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Bala na Agulha - Marcelo Rubens Paiva NOVA YORK 23h50

Enquanto ela estava no chão, amarrei a extremidade da corda no seu pulso. Fui arrastando-a para o quarto. Esperneou. Gritou (mesmo com o lenço preso na boca), mas ninguém ouviu. Coloquei-a na cama, joguei meu corpo sobre o dela e ameacei: — Vou usar esta faca se não colaborar! Seus olhos azuis perderam o brilho que, antes, ela tinha me lançado. Agora, olhos vermelhos, olhar assustado, cheio de ódio. — Eu vou ser rápido. Costumo ficar a noite toda, mas hoje não posso. Um dia, se eu tiver a oportunidade, te explico... Interrompi o discurso confidente lembrando que a cliente era ela, não eu; suas fantasias deveriam ser representadas, não as minhas; se alguém tinha o direito de desabafar, era ela, que pagava por isso. Voltei a agir profissionalmente. Amarrei seus braços na borda da cama. Fui amarrar os pés e ela enfiou um chute no meu peito que me jogou no chão. — Quer parar com isso! Eu nunca tinha estado com uma cliente tão resistente; demência! — Você está pagando, mas me dá um tempo! Eu quero acabar logo! Relaxou. Deixei seus pés soltos. Vestia uma saia até o joelho. Fiquei na dúvida se levantava ou tirava. Acabei tirando. Desabotoei sua blusa. Nua. Contraiu o abdômen. Nua. Cruzou as pernas e fechou os olhos. Merda de vida! Por que me compram, se para eles o prazer é um sacrifício? — Tiro minhas roupas? Nenhuma reação. O contato tinha exigido que eu a comesse vestido de carregador, tal qual um estupro. Ignorei o contato. Tirei os sapatos e a calça. Em pé, olhando seu corpo indefeso, a pele lisa, branca, bateu uma dúvida: ela não precisa contratar um michê pra fazer aquilo, é o tipo de mulher que todos os homens desejam. Agora não. Antes, algumas horas antes. Seja paciente. É melhor começar com o que me aconteceu naquela tarde; existem detalhes que não podem passar em brancas nuvens. Se nos acusam de sermos desconhecidos de nós mesmos, vou me situar melhor e escavar. Tentarei ser o mago que evoca o passado. Agora sim, me lembro bem. À tarde. O tempo deve ser registrado, hora a hora, minuto a minuto. Estava e continuo sem pátria, nome e futuro. O tempo era, é, meu único bem. O tempo não controlo. Ele corre. Tento agarrá-lo, antes que seja tarde, e eu 1
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Bala na Agulha - Marcelo Rubens Paiva seja condenado por ter deixado escapar. O que não muda? Tudo muda. O registro do tempo não. É uma sina: se agarrar ao tempo. É a nossa salvação. Os fatos duraram uma semana, começando exatamente naquela

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Bala na Agulha - Marcelo Rubens Paiva QUARTA-FEIRA

O grunhido: — Ex? Ex? Ex? O sujeito perguntava a quem passasse na sua frente cruzando a Washington Square, porta de entrada do Village. A primeira vez que o vi, imaginei que se tratasse de mais um michê alugando o corpo para uma trepada: — Sex? Sex? Sex? Não. Um reles traficante oferecendo uma viagem de ácido por dez dólares: — Acid, acid, acid... Há um bom tempo eu morava no Village. O bairro e eu, uma dupla. Atravessar a Washington Square era rota obrigatória para voltar para casa. O traficante me conhecia. Assim que me via, e mesmo sabendo que eu nunca parava, declamava, insistindo: — Acid, acid, acid... Eu amava sua persistência, sinal do regresso, prova de que eu continuava vivo. Talvez eu fizesse, durante toda minha vida, aquele percurso. Ele estaria sempre no mesmo lugar, oferecendo ácido, a despeito das transformações do mundo. Bom e ruim. Bom porque, na minha profissão, era agradável, harmônico, o alerta diário de que eu estava vivo. Ruim porque, na minha vida não havia transformações, como se a história fosse o encontro de repetições. Talvez um dia eu pare e compre aquele maldito ácido.

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assessor de não-sei-o-quê do consulado brasileiro em Nova York. um número foi o prenúncio da transformação. Outro costume: ser prudente com clientes ansiosos. do outro lado da linha. certamente era brasileiro e do poder.com . caralho. O número seis brilhando. — Quanto ele quer? — Depende. Quem podia pagar a diária desse hotel e procurava cocaína com tal urgência.. 4 Grupo Baixe Livro http://www. Seria o sétimo se eu não atendesse. a desconfiança e a paranóia estão abertamente envolvidas (fraturas expostas). Voltando para casa. Seis. No mais. e pela primeira vez. É pura? . Hino do regresso. traficantes. Será que ela existe? Sim. quando o telefone tocou. risco que normalmente eu não correria. procurando ganhar tempo. na dúvida se ouvia os recados. Não fazia a menor diferença saber onde ele estava. acid. Muita gente nas ruas. Não era comum ter seis recados gravados na secretária e eu sabia. Eu costumava ser honesto com meus clientes e intermediários. Vender cocaína para esse tipo de gente é um risco. Um número digital reluzindo. me tirasse do círculo. depois de anos. Marcos de Sotto. A luz vermelha no visor da secretária eletrônica. Devo ter no máximo umas cinco. acid. claro. A prova disso está aqui. Estou no Piazza. é sobretudo paternal. o soneto: — Acid. desejei que algo de muito sério me acontecesse. Que parassem de girar! Uma mudança. estou o dia inteiro atrás de você! Era a voz de Marcos de Sotto. — Quanto você tem aí? — Não muito — desconversei. atrás de uma presença. — Porra. o que me garantia a fama de um dos traficantes mais confiáveis de Manhattan.Marcelo Rubens Paiva 16h30 Verão em Nova York. sempre a postos para satisfazer os desejos urgentes de um brasileiro do poder. E era mesmo. por experiência. que o excesso tinha um significado perturbador: alguém estava ansioso atrás de mim.É. A prática tinha me ensinado: a relação traficante e usuário é mais que comercial. Ao abrir a porta de casa. e já te liguei uma porrada de vezes! O nome Piazza me deu calafrios e quase me fez desligar. Nós.Bala na Agulha . e nada tinha mudado. Onde você está? — perguntei num tom cordial. a sede de consumo. eu. temos de freqüentemente esfriar os ânimos de certos clientes ansiosos.baixelivro. Numa negociação. Dez gramas? É muito. Deduzi que era ele o cliente ansioso. Um mau pressentimento. eu estava vivo. a vender ácido na esquina da Washington Square. muito calor. era preferível ser honesto e fazer negócios por telefone. se ignorava.. tudo em excesso.

e eu deveria correr. atitudes movidas pelo desespero da abstinência. mais alto do que o preço no Brasil. que simbolizava minha rota de fuga. eu sentia um profundo desprezo pelos usuários de pó. mas firme. guardados numa maleta. O ruído da gilete esmagando grãos de pó sobre um espelho. sempre pedem um abatimento. É um negócio ilegal. Os códigos e símbolos são pessoais. Eu tinha de ser cordial. Marcos fugiu às regras e foi direto ao assunto. Eu desprezava meu ganha-pão. sem ter a quem recorrer ou pedir desculpa. Ou não. ou um ‘chorinho’. já que não tinha conseguido sobreviver de outra forma. obter a aprovação. fazer chantagens. é perigoso negar cocaína a um usuário ansioso: pode-se tornar um delator. Os brasileiros que vivem em Nova York são os piores clientes de um traficante de classe. ou para quem estivesse intermediando. No entanto. Apesar dos anos de janela. Se gasta mais tempo com evasivas do que com fatos concretos. resultado de anos de tráfico. Sua ansiedade pedia cautela. problemas. Apesar dos narizes gigantes. Quando a semente desse pensamento germinava. As falas ditas com duplo sentido garantem a segurança de ambos. aquele número seis reluzindo e aquele telefonema de Marcos 5 Grupo Baixe Livro http://www. formatos diversos. uma ‘pro santo’. Talvez. presenciar o ritual. Mas foi a quantidade que negociei. Vez ou outra eu esperava para assistir a droga fazer efeito. já! Me encontra no saguão do hotel. o rito. Apesar de eu ter conhecimento disso.Marcelo Rubens Paiva Só isso?! E olha lá. fazia negócios com Marcos de Sotto. Parar. Eu tinha muito mais que cinco gramas. Eu estava cheio daquilo. tudo o que eu via era o bolo de dinheiro que carregavam no bolso.Bala na Agulha . As leis foram criadas por nós mesmos. eu sabia. é útil ter amigos no consulado. fazia de tudo para preservá-la. Desaparecer. Bastava apresentar o pó para se tornarem servos obedientes. — OK. cheiraria cinco gramas e só. gritar. Demorei muito tempo para aprender todos os trâmites. Decidi que ele. e receber a grana. O problema estava em mim. Merda! Descarrilar. Assim como para uma puta não é recomendável escolher o freguês. bobagens que só confundem a transação. eu tapava com cal: me lembrava dos 175 mil dólares. Cada passo desse negócio é minuciosamente calculado. a preparação. pedir ajuda para não derreter.baixelivro. cresciam e fungavam como focinhos de cães. no fundo falso do armário. vendedores e compradores. chegaria a hora de parar e usufruir dos lucros. Esqueça as tramóias morais. e revelava-se o retrato do meu fracasso. Existe uma ética nesse tipo de negócio. fossem de que cor fossem. Seus narizes. uma vida jogada no lixo. até o momento.com . domesticados (rebanho dócil). Seu prazer era o alarme que furava minha cabeça. E desligou. Tinha uma longa carreira pela frente e. Mas não. Uma quantidade superior. Reclamam do preço. me corroía. É preferível ter um cliente indesejável a pôr o negócio em risco. Um dia. Meu dever era ficar. Pega um táxi.

era a atitude mais sensata. É. como um furacão.Bala na Agulha . em busca da tal transformação. no entanto óbvia. Enfiei cinco gramas no bolso e saí para a rua. naquele fim de tarde. cujo intermediário desliga o telefone sem ao menos perguntar o preço da grama.com . Ficar em casa.Marcelo Rubens Paiva de Sotto fossem o sinal. E ela veio. E parou de girar. Felizmente. 6 Grupo Baixe Livro http://www. Felizmente te. desafiando minha rotina. brasileiro.baixelivro. É uma fria vender cocaína para um cliente ansioso. que visita os States. É uma fria negociar com hóspedes do Piazza.

Segui-o até o elevador. ao se mostrarem prestativos e simpáticos. vendiam. Ele está comigo. crianças correndo excitadas e carregadores. homens de negócios. E posso adiantar: não havia nenhuma amizade entre eu e Marcos. refletiu e. na época. Surpreendentemente. Se conhecia. ‘fio de nailon’. O estúpido número um parou. trouxe as fotografias? Cada cliente usava seu termo para designar a coisa. no entanto. ainda sem nos falarmos. No final. funcionários de todos os tipos que. dependendo do prazo de validade. — Indo. sem pedir licença. Imaginou o que era. era lisa demais para ser humana. recepcionistas. quando Marcos o interrompeu: — Não precisa. e eu tinha uma visão privilegiada de sua careca precoce. Não sabia se Marcos conhecia meu verdadeiro nome. isto é. deu um tapinha nas minhas costas. Eu deveria virar as costas e ir embora. Ele costumava me chamar de Thomas. Descemos no décimo quinto. ‘fermento’ etc. passando por portas e mais portas. e voltou para seu lugar. são enviados para o consulado mais próximo. Seguimos por um corredor deserto. Para Marcos.com . Trouxe. nome do passaporte que ele havia me vendido. os meninos do consulado não os devolviam aos verdadeiros donos. Apenas observava como pessoas normais. somente business e desprezo mútuo. Thomas. dois seguranças estavam sentados na frente do 1500. Sempre quando a via. sem dívidas com a justiça. me chamava pelo falso para provar o bom profissional que era. muito fortes e aparentemente estúpidos. à paisana. Apalpou por fora do bolso o pacote com as cinco gramas. Por cerca de dois mil dólares.baixelivro. quando encontrados. tal qual um escravo da segurança. eles arrumavam outra identidade: passaportes perdidos por brasileiros nos Estados Unidos. era ‘fotografia’. Um deles estava pronto para me revistar. Ele era baixo. Mais uma razão pela qual eu negociava com gente do consulado. uma gorda gorjeta. Você está bem? Já tinha me acostumado com a ordem das perguntas: primeiro a coisa. ‘talco’. tinha vontade de tocá-la ou riscá-la com uma gilete. ‘ricota’. Não buscava alimento para uma paranóia. inventando tiras de walkietalkie anunciando minha chegada. acompanhado pelo olhar encantado do estúpido número dois. Turistas olhando mapas. Subimos sem nos falarmos. Olhava para as pessoas em volta. depois eu. buscavam. sentei na poltrona mais ao fundo e abri um jornal. Eu fazia um tremendo esforço para não julgar meus clientes e intermediários.Marcelo Rubens Paiva 17h25 Cruzei o saguão do Piazza com a perigosa constatação de que Marcos não estava lá conforme o combinado. garçons. viviam. 7 Grupo Baixe Livro http://www.Bala na Agulha . Pareciam brasileiros. Tive clientes que a chamavam de ‘sobremesa’. Mas não. Finalmente a voz áspera de Marcos de Sotto tirou do ar o mundo dos comuns: — Então. eu não era eu. Levantaram assim que nos viram. começou a me revistar. na verdade. meu nome falso.

mais o táxi. Marcos bateu e entrou. mas para me preservar de ter de assistir ao ritual. Me dá um tempo. e fiquei próximo à janela. 8 Grupo Baixe Livro http://www. perguntou: — Por que esse troço me chama de ‘homem superior’? — Você é. Eu costumava começar pelo dinheiro. Ao concluir o hexagrama do I Ching. Fui saindo. atiraria as cinco gramas longe. Só tenho 500 — e me mostrou. Tudo bem com você? Ignorei a segunda pergunta e entrei junto com Marcos. — Eu queria dar um presente para um amigo — e apontou para o quarto vizinho. Faça uma homenagem. Tá caro — Marcos falou. hóspede do Piazza. trouxe a coisa? Claro. Thomas. Álvaro Turco sentou. pelo bem do Brasil. Marcos voltou: Então? Mostra a presença. logo de cara. Quero que o Brasil se foda! — foi a minha resposta. quando Turco se postou entre eu e a porta. — Esse merda vai cobrar o táxi?! — Turco reclamou. não só para deixar claro. inconformado.. Álvaro Turco.. Ele me encarou. Abri a janela e fiquei encostado. o verdadeiro cliente ansioso. Marcos era esperto e.. Thomas. Falou com alguém do outro lado. Examinei o sorriso desonesto de Turco e disse: Estou fora. Turco. com a mão no bolso. você é. só tenho 500.. Não poderia dizer o mesmo do figurão. Havia uma porta que nos separava de um quarto. Pede pra ele a diferença. apesar de tudo.com . Olá. É verdade. Marcos. Turco fechou a porta. Tudo está caro — encerrei. Sabia que com ele eu não corria perigo. homem superior. dei uma olhada rápida em volta. melhor. Marcos pôs a mão no meu ombro: Vamos conversar.baixelivro. de confiança. também do consulado.Marcelo Rubens Paiva Marcos deu duas batidinhas na porta e me olhou com uma expressão que traduzi: “Não ligue para estes dois estúpidos. São 750 dólares. levantou a mão e esticou o indicador. meu preço.” A porta foi aberta por outra figura conhecida. Vou. qualquer emergência. Faz por 500 — Turco veio em seu socorro. Tudo. Por precaução... Thomas. Sabia que não havia outra coisa a fazer se não enfiar a mão no bolso e contar o bolo de dinheiro: Ah. Apesar da curiosidade natural. dá 800. quanto menos eu soubesse. Marcos conhecia as etapas da transação.Bala na Agulha . Está renegando a pátria mãe — Turco. segurou três moedas e jogou-as sobre a mesa. que fez os dois atravessadores rirem. mais alto que o normal. o local da transação.

O cliente ansioso. perguntou num bom português: — É pra hoje?! O homem está esperando! — Faltam 300 dólares — tentei sensibilizá-lo. que situação. sempre me impressionava o cano de uma arma. senhor — Marcos lamentou. Ficamos todos duros e em silêncio. Decidi intervir. Os dois ficaram quietos. como se fosse me contar um segredo de Estado: — Você não tem idéia de quem está aí. Marcos se levantou num pulo. O cliente ansioso apareceu. — Desculpe.Marcelo Rubens Paiva Marcos ficou sério. em posição de sentido. Viu o que você fez. ficam faltando 220 dólares. Esperei se acalmarem. — Ah. e não costumava ser eu.. em carne e osso.com .. Em silêncio. — Quanto você tem aí? — Marcos perguntou ao seu parceiro.. Saco! Eu precisava ter paciência. — Tudo bem — o cliente ansioso sorriu.baixelivro. Uma mulher. Sentiu algo incomodando na cintura. O cliente ansioso. Finalmente outra figura apareceu na porta. até explodirem em gargalhadas. assistia à televisão. não me enche! — ela resmungou e ficou mudando os canais. desapontado comigo. — Marcos repetiu. mais os 500. Tirou uma automática presa às costas. entregou 200 dólares para Marcos e voltou para a suíte. A porta do quarto contíguo foi aberta. com o cabelo engomado para trás. No quarto vizinho. A porta de ligação. deixou à mostra a suíte. com o cano displicentemente apontado para mim. Aceita cheque? Marcos e Turco voltaram a rir. onde havia uma sala espaçosa e um quarto ao fundo. 9 Grupo Baixe Livro http://www. aceitar as provocações e digressões. batendo a porta. Thomas? — Turco. revoltado. até perceber que a única saída era pôr a mão no bolso e oferecer o restante: — Só tenho 80. na verdade. Fez aquilo pra me impressionar e.Bala na Agulha . Um sujeito. que eu não conhecia. encostou a porta e começou a discutir com a mulher. Que situação. até eu ri. resumindo: — Com os 80 dólares do nosso amigo. Era um sujeito alto. Marcos sentou na poltrona. Este cara é um chato! — Turco. Ele olhou atônito para os dois assessores. aguardamos. colocando-a em cima da mesa.. Voltou para o quarto e perguntou à mulher pela sua carteira. os olhos bem abertos e uma expressão dura no rosto. Todos se calaram e olharam pro chão. disposto a dar um fim no ‘probleminha’. Veio até mim e me cumprimentou: — Como vai? Apertamos as mãos. apesar de nunca tê-lo visto pessoalmente. no outro quarto. agora irritado. — estamos tendo um probleminha. Alguém iria ceder. esparramada na poltrona. escancarada. Desta vez. passaram a gritar um com o outro. Era Marcos quem tinha de voltar a falar: Então? Quanto te devemos? Oitocentos dólares. reconheci-a também. Ele mostrou as três moedas com que jogava o I Ching e fez uma expressão idiota. que eu reconheci de imediato.

Marcelo Rubens Paiva — Acho que você vai ter que fazer por 200 — Marcos me ofereceu a grana. Qualquer coisa. quando na suíte uma garrafa se estilhaçou contra a parede. Os dois estúpidos que. Thomas. Desci pela escada. Marcos foi até ele. Mas Marcos fechou a porta. Depois de entregar o que queriam. Minha permanência só tinha valor com as cinco gramas no bolso.Bala na Agulha . passava a ser o mais indesejável do grupo. Passei reto e nem esperei o elevador. Peguei o dinheiro e joguei o pacote com as cinco gramas sobre a mesa. me lembrei daquelas bonecas que choram. se encontravam de pé e nervosos.com . experimentou e aprovou.baixelivro. Um tapa. Fui saindo. 10 Grupo Baixe Livro http://www. olharam para dentro. A discussão terminou. Era um tédio. No corredor. era o grande amigo. Os gritos do quarto vizinho aumentaram. No início. restando a mulher aos prantos. alertados pela briga do casal. Seu sorriso foi o alarme. sei onde te achar. um corpo no chão. ouvi Marcos: — Obrigado. abriu. Era o mesmo em todas transações. Eu não tinha mais o que fazer.

e que tinha conseguido. mas qual negócio de alta rentabilidade não os tem? Desci do ônibus no Village. por exemplo. Cumpri a pena e me deportaram. Muitas informações.. Deve-se mudar de vida? Deve-se escalar a montanha mágica. preferi algo mais envolvente e que fizesse meu pé-de-meia. Passava horas no quarto.Bala na Agulha . Manuel Pontes deveria ser o primeiro a saber. Por incrível que pareça. confiava em mim. olhando para a janela. Não tinha dinheiro para isso. sobretudo. celas. Até que pensei em largar tudo e estudar numa universidade americana. Armas apontadas. isto é. Não pensei duas vezes e contatei os canais certos para iniciar a operação em outro país. estudantes de cinema da UNY..com . e saí do Piazza não muito confiante do meu sucesso. e logicamente sofrera com isso. imaginavam que eu tinha projetos de estudar na França. A justiça francesa me condenou a dois anos de prisão. eu queria mudar a rota do que era certo demais. trocamos acenos e poucas palavras. Mas só pensei. como já disse. restaurante italiano barato onde eu costumava comer. Um pato. eu tinha de fazer bicos para um estoque de qualidade. que soubera da prisão em flagrante. muitos lugares para ir. Nem procurei minha família. Um traficante de cocaína pode obter um lucro bruto de até 500%. O quê? Como comecei? No início. Uma lição tirei desse dia: sempre existe um lugar melhor para se ir. minha participação no mercado era ridícula. Não levei mais que dois anos para arrebanhar uma clientela fixa que. ou ficar e esperar? Sim. com o oposto de uma prisão. Me instalei num hotel de quinta do centro velho de São Paulo. devese. se enfiar por uma caverna escura.baixelivro. na base de muita eficiência”e. Um dia abusei da sorte e fui pego. cubano que trabalhava sem vínculo com os cartéis. se sente falta da rotina da cadeia (onde as coisas chegam até você). controlar o tráfico de pó no sul de Manhattan. No Arturo’s. pagava proteção a Manuel Pontes. amedrontado. Não faça julgamentos apressados. cruzei com alguns conhecidos. no centro do alvo. Existem riscos. exportava pó para Paris. pedi paciência avisando que eu iria comer primeiro. Nos Estados Unidos. o Arturo’s não era meu ponto de venda. boa dose de violência. pois ninguém conhecia os verdadeiros motivos das viagens. É duro. Não. remar até a ilha perdida. Surgiu a oportunidade de traficar para os Estados Unidos e não deu outra. De volta ao Brasil. Fui me sentar na mesa mais ao fundo. No mais. em viagens mensais. No fundo. Nunca negociei dentro do restaurante em respeito às duas belíssimas garçonetes finlandesas. e em vez de fritar hambúrgueres ou engraxar sapatos. Pagava porque é praxe nesse tipo de negócio ter alguém que abra portas.Marcelo Rubens Paiva 18h40 Feito. Qualquer problema que eu tivesse com a polícia ou com outros traficantes. alguns davam a entender que queriam pó. personagens de sonhos eróticos 11 Grupo Baixe Livro http://www. sofri com o excesso. Pagava não porque eu precisasse de proteção.

este desviou o rosto quando nossos olhos se encontraram. Pedi ajuda. Só tomavam café. Ela sabia quem eu era. No mais. Eram tiras brasileiros e estavam atrás de mim! Eu havia deliberadamente provocado aquilo ao negociar com o figurão do Piazza. melados por molho de tomate. mas só ficaram no café. a moeda parar com a face que me interessava virada pra cima. naquele momento. em serviço. Eu tinha chances de. Mas o certo e o errado são faces de uma moeda que não pára de girar. oferecendo as maravilhas do seu cardápio.baixelivro. Não iriam jantar. Me chamou a atenção a letra F no bolso da calça de um sujeito no balcão. pensei que talvez não fosse o momento de mudar o que até então eu considerava uma vida tranqüila. talvez. Olhei com prudência e vi que estava acompanhado por outro sujeito.Marcelo Rubens Paiva incompletos. teriam de se livrar da comida. não conseguiam se juntar (tentava me unir a elas. No mais. sabiam do que eu vivia. naquele restaurante. numa outra profissão. típica dos novos intelectuais e universitários americanos. na espera. costumam tomar uma coisa rápida. Uma das finlandesas veio com o bloco para anotar o pedido. E por alguma razão que só um conhecedor da cultura escandinava poderia esclarecer. para reiniciarem o trabalho se necessário. já que não estavam no ônibus. F de uma grife brasileira de jeans. onde nossos corpos. surubas em panelas gigantes de espaguete. apesar da simpatia que tinham por mim. mas era só chegar perto para escorregar para longe). 12 Grupo Baixe Livro http://www. Nem saberia como propor. e me lembrei que entraram logo depois de mim. e foi prender a atenção dos dois sujeitos. ela se prestou ao serviço. Tiras. No entanto.com . tinham total aversão às drogas. me dando a cobertura que eu precisava para escapar. Podiam ter me seguido do Piazza num carro. Trocou a simpatia habitual por um ar apreensivo quando lhe expliquei a situação. o que fazia e o tipo de gente que estava me seguindo. Merda de sonhos! Nunca lhes propus realizar tal fantasia. Fiz o pedido a uma das finlandesas e. todos.Bala na Agulha . passei os olhos ao redor. Levantei e saí pelo ponto cego dos dois. num outro país. Se eu saísse de repente. Me deu pânico só em pensar que teria de recomeçar tudo de novo. Esperei para ver se faziam outro pedido. passei a sentir uma tremenda invasão à minha privacidade: não eram exatamente dois truculentos brasileiros quem eu esperava para trazer os ideais de uma vida nova.

baixelivro. Ela gostava de mim. Conhece? — É meu pai. Nunca saía de casa. Ela explodiu numa gargalhada que fui ouvindo enquanto subia a escada.. particularmente da América Latina. Jorge Castilho. por favor. porém com um olhar revitalizado. espectadora assídua de telejornais. ela aparecia correndo para contar as últimas notícias. Parece um toureiro. No meu prédio. guerras foram criadas para tipos como ela. no canto da tela.. nele sim estaria a passagem para uma mudança. o ministro toureiro que prometia vida melhor aos brasileiros. 13 Grupo Baixe Livro http://www. miséria nos países da América Latina etc. mas era a pessoa mais bem-informada do bairro. havia uma porteira. Entrei no apartamento ainda perplexo. Estava um pouco mais velho. segundo os últimos acontecimentos. Imagens da infância. A posse do novo primeiro-ministro. Corte. Precisamos muito de você. e pensar seriamente no tipo de futuro que eu almejava. Assim que alguém entrava.Bala na Agulha . síndica ou responsável (nunca soube como defini-la) que morava no térreo. fui para a cama e liguei a TV. A síndica. — Amanhã vai fazer mais calor.. perguntou: — Que homem forte. Brasília. Com a porta do apartamento aberta e a TV ligada. família. Lembranças. Vivia tensa. chutando sem querer um telegrama sob a porta. Fiquei estarrecido ao ver o rosto tão familiar. à espera da sua tragédia (seu sentido de vida). controlava o entra-e-sai dos moradores e possíveis hóspedes. Não restava outra coisa a não ser ir para casa. caso fosse necessário evacuar a cidade em minutos. Brasil. Peguei-o.Marcelo Rubens Paiva 19h20 Dei uma volta pelo bairro para me assegurar de que não estava sendo seguido. tão interessada quanto eu. Esperamos de mãos dadas até entrar o apresentador. ao lado da porta.. Vão mostrar depois dos comerciais. um mapa do Brasil. tinha uma mala pronta. furacão no Caribe. Abri o telegrama. O que nos ligava eram as responsabilidades por vivermos sob o mesmo teto e as novidades do mundo. Tateei o telegrama sem a menor disposição de abri-lo já que. esfriar a cabeça. Volte. o novo governo. Sandra C. de fato. Entrevistavam Castilho. Seu cabelo era arrepiado para cima. Mal abri a porta e ela apareceu eufórica: — Onde você andou?! Corre! Estão falando do Brasil! Pegou na minha mão e me puxou para dentro do seu apartamento: — Tem um novo governo lá. cujo dia-a-dia era preenchido pela comoção ante uma tragédia: terremoto na Turquia. fazer lamentações e reclamar das injustiças do acaso. Há anos que não tinha notícias dele. para uma (temida?) transformação. ruas do Rio e de São Paulo. Personagem do apocalipse. Encerrava o discurso com a previsão do tempo.com .

outros subiram a escada e. Demorei alguns minutos para tomar consciência: aconteceu. o telegrama de uma tal Sandra C. Procurei indícios nas janelas vizinhas às minhas. aparece como uma bala. minha mãe. sem respirar. Num impulso. na extremidade. A não ser um cano saindo de uma janela em frente. Mas quando aparece. resultado de quatro anos de tráfico. Recuei dois passos. Nas cabines telefônicas. placa fria. deixando para trás a identidade falsa de um Thomas. uma lente. uma maleta escondida no armário. com 175 mil dólares. Segui sem olhar para trás. quando lembrei da maleta. dois carros de polícia vindos do nada fecharam a rua. reflexos. até arrombarem aporta. Se faz um buraco. Nada de mal lhe acontecerá. um cano fixo. Parei numa esquina para vomitar. Um outro carro. Não encontraram quem procuravam. acenderam as luzes e tomaram posse. andei por instantes pelo apartamento. Ninguém é imune. de Castilho.baixelivro. antes de correr até ele. até pegar o casaco e sair pela escada de emergência. Entraram fazendo estardalhaço.Marcelo Rubens Paiva C.com . pararam no meu andar. que cedo ou tarde seria encontrada e seu conteúdo repartido entre os tiras. em silêncio. fácil. observei carros estacionados com possíveis ocupantes de tocaia. Mais gritos. Nada que chamasse a atenção. Desceram quatro sujeitos à paisana e correram para dentro. Relaxaram. Olhei para o prédio e. Virei as costas e fui na direção oposta. última remessa que eu tinha recebido.Bala na Agulha . Tranquei a porta. No chão. querendo alguém de volta. Na rua. Não esperei o final do show. Se esconde no otimismo. andando na sombra. Não tinham idéia do país em que eu vivia. Enquanto um deles gritava com a síndica. no fundo falso do meu armário. apaguei as luzes. Um traficante foge todo o tempo. como se perfurasse uma folha de papel. estacionou na porta do meu prédio. 14 Grupo Baixe Livro http://www. notava-se. busquei tiras à paisana. a objetiva de uma câmera fotográfica apontada para o meu apartamento. Fiquei parado. e perto de 30 gramas de pó.

o primeiro nome que me veio. estava sentado num banco da Washington Square. os socos e pontapés ficaram mais violentos. Os murros vieram de um pulso magro. Foi justo o momento em que comecei a correr. perguntou: — Posso te ajudar? Era o traficante de ácido.. sorridente era um disfarce. Estão me seguindo. Quando cruzaram com o traficante. Tá na cara. o que nos ligava para sempre. não existe ‘quebra essa pra mim. Dei a grana e segui em frente. Em anos. era porque tinha ido com a minha cara. Mas são tiras.baixelivro. Quando me dei conta.. Nem uma gota de suor. O sangue espirrado enchia baldes. Já era hora. Eu sabia que era por quanto ele vendia um ácido. 15 Grupo Baixe Livro http://www. Olhavam na minha direção. nenhuma arma. Não usava porretes. em inglês. Sim. e faria um favor que. Conhece aqueles dois sujeitos? Não.. Uma voz. pode me ajudar. Quando o traidor estava na ante-sala da morte. Só parou quando ficou óbvio que mais um soco. com óculos redondos fundo de garrafa. atravessando ruas desconhecidas.’ Se aceitasse. muito elegante.com . mandava o sujeito pro inferno. Você tem alguma idéia? Ele olhou de relance: — São fortes. Havia dois sujeitos parados a uns 200 metros. me abaixei e joguei o passaporte de um tal Thomas no bueiro. Quando o conheci não acreditei que aquele corpo esquelético era o corpo do controlador do tráfico de cocaína do sul de Manhattan. E quando todos pensaram que Manuel Pontes tinha parado. Se aceitasse. Talvez. Seu jeito manso. nem isso. um dia. era porque queria essa ligação. simpático. e me apoiando em postes para continuar vomitando. trocou de mão e continuou esmurrando. Manuel Pontes. Levantei e fui para o outro lado. De fato. Nos Estados Unidos. um simples tapa. Já o vi espancando um sujeito que tinha lhe passado a perna.. Um deles com a calça F. Lógico que era pouco para o tipo de coisa que eu estava pedindo. quisesse provar para todos que se virava com as mãos limpas. barras de ferro. O mais incrível foi que Manuel não se sujou. — São brasileiros.Marcelo Rubens Paiva 20hl0 Andei sem direção. um valor simbólico. O que ganho em troca? Abriu um largo sorriso. Cruzei a esquina da West Broadway num pulo. escondia um animal. um negro baixo. por ser baixo e magro.Bala na Agulha . que nada. fez apenas uma pausa: ajeitou os óculos. Os sujeitos vieram atrás. meu protetor cubano. foi a primeira vez que falou comigo. esbarrando em pessoas apressadas sem conseguir me desculpar. — Dez dólares — ofereci. Não parei para ver. Nenhuma roupa amassada. — OK — e estendeu a mão. alguma coisa aconteceu. Parei. e como. eu teria de retribuir. Não podem fazer nada. Vão dar trabalho. magro.

. a voz respondeu que não morava nenhum Manuel Pontes. Tem que ser agora. Os tiras que estouraram meu apartamento podiam ter encontrado seu endereço ou número de telefone num pedaço de papel que eu não saberia dizer se existia ou não. Lógico que a segunda voz era de um tira. Estou de saída. até concluir que era melhor ter um jantar interrompido. Outra voz atendeu. o que tinha um significado surpreendente: meu protetor havia dançado.com .baixelivro. vez ou outra. Desta vez. Um segundo nome me veio: Marcos de Sotto. Quer parar com isso! Eu estou numa fria! Nós estamos! Parou de chiar e refletiu.. eu desliguei. chamei por Manuel Pontes. Agora não. estou precisando da sua ajuda. De jeito nenhum! Marcos. Talvez. Me liga em casa. usuário.Marcelo Rubens Paiva Parei numa cabine telefônica na esquina da Avenida das Américas e disquei o número decorado e poucas vezes usado.Bala na Agulha . Estou de saída para um jantar de negócios. Não podia ligar para o Piazza. Enfiei mais uma moeda e voltei a discar. o que era difícil: ele só falava se apanhasse muito.. como se fosse preciso.. Marcos. Voltou a refletir. Liguei para o consulado e. O que foi dessa vez? No que você se meteu? Onde é o jantar? Eu encontro com você. Ao atenderem. me recomendar alguma coisa. Não tem cabimento você ficar ligando pra cá. 16 Grupo Baixe Livro http://www. Insistiu em que disse meu nome. o encontrei: Já te disse pra não ligar pra cá! Na verdade. Se lembrou que ele era um intermediário. atravessador e. naquela altura. Me deu o endereço e me recomendou discrição. por minha causa. e desligou rápido. por sorte. Do outro lado. a se envolver com problemas de um traficante de merda. Talvez eu tivesse dançado por causa do protetor.

ficaram com minha grana. Enquanto faziam os pedidos. me pedir um cigarro. até ser interrompida por Marcos.com . olhei em volta constatando que ele não havia chegado. Se cumprimentaram friamente em francês. No início. O maître lhe sugeriu que se instalasse na mesa reservada. Tinha de disfarçá-lo. Relaxou quando descobriu que o atrasado era ele. No restaurante. do consulado brasileiro. Marcos se levantou e veio para minha sala. Ficou acendendo e apagando um isqueiro descartável (indisfarçável tensão). notei que ela voltou a olhar para mim e a se confundir. Tirou o fone do gancho e eu. expliquei a situação: Estão me seguindo. para que ele não entrasse em desespero. Invadiram minha casa. Sentou ao meu lado e pediu uma Perrier. Mas não demorou muito para ela voltar a acender e apagar o isqueiro. Pedi um whisky e esperei. a conversa entre os dois parecia cordial. não ela. Voltou a me olhar. pele branca e delicada.baixelivro. 17 Grupo Baixe Livro http://www. pode ter vazado. Fiquei na sala de espera. como se fosse dizer alguma coisa. Marcos. História. e que teriam de ser preservados por um bom tempo. de costas para os demais. já que me restavam apenas 800 dólares. nitidamente fora do meu padrão. Ele não manda mais nada. que ficava no meu campo de visão. vestia um clássico tailleur escuro: pinta de empresária. e ainda estão me seguindo.. — Não tenho registro de nenhum policial brasileiro que tenha entrado nos Estados Unidos. Cabelo chanel. me perguntar qualquer coisa. Notou que eu examinava suas mãos e me olhou de relance. Entrou uma mulher que olhou para o relógio e deixou cair a bolsa. Tudo bem. mas ela preferiu esperar ali mesmo.Marcelo Rubens Paiva 21h25 Chanterelle. Fui até ele. se não boto a boca no. direto para o telefone sobre o balcão. dessas que só cabem alguns copos e cinzeiros. Não é mais ninguém. Não acredito em coincidências. ou como se me conhecesse de algum lugar (olhar confuso). mas fez que não. pausadamente. Pareceu ser sincero. É melhor falar a verdade. Todo mundo sabe que ele é do time. Já é passado. Depois de um tempo. O maître levou-os para se sentarem na mesa reservada. Foi ajudada pelo maître.. Acho que você dançou conforme sua própria música. Quem são? Não tenho conhecimento disso. Era o sinal. abriu os olhos e sorriu. Ele me viu. onde tinham mesas redondas e baixas. Como é que você caiu?! Que burrice! Me entregaram. resultados da transação no Piazza. restaurante francês no Soho. o que foi bom pois pude admirá-la mais um pouco. Eu não podia demonstrar desespero. Mas não faz sentido. Perguntou em francês por Marcos de Sotto.Bala na Agulha . Parei de falar. Não é uma tremenda coincidência? Logo depois de eu ter vendido uma presença para o seu figurão. Dois tiras brasileiros.

Só não tinham provas. Provavelmente todos sabiam. Uma cliente carente. Te vira! Voltou para a mesa. do seu envolvimento com negócios ilegais: da prostituição ao tráfico.. sou peixe pequeno para merecer uma investigação. — De que cidade da Argentina? — Buenos Aires — foi a primeira que me veio. Mas quando souberem que uso um passaporte falso.Marcelo Rubens Paiva Você está no ramo pra enfrentar esse risco. Ficou maluco?! Não percebe que eu tenho que me mandar? E eu com isso?! Não tenho obrigação de ficar te ajudando! Não te devo nada! E se eu for preso? Vão querer saber quem me arrumou o passaporte de um tal Thomas. Ninguém te obrigou. Por um problema de identidade. O que eu posso fazer? Dei uma pausa para voltar ao tom cordial. disfarçar olhando para Marcos.. e costumava ir ao consulado para ler revistas e jornais brasileiros. para 18 Grupo Baixe Livro http://www. ou melhor. Ela sorria. inclusive a polícia americana. em francês. vão fazer estardalhaço. Notório homossexual. Não de drogas.Bala na Agulha . Você escolheu. Fui encaminhado até a mesa do casal. foi inevitável sua ligação com o mundo ilegal. — Pablo. este é Pablo. aprendido num presídio parisiense. passando pela venda de documentos falsos. de família pobre e sem tradição no fechado clube diplomático. estudante argentino. cheio de gírias e erros gramaticais. importante. essencial. sua carreira não tinha futuro: estava fadado a pertencer ao escalão de assessores de quinta. respirando fundo. Meus olhos e os de Mona não se desgrudavam. auto-estima e principalmente grana. Era como se soubesse que eu não me chamava Pablo. Eu tentei. Marcos. Continuei no balcão. Um assessor para assuntos ilegais. a todo custo. na Universidade de Colúmbia. — ela repetiu. Eu conhecia aquele olhar: era o de uma cliente em potencial. Pedi outra dose. — ela estendeu a mão. já que eu era amante do Brasil. nome que está no registro daquele imóvel. e que quem me vendeu é do consulado. — Pablo. Marcos não era fácil. Uma maneira de se sentir útil. — Junte-se a nós — Marcos apontou para o lugar vago. Por enquanto. O tempo foi necessário para que cada um elaborasse o personagem falso e sua fala. A impressão que se tinha era de que todos mentiam. Seus olhos brilhavam. para o salão. Acabei sentando. cúmplice: Preciso de um passaporte. Ficamos um tempo em silêncio. Continuamos a conversa em francês.com . principalmente da música.baixelivro. O maître me avisou que um sujeito queria que eu me juntasse a ele. amigo meu. Era como se um diretor de teatro analisasse meu desempenho.. Marcos disse que eu fazia doutorado em literatura latino-americana. e nem era um estudante argentino. Cumprimentei-a num francês que há muito não praticava. como se estivesse surpresa por eu ter esse nome. me apresentou mulher: — Mona. Havia algo no ar. Mas estava muito enrolado para pôr em risco sua pseudo carreira diplomática.. Sugavam. É tão bom pra mim como pra você que eu fique longe.

Está aí com você? Fez sim com a cabeça. notei Marcos fazendo um sinal para eu sair. sua beleza. Eram ríspidos um com o outro.Bala na Agulha . ou do perfume mais inebriante. Mas ao encontrar suas mãos. jogar o guardanapo sobre a mesa e sair. — Espanha. a mão de Mona.com lhe. até ela se cansar de acender e apagar o isqueiro. Ele a olhou vazia e franziu a testa: Ah. não vem com essa! Depois te pago.baixelivro.. percebi que os dois discutiam. de um tal Pablo. faço por mil dólares. deixou uma nota sobre a mesa e veio: Então. Meus avós eram espanhóis. Finalmente.” — imitou. Mudou de assunto e começou a falar de literatura. Estendi a mão. Sabe como os europeus tratam os latinos. blefando: — Tudo bem. para descobrir que continuava me encarando com brilho nos olhos. não faz? “Espanha. mas fiquei de encontrar uns amigos ali no bar. e voltei para o balcão.. — ela suspirou como se tivesse dito o nome de uma bebida afrodisíaca.. Pablo ficou preso por estar ilegal... notaram a fuga apressada de sua convidada.” Pra você. eu era levado a olhar para quem elas pertenciam. — Tenho um passaporte argentino quase vencido. aliás. Interrompeu Marcos e me perguntou: Onde aprendeu o francês? Num presídio. Enquanto dissertava sobre o realismo fantástico. apertei a mão de Marcos. — Nem fodendo! Saco! Dei um tapinha no rosto de Marcos e me despedi. esperando que ele me impedisse. ao redor. Trabalha com produto argentino agora? “Yo tengo tantos hermanos que no los puedo contar. Quando ela pediu a minha opinião a respeito do último livro de Gabriel Garcia Marquez. Ela riu. Marcos a acompanhou: — Você tem cara de italiano.. De longe.. Pablo? Pára de me chamar de Pablo! Não gostou do nome? Preciso de um passaporte.Marcelo Rubens Paiva a mesa. Ela faz seu estilo. Fui saindo. e voltava para seu rosto. me levantei: — Desculpe. Marcos ficou envergonhado já que todos. Tenho outras fontes. . Trocamos gentilezas. Ele já me contou a passagem negra. Passou por mim sem se despedir. onde estávamos. Segurou meu braço: 19 Grupo Baixe Livro http://www..

Homem ou mulher? Infelizmente. o mais fino. Ela me deu duas horas. Formávamos uma grande dupla. Virou as costas e foi embora. — passou a mão por trás do meu ombro e continuou: — Eu gosto de você. pra te examinar em detalhes.. Mas devo tê-lo encarado como se tivesse dito. — Mas está na hora de voltar. ansiosa. Eles te veneravam. você não acredita em coincidências. Eu tenho um programa para você. Nós não temos muito tempo. É só por hoje. se sentir indispensável. Você fez fama. Não é uma coincidência? Já sei. Me ligavam depois para contar os detalhes. Me agradeciam por eu ter enviado você. Ficou fascinada por você. vai ter que resgatar o Mel que você já foi e trepar com a minha cliente. Ela não parecia sua amiga. Eu larguei os programas. Eu não disse que aceitava. Ela estava prontinha. No Hotel Empire. Ela é tímida. Marcos precisava ser bajulado. Mil dólares. Quem? Marcos ganhou confiança. O destino uniu vocês. Mas foi bom. Já trabalhamos muito. Ficam decepcionados quando digo que você não trabalha mais. Eu era seu contato preferido. — e tirou do bolso o passaporte argentino. Por isso te escolhi. educado. não era? — ele sempre perguntava isso. Pediu pra te chamar na mesa. Explicações? 20 Grupo Baixe Livro http://www. É a sua primeira vez.. — Então? Eu não disse sim.. e pra quê. Por alguma razão. Até hoje. eu sei. Eu sei. pra traficar? Foi uma grande perda para a noite nova-iorquina. Você me encontra no saguão. sem se despedir.Marcelo Rubens Paiva Aonde vai? Está sempre correndo.Bala na Agulha . a francesa? É uma gata. Mona. É um vício.baixelivro. Você era o melhor. “A volta do filho pródigo” — ele disse como se vislumbrasse uma manchete de jornal.. Marcos. se quer um passaporte. Confio em você. mulher — ele riu. senti o perfume da casa da minha infância. Saiu como uma bala. ainda me ligam te requisitando. Me tinha nas mãos: Acabou de conhecê-la. Estava uma fera porque o viadinho que eu tinha arrumado pra ela ligou há pouco dando o cano. eu não tenho muito tempo.com . — Ninguém larga os programas.. Marcos. já que: Maravilhoso! Se quer cair fora. Eu tenho um serviço pra você. tinha um grande futuro. aceito. Quantas lembranças.. Você já aceitou.

Bala na Agulha - Marcelo Rubens Paiva Já me prostituí, sim. Você não faria o mesmo se te oferecessem de 500 a 1000 dólares por algumas horas de trabalho? Pois era em torno disso o cachê pago em Nova York. Não cheguei a me dedicar a fundo. Foi a maneira que encontrei de saldar dívidas, encomendar pó e fazer caixa. Qual é o problema? Com a paranóia da Aids, muitos me contratavam para me exibir enquanto se masturbavam, ou para satisfazer taras que, na maioria das vezes, não chegavam à penetração. Quando desembarquei em Nova York, alguns brasileiros me levaram até Marcos. O assessor foi com a minha cara e passou a me agenciar. Era como se eu tivesse tirado a sorte grande; nem bem havia chegado e já estava empregado. Fuja dos dilemas morais; eu precisava de grana. Minha rotina era uma baba. Logo cedo, eu deveria telefonar e avisar que estaria disponível. Aguardava o retorno próximo a um telefone, já que a maioria dos compromissos eram marcados em cima da hora; clientes que tinham encontros ou reuniões canceladas e que decidiam preencher o vazio com uma trepada. Encontrava-os em hotéis de luxo ou em de quinta, o que, para eles, aumentava o tesão, trazendo ao sexo o brilho das estrelas ou a sujeira do mundo barato. Sim, posso contar detalhes. Eu não gozava, já que fazia parte do ‘contrato’ não gozar. E garanto que nunca gostei, nem mesmo quando me relacionava com um cliente atraente. Já que é pra falar... Menti se disse que fiz só por dinheiro. Havia um sentimento de autoflagelação, um teste: eu queria ver até onde ia, provar o insano, me punir, me enfiar num buraco com garras e dentes, checar minha resistência, checar se eu sairia ileso. Chega! São detalhes que não levam a nada se relatados nesse momento; ou talvez eu não queira relatar, por pudor e respeito próprio. Está bem, respondo à curiosidade maior: fui com homens e mulheres, óbvio. Mil dólares era um cachê alto para o que o mercado recessivo oferecia. Minhas contradições: quis trepar com aquela mulher. Teria ainda um passaporte para a fuga; começar em outro país. Uma chance dessas, só um idiota desperdiça. Sabendo dos riscos que estava correndo, e ansioso para presenciar o que estava por vir, enrolei por um tempo até me dirigir ao Hotel Empire.

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Os caprichos de Mona, uma neblina, impregnavam as dependências do Empire, hotel luxuoso (a meia quadra do Central Park), impessoal, onde os hóspedes têm de andar com um cartão de identificação. No saguão, apesar da hora, havia filas para elevadores, telefones e para o front desk. Muitos carregadores uniformizados, para cima e para baixo, com carrinhos entupidos de malas. Era o começo do começo do verão de Nova York. Desta vez, Marcos me esperava no saguão, como havia sido combinado. Em vez de me dar a mão, me estendeu uma sacola, e pediu para eu vestir as roupas que estavam nela. Ele subiria para acertar os últimos detalhes com Mona. Marcamos um encontro no banheiro. Eu já não me surpreendia com as sugestões e exigências de certos clientes. Existem até os que fornecem figurino ao seu puto querido. Mona, então, pertencia a este grupo. No banheiro, dentro de um closet, examinei o uniforme de carregador do Hotel Empire que estava na sacola. A loucura de Mona: trepar com um carregador do hotel em que estava hospedada. Parei, respirei e declamei: “Mona...” Quer ir a fundo (pois se é para ir, que se vá pisando nos cacos da loucura). “Mona...” Me contratou. Ganha o direito de exigir o máximo. Não, não será uma noite como outra qualquer. Será a noite. Darei a ela este presente. Serei seu, todo seu, mulher. Celebraremos estarmos vivos. Fascinante ser personagem de taras alheias. É como se prestássemos um serviço à criatividade, à imaginação, à loucura feminina. Marcos apareceu e trancou a porta do banheiro. Riu quando me viu vestido de carregador: — Que gato... Sem afobação. Respira fundo. Obedeci. — Não se esqueça de que está enferrujado. Olha lá, não vá apressar as coisas. Lembre-se do que te ensinei: eles são os donos do ritmo. E tem mais: não é o trabalho fácil que você costumava fazer. Me deu uma corda, uma faca e a chave do quarto de Mona. Voltou a rir. Apontava e ria. Uma das taras dos que requisitam um garoto de programa é ser amarrado. Normal. Diminui a culpa, como se tivessem sido obrigados a fazer aquilo. Mentem a si mesmos. A loucura tem parentesco com a mentira. Honestamente, não imaginava que Mona, com aquela classe, fosse do tipo. Marcos ria. Tinha vários motivos para agenciar garotos de programa. Um deles era, num certo sentido, se colocar acima daqueles que têm de pagar pelo prazer, ou dor (ou seja lá o que sentem quando trepam com um ou uma puta). O que ela quer? O que ela quer. Ser estuprada. Isto explicava o cachê alto. Eu teria de fazer o que todos querem: representar. Mas nem todos os garotos de programa se submetem ao papel do estuprador. — Mas tem que ser real, muito real — Marcos procurou ser didático. — Se não for real, bye bye passaporte. Ela fez economias. Levou muito tempo planejando esse dia. Já desistiu várias vezes em cima da

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Bala na Agulha - Marcelo Rubens Paiva hora. Hoje, quer ir até o fim, e está pagando caro. Você vai entrar no quarto de surpresa, e tirar o fone do gancho; ela não quer o telefone tocando durante a cena. Aponte a faca e trepe com ela vestido de carregador. E não pare. Mesmo que ela peça, não pare. Isso já me aconteceu uma vez. Uma cliente, no meio da trepada, começou a chorar e pedir para eu parar. Quando parei, ela perguntou por que eu havia parado. Você vai agarrá-la onde estiver, tomando banho, deitada, sei lá. Seja um excelente ator. Vai amarrá-la na cama e... você sabe. E se ela gritar? Isso não vai acontecer. E se acontecer? Por que ela gritaria? Bata nela. Se gritou é porque quer apanhar. Vamos, Marcos, eu não vou bater nela. O que há com você?! Já se esqueceu que é assim!? Ela está te pagando! Você não está entendendo. É uma mulher bonita, gostosa, mas quer ser amarrada. E tem que ser real. Se tiver que bater, bata. Já disse, é a primeira vez que ela faz isso, por isso me procurou pedindo o melhor. Você é o homem. Esperarei aqui embaixo com o passaporte. Quero o passaporte antes. Eu gosto de você. Sempre gostei. Existe algo em você que me atrai. Você é um canalha mas, diferente de mim, mostra a possibilidade da dúvida. Chega a encantar. Eu pareço acorrentado, enquanto você evolui. Vai trabalhar, vai! E saiu do banheiro. Quer que eu enumere minhas razões? 1. Dois tiras brasileiros me seguiam. Tiras americanos estavam na minha casa e, pouco a pouco, conheciam detalhes da vida de um Thomas traficante. Meu protetor, Manuel Pontes, estava preso, sofrendo pressões para entregar seus protegidos. Só havia uma saída: fugir. O cavalo... Existem outros motivos. Admito. Se a fantasia daquela mulher era ser estuprada, o que não dizer da minha? Era uma mulher linda, cujo olhar... Eu tinha curiosidade, vontade de fazer aquilo. Afinal, o que seria de mim sem centenas de fantasias? Eu não andava pelo corredor, flutuava, prestes a entrar num templo de cores perfeitas, para rezar a última reza. Abri a porta com todo o cuidado. Uma suíte. As luzes apagadas. Não totalmente escuro. Uma luz vinha do quarto, onde estava Mona, sentada na cama, de costas para mim, falando no telefone. Coloquei a sacola com minhas roupas ao lado da porta, e fiquei encostado no canto mais escuro, com o coração 23
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Mas a luz foi acesa. ainda vestida. Agarrei-a.com . É urgente! Aquilo me deixou confuso. Valia qualquer sacrifício. Eu já tinha chegado na metade do percurso. mas um tapa forte a fez cair no chão. segurei a faca e vi um vulto. Foi um grito para que apenas nós dois escutássemos. O verão. fique quieta! Senão vou ter que te machucar! Viu o telefone fora do gancho e gritou mais uma vez. Estaria fingindo. rente à parede. Me habituei com a semi-escuridão. Dei uma checada no ambiente. Sorriu sutilmente. Talvez fosse o roteiro de sua celebração: ser surpreendida no meio de um telefonema. A janela se abriu empurrada pelo vento. Uma brisa quente. Havia uma extensão do telefone na sala. Peguei o lenço que estava no seu pescoço e fiz dele uma mordaça. Depois. Mas era ela. o estudante argentino. ela queria. e se eu não estivesse acostumado com clientes. na janela: minha imagem refletida. um ator escondido: Mel. As cortinas voaram. antes que ela desistisse. — Seu desempenho merece um Oscar. Era brasileira. agora. barulho. e meu dever era ajudá-la. 24 Grupo Baixe Livro http://www. Estava pronto para pedir desculpa. Santificá-la. Seus dentes se cravaram na minha mão. — O que você quer?! Se não fosse o profissionalismo da relação. Falava em português. Ela demorava no telefone. se não eu grito! — ela recuou. e eu perderia uma das poucas chances de fuga que me ofereciam. Começou a espernear. Sem fazer o que sabia. Ela gritou. Esperaria ela acabar para tirá-lo do gancho. e de seus olhos. Foi fechar a janela. pus a mão na sua boca. Irritado. quero ver! Ainda tentou se soltar. Passava dos limites. Fui até minha cliente sem saber o que fazer. Mona. por que procurava alguém com urgência? Talvez ela tivesse recebido o telefonema e não pôde desligar. Ouvi dizer: — Eu preciso falar com ele em Tóquio. Exagerei na dose. eu viraria as costas. Se era verdade que estava me esperando. num sotaque carioca. segurando uma faca. se preparando para canonizar uma brasileira! O que era aquilo?! Desistir. o que fez com que eu também buscasse. Apertei seu queixo e consegui me desvencilhar. Decidi acabar logo com aquilo. parti pra cima. Pus de novo. — Sai daqui! Vá embora. gritou ao me ver: — O que está fazendo aqui?! Cruzou os braços para se defender ao notar a faca na minha mão. aquele. um grito ainda abafado. Avancei dois passos. Mas relaxou quando descobriu que debaixo daquela farda estava eu. — Pro seu bem. Entrar em ação. apesar dos braços oferecidos. Abriu o chuveiro. Tentou fugir. antes que batessem na porta e decretassem o fim da cerimônia. mas ela passou a me xingar. dentro. Ela tirou-a com força.Bala na Agulha . Xinga.Marcelo Rubens Paiva querendo sair pela boca. Da rua. Se acalmou. Pablo. Tirei o fone do gancho. resistirem à minha presença. Um passaporte me esperava no saguão.baixelivro. vida. Parei quando ouvi sua voz. brilho. Por pouco não joguei ela no chão e fui embora. lógico. e iria embora com a sensação de ter errado de porta. antes que eu desistisse. deu as costas para que eu não a visse sorrindo. Não um grito de alguém pedindo socorro. Me aproximei. esperando eu atacar? Desligou o telefone e foi pro banheiro. um uniforme ridículo.

Nua. tal qual um estupro. branca. ameaçando rasgar seus lábios. os seios. Interrompi o discurso confidente lembrando que a cliente era ela. mas me dá um tempo! Eu quero acabar logo! Relaxou. bateu uma dúvida: ela não precisa contratar um michê pra fazer aquilo. o garoto sensível. Sentei ao seu lado. para fazer o que. Por mim? Não. escrevi o meu. o cão. se alguém tinha o direito de desabafar. não seria feito. ela tinha me lançado. acariciei a barriga. Voltei a agir profissionalmente. Esperneou. carinhoso. não as minhas. educado e bonito é o que lucra. e bem pago. a pele lisa. escrevi seu nome. Me lembrei das meninas. se não fica em pé. Fiquei em pé. Um dia.Marcelo Rubens Paiva Enquanto ela estava no chão. Com a ponta da faca. Tirei os sapatos e a calça.Bala na Agulha . Bebi uns goles. a largura do órgão e a duração da ereção. Costumo ficar a noite toda.. desenhei flores. — Eu vou ser rápido. já que estava sendo pago. peguei a faca. Desabotoei sua blusa. era ela quem pagava por isso. com clientes mulheres. acompanhei suas curvas. naquelas condições. demência! — Você está pagando. levando-a para a boca. suas fantasias deveriam ser representadas. Coloquei-a na cama. e comecei a passá-la na sua testa. mudar de personagem. a metragem é o que leva um cliente a selecionar seu garoto de programa. Fiquei na dúvida se levantava ou tirava. olhos vermelhos. até levá-la à sua barriga. Contraiu o abdômen. Em pé. amarrei a extremidade da corda no seu pulso. Deixei seus pés soltos. negócio. no seu peito. Fui amarrar os pés. aqueça a lâmina. Cruzou as pernas e fechou os olhos. antes. Marcos tinha exigido que eu a comesse vestido de carregador. se eu tiver a oportunidade. Congele. que. se para eles o prazer é um sacrifício? — Tiro minhas roupas? Nenhuma reação. mas mesmo com elas tem que funcionar. Seus olhos me fuzilaram. como em todas as primeiras vezes. mas ninguém ouviu. te explico. Vestia uma saia até o joelho. cheio de ódio. e buscar o tempo como aliado. por culpa. putinhas de sorte. Uma estátua. em se tratando de prostituição masculina. Com a ponta da faca. congele. Fui arrastando-a para o quarto. — Quer parar com isso! Eu nunca tinha estado com uma cliente tão resistente. Eu não tinha outra saída a não ser relaxar. Gritou (mesmo com o lenço preso na boca). é o tipo de mulher que todos os homens desejam. Continuava tensa. O libertador. traz prejuízo ao negócio. não eu. mas hoje não posso. Por ela. que não têm um órgão que. um anjo.com . No caso de homossexuais. Levantei a faca. Agora. Sentei ao seu lado e abaixei a cabeça.baixelivro. Deixei por um tempo a lâmina esfriar seu corpo. aliás. Amarrei seus braços na borda da cama. na parede. Contraiu-a. Um problema: eu não conseguia ficar de pau duro. Diminuí as luzes. e ela enfiou um chute no meu peito que me jogou no chão. Nua. na sua frente. joguei meu corpo sobre o dela e ameacei: — Vou usar esta faca se não colaborar! Seus olhos azuis perderam o brilho que. incrédulo. Podia furar seus 25 Grupo Baixe Livro http://www. Merda de vida! Por que me compram.. Ignorei-o. olhando seu corpo indefeso. Vi minha sombra. Servi uma dose de whisky do frigobar. olhar assustado. Acabei tirando. se leva muito em conta o comprimento. Traduzi seu ódio.

como se aquela pele fosse o mais fino papel. Suas pernas amoleceram. e qualquer movimento brusco pudesse rasgá-lo. Agarrei suas pernas e levantei o quadril. Primeiro a cabeça. pouco a pouco. Ela pulou. Nos olhando a poucos centímetros. Não gozar. Fui pra cima. sim.. para experimentar prazer. que a fez pular e trançar as pernas. Mas não. Ataquei. pôr um fim no olhar de tantos sentidos. Eu tentava diminuir o ritmo. quero ali. comecei tudo de novo evitando seus olhos. sim.baixelivro. na maior parte do tempo. mas ela me puxava. duro. Ficou arrepiada. Mas joguei meu peso sobre ela. em pé. não faça isso. Não tive pressa. enfim. estávamos grudados. num jogo de corpo fatal. Agora. Pacientemente. Finalmente ela colaborou. esbocei um sorriso sem resposta. tensa. Meu pau. para fazer o que estava. recusando. relaxava. me ensinou o caminho. constatação: uma mulher. Eu estava sem prática. naquela cama. confusa entre a dor e o prazer. Recusou meu mundo. 26 Grupo Baixe Livro http://www.com .Marcelo Rubens Paiva olhos. A morte está tão próxima. Entrou. afastar os pêlos e me encontrar com o núcleo. para você encontrar outra mentira (sua verdade). é um jogo. é mentira. para. quase sem encostar a boca.. muitos deles incompreensíveis. Enfiar. Às vezes. Examinei com a boca todos os detalhes e lugares secretos. Mas já os primeiros gemidos. viva a mentira. mas ainda. Não. ali. Abriu a pernas. tudo. foi inevitável. Tive de fazer força para destrançar suas pernas. mais e mais. para depois. e pela violência dos puxões. Chega! O objeto. O gozo. cegá-la. percebi que ela queria chegar rápido ao final.Bala na Agulha . gozei. Ela voltou a ficar tensa. Deixei a faca de lado e passei a lamber e beijar tudo o que via. Se posicionou melhor. o agente. Ainda tensa. Suas pernas se trançaram nas minhas costas. me jogou o centro de tudo. a boca e a seta. Uma lágrima escorrendo. e a porta se fechará atrás de mim. Enfiei minha boca na boceta.

baixelivro. pulei a mureta do Central Park. e dei de cara com dois sujeitos se lavando na pia. ganhavam outro sentido: a trombeta do fim. Não havia papéis. idem: — Volta aqui! Atravessei o saguão do hotel. Amassei o envelope e guardei no bolso. Não pensei duas vezes. Corri pelo meio da rua. Minha reação: virei as costas e saí. Espiei por uma fresta. numa situação diferente’? ‘Eu te ligo’? ‘Gostei’? ‘Desculpe a falta de prática’? ‘Na próxima irei caprichar’? Ora. as sirenes. De sua bolsa. Puta que o pariu! Corri muito. Vieram atrás. teoricamente. Cheguei a oferecer uma ajuda. conversar. Vesti o resto do uniforme. Peguei um envelope em branco com o timbre de um hotel de Miami. Numa recaída. Columbus Circus. agir depressa. abri bem os braços para ampliar a sombra do libertador. Eles. voei. Ela? De olhos fechados. Em frente ao espelho. Foi um trabalho de mestre que teria sua recompensa. Esclareceria minhas dúvidas para depois voltar e libertá-la e beijar seus pés e pedir bênção. Vesti a calça e fui ao banheiro sem desamarrá-la.. se entrega o cetro ao líder. Pedi desculpa. lhe escrever um bilhete. E se for mais um golpe de Marcos. Me embrenhei no mato. sem movimento algum. mas. nenhuma culpa. Escrevi o nome Mona. pensei em falar alguma coisa. saí de onde estava. começando o que estava por vir. quieta demais. sirenes de carros da polícia que cruzavam a cidade. Mas o que dizer? ‘Foi bom’? ‘Poderíamos nos encontrar novamente. A água escorrendo pelo bueiro e alguns segundos de indecisão. tive vontade de dançar. e continuei correndo. Abri a porta.Marcelo Rubens Paiva QUINTA-FEIRA 01h35 Orgulhoso da minha performance. Preferi não desamarrá-la. Salvar a própria pele (não é isto que está escrito nos manuais?). Mas quebrei a regra número um: nunca gozar antes do. encostei a porta e não flutuei. Talvez. são e salvo. Em segurança. e fui para a extremidade oposta. quieta. Vamos. Vieram no vácuo. não dancei. Procurei em todos os cantos.com . A partir daquele momento. Acelerei o passo.. ódio de mim. Marcos. aberta sobre a pia. Nem sinal de Marcos. A arrumadeira me xingou. O corredor. quaisquer que fossem. vazio. na verdade. mas o cão! A deixei falando sozinha e corri. no restaurante e nos bares do hotel. Peguei um táxi na Broadway. Tiros. um deles com uma calça F. no espelho. apareça! Parei: ele podia estar no banheiro onde foi feito o acerto. Fui até lá. e ela nunca requisitou um garoto de programa? Dei chances para ela se explicar? Eu poderia ter traduzido errado o ódio em seus olhos. Ela continuava amarrada? Foda-se. E se não existir um passaporte como pagamento? E se não existir um pagamento? Olhei para Mona. Ao longe. caras conhecidas. Perguntar a ela? As respostas estavam no saguão. Pouca gente no lobby.Bala na Agulha . onde fiquei. Me olhando no espelho. Já era tarde. e atravessou outra dúvida. Peguei meus 800 dólares. Abri a porta da escada e derrubei um balde cheio de água. O elevador demorava. saquei uma caneta. Nenhum lobo uivou. Minha imagem. 27 Grupo Baixe Livro http://www. Entrei em parafuso. por um bom tempo. Saí.

baixelivro. diga você. eu não disse.com . 28 Grupo Baixe Livro http://www.Bala na Agulha .Marcelo Rubens Paiva Antes ela do que eu.

Eu ainda sentia as marcas de Mona. Não pude saber mais detalhes. corria perigo. Era um filme pornô. Era para eu receber um cachê. Segundo por segundo. disse que o patrão viajou. sua empregada portuguesa. Calmamente. e ao voltar encontrou um bilhete com as tarefas da semana. estrangeiras de classe em viagem pelos Estados Unidos. e depois voltado para seu posto. Pedi para localizarem um sujeito baixo e careca. os gemidos. Muitas fêmeas. Marcos poderia estar me aguardando no saguão. Sexo. prazer de praxe. Cumpriu a ameaça e me deixou falando sozinho. fosse lá o que pudesse lhe acontecer. e geralmente são as mulheres de classe que as têm. atendeu furiosa. por vezes. e me odiavam. traziam a lembrança recente de Mona. avisei que uma mulher. A solidão nova-iorquina pode ser facilmente sanada quando se tem bala na agulha.baixelivro. flashes: seu corpo embaixo do meu. primeiro em inglês. Me sentindo culpado. No consulado brasileiro. Muito cedo para afirmar que caí num crime perfeito. Seus olhos brilhavam. De má-vontade. Como ele poderia procurar alguém cujo nome eu não sabia? Começou a troca de ofensas. Alguns minutos depois. depois em português. entre eles. Os closes dos atores trepando. Viajou e não tinha data para voltar. Foi um golpe ou não? Fui usado? Preparei o cenário para um crime? Deixei minhas impressões digitais por toda a parte. tem o gosto da morte. o jogo do seu quadril. e por preferir Mona salva. Qualquer legista faria análises do meu sêmen e me identificaria. Por que Mona não seria mais uma? Talvez ele tivesse saído. Mona era a estrangeira de classe. A todo o tempo. Talvez tivesse se escondido dos tiras brasileiros. matam seus machos. Mata-se por sexo. julgamento apressado.com . Insisti. Antes. Muito sangue jorra quando gatos trepam. já que ela tinha ficado o dia todo fora. catalisam experiências de todos os tipos. Atendeu uma telefonista sonolenta que me transferiu para a recepção.Marcelo Rubens Paiva 02hl5 De um telefone público. Soava como um álibi. 29 Grupo Baixe Livro http://www. sem estar gritando. amarrada no próprio quarto. refiz a cena. e avisando o horário do expediente. Fiquei encolhido num canto. depois do coito. Tise. não falei o nome Marcos de Sotto. Quando? Não sabia. liguei para Marcos de Sotto. Entrei num desses cinemas 24 horas. hospedadas em hotéis luxuosos que. suas pernas nas minhas costas. o suficiente para que acreditasse em mim. violentada. veio a informação de que não havia ninguém no lobby. mas o contato não estava no saguão. Marcos já me agenciara para tantas. seu abdômen contraindo. Era muito tarde e tive de dobrá-la para não bater o telefone. Ela gritou. o cheiro de sexo.Bala na Agulha . mudei de assunto. atendeu uma mensagem gravada. por si só. Dei o número do quarto e desliguei. Quem já viveu no mundo da prostituição sabe que existem os tipos mais estranhos. se desculpando por estarem fechados. claro. Era uma chance. Descobri o número do hotel e liguei. veredicto: otário.

com . Abriu a bolsa para tirar um cigarro. preservar meus 800 dólares. me examinou. incertezas. para a maioria dos que procuram michês. Uma minoria é carente. qualquer que fosse. No balcão. analisar loucuras alheias (jamais as próprias) e trocar experiências. eu não devia.Marcelo Rubens Paiva No mais. pela Broadway. já. Ficou entre eu e a ray-ban. visando arrebanhar clientela através da propaganda boca a boca. — Mel?! — D’Millus. Em plena transa. Era das poucas que assumia em público a profissão. Não tenho vindo mais aqui.. Mas se eu não estivesse tão tenso. Mas é uma minoria. Conhecendo Nova York. O que interessa é que eu fiz com ela o que já havia feito com muitos: realizar a tara do estuprador. e pediu fogo. bar decadente dos antigos yuppies. Durante o ato. Era das poucas que tinha orgasmos com os clientes. Denunciava: uma mulher à procura de programa. era famosa por isso. uma amiga gaúcha. Largou os programas? Eu ainda não larguei. armas de sedução. Pensando no pior.. já.’ Todos nós tínhamos nossas falas. na época. Eu não tenho fogo. busca aquilo que não têm vivido com maridos.Bala na Agulha .baixelivro. namorados etc. ou mesmo ganhar o cliente para muitas outras trepadas. também. costumava sussurrar ‘eu não devia. e busca carinho. Mas vou. Detalhe: eu não conseguiria afirmar se Mona estava gostando. enfiei 400 no sapato. Há quanto tempo? Anda sumido. Dez vivas à solidão. Uma mulher..’ Isso deixava seus clientes loucos. pessoas que eu não via há muito. duas coisas ligadas. Não interessa saber a qual grupo Mona pertencia. namorados etc. Me inspirei em Mel Gibson. D’Millus era imbatível. Saí do cinema e fui caminhando.. viverem experiências de medo e prazer. que eu acreditava serem devido à minha falta de prática. Nada disso: abriu a bolsa para exibir suas notas de dólares. podem ser minhas? Podem. escuro e esfumaçado com predominância de neon. Esse nome me deu muito dinheiro. e nossos nomes nasciam e morriam com as modas. Levantou o ray-ban. trejeitos. ponto de encontro de garotos e garotas de programa. Gostava de contar com 30 Grupo Baixe Livro http://www. Não ria. é para ser sujo e violento. ao meu lado. minha senhora. talvez esse detalhe ganhasse a dimensão que merecia. para sonharem acordados. nome que eu usava para os programas. com o rosto escondido. querem viver experiências que não vivem com maridos. me lembrei de que precisava de um álibi. É o que todos dizem.. Sexo. mas tenho fogo. Mel. com um ray-ban preto nos olhos.. Inventou uma fala de muito sucesso: ‘Eu não devia. D’Millus havia nascido para a prostituição. Fiz questão de ser notado. meu nome de guerra. Entrei no Six. que costumam se juntar no meio da madrugada para dirimir sentimentos de culpa. Era das poucas que gostava de trepar. — Me desculpa interromper — falou para mulher —. Estas notas. A mulher saiu. só vou bater um papinho com meu puto de maior sucesso. cansei de amarrar clientes homens e mulheres. Representar é o que mais pedem. o ator da moda. Não largaria nunca. um parceiro cuja fonte se esgotou. Deveria. minhas testemunhas.

me arrumei e voltei pra 31 Grupo Baixe Livro http://www. olhei com ternura e apressei: — Num hotel? — Não. Impedi colocando o dedo entre as bocas. Com carinho. Negociamos. Ninguém para discordar. Achou caro. Do Empire? Isso mesmo.. Que loucura. Na nossa profissão. Vamos? Não temos tempo para a última dança.. Mais uma. No beco. — Quietinho — ordenou uma voz atrás de mim.Bala na Agulha . Nada de beijos. saia.com . Seus dólares. enquanto seu parceiro me mantinha na mira.. Mundo. Não. Obedeci. Fiquei comovido....baixelivro. Abaixou minha calça e me apertou. perguntei: — Onde você mora? Me abraçou e tentou me beijar. Senti aquele maldito perfume da minha infância. Eu queria.Marcelo Rubens Paiva quem saiu ou estava saindo. Largou os programas para ser carregador?! Me levantei e paguei a conta.. Seu parceiro. batom. Num canto sem sombras. Segurou meu pau com toda a força... Não sei. Acariciei seus cabelos. Falei qualquer coisa no seu ouvido. Nos encontramos num hotelzinho barato do Queens. meu pau. Do Queens!! Não é que eu vou toda maravilhosa. Demos as mãos e saímos. Ela olhou surpresa: — O que você tem? Fui atrás da senhora ray-ban. Alisei seu rosto.. Levantou a saia. ainda me apontando a arma. e revistou meus bolsos. Dei meu preço. sorriu. Seu corpo estava gelado. e ele atende a porta vestido de mulher! Peruca. Fiquei deprimido.. Não. se ajeitou. cílios. O que você está fazendo? Trabalhando num hotel? De onde você tirou isso? — Esta roupa. Encontrou dólares e contou 400. Meu corpo não se manifestava. encostada no muro. unha postiça. Entramos no beco. nos encostamos na parede. Esperei um tempo. me agarrou. — ela pediu. Não me machuca. quando senti um cano gelado na nuca. cercados por lixo... Você pode desistir.. Na rua. Boa pinta. Guardei seus óculos e namorei seus olhos. quem não conhece a roupa de um carregador de hotel daqui de Manhattan? Deixa eu ver. Deitei. Esta aí é do Ritz. baby. Você sabe que eu sou cara. Este friso azul.. E se gabava por ser cara: Estou saindo com uma mina de dinheiro. Enfiou o dinheiro na bolsa e saiu. Pede para eu currar ele com aqueles paus de borracha. A ray-ban parou. me mandou deitar e contar até 100. Entramos num acordo. Cada louco. Mexi no seu cabelo.. me tirou do comando. Você agüenta? Quem era eu? Ninguém para desistir. Estou. Nada de beijos.

Bala na Agulha - Marcelo Rubens Paiva rua. Não foi a primeira vez. Mundo... Peguei um táxi para o Village. Aproveitei para arrancar os frisos azuis da calça, e resgatar 300 dólares escondidos no sapato. Mantive 100 nele. Havia uma pessoa que eu queria encontrar. A última saída.

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Bala na Agulha - Marcelo Rubens Paiva 05h50

As ruas começaram a ganhar outros personagens; saíam os notívagos e chegavam os diurnos. Atravessei a Washington Square. Ele estava lá, apesar do horário; sempre estaria lá, dia ou noite, sol ou chuva, um monumento vivo. Desta vez, não cantou o soneto ‘Acid, acid, acid...’ Em silêncio, esperou ficarmos frente à frente. Quem anda nesse ritmo é porque está encrencado — disse amigavelmente. — Obrigado pelo que fez à tarde. Sei que não se faz mais favores, mas preciso de outro. Uma arma. Não se alterou. Provavelmente, até esperava por isso: Não é fácil achar uma arma a essa hora. Eu pago. Que tipo de arma? Uma automática. Quanto tempo você me dá? De quanto tempo você precisa? Uma hora. É muito. Uma hora — repetiu. Está bem. Dei a ele o que tinha no bolso, ficando com alguns trocados: — Sei que é pouco. Mas é tudo o que tenho. — Talvez você possa pagar com outra moeda. Faço um bom câmbio. Fiquei surpreso: então ele sabia que eu também traficava, mesmo sem eu nunca ter dado pistas; colegas. Eu não disse que, naquele momento, estava a zero. — Me encontre daqui a uma hora, aqui mesmo. E saiu. Fui procurar um refúgio. Caminhei até a avenida das Américas e entrei num bar.

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Bala na Agulha - Marcelo Rubens Paiva 06h20

O balconista ligou a televisão. O som estridente da vinheta da abertura do telejornal invadiu o bar. Eu não estava com o menor apetite, e tudo o que pedira até então fora uma xícara de café. Logo de cara, a manchete do jornal era arrasadora, acabando por embrulhar meu estômago: Apresentador: “Veja a seguir: brasileira encontrada em pedaços em Manhattan...” Engoli em seco e esperei. Em 30 segundos, que pareceram 30 horas, na tela, a cama de Mona. Um lençol sujo de sangue cobria o cadáver. Closes das manchas de sangue. Em segundo plano, a polícia tirando fotos e colhendo provas. Plano geral do quarto do Hotel Empire. O apresentador, em off: “Tudo indica que foi estuprada antes de ser morta. Há sinais de tortura. Marcas de cigarros apagados na pele. Agulhas de injeção enfiadas nas gengivas e uma garrafa quebrada no ânus. A causa mortis não pôde ser revelada já que, depois de morta, seu corpo foi esquartejado, pernas e braços separados do tronco. A cabeça e as mãos arrancadas não foram encontradas no local. Tudo indica que o assassino se vestiu de carregador do hotel para ter acesso ao quarto. A porta não foi arrombada. Nosso repórter está no local.” Repórter: “A polícia acredita que não será difícil chegar ao criminoso. Ele foi visto por uma arrumadeira fugindo pela escada de serviço. Neste momento, ela está prestando depoimento para se obter um retrato falado. Há pistas por todos os lados. Estamos tratando de um criminoso inexperiente. A polícia técnica está recolhendo mostras do sêmen para fazer a identificação. Tudo o que se sabe é que a vítima era brasileira, solteira e funcionária do governo do seu país. A polícia não deu mais detalhes para não atrapalhar as investigações. Um dos recepcionistas de plantão foi quem recebeu a denúncia anônima avisando do crime. Dois outros brasileiros foram baleados no Central Park, ao que tudo indica, minutos antes desse crime. Ao que parece, ambos os crimes têm ligação, já que eram hóspedes do mesmo hotel. Um dos brasileiros baleados morreu. O outro foi ferido e está, neste momento, internado em estado grave. A qualquer momento, voltamos a informar.” Os fregueses do bar se olharam. Demonstraram a indignação ao crime com expressões de rosto. Pesquisaram a indignação de cada um. Me olharam. Por que me olham, minha expressão é outra? Esperaram meu comentário. Por que eu devo comentar se não sei do que se trata?! Me levantei e fui ao banheiro. O closet estava ocupado. Tive de vomitar na pia, um vômito seco. Bati com a cabeça na parede.

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Lógico que fui usado para preparar o cenário de um crime. Peguei o celofane de um maço de cigarros jogado na calçada. O cavalo voa. Qual o interesse de Marcos? Uma ameaça. Mas por que a cena? Tentei me lembrar das suas palavras no telefone. entrei numa farmácia e comprei éter. subiu para falar com Mona e roubou a chave. Me entregar à polícia? Traficante. encantado. Mona. Acreditei estar representando um papel.baixelivro. Voei em cima porque eu queria. Voei em cima como me ordenaram. agora. e fiz a mistura ali mesmo.” Não significavam nada. Há quanto tempo ele planejava? Minha ida ao Piazza estava ligada ao estupro? Foi ele quem entregou Manuel Pontes. e depois me entregou. Não dei chances para se defender. fugir. entraram e acabaram com ela. acetona e bicarbonato. 35 Grupo Baixe Livro http://www. e fui ator de sua vida. Repassei meus passos... para que eu não tivesse alternativas a não ser procurá-lo? Armou todo o cenário no restaurante francês e me fez ir ao Empire. Fiquei um bom tempo respirando fundo e repetindo o mantra: ‘Fugir. estuprador e assassino. Marcos arquitetou o enredo do estupro. Não estava. O que ela estava sentindo era ódio. decidiu estuprá-la até a morte. Como?! Único pensamento: fugir.. ‘primeira vez’.Bala na Agulha . vítima. Achei que fazia parte do script. “Eu preciso falar com ele em Tóquio.Marcelo Rubens Paiva Queria quebrá-la em pedaços para jogá-los no esgoto.. Antes de voltar para Washington Square. talvez ela soubesse de segredos que pudessem incriminá-lo e o estivesse chantageando. ‘ela está louca por você’. existe. Subi e não dei chances a ela. Era ela.com . A morte prova a existência.’ Vejo o cavalo. Tentou fugir. Primeiro. Logo que saí. As suspeitas cairiam sobre o rapaz que a encontrou num restaurante francês e. Era eu.

O suspeito parou a bicicleta na nossa frente. Continuou gritando feito um alucinado. O traficante jogou a mistura longe. Ele leu o timbre. talvez fosse a última vez que nos veríamos. enfiei a mão por baixo. pedalando uma bicicleta. Não era tira. sentado ao meu lado. no chão. Fiquei ao seu lado. Sangue. Continuei apalpando até. O ciclista começou a rir: — Você esqueceu isto! Segurava um pacote. O pacote era arredondado. levava o dedo com a mistura em direção ao nariz. Enfiei a mão no bolso. com a mão ainda debaixo do banco. sem conseguir encontrar a maldita arma. O ciclista. A cabeça de Mona. Quem sabe não me hospedo em Miami. Como não ocorreu. Eu não tinha muito tempo..baixelivro. segurei a arma pela coronha e enfiei o dedo no gatilho. gun. o envelope que eu tinha levado do quarto de Mona (o começo de um bilhete). Se deu por satisfeito. Assim que me viu. Se a polícia aparecesse. Levantamos. Subitamente parou e olhou para a rua. respirei fundo. Exalava éter. sentir o cano. nesse hotel? Sua arma está debaixo daquele banco.. boa! — o traficante agradeceu. Sentado. Trêmulo. antes que ele experimentasse a mistura. Nos agachamos. eu me entregaria sem reagir. pronto para jogar longe. Ele. cara. Era frio. segurou forte o celofane com a mistura. Deu uma pausa e aguardou meu desmaio. Pensei melhor. Levantei rápido a mão.me deu uma chave que estava dentro do envelope. Veio atrás. passou a tratar de negócios: — Foi muito caro.com . derrubei tudo o que tinha. gun. Preciso de umas férias. O traficante abaixou o dedo. Joguei o saco no chão. Controlei qualquer 36 Grupo Baixe Livro http://www. enfiei no bolso e fui ao tal banco. Desnorteado. — Boa. Vou lhe apontar a arma quando experimentar a mistura e descobrir que é apenas uma mistura. — Não vai esquecer a chave . Levantei-o e olhei de frente. Ele levantou para examinar melhor. Para ele.Marcelo Rubens Paiva 07hl5 O traficante me esperava sob o arco de entrada da praça. Percebeu meu estado: Passando mal? Não. Entreguei a mistura do celofane. Eu. Escorria um líquido vermelho. com os olhos azuis bem abertos. Gritou. a metros. recitou: — Gun. Não a conhecia. Tive de pensar rápido. Pegar a arma e voar para longe. aceitando a troca. Ele jogou o pacote no colo do traficante e saiu pedalando.Bala na Agulha . Fui até o saco e apalpei-o. apalpei a grama. Notamos. daria o sinal para outros que cercavam a praça. Só não sabia que aquela. Poderia ser um tira à paisana. — Hotel Helit. Um sujeito. até jogar o pacote longe e correr. apontando a arma contra a sua cabeça. Tira? Minha mão vasculhando a grama. Se me reconhecesse. finalmente. Por via das dúvidas. eu era um traficante que atravessava todos os dias o seu ponto. envolta por um saco plástico. vinha na nossa direção.

37 Grupo Baixe Livro http://www. Fiquei um tempo circulando ao redor do Aeroporto La Guardia.Bala na Agulha .com .baixelivro. peguei o saco e corri. Comprei uma mala e umas roupas na Ditmars. engoli o vômito. examinando o entra-e-sai e a movimentação da polícia. rua dos arredores. matando os cem dólares que me restavam. Parei numa esquina. enfiei-o numa lixeira e voltei a correr.Marcelo Rubens Paiva sentimento de aversão.

É um pouco. Aproximei e joguei a cartada: Você é chileno? Não. notando que não havia nada que fugisse à rotina. Na fila de táxi. de uma certa maneira. Alguns passageiros desembarcavam de um vôo procedente do Chile. Não se mostrava amistoso. Argentino. ele seria distribuído para todos os guichês do aeroporto. A cada minuto. Minha atenção se concentrava na chegada dos vôos latinoamericanos. até encontrar a vítima certa.com . era minha única chance. com que eu não a furasse. o rigor da busca do criminoso brasileiro estivesse no embarque. Você vai para Manhattan? Pausa. Mas você pode pegar o ônibus que sai de 15 em 15 minutos. minhas chances diminuíam pois assim que a polícia tivesse um retrato falado do criminoso.Bala na Agulha . Vou para Staten Island. — Vamos rachar um? A gente só gasta a metade. Percebi pelo sotaque.baixelivro. É mais barato. com minha mala. me enfiei entre eles. tinham os mesmos traços que eu... de olho nos passageiros que chegavam e que. Geraldo. Como vai. Mandei ele se foder e virei as costas. me examinou de cima a baixo e: — Não. Fui logo ao ponto: Soube que é caro um táxi para Manhattan. 38 Grupo Baixe Livro http://www. Eu tinha pressa.Marcelo Rubens Paiva 08h30 Entrei no saguão do aeroporto. sim. Sou brasileiro. principalmente. Talvez. na alfândega e num possível controle de passaportes. Me instalei no desembarque internacional. Ele me olhou desconfiado. Estava preocupado com o andamento da fila e. Mas tinha de ser paciente e escolher o momento e vítima certos pois essa.

O estrondo assustou os dois e tornou-os obedientes.. Marcamos de nos encontrar no concerto ao ar livre que aconteceria no dia seguinte. Relaxou quando viu que a vítima não era ele. Olhei em volta. no píer. Pedi para entrar na Mercer e parar na esquina com a Grand. fez um amigo (e que amigo. O escocês disse ser um cara de sorte pois. me apresentei como sendo Armanni. Era um sujeito simpático. Fiz como se fosse minha primeira vez em Nova York. Dei um tiro no pára-brisa. mas o passageiro. Falei. Pedi ao motorista que seguisse para o Soho. os escoceses têm fama de pão-duros. Colocamos a bagagem no porta-malas e sentamos no banco de trás. descobri através da licença presa no painel. O escocês perguntou se não era perigoso andar com uma mala por aquela redondeza. procurava a rua mais deserta.Marcelo Rubens Paiva 09hl5 Abandonei o desembarque dos vôos latino-americanos e fiquei atento à chegada dos vôos europeus. Eu me perguntava se aquilo estava acontecendo e se era eu o dono daquela voz: — Desliga esta porra. O carro parado com o motor ligado..baixelivro. Desligou. afirmando ser o meu lugar. contando piada de ingleses. Me misturei entre eles. 39 Grupo Baixe Livro http://www. até dar a cartada. e um sujeito pareceu ser a vítima certa já que. logo no primeiro dia. havia adesivos da Escócia. Entramos em Manhattan. O motorista ficou por instantes paralisado. O escocês demorava. falei. e pedi para rodar devagar. apesar de saber que os jamaicanos costumam pensar cem vezes antes de darem uma de herói. filho da puta! Ele pensou em dialogar. o que foi aceito. Mandei o motorista seguir pela Canal Street.). ainda mais quando o carro não é deles. — E é de graça — comentei. odiados pelos escoceses. o que me ajudava e muito. me olhando pelo retrovisor. A adrenalina quase me intoxicando. Mas a rua continuava deserta. assustá-los e deixar bem claro que minhas intenções eram as piores. era jamaicano. na verdade. cheio de lofts. segundo anunciavam os cartazes colados nos muros. fazendo ele rir. Minha mão tremia. Apontei a arma: — Desliga o carro. e o carro. Olhei para o lado esperando que uma multidão estivesse se formando. sugerindo racharmos um táxi. olhando com deslumbramento a cidade. Os latinos são mais pobres. Na fila de táxi. O motorista. Foi a minha deixa. filho da puta! Desliga esta merda e me dá a chave! Era tudo ou nada. estilhaçando-o. Era preciso pegá-los desprevenidos. falhei em nada. alertada pelo disparo. Apontei a arma para o escocês. Ganhei sua confiança num inglês macarrônico.com . Pouca gente na rua. xinguei-o de tudo quanto é nome e mandei que tirasse a roupa. Fiz que não sabia com exatidão onde iria ficar. mas deu azar: encontrou alguém virado do avesso. de frota. Minha preocupação era o motorista. Apontei para um prédio velho.Bala na Agulha . Prestei atenção no desembarque de um vôo londrino: um 747 abarrotado de jovens ingleses em férias nos Estados Unidos. mas só pensou. um estudante italiano. na sua mochila. Comecei a suar em bicas. mas são desconfiados e íntimos dos golpes dados em aeroportos.

— A chave! Obedeceu. Avisei que se não seguisse em frente. Não lembrei de nenhum. Na sua barriga. O segundo é mais caótico.Marcelo Rubens Paiva — Vai logo. — Estou esperando! — falei para o motorista. a arma começou a pular. O motorista começou a berrar. sorte dele. Quanto mais eu gritava. chegou a hora. Fechei os olhos e apertei a cabeça com as mãos. Quer mesmo saber? Foi a primeira vez que atirei em alguém e. caralho! — gritei apressando-o. Sua passagem era de ida e volta. fechei os olhos e puxei o gatilho. Mas até conseguir dizer quem era. Dentro. ia chover bala. Longe. que me deu o bolo de dinheiro que estava numa caixa de charutos ao seu lado. — Você também. Enquanto o trem corria. próximo da porta.com . Entrei num táxi e pedi o La Guardia. O motorista. Enquanto ele encaixava a chave. presa por um cinto. A primeira coisa que faria seria correr para um hospital. mirei o revólver no peito do escocês. visto de permanência para um mês. naquela circunstância. Decidi dar as costas e correr para longe. No caminho. uma nova identidade e poderia usufruir dela por um bom tempo. passaporte e cheques de viagem. eu já estaria longe. O peito estourado. Se o escocês morresse. arranquei a etiqueta de identifica contato. O avião que trouxera Paul Surrender seria o mesmo 40 Grupo Baixe Livro http://www. aos prantos. Fiquei dando coronhadas no capo e gritando: — Vá! Não tinha jeito. faria de novo.solteiro. joguei a arma e tudo o que não me interessava numa lixeira. então. Dispersaram. Fugir! Vejo um cavalo voando. sem tirar os olhos dos dois. Apontei a arma na direção deles. trocar a tripulação etc. Aeroporto. o suficiente para reabastecer. o suor encharcava o gatilho. lembrar de alguns dos cheiros da minha infância. Procurei nos bolsos do escocês a grana e a passagem. tinha de ser feito. melhor para mim que ganharia. típica de turistas. Sangue jorrando. O motorista deu uma risada contida. fiquei em pé. A porta se abriu e trouxe a palavra: tempo. Se vivesse. Station e peguei o metrô para o Queens. carregando minha mala. ficando com o passaporte. Kennedy ou La Guardia? Do primeiro saem mais vôos internacionais. alguns curiosos. O tiro foi certeiro. A cena deixaria o motorista em pânico. mais ele chorava. O tiro foi para me dar tempo. tentando pensar noutra coisa. depois de ter usado seu nome: Paul Surrender . Enfiei tudo no bolso. Gritei: — Vai embora! Ele tremia. Agora eu digo: antes ele do que eu. Obedeceu. Abri o porta-malas.Bala na Agulha . uma bolsinha de amarrar. Joguei as roupas pela janela e saí com cuidado.baixelivro. Abri os olhos lentamente. tira a roupa! Os dois acabaram tirando. a passagem e a grana. Sua cabeça pendeu para a frente. Não conseguia dar a partida. A maioria dos vôos que chegam num país fica em terra algumas horas. 27 anos. Entrei na Canal St.

Em dinheiro consegui mais de mil libras e quase dois mil dólares. Fim de linha. até me organizar melhor e partir pra outra. incluindo os do motorista de táxi.com . 41 Grupo Baixe Livro http://www.Marcelo Rubens Paiva que me levaria embora. Eu estava pronto. Li com atenção os dados do passaporte procurando memorizá-los. O bloco de travellers foi picotado e jogado pela janela. Londres.Bala na Agulha .baixelivro. Não teria problemas em viver por lá.

estava querendo voltar se acabara de chegar. — encantado. — Eu também sou Surrender. Me misturei entre turistas europeus que viajavam para Machu Picchu. folheou o passaporte e encontrou 0 visto de entrada. Primeiro. Voltou a abrir o passaporte. ou tocar o alarme. Olha aqui no crachá. Fui direto ao balcão da British Airways. Ah. Edinburgh — me lembrando da cidade onde tinha sido expedido o passaporte. Começo de férias. descobri que estava lotado. europeus. eu estaria entre a multidão do aeroporto. Havia um tratamento diferenciado para europeus e latino-americanos — que ficavam mais tempo na guarita que ‘nós’. bonito? Antigo. o Peru. Tive de dar muitas explicações digressivas de porque eu. É de Glasgow? Não..baixelivro. fui para o embarque. com o sorriso mais escocês. no balcão da companhia. Sim. Passei a me movimentar com mais cuidado.. Alta temporada. Tiras checavam os passaportes. O policial não olhou para a foto. Havia um para a Espanha mas. Você devia vir nos visitar um dia. Sussurrou: — Surrender?. Era arriscado ficar me expondo. fui informado que havia lugares num vôo para Lima. Olhei rápido para a porta calculando os passos e a velocidade que precisaria para me safar de mais uma. Viu na capa a nacionalidade escocesa e foi direto para o visto. Sem perder tempo. fica pra próxima.Marcelo Rubens Paiva 11h35 La Guardia novamente. Passagem na mão. Não era o ideal.Bala na Agulha . eu ainda tinha chances. emocionado: 42 Grupo Baixe Livro http://www. Levantou a cabeça. descobri que vôos estavam de saída. Ia me devolver quando alguma coisa o fez mudar de idéia. me encarou. Comprei umas revistas e o exemplar vespertino do Daily News. talvez um primo distante. Não fizeram muitas perguntas. Tudo estava lento demais. Uma fila se formara. Estava prestes a desistir e tentar outro meio quando.com . Não brinca. de um típico Surrender. Olhei e. Apontou para a data: — Não gostou da América? Estou de passagem.. resultado do crime do Hotel Empire. O vôo sairia em duas horas. otimista. de fato. já que paguei in cash. Mantive a calma. Carimbou. Paul Surrender. Londres. Sorriu. emocionado: — É a primeira vez que encontro um parente. até chegar minha vez. olhos nos olhos: Você é meu primo. E como é lá. ou gritar.. Despachei minha mala. era meu primo. mas uma chance que não podia ser desprezada. Fui ouvindo pacientemente um sermão até vir a confirmação de que o vôo estava lotado e que eu poderia aguardar na lista de espera. Depois eu volto — sorri.. A maioria domésticos. até ele pular a guarita.. no balcão da Aero Peru. Ele devolveu o passaporte e. Parecia que estava há horas naquela fila. No painel de partidas e chegadas. Somos uma grande família.

. e que o atentado tem ligação com o crime do Hotel Empire. Algumas testemunhas. na capa. Algumas testemunhas foram intimadas a depor e a colaborar na constituição de um retrato falado. conhecidas do criminoso. boate de prostituição. Vestia a calça do uniforme dos carregadores do hotel. Um dos policiais.Marcelo Rubens Paiva — Lembranças à família.com ..baixelivro. Ele foi visto por freqüentadores do Six.Bala na Agulha . Suspeita-se que os dois brasileiros baleados no Central Park são policiais em serviço. Fui para ° banheiro mais próximo. na madrugada do crime. assessora para assuntos especiais da Presidência da República. Confirmou-se a suspeita de que o criminoso é brasileiro. continua internado na UTI do Hospital Universitário de Forhan. conhecido como Mel. a manchete: BRASILEIRA ESQUARTEJADA EM MANHATTAN Algumas novidades no que já estavam chamando de 0 Crime da Brasileira Esquartejada: A polícia já tem pistas do suspeito. O consulado do Brasil confirmou que a vítima era funcionária do governo brasileiro. Não se descarta a hipótese do crime ter sido cometido por razões políticas. sentei na privada e olhei a edição da tarde do Daily onde. ressaltaram os aspectos de sua personalidade violenta e agressiva. me tranquei no closet. 43 Grupo Baixe Livro http://www. ferido gravemente. Suspeita-se que seja homossexual. sabe-se que já foi garoto de programas.

Some da minha vista. Pablo. mas Flávio Castilho (meu nome verdadeiro). Mas não dormi um minuto sequer. O cavalo está próximo. mas não totalmente. o traficante incomum. me despedi com alívio de uma Nova York ensolarada e ansiosa pelo verão. Se ele morrer. Atravessa as nuvens. já que levei tudo o que poderia identificar o escocês. Os computadores entrariam em ação denunciando um Paul Surrender a caminho de Lima. Se Paul Surrender sobreviver. já que estava a caminho de um país desconhecido. estaria em todos os jornais. O couro é espelhado. puto gay. A organização Crime Stoppers paga até mil dólares para quem delatar um criminoso. sem que eu tivesse um contato sequer. 44 Grupo Baixe Livro http://www. Tinha a sensação de que alguém iria se levantar e me acusar. O motorista de táxi me reconheceria. aquele escocês. Brasil! O país onde eu poderia me virar com facilidade e. Arde. minhas chances aumentam: mesmo se o motorista me reconhecer. O retrato falado do tal Mel. o motorista já deveria estar fazendo planos de como gastar essa grana que passeia ao seu redor. reflete as janelas do avião. Perde altura. Mel. Eu estava seguro. Virava o rosto quando algum passageiro ou membro da tripulação vinha falar comigo: era como se lessem nos meus olhos as manchetes da edição do Daily. fundamental. Armanni. Voltar como Flávio Castilho. Eu. o turista italiano. O cavalo pega fogo. Quando soubessem quem é.Marcelo Rubens Paiva 13h05 Sobrevoando o East River. suja por uma passagem numa prisão parisiense. o estudante argentino. o oposto: mais de 24 horas acordado e de estômago vazio. não saberão com que nome fugi. cuja pena já havia sido cumprida. lembrar dos mortos e vivos.com . conhecer os que nasceram.baixelivro. honrar um nome. Nada de Thomas. Cheguei a comer alguma coisa. assumir minha verdadeira identidade. Vejo um cavalo voar. Me vejo refletido no seu corpo. o azarado. Me encolhi na poltrona de onde não levantei. saberiam que fugi usando seu nome. pertencer a um espólio. ou era.Bala na Agulha . o puto gay. me ligando ao roubo do passaporte de um turista escocês. minha liberdade acabará com a publicação do retrato falado e com o reconhecimento pelo motorista de táxi. Paul Surrender. um cavalo domado. acompanhando as manobras do avião.

Havia guichês para a revista. mesmo para alguém recém-chegado de Nova York). Não se soltou na minha mão pois o motorista foi rápido e me apontou a outra porta.Bala na Agulha . pediam e ofereciam coisas (a língua deles ainda soava incompreensível. Tentei abrir a porta do carro. virgens. sinais e corredores e barreiras estranhas. Esperei aplausos. As malas (dos vôos que chegaram simultaneamente) foram empilhadas no mesmo saguão. que poderia ser contemplada com uma comissão. etapas e etapas. Fiz a reserva. pedindo para a vagabunda um comprovante.. carregadores.Marcelo Rubens Paiva LIMA 17h05 (hora local) O desembarque. se eu queria loiras. minha intenção era fazer uma reserva no primeiro vôo para o Brasil. Na rua. Vôo 833. morenas. identifiquei a língua. se eu tinha hotel. Provavelmente ofereciam táxis. se comportou bem..baixelivro. Fiz que não entendia sua língua e ri como um turista ingênuo. Perguntou. mas seu cinismo denunciava que era um golpe da própria. descobri que não havia táxis. nem nada do tipo. caótico. Esta.. Brasil! No balcão da companhia aérea brasileira (numa outra língua. Brasil. Dei uma gorjeta e ele saiu fora. como viajantes oportunistas. hotéis. e aceitei a oferta do primeiro atravessador. Forcei. pelo caminho. nem filas para táxis. talvez fosse um golpe da empresa (empurrar passageiros de última hora para o lugar mais caro). Nada. Eu não tinha tempo para um julgamento ético. Chegada em São Paulo às 6h50. O nome não lhe causou nenhuma emoção. Minha intenção se esbarrou numa vagabunda brasileira. Saída 0h30.. com todas as letras: — Flávio Castilho. ele me conseguia o mundo. ou se eu preferia do mesmo sexo. repetindo apenas: — Táxi. Aquilo era um táxi. cambio e pediam grana. Nem bem saí do desembarque. os passageiros tratados como intrusos. orientais. Pegou minha mala e me levou para o estacionamento do aeroporto. se queria uma dica. Entrei e mandei o motorista seguir para a embaixada brasileira. Nome? Respondi.com . pelo jeito. a minha). picareta de plantão: lamentou que só havia lugares na primeira classe. Ficou 45 Grupo Baixe Livro http://www. E tinha dinheiro para pagar. Uma nova língua. que num estalar de dedos. Me apontou para um carro preto caindo aos pedaços. como um desembarque num país latino-americano. que sorte. se concentrava no cálculo da sua porca comissão. uma nova ordem.. O passaporte foi manuseado e carimbado com total desinteresse.. fui cercado por tagarelas anônimos que. um pátio escuro ideal para crimes de segunda classe. depois de atravessar o cordão de tagarelas anônimos com seus pedidos e ofertas. que tudo bem. Acabei voltando para o saguão. uma segurança onipotente. Presentes o tédio e o olhar mal-encarado de praxe dos policiais peruanos. grávidas. mas não revistavam nada.

Bala na Agulha . mostrei a ela o comprovante da companhia aérea brasileira. atravessamos o que parecia ser o parque industrial de Lima.. Me levaram para uma sala onde fiquei a sós. Os funcionários tentaram escapar. Fiz que me assustei. qualquer pessoa. desligou o carro e desceu com o ar de quem cumpre uma rotina. Fiz que não entendi. rastreavam nosso caminho. ou melhor. Avisou que eu era turista brasileiro e que acabara de chegar. que isso não se faz.. Seguimos caminho. Nos liberaram. Tive de esperar ele me examinar como se examinasse um bicho exótico. Honestamente. me fez sentar. O motorista se mostrou decepcionado (nenhum exotismo pela Escócia?). por alguns minutos.. agora. até entrar uma senhora de meia-idade que se apresentou como sendo a adida cultural. que eu tinha de voltar para o Brasil naquela noite.Marcelo Rubens Paiva encantado: — Ali. Um facho de luz iluminou meu rosto. Deram uma geral em mim. Metralhadoras (em cima de jeeps estacionados) apontadas para nós. que me levaram os documentos. 46 Grupo Baixe Livro http://www. se estava representando ou chorando de verdade. Gritava em português para chamar a atenção de todos. Uma mulher me trouxe um copo d’água e ficou me consolando. Fiquei no canto. Deram uma geral na minha mala. Os carros. chorei. Não. explodi. Eu não era brasileiro.baixelivro. que aquele país era uma zona. Estavam fechando a embaixada quando entrei. Me obrigaram a sair do carro e a encostar as mãos no capô. Com as mãos trêmulas. Misto de revolta. Lentamente. Tentei impedir a passagem daqueles que saíam. O motorista obedeceu. havia tanques atravessados na pista e barreiras policiais Por toda a parte. como se estivéssemos em plena guerra civil. Isso não me ajudou em nada. Um soldado. Me assustei. Final de expediente. Seus olhos cresceram quando ouviu meu sobrenome. a posição clássica: mãos no capô e pernas abertas. Um soldado tentou me acalmar. Me apontou uma arma. com uma lanterna acesa. na avenida. furioso. Mas funcionou. principalmente. quase aplaudiu. e seus ocupantes me olhavam como se eu fosse mais um terrorista procurado e encontrado (para a sorte da nação). foi o mais nervoso que me revistou. Falavam comigo e eu os ignorava. Abriram o porta-malas e começaram a revistá-lo. As tentativas pararam e a cena teve seu desfecho quando. Acabei dizendo quem eu era e. Encontraram o passaporte de Paul Surrender. Obedeci. Estava prestes a me livrar do passaporte escocês quando vi uma patrulha do exército bloqueando a estrada e fazendo sinal para encostarmos. me cumprimentou. gritando que me roubaram. sem mais. quem era meu pai. o adido. sem o ar encantado do motorista. brasileiro. Não pediram desculpas. Quase sugeri que andasse mais rápido. no pedaço mais escuro. então. eu não saberia dizer. medo e cansaço. Não falou mais nada. mandou eu descer. que os peruanos eram uns vagabundos. Pedi para avisarem o embaixador. diminuíam a marcha. e que tinha uma reserva. Mas logo me dei conta de que aquela era a velocidade máxima permitida.com . Afirmei que precisava embarcar naquela noite. No mais.. Satisfez a curiosidade e seguimos. não pareciam dispostos a colaborar. O motorista veio em meu socorro. já que todos os carros eram tão lentos quanto. Gritou. como se a língua em questão fosse de outro planeta.

Era um solitário em guerra. e minha cabeça a mil. Poderia ir para o Chile. e minha mãe reconhecesse o telegrama.Marcelo Rubens Paiva me olhou como se tentasse me reconhecer. Era questão de tempo. a Mel. descobrindo que o Brasil não era um lugar totalmente seguro. Uma gravura.. Foi este detalhe que me fez ficar. Não é possível que já saibam. 47 Grupo Baixe Livro http://www. Não havia mais ninguém.. Então. Mas se a investigação chegasse a Sandra C.. ora. expedido em Brasília.baixelivro. um imperador proclamando a independência de um país. o filho de Jorge Castilho. É uma grande honra poder ajudá-lo. e eu já esperava. onde a polícia tinha encontrado o telegrama de uma Sandra C. o assassino. o traficante. provavelmente na agência de alguma repartição pública. Sandra Castilho.com . Li em seu rosto um sabor de vingança. Bastava a síndica reconhecer meu retrato falado. Brasil.Bala na Agulha . e não disfarçou que estava na frente de um grande problema. seja como for. Não era um herói. na porta. E meu pensamento voou para longe e aterrissou no chão do quarto. Fui até a porta. Ela me deixou sozinho. empunhando a arma para a guerra. Mas não era um covarde. a polícia ligar Thomas. Talvez. Argentina. — Ora. Usar enquanto houvesse tempo o passaporte do escocês. para a batalha final. ou melhor. Talvez. Fariam a conexão Sandra C. Era o mal. ela se tornaria uma testemunha em potencial.. me chamou a atenção. no Village... Saí de onde estava e percorri os corredores da embaixada. Não era um líder. A adida falou muito. Um cavaleiro solitário erguia sua espada.

de onde não saí. Mas eu vou ficar e ajudar no que puder. conte comigo. no momento em que eu cochilava num sofá. Meus amigos me ligam eufóricos.com . Fazem mil elogios a seu pai. Se precisar. Eu não tinha me dado conta mas. onde chegaram a falar com o Brasil. o cansaço me pegou: havia como que uma névoa ao meu redor. eu assumia uma identidade com autoridade e com um sobrenome de peso e respeito. onde estava atestada a perda dos meus documentos. me entregou um envelope com o timbre da EMBAJADA BRASILEÑA. Depois de horas de espera na embaixada. as autoridades vão facilitar. não movi um dedo. A adida resolvia todos os problemas. Na despedida. Havia um misto de formalidade e emoção na sua voz. não ouvia. Quando chamaram o vôo. Soube que a vitória do seu pai é comemorada nas ruas até hoje. retirou o cartão de embarque. apertou minha mão longamente: — Fiquei feliz em conhecê-lo. nem sentia. a partir daquele momento.Bala na Agulha .baixelivro.Marcelo Rubens Paiva 22h55 No aeroporto. Pagou o bilhete. Repetia sempre: — Sendo quem você é. Eu queria ir com você para testemunhar o que está acontecendo no Brasil. 48 Grupo Baixe Livro http://www. não via. despachou minha bagagem e me acompanhou até a sala VIP.

Em torno delas. (me fazia bem pensar nela). Eu fazia planos de um dia voltar e reconquistá-la. Ana Luiza. Amigos? Não se faz amigos no tráfico. corredores. o caminho de casa. Escrevi com o sabonete meu nome no espelho. quartos e a irmã tagarela: Ana Luiza. o aeroporto de São Paulo. No início. 49 Grupo Baixe Livro http://www. como escultor. bem mais nova que eu. No fim. que são perseguidos. como se declamasse um poema.Marcelo Rubens Paiva SEXTA-FEIRA 0h30 O avião decolou pontualmente. salas. a caçula. E passou a me evitar. tal qual uma moldura. fraudes que rasgam narinas e bênção. uma cúmplice. Passei a desenhar.com . em voz alta. Havia um peso no meu bolso que me levou ao banheiro. que caem na clandestinidade. amiga de sempre. mas madura o bastante para me confundir com a reencarnação do diabo: eu com minhas drogas! Mesmo assim. São conhecidos que vão presos. este que leio. Repeti.baixelivro. se envergonhava de mim. Busquei em cada letra a intimidade perdida. moldara. metida. Cabelos crespos. Me olhava no espelho procurando registrar minha fisionomia. estudar meus olhos. com a volta. Era difícil arrancar a máscara que eu. na minha cabeça. O ofício nos obriga a experimentar porcarias que sabe-se lá do que são feitas. moleca. Ganhariam vida. Ana Luiza. Nem é recomendável. Pó de mármore. que apanham e sofrem atentados e morrem. Não a joguei fora. meu talismã. Cada qual é o mais distante de si mesmo. na cabeça. esqueça. Quando digo overdose. seus colegas deveriam traçar um estatuto exagerado do irmão traficante. Seria. tomando consciência. Passei água e ensaboei de novo.Bala na Agulha . meu sorriso. a partir de então. que somem. a chave de Mona que levei por engano. O ar bom. desenhei um círculo... Eu sou este que vejo. Picotei o passaporte de Paul Surrender. uma chave pequena. eu conseguisse. Morre-se muito neste meio: troca de tiros ou overdose. para que elas ficassem expostas por muito tempo. procurando algo que pudesse me incriminar. Li. Examinei meus pertences. Doses pequenas matam. Mas foi crescendo. Apenas pounds e dólares. Era criança quando a vi pela última vez. Talvez. vidro moído. como se buscasse um Flávio Castilho. Noutro bolso. Sou estas letras. O ar ruim. era a tagarela doce. talvez o único ser vivo com quem eu me importasse. Abri a torneira e ensaboei o rosto. Nós.

Atravessamos uma porta. Ele nos pediu para recebê-lo.. fui seguindo o fluxo de passageiros. e sem exprimir nenhum sentimento pediu autorização para me revistar. — É para a minha mulher — justificou. Tirou uma caneta Montblanc do bolso e me pediu um autógrafo. um terminal de computador. Deixa eu ter a honra de ser o primeiro a cumprimentá-lo — seu sorriso dobrou. a partir daquele momento. Olhou fundo nos meus olhos (num olhar que só um tira sabe dar). Este aqui é o dr. Daquela vez. Estão todos muito felizes com sua chegada. O Montblanc pediu os tickets da minha bagagem. Estava escrito: FLÁVIO CASTILHO Olhei aquelas letras. Apertei a mão do policial que. descemos escadas. tinha de começar a ser eu: Sou eu. o que resultou num pequeno debate entre os tiras. Cada um foi para um lado. Examinava seu requebrar. controlando o entra-e-sai.com . O policial estava mais preocupado com o andar de uma aeromoça. Lembranças me levaram. Vai nos ajudar com os trâmites. — Fui roubado em Lima. repetiu: — Você é Flávio Castilho? Segurava um fax com minha foto impressa. exclusivos às autoridades. Quebrando meu silêncio.. atravessamos corredores vazios.Bala na Agulha . sem desviar os olhos da bunda da mulher. Mas ele sabia quem eu era. A embaixada me deu estes papéis. Na porta do finger. Digitaram meu nome. um tira com o jaleco da Polícia Federal. — Cavala..Marcelo Rubens Paiva SÃO PAULO 06h50 (hora local) Cumbica.. comentavam entre si. Os dois examinavam a foto e a mim. um sujeito atento a todos os passageiros que desembarcavam sorria segurando uma placa. ou melhor. Muito prazer. — disse o policial apontando para a mulher. quem é aquele? Meus acompanhantes pediram para esperar. havia sujeitos fardados nas portas. Fiquei em pé. Entreguei a ele o envelope e seguimos por um corredor. Como em todos os aeroportos. Mesmo que eu 50 Grupo Baixe Livro http://www. Eu deveria ignorá-los e seguir os outros passageiros. curiosos ante meu privilégio. até o dr. Nele.. Ao seu lado. A resposta que queriam apareceu em segundos. cortando caminho até desembocarmos atrás dos guichês da Polícia Federal. Como um burro cego. para outro mundo. — Flávio Castilho? — o sujeito perguntou. — Sou assessor do seu pai. Mas o policial me pegou pelo braço e apontou outro caminho. por instantes. Mattos entregar minha Papelada em um dos guichês. eu tinha de ser eu. examinando as saídas. Me olhavam com freqüência.. e cada um fazia sua dedução.baixelivro. Eu não tinha escapatória. Notei o tal dr. Mattos. Assinei meu nome no fax. Os passageiros do meu vôo estavam do outro lado. disse: — Soubemos que está sem passaporte. me apontavam. enquanto o policial checava meus papéis e outras bundas. Mattos voltar.

Revistaram os bolsos e a mala. Notas de dólares. minhas orelhas foram examinadas através de uma lupa. Tirei a roupa sem titubear. A maioria não queria perder o grande momento. sabendo da revista. Colocaram meus pertences sobre a mesa. Mas a maioria era hostil. digo. mostrar autoridade. A ordem de abaixar não veio. assistir à humilhação de alguém tão poderoso. tive de me despir e me abaixar para que examinassem meu cu. procuravam drogas. revistas e um exemplar do Daily News. no choque entre poderes. Alguns ficaram constrangidos... — Mas sendo quem você é. A coisa aqui está séria — justificou. poucas roupas.baixelivro. e davam uma olhadela nos meus papéis e na ficha que o computador do aeroporto imprimira. ou se prefere ir direto? Preciso ficar pelo menos um dia em São Paulo. mas a maioria queria show.Bala na Agulha .Obrigado a todos. sempre buscando se diferenciarem dos tiras brutamontes comuns. até eu interrompê-lo e me colocar à disposição. não me pergunte porque. tiraram fotos abraçados a mim. 51 Grupo Baixe Livro http://www. O pedido seguia as normas da boa educação dos federais. arrumamos um jeito. outros me olhavam com deboche. O Montblanc voltou e. Não sei se quer ficar em São Paulo. pus as mãos na cabeça e. — Todos que já tiveram algum envolvimento com tráfico. Os vôos para Brasília estão lotados — o assessor. tive de passar a mão no cabelo e abrir a boca sob o facho de uma lanterna. esperei a ordem de me abaixar. mostrando serviço. como todo assessor. com a justiça. enquanto a minoria protestava. devem ser revistados. Me levaram para um reservado onde fiquei a espera da minha mala. Os outros. no meio da sala. seria revistado. Os policiais que entravam me examinavam de cima a baixo. o que era ridículo em se tratando de alguém recém-saído de uma prisão francesa. nu. agradeci: . como se eu fosse um personagem histórico. Mandaram eu me vestir. esboçou um pequeno escândalo.com . O jornal ficou aberto em destaque. quando cheguei deportado de Paris. Minha mala chegou junto com outros policiais. — O Brasil mudou. Enquanto o Montblanc e alguns policiais protestavam. pounds. Queriam revistar o filho de um ministro pelo prazer de revistar um filho de um ministro. em inglês: BRASILEIRA ESQUARTEJADA EM MANHATTAN Abri os braços. O Montblanc foi catando minhas coisas e dando broncas em todos. Já havia passado por aquilo. Finalmente me vesti e. O Brasil mudou. Alguns me cumprimentavam emocionados. intimidar. Os policiais hostis foram saindo. Vingou o constrangimento: “Não se faz isso com o filho do homem”. derrotados. procuravam. venceu o mais forte. sim. onde provavelmente estava o histórico da minha prisão e deportação de Paris. Ninguém notou a manchete do dia. moedas e a chave de Mona.Marcelo Rubens Paiva não autorizasse. para voltar para o serviço. Na minha mala.

52 Grupo Baixe Livro http://www..Bala na Agulha .Marcelo Rubens Paiva Seus pais estão ansiosos. Prefiro ficar em casa. Então precisamos te arrumar um hotel. Mas quero rever um amigo. Observe a felicidade de todos.com . Estamos num outro Brasil. Olhe para as pessoas em volta. Ainda existe. Ninguém se muda em definitivo para Brasília. Imagino. Estamos em festa.baixelivro. ou não? — Existe.. temos em quem confiar. Pela primeira vez. Seu pai tem o tipo de emprego que não tem estabilidade.

uma neblina. Para chegarem até mim. não mentiram: trafiquei drogas na escola.com . Fiquei curioso em ler as declarações dos meus ex-colegas. Fizemos maioria e seu pai está lá. E também porque eu precisava conquistá-los. já que fiz bem a eles: ofereci pó de primeira qualidade. Fotos suas saíram em todos os jornais e TVs. o vazio costumava ser meu pensamento mais profundo. O povo queria o seu pai de qualquer jeito. Foi a cartada final. por inveja e frustração. Chegaram a tomar depoimentos dos seus antigos colegas. O cerco se fechava.Bala na Agulha . Noutra. Alguns queriam te humilhar. chega mais. Quando comecei a vender drogas. Não traficava apenas por dinheiro. Mas não repercutiu. Castilho?! Pátina. e continuava traficando. servir. Eu era um pato morto. Agora sim: Brasil. Diziam que você vivia em Nova York. um retrato falado aproximado do criminoso do Hotel Empire. Traficava para tirálos da rotina. Mas se chegou até aqui. Névoa e um sol embrulhado. Há quanto tempo. e na minha cabeça. indispensável nas festas. Nunca tive coisa alguma a oferecer. Duas vezes notícia de jornal. para apresentar-lhes o mundo dos cães.Marcelo Rubens Paiva 07h30 O ar da manhã. É inútil tentar me explicar. a aprovação. Talvez eu quisesse minar o talento.. cobrindo São Paulo. salvar o mundo. conheci a glória (do anonimato para o fechado clube das celebridades). Numa. gastaram muito tempo te denunciando. No último debate. Assisti a alguns filmes. Nunca fui nada especial. para desinibir os inibidos. Nem sei se minhas explicações interessam. passei a ser querido. Incógnita. Eu os queria à minha volta. já que você está preso em cem preconceitos. reuniões e viagens. a média era o meu lugar. Não cansavam de repetir que você tinha sido preso na França. tudo para prejudicar seu pai. provavelmente nas bancas de Nova York naquela manhã. popular. 53 Grupo Baixe Livro http://www. para destravar os tímidos. Alguns confirmaram que você vendia cocaína no colégio. Flávio. No mais. nunca cheirei: “Don’t get high with your own supply”. Por que riem? Quem amam? Que culpa eu tenho de ser. Nos últimos dias de campanha. deveriam escalar uma torre de pó: meu totem. havia motivos mais nobres. Escutar meu nome: “Ei. uma foto antiga do filho de um candidato a primeiro-ministro. Não. Eu tinha a doença e a cura. sanar essa urgência.baixelivro. Trafiquei para ser incomum. esclareço um ponto. Mas eu deveria estar me sentindo traído. que era envolvido com o narcotráfico. nascer. Você deve saber que seu nome foi muito lembrado na campanha eleitoral.. num carro velho. preciso falar com você urgente!” Urgente. E daí? Ser incomum. Eu me sentia um enviado de Deus. É bom ser urgente para alguém. Não os culpo: eleição é guerra. Numa estrada. Li alguma coisa. dirigido pelo próprio Montblanc: — Lamento a atitude dos policiais. Comum e apático. valia tudo.

.. Eu tinha construído um mundo próprio. e que se movimentava.Marcelo Rubens Paiva São Paulo. juristas de tradição. como se o talento estivesse afixado no código genético de cada um. Fui a fruta podre que caiu de uma árvore aparentemente perfeita e imortal.Bala na Agulha . Me aliar ao incomum. 54 Grupo Baixe Livro http://www.. respeito e honra. com seus vícios. Você não tem idéia das responsabilidades que um Castilho tem de carregar. sei que cheguei a pensar. As árvores têm frutos. Eu tinha me libertado. respirava. numa mudança. Tudo bem. pouco me importava a minha mentira. Satisfeito? Até então.com .. num descarrilar. já que é uma obrigação. O sucesso dos membros da família nem é comemorado.baixelivro. Aí estão os porquês. há dois dias. Mas agora. independente daquilo que me propuseram toda a vida.

Desde que denunciou a corrupção e levou muita gente pra cadeia. Fique com meu cartão para qualquer eventualidade. Mesmo uma fruta podre é capaz de germinar. Mas e se eu desse um outro sentido a ela? Olhei para ele e: — Foi pelo meu pai. Aprendi muito com ele. Desculpe a franqueza.com . Posso te fazer uma pergunta? Por que voltou? Foi pelo mesmo motivo. Voltou a sorrir: — Você tem os olhos do seu pai. Naquele Brasil... Mas virou o símbolo da moralidade. Como posso fazer uma segunda via do meu passaporte? Essa pergunta o pegou de surpresa. Seu pai é um herói. ou em Bali. sem família.Bala na Agulha . O Montblanc me perguntou: Quando você estará pronto para ir pra Brasília? Não sei. Sua popularidade era minha maior defesa. era. eu tinha costas quentes. mas o filho do herói da nação. eu não era um criminoso anônimo. Por isso. Poderia requisitar um passaporte em nome de Flávio Castilho e me arrancar o mais rápido possível. O assessor Montblanc suspirou aliviado: — Foi uma campanha fantástica. O sol ficava forte. Minha volta poderia ser encarada como um acaso. se me deixar a papelada. me apagar. principalmente a sua. Não demore muito. É melhor eu te ligar. Jardim Europa. Queria sumir por uns dias. Confio nele tanto quanto confio no meu verdadeiro pai. Me devolveu o otimismo. Fui indicando o caminho. por favor. Ali era o meu lugar. Me devolveu a esperança. Queria me afastar de sentimentos fortes. Algumas delas tinham raízes à mostra. A rua estava. Nenhuma emoção. sim. Esperava que todos estivessem em Brasília. Naquele país. o reencontro. É popular e querido. faixas e cartazes em muitos postes. silenciosa. Fechou o sorriso: — Posso ver isso pra você. Poderia ir viver no Caribe.baixelivro. A casa: um sobrado grande. Não confiei nele: — Depois — e fiquei com os papéis.Marcelo Rubens Paiva 08hl0 Entrando nas ruas de São Paulo. Desci do carro e ele partiu. Eu te ligo. Mas fiquei confuso quando minha casa apareceu como um flash. Já havia sombras das árvores dos Jardins. Talvez ir embora e viver num outro país. Não estava disposto a viver cenas que teriam de ser vividas. 55 Grupo Baixe Livro http://www. o álibi que eu precisava. ilha quente. Seu pai está ansioso para revê-lo. O primeiro-ministro era o escudo. perfuravam a calçada. o interesse de alguns grupos em borrar a imagem dele. uma fuga. os vestígios da campanha eleitoral chamavam a atenção. Fotos do meu pai. tropical e previsível. anos e anos de memória. Out-doors. não foi? Foi para viver o momento histórico em que estamos vivendo? Foi por seu pai? Olhei para a casa. mas a imagem de todos saiu desgastada. acuradíssima.

sofás. Eu sou filho do seu Castilho. Era o quarto de uma garota. cobertores. mesas. Tem uma empregada. Cedeu um pouco. Senti falta de Ana Luiza criança. O meu antigo quarto tinha se transformado numa sala de TV. na minha cabeça. havia se transformado numa leitora aficcionada por clássicos ingleses. Não me sentia bem xeretando suas coisas. mesmo inseguras. Nenhum vestígio da minha infância ou adolescência. Um alçapão. Te vi nos jornais — fez uma pausa e sorriu. — Pensei que talvez. Subi pela grade da janela até o telhado.. nenhum sinal da minha existência. de onde eu poderia pular para o corredor do segundo pavimento. — Parabéns — e me apertou a mão. agora. Estava viajando. e as folhas se soltavam. Forte cheiro de mofo. um depósito de cama e mesa. Fiquei por um tempo na dúvida se esperava a empregada ou se arrombava o que fosse preciso. devia estar. Dei uns pontapés no alçapão. Fiquei surpreso ao ver calcinhas de rendas. com medo de encontrar um passado que fiz de tudo para esquecer. Nada. mas eram minhas mãos que. Havia uma pilha de cartas e 56 Grupo Baixe Livro http://www. respirei fundo. me observando. minúscula. estava trancado. Comecei a pular em cima. Nos armários. a nova era chama. Uma fria e sóbria sala de TV. travesseiros. com medo da guerra e de tudo mais. com medo de ser algo que eu não era há muito. — Tenho — e mostrei a chave de Mona. Fiquei confuso. me daria acesso ao desvão do telhado. reconheci alguns objetos: retratos. na esquina.com . Nada de bichinhos. Muita poeira se levantou com o abrir das portas. toalhas.Bala na Agulha . desta vez cobertos por poeira e panos brancos. sempre no mesmo lugar. Abri o armário. Apesar da escuridão.. minha irmã. lembrando uma casa de fazenda. Nenhum perfume. Entrei no quarto de Ana Luiza. ou quando perdia a chave. uma empregada ou um caseiro. com 18 anos. rendada. Mas. Preferi manter tudo fechado. No térreo. Seus livros estavam rabiscados. tal qual um céu nublado com frestas entre as nuvens. a maioria dos móveis estava coberta por panos brancos. Fiquei parado com medo de entrar. nunca trancado. objeto. Por um tempo fui feliz naquela casa. juntei forças e continuei o trabalho. Ardia. de ir à luta. Consegui desimpedir a passagem e entrar. Pulei o portão e fui para os fundos. desta vez. com as janelas azuis. —Acho que a empregada vai demorar. meias-calças e sutiãs. decalques e cheirinho doce. Tinha uma maneira de entrar que eu usava quando não queria ser surpreendido. O primeiro impulso foi abrir todas as janelas para deixar entrar um vento fresco. Havia grama em toda volta. Nenhuma roupa. quadros.baixelivro.Marcelo Rubens Paiva aparentemente modesto. Peguei uma calcinha. — Eu sei. Ana Luiza era criança. abriam gavetas e procuravam sua transformação: roupas arrojadas e sensuais. Mas me bateu uma vontade de entrar. Parei. pode esperar ali na guarita. Parecia estar fechada há dias. Era preta. Acenei para ele e pulei. Tem a chave? Se não. Pelo que vi. Era branca. Abri com os dedos. tudo no mesmo lugar. Notei o vigia. Mas não. Saiu por agora. bonecas. Um vigia saiu da guarita e veio até mim: — Não tem ninguém aí. Joguei-a no armário e fechei a porta do quarto.

já que.Marcelo Rubens Paiva telegramas sobre a mesa. encostei na parede. Entornei outra dose. Uma garrafa de whisky reluziu. certamente. Se o vigia me reconheceu. em Lima. talvez. Os mais recentes desejavam boa viagem. e fui deixando as pernas amolecerem. os policiais do aeroporto sabiam quem eu era. até eu sentar no chão. 57 Grupo Baixe Livro http://www. enchendo um copo guardado na cristaleira. Engoli de uma vez. desejando sucesso etc.com . A adida cultural. como assessora da Presidência. atrás de um sofá.Bala na Agulha . tivera contato Entornei mais uma dose. Mona. Segurei a garrafa. desde o início. Marcos de Sotto. Felicitavam a posse do novo ministro.baixelivro. Foi a primeira coisa em que toquei. Minhas fotos em todos os jornais. Ela sabia quem eu era. Repeti a dose.

os gemidos de um homem acompanhando. A mulher.. no mesmo ritmo. Eu sou a empregada. Subindo a escada. Duvidaram. escondida sob o lençol.baixelivro. viu que eu ainda estava no mesmo lugar. e sobre ele. Sem fazer barulho. Não chegou a calçar os sapatos: saiu com eles nas mãos. soltou as mãos. Peguei suas roupas do chão. se atropelaram. Seus dedos. para que a máquina encerrasse o registro do tempo. respirações ofegantes. ela abriu os olhos e notou minha presença. com a cara amassada no colchão. Não tem ninguém aqui. um casal se amando violentamente. por isso apontou a arma. e o homem sobre ela. movimentando seu quadril como uma britadeira furando o asfalto. Gritou para eu pôr as mãos na cabeça. Pode sair. rangidos de uma cama de metal. Há dias que eu estou sozinha. passando a me chamar de ‘doutor’. os da mulher. É verdade!! — e voltou a chorar. de onde sacou uma arma e me apontou. Consegui dizer quem eu era. Os olhos da mulher estavam fechados. se montou a farda de um vigia. firmes nas barras. Eu já estava aqui dentro. Passou a chorar copiosamente. Mãos agarradas espontaneamente. se tornavam nítidos os gemidos de uma criança.Bala na Agulha . sobre a cama. Mas ninguém me disse que o senhor vinha. para que fossem 12h00 para sempre. empurrou o homem e se cobriu com o lençol. — se contradisse. — Pode sair. A cada passo eu ouvia um novo som.. Ela me olhou por um instante. Obedeci. Tentou se justificar: achou que eu era um assaltante. degrau por degrau. É verdade. O sujeito me olhou assustado e voou em direção à trouxa de roupas no chão. joguei-as em cima da cama e repeti: Pronto. Eu sei. Os gemidos se tornaram gritos. abotoou a farda e pediu desculpas. A mulher tirou a cara pra fora. como se ela estivesse se segurando para não cair num abismo. Não é verdade. Não vi o senhor entrar. nunca fiz isso. parei na porta do quarto dos meus pais. De repente. percebi que os gemidos eram de uma mulher. Joguei bons argumentos. Dos braços.com . e voltou a se esconder. Ele me obrigou. Pelo amor de Deus. agarradas nas grades. Não! Daqui eu não saio! 58 Grupo Baixe Livro http://www. Nunca tem ninguém.Marcelo Rubens Paiva 12h00 Acordei com as doze badaladas do relógio de parede. O sujeito guardou a arma. escorria suor. ele que insistiu. Deu um grito. — Tua mãe vai me matar. O homem se vestiu. de onde vi. Estão todos em Brasília. Me apontou a arma e me obrigou. enquanto o ritmo da britadeira aumentou. Mas no corredor. Suas mãos. e voltou a esconder a cabeça. Fui até ele e segurei o pêndulo. A mulher agarrada nas grades da cama. A arma ainda apontada pra mim. Sai daí.

agora. houve uma Noris. Havia um ligeiro sadismo na sua castidade. abri a porta e uivei quando a vi nua. um animal acorrentado. Com ela aprendi a beijar. e fez um café. Eu definhava pelos cantos. ela apareceu. ainda. a que me possibilitaria fazer chover. Noris. Queria minha última lição. Ela sumiu pela área de serviço. Nem as antigas mamadas. depois de ter me ensinado quase tudo. inocentes mamadas nos seus peitos. Deixei-a para trás e fui à cozinha. a que me explicaria. ventar e falar com os deuses. abriu um armário. de uma vez por todas. abandonava seu aluno. nasceram do nada as noites em que ela dizia não. Ainda sem me encarar. Pude observar suas mãos. Havia poucas coisas. tensas na grade. fui até seu quarto evitando todas as armadilhas. que eu só valia a pena como um inexperiente garoto. pó e coador. ela me abandonava. Aprendi. Agradeci o café e libertei-a. Pulei em cima e prendi seus braços. não saía da minha cabeça. arranquei minhas algemas. Passei a viver um inferno naquela casa. de costas para mim. cada vez mais freqüente.baixelivro. mas segurei seu braço. à beira de um colapso. ela. implorei. A verdade cruel desta relação foi revelada: eu perdi algumas mesadas. Ainda procuro a derradeira lição. uma empregada (uma professora). a ter paciência com o corpo feminino. então. No passado. escondeu o rosto e passou por mim como uma bala. acendeu o fogão e pôs água no fogo. sem dizer. a que daria um ponto final. mãos servis. Era como se dissesse. 59 Grupo Baixe Livro http://www. quando brincávamos de mamãe e filhinho. Alguns minutos depois. iluminada pela lua. indisposição. Fiz greve de fome. Com a água fervendo. Fomos surpreendidos pelos donos da casa. por temperamento. Ela estava para sair. o emprego. massagear. depositou a garrafa cheia na minha frente. desculpas absurdas que contrastavam com meu tesão explosivo.Bala na Agulha . Eu crescia e o não. Nossos olhos se encontraram. fenômenos inexplicáveis. antes. lamber. Sem dizer nada. ela voltou e. o suficiente para um lanche. sem nem pensar na hipótese de que talvez ela não exista. Numa noite de verão. só que eu já tinha 14 anos. o sabor. charme. tirou uma garrafa térmica. Entrou para a área de serviço. Mas nem comecei. Vi nela um misto de ódio e vergonha.Marcelo Rubens Paiva Tudo bem. aluno sem condições de experimentar o saber. Coloquei tudo em cima da mesa e sentei. onde dei uma busca na geladeira. Nada. Primeiro.com . a origem de tudo.

Pedi que deixasse os panos. a mais escura.Marcelo Rubens Paiva 12h00 Fiquei por um tempo indefinível sem fazer nada. Me via. 60 Grupo Baixe Livro http://www. Sem sair do lugar. pedi para que deixasse tudo fechado. Ficamos por um tempo nos enfrentando.Bala na Agulha . Desisti. Obedeceu. A empregada apareceu e abriu as janelas da sala. me colocaram frente a uma bifurcação e ordenaram: prossiga! Tive de escolher uma das estradas. Joguei um olhar duro.baixelivro. de quem quer ser obedecido e tem poderes para isso. querendo viajar pelas duas. Foi tirar os panos brancos dos móveis. Ela me devolveu um olhar firme. encostei a cabeça e fechei os olhos. Me encarou. Há muitos anos. Desafiadora. Pegar a da direita? Pagar a dívida. então. Deixou os panos e se retirou. de volta à bifurcação. Peguei a da esquerda. fechando as janelas.com .

Não tomei conhecimento e perguntei: Tem algum jornal por aqui? Demorou para responder: Coloquei na mesa da cozinha. só com o gerente. Reconheceria os brasileiros baleados. policiais em serviço. Era melhor para ele que eu não fosse descoberto. de fato. O traficante de ácido era uma das pontes que faltava entre Mel e Thomas. Peguei o jornal e fui pra sala. Talvez desistisse de partir e encarasse a divisão de classe como um desafio. Tirei uma nota de cem dólares e dei a ela. para mim.Bala na Agulha . havia sido efetuada a prisão de um traficante na Washington Square que tinha ligação com o crime. O telefone tocando interrompeu a leitura. Havia uma mala cheia de roupas sobre a cama. — Vá até um banco e fale com o gerente. sabe-se que na época da campanha eram seguranças de palanque. ligação ainda não revelada. Marcos de Sotto pode tê-lo denunciado. Bati no quarto da empregada. Diria que comprei uma arma. Eu não queria que ela fosse embora. Volte de táxi. e a culpa cairia sobre um misterioso puto gay e traficante? Eu acreditava que Marcos preferia que não chegassem em mim que. Mas quem mais poderia ter denunciado o traficante? 61 Grupo Baixe Livro http://www. Estava de partida. Dei ordens para confundi-la. Depois. Não atendi. poderia acusá-lo do crime e da venda de passaportes falsos. através de uma denúncia anônima. A única novidade. Voltou a tocar. era que. Coloquei a nota na sua mão e dei as costas. até desistirem. Uma foto de Mona. Mas por quê. Troca isso pra mim. se o crime que planejou foi executado com perfeição. Diziam se tratar de uma colaboradora influente do partido vencedor.Marcelo Rubens Paiva 12h00 Na despensa. Ela me atendeu friamente. Os dois outros brasileiros baleados eram. Havia uma chamada de capa para os crimes ocorridos em Nova York. vá a um supermercado e faça umas compras. mais especificamente. me dizendo vítima de um complô.baixelivro. responsável pelos programas de televisão do horário eleitoral. É bastante dinheiro.com . Entendeu? Não esperei a resposta. percebi que o estoque de comida estava no fim.

recusou. Fui ajudá-la com as compras.baixelivro. Me deu o troco. Ela foi atender. mas. mas impedi: — Não atenda o telefone. Nem a campainha. 62 Grupo Baixe Livro http://www.Bala na Agulha . o telefone voltou a tocar. Não faça nada. orgulhosa. ouviu? Esperamos em silêncio o telefone parar.Marcelo Rubens Paiva 12h00 Mal a empregada entrou com as compras.com . Eu disse que ela podia ficar com o troco.

Notei sua mala.Bala na Agulha . 63 Grupo Baixe Livro http://www. Penumbra. Não havia nada que precisasse ser dito. Como a casa estava muito quieta. Fiquei com pena pois estava muito frio e escuro. Vesti uma delas mesmo assim. Os móveis eram familiares. Estendi a mão e disse: — Boa noite. Mas não. na calçada. no momento.baixelivro. Se dispôs a costurar. Fiz com que notasse minha presença. pensei em fazer o relógio funcionar. sorrir sem graça. Ela se virou desinteressada. era não fazer e não pensar em nada. Intuí que se eu começasse a pedir favores. Suas únicas palavras: — Boa noite. num lapso. até estender a mão. Cheguei a ver. Boa noite. na frente do espelho. testemunhas das minhas primeiras experiências com Noris. cafona. poeira e vazio. Ela apareceu com minhas roupas costuradas e sua mala. Era uma imagem triste. até puxar a sua. Segurei-a. Ela não sabia o que fazer. Olhou incrédula para nossas mãos grudadas. Estava pronta para ir. Eram folgadas. Vestia uma roupa justa. Às vezes o telefone tocava e havia alguém do outro lado da linha. Minha preocupação. ela em pé. Olhando os ponteiros imóveis. esperando alguém. muitos estímulos me largariam em pensamentos e lembranças. ordenar nada. com sua mala no chão. Não acendi as luzes. Perguntei se ela costurava e se podia me ajustar aquelas roupas.com . Ficou claro que eu sabia que ela iria embora. Empalideceu como um raio. através da janela. fui procurá-la. Somente eu e a empregada. Ela. Estava pronta para partir. e exalava um perfume barato. e sair. já fechada. com cores berrantes. Coloquei somente um prato na mesa. ela. adiando a partida. Me aproximei. talvez desistisse de ir. Mas era apenas a campainha de um telefone tocando.Marcelo Rubens Paiva 12h00 Investiguei umas roupas do meu pai. Preparei um jantar. dava os últimos retoques na maquiagem. Ficou claro que eu tinha visto a mala. sobre a cama. Uma pena. Não consegui imaginar nenhum pedido. por isso me concentrei só no vazio. como toda despedida é. Escureceu. e não havia ninguém além dela e de mim. abriu os olhos e deu dois passos pra trás. A porta do seu quarto estava encostada.

três. E daí? O que está por vir? Não se sabe. A empregada. Os corpos não obedeciam nenhum comando. Aceitou mesmo sem saber o que era. e eu me tornara seu escravo. não encontrei mundos. Da janela observei. Tonta. naquele momento. Luciana. O tempo. os minutos.Marcelo Rubens Paiva 12h00 Não sei quanto tempo passou. Qual é o segredo? Como recomeçar. Tomei a bebida num gole e fui até ela. Estávamos bêbados e enganados. Resolvi me sentar na sua frente e fazer companhia. Depois de um tempo. mas o suficiente para eu adormecer no sofá e acordar ainda na mesma noite. Mas um passado me cercava: era uma possibilidade. Bebemos em silêncio. batidas que virão: uma. Na estante. Sentei-a na cozinha e dei a ela um conhaque.baixelivro. Nos agarramos mais. uma figura solitária sentada numa mala. O frio era de matar. mas temos. mesmo os que estavam escritos com a minha letra.. que também chora ao meu lado o seu abandono? Acabamos nos abraçando. Juliana. Ouvimos e constatamos: é meio-dia. reconstruir? Voltei para a mesa e. aceitaria qualquer presente. encolhida de frio. Nomes falsos. Seu vestido era de seda. nada.. eu poderia dar um sentido ao retorno. esquecida: a imagem triste. a nós. peguei sua mala. Não muito. Não me perder. Ajudei-a a se erguer. como eu. Havia parentes. encostou a cabeça no meu 64 Grupo Baixe Livro http://www. Mas o que doía nela começava a doer em mim. tomara o poder. As 12 batidas do meio-dia acabam a dispersão. Pensei em dizer alguma coisa para consolá-la. Rompi com um Flávio. amores. Bebeu tudo num gole. Não consegui dizer nada. dois animais soltos no mundo. Marta. Mas eu os lia e não via ninguém: Flávia.Bala na Agulha . na frente da empregada. — Voltamos a beber em silêncio. duas. Domá-lo. Maldição. começamos a nos mover no ritmo de uma música imaginária. Seu rosto estava pálido. Crescer 175 mil dólares e nada mais. Automaticamente. não encontrei o que me prometeram. Não vejo minha família há tanto.. Tempo... na calçada. porque. pelo menos. duro. Seus nomes e números não significavam nada. e voltamos para dentro de casa. Como já disse. construí um outro cujo único bem eram horas e minutos e um punhado de dólares. animal indefeso. sem vida. desabei. que me deveria ser útil. Quem é você. me abri: — Estou fora do Brasil há quase oito anos.com . Tenho registrado as horas. Ela me encarou. meu único bem.. Quem é você? Uma empregada que se relaciona comigo através de obrigações contratuais que estabelecem limites para o seu comportamento e exigem deveres em troca de uns trocados. encontrei uma agenda telefônica antiga. muito liso. Fui até a cristaleira e servi uma dose de conhaque.

Deitou.Marcelo Rubens Paiva ombro. Livre.baixelivro. sobreviver e esquecer. levantou os braços.. pronta para o sacrifício. Nossos ventres. vamos fazer! De mãos dadas. Trepamos. 65 Grupo Baixe Livro http://www. com força.. como se estivesse num lugar sagrado. que se contraíam toda vez que eu me empurrava sobre ela. Me encaixei por entre suas pernas. Paramos de dançar e nos olhamos. para a mesma cama em que a flagrei. quase que esmagando as barras. Consegui escutar sua respiração. A expressão era uma só: se é para fazer. as barras de ferro. abriu as mãos e agarrou. Deitei sobre ela. subimos a escada e fomos para o quarto dos pais. Tirei a roupa com a mesma calma. Tirou a roupa sem nenhum constrangimento. nossa alienação. apesar de estarem livres e desamarradas. como se estivesse num ritual inevitável. Nossas pernas grudadas.Bala na Agulha .com . Sem que eu tirasse os olhos das suas mãos agarradas às grades. vulnerável. Animais soltos. Quer detalhes? Está bem. mas que não se soltavam. condenada àquilo. um só.

Vestia o avental. feliz. denunciando uma impiedosa ressaca. Bati os olhos na capa do jornal do dia: um retrato falado do criminoso do Hotel Empire. O telefone começou a tocar. Na cozinha.Marcelo Rubens Paiva SÁBADO 12h00 Clareou. Era para ser meu retrato. ou não quiseram. Puxou minha cabeça para encaixá-la no seu peito. Me senti desconfortável. 66 Grupo Baixe Livro http://www. surpreendentemente. Mas. fazendo-o voltar a funcionar. Procurei uma sombra no teto que me mostrasse o próximo passo. me privando desse desconforto. Ela apareceu. já que voltara a ser o que era. uniforme. Pensei se já não era hora de atender o telefone. Nem para sua mão olhei. De repente. sem olhar para trás. Sentei e apoiei a cabeça nas mãos. dei uma batida no pêndulo do relógio. No caminho. mas não encontrei nenhuma. Seus carinhos ficaram intensos. o que era um alívio. colocou as mãos na minha cabeça e começou a afagá-la. a mesa estava posta.baixelivro. Não olhei para seu rosto. Foi o que fiz. Não quis saber se estava sorrindo. Me levantei e fui até a sala. com um cobertor sobre mim. Me servi de uma xícara de café. as testemunhas não conseguiram me descrever.com . não tinha nada a ver comigo. Ela ficou atrás de mim. Levantei e desci a escada enrolado no cobertor. Colocou a garrafa térmica sobre a mesa. sozinho. ou o quê.Bala na Agulha . Acordei na mesma cama.

” Meu pai e Mona. cheguei na sala de um tal chefe de gabinete que me recebeu desprevenido. Atravessando secretárias e mais secretárias. esperando. estilo mediterrâneo (um U visto de cima. Entramos no gabinete do ministro. Antes. em mim. Imaginei ser colega de trabalho daquelas pessoas. Um táxi me deixou no ministério.. estante com livros. Me deixou. Havia. dando até o dinheiro para isso. fui à livraria do aeroporto. Não precisei anunciar meu parentesco com o ministro: me reconheceram. Temos todos que dar o bom exemplo”. É para rir.com são e uma mesa de trabalho com muitos . Era uma sala com vários ambientes num mesmo espaço sem divisórias. no qual estava estampada a manchete da brasileira esquartejada em Manhattan.. Reconheci alguns móveis e quadros do 67 Grupo Baixe Livro http://www. uma mesa de reuniões oval. matar o primeiro. Mas adiei a leitura.. Na saída do prédio. O Montblanc tinha me recomendado pegar um táxi. Pai. Acenei para eles. Está exausto e triste com a morte de uma amiga que o ajudou na campanha. Mona ao telefone: “Telefone de Tóquio. Tinha de me preparar para o reencontro. diz a música. Se desculpou por não ter sido avisado da minha chegada.. Pode?. e perguntou se eu não queria escrever um bilhete. ninguém me esperava. boys e secretárias me aplaudiram. disse que meu pai teve de sair às pressas para receber um prêmio na Federação das Indústrias. cancelou todos os compromissos agendados. Avisou que o pai estava muito cansado e abalado com a morte de uma amiga. onde comprei um exemplar do Daily News. subindo andares. lago Sul. cercada por um jardim). me perdendo pelos corredores de um templo da burocracia estatal. não atendia ninguém. Pediu desculpas e anunciou que apesar de meu pai estar muito ocupado.Marcelo Rubens Paiva BRASÍLIA (qualquer hora) Desci do avião sem pressa. Me deixou numa sala e sumiu. uma televi telefones. O chefe de gabinete lamentou: — Seu pai chegou hoje de Tóquio. iria me receber em minutos. e nada. papéis. Desta vez. Sem graça. foder a segunda. Passou quase uma hora. mãe e filho.Bala na Agulha . O chefe de gabinete voltou. no centro. A casa era térrea. Demorou para o chefe de gabinete voltar. novamente. Eu era alvo da curiosidade de secretárias e boys que me apontavam e cochichavam entre si. sofás e poltronas. uma disposição incomum. fazer parte daquele universo. mas certamente abriria uma exceção e me receberia.baixelivro. Apontou para o jornal aberto sobre a mesa. justificou. uma piscina. Um táxi me levou até a península dos Ministros. Segundo ele: “Seu pai aboliu as mordomias.

Passos firmes e apressados na minha direção. Ficamos parados a uma certa distância. sim. três.com . era o dia mais feliz de sua vida. Me lembrei da calcinha justa. escolhi a segunda. representando a personagem que fala aquilo que se quer ouvir. Na minha memória. O telefone começou a tocar. No entanto. tinha de me acostumar com a idéia. Ana Luiza. era minha. barulhos da casa: ligam uma torneira ao longe.. tirar para dançar. Por educação.Marcelo Rubens Paiva passado. — Que telegrama? — perguntei. sem surpreender ninguém. não é? Ficamos nos olhando. Seguindo a lógica. Ambos olhamos para o aparelho. um carro passa na rua. 68 Grupo Baixe Livro http://www. caminhei para a extremidade da sala. duas. equilibrada. Eu não a conhecia. O que fez você voltar? — Aqui é o meu lugar. que ria quando esperavam dela um riso. Sandra C. segura de si. Sandra C. lavam uma louça. Nosso silêncio. E foi atendê-lo. Tem certeza que não recebeu? — Você sabia onde eu estava? — Seu pai. juntou as mãos agradecendo a Deus: — Flávio. Olhou para mim. acreditei nela. no arquivo. a mãe (o bem). mas sem tomar atitudes que demonstrassem um descontrole emocional. O que importa é que você está aqui. Se referiu ao telegrama. Se emocionar. dando uma distância que proporcionaria privacidade à conversa telefônica. me levou até a sala. era uma mulher que calculava seus gestos. avermelhados: uma chama. que se comportava como se estivesse num palco. muito atenciosa. Mas a surpresa foi tamanha que preferiu fingir que não sabia. invadindo a privacidade da família que. não olhei. esperando. começou a chorar. fazer cócegas. juntou as mãos. Sandra C. tinha mudado. quebrar uma garrafa na cabeça. um intruso.. E veio para um abraço. a atitude pronta a tomar. Me deu um frio na espinha. Assim que me viu. — Enviei um telegrama para Nova York. Me deu o endereço. para me contradizer.... Na dúvida entre sentar e ficar em pé. qualquer coisa que fugisse do normal. Na minha memória. e ninguém da casa o atendia. Mais uma vez. Sandra C. a temporã. jogou a bolsa e os livros no sofá. Surge. há alguns dias. Tocou uma.. muito educada e formal.Bala na Agulha .baixelivro. Não tem importância agora... não iria chorar neste reencontro. Uma empregada uniformizada. — Bem. ela costumava aparecer como um tipo sério. Sabia sim. sem grandes contradições. uma unanimidade. esta. E ela parecia não saber quem eu era. Que época feliz. apareceu com a notícia de que sabia onde você morava. Sabendo que uma pessoa cresce. tomou um susto. Segundo disse. para o aparelho. Pegou meu rosto para examiná-lo melhor: — Flávio. e que ela não tivesse. Me lembrei da pequena tagarela de dez anos. evolui ou cai. Seus cabelos eram longos. Ao me ver. o som intermitente de um relógio que marca. Confessou que tinha rezado muito para eu voltar. Passos. A porta da casa foi aberta. no outro lado da sala. comecei a me sentir uma visita fora de hora. Lembrava a mulher que se tem vontade de embebedar.

Você está diferente — eu disse.. Ela saberia fazêlo: Está com fome? — perguntou. Minha presença talvez a incomodasse. segura de si. Foi durante anos a rainha do lar. — Como tem passado? — perguntou. herança da mãe. continuava a falar no telefone.Bala na Agulha . É especial. Sua irmã estudou dois anos num colégio em Londres. no telefone. a falta de ventos e o céu claro podem ser traduzidos como calmaria. Olhava com firmeza. como se implorasse para que ela desligasse e a salvasse deste problema: o que dizer ao irmão que parece um estranho. Tirou os cabelos do rosto para me examinar melhor e. Oxford. insensível. nenhum carro passou.. que caminhava até nós. Sua roupa era arrojada. Sua postura era elegante. Acertou. mamãe. Fecharam a torneira da cozinha.. Você também. Nem se compara. Não queriam que eu ficasse. fora dos padrões normais. Aparentemente.com ... a família Castilho estava bem. quebrando o gelo. O queixo.. Ana Luiza olhou para ela como se a censurasse por tocar no assunto. correntes nas profundezas arrastam e tumultuam. Estava com medo de que eu significasse a neve do aparente calor familiar. — Vai ficar conosco? — a mãe perguntou. Envelhecemos. No entanto.baixelivro. Mas e o telegrama de uma Sandra C? Num oceano.. Com quantos anos você está? — perguntei. Talvez eu fosse a corrente que arrasta e tumultua. Esperavam minha resposta. Me cumprimentou com um aperto de mãos. Ambos olhamos para ela. Oxford. Na rua. para exibir seus olhos. Esperamos que fosse a primeira a se pronunciar.. Dezoito.. Continuamos de mãos apertadas sem que eu respondesse. Chuta. A Europa é mais.. Não. Eu sou o mal: 69 Grupo Baixe Livro http://www.Marcelo Rubens Paiva Sou eu — fui direto ao assunto. No entanto. anéis delicados e um colar de pérolas a tornavam bem feminina. obrigado. — corrigiu e fez o ar da mais infeliz das criaturas por ter uma família tão ignorante. que países conheci e no que trabalhei. É na escuridão que as feras atacam. Ganhou um concorrente. É o centro do mundo — disse como se fosse uma agente de turismo. — Mas prefiro o bom e velho continente. insinuante.. A filha a interrompeu com o propósito de dinamizar a conversa: — Eu conheço Nova York. erguido. Sorriu e voltou a olhar para a mãe que. elétrica. A mãe repetia: — É ele mesmo. Tive de responder a um inquérito: onde estava. como se eu fosse um estranho. Parecia forte.. talvez. Convidados por ela. Mas a mãe desligou o telefone. Olhou para a mãe. Flávio. sentamos. tal qual uma modelo de moda.

baixelivro. Por pouco não serraram os quatro pés com meu passado. Anos para construir um trono. Não esperei me chamarem.. Estava encarregado de uma missão mais dura e deveria me concentrar nela: conquistá-los. Reservei uma gaveta para o exemplar ainda intacto e que fervia do Daily. e teria de me dedicar de corpo e alma a essa missão. A grande batalha estava reservada para o encontro com o pai. Me levaram para o quarto de hóspedes. que certamente teria vários rounds: antes. já que eu estava sem prática do convívio familiar.Marcelo Rubens Paiva — Não sei.. Certamente se sentia traído pelo filho que quase interrompeu sua promissora carreira política. 70 Grupo Baixe Livro http://www.com . Disposição não faltava. durante e depois do jantar.Bala na Agulha . Adiei sua leitura. Coloquei minhas coisas no armário. ainda não decidi. Tomei um banho etc. Relataram os detalhes de cama e banho e me deixaram a sós. imaginando que eu quisesse descansar. Conquistá-lo era o meu desafio. Fui à luta. Porém minhas armas eram obsoletas.

A palavra ‘bem’. fez a pergunta. Minha mãe me contava o que havia sido feito do meu passado. 71 Grupo Baixe Livro http://www. a ponto de se tornar primeiro-ministro. parentes etc. Buscou no arquivo a atitude a tomar frente ao filho-problema. O pai. Seu rosto estava mais fino. iria explodir em minutos: — De quem é a culpa? Mesa posta. amigos.. Estendeu a mão. Estava mais emocionado do que eu tinha previsto.. Abriram a porta com solenidade. Vestia um terno velho. Apertamos as mãos. e disse: — Você nos fez falta. A palavra ‘pai’ saiu com dificuldade.. com uma ponta de mágoa.. Nos abraçamos. levando embora a comitiva. tenho de admitir. Ganhou. se me beijava. — Cheguei hoje em Brasília. O ministro e o chefe de gabinete trocaram olhares. seguido por alguns assessores. amassado e desbotado (não lembrava a roupa de um primeiro-ministro). A mãe foi até o séquito e fez menção para que saíssem. perdi. — Puxa. Uma comitiva estacionou na frente de casa. — Espero que fique conosco — ele disse. Ficamos de mãos dadas: — Estou muito feliz. Foi. todos a ela. Nova York. mas. A mãe se virou para o chefe de gabinete ordenando que cancelasse todos os compromissos e audiências marcadas.. não sabia se me abraçava. ainda emocionado. Após refletir. pois teríamos um jantar em família.. Faltaram as trombetas para anunciá-lo. Por onde tem andado todo esse tempo? — perguntou como se eu fosse um parente distante. eu sabia. Virou herói. — Que bom. ele fez um sinal para que o subordinado obedecesse à mulher.Bala na Agulha . Finalmente a família reunida. — Vem aqui. se beijava a mulher.baixelivro. Fiz o mesmo.Marcelo Rubens Paiva ANTES. Me dá um abraço — falou.. aquilo que. Nova York. Obedeceram. Foi longe.. Parou assim que me viu e sorriu.com . e estou de volta. para preencher o vazio. Quando chegou? Ele sabia quando eu chegara. exceto o chefe de gabinete que ficou ao lado do grande chefe como um fiel escudeiro. Entrou apressado. E perguntou. pai. Eu. meu filho.

Todos têm algo no passado de que se envergonhar. Provavelmente. O pai tomou a iniciativa comentando pela segunda vez: Espero que você fique conosco.baixelivro. Tenho alguns negócios pendentes nos Estados Unidos. foi quem me localizou. Estava muito bagunçada? Tinha comida. estava feita a pergunta. buscando o adiamento do confronto. Repetiu a pergunta. A empregada estava lá? Me ajudou a cozinhar. nos últimos dias da campanha. O pai não tocava na comida. Fiquei preocupada. Ninguém atendeu. As mulheres pararam de comer. foi generosa comigo ao interrompê-lo: O que ficou fazendo em São Paulo? Não saí de casa.Marcelo Rubens Paiva DURANTE A mãe quebrou o gelo. Vamos. Você sabe o que aconteceu na campanha? — perguntou. filho traficante de pó.Bala na Agulha . 72 Grupo Baixe Livro http://www. pelo menos? Comprei alguns mantimentos. A mãe. é muito novinha. A mãe. Silêncio. Você é? — perguntou ao marido. riscava o prato com a faca. se lembraram das notícias publicadas nos jornais. Ninguém é santo. As buchas comprimiram a carga do primeiro canhão.com . Se pediram ajuda à embaixada. Estranho não ter recebido meu telegrama. que denunciavam o filho do provável ministro. — Descobriram a bobagem que você fez na França e tentaram alimentar um escândalo. associando você ao narcotráfico. Pedi ajuda à embaixada em Washington — disse o pai —. Desabafem. Que tipo de negócios? Pronto. Me tratou muito bem. curtindo os últimos minutos de paz. Te tratou bem? Não sei. De cabeça baixa. esmagava grãos. Nós telefonamos.. e não iria dar um passo adiante sem confirmar suas suspeitas. do consulado em Nova York. Vocês querem saber se é verdade ou não o que denunciaram na campanha eleitoral. e eu não tinha decidido se abria o jogo ou não: O que você fazia em Nova York? Muitas coisas. novamente em minha defesa: — Seu filho não tem culpa se existem políticos que se metem nos problemas íntimos de uma família. Marcos de Sotto. Marcos sabia então que Thomas era Flávio Castilho.. Tinha uma idéia fixa. quando soubemos que você estava nos Estados Unidos.

Eu e meu pai.. O que importa é que Flávio voltou e vamos fazê-lo se sentir em casa.. Quero saber das acusações que fizeram à respeito das suas atividades em Nova York. Seu passado pode ser perdoado. — ele disse. não me olhou. Estou cansado.. Eles não tinham provas — a mãe. mais entediada que antes. Ninguém tinha tocado na comida. mas. por que não pagaríamos os seus? Fim do apetite. minha filha — o pai pediu.Bala na Agulha . Eu não tinha dinheiro para pagar uma universidade americana. Era a oportunidade de jogar duro comigo. Os talheres foram depositados na mesa. Parou para ver Ana Luiza. como se fosse chorar. a sós. Fui até garçom. pegou os talheres e começou a comer. Só soubemos que você tinha saído da cadeia quando voltaram as cartas. Poderia ter nos procurado. Oxford — corrigi. No que você trabalhava? O que aprendeu nesses anos todos? Você estudou? Por favor. Mas não. com sua família — engasgou. — Me desculpe.. Acabei de chegar de viagem e terça-feira embarco para os Estados Unidos. Mas você era jovem. Sua mãe ficou arrasada durante anos. Não vou ter tempo para voltar a discutir. fale a verdade. Ana Luiza. sem impedi-la. Senta. como bom católico. Comia como se estivesse sozinho na mesa. eu preciso ouvir de sua boca. sem preconceitos. se levantou e pediu licença. desde a sua estúpida prisão. E nunca mais deu notícias... Demonstrando o bom político em que tinha se transformado. Isto aqui é um jantar de boas-vindas — a mãe interrompeu. com um olhar entediado. sem rancores. O pai perguntou: — Por que tinha de ficar tanto tempo sem dar notícia? Você nos fez sofrer. pagamos os estudos da sua irmã em Londres.. Abaixou a cabeça. Não é o momento. acompanhamos com o olhar o seu caminho.baixelivro. Vamos ter uma conversa franca. Ora. Fracasso.. — Está sendo um momento difícil para todos. é um homem maduro. Pegou a garrafa de vinho.. desta vez. O brasileiro. tem o dom do perdão. se levantar e sair. e me perguntou: Você quer? Não. serviu uma dose.com . Foi uma surpresa quando vimos seus colegas acusando você de traficar cocaína na escola. . Pode-se perdoar um jovem entusiasmado com o dinheiro fácil e com a ilusão das drogas. Comecei como pintor de paredes. obrigado. Hoje. Foi um pesadelo sua prisão em Paris. Não falou comigo. Eu poderia ter te financiado. Por que não estudou? — insistiu. 73 Grupo Baixe Livro http://www. Você tem o direito da defesa. eu sei. Levantou e saiu.Marcelo Rubens Paiva O pai olhou por instantes para a mulher e voltou a me encarar: — Me desculpe. — Vamos esclarecer nossas dúvidas. adiou o conflito.

não se ouvia os gritos dos feridos. o céu. Grilos. Acabei me levantando.com .Marcelo Rubens Paiva Bebeu um gole e voltou a comer.Bala na Agulha . A noite estava um contraste: não se via colunas de fumaça. jogando-o dentro da piscina. Estava com fome. 74 Grupo Baixe Livro http://www. cigarras e um sapo. estrelado. em cuja barriga enfiei um chute.baixelivro. Fui dar uma volta no jardim.

Talvez você precise de alguém de confiança ao seu lado. Talvez eu queira ajudá-lo.. por que não? — a mãe. no entanto. perguntei a meu pai: — No que consiste o seu trabalho? Me olharam surpresos. Fui um criminoso cuja distância piorou a reputação e que estava. vendedor de hot dogs. mas preferi assumir ao menos uma culpa. Claro. dar esperança. mal me conheciam.baixelivro. Ana Luiza.. era como se um réu.. como se eu tivesse desmascarado seu inimigo. Houve um alívio. para compor um personagem rico e envolvente: o filho-problema. 75 Grupo Baixe Livro http://www. não se dando por vencido: — Vai me dizer que nunca se envolveu com drogas? Poderia clamar inocência. — Me envolvi. motorista de limusine. foi o primeiro a falar: — Além de pintar paredes e ser garçom. perdendo a cada minuto sua boa educação. O pai insistiu. novamente. o irmão que a fez passar tanta vergonha não era traficante. Neste ritmo.. Insisti: Quais são seus projetos? Estou fora há tanto tempo que nem conheço as prioridades do país. fiquei longe das drogas. o que mais você fez? Fui enumerando as muitas profissões que brasileiros clandestinos costumam exercer em Nova York: engraxate. seu pesadelo. — Pelo menos aprendeu inglês? — Ana Luiza. Ouvi o coaxar de um sapo. Não sabia se eu falava a sério ou não. devolver a alegria. passasse a inquirir o juiz. Preferi mentir: — Claro que não. pareceu decepcionada. irônica. Temi que estivesse conclamando outros para invadirem a casa por vingança.Marcelo Rubens Paiva DEPOIS Com a família reunida na sala. era questão de dias conquistá-los. Decidi inverter os papéis. Na verdade. o pai.com . — Aqueles porcos! — a mãe socou a mesa. sim. Movido por uma grande curiosidade. Não é o tipo de trabalho com o que você está acostumado — a irmã debochou.Bala na Agulha . agora. Mas em Nova York. Temos muitos projetos. — Eu sabia que era mentira. Posso pintar a parede do ministério. alegando ser vítima de um complô. hambúrgueres etc. Me olharam com total desprezo. Por que seu interesse no que eu faço? — devolveu. — Não tenho certeza disso — respondi. e foi um erro. dar credibilidade. ou servir cafezinhos. falando em colaborar com o pai. cuja pena já paguei naquela prisão de Paris. no meio do julgamento. Vamos unir as pessoas. Belo discurso. — Você traficou em Nova York? — o pai perguntou. Não entenderam minha ironia.

baixelivro... ela fazia um sumário do seu currículo para que eu participasse da conversa e para que eu fosse conhecendo. ler o Daily. apaguei as luzes e deitei na cama para examinar as sombras no teto. Estou feliz que tenha voltado. Fingi que estava dormindo.. pedi desculpas pelo cansaço e me retirei.. A mãe tinha sua didática.Bala na Agulha .. entrou no quarto. Fui ler o Daily. descobrir onde se esconde. Eu e seu pai estamos muito felizes. Fiquem à vontade. Fechei a porta e. Perdi o sono e acendi a luz. Ele atualmente vive no stress da carreira pública. seus novos amigos. As mulheres retomaram o formalismo da ocasião. era a oportunidade de acompanhar as pegadas do inimigo. a silhueta grande do meu pai. como não estava cansado. mas falando apenas para preencher o vazio. Deve nos ajudar — se levantou e passou a mão na minha cabeça: — Nós temos muito o que conversar. sem perguntarem o que queriam perguntar. me colocou a coberta. No mais. Mas tinha seu charme. Mas era uma oportunidade de me salvar de qualquer acusação. Tudo bem. Foram tantas pessoas que me confundi. aos poucos. Está. Vim ver se está tudo bem. Ela estava com uns 50 anos. Enfrentaria preconceitos mil. dos quais eu estava totalmente por fora. Sandra C. Já havia dito isso. mas bateram na porta. Por que não? Se uma coisa aprendi no estigmatizado mundo do tráfico.com . Eram nobres. Parecia atrapalhada. ex-presidiário envolvido com drogas (a palavra mágica). e saiu fechando a porta com o maior cuidado.. me deu um beijo na testa. na porta. e decifrar. Examinavam meus gestos procurando saber em que animal eu me transformara depois de ter ficado dois anos na prisão. Depois. Depois de um tempo. na sua superfície. Preciso dar uns telefonemas — e saiu.. e um plebeu atravessava o caminho. de ser intocável e de conquistar imunidades. se aproximou. veio cumprir seu papel de mãe. era difícil eu identificar sua expressão. Devido a escuridão. De repente eu abro os olhos e vejo. Acabei me levantando. Quando se referia a pessoa que eu não conhecia. sorriu e disse: — Claro que você pode nos ajudar. foi como marcar e desmarcar compromissos. 76 Grupo Baixe Livro http://www.Marcelo Rubens Paiva oferecer chances e punir quem não cumpre as leis. Para quê? Ora. um futuro: sentado numa mesa indicando Chefe de Gabinete. nem disposto a enfrentar a segunda batalha. para quê. — me olhou no fundo dos olhos como se me enviasse um recado. A plástica que provavelmente fizera deu uma forma estranha ao rosto. eu também não tinha intimidade com as falas de um filho. Passaram a falar de assuntos do dia-a-dia. e como organizar uma agenda produtiva. aprender sua rotina. Ele me olhava. É um homem visado.

77 Grupo Baixe Livro http://www. olhou para as mãos. pedindo sigilo. Sua mãe se transformou numa mulher de político. reuniões. Jantares. Através dele. O pior é arranjar assunto com mulheres de outros políticos.baixelivro. Respirou fundo. — Uma vez. caso eu não estivesse cansado. eu procurasse conhecer o filho que eu não conhecia. essas coisas. também. visitei várias vezes a Penitenciária do Estado. Segundo disse. Mas eu queria detalhes..Bala na Agulha . Fiquei íntima de alguns presos. como era sua rotina. sugerindo que eu acompanhasse Ana Luiza a uma festa badalada. em São Paulo. de milicos. precisava dos detalhes. Insisti: Você está bem? Para ser sincera. Inventou a desculpa que sofria de asma e que não tinha dinheiro para comprar lá dentro. Deixa pra lá — mexeu no cabelo e mudou de posição para ficar mais confortável. Ouvia suas confissões. é dinheiro. em cada um. Me preocupava com sua saúde e sua cabeça — olhou para a porta para se certificar de que estava fechada. Ninguém sabe disso. encerrando o “falatório” a meu respeito. E você? Me olhou como se eu tivesse me referido a uma personagem desconhecida. Cheguei a me oferecer para o trabalho de voluntária. Aprendi a apreciar a liberdade. de promotores. lá dentro. Depois que descobrimos o que você havia feito. Insisti: — Vocês estão bem? Não me respondeu. Você tem um cigarro? Não... comida. bandido — concluí por ela. e cigarro. E torcia para que uma mãe. o seu rosto. raiva de não conhecer meu próprio filho. um dos presos me pediu para eu levar maconha na próxima visita. Me senti usada.. Era.Marcelo Rubens Paiva Uma minoria quer destruí-lo a todo custo.. Buscava referências. sua prisão mexeu comigo. de juízes. Mas agora me deu vontade. Sabe. — Basta mostrar esta carinha saudável para todos verem que você não é nenhum. tive raiva de mim. Ajudava-os porque não podia ajudar você. Eu não era revistada e ele sabia disso. já que muitas pessoas do governo estariam presentes.com . alguns presos que não tinham famílias. seus desabafos. — . naquela noite. fizesse o mesmo pelo meu filho. — Eu não fumo. Pediu desculpas e evitou meus olhos: — Vou precisar de tempo para encontrar as palavras certas. Eu mesma levava os cigarros. Via. — Passei a visitar. na França. lia biografias de ex-presidiários. “uma chance de agradar meu pai”. Fiquei decepcionada com ele. Mentira. café. Não fui aceita. Talvez não quisesse entrar em detalhes. Talvez. era uma “ótima oportunidade para reingressar na sociedade” e me “mostrar recuperado”. açúcar. aos domingos. Mudou de assunto. Parou de falar. nem sei responder. por exemplo — abaixou o tom de voz e sentou na cama. Está cansado. Onde já se viu? Eu? Como? Aquilo não saiu da minha cabeça. Que liberdade? A de transgredir. No início. Passa mais tempo fora de casa do que conosco.. Você mexe comigo — procurou meus olhos. bolos... Levava cigarros. — Tenho um primo que é promotor... Eu disse não. Tentava adivinhar o que você fazia. para as unhas e desabafou: — Tive contato com um mundo que eu não conhecia. Aprendi uma lição. como se estivesse ouvindo você.

usando a gíria certa. Vai ser bom conhecer novas pessoas — ela disse. Minha mãe se levantou e avisou que eu iria acompanhá-la na festa. andando de carro pela cidade imaginando onde comprar a tal maconha. como o vidro é. é uma glória encontrar pessoas assim.com . Não tinha mais o que provar. Me deu o endereço de onde eu poderia comprar. Fiquei comovido: é uma mulher que extrai de experiências negativas grandes pinturas. Discutiram. Andava de carro pela cidade pensando nos presos. só porque andei de carro imaginando procurar maconha. mudei. já que a irmã acabou cedendo. Era um açougue. dizendo. durante a semana. Ana Luiza parou. Não era o meu mundo. com o motor ligado.. Eu não estou bem disposta.. com uns óculos escuros. eu e minha mãe esperávamos Ana Luiza. refletiu. Estávamos quietos. e com um fino paletó do meu pai por cima. não sei. olhava para trás com raiva dos guardas. Me senti parte de uma quadrilha. Até me ensinou a ‘mocozar’ — disse. no entanto frágil. para ajudá-lo. sei que sofreu. sentados bem juntos. Minha mãe chamou-a para o canto. Fui criada num meio em que acha que essas coisas não existem. Me orientou. Eu não fazia nada na época. Outros deram cobertura. curtindo a troca de segredos. tendo orgulho de mim. Todos nós sofremos.Marcelo Rubens Paiva Surpreendentemente. Imaginava você vendo aquilo. Errando é que se entende e se perdoa os erros dos outros. Nunca mais voltei para o presídio. Alguma chantagem foi feita.Bala na Agulha . Já me bastava ter ido àquele endereço.. Eu tremia. Eu vivia numa redoma de vidro. Mas eu cresci. Percebeu imediatamente que eu estava disposta a ajudá-lo.baixelivro. educadamente: Não precisa. — Cheguei a ir no tal endereço. No outro domingo. eu insisto — a mãe ficou na sua frente. Moralmente eu não iria comprar maconha. Você estilhaçou a redoma... e com uma faca de cozinha na bolsa.. Fiquei dentro do carro. o que a levou a perguntar. depois de me examinar de cima a baixo: Você vai assim? 78 Grupo Baixe Livro http://www. virou-se para mim e: — Vai você. e você é o responsável por isso. Mas. a cumplicidade e a admiração mútua. Na sala. Levantou e foi até a janela. Entrei no pátio e fui até ele. Ela nos olhou como se tivéssemos declarado guerra a Vênus. guia turística. Olhou para a vista e continuou: — Amadureci muito com sua prisão. me vi. Ana Luiza apareceu. Desculpe. Imaginava o que você faria. Fomos para um canto. olhando pelo retrovisor para ver se não estavam me seguindo.. Liguei o carro e fui embora. A menina virou as costas. Fomos pro carro. me preparando para o próximo domingo. protegida. Mas queria comprar. para transgredir as leis. olhando a movimentação. Eu estava com a roupa comprada na loja vagabunda em frente ao La Guardia. eu entrei no presídio me sentindo parte da bandidagem. Me senti bem por repartir um segredo com um preso. Não. Eu estava querendo sentir o que você sentia. se despediu e passou reto. Te dou o endereço. Eu estava ridícula.. quites.

com os braços para o 79 Grupo Baixe Livro http://www. Ana Luiza. pessoal das embaixadas e brasileiros das tribos mais variadas. ao manobrar. adorava a si mesma. Eu obedecia.’ Ela passava a mão no corpo. existissem apenas para vê-la dançar. virava. não sabiam quem eu era. assim de cara. Com os braços para o alto. Mas demoramos uma meia-hora. Sem dizer uma palavra. A vista era linda. Alguns fotógrafos no hall miravam suas câmeras para todos que entravam. como se a música tivesse sido composta para ela. Esperei alguns minutos e entrei na festa.Marcelo Rubens Paiva Há muito não dirigia e. mais que isso. tudo era festa. ao redor. aproveitando o momento de indecisão pois. negros falando em francês. atravessei o salão e ganhei o anonimato. Olhei. correndo o risco de me reconhecerem. Fiquei curioso para conhecer a cidade. E eu mudava. Pude relaxar. me afastei. Era o ambiente para dançar ou olhar os que dançavam. estava me perdendo entre embreagem. já que ninguém me reconheceu. suficiente para as paredes vibrarem. Finalmente partimos pelas ruas escuras do lago Sul. Ela veio. Não dançava. Vai entrando que eu esqueci a bolsa no carro. Fiquei no canto mais escuro. a cidade caberia num abraço. encostando num carro.baixelivro. — Tem certeza de que quer ir? — Já dou um jeito nesse troço. Uma mansão com vista para o Plano Piloto. atento à movimentação dos fotógrafos. Ela aproveitou o momento para entrar sozinha. como se o mundo lhe pertencesse e nada.com . Antes que disparassem. como se todos. japoneses à caráter. Dava vontade de dobrá-la em muitas partes para colocá-la no bolso e guardá-la para sempre. jogava os cabelos. se comparasse a ela. com Ana Luiza dando as indicações: — Muda a marcha. acelerador e câmbio. na entrada. A festa não era longe. Paramos numa vaga distante e. escura e esfumaçada. gringos. de fato. excêntrica. Eu não deveria ser fotografado enquanto retratos falados rodavam o mundo. ela empacou. E. — O que foi? — Me empresta a chave. ‘A poesia. Havia de tudo na festa: árabes com turbantes. Não entrei. tê-la à mão e invertê-la. num pulo. ou se reconheceu não estava interessado em águas passadas. éramos privilegiados por podermos assisti-la. Era óbvio: não queria entrar comigo. ninguém. Não era exatamente a festa bem comportada que eu esperava: a maioria.Bala na Agulha . Passei a observar as pessoas que dançavam numa sala sem móveis. Não seria difícil voltar para casa a pé. morar nela. as pessoas paravam para observar aquela garota. O carro engasgando e minha co-pilota lembrando: — Muda a marcha. dançava sozinha. Olhei a cidade. sua existência era nossa bênção. Comigo não foi diferente. reconhecendo nela a irmã que contracenou com o escândalo. O volume da música era alto. No meio da pista. Muitos carros estacionados. me misturando às pessoas na beira da piscina. Voltou para o carro. Se eu abrisse os braços.

percebi que voltara a dançar. retrato da perfeição. com o quadril se mexendo. de uma beleza incomum. sentei no banco do motorista e dei a partida. Tive de empurrar algumas pessoas e correr. Ao descer o morro. me desafiar. tirou o cabelo do rosto e: — Por que voltou? Estávamos indo muito bem sem você. Passou a se exibir para mim. Ana Luiza desceu e se postou na minha frente: Você ficou louco?! Cadê a câmera? Joguei fora. sem me encostar. Ele deu um grito e veio atrás. fui caminhando pela calçada de uma larga avenida quando um carro passou por mim. Não deu outra. Finalmente. cultuada. Fotógrafos vieram atrás. chamaram de ‘gostosa’. Meu Deus! O que eu faço com você?! Olhou para o céu. se entregar de corpo e alma à música.Bala na Agulha . Entrei por um terreno baldio e despistei-os. De longe. Arranquei a câmera e saí. então. Pára de me olhar! Você me incomoda. Veio dançando em minha direção. Ela parece forte. — Você não é mais meu irmão. De trás dela.baixelivro. não sabe quem você é. Segurei o cara e pedi o filme. pensei. com os braços ao meu redor. Deixa a gente em paz. A pequena tagarela era. Ela ficou por instantes sem saber o que fazer. Olhou para mim e abriu bem os braços desvendando seu corpo para que eu o cultuasse. olhou ao redor. Virei as costas e me afastei. Por quê?! Um dia eu te explico. tal qual num coito. Então vou ter que conquistá-la. Continuei onde estava. parou de dançar e veio até mim: — Não quero que fique me olhando. Abriu um clarão e ele começou a gritar para que me segurassem. Eu te perdi. Ele me xingou e me apontou novamente a máquina. Não estavam. um objeto de desejo. Corri para fora da casa. 80 Grupo Baixe Livro http://www. Fiquei um bom tempo escondido. Passou uma camionete com bêbados na carroceria. Vá embora. Não. — Quer que eu te leve pra casa? — perguntei. Mexeram com ela. Flashes pipocaram nas minhas costas. Sua mãe me mandou um telegrama pedindo para voltar. Algumas pessoas notaram que era eu o alvo de sua dança. saiu um sujeito com uma câmera apontada e estourou um flash no meu rosto. Entrei no carro. mas é ingênua. me seduzir. Você sabe disso. empurrando quem estivesse na frente. assoviaram. joguei a câmera longe e peguei o rumo de casa. Vá embora. olhou para mim. há anos.Marcelo Rubens Paiva alto. Eu sou seu irmão. De repente. É melhor para ela ter a fantasia de que você foi vítima de um mal entendido.com . parou e deu ré. Chegou perto e ficou me provocando. deixando o mundo só para ela.

que crescia e decrescia dependendo da dire Peguei uma avenida larga. — Estou aqui por nada. Obedeci. Seja gentil e me mostre a cidade. Puxei assunto: Que céu tem esta cidade. Amanhã.Bala na Agulha . ao vivo e em cores. ao invés de me ajudar. pare o carro! — Vamos. o que poderia significar bares abertos. Aqui! Desobedeci. É só seguir em frente. Só pensa em você. — “O tédio é o pássaro de sonho que choca os ovos da experiência” — recitou.baixelivro. Não te falei pra virar a direita?! Estou com fome. havia uma certa aura de poder naqueles prédios. Ela entrou e bateu a porta. E as acusações contra você. Eu não tenho nada a fazer. É cedo ainda. No começo. Partimos. Eram menores do que imaginava. Pare o carro! Eu quero sair daqui. Notei que havia uma lógica numérica entre as ruas. já que a maioria dos prédios estava do outro lado. Foi num deles que paramos. Ao fundo. Não percebe que ao voltar colocou uma cruz na família? Aqui. Havia uma ponte que atravessava o lago. fui até o balcão e pedi um cachorro-quente com todos os molhos e recheios que tinha direito. pensei em ficar e ajudar no que fosse possível. que tentamos desmentir. com um ginásio e com um estádio de futebol. por favor. E eu com isso? Vamos dar uma volta pela cidade. — Eu não sou guia turística. ficou calada. cruzamos com a catedral.com . eu te levo. Olhei para ela através do pára-brisa. o inconfundível Congresso Nacional iluminado. Alguns trailers de cachorro-quente estavam abertos. Mas depois de um tempo. Voltando pelo sentido contrário. todos vão saber da volta triunfal do bad boy. Eu não sei o caminho. Esta cidade tem uma virtude: o tédio — ela disse e olhou para o céu. Não imaginou o problema que isso pode nos causar? Não. Contornei o Palácio do Planalto emocionado em ver. passamos por vários prédios. 81 Grupo Baixe Livro http://www. Achei por bem pegar a ponte. Havia uma torre de televisão muito alta no centro de uma praça. Pare o carro. saí do carro. Ao lado. Ela.Marcelo Rubens Paiva — Você não é meu irmão? Não vai me defender? — Vamos. Ledo engano. Pediu uma coca.. Na próxima vire a direita. aquilo que só conhecia por fotos. — Esses fotógrafos vão sair correndo para levar a grande notícia. vão ganhar força. Ignorei. cada qual um ministério. vire a direita. Você quer alguma coisa? Me leva pra casa.. mas nem por isso menos imponentes. — Você está frito — ela continuou o sermão. As ruas eram todas iguais e não demorei para perceber que estávamos dando voltas. Ninguém precisa de mim. Continuava irritada. abriu a porta e veio até o balcão.

Bala na Agulha - Marcelo Rubens Paiva Penso em ajudar a reconstruir a família. Já somos um entulho. Não se distingue tijolo de tijolo. Não tem o que reconstruir. Você destruiu ela com talento e perfeição. Um brinde à desintegração. Pegou a coca e voltou para o carro. Fui até ela. Eu já tive seu discurso. Por isso, procurei alertá-la: — Dê um sentido a sua vinda para Brasília. — Dê você um sentido a sua vida, bem longe daqui. Continue sua jornada. Já cheguei no fim. Você se ilude. Aqui não é o seu lugar. — Não sei por que você quer que eu vá embora. Você mesmo disse que somos um entulho. Por que tenta preservá-los de mim? Por que quer me ver longe? — Porque você estraga o tédio e me faz pensar.

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Bala na Agulha - Marcelo Rubens Paiva DOMINGO

Fui acordado pelo estrondo da porta se abrindo. A luz da manhã iluminou minha irmã com um jornal na mão. Chacoalhava o jornal e ria: — Nem chegou e já é manchete... Eu tinha sido descoberto. A imprensa, mais rápida que a polícia, desvendara o mistério que envolvia o assassinato do Hotel Empire. Levantei e fui me vestindo, pensando em mil coisas ao mesmo tempo. Ela, irônica: — É assim que você pretende reconstruir a família? Que filho que você é... O que eu faço com você? Eu ainda estava com a chave do carro. Poderia sumir por Brasília; isso se a casa não estivesse cercada pela polícia. Jogou o jornal na cama e acendeu a luz. Na capa, vi uma foto minha, de costas, correndo para fora da festa. Me acusavam de ter roubado uma câmera de um repórter fotográfico. Nenhuma referência ao crime de Manhattan. Falavam do filho-problema do primeiro-ministro que, ao voltar para o Brasil, arrumou uma briga com a imprensa. Sorri aliviado. — Do que está rindo? Parei de sorrir e voltei para a cama. Ela me encarou com total desprezo: — Você agita esta casa... Me desculpe se fui grossa ontem à noite. Eu estava nervosa, só isso. Agora que estamos calmos... Não é melhor você ir embora e tudo voltar a ser como antes? — Não. Eu vou ficar. Vendo a papelada da Embaixada Brasileira de Lima, ofereceu: Vou mexer uns pauzinhos e tirar uma segunda via do seu passaporte. Quem sabe não muda de idéia? Deixe esses papéis aí, apague a luz e feche a porta, por favor. Obedeceu, batendo a porta com força. Tirei a roupa e voltei a dormir. Acordei bem mais tarde. Saí do quarto e a claridade me ofuscou. O ar estava seco, e por mais que eu respirasse, não espantava o bode de um acordar tardio. A família, pelo jeito, já havia almoçado. A casa estava vazia e silenciosa. Não totalmente silenciosa. Havia um burburinho na rua. Encontrei a empregada, na janela, observando o que acontecia lá fora. Fui até a porta da casa e abri. Muitas pessoas, com faixas, cartazes e máquinas fotográficas, fizeram silêncio assim que me viram. Em seguida, começaram a me apontar, aplaudir e tirar fotos. Cantaram, em coro, o hino nacional quando fechei a porta. Aquilo já não era mais a casa de um jurista e político, mas de um líder religioso. Fiz um lanche rápido e fui para a piscina, para o lado oposto de onde estavam os fiéis, para mais longe possível. Tirei a roupa e mergulhei para escutar o silêncio. Aproveitei para nadar e fazer um balanço. O azar tinha me escolhido como melhor amigo. O cerco se fechava. Parei e recuperei o fôlego encostado na borda. Vi, através da vidraça, a irmã conversando com um amigo na sala. Senti ciúmes: ela não sorria para mim do mesmo jeito.

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Bala na Agulha - Marcelo Rubens Paiva Voltei a nadar. Cruzei a piscina várias vezes. Parei de contar quando ultrapassei a marca dos mil metros. Não buscaria a morte nadando até estourar o pulmão. Não bateria a cabeça na borda até sangrá-la; não flutuaria numa mancha de sangue, não encontrariam meu corpo, e com ele, a paz. Ficar forte e ágil. Nadei, nadei, nadei. O máximo que consegui foram câimbras nas pernas e dois ombros doloridos. Exausto, desisti. Deitei no deck e esperei a respiração voltar ao normal. Aos poucos, escutei um tintinar vindo do vestiário, no fundo da casa. Era um ruído familiar: o som de uma lâmina batendo incessantemente. Me levantei e o som parou. Vinha de um dos vestíbulos. Não. Normalmente eu não os flagraria. Mas era a chance de inverter os papéis. Cheiraram carreiras longas. Dei um tempo esperando fazer efeito. Caminhei até a porta. Estavam quietos, quietos demais. Abri num único impulso. Vi dois corpos grudados. Ana Luiza, nua, ajoelhada no chão, abraçada às pernas do amigo. Ele, em pé, com a calça arriada até o joelho. O rosto dela estava apertado no ventre dele; na sua boca, o pau do sujeito. Me olharam assustados. Perderam a respiração. Ele deu um pulo pra trás e levantou a calça. Ela sentou, encostou na parede, e se cobriu com o que pôde. Um espelho, no canto, riscado por várias carreiras de cocaína. — Tudo bem, é meu irmão. — Ah, é esse... — olharam um para o outro e riram. Nos olhos de Ana Luiza, desprezo. Começou fervilhando do estômago. Cruzou o coração e chegou nos braços, ódio e ciúmes. Uma irmã, com seus cachos de ouro, pequena tagarela, agora, encolhida, enxugando a boca com a mão. Voei em cima dele. Se defendeu com os braços e as pernas. Era bom de briga. Ganhou confiança, viu que dava, e trocou a defesa pelo ataque. Passei a apanhar. Seus golpes vinham de alguma luta marcial, e ele se mostrava um aluno aplicado e bem treinado. Minha escola, a rua, cujo único ensinamento é não perder; e para isso, apelar se preciso. Segurei firme uma barra de ferro e enfiei na sua cabeça. Junto com ele, saí de órbita. Quando voltei, vi sangue por todo o lado. Os gritos da menina me despertaram. Ele, desmaiado no chão. Eu, em pé, com a barra na mão, ainda batendo na sua cabeça. Eu estava matando o sujeito. Uma única batida e eu teria outro assassinato para carregar. Atordoado, joguei a barra no chão, respirei fundo e sentei, exausto, ao lado do espelho com cocaína. A irmã gritava comigo, me xingava, e fui ficando deprimido, cada segundo mais, próximo do zero, do fim do mundo. Ela não parava de xingar. Consolava o sujeito desacordado. Passei o dedo numa carreira de pó. Ela estava sendo passada pra trás: era o pó mais misturado que eu já tinha experimentado. Não sei quem ele é. Não me ajuda em nada saber. Não quero nada, me deixa, me deixa... Levantei e deixei-os. Passei pela sala, peguei um terço pendurado no corredor, fui para o quarto, apaguei a luz e sentei no canto. E assim a tarde morreu. Minha mãe abriu a porta. Sentou ao meu lado e, desta vez, não puxou assunto. Passei o braço ao redor do seu ombro, e ela começou a chorar. Chorou como eu nunca tinha visto. Chorou o que não chorara em 30 84
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Ele. a não ser me fazer esperar. O mundo estava caindo e não tínhamos forças para reerguê-lo. 20 minutos. Agora que você está aqui. — Na Serra de Carajás. A resposta sinalizou minha falta de resposta. Você sempre esteve presente nas minhas insônias.. Parou porque não tinha forças. A casa.. Começou de uma maneira um tanto irracional. Mas da piscina. Me condene. Chorou até se esvaziar. Ele conversava no telefone. Tenho insônias terríveis. senão. estou curioso. perguntou com uma expressão séria no rosto: — O que está acontecendo? Não respondi. Finalmente. Como? Posso trabalhar com você. Me olhava e continuava a falar.. Uma delas é te ajudar. Você quer ajudar. mudou de assunto: Eu quero te escutar. Seus seguidores estavam lá fora. prontos para se aliarem a ele e partirem para a batalha. proteção. A sétima trombeta tocou. Ele levantou. ela disse: — De agora em diante. conversei com uma idealização. Você deu uma surra nele? Não respondi. vales e rios. desculpe a franqueza. há uma casa no topo da montanha que serve para hospedar as autoridades. a briga com o fotógrafo.. Dê logo minha pena. quer dizer. na mesma. já que eu não consigo falar nada.. Me 85 Grupo Baixe Livro http://www. o namorado da sua irmã sai daqui sangrando. Qual? Fale. queria me aproximar de Deus e pedir força. choraria três dias seguidos. Por que você quase matou o garoto? Não foi minha intenção. Foi até a janela e abriu a cortina para espiar.Bala na Agulha . parado. Acabei acompanhando-a. virar um trapo. no coração da Amazônia. Queria me ver ali. Rezamos a todos os santos. Agora. Nunca mais. Está bem. é cercada por um zoológico onde os animais andam soltos. coragem. quer ajudar. O que você quer que eu diga? Primeiro. não me vem nada. Meu pai mandou me chamar. Está tão difícil. É uma vista de muitos quilômetros. eu não me desgrudo de você. Ao desligar. na minha frente. se vê a floresta. Fui encontrá-lo na biblioteca. Você nem tem idéia. Eu queria ser seu amigo. buscava a tão esquecida superioridade do pai frente ao filho. aceito o papel. E eu a abracei mais forte. como bom jurista. Encostou a cabeça no meu ombro e começou a rezar baixinho. Sua conversa não tinha o menor sentido.Marcelo Rubens Paiva anos. Buscava inspiração. mesmo longe. Fiquei nessa casa antes de tomar posse.com . Agora. mesmo ausente. depois de anos.. Você tem uma intenção. por favor. encostada no morro. Fiquei na sua frente. Você sabe quem é o pai do garoto que você surrou? Até quando vou ter que pagar pelas minhas besteiras? Até quando vai ficar me punindo? Não percebe que você não está facilitando? Não me enrole. Passaram uns bons 20 minutos: eu. como um soldado frente ao general. Você me força ser o tal pai durão. aguardando em pé.baixelivro. Não havia mais nada a fazer. — Sempre imaginei esta conversa: você. mas já conversamos tanto durante muitas madrugadas.

Há uma revolução acontecendo lá fora. O povo me escolheu porque confia em mim. Eu estou sozinho. É melhor para todos que você não pise mais aqui.Marcelo Rubens Paiva vejo nesse lugar. Aliás. sabemos que não vai. lutando contra grandes moinhos. Deixou a janela e me olhou de frente: — Não posso levá-lo junto comigo. É. Eu não o queria de volta. custe o que custar. Mas não vai dar certo. olhei para o relógio de parede que marcava: 86 Grupo Baixe Livro http://www. Você quer mesmo ajudar? Então vá embora. Você é meu ponto fraco. onde quer que seja. Estava sofrendo muito. Pode estar caindo uma tempestade de raios. fui eleito por tê-los. não agora. Volte para o seu lugar.com . Por alguma razão.. mas eu vou atravessar a mata e me juntar aos meus ideais. mas pelo povo.. Atrás. Na frente. eu faço parte dessa espécie em extinção que tem ideais. e não ter em quem acreditar. as feras.baixelivro. Sua mãe insistiu. Pensei em salvar o casamento e aceitei a idéia da sua volta.. e eu sou o líder. meus ideais. Que fique entre nós. Não é por mim. Longe. Vê se me entende. a floresta impenetrável. que pode perder seu líder.Bala na Agulha . Você pode estragar tudo..

Minha cabeça pendia de cansaço.Bala na Agulha .baixelivro.Marcelo Rubens Paiva 18hl0 E quanto mais ele falava. mais eu me curvava. e os números avançavam: 87 Grupo Baixe Livro http://www.com .

Olhe para mim enquanto estou falando. sua irmã levará você para tirar fotos para o passaporte. Eu não conseguia.. Mas não pense que eu não ligo a mínima.baixelivro. se quiser.com .Bala na Agulha . Que sufoco.. Eu estava ficando sem ar. Darei todas as condições para que consiga estudar numa universidade lá fora. Pode comprar roupas. — Amanhã. 88 Grupo Baixe Livro http://www. Pare de usar as minhas. minha cabeça pesava demais. — Daqui a dois dias embarco para os Estados Unidos. E o relógio voava.Marcelo Rubens Paiva 18h11 18h12 Por vezes eu prestava atenção. Não terei tempo para cuidar do seu caso.

com .baixelivro. 89 Grupo Baixe Livro http://www.Bala na Agulha .Marcelo Rubens Paiva 18h15 18h16 — Quem é você? — perguntou.

Preserve-a.baixelivro.Marcelo Rubens Paiva 18h17 Não é o filho que criei. 90 Grupo Baixe Livro http://www. eu.Bala na Agulha . deixe ela fora disso. é? Eu sou seu ponto fraco. Eu concluí para ele: — Você manda me matar. Não chegue perto dela. Se algum mal acontecer a ela. Quanto à sua irmã... Não disse o que queria dizer. Nem pense em envolvê-la com drogas.com .

com .Bala na Agulha . o mal. Encarei-o e disse: — Você deveria me agradecer. 91 Grupo Baixe Livro http://www. não é? — perguntou. — É triste ver no que você se transformou. Minha vida dá sentido à sua. eu. Eu estava sem forças.baixelivro.. Você é o bem.Marcelo Rubens Paiva 18h18 — Você não liga a mínima. Eu sou sua salvação..

Ana Luiza. sorriu para mim: — Foi até bom.. O que é. não é mesmo? Quem sabe.Marcelo Rubens Paiva SEGUNDA-FEIRA 10h40 No carro. eu conheço bem. numa outra encarnação.Bala na Agulha . Eu sei me defender.. você tem tesão por mim? Só pode ser.. Deu uma risada nervosa: — Ciúmes.com .baixelivro. — Você quebrou a cabeça do filho do presidente do Senado. indo para o shopping perto de casa. Já estava cheia daquele cara e não sabia como dispensá-lo. Depois daquela surra. pela primeira vez. Nossos olhos se cruzaram e. dirigindo. Não precisa se sentir no dever de me defender. isso existe ainda. Esse jeito de me olhar. E riu: — É comum os índios transarem com irmãos. ciúmes? — É. puxou assunto: O que ele te falou? Nada.. Mas nós não somos índios. ciúmes. quero ver ele me procurar novamente. 92 Grupo Baixe Livro http://www. O que deu em você...

abriu a porta e correu. Aproveitei o momento para me enfiar para dentro do carro. confusas pelo fato de o filho do grande líder da nação estar envolvido na morte daquela mulher.com . Ela deu a volta sem que eu percebesse.Marcelo Rubens Paiva 11h05 Primeiro: tirar fotos para o passaporte numa máquina automática. deixei ela escolher as roupas. Assustada. me seguindo. que me olhava com grande interesse. eu me sentia responsável por ela. Frente a um espelho. Quando me viu indo em sua direção. contornando o lago Sul. começou a gritar. tirei a chave e fui atrás. Ficamos frente a frente. ela recuava. Seus olhos me fuzilavam. Cada passo que eu avançava. examinando meus óculos. já sabia filho de quem eu era. Por algum motivo. Provavelmente. já que eu estava sem cabeça para detalhes. Ana Luiza jogou os pacotes sobre o capô e abriu a porta. pegou a chave da minha mão e correu para o bosque. não sairiam mais do meu rosto. ela perguntou: Roubou alguma coisa? Você não quer me arrumar uma arma? Uma o quê?! Pergunte para algum amiguinho se não quer me vender uma automática. Ele estava no Brasil e. Era uma grande testemunha. A única coisa que fiz questão de escolher foram os óculos escuros que.Bala na Agulha . vi a imagem refletida de um homem. agarrá-la. era porque esperava um momento mais oportuno. Dei a partida e cruzei o estacionamento. Vestia uma calça F. Seu braço estava enfaixado numa tipóia. Ela correu até o meio da praça e se apoiou no monumento de concreto. Pare o carro! Vamos. Saí da loja rápido. num movimento rápido. E se não tinha agido até então. Pare o carro! Pago até 500 dólares. Depois. precisava de sua ajuda. minutos depois do crime. Me escondi no estacionamento. Acabou se desvencilhando. metros adiante. a partir daquela data. se escondeu por entre o monumento. 93 Grupo Baixe Livro http://www. Me aproximei. Tive de segui-la e consegui. O que há com você?! Vamos. veio por trás e. como de costume. Obedeceu sem fazer perguntas. Aproveitou que eu tive de parar num farol. Deixei o carro ali mesmo. Me viu saindo do Hotel Empire. No mais. atrás de mim. você está me devendo uma. ou ordens superiores.baixelivro. vamos! Sentei no lugar do motorista e fiz ela entrar. Longe.

Ana Luiza levantou e. guardado. inutilmente. toda encolhida. que me apontou o dedo e. onde apoiei as costas. cuja bijuteria espelhava a contradição. Aproveitando que eu estava deitado. como se fosse um revólver. alertados pelos gritos da minha irmã. Mas um chute na barriga me jogou longe. Pediram desculpas.. Motoristas. Experimentei. 94 Grupo Baixe Livro http://www. Prensei minha boca contra a sua. Talvez se eu me abrisse e contasse tudo: o crime em Manhattan. Meu corpo acelerou o ritmo.. como se quisesse furá-la. Fui atrás e me joguei sobre ela. estava o tira da calça F. me tirasse de sua vida. Vi Ana Luiza ainda deitada. tomando posse. sem os fiéis de domingo. a fuga. Entre eles.. Havia um complô contra mim. a minha dança. Ficou embaixo de mim. Me arrastei até uma árvore. Disse a todos que era minha irmã e que só estávamos brincando. Estava difícil. gozar sobre minha irmã. Se acusaram uns aos outros: “Quem foi que começou?!” A ira. rasgá-la. para que se livrasse de mim. O corpo foi me tirando do comando. desenhando uma rota de fuga.baixelivro. banhada em preconceitos. tinham abandonado seus carros no meio da rua. o sinal. passando a mão na sua cabeça. Me ajudaram a ir até o carro e me sentaram no banco do passageiro. Mais pessoas foram chegando e pareciam dispostas a me linchar. Respirei fundo para recuperar forças. Mas ela se torcia toda. pararam. eu iria gozar. como guardiões da moral.Bala na Agulha . duro. Ana Luiza me levou embora. Passou a gritar como uma louca. onde deitei e convivi com a dor. Havíamos causado um grande congestionamento. para que o pau fizesse fogo. apertou o gatilho. entreguei a ela as fotos para o passaporte. Fui mais forte e me movimentei sobre ela. Em agradecimento. Na porta de casa. Uma mulher consolava ela. simulei um coito.. Deram muitos gritos que não entendi. dois sujeitos começaram a chutar minhas costas e minha cabeça.com . a mãe ficou assustada ao ver os hematomas no rosto. me encarou com muito ódio. inventando uma coreografia sem dono. Como? Era uma garota confusa. e investi contra a orelha. Correu por entre as árvores. toda a força que tinha para se livrar de mim. Podia enchê-la de porrada. nosso dia de índio. E meu sangue começou a borbulhar. era uma presa fácil. Com que armas? Me encaixei entre suas pernas e pressionei meu ventre contra o seu. Caímos os dois no chão. que há instantes estava voltada contra mim. estrangulá-la até a morte. que acabou me excitando. Virou o rosto. Ajudaram a me erguer. tão rápido. De repente. Os sujeitos ficaram na dúvida. Não nos falamos. Eu teria mais chances se ela me ajudasse. Ela buscou. contra ela. Conquistá-la. foi transferida para os dois sujeitos que me chutaram. olhando para os lados. Meu pau. Fui direto para o quarto.Marcelo Rubens Paiva Raciocinava rápido. Mas não. assim. meu corpo iria gozar. se aliasse a mim. Era covardia e se deram conta disso. Foi Ana Luiza quem deu explicações: — Ele brigou com uns caras que mexeram comigo. acelerou. A primeira coisa: tentar pegar a chave. enojada. mexi o quadril. Tive de prender seus braços. tirando a terra da roupa.

de não podermos voltar a ser apenas mãe e filho. com bom-humor. foi lembrando. tomara.baixelivro. Pedi licença e fui ao banheiro. Seu tom de voz era de um mimo. Senti pena dela. Irei com você para qualquer lugar. Dizia. desistir. Conseguiu me deixar à vontade. Me deu aconchego e calor. Enquanto fazia os curativos. Eu não tinha muito tempo. Torcerei para não ser um peso morto.Marcelo Rubens Paiva 12h40 Até quando o tira da calça F viveria solitariamente o drama de conhecer um criminoso sem poder denunciá-lo? Até a ética e o dever falarem mais forte. 95 Grupo Baixe Livro http://www. Disse que estava orgulhosa por eu ter defendido a irmã.Bala na Agulha . Falava comigo como se eu ainda fosse seu pequeno menino que clama por carinhos e cuidados da mãe. a chance de explorar mais aquele colo. Ficaremos juntos para sempre. Até ele se lembrar das palavras do juramento que recitou quando lhe entregaram o diploma de tira. de mim. eu vou me enfiar na sua bagagem. Tranquei a porta. no passado.com . Minha mãe apareceu com uma caixa de primeiros-socorros. as diversas vezes que teve de me fazer curativos. abri o chuveiro e fiquei o tempo suficiente para ela se cansar e sair do quarto e. inacreditavelmente. Senti raiva de não ter tido. Enumerou as doenças da minha infância e falou do trabalho que teve para me curar. que tudo iria dar certo: — Se um dia você for embora.

com .Marcelo Rubens Paiva 13h35 Abri a gaveta e peguei o exemplar ainda intacto do Daily: 96 Grupo Baixe Livro http://www.baixelivro.Bala na Agulha .

. ou o que quer que fosse.baixelivro. dificultar a identificação do corpo. afirma que o ato de esquartejar representa uma transferência do esfacelamento do ego do indivíduo. um maníaco procurado há tempos. Me vesti rápido e encaixei os óculos escuros. Referindo-se ao crime. Uma equipe da polícia está na usina de processamento de lixo de Nova York a procura da cabeça. Um doutor em psicologia da Universidade de Colúmbia. preso através de uma denúncia anônima. Todas as lixeiras próximas foram revistadas.com . eu teria um encontro com um delegado da Polícia Federal para assinar o passaporte já expedido. para quem matou Mona. afinal?! Bateram na porta: o motorista designado para me levar até o Palácio do Planalto onde. mas o lixo já havia sido recolhido.. À luta! 97 Grupo Baixe Livro http://www. já que o suspeito fugiu com o saco. Um traficante da Washington Square. o criminoso corta a cabeça da vítima pois quer destruir a si próprio. segundo disse.” O que adiantaria. que pesquisa o comportamento e método dos serial killers. sempre com o método de cortar as mãos e a cabeça. Segundo disse. Não queriam que o corpo fosse identificado. sadismo. e corta as mãos da vítima por se sentir culpado de ter matado alguém com as próprias mãos. Uma hipótese absurda: Mona está viva! Quem é Mona. o promotor público disse que o criminoso é. enquanto vendia uma arma para o suspeito Mel.Bala na Agulha . provavelmente. se no hotel havia o registro da sua entrada? Esquartejaram-na não por exagero. confirmou que vira a cabeça num saco plástico.Marcelo Rubens Paiva DAILY “A polícia está atrás da cabeça da vítima do Hotel Empire. e que já fez várias vítimas no Estado. porque talvez não fosse o corpo de Mona.

com os óculos escuros e o rosto abaixado para dificultar o trabalho deles. Você pode fazer isso. Ele tem coragem. Todos nós estamos. através daquela janela.com . Imaginaram que se tratava de uma autoridade. Não tínhamos assunto. Quem trabalhava naquela sala deveria estar de férias. o que daria uma boa foto. ou revidasse. microfones. Aliás. Ele atendeu. ficar ao lado dele. — Tantas coisas acontecendo e você obrigado a pedir desculpas. falar ao mundo que aqui. O carro estacionou e vieram atrás: câmeras de televisão. me senti invadindo uma tumba. Mas eram jornais velhos. sala. Mona. O telefone começou a tocar. Perguntas voavam. Diria mais: foi uma ordem. Mona.. crescer e ter um lugar de destaque. O tira nos levou para uma sala vazia. Fiquei por um tempo a sós. — voltamos a ficar sem assunto. velho conhecido. Mas é assim mesmo.. decepcionados. casos corriqueiros e desentendimentos banais podem deflagrar guerras.. principalmente com o presidente do Senado. Então nada. Sentei na cadeira: sua cadeira. existe um país que quer trabalhar. Agora mesmo. Basta lhe apertar a mão e pedir desculpas. Seu rosto.’ Tirei-o do 98 Grupo Baixe Livro http://www.. me xingavam pois queriam que eu olhasse para as câmeras. Alguns jornais espalhados me motivaram a ler as novidades do Caso Mona. caminhou pelo carpete. perfume e olhar. vasculhando um caixão cujo cadáver se mantém fresco. Me fez assinar a requisição de uma segunda via do passaporte e saiu com a papelada. E riu. O chefe de gabinete. me aguardava junto com um sujeito da Polícia Federal. cercado por partes de um enigma. Finalmente entrei no prédio e uma porta de vidro se fechou me livrando do assédio. foi uma sugestão. Parece que você deu uma surra no filho dele. Não existe homem melhor que seu pai para fazer este discurso. enquanto eu seguia em direção ao prédio. Você algum dia imaginou seu pai na ONU? Você deve estar muito orgulhoso dele. e ver os representantes de todos os países do mundo aplaudirem.. segurar seu discurso. mesa.Marcelo Rubens Paiva 14h35 A imprensa fazia um cerco na porta do Palácio. Não.baixelivro. Segui em frente. A culpa. gravadores e máquinas fotográficas. apontaram as armas e me fizeram perguntas. Eu estava na sua sala. usou o telefone. Uma foto. Fomos até o segundo andar. falou qualquer coisa e: — Estão me chamando.Bala na Agulha . Pediu desculpas. onde nos instalamos. Seu pai não está em condições de criar desafetos com ninguém. Me espere aqui que eu já volto. seu pai irá ao Congresso relatar o que dirá na ONU. Pensei em pular fora. sou eu.. Seu cargo deveria ser meu. Quantas vezes ela olhou aquelas paredes. Um portaretratos. — Bem. Alguns fotógrafos começaram a me xingar. Mas fiquei. não pode? Não foi uma pergunta. tínhamos. O chefe de gabinete puxou assunto: — Então? — e olhou para mim. Ele quer que você vá ao Congresso para pedir desculpas ao presidente do Senado. Microfones impediam minha passagem. ‘Alô. Como eu queria ir junto. Mas pouco a pouco foram me reconhecendo e. Morta. Saí do carro e abaixaram as armas. era o tipo que vivia se desculpando: — Estamos atrapalhados por causa da viagem de amanhã para os States. dizer qualquer bobagem. Na política. no sul. pedindo licença.

Aproveite para cumprimentar o pai do garoto que você surrou — e riu.baixelivro. e meu pai já atuava com talento. Fiquei com a agenda e com a carta e esperei. preocupado com quem aqueles papéis poderiam incriminar. Minha fotografia. Me vigiavam com câmeras ocultas.’ Morta. Parecia dopado. Relutante. Cilada. impassível. Meu nome estampado. ajudando na investigação.Bala na Agulha . Meu passaporte. para que seus asseclas também rissem. seu nome estava preenchido com uma letra idêntica à minha. Entrou o chefe de gabinete com o sujeito da Polícia Federal. ofícios e relatórios. Aqueles papéis deveriam estar na polícia.. cartas. no bocal. para eu ter um apoio. e eu no seu ninho. a sua morte.. Não tinha remetente. o perfume. A espada que faltava. Me olhou e exprimiu carinho. Me levaram até a sala para que eu deixasse impressões digitais. Falou comigo calorosamente: — Você vai ao Congresso onde farei um pronunciamento à nação. examinavam minhas reações. arma obsoleta mas mortal. com seu terno amassado e desbotado. quando me deu um estalo: Como os bens da vítima de um crime famoso estão intactos em sua mesa? A sala deveria estar lacrada. para depois fazer ligações. Apenas cumprimente-o. Eu falarei. No meu bolso. A espada da vingança. Suas drogas: o poder e o filho. As pessoas falavam mas ele não as escutava. Me pediu para assinar um passaporte na sua frente. ‘Alô. para me dar força. — Não precisa dizer nada. Embolsei uma pequena agenda. Num dos envelopes. alguém já teria dado um fim neles. Então? Está disposto? Vamos? 99 Grupo Baixe Livro http://www.com . Levantei rápido pensando em devolver tudo. Fomos a uma sala onde estava meu pai. embolsei a carta. Me abraçou para que vissem um pai abraçando um filho. as coisas que eu embolsava. dinamitado aquela tumba. evitando olhar os fantasmas. abri gavetas. Papéis. É possível que eu tenha herdado a letra ao primeiro-ministro? Na dúvida. Mas não. evitando escutar ecos de Mona. cercado pelos asseclas. Meu passe. Quero você lá. Não era possível: tão pouco tempo. pastas. Ou mesmo. arrumariam a prova que faltava.Marcelo Rubens Paiva gancho e senti.

Fomos a pé.Bala na Agulha .Marcelo Rubens Paiva 15h30 Seguimos pelos corredores do Palácio sem que eu. enviada a Mona. Excitação. e saiba que aqui estará acontecendo uma grande revolução. é um grande momento para mim. Saí do plenário. Gritei. ao microfone. até ir direto para o plenário. o que estiver fazendo. Eu escutava o som de uma lâmina afiando. com passos firmes e o queixo erguido. Mas peço. Estendi a mão e pedi desculpas. escrita por ele. decidisse se manchava o piso com sangue. que pare e torça por mim e pelo seu país. Câmeras. Como uma rainha cercada por abelhas. o espadachim. Nossas mãos. na direção do Congresso Nacional. confuso. Me apresentou o presidente do Senado. Ele não entendeu. Alguns congressistas faziam. grudadas. como mísseis: o tom do pronunciamento. aplaudiam e gritavam: “Dá-lhe Castilho!”. Não disse nada e devolvi. e garanto que sua vida não pertence a ninguém. Na saída do prédio. distinguia o afiar da lâmina. Alguns sujeitos me pediram para gritar. Ele não escutava. Estou pronto. menções de boas-vindas. onde estiver. Sua letra. Às vezes. seguranças tiveram de fazer um cordão para afastar a imprensa e curiosos. Perguntas. 100 Grupo Baixe Livro http://www. penso que tudo o que fiz até então foi para viver este momento. sim. Você só conseguiu machucar quem te ama. — Sabe. Era um dia muito importante para a nação. Meu pai. peço sua compreensão: não foi nada mais que um pai procurando o bem para seu filho. onde entrou triunfalmente (aplaudido de pé).baixelivro. Como ele mesmo disse. eu não compreenderia. filho. As respostas. o primeiro-ministro caminhou pelos corredores do Congresso. Fui ficando pra trás (alguns fotógrafos voltaram a me xingar). Os populares. na frente. Nossas diferenças aumentam aqui. no caminho. ansiosa para sacá-la da bainha. pediam paciência e convidavam todos para o plenário. só de pensar. Uma pena que você não compreenda e não possa compartilhar este sentimento comigo. os combates. Algo de grande iria acontecer. Meu pai. Todos os passos que percorri deságuam nele. idêntica à minha (e pensar que. repletas. Numa falha. Cumprimentou os membros da mesa e me chamou. O que poderia ser dito que mudasse o rumo da história? Não parei para ouvir. No entanto. Entrávamos no prédio. Se errei. “Estamos com você!”. herdei sua letra). Não paramos. ovacionavam o primeiro-ministro. Próximo ao Congresso a imprensa nos cercou. Dei minha vida para um país. se esqueceu das nossas desavenças e me chamou para caminhar ao seu lado. microfones etc. Li o parágrafo do discurso. apesar das diferenças. Me mostrou o discurso que faria.com . As galerias. Deputados e senadores aplaudiam. minha mão ardia. O barulho era infernal. Minha espada: a carta que eu carregava no bolso. “Mostre pra eles!”. Era um manuscrito. Pediu para eu ler o primeiro parágrafo. as medidas. evasivas. foi para o centro da mesa.

atitude típica de quem fala no telefone com uma caneta na mão. A agenda. Se não tivesse sido morta. — Está gostando da leitura? Olhei para cima. anexo à Câmara.com .. Com o susto. Me levaram para o fundo.. o timbre do envelope que levei do seu quarto. O que você tem.Bala na Agulha . Hotel Helit. Os outros ficaram de lado. Duas cabeças. Entramos pelos corredores do Senado. espiaram por ela e saí escoltado. e os preços de alguns hotéis. Não é estranho ela viajar e não levar a agenda? — me perguntou. — Que conforto têm esses senadores. Flávio Castilho. debruçados nas paredes do closet.. — Este caso está cheio de coisas estranhas.Marcelo Rubens Paiva 16h05 Quando vêm me pegar? Através dos alto-falantes. me esperava estirado na poltrona. Por algum motivo. Hotel Helit. O que te chamou a atenção nela? Nada. o que era estranho já que existem vários vôos diretos para Nova York. firme e forte. telefones e horários de companhias aéreas. Vou trocar minha cadeira por esta poltrona — só então olhou para mim e disse: — Bom te ver. escrito várias vezes. a surpresa. Ela havia planejado uma viagem de volta para Miami. Num banheiro próximo. Esta agenda não prova nada. ficou toda a manhã em Miami. Em cada pausa. Pularam para dentro e mandaram eu ficar calado. Um deles pegou a agenda do chão.baixelivro. Flávio Castilho. o tema do discurso. E a agenda e a carta de Mona. Os dias que antecederam o crime. Havia algo de especial nessa cidade. um vídeo? Eu xeretando a mesa de Mona? Isso não prova nada. o que a obrigou a trocar de avião. o mote era a ‘salvação nacional’. Achei que você fosse mais esperto e não caísse nessa cilada. atentos. Abriram a porta. Reconstruir. O vôo não era direto. Dessa vez. no bolso. Ela costumava desenhar e escrever palavras repetidas no pé de página. O planejamento da viagem para Nova York. Fiquei curioso. E não é importante comparar os planos de antes com os de depois? 101 Grupo Baixe Livro http://www. Já li esta agenda de cabo a rabo. eu escutava as palavras do primeiro-ministro. com o braço enfaixado. com um letra tensa: Flávio Castilho. Flávio Castilho. ela tinha escolhido um vôo com escala em Miami. até darmos no plenário vazio. Dois sujeitos. Miami.. me tranquei no closet. era aplaudido. examinou-a com deleite e guardou-a no bolso. Numa página. Meu nome. deixei cair tudo no chão. Flávio Castilho. Na agenda. de Nova York ela voltaria para Miami. Um dos tiras lhe jogou a agenda de Mona. ardendo. — Por que não? É uma agenda de antes da viagem. Ela pode ter mudado de planos. Seguimos pelos corredores da Câmara dos Deputados ouvindo o discurso do primeiro-ministro. onde o calça F.

Você que tem que me dizer. Inverti os papéis: — Pensei que você estivesse ferido gravemente. Não li. Estávamos lá pra te dar cobertura e pra te trazer de volta ao Brasil. Os três riram.Marcelo Rubens Paiva Você é o tira. Sabe quem enviou? Não. E a carta? — Que carta? Nós te vimos mexendo nas cartas. Fomos apresentados no restaurante e ela me olhou como se nunca tivesse me visto. idiota. Mas alguém te dedou antes. Eu já li. eu não matei aquela mulher. Mona foi lá pra isso. a truta com sal. todas. 102 Grupo Baixe Livro http://www. Que restaurante? Pensei que você fosse um bom tira. — Por que tanto interesse nas coisas dela? — Se você estivesse envolvido num crime não procuraria provas que te inocentassem? E encontrou alguma? Não. Quem é o otário.com . É uma melosa carta de amor. Fez um sinal para seus dois me revistarem. já estava virando hábito. Quem apresentou vocês? Quem podia ser? Marcos de Sotto. Mel. senhor Flávio Castilho. — Você é ingênuo.. diversas vezes.baixelivro. Estarrecedor. o perfeito otário. Ou prefere que eu te chame de Thomas? Não. Tem uma que chama a atenção.. De uma vez por todas. O nome lhe causou uma reação forte. Desabei na poltrona. o puto gay. Seus olhos brilharam. — Seu pai nos mandou te seguir. você sabe disso. Ficou folheando a agenda. Mas deixei lá. Eu não deveria fazer corpo mole.Bala na Agulha . — Não é o que eles pensam. Deixei elas em cima da mesa. Sabíamos do teu envolvimento com o tráfico e tentávamos te tirar ileso. Tiraram do bolso meu passaporte e só. eu ou o baleado? Levantou rápido e enfiou um soco no meu estômago. entre tantas? Peguei a primeira que vi. Então por que pegou justamente ela. Olhou para os dois cupinchas como quem tivesse acabado de provar uma hipótese já levantada. Aquele doeu. Não sei. — Mona não sabia quem eu era.

Respirava com os dentes fechados. — Talvez ela não esteja morta — provoquei. Querem nos confundir. não? Então de quem era? Não sei. Não a imprensa. O que quer de mim? Quero saber quem meteu essa bala no meu braço. Devia se sentir culpado por não ter impedido o crime. — Isso é o que assassinos querem que a gente pense. Ela foi por conta própria. E o que deu em você?! Estuprar aquela pobre coitada que estava lá pra te ajudar. Nem o FBI. Logo você.. Ah. Por isso o país não sai do buraco. Ele andou ao meu redor.Marcelo Rubens Paiva Quando foi isso? Algumas horas antes de ser morta.com . E conseguiu.. 103 Grupo Baixe Livro http://www.. O problema é que um traficante te viu com a cabeça.baixelivro. provavelmente ela ficou surpresa ao te ver. sem nos avisar.. Conhecia os crimes do psicopata. Por que arrancaram as mãos e a cabeça? Porque não queriam que o corpo fosse identificado. Uma impotência que.. o estivesse perseguindo. muitas fotos. Nesse restaurante. Me dá um tempo. O traficante não me viu com a cabeça. O que aconteceu no restaurante? Eles discutiram e ela foi embora. Quem senta nela começa a viajar. — Nós? Ele riu: — Nós. Ficaram surpresos. Quero saber quem matou meu colega. E quem te garante que não fui eu que matei? Intuição. Cortou a cabeça para que a polícia começasse a investigação por ele. Não sei o que deu nela para ir se encontrar com Marcos de Sotto. Ele viu um ciclista jogar um saco com a cabeça. talvez. para que comecemos do lugar errado — observou se prestavam atenção e continuou: — Quem a matou queria tumulto. Um calhamaço com fotos suas. Mais risos. Já desarquivaram casos semelhantes. Vá em frente — e olhou para os dois parceiros como se fosse iniciar uma aula. Não fui eu.. Parou na minha frente e desabafou: Claro que ela sabia quem você era! Tínhamos um dossiê completo das suas ‘atividades’. Quem a matou não é burro. Não seguia nossos planos. para o crime não virar noticiazinha de fundo de página. mas manchete. Muitas das pistas são falsas. Não sei não é resposta. É muito cagão para atirar em dois tiras. Virou polícia agora?! Essa é boa. Lógico que não foi você. Falam até do psicopata que corta a cabeça de suas vítimas. criar emoção.Bala na Agulha . para a polícia trabalhar sob pressão. Não era o corpo de Mona. Que idiotice é essa? Acho que é esta poltrona. dando tempo para quem precisa fugir. Eles ainda pensam que Mona foi morta pelo puto gay. Nós sabemos disso. que arrancaram a cabeça e as mãos para que não fosse possível a identificação.

Eu não podia vê-lo.. É verdade. Primeiro. mas não fugia. Amordacei ela. Justiça. que pagaria mil dólares por uma trepada diferente. e isso era motivo de orgulho. Ela queria.com . mas não muito. Não passou pela minha cabeça que eu estava violentando a mulher. 104 Grupo Baixe Livro http://www. Talvez porque meu cheiro seja mais agradável.. Ele me fez acreditar que ela era mais uma cliente.. Cheguei lá e ele me apresentou Mona. Deu um tapa na poltrona.baixelivro. sabe quem me contratou. Se queriam tanto minhas informações. e te garanto: isso é comum.. lentamente: Você deve estar pensando que quero chantageá-lo. precisando de grana. ela não reagiu. está na ponta da língua. Agora.Bala na Agulha . Claro! Você era quem estávamos procurando por toda a cidade. Tenho experiência. também. quero saber: quem me dedou? De quem era a câmera na janela em frente à minha? Como vocês sabiam onde eu morava? Você está longe de ser um tira.. o discurso do ministro. Eu já havia trabalhado pra ele. por que ele quis que você dançasse? Para que eu o procurasse.Marcelo Rubens Paiva — e sorriu. tinham de pagar por elas... Mas não. Eu tinha de provocá-lo. Frente a frente. Ele poderia dar outro soco. Me fala: quem te contratou para fazer o serviço porco? Se você é esperto. Quando entrei no quarto. Explica como foi. É aí que entra Mona. Já passei por muitas clientes semelhantes. Sabia mais do que a polícia americana. Não fugia da rotina. Apoiou a mão no encosto. até ficar nas minhas costas. Gritava. Sabia que Mel era Flávio. Não desconfiei que fosse uma cilada. a palavra que se destacava. Está tão encrencado que sinto pena. desesperado. Vai. Pelos autofalantes. Marcamos de nos encontrar no restaurante. Quero confirmar minhas suspeitas.. Não. Marcos é. Não me enche! Fala logo. logo de cara.. É óbvio que foi Marcos quem te denunciou. me diz. agenciador de garotos de programa. Marcos de Sotto. Pausa. mas eu adoro você. O que é uma trepada diferente? Ser estuprada. Falou. Os três assobiaram. Quem foi? Quero ouvir o nome da sua boca. E você acreditou?! Já trabalhou no ramo? Eu já. Fazia que ia fugir.. eu já começava a assimilar aqueles golpes. O tira andou em círculos. nem que fosse me espancando. Ele puxou o meu rosto e me deu um beijo na testa: Não sei porquê.

e vocês vieram atrás de mim. Era a pessoa certa.. Fizemos uma pausa. por que não se apresentou? Talvez porque não confiasse em Marcos. Qual o interesse em matá-la? O que conversaram no restaurante? Você que tem que me dizer. Precisávamos vigiar seus passos para saber onde estávamos pisando. Mona iria fazer contato. Estávamos prontos para agir. Mas um crioulo filho da puta nos atacou como um animal.. Seus fornecedores sabiam mais de você que sua própria família. 105 Grupo Baixe Livro http://www. Por que ela não abriu o jogo logo de cara? Se estava em Nova York por minha causa. Mas não o encontrei. e fomos acudi-lo.Marcelo Rubens Paiva Cala a boca! — ele ordenou. Deixa pra lá. Fomos incumbidos de trazer você de volta.. Chega. com toda a razão. Me enrolou. Foi quando alugamos um apê em frente ao seu. chegou polícia de todos os lados. — Mas não. era eu o irritado. está morta. Tanto que ele te apresentou como um desconhecido. já disse! Parei de falar. E quem deu os tiros? Como vou saber? Foi Marcos? Talvez. Esperei ele se acalmar e continuei: Depois procurei Marcos pelo hotel. E Miami? O que é que tem? Vocês fizeram escala em Miami. por bem ou por mal. Prensamos uns ganços aqui do Brasil.Bala na Agulha . Ele me daria um passaporte como pagamento. que reconheceram sua foto e deram seu endereço.. Como foi que me descobriram? Quem colocou a câmera na frente da minha janela? Não foi difícil descobrir onde você morava. e sou procurado por um crime que não cometi. Nossa missão era sigilosa. Marcos sabia quem eu era. Encontrei você e seu comparsa no banheiro. Foda-se Marcos! Ela devia ter dito logo quem era e que queria me levar embora! — agora. Talvez ele estivesse ajudando Mona sem eu saber.baixelivro. Ninguém do consulado podia saber da sua existência. Os vôos para Nova York estavam lotados.com . Vimos você correndo pelo bairro. Mas. — Você é louco! Você estuprou aquela mulher e nem se deu conta! alguém que não queria. Por que ela marcou de se encontrar com Marcos no restaurante? Para dar uma trepadinha com um puto? Marcos era do consulado. naquela noite. atordoado. Só se ela abriu o jogo.

aplausos para o encerramento do discurso. 106 Grupo Baixe Livro http://www. só isso.baixelivro. não faziam diferença. Fiquei curioso.Marcelo Rubens Paiva Mentira. seguido pelos dois.Bala na Agulha . Enfiou a agenda no bolso e foi saindo. Os tiras estavam gostando.com . Qual o seu interesse por Miami? Nenhum. Não é da sua conta. Pra mim. O que você vai fazer? — perguntei. Nos autofalantes. Paramos para ouvir os agradecimentos de praxe do novo herói da nação.

Marcelo Rubens Paiva 17hl0 Tumulto. Algo seria dito.com . Estava lá. o envelope. Os fios se trançavam no chão. minha espada. Alguns deputados apareciam para cumprimentá-lo mas tinham de se afastar ante os protestos da ‘imprensa livre’. jogado num canto. porra!” Voltei para o banheiro de antes. uma profecia. A imprensa se acotovelava.baixelivro. acreditavam. 107 Grupo Baixe Livro http://www. Curiosos e encantados. Câmeras empurravam fotógrafos. Procurei. Algo que. no closet de antes. Alguns palavrões eram ditos.Bala na Agulha . O primeiro-ministro começava uma coletiva nos corredores do Congresso. Microfones se duelavam como floretes sem reino. A desculpa de sempre: “Estou trabalhando. que empurravam jornalistas e vice-versa. mudaria o rumo de suas vidas. Curiosos se acotovelavam.

000.320. assistindo à tarde morrer. noites a sós e paixão. trezentos e vinte mil dólares. a ela.. eleição. o número à toa. Examinou o papel e leu: a carta que o novo ministro enviara à antiga colaboradora de campanha logo depois da tumultuada. Ponto no lugar da vírgula. nervosamente. querida. — Jantar? Com a família? — provoquei. Procurou meus olhos e viu que eu falava sério.” Mona e meu pai. antes do par de zeros no final: centavos. olhou para os lados e para a casa.com . abre aspas. ao telefone: “Eu preciso falar com ele em Tóquio. olhou para mim. sem palavras para descrever o que ela representava para sua vida. despertando-o de uma.320. perto dela. Não viu. e não teve coragem de voltar à carta. se sentia jovem e vivo. futuro de viagens. Solenemente. a mim. aos interessados..00 O ponto. Não exatamente letras. juntei peças. sentou ao meu lado. Rumo perdido. anotando para não esquecer. — e entreguei a carta. Sem reação. outros bares. sim.. tirei o papel e li a carta sem remetente. ‘coma profunda’. a assessora que foi morta em Nova York? Já a viu alguma vez? Já vi. Vinha jantar conosco de vez em quando. o valor. pegando o primeiro papel papel do mesmo valor: ‹Anote. mas vitoriosa. não um papel qualquer. Ana Luiza se aproximou e foi direto ao assunto: — Já está com o passaporte? Conheceu Mona. em silêncio. como se fosse um achado arqueológico. O número: cinco milhões. Mona. já que era um número fundamental que deveria ser escrito num 108 Grupo Baixe Livro http://www. Ela riu. mas da própria estrutura: — Era amante do seu pai. vista. mas números. que o desastre familiar talvez não fosse responsabilidade minha. provavelmente falando no telefone. displicente (5. sempre? Arrancá-la do concreto e empurrá-la para o abismo. Mona era mais que uma aventura. sentado num banco do jardim. onde ficamos. se sentia completo.000.. Era amiga do papai. e vice-versa: dólar. provavelmente ao telefone. Porque queria provar.Marcelo Rubens Paiva 17h45 Em casa. emoções e projetos para o futuro dos dois. Nas costas. O clássico romance entre um homem de meia-idade e uma linda e jovem assessora que apresenta uma nova safra. outros olhares (sede e ação). mas justamente a carta enviada pelo amante. abençoava ela ter cruzado seu caminho. escrito por Mona.baixelivro. respirou. a letra nervosa de Mona. Ana fez uma pausa.Bala na Agulha . nas costas do envelope.› Ana levantou a cabeça como se buscasse apoio no céu. Tirei o envelope do bolso e observei detalhadamente. Um número: 5.00). clichês.

Parou de falar e pôs a mão no estômago. “Salvar o casamento”?! É verdade. logo. irritado.. não deu certo. Ele me disse que era contra minha vinda. eu me mando. — o comentário do pai.Bala na Agulha . Passou a me xingar. meu filho. trêmulo. Reclamou de eu ter mostrado a carta. Não parou. Ana Luiza. está distante. Talvez porque quisessem ficar a sós para ‘salvar o casamento’. coloquei-a embaixo. se encostou na parede e ficou envolvida pela água. se divertia com a discussão. o fracasso era o nosso. Gritou mais alto até. estendeu a taça para eu encher. Inacreditável. chorar. mas segurei firme. O sucesso era o incentivo para o pai beber. Liguei a água quente para deixá-la mais confortável. Com o tempo. Ela está bêbada! — o pai.baixelivro. Não se opuseram. não explodiria mais (e pra falar a verdade. Ela começou a praguejar.. mas sugestões. Ele estava animado. Meu passaporte ficou pronto. ela estava bebendo uma taça de vinho atrás da outra (era eu quem servia).. Pedi para parar. Xingou a família. Riu ao notar a roupa manchada... quis sair. Não é mãe. Relaxou. — Porque ela não vem? — perguntou. Uma família liberal como a Castilho não dá ordens. Fechei a porta e passei a chave (logo. Ele me mandou embora. aos gritos. Passou a ser o alvo. Não iria proibi-la. Segurei Ana pelo braço. mas tentava “salvar o casamento”. Escolhi o lugar em frente da filha querida para controlar suas reações. 109 Grupo Baixe Livro http://www. Um vazio. Jorge? Foram essas as palavras? Salvar o casamento?! Se encurralaram. Derrubou a taça de vinho... Disse que se sentia forte e prestigiado para pisar no plenário da ONU. lembrava. eu preferia que ela se levantasse e fizesse um escândalo. Ela gritou. Primeiro alvo: o pai. Desde que você foi embora. — Ela sabe que estou precisando e não vem. não fala nada. Ficou sem forças e se deu por vencida. ela. Mais uma vez. o “demagogo filho da puta”. A garrafa passava de mão em mão. Centro das atenções. me estapeou.Marcelo Rubens Paiva 20h40 Jantar em família. levei-a para o banheiro. Se esquecera da guerra deflagrada: disse o como era importante ter uma família unida para “mergulhar em paz e em segurança no universo das contradições políticas”. Enrolava a língua e ria. Apoiada em mim. abri o chuveiro e. Ela nunca vem.. investem na liberdade dos filhos para que os próprios conheçam seus limites. Todos a postos. ganhamos o silêncio e a calma. — Vai com calma. Se não explodiu até então. fomos até seu quarto. finalmente. Ele não tem culpa. da boa repercussão do discurso no Congresso. com orgulho. Eu tomo conta dela — e fui até a pequena bêbada. a corda se romperia e ela iria explodir). Foi a deixa para eu observar Ana: seu sorriso.. emporcalhando o encontro). não é mulher. já. Ele não se conteve: — Você. alta. O efeito do álcool.com . Você já vai embora?! — a mãe. sem muito esforço. Já. Antes que vomitasse. filhinha.. não é. surpresa.

Nossas bocas se grudaram... Fiquei sobre ela: seu marinheiro. Levou-a até o pescoço. me jogasse na vida. Saí do banheiro e fui até a porta. Muitas vezes imaginava o que você estaria fazendo. achar.. meu poeta. O bico cresceu na mão. — e desabou na cama. Mas acabei sentando na cama e esperei. E você apareceu e não me convidou para nenhuma aventura.. Abri a mão e envolvi um peito. Está melhor? Estou péssima. até encontrar uma agenda de onde caiu uma foto. — Eu não tive pai. Sentei ao seu lado e examinamos a foto. Andei pelo quarto. que sonhei ser poeta. Para quem vê de fora. Não fugiu. uma foto minha. Não foram aventuras de um poeta. Pausa. No fundo. me raptasse. Me arrancou a camisa. suas coisas: livros. Seu corpo. Tira você. eu tinha a fantasia de que você aparecesse e me levasse embora. (E dinheiro não é poesia. menininha. Levou-a até os seios: sua aventura. Tira pra mim. como índios. Ela riu.. — Vai embora. me pediu ajuda para reconstruir a família. mas esquecimento). Abracei mais forte: proteção e carinho... Vivendo uma grande aventura. Tão platônico.. contrabandeando armas e escravas brancas. Eu só queria dinheiro. eu não queria sair daquele quarto e me ver envolvido numa insolúvel briga de casal. Deixei o abajur aceso. me agarrou. O riso me confundiu: que poeta louco? Pegou minha mão e beijou-a. pensando em deixá-la. papéis.baixelivro. com força. paixão platônica. Não tive mãe.... — Um dia encontrei esta foto e guardei.. 110 Grupo Baixe Livro http://www. Rimbaud. Tonta.. me puxou. Ela saiu do banheiro envolta por um robe: Você ainda está aí? Quer que eu saia? Não. Senti sua mão procurar. Suas mãos se prenderam nas minhas costas. Beijei sua testa. Cabia na palma. o pau do poeta vagabundo. prendeu meus cabelos e me puxou: — Vem. Muito pouco. Levou-a até o peito.Marcelo Rubens Paiva Consegue tirar a roupa? Ela sorriu. desabotoar e tirar pra fora. Me deixa. Voltamos a nos beijar. Me soltei. percorrendo países exóticos. enquanto eu. Seu rosto se apertou em mim.com . Tive um irmão desaparecido. marinheiro. Tirou o laço do robe e abriu. — Apaga esta luz. beijo embriagado. Tirei o cabelo dos seus olhos e enxuguei-os com a mão. Uma mão percorreu minhas costas. vagabundo. eu tenho tudo. Levantei seu rosto para vê-lo de frente. maliciosa: Não. ao contrário. Mas não tenho nada.Bala na Agulha . Me apertou.. Dei um abraço nela.

liam seus romances e poemas. era ela quem tentava me levar para dentro.com . Segurava. Até então. Um simples movimento meu bastaria.baixelivro. Seu olhos não me viam. Se encaixou por baixo e. aguardando minha decisão. 111 Grupo Baixe Livro http://www. Aconteceu. Olhos assustados se perguntando: está acontecendo? Estava. com a mão. Eu não tinha decidido navegar. E não interessam detalhes. para desencadear loucura maior.Bala na Agulha . Aconteceu. coisa mínima. Que dimensão esse simples movimento. Parei de pensar e entrei. colocou-o entre as pernas. Me entregou o leme.Marcelo Rubens Paiva Deslizei. Entrar? Dependia de mim.

Me repelia. se encolheu na cama.. Levantei e saí sem dizer uma palavra.baixelivro. é o que se espera dela e.Bala na Agulha . no fundo. Era preciso? Era. Mas para ela. Foi bom lhe fazer o favor de rasgar seus romances e poemas.. Ela deveria me agradecer. Eu serei para sempre a síntese do mal. o que facilitaria a vida de todos. é o que ela quer ser. para sempre.com . Boa menina. 112 Grupo Baixe Livro http://www.Marcelo Rubens Paiva 00h10 Sóbria. Para mim não mudaria nada.

É melhor assim. o policial americano. Ao seu lado. Quinta emenda?! Não seja ridículo! — o tira F me abraçou como um velho amigo e me levou para dar um passeio pelo jardim. E se eu não for? Não existe acordo de extradição entre Brasil e Estados Unidos. Jogou o jornal na cama.. David foi direto ao assunto: perguntou se eu reconhecia o telegrama de Sandra C.. nem nada. Na sala. andou pelo quarto. O caldo entornou. Você está se entregando voluntariamente para depor. Mas seu pai não te dará nenhum apoio. terá o apoio do seu pai. Os tiras me acompanharam até o quarto. E pensou certo. Não quero que mexa nas minhas coisas. Passamos a noite em claro. o indigesto chefe de gabinete do primeiro-ministro. — e riu. Veja bem. nem a filha. Ele nos recomendou isto. — Agora não.Bala na Agulha . Desta vez. uma silhueta na porta. o calça F encostado no batente. com um cigarro na boca e um sorriso suspeito: — Bom te ver. e tomei a decisão: — Vou arrumar minhas coisas.Marcelo Rubens Paiva TERÇA-FEIRA 06h05 Uma sombra. encontrado num apartamento do Village. Foi convincente. nem tanto. O que eu podia fazer? Ele chegou ontem à noite com seu nome no bolso do colete.com . avisou: — Você viaja hoje mesmo para Nova York. Acordei num susto. Ele se mostrava ansioso para assistir ao que iria acontecer. Fizemos um acordo. Me reservei o direito da quinta emenda e não falei mais nada.baixelivro. Minha mãe. Estava amassado. discutindo seu caso. Vai tirar umas férias. Fiz um pouco de onda. Você não está preso. Pelo caminho. Eu. olhou o relógio e: Como é que é? Fomos. Folheou. — Eu quero um advogado. Encarei minha mãe. Não seria fácil: dentre as possibilidades. e ela não fumava. olhava o jardim e fumava. Mas era ele mesmo. Guardei no bolso o novo 113 Grupo Baixe Livro http://www. É muito cedo. Olhei o telegrama. obedecer ordens. firme e forte. me apresentou a David George da Interpol. Encontrou o exemplar do Daily. um corpo indefinível. e me surpreender. com certeza não haveria uma boa notícia me esperando. no canto. Então vou ter que te prender agora.. É melhor você levantar e me acompanhar até a sala. O que você prefere? Voltei para a sala. nenhum sonho. — É melhor vir agora. nem a mãe. Só te pagará um advogado nos Estados Unidos. Nem o pai. Não tinha muito o que arrumar.. Você embarca no Boeing Presidencial que parte hoje mesmo levando seu pai para os Estados Unidos. Enquanto me vestia. Pensei que você não fosse me entregar. A situação é diferente. Minha vida era aquilo: ser acordado. Nos Estados Unidos. Acendeu as luzes e ficou esperando.

Bala na Agulha . Meu casamento não será o primeiro nem o último a acabar. mas pelo Brasil. eu lhe prometo. Pálida. Temos pressa. O chefe de gabinete. Sua vinda só apressou minha decisão. Confie em mim. não por seu pai. — Estamos tentando guardar sigilo até o discurso na ONU. minha mãe me deu um forte abraço. encostada à porta. suas viagens. Se apoiou no autocontrole de anos de treino. Mas não sei se vamos conseguir. querendo ser ele o porta-voz do grupo.. arrumar suas coisas.baixelivro. Estava longe. Os policiais se afastaram. e se puder esquecer. Nós vamos ficar juntos. navegar. Foi F quem respondeu: Quase tudo. Não perdeu a pose. Ana Luiza apareceu e ficou num canto. nada. vem acompanhado do filho envolvido com o narcotráfico. Nenhum agradecimento. foi me explicando: É uma situação complicada.Marcelo Rubens Paiva passaporte. Enquanto seu pai chega para comprar uma tremenda briga com os países ricos. fazendo planos.com . E qual foi a reação? O que você acha? A imprensa já sabe? Não — o chefe de gabinete. os dólares e libras que me sobraram de Paul Surrender e minha espada.. 114 Grupo Baixe Livro http://www. Me pediu paciência. Tinha acabado de decidir. Não cairia. e me encontraria em Nova York. — Não se sinta responsável — disse. Assim como a mãe. não aconteceu. — É uma decisão minha. Sabe do estupro? Sabe.. Tente colaborar. Tchau. a pequena chave de Mona (meu talismã). Iria para São Paulo. Dei um aceno que não teve resposta. Pedi desculpas a ela. todos. Na porta de casa. disse que também estava indo embora. Sentei no carro entre os dois tiras.. ao lado do motorista. Aconteceu. O que meu pai sabe? Eles se olharam.

rápido. Continuava apontando o gravador para mim. Me fiz de desentendido. o enviado me perguntou. a imprensa fazia um cerco esperando o primeiro-ministro. e olha lá. e que estavam com pressa. Espero que me ajude. No mais. O chefe de gabinete foi desviar a atenção deles. Paramos para um café e ele se aproximou. F não se conteve e riu mais uma vez: — Suas investigações estão furadas. Mas ele não desviou a atenção. Você é um bom tira.Bala na Agulha . e vocês davam cobertura. Foi direto ao assunto. Com imunidades. tirou o gravador da mão do sujeito e guardou-o no bolso. o que era ilegal. F requisitou meu passaporte. Poderia ter levado. Se apresentou como um enviado da oposição que queria me ajudar. Me intimariam para depor na comissão que investigava o abuso financeiro da última campanha eleitoral. Os tiras tentaram dispensá-lo. É mais fácil levar tudo num container. Cinco milhões e trezentos e vinte mil dólares que. Desculpe. dizendo que se calcula em 40 milhões de dólares a caixinha de um candidato ao Executivo. sinal de que nossa ‘amizade’ se fortalecia. Puxou assunto: Aconteça o que acontecer. cinco milhões cabem numa mala. O sujeito foi insistente. mas ele ameaçou fazer um escândalo e chamar a atenção da imprensa. já que qualquer banco estrangeiro lavaria o dinheiro. fui levado escoltado. Vamos abrir o jogo. discretos. eu simpatizo com você.baixelivro. como você disse. e que não se usa mais o procedimento de malas pretas. Éramos os primeiros passageiros. Não ficou ofendido.com . Escolheram um vôo para 115 Grupo Baixe Livro http://www. Segundo ele. se eu conhecia Mona. F riu e disse que ele estava mal informado. a sobra da caixinha da campanha. Quarenta milhões dariam umas oito malas. coincidentemente logo após a campanha. No máximo. Como sabe que cinco milhões cabem numa mala? Estou acostumado a investigar resgates pagos a seqüestradores. Ligou um gravador de mão. David não estava entendendo e começou a reclamar que eu não podia falar. estou embarcando para Nova York para me entregar. me escoltaram para o outro lado. F resolveu dar a entrevista por encerrada. apesar de ser capanga do primeiro-ministro. e que Mona teria feito um depósito numa conta secreta no exterior. até o avião. e os tiras. e tinha sido morta como queima de arquivo. Voltou alguns minutos depois com jornais e revistas. Fiquei sentado entre eles. Antes que ele reagisse. Um sujeito nos seguia enquanto caminhávamos. poderia ter passado pela alfândega sem ser revistada. Mona viajou com um passaporte diplomático. aos empurrões. Enquanto F o acalmava. Se entregar? Mas disseram que você está indo como intérprete. e se eu sabia dos motivos da sua viagem aos Estados Unidos. O próprio comandante indicou nossos lugares. Não sei de nada. na ala reservada às autoridades. me deixando com o outro tira. numa mala. cabem numa mala. Queria meu depoimento. Ela estava levando parte do dinheiro da campanha.Marcelo Rubens Paiva 07hl0 No aeroporto.

A caminho. Continuei: — Vão saber de você e Mona.. Paramos para observar a entrada da equipe econômica.Bala na Agulha . E aqui todos sabiam que Mona era sua amante. Colocaram o dinheiro num cofre ou numa conta. Vou jogar lenha na fogueira. É. É uma carreira com bons dividendos. Poderia entrar num banquinho qualquer de Miami sem despertar suspeitas. pelos processos.. bastava meu pai saber o quanto eu sabia. entre eles. Você pode me fazer companhia. até gozar. Entregou o dinheiro para sua amante. — Alguém pode se ofender. sobrevoando o Planalto Central. Mas é um dos maiores juristas do país. Mas não se deu ao trabalho de me olhar. que seguiu reto para se instalar no fundo do avião. Botou na cadeia gente do colarinho branco.com .. Meu pai é novato na política. meu pai. Mas lá fora. Você já chegou a me dizer que ela está viva. vê-lo reagir: 116 Grupo Baixe Livro http://www. que foi morta por Sotto que roubou o dinheiro. Não saberia em quem confiar. dar ordens. F olhou para trás. tem muito a perder.. Até a metade do vôo não saí do lugar. talvez para que eu provasse a mim mesmo que minhas hipóteses eram falsas.. Amarrei-a na cama. E ganhar dinheiro por fora. tinha um talento fora do comum de não exprimir emoção alguma. Qualquer doleiro vagabundo daqui do Brasil faz uma ordem de pagamento para o exterior. Interrompi sua leitura. arranquei suas roupas e pulei. Quanto vocês ganharam para escoltar a mala com dinheiro? Cinco por cento? Seu pai é novato em política. como um animal. como se estivesse sozinho.baixelivro. Fui direto para a poltrona dele. — Eu tenho provas. não é? Ter poderes. Ele não aprendeu. ela não seria reconhecida. Pedi permissão para ir ao banheiro. Não tenho nada a perder. sim. pensou por um instante e não fez objeção. Eu queria arrancar sua máscara. — Você toma cuidado com o que diz — o tira aconselhou. e depois seguiram para Nova York. E eu não era um réu desprezível. Eu tinha estuprado sua Mona. Você. Você está longe de ser um tira. viu que eu teria de cruzar com meu pai. Como me irritava seu desprezo. Apenas disse com uma raiva contida: — Quero que apodreça na cadeia! — Tome cuidado. Tirou uma caneta e passou a fazer anotações. Talvez me forcem a falar dos cinco milhões de dólares. a mandar dinheiro pra fora? — Ele é o primeiro-ministro do país que vai comprar briga com os bancos internacionais. o que pode render uma fortuna.. O que leva um sujeito a ser tira? É para se auto-afirmar. Observei atentamente a expressão do seu rosto que não se alterou. abrir portas com uma carteirinha lustrosa.Marcelo Rubens Paiva Miami. Eu não daria um bom tira.

.. Me derrubou no chão. Voou em cima de mim. Tinha um corpo e tanto. Ela adorou.baixelivro..Marcelo Rubens Paiva Você tem bom gosto. Eu estava a salvo. Ela era linda. seguraram a fera. pôs as mãos no meu pescoço e..com .Bala na Agulha ... Duvida? 117 Grupo Baixe Livro http://www. Apertou a caneta na mão. Parou de escrever. Ah.

Meu pai. Dei o nome de David George. ouvi seus gritos: — Ei! Volta aqui! Mandei o motorista do táxi seguir pela 678 para o La Guardia. que não costumam fazer perguntas aos passageiros que voam dentro do país. via-se a multidão de passageiros carregando malas.Marcelo Rubens Paiva NOVA YORK 16h50 Aeroporto John Kennedy. F parecia tenso. No desembarque. era um capacho desprezível.. Eu tinha chances de pegar um vôo para Miami. Vai logo. discutia rispidamente com F. Havia muita euforia entre a delegação. nada mais. ainda bem. até entrarmos na saleta do FBI. No caminho para o embarque. Vai! E virou as costas.Bala na Agulha . está me chamando. mas foi econômico.baixelivro. Acenei de longe para um sujeito qualquer e. sem pestanejar. Chegaria em Miami no mesmo dia. rápido. Através das paredes de vidro. num vai-e-vem desenfreado. Abri a porta e me mandei. não darei parte alguma da grana. Começaram as entrevistas. Marcos de Sotto não estava entre eles. Fui separado do grupo. um policial me interrompeu. me despedi. tinham de bolar alguma coisa e se livrarem de mim. Reconheci alguns funcionários do consulado. Paguei o bilhete in cash. havia um protocolo a ser cumprido. David George — MIAMI. Seguimos em fila para um reservado. escoltado pelos dois tiras. Muitos tiras. onde recolheram os passaportes. Aliás. Ainda olhei para o grande herói brasileiro. preocupado. O sujeito da Interpol pediu para esperarmos. Era o outro Surrender. examinava a movimentação dos seus colegas americanos: — Você daria um bom tira. Voltaram os passaportes já carimbados (o meu ficou retido). que já tinha carimbado meu passaporte no mesmo aeroporto. Apresentou os dois tiras que o acompanhavam. 118 Grupo Baixe Livro http://www. — Este é meu primo distante. Descobriram que eu sabia demais e representava perigo. extasiada pelo começo das férias. E se um dia eu encontrar o tira. confiando na desorganização e na ânsia por dinheiro das falidas companhias aéreas americanas. Longe. — Estou despachando um amigo para a Flórida.. A funcionária da companhia aérea preencheu o bilhete e me deu um cartão de embarque. Me ajudou a fugir seguindo ordens do meu pai. Seguimos pelos corredores do saguão principal. Mas ele estava entretido dando uma entrevista a uma emissora de TV. de onde sai a maioria dos vôos domésticos.com . Próximo à porta. no fluxo da multidão. pois tinha de assinar uns papéis e pegar as algemas. Um dia eu te encontro e você me dá uma parte dos cinco milhões. Você não pára nunca?! Observava meu cartão de embarque. Permitiram a alguns órgãos da imprensa o acesso ao reservado.

Fui até seu bangalô e fiquei sentado. Esperei. Estava distraída. Ouvi passos. O momento era sublime para um 119 Grupo Baixe Livro http://www. bares e cabanas. Mas eu roubaria o fogo para entregá-lo aos mortais (nos aproximaríamos dos deuses). com um isqueiro na mão. mas estava lá. acendia o cigarro de u m a Meu pássaro. Não se assustou. Num palco. esperava a chama se apagar. cidade dos sem pátria. ou seja lá quem foi.com . O tempo passou e a ave continuava escondida.Alguns hóspedes. notou minha presença no canto escuro da varanda. seu perfume: ela estava improviso. não fazia diferença eu ser descoberto. Respirei fundo. Bastava alguém ver a cabeça. Começou a festa na beira da praia.baixelivro. Procurei a ave rara: não estava no céu. — Como vai? — perguntei. clandestinos (escória). passei por trás dela e descobri. na varanda. Fiquei na praia. Uma mesa grande forrada de comida. Cortaram a cabeça e as mãos para que o corpo não fosse identificado. digo. O céu aberto . Meus olhos eram fogo. Passei a noite examinando maleiros do aeroporto. fala. Mesinhas espalhadas sobre a areia. uma banda tocava salsa. Ri sozinho (eu daria um bom tira. sim). o número do seu ninho. Era falsa. já teria coagulado. nem na água. Examinei cada canto. Garçons ocupados. pessoa poeira. Estirada numa cadeira de praia. no chaveiro jogado. com a chama numa mão e a calma na outra. Eu me algemara à calma. denunciou o traficante de ácido da Washington Square para que este contasse à polícia que viu a cabeça da vítima. Esperei minha coroação. e nele. nas piscinas. Nem ficou surpresa.Marcelo Rubens Paiva MIAMI Miami tem as cores que não me ofuscam: cidade de ilegais.Bala na Agulha . ou para seja lá quem for. Reagiu como se já me esperasse. dos sem nome. Tomei drinques. Um deles. Perambulei pelos caminhos que ligavam os bangalôs ao edifício central do hotel. Bastava acreditarem que Mona estivesse morta. já que enfiou a chave sem me ver. Marcos. Não era a cabeça de Mona. Batia uma brisa. um bucólico resort de frente pro mar. Para Marcos. esperava o sol entrar no mar. Paciência. seu fogo. O rastro de sangue que saía do saco com a cabeça nunca poderia ser o sangue de Mona. Marinas e barcos e pelicanos e gaivotas. cidade das rotas e saídas. Helit. Talvez por isso. de costas para a festa. Os fatos? Ainda interessam? Está bem. e eu sentia sua presença. Me deu um calafrio. como se tivesse todo o tempo. Vários bistrôs. nem na terra. Nenhuma pressa. Discretamente. Esperei amanhecer para me dirigir ao Helit Hotel.

Usava o nome de Tise Sarraga. Tentação aquele dinheiro todo.. assino meu atestado de óbito.baixelivro. uma das putinhas que ele agenciava. E quem baleou os policiais? — Álvaro Turco. Entrevista com o primeiro-ministro brasileiro. Tenho de admitir: foi um plano idiota que estava dando certo. Cinco milhões apodrecendo. De quem era o corpo da outra mulher? — Não sei. — A polícia sabe que o corpo não é o seu.. Tinha que ter um interrogatório. De quem era o corpo que vocês colocaram no hotel? Claro. a empregada portuguesa de Marcos de Sotto. E como colocaram meu esperma dentro dela? — Eu usava um diafragma.com . Colocou a mala no cofre do aeroporto ao invés de depositar num banco. Começou a se vestir na minha frente. Decidi me aliar a ela: — Está no aeroporto de Miami. Talvez. Saí do quarto e vocês fizeram a troca. Viu meu pai na TV e não fez nenhum comentário.. descobri um passaporte português. A chave. Vou tomar um banho — e se trancou no banheiro.. gravada no aeroporto de Nova York.Bala na Agulha . ainda. Até lá. Esboçou um pequeno sorriso. Eu não tinha ainda decidido se a estrangulava ou se me aliava a ela. Tise. E que corpo. Ela não iria fugir. . Examinando suas coisas. onde você ficou uma manhã inteira para trocar de avião. estou longe. como seu queridinho havia ordenado. Liguei a TV e fiquei assistindo ao noticiário. Eu tinha o que ela queria. — Onde está o dinheiro? — Se eu disser. Respirou aliviada: — Estamos com sorte. nada mais propício. 120 Grupo Baixe Livro http://www. e meu preço estava inflacionado. espertinho. Talvez porque estivesse bolando um plano. Ela saiu do banheiro enrolada numa toalha: Não é engraçado? Um simples acaso e você estragou tudo.. Fui atrás e passei a chave.. Vão fazer comparações genéticas. Uma besta.. — Fique à vontade. Que mais? Quer saber se eu gozei naquela noite? Não. Marcos arrumou a garota. Você também — respondeu. Valor? Cinco milhões.Marcelo Rubens Paiva O que fez no cabelo? Está diferente.. Parecia orgulhosa. E o dinheiro está lá. Está com você? Mostrei meu talismã. Foi só encaixá-lo no corpo da outra. nem chamaria a polícia por uma extensão do telefone. Sangue. O corpo de antes. Ficou surpresa: não imaginava que eu conhecesse tantos detalhes. Não mais um cachê de mil dólares. cabelos. Abriu a porta e entrou.

e eu devia isso a Mona. Parecia que lia meus pensamentos. do gosto de sexo. uma mudança. Não é incrível? Por que não fugiu com a grana? Por que não fugi com a grana? Boa pergunta. Aqueles cofres são todos iguais. Se emocionou. mas cinco milhões. Não encontrou. Mas foi Marcos quem me convenceu. Fiquei surpresa quando te vi. Precisávamos de um suspeito. Foi pro banheiro pegar suas coisas. Naquela altura. — E por que me envolveram? Eu não sabia que seria você. Tínhamos pressa. Sabia o que fazíamos nos Estados Unidos. Não lhe disse e guardei no bolso. Ela veio. Ele teve a idéia de contratar um michê e armar a cilada. já desejava que algo de muito sério me acontecesse. Tive de procurá-lo. me encarou séria. Ficamos rodando de carro pela cidade. não seriam cento e setenta e cinco mil dólares. Tudo bem. Enfiou a carta na mala. Mas não podia descrever o conteúdo da mala. me tirasse do círculo (“que parassem de girar!”). eu topava qualquer ‘serviço’. Eu daria uma parte pra ele. Porque seria mais uma mala. Como flashes.baixelivro. Ele me entregou pra polícia. procurou em mim alguma resposta e não encontrou. Lógico que matou. Me convenceu a ficar com a grana. Olhou. Foi horrível.. Ela continuou: — Me esqueci desse maldito número. “Vem muito brasileiro pra cá depois de uma campanha eleitoral”. — Curiosidade mata. Desde o começo. Ficou confusa entre a comoção e a desconfiança.. Qual é o número? Peguei a chave e vi: 166. da faca alisando sua barriga. já que precisava de um passaporte.com . me veio a lembrança de suas mãos amarradas.Bala na Agulha . o que veio fazer aqui? Curiosidade.. Achou que eu estava mentindo. — E o que aconteceu depois que levei a chave? — Descobrimos quando estávamos arrumando o quarto com o corpo da menina. Eu não conseguia 121 Grupo Baixe Livro http://www.. Depois. Quando planejou o golpe? — perguntei. Fale. Peguei minha espada do bolso e devolvi: — Esta carta é sua. Não imaginava que você fazia esse tipo de ‘serviço’. Por que tantas perguntas? Vamos. Tínhamos pressa.Marcelo Rubens Paiva Se sabe de tudo. Fugimos. entrevistado pela TV. uma resposta. Ouvimos tiros. Mas e daí? Eu já pensava em renunciar a este estilo de vida. — Você o matou? Parou o que estava fazendo e olhou pela janela. Reclamei a perda da chave. Por que não fugi com a grana? Dei um sorriso sem responder. do seu corpo vulnerável. ele dizia. Marcos ficou louco. das pernas nas minhas costas. Eu poderia ter dito que me prestei ao ‘serviço’ depois de conhecê-la no restaurante. Mas isso não faria a menor diferença. Passou a arrumar suas coisas numa mala de viagem. num fundo falso de um armário. lembrou de um tempo que já passou. Procurou no meu pai.

mas que é só da boca pra fora. nessa paz! Aquele dinheiro é meu. Era para eu depositar para ele. Passou a desconfiar dos amigos. Ele mudou depois que foi eleito. me colocando contra a parede. E já estava me enjoando. O dinheiro era dele.. O poder subiu à cabeça. mas era como se tivesse dito. como se entregasse uma nota a uma puta. Me deu o dinheiro como uma gorjeta. — Por que não fugiu desde o início. Eu não iria esperar. Era um homem muito charmoso. Ele tinha de pensar que eu tinha sido morta. anos atrás? Foram direto te revistar e você estava com tudo em cima.Bala na Agulha . por pouco tempo. Foi preso em flagrante. em Paris. Caiu do cavalo. — Não durante o mandato. Assistimos ao encerramento da entrevista com o primeiro-ministro. num telefone público. respirei fundo.Marcelo Rubens Paiva distinguir a mentira da verdade. Por que mataram a menina? Porque eu tinha dois gorilas comigo.. Olhei pela janela. Eu te denunciei. Estou sendo procurado em todo o país. Ficou dois anos. seu cachê. passou a perna nele e ficou com o dinheiro. Os cinco milhões serviam para me testar. Vinte mil quilômetros fugindo. a pedido do seu pai. Porque seu pai iria me perseguir a vida toda. Me jogou uma mala cheia de dinheiro. uma. Eu não sabia onde você estava. —Você tem todos os motivos para odiá-lo. No entanto. e era fascinante. ele entrou pra política e teve de carregar essa mancha.. com um senso de justiça que beira a histeria. Voltou e parou era frente à TV. Por que torturaram a menina? Era uma mensagem para ele pensar que me torturaram por causa da grana. Mas não.. Desliguei a TV. que não era político na época e que queria ver você preso. se ainda era de confiança. Chega de falar nisso! Como chega de falar nisso?! Minha vida quase foi pro buraco. Isso você nunca vai entender — pausa. Deu certo.. para aprender a lição e ser deportado para ter uma vida normal em São Paulo. e você aqui.com .. Não estava num envelope? Não tinha o timbre deste hotel no envelope? Você não me achou por causa disso? Eu pensei o mesmo que você. um pagamento pelo que passamos. Não foi uma coincidência a polícia invadir aquele café. Não se sinta ofendido com a comparação. Você não aprendeu a lição. Era o preço do meu silêncio. Seu pai é um grande homem. Você levou minha chave. três vezes. Irritado. “Toma. — Está com saudades? — provoquei. — Agora me responde: Em que país um primeiro-ministro se separa da mulher para se casar com a secretária? — perguntou. Foi o grande homem da minha vida. para ele saber que outras pessoas sabiam da grana. Derrubei a TV. vê se não me enche! 122 Grupo Baixe Livro http://www. quando estava em Miami? Por que toda aquela encenação do estupro? Por que mataram uma menina? — Você se parece com ele. Ele queria saber até que ponto eu ainda estava ligada nele.baixelivro.. Você nunca se perguntou se alguém tinha te dedado? Eu estava do outro lado da rua.. mas torcia para você guardar a chave e me encontrar. Passou a manipular as pessoas. Continuava o enigma Mona. até você entrar algemado no carro da polícia.. narrando pro seu pai o que acontecia. E eu era louca por ele.” Não disse isso. duas.. Agora.

Acabam as acusações contra mim. Você vai ter que me dar licença. Todas às noites. E Álvaro Turco? — perguntei. Faço um acordo com a promotoria em troca da minha absolvi Ela... Os cinco milhões estão depositados numa conta em nome de Tise Sarraga. Nem uma semana.com . joga seu corpo sobre o meu e ameaça: Vou usar esta faca se não colaborar! Amarra meus braços na borda da cama. Eu esperneio. Se não aparecesse.Bala na Agulha . 123 Grupo Baixe Livro http://www. Consigo gritar. mãos amarradas. Fui até o telefone. veio até mim. pernas nas minhas costas. Mas fui duas vezes mais. Iria voltar pro Brasil? — Talvez. Até que você foi rápido. Posso te entregar pra polícia. Tudo o que nos pertence está neste nome.. Pensei nisso. corpo vulnerável. barriga. faca alisando. amarra a extremidade da corda num dos meus pulsos. Iria voltar pro meu pai? Você não entendeu. Tirei-o do gancho e ameacei: — Estou indeciso. Deve estar escondido. Fico esperando qual dos dois vai fugir primeiro. Antes de morrer? Seus olhos nos meus. Teu pai tentou me comprar com aquela grana. mesmo sufocado pelo lenço preso na boca..baixelivro. se cagando de medo: ele atirou em dois tiras. Como você roubou o passaporte da empregada de Marcos? Foi ele que me deu. Não sei. Ela ficou apreensiva. Me encarou: o olhar. Ficou encarregado de te seguir e fazer você ver a cabeça. Ela me chama e me manda deitar no chão. Eu iria ficar aqui mais uns dias. Coloca uma mordaça na minha boca. Então vamos no meu. Não sei o que vai nos acontecer. Foi apagando as luzes.Marcelo Rubens Paiva Você foi esperto. eu iria me mandar e esquecer com muita raiva os cinco milhões. Me coloca na cama.. Lugar? Que lugar? Que hora?. pôs o telefone no gancho e perguntou: No seu carro ou no meu? Eu não estou de carro. Ela está me chamando. Voltaram os flashes. aquele maldito olhar. confiante. Inventar uma história qualquer e ressuscitar.. Me arrasta para o quarto. Talvez não fujamos nunca. a mesma coisa.

me lambe. Tira minha roupa. Mas na maioria das vezes não.Marcelo Rubens Paiva Quer que amarre seus pés? Às vezes eu quero.baixelivro. Bem. Passa a faca no meu corpo. me lambe. você sabe. 124 Grupo Baixe Livro http://www.. Me lambe..Bala na Agulha .com .