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Travessias número 01 revistatravessias@gmail.com Pesquisas em educação, cultura, linguagem e arte.

A INFÂNCIA NA IDADE MÉDIA (SÉC. XIV AO XVI)1: DISCUSSÕES PERTINENTES2 THE CHILDHOOD IN THE MIDDLE AGE ( XIV – XVI ) CONCERNING ISSUES Carlos Eduardo Ströher3 Cássia Simone Kremer4 RESUMO: O enfoque dessa análise está concentrado em alguns aspectos relacionados à forma como a infância medieval é apresentada na historiografia atual e a representação de crianças em algumas obras do pintor flamengo Pieter Bruegel, o Velho. O estudo da História da infância, apesar de recente, envolve discursos de muitas áreas de conhecimento e discussões acirradas. O processo histórico que envolve este conceito inclui questões que vão além dos fatores biológicos, dependendo do contexto e das condições sócio-culturais, e considerando a produção discursiva e os lugares sociais atribuídos à infância em diferentes épocas. Utilizou-se por metodologia a pesquisa bibliográfica visando o debate historiográfico e a análise de imagem. Busca-se apontar diferentes análises sobre as concepções da presença ou ausência do “sentimento de infância” na Idade Média. A importância da discussão a respeito da infância medieval não está localizada na busca de veracidade em cada argumentação, mas na polifonia discursiva que atravessa, diferindo nas concepções de infância, ou seja, a forma como as crianças são percebidas e inseridas nas sociedades. PALAVRAS-CHAVE: infância. História. Historiografia. Arte ABSTRACT: The focus of this analysis is concentrated in some aspects related to the way the medieval childhood appears on the current historiography and the representation of children in some works of the Flemish painter Pieter Bruegel, the Elder. The study of Childhood History, in spite of recent, mixes speeches from many knowledge areas and tense argues. The History process witch involves this concept includes issues that go beyond the biological factors depending on the context and conditions of the sociocultural, considering the productions discourse and the social place gave to childhood in different eras. The bibliographic research has been used as methodology, aimed with the historiographical debate and the analysis of image. The objective is pointing different
1 A delimitação temporal é baseada na classificação de Hilário Franco Júnior, que, em sua obra Idade Média: Nascimento do Ocidente (São Paulo, SP: Brasiliense, 2001), nomeia os séculos XIV a XVI de Baixa Idade Média. 2 Estudo orientado pela Profª Drª Cristina Ennes da Silva, docente e pesquisadora do Centro Universitário Feevale (Novo Hamburgo-RS). 3 Acadêmico do 6º semestre de História do Centro Universitário Feevale (Novo Hamburgo-RS) e Bolsista de Iniciação Científica da instituição, vinculado ao Grupo de Pesquisa Cultura e Memória da Comunidade. E-mail: carloseduardo@feevale.br. 4 Acadêmica do 5º semestre de História do Centro Universitário Feevale. E-mail: cassiaskremer@yahoo.com.br.

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Carlos Eduardo Ströher, Cássia Simone Kremer www.unioeste.br/travessias

cultura. pois.” (p. analyses about the conceptions of the presence or absence of “the sense of childhood” in the Middle Age. seguindo as etapas definidas por Medeiros6 (2000): escolha do assunto. localização. 2000. 4ª ed. which crosses. De Mause. São Paulo: Atlas. El niño como principio e fin. Madrid. The importance of the discussion about the Medieval Childhood is not placed on search the truth in each argument but in polyphonic discourse. In: HEYWOOD. (1995). Historia de la infancia (p. Cássia Simone Kremer www. para Tucker5 (1995).Travessias número 01 revistatravessias@gmail. o Velho. Alianza. History. Eduardo França. 5 2 Carlos Eduardo Ströher. que. mantêm resquícios da cultura e da mentalidade medieval. fichamento.com Pesquisas em educação. análise e interpretação e redação. linguagem e arte. 255-85).J. 7 PAIVA. Um problema enfrentado por historiadores que abordam a temática proposta é a escassez de fontes sobre a infância em diferentes momentos do passado histórico. Para o desenvolvimento dessa investigação. L. in differing conceptions of childhood. Belo Horizonte: Autêntica. – La infancia em la Inglaterra de los siglos XV e XVI. no tocante a imagens. 31). inquietações e padrões do presente. KEY – WORDS: Childhood. “a infância é. problemas. Uma História da Infância. In. Buscou-se analisar diferentes abordagens de autores atuais sobre a infância. que afirma as leituras das imagens são sempre realizadas no presente. or the way children are perceived and placed on societies. e entre seu ou seus produtores. resultado das expectativas dos adultos. Interessa-nos enfocar as concepções de diferentes historiadores para o termo infância no período medieval. o Velho. em grande medida. Porto Alegre: Artmed. muitas vezes. elaboração do plano de trabalho.unioeste. Redação Científica. pois. 21). Além disso. bem como o papel que as crianças desempenhavam nessa sociedade. M. tendo em vista que as fontes relacionadas ao assunto são restritas. O TUCKER. compilação. João Bosco. fundamentamos nossa análise na teorização de Paiva7 (2002). Historiography. que constituem uma das poucas representações iconográficas que remetem ao período. identificação. “Isto é. 6 MEDEIROS. pois.br/travessias . não existiram ou eram muito diferentes no tempo da produção do objeto. Art Esse estudo propõe-se a analisar alguns aspectos relacionados à forma como a infância medieval é apresentada na historiografia atual e a representação de crianças em algumas obras do pintor flamengo Pieter Bruegel. História & Imagens. Para esse estudo utilizamos alguns quadros do pintor flamengo Pieter Bruegel. 2004.” (p. Colin. ler uma imagem sempre pressupõe partir de valores. em direção ao passado. utilizamos a pesquisa bibliográfica. 2002. mesmo pintados no século XVI. a partir da visão dos adultos.

Contudo. como muitas vezes acontecia. Porto Alegre: Artmed. A “descoberta” da infância. poupart. a consciência da particularidade infantil.. Esse descaso seria explicado pela alta taxa de mortalidade. Isso quer dizer que a criança deixou de ser misturada aos adultos e de aprender a vida diretamente. mas a regra geral era não fazer muito caso. O autor afirma que a sociedade medieval ignorava a infância. alguns podiam ficar desolados. “As pessoas se divertiam com a criança pequena como com um animalzinho. p. (ARIÈS: 1981. através do contato com eles. 1981. linguagem e arte.) Se ela morresse então.” (ARIÈS: 1981. 11-12). do clero e da aristocracia. 10). A despeito das muitas reticências e retardamentos. Colin. (ARIÈS: 1981. Cássia Simone Kremer www. ou seja. p. se daria somente no período moderno. Isso porque a passagem da criança pela família e pela sociedade era muito breve e muito insignificante para que tivesse tempo ou razão de forçar a memória e tocar a sensibilidade. adolescens.br/travessias . A criança não chegava a sair de uma espécie de anonimato.com Pesquisas em educação. um macaquinho impudico. kneht. 3 Carlos Eduardo Ströher. que dificultava a formação de vínculos afetivos entre pais e filhos. enfant. Uma História da Infância. bambini. Os termos relacionados à infância (pueri. Ariès (1981) afirma que 8 O estudo original de Philippe Ariès foi publicado no Brasil com o título História Social da Criança e da Família (Rio de Janeiro: TLC. p. período medieval apresenta obstáculos ainda maiores nesse aspecto. antes de ser solta no mundo. segundo o autor. L’enfant et la vie familiale sous l’Ancien Régime (1960)8. cultura. a criança foi separada dos adultos e mantida à distância numa espécie de quarentena. boy) não eram originados de fatores biológicos... 2004. efebo. considerando que grande parte das fontes origina-se de um grupo minoritário da sociedade medieval. que era reservado a ela em seus primeiros anos de vida. enquanto ela ainda era uma coisinha engraçadinha. que pouco participavam da vida doméstica e da educação das crianças. Para Ariès (1981) e Heywood10 (2004). História Social da Criança e da Família.Travessias número 01 revistatravessias@gmail. Ariès9 (1981) aponta um sentimento superficial pela criança. sobretudo homens. chamado “paparicação”. A maior parte do debate historiográfico da atualidade em torno da história da infância tem sua gênese no estudo clássico de Ariès (1981).) A família tornou-se o lugar de uma afeição necessária entre os cônjuges.unioeste. Philippe.. 9 ARIÈS. através da família burguesa e da instituição escolar. pois uma outra criança logo a substituiria. Rio de Janeiro: LTC. a idéia de infância estava ligada à idéia de dependência. 10). (. valet. faltava um sentiment de l’enfance. 1981). (. 10 HEYWOOD.

Segundo Orme11 (2003). quase não encontrando a presença da criança. dos graus mais baixos da dependência. EUA. os auxiliares e os soldados. The Medieval Child. os lacaios. os homens de baixa condição. na língua falada. 1995. que. 42). como Le Goff13 (1995). ao invés de esquecida ou ignorada. Este enfoque alcançou grande aceitação entre psicólogos. Nos poucos casos em que a criança aparecia. 13 LE GOFF. Acesso em 23/10/2007. (p. ao dizer que. que isso representou mais uma redescoberta e imitação dos modelos gregos e romanos por parte dos artistas do Renascimento do que um novo interesse nas ORME. como feudalismo. nem todos aceitam a idéia de que a transição para representações mais realistas de crianças na pintura e na escultura. Yale University Press. Ariès (1981) analisou a arte medieval e. 50). havia divergências entre os teóricos medievais quanto ao significado da infância de acordo com o sexo. cultura. a infância na Idade Média foi antes definida de forma imprecisa. sociólogos e filósofos. Jacques. além de medievalistas renomados. também não eram empregados. que chegou inclusive a perguntar: “Teria havido crianças no Ocidente medieval?” (p. Cássia Simone Kremer www. O fato dos trajes infantis serem iguais aos dos adultos reforçaria esta hipótese. não era relevante. já que a própria noção de tempo. Medieval Children. A Civilização do Ocidente Medieval. SNELL. Snell12 (2007) salienta que a falta de um termo específico para designar esse período da vida não pode ser interpretada como uma prova de que não havia essa distinção entre adultos e crianças. linguagem e arte. cuja submissão aos outros continuava a ser total: por exemplo. 2003. Lisboa: Estampa. Alguns historiadores afirmam. por estar focada em temas religiosos. concluiu que “não havia lugar” para ela nesta sociedade.htm. 44).br/travessias . Heywood (2004) aborda a problemática sob outro prisma. 12 11 4 Carlos Eduardo Ströher. de forma contundente.about. revela uma “descoberta da infância” do ponto de vista artístico. Acesso em 23/10/2007. Nicholas. Melissa. portanto. a arte medieval excluiu não só a infância.unioeste. para os medievais. “É difícil crer que essa ausência se devesse à incompetência ou à falta de habilidade. Observase. o status social e outros aspectos.com/od/medievalchildren/Medieval_Children. 2ª ed. a partir do século XII. ao menos.Travessias número 01 revistatravessias@gmail. mas uma grande variedade de temas: os artistas estavam mais preocupados em transmitir o status e a posição de seus retratados do que com a aparência individual. Ademais.com Pesquisas em educação. só se saia da infância ao se sair da dependência. pois outros termos.Disponível em: http://historymedren. Essa é a razão pela qual as palavras ligadas à infância iriam subsistir para designar familiarmente. ou.” (p. É mais provável que não houvesse lugar para a infância nesse mundo. era retratada como um “adulto em miniatura”.

falando da invenção e do desaparecimento da infância. não era desvalorizado e a educação dava-se. 25). afirma que o envio de crianças às amas-de-leite.Travessias número 01 revistatravessias@gmail. O desaparecimento da infância. Postman16 (1999). não ao seu filho. que considerava necessário batizá-la. a experiência prática e o valor humano que pudesse possuir. 16 POSTMAN. linguagem e arte. muitas vezes. já que era regida por uma legislação própria. é o hábito das mães entregarem as crianças às amas-de-leite. entretanto. ignorando todas as questões complexas relacionadas à forma como a realidade é mediada na arte. 'A Tender Age': Cultural Anxieties over the Child in the Twelfth ans Thirteenth Centuries. Neil. 5 Carlos Eduardo Ströher. 1999. Johns Hopkins University. William. além de mandarem-nas. 228). o trabalho. como necessidade de sobrevivência. a bagagem de conhecimentos. buscando exemplificar o que consideram a negligência em relação à infância. seriam as responsáveis pela perpetuação do nome da família e por incrementar seus laços familiares através de casamentos arranjados ainda no berço. principalmente. 1985. Orme (2003) e MacLehose15 (1999) destacam a criança como um ser ativo na sociedade. era retratada na literatura e na música e constituía uma preocupação da Igreja.unioeste.” (p. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Nada era mais válido do que filhos para ajudar na lavoura e filhas para os trabalhos domésticos. desde cedo (em torno dos 7 anos). (p. as crianças eram os trabalhadores e aprendizes que fariam o negócio crescer. Entre a nobreza. 1999. a unidade familiar era a base da economia. Rio de Janeiro: Graphia. EUA. Um amor conquistado. cultura. “era através do serviço doméstico que o mestre transmitia a uma criança. O serviço doméstico se confundia com a aprendizagem.com Pesquisas em educação. Para Snell (2007). Da mesma forma. Em suma. pelo aprendizado prático. e reafirmado por Badinter14 (1985). Elisabeth. crianças a seu redor.br/travessias . como uma forma muito comum de educação. Outro aspecto abordado por Ariès (1981). Nas pequenas e grandes cidades. Heywood (2004). destaca o importante papel que a “leitura” teve nesse processo de separação da idade infantil da idade 14 BADINTER. Cássia Simone Kremer www. em uma sociedade predominantemente agrária. É importante salientar que os filhos eram a razão para o casamento. O Mito do Amor Materno. Segundo Ariès (1981). 15 MacLEHOSE. Ariès parece pensar que “o artista pinta aquilo que todos vêem”. consistia na única opção diante de uma situação familiar precária. para trabalhar no serviço doméstico em casas burguesas ou junto de mestres nas oficinas. mas ao filho de outro homem.

Seus contemporâneos. e a idéia de proteger as crianças dos segredos sexuais desconhecida. Influenciou-se da obra de Hieronymus Bosch. Cássia Simone Kremer www.unioeste. [. Isso quer dizer que “ele buscou evidências da concepção de infância do século XII na Europa medieval. Contudo. Esta é a razão pela qual. Para Heywood (2004). baseada na comunicação oral: num mundo oral não há um conceito muito preciso de adulto e. Além disso. em todas as fontes. linguagem e arte. Em 1551. A idéia de esconder os impulsos sexuais era estranha aos adultos. Como não encontrou esses indícios. passou diretamente à conclusão de que o período não tinha qualquer consciência dessa etapa da vida. este rompimento foi causado pelo controle das informações e do acesso aos saberes por parte das crianças. 28). marcando algumas características de sua arte. porém ficando distantes de seu talento. Para ele. pintor e desenhista de tapeçarias. Outro ponto enfocado por Postman (1999) é referente à ausência do sentimento de “vergonha” na época medieval. (..Travessias número 01 revistatravessias@gmail. o cognominaram “o Engraçado”. Tendo vivido Pintor nascido por volta de 1525 em Breda. Sabe-se que começou a estudar com Pieter Coecke. pintando extraordinários desenhos das paisagens dos Alpes. 31). de modo que todos poderiam ter acesso a tudo que constituía a convivência cotidiana. que riam de suas brincadeiras e achavam cômicos os seus quadros. inscreve-se na Guilda de São Lucas e trabalha em um ambiente de constantes trocas culturais.) Realmente. o que deixa de fora todo um segmento das classes em desvantagem. a maior contribuição de Ariès está em inaugurar um novo caminho de pesquisas e indagações históricas sobre a infância. descobre-se que na Idade Média a infância terminava aos sete anos. 26). Na Idade Média. na Idade Média era bastante comum os adultos tomarem liberdades com os órgãos sexuais das crianças. Os historiadores da arte o chamaram de “Velho”. o autor destaca que tais fontes são reveladoras apenas das camadas sociais que tinham o privilégio de ter acesso ao uso das mesmas.com Pesquisas em educação.] Num mundo letrado.. menos ainda de criança. (p. Para a mentalidade medieval tais práticas eram apenas brincadeiras maliciosas. viaja pela França e Itália. p.br/travessias . da qual todos os estudos posteriores partiram. Seus filhos. (POSTMAN: 1999.” (p. para diferenciá-lo de seus descendentes. as crianças precisam transformar-se em adultos.. de quem posteriormente tornou-se genro. Por que aos sete? Porque é nessa idade que as crianças dominam a palavra. Em nossos dias. No ano seguinte. Pieter (o Jovem) e Jan. é um dos poucos entre os pintores medievais e os renascentistas que dedicou algum espaço para a infância em suas obras. no Brabante (hoje Holanda). adulta. Ariès (1981) faz uma análise da infância “centrada no presente”. ele é 17 6 Carlos Eduardo Ströher.. cultura. Há poucos relatos sobre os detalhes de sua vida. não havia informação exclusiva aos adultos. Pieter Bruegel17. seguem o exemplo do pai e tornam-se. finalmente. portanto. o Velho.

e. Arnold. devido à sua predileção por pintar a vida no campo. Para Beckett19 (2006). mas outros julgam conter elevada carga de piedade e terna preocupação”.com Pesquisas em educação. São Paulo: Editora Ática. p. História Social da Arte e da Literatura. sua versão. em obras que alguns consideram satíricas.” (p.br/travessias . 2004. Bauru. 412). Cássia Simone Kremer www. 21 BURKE. durante o pleno florescimento renascentista das cidades flamengas.unioeste. (p. Wendy. 20 Grifo nosso. o universo que elegeu para seus quadros foi o das pequenas aldeias rurais e o cotidiano dos camponeses. linguagem e arte. freqüentemente. chamado de “Bruegel dos camponeses”. Para Burke21 (2004). o retrato de seu próprio ambiente social. mesmo pintadas no século XVI. A única justificativa cabível para tal adjetivação. 18 HAUSER. Usualmente. São Paulo: Martins Fontes.Travessias número 01 revistatravessias@gmail. mas. pois tratava-se de um homem viajado e muitíssimo culto” (p. SP: EDUSC. mantêm resquícios da cultura e da mentalidade medieval. mas não o gênero de condições que estão tentando liberta-ser. Peter. 2000. na realidade. 172). 168). 412). ele pintou camponeses. as pessoas caíram no erro de imaginar que uma arte que retrata a vida de gente simples destina-se também a pessoas simples. 7 Carlos Eduardo Ströher. Pelas características de sua obra. Essas imagens. História da Pintura. Bruegel foi chamado de “Camponês”. cultura. História e imagem. ocorre o oposto. afirmando que “alguns pequenos detalhes sugerem uma intenção cômica ou satírica. segundo o autor. As classes oprimidas que lutam por ascender desejam ver a representação de condições de vida que elas próprias consideram um ideal a atingir. Testemunha ocular. Pieter Bruegel deixou de usar ‘h’ no sobrenome (Brueghel) em 1559. o estudo das imagens de Bruegel permite analisar as representações urbanas dos habitantes do campo. sua interpretação de realidade. consciente e intencionalmente. “está no fato de que. quando. só as camadas da sociedade que pensam e sentem de modo conservador buscam na arte uma imagem de seu próprio modo de vida. Somente as pessoas que lhes são superiores vêem com sentimentalismo as condições de vida simples.” (p. “a alcunha ‘camponês’ [a Bruegel]20 é especialmente imprópria. segundo esse autor. 2006. 19 BECKETT. Hauser18 (2000) afirma que os artistas renascentistas não apresentavam “uma descrição da realidade em geral. (HAUSER: 2000. 167).

cultura. o Velho. chamado Jogos Infantis22 (1560). os aventais e tocados das meninas eram parecidos com os das mães e os calções. objetos que tinham a mão. os trajes das crianças são indício de que elas eram tratadas como adultos pequenos nos quadros de Bruegel: os vestidos. mas como um Figura 1. Para Hagen23 (1995).com Pesquisas em educação. 23 22 8 Carlos Eduardo Ströher. Cerca de 1525-1569 – Camponeses. cavalos de madeira. tonéis. 31) Figura 1: Jogos Infantis A pintura retrata mais de duzentas e cinqüenta crianças.br/travessias . Rose-Marie. Rainer. os gibões e as cotas dos rapazinhos eram idênticos aos pais. HAGEN. não como um inventário folclórico. loucos e demônios. 1995.unioeste. HAGEN. Pieter Bruegel. bonecas e molinetes montados em grandes hastes. aros de tonéis. ou seja. linguagem e arte. não existindo na história da arte exemplo de maior catálogo de brincadeiras ou de métodos infantis para exercitar o corpo. Cássia Simone Kremer www. Bruegel dedicou um quadro especificamente à temática da infância. (p. ossinhos. Existiam poucos brinquedos na época: piões. Benedikt Taschen. Hagen (1995) também sugere outra interpretação à obra: “Não como a descoberta das realidades da vida.Travessias número 01 revistatravessias@gmail. A maior parte das crianças de Bruegel passava bem sem eles ou utilizava bexigas de porco.

” (p. ideal para o espectador.Travessias número 01 revistatravessias@gmail. “Não existe. Deve aproximar-se. p. “em que todos os elementos funcionam como uma palavra secreta que o espectador é instigado a decifrar. pois. mas ao mesmo tempo manter uma certa distância. trajadas como adultos. Bruegel troça do ardor no estudo dos seus contemporâneos. o limite estreito entre ser criança e deixar de sê-lo. O Burro na Escola25 (1556). Segundo Hagen (1995). 33). elas estão dedicando-se a jogos e brincadeiras. 33).” (HAGEN: 1995. Contudo.unioeste.br/travessias . Outro quadro do pintor. esses personagens e esses rostos animarem-se. Essas interpretações aproximam-se do que Manguel24 chama de imagem como enigma. Lendo imagens: Uma história de amor e ódio. Cássia Simone Kremer www. pois não propõe uma perspectiva estética fixa ao olhá-la. numa postura que.” (2003: p. aviso lançado aos adultos para que não desperdicem a vida. inclusive. E pode indicar. 9 Carlos Eduardo Ströher.’ (p.61) Um olhar atento permite perceber que a obra mostra crianças sem expressão facial. aparentemente. 25 Figura 2. linguagem e arte. numa primeira análise. um lugar. apresenta dezenas de crianças sentadas com livrinhos na mão e um burro desempenhando o papel de professor. Alberto. cultura. como se deslindasse uma charada. A obra fascina e desconcerta. como se fosse uma brincadeira de crianças. Só ao afastar-se terá uma visão do conjunto. contradiz a sisudez dos rostos e vestimentas. 24 MANGUEL. a população das províncias flamengas desfrutava de um elevado nível de instrução. de fato. 2003.com Pesquisas em educação. A legenda diz: ‘Mesmo que um asno vá à escola não passa a ser cavalo. 33). que aparece. Um viajante italiano afirmaria mesmo que todos sabiam ler e escrever. só aproximando-se verá as pequenas ocupações. que deixam muito cedo as brincadeiras para ingressar em um mundo de trabalho e responsabilidade. Mais de 80 jogos são identificados neste quadro renascentista. São Paulo: Companhia das Letras. como capa de livros sobre a infância.

1 Carlos Eduardo Ströher. Figura 2: O Burro na Escola No irônico quadro O Combate do Carnaval e da Quaresma26 (1559). Figura 3: O Combate do Carnaval e da Quaresma (detalhe) 26 Figura 3. linguagem e arte.unioeste.br/travessias . Bruegel pinta crianças brincando com piões. Cássia Simone Kremer www.Travessias número 01 revistatravessias@gmail.com Pesquisas em educação. cultura. sem chamar atenção em meio a adultos ocupados nas mais variadas tarefas. em meio às sátiras de católicos e protestantes.

com Pesquisas em educação. 49).br/travessias . p. 50). Hagen (1995) afirma: “Com esta figura o pintor recorda que não quer apenas distrair o espectador com os divertimentos festivos. um homem vestido de bobo arrasta duas crianças pela mão. “as crianças divertem-se no gelo com os seus patins.” (HAGEN: 1995. sem que ninguém preste atenção.Travessias número 01 revistatravessias@gmail. Bruegel transfere o episódio bíblico para uma fria paisagem do inverno dos Países Baixos. Figura 4: O Arraial de Hoboken Em O Recenseamento de Belém28. Enquanto isso.” (p. Cássia Simone Kremer www. linguagem e arte. 27 28 Figura 4. bebe. cultura. gira numa ciranda ou atira com arco.unioeste. enquanto a maioria dos personagens se diverte. Figura 5. mostrando um aglomerado de pessoas se dirigindo a uma hospedaria. os seus piões e um tamborete transformado em trenó. A sua mensagem é: a loucura e o descuido desviam do bom caminho. Na ilustração O Arraial de Hoboken27 (1559). 1 Carlos Eduardo Ströher.

usando um chapéu muito grande para ela. Bruegel mostra.br/travessias . Figura 5: O Recenseamento de Belém (detalhe) No Banquete de casamento camponês29. que as crianças compartilhavam com os adultos os jogos.Travessias número 01 revistatravessias@gmail. nos quadros de Bruegel. A vida nas aldeias 29 Figura 6. Figura 6: Banquete de casamento camponês Percebe-se. 1 Carlos Eduardo Ströher. os desejos alimentares eram habituais. linguagem e arte. Vivendo num mudo em que a fome era eminente.com Pesquisas em educação.unioeste. que se preocupam unicamente com a comida. cultura. A criança passa despercebida aos olhos alheios. Cássia Simone Kremer www. os contos de fadas. as vestimentas. os brinquedos. em primeiro plano. enquanto os adultos se divertem e se fartam em um banquete camponês. uma criança que lambe uma tigela vazia.

dos moralistas e dos administradores privou a criança da liberdade que ela gozava entre os adultos. da Igreja. Como sugere Archard30 (1993).. Cássia Simone Kremer www. que nos séculos XVIII e XIX resultou no enclausuramento total do internato. mas tentar compreender. (ARIÈS: 1981. no contexto em que ele viveu. em 30 ARCHARD. 31). Não estão.unioeste. De uma forma geral. linguagem e arte. London: Routledge. Os autores posteriores buscaram relativizar suas idéias. exceto em Jogos Infantis. Uma História da Infância. O distanciamento no tempo entre o observador. Infligiu-lhe o chicote.” (p.com Pesquisas em educação. adicionando novos elementos conforme as dimensões de espaço e tempo. concordamos com a análise de Ariès de que um maior protagonismo à infância surge somente no período moderno.. apesar de não existirem consensos absolutos. 1 Carlos Eduardo Ströher. não é possível buscar na arte de Bruegel respostas para indagações contemporâneas sobre a infância. 278). cultura. muitos aspectos convergem nos estudos sobre a infância. era externa. Neste sentido. David. em meio a um mundo em parte comum. Na atualidade. porém reconhecendo o mérito de seu trabalho. Dessa forma. Conforme Paiva (2002). 1993. Porto Alegre: Artmed.Travessias número 01 revistatravessias@gmail. os elementos que influenciaram suas representações. a prisão. Mas esse rigor traduzia um sentimento muito diferente da antiga indiferença: um amor obsessivo que deveria dominar a sociedade a partir do século XVIII. p. “os contextos diferenciados dão [. porém. Para Ariès (1981). mesmo no inverno. 2004. parecem. proliferam-se os estudos sobre as questões que envolvem a criança e a infância. A solicitude da família. juntamente com a construção da idéia de indivíduo e todas as transformações sociais desencadeadas pelo desenvolvimento do capitalismo. a família e a escola retiraram juntas a criança da sociedade dos adultos: A escola confiscou uma infância outrora livre num regime disciplinar cada vez mais rigoroso. o objeto de observação e o autor do objeto também imprime diferentes entendimentos. In: HEYWOOD. as correções reservadas aos condenados das condições mais baixas. Chidren: rights and chilhood.] significados e juízos diversos às imagens. todas as sociedades. próprio para si ou apenas ignoradas pelos adultos pela trivialidade de sua presença. viver num espaço isolado. Colin. e as crianças estão presentes nos mesmos ambientes que os adultos. em suma.br/travessias . no advento do período moderno. não havendo consenso entre os pesquisadores acerca de uma definição precisa ou mesmo de um conceito único. ocupando a posição de destaque.

Rainer. História Social da Criança e da Família. 2ª ed. todas as épocas. A sociedade contemporânea. BRUEGEL. pois fazia de sua vivência cotidiana um conjunto de experiências que era compartilhado por todos. Referências Bibliográficas: ARCHARD. 1967. Uma História da Infância. Um amor conquistado. MacLEHOSE. ao dedicar enorme atenção aos primeiros anos de vida. 2001. conforme o desenvolvimento físico e mental. a forma como as crianças são percebidas e inseridas nas sociedades. Rose-Marie. Peter. BADINTER. 1993. HAGEN.br/travessias . o Velho. 2004. London: Routledge. O Mito do Amor Materno. In: HEYWOOD. BECKETT. ou seja. Lisboa: Estampa.Travessias número 01 revistatravessias@gmail. cultura. A Civilização do Ocidente Medieval. São Paulo: Abril Cultural. ao não conferir um tratamento diferenciado à infância. Taschen. Jacques. História Social da Arte e da Literatura. A sociedade medieval. Rio de Janeiro: LTC. Gênios da pintura. A Idade Média: Nascimento do Ocidente. Bauru. Wendy. Colin. 2000. HAUSER. 1 Carlos Eduardo Ströher. Elisabeth. 1985. Porto Alegre: Artmed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 2004. loucos e demônios.Benedikt. Porto Alegre: Artmed. porém. Uma História da Infância.unioeste. busca organizar a vivência infantil em etapas. São Paulo: Martins Fontes. HEYWOOD. Cerca de 1525-1569 – Camponeses. Hilário. 1981. Pieter Bruegel. adultos e crianças. Colin. São Paulo: Ática. David. a noção de que as crianças são diferenciadas dos adultos. 1995. 1999. Testemunha ocular.com Pesquisas em educação. concedeu-lhe uma importância única. 'A Tender Age': Cultural Anxieties over the Child in the Twelfth ans Thirteenth Centuries. SP: EDUSC. LE GOFF. FRANCO JÚNIOR. Philippe. EUA: Johns Hopkins University. São Paulo. 2006. BURKE. linguagem e arte. HAGEN. tiveram um conceito de infância. Arnold. 1995. História da Pintura. História e imagem. Cássia Simone Kremer www. ARIÈS. SP: Brasiliense. são as concepções de infância. 2004. Chidren: rights and chilhood. O que difere.

Uma História da Infância. Documentais: BRUEGEL. Kunsthistorisches Museum. – La infancia em la Inglaterra de los siglos XV e XVI. Colin. PAIVA. 2000. 115. Lendo imagens: Uma história de amor e ódio.br/travessias .J. São Paulo: Atlas. Cássia Simone Kremer www. Rio de Janeiro: Graphia.5 x 164. História & Imagens.unioeste. L. Bruxelas. Viena. linguagem e arte.Disponível em: http://historymedren. Jogos Infantis.5 cm.htm 1 Carlos Eduardo Ströher. Viena. Gravura contemporânea. Nicholas. Painel de madeira. Belo Horizonte: Autêntica. Pieter. Berlin. Yale University Press. Redação Científica. segundo um desenho de Pieter Bruegel. cultura. ________. o Velho. MANGUEL.2 x 30. Virtuais: SNELL. Neil.com Pesquisas em educação. O desaparecimento da infância. Viena. Pena e tinta-da-china. 1559. MEDEIROS. O Combate do Carnaval e da Quaresma. 255-85). TUCKER. Staatliche Museen zu Berlin – Preusischer Kulturbesitz. POSTMAN. The Medieval Child. Eduardo França. ORME. 2002. ___________. 114 x 164 cm. 1559. 118 x 161 cm. (1995). In. 23. Alianza. O Arraial de Hoboken. Kupfersitchkabinett. ___________. Melissa.2 cm. 4ª ed. M. EUA. 2003. 1566. 1560. O Banquete de casamento camponês. Alberto. O Recenseamento de Belém. 2004. o Velho. ___________. Óleo sobre madeira.5 cm. Óleo sobre madeira.Travessias número 01 revistatravessias@gmail. De Mause. Kunsthistoriches Museum Wien. __________. (pormenor).com/od/medievalchildren/Medieval_Children. Óleo sobre madeira. 2003. Madrid. 1568. Porto Alegre: Artmed. In: HEYWOOD. Acesso em 23/10/2007. El niño como principio e fin. Historia de la infancia (p. São Paulo: Companhia das Letras. 1999. Medieval Children.about. O Burro na Escola. Musées Royaux das Beaux-Arts de Belgique. Kunsthistorisches Museum. 118 x 164. João Bosco.

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