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A China tornou-se no segundo trimestre deste ano a segunda maior economia do mundo.

O vertiginoso crescimento do gigante asiático desafiou as previsões do começo desta década — acreditava-se que a China passaria o Japão somente no ano de 2016. Em pouco mais de 40 anos, os chineses conseguiram se livrar do caos e da miséria instalados após o fracasso da Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung para tornar-se uma das maiores potências econômicas do planeta. Trinta anos depois de iniciada a abertura econômica, a China superou sucessivamente França, Grã-Bretanha e Alemanha e virou uma das maiores potências econômicas do planeta. Esse período áureo, porém, foi precedido por um ciclo de 150 anos de estagnação do qual a China só começou a escapar no começo da década de 80. O guerreiro e estadista Mao Tsé-tung criou a moderna e comunista República Popular da China, a partir da vitória de seu partido na revolução de 1949. No final dos anos 70, a China era uma grande fazenda coletiva, superpovoada e subalimentada, ainda sangrando com os barbarismos da Revolução Cultural. No começo de 1969, como mostrava reportagem de VEJA, quase 20 milhões de pessoas, entre estudantes, políticos e intelectuais, foram enviadas para o campo como parte da campanha de educação agrícola. Mas, nem os “novos camponeses” se adaptaram ao trabalho da terra, nem os lavradores aceitaram a colaboração de estudantes, políticos e intelectuais. Somente com a morte de Mao, em 1976, o país começou a vivenciar mudanças drásticas em sua política econômica. O principal artífice desse “milagre econômico chinês” foi Deng Xiaoping. A grande inovação de Deng, no começo dos anos 80, foi parar de perseguir a iniciativa privada. Para reformar o país, depois de eliminar as comunas no campo, ele lançou mão de um mecanismo simples e cauteloso: criou zonas econômicas especiais nas províncias costeiras e, com generosos subsídios e farta mão-de-obra barata, atraiu pencas de investidores externos. O tipo de capitalismo selvagem que fincou raízes no país logo produziu riquezas inimagináveis na China utópica e faminta de Mao. Mao impôs uma única vestimenta para todos, envolveu toda a população num frenesi ideológico e decretou como leitura obrigatória um livrinho vermelho com aforismos de sua própria lavra. A China da reforma veste-se à moda ocidental, come à tripa forra, consome grifes e aparelhos de televisão com avidez de novo-rico. Paga-se hoje em Pequim o aluguel mais caro do mundo por um apartamento de luxo. Uma das maiores provas do poder chinês foi dada em agosto de 2008, durante a Olimpíada de Pequim. O evento representou para o país um bilhete de entrada na sociedade moderna e, sobretudo, o reconhecimento do desenvolvimento de uma nação que, a despeito de toda a sua grandeza histórica, permanecia invisível antes da guinada econômica de trinta anos atrás. Para realizar os Jogos mais caros do mundo a China, literalmente, moveu montanhas. Fábricas foram transferidas e bairros inteiros, derrubados. Dezesseis centros esportivos brotaram do chão em prazo recorde e 87 quilômetros de trilhos de metrô foram estendidos. O país gastou cerca de 40 bilhões de dólares no projeto. Visitar a China hoje equivale a presenciar uma das grandes transformações históricas já ocorridas no mundo. Com os chineses, o fenômeno é de crescimento econômico ultra-rápido, com uma dinâmica jamais presenciada nessa dimensão. Quem olha de fora tende a acreditar que, tal como ao dia se segue a noite, ao desentrave econômico sucederá a liberdade política. Mas não é bem assim. Em março deste ano, o Google, o maior site de buscas do mundo, chegou a abandonar o mercado da China, com 400 milhões de usuários, em repúdio à censura da ditadura chinesa na internet. No país não é possível fazer buscas, por exemplo, por notícias a respeito do massacre na Praça da Paz Celestial, em 1989, quando o governo reprimiu brutalmente o protesto de jovens estudantes. O governo chinês dá provas de que o país é capaz de empreender reformas surpreendentes no campo econômico sem democracia. Resta saber até quando um país que cresce vertiginosamente será capaz de viver sob o comando de uma ditadura, regime que reduz o mercado e a competição de ideias.