdão que dá em Cristo

Gérson Luis Linden São Bernardo do Campo, SP
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DOMINGO DA PAIXÃO - DOMINGO DE RAMOS 27 de Março de 1994 Zacarias 9.9-12
Leitura do dia Nas leituras bíblicas para este dia vemos o Deus de misericórdia em ação. Ele vem na forma de Rei, humilde, disposto a dar tudo, inclusive a sua vida, para trazer salvação para todos os cativos. No Salmo 92 o salmista se alegra com este "grande feito" de Deus. A epístola, Fl. 2.5-11, destaca a humildade deste Rei em seguir este plano divino. Já o Ev. registrado em Mc. 15.1 -39 mostra Cristo, o Filho de Deus, firme, decisivo, em seus passos rumo ao sacrifício na cruz, em favor dos pecadores. Contexto Não se tem muitas informações a respeito do profeta. Seu nome quer dizer "Jeová lembra". Tem-se como período provável para o desenvolvimento de seu ministério os anos 520 - 480 a.C. Portanto, pertencendo ao período pós-exílico, dedicou-se à tarefa de levar o povo a reconstruir o templo. Segundo Laetsch, Zacarias é o "profeta da esperança e encorajamento em tempos tristes". No início do cap. 9 o profeta anuncia o juízo divino sobre os inimigos e a defesa de Jerusalém. Tiro e Sidom, antigas e principais cidades fenícias, eram alvos de Deus. Israel tinha boas relações comerciais com elas, mas este contato também resultou na lamentável introdução da idolatria fenícia no país. Daí a razão do castigo. A destruição destas cidades aconteceria em 333 a.C, quando Alexandre, o Grande, invadiu a região. Nos vv. 5 e 6 o profeta descreve os filisteus como alvo dos juízos de Deus. Um inimigo tradicional, secular. Estes, pelo fato de consumirem carne e sangue nos sacrifícios, tornaram-se abomináveis aos olhos de Deus. O v. 8 traz uma grande mensagem de consolo. Deus diz: "acampar-me-ei ao redor da minha casa para defendê-la". Ver SI 125.2. Segundo a história, Alexandre, o Grande, em sua incursão pela Palestina, poupou a cidade de Jerusalém. Texto O v. 9 dá a razão para os filhos de Deus se alegrarem e exultarem pela vinda tão esperada do Rei, do Messias. Este, por livre vontade se submeteria à lei para salvar os homens perdidos e condenados por desobediência à mesma lei. Os evangelhos nos mostraram o cumprimento desta promessa. "Justo" nos lembra Ml 4.2, onde Deus promete ao seu povo sofredor: "...nascerá o sol da justiça trazendo salvação nas suas asas". Com a vinda deste Rei, este sol dispersará as densas e escuras nuvens que têm produ-

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zido chuvas de maldades sobre os filhos de Deus. "Salvador": Este Rei que vem, anunciará e assegurará libertação de todos os inimigos de Israel. A idéia poderia ser esta: um rei salvo significa a nação salva. Se Ele é livrado dos seus inimigos, assim também a nação. Se Ele é vencido, assim também o povo. "Humilde, montado em jumento". O Rei não exibe pompa ou poder. Humilde pode ser traduzido por pobre, aflito, ou manso. Desde os tempos de Salomão não há exemplos de reis montando jumentos. A epístola para o dia, Fl. 2.5-11, dimensiona a humildade de Jesus. O v. 10 fala da tão anelada paz por Sião. Isaias 9.5,6 fala do Príncipe da paz, que não só falará de paz, mas trará com Ele a paz. Esta terá alcance universal. Trata-se da paz entre criatura e Criador. É pura graça de Deus alguém viver neste estado de paz. Com ela somos capazes de suportar as dores, os sofrimentos inerentes à vida cristã. Exemplo: Jesus deu a paz a seus discípulos e, então, os enviou a enfrentar o mundo. O v. 11 fala do "sangue de aliança". Sangue e libertação andam juntos. Deus libertaria por que jurara ser o Deus Libertador e Preservador de seu povo, selando este juramento com sangue de animal. Deus não esqueceria da aliança com os "restantes" do seu povo, aliança firmada com sangue. Estes passariam da aliança do sangue das ofertas, através do sinal de um sangue indizivelmente mais nobre, o do próprio Filho de Deus, para a nova aliança. Ainda no v. 11 destaque para as palavras "tirei os teus cativos da cova em que não havia água". É uma referência ao povo exilado na Babilônia. O v. 12 fala em "voltai à fortaleza". Seria uma referência à terra natal de Israel. Significa segurança."... ó presos de esperança." Ainda que os israelitas estivessem presos na Babilônia, eles confiavam nas promessas da intervenção de Deus para livrá-los. Nós os filhos de Deus esperamos em Cristo, que virá em glória e majestade, para nos livrar definitivamente do efeitos do pecado. Em contraste com os que não têm esperança. Jeremias 18.12. "...vos restituirei em dobro." Inclui a consoladora promessa de vida eterna, além de satisfazer as necessidades desta vida presente. Isaías 61.7. Disposição T E M A : Quando nos identificamos com a Filha de Sião, podemos: I- Estar alegres, (v. 9) a) Porque Ele, o Rei, veio. (Epístola) b) Porque Ele, o Rei, nos tirou da cova, v. 11 (cativeiro) II- Desfrutar da verdadeira paz. (v. 10) a) Porque Ele, o Rei, dá segurança. (Voltai à fortaleza.v. 12). Ver v.8. b) Porque Ele, o Rei, nos dá viva esperança, (v.12)

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c) Porque Ele, o Rei, nos dá "tudo em dobro". (v.12)

Eugênio Wentzel Santa Rosa Del Monday, Paraguay

A RESSURREIÇÃO DO SENHOR - DOMINGO DE PÁSCOA 3 de Abril de 1994 Isaías 25.6-9
Leitura do Dia O intróito: Mt 28.6a + 7b; Sl 118.1-2,13,21-22,24,26. Um salmo do Grande Hallel, cantado nas grandes festas, interpretado geralmente por três grupos distintos: Israel (p.ex. vv. 2,13,21), os sacerdotes (p.ex. w. 3,24,26) e os prosélitos (p.ex. w. 4,22-23), enaltecendo a misericórdia de Deus, que é eterna e que se manifesta nos seus atos de livramento e redenção (cf. Kaltenbach: "Le livre qui chante la gloire de Dieu", Strasbourg). O v. 24 aponta para o dia da festa e a alegria que dela resulta. A alegria é uma das formas de reconhecimento a Deus (v. 24b). Toda festa cristã é, num certo sentido, um dia que o Senhor fez para nós, pois ela comemora a graça nos seus feitos no passado e nos dá a ocasião de receber novas graças. A Epístola é 1 Co 15.19-28: Cristo, as primícias dos que dormem. A morte veio por Adão. A ressurreição veio por Cristo a todos os que "são de Cristo". E o Evangelho, Jo 20.1-9, narra a ressurreição de Cristo. Maria Madalena, Pedro e João "viram, e creram". A páscoa é o ponto culminante do ano eclesiástico, o ponto para o qual converge o Semester Domini, e do qual se expande de fato a segunda metade do ano eclesiástico, em que a Igreja vive "no ressuscitado" e na perspectiva do cumprimento da esperança pascal. Páscoa é a Festa das festas, o Dia por excelência (Intróito), festejado pela Igreja a cada primeiro dia da semana, com a celebração da Eucaristia (se possível). O tema para esse domingo é indiscutivelmente a alegria pela vitória do Senhor sobre a morte, o diabo e o inferno, do que nos lembram o Intróito (v. 13) e a Epístola (v. 22,26,27a). Diante do banquete da Salvação oferecido por Deus a todos os homens, os remidos poderão exclamar: "na sua salvação exultaremos e nos alegraremos!"

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Contexto Nossa perícope se situa na quarta parte do livro de Isaías (cap. 24-27), o "primeiro volume de julgamento e promessa", uma seção escatológica que trata do julgamento e da salvação no Dia do Senhor, tempo da vitória final sobre as forças do mal e a consumação da história. Nosso texto está no "segundo sermão" (25.1-12) deste volume. Deus tinha anunciado pelo profeta (Cap. 13-23) o julgamento divino sobre as nações, e os fardos que sobrevirão a elas. Agora aparece o anúncio da alegria dos justos, que louvarão a misericórdia do Senhor para com os que o temem, "dos confins da terra". Uma salvação universal se anuncia, que vai além da nação de Israel. O "segundo sermão" e o cântico de vitória sobre a "cidade caótica" (24.10), designando esta Babel, mas também Jerusalém (22.2ss) que com sua apostasia simboliza toda cidadela humana do orgulho, da soberba e da rebelião contra o Deus verdadeiro; vitória sobre todas as forças que se opõe a vinda do Reino eterno de Deus. Deus, o Rei verdadeiro (24.23) oferece um banquete de vitória aos remidos. A salvação cumprida na ressurreição de Cristo (cf. v.8a) é aqui descrita numa bela forma poética oriental: o fasto da mesa como sinal de abundância e bem-estar (a "Festa de Deus" em contraposição a "festa dos homens": 22.13). Notas textuais V. 6 - O anúncio DA FESTA. Trata-se aqui não de um dos eventos divinos na história da Salvação, mas Do evento, sem o qual nada teria sentido (1 Co 15.17-19), nem mesmo a encarnação e crucificação do Verbo: a Ressurreição (cf. Epístola, v. 20). Só há perspectiva escatológica de salvação (= "esperança") graças à ressurreição de Cristo. Deus é o autor da Festa, porque ele é o autor da vitória (At 2.23,24). "Neste monte": expressão típica do profeta que designa o lugar da manifestação salvífica do Senhor. Jerusalém, construída sobre o monte "Sião", com o tabernáculo e mais tarde o templo, formando o cimo da cidade, simboliza a salvação no Messias (1 Pe 2.6) que viria retirar a maldição da lei (Hb 12.18-24: "Sião" em contraposição a Sinai). Designa igualmente a ecclesia da Nova Aliança, na qual há salvação (Cipriano diz: "ninguém tem a Deus como Pai, se não tiver também a Igreja como mãe", Concórdia Journal, 1/91). E, finalmente, "Sião" como símbolo da Igreja Triunfante (Ap 14,1). "O Senhor...dará...um banquete". Deus mesmo é quem dá toda a abundância da graça e da vida, descritas aqui pelas coisas mais ricas, mais nutritivas e deliciosas conhecidas no tempo do profeta (ver 55.2). Nos sacrifícios, o povo oferecia as mais nobres vítimas a Deus: Ex 29.13-22; Lv

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3.3-5. Agora Deus é quem oferece o melhor que tem aos remidos no monte Sião. A imagem do banquete está associada à coroação (1 Rs 1.25) e às bodas (Jz 14.10; Ap 19.7,9,17: as "bodas do cordeiro". Outras passagens paralelas: Lc 14.16; Mt22.1ss; 25.1ss) Vv 7-8 - À "coberta" e ao "véu" podem estar associadas duas idéias a serem exploradas: o luto e o pranto pela morte, e a ignorância (cegueira) espiritual (2 Co 3.16, o véu "interno". Reflita também sobre 1 Co 13.12 e Jo 19.26, o "véu externo" cf. 2 Co 5.1,2) A morte, o grande destruidor (Sl 49.14) será "tragada", i.e., destruída. Cristo cumpriu esta profecia neste dia (1 Co 15.26,54; 2Tm 1.10; Ap 20.14). Onde a morte, o "salário do pecado", não existe mais, não há mais razão para as lágrimas. 1 Ts 4.13 e a antecipação do cumprimento final e completo desta profecia, que João viu em Patmos: Ap 7.17. v. 9 - "Depois que a morte tiver sido tragada para sempre, o povo de Deus, livre do domínio da morte, dirá: eis aqui o nosso Deus , que os incrédulos consideravam como sendo um mero homem." (Jerônimo). Cf. Mt 20.27-28. Até lá, o povo "espera". A "esperança" é a característica inconfundível do crente em todas as épocas (Gn 49.18; Tt 2.13). Ele integra a "Comunidade que espera". Esta ainda não está na Glória (contra os entusiastas), mas, tendo a cruz como marca (1 Co 2.2,3), "anuncia a morte do Senhor, até que ele venha" (1 Co 11.26). Neste sentido o texto fornece excelente ocasião para a celebração da Eucaristia na Páscoa, a "Ceia do Senhor", um "antegosto" da Grande Ceia que está por vir "naquele Dia". Ilustração para o sermão: "Vivendo e morrendo na esperança". Conta um pastor de Atlanta, EUA, sobre um jovem de sua congregação: era muito ativo e consagrado à obra do Senhor, encontrando-se de repente doente e com os seus dias contados. Consciente do seu estado, gostava de conversar sobre a Vida Eterna com o seu pastor. Falando eles um dia sobre este tema, as lágrimas corriam sobre o rosto pálido do rapaz. O pastor, tirando o seu próprio lenço, enxugou os olhos do jovem. O enfermo disse então: "Pastor, na próxima vez, quando as lágrimas dos meus olhos forem enxugadas, elas o serão da mão de Deus, meu Pai celestial". (Antônio Almudevar: Ilustraciones Biblicas, Buenos Aires). Sugestão temas/partes Propomos duas disposições ("Manche Gaben und ein Geist, III", citadas por Lange): A ALEGRIA PASCAL NA IMAGEM DO BANQUETE consideremos:

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I - O Dono da Festa II - Os convidados III - O s dons AS BÊNÇÃOS PASCAIS DO RESSUSCITADO I - Em que consistem? II - Quem as recebe? III - Quais são os seus efeitos?

Manfred Zeuch Woerth, França

SEGUNDO DOMINGO DE PÁSCOA 10 de Abril de 1994 Atos 3.13-15.17-26
I - Contextualização no Ano Eclesiástico A Ressurreição de Cristo ainda é algo que os espanta. O Morto está vivo. Mas, se a morte de Cristo os espanta para a tristeza, a Ressurreição o faz para alegria. Surpresa e espanto ainda estão em seus corações, mas agora reconhecem em Jesus o verdadeiro Deus, o que dá a vida, no qual há salvação. Isto agora eles devem anunciar a todos. Pois o acontecimento da Páscoa traz vitória sobre o pecado e morte. II - O texto em relação às outras leituras do Domingo. O Salmo 148 é um convite ao louvor, estendido ao mundo, à natureza e especialmente ao Seu povo, porque, Seu poder revelado na criação é confirmado na Ressurreição de Jesus. A natureza revela e louva ao seu Criador. Tudo que há exalta o poder do Seu Criador. Nós criados à sua imagem, conhecedores dos seus feitos e receptores das suas bênçãos, muitas vezes esquecemos o louvor. O Salmo nos quer lembrar a fazê-lo por todo poder e amor a nós revelados. Especialmente pela vida eterna que nos é dada. A Leitura de Atos 3.13-15, 17-26, aponta para o Deus ao qual Pedro serve. O Deus de Abraão, Isaque e Jacó. Este Deus que os judeus conheciam exaltou "a seu servo Jesus", ressuscitando-o. E agora o Jesus ressurreto não quer vingança, nem quer ajuste de contas, mas sim convida ao arrependimento, e oferece as suas bênçãos àquele que é o Seu povo.

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A Epístola 1 Jo 5.1-6 mostra a vitória sobre as coisas do mundo e até mesmo sobre a morte - a nossa fé. Crendo em Jesus, somos filhos de Deus, e estamos livres do diabo, do pecado e da morte. O Evangelho Jo 20.19-31 relata duas aparições de Jesus ressuscitado na qual ele diz aos seus discípulos da sua tarefa de serem anunciadores do perdão dos pecados. Mostra também as dificuldades do coração humano em acreditar nas maravilhas operadas por Deus, nomeadamente a ressurreição de Jesus. Mas aponta também para a maravilha que faz a verdadeira fé, operada por Seu poder, pois que é capaz de tornar um incrédulo em crente e um que duvida em um confessor da verdadeira fé como fez Tome ao dizer, "Senhor meu e Deus meu". Mas se a dúvida de Tome foi algo mesquinho, sua confissão foi algo grandioso, que Deus nele operou. E este é o objetivo do Evangelho: "Para que creiais que Jesus é o Cristo... e tenhais vida em seu nome." III - O Texto em relação ao Contexto Atos é a história do início do cristianismo. Mas, não só. É também e especialmente o registro da contínua ação de Deus entre o seu povo. O Deus que continua a agir entre os seus. A descida do Espírito Santo, o dom de línguas, a pregação de Pedro, os três mil batizados, a mudança na vida destes, a cura de um coxo e novamente um sermão de Pedro. Segue a prisão de Pedro, seu testemunho perante as autoridades. Tudo parece cumprir um propósito, e este foi determinado e é conduzido pelo próprio Senhor da Igreja. O Jesus ressuscitado é também o Senhor vivo que age em meio ao seu povo para salvá-los de seus pecados. IV - Comentários sobre o texto. Vv.13-15: Com palavras fortes mas com amor no coração; Pedro dirigi-se aos judeus e põe a grandeza de seu pecado diante de seus olhos. Ele põe o dedo na ferida de seus ouvintes. Seu sermão tinha endereço certo. O coração endurecido pelo erro, egoísmo, orgulho, pelo pecado. Por isso suas palavras também precisam ser claras, fortes, marcantes. "Vós traístes, negastes, matastes... o prometido Deus... o Justo. Isto vós fizestes, mesmo quando Pilatos, um gentio, o queria soltar, por não ver nele mal algum. Pilatos mostrou-se mais justo que vós. Matastes o Autor da vida... que ressuscitou, e é em nome Dele que foi feito o sinal que vistes. E Ele é Deus mesmo, ele o mostrou com sinais e prodígios. Mas vejam bem, diz Pedro, este Jesus, não está mais morto, mas vive. Deus o ressuscitou e nós o vimos. E este Deus vós conheceis, pois é o Deus de Abraão, Isaque e Jacó. E este Jesus é o seu enviado, o Prometido. Vós o negastes. Preferistes um assassino, do que a Ele. Mas quem não crer nele, e permanecer nos seus pecados, este tem de saber que estará crucificando Cristo outra vez, pois
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está a desprezar o verdadeiro Deus. Se alguém quer vir a Cristo e ser salvo, precisa antes reconhecer seus pecados e se assustar diante deles. Pedro confronta os seus ouvintes com esta verdade. Vv.17-19: Mas Pedro os consola também. Vós matastes a Jesus e pensastes em fazer o mal, mas Deus o tornou em bem. E o fizestes na ignorância; não sabieis ser Ele o Salvador. Por vossa má ação. Deus cumpriu as proezas a respeito do Messias. Agora, convertei-vos e voltai a Ele em fé. Esta é a coisa principal a ser colocada diante dos olhos de pecadores assustados por seus pecados: Jesus como o Salvador, por sua obra e mérito, para que se convertam a Ele e venham a Ele, e busquem Nele o perdão do seus pecados. Vv.20-21: Eles devem arrepender-se, voltar se a Jesus, para receber o perdão de seus pecados. Este é o resultado do arrependimento. Quem tem a Cristo como Salvador, este tem perdão por seu amor. E este pode sentir o "refrigério" da presença do Senhor em sua vida. E Esta presença deve manter-se entre os seus até o tempo em que tudo será restaurado, pois também a sua volta, foi anunciada nas profecias. Vv.22-26: No final, Pedro mostra aos judeus que exatamente a eles Deus queria salvar. Ele o prometeu a eles pelos profetas, por Moisés e Abraão. Mandou Jesus primeiramente a eles, para os abençoar e salvar. Por isso devem deixar sua maldade e voltar-se a Ele. A Cruz de Cristo faz expiação pelo pecado e abençoa, pois ela está colocada entre a ira de Deus e o pecado de Israel. E por ela chama ao arrependimento e à nova vida em Cristo. Primeiro Jesus veio aos judeus, mas não "só" para os judeus, isso Deus já tinha dito a Abraão, Gn 12.3. Pedro dá a entender que chegou a hora dos descendentes de Abraão serem uma bênção para todos os povos, e isto a partir de Jerusalém. Jesus é o Salvador de todos os povos, também do nosso. Nós podemos ir a Ele consolados e confiantes, pois também o nosso pecado Ele carregou, também a nós ele foi mandado. Para ele nós também queremos nos voltar, nos converter, para que nossos pecados também sejam perdoados. V - Sugestões para o sermão. O Centro da pregação de Pedro é o Cristo ressuscitado. O objetivo: Jesus seja reconhecido como o Messias prometido. A cura de um coxo chama a atenção deles para o poder de Jesus, mas Ele age por meio da Sua Palavra, e é por esta que Pedro quer levá-los ao reconhecimento de sua maldade e da maravilhosa ação de Deus. Eles precisam crer neste
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Jesus. Há, no entanto, algo que os separa de Deus e do Seu Enviado. O pecado, a maldade de seus atos. Estes precisam ser eliminados. Pelo perdão que Cristo mesmo oferece. Pelo arrependimento que vem de um coração contrito e culpado. E este Jesus traz alegria, bênçãos e refrigério, pois dá nova vida e eterna salvação. Para alcançar este objetivo, Pedro vai direto ao ponto. Acusa o pecado, mostra o Cristo ressuscitado, conclama ao arrependimento e à nova vida, e mostra as bênçãos que há em Cristo. Tema: O Cristo ressuscitado traz vida aos condenados

Adalberto Hiller Vila Nova de Gaia, Portugal

TERCEIRO DOMINGO DE PÁSCOA 17 de Abril de 1994 Atos 4.8-12
0 Salmo No Sl 139, o salmista Davi exalta a onisciência, onipresença e onipotência de Deus. É um salmo muito consolador nos tempos de insegurança em que vivemos, ou em tempos de perseguição, como aconteceu a Pedro e João. A mão onipotente de Deus nos ampara e protege onde quer que estejamos. As outras leituras A epístola 1 Jo 1.1-2.2. O apóstolo João lembra na sua 1ª carta que Jesus é o Verbo da vida, o Filho de Deus. Seu sangue nos purifica de todos os pecados. Ele é o nosso Advogado junto ao Pai. Ele, na verdade, é o único Salvador de todos os homens. Isto é absolutamente verdade. O evangelho Lucas 24.36-49. Jesus apresenta-se redivivo no meio de seus discípulos na noite de Páscoa. Eles custam a acreditar que era ele de fato. Confundem-no com um espírito. Mas ele abre-lhes o entendimento das Escrituras: Era preciso que o Cristo padecesse, morresse e ressuscitasse ao 3ª dia e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão dos pecados a todas as nações. Vós sois testemunhas destas cousas.
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O Contexto Pedro e João subiram ao templo para orar. Junto à porta, chamada Formosa, estava sentado um coxo de nascença, que esmolava e que lhes pediu um trocado. Eles próprios eram pobres materialmente. Mas espiritualmente eram ricos: Eles tinham a Jesus. Em nome de Jesus (com a autoridade que Cristo lhes havia conferido, Lc 10.3,9) Pedro cura o paralítico, causando grande alvoroço entre o povo. Pedro aproveita a ocasião para lembrar o crime que o povo havia cometido: Mataram o Autor da vida, o Santo e o Justo, embora por ignorância. A este, Deus ressuscitou dentre os mortos. Chama o povo ao arrependimento e à fé em Cristo para que seus pecados sejam cancelados. Muitos creram, subindo o número para 5.000 seguidores de Jesus. Quando os apóstolos falavam ao povo, apareceram as autoridades do templo, ressentidos porque falavam no nome de Jesus, anunciando nele a ressurreição dos mortos, Mandaram prendê-los e lançá-los no cárcere. No dia seguinte, as autoridades ordenaram que os apóstolos fossem trazidos para serem interrogados diante do sinédrio. O texto Cheio do Espírito Santo, (Mt 10.18-20) Pedro anuncia-lhes a ressurreição de Jesus Cristo, a quem eles haviam matado, e testemunha: Jesus é a pedra (Mt 21.42, Sl 118.22, Mt 16.16,18) rejeitada por vós, os construtores, as autoridades eclesiásticas de Israel. Ele é o Messias e Salvador profetizado, o único Salvador de todos os homens (Jo 14.6, 1 J o 2.1,2). Isto nos lembra o lema da IELB até o ano 2.000: CRISTO PARA TODOS - e, na verdade, "até à consumação dos séculos". "Pois não podemos deixar de falar das cousas que vimos e ouvimos." (At 4.20). I Proposta homilética Tema: Jesus Cristo, redivivo, é a pedra angular Introdução: Cristo de fato ressuscitou. Não é fantasia. Lc 24.37, At 3.15,26, At 4.10. 1. Para os descrentes é pedra de tropeço - Os saduceus, fariseus e ateus de todos os tempos: Anás, Caifás, Pôncio Pilatos, Herodes (At 2.1,2,26,27), seitas atuais, Nova Era, etc, negam a divindade de Cristo, bem como seu sacrifício único e completo pela redenção da humanidade. - Tropeçam na pedra angular e caem. Perdem-se eternamente. Lc 2.34, Jo 3.36 b.
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2. Para os que crêem é a pedra angular - O fundamento da igreja (Sl 118,22, 1 Pe 2.6ss, Is 28.16, 1 Co 3.11, Rm 9.33, Ef 2.20) - O único Salvador. At 4.12, Jo 14.6, Jo 3.36 a. Rm 10.9. Hino 276. - As portas do inferno não prevalecerão contra ela. Mt 16.18. 3. Crê no Senhor Jesus, e serás salvo Cristo para todos. At 3.16, Jo 3.16, At 16.31. Hino 364 II Tema: Não há salvação em nenhum outro 1. Crucificado pelos nossos pecados. 2. Ressuscitado para nossa justificação. 3. Único nome dado entre os homens. 4. Salvo todo aquele que crê.

Martim E. Doege Porto Alegre, RS

QUARTO DOMINGO DE PÁSCOA 24 de Abril de 1994 Atos 4.23-31 (32-33)
Leituras do dia A ênfase das leituras do dia (Sl 23, IJo 3.1-2 e João 10.11-18) é clara e transparente: O grande amor com que Deus tem amado os seus filhos. Este mesmo amor continua hoje pela humanidade, e a preocupação pelas ovelhas se evidencia no amor salvífico de Deus através do pastor Jesus. O texto de Atos 4 apenas se encaixa nesta ênfase a partir da presença de Deus na vida dos apóstolos e de primeira Igreja cristã ("o lugar tremeu"... e "ficaram cheios do Espírito Santo."). Porém o enfoque maior deste texto de Atos 4.23-31 é a oração de Igreja dirigida ao Deus Eterno e Pai Amoroso.

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Contexto Pedro e João, pelo poder de Jesus, haviam curado um paralítico que estava à porta do templo (Atos 3.lss) e o povo foi atraído por este fato. Pedro não perde a oportunidade de anunciar a Jesus Cristo ressurreto, dizendo inclusive que o paralítico foi curado em Seu nome. O Sinédrio os interroga no dia seguinte, porém, mesmo assim os dois testemunham corajosamente sobre o Senhor. Como o povo presenciou o milagre, os dois são soltos, mas a ameaça de não mais falar ou ensinar em nome de Jesus Cristo é real. A jovem Igreja reconhece a demonstração de ódio que lhe é dirigida, e agradece a Deus pela proteção recebida. Texto v.23 - A expressão "procurarem os irmãos" (literal: foram para os seus) demonstra que o relacionamento entre os discípulos era positivo, e que a Igreja era como família. Havia intimidade, comunhão e participação na vida, nas alegrias e sofrimentos de cada indivíduo. v.24 - A Igreja não gasta energias para discutir a nova situação que se criara, mas se une em oração perante o Soberano do Universo. Eles sabem quem é o Senhor, e por isto oram a Deus como o Criador Todo-poderoso. É esta certeza que os fortalece e lhes traz paz em meio à tribulação. v.25 - A oração, como muitas outras dos tempos bíblicos, é baseada em um salmo (2) e a Igreja interpreta a sua situação sob o ponto de vista deste salmo. Fica claro que os discípulos sabiam contextualizar as Escrituras, o que hoje sempre de novo precisa ser feito. v. 26-28 - Os reis e autoridades aqui no caso são Herodes e Pôncio Pilatos. Há uma aliança de Israel com os gentios contra Jesus Cristo e sua Igreja. Ainda hoje os cristãos estão juntos com o Cristo lutando contra as forças do mundo. A situação não mudou muito, pois o Messias continua sendo rejeitado à medida em que a Igreja é rejeitada ou não é levada a sério. O Senhor da Igreja porém é vitorioso e somente pode acontecer aquilo que a mão de Deus e seu propósito determinar. O governo é de Deus. E é ele que dá força e coragem ao Seu povo para enfrentar esta situação adversa. v.29 - Apenas "Olha para as suas ameaças"... basta isto. Isto é "entregar os cuidados ao Senhor". A Igreja está em boas mãos, mesmo que assim não o pareça. Nada pode acontecer sem a autorização de Deus. O que a Igreja de fato quer é permanecer em seu posto e trabalhar, por isto

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pede-se por coragem, intrepidez para que a mensagem da salvação continue sendo anunciada. A Igreja está à disposição do Senhor c o m o servos gratos que recebem do Senhor a capacitação para o trabalho. v.30 - Eles reconhecem que todo o poder de curar, de fazer sinais, de prodígios vem de Deus, através de J e s u s . Dão mostras de que querem que estas coisas continuem a acontecer juntamente c o m a pregação. v.31 - A oração está no fim, mas o poder de Deus não. É neste momento que o poder de Deus se manifesta: o local onde estão treme, além disto "todos ficaram cheios de Espírito Santo," e c o m cada vez maior coragem anunciam e testemunham. Proposta homilética Tema: A Igreja está em oração. I. Porque quer glorificar e agradecer a Deus; II. Porque sabe que tem a c e s s o ao Pai Amoroso c o m todas as suas situações (alegrias e dificuldades); III. Porque tem consciência de que a sua tarefa não é viver vida tranqüila sem dificuldades, mas é anunciar a mensagem da salvação a todos os povos c o m ousadia e intrepidez. Donaldo Sonntag Castro, PR

QUINTO DOMINGO DE PÁSCOA 1º de Maio de 1994 Atos 8.26-40
Leituras do Dia O Salmo 22 é um salmo Messiânico e c o m o tal, apresenta uma profecia d o s sofrimentos e da vitória do Messias. O próprio J e s u s legitima este salmo quando o menciona em sua agonia na cruz (cf. Mt 27.46). A porção do salmo designada para o domingo tem uma forte ênfase na salvação d o s gentios e deixa claro que o sacrifício vicário de Cristo se estende a todos os povos (Cf. vv. 27-29). O aspecto missionário fica
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resumido nos versículos finais do salmo (vv. 30-31), quando lembra que a justiça do Senhor será anunciada e se dará testemunho de seus feitos às gerações futuras. O encontro de Filipe com o oficial etíope (At 8.26-40) confirma as palavras do salmo 22. Baseado na Escritura Filipe lhe anuncia o Evangelho e o eunuco é batizado na fé cristã. A epístola (1 Jo 3.18-24) lembra aos cristãos que o amor se mostra em ação; amor a Deus e ao próximo são marcas do Espírito Santo em nós. No evangelho (Jo 15.1-8) Jesus encoraja os cristãos a permanecerem" nele e a conseqüência desta permanência será a produção de muitos frutos (v. 5). Contexto A perseguição da igreja não pode deter o progresso da Palavra em Jerusalém (cf. At 6.7). A Palavra se espalhou de uma forma rápida e triunfou através da perseguição. A perseguição não deteve a marcha da Palavra de Jerusalém para Samaria e de Samaria até os confins da terra (cf. At 1.8). Três homens foram proeminentes neste movimento: Estevão (At 6.8-8.1), Filipe (At 8.4-40) e Paulo (At 9.1-30). A perseguição que espalhou a igreja, também espalhou largamente o Evangelho. Filipe escapou de Jerusalém para Samaria e ali anunciou o Evangelho por meio de muitos sinais (At 8.6). Foi Filipe quem batizou o oficial eunuco, excluído do povo de Deus, por ser gentio e eunuco (cf. Dt 23.1). Desta forma, a promessa de Isaías 56.3-5 e a oração do Salmo 68.31 foram cumpridas neste estrangeiro e a universalidade da graça de Deus foi demonstrada de uma forma memorável. O Texto V. 26 - é digno de nota o fato do Senhor empregar o serviço de anjos para trazer ao seu reino os primeiros gentios, aqui o eunuco etíope e em Atos 10.3 a Cornélio, o centurião da corte. V. 27 - etíope, este nome aponta para a raça e a nacionalidade e não somente para o local de residência. Este eunuco etíope é o primeiro gentio convertido à fé cristã; não era um pagão, mas sim um prosélito, o que não impedia de ser contato como gentio pelos judeus. Ele era um eunuco e isto o impossibilitava de ser aceito integralmente no judaísmo. Ele continuava sendo um prosélito e estava impedido de entrar na assembléia do Senhor (cf. Dt 23.1). Vv. 28-31 - provavelmente o eunuco vinha lendo em voz alta, como era o costume da época. A passagem de Isaías 53.7-8 é quase incompreensível para os que desconhecem a história de Cristo. A dificuldade do etíope é claramente demonstrada no verbo PARAKALEO, pois ele convoca e não somente convida Filipe a subir em seu carro, a fim de que este o guie e o instrua em sua leitura.

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V. 35 - a partir desta passagem de Isaías, Filipe instrui o etíope nas verdades bíblicas e o apresenta a Jesus. A atuação do Espírito Santo está vinculada aos Meios da Graça - Palavra e Sacramentos - é por meio destes que Ele chama, ilumina, santifica e conserva na verdadeira fé. V. 37 - este versículo não consta nos melhores manuscritos e sua evidência textual é muito pequena para admiti-lo no texto. Todavia, o mesmo reflete uma prática cristã comum e a sua inserção se deve ao fato de que Filipe não poderia ter batizado o etíope sem uma confissão de fé. A confissão de que Jesus era o Cristo sempre foi um pré-requisito para o Batismo. V. 39 - o eunuco já não mais dependia de Filipe para entender as Escrituras, agora ele já podia comparar o Antigo Testamento com o Novo. Como nova criatura em Cristo ele retorna para casa transbordante de alegria (cf. Mt 13.44; Jo 16.22,24; 1 Pe 1.8). Segundo a tradição, o eunuco se tornou um evangelista na Etiópia e posteriormente batizou a rainha. Proposta Homilética A Páscoa é a celebração das celebrações. Todas as semanas que a precederam foram semanas de preparação; e as subseqüentes são o resultado deste grande festival da Igreja. O espírito da Páscoa é de uma alegria incontida e de confiança na poderosa vitória que Deus conquistou para todos nós em seu Filho. Desta forma, uma sugestão de tema seria:

A ALEGRE MENSAGEM DA PÁSCOA É PARA TODOS
I - O Poder desta Mensagem A. A perseguição da igreja não detém o progresso da Palavra B. Palavra poderosa que transforma vidas 1. O Evangelho agindo em Samaria (cf. At 8.4-25) 2. A vida do eunuco é regenerada pelo Batismo 3. Saulo transformado em Paulo (cf. At 9.1-30) C. Transformados pela Palavra, levam a Palavra 1. Estevão, Pedro, João, Filipe e Paulo 2. O eunuco, evangelista na Etiópia 3. Nós, os cristãos (cf. 1 Jo 3.18-24) II - Páscoa é para todos A. As Promessas do Antigo Testamento (cf. SI 22.27-31)
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B. Os samaritanos recebem o Evangelho (cf. At 8.4-25) C. O eunuco etíope é batizado na fé cristã (cf. Is 56.3-5)

Arroto do Meio, RS

SEXTO DOMINGO DE PÁSCOA 8 de maio de 1994 Atos 11.19-30
Tema do Domingo Não somos nós que queremos ou não buscar ao Senhor. É ele que vem até nós com o seu amor. A nossa opção fica no querer ou não querer reconhecer e aceitar este seu amor por nós. Contexto e subsídios para a perícope: - Antioquia era a capital da província romana da Síria. Era a terceira maior cidade do império romano da época com uma população aproximada de cerca de 500.000 habitantes (Roma era a 1ª e Alexandria a 2ª cidade do império em tamanho e importância). Cidade cosmopolita e onde haviam pessoas das mais diferentes regiões do império e, também, de outros locais. A própria perícope fala de pessoas que não tinham sua origem em Antioquia. - No plano da igreja cristã primitiva, o contexto é que estava dando os primeiros passos no caminho de reconhecer a necessidade e a importância da evangelização dos gentios. Nem todos compartilhavam dessa opinião, pois vemos como ainda haviam pessoas ligadas aos antigos rituais legalistas das leis dos judeus. E, por isso mesmo, defendiam a circuncisão e outras práticas do culto judaico. -Barnabé - o único que Lucas descreve em Atos como sendo bom. - reconheceu que o plano de Deus estava sendo cumprido em Antioquia. - Uma pessoa com grandes posses e que deixou tudo após ter aceito o caminho, a fim de dedicar-se à evangelização. Era uma pessoa de alta

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reputação entre o círculo dos apóstolos, pois havia dado provas concretas de seu amor e dedicação ao Caminho. - em termos de "política eclesiástica", se podemos entender de forma saudável este termo, foi a pessoa que ajudou na aceitação de Saulo, após a sua conversão, junto aos apóstolos. Barnabé vira o que o Senhor havia operado na vida de Saulo, o mestre fariseu. Termos importantes: Prosméno - em Atos 11.23 o sentido é figurado. - "permanecer" "ficar" "esperar" - com dat. "permanecer com alguém ou alguma coisas", "permanecer fiel a ele" - Atos 11.23 - refere-se ao permanecer fiel no caminho com o Senhor, o que significa uma decisão feita pelos cristãos a partir da conversão (Lucas 8.15). Permanecer firme face a todas as experiências de sofrimento que procuram perturbar a jornada do filho de Deus também está incluído (Atos 14.22). Permanecer fiel à revelação salvadora de Deus é contrastado com a vacilação que afasta do fundamento da salvação (Mt 4.17). protesai (protései tês kardiais) - firmeza de coração - plano, propósito, resolução, vontade - na construção metafórica, a firmeza depende dos alicerces e da sua qualidade. cheir kiron - a mão do Senhor - representa a majestade Deus e o poder entre os assuntos dos homens. - significa a corporificação do poder divino. - o ato de Pilatos, de lavar as mãos em público, era um gesto público de repúdio à responsabilidade. tes tlípseos - tribulação, opressão, circunstancias difíceis, problemas, dificuldades. AFLIÇÕES: O que Lutero diz sobre as aflições:

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A nossa natureza não permite uma comparação honesta entre as coisas importantes e boas e os pequenos males que suportamos. Assim, a nossa carne esta sempre obscurecendo os grandes e perpétuos benefícios que Deus nos dá com alguns poucos e transitórios pecados que nós suportamos. Nós devemos, por isso, sempre ter presente a grande lista de benefícios divinos, tanto espirituais como naturais. Daí então veremos que, onde há um pouco de maldade, há também um autêntico mar de benefícios da parte de Deus. Pois, na realidade, todo o mal é muito pequeno; e a pequena cruz que carregamos é uma ninharia se comparada com os benefícios que vêm até nós através da criação, redenção e santificação. Além do mais, na vida futura essas bênçãos serão ainda mais esplêndidas. Um cristão não deve lamentar-se na tribulação, nem deve ficar transtornado, lamuriento, com o espírito quebrantado, blasfemo ou desesperado; mas deve esperar no Senhor com paciência. Disposição do texto da perícope em partes (um verdadeiro manual bíblico para um plano/projeto de missão) I -19-21 = aflição - dificuldades/mudanças na vida do cristão não o deixam esmorecer na fé. 1. dispersos depois da morte de Estevão 2. c h e g a m até Antioquia 3. anunciam a palavra de Deus somente aos judeus 4. cipriotas e cirineus anunciam a palavra aos gregos. II - 22-24 = fidelidade - apesar de t u d o o cristão fica firme. 1. as b o a s - n o v a s c h e g a m até J e r u s a l é m . 2. os dirigentes/apóstolos resolvem enviar Barnabé. 3. objetivo: realizar u m a p e s q u i s a missionária. III - 25-26 = ensino/instrução cristã - s e m p r e d e v e existir se q u i s e r m o s estar preparados para a nossa missão de discípulos. 1. Barnabé chega a Antioquia 2. reconhece que a palavra de Deus está operando 3. busca Paulo em Tarso 4. ensina juntamente c o m P a u l o durante um a n o

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5. os fiéis são chamados de cristãos pela primeira vez. Ou: um "feedback" da conversão-instrução-prática. IV - 27-30 = auxílio, boas obras de fé verdadeira e amor ao próximo, seja ele quem for (quem eram os judeus na época?). 1. Ágabo profetiza uma grande fome em todo o mundo. 2. esta aconteceu no período de Cláudio. 3. os cristãos de Antioquia resolvem enviar auxílio para os irmãos na Judéia, que estavam padecendo necessidades físicas. a. Um teste para verificar se as pessoas haviam compreendido a mensagem do amor de Deus; b. e, se também eram capazes de realizar boas obras. Aplicação para hoje em forma de perguntas dirigidas: - como é feita a missão/evangelização nos dias atuais? - quem é que está fazendo a missão incumbida por Cristo a todos os seus seguidores? - onde fazemos a missão/evangelismo? - quais os métodos empregados hoje em dia? - por que utilizamos tais métodos? - qual a razão de haver tanta dificuldade em colocar em prática a vida cristã? - como podemos ver que o Evangelho está sendo aceito e vivido em nossas vidas? - boas obras? - não está faltando mais envolvimento e abnegação (vocação!) ao invés de profissionalismo no ministério e no sacerdócio de todos os santos?

Clóvis Vitor Gedrat Lisboa, Portugal

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SÉTIMO DOMINGO DE PÁSCOA 15 de Maio de 1994 Atos 1.15-26
Leituras As leituras indicadas, SI 133, At 1.15-26 (texto), 1 Jo 4.13-21 e Jo 17.11b-19, têm todas algo em comum: o amor fraternal. Mas, amor que é reflexo do amor de Deus em Cristo Jesus, 1 Jo 4.19. Somente onde este amor se manifesta, planos vertical e horizontal, é que tem vida e bênção, Sl 133.3. Somente ali também podem ser enfrentados e resolvidos problemas, como os apóstolos tiveram que enfrentar e resolver, como veremos. Contexto, precedente e subseqüente, At 1.6-11 e 2.1-4: A ascensão de Jesus e a descida do Espírito Santo... Dois grandes acontecimentos profetizados, Jo 14.3 e 4; 16-20 e 25-29, nos quais Jesus prepara os seus para uma nova realidade, a da sua ausência física entre eles. Apenas física, pois de resto estaria entre eles, como sempre esteve, desde a Criação, Mt 18.20. Em contrapartida, como que para contrabalançar, sentiriam mais notada e destacadamente a presença do Consolador, do Nobre Ensinador, Jo 14.26. Assim não haverá motivos para decepções, desilusões, desunião ou mesmo apostasia. Texto Um problema a ser encaminhado e resolvido: o preenchimento da lacuna deixada aberta pelo suicídio de Judas... O apóstolo Pedro, talvez por ser o mais idoso, faz uso da palavra e toca no assunto, dissertando sobre fatos pertinentes e profecias referentes: Mt 10.1 -4; 27.6-10; Zc 11.12 e 13; e Sl 109.8, classificando as profecias como "palavras diretas do próprio Espírito Santo". Fala perante uma assembléia de 120 pessoas, apóstolos e demais crentes, homens e mulheres, encaminhando o processo de eleição. A união, isto é, o amor fraternal, é geral. Sim, todos têm em mente e por propósito apenas cumprir com as determinações e vontade do Senhor. Pedro apresenta e expõe os requisitos no que se refere aos eventuais candidatos, w.21 e 22. Unanimemente são propostos dois candidatos, um tão bom como o outro.

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E agora a Igreja põe-se de joelhos e ora... ora, pedindo a orientação divina... ora, pedindo a indicação divina. E, procedido o ato do escrutínio, fica eleito Matias, sendo-lhe votado lugar com os doze. O procedimento no escrutínio: Diz o texto: "e os lançaram em sortes"... Pode ser entendido como votação secreta, onde cada votante, masculino, se definiu por um dos dois candidatos. O modo de votação pouco importa, desde que embasado no consenso geral. O "voto de lugar com os onze": É a confirmação do escrutínio e a instalação oficial no lugar de Judas; instalação certamente com imposição das mãos e oração. Chamado e Eleições: Sempre há comunidades ou Paróquias chamando pastor... Sempre há comunidades elegendo diretorias... Sempre ocorrem eleições no País... Ora, os princípios básicos são os mesmos, principalmente no âmbito eclesiástico. O fundamental é haver: União fraternal; indicação de homens probos; oração buscando a orientação para o cumprimento da vontade divina; e voto com consciência. Aí tem satisfação... aí advêm bênçãos... Disposições: O Chamado Divino: Preliminares: Exposição do texto; transição em direção do tema: disposição... 1. É exercido por quem de direito com seriedade, responsabilidade e objetividade: a) pela congregação local, (paróquia), ou, comissão missionária da Igreja; b) por quem os Estatutos e Regimentos habilitam para tal. 2. É ato no qual é buscada a orientação divina: a) na oração;
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b) no aconselhamento mútuo. 3. Fixa-se no propósito de acertar com a vontade de Deus: a) na indicação de candidatos que realmente preencham as necessidades; b) visando sempre o bem-estar local e a glória de Deus. O Cristão Como Patriota Preliminares: Exposição do texto; transição em direção do tema; disposição... 1. Exerce o seu direito de cidadania: votando nas eleições: a) é um direito que a constituição lhe confere; b) é um dever que a Pátria espera que cumpra. 2. Vota em candidatos probos: a) embuídos de espírito público; b) embuídos de espírito de sacrifício; c) embuídos de temor do Senhor. 3. Faz isto consciente e conscienciosamente: a) buscando a orientação divina; b) pensando no melhor para a Pátria: b1) projetos de bem-estar geral; b2) garantia de liberdade civil e religiosa; b3) anseio de harmonia e paz, internas e externas.

Harry M. Kelm Porto Alegre, RS

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DEVOÇÕES

Cristo foi tentado à nossa semelhança
(Hebreus 4.14-16)
O texto que nos fala hoje é um texto singular. Por uma série de razões. Uma, porque ele desenvolve o tema do Cristo, Filho de Deus, sumo sacerdote, que aparece com destaque em Hebreus. Outra, porque ensina a impecabilidade de Cristo, e isto num contexto que não tem paralelo no Novo Testamento. Além disso, o texto é singular por uma expressão de uso corrente no linguajar teológico que é tirada deste texto:" o trono da graça". Mas não é por nenhuma dessas razões que o texto está sendo proposto para reflexão no dia de hoje. O texto é leitura da epístola do domingo que encabeça esta semana na série tradicional reformulada. Sua escolha se deve ao fato de incluir esta impressionante afirmação: "ele foi tentado em todas as cousas, à nossa semelhança, mas sem pecado". Se observarmos Hb 4.14-16 dentro do seu contexto, veremos que esta é mais uma passagem a apontar para a complexidade da estrutura de Hebreus. Os temas são desenvolvidos, assim parece, não tanto em ordem linear, e sim concêntrica. Em outras palavras, certos temas reaparecem ao longo da carta, às vezes em contextos onde não se poderia esperá-los. No caso de nossa perícope, que inicia falando do sumo sacerdote Jesus, seria de esperar que o "pois" fizesse a conexão com o que vem imediatamente antes. No entanto, em Hb 4.11-13 o assunto é a poderosa palavra de Deus, viva e eficaz, mais cortante do que qualquer espada de dois gumes .... 0 "pois" no início da perícope remete ao final do capítulo 2 e início do capítulo 3! E os temas do sumo sacerdote, do guardar a confissão, e do achegar-se com confiança do trono de Deus reaparecerão em Hb 10.19 e seguintes. Outra característica de Hebreus bem retratada em nosso texto é o entrelaçado de indicativos e imperativos, de afirmações e exortações (vejase v. 14). Neste sentido, Hebreus, que pode ser descrita como uma homília, e dentro dela a nossa perícope, traz uma grande lição de homilética. Vejam a colocação do apelo: "conservemos firmes a nossa confissão". Vem antecedido de uma a referência a Jesus, o Filho de Deus, o grande sumo sacerdote que penetrou os céus. O que segue o "conservemos firmes a

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nossa confissão" é um "porque". Fôssemos nós o pregador, talvez acrescentaríamos "porque isto é o que Deus espera de nós", ou "porque em meio a tantos que debandam, convém dar um bom exemplo de firmeza". Não é o que faz o autor aos Hebreus. Ele completa a sentença da seguinte forma: porque temos um sumo sacerdote capaz de se compadecer de nossas fraquezas. Em outras palavras, temos alguém que sabe quão fracos somos. Logo, não há o que temer. Seja ousado no confessar e comparecer diante do trono gracioso... Mas voltemos ao tema que faz com que esta passagem esteja sendo considerada hoje. Trata-se da afirmação de que nosso sumo sacerdote foi tentado em todas as cousas, à nossa semelhança, mas sem pecado. O texto grego aqui é bastante compacto, mas ao mesmo tempo expressivo. Diz que ele foi tentado. No grego, o particípio perfeito pepeirasmémon aponta para uma ação que foi completada e agora faz parte da bagagem. Cristo foi tentado e o fato de ter sido tentado agora faz parte de sua biografia. Poderia nos surpreender a afirmação de que o grande sumo sacerdote que penetrou os céus foi tentado, mas à luz do relato da tentação nos evangelhos, isto não é tão surpreendente. O que nos espanta é que ele foi tentado em todas as coisas. As tentações relatadas em Mateus e Lucas foram antes de tudo tentações relativas ao primeiro mandamento, que é o principal e a chave para todos os demais. Se já temos dificuldade com este "em todas as coisas" (katà pánta), pois a tendência, na teologia, é espiritualizar o Cristo (em nível popular mais ainda!), aumentando sua divindade em detrimento de sua humanidade, ficaremos mais perplexos ainda se acrescentarmos a isto o que vem no final, ou seja, o "sem pecado". Aí está uma categoria, um conceito, que nos escapa completamente. Ser tentado sem pecar é algo que nos parece impossível, a nós que quase não conseguimos desvincular tentação e pecado. (Sempre que começamos a falar em tentação, o assunto pecado vem automaticamente junto). Mas ambos os aspectos, a saber, ser tentado e não pecar, são fundamentais para o Salvador. O ser tentado em tudo aponta para sua plena humanidade. O sem pecado evidencia sua divindade. No entanto, a parte que mais me surpreende neste texto é a segunda locução preposicional, o kath' homoióteta, o "à nossa semelhança". Estamos acostumados a ver Cristo como o padrão, o modelo. O normal é dizer: Assim como ele foi tentado, nós somos tentados. Assim como ele ressuscitou, nós ressuscitamos e ressuscitaremos. Mas aqui se dá o inverso: nós somos o modelo, e ele segue pelo caminho que nós estamos acostumados a trilhar. Assim como nós, também ele. Parece uma grande honra, mas não é nada disso. A afirmação de que ele foi tentado à nossa semelhança desmascara nossa corrupção e fraqueza, ao mesmo tempo que aponta

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para a grandeza do seu amor: ele se fez semelhante aos irmãos em todas as coisas (Hb 2.17). Além do mais, se encararmos este "em tudo à nossa semelhança" à luz do "sem pecado" temos também motivos de sobra para saltarmos de alegria, porque ele sabe o que é ser tentado, ele entende o nosso dilema, ele sabe se colocar em nossa situação. Se isto é assim, então começa a fazer sentido a exortação a permanecermos firmes na confissão da fé e a nos aproximarmos com confiança do trono da graça. Se temos um sumo sacerdote como Cristo, nosso culto, que é graciosa participação no ofício sacerdotal de Cristo, muito antes de ser uma exigência ou um dever, é uma possibilidade e, graças a Deus, uma feliz realidade. Não seria possível confessar e orar se não tivéssemos o sumo sacerdote que temos. Se o temos, como é o caso, por que vacilar ou esmorecer? Esta a lição de Hebreus 4.

Devoção proferida pelo Dr. Vilson Scholz na capela do Seminário Concórdia, no dia 4 de março de 1993.

Acaso Poderão Reviver esses Ossos?
(Ezequiel 37.1-3; 11-14)
Ontem tive um diálogo com um médico neurologista sobre tumores cancerígenos. Na conversa o médico enfatizou a fragilidade de nosso ser, essa união de ossos, carne, tendões, pele e fôlego da vida. Lembramos que essa união pode cessar a qualquer hora e aí nossos ossos e carne estarão voltando ao pó. O programa FANTÁSTICO mostrou no último domingo uma reportagem sobre a prática de congelamento de corpos na esperança de poder ser reavivado ou ressuscitado quando a medicina estiver avançada a tal ponto de ter cura para aquela determinada enfermidade ou doença. É a busca e esperança pela continuidade da vida. O confronto com a morte, o fim terreno, é mais duro e difícil do que parece. Mas... seria esse comportamento uma fuga da morte? O que está por de trás desta busca desesperada de mais um pouquinho de vida? O planeta terra e talvez até todo o universo, dizem alguns cientistas, está perdendo suas forças e energias. Vivemos num planeta moribundo? Parece que além de nós estarmos morrendo a cada dia que passa ainda vivemos num "habitat" que também está perdendo sua força e vida.

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Olhando para a história humana, vemos que "vales de ossos" estão espalhados por toda parte. Há milhares de guerras, revoluções, matanças, genocídios nessa história dos homens que também é uma história de cadáveres e ossos espalhados pelos quatro cantos do planeta. A subnutrição, a fome, poluição, guerras, câncer, Aids - não seriam esses sinais de "nossos ossos secando", nossos corpos morrendo, revelando o poder da morte entre nós? Mas, é a morte a última palavra? Acaso poderá haver vida em meio a morte? Graças a Deus a última palavra não é morte! Ezequiel, um profeta do Senhor, teve uma experiência especial sobre vida e morte. Numa visão o profeta é levado pela mão ou pelo Espírito de Deus para um vale que se achava coberto de ossadas humanas. (V. 1) Poderiam ser ossadas de pessoas mortas em combates e/ou durante a deportação ao exílio. Como não foram enterrados, répteis talvez comeram a carne desses cadáveres, deixando os ossos expostos ao sol. Após conduzir o profeta por todos os lugares do vale (V. 2), obrigando-o a pisar nas ossadas e passar por cima delas, Deus pergunta a Ezequiel: "... acaso poderão reviver estes ossos?" (V. 3) A razão humana responde a esta pergunta com um claro e decidido "não". Nesse vale o profeta vê e experimenta o poder e força da morte. As ossadas sequíssimas documentam o senhorio da morte sobre tudo o que vive. Quando nós estivemos diante da morte de um ente querido ou amigo que resposta demos nós a pergunta: "acaso poderão reviver estes ossos?" É possível aos olhos humanos que um corpo frio em estado de apodrecimento seja restaurado à vida de novo? Em sua experiência de fé Ezequiel sabe que para Deus nada é impossível. Diante da realidade que vê a sua frente o profeta responde à pergunta dizendo: "SENHOR DEUS, TU O SABES!" Ezequiel deixa a resposta para Deus. Deixa DEUS SER DEUS. Assim é a vida dos que crêem; eles confiam e esperam NELE para que Ele realize Seus grandes feitos a seu tempo. Deus manifesta o Seu poder através desse profeta que então recebe a ordem de profetizar a esses ossos. E..., enquanto fala, a profecia se realiza, tornando evidente a onipotência de Deus. (V. 4-10) Ao comando de Deus dito através de seu profeta, a morte tem que entregar suas vítimas. No primeiro momento os ossos se movimentam.

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Junta-se osso a osso. Tendões, carne, pele se unem aos ossos e formam corpos. Mas ainda lhes falta a vida. Segue-se então o momento em que a vida é soprada nesse corpo reconstituído, capacitando-o a funcionar como ser vivo. Com fôlego da vida os corpos começam a se mexer. O vale dos ossos torna a viver pela palavra ordenada por Deus. A mesma palavra que no início criara a vida agora a recria. Essa palavra vivificadora continua em nosso meio como povo de Deus. No versículo 11 do texto Deus mesmo comunica o significado desta visão. Javé tem mensagem de vida para o povo de Israel que está morto no exílio por causa de suas idolatrias. Porém, o Deus gracioso se compadece desse povo "morto, sepultado no exílio", longe de sua terra, de seu templo, sem ânimo, sem esperança, sem perspectiva de futuro para si e seus filhos. O próprio povo se vê como morto, seco. (V. 11)0 exílio era a sepultura. Deus envia o profeta Ezequiel a proclamarão povo que nem tudo está perdido. Promete intervir quando humanamente tudo parece perdido. Deus promete agir e quer com isso levar o povo ao reconhecimento de que Ele é o Senhor. (V. 13) Só Ele tem poder para abrir as sepulturas (terra do exílio) e fazer o povo sair e ser reconduzido à sua terra, à vida. (V. 12) A visão de Ezequiel tinha por objetivo relembrar os exilados de que Aquele que prometeu reviver sua nação morta era o mesmo que formou o homem do pó da terra e soprou nas narinas o fôlego da vida. (Gn 2.7) Originalmente o texto de Ezequiel 37 anuncia a libertação e restauração sócio-política e espiritual de Israel. O povo no exílio assemelhava-se às ossadas do vale. (V. 11 b) O texto fala de um povo que está sofrendo e precisa de ânimo e erguimento. Haverá por acaso alguma semelhança entre este povo sofrido e o nosso povo brasileiro? Parece que milhões e milhões de brasileiros também podem gritar e dizer: "os nossos corpos estão definhando, secando de fome, subnutrição e não temos mais esperança depois de tantos planos e esperanças frustadas! Mas..., voltemos ao texto. O reviver das ossadas na visão de Ezequiel é um "símbolo da libertação do povo de Israel exilado, mas o texto também pode ser entendido como anúncio da ressurreição dos mortos", a libertação da morte por excelência. Sim, essa profecia é portadora do milagre da vida que Deus opera pela ação do Seu Espírito. Conforme testemunho apostólico registrado em 1 Co 15.20, Cristo é a garantia de nossa ressurreição pessoal. Essa perícope, portanto, serve para ilustrar o poder e a ação de Deus revelado em Cristo. Com o auxílio

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deste texto podemos ilustrar os relatos do Novo Testamento sobre a ressurreição, capacitando-nos a responder à pergunta:"... acaso poderão reviver estes ossos" "confiantemente:" SENHOR DEUS, TU O SABES!" Pois aquele Deus que, ao criar o ser humano lhe soprou nas narinas o fôlego da vida tem poder para fazer ressurgir os mortos, mesmo que seus ossos estejam sequíssimos e espalhados pelo vale ou tenham voltado a ser pó do qual foram formados. Aquele que é "a ressurreição e a vida" vai acordar aqueles que dormem no pó da terra por ocasião de sua vinda no Juízo Final. Jesus Cristo, o SENHOR da vida disse certa vez a seus discípulos: "Eu vivo, vós também vivereis!" "Quem crê em MIM, ainda que morra viverá!" Sim, em meio a nossa jornada nesse vale da sombra da morte, em meio ao nosso vale de ossos, de esqueletos ressequidos, temos a esperança da vida, e sabemos que Ele está conosco. (SI 23) Ezequiel 37 profetiza a ressurreição de um povo. Mas tem mais. Ezequiel 37 ilustra e lembra a esperança do povo de Deus de experimentar por Cristo a VIDA na sua plenitude no céu, na eternidade que o Filho nos preparou. Deus prometeu tirar-nos de nossas sepulturas e nos levar para a morada no céu. Essa será nossa última e definitiva morada. Nessa esperança queremos viver e morrer. Amém. Devoção proferida na capela do Seminário Concórdia pelo Prof. Gerhard Grasel, no dia 31 de março de 1993.

A Festa da Vitória de nosso Deus
(Êxodo 15)
Como foi seu culto de Páscoa no domingo passado? Festivo, alegre, celebrante? Faço esta pergunta porque muitas vezes, apesar dos esforços do pastor e premido pelas circunstâncias, ele não pode contar com um coral e talvez nem mesmo com um organista para liderar os hinos. Terminado o culto a que eu assisti (e que estava bem), voltando para casa, ainda no caminho, levantei os olhos aos céus à procura de um objeto a respeito do qual eu havia lido dois dias antes num prospecto e no último

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número da revista Lutheran Witness. Esse objeto era um satélite. Olhei em direção norte mas é claro que não pude vislumbrá-lo porque estava a muitos quilômetros de altura e bem a nordeste pairando sobre o Atlântico, talvez sobre a ilha de Fernando de Noronha. Você pergunta: que tem a ver um satélite com o domingo de Páscoa, com celebração? Ocorre que naquele momento aquele satélite estava unindo quatro continentes do mundo. Até aqui nenhuma novidade - é comum hoje em dia. Mas a novidade consiste em que esta transmissão não era nenhum jogo de futebol ou corrida de carros. A novidade é que pela primeira vez acontece a transmissão de um programa religioso nessas proporções e totalmente elaborado, patrocinado e levado ao ar pela nossa Igreja dos USA: a Lutheran Church-Missouri Synod. 0 programa não é outro senão um culto festivo de Páscoa transmitido ao vivo, gerado simultaneamente pela rede ABC de televisão de uma congregação luterana de Minnesota, Estados Unidos da América; de uma congregação luterana de Accra, Gana, na África; do Centro Luterano de Seul, Coréia, na Ásia; da Igreja Luterana "São Pedro", de São Petersburgo na Rússia, Europa - igreja essa que até o ano passado, no antigo regime soviético, servia de piscina pública. Nesta transmissão, além do sermão proferido pelo presidente da LC-MS, Dr. Alvin Barry, traduzido por legendas na tela, ouviram-se coros cantando hinos pascais entre os quais o que nós acabamos de cantar (HL 111), entoado pelo coral da igreja de São Petersburgo. Domingo passado quatro continentes tiveram a oportunidade de ouvir e ver o poder da mensagem da Páscoa ou, como diz a liturgia, ouvir e ver a festa da vitória do nosso Deus. Êxodo 15 é um cântico que celebra a festa da vitória do nosso Deus. Conveniou-se denominá-lo de Cântico do Mar em vez de Cântico de Moisés para evitar confusão com Deuteronômio 32 que o Antigo Testamento explicitamente chama de Cântigo de Moisés. Considerando-se as circunstâncias, o Cântico do Mar foi entoado utilizando-se as técnicas do momento: a beira do mar, na praia, aliás como Jesus algumas vezes o fez com suas pregações conforme relatam os Evangelhos. Ali, à beira-mar, e após terem passado em seco e verem sucumbidos os inimigos, Moisés e os filhos de Israel, como diz o texto, ou seja, a igreja toda entoa este cântico de vitória que na Trienal C é o texto para o sermão do Domingo de Páscoa. Este cântico é um dos mais belos e poderosos hinos da Bíblia e que, humanamente falando, é de estranhar que não integre o Saltério. Embora o contexto e o texto o liguem firmemente a um evento histórico específico, a linguagem direciona para uma ênfase mais geral e teológica. Até mesmo tecnicamente Êxodo 15 é como os hinos que integram o Saltério, ou seja,

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após convite ao louvor ou ao cântico, a cláusula "porque" define as razões para se cantar. O versículo 1 mostra isto claramente: "Cantarei ao SENHOR porque triunfou gloriosamente". Aparentemente Êxodo 15 é uma redundância porque é um correspondente poético da narrativa de êxodo no capítulo anterior. Por que poesia? Em parte porque em momentos de extrema alegria a narrativa, a prosa se mostra inadequada para expressar o que sentimos. Por isso a poesia, os salmos, os hinos. Não é sem razão que o povo de Israel, a Igreja Cristã e especialmente a Reforma Luterana têm se caracterizado pelo seu canto e de forma especial no Domingo de Páscoa quando celebramos a festa da vitória do nosso Deus, como se viu nos cultos e naquela transmissão internacional via satélite. Cantai ao SENHOR porque triunfou gloriosamente. Historicamente sabemos que a vitória do SENHOR foi sobre o Egito. Mas "Egito" não deve ser tomado apenas no sentido histórico, político. A vitória do nosso Deus não é apenas histórica; ela é também existencial, por nós. Em várias partes da Escritura "Egito" é citado como símbolo, tipo de todos os reinos deste mundo na medida em que competem com o Reino do SENHOR, formando o anti-Reino. Incluídos nesta milícia estão Satanás, o Anticristo que, embora vencidos, procuram, como mostra o versículo 9, perseguir, alcançar, despojar a Igreja de Deus. Este é o objetivo de Satanás; mas não apenas dele. É nosso também quando nosso velho homem, nosso orgulho diante de Deus se manifestam. É oportuno mencionar que o radical do verbo aqui traduzido por "triunfar" é usado em Isaías 2.10ss, por exemplo, com relação a Satanás e ao orgulho humano. Estes, que deveriam ser humilhados, afogados, esmagados, querem sempre "triunfar". Mas é apenas da essência de Deus "triunfar gloriosamente". E Ele triunfou e fez triunfar gloriosamente Seu Filho depois de este ter sido sepultado no "mar" do túmulo. Pelo batismo nós fomos sepultados com Cristo e com Ele emergimos para a vida. A vitória de nosso Deus é também existencial, por nós. E há um último aspecto a ser mencionado com relação à vitória do SENHOR em Êxodo 15: ela é uma vitória com dimensão escatológica. Cantarei ao Senhor, diz o texto. Parece coincidência mas o termo hebraico aqui traduzido por SENHOR não é o tetragrameta "Yahweh", e sim sua abreviação "Yah", como aparece em nomes como "Oséias", "Jeremias" e significativamente na palavra "Aleluia". "Yah" é o nome pessoal de Deus para dentro do qual nós fomos batizados e levados ao eschaton de Deus. em nenhum outro lugar isto se acha mais explícito do que em Apocalipse 15.3-4 onde aqueles que são os "vencedores da besta" são encontrados, como diz, "entoando o cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro", tecnicamente uma paráfrase cristológica de Êxodo 15. Para os cristãos hoje
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isto significa que Êxodo 15 é uma profecia de nós mesmos que, na Páscoa de Cristo, partilham a vitória climática sobre a morte, Satanás, o Anticristo. E enquanto aguardamos a sua consumação, já celebramos a vitória cada domingo, com "os anjos e arcanjos e com toda a companhia celeste". Vitória climática! Momento climático! Permitam-me retornar à transmissão via satélite de domingo passado. O momento climático ocorreu quando simultaneamente aparecem na tela aqueles grupos luteranos da América, Ásia, África e Europa orando o Pai-Nosso na sua própria língua. Este momento se tornou marcante quando na doxologia desta oração todos aumentaram o volume das vozes para confessar: Pois Teu é o Reino e o poder e a glória para sempre. Êxodo 15 também tem esse momento climático, doxológico. O versículo 18 conclui: "O SENHOR reinará por todo o sempre". Esta é a mensagem da Páscoa: a festa da vitória de nosso Deus historicamente.

Devoção proferida pelo Prof. Acir Raymann na capela do Seminário Concórdia no dia 15 de abril de 1993.

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IGREJA LUTERANA - NÚMERO 2-1993

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NEW HORIZONS IN HERMENEUTICS: THE THEORY AND PRACTICE OF TRANSFORMING BIBLICAL READING. Por THISELTON, Anthony C. Grand Rapids, Zondervan, 1992. 703 páginas. Você já ouviu falar de temas como "teoria semiótica e interpretação bíblica", "horizonte de expectativa", "morte do autor e autonomia de textos"? Tem alguma idéia do que seja "linguagem performativa" ou "teoria dos atos-de-fala"? Sabia da existência da "crítica da resposta-do-leitor", também chamada de "teoria da recepção"? E que dizer de tópicos como "hermenêutica da suspeita", "pós-modernismo", e "deconstrucionismo"? Se todo este "hermeneutiquês" soa um tanto hermético, tomemos alguns temas um pouco mais conhecidos. Talvez você gostaria de saber mais ou conhecer um enfoque diferente a respeito de "interpretação alegórica", "hermenêutica de Lutero", "hermenêutica pré-moderna e hermenêutica pós-moderna". Talvez tenha algum interesse em conhecer melhor a hermenêutica feminista ou a hermenêutica da libertação. Talvez esteja curioso em saber o que resulta da aplicação da teoria literária a textos bíblicos, ou em saber até que ponto a teoria semiótica pode ser útil na interpretação da Bíblia. Pois toda esta gama de tópicos hermenêuticos - alguns velhos conhecidos, outros nem tanto assim - aparecem no livro de Anthony C. Thiselton. Ao longo das 700 páginas, o autor, além de recensear os grandes enfoques hermenêuticos do passado, descreve e avalia o que se fez e está fazendo no campo da hermenêutica bíblica nestes tempos modernos e pós-modernos. Ele nos ajuda a ver que, em se tratando de definir quem determina o sentido do texto, passou-se de um paradigma que insistia na intenção do autor para um paradigma que conta com a participação do leitor. No meio dessa trajetória fica a ênfase estruturalista, que vê no texto uma grandeza autônoma que prescinde de autor e leitor. O próprio Thiselton adota uma postura eclética, argumentando que nenhum enfoque é completamente adequado a todos os textos, procurando aproveitar o que cada um deles tem a contribuir ao empreendimento hermenêutico. New horizons in hermeneutics é um livro para ser lido aos poucos. Alguns capítulos talvez nem interessem a todos os leitores, e podem ser omitidos sem maior prejuízo. Agora, para se conhecer o que existe em termos de teoria hermenêutica aplicada à Bíblia, nenhum outro livro reúne tantas informações e análises quanto o de Thiselton.

IGREJA LUTERANA - NÚMERO 2-1993

249

New horizons in hermeneutics pode ser comprado por menos de 30 dólares. Onde? O endereço que sugerimos é: Christian Book Distributors, P.O.Box 6000, Peabody, MA 01961-6000, Estados Unidos. Mesmo não tendo interesse no livro acima, escreva pedindo um catálogo e tente encomendar pelo correio. Comentários bíblicos, livros de teologia bíblica, livros de história e muito mais pode ser comprado por preços inferiores aos das próprias editoras. Vilson Scholz

250

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