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Por um ensino que deforme: o docente na pós-modernidade Durval Muniz de Albuquerque Júnior

Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Se aceitamos que a pós-modernidade é nossa condição histórica, como enunciam autores de tradição filosóficas tão distintas como Jean-François Lyotard, David Harvey e Frederic Jameson1, que estamos deixando de ser modernos, ou que jamais fomos modernos, como defende Bruno Latour2, podemos nos interrogar qual o lugar que ainda ocupam as instituições sociais que surgiram com o mundo moderno e que continuam ainda entre nós? Se aceitamos que, como enuncia Gilles Deleuze3, estamos deixando a sociedade das disciplinas, tão bem analisada por Michel Foucault4, e vivemos agora uma sociedade do controle, que papel ainda podem exercer as instituições que aquela sociedade disciplinar deu origem, a que mutações estão sujeitas para continuarem a funcionar em nossa sociedade? Se estamos em uma nova configuração histórica, a que mutações estão submetidos os lugares de sujeito, as identidades, as subjetividades, neste novo tempo e a que modalidades de processos de subjetivação estamos submetidos? Entre todas as instituições que a modernidade fez emergir, entre todas aquelas que a sociedade disciplinar proporcionou a constituição, a escola é uma das mais exemplares, entre outros motivos por ser destinada à produção de subjetividades, à produção de sujeitos, à construção e veiculação de identidades, à definição de lugares de sujeito. A escola é uma das instituições sociais da modernidade que continua existindo entre nós, nestes tempos pós-modernos. Instituição que ainda goza de prestígio social, se comparada com outras instituições modernas, como o manicômio e a prisão, cada vez mais contestados e defrontados com propostas imediatas de extinção ou reforma radical. Ainda não se imagina a possibilidade de uma sociedade sem escola, da mesma forma que achamos possível vivermos sem manicômios. Como é característica das instituições sociais, a escola, quase sempre, nos aparece naturalizada, como se sempre tivesse
LYOTARD, Jean-François. A Condição Pós-Moderna. 7 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2002; HARVEY, David. Condição Pós-Moderna. São Paulo: Loyola, 1992; JAMESON, Fredric. PósModernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. 2 ed. São Paulo: Ática, 1987. 2 LATOUR, Bruno. Jamais Fomos Modernos. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994. 3 DELEUZE, Gilles. Post-scriptum sobre as sociedades de controle. In: Conversações. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992, pp. 219-226. 4 FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. 33 ed. Petrópolis: Vozes, 2007.
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ou. a escola e com ela a profissão docente. Caberia. mas no próprio desprestígio da profissão. sociais e culturais diversas. talvez tenha antecedido o próprio desprestígio social da escola. parece estar em processo de se inviabilizar. Este desprestígio social do professor não se materializa. do ensino escolar. no mínimo. da profissão docente. Fomos aconselhados sempre a não nos aventurarmos na análise do presente. portanto. Princípio da alienação dos historiadores. talvez tenha sido um dos primeiros indícios de que a instituição escolar já não gozava da irrestrita legitimidade social que ainda se acreditava possuir. este ainda está em movimento. em todos os níveis de ensino. esta deve ser abandonada para que possamos ter uma . Nesta anunciada crise da instituição escolar. na redução progressiva de sua remuneração. da qual poderíamos apanhar uma verdade de conjunto. de perder a importância e a centralidade social que já teve. é o lugar do professor. políticas. porque este ainda está em fluxo. caberia ainda se indagar. cada vez com mais vigor. vozes de todos os lugares da sociedade enunciam a crise da escola e. como também é comum na história das instituições modernas. de ser o sujeito da formação dos alunos? Atravessada e sitiada por mudanças econômicas. um tema que se debate. Como fica o professor nesta realidade escolar que parece se tornar cada vez mais hostil às suas pretensões de ensinar. O desprestígio social do professor.existido. notadamente para nós historiadores. fechada. Questões difíceis. apenas. de valor simbólico da profissão na vida social. Tentarei neste texto esboçar algumas análises e levantar algumas possíveis respostas para estas questões. tal como foi definida na modernidade. como se não fosse pensável o seu desaparecimento. por que isto ocorre? E diante deste quadro. perguntar-se: o que provoca esta crise da instituição escolar e por extensão da profissão docente? Se a transição para uma sociedade pós-moderna implicou numa crise da escola. que seria pretensamente uma temporalidade concluída. se ainda é possível ser professor ou o que poderia ser ensinar nesta sociedade pós-moderna. nos refugiando no passado. propõem a sua urgente e necessária reforma. Ao mesmo tempo. que por muito tempo fomos treinados para ignorarmos o tempo presente. estamos misturados e implicados nele e isto dificultaria a pretensa abordagem objetiva e distanciada desta realidade. regra que facilitava a estes profissionais se tornarem agentes da legitimação justamente dos poderes do presente. como se não fosse uma criação social e histórica recente. na perda de status.

consciente de si. seja na versão romântica. a responsabilidade das famílias em relação á educação das crianças.função social que não seja a da conservação e da manutenção do status quo. pessoas que amassem a pátria. nascida do processo de governamentalização que leva o Estado a interferir. ao mesmo tempo em que prometia formar indivíduos. que amassem a espécie. a sua colocação numa perspectiva temporal. em nível dos discursos. a produzir formas de pensamento e de sensibilidade adequados à ordem social burguesa. amas. a produzir corpos treinados e hábeis. superando os mitos. governantas. os pontos de sutura. que deveria explorar as potencialidades das faculdades humanas para tornar o homem um ser superior. A escola surge como uma das instituições destinadas a disciplinar corpos e mentes.. A escola surge como local de produção de subjetividades serializadas e massificadas. a sua conexão aos devires. o estágio pré-científico de domínio do mundo e da sociedade. leva a um . A escola tinha. as superstições. seja na versão iluminista. Embora seja mantida. preceptores. A escola moderna foi ideada como uma instituição que deveria formar o cidadão burguês. as virtualidades que habitam nosso tempo. sendo capaz de torná-lo um ser livre. dono de si mesmo. A escola prometia preparar cidadãos. pois. a tarefa humanista de fazer do homem o senhor do mundo e de si mesmo. a disciplinar o próprio saber. Enunciar os pontos de fuga. cada vez mais. a escola assume tarefas que. A escola surge. pode ser uma das tarefas que ainda temos a cumprir. como uma maquinaria destinada a produzir sujeitos. que se massifica. Aí se devia transmitir o saber que iria fazer a criança sair de seu estado de menoridade e atingir o estado de maioridade. a produzir subjetividades. que estivessem dispostas a se sacrificar em nome do bem público. da natureza e da sociedade que o cercava. à medida que a sociedade se complexifica cada vez mais. as mistificações. na vida doméstica. com a entrada de indivíduos pertencentes a todas as camadas sociais. que deveria educar sob os princípios da razão. tutores. a substituir muitas das atribuições antes reservadas a pais. em nome da humanidade. em nome de sua pátria. Nascida do processo de solapamento da centralidade da família no processo de educação da criança. pelo domínio racional do mundo. A desnaturalização do presente. sua produção e transmissão. não pode mais atender. é a nossa tarefa. etc. à medida que se torna uma tarefa de Estado.

nas escolas onde o púbico é mais homogêneo quando se refere à origem social. que definiam inclusões e exclusões. Pensada como instituição disciplinadora. que decidiam o prêmio e a punição. de outra realidade social. a escola passa a viver uma crise da disciplina. valores. As atitudes de delinqüência. formas de ser. desresponsabilizando os pais de tal tarefa. o professor proletarizado vai. pensada para a formação das elites dirigentes. uma anomalia a ser cercada. Michel de. mal comportado. do espetáculo. embora desde o começo o discurso a destine ao povo. que tende a se expandir para atendê-las cada vez mais precocemente. costumes. o aluno problema. disciplinado da sala de aula. Vol. Os conflitos entre pessoas com concepções sobre o mundo bastante diversas. a escola se vê inviabilizada quando grupos sociais com valores. tal como entende Michel de Certeau5. se vê confrontada com alunos que têm comportamentos. . originários. uma instituição voltada a reproduzir e ensinar a ordem. O desnível social entre alunos e professores dará origem a uma inversão da hierarquia de poder tradicional na sala de aula. Numa sociedade da mercadoria. o responsável pela 5 CERTEAU. A chamada crise da escola pública se dá. 2000. E no meio destas mutações. o agente principal de toda esta maquinaria. A cultura escolar. hábitos. se tornam inevitáveis. seus códigos que marcavam fronteiras. Os sistemas classificatórios que imperavam na escola. quase sempre. A Invenção do Cotidiano. e não uma anormalidade. processo que atinge todas as camadas sociais.afastamento progressivo dos pais da escola e à crescente entrega da educação dos filhos ao aparato escolar. cada vez mais. atônito. principalmente. por valores de classe média. que definiam excomunhões e comunhões. do status sinalizado por símbolos externos de riqueza. seus códigos internos de funcionamento. à medida que o desprestígio da profissão atrai para ela pessoas das camadas populares. o choque vai se dar. reprimida. A escola. destoar de sua clientela. 1. Petrópolis: Vozes. apanágio de toda instituição moderna. cada vez mais difíceis de conviver pacificamente. extirpada. uma cultura marcada por valores burgueses. torna-se uma norma. Elitista em sua formulação. com os professores. no momento em que os filhos das camadas populares adquirem o direito e as condições mínimas de nela ingressar. com experiências de vida bastante diversificadas. comportamentos. Mesmo nas escolas privadas. que instituíam hierarquias. se vê tomada pela desordem. O aluno rebelde. parecem entrar em ruína. vêm cada vez mais habitar o espaço ordenado. justamente. costumes os mais diversos vêm aí se encontrar.

outra realidade comumente excluída. que deve preparar a elite dirigente que vai ocupar os postos da administração pública. Da mesma forma não podemos deixar de associar o declínio do prestígio social da profissão de professor. que a tornam um simples investimento. Este processo nós estamos assistindo nas Universidades. São Paulo: Companhia das Letras. sem que a preocupação seja primordialmente com a aquisição de saberes e habilidades. . notadamente dos homens filhos destas elites. As boas intenções definidas no projeto que deu origem à escola moderna se vêem assim atravessadas por interesses mercantis. a escola é inicialmente pensada como uma atividade inerente às atribuições do Estado. No Brasil. depende da formação de técnicos pelo ensino escolar. 2004. prover de mão-de-obra especializada as empresas capitalistas em expansão cada vez mais acelerada. que vê sua autoridade tradicional contestada. com o processo de feminilização da 6 WEBER. mas poucas vezes se diz que isto ocorreu. as escolas se tornaram lucrativo ramo de negócios. Max. a ser acessível às mulheres. Nascida do discurso humanista. que vê sua centralidade no processo ensinoaprendizagem questionada. em nossos dias. justamente. a chegar à zona rural. A burocratização do Estado moderno. Este também deve. o professor. Inicialmente pensada como uma instituição distanciada dos interesses imediatos do capital. quase sempre irrefletida e mecânica destes códigos. quando este deixou de ser voltado para a formação das elites sociais. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. em que poderosas empresas vieram atuar.aplicação. ao longo do século XX. durante muito tempo. um privilégio de classe. Pensar que só a partir dos anos cinqüenta do século XX. a dar acesso às camadas médias e alguns elementos da raça negra. do pensamento político liberal. A escola estava destinada à formação de uma dada elite que se dizia branca. a escola foi. que ali vão buscar apenas um título que lhes dê acesso ao mercado de cargos e funções no Estado. nas empresas ou nas profissões liberais. uma sociedade profundamente hierárquica e excludente. que deve ser racionalizada e gerida profissionalmente. já no começo do século XX. dá a medida do caráter excludente desta escola. o ensino começa a se massificar no Brasil. Normalmente se lamenta a perda de qualidade do ensino público no Brasil. de etnia e de gênero. como em muitos casos por parte dos próprios alunos. tanto da parte do empresário. que ainda lutam hoje em dia por pleno acesso a ela. como definiu Weber6.

tedioso. O desencantamento da escola. quanto à sua capacidade de atender a seus objetivos. no ensino básico. uma tarefa que dela se tenta livrar o mais rápido possível. um espaço desinvestido de significação. pessoas advindas das camadas populares. será mesmo que ela está em crise? Michel Foucault7 ao estudar a prisão. A escola é cada vez mais um espaço desinteressante. Op. notadamente. Isto gera uma espécie de círculo vicioso: por ser uma profissão desqualificada no mercado de trabalho. muito desmotivados e quase sempre encarando o ensino como uma mera obrigação. no momento do acesso através dos exames vestibulares. diante de seu aparente fracasso. Cit. um trabalho assalariado como outro qualquer: alienado. em que a produção de identidades se vêem cada vez mais descentradas da escola. A escola. justamente. para professores. sem oferecer em contrapartida nenhuma compensação simbólica. . o desinvestimento social na vida escolar trazem para seu interior alunos e professores desmotivados. cada vez mais. mesmo. preferencialmente. repetitivo. a circulação eletrônica do saber. imaginária. o espaço escolar tradicional foi. sem objetivos claros. como vários projetos modernos. as tecnologias de informação. de sedução para os alunos e. em que a produção de subjetividades e de sujeitos. perdidos. seus títulos e prebendas que passam ser o fim em si mesmo da vida escolar. cada vez mais complexa e diversificada. que já se enuncia o seu fracasso e se propõe a sua 7 FOUCAULT. a própria diversidade das possibilidades de experimentação e de aprendizado trazidas pela vida urbana. por seu menor prestígio. ou ao fato desta profissão ter passado a ser demandada. preocupados apenas com a chancela que esta oferece para investimentos futuros na vida. por pessoas advindas dos setores de classe média baixa ou mesmo dos setores populares. vai chamar atenção para o fato de que desde que surgiu a prisão é contestada quanto à sua eficácia. outra instituição moderna. de desejo.profissão. para o seu existir. que tiveram uma formação escolar deficiente. poucas alternativas tem a oferecer. massificado. e estas podem demandá-la. Numa sociedade onde a informação circula em abundância através de várias centrais de distribuição de sentido. um espaço que revela toda a engrenagem disciplinar que a fundamenta. Mas será que a escola é mesmo um fracasso. em que as mídias. Michel. Desde que a prisão emergiu como forma privilegiada de punir no Ocidente. ela atrai. pouco criativo.

a sua razão de existir. embora todos os discursos políticos. os problemas políticos. que reside. a escolarização. midiáticos. nunca foi capaz de fazê-lo e. continuamos contraditoriamente achando que ela é a solução para os problemas de quem dela está excluído. Lisboa. a ordem social da qual surgiu. a Cultura e o Tempo. de exclusões. de segmentações que temos. a primeira atitude que nós professores possamos tomar para modificar as formas e maneiras de ensinar. A prisão. A ameaça de ir para prisão paira sobre todos nós e nos faz adotar atitudes conforme a ordem social requer. de desigualdades. . justamente porque sua funcionalidade se destina propriamente a quem está no seu exterior: ela serve para amedrontar. Da mesma forma que receitamos o trabalho como um poderoso antídoto contra. sua existência é pouco contestada. tratem a escola e seu bom funcionamento como uma verdadeira panacéia que vai resolver os mais diversos problemas sociais. Talvez o estado social em que nós vivemos tivesse dificuldade de se reproduzir se a escola fosse diferente do que é. como faz Michel Serres8. justamente.reforma. por mais contraditório que possa parecer. Mas. A prisão. Embora saibamos que a escola que temos não agrada a ninguém que está dentro dela. embora prometa recuperar e ressocializar aqueles que vêm para seu interior. surgida 8 SERRES. Realmente. os problemas de cunho moral e ético pelos quais passamos. Michel. Idéia de matriz naturalista. não está destinada àqueles que caem em suas grades. 1997. Diálogo sobre a Ciência. pedagógicos. produtora de hierarquias. Talvez possamos pensar que o fracasso da escola também seja funcional à sociedade em que vivemos. sempre fazemos o mesmo com a educação. Talvez. seja a problematização da própria idéia de formação escolar. os problemas de nossa sociedade. parecemos acreditar que a educação escolar resolveria os problemas sociais. o que consideramos ser. no entanto. seja questionarmos a própria escola. no seu alegado fracasso a funcionalidade da prisão. desde o princípio. o ensino escolar. nos alerta Foucault. o seu sucesso em reproduzir as relações de poder. Instituto Piaget. Nunca nos perguntamos se esta forma de funcionamento da escola não é adequada a esta ordem social. A própria idéia de formação deve ser problematizada. ao contrário do que trombeteia os discursos que a legitimam. para fazer a ordem e o poder funcionar junto àqueles que ainda estão fora dela. que naturalizamos.

A escola seria assim lugar de modelagem de corpos e espíritos. que as organizam como árvores. substituindo a educação pensada como instrução. Esta idéia. a educação como formação pretende moldar os sujeitos para que se incorporem perfeitamente à ordem social. como mero acúmulo de saberes. ganhar forma progressivamente. a economia. que dá conta de todos os aspectos da vida. como aquilo que dá uma ordem às espécies animais e vegetais. que está presente na própria semente. A formação escolar mostra assim. para o campo do saber. e o aluno marcado com esta identidade será cercado por uma 9 10 ROUSSEAU. e nela ao professor. Jean-Jacques. Belo Horizonte: Autêntica. vai aparecer com força privilegiada no discurso pedagógico e psicológico. ainda no século XIX. Lisboa: Edipro. integrada á ordem social. Confissões. a sociologia e a história. de personalidades. como ramificações nascidas de raízes e troncos comuns. promessa de desenvolvimento posterior. de caracteres. que prepara física. de almas e mentes10. no seu estágio inicial. esta matéria infante. como erudição. moralmente o futuro cidadão. de construção de perfis. Quando isto não ocorre. aparecerá o que se chama de fracasso escolar. Formar-se seria incorporar os valores da ordem burguesa que se tornava vitoriosa. a idéia de que cabe ao processo educacional. que é a criança. mentalmente. desde pelo menos o final do século XIX. como a memorização e aquisição de uma grande quantidade de informações. 1999. dar forma a esta matéria disforme. A formação sendo comumente pensada como o processo pelo qual a criança seria socializada. A idéia que somos seres que se formam. de germinação de um ser que vai se formar. A educação pensada como formação vai se propor a ser uma educação integral. Jorge. Pedagogia Profana. de saída. a idéia de formação transporta para o campo do humano. que ganham forma com o tempo. que cabe à escola.com Rousseau9 no século XVIII. que aparece ainda em Lineau. sua dimensão conservadora. um raciocínio evolucionista que começava a surgir no campo da historia natural e que seria apropriado por campos de saber tão distintos como a biologia. esta matéria plástica. Apanágio da vitória final da ordem burguesa. . voltada para o trabalho. assimilaria os códigos sociais e culturais hegemônicos. A educação é pensada como formação. que será criticada por não atender imediatamente o interesse social e se concentrar na dimensão intelectual da educação negligenciando aspectos como a educação física ou a educação técnica. Ver: LARROSA. 2007. com o tempo.

o aceito. esbarravam na própria aporia de se pensar uma pedagogia crítica: uma pedagogia crítica é possível? Como uma maquinaria de práticas e discursos que visam enformar ou formar alguém. para o diferente. . Ensinar não como uma atividade centrada na transmissão de verdades. seu Eu. da capacidade de se deformar. um professor que ponha em questão. primeiro em sua própria vida. a cuidarem de si mesmo. da psicologia. do que é a certeza. Ensinar pensado não como uma atividade que supõe uma hierarquia. o aceito. sujeitos descomprometidos com a ordem vigente. em sua práticas e discursos os códigos sociais em que foi formado. uma desigualdade de saber 11 ROLNIK. o já pensado. a escola se coloca como um espaço de continuação. visando seu sucesso e seu retorno à ordem escolar. forma para a sociedade da qual provém. como um conjunto de prescrições pode levar alguém a ser crítico. Suely. o que não se questiona. A idéia evolucionista de formação tem como característica central pensar a educação como um processo contínuo no tempo. A escola que forma. que a escola. se a crítica nasce da possibilidade de ser deseducado. o não-pensado. o não-valorado. Professor que pense o ensinar como uma atividade de auto-transformação. puni-lo. para o estranho. a escreverem a si mesmo. de propor e adquirir novas formas de subjetividade em descompasso com as modelizações subjetivas. mal educado. 2006. o que se dá como inquestionável. Cartografia Sentimental. as subjetividades pret-à-porté. Porto Alegre: Sulina. Embora muitas pedagogias que se nomeiam de críticas tenham pensado a instituição escolar como um lugar onde se poderiam formar agentes críticos da realidade social. recuperá-lo. o consenso. sua identidade. para o estrangeiro. que visam corrigi-lo. Ensinar como o ato de se abrir para questionar as certezas. como uma atividade diária de mutação do que considera ser sua subjetividade. do tempo social em que está situada. as verdades. como um processo contínuo no espaço social. sujeitos capazes de transformar a realidade social. O ensinar como a abertura para se deixar afetar pelas forças e matérias sociais que o convocam a se elaborar permanentemente. numa atividade ética que pressupõe abrir-se para o outro.maquinaria de práticas e discursos da pedagogia. para o não-sabido. que os modelos pedagógicos nos tentam ensinar? Por isso venho aqui propor que precisamos de um professor que deforme e não que forme. o consensual. de reprodução da ordem social. discipliná-lo. como diz Rolnik11.

Franz. demonstram claramente esta robotização da atividade escolar. rotinizado. um lugar de zumbis. dos modelos de subjetividades. A desmotivação. das identidades dos que chegam à escola. que tende a se tornar cada vez mais desinteressante. de formular novos conceitos. disciplinado. A escola está se tornando. O ensino que deforma é aquele que investe na desmontagem dos sujeitos. lúdicas. práticas e formas de pensamento capazes de oferecer às crianças matérias e formas de expressão para elaborarem subjetividades. o ensino como máquina de salvação ou de moralização. o ensino profissional. que assim como na fábrica moderna. O ensino que deforma seria aquele que investe na desconstrução do próprio ensino escolarizado. o ensino obrigatório. como peças de uma grande máquina. como previra Kafka12. monótono. de professores e alunos autômatos. maneiras novas de praticar as relações de aprendizagem. a homogeneidade dos saberes e procedimentos. por exemplo. uma repartição pública e nós sabemos o quanto existe de criatividade e de investimento subjetivo numa repartição pública. a mesmice. massificado. a capacidade de pensar coisas novas. atividades capazes de estimular a sensibilidade. O Processo. subjetivarem distintas formas de se dizer Eu. 2005. o que é em essência: um aparelho burocrático. Como toda instituição moderna. a falta de adesão às atividades escolares. em que alunos e professor têm o que aprender um com o outro. Ela se torna. O ensino que deforma é aquele que aposta em formas novas. tanto de professores. em: KAFKA. sem criatividade. Ensino em que não teria lugar a rotina. descontinua os valores que formam A crítica de Kafka a burocratização moderna encontra-se. afrontado com a burocratização da sociedade. um lugar de rotina. não sabem sequer qual o produto final que estão produzindo. insuportável. As reformas não conseguirão. 12 . cada vez mais. a falta de se colocar à disposição para o que aí ocorre. como nunca conseguiram. que não sabem direito por que estão ali. como de alunos. São Paulo: Companhia das Letras. mas como uma atividade relacional. a escola vive sua crise terminal. mas que apenas executam rotinas. desinvestida de valor. É aquele que questiona. modificar sua estrutura.entre professor e aluno. mas a criatividade. de praticar atividades desrotinizadas. de sedução. em que a disciplina ou as disciplinas não seriam o fundamental. Talvez este ensino para existir tenha que começar por acabar com a instituição escolar. de desejo.

aquele que não se importa de ser apenas mais um. certinho. que não se singulariza. O professor que não se atualiza. está sendo irremediavelmente modificado. disciplinado. um nome a mais na lista de chamada. que torna problemática a relação de si para consigo mesmo e para com os outros. para uma escola que só os admite porque é mais atrasada do que eles próprios. O aluno padrão. Um ensino que desarruma o arrumado. Os agentes da vida escolar adoram o aluno quieto. ter acesso a informações e conhecimentos. ou que se destacam por serem obedientes. por seguirem todas as ordens. que não está a par com o que ocorre nestes contextos midiáticos. por não reclamarem. Para isso a escola deveria não ter medo de rebeldia e de contestação. uma cifra. um professor tão amarelado como sua ficha de aula. com a sociedade de que participam seus agentes. Um ensino que não fornece certezas. mas que cria dúvidas. Considero que o papel do professor na sociedade pós-moderna. Neste aspecto nossos cursos universitários de Licenciatura podem ser chamados de fábricas de celacantos. professores para uma sociedade que não existe mais. Este círculo vicioso está pondo fim à . se ainda terá algum. rapidamente se torna um professor obsoleto. porque formam professores já completamente obsoletos. que tenderão a considerá-lo uma relíquia da natureza. autista. como o celacanto. um número de matrícula. que pelo menos pensava ter na modernidade. que desmonta. bom. que gera a indisciplina no pensar e no agir. belo. deserotizado. instaura o impasse. que tenta pensá-los como produtos de dados interesses. verdades.a sociedade circundante. põe em questão o dogma e o que é tido como natural. mas é tudo que seus agentes temem. O aluno assume agora a centralidade do seu próprio processo de aprendizagem. que estes têm uma história. É um ensino que desorienta. para assumir uma função auxiliar ou coadjuvante. Tendo a sua disposição uns cem número de centrais de distribuição de saberes. que pode adquirir com a ajuda crescente de máquinas e mídias. por serem bem adaptados à cultura escolar. certo. O professor vai perdendo a centralidade no processo ensino-aprendizagem. O ensino que desvaloriza os valores. o aluno não depende mais tanto da escola para se socializar. Os agentes escolares adoram alunos que não querem aparecer. catatônico. que costuma repetir todos os anos para seus alunos. que põe em questão as verdades que articulam as imagens de sujeito que cada um tem de si mesmo. que não querem se destacar. Um ensino que problematiza as verdades que constituem nossa realidade. justo.

Talvez mais bem pagos se tornem. um conjunto de concepções filosóficas. A escola não é só constituída de paredes. Licenciandos que já são educados de forma obsoleta. mais dóceis. nas concepções modernas que as forjaram e as sustentam. Não resolverão porque o problema está nas próprias instituições. ao chegarem às escolas. jurídicas que a instituem e constituem. se os professores e os alunos não se dispuserem a fazer um uso criativo e singular dela. até porque ela é mais fácil. pressionados pela cultura escolar que consagra o livro didático como a único e principal recurso didático a ser usado. professores e alunos. pedagógicas. máquinas. Após ouvirem durante sua graduação inúmeras críticas ao uso do livro didático como material único e exclusivo para o ensino da história. na verdade. esqueçam os modelos moderninhos que aprenderam nas aulas de Prática de Ensino e se conformem às demandas e regras desta cultura escolar rotineira e que tem pouco lugar para o professor contestador ou inovador. passam a reproduzir esta atitude. com câmeras de vídeo para vigiar os presos e com bloqueadores de celulares vão resolver o problema das prisões. A tendência é que rapidamente incorporem a cultura escolar. Aumentar salários não é garantia de professores mais engajados na vida escolar. Uma boa biblioteca numa escola não é garantia de melhor ensino. pois depende do uso que deles será feito. para um profissional já normalmente sobrecarregado por diversos turnos de trabalho. A maneira como os professores de história utilizam os livros didáticos é um exemplo significativo disto. menos dóceis em relação à cultura escolar. mais motivados. mais rotineiros. Vive-se no país a ilusão de que a escola será salva pela inversão de maior volume de recursos no pagamento de salários para os professores e no aparelhamento e modernização dos espaços físicos das escolas. mais adaptados à ordem. econômicas. éticas. Da mesma forma que se considera que os presídios de segurança máxima. ao chegarem às escolas constatam desiludidos e desestimulados que são muito inovadores e criativos para a escola que encontram.escola e à profissão docente. mais satisfeitos com o status quo. funcionários. mais criativos. . A escola é uma cultura. mais conformados. Os melhores equipamentos nada modificarão o ensino se sua concepção não se modificar. ela evita maior trabalho. A escola é uma rede de relações humanas com todas as dimensões que estas compreendem. políticas.

sua pouca criatividade. desta instituição moderna em vias de desaparecimento. embora a abandonem muitas vezes a um estado de penúria financeira. aqueles que dominam apresentam a escola como sendo a salvação para todos. não fazem tudo continuar como está? Então. deixadas entregues ao seu cotidiano rotineiro e empobrecido em todos os aspectos. Já que não incomodam. não tenha atraído a atenção. corpos e mentes dóceis e a serviço dos regimes. de fabricadoras de subjetividades massificadas e em série. Talvez. tenha sido relegada ao segundo plano. têm desempenhado seu papel de reprodutoras da ordem.Nunca pensamos porque o Estado. por isso mesmo. Nos países em que conquistaram o poder de Estado. seja de que extração política seja. para que se preocupar com elas? Os professores mal pagos não continuam desempenhando o seu papel de não questionar a sociedade? Sua negligência justificada pela remuneração insuficiente. as escolas também têm se comportado muito bem. já que tanto os professores quanto a administração da escola terá um álibi para continuarem ruins. Não porque se comporte mal. a culpa seria. Isso demonstra que a escola não os incomoda. que a escola tem se comportado bem em seu papel de reproduzir a ordem. de reproduzir a exclusão social. Os alunos são ruins porque os professores e a escola são ruins e assim se justifica que assim continuem. considerando-as formas de libertação e da produção da consciência crítica. fazendo de toda rede de ensino uma fabulosa maquinaria de reprodução ideológica dos regimes. deles. . As esquerdas sempre adoraram a escola e a educação. outras formas de sermos professores e alunos. outras formas de ensinar. como nos nossos. de reproduzir os preconceitos e conceitos que sustentam esta ordem social. Nestes países. as elites. seu baixo investimento subjetivo em suas atividades. sua falta de empenho. então para que dar a eles remuneração digna. Talvez por isso sejam esquecidas. escolarizaram toda a população. seja um perigo para o poder e para a dominação como certos discursos advogam. se eles não desempenham dignamente as atividades que lhes são conferidas? Os professores esperam ter melhores salários para melhorarem como professores e sendo ruins legitimam que os salários sejam baixos. já que os alunos seriam também. portanto. talvez livres da escolarização. investiram maciçamente em educação. Este jogo de empurra demonstra a falência da instituição escolar e a necessidade de que pensemos outras formas de educar. abandonadas. para que se preocupar com eles? As atitudes dos professores legitimam até o pouco que ganham.