GREGÓRIO DE MATOS: TRADUÇÃO OU PLÁGIO?

MARILURDES ZANINI UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ – UEM/BRASIL Resumo

Gregório de Matos: tradução ou plágio? Trata-se de parte da tese de doutorado Gregório de Matos: tradução e plágio – uma nova visão, apresentada à Universidade Estadual Paulista – UNESP, em 1991. A tese realiza um estudo comparativo dos poemas gregorianos apontados, na bibliografia consultada, como plágio, paráfrase, paródia, imitação ou tradução dos poetas espanhóis Quevedo e Gôngora, e dos portugueses Sá de Miranda e Camões. No trabalho, são analisados, comparativamente, um a um, os 44 poemas que se encontram sob as acusações descritas. Ao final, levandose em conta tabelas estatísticas, considera-se a obra do poeta brasileiro, quanto à sua originalidade ou não. Aqui, resgatam-se alguns aspectos teóricos e apresentam-se poemas enquadrados em cada um dos casos, os quais são analisados e concluídos de acordo com a teoria que orientou a tese, ou seja, uma crítica textual, ancorada na filologia, e chega à abordagem lingüística de tradução, conforme Catford, Delille, entre outros. A partir daí, vale-se, também, da crítica literária.. Trata-se, pois, de um crítica textual que dá ao leitor uma nova visão da prática poética deste poeta tão importante quanto polêmico da Literatura Brasileira. Introdução

Gregório de Matos: tradução ou plágio?, parte da tese de doutorado Gregório de Matos: tradução e plágio – uma nova visão, apresentada à Universidade Estadual Paulista – UNESP, em 1991, realiza um estudo comparativo de 44 poemas gregorianos apontados, na bibliografia consultada, como plágio, paráfrase, paródia, imitação ou tradução dos poetas espanhóis Quevedo e Gôngora, e dos portugueses Sá de Miranda e Camões. Orientada pela crítica textual com bases filológicas, pela teoria da tradução de Catford, Delille, Arrojo e Barbosa e pela crítica literária, a tese, apoiando-se em conceitos estatísticos, critica cada um dos 44 poemas do brasileiro, bem como a sua obra, quanto à sua originalidade ou não. Neste trabalho, resgatam-se alguns aspectos teóricos e a apresenta-se um poema correspondente a cada uma das acusações. Dessa forma, cada um dos quatro poemas aqui criticados se apresenta com o seu texto crítico e, dada a natureza deste trabalho, já se realiza o cotejo com a respectiva

IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA

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em princípio aparentemente lingüística. representativos de cada um dos volumes em que se organiza a obra de Gregório de Matos. São desse poeta os poemas criticados nos respectivos contextos. através dos tempos. não perde de vista a filologia e a teoria literária. mesmo porque se concretiza pela palavra trabalhada. Graciosa: Satírica I e II. (Teixeira. incongruente e exótica.análise. cioso do aprumo que o distingue daquele meio promíscuo” (Teixeira. parelhando a decadência física com a própria decadência da sociedade da Bahia do século XVII. de desarmonioso crescimento. envolvendo. cit. que aborda as práticas de recensão e correção. que nasceu Gregório de Matos e Guerra. primitiva. a análise. O poeta e sua obra “Foi nessa Bahia colorida. É assim que é vista a obra do “elegante Doutor Gregório de Matos e Guerra. Isso porque. costumes e normas. não se registra aqui a etapa da crítica textual. revela mais fortemente tais características. no segundo século da existência do Brasil. 1972:12). do mais IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA 2 .: 87). de um tempo. já que ele falava de tudo e de todos. no alvorecer econômico e social da colônia. A obra literária. das várias circunstâncias e situações. a principal expressão literária nacional de sua época. à luz de um momento. Portanto. Assim. de acordo com a sua temática: Sacra. o seu estilo e a sua época. modelos. todo texto se revela dinâmico e dotado de essência – idéias. foram selecionados quatro poemas. Sobre os poemas Para este trabalho. o primeiro poeta que revelaria em seus versos autêntica brasilidade. feita na tese. op. já que toda obra de arte traz em seu bojo reflexos de uma sociedade. rompendo com o convencional e perpetuando. São poemas que incorporam a sua própria postura de vida. portanto. distinto nas maneiras. procurando não deixar-se levar por paixões ou emoções. Esses volumes agregam os poemas. Cuidados que o poeta foi deixando de lado. conforme a edição da Academia Brasileira de Letras – ABL (1929/1933). Lírica. como orienta Coutinho (1987). por ser literária. de um lugar. por mais que se tente criticar a forma – matéria. apurado no trajar.

desbocadas. nunca é o texto na sua íntegra que se substitui. Nesse sentido. Foi realmente um crítico social. Assim. segundo os procedimentos do tradutor. dão à tradução dinamicidade. tal procedimento trabalha com a sincronia e a diacronia. a tradução pode caracterizar-se como semântica ou comunicativa. Ninguém lhe escapava: a todos dedicava críticas contundentes. Material textual porque. Esses.” (Delille et alii. revelou-se arrependido. Não tinha medo. Dependem da filosofia e das teorias por que o crítico ou o tradutor optar ou se orientar. São as equivalências que possibilitam ao tradutor uma postura circunstancial e. levantando uma dúvida que atravessou os séculos. alguns conceitos que a nortearam são aqui registrados. dentre outros que são citados no decorrer da análise. por serem circunstanciais. O que se quer aqui. direta e claramente.nobre ao mais promíscuo. bem como de equivalências para os casos em que não há correspondências. o crítico textual assume uma função “de investigador dos contextos de produção e de recepção. humilde e penitente. assumindo necessariamente uma perspectiva comparativa. Assim. lançando-as como se fossem originais? Os conceitos que norteiam esta crítica textual Para que se possa partir para a análise que procura apontar uma resposta sobre a originalidade ou não dos poemas. pergunta-se: teria o poeta brasileiro traduzido obras de outros poetas. por material equivalente noutra língua (LM) – língua meta”. Questionamentos que se apóiam em alguns de seus poemas. qual a culpa de um poeta tão importante na Literatura Brasileira? Acontece que a originalidade de sua obra sempre foi questionada. é um procedimento que implica “a substituição de material textual numa língua (LF) – língua fonte. por críticos brasileiros como Sílvio Júlio. para iniciar a análise. 1986: 14) Quanto aos limites da tradução. segundo o autor. A tradução. por isso. quando se dirigiu a Deus. pois. No trabalho IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA 3 . tentando persuadir ao Pai de que merecia conseguir o reino dos Céus. Porém. para Catford (1980: 22). pode-se dizer que são determinados pelo raio de acesso do procedimento. mas sim parte dele. é entender se ela pode ou não se tornar em certeza. são flexíveis. Então. Como a tradução caminha para o encontro de correspondências no sistema lingüístico-cultural da língua meta.

“criação ou então estilização” (Op. ou os textos. não rouba. na forma mais próxima possível”. ou. quem imita. no poema. na apropriação. de outrem. tão comum que parece “integrado na natureza humana. De outro lado. 1986: 193) IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA 4 . antes de perguntar se o testemunho trazido por um texto é aceitável ou não. cit.. Neste contexto. uma vez que. Do ponto de vista legal. Trata-se de um procedimento em que o autor não quer esconder o texto. Embora Gomes (Op. acomoda-se. no poema a paráfrase inexiste. quando a obra for publicada e assinada pelo suposto plagiário. Dessa forma. o plágio não se configura.: 20) defenda o plágio inocente. Se a obra não for publicada por iniciativa do seu autor ou suposto plagiário. aos moldes dos formalistas russos. A crítica textual “. apresentando-o como original. é evidentemente necessário estar seguro de que o lemos na forma em que foi escrito. por dinâmica que é. naquele momento. rouba. (Lacombe.: 20). Assim. como operação essencial à própria sobrevivência do homem e motor de suas realizações no mundo”. Quem plagia. conforme Sant’Anna (1985: 19). Entretanto. São esses conceitos que amparam esta crítica textual. em que se evidencia a “pirataria literária menos grave exercida contra os autores antigos e os estrangeiros”. Já a paráfrase. o plágio se consolida. Tem a força de transformar o drama em comédia.original. mas sim evidenciá-lo. Segundo Gomes (Op.: 127). apud Araújo. sim. A imitação. Cumpre ressaltar que a obra de Gregório de Matos é apócrifa. ocorre um procedimento em que a intenção do autor é compartilhar o mesmo espaço de outrem. tal como se instaurou a partir do Renascimento.cit. com a intenção consciente de desfrutar desse trabalho. ao menos.. instaura-se como procedimento criador. está mais afeta à estilização. a paródia corresponde à imitação transparente. realizando uma bricolagem do texto alheio. cit. o plágio é a apropriação indébita do trabalho alheio. para o autor os conteúdos são intraduzíveis. com abordagem satírica. a imitação apresenta-se “como o procedimento básico do ato criador”. optou-se por enfocar o número de atos tradutórios que cada poema apresenta e destes em relação à obra de Gregório de Matos. Por isso mesmo a paráfrase não será tradução e. porém. aprende. num processo de re-criação.

levando-se em conta as datas de publicação das obras criticas.Assim sendo. a fim de garantir-lhes fidedignidade. Os poemas criticados Soneto: A Jesus Cristo Nosso Senhor (Volume I – Sacra) – Gregório de Matos A Lope de Vega Carpio (Soneto I) – Quevedo Pequei. os textos. bem como a atividade lingüística que no texto efetiva. Se basta a vos irar tanto pecado. Glória tal e prazer tão repentino Vos deu. no trabalho original. num processo de classificação: consultas para eleger a edição mais confiável. aqui apresentados. Porque quanto mais tenho delinqüido. o crítico textual. submeteram-se aos procedimentos da recensão e correção. como afirmais na Sacra História. La invidia su verdugo y su tormento hace del nombre que cantando cobras y con tu gloria su martirio crece. Com lazos de oro y yedra acompañado. que vos há ofendido. Las fuerzas. IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA 5 . A abrandar-vos o beja um só gemido: Que a mesma culpa. Na correção. deve conhecer a língua em que se expressa o texto. mas não porque hei pecado. além de dominar as normas e formas cultas da escrita. objetivando a reconstituição do texto. Se uma ovelha perdida e já cobrada. e a colação: cotejo das edições. Vos tenho a perdoar mais empenhado. com as variantes advindas de possíveis e necessárias comparações. el laurel com tu frente está corrido de ver que tus escritos han podido Hacer cortos los premios que te há dado. A recensão compreendeu o momento em que se julgaram as edições que se apresentavam com a obra gregoriana junto aos demais testemunhos dos críticos consultados. Senhor. por tuyo. Peregrino celebrado afrentará del tiempo y del olvido el libro que. Da vossa alta clemência me despido. há merecido Ser del uno y del outro respetado. Vos tem para o perdão lisonjeado. ou os poemas.

Gregório de Matos teria retirado para o seu uma parte. Mas yo disculpo tal atrevimiento. si com lo que ella muerde de tus obras la boca. aparece Rónai (1952). a ovelha desgarrada: Cobrai-a. nem plágio do espanhol. Concordando com Júlio.1583 – Gôngora IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA 6 . Porém. Para Júlio (1938). mesmo porque não há equivalência de conteúdo ou da essência entre os poemas. o crítico não se detém em tais palavras. O poeta brasileiro teria se servido. de um lugar comum da poesia religiosa e sobre idêntico pensamento empregou palavras despistadoras. esse soneto é uma tradução “ao pé da letra” e “sabe Deus de quem”. pode-se concluir que o brasileiro espelhouse no modelo quevediano e que a acusação de Júlio não procede. tratando-se de um poema original. dizendo que o soneto é um exemplo fusante de violação. Diante da aproximação dos poemas. percebe-se que. Isso. uma vez que uma parte foi. se há “palavras despistadoras”. o poema de que. e no último verso da segunda estrofe – Vos tem para o perdão lisonjeado/Hacer cortos los premios que te há dado. despido/olvido. Perder na vossa ovelha a vossa glória. No cotejo. Pesquisando-se na bibliografia em que se ancorou a pesquisa. gemido/corrido. lengua y dientes enriquece. em que não se registram À Maria de Povos. aí. procedimentos tradutórios. Pastor Divino. Senhor. foi encontrado na obra de Quevedo o soneto “A Lope de Vega Carpio”. pecado/acompañado. e não queirais. Clássicos Sá da Costa. de acordo com o conceito registrado neste trabalho. estão elas centradas nas rimas – pecado/celebrado.. subtraída de Sá de Miranda. não foi encontrado. Porém. segundo o crítico. Entretanto. Monteiro (1961:70) acredita que “é tradição nunca posta em dúvida de que lhe pertence”. sua futura esposa (Volume II – Lírica) – Gregório de Matos 235. para Júlio. delinqüido/merecido. não permite entender o poema do brasileiro como tradução. ao qual foi comparado o soneto do poeta brasileiro. ofendido/podido – das duas primeiras estrofes. empenhado/respetado. nas Obras Completas de Sá de Miranda.Eu sou. por ambos apresentarem correspondências estruturais tais como o fato de serem sonetos compostos por versos decassílabos. embora os poetas falem de Deus.

y el claro día vuelto en noche obscura. E imprime em toda flor sua pisada. la luz. Goza. Quando vem passear-te pela fria: y mientras com gentil descortesía mueve el viento la hebra voladora que la Arabia en sus venas atesora y el rico Tajo en sus arenas cría: Goza. el oro. Enquanto estamos vendo a qualquer hora. mientras se dejan ver a cualquer hora en tus mejillas la rosada Aurora. goza el color. mientras a cada labio. Em terra. em nada. Te espalha a rica trança brilhadora. antes que la edad Febo eclipsado. O ar. em cinza. 228.Discreta e formosíssima Maria. antes que lo hoy es rubio tesoro venza a la blanca nieve su blancura. goza da flor da mocidade. y en tu frente el día. por cogello. goza cuello. Em tuas faces. essa beleza. Enquanto com gentil descortesia. Em teus olhos e boca. 7 IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA . cabello. Ó! Não aguardes que a madura idade Te converta essa flor. o Sol e o dia. que fresco Adônis te namora. oro bruñido el Sol relumbra en vano. Que o tempo trata a toda ligeireza. siguen más ojos que al clavel temprano. – 1582 Gôngora Mientras por competir com tu cabello. a rosada Aurora. Febo en tus ojos. em pó. mientras com menosprecio em medio el llano mira tu blanca frente al lilio bello. Huya la Aurora de el mortal nublado. Ilustre y hermosíssima María. labio y frente. em sombra. y mientras triunfa com desdén lozano de el luciente cristal tu gentil cuello.

tão absorvido pelos poetas barrocos”. fiel ou palavra por palavra.antes que lo que fué en tu edad dorada oro. y en tu frente el día. Vai além o crítico. verso por verso. enquanto com gentil descortesia/mientras se dejan ver a cualquier hora. labio y frente. clavel. en nada. “o ratoneiro tentou transferir a seu idioma o convite” que “Gôngora cinzelara.. en sombra. mas tú y ello juntamente. goza el color. em tuas faces. en humo. 107).Ilustra e hermosisima María. cit. en polvo. la luz. em teus olhos a boca. IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA 8 . teria sido “tocado pelo tema do ‘carpe dieni’ horaciano. não só na Espanha como em Portugal e no Brasil”. com requebros de aristocrata”. E imprime em toda flor sua pesada/ no sólo en plata o víola troncada. os quais se tomam aqui como exemplo: Discreta e formosíssima Maria/Ilustre y hermosíssima María. já que há procedimentos de tradução semântica. a rosada Aurora/en tus mejillas la rosada Aurora. Goza. lilio. p. uma vez que o próprio Gôngora. luciente no sólo en plata o víola troncada se vuelva.106. cristal. conclui-se que houve procedimentos que apontam para uma tradução literal. já que os dois tercetos o brasileiro tomou do soneto Mientras por competir con tu cabello. goza da flor da mocidade/ goza. Para Júlio (Op. Para comprovar tal fato. Que o tempo trata a toda ligeireza/se vuelva. el oro/ Goza cuello. o Sol e o dia/Febo en tus ojos. basta que se pouse o olhar no cotejo do primeiro quarteto e do primeiro terceto do brasileiro e versos dos sonetos do espanhol. cabello.. no segundo soneto. Cotejando o soneto do brasileiro ao soneto do espanhol. Gomes (1985:62) diz que o último verso dos dois tercetos do espanhol “foi largamente difundido e imitado nos séculos XVII e XVIII. mas tú y ello juntamente en tierra. ao afirmar que Gregório de Matos combinou duas composições de Gôngora.

pode-se dizer que Gregório de Matos valeu-se de uma prática afeta às artes plásticas. que. Quase a golpes de um maço e de uma goiva: Basta ver una vez grande hermosura. Que a Índia só por prêmio pretendia. usando de cautela. Lísida.Entretanto. ausente. Diez años de mi vida se ha llevado en velos fuga y sorda el Sol ardiente. aplicável na obra poética – a bricolagem. Porém servia a Índia e não a ela. Ao casamento de Pedro Álvares da Neiva (Volume III – Graciosa) Gregório de Matos Amor de Sola una Vista Nace. Ni el tirmpo la marchita ni la ofende. Deu-lhe o vilão. y se Perpetua Quevedo Sete anos a nobreza da Bahia Servia uma pastora indiana bela. Diez años mis venas he guardado el dulce fuego que alimento. Mil dias na esperança de um só dia Passava. Crece. una vez vista. uma vez que se percebe a intenção de Gregório de Matos em compartilhar o mesmo espaço do espanhol. de mi sangre. ni teme com el cuerpo sepoltura. después que en tus ojos vi el Oriente. sem a radicalização da posse indébita. Vive. o brasileiro parafraseia o mesmo soneto camoniano: Sete anos 9 IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA . Vendo o Brasil que por sujos modos Se lhe usurpava a sua Dona Elvira. Llama que a la imortal vida trasciende. en hermosura duplicado. Logo se arrependeram de amar todos. Mas qualquer mais amara se não vira Para tão limpo amor tão suja noiva. se for considerado que o brasileiro apoiou-se em dois poemas do espanhol. eternamente enciende y en l’alma impresa eternamente dura. Spina (s/d: 39) considera esse soneto uma “paródia do primoroso soneto camoniano ‘Sete anos de pastor Jacó servia’ (por sua vez inspirado em Petrarca)”. Já para Wisnik (1976: 157). Mas Frei Thomaz. contentando-se com vê-la. Diez años em mi mente com imperio tus luces han reinado. quitou-lhe a fidalguia.

Entretanto. nas Obras Completas de Don Francisco de Quevedo Villegas. Esse soneto não registra epígrafe alguma. servia a ela. y se perpetua. O cotejo de Gregório de Matos e Quevedo leva à conclusão de que. pode-se aproximar o soneto brasileiro do soneto de Quevedo Amor de sola una vista nace. pai de Raquel. se cotejarmos o soneto brasileiro ao português de Camões – Sete anos de pastor Jacó servia – pode-se aceitar que o soneto brasileiro trata-se de uma paródia. Que no mais levantado do cartucho Quis trazer o Pégaso por penacho. serrana bela.a nobreza da Bahia /Sete anos de pastor Jacó servia. Quevedo teria imitado Camões e Camões o soneto de Petrarca Per Rachel ho servito e non per Lia. a aproximação de Gregório de Matos e Quevedo permite entender a produção do brasileiro como uma imitação. com exceção do último verso do primeiro terceto e de todo o segundo terceto. Cronologicamente. numa prática evidente de imitação. A certo Doutor ignorante. dejo la chanza y sigo mi provecho. Que a Índia só por prêmio pretendia/e a ela só por prêmio pretendia. dada às variantes desse soneto. vive. quando Quevedo introduz versos seus. Porém servia a Índia e não a ela/Mas não servia ao pai. mostrando por suas umas décimas que se entende eram de Antonio da Fonseca Soares (Volume IV – Satírica) Gregório de Matos Felicidad barata y artificiosa del pobre Quevedo Protótipo gentil do Deus muchacho. crece. o soneto do espanhol trata-se de uma variante do soneto apresentado por González de Salas. se for considerada a postura crítica do poeta brasileiro. Poeta singular o mais machucho. Com testa gacha toda charia escucho. y visto de paloma lo avechucho. além do soneto português. publicada em 1952 pela Aguilar. para vivir. Assim. escóndome y acecho. IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA 10 . Servia uma pastora indiana bela/ Labão. A crítica assumida no trabalho considera que. o que parece provável. conforme nota que acompanha o poema do espanhol.

pois pediu emprestadas a Quevedo todas as rimas do soneto”. merece um bom cachucho. implica a imitação. Resultados obtidos A obra de arte tem um papel social. Se são suas. O crítico não deixa de ter razão. pago a Silvia el pecado. e o do brasileiro: muchacho/escucho. o que se evidencia predominantemente é a prática da imitação. píntome el mostacho. Que vos sente nas ancas este sexo. Logo disse: não éreis vós o bicho. também. Aqui. y cátame que soy hombre machucho. Que por boas conseguem bom despacho. num procedimento de transferência.Triunfante ao Parnaso entrou gavacho Com décimas de métrico capucho. Niego el antaño. já que um só vocábulo foi traduzido – machucho. prometo y niego. arrimome al cobecho. en lo que ahorro está mi buen despacho y cátame dichoso. que. na literatura. cit. penacho/avechucho. Essa prática. centra-se no tripé função total/função social/função ideológica. sobretudo quando se considera que nem sequer dessa vez soube ser original. doy poco y pido mucho. pronuncia-se Rónai (Op. Por ser vosso talento de releixo. Vivo pajizo. hecho y ducho. de Quevedo. o que não permite considerar o soneto como tradução. no el capricho. concernente à tradução semântica. verso 2 de Gregório de Matos e verso 8 de Quevedo.: 63): Gregório a deblaterar contra um plagiador não deixa de ter graça. Que vos limpe essas barbas com rabicho. Para temer. Mas o sol que na aurora do desfecho Os párpados abrindo nos viu mixo. assim como ocorre nos demais versos. uma vez que há similaridades rímicas entre os sonetos Felicidad barata y artificiosa del pobre. muchacho/provecho. Sobre esse soneto. y cátame muchacho. no visito nicho. cartucho/acecho. comum no Barroco. si tengo pleito. ni sorbo angosto ni me calzo estrecho. funções indissolúveis na interpretação e IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA 11 .

152 são atos tradutórios. os fatos levam à seguinte posição: a) a tradução é a arte que se coloca a serviço da interação de línguas diferentes. função social. já que se insere no universo de valores culturais. Essa dúvida também induziu a realização dessa pesquisa que apresenta os seguintes resultados: houve procedimentos técnicos evidentes de tradução: dos 2215 versos criticados. o tradutor revela-se um re-criador e como tal a sua obra não se macula e deixa evidenciar criatividade no novo texto. Isso porque dos 727 12 IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA . coroando- se pela comunicação. E a obra gregoriana exerceu as três funções apresentadas por Candido (1967): função total. principalmente Júlio. Rei de Espanha – a indicação de que a criação é resultado de uma tradução. b) O plágio é um procedimento que põe à mostra a baixeza de caráter daquele que tem a ousadia de valer-se dessa prática como forma de construir sua obra. Por isso mesmo permitese revestir-se de críticas que põem em dúvida a sua originalidade. a não ser num só dos poemas – À mesma dama: é tradução de outro soneto. os modelos foram Quevedo e Gôngora. como metáforas no seu aspecto intelectual por expressarem a correspondência entre os objetos e os seres descritos. comum à época do Barroco: há similaridades entre os poemas cotejados.compreensão dessa obra. composto por Felipe IV. houve a prática da imitação. o Barroco. Não se pode atribuir a Gregório de Matos essa culpa. Assim. permitindo ao tradutor colocar o mundo do outro no seu próprio mundo. mesmo quando o poeta traduz versos e não denuncia este fato. não houve. mesmo que às avessas. função ideológica. Nesse caso. como o quer. a obra gregoriana revela-se como cumpridora de seu papel social e permite ao crítico lançar os olhos no seu processo de criação. bem como pela admiração que lhes dedicava o brasileiro. por parte do poeta. quando se refere a um sistema definido de idéias. justificável pela influência que os espanhóis tiveram no estilo de época. Dessa forma. pois transmite sua visão de mundo por meio de recursos expressivos.

dezembro. 44 são postos em dúvida. Gregório de Matos. Emanuel. INL/MEC. 23 são atingidos por procedimentos tradutórios. 1953. Crítica e teoria literária. Um enigma de nossa história literária. Maria de Lourdes. Conselho Estadual de Cultura. et alii. São Paulo: Martins. estilo de época em que a imitação era um processo lícito e reconhecido de criação. Monteiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. F. 1952. Problemas da tradução literária.C. Lisboa: Livraria Almedina. s/d. Paulo. Coleção Ensaio. Afrânio. Gregório de Matos o Boca de Brasa: um estudo do plágio e criação intertextual. Júlio. Sílvio. EUFC/PROED. c) A imitação pode evidenciar-se como processo legítimo e eficaz de produção. 1972. São Paulo: Editora Cultrix. porém não na sua totalidade. Coutinho. Uma teoria lingüística da tradução. Gomes. K. Candido. São Paulo: Assunção. no. Clóvis. Ao Rio Caípe. Spina. 1961. Rónai. Literatura e Sociedade. Petrópolis: Vozes. Rio de Janeiro: Revista do livro. 1986. 4 poemas se confirmam como não originais – Buscando a Cristo. 3. Antunes. assim como o ficou sendo o Sorga pelos de Petrarca. 1987. A uma dama que se queixou de a não ver o poeta pela segunda vez. Obras escogidas – Tomo II – Madri: Aguilar. quanto à originalidade. Manuel da Ressurreição. Carpio.V. J. 1938. São Paulo: Editora Nacional. IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA 13 . Na sua totalidade. memorável pelos versos do poeta feitos a esta dama. Rio de Janeiro: Livraria Acadêmica. Lope. Catford. Rio de Janeiro: Livraria H. A história abaliza essa postura.– Reações na Literatura Brasileira. Tudo é re-criado. A construção do livro. vol. 1986. registra-se a conclusão centrada na tese defendida no trabalho original: nada surge do nada. Antonio. se o autor da obra acrescentar elementos inovadores que a enriqueçam. A obra de Gregório de Matos traduz um processo adequado ao contexto e à época em que foi produzida – o Barroco. Teixeira. Ao arcebispo D.H. Neste trabalho. 1980. d) literária. Esboços da História Literária. 2ª ed. Delille. Isso permite ao imitador caminhar para uma liberdade estruturada em alicerces seguros.poemas que compõem a obra gregoriana. Destes. Segismundo. Já a inspiração faz parte do eclodir da emoção que norteia a obra Referências bibliográficas Araújo. Fr. João Carlos T. 1985. ano I. 3. Gregório de Matos: biografia e estudo.. 1967.

poemas escolhidos. 1991.Wisnik. Gregório de Matos. 1976. IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA 14 . Gregório de Matos: tradução e plágio – uma nova visão. Marilurdes. Zanini. José Miguel. Assis: Tese de doutoramento. Universidade Estadual Paulista. São Paulo: Cultrix.

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