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A QUERELA DA ARTE CONTEMPORÂNEA* Ainda haverá critérios de apreciação estética? No último decênio do século XX, esta pergunta surge de modo espetacular e inesperado, como "a crise da arte contemporânea" ou "a arte contemporânea versus a arte moderna". Claro que nesses últimos dez anos houve controvérsias, polêmicas, debates virulentos que opunham os defensores e os detratores da criação artística atual. Mas nada há de escandaloso em se perguntar sobre as normas de avaliação e apreciação estéticas que permitam julgar as obras de arte; em que pese ser pertinente para o público, geralmente perplexo, desorientado - ou mesmo com sentimento de repulsa diante de obras que não compreende. Por exemplo, as instalações, as esculturas corporais, as intervenções cirúrgicas "estéticas" que remodelam o rosto para denunciar os estereótipos mediáticos da beleza feminina − tudo isso suscita, ainda, incompreensão e repulsão. [O ready-made, esse objeto "inventado" por Marcel Duchamp (1887-1968)1 em 1913, inassimilável segundo relato do próprio artista, a uma obra de arte, mas
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Cf. Adaptação do prefácio de JIMENEZ, Marc. La querelle de l'art contemporain. Paris: Éditions Gallimard, 2005. Adaptação para o português: Leila Longo. 1 Segundo MINK Janis, in Duchamp, Taschen, 2001, Marcel Duchamp foi o artista que mais marcou a arte do século XX. Seu questionamento sobre as condições segundo as quais a arte é criada e comercializada abriu uma nova via utilizada até hoje. Foi justamente Duchamp que trouxe a resposta mais radical às mudanças impostas ao mundo da arte na era industrial. Apesar disso, talvez seja o artista menos conhecido, pois há um muro de silêncio sobre sua obra desconcertante: se ele é uma pedra no sapato para os artistas e historiadores da arte, é enigmático para o público. Até seus defensores têm poucos argumentos. Ele não conseguiu sucesso. Por exemplo, as pessoas consideraram o ready-made "Por que não espirrar?" [1921] (Pourquoi ne pas éternuer?") tão incompreensível, tão estranho que deveria ter um sentido. Era um objeto transicional que insuflava o espírito dadaísta de escárnio nos pulmões do nascente surrealismo. Como consequência, em 1936, "Why not sneeze?" foi apresentado em Paris numa exposição surrealista, ao lado de fetiches papuas e de modelos de demonstração matemática do Instituto Científico Poincaré, para incitar o espectador a extrair "Why not sneeze?" do contexto de "objeto de arte" e recolocá-lo ... onde, ao certo? As explicações de Duchamp não são de grande ajuda: " Esta pequena gaiola de passarinho está cheia de pedaços de açúcar ... Mas esses pedaços de açúcar são feitos de mármore e quando a levantamos, nos surpreendemos com seu peso inesperado. O termômetro se destina a tirar a temperatura do mármore." Com sugestões sobre o peso (do mármore), doçura (o falso açúcar), o frio (o termômetro), a poesia (o canto do pássaro), o vôo interrompido (o osso de molusco dentro da gaiola para os pássaros não bicarem) e a arte (o cubismo, mas também o classicismo do mármore), "Why not sneeze?" parece transmitir uma mensagem às irmãs Dreier. O título desenvolto é uma proposição: Por que não se autorizar um espirro, esta impulsão catártica que nasce como uma cócega e expira numa erupção paroxística cujos únicos traços deixados são alguns fluidos úmidos. Nessa obra, Duchamp usa novo pseudônimo, "Rose Sélavy", às vezes "Rrose", alusão fonética ao sexo: "Eros, c'est la vie!" ["Eros, é a vida!"]. Entretanto, depois de examinar uma segunda vez, o espectador tende pudicamente a recalcar essa interpretação. E se a gaiolinha explodindo de cheia, o monte de cubos brancos, o termômetro de vidro, o osso de molusco prestes a virar pó estivessem a ponto de explodir? Como os colecionadores sérios como as irmãs Dreier deveriam interpretar esta obra? No domínio das artes visuais este gênero de objeto tinha poucos precedentes: Duchamp retirava sua inspiração a partir de outras esferas, como a ciência, a indústria ou a literatura. Um historiador estabeleceu um paralelo convincente entre "Why not sneeze?" e um poema de Gertrude Stein, mulher de letras americana, instalada em Paris. Duchamp conhecia seus textos e seu papel de mecenas junto aos pintores cubistas. Ele mesmo a visitara em companhia de Katherine Dreier. O poema "Lifting belly" (1916-17) do qual Duchamp

o autor aqui se pergunta por que a arte contemporânea é objeto de profissionais da arte e da cultura. até as mais estapafúrdias.. Não se encoraja um rouxinol. Tu queres dizer Geneviève . atinge seu objetivo! Embora seja lícito se perguntar sobre a existência de critérios estéticos que norteiam os artistas e suas obras à escolha das instituições públicas e privadas. Sœurs d'excitation . como diante de "Why not sneeze?". Erguer o ventre é de açúcar. pior. escândalo. não tem sentido linear em si mesmo . Inúmeras entrevistas.. pois elas o interessavam não tanto como verdade. Pare. Lever le ventre pour moi ... Uma revista de erguer o ventre. Qual pássaro.. mas como criação por parte daqueles que as formulavam.. Ou seja... Desorientado.2 A polêmica centra-se sobretudo no tema da decadência – seja por obsolescência. Tu veux dire Geneviève .. Eis como dizê-lo . o leitor-espectador é confrontado com uma sucessão de ideias que escapam a qualquer lógica narrativa. incompreensão.. E tão frio. Espirre. Lever le ventre est en sucre." "Adoro as rosas e os cravos . Tu sais que je préfère un oiseau.. há vinte anos pelo menos. que subvenciona uma arte "oficial". Irmãs de excitação .." "Lever le ventre épouse .] À exceção do entusiasmo que suscita em seus promotores.. Un magazine de lever le ventre.. acusados de oportunismo que solicitam cotas vantajosas do tirou alguns elementos isolados.. reprovação. Lever le ventre est célàbre pour ces recettes... mas consiste em uma série de imagens e emoções: "Lever le ventre n'est pás une plaisanterie.." [Erguer o ventre não é brincadeira. Pas après tout . Te agradas com m. Sait-il peindre? Pas après avoir conduit une automobile ... Foi fonte de inspiração de um grande número de artistas.. Et si froide . a pergunta já contém a resposta: ou os critérios tornaram-se inoperantes ou desapareceram.2 amplamente presente até hoje na arte contemporânea. Diante desse poema. os artistas... Quel oiseau. que se beneficiam grandemente do Estado com subvenções e financiamentos de projetos que são passados diretamente às mãos dos artistas que dispõem de normas que garantem uma seleção rigorosa e não aleatória quanto à qualidade e ao valor das obras subvencionadas. mas rebelde. Éternue.. Não depois de tudo .." "J'adore les roses et les œillets . Arrête. ensaios e artigos em todas as línguas se esforçaram para destrinchar o trabalho de Marcel Duchamp. O próprio Duchamp aceitava de bom grado todas as interpretações. perplexo. Lever le ventre est si bonne." "Erguer o ventre esposa. ele procura novos pontos de referência. a princípio.. o espectador fica perdido ou é deixado livre dentro de uma sensibilidade (a do artista) que lhe é estranha.. Erguer o ventre é tão bom. De uma certa forma..... às normas e aos valores sociais comuns. Será que ele sabe pintar? Não depois de ter dirigido um automóvel .. a arte contemporânea provoca impressões e sentimentos contrastantes: curiosidade. espanto. Mas un oiseau jaune bien sûr .. Erguer o ventre para mim... As referências eventuais de Duchamp ao poema parecem mais pessoais do que rigorosas. On n'encourage pas un rossignol .. É natural que os critérios dos séculos XVIII e XIX não sejam mais válidos: a modernidade artística do século XX encarregou-se de desqualificar as categorias estéticas tradicionais. . Bastava cada vez girar um pouco o caleidoscópio de interpretação para ver os fragmentos da vida e da obra de Duchamp para formar uma imagem diferente. seja por desaparecimento − da arte contemporânea..... Erguer o ventre é célebre por suas receitas...". Voilà comment le dire .. surpreende ainda mais o espectador por sua incongruência. irritação. Plais-tu à m. execração ou. De quem é a culpa? O Estado. indiferença. 2 Apesar de tudo. Sabes que prefiro um pássaro..] Tradução livre do excerto do poema de Gertrude Stein: Leila Longo. Mas um pássaro amarelo é claro .

Já conhecemos as querelas célebres: a mimésis. o iconoclasta. em nome da garantia do belo. A arte sempre soube afirmar sua liberdade de criação contra todas as formas de coerção. a querela que opôs a Contra-Reforma e a iconoclastia luterana e calvinista. Imaginem. ou quase infalivelmente. Marcel Duchamp. o minimalismo. que tribunal receberia queixas senão o da história. ideológicas. ou seja. Que tipo de raciocínio se pode usar hoje? Nenhum é seguro. se a questão é suscetível de interessar a um público não especializado. a querela dos antigos e dos modernos3 sob o signo de estratégia política. recorrente desde a Antigüidade. que concebia a criação literária como imitação dos antigos com base na ideia de que a Antigüidade greco-romana atingiu a perfeição artística. As controvérsias sobre a arte contemporânea acontecem na ausência dos artistas diretamente interessados. em tempos passados. de dogmas. Por exemplo. Como compreender esses paradoxos? A história da arte ocidental não tem sido balizada por disputas incessantes e querelas recorrentes cujas feridas abertas ainda influenciam nossa percepção e nossa compreensão das formas de criação atuais? Em qual aspecto a querela de hoje é diferente das precedentes? Etimologicamente. o urinol. inelutavelmente. a querela do colorido 3 A “Querela dos antigos e dos modernos” ou “A querela dos Clássicos” foi uma polêmica nascida na Academia Francesa que agitou o mundo artístico e literário no final do século XVII (1687-97). de tutelas diversas. das vanguardas. poderiam abrir contra as obras consideradas escandalosas ou heréticas. inevitavelmente. Os protagonistas se limitam aos críticos de arte. Os ready-made. da abstração. de convenções de tradições. conduzida por Boileau. entre as obras inesquecíveis e aquelas de que é melhor se esquecer. Suas obras são raramente citadas e menos ainda analisadas. a renúncia ao ofício. as mídias no afã de buscar o sensacionalismo e. a arte bruta (arte com textura e relevo).3 mercado de arte. da arte pop. as instalações. Hoje. entre outros objetos promovidos à categoria de "objetos de arte" por Duchamp não foram vistos como fatores de imunização da esfera artística contra qualquer tipo de febre intempestiva? Não terá essa disputa entre critérios estéticos considerados obsoletos há tantos decênios não revela um aspecto anacrônico em vista das reviravoltas na arte ocidental desde o impressionismo?. numa re-edição já "moderna" das querelas bizantinas. religiosas. do tempo que escolhe. Racine escolheu temas antigos. políticas. a favor ou contra a imitação e o trompe-l'œil. os críticos de arte complacentes e temerosos. os happenings. o grande iniciador do "não importa o quê" e da decadência no domínio das artes no início do século passado! Uma querela paradoxal A crise da arte contemporânea é paradoxal: (a) depois do cubismo. e (b) um outro paradoxo reside na natureza do debate. aos curadores das exposições e aos historiadores da arte. se poderia crer que o mundo artístico é insensível por causa da sucessão desenfreada de provocações. Houve duas correntes: a dos clássicos ou Antigos. à técnica e ao saber fazer. etc. da harmonia e da semelhança. . econômicas que se opõem à vontade de transformar o mundo – ou pelo menos a visão que se tem dele. uma querela significa "queixa na justiça". o processo que os juízes.

em alguns decênios. podemos considerar a arte já tratados pelos gregos. Mas Boileau era próximo de Port Royal: ao defender os antigos sob o nome da diversidade de heranças. A italiana buscou uma pesquisa comparativa iniciada pela Renascença entre duas épocas das letras. o cantor da modernidade. sinceridade diante da natureza. a autoridade já em declínio. do academicismo e do conservadorismo. cor. Entretanto. etc. composição. e a dos modernos. inclusive no apogeu dos movimentos de vanguarda entre guerras. para suas tragédias. Na Itália. assimila. Mas sob o aparente progressismo dos modernos se escondiam as apostas de poder. era mais um campeonato do que uma querela. Enalteciam uma literatura adaptada à época contemporânea e as formas artísticas novas. luzes. a Querela foi feita de homens fixados no rei: no âmago de seu debate se reconhecia a rivalidade entre aqueles que conseguiam cativar a atenção do rei. freqüentemente. na verdade incensa as obras ignoradas ou rejeitadas à época de sua criação. Uma luta de quinze anos que nos libera da Academia.4 contra o desenho. Transgressões. afirmavam. ao cabo de um tempo maior ou menor. o grito de Gauguin (1848-1903) exprime o entusiasmo de uma geração que. a recuar seus limites. o "Quadrado branco sobre fundo branco" (1918). Desenho. por aceitar e integrar essas ultrapassagens. Na França. Hegel (1770-1831) pressente a emergência da arte moderna quando não tinha ainda nenhum exemplo de "modernidade" artística. a querela dos Buffons (1707-1788): deve-se realmente escolher entre a França e a Itália? perguntava Voltaire. provocações se sucedem num ritmo rápido e minam. com pano de fundo do abalo do racionalismo cartesiano. A partir do primeiro terço do século XIX. das artes e dos costumes pelo fato de alguns letrados se sentirem mais enraizados na República das Letras do que em algum estado contemporâneo. sobretudo as instituições. que os autores da Antigüidade podiam ser ultrapassados e que a criação literária deveria inovar. Consciente de que a ampliação do âmbito institucional e a expansão contínua da esfera artística são os traços específicos da arte ocidental. que sustentava o mérito dos autores do século de Luís XIV. Isso também acontece com o público que. a modernidade modificou profundamente esses afrontamentos. ou mesmo o "Pássaro no espaço" (1923) do escultor Brancusi (romeno. pouco a pouco. Baudelaire (1821-1867) se faz. ao contrário. A comparação entre a Antigüidade e a Renascença era para eles uma condição da liberdade do espírito. Essas instituições e o mundo da arte acabam. 1876-1957). essa liberdade ultrapassa só temporariamente as fronteiras da arte. de Malevitch (russo. A querela italiana anuncia a francesa. mas ainda bem conclamada até o final do século XIX. No limiar do século XX. dos clássicos surgiu na Renascença: os modernos são anti-escolásticos. representados por Charles Perrault. A experiência do novo se infiltra em todos os aspectos da vida quotidiana. mais considerado como objeto utilitário do que obra de arte −. . Ela obriga. 1878-1935). defendia as margens de liberdade da república das letras. entretanto. de bom ou mau grado. favoráveis às convenções morais e estéticas uniformes e confortáveis. A expulsão da tradição tornou-se cada vez mais radical e a rejeição ao antigo se efetua em caráter sistemático. na aurora da revolução industrial. passará do neoclassicismo à abstração. honra ou dinheiro. de todas as receitas sem as quais não haveria saudação. apesar de alguns "acidentes" célebres com a ressonância tardia e prolongada − como os ready-made de Duchamp. escândalos. Sim. cores. mas foi diferente. O perigo já passou. Os modernos estavam presos a um furor normalizador. Uma primeira querela. a italiana. somos livres! Entretanto. transformando a representação da "vida moderna" antes mesmo que se dêem realizações concretas.

sob o nome de Estética. às misturas e às hibridizações das práticas e dos materiais. de correspondências inéditas e de polivalências em busca de uma nova coerência. tais como a imitação. A 4 Cf. dão precariamente conta do mal-estar atual. Não se pode crer numa relação de causa e efeito entre as reviravoltas provocadas pela modernidade e a proclamada dissolução da criação artística há trinta anos. Entretanto. a pergunta que a arte faz não é mais quanto aos limites e às fronteiras possíveis para a criação. diferentemente da arte moderna. etc – às realidades que. fundado no século XVII baseado na Academia Real de Pintura e Escultura. fora da Academia "guardiã conservadora do templo do Belo. O fim da unidade unidade nas belasbelas-artes: as artes plásticas É verdade que a chamada "arte contemporânea" nasce efetivamente sobre um terreno preparado há muito pela desagregação dos sistemas de referência. aparentemente. durante dois séculos. como nos tempos da modernidade. escultura e arquitetura − que legitima. preocupada em romper com os cânones acadêmicos e seus valores artísticos tradicionais. a ciência do belo. Contrariamente ao que se pode pensar. experimentações. foi o primeiro a destacar. a transgressão e a provocação. 1714 – Frankfurt. e institucionalizado no início do século XIX com o nome de Academia de Belas-Artes. 1762). a elaboração de sábias classificações pelos historiadores e filósofos da arte: abre-se agora um vasto domínio de inovações. as vanguardas. o nascimento da abstração. à dissolução das artes. da Arte e da Criação". mas a da inadequação dos conceitos tradicionais – arte. em suma. desde que Duchamp e esfacelou a fronteira entre a arte e a não-arte. entre a arte e a realidade quotidiana. Não se trata mais. de ultrapassar os limites do academicismo ou das convenções burguesas na esperança de aproximar a arte e a vida. não mais lhe correspondem. artista. e seus numerosos remakes. Na hora em que o artista goza da pretendida liberdade total. e pela dissolução dos critérios clássicos4. que se tornaram prática corrente. a ideia de beleza. cínicas ou desabusadas. que começa com o impressionismo. Há trinta anos. a harmonia.5 contemporânea responde a esse processo? Parece que a querela da arte dita contemporânea é diferente das outras disputas do passado. Na institucionalização das artes plásticas5 e a formação feita na Universidade. 5 Na França. a irrupção dos objetos industriais no campo artístico. das outras partes da Filosofia. Os ready-made. Do glorioso edifício das belas-artes. a fidelidade à natureza. Alexander Gottlieb Baumgarten (Berlim. a arte contemporânea muda profundamente a significação da transgressão. Quebra-se a unidade das belas-artes – desenho. ou seja. Pertence à escola filosófica de Leibniz e Wolff. a modernidade. vítima do "frenesi" do novo. contribuíram para esse abalo devido. tornam-se tipos de jogos obrigatórios. A crise das belas-artes tradicionais. As vanguardas e a arte moderna até seu apogeu nos anos 60. obra. pintura. a arte moderna não explica a arte contemporânea. modos destinados a seduzir o mercado ou tipos de posturas deliberadas reservadas a iniciados. em parte. só há vestígios. isso aconteceu em 1970. Escreveu Estética Acromática de 1750 a 1758. com a criação de uma Faculdade de Artes Plásticas. . etc.

inédita na história da arte ocidental. catálogos de exposições. não importa quando e não importa como! A crítica da arte num impasse É possível redefinir as condições do julgamento estético diante das obras contemporâneas? Se elas são "não importa o quê". o campo fluido da arte contemporânea. talvez. ela se torna. Se suspeitar que a arte contemporânea obedece a convenções. como manter sobre elas um discurso com argumentos e crítico? Como julgar a qualidade artística dos objetos e das práticas já que não há mais critérios e normas a que se referir? Bem. corresponde ao que o teórico e crítico de arte americano. Harold Rosenberg (1907-1978) chama de uma “des-definição” da arte. sociológicos e estéticos. Os ensaios sobre a arte florescem. pode-se falar de uma mudança radical do estatuto da crítica da arte na qual a noção de arte é posta em questão. O público vai aos museus de arte moderna. mas se entedia nos centros de arte contemporânea. cada vez mais estranha ao público que lhe é contemporâneo. sobretudo há uns dez anos. .6 noção de "artes plásticas" é extensa. que se recusam a ser "obras de arte". Trata-se menos de se interrogar sobre obras específicas que se tornaram problemáticas. O que era válido na esfera das belas-artes no sistema kantiano ("todo o objeto considerado como arte é colocado ipso facto sob o regime da beleza") convém mais à unidade das belas-artes que está em queda e que as normas e critérios tradicionais de avaliação estão de cabeça para baixo. Mas esse tipo de reflexão não chega ao público. Essa situação em particular. instalações. body art. O público se afasta dos lugares onde há controvérsias e polêmicas. e mais de legitimar a abertura na direção de novas experiências estéticas ou. da promoção mediática e do consumo cultural. performances. O que é difícil é convencer a quem vai às exposições de arte que o pretendido "não importa o quê" não se faz não importa onde. passando pelos ready-made. criar um novo olhar sobre o mundo. seus materiais. ainda válidas para dar conta a arte moderna. etc. críticas especializadas. escritos teóricos. ignora as regras do jogo. A recente querela revela quanto às teorias clássicas da arte e da crítica da arte. constituem o recurso para analisar ou legitimar as formas muitas vezes desconcertantes da criação atual. apesar de tudo. da xilografia à infografia. pelo menos nas obras reconhecidas. seus procedimentos técnicos e a multiplicidade de seus modos de expressão que delimitam. A quantidade de textos sobre arte nos últimos dez anos testemunha a vontade de reencontrar alguns traços confiáveis numa conjuntura de desnorteamento. é um conjunto heterogêneo de práticas artísticas. Curiosamente. A ausência de referências e de chaves de interpretação reforça o sentimento de que a arte contemporânea pode "não importa o quê" que estigmatize seus detratores. conceito ameaçado de entrar em desuso. uma perda de sentido que afeta a noção de arte propriamente dita do que da obra de arte. ou seja. happenings. São práticas difíceis de circunscrever dada a diversidade de seus suportes. filosóficos. que propriedade exclusiva de especialistas do mercado da arte.

arte quer se as aprecie quer não. mais facilmente do que no passado. ou seja. a que Diderot dedicou sua nobre escrita. Inversamente. etc. paradoxalmente. mas de saber se um objeto. Dada a diversidade. que viu nascer a história da arte. Sua gênese e seu desenvolvimento participam do movimento de emancipação.7 A crítica da arte sob sua forma moderna surge no século XVIII com Baumgarten. avaliativo e das pretensões universalistas. Ora. propriamente estéticas e bastante individualizadas. é preciso saber o que é a arte. Pintor ou escultor. Hoje o artista não usa somente um medium. mas também no fato de que a palavra "arte". o artista pode também ser performático. fazer instalações. Ao mesmo tempo um gênero literário. Na época. que algo ofende nosso gosto. a crítica da arte tem hoje um papel não mais de analisar ou interpretar as obras. o Iluminismo. hoje não mais pertinente. nos basta para declarar. um quadro de Chardin ou uma sinfonia de Mozart como obras de arte. . em galerias. objetos desprovidos de qualidades artísticas cuja presença em exposições não se justifica. reconhecê-lo como arte é singularizá-lo. mas se limitar a estabelecer uma linha demarcatória entre a arte e a não arte. não se tratava de saber de convinha perceber uma escultura de Coysevox. As críticas de arte de Diderot e de Baudelaire referiam-se à pintura e à escultura. a dimensão avaliativa da palavra "arte" se revela indiretamente nas apreciações negativas dos objetos a que recusamos pretensões artísticas. Assim se chega a colocar em exposições. quer sejam julgadas belas quer medíocres. Ela se exercia no interior de um sistema reconhecido de belas-artes com a ajuda de categorias perfeitamente definidas. a imprensa e o mercado da arte. implica um julgamento de valor. a indústria cultural exerce sobre os indivíduos: uma atitude poderosamente condicionada pelo sistema de gestão. Há hoje um zapping cultural que. dois séculos e meio depois de ser teoria da arte. o público se sente no direito de julgar o que é bom por si mesmo − uma subjetivação do gosto. de objetos ou ações heterogêneas que a expressão "arte contemporânea" define mal. excluindo-o dos objetos banais. cineasta. O fim da unidade das belasartes se caracteriza efetivamente pela disseminação dos modos de criação a partir de formas. a estética filosófica. São indubitavelmente obras de arte. Hoje não se trata mais de avaliar as qualidades estéticas de uma escultura. apesar de tudo. a crítica da arte participa da autonomia do gosto crítico. e um ofício. de materiais. ou dispor de uma definição mesmo vaga. Mas para saber se há esse restabelecimento. de um quadro ou de uma sinfonia. músico. o gosto não estava em questão. A referência ao belo ou ao feio. Essa disseminação responde à extrema diversidade das experiências sensíveis. Ainda que não se pense na beleza de tal objeto. o espaço público. uma ação. um gesto restabelecem a arte. reside não só na indefinição do que é arte. A estética. tal como a beleza. se encontra na posição que Kant pretendia ultrapassar: deixar à livre escolha de qualquer um o conhecido adágio "gosto não se discute" [de gustibus non disputandum]. Será necessária a aplicação de uma regra ou de uma norma e isso é impossível. o paradoxo da situação criada pela arte contemporânea. Aí também parece não intervir um julgamento de gosto. Bem.

colecionadores. Outros denunciam o paradoxal individualismo de massa que responde finalmente ao modo de funcionamento de um hipermercado: o "cliente" preenche seu carrinho artístico e sua escolha pretensamente pessoal que se faz entre uma gama de produtos massivamente pré-selecionados pelas "centrais de compra" − instituições públicas. museus. ela tente a se orientar na direção da promoção indiferenciada dos bens culturais. é uma crítica demissionária. amadores esclarecidos). não pode dar conta das novas relações entre arte. etc. As obras de Arthur Danto (1924) insistem no papel decisivo do "mundo da arte" (artworld). suas qualidades artísticas. para procurar os fatores que facultam que um objeto seja percebido ou que o façam "funcionar" como obra de arte. essa teoria. críticos. Também é importante levar em conta a intenção e o projeto do artista tal como podem ser percebidos em dado ambiente artístico. Estes estão habilitados a apreciar a . sua capacidade de suscitar sentimentos como comover o público. instituição. A análise e a interpretação. o pretenso valor intrínseco da obra. Mudança de paradigmas A teoria estética tradicional. hoje impertinente. Para Goodman. ambiente. se contenta em promover os bens da indústria cultural e se revela incapaz de ajudar na formação do juízo em relação às obras. parece obsoleta. uma comunidade de especialistas (historiadores da arte. Essa crítica da arte que renuncia a qualquer crítica. de coisas sem nenhum interesse a priori? São essas as perguntas a que os filósofos e os estéticos tentam responder diante da crise da arte contemporânea. são agora não pertinentes a uma eventual definição de obra de arte: melhor levar em conta o contexto filosófico e artístico no qual aparece o objeto candidato ao estatuto artístico. conhecedores do clima estético. herdeira do século XVIII. Mais do que se perguntar "o que é a arte?" e adaptar bem ou mal sua definição a cada aparição de algo aparentemente incongruente. etc − do mercado da arte contemporânea. analisa as profundas modificações que afetam o estatuto da obra de arte e o artista. política e ideológica −. massificação e mediatização encarregado de promover o cultural. A pergunta "o que é a arte?". As teorias de interpretação tentam agora se renovar e propor novos paradigmas. às vezes inesperada e atordoante.8 programação. preocupada com a qualidade das obras. das obras. artistas. curadores. a filosofia analítica e pragmática anglo-saxônica. elogiosas ou não. em particular. obra e público. galerias. a crítica da arte vê sua tarefa simplificada ao extremo. galeristas. Ciosa de fazer valer a necessidade de julgamento e persuadida de que a arte e as obras exercem uma função crítica − social. o filósofo americano Nelson Goodman (1906-1998) substituiu por outra: "quando há arte?". Isso se chamaria "democratização da cultura?" Em face da abundância de suas prestações de serviço. Como interpretar a "indefinição" da arte hoje? Pode-se explicar a obsolescência das instâncias críticas e avaliativas e suas consequências? Podem-se medir os respectivos papéis das instituições e do público na promoção artística.

com sua vocação descritiva e analítica. O que fazer depois dos ready-made de Duchamp e das caixas de Brillo de Andy Warhol depois que as fronteiras da arte que separam a banalidade cotidiana são abolidas? Bem. propriedade exclusiva dos especialistas. e permitem encontrar. A renúncia à argumentação estética e ao juízo crítico é paralela ao sentimento de que a arte ocidental já acabou com eles. reputada como democrática e liberal. a neutraliza em sua força. seus especialistas e os espectadores reduzidos ao estado de abandonados por conta do enfrentamento das verdadeiras apostas que devem enfrentar as formas atuais da criação artística. bem como a prudência de uma crítica de arte muitas vezes assentada num papel promocional. observe-se o deslocamento entre o propósito de vários artistas contemporâneos. O zapping cultural engendra um novo hedonismo. a prodigalidade do cultural parece imunizar o sujeito contra qualquer questionamento relativo à legitimidade. o que fazer com ele? A ausência de reflexão. Este é o modo de funcionamento da arte contemporânea. O prazer ao alcance da mão com as novas tecnologias suprime o stress da escolha. A cultura burguesa. Há uma distorção entre a legitimação institucional em grandes benefícios financeiros desta arte e o reconhecimento modesto do público. As reais apostas da querela O debate sobre a arte contemporânea na França está num beco sem saída entre iniciados. convencidos do caráter polêmico. considerada elitista e vilipendiada nos anos 60 e 70 pela contracultura. Entretanto. ciosa de julgar as obras em função de sua qualidade e de sua comunicação relativa à experiência estética. as instituições privadas e públicas têm um papel predominante na promoção da arte contemporânea. com sua história. pois a . Em suma. no valor e na qualidade das obras. Além disso. deu espaço para um sistema que oferece a todos.9 autenticidade da intenção artística e a elevar eventualmente um objeto banal a objeto de arte. de sua dimensão crítica e apreciativa. esta é uma visão etnocêntrica que não se aplica à arte ocidental. escandaloso e subversivo de suas obras e o discurso cultural dominante que se beneficiada pretensa provocação artística à custa de subvenções. a qualquer momento. condenada à repetição por ter esgotado por alguns séculos toda a gama de possibilidades expressivas. Outros críticos adotam a posição subjetivista do "gosto não se discute". repetindo indefinidamente as formas e estilos do passado. as possibilidades de acesso à arte. privado de critérios de avaliação. Compreende-se melhor agora por que se deixou de lado uma estética baseada no juízo. Raros são os artistas que se impõem ao público sem se beneficiar do apoio de seus pares. a matéria de satisfação. em princípio. os constrangimentos da educação. A estética cujo fim próximo se prediz será apenas uma ramificação da antropologia. Esse relativismo convém ao pluralismo cultural que caracteriza a sociedade ocidental. ao entretenimento e à cultura. e essa é uma posição de alguns críticos que insistem no caráter obsoleto da estética herdada de Kant. rebelde. Há um abismo entre o mundo da arte contemporânea. Mas e o público.

ao certo? As explicações de Duchamp não são de grande ajuda: " Esta pequena gaiola de pássaros está cheia de pedaços de açúcar .10 contemporaneidade artística tem o privilégio da "velha cultura ocidental" em detrimento das formas artísticas consideradas tradicionais. Mas a ideia de uma arte e de uma cultura tornarem-se consensuais e não críticas deixa entrever novas perspectivas. O termômetro se destina a tirar a temperatura do mármore. em 1936. é enigmático para o público. A lógica cultural a que obedece a arte contemporânea resulta da combinação de novas técnicas. o frio (o termômetro).. . Foi justamente Duchamp que trouxe a resposta mais radical às mudanças impostas ao mundo da arte na era industrial. nos surpreendemos com seu peso inesperado. as pessoas consideraram o ready-made "Por que não espirrar?" [1921/1964] ("Pourquoi ne pas éternuer?") tão incompreensível. hibridização de estilos. exóticas e folclóricas − também contemporâneas. MARCEL DUCHAMP (1887-1968)* Marcel Duchamp foi o artista que mais marcou a arte do século XX. programas hipermídia. tão estranho que deveria ter um sentido. 2001. Janis. Sem dúvida. imagens numéricas. a questão da definição de arte e de seus limitas será recorrente.. Ele não conseguiu sucesso. para incitar o espectador a extrair "Why not sneeze?" do contexto de "objeto de arte" e recolocá-lo . o vôo interrompido (o osso de molusco * Cf. As fronteiras da arte não deixam de se alargar com o duplo efeito de evolução tecnológica: virtual. Mas esses pedaços de açúcar são feitos de mármore e quando a levantamos. 3D. MINK. onde. a poesia (o canto do pássaro). Seu questionamento sobre as condições segundo as quais a arte é criada e comercializada abriu uma nova via utilizada até hoje. CDRom. doçura (o falso açúcar). de práticas e de materiais. das mídias e do mercado de massa. como sempre foi no passado. ao lado de fetiches papuas e de modelos de demonstração matemática do Instituto Científico Poincaré. de formas. Até seus defensores têm poucos argumentos. Conciliam o individualismo de massa e a participação coletiva ao sistema de gestão de bens culturais. A arte que está sendo feita suscita outras querelas. "Why not sneeze?" foi apresentado em Paris numa exposição surrealista.. Como consequência. etc. Por exemplo. Era um objeto transicional que insuflava o espírito dadaísta de escárnio nos pulmões do nascente surrealismo. não está em posição de ser crítica desse sistema. in Duchamp. e o cosmopolitismo artístico e cultural − mestiçagem." Com sugestões sobre o peso (do mármore). Taschen.. Ainda que a arte de hoje seja extravagante ou provocadora. Mas o verdadeiro interesse dos debates futuros dependerá da vontade dos diferentes atores do mundo da arte ocidental que se negarão a aceitar que a criação artística se reduz a ser o eco fiel do que a sociedade espera dela. pois há um muro de silêncio sobre sua obra desconcertante: se ele é uma pedra no sapato para os artistas e historiadores da arte. Apesar disso. talvez seja o artista menos conhecido.

Arrête. Tu sais que je préfère un oiseau... Tu queres dizer Geneviève . (Tradução livre do excerto do poema de Gertrude Stein: Leila Longo. Quel oiseau... ?" "Adoro as rosas e os cravos ... Duchamp conhecia seus textos e seu papel de mecenas junto aos pintores cubistas... Mas um pássaro amarelo é claro . o espectador tende pudicamente a recalcar essa interpretação. "Why not sneeze?" parece transmitir uma mensagem às irmãs Dreier..11 dentro da gaiola para os pássaros não bicarem) e a arte (o cubismo. Espirre. Ele mesmo a visitara em companhia de Katherine Dreier... Lever le ventre est célèbre pour ces recettes.. Un magazine de lever le ventre. depois de examinar uma segunda vez. o termômetro de vidro. esta impulsão catártica que nasce como uma cócega e expira numa erupção paroxística cujos únicos traços deixados são alguns fluidos úmidos.. Entretanto... a indústria ou a literatura. Erguer o ventre para mim. O poema "Lifting belly" (1916-17) do qual Duchamp tirou alguns elementos isolados. Lever le ventre est si bonne. Plais-tu à m.... Pas après tout . Lever le ventre pour moi . Tu veux dire Geneviève . mas também o classicismo do mármore).. E se a gaiolinha explodindo de cheia.. c'est la vie!" ["Eros.. Duchamp usa novo pseudônimo. mulher de letras americana... Um historiador estabeleceu um paralelo convincente entre "Why not sneeze?" e um poema de Gertrude Stein. alusão fonética ao sexo: "Eros." 6 6 "Erguer o ventre não é brincadeira. Não se encoraja um rouxinol. como a ciência. é a vida!"]. Nessa obra..) ." "Lever le ventre épouse . o osso de molusco prestes a virar pó estivessem a ponto de explodir? Como os colecionadores sérios como as irmãs Dreier deveriam interpretar esta obra? No domínio das artes visuais este gênero de objeto tinha poucos precedentes: Duchamp retirava sua inspiração a partir de outras esferas.. mas consiste em uma série de imagens e emoções: "Lever le ventre n'est pás une plaisanterie. Não depois de tudo .. Erguer o ventre é tão boa.. Lever le ventre est en sucre. Éternue. Sabes que prefiro um pássaro." "J'adore les roses et les œillets . Mas un oiseau jaune bien sûr . Erguer o ventre é célebre para suas receitas.. On n'encourage pas un rossignol . Et si froide ." "Erguer o ventre esposa..... Irmãs de excitação . Sœurs d'excitation . não tem sentido linear em si mesmo . Eis como dizê-lo .. Será que ele sabe pintar? Não depois de ter dirigido um automóvel .. o monte de cubos brancos. às vezes "Rrose"... Sait-il peindre? Pas après avoir conduit une automobile .. "Rose Sélavy"... Erguer o ventre é de açúcar.. Pare.". E tão fria. Te aprazes com m . O título desenvolto é uma proposição: Por que não se autorizar um espirro. instalada em Paris. Voilà comment le dire . Uma revista de erguer o ventre..... Qual pássaro.

4 x 22. espirrar? 1921-1964. o leitor-espectador é confrontado com uma sucessão de ideias que escapam a qualquer lógica narrativa. O próprio Duchamp aceitava de bom grado todas as interpretações. ele procura novos pontos de referência. perplexo. Desorientado. Foi fonte de inspiração de um grande número de artistas. 1887-1968): Por que não espirrar?. mas como criação por parte daqueles que as formulavam. As referências eventuais de Duchamp ao poema parecem mais pessoais do que rigorosas.12 Marcel Duchamp (Paris. com termômetro e osso de molusco dentro de uma gaiola de passarinho. Ready-made: 152 cubos de mármore em forma de cubos de açúcar. 12. Inúmeras entrevistas. .2. De certa forma. Bastava cada vez girar um pouco o caleidoscópio de interpretação para ver os fragmentos da vida e da obra de Duchamp para formar uma imagem diferente. Diante desse poema. até as mais estapafúrdias. o espectador fica perdido ou é deixado livre dentro de uma sensibilidade (a do artista) que lhe é estranha. ensaios e artigos em todas as línguas se esforçaram para destrinchar o trabalho de Marcel Duchamp. pois elas o interessavam não tanto como verdade. como diante de "Why not sneeze?".