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Fundação CECIERJ / Consórcio CEDERJ Curso de Extensão: Conceitos Fundamentais de Sociologia

AULA 3 – SEXO E GÊNERO Gênero Meta da aula Apresentar as contribuições de alguns autores para as discussões sobre as diferenças de gênero, enfatizando alguns dos principais debates sobre o tema e apresentando os autores que obtiveram maior destaque ao longo do século XX. Objetivos Esperamos que, ao final desta aula, você seja capaz de: 1. reconhecer a diferença entre os conceitos de “sexo” e “gênero”; 2. identificar a perspectiva adotada pelos cientistas sociais para a explicação das diferenças entre os gêneros. INTRODUÇÃO As diferenças entre homens e mulheres comumente são justificadas com argumentos de cunho biológico. Desse modo, é comum pensar que homens e mulheres reagem de distintas maneiras a um mesmo acontecimento pelo simples fato de pertencerem a um sexo ou a outro. Meninos brincam de carrinho, jogam futebol, soltam pipa e brincam de bola de gude. Homens são quietos, fechados, pouco afetivos e, como aprendemos desde criança, eles “não choram”. As meninas, por sua vez, brincam de casinha, divertem-se com suas bonecas e com estojos de maquiagem infantil. As mulheres são falantes, expressivas, sentimentais, delicadas e “choram à toa”.

.Fundação CECIERJ / Consórcio CEDERJ Curso de Extensão: Conceitos Fundamentais de Sociologia Todas essas imagens constituem estereótipos de masculinidade e feminilidade que ouvimos desde nossa mais tenra infância. São modelos que constituem parte importante daquilo que aprendemos em nosso processo de socialização sobre o que é ser homem e o que é ser mulher.

debatendo então a complexidade destas questões. Nesta aula. algumas das diversas possibilidades de masculinidades e feminilidades apresentadas em diferentes contextos sociológicos para.Fundação CECIERJ / Consórcio CEDERJ Curso de Extensão: Conceitos Fundamentais de Sociologia Assim. se comportará de um determinado modo. Sex and Temperament in Three Primitive . veremos como essa “naturalização” das diferenças entre os comportamentos de homens e mulheres é complexa. projetando os debates sobre os papéis sexuais. discutir as diferenças entre “sexo” e “gênero”. por ser mulher. ou seja. se comportará de outra maneira. por ser homem. assim. Margaret Mead publicou um livro que causaria grande impacto nos meios acadêmicos e transcenderia os muros universitários. passamos a entender que os comportamentos de homens e mulheres são influenciados pelas diferenças biológicas. então. pelas diferenças entre os sexos. pois ela. certamente diferente de uma mulher. Sexo e gênero Em 1935. Um homem. Mostraremos.

Em outras palavras. veio a ser traduzida apenas como Sexo e temperamento. expressam que as diferenças entre tais comportamentos possuem. p. Se a distinção entre homens e mulheres permanece apesar das diferenças culturais entre diversas sociedades. o que significa dizer que os comportamentos de homens e mulheres podem variar de acordo com seu contexto social.Fundação CECIERJ / Consórcio CEDERJ Curso de Extensão: Conceitos Fundamentais de Sociologia Societies foi o título original da obra que. . A proposta. era o estudo do “condicionamento das personalidades sociais dos dois sexos” (1969. podemos dizer que Margaret Mead estava interessada em saber como uma sociedade poderia moldar os comportamentos de homens e mulheres. sem mencionar no título a comparação feita entre os comportamentos de três diferentes sociedades em relação ao “temperamento” de homens e mulheres. no Brasil. que variam em virtude dos contextos sociais. mais que um determinante biológico. uma forte influência do meio cultural.9). segundo Mead. isso significa dizer que modelos de comportamento masculinos e femininos.

enfim. são fingidos. parceiros desadornados (1969. mas elas só passam a pertencer ao gênero masculino ou feminino através de um processo de aprendizado. comportam-se e reagem de diferentes maneiras aos estímulos que recebem não simplesmente por sua estrutura biológica. Desse modo. . p. O sexo. os homens agem segundo o nosso estereótipo para as mulheres. Temos aqui. aprendemos desde cedo como comportam-se meninos e meninas em nossa cultura e temos a indicação de quais os modos de comportamento adequado para homens e mulheres. isso é resultado do modo como aprenderam socialmente que homens e mulheres devem reagir e se comportar. de dizer que não há diferenças entre ambos os sexos. O que podemos notar a partir disso é que há uma forte influência de aspectos sociais sobre aquilo que comumente é pensado como o resultado de estruturas biológicas. o que pode ser um comportamento masculino típico em uma dada sociedade. Não se trata. pode representar algo caracteristicamente feminino. administradoras. encontrei três tribos. Homens e mulheres. nesse sentido. As pessoas nascem pertencendo a um dos sexos. usam cachos e vão às compras. ao menos. e na terceira. mas sim de ressaltar a influência social sobre os modos de comportamentos de homens e mulheres. na segunda. todas convenientemente situadas dentro de uma área de cem milhas. em outra. a distinção entre sexo e gênero. Nesse sentido. Os modelos ideais são culturalmente formulados. homens e mulheres agiam como esperamos que as mulheres ajam: de um suave modo parental e sensível.Fundação CECIERJ / Consórcio CEDERJ Curso de Extensão: Conceitos Fundamentais de Sociologia O que a antropóloga ressalta é a influência da cultura sobre os padrões de comportamento. ou seja. de socialização. Aqui. Desse modo. mas em grande parte. aquilo que antes era pensado como um determinismo biológico passa a ser observado como o resultado de influências culturais. obviamente. enquanto as mulheres são enérgicas. ambos agiam como esperamos que os homens ajam: com bravia iniciativa.10). Numa delas. procurando reconhecidamente alguma luz sobre a questão das diferenças sexuais.

Esposa de Jean Paul Sartre. portanto. assim como um considerável acréscimo do número de mulheres no ensino superior. O movimento feminista alcançou seu ápice entre as décadas de 1960 e 1970. Era a exaltação dos aspectos sociais que criavam as diferenças entre os sexos. .. que obteve grande repercussão na Europa e também na América. 220). que passaram a atuar profissionalmente em áreas até então primordialmente masculinas. de maneira que o movimento esteve orientado pela busca de uma maior igualdade entre as classes e de uma maior justiça social. é um conceito biológico. Simone de Beauvoir escreveu romances e também ensaios de cunho político. a torná-la mais justa ao lutar contra as desigualdades entre os gêneros nos domínios da cidadania (direito ao voto). apontando para a necessidade de reconhecer o caráter cultural de tais diferenças de modo a reduzir as desigualdades de oportunidades disponíveis para homens e mulheres. Esse processo conduziu a um crescente questionamento sobre o lugar e o papel da mulher na sociedade. p. ela detalhadamente argumenta e ilustra como uma pessoa “não nasce mulher“. ao passo que o gênero é um conceito que enfatiza os aspectos socioculturais. onde se destacava a figura de Simone de Beauvoir (1908-1986). e a partir daí a modificar radicalmente as fronteiras do político (BOLTANSKI.) um movimento destinado não somente a melhorar a “condição feminina” e. sendo este entendido como: (. do trabalho (“ao trabalho igual. da participação política (paridade). sobretudo na França. Nesta obra. um salário igual”). etc. precisamente..Fundação CECIERJ / Consórcio CEDERJ Curso de Extensão: Conceitos Fundamentais de Sociologia neste sentido. como o livro O segundo sexo (1949). 2004. sociológico. notadamente. dos estudos (acesso ao ensino superior).. o influente filósofo existencialista francês. enquanto tal. sendo. Política e Gênero Ao longo da década de 1960. mas. sobretudo. Tratava-se da constituição do feminismo. houve uma ascensão do movimento feminista. mas “torna-se mulher”. a fazer surgir na esfera pública o feminino até então excluído.

às mulheres restavam os afazeres domésticos. bem como nas conquistas feministas no que diz respeito ao igual acesso às oportunidades e também aos direitos: ao voto. a salários iguais aos dos homens etc. as desigualdades entre homens e mulheres. . a participação na vida econômica e política. Enquanto aos homens cabia o trabalho fora de casa. a obra de Simone de Beauvoir e também sua atuação política foram de grande impacto na constituição e fortalecimento do que chamamos de movimento feminista. ao estudo e ao exercício de profissões. à atuação na vida política.Fundação CECIERJ / Consórcio CEDERJ Curso de Extensão: Conceitos Fundamentais de Sociologia Eram destacadas. assim. Desse modo. os cuidados com as crianças e com a família.

Fundação CECIERJ / Consórcio CEDERJ Curso de Extensão: Conceitos Fundamentais de Sociologia Ao longo das décadas de 1970 e 1980. OVERING. “Por mais de uma década a generalização mais comum foi aquela onde a mulher era universalmente dominada. e onde em todos os lugares os homens tendiam a ter mais prestígio que elas (idem)”. O resultado disso foi (RAPPORT. . p. foram transplantados para os estudos de gênero e ali obtiveram grande aceitação. 2005. mas que impunha dificuldades na percepção das relações de gênero e de seus significados entre outros povos. os modelos de pensamento marxista. 145) uma tendência a universalizar as relações de gênero tomadas de referência no Ocidente. o que era de grande importância para combater as desigualdades entre homens e mulheres. baseados nas ideias de poder e de exploração de uns por outros.

não são pensados como indivíduos. do privado e do familiar. Embora tais ideias fossem de grande valia para reduzir a misoginia ocidental. como seres atomizados e isolados uns dos outros. 2005. ao definir as relações de gênero como desigualdades sociais. entre os melanésios estudados por Strathern. Além disso. tende a ocorrer nesse contexto cultural nos atos de excesso dos homens. os estudos sobre gênero passaram a ser tratados predominantemente como estudos sobre ”assimetria de poder e de oportunidades”. elas claramente obscureciam a análise das relações de gênero em outros contextos sociais.se a possibilidade de entrever relações de gênero de outra natureza. O que a autora apresenta é uma nova abordagem sobre as relações de gênero sobre os povos melanésios da Papua-Nova Guiné. como o prestígio e a submissão simbólica. A dominação masculina. Cada sujeito é entendido como uma entidade múltipla. do sociólogo Pierre Bourdieu. p. onde a dominação e o poder não fossem as questões centrais. envolvendo frequentemente ações violentas. Desse modo. em 1988. 1979. à razão e à vida pública (ORTNER. que as relacionam com aspectos da natureza. RAPPORT. Foi essa a crítica elaborada pela antropóloga inglesa Marilyn Strathern ao publicar. um outro argumento que se tornou corrente nos estudos de gênero foi aquele desenvolvido pela antropóloga Sherry Ortner. Como exemplo dessa vertente. fechava. do ambiente doméstico. como um ser . ou seja. Toda e qualquer relação de gênero já era previamente pensada como uma relação de poder. mas não caracterizando algo semelhante ao que ocorre no Ocidente. vemos o livro A dominação masculina. O gênero da dádiva (The Gender of the Gift). das emoções. onde os homens dominavam as mulheres. segundo o qual a falta de prestígio feminino com relação aos homens e sua situação de submissão se devem às suas capacidades reprodutivas. ao passo que os homens ficam associados à cultura. Homens e mulheres. onde a dominação se manifesta por outros meios além da violência. onde se busca o entendimento das fontes e da permanência da dominação masculina sobre as mulheres.Fundação CECIERJ / Consórcio CEDERJ Curso de Extensão: Conceitos Fundamentais de Sociologia Desse modo. 145). de acordo com Strathern. OVERING.

de dominação ou subordinação (STRATHERN. são facetas interrelacionadas na medida em que o trabalho que as mulheres realizam no ambiente doméstico é orientado para as trocas que seus maridos farão na “esfera pública”. assim. Isso. pois. por isso. Do mesmo modo. Assim. em que os atos de um têm efeitos sobre o outro e vice-versa. É esta perspectiva que Strathern mostra não se confirmar em seu estudo. 2006. ou seja. que viram na Melanésia apenas mais uma confirmação das relações de dominação de homens sobre mulheres. os homens e as mulheres melanésias se veem como o resultado de um processo de contatos. Os preceitos feministas que viam a vida política como algo merecedor de mais prestígio do que a esfera doméstica conduziam. sem prestar a devida atenção nas interpretações nativas sobre tais relações. a autora fala de “divíduos” ao invés de “indivíduos”. p. portanto. não significa que seus comportamentos sejam determinados por sua “natureza” de homem ou de mulher. Seguindo esta linha de raciocínio. biológicas.Fundação CECIERJ / Consórcio CEDERJ Curso de Extensão: Conceitos Fundamentais de Sociologia que se construiu através das relações que teve com outros seres. onde os homens se apropriavam dos trabalhos de suas esposas subservientes. a uma visão já “préfabricada” das relações. sejam estes outros do outro sexo ou do mesmo. CONCLUSÃO Homens e mulheres possuem diferenças anatômicas. ressaltando desse modo como cada sujeito se vê como o resultado de um processo de contatos e não como algo isolado e independente do todo. então. todavia. as trocas dos homens são pautadas pelos interesses domésticos de suas esposas. Nesse sentido. 472). As influências de cada cultura sobre a . segundo ela. o que não permite falar. na vida política. Marilyn Strathern critica os estudos feministas. Ao invés disso. entre os melanésios ganha uma outra tonalidade e. a vida doméstica e a política não são percebidas como setores hierarquicamente distintos na vida social. aquilo que no Ocidente apresenta-se como uma relação de dominação e subordinação.

é possível. . evidencia-se o caráter cultural presente na construção dos papéis de homens e mulheres. Desse modo. então. para que tanto homens quanto mulheres possam vir a desfrutar de uma cidadania plena. alterar as configurações das relações de gênero. por não se tratar de uma questão determinada pela natureza.Fundação CECIERJ / Consórcio CEDERJ Curso de Extensão: Conceitos Fundamentais de Sociologia forma de ser homem ou mulher destacam-se quando podemos observar distintos contextos. mas sim por fatores socioculturais. buscando estabelecer modelos onde sejam reduzidas as desigualdades de oportunidades e de participação na vida social. onde os imperativos culturais moldam diferentes tipos de masculinidades e feminilidades em sociedades distintas. Isso permite pensar que.