You are on page 1of 13

17

INÍCIO

DA

PRIMEIRA JORNADA
O Autor indica a razão que levou a agruparem-se, para conversar, certas personagens que não tardarão a aparecer. Depois, sob o principado de Pampinea, cada uma destas personagens aborda o assunto que mais lhe interessa.

Todas as vezes, amáveis leitoras, que, devido a reflexões íntimas, considero a que ponto o vosso sexo é naturalmente sensível, penso que o presente trabalho começará por vos causar uma impressão dolorosa. A peste mortal, hoje terminada, mas cuja recordação é tão custosa para aqueles que viram ou souberam das devastações que ela fez, tal é, com efeito, o frontispício do meu livro. Mas não desejava eu que o susto vos impedisse de continuar. Não creiam que esta leitura vai decorrer em lágrimas e suspiros. O pesadelo do princípio? Imaginai uma montanha cujas escarpas tenham surgido diante dos viajantes; junto dela, porém, há uma planície tanto mais bela e sedutora quanto maior for o cansaço da subida e da descida. E assim como à dor sucede o prazer, também as misérias se dissipam quando a alegria chega. A este breve anojamento (chamo-lhe breve porque ocupa poucas linhas) sucedem-se logo a doçura e o prazer que acabo de vos prometer e que o princípio, sem este compromisso da minha parte, não vos permitiria esperar. Ah, se honestamente eu vos pudesse conduzir aonde desejo, seguindo por uma estrada diferente do difícil atalho que vos proponho, fá-lo-ia de boa vontade. Mas como havia eu, sem esta relação, de vos explicar a origem do que seguidamente se lerá? É, pois, sob o império da necessidade que me determino a este prólogo. Já tinha chegado o ano de 1348 da fecunda encarnação do filho de Deus, quando a cidade de Florença, nobre entre as mais famosas da Itália, foi vítima da mortal epidemia. Fosse a peste obra de influências astrais ou a conseqüência das nossas iniqüidades e que Deus, na sua justa cólera, a tivesse precipitado sobre os homens, como punição dos seus crimes, a verdade é que ela se havia declarado alguns anos antes nos países do Oriente, onde arrastara para a perda inúmeras vidas humanas. Depois, prosseguindo a sua marcha sem se deter, propagou-se, para nosso mal, na direção do Ocidente. Todas as medidas sanitárias foram sem efeito. Por mais que os guardas especialmente encarregados disso limpassem a cidade dos montes de imundície, por mais que se proibisse a entrada a todos os doentes e se multiplicassem as prescrições de higiene, por mais que se recorresse às súplicas e às orações que se usam nas procissões e àquelas, de outro gênero, de que os fiéis se desobrigam para com Deus, nada deu resultado. Logo nos primeiros dias primaveris do ano a que me referi, o terrível flagelo começou, de maneira surpreendente, a manifestar as suas dolorosas devastações. Mas não foi como no Oriente, em que o fato de sangrar pelo nariz era o sinal evidente de uma morte inelutável. Na nossa terra, no início da epidemia, quer se tratasse de homens ou de mulheres, produziam-se certos inchaços nas virilhas ou nas axilas: alguns desses inchaços tornavam-se do tamanho de uma maçã vulgar, outros como um ovo, outros um pouco maiores ou mais pequenos. Chamava-se-

como a muitas outras coisas. morto pela epidemia. mas geralmente sem febre nem qualquer perturbação aparente). era este o meio de se conseguir a própria salvação. e continuava a sê-lo. No pensamento íntimo de cada um. Dois porcos tropeçaram neles – é o costume desses animais – e começaram a despedaçá-los com os dentes e com as patas. pânicos e obsessões de diferentes espécies. A intensidade da epidemia aumentou pelo fato de os doentes contagiarem. os bubões não tardaram. tal como o fogo quando se aproxima de uma porção de matérias secas ou gordas. seria incapaz de descobrir a origem do mal e. no seu contato diário. o que os meus olhos – acabo de vo-lo dizer – observaram um dia. Esses acidentes e muitos outros do mesmo gênero. entre outros fatos. Quanto ao tratamento da doença. mas morria num curto lapso de tempo. pois através de tais objetos logo a peste se transmitia a quem deles se servisse. no duplo domínio onde tinham aparecido de início. não havia receita médica ou remédio eficaz que parecesse bom ou desse qualquer alívio. dificilmente ousaria acreditar em tal e mais ainda escrevê-lo. tinha crescido em proporções incríveis o número dos homens e das mulheres que exerciam a medicina sem o menor conhecimento prévio. com os meus próprios olhos. digo. A sua ignorância. mas o simples contato com roupas ou o que quer que fosse que os pestíferos tivessem tocado ou manejado. como que envenenados. ei-los ambos a darem sinais de vertigem e a caírem mortos por terra sobre os trapos que. e. os sintomas mudaram e transformaram-se em manchas negras ou lívidas que apareciam nos braços. para seu mal. Tinham sido deitados na via pública os trapos de um desgraçado. quase todas as pessoas atacadas morriam. Um objeto que pertencia a um doente ou a uma vítima da peste era tocado por um ser sem relação com a espécie humana? Não só essa criatura era contagiada. mesmo que o tivesse ouvido da boca de pessoas dignas de todo o crédito. Mais tarde.18 lhes usualmente bubões. Não o houvesse eu visto. Tal como o bubão que fora de início. os indivíduos ainda sãos. de umas vezes grandes e separadas. nas coxas ou em qualquer outra parte do corpo. A natureza do mal opunha-se-lhe? Era culpa dos médicos? Sem falar de todos os práticos diplomados. a fim de semear a morte. também as manchas o eram para aqueles em quem apareciam. . Eis. haviam arrastado consigo. o indício de uma morte certa. fizeram nascer. senão piores. que em geral conduziam à mesma atitude cruel: fugia-se ao doente e a tudo o que o cercava. a crescer indiferentemente em qualquer parte do corpo. E o que ainda propagou mais o desastre foi não só o fato de a prática com os doentes comunicar o mal e dar a morte às pessoas sãs. mas produzia-se um fenômeno muito mais surpreendente e muitas vezes verificado. de outras muito juntas e pequenas. O flagelo de que falo transmitia-se de uns para os outros com tanta força e tão naturalmente que a infecção não só passava de homem para homem. Quase imediatamente. naqueles que continuavam vivos. E. Escutem o prodígio que tenho de contar. nos três dias que se seguiam ao aparecimento dos sintomas já referidos (mais ou menos depressa segundo os casos. conseqüentemente. de lhe encontrar o remédio próprio? A verdade é que as curas eram raras.

Toda a gente podia. muitos havia que adotavam um meio termo. Formavam pois a sua brigada e viviam afastados dos outros. Para passarem deste princípio à pratica o melhor que podiam. partindo para as províncias vizinhas ou. os estranhos que lá se haviam instalado reinavam como donos. era o mais seguro remédio contra um mal tão atroz. no excesso de aflição e de miséria em que a cidade mergulhara. Achavam que entregarem-se por completo às bebidas e à licenciosidade. que se conduzia de modo bem diverso. não iria. os bens móveis e imóveis que possuíam. usando com a maior moderação comidas delicadas e vinhos requintados. e é escusado dizer que juntavam à brutalidade da sua conduta o desejo de fugir sempre e a todo o preço dos pestíferos.19 Alguns pensavam que uma vida sóbria e a abstenção de tudo o que fosse supérfluo se impunham para combater ataque tão terrível. passavam o tempo a ouvir música ou entretidos com outros prazeres castos. a . outras várias especiarias. rindo e troçando dos mais tristes acontecimentos. Ao lado dos indivíduos que praticavam os dois tipos de vida a que me referi. atacar as iniqüidades dos homens e. o prestígio e a autoridade das leis divinas e humanas esboroava-se e abatia inteiramente. não se preocupavam a não ser consigo próprios. porque a atmosfera parecia corrompida e envenenada pelo cheiro horrível dos cadáveres. e muitos homens ou mulheres abandonavam a cidade. andarem galhofando pela cidade. fugindo a todo e qualquer deboche. agir segundo os próprios caprichos. Levavam-nas por vezes às narinas e consideravam excelente preservar o cérebro aspirando perfumes. Em vez de se fecharem dentro de casa. peso e medida e segundo as suas necessidades. bebendo sem conta nem medida. De resto. Os guardas e os ministros da lei estavam todos eles mortos. Alguns manifestavam mais crueldade. uma vez desencadeada. circulavam pelos arredores. nem por isso se abandonavam aos excessos de bebida e ao deboche dos segundos. tendo nas mãos umas vezes flores. Julgariam que a cólera de Deus. Nessa convicção. pois. Mas era ainda pior nas casas particulares se julgavam lá encontrar matéria para prazer ou distração. recusando-se a ouvir qualquer notícia vinda do exterior a respeito de morte ou doenças. ou tão desprovidos de auxiliares que qualquer atividade lhes era interdita. os parentes. dos doentes e dos medicamentos. mas talvez mais prudência. Se seguir um ou outro método não fazia as pessoas morrerem por força. andavam dia e noite de taberna em taberna. infelizmente. porém. nada era mais fácil. pelo menos. de canções nos lábios. Menos preocupados do que os primeiros em se restringirem a comer pouco. satisfazerem as paixões na medida do possível. para os arredores de Florença. Diziam que a garantia mais segura contra os germes do mal era a fuga. Gente havia. outras ervas aromáticas. A maior parte das casas caía no domínio público. onde quer que eles estivessem. se limitaria a abater aqueles que tinham ficado dentro dos muros da cidade? Talvez pensassem que ninguém lá ficava e que a última hora de Florença tinha chegado. armada desse flagelo. Agrupados e reclusos em casas onde não havia doentes e onde a vida era mais agradável. Todos perdiam a esperança de viver e deixavam ao abandono tanto os seus bens como a sua própria pessoa. doentes. E assim. Utilizavam tudo com conta. não deixando ninguém falar-lhes.

Estavam pois abandonados e definhavam por todo o lado. primas ou vizinhas de um morto. o número de serviçais não aumentara e todos eles. O desastre pusera tanto horror no coração dos homens e das mulheres que o irmão abandonava o irmão. Quaisquer que fossem os princípios seguidos. pelo preço que um serviço lhes valia. tinham maneiras rudes e não possuíam. Em conseqüência de os doentes não receberem os cuidados apropriados e de a epidemia não deixar de se desenvolver. É provável que isso desse depois origem. e sob o efeito da necessidade. Bem raras eram aquelas a quem não faltavam as dolorosas lamentações e as lágrimas . apesar dos convidativos salários. Era uso – uso este que ainda persiste em nossos dias – que as senhoras. Em seu lugar. ao ser sua testemunha. os vizinhos e muitos outros burgueses agrupavam-se com a família em frente da casa mortuária. Porém. todas as partes do seu corpo. talvez pudessem ter sido salvas. estabeleceu-se uma prática até então desconhecida. Eles próprios. naquelas que se curavam. a costumes mais dissolutos. Finalmente. e em qualquer parte. Os padres apareciam também. muitos eram atingidos. Muitas pessoas morriam sem ter à sua volta numerosa assistência feminina. a fim de juntar as suas lágrimas às dos parentes mais próximos. a irmã o irmão. Esses abandonos causavam a morte de muitas pessoas que. estabeleceram-se outras. Qualquer que fosse a elegância. E até – o que é ainda mais forte e quase inacreditável – os pais e as mães evitavam ir ver e auxiliar os filhos. eram raras e feitas de longe. parentes e amigos abandonavam os doentes. carregavam o homem aos ombros e transportavamno para a igreja que ele escolhera antes de morrer. se reunissem em casa dele. esta não tinha o menor escrúpulo em ser tratada por um homem. Muitas morriam mesmo sem testemunha. Devo acrescentar que os cidadãos fugiam uns dos outros e que ninguém se preocupava com os vizinhos? As visitas entre parentes. como se já não lhes pertencessem. Mas quando a epidemia começou a manifestar a sua violência. estabeleceram-se. a beleza e a categoria social de uma dama atingida pela doença. e como os criados se tornavam raros. ainda se encontravam criados. Como os vizinhos. o tio o sobrinho. Por outro lado. As suas funções limitavam-se a dar aos doentes o que eles pediam ou a assisti-los na hora da morte. corriam freqüentemente para a própria perda. Depois. Mesmo assim. as pessoas da mesma condição. costumes completamente diferentes dos antigos. sem a menor vergonha. na sua maior parte. Seduzidos pelos ordenados enormes com que lhes alugavam os serviços. conforme a categoria social que o defunto tivera. tinham dado o exemplo aos que continuavam sãos. entre os que sobreviviam. mais ainda. fosse ele quem fosse. muitas vezes mesmo a mulher o marido. nenhuma prática doméstica. tais práticas cessaram totalmente ou em grande parte. antes de caírem doentes. novo ou velho. o número de cidadãos que morriam noite e dia era tão elevado que se ficava espantado ao ouvi-lo e. homens ou mulheres. tal como teria feito a uma mulher. Os doentes dos dois sexos – e o seu número era incalculável – não tinham outro apoio que não fosse a caridade dos amigos (mas bem poucos foram privilegiados nesse ponto!) ou a avareza dos criados. e de lhe mostrar. quando aconteciam.20 verdade é que ninguém escapava ao seu destino. socorridas a tempo.

dois ou três irmãos. Não se afastavam do bairro e todos os dias caíam doentes aos milhares. Como não tinham quem as socorresse nem as servisse. não à igreja que o defunto designara antes da morte. A gente humilde. Com o auxílio dos gatos-pingados. Tudo regorgitava desses cadáveres e dos cadáveres dos outros homens que por toda a parte morriam. se bem que mortas em casa. Se o pedido ficava sem efeito. Mais de um caixote serviu de transporte comum a dois ou três. Quatro ou seis padres seguiam à frente. se possível com o auxílio de alguns carregadores. e muitas outras. mas não sei de que espécie de coveiros vindos da ralé. transmitiam aos vizinhos o anúncio de sua morte. pelo cheiro infecto da sua carne corrompida. E aquilo que a vida normal e a fraca cadência das nossas desgraças não ensinara nem aos homens mais avisados a suportar despreocupadamente. encontravam sete ou oito. que acompanhavam um enterro munidos da sua cruz. ou qualquer par deste gênero. de resto. pai e filho. que. de pessoas distintas nem de burgueses cotados. curvavam-se em geral de bom grado aos novos usos. O acontecimento tornara-se tão banal que o desaparecimento de uma pessoa preocupava tanto as outras como hoje o desaparecimento de uma cabra. Mas nem por isso os desgraçados tinham a honra de lágrimas. ditavam em geral aos vizinhos a seguinte atitude: eles próprios. Não se tratava. punham o mais depressa possível o caixão na primeira sepultura vazia que encontravam. está claro. ensinou os espíritos mais simples a não ligar às coisas grande importância.21 amargas dos seus. Algumas delas expiravam de dia ou de noite na via pública. E bem raros foram sendo aqueles cujos corpos eram acompanhados à igreja por dez ou doze vizinhos. colocava-se o corpo sobre um quadrado de madeira. que às vezes faltava por completo. Com a multidão de cadáveres de que já falei. instalavam-se o riso e as brincadeiras de um grupo a quem a festa estonteia. e sem se dar ao trabalho de um ofício demasiado longo ou solene. tanto como a afeição de que certos defuntos eram por vezes rodeados. Depois mandavam vir os caixões. às vezes mais. Em troca. tiravam os corpos das casas e expunham-nos diante das portas. brandindo um magro luminar. Quem circulasse nessas paragens – sobretudo de manhã – encontraria uma considerável quantidade deles. A pobreza (ou então qualquer vaga esperança de assim se salvarem) retinha em suas casas a maioria dessas pessoas. e talvez uma grande parte da classe média. aproximadamente. As mulheres esquecidas da sua piedade natural e ciosas da própria saúde. O terrível perigo que a putrefação dos corpos trazia consigo. como então se viu. o espetáculo de uma miséria infinitamente mais dolorosa. Pegavam no caixão e transportavam-no rapidamente. cujos transportes convergiam todos os dias e quase a todas as horas para todas as igrejas. lamúria ou cortejo. Também era freqüente que as mesmas tábuas contivessem marido e mulher. que se tinham arvorado gatos-pingados e cujos serviços eram pagos. morriam. conseguiu-o a amplidão da catástrofe. sem redenção. Quem poderia dizer quantas vezes dois padres. mas geralmente à que ficava mais perto. porém. foram seguidos por três ou quatro caixões levados pelos carregadores? Quando os padres julgavam ter um só morto para sepultar. os cemitérios tornaram- . oferecia.

o rendimento dos rebanhos e das terras e de tudo o que necessita de trabalho prévio. de senhores e de damas. A fim de não passar uma revista pormenorizada por todos os males que então sobrevieram na cidade. sem que um pastor sequer tivesse para isso levantado a voz. pois. em conseqüência do medo que inspirava às pessoas saudáveis. Tolhidos. Daqui em diante abster-me-ei de abordar qualquer assunto a respeito do qual possa fazer silêncio. os burros. sobretudo quando seguindo o uso antigo. Estando. comiam bem durante o dia e à noite regressavam à herdade. os gansos e até mesmo os cães. os porcos. por assim dizer. pensando no dia seguinte. os bois. às centenas. por uma indiferença que não era inferior à dos habitantes da cidade. Em conseqüência disto. tal como os seres racionais. Nos lugarejos dispersos pela planície. que se calcula com segurança em mais de cem mil o número de homens que perderam a vida dentro dos muros da cidade de Florença. nos campos ou nas casas. viram desaparecer todos. nem criados com cujo auxílio se pudesse contar. aos quais não só a Faculdade mas Galeno. as cabras. despovoada. aconteceu que – segundo o relatório que me fez uma . para onde se atiravam. um lugar próprio. abandonada numa indigência tal. deixavam de cuidar dos seus bens. talvez ninguém calculasse que a nossa cidade tivesse tal quantidade de gente. Não falemos das aldeolas que eram como que cidades mais pequenas. os recém-chegados. a nossa cidade reduzida a tal extremo e. não como seres humanos mas como animais. Quantos grandes palácios. os mais fiéis companheiros do homem. as ovelhas. foi tão rigorosa. a epidemia grassou de março a julho com tanta violência. se queria dar a cada um deles. e longe de favorecerem. não havia socorro médico. direi que esses dias para ela tão desastrosos não pouparam sequer os campos limítrofes. se faziam valas muito profundas. os camaradas e os amigos. ou mesmo. Muitos desses bichos. quantas mansões imponentes. segundo a própria fantasia. tomaram a refeição da manhã com os pais. eram expulsos das suas próprias habitações e erravam. para à noite se sentarem. Do mesmo modo que nos flancos de um navio se empilha a mercadoria em camadas. pelos campos (cujos trigos ainda não haviam sido ceifados. quantas habitações outrora cheias de criados. até ao seu mais humilde servidor! Quantas famílias ilustres. Mas deixemos o campo e regressemos à cidade. cobriam-se esses cadáveres com uma pá de terra e logo outros para lá se botavam. quantas belas casas. nem mesmo mondados). belas damas e jovens graciosos. Hipócrates e mesmo Esculápio teriam passado um atestado de saúde robusta. dir-se-ia que todos os dias esperavam pela morte. já nos cemitérios contíguos às igrejas. até chegarem à superfície do solo.22 se insuficientes para as sepulturas. a cear com os antepassados! Mas eu próprio sinto alguma repugnância em vos contar pormenorizadamente tantas misérias. os desgraçados camponeses e as suas famílias morriam noite e dia. Fosse nas estradas. nas práticas diárias da vida. uma multidão de doentes foi tão mal socorrida. quantas fortunas famosas ficaram privadas de herdeiros legítimos! Quantos nobres senhores. Antes do sinistro. Que poderá dizer-se mais? A crueldade do céu e talvez a dos homens. Como todas as tumbas estavam cheias. no outro mundo. não pensavam senão em dilapidar os ganhos até então adquiridos.

Receio igualmente dar pasto aos invejosos. compreendo. nos conferem até essa faculdade. usavam como ornamento a graça e a harmonia. Vou. Ora se as leis. em quinto lugar. na verdade. Explico-me: não desejo que. evitar toda e qualquer confusão. tomarmos. Ora qual é o grande princípio da Natureza? Na medida das suas forças. Vestidas com os trajes de luto que eram habituais em tais circunstâncias. todo aquele que vem ao mundo favorece. mas o acaso. a nós e a todas as outras pessoas. mas o que. Dotadas todas elas de instrução e nobreza e sendo muito belas. À primeira e mais velha de todas elas chamaremos Pampinea. Cessaram de recitar os padre-nossos. umas com as outras. tal como eu. tão preocupadas em assegurar a felicidade comum. à terceira Filomena e à quarta Emília. obviamente. que as reunira num canto da igreja onde os seus bancos formavam como que um círculo. mais lícito nos será. e vós podeis compreendê-lo igualmente. Todos estes nomes. enfim. Dir-se-ia que estamos somente aqui com o desejo e a perspectiva de podermos dizer em seguida quantos mortos aqui se enterraram ou para escutar se os frades da capela – e o seu número reduziuse a quase nada – cantam o seu ofício no momento prescrito. um dia. escutaram o ofício divino e reuniram-se em grupo. deveis ter ouvido dizer muitas vezes que a aplicação judiciosa do nosso direito não pode prejudicar ninguém. Não estou absolutamente nada surpreendida com tal coisa. há quem tenha morto outras pessoas para se preservar a si próprio. Unia-as a todas a amizade.23 pessoa fidedigna –. e sem cometer nenhum crime. porém. certa terça-feira se encontravam na venerável igreja de Santa Maria Novella1. no meio do silêncio das outras. sempre prontos a denegrir as ações dignas de elogios e a rebaixar a honra das damas nobres com palavras caluniosas. De resto. as precauções que nos for possível tomar. me espanta (porque. que cada uma de nós tem medo por si própria. Em conseqüência do que contei. à segunda Fiammetta. pesando o sentido e a qualidade das nossas palavras. muitos comentários sobre os acontecimentos. não fora um propósito deliberado. tenciono dar-lhes um nome que convenha totalmente ou em parte ao seu caráter. qualquer delas possa sentir-se envergonhada com o que vou dizer e com o que ides ouvir a seu respeito. Neifille em sexto e Elisa em último. mas uma razão válida me obriga a calá-los. Pampinea. ou para que o nosso . quando ali não havia outros fiéis. a da legítima defesa. soltaram profundos suspiros e entraram a fazer. a vizinhança ou o parentesco. Para facilitar a compreensão do que cada uma delas dirá. começou a falar: – Minhas queridas amigas. Ao fim de algum tempo. sete jovens damas. para preservarmos nossas vidas. As leis do prazer são hoje encaradas com certa severidade. por vezes. Nenhuma delas passara ainda os vinte e oito anos e a mais nova não tinha menos de dezoito. mantém e protege a sua própria existência. todas temos reações de mulheres) é que nenhuma de nós procure uma diversão para tão justificados receios. Seguir-seão Lauretta. De boa vontade vos diria os seus verdadeiros nomes. E isto é uma verdade tão reconhecida que. essas leis eram singularmente largas e não só para as jovens dessa idade mas também para as pessoas mais maduras. repito-o são justificados. ainda. Examinando bem o que fizemos hoje ou nos dias que acabam de passar.

da má conduta cujo modelo vemos nos outros. só se ouviriam por toda a parte. Podemonos ir embora e passar algum tempo bem e honrosamente nas casas de campo que todas nós possuímos. sós ou em grupo e tanto de dia como de noite. julgando fugir assim aos males e lançam-se no deboche e na dissolução. segundo creio. somos nós. quaisquer que sejam as salas que atravesso ou aquelas em que estou. visto os executores da justiça estarem doentes ou terem morrido. colham o prazer que mais atrativos lhes oferece. que loucura é a nossa? Sempre que nos quisermos recordar do número e da qualidade dos homens ou das mulheres segados na flor da vida por este cruel flagelo. Tanto mais que. uma queda em que. os seus gemidos de dor. todo o . adotar o nome de coveiros. é para ver criminosos darem livre curso à sua impudente audácia. asseguro-vos. e. Mas sereis da mesma opinião? Parece-me indicado seguirmos o exemplo que muitos nos deram e continuam a dar-nos. Não vamos dar. a crueldade e o número das nossas desgraças. As que vivem fechadas nos claustros começam a achar que é normal gozar como os outros. ficardes na igreja. Fujamos. que a todas nos afligem. à mistura com as pragas e com os risos da escumalha. Já não têm o seu rosto habitual. como da morte. sou tomada de medo. Nesses lugares há um único grito: estes morreram. veremos claramente o erro em que estamos a cair. que insultam as nossas desgraças. que temos então nós que fazer na cidade? Por que esperamos? Que sonho perseguimos? Por que somos mais lentas e preguiçosas a velar pela nossa salvação do que o resto dos cidadãos? Julgamos valer menos do que todos os outros? Acaso as cadeias com que os corpos estão ligados à vida têm em nós mais solidez do que nos outros e autorizam-nos a desprezar tudo o que teria a força de nos atacar? É um erro. aos olhos de quem quer que se nos mostre. mas que se riem dessa própria lei. Em face de exemplos tão impressionantes. meios para partir e um retiro possível. cantando refrãos desonestos. os nossos próprios esforços sejam impotentes para nos levantar. Libertas de toda e qualquer obediência às leis. Se tal é o nosso sentimento. parece-me ver a sombra de todos os meus mortos. sem fazerem já nenhuma distinção entre o bem o mal. Enganamo-nos. mas um aspecto horrível. sinto todos os cabelos em pé. é para ver a escória da cidade engordar com o nosso sangue. Receio bem – e já houve por mais de uma vez quem mo garantisse – que os raros sobreviventes. Se saímos da igreja é para ver transportar à nossa volta doentes e mortos. na alegria e no recreio. dedicam-se às voluptuosidades carnais. de todas as pessoas que têm. aqueles vão morrer. não encontrando da minha criadagem uma só mulher. que lhes veio recentemente não sei de onde que me gela de pavor. impelidos somente pelo instinto. cavalgar e correr por toda a parte. Experimentemos colher. para maior ultraje. De regresso a casa (acontece-vos o mesmo?). por excesso de pudicícia ou de orgulho. como nós temos. isto é. É um erro. pessoas que já foram condenadas ao exílio pelo rigor da lei. Se muita gente mais tivesse sobrado para chorar. abandonarmos estes lugares. fora da igreja ou em vossas casas. E não falo só das pessoas do século.24 luto testemunhe. as únicas que ficamos. aconteça o que acontecer.

devessem pôr-se imediatamente a caminho. e a sua incapacidade de se governarem. Quanto a solicitarmos de estranhos companhia. na verdade. segundo penso. Se bem que os camponeses morram tanto nos campos como os cidadãos aqui. sente-se lá menos angústia. vêem-se planícies e colinas cobrirem-se de verdura. ficarem em condições suspeitas. para muitas outras. porque as casas e os habitantes são menos densos do que na cidade. quando a direção masculina lhes falta. e de uma maneira menos digna do que seria de desejar. Mas Filomena. Será bom tomarmos providências. Sem a ordem que eles fazem reinar. devemos manter o maior equilíbrio. considerando bem as coisas. como dir-se-ia que ides fazer. no dia seguinte além. enfim. que não é menos conveniente para nós partirmos honestamente daqui. por mais caretas que faça. como se não lhes pertencêssemos. levamos as nossas criadas e a bagagem necessária. ao desgosto e talvez à morte. tinham mesmo começado a discutir os pormenores mais ínfimos da viagem. os que ficaram vivos. Se ansiamos pela nossa salvação. tal não seria decente. Nenhuma de nós é bastante criança para desconhecer o pouco bom senso que mostram as mulheres quando abandonadas a si próprias. sem mais nem menos. Os trigais ondulam como o mar. Mas todas sabemos demasiado bem que a maior parte dos nossos morreram. desconfiadas. Disse então Elisa: – Sim. se só obedecermos às nossas próprias iniciativas. Lembro-vos. não façamos nenhuma mudança neste plano. Há árvores de mil variedades e o céu. apesar de as palavras de Pampinea serem muito sensatas. como se. os homens são na verdade a cabeça das mulheres. Há mais possibilidades de encontrar as coisas necessárias à vida nos dias que atravessamos. os nossos deixaram-nos no meio desta calamidade. até ao dia em que virmos que solução o céu reserva aos acontecimentos. por fugir daquilo que é objeto da nossa própria fuga. . receio que este grupo se dissolva prematuramente. Lá. um dia aqui. As demais damas aplaudiram o conselho que acabavam de ouvir. não recusa aquele esplendor de eterna beleza cujo espetáculo é mais sedutor do que os muros vazios da nossa cidade. Por isso. Não esqueçais que todas nós somos mulheres. antes de começarmos. e há lá menos aborrecimentos. Se concordais comigo. Os outros. nos podíamos considerar abandonadas. extravagantes. A nossa decisão não pode pois valer-nos uma única crítica. De resto. não abandonamos ninguém: nós é que. advertiu: – Minhas amigas. não sabemos onde. gozemo-nos da alegria que os tempos presentes ainda nos podem dar. Se a morte não nos atingir antes disso. levantando o cerco. pusilânimes e medrosas. para que os aborrecimentos e as discussões não nos sigam até aos lugares aonde vamos procurar distrações e repouso. é raro as nossas tentativas terem bom fim. não há razão para partirmos já. Se não a tomarmos. andam por aqui e por além.25 prazer que não ultrapasse os limites da razão. aderem a várias brigas e esforçam-se. ouvem-se cantar os pássaros. No seu desejo de a ele se conformarem. O ar também é mais fresco do que aqui. Somos incertas. É. do que. arriscamo-nos à dor. a melhor maneira de agir. Morrendo ou fugindo da morte. que era a própria prudência.

parente de um deles. Todos eram homens simpáticos e honestos. haviam podido. foi resolvido por unanimidade fazer sinal aos recém-chegados. soframos censuras e críticas. concordaram com alegria. Quando viram que a dama falava verdade. acompanhando-as na viagem. que era uma quinta-feira. Mas é bem sabido que algumas de nós são o objeto dos seus pensamentos. Nem a dureza dos tempos. – Que importa? – disse então Filomena. andavam em busca – consolação suprema! – das damas a quem cortejavam e que se encontravam precisamente entre as sete a que nos referimos. No dia seguinte. as sete amigas. saíram da cidade ao romper da manhã e puseram-se a caminho. Eis na nossa frente três jovens de valor e senso reconhecidos. Ordenaram os preparativos necessários e enviaram. São muito capazes de oferecer boa e nobre companhia. que se apressassem a testemunhar-lhes uma pura dedicação fraternal. Mas Neifile. Os dois grupos avistaram-se no mesmo instante. deixo falar quem fala! Deus e a verdade serão os meus campeões. E. anunciou-lhes o que acabavam de resolver e pediu-lhes. a sua inclinação para o amor. Na verdade. – Se vivo honestamente e se a minha consciência de nada me acusa. o mais novo dos quais não teria. Então Pampinea começou a dizer. levantou-se e foi ao encontro dos três jovens. Mal tinham percorrido duas milhas fora dos muros. pô-los ao corrente do que se passava e solicitar a sua companhia para a expedição projetada. . em todo caso. o segundo Filostrato e o último Dioneo. por Deus. menos de vinte e cinco anos. presta atenção àquilo que dizes! Sei perfeitamente que só há bem a dizer desses jovens. não só a nós mas a pessoas de muito maior valor e beleza. Saudou-os com um sorriso nos lábios. Então Pampinea. nem a perda dos amigos e parentes.26 Enquanto as damas trocavam entre si tais palavras. Assim os nossos amigos estejam dispostos a vir conosco. antes mesmo de abandonarem a igreja. nem a angústia que sentiam por si próprios. entraram na igreja três jovens. nem mesmo tornar vacilante. como o empreendimento não devia sofrer o menor atraso. apesar da nossa inocência e da sua. Não falo no parentesco que podia uni-los a algumas delas. em nome de todas. que estacaram à vista das suas amigas. considero-os dignos de empresas mais importantes do que a nossa. chegaram ao termo que primeiro se tinham proposto atingir. uma mensagem com instruções para o local onde deviam instalar-se. Não acrescentando nada mais. Os três jovens pensaram primeiro que estavam sendo joguete de uma mistificação. entretanto. como disse Pampinea. cujo pudor lhe tingia o rosto de cor-de-rosa (porque o seu apaixonado era um dos três jovens). disse: – Pampinea. E. Mais ainda. Eles serão de bom grado nossos guias e servidores. combinaram as disposições úteis à viagem. com algumas das suas açafatas. bem podemos dizer que a sorte dá a mão ao nosso empreendimento. apagar neles. e os três mancebos com os seus criados. Tais palavras fizeram calar todas as observações. em primeiro lugar. se não tivermos repugnância em lhes confiar tal encargo. sorrindo: – A sorte está a favorecer-nos. Um deles tinha por nome Pamfilo. se os levarmos conosco receio bem que. Na confusão geral.

Assim não poderá causar inveja aos outros nem sentirá rancor por ser posto de parte. obedecido como um chefe. Leve. mais indicado para bebedores experimentados do que para raparigas sóbrias e de costumes honestos. com poços de águas frescas e caves onde se guardavam vinhos preciosos. Filomena correu para um loureiro. tomando à sua vontade todas as disposições. ervas odoríferas. nada pode manter-se durante muito tempo. tomou a palavra: – Foi o vosso bom critério. e na dignidade que elas podem conferir a quem coroam com justiça. Ora fui eu quem primeiro concebeu o projeto ao qual tão nobre companhia deve a sua razão de ser. entendo que cada um de nós deve suportar o fardo das preocupações. à hora das vésperas. que afastara de si todas as preocupações. o novo eleito. Em redor estendiam-se pradarias e jardins encantadores. todos devem estar. flores da estação generosamente espalhadas e por todo o lado. Logo que chegaram. Quanto a mim. e Pampinea foi por unanimidade a eleita do primeiro dia. no mesmo tom. Vamos viver sem ralações. Arbustos variados e toda a espécie de essências atapetavam o local com verdes folhagens agradáveis à vista. fixará o local e as condições da nossa vida. mais do que uma inspiração da nossa parte. Galerias. com que fez uma grinalda de honra. com bastante prazer. deixei tudo às portas da cidade quanto há pouco convosco as atravessei. por um dia. No alto da colina erguia-se um castelo2. A sorridente Pampinea respondeu. que aqui nos trouxe. Este discurso não poderia ter sido mais apreciado. quando deu entrada no palácio. refletindo bem na maneira de fazer durar a nossa alegria. prazer este. terá esse todo-poderoso senhor de um dia a plena liberdade de escolher. mandai-me embora! Volto aos meus pensamentos e à aflitiva estadia na cidade. creio necessário eleger entre nós um responsável. Foi mesmo esse o único motivo que nos levou a fugir às tristezas da cidade. camas feitas nos quartos. Colocou-a na fronte de Pampinea e durante todo o tempo que a assembléia durou. Mas quando todas as regras estão ausentes. ao mesmo tempo que experimenta as doçuras da soberania. salas e quartos decorados com afrescos graciosos. . que atraíam o olhar. eram outras tantas maravilhas. com um aspecto muito elegante. Se não estais prontas a brincar e a cantar comigo – na medida. mais alegre e espirituoso do que ninguém. Colheu pois alguns ramos. onde se ficava bastante longe das estradas. com um belo e vasto pátio interior.27 Era o cume de um pequeno monte. Ignoro os vossos pensamentos e os vossos projetos. o seu sucessor. Limpeza absoluta. Dioneo. Muitas vezes tinha ouvido falar no apreço que se dá às folhas dessa árvore. Quanto aos seguintes. aliás. e que não tenha outra preocupação que não seja a de nos proporcionar dias felizes. queridas amigas. eis o que a alegre companhia encontrou. sentaram-se e Dioneo. em que a nossa dignidade no-lo consente –. nesse lugar de honra. Por outro lado. Durante o seu principado. respeitado. – Muito bem dito. essa coroa foi para cada um dos titulares a insígnia manifesta da senhoria e do poder real. E. bem entendido. O voto de todos nós designará o primeiro a reinar. Na minha opinião.

a título de exemplo. onde todos se podem distrair a seu bel-prazer. os jovens. em número de quatro. as outras damas e os dois jovens esboçaram com lentidão o passo de uma “carola”. em conversações agradáveis.28 Rainha. Tomo por intendente Parmeno. entretanto. enquanto nós o quisermos. que estavam separados dos das damas. venham de onde vierem e seja o que for que vejam ou que ouçam. e Stratilia. Em seguida começaram a cantar árias langorosas ou alegres. ficam com o encargo de arranjar os quartos das senhoras e cuidar da limpeza das casas onde passaremos o nosso tempo. peço que estejais presentes. só nos tragam do exterior notícias agradáveis. disse então: – Sou a primeira a dirigir-me a vós e dir-vos-ei. vão onde forem. As damas e os jovens eram todos bons dançarinos e alguns deles peritos em música e em canto. Tindaro. A rainha ordenou que trouxessem os instrumentos. quando os criados destes. quando apeteceu à rainha. em tais prazeres mais tempo do que aquele que a rainha lhes consentira. o criado de Dioneo. prados e muitos outros lugares aprazíveis. regressaram ao palácio e verificaram que Parmeno cumprira sua tarefa com grande cuidado. compuseram lindas grinaldas de folhagem variada e fizeram ressoar canções amorosas. Chimera. embrenharam-se no jardim. as toalhas deslumbrantes de brancura. para podermos comer ao fresco. sem por isso atacar a virtude. Aí . Quando a nova rainha deu autorização ao grupo para se retirar. No silêncio geral. Manjares finamente cozinhados e vinhos preciosos foram apresentados. todos tomaram os lugares que Parmeno lhes designou. camareira de Lauretta. em companhia das suas belas amigas e dizendo coisas deleitosas. como a nossa companhia se tornará. Dioneo pegou num alaúde e Fiammetta numa viola. ficarão todo o tempo na cozinha e. e confio-lhe o cuidado e o governo da criadagem. Este passatempo durou até à hora que pareceu à rainha a do repouso. não puderem fazer esse trabalho. sob as indicações de Parmeno. Já havia convocado os servos dos três jovens e as criadas. Finalmente. Primeiro fizeram ouvir os doces compassos de uma dança. Ao entrarem numa sala do résdo-chão. Eis agora um princípio cujo cumprimento desejo e imponho: se todos querem conservar a nossa amizade. quando soar a hora de terça3. cuidarão da confecção das nossas ementas. Veio água para as mãos e. O serviço era assegurado com simplicidade e em silêncio pelos três criados. As minhas criadas Mísia e Lisisca. copos que pareciam de prata e flores de giesta cobrindo tudo. e viverá na ordem e no prazer. ocupar-se-á também dos dois outros senhores. e a criada de Filomena. viram as mesas postas. Mas. Despediu-se então de todos. criado de Pamfilo. será ecónomo e tesoureiro. ao serviço de Filostrato. às ordens de Parmeno. Sem perderem. Esta bela ordem alegrava todos os corações e a refeição decorreu com alegria. e ao mesmo tempo. A rainha. mais próspera. dia a dia. Os três jovens subiram aos seus quartos. Sirisco. A sorridente Pampinea levantou-se então: – Tendes aqui jardins. Foi levantada a mesa. A seu pedido. Pampinea pediu a todos que se calassem. retidos pelos seus afazeres. de Fiammetta. o serviço completo da sala de jantar. Estas ordens sucintas foram objeto de aprovação geral.

perante o auditório atento. com um sorriso nos lábios. Mas se a maioria não concordar. por desejo da rainha. sem que a parte contrária. Mas. que estava sentado à sua direita. é preferível não jogar. Não perdeu um momento e. O jogo tem sempre como conseqüência pôr fora de si um dos adversários. Aqui estão o tabuleiro das damas e o do xadrez e cada um de vós pode distrair-se conforme lhe apeteça. o sol terá declinado. com uma novela da sua autoria.29 encontraram camas bem feitas e por toda a parte. – Como vedes. afirmando que dormir de dia é pouco saudável. Uma leve brisa fazia-se sentir e. poderemos divertir-nos como entendermos. Nada se ouve. que desse o exemplo. nem as testemunhas. Antes de termos acabado de contar as novelas. assim como os jovens. pediu-lhe. Creio que seria uma loucura irmos agora para outro sítio. então. começou nestes termos: . se quereis seguir o meu conselho. Pamfilo ouviu essa ordem. Se fordes da minha opinião – e nisto estou disposta a seguir-vos – comecemos as nossas histórias. o sol está alto e o calor forte. onde o sol não dava por lado nenhum. todos se sentaram em círculo sobre a erva verde. Este local é encantador e cheio de frescura. pouco depois da hora de nona4 a rainha levantou-se e fez levantarem-se todas as companheiras. Pampinea tomou então a palavra. Mas se cada um de nós contasse uma história toda a assistência ficaria encantada. Acontecia o mesmo nos quartos das senhoras que se despojaram das suas vestes a fim de fruírem um pouco de repouso. Foram então para um prado de erva verde e alta. quero que nesta primeira jornada cada um trate com inteira liberdade do assunto que mais lhe interessar. voltando-se para Pamfilo. que todos. os jovens foram partidários das novelas. até à tardinha. E. e era a isso que gostaria de vos ver consagrar esta hora quente do dia. senão as cigarras sobre as oliveiras. uma verdadeira profusão de flores. tenham grande prazer com isso. – Se tal for o vosso desejo – disse a rainha –. No entanto. fará menos calor e. tal como na sala grande. se deixem arrastar pela sua fantasia. Tal como as damas.

Related Interests