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Carta às (aos) Camaradas. O panorama que se abre com as Jornadas de Junho Ramon Rodrigues Ramalho

Camaradas: O momento que vivemos é tão crítico e os acontecimentos voam com tão incrível rapidez que o publicita, situado pela vontade do destino um tanto à margem do calce principal da historia, corre o risco de chegar sempre tarde ou de estar pouco informado, sobretudo se seus escritos vêm à luz com atraso.” (LENIN, Carta aos Camaradas).

Passaram as Jornadas de Junho. Menos porque terminaram as Jornadas do que

por ter terminado Junho

De toda forma, realmente as mobilizações passaram a uma

... terceira fase, de institucionalização do protesto e regionalização dos reclamos. Cada cidade avançará agora na medida do desenvolvimento de suas organizações previas. Muitas são as conquistas que já conseguimos. Seria importante, para ganhar ânimo, conseguir contabilizá-las, mas ainda não podemos sequer contar os nossos mortos. Quantas pessoas morreram durante as Jornadas de Junho? Eu pensava que eram cinco 1 , até chegar a meu conhecimento os fatos na Maré (RJ) 2 . A força dos movimentos sociais existentes é limitada. Por isto é necessário estratégia. Para enfrentar um inimigo mais forte, na Arte da Guerra, devemos buscar como debilita-lo ao máximo e então atacar pelos seus flancos débeis. Por isto devemos, neste momento, enfocar os reclamos em conquistas objetivas a curto prazo, evitando dispersões em consignas e objetivos difusos, macrossociais ou de longo alcance. Convivendo com organizações populares, operarias e camponesas, assim como estudando sua historia, percebo como uma organização ainda em sua fase inicial, que sofre uma tremenda derrota, tende a desmobiliza-se, enquanto que a vitória nestes inicios tende a gerar ânimo por novas conquistas. Além disto, uma luta parcial pode se tornar em crítica geral ao sistema se forem empregadas as adequadas consignas transitórias em um esquema de revolução permanente. O contexto é propicio para novas conquistas. Disso depende inclusive a sorte dos governos progressistas latino-americanos (Evo, Maduro, Correa, Cristina, Mujica e Dilma). Todos enfrentam sua fase de maior conflitividade interna. Sem novas conquistas sociais, que permitam uma renovação de seus discursos esgotados, os atuais governos terão dificuldades para reproduzir-se no poder. Assim, certa margem de manobra eles mesmo darão. A direta, que busca utilizar a situação a seu favor,

  • 1 Marcos Delefrate, estudante de 18 anos, atropelado dia 20, durante protesto em Ribeirão Preto. 25 mil pessoas participaram do ato. A gari Cleonice Vieira de Moraes, 54, morreu dia 21 em Belém, após ter inalado gás lacrimogênio durante confronto no dia anterior. Duas mulheres morreram atropeladas dia 24, na BR-251, em Cristalina (GO), enquanto montavam um bloqueio na rodovia. Douglas Henrique de Oliveira Souza, 21 anos, caiu do Viaduto José Alencar, em BH, sofreu um traumatismo cranioencefálico, foi levado para o hospital com vida, mas não sobreviveu. A sexta vítima se confirmaria no dia 12/07. Morreu em BH, depois de 19 dias lutando pela vida, Luiz Felipe Aniceto de Almeida, 22 anos, trabalhador da Central de Atendimento UAI, por cair no dia 22 do mesmo Viaduto, quando Japão e México jogavam no Mineirão. Houve intenso confronto na ocasião. Ele é o segundo a morrer, dentre os seis que caíram

do mesmo local. Deixou uma filha, que completou um ano de vida no dia em que o pai faleceu.

  • 2 A Polícia Civil admitiu que três moradores inocentes estão entre os nove mortos na megaoperação realizada por cerca de 400 agentes do Batalhão de Bope.” Correio do Brasil, 26 junho de 2013. Disponível:

tentará desgastar ao movimento de mobilização, mas evitando desgastar sua imagem (seu marketing), com o que também se verão obrigados a ceder nestes termos. A história das organizações trabalhadoras demonstra que a burguesia só cede um pouco sob a ameaça de perder ainda mais. Só encurralada pela classe trabalhadora, a burguesia nativa se verá impedida de exercer seu entreguismo. São gigantescas as tarefas para um desenvolvimento do movimento social que possibilite grandes conquistas. Daí o apelo para a estratégia e o enfoque em propostas concretas. Através da participação direta, covardemente reprimida, as Jornadas de Junho puseram em pauta o modelo de democracia, ao gerar uma crise da representatividade, só diminuída pelo pacote de medidas da Presidenta, que assim consegue recompor a dominação burguesa de forma magistral: dando margem de negociação para a direita e para a esquerda, ao mesmo tempo em que direciona o debate, tal como deve fazer quem quer manter a hegemonia dentro de um bloco histórico. A direita vai desgastar o projeto de reforma politica, afirmando todo tipo de absurdos 3 e direcionando o debate para assuntos tecnocráticos (constitucionalidade, aplicabilidade, governabilidade), para invisibilizar a questão do financiamento privado das campanhas eleitorais. Aconteça o que acontecer, não podemos perder de vista que nossa interpelação ao Estado se contém na construção de uma democracia direta.

1) Questão de Conceitos

Ainda não possuímos sequer uma linguagem adequada para expressar nossa própria libertação: nos “sentimos livres” porque somos desprovidos da linguagem para articular nossa falta de liberdade.” 4 (Zizek, 2012). Como bem reparou Soares 5 (2013), na explicação das manifestações ocorridas no Brasil fica sublinhada esta dificuldade. Inicialmente voaram “leituras das mais diferenciadas”; uns “setores apressados a encontrar os sinais de uma revolução nova e permanente” e todos preocupados “em

qualificar se as lideranças dos movimentos: seriam ou não organizadas, de novo tipo ou não e qual a importância dessa qualificação.” (Costa, 2013). Desprovidos da linguagem para articular nossa falta de liberdade criamos termos falsos que mistificam a realidade que queremos transformar (Zizek, 2012). Existe, por tanto, um elemento de violência simbólica que é importante construir. Marighela já dizia que a revolução no

  • 3 FHC afirmou que a proposta de chamar uma constituinte era um absurdo. Porém, ele defendeu a mesma proposta

em duas ocasiões: ainda como candidato a presidente, em 1994, e já exercendo a presidência em 1998.

  • 4 Discursando aos ocupantes de Wall Street, Zizek cita uma “velha piada da antiga República Democrática Alemã”. Um alemão consegue emprego na Sibéria e sabendo da censura combina com seus amigos: uma carta escrita com tinta azul é verdadeira e escrita com tinta vermelha, é falsa. Na sua primeira carta se lia em azul: “Tudo é uma maravilha por

aqui: [

...

]

Temos toda a liberdade que desejamos a única coisa que falta é a “tinta vermelha”.”

  • 5 “Não faz mais sentido empregar o vocabulário que encadeava classe, organicidade, consciência de classe, partido,

vanguarda intelectual, organizações da sociedade civil, enfim, coletividades radicadas em posições estruturais.” (Soares, 2013).

Brasil terá samba e futebol misturados. Para os brasileiros, a exteriorização lúdica, a

crônica, a sátira e a chacota são formas cotidianas de politização e devem ser insertadas nas manifestações: a festa como protesto e o protesto como festa. Assim “a discussão crítica ganha apelo popular, se massifica.” 6 (Barros, 2013). A novidade, a “negação da negação”, se constrói cotidianamente. “Não se apaixonem por si

mesmos, nem pelo momento agradável [

]

o verdadeiro teste de seu valor é o que

... permanece no dia seguinte, ou a maneira como nossa vida normal e cotidiana será

modificada. Apaixone-se pelo trabalho duro e paciente somos o início, não o fim.

Nossa mensagem básica é: o tabu já foi rompido

...

(Zizek, 2012).

A construção autônoma, autentica, é mais demorada, custosa, pois não apenas necessita uma linguagem que não existe: necessita mecanismos que ainda devem ser construídos e estes não poderão sair da mente brilhante do teórico, senão da prática tenaz das organizações que lutam cotidianamente por melhorias na vida dos mais oprimidos. O “trabalho de formiguinha” é fundamental menos pelas melhorias pontuais conseguidas que não resolvem o problema de fundo do que pelas consequências do processo de construir organização popular para lutar por direitos negados, pela dignidade na vida. A luta desvela o poder opressor, que assim vai aparecendo em toda sua dimensão 7 . Este poder opressor” não contêm sua essência no Estado. Por isto é perigoso enfocar todos os reclamos nele. A diferença entre público e privado é uma fratura na essência do ser humano: passamos a maioria do tempo na sociedade civil e às vezes vivemos na sociedade política (Ramalho, 2012a, p.44-60). Esta é a fragmentação inicial que deriva nas demais, inclusive na fragmentação das lutas. O irônico, no contexto do Brasil atual, é que esta cisão se origina do fenômeno sócio-histórico que estamos lutando por conseguir: a emancipação política. A emancipação política está contida em três elementos (Marx, 2002): 1º) sufrágio universal (uma cabeça = um voto), 2º) Estado laico e; 3º) Estado de Direito (todas as pessoas sem distinção são “cidadãs”). Como a “Carta Maior” não funciona de fato, ela não produziu a emancipação politica, logo, a Constituição não constituiu um Estado,

uma “democracia”. Porém, nem mesmo a exigência da emancipação politica circunscreve-se ao Estado. Florestan Fernandes (2002) afirma que a apropriação da mais-valia pela burguesia brasileira é dual: uma pequena parte fica aqui, mas a parte do “leão” (imperialismo) migra para os países centrais do capitalismo, mermando a base material necessária para criar uma democracia real (Ramalho, 2011a).

6

...o

Carnaval é avesso à ordem, constituindo um período transitório no qual tudo o que nos constrange e nos limita é

sublimado, e as pessoas são convidadas a viver

a

vida em

sua potência máxima. [

...

]

No Carnaval, todo poder

estabelecido, incluindo a política e os políticos, são levados ao ridículo.” (Barros, 2013). 7 Isto só acontece paulatinamente. Não tem como acontecer de supetão. A explicação apenas racional da exploração do trabalho é inócua, já que o oprimido hospeda em si ao opressor como “ideal de homem” – isso vai além do racional. O militante que explica o dogma ao sujeito esperando filiá-lo ao Partido, tenta representar para o oprimido a sua própria realidade, o que já uma forma de dominação e opressão, de “invasão cultural” (Freire 2005; Ramalho, 2011b).

A sociedade civil é a esfera na qual se originam os males sociais, e não a sociedade politica. A luta pela emancipação política é uma imperiosa necessidade, que porém, não é o nosso objetivo principal, a emancipação humana, a emancipação do ser humano sobre seu trabalho 8 . A luta por um objetivo parcial, a emancipação politica, deve ser encarada como alavanca para prosseguirmos a luta, que paulatinamente vai se fazendo, nos distintos setores da sociedade, luta contra o capital. A situação paradoxal de lutar por uma conquista imediata de curto prazo, por um direito circunscrito à esfera da sociedade burguesa, mas almejar uma transformação radical (nas raízes) da sociedade é uma situação que atravessa toda a esquerda mundial. Cedo ou tarde aparecerá a velha questão: “reforma ou revolução”? Devemos propor um programa mínimo, “reformista”, pois circunscrito à reformas plausíveis, as quais devemos detalhadamente apresentar nos moldes burocráticos do Estado atual, já em forma de projetos de lei diretamente aplicáveis; mas que aponte ao desenvolvimento de uma revolução permanente. O programa mínimo não será reformista se utilizado estrategicamente para gerar um fluxo de consignas transitórias, que traduzam os anseios mais urgentes e gerais da população oprimida, em conexão com a “historia profunda” da América Latina (Ramalho, 2010). A apreensão dos anseios populares (condição desejante), e sua colocação como pautas que podem ser ditas e compreendidas em uma frase ou mesmo em uma palavra, se possibilita a partir das mediações pedagógicas derivadas da construção nas organizações populares. Os vínculos pedagógicos estabelecidos internamente à organização popular são o elemento chave da decolagem posterior. O “trabalho de formiguinha”, como processo de construção coletiva, é o que permite a apreensão destes anseios, para sua postulação em consignas transitórias. Simultaneamente, é necessário trabalhar para criar um programa máximo, que contenha os elementos constitutivos da sociedade que pretendemos, que adiante os princípios da cultura que queremos. Este ponto é fundamental para superar o “medo à liberdade”: Se ao compreender que todas as verdades do capitalismo são uma farsa bem elaborada, não temos outra concepção de mundo para colocar no lugar da burguesa, o sujeito fica com uma sensação de “cair num vazio” e se retrai. Isso é o que Paulo Freire chamava de “medo à liberdade”. Contudo, as tarefas não são tão grandes como aparentam. Faz parte da estrutura da opressão a crença na onipotência do opressor. Estas tarefas podem ser desenvolvidas por qualquer um, dentro de uma construção coletiva que seja emancipadora. A economia se converteu num “economicismo tecnocrático”, utilizando-

8 A noção de emancipação humana em Marx se baseia em: 1º) superar a cisão entre sociedade civil e sociedade política pela integração da segunda na primeira; 2º) a reunificação do trabalho abstrato com o trabalho concreto, quando cada trabalho específico, particular, já seja durante sua execução considerado imediatamente como trabalho abstrato, como uma porção necessária do todo social produzido encaminhado para o goze coletivo (Ramalho, 2012a).

se de uma “metalinguagem” para ocultar o que não se quer dizer, parecendo impossível o controle público dos assuntos socioeconômicos, a ser tratados exclusivamente pelos economistas experts sempre melhores formados no norte, de preferência na Escola de Chicago. (Ramalho, 2012c) Quando alguém não entende um tema de economia, não é porque lhe falta inteligência, senão que porque está sendo engando com explicações deliberadamente difíceis, para que ninguém possa entendê- las, nos lembra A. Juaretche. Os problemas económicos aparecem de modo multidisciplinar: como problema social, econômico e político. A economia é uma ciência social e não uma ciência exata. Por tanto, na ciência econômica não existe “preto no branco”, pois ela não é uma ciência dura, sendo a matemática apenas uma parte sua, submetida aos matizes eleitos que armam as ideias fundamentais de cada autor. São estes fundamentos que devem centralizar a análise econômica: tanto sua formação histórica como também sua permanência atual. Quando nos debruçamos sobre problemas da “economia” e da “politica”, estamos falando de Economia Política e de Política Econômica. Assim limitamos o debate no largo caminho a percorrer. “Há um longo caminho pela frente, e em pouco tempo teremos de enfrentar questões realmente difíceis questões não sobre aquilo que não queremos, mas sobre aquilo que queremos. Qual organização social pode substituir o capitalismo vigente? De quais tipos de líderes nós precisamos?” (Zizek, 2011). A revolução latino- americana não será “decalque, nem copia”, mas sim “criação heroica”, diz Mariátegui.

2) Composição política do Capitalismo Subalterno

A estrutura política do Brasil é uma herança direta da ditadura. A própria constituição da classe burguesa passa pela sua aglutinação ao redor do Estado totalitário. A medida do sucesso de uma reforma política, no Brasil, está no seu grau de superação dos mecanismos herdados da ditadura e aprofundados durante o neoliberalismo. A ditadura de1964-85 passou a outro nível a inserção do Brasil no contexto capitalista mundial como país periférico. Superou o neocolonialismo articulando a forma subalterna do nosso capitalismo: a penetração direta e profunda de capitais estrangeiros forma um esquema de espoliação (“sistema do despojo”), que consiste em drenar nossos recursos aos países centrais do capitalismo, que por sua vez dependem desta drenagem. Toda nossa economia funciona a partir do eixo externo, que é a economia dos países hegemônicos. A estrutura econômica do capitalismo subalterno se contém em cinco elementos articulados: 1º) a desconcentração produtiva e seu fluxo de capitais; 2º) os ciclos extrativistas vegetais e minerais; 3º) as formas persistentes de acumulação primitiva de capital e da produção

não-capitalista como reserva; 4º) as importações e suas extensões como amarração que dá unidade aos demais: instabilidade monetária, “carnaval aduaneiro” e os “investimentos” estrangeiros (Ramalho, 2011a,p.85). A modernidade dos países centrais e a colonialidade dos países subalternos do capitalismo não são termos excludentes, senão “as duas caras da mesma moeda”. “O subdesenvolvimento não uma etapa do desenvolvimento. É sua consequência” (Galeano, 2010,p.363). A burguesia nativa se aglutinou, como classe burguesa, ao redor do estado totalitário, adaptando-se permanentemente, logo de modo sempre delicado, pois o “eixo externo” impõe seus ritmos descontínuos. Por isto, compartimos os processos de renovação da civilização ocidental desde um lugar debilitado, precário, absorvendo apenas alguns pressupostos essenciais do capitalismo, “repetindo” apenas os seus traços estruturais. A determinação da existência material da burguesia nativa é a apropriação dual do excedente econômico: a partir de dentro, pela burguesia nacional, e a partir de fora pelas nações capitalistas hegemônicas. Inexiste, assim, uma base econômica para o desenvolvimento de um Estado efetivamente democrático, para sustentar profundas reformas no Estado. A nossa “revolução burguesa” foi uma revolução burguesa “frustrada” ou “abortada”. O mecanismo regulador do capitalismo, a competição, é entorpecido pelo esquema de apropriação dual; os pontos de estrangulamento do sistema interno se reforçam mutuamente, aparecendo até como “desafio” a integração nacional (Ramalho, 2011a). O “consenso burguês” que conformou a burguesia brasileira, foi alcançado através da aglutinação da classe ao redor do estado totalitário (a ditadura de 1964-85), na qual os rumos econômicos terminaram sendo definidos politicamente, enquanto os direitos políticos são definidos economicamente. Forma-se como burguesia e cria um Estado moderno, fragmentando a sociedade em uma “sociedade civil válida”, para a qual valem os preceitos constitucionais, e uma “cidadania não-validada”, para a qual rege a repressão preventiva (Ramalho, 2011a, p.103). A maior vitória da ditadura foi a despolitização da população, e consequentemente a naturalização do Estado de Exceção que vivem as pessoas fora da cidadania válida. Se bem a “ideia de democracia ainda é uma construção”, não é porque a imprensa vende como “antipáticas e ultrapassadas” às greves dos trabalhadores, criando ademais um “clima de medo” para afugentar as pessoas e revivendo o “mito de classes perigosas”; mas sim porque a democracia já está constituída, exatamente como Estado autoritário para realizar a dupla articulação. Por isto não há espaço para mobilizações daqueles que não tem sua cidadania validada. Para “mudar essa mentalidade repressiva” é necessário enfocar estrategicamente na raiz do problema, que não é solucionável no curto prazo. “A introdução de vândalos e de policiais no

meio das manifestações criando o efeito de turbas nada mais é do que a anti

democracia

...

(Costa, 2013).

Quando dizemos, sobre as manifestações, que o “povo” ascendeu socialmente e quer converter-se em “sociedade” (Viana, 2013), estamos buscando desnaturalizar a existência de uma sociedade civil não validada. E daí também o componente “fascistóide” que terminou se evidenciando: apesar de tantas consignas diferentes, não se exigia a extensão da cidadania a todos sem distinção, senão o reconhecimento da cidadania válida para aqueles que ascenderam socialmente. A tendência fascista é facilitada pela herança ditatorial e pela identidade da burguesia com os militares, expandida para a sociedade pela cooptação militar-tecnocrática do Estado. O fascismo

sempre aparecerá com soluções fáceis para grandes problemas.

3) A “Prosperidade Lulista”: reconhecendo conquistas e limites

É plausível afirmar que o governo do PT tirou cerca de trinta milhões de pessoas da extrema pobreza e outras quarenta milhões “ascenderam” a uma nova classe média, se bem mais precarizada que aquela conhecida como “classe média baixa”. Aqui se evidencia a falta duma linguagem adequada, que impeça a coisificação da população em “capas”. Porém, esta “ascensão” dos pobres à classe média verdadeiramente está marcada por certa precarização e pela privatização dos serviços fundamentais à vida (educação, saúde, transporte, água, luz, gás). Vejamos. De acordo com o PNAD do IBGE o governo Lula foi o único que reduziu a miséria sustentadamente no seu período de governo, passando de 35 milhões em 1994 para 15 em 2009.

meio das manifestações criando o efeito de turbas nada mais é do que a anti –

Estudos da FGV (não por acaso) são ainda mais alentadores 9 . Com base no PNAD (IBGE) a FGV aponta para 40 milhões a população retirada da pobreza que “ascendeu” à classe média. A combinação dos planos sociais e a expansão do “mercado interno” produzem o efeito da “prosperidade lulista”: “eu diria que o Pelé é o

mercado interno e o seu companheiro de ataque é o Tostão do Bolsa Família. Essa é a dupla eficiente que está permitindo ao Brasil sair da crise ou não ter entrado tanto

9 Ver: Neri (2012). De volta ao país do futuro. Centro de Politicas Sociais. Fundação Getúlio Vargas.

nela”. O Bolsa Família ataca a miséria e o boom do mercado interno ataca a pobreza. Por fim, diminuiu o abismo da desigualdade: “a renda per capita dos 10% mais pobres da população subiu 72%, enquanto a dos 10% mais ricos cresceu, aproximadamente, 11%. De acordo com o economista, essa melhora no indicador foi impulsionada principalmente pela renda do trabalho10 . O que significa esta “melhoria na renda do trabalho”, ou este “boom” do “mercado interno”? Considero (não por acaso) os seguintes dados os mais esclarecedores, pois

enfocados na “

...

importância

da estrutura ocupacional para compreender as

tendências da desigualdade de renda brasileira.” Esta pesquisa aponta que o quadro

ocupacional do Brasil durante o governo Lula não apresenta melhoras quantitativas substancias, senão importantes melhoras qualitativas relativas. Entre uma População Economicamente Ativa (PEA) de 64 milhões, 9,5 milhões experimentaram uma

melhora salarial. Se bem possui fortes efeitos,

...esse

processo não foi suficiente para

alterar fundamentalmente as desigualdades.” (Carvalhaes, 2012, p.19a28). Vendo que quase 10 milhões melhoraram seu volume salarial, entendemos a origem dos 40 milhões retirados da pobreza, supondo que cada trabalhador tem cerca de quatro pessoas dependentes dele. Não são dados isentos de controvérsias, mas é plausível o número de 30 milhões retirados da extrema pobreza (miséria) e 40 milhões retirados da pobreza para a classe média “D”. A miséria se combateu com os programas sociais assistencialistas, como o Bolsa Família, “carro-chefe” do governo lulista, o “Luz para todos”, a doação de cestas básicas para aliviar situações urgentes, e vários programas localizados. A pobreza se combateu com a melhora salarial dos empregos, seja pela busca de um emprego melhor remunerado, seja pela adição de uma jornada laboral no núcleo familiar. Contudo, não são os dados que transformam nossa realidade. A melhoria na qualidade de vida geral da população pode ser sentida por qualquer brasileiro, se comparada com os anos 80 e 90 do século XX. Esta melhora é a base do triunfo lulista, mas também sua sirene de alerta. Lula conseguiu com sua “prosperidade” frear “o desgaste do Estado” (Soares,

2013), recompondo lentamente a forma de dominação burguesa a partir de 2002. É esta recomposição que agora entra numa disputa “mais aberta” a partir das Jornadas de Junho. A estratégia do PT direcionou a iniciativa para a reforma política. A direita tentará desgastá-la e a esquerda radicalizá-la. Mais que uma luta parlamentaria, a reforma política toca a historia profunda do Brasil. Está em jogo, primeiro, o tipo de

cidadania que será validada para a “nova” classe média. Segundo, e o mais importante, se esta “validação” será estendida para além da classe média mesmo.

10 Agência Brasil. Governo Lula tira 20 milhões da linha da pobreza em cinco anos, aponta FGV.

Toca a questão da “Integração do Negro na Sociedade de Classes”, coisa que nunca

aconteceu plenamente (Fernandes, 1978). Ao largo de dez anos, o PT pôde alimentar seu discurso com seus êxitos relativos, que o politico profissional trata de converter em absolutos. Até as “classes médias altasadoraram, sem evidenciar, sua “política de prestigio” encaminhada a converter o Brasil em um “jogador global” (Boron, 2013). Seus programas sociais fazem “justiça social”; e nunca um governo investiu tanto na saúde e educação. Para um bom petista, essas duas verdades justificam tudo”, incluindo a “aliança com as bancadas ruralista e evangélica até o envio da Força Nacional de Segurança contra indígenas, passando pela assinatura de uma verdadeira lei de exceção com a FIFA(Viana, 2013). Porém,

depois de dez anos um pilar de sustento do PT está se desgastando:

...

a presidente

já não pode mais responsabilizar o governo anterior, de FHC, pelos problemas do país.” (Ouriques, 2013). O medo da direita voltar ao governo já não é, como antes, uma força desmobilizadora das críticas ao PT e sua coalização de governo. Está

ficando clara a diferença entre “crescimento quantitativo e qualitativo”: “não se trata simplesmente de aumentar um critério abstrato de medição como é o PBI, mas sim de viver melhor.” (Gerbaudo, 2013). A tecnocracia mostra os seus limites. Qualquer governo será “incapaz de enfrentar a “questão social” e menos ainda” de “erradicar a miséria” (Ouriques, 2013), se não criticar profundamente postulados tidos como verdades absolutas. A malversação de fundos no Brasil não é uma questão

“técnica”, nem de “vontade”, é uma consequência do capitalismo subalterno. 40% do Orçamento da União é gasto com “juros e amortizações da dívida pública” (Boron, 2013). Menos de 4% do orçamento vai para saúde ou educação; nove dias de pago dos juros da dívida supera um ano inteiro de gastos com o Bolsa Família; a reforma agraria recebe 180 vezes menos recursos que o pago dos juros da dívida. Porém, o contraste com outros gastos não é o central nesta analise, nem a origem duvidosa desta dívida, mas sim perceber que não se trata de uma questão administrativa. A essência se encontra no modo como se formou a burguesia brasileira e seu Estado

Nação. Faz parte do capitalismo subalterno ir adequando-se aos desígnios do eixo externo. Hoje, o Consenso de Washington foi substituído pelo silencioso “Consenso da Basiléia”. Na Suíça, está o Banco de todos os bancos, o BIS, que estipulou, “tecnicamente”, a “responsabilidade” de todo país conseguir um crescimento continuado do seu índice PBI; de conseguir um “superávit primário”, ou seja, que ainda depois de pagar os juros da dívida mantenha um balanço positivo no seu caixa interno. Se um governo pratica estes supostos fundamentais do Consenso da Basiléia, ele pratica uma “boa governança”, e está livre para gastar o que sobra em planos sociais,

e até para “marretar” os EUA na OMC 11 . O Consenso da Basiléia postula como impossível sequer pensar qualquer proposta que saia deste esquema. O “atendimento às “legítimas reivindicações” das ruas exigirá a transferência de

recursos que [

]

vêm sendo direcionados às grandes corporações, através de

parcerias

(Vainer, 2013). Com isto, começará uma guerra de

rapina, dentro da qual nós estamos inevitavelmente inseridos. Devido à apropriação dual, não existe dinheiro disponível para financiar o que o povo exige. O Estado brasileiro não possui base material para estender a cidadania válida para outros 40 milhões, ainda mais neste contexto de reacomodação burguesa mundial (disfarçada de “crise financeira mundial”). Com a “prosperidade lulista”, se agudizaram contradições bem assentadas no passado com clientelismos patrimonialistas. Uma nação dentro da Nação ascendeu à classe média, e quer ser reconhecida. Porém, Lula não tocou as bases do capitalismo subalterno. Conferindo liberdade quase total à inciativa privada, as cidades cresceram desenfreadamente, sem mais planejamento que a sede de lucro das empreiteiras. A isto se soma a voracidade do capital financeiro, que especulando sobre os imóveis, aumentaram seus valores num 150% em 3 anos. Instaurou-se no país uma crise urbana (Stedile, 2013), que ao adquirir grandes proporções, foi contrastada com os gastos para a Copa. O financiamento obsessivo à compra de carros, sem investimento no transporte público, se realimentou pela expulsão dos pobres à periferia, fomentado pelo programa Minha Casa, Minha Vida”, por ações diretas de “pacificação” ou “higienização” e, por fim, pela privatização da vida devido à precariedade do ensino público e ao incentivo governamental à privatização universitária (lojas de vendas de diplomas à prestação, onde estão 70% dos estudantes universitários) (Stedile, 2013). A formação paulatina de uma “crise urbana” é um elemento explicativo chave das mobilizações atuais. Por sua vez, se deve atentar para a construção do “sujeito politico” que emerge. A formação da jovem classe média aspirante à cidadania válida se insere no contexto da informatização dos sistemas de controle produtivo, e por extensão, da vida em geral.

Plataformas de interação virtual, e entretenimentos deste tipo, aparecem com um “tipo novo de socialização horizontalizada via meios eletrônicos”. Este aspecto da vida, “moderno”, “cosmopolita”, se vê constantemente contrastado, por um lado, pelas

queixas dos adultos devido aos “salários corroídos”, por falta de aumentos ou pelo

aumento dos impostos. Por outro lado, vivencia os constrangimentos e insuficiências existentes nos serviços país, destacando-se um sistema de saúde e educação

11 Agência Brasil, 31 de agosto de 2009. Brasil ganha na OMC direito de retaliar Estados Unidos por causa de subsídio ao algodão. Disponível: http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2009-08-31/brasil-ganha-na-omc-direito-de-retaliar- estados-unidos-por-causa-de-subsidio-ao-algodao. Exame.07 de maio de 2013. Com OMC, Brasil só ganha prestígio. Disponível: http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/com-omc-brasil-so-ganha-prestigio-mas-ha-espaco-para-mais

indignantes, e transportes caros e defasados. Porém, essa classe média nunca

superava o nível da “queixa”, visto que o povo politicamente mobilizado era a priori tachado de “bandidos, arruaceiros e saqueadores”. “O alvorecer da segunda quinzena de junho de 2013 veste o país de uma vontade contida” (Soares, 2013). Como se deu a explosão desta “vontade contida”?

4) Três momentos do despertar: eclosão, nacionalização e institucionalização- regionalização das Jornadas de Junho

A primeira interpretação geral era de um “aqui também”.” (Viana, 2013). “A oleada

de primaveras sociais [

...

]

havia chegado ao Brasil.” (Lucita, 2013). A classe média

sentia o Zeitgesit (espirito do tempo) marcado por mobilizações massivas centradas na ampliação de direitos, por maior igualdade; melhoras nos serviços públicos transporte, saúde, educação com a reorientação social do gasto público basta de infraestruturas faraônicas; de eliminar a corruptela e a blindagem que os políticos brindam aos corruptos” (Lucita, 2013). Porém, no Brasil este fenômeno está marcado por profundezas mais nefastas. A classe média tem mais sensibilidade por um indignado espanhol ou grego, que pelos negros da favela; sente mais o Zeitgeist cosmopolita do que o genocídio cotidiano acontecendo ao seu redor 12 . O valor que se atribui à vida do indivíduo está determinado pelo pertencimento à cidadania válida e não-validada. Se bem "a matriz das mobilizações que recorrem o mundo é similar” (Lucita, 2013), devemos remarcar esta especificidade. Esta jovem classe média assistia às mobilizações mundiais no conforto do lar, com aversão ao “politico” e ninguém se animava a dar o primeiro passo. Explicar “que os protestos foram causados pelo aumento de 20 centavos” é igual a dizer que “a Revolução Francesa se produziu porque, como é sabido, algumas padarias da zona de Bastilha haviam aumentado em uns poucos centavos o preço do pão.” (Boron, 2013). O foco estava lá, só não viu quem olha para a árvore e não vê a

floresta”. Dizia sábio chinês: “Uma fagulha pode incendiar uma pradaria”. Contudo, “não é a fagulha que explica o incêndio, mas as condições em que se encontrava a pradaria. A pradaria, como agora se sabe, estava seca, pronta pra incendiar-se. E o vento soprava de maneira intensa para espalhar o primeiro fogo.” (Vainer, 2013). O que explica as Jornadas de Junho, seguindo a metáfora, é o trabalho de “formiguinha” das organizações prévias, depositando a palha seca, o combustível, buscando uma faísca, que veio acompanhada do vento que espalhou o fogo. A iniciativa do MPL foi

12 A busca dos brasileiros por “ser europeu”

...

é,

nas origens da sociedade brasileira, o fato dominante e mais rico em

consequências.” Assim abre Sergio Buarque de Holanda (2002) seu célebre “Raízes do Brasil”

importante devido à falta de iniciativa do grosso da classe média jovem, que é despolitizada. Outras iniciativas já haviam se lançado anteriormente, sem o mesmo resultado. Os Comitês Populares da Copa e sua Articulação Nacional (ANCOP) contribuíram “de maneira marcante para construir uma consciência coletiva, mais generalizada do que se poderia imaginar, de que os megaeventos constituem um ônus insuportável para nosso povo, desviam recursos de setores prioritários e beneficiam os mesmos poderosos de sempre(Vainer, 2013). Não foram as iniciativas das organizações populares que geraram a “faísca”. Elas implantaram a “palha”. Contudo, o que explica verdadeiramente este incêndio, são as palhas ou a faísca? O contexto geral das Jornadas de Junhose formou a partir de três contrastes

prévios que se acumularam: 1º) “os constantes aumentos salariais de deputados e vereadores, ao tempo que se rechaçavam vergonhosamente os reclamos de funcionários públicos da saúde e educação.”; 2º) As obras do mundial, que prometiam inúmeros “legados”, se fizeram de modo igualmente vergonhoso, abundando denuncias sobre todo tipo de opressões, fraudes e abusos; 3º) A conclusão das obras em 2013 defraudaram todas as expectativas, com obras de acesso sem terminar, ao que se soma o aumento das tarifas 13 . A pesar dos protestos contra aumentos nos transportes virem acontecendo em escala ascendente desde março de 2013, o aumento em São Paulo veio justo no mesmo mês da Copa das Confederações: 1º de

junho veio o aumento, 15 de junho estreava a Seleção. “Si na segunda semana do mês as manifestações tomavam corpo, na terceira semana transbordarão em massivos protestos em todo o país. […] A 3ª e 4ª manifestação em São Paulo, nos dias 11 e 13 de junho, marcarão um momento de passagem.” (Ramalho, 2013c). A partir de então não havia mais duvida que as mobilizações tomariam um corpo multitudinário, com o que a polícia teve tempo de infiltrar seus “vândalos” nas manifestações. A realização dos Jogos da Copa não é um efeito secundário na conformação do contexto: neste momento de junho, “as bilionárias obras da COPA, por serem monumentos à insanidade”, contrastaram como nunca com a “precariedade dos serviços públicos” (Brigadas Populares, 2013). A covardia da polícia e a inconsistência da imprensa comprimiram ainda mais a situação. A deprimente resposta inicial da classe politica soou como uma provocação. O contexto geral que propiciou as Jornadas de Junho se compõe dos três contrastes da história recente mencionados, insertos como estão numa situação de “crise urbana”, somando-se as diversas organizações populares mobilizando coletivos para superar e denunciar insuficiências básicas nos setores mais humildes. Os

13 O “transporte coletivo é a forma mais direta e cotidiana de contato das pessoas com a exploração [

...

]

o aumento da

tarifa é a mudança da situação de abuso para a dimensão do insuportável” (Brigadas Populares, 2013); “O valor do

transporte é apenas a cabeça de um imenso iceberg” (Soares, 2013).

contrastes culminaram nos gastos públicos com a Copa, que não tocaram a crise urbana. A conjuntura específica formou um “coquetel” explosivo, a partir da insensibilidade dos políticos profissionais, da insensatez da policia militar e da incompetência da imprensa em descaracterizar as mobilizações como “distúrbios” de “vândalos”. Porém, a questão de fundo que se abre é outra. O que as Jornadas de Junho tocam de profundo é a necessidade de reacomodar politicamente as classes médias ascendentes economicamente. A impossibilidade do Estado em fazê-lo (isto sim, pela estrutura do capitalismo subalterno) deriva na luta atual pela profundidade desta reacomodação. A “crise de representatividade” atual se deu por uma ruptura no esquema subalterno: a exclusão de quem deveria estar incluído na cidadania válida, pois o acesso ao Estado, como vimos, se define economicamente. O cenário que se abre a principio, por tanto, pode ir das mudanças mais restritas às mais amplas. O colapso da representação” (Soares, 2013) põem em jogo “a própria concepção de representação política como única forma disponível de política(Machado, 2013). Porém, inclusive há quem se faça a perigosa pregunta, de se os partidos são indispensáveis na essência da democracia” (Arias, 2013a). Duas coisas de profundidade muito diferente se misturam no convulsionado contexto atual: a crítica ao sistema de partidos políticos e a crítica à representação política. A crise de representatividade explodiu nas ruas porque foi rompido o pacto político do esquema de capitalismo subalterno. Mas, na superfície, o que se evidencia é a caduquez dos partidos políticos profissionais existentes. Parecem que os “partidos ficaram velhos” e se “transformaram em meras siglas que aglutinam, em sua maioria, oportunistas para ascender a cargos públicos ou disputar recursos públicos para seus interesses.(Stedile, 2013). Não há como negar: “Hoje não parece haver qualquer partido com legitimidade e capacidade política e organizacional para conduzir o processo.” (Vainer, 2013). Com “a mesma velocidade com que o PT (e também o PC do B!) perdiam credibilidade”, se verificava a “ausência de uma esquerda com protagonismo de massas (PSOL, PSTU, PCB e POC)(Ouriques, 2013). O governo tecnocrático do PT também apareceu como caduco, pois sua politica de alianças desenfreada o tornou insensível à necessidade de reacomodação da estrutura politica, devido à mudança na estrutura socioeconômica. Esta crítica ao PT, por mais que ele minimize os fatos, dizendo que esta é uma “típica crise de crescimento”, abre também um cenário de mudanças das mais restritas às mais amplas: ele tentará reacomodar a situação da maneira menos dolorosa; porém, a “crise da representatividade” desnudou a crítica profunda ao partido, o abandono àqueles que o elegeram. Foi aquela “onda ascendente de lutas populares que fizeram possível o triunfo de Lula em 2002.” (Boron, 2013). “Nosso povo, insatisfeito com as medidas neoliberais, votou a favor de

outro projeto.” (Sindicatos, 2013). “O quietismo posterior [

...

]

criou a errônea impressão

de que a expansão do consumo dum amplo estrato do universo popular era suficiente para garantir indefinidamente o consenso social.” (Boron, 2013). “Ora, quando o PT

[

...

]

abandou a luta contra a ordem, descartou seu currículo na esquerda [

...

]

[ele]

eliminou as esperanças de milhões em transformar o país.” (Ouriques, 2013). Para a parte politizada da sociedade que saiu às ruas, as reivindicações são na verdade um grande NÃO à Onda Conservadora que assola o país.” (Brigadas Populares, 2013). “A rua brasileira está enviando uma profunda mensagem, não só ao governo de Rousseff, mas sim ao conjunto dos governos progressistas da região: a passividade chegou ao seu fim. Logo de uma década de excelentes preços

internacionais para as exportações e de una evidente bonança econômica [

...

]

muito

pouco mudou. Particularmente, não há mudanças estruturais.” (Zibechi, 2013). A base eleitoral politizada do PT “não está disposta a seguir deixando-se chantagear pelo fantasma da direita.” (Zibechi, 2013).

5) História em Marcha pelas Fases de Junho: o que é sólido desmancha no ar

As Jornadas de Junho passaram por três fases: primeiro se desencadeou “o protesto em São Paulo, fruto das organizações previas”; logo, este protesto se nacionalizou e despertou um amplo conflito ideológico; em seguida, a partir da resposta da Presidenta, “o PT conseguiu institucionalizar os reclamos e assim recompor a dominação burguesa”, regionalizando as mobilizações que seguem mês de julho adentro (Ramalho, 2013c). A partir de então, inclusive Lula passou a convocar suas organizações populares adictas, UNE e CUT, ausentes em junho 14 . No dia 11 de julho celebrou-se uma “greve geral nacional”, à qual se somaram setores sindicais 15 , alcançando quase todos Estados da União e paralisando 36 estradas em 17 estados 16 . Ainda na sua segunda fase, quando os protestos se nacionalizaram, convergiram à rua “gente despolitizada que protesta contra conceitos abstratos como a corrupção” (Viana, 2013) e quem colocava os reclamos em termos práticos: pediam financiamento público de campanha, a revisão dos contratos da Copa e o fim da Lei da Copa.” (Machado, 2013). Os debutantesrechaçavam toda bandeira vermelha, confundindo apartidarismo com anti-partidarismo (Ramalho, 2013c), e reprimiam estes manifestantes, ou quem atacasse símbolos da FIFA ou empresas que a financiam.

“Em nossa leitura, atitudes assim são equivocadas e adoradas por nossos inimigos.

14 Jornal Digital Brasil

247.

27

de junho

de 2013.

Lula convoca movimentos sociais para ir às ruas. Disponível:

Sindicatos prometem parar o Brasil. Site Terra, 10/07/13. http://noticias.terra.com.br/brasil/infograficos/greve-geral/
16

[

...

]

O grande medo dos inimigos é a situação de combatividade que se iniciou em São

Paulo e nasceu nas demais capitais.

[

...

]

porque ousa desmantelar a disciplina

...

(COMPA, 2013). Por tanto, ficaram evidentes os desencontros. Si bem é bastante ingênuo culpar a FIFA, e não os governos que tão bem a receberam, assim como as empresas que pressionaram ao governo para tanto, também é ingênuo pensar que toda manifestação deve ser “pacífica”: “o patrimônio só é verdadeiramente público se o povo puder usufruir plenamente do seu uso, inclusive para decidir por sua destruição, tal como hoje destroem a vida” (Mayer, 2013). Estes desencontros são normais de uma jovem classe média que teve em junho seu “batismo” político. Não seria tão problemático se os conservadores não tivessem desencadeado uma batalha pelos

sentidos das mobilizações. Produziu-se um desgaste que freou a potencia das

marchas. Este foi um limite do segundo momento das Jornadas de Junho. A tarifa voltou ao valor anterior e o “transporte desapareceu como tema, justamente quando se

poderia entrar no [

]

problema dos oligopólios do transporte” (Viana. 2013).

... Já os limites do terceiro momento estarão na força do “pacotão” de medidas da

Dilma, visto que “as concessões possivelmente pacifiquem certos componentes do movimento”. (Gerbaudo, 2013). Em cidades menores, e nas periferias das grandes cidades, já começam a ter manifestações com bandeiras de reivindicações bem localizadas.” (Stedile, 2013). Longe de ser um fracasso, esta regionalização pode ser

um beneficio. No geral, “as instituições seguem na defensiva” e a “rua segue sendo o lugar eleito por boa parte dos jovens para ser escutados.” (Zibechi, 2013). A partir desta terceira fase, as conquistas populares serão evidentes. As pessoas entenderam a mensagem: a luta e a pressão permitem conquistas que pareciam impossíveis na véspera.”. Foi rompido o “ceticismo de muitos que não acreditam na possibilidade de mudanças” (Vainer, 2013). O ensaio geral foi bom”: o “povo que redescobriu as possibilidades do protesto na rua.” (Ouriques, 2013). Finalmente, a esperança está vencendo o medo.

Este é o primeiro sentido da “institucionalização” do protesto, nossa “grande

oportunidade” (Boaventura, 2013): “que o processo político incorpore ou considere o plano da rua” (Viana, 2013). No Brasil, as reivindicações justas dos setores sociais são sistematicamente ignoradas. A manifestação popular, o protesto, deverão ser componentes da vida política do brasileiro de agora em diante: “o tempo da política está sendo reinventado. Deixou de resumir-se ao ciclo eleitoral” (Soares, 2013). “É o começo de algo novo. […] Hoje o real é a rua, e aí se joga o futuro.” (Zibechi, 2013). Frente às mobilizações, depois de umas semanas, Dilma respondeu à altura dos acontecimentos: “saiu a discursar, anunciando um Plano Nacional de Mobilidade Urbana e a destinação dos royalties do petróleo à educação; convocou, em seguia,

aos movimentos sociais, e por fim governadores e prefeitos de capitais, onde propôs

cinco pontos, entre eles a convocatória de uma Assembleia Constituinte para a Reforma Politica a partir de um referendo popular. Com este “pacote” o PT consegue institucionalizar os reclamos e assim recompor a dominação burguesa, ao dar margem de negociação tanto para esquerda como à direita, compondo ademais a agenda dos movimentos sociais (pressionar e apresentar propostas para um Plano de Mobilidade e a Reforma Política). Porém, agora também aparece vinculado o futuro da reforma política, com a sorte do PT.” (Ramalho, 2013c). “O tempo dirá se as reformas chegam a concretar-se e, sobretudo, se bastam.” (Zibechi, 2013). Por agora, comecemos entendo as limitações que encara a Presidenta. O mais importante é que o governo admitiu ter se distanciado dos setores populares. Dilma disse em seu discurso inicial: vou receber os líderes das manifestações pacíficas, representantes das organizações de jovens, das entidades sindicais, dos movimentos de trabalhadores, das associações populares.Ora, ao dizer que vai receber, ela admite que não tem recebido(Vainer, 2013). Não por acaso, a primeiro “pacto” é destinado a garantir a “responsabilidade fiscal”, ou seja, “uma cláusula de segurança que afirma a decidida disciplina”. Nada aponta para uma mudança de rumo radical do governo nacional. Porém, tampouco é certo que os defensores do governo” admitem “no máximo” um “descontentamento” e certo “desgaste natural”, passados dez anos no poder (Ouriques, 2013). Pelo contrario, entendem sim o desgaste do “pacto de classe encabeçado pelo PT, Lula e Dilma (latifúndio, capital comercial, capital produtivo nacional e estrangeiro, capital financeiro e os fundos de pensão)”. Ou seja, se admite a necessidade duma “reconfiguração” politica, mas não econômica. Temos que atar a sorte do PT com a profundidade da Reforma Política, através de uma agenda estratégica. A estrutura política da dominação burguesa no Brasil sofrerá uma alteração, resta ver o grau. “O protesto social e o aprofundamento da crise econômica mudaram o confortável cenário eleitoral

então existente para as classes dominantes e seus partidos

...

(Ouriques, 2013).

Os cinco pontos apresentados pela Dilma são apenas o “cardápio” com o prato principal. Ainda está por vir. Por agora, sucedem em Julho inúmeras manifestações, assembleias, ocupações de espaços e edifícios públicos (Funarte, câmaras municipais de Belém, BH, Santa Maria (RS) e Porto Alegre), assim como se destravam lentamente antigos conflitos laborais, inclusive dentro das forças policiais. Na sua reunião com governadores e prefeitos, ao pedir agilidade para concluir as obras de acesso, Dilma os colocou contra a parede, pois terão de aparecer com dinheiros que já foram gastos. Por sua vez, sabemos que os investimentos para um “grande” Plano de Mobilidade Urbana “não cabem no Ministério da Fazenda” (Ouriques, 2013).

A possibilidade de criar as condições para um ganho qualitativo está dada. Várias são as vitórias já conquistadas. Não por acaso foi em Goiânia onde o passe livre (estudantil) foi aprovado inicialmente 17 . Contra a parede, o Congresso Nacional aprovou seis projetos em duas semanas, como parte da "agenda positiva" para atender ao "clamor das ruas": a PEC 37, que antes dos protestos caminhava para ampla aprovação na Casa, foi derrubada por 430 votos contra nove; “aprovaram as

novas regras de rateio do Fundo de Participação dos Estados (FPE) e o projeto que

prevê

o

uso dos royalties do petróleo para

a Educação [

...

]

incluído no texto um

porcentual para a Saúde, outra bandeira imposta pelas ruas.” Aprovaram também “o

projeto que dá transparência na divulgação das planilhas que definem o valor das

tarifas.” 18 Aí, a coisa começa a complicar-se. Esta “transparência” foi seguida da redução do imposto “PIS/Pasep sobre o transporte coletivo municipal”. Os políticos

profissionais estavam dando de um lado (redução das tarifas), mas tirando do outro (com isenção de impostos). Aproveitaram para extinguir “a multa adicional de 10% do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) para demissões sem justa causa” 19 . A proposta de transformar a corrupção em crime hediondo, parte do “pacto” da reforma política acordado pela Dilma, já foi vetada em duas comissões da câmara dos deputados 20 . Porém, a classe politica cometeu um lapso. A “transparência” nas planilhas de custos das empresas de transporte público abre outra caixa de pandora.

Reabriram a discussão sobre o monopólio dos transportes. Concessionários de ônibus de Belo Horizonte já abandonaram o País. Queriam evitar uma CPI na Câmara de BH, pois Minas Gerais é o “paraíso das concessionárias de ônibus” 21 , quando foram atacados pelo projeto de transparência. Ainda em BH, o prefeito Lacerda, em reunião

com os ocupantes da câmara, tratou de dissimular, aludindo ao "Zeitgiest”, como se ele não tivera culpa pelos reclamos, pois manifestar-se era o “espírito do tempo” atual.

6) O cenário que se abre: Luta de Classes no Brasil

“Tenham cuidado não só com os inimigos, mas também com falsos amigos que fingem nos apoiar e fazem de tudo para diluir nosso protesto. Da mesma maneira que compramos café sem cafeína, cerveja sem álcool e sorvete sem gordura, eles tentarão transformar isto aqui num protesto moral inofensivo.” (Zizek, 2012).

Nem sempre é fácil identificar o inimigo comum, à primeira vista. No “século XVIII, os trabalhadores indignados e sem saber identificar seus reais exploradores

  • 17 O

Globo.

G1.

Vereadores

de

Goiânia

aprovam

passe

livre

estudantil

em

votação.

Disponível:

Estado

de

São

Paulo.

Disponível:

Jornal.

8/07/13

Concessionários

de

ônibus

de

BH

abandonam

o

pais

Disponível:

insurgiram contra as máquinas” (Costa, 2013). Como “a própria juventude mobilizada,

por sua origem de classe, não tem consciência de que está participando de uma luta”, tampouco entende a “disputa ideológica permanente da luta dos interesses de classes.” A burguesia “tem um grande objetivo: desgastar ao máximo o governo

Dilma”, e “derrotar qualquer proposta de mudanças estruturais. [

...

]

Às vezes provocam

a violência, para desfocar os objetivos dos jovens. Às vezes colocam nos cartazes dos jovens a sua mensagem.” Através de suas televisões usaram “a tática de assustar o povo colocando apenas a propaganda dos baderneiros e quebra-quebra” para imputar no imaginário da população que isso é apenas bagunça, e no final se tiver caos, colocar a culpa no governo” (Stedile, 2013). “Virar as classes populares contra o

partido e os governos que, em balanço geral, mais têm feito pela promoção social delas era a grande manobra da direita, e parece ter fracassado” (Boaventura, 2013). Enquanto vivermos num mundo capitalista, a luta de classes será o fator essencial que pauta a estrutura da sociedade. A ideologia dominante é a ideologia da classe dominante. A Rede Globo não apenas projeta um mundo fictício através de suas mensagens como, ela também, é envolvida pela mistificação que produz. Por incrível que pareça, a Rede Globo acredita na Rede Globo. Os marqueteiros acreditam em sua marquetagem política e social. E não conseguem conectar-se e compreender o mundo que escapa a suas construções imagéticas e suas mitologias.” (Vainer, 2013). Junho desnudou “sinais da direita muito bem articulada”, “grupos direitistas organizadoscom seus serviços de inteligência, que usam a internet, se escondem

atrás das máscaras e procuram criar ondas de boatos e opiniões [

]

De repente uma

... mensagem estranha alcança milhares de mensagens. E ai se passa a difundir o resultado como se ela fosse a expressão da maioria.22 (Stedile, 2013). “Estes infiltrados do “conservadorismo” têm medo do povo pobre. Eles não sonham nossos sonhos.23 (Ouriques, 2013). A “presença de policiais infiltrados incitando a violência para justificar uma posterior ação que visa dispersar a manifestação” (COPAC-BH, 2013), não é apenas o fato mais odioso do comportamento policial. É a sua estratégia: “se alinhando estrategicamente para conquistar os manifestantes” (COMPA, 2013), ao tempo que infiltravam policiais para atiçar os mais exaltados a praticar atos de violência. Em BH esta ação é comprovável pelos inúmeros vídeos do dia 22. “Ninguém morreu, mas isto foi sorte.” Sorte que não se repetiria dias depois. Contudo, ficou calara a “inacreditável a facilidade com que se defende a violência

22 Em São Paulo atuaram grupos fascistas e leões de chácaras contratados. No Rio de Janeiro atuaram as milícias organizadas que protegem seus políticos conservadores. E claro, há também um substrato de lumpesinato que aparece em qualquer mobilização popular, seja nos estádios, carnaval, até em festa de igreja tentando tirar seus proveitos.”

23

As organizações participantes do “Fórum Social Mundial se distanciaram dos grupos fascistóides infiltrados nos protestos e das forças políticas conservadoras” (Boaventura, 2013); para isto “é preciso uma organização bastante forte, uma grande disciplina e liderança. Ou seja: movimentos sociais constituídos, partidos e sindicatos” (Viana, 2013).

institucionalizada neste país, e impressiona que a imprensa sequer questione os dados oficiais da PM” (Machado, 2013).

O que provocou a violência foi a “forma de intervenção da Policia Militar.” Não por incompetência, mas por competência. “A PM foi preparada desde a ditadura militar para tratar o povo sempre como inimigo. E nos estados governados pelos tucanos (SP, RJ e MG), ainda tem a promessa de impunidade.” (Stedile, 2013). “As PMs são incompatíveis com a democracia porque estão organizadas à semelhança do Exército

[

]

A introdução de vândalos e de policiais no meio das manifestações criando o efeito

 

]

Passeatas, greves, plebiscitos

são formas legítimas de manifestação popular e criar clima de medo é criar a anti-

democracia – é reviver mito de classes perigosas” (Soares, 2013). Na esfera da “crise de representatividadeentra também a crítica à falta de civilidade da PM, a crítica a sua formação interna. A maior conquista cotidiana das Jornadas de Junho poderá ser “civilizar” a policia, ao menos reduzindo seu militarismo. Não é um caso menor, na luta de classes, saber contra quem se está lutando. "Precisamos explicar para o povo quem são seus principais inimigos. Primeiro:

“Enfrentar a burguesia rentista, deslocando os pagamentos de juros para

investimentos em áreas que resolvam os problemas do povo.” (Stedile, 2013). É preciso frear aos especuladores imobiliários, como base para, pelo menos, deixar de agudizar a crise urbana. A grande imprensa desvia a atenção destes nomes, com caras e bundas, pão e circo, culpando o próprio povo por seus protestos, ou ao governo do PT por tudo que acontece. "É hora do governo aliar-se ao povo ou pagará a fatura no futuro". Nosso desafio imediato é manter o ânimo das ruas. Devemos ir todos para as ruas disputar corações e mentes para politizar essa juventude que não tem experiência da luta de classes. [ ] ... A juventude está de saco cheio dessa forma de fazer política burguesa, mercantil". Neste momento é importante “Manifestar-se, colocar as bandeiras de luta de reformas que interessam ao povo, porque a direita vai fazer a mesma coisa e colocar as suas

bandeiras conservadoras, atrasadas [

]

E quem não entrar, ficará de fora da história.

[

...

]

...

]

que

estudam e trabalham no setor de serviços, que melhoraram as condições de consumo,

mas querem ser ouvidos.” (Stedile, 2013). A classe trabalhadora não foi para a rua em junho, e está se somando ao contexto timidamente, limitada por suas disputas anteriores, sequestrada pelos sindicatos e norteada por conquistas economicistas.

O “número de greves por melhorias salariais já recuperou os padrões da década de 80.” (Stedile, 2013). Em 2008 os trabalhadores fizeram 411 greves, número que subiu para 518 em 2009” chegando a 873 greves em 2012, “nas quais 95% delas os

trabalhadores conquistaram reajustes acima da inflação, ainda que em percentuais muito pequenos. Enfim, o ativismo sindical voltou forte em função do alto custo de vida, a despeito da posição despolitizante das centrais sindicais em termos políticos. Enfim, para quem acompanha o sonolento e oficialista movimento sindical, bastaria perceber a retomada do ativismo sindical (economicista) para verificar que algo já havia mudado no chão da fábrica.” (Ouriques, 2013). Contudo, as “organizações que fazem a mediação com a classe trabalhadora ainda não compreenderam o momento e

estão um pouco tímidas.” (Stedile, 2013). Por sua vez, do lado camponês, o principal intelectual do MST é claro: “Na nossa militância está todo mundo doido para entrar na briga e se mobilizar.” (Stedile, 2013).

O desencadeamento destas “disputas sociais não cabem no modelo político”

(Brigadas Populares, 2013). De imediato, a juventude demonstrou que não é apolítica,

levando “a política às ruas, mesmo sem ter consciência do seu significado.” Porém,

sua mensagem foi clara: “não aguentam mais assistir na televisão essas práticas

políticas, que sequestraram o voto das pessoas, baseadas na mentira e na

manipulação.” Os partidos da esquerda institucional, todos eles, se moldaram a esses

métodos. [

...

]

Envelheceram e se burocratizaram.Eles terão de reaprender como

realizar seu papel, que “é organizar a luta social” (Stedile, 2013). O mais difícil para

eles, criados no dogma vanguardista, será entender seu papel de coadjuvantes, centrando sua contribuição nas tarefas de articulação (Vainer, 2013). “A incapacidade da esquerda de fazer alianças com seus pares e, desse modo, oferecer uma agenda crível às angústias e anseios da cidadania, pavimentou o

caminho para o despontar de visões e concepções regressivas” (Carta Maior, 2013). A

tendência na esquerda ainda se contém em “

...projetar

nossas categorias e nosso

modo de pensar sobre os fatos novos para descrevê-los exorcizando o que neles é

novo [

]

Projetar o velho sobre o potencialmente novo apenas confirma nossas

crenças [

]

domesticando a diferença e anulando sua força questionadora. Em outras

 

”.

É

preciso, por tanto, “desnaturalizar as imagens já formadas, inclusive porque, nesse campo, toda interpretação é também intervenção” (Soares, 2013). “O quebra-cabeças está sobre a mesa e ninguém se atreve hoje a adiantar sua solução” (Arias, 2013a). Estamos construindo nossa “ideia de democracia” 24 (Costa, 2013). Abre-se um panorama de novas e grandes possibilidades de avanços e

conquistas para os movimentos populares. [

...

]

Há que aproveitar a conjuntura atual,

24 “Qualquer mudança nos ameaça, porque traz consigo a fantasia de que nosso mundo pessoal, tão precário e incerto,

está em risco [

...

]

Como sabemos, reformar faz barulho. Tumultua. Não tem jeito.” (Soares, 2013). Porém, fazer uma

reforma (de uma casa, para seguir a metáfora), sem o projeto final, que nos diz como ficará a casa depois de tanto

quebra-quebra, seria “cair num vazio”, puro aventureirismo que uma pessoa, dependente da casa para morar com sua família, não se arriscaria jamais.

explicitar as pautas nacionais e, em cada cidade, cada bairro, cada local de trabalho, explicitar e exigir o atendimento às pautas locais.” (Vainer, 2013). Com respeito ao governo federal, a necessidade de fundo está em pressioná-lo

para “cortar juros e deslocar os recursos do superávit primário, [

...

]

que todo ano vão

para apenas 20 mil ricos, rentistas, credores de uma dívida interna que nunca fizemos, e deslocar para investimentos produtivos e sociais.” É esta questão de fundo “que a luta de classes coloca para o governo Dilma: os recursos públicos irão para a burguesia rentista ou para resolver os problemas do povo?” (Stedile, 2013). A forma de encaminhamento político destas pautas ao governo está na pressão por reformas estruturais: reforma política, tributária, educacional, urbana, agrária e informacional.

Pressionemos por um “regime de urgência para que vigore nas próximas eleições uma reforma política de fôlego, que no mínimo institua o financiamento público exclusivo da campanha.” O financiamento é o ponto nodal da questão política.

Ademais: Precisamos de uma reforma tributária que volte a cobrar ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) das exportações primárias, penalize a

riqueza dos ricos e amenize os impostos dos

pobres...”.

Sem isto não há real

“democracia”, pois, relativamente, no Brasil quem tem menos paga mais impostos. Precisamos que o governo suspenda os leilões do petróleo e todas as concessões

privatizantes de minérios e outras áreas públicas. De nada adianta aplicar todo

royalties do petróleo em educação, se os royalties representarão apenas 8% da renda petroleira, e os outros 92% irão para as empresas transnacionais” É preciso voltar à

consigna: “Garantir logo a aplicação de 10% do PIB em

[

...

]

educação”. Para uma

reforma urbana estrutural, é imprescindível “controlar a especulação imobiliária”, e ao

mesmo tempo, “Criar mecanismos para investimento pesados em transporte público,

que encaminhem para a tarifa zero. [

...

]

Já está provado que não é caro e nem difícil

instituir transporte gratuito para as massas das capitais.” Realizar de fato uma “Reforma Agrária e um plano de produção de alimentos sadios para o mercado interno.” Por fim, “Encaminhar a aprovação do projeto de democratização dos meios

de comunicação. [

...

]

Para acabar com o monopólio da Globo e para que o povo e

suas organizações populares tenham ampla acesso a se

comunicar...”

Isto somente

acontecerá se a classe trabalhadora se mover. [

...

]

Sem isso, haverá uma decepção, e

o governo entregará para a direita a iniciativa das bandeiras, que levarão a novas

manifestações visando desgastar o governo até as eleições de 2014.” (Stedile, 2013). A Presidente prometeu um plano nacional de mobilidade urbana. Sendo certo que as concessionárias de transportes são fortes financiadoras das campanhas eleitorais, tais problemas nunca serão resolvidos sem uma reforma política profunda.” Por tanto é importante manter viva a manifestação e criar daí mecanismos de “maior participação

e controlo cidadão”. Mesmo ciente da situação, “só muito pressionada” a Presidente

se envolverá em tal reforma. Está em vésperas de eleições, e ao longo do seu

mandato conviveu melhor com a bancada

ruralista...”.

A reforma do sistema político

envolverá os sectores políticos das esquerdas institucionais e os movimentos e organizações sociais mais lúcidos(Boaventura, 2013). Um programa máximo estaria composto pelas reformas estruturais que buscamos na sociedade, dentro dos marcos da sociedade burguesa: reforma politica, tributária, agrária, urbana e comunicacional. A correlação de forças atual impossibilita o alcance de todas estas conquistas no curto prazo. Por isto devemos construir um programa mínimo, ancorado na estratégia das consignas transitórias que se desenvolvem permanentemente. O programa mínimo estaria composto, neste contexto específico, pela luta concreta por conquistas regionais de curto prazo, que possibilite o desenvolvimento das organizações populares, consiga sensíveis melhoras parciais e debilite os flancos clientelistas e empresariais em que se apoia o poder político da direita. O ponto de convergência, entre cada um dos vários programas mínimos regionais, é a elaboração de uma proposta de reforma política detalhada, apresentada em formato de projeto de lei diretamente aplicável, classificando nossas prioridades dentro desta reforma, para defendê-las na luta de classes que serão as negociações para sua implementação, destacando-se o financiamento das campanhas. Outro ponto de convergência entre os programas mínimos é a classificação das prioridades para a implementação dum Plano de Mobilidade Urbana em cada região. Ao mesmo tempo em que cada localidade tem suas urgências específicas, quanto à mobilidade urbana, da integração das diversas organizações populares deve surgir uma série de prioridades unificadas para este plano. Outra conquista comum que integra um programa mínimo é a civilizaçãoda Polícia Militar, instituição regida não nacionalmente, mas sim por cada Estado da União. A agenda estratégica estaria composta, por tanto, pelo desenvolvimento cotidiano da luta regionalizada, que sem embargo converge na discussão duma reforma politica total e das prioridades para um plano de mobilidade urbana. O PT conseguiu pautar a agenda dos movimentos sociais com o pacote de medidas adotadas. É uma briga que nós temos que comprar! Façamos a melhor agenda para reverter o jogo. Se a Dilma jogou a bola para cima, pra ver quem vai pegar, vamos passar a bola de volta pra ela. Entreguemos em mãos um programa de reforma política completo, exigindo a sua aplicação. A resposta posterior do governo, no mínimo evidenciará de que lado estão no final das contas. Por tanto, se as medidas da Dilma conseguiram, por um lado, pautar a agenda dos movimentos sociais, por outro, possibilita o alavancamento destes mesmos movimentos. O PT não gerou esta

conjuntura inconscientemente. Só não está claro com qual consciência a guiou. De toda forma, o futuro próximo nos dirá. Certo é que esta conjuntura aberta pode debilitar a direita como opção política. Depende da esquerda, de toda a esquerda.

7) Para uma Construções Coletiva Emancipadora: tempos de luta

A articulação entre o que se propõe para a sociedade como um todo, e o que se constrói internamente, é o que abre o caminho para a emancipação humana. Para isto são necessárias muitas coisas. Primeiro de tudo, está o aproveitamento da acumulação histórica existente: “a história tem fios”. “Os brasileiros sempre tiveram que lutar arduamente por sua cidadania. Sem recuar muito no tempo, basta retornar

ao final dos anos 70

”,

para ver o movimento contra a carestia, “grandes levantes nas

... ruas para fazer retornar a democracia no Brasil”, o nascimento do MST, da CUT e do

PT (ainda como partido de base), e passado o infame neoliberalismo, a partir da “luta dos trabalhadores brasileiros, é forçoso reconhecer que nem todos os setores estratégicos foram privatizados; que muitas reformas conservadoras, como a trabalhista e sindical visando destruir direitos não prosperaram, o sindicalismo mantém suas greves, ainda que setoriais. A luta pela redução da jornada de trabalho entrou na pauta assim como a regulamentação dos direitos dos trabalhadores domésticos. Há pontos de resistência a registrar, portanto. O conservadorismo na política persiste. Porém, há uma reacomodação de tais partidos como aliados de partidos com tradição de esquerda ou centro-esquerda, que tentam diminuir a desigualdade social, ainda que seus métodos possam ser objeto de críticas.” O Estudo da historia da organização do trabalho, e a consequente resistência dos trabalhadores a estas novas formas de expropriação, é a chave para o entendimento da forma de organizar o movimento social contra esta exploração. Como se dava a resistência dos trabalhadores no período em que a organização do trabalho se pautava pelas práticas reguladas pela

gestão fordista/taylorista?” Estas deverão ser outras daquelas contra as “tentativas de captura da subjetividade dos trabalhadores frente ao toyotismo”. Por sua vez, valores como o “empreendedorismo” e demais “incentivos ideológico-comportamentais difundidos” por toda a sociedade, derivam desta forma de organização toyotista do

trabalho. “Proporíamos, aqui, uma certa forma de olhar aquilo que parece ser um ”

processo tênue de enfrentamento dos trabalhadores

...

(Costa, 2013).

As novas formas de participação põem em xeque os antigos modelos de

organização e militância. A participação democrática que buscamos exige um modelo de organização e um modelo de militância profundamente diferente.

Coerente com esta forma de militância deve ser desenvolvida a forma de organização. A forma adequada de organização politica do movimento popular deriva

da forma de organização do trabalho mais avançada. A proposta de organização dos oprimidos deve conseguir subverter os dispositivos de (auto)disciplinamento implantados pelo toyotismo. Os elementos particulares que compõe a organização interna dos movimentos populares são construídos ao caminhar; não há como adiantar

uma estrutura suficiente para cada “situação”.

Contudo, características gerais envolvem os diferentes coletivos em sua construção

emancipatória. A superação da colonialidade nos indica que nossa “revolução” tem muito mais a ver com o quilombo, com o “ayllú” e o camponês, do que com a “greve

insurrecional de massas”, ou formas clássicas europeias de resistências e levantes. A autogestão deve ser encarada como todo um parto, um nascimento inovador, mas sem desvincular-se destas raízes profundas latino-americanas. Frente ao delírio

que se converteu a economia capitalista, e sua “ciência” econômica, devemos opor a

autogestão como novidade que vincula o passado e futuro na atualidade. Mesmo muito insuficientes, as experiências de autogestão vêm demostrando os princípios

constitutivos do “outro mundo possível”: que a regulação social esteja fundamentada

na solidariedade e não na competição; que o intercâmbio se baseie na reciprocidade e não na lei do valor; que a finalidade da produção é o bem estar e não o lucro; que os

fins não justificam os meios, senão que os meios determinam a qualidade dos fins conseguidos, ou seja, o processo é mais importante que seu resultado. Por fim, a assembleia deve ser encarda como modelo de gestão, a forma de estruturar os vínculos pedagógicos dentro da construção coletiva, para produzir consensos desde o dissenso. O modelo de gestão assambleário (Ramalho, 2012b) aponta para o aprofundamento do toyotismo, compondo sua forma de gestão fabril superadora. Se é certo que as assembleias são um meio, também é certo que são os meios que definem ao fim que se pode conseguir. De isto se trata toda a nossa nova construção popular: os fins não justificam os meios, pelo contrario, são os meios usados que determinam a qualidade do fim alcançado. A mediação generalizada das relações sociais pelo valor de troca, no capitalismo, é o cerne da exploração e da alienação. O

que se trata de subverter, por fim, é este “meio”, o valor de troca, enquanto reificação das relações humanas. Em vez da necessidade de uma mediação para tornar social o trabalho concreto, devemos superar esta mediação num sistema social onde o

trabalho de cada um seja imediatamente social. O “meio” se torna o “fim”. Dinheiro Público é para o Bem Público! Não é pra FIFA enriquecer, nem pro PT ou pro PSDB se reproduzir no poder! Tarifa Zero! Despejo não: saúde e educação.

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