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QUAPRIN

Pelé Dá Lá, Toma Cá! E Você, Resistiria?
P A G I N A 21

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fcASTÍElR© EM CUBA! PAGINAM

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atrás das grades. Noutra. O exestava parido. Viver só de imprensa alternativa não pagava contas e expunha a maior risco de prisão. era editor da revista de quadrinhos Grilo.feita por seus profissionais. oferece aos leitores uma viagem na máquina do tempo. Coisa rara. recém-saído da Editora Abril. u m aprendiz admirador de feiticeiros. a edição ex. Cada exemplar custava apenas 2 cruzeiros. coração do Bexiga. professor Hubert Alquéres.o 49 circulará c o m o novo nome: "ex-". sem pessoa jurídica seria impossível imprimir o jornal.16 estampou na capa a manchete liberdade abre as asas sobre nós . mataram o ex-. Souza. S e r g i o de Narciso Kalili. mas também manter atenção sobre os graves problemas sociais. Nos criamos no m e s m o bairro. se esse fosse o caso. Obviamente não é. A m â n c i o Mas quando o ex. região do Mercado da Cantareira. Naquele m o m e n t o o jornalismo brasileiro também viu morrer aos poucos o seu lado jocoso e picante. Descobri centralizou a vida cultural de esquerda e m São Paulo. dirigido por Fellini. u m texto alertava aos Infelizmente a morte de Vlado também custou a vida do ex-. No rodapé das páginas 4 a 14. Os mais jovens poderão imaginar u m pouco o que era ser jornalista sendo constantemente perseguido. Delfim. parceiro do Instituto Vladimir Herzog neste e . O Bondinho Realidade.esperamos . as historinhas nada inocentes logo atraíram repressão.-atriz de O Cangaceiro. mas principalmente pela coragem de seus colaboradores. D o lado oposto. frente a frente. Não deu outra. antes de ir embora do país. dois anos depois. entrei pela primeira vez acompanhado de Serginho Fujiwara. Nossa missão é contribuir para a reflexão e produção de informações voltadas ao direito à vida e à justiça. Robert C r u m b e seu Fritz. por considerar o conteúdo da revista atentatório à moral e aos bons costumes. o Grilo passará a ser impresso em formato tablóide. caso que conto mais adiante. O Grilo foi cercado e espremido pelas autoridades de plantão. Numa estavam Sérgio de Souza e Narciso Kalili. de qualidade e c o m aquele viés satírico que o fez ser uma referência nacional. No auge da ditadura militar quando todos os outros se sentiram obrigados a ficar e m silêncio. Vanja Orico. tomando sol e m uma praia tropical. Rebeldes. veterano da FEB. Do andar de cima. é c o m o se f o s s e n e t o da r e v i s t a e f i l h o do g i b i underground mitológica por saltos S e n d o a s s i m . cursinho que Novembro de 73. sensualíssimas. Afinal. Hamilton Almeida Paulo Patarra entre outros. chamando a atenção dos leitores para sua última entrevista. E na portaria o zelador ranzinza. na rua Santo Antonio. É que e m tempos de ditadura e sobrevivência difícil. ser o único daqueles moicanos que está em todos os expedientes de todas as fases da publicação. cozinha e garagem. nu. Boa parte era m e s m o vendida de mão em mão pela própria equipe . turfista que encantou a cantora. depois de presos no DOPS da Federal por causa de uma capa gozando Nixon pelo Watergate. Médici no poder. Eram quatro saletas apertadas n u m conjunto do terceiro andar. em futuros projetos. corredor lateral. Chiodi. perto da janela. políticos e econômicos que ainda hoje afetam o Brasil. que mal e mal chegavam às bancas. A ditadura não poupava sequer os patrocinadores da chamada mídia alternativa ameaçando com represálias ou m e s m o c o m corte de verbas governamentais. Caso a resposta seja negativa. ao m e s m o tempo.é motivo de orgulho para o Instituto Vladimir Herzog. ditadura militar dura. Mulheres e Luzes. O exGrilo. o Instituto tem o objetivo de não apenas preservar a memória da vida e do trabalho de Vlado. passaríamos a "propriedade" para o nome do Paulo Patarra. No quarto andar do velho prédio da Rua Major Quedinho. Mas será que combina c o m o jeito expansivo e piadista do brasileiro? Por isso. a metade do preço de capa do Grilo. retirando desta edição as histórias que o censor j u l g o u inapropriadas para nossos leitores. deixará de ser revista para ser j o r n a l (os jornais estão dispensados de registro da censura) e j á a partir do próximo número . e não é que os dois estão vivinhos da silva? Dácio Nitrini Fui rever a coleção para ativar a memória. contestadoras.a morte do jornalista Vladimir Herzog. tempos de exílio. Sérgio e eu.. ou seja. 346. sede da Editora Espaço&Tempo. Principalmente quem tinha família para sustentar. no Jardim da Luz. Sérgio de Souza e Narciso Kalili.. veículos. desenhando a capa do gibi. em tom desacorçoado. sempre de boina. Guido Crepax c o m sua Valentina e a dupla Wolinski&Pichard c o m Paulette puxavam o trem. Nesse espaço. Era u m quarentão loiro. O legado de Vladimir Herzog será levado adiante pelo Instituto que tem como uma de suas metas a busca incansável pelo jornalismo de qualidade. The Cat. esquina c o m Santo Antônio. O Grilo fazia sucesso ao trazer ao Brasil quadrinhos dos desenhistas consagrados no underground americano e europeu. havíamos emprestado nossos nomes para abrir a ex-editora. sendo que desde o primeiro m o m e n t o tivemos total suporte por parte de seu presidente. etc. c o m a expressão "garantida" entre parêntesis. que havia trabalhado com u m irmão do Narciso. Ari Normanha encurvado sobre a prancheta. O irmão dele.O Grilo então recorreu à própria censura. fórmula que barateava o custo e se autoexplicava no slogan O Povo Lendo. vinha o som do maestro Rogério Duarte. M y l t o n S e v e r i a n o da S i l v a . quarto. aviso de que a distribuição era própria. Sergio e eu.é u m exemplo único disso. Foram impressos 10 m i l exemplares. Estava mortalmente baleado na edição número 48. a reedição do ex-. gênio. numa casinha térrea com portão de ferro. como está óbvio no nome. m e u amigo desde o primeiro ano no Grupo Escolar Prudente de Moraes. Época de prisões.é lançado c o m uma capa metafórica para "enganar" a repressão: Hitler. estávamos e m 1973.O renascimento Fazer parte da reedição do j o r n a l ex. era editado o JORNALIVRO que. que se integrava a equipe trazendo algum dinheiro e o sonho de fazer o projeto crescer. O Instituto Vladimir Herzog não poderia estar fora deste empreendimento. Não que isso seja errado ou u m problema. sobrevivendo de jingles.. Amancio C h i o d i no laboratório de fotografia. Filho. guerrilhas. Criado oficialmente em 25 de j u n h o de 2009.nasceu. No expediente. Esta obra é resultado do trabalho impecável de recuperação de todos os exemplares do ex. E o ex. Mas quem "administrava" a papelada era o Armindo Machado. é b i s n e t o da leitores: Stop-press: a censura negou o registro do Grilo. parte da equipe ia e vinha. aceitaram propostas de trabalho fora de São Paulo. olhos azuis. que passou a freqüentar a redação falando sobre seu filme de estréia. u m clássico do Tropicalismo. sala. Os que viveram aqueles anos terríveis poderão relembrar suas capas memoráveis e seus textos transbordando inteligência. hoje nosso jornalismo é sempre muito sério. Eu trabalhava no setor de propaganda e o Serginho na gráfica do Equipe Vestibulares. Mataram o Vlado. E o aviso " N e n h u m Direito Reservado". e por que não dizer o renascimento do ex-. alugar sede. que trazia na capa uma foto do cartunista j á famoso Henfil sorrindo. Não apenas pelo jornalismo de vanguarda. jornalistas o r i g e m de um g r u p o f o r m a d o brilhantes que provocaram de q u a l i d a d e e d i t o r i a l em v á r i o s i n c l u s i v e r á d i o e t e v ê . O ex. Salvo u m ou outro colunista. era a publicação de clássicos e m u m livro produzido como jornal. O terceiro ponto fundamental de sucesso deste projeto é o apoio da Imprensa Oficial.

" Passaram dias na carceragem da rua Piauí. a cargo de Octávio Ribeiro. que havia passado pela Realidade. revelando ao país a antipsiquiatria e escritores dos países vizinhos que t a m b é m estavam sob botas e tacões. c o m a presença em Brasília de vários chefes-de-estado. e m 2005. E foi e m frente. talentoso repórter-especial do Jornal da Tarde e m SP. era u m coletivo! Mas O ex.12. nos p r o c u r a r a m p o n d o . a contracapa traz a i m a g e m de Raimundo Pereira e m bico-de-pena de Elifas Andreato. Fidel Castro fazendo a barba. Uma equipe de batedores foi designada para a detectar possíveis reações à chegada da comitiva americana.número 17. colocando jornais para vender nas bancas da cidade. etc. H a m i l t o n Almeida. a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo incluiria "A Morte de V l a d i m i r H e r z o g " no livro 10 Reportagens que Abalaram a Ditadura. sem saber o motivo. Afinal. José H a m i l t o n Ribeiro.resultado do trabalho de todos do ex. u m j o v e m iniciante que tinha emprestado o nome. Até ali tudo bem. O j o r n a l m u d o u a linha editorial. que ainda nada tinha a ver diretamente c o m a ditadura militar. Era janeiro de 1974. falou pelo na I n d o n é s i a . Contávamos. psicanalítica.s e à disposição. Mataram o ex. ao lado do José H a m i l t o n Ribeiro para fazer u m j o r n a l diário e a transferência temporária de Narciso. Outro desenho memorável é de Jaime Leão na capa do ex. A segunda edição seguiu a mesma linha do Hitler. semi-deitado e m u m divã. best-seller até hoje. Cheguei tenso. do Equipe. Fernando Morais revelava nada mais nada menos o cotidiano em Cuba. Eu. c o m base e m cartas que j á chegavam às pencas . entre eles Fernando Morais." . origem de seu famoso livro. f o t o g r a f a d o jornalisticamente um d o s sido fúnebre Djacarta. saia com Narciso Kalili. irmão do Sérgio. que a reportagem ia provocar a "linha-dura". Palmério D ó r i a e o jornalista-escritor-psicanalista Roberto Freire. repórter e chefe de reportagem. que jamais circularia. a p ó s um g o l p e m i l i t a r c o m o o O u v i m o s os c o l e g a s da c o m i s s ã o e N a r c i s o "Agradecemos publicar. proibida para a imprensa brasileira. mas vestindo uniforme de presidiário. ungido pela cúpula militar. portanto.onde policiais afundavam carros c o m pessoas dentro. outra publicação alternativa que deixa marca na história do país. mas v a m o s E eu me dividia entre agradecer aos dois pela minha liberdade e ficar indignado por dizerem que eu não tive responsabilidade pela confecção da charge. que f i c o u mais literária. M y l t o n Severiano para Londrina (PR).há Quase u m ano depois.. os "proprietários" da ex-editora eram Sergio de Souza e eu. corajosamente. numa velha perua Caravan. além de vendedor de espaço para publicidade.nosso jornal. Tudo funcionava de forma coletiva e o pouco dinheiro que entrava mal dava para pagar as contas e fazer uma nova edição.. Intelectual persistente. Trinta anos mais tarde. Narciso. q u e e s t a v a m p r e s o s com V l a d o e h a v i a m esquerdistas Unidos. mais de 70 laudas. Todos devidamente creditados no expediente publicado n o ex. tomaria posse em grande estilo. feita pelo artista gráfico Hamilton de Souza. U m episódio nos embatucou no dia do fechamento. d o ex-. j á c o m meio rosto sem pelos. HAF. para fazer o Movimento. atos ou atitudes. Nixon não podia comparecer mas enviou sua mulher. Lucia Reggiani e Luiz Fernando Câmara Vitral. mortas ou possivelmente ainda vivas. como Luiz Carlos Guerrero Ruivo. Já era começo de 74 e Geisel. que tem e m cada página u m olhar que permanece brilhante. Mas a terceira capa. Narciso e Sergio j á estavam dentro da sala do delegado explicando que eu não era o responsável por nada. manhã ensolarada. Viram o ex. liberados para assistir à cerimônia m e d i s s e q u e se t r a t a v a da O p e r a ç ã o menção ao m o r t i c í n i o de 500 mil nosso patrocinado pelos Estados em n o m e de t o d o s d o ex-: c u i d a d o . Esses são apenas alguns tópicos de uma publicação alternativa. atento. o Pena Branca.porque não escondeu o assassinato do Vlado. produtor gráfico e repórter. Era a chamada para uma reportagem inacreditável. Narciso e Sérgio ficaram presos. contemporâneo. a p e n a s p e l a E l v i r a A l e g r e . Formalmente. Havia u m a equipe de editores-colaboradores de r e c o n h e c i d o talento e criatividade. dizia ele . Acabei levado para o prédio da PF que funcionava na rua Xavier de Toledo. E que eles sim é que tinham tomado as decisões editoriais. tinha sido o único a publicar reportagem completa sobre o assassinato do colega Vladimir Herzog n u m aparelho de torturas do II Exército. Narciso Kalili f o i o pauteiro e orientador. A Ilha. c o m a matéria sobre o Esquadrão da Morte carioca.e acionaram o DOPS da Polícia Federal que saiu em busca dos responsáveis. Dessa vez era Henry Kissinger pelado. Cláudio Faviere. o caso Watergate estava quentíssimo.seguiu sob forte i n f l u ê n c i a de Marcos Faerman.Raimundo Pereira. ficou perfeita e o ex. começamos a fechar o ex. mais ou m e n o s mensal.Carlos Alberto Caetano. E dá uma longa entrevista para lançar seu j o r n a l exatamente para o ex. E preparávamos u m material sobre a repercussão do caso Vlado. Alegavam que queriam inclusive nos proteger. frutificava. Incursos na famigerada Lei de Segurança Nacional. gaúcho apaixonado pela cultura latino-americana. o suficiente para compor u m livro de 100 páginas. autuados "por atentar contra chefe Nesse m e s m o período. que havia descoberto u m local espécie de charco. grandemente nanica. Marcos Faerman. retornam à SP. o da capa c o m o Nixon. olhando para o horizonte como se fosse estadista.13. sai do j o r n a l Opinião. no e n t e r r o . O ex-. lança o seu Versus.3. Nessa edição. E não é que ambos estão vivinhos da silva? Como foi que o exvirou Mais um Mylton Severiano e por estudantes amigos meus. que mais jornalistas seriam assassinados O ex-16 foi obra-prima de trabalho e m equipe. Hamilton e Mylton que não haviam se desligado totalmente do ex-. de estado de país amigo por palavras. Apenas porque nossos nomes estavam limpos na praça. responsável pelo texto final .e de colegas que.tinha lastro para seguir adiante e apoio e m todos os setores anti-ditadura.foi para as bancas em plena transição de ditadores. Lá j á estavam Sergio e Narciso. idéia do Mylton. o ex. Patty. cuja capa é outro marco: Pelé pelado.outras fotos nas páginas internas. propriedade do empresário nacionalista Fernando Gasparian. fotografado no vestiário da Vila Belmiro por Amancio Chiodi . eu. trouxe a polícia. Texto c o m uns 100 m i l caracteres. Em meados de novembro de 1975. Suzana Regazzini. Uma comissão de colegas chega pedindo para a gente não publicar nada. C o m a saída do Sergio para Ribeirão Preto. como prato forte. Marcos Faerman diverge do caminho que os ex-fundadores apontavam e se desliga do grupo. Sergio e Narciso decidiram fazer uma fotocharge mostrando Nixon em pose presidencial. A m o n t a g e m artesanal.

Mas na semana seguinte. números alentadores para o j o r n a l que até ali tinha vendido no máximo 18 mil exemplares.Bondinho. Luiz Fernando V i t r a l e Palmério Segunda fila: Mylton Severiano e Hamilton Almeida Terceira fila: Cláudio A l e x S o l n i k . Enorme prejuízo. criador da revista Realidade. estrela do filme O Cangaceiro que havia embevecido a adolescência da minha geração. Jamais comentaram detalhes.. Éramos. que acabaria renunciando. a fim de prestar "esclarecimentos" a certo coronel B a r r e t o .e em repouso! Uma provocação contra brancos racistas. mas aí é outra história. Éramos poucos na redação àquela hora. ex. com reportagem sobre moda. o tal coronel Barreto nos intima a comparecer na Xavier de Toledo às duas horas de uma tarde no início de 1976.e d i t o r e s na r e d a ç ã o d o B i x i g a . recém-demitido da Abril. que editava ali a revista FotoChoque. u m pai de família enviou d o c u m e n t o registrado e m cartório anulando o p e d i d o de assinatura feito pela filha estudante. puseram a nova empresa. Nem era preciso deixar fluir a Era m e s m o preciso c o r a g e m naqueles dias. Nem precisaria sacar a pistola que fazia questão de exibir no insistente gesto de apontar fotos. c o m a parceria de dois mais velhos: Narciso Kalili. o ex. De volta. é só u m enfeite".sob censura. O coronel devia dar o dobro de nós. franzinos. seção de abertura do ex-. esgotou-se a tiragem de 30 m i l exemplares. Hamilton Almeida Filho. e subimos ao andar da Polícia Federal indicado na intimação. ex-. eu 35. Armindo Machado. mostrando a carteira funcional. E foi assim que os mais novos. que dávamos como distribuído naquela semana. Muitas vezes no Pássaro Preto a gente almoçava sanduíche de mortadela "enriquecido" c o m fatias a de tomate. Libos. E o que responder ao truculento? "Não. Talvez tenha havido ameaça grave. fechando o próximo número.o Armindo que me surpreendeu certa manhã chegando b e m acompanhado. no n o m e do fotógrafo Amancio Chiodi. Nem pressentimos os passos de dois mensageiros da morte do ex-. e evaporaram os 20 m i l de uma 2 a edição. Típico: u m bonzinho. tarde que se fez nublada e mormacenta. o HAF. O telefone da redação era o orelhão da esquina. C o m o ex. Hilton Patarra Um. e o dele era avantajado. . O armário negro olhava as gravuras nas paredes e. Narciso Kalili e Eduardo Barreto. . mesmos fundadores da Arte & Comunicação. Seus dedos pareciam cassetetes. Assim. HAF e eu nos apresentamos. onde conheci o Vlado (não houve t e m p o de ficarmos amigos. estava apreendido. Narciso e Serjão foram presos por "ofensa a presidente de país amigo". u m deles alegou ameaças telefônicas. HAF e eu estávamos fora de São Paulo. que generoso nos ajudou pagando a impressão dos dois últimos jornais que produzimos. leitores cancelaram assinaturas. véspera do 15 de novembro. surgiu a ideia de lançar o Mais e x . à minha direita. vão?!" Apontava . de repente. O ex. só soube depois: a capa seguinte que trazia o presidente americano Richard Nixon c o m roupa de presidiário havia levado Sérgio e Narciso a u m a detenção na Polícia Federal. cuja arma na cintura divisei apenas uma vez.seguia vivo: aquele "era" o ex. HAF tinha 30 anos. HAF e eu.o recorte de u m jornal de ativistas negros dos Estados Unidos. mas Narciso tinha viajado para Londrina. vociferou: "Vocês não vão publicar isto.daí o nome criado pelo Serjão. centro de São Paulo. perguntou quem era o responsável. O armário branco declarou que: o número especial Extra . O modelo era Eldridge Cleaver (1935-1998). Contudo. O grupo que tocaria a nova publicação era exRealidade. O número extra. disse candidamente u m de nós. L u i z G u e r r e r o e Ivo Doria. Preferíamos fechar as portas e começar de novo. M á r c i a G u e d e s . imitando a marca da Coca-Cola. pensamos. como HAF e eu sofreríamos dois anos depois. brincadeira que iríamos encaixar na Salada. que lançou a revista "cult" O Bondinho. poderia destruir a redação a patadas e nos destroncar u m por um. P r i m e i r a f i l a . em Londrina. Narciso. A memória registra que ali vinha feriadão. na Major Quedinho. gravuras e recortes pregados nas paredes . Espaço Tempo. Rachamos uma cerveja encorajadora no Bar Mutambo. "Qualidade ex-". Era consenso entre nós jamais nos submeter à censura prévia. Mal Mais Um vai às bancas. u m dos fundadores do grupo radical Panteras Negras. me lembro do Palmério Dória ao lado. ex. que falavam mais nas entrelinhas que nas linhas. Vivíamos n o limite das possibilidades financeiras. enchia o bimbolover duns 20 centímetros de comprimento . mas havia empatia e simpatia mútuas). O loiro. além de baixinhos. respondíamos pelos pepinos. não passava das nove e meia.17. os responsáveis. distribuía u m punhado de fichas telefônicas para cada repórter . sexta-feira. p/ dir. Filho.seu paletó levantava e a gente via a reluzente arma enfiada na cintura. c o m nada menos que Vanja Orico. caso incitado. espionagem de adversários patrocinada por Nixon. onde passaríamos brevíssima temporada. Publicada a reportagem. paranoia latente no ar para imaginar que havia u m conluio entre forças contrárias a f i m de asfixiar o ex-. Era tácito que nós dois e Narciso Kalili. Cleaver posava com uma calça que tinha na frente u m porta-sexo. os três primeiros nomes no expediente. Armindo Machado. passamos a tocar o ex-. u m português muito safo. anunciado no número 1 6 . Não vieram nos matar fisicamente. acabou apreendido ainda nos depósitos da Distribuidora Abril. tomando sol numa praia tropical. N u m canto da capa do primeiro número. creio que o Palmério. HAF e e u . não vamos publicar. Serjão foi dar u m tempo e trabalhar em Ribeirão Preto. O número 1 foi às bancas levando na capa u m A d o l f Hitler nu. o outro mauzinho. "Polícia Federal". Faviere.O melhor do ex-. Proclamação da República. Jayme Leão criou o logotipo. de mãos enormes.havia sido criado em 1973 por Sérgio de Souza. C o m problemas de ordem financeira na praça depois que O Bondinho faliu. fui trabalhar na TV Cultura. não imaginávamos o que "eles" arquitetavam. A maneira sutil e b e m humorada de dizer tudo sem dizer nada a gente desenvolveria também nos textos.:José T r a j a n o . e Paulo Patarra. e s q . e imaginei que ele. completamente à vontade.passava a sofrer censura prévia. devia ser dia 14. pusemos u m selinho. que vinha de Londrina regularmente.Revista de Fotografia.e a arma saltou à vista . nosso incrível administrador. os raros anunciantes cancelaram anúncios.receberíamos aviso para comparecer na Polícia Federal da Rua Xavier de T o l e d o . A m o n t a g e m aludia ao caso Watergate. ficávamos na terceira das três salas da casa. Atrás vinha u m armário negro.. anunciou o armário branco de cabelos loiros. na ilusão de enganar a polícia da ditadura e passar aos leitores o recado de que o ex.

c u s ? V o c ê s n ã o têm c o m p o s t u r a ! " . a í t e v e um c h i l i q u e ao d a r com o t i t u l o z i n h o Comicus. " " . devido à contaminação de mercúrio. n o s arredores da Rua Cerro Corá. ao a p r i m e i r a p á g i n a . em j o g r a l . com mais pela integridade física de vocês.. Tempos imprevisíveis. Júlio ou Ruy. cidade japonesa cuja população sofreu barbaramente nos anos 1950. ele o agita em nossa direção c o m tamanha força.. foi transferido para o DOPS. Tínhamos a informação e não nos reprimíamos.. José Trajano. Esq p/ Dácio Nitrini Paulo Patarra "Polé" Orlando (meio c o r p o ) Chiodi. que "eles" fecharam. Volta e meia O roliço coronel nos aponta o sofá. as conversas poderiam estar sendo escutadas. Paulo Almeida Passamos semanas deprimidos. bola de fogo que foi sumindo até desaparecer por completo. Ele encerrou a cena brandindo o Mais Um como se o quisesse rasgar a dentadas. Não havia processo n e m direitos civis. f o i a m o r t e de Vlado. t e n t a n d o "Não. usando o carro do Myltainho. Disse-me que telefonasse para o advogado Marco Tulio Bottino. passamos dois anos intensos.. de quadrinhos. m a t a r a m V l a d i m i r Herzog. . nada aconteceria a Narciso. Vanira (semi-sentado). é outro diferente. amigo dele e do Sérgio. pedir para vê-lo. Da varanda vi os três entrar n u m carro comum. coronel. A matéria da capa. TFP. De manhã tocaram a campainha do apartamento. E assim foi feito. Alguns ficaram c o m medo. que ele escreveu aos 18 anos.provocava. é cômicus." bradou. levantamos. coronel. fundamos novas publicações. Paulo e o Jornal da Tarde substituíam matérias censuradas por versos de C a m õ e s e receitas culinárias. contestar: E n ó s . Comprei u m livro de Hemingway. Falamos de Kissinger. O fotógrafo Man Ray. Maria Isaura m e apresentou a u m Mesquita.a defesa da liberdade. donos daqueles jornais. e c o m e n t a r í a m o s d e p o i s . HAF e e u . . escrevi: Para Narciso com amor. p e r g u n t a enquanto contida. A empregada havia aberto a porta para dois homens.. ele veio quieto. Dias depois Marco Tulio telefonou. conturbados. Pedi que publicasse a prisão do Narciso. outro estilo. Era como se vivêssemos n u m m u n d o diferente do restante. Aquele teatro do absurdo não durou mais que dez minutos. T í n h a m o s de nos metamorfosear para conseguir nosso objetivo . Vimos. O Estado de S. Apanhando o Mais Um que tem sobre a mesa. D o n ú m e r o 1 até o 16." ". nos r e v e z a n d o e t i r a n d o c a l m a s e i lá d e o n d e .. muito menos se foi torturado. p a s s a d o s t a n t o s O coronel arfou e disparou: "É o m e s m o j o r n a l ! O t a l d e e x ! " E s t a v a c l a r o . abre as asas sobre n ó s " foi a manchete.. nos despedimos e caímos fora. Narciso preso Ele veio quieto. naquela época trabalhando na TV Cultura: u m jornalista chamado Claudio Marques denunciava todo colega que parecesse "suspeito". " ". Fui à porta do quartel onde funcionava a Oban. Essas notícias não eram publicadas. A ditadura ganhou uma Amancio Chiodi Lembro quando fizemos o número 1. Chegou quieto e nunca quis falar do que viu e ouviu na Oban e no DOPS. Vieram outros trabalhos. O número u m foi contra o nazismo.. A repressão era velada e forte: cada número que colocamos nas ruas exigiu u m trabalho de Hércules. "vão soltá-lo".. Maria Isaura Pereira de Queiroz disse: dir: Kosminsky Lafer e Hamilton F i l h o . . o senhor veja. Fiz uma fotomontagem do Karl Marx sorrindo. " C o m i .. A gente achou e publicou u m conto de h u m o r do Marx." No script que a gente esperava não constava ameaça de morte. E o ex. centro Amancio Codato. não nos m a t a r a m p o r c a u s a da r e p o r t a g e m s o b r e o C a s o V l a d o . nos dava força. a repressão nos calcanhares. anos. Não parávamos u m minuto. ou eu não respondo D e f i n i ç a o da capa da e d i ç ã o extra e n t r e v i s t a d e D . levar comida e cigarros. usava fotomontagem justamente contra o nazismo.." " . Seus pais ajudaram c o m Narciso Kalili g £ o | Só é p o s s í v e l r i r h o j e . O Mesquita p e r g u n t o u se Narciso estava m e t i d o em g r u p o político. cada vez íamos a uma gráfica diferente.. Liguei para professores de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo." é "Mas.. respondi. "Não". . a diagramação Ele p o r um i n s t a n t e t i t u b e o u . " D o q u e se t r a t a i s t o ? " . curso que eu tinha concluído. Perdemos nosso j o r n a l pobre ganha-pão mas rica realização pessoal de cada um. sem cordões nos sapatos. Escorpião Félix. e contei o que tinha ouvido dele. e nos abraçamos Ethel "Olhem: ou vocês param c o m isso. logotipo. e abríamos outras. o l h o u a c a p a . r o s n a n d o ou n e g a n d o com g e s t o s da cabeça. sem cordões nos sapatos. " ". ameaçador: . c o m a mãe de Narciso. que Narciso admirava. no Jornal da Tarde.. submetido à repressão. Estávamos e m 1974.Operação Bandeirantes. Eram da Oban . é uma s e ç ã o . Não permitiram. s e n t a d o . "O que posso fazer?" M i n h a idéia era que. mas q u e r i a m m a t a r o e x . M o n t a m o s u m QG n a casa do Paulo Patarra.. Isso. o ú l t i m o n ú m e r o contra n o s s a vontade. Perdeu o emprego na Cultura. Narciso j á desconfiava. Numa sala do DOPS. . C o m uma semana.. na verdade. que tomava conta do planeta. a uns quatro metros dele. que parece querer esfarelar nosso jornal. cujo trabalho pesquisei. Temporariamente. nós e a cidade inteira. t e n t a m o s a r g u m e n t a r com f r a s e s q u e o c o r o n e l ia c o r t a n d o r e n t e . travessa da Augusta. se saísse no jornal. F i z e m o s vigília e f e c h a m o s o ex-16. u m objeto não-identificado. apontando por a gente sonhava no f i m da ditadura lançar u m j o r n a l chamado ex. E "Liberdade. acreditávamos que podíamos e devíamos dizer tudo. claro. Assentimos. L e m b r a m o s a tragédia de Minamata. o último. a ditadura nazista tinha vencido. Nixon. Em 25 de o u t u b r o de 1975. liberdade. Não tínhamos dinheiro. com v o z r a i v o s a mas "É n o s s o n o v o j o r n a l " . e poderia receber visita. Incrível.. na Luis Coelho. Dácio e eu fizemos matéria c o m Pelé e m Três Corações. já p e r d e n d o as estribeiras. P a u l o . Ethel e filhos.Hamiltinho. respondemos. Foi c o m o u m r e s u m o do que eu havia vivido até aquele m o m e n t o .17. . Nos abraçamos. foi pano rápido.

Os colegas v ê m aconselhar a gente Perseguidos ferozmente pela direita." O ex. cearense de Mombaça. Ruy Fernando Barboza. tem novo dono. interessante nos 202 anos de história do jornalismo brasileiro se atomizaram. crítico. C o m a distensão lenta e gradual e a queda do regime militar. a capacidade impressionista de João Antônio e Octávio Ribeiro.o exfoi o vencedor. sobre o Escândalo das Mordomias. e m sua maioria. podia segui-los no meu carro.dinheiro e mantimentos. Passou por u m a reforma que lhe roubou o b o r o g o d ó . A certa altura da av. as relações entre os jornalistas desse capítulo Voltou acusado de "ofender presidente de país amigo". Naquele sobradinho. sublocado de u m sargento aposentado da Aeronáutica que usava o porão para estofar móveis. artes e m a n h a s do o f í c i o g e n e r o s a m e n t e t r o c a d a s com os v e t e r a n o s eram i m p o r t a n t e s para g a r a n t i r a e f i c i ê n c i a e q u a l i d a d e do t r a b a l h o que se tinha d e t e r m i n a ç ã o é t i c a : a r e s t a u r a ç ã o dos c i v i s . preocupados c o m nossa segurança. Viver Londrina. "São da Polícia Federal. Doutor Arnaldo travou. O Pássaro Preto e m frente. velhíssima. apareceu vestido de presidiário n u m a das capas mais inspiradas do ex-. U m grupo de moças m o r a ali. nas páginas de esporte de O Globo . perseguidos ferozmente pela direita e aceitos c o m mil e uma restrições pela esquerda. o resto é interpretação"). Repressão forte. publicação sem patrono e sem patrão. apanhada de calças c u r t a s . Por causa do escândalo Watergate. cozinha e garagem se transformaram em animada redação. aceitos com restrições pela esquerda Hilton Libos No balcão do Pássaro Preto. talvez m e u m a r i d o demorasse. e m cima do lance. o ex-. que ele havia fundado c o m o Sérgio de Souza. o estilo de manchetar do Narciso.termo cunhado pelo escritor João Antônio . "Eles estavam c o m mais m e d o que nós. só que nós estávamos c o m a macaca". cearense Sergio de Souza também. U m amigo. que era extensão do ex-. Claro q u e . terra de Paes de Andrade . era para nos proteger. Era ali que se c o m i a o arroz c o m feijão entre u m a edição e outra. D e m o r o u até que chamassem o Sérgio. Paulo Pimentel. D e p o i s foi m i n h a vez. o Panorama. l i b e r d a d e e i g u a l d a d e . n u m sobradinho do Bixiga. era 1974.viria a disputar o Prêmio Esso pau a pau c o m O Estado de S. e m frente da ex-redação n o velho Bixiga. E nasceu o ex-. a edição do Myltainho. Melhor jornal da rua Santo Antônio.16 trouxe a reportagem que viria a ser classificada como uma das 10 que abalaram a d i t a d u r a . T o m á s freta ônibus e c a m i n h õ e s que levam e trazem conterrâneos e suas mudanças. que estava no grupo de jornalistas que visitou o ex.criação de Otelo. prisões e perseguições policiais. Sala. vi a aterrorizante perua Chevrolet C-14 cinza na nossa porta. vivíamos do salário do Sérgio como professor de jornalismo na Faculdade Objetivo e das traduções de fotonovelas que eu fazia para Capricho. Já nós achávamos que proteger seria publicar. Então chegou a notícia da morte do Vlado. depois d e s s a . não estou s o z i n h o e m m e i o às levas de n o r d e s t i n o s c h e g a n d o e savindo dos ô n i b u s pausde-arara que agora f a z e m p o n t o n o lugar. n u m encontro fortuito na rua Major Quedinho. Distantes não apenas na linha do tempo. achavam que íamos cutucar o d e m o c o m vara curta. iam dedicar o n ú m e r o 16 ao assassinato do colega Vladimir Herzog no D o i . 1. 1. Seguimos para a sede da Polícia Federal.naquela noite. Em u m quadro geral de intolerância ditada pela Lei de Segurança Nacional. Morávamos n u m sobrado na Vila Beatriz." A reportagem de u m nanico . em Londrina. Narciso não queria. O Estadão venceu c o m Assim Vivem os Nossos Superfuncionários. Paulo. o magnífico repórter Ricardo Kotscho. u m dos ex-editores. a peça g a não fazer isso. Fizeram perguntas de praxe e m e m a n d a r a m pra casa.não teria havido a reportagem do Estadão. eram treze). a pauta criativa do HAF. Não era segredo que os editores. O portão que dá na escada está sempre fechado a cadeado. e nossa casa em outra comunidade. a sangue-quente. para retomar o ex-. Richard Nixon. O fracasso econômico do Bondinho estava fresco na memória. lembra Mylton Severiano. Narciso então lançou com Ruy u m jornalzinho de serviços. mas a vontade de desafiar a mediocridade imposta pela ditadura militar era mais forte. está apenas de olho no dinheiro que pode ganhar. também uma C-14 azul-cheguei. porque se u m rótulo poderia dar uma pálida idéia da ideologia daquela redação pode-se dizer que se tratava de u m grupo de jornalistas hetero-anarco-comunosindicalistas.o deputado que virou presidente por três dias e nesse í n t e r i m lotou o avião presidencial e levou uma comitiva para festejar lá.não passou do 16. intervenções violentas para o controle da informação. c o m o Tomás. era apenas uma ironia dirigida à caserna. Várias pessoas estavam saindo do Brasil. U m dia. o Caçador.043." Perguntei se podia ir j u n t o sim. intermediou o contato c o m u m político paranaense. A s s i m um g r u p o de i n f a n t e s t e r r í v e i s foi a p r e n d e n d o a f i s c a l i z a r o p o d e r com e s p í r i t o b u s c a n d o o c r i s t a l da v e r d a d e . o pássaro de penas e n g o r d u r a d a s d o m e s t i c a d o p e l o seu Vicente b i c a n d o p o r ç õ e s de a m e n d o i m entre garrafas. Semanas depois. sublinhando que havia certo sofisma no ar: "Diziam que. não faz a m e n o r ideia de que ali houve u m jornal. O sobradinho ainda existe e m 2010. se p e d i a m que não publicássemos. c o m u m a brega fachada de tijolinhos.teve os votos de Cláudio Abramo e Carlos Castelo Branco. . vou prestar esclarecimentos. Cláudio e Castelinho entenderam: sem a reportagem do ex. obviamente. Era o fim do melhor jornal da Rua Santo A n t ô n i o . que. Sérgio saiu acompanhado por três homens.C o d i do II Exército. mas também em relação à função social do jornalista contemporâneo que. zona oeste de São Paulo. o Myltainho. como o princípio ético que os regia ("ética é respeito à verdade. bebia-se o cafezinho b a f e j a n d o cigarros s e m filtro e cerveja. o ex. viveu seu momento mais espetacular. meia dúzia de jornalistas do primeiro time sobem os 16 degraus que levam à redação do ex-. Se há placar moral . Foram dois dias angustiantes (quantos não voltavam depois dos tais esclarecimentos). me disse: "Vocês ampliaram os nossos limites. O projeto gorou.043 Palmério Dória No começo de n o v e m b r o de 1975. Mas o ex. coordenada pelo próprio Kotscho. mas me esperaram abrir o capô e destravar. E preparava a volta a São Paulo. pelas oito da noite. depois de entregar as crianças que transportava da escola para casa (com as nossas. mas o ex. O porão é alugado por José Tomás Filho. como diretos que muda as marchas vivia travando. para que Narciso fosse montar u m j o r n a l diário. Tínhamos seis filhos. O pedaço é u m consulado da Não estou só porque permaneceram porções vivas deixadas pela coragem editorial do Paulo Patarra. esse positivismo revolucionário franco-brasileiro. Sérgio preso O aterrorizante camburão parou na nossa porta Lana Nowikow Não lembro o mês. vindos de uma experiência de vida comunitária que durou o tempo que duram as relações humanas quando maridos se apaixonam pelas mulheres dos amigos e vice-versa. As t é c n i c a s .surpreendia pela ousadia e criatividade. grana pouca.

ideologia. ensinamento da mãe do Myltainho. u m dos p r i n c i p a i s editores deste j o r n a l . onde a turma morava. mais humano. Q u e r dizer. Fotochoq.m e m u d o u a vida. o que exigia esforços c o m o a l o n g a v i a g e m que f i z e m o s até Maringá.m e trouxe para São Paulo. c o m 16 anos. claro e atencioso. Alex Solnik. t í n h a m o s as q u a t r o p á g i n a s prontas. Era. põe. Norte do Paraná. não havia dinheiro que pagasse o aprendizado. fui soldado raso. Vandré e o "quarto poder" tinham "ocupado" a redação. Eu havia herdado uma IBM elétrica de u m estúdio desmanchado. que a gente chamava de Turco. Naquela p e q u e n a redação. f o m o s todos para São Paulo fazer o ex-. Sobrevive impávido. Agradeço por fazer parte da história da imprensa brasileira numa época turbulenta. Mamas and Papas. O j o r n a l era tocado n o m a i o r aperto financeiro. Me pôs de ponta-cabeça. H a v i a u m p i a n o que o M y l t a i n h o tocava. E foi e m São Paulo. Participei da feitura do Mais Um com apreensão. bar.sobre prostituição. V i m para São Paulo em 1975 rodado: Correio da Manhã. Serjão sereno. Não A l m e i d a Filho. r e d a ç ã o d o ex-. Os que tinham filhos ganhavam um pouco mais. após passar pela arte da Espaço Tempo. Foi a universidade que jamais frequentei. c o m abertura total para a criatividade e u m respeito b e m b o n i t o da liberdade de cada um. continua sendo. Aprendi comprometimento. quando decidimos fazer o Mais Um. resolveu fazer o Jornal do Cometa. Johnny Rivers. Faço sinal para o táxi pensando: "E se tivéssemos entrado na trip de pavor dos colegas?" Dentro do táxi. honrar a palavra justiça. 1. verdade. C o m o f i m do Panorama. No começo de 1973. as colunas certinhas. Sergio na en 1974 Fujiwara e Vanira Codato. Estavam ali Hamiltinho. Devo isso aos inesquecíveis mestres Narciso. podia bater no peito e gritar "agora. põe a f o t o . O ex. c o m ar condicionado na esfuziante manhã de verão. Foi minha primeira aula de diagramação. c o l a a l i . Paulo Patarra. que ganhei forma. paixão. Narciso Kalili. Passado u m tempo. o HAF. saíamos para vender o ex. Trabalho e paixão era o que nos movia. diário de Londrina. A v e n d a de u m a edição pagava a p r ó x i m a . n u m sistema de vida que levava ao pé da letra o lema do "quem tem. em papel couchê. e s t i l e t e e b a s t õ e s de c o l a . R e c e b í a m o s visitas ilustres. Myltainho digitou todas as matérias. e ia deixando tudo e m consignação. Acreditávamos no que fazíamos e. P a l m é r i o de cantor. sou u m jornalista de verdade". união. Era u m a vida comunitária sem n e n h u m a separação entre o trabalho e o dia-a-dia. u m dos fundadores do ex-. dedicação. No ex-. e c o r t a a q u i . encartado no ex-. Era daquelas máquinas c o m esferas.era outra coisa. e c o m e c e i a fotografar aos 18 anos para este projeto audacioso que i n f e l i z m e n t e d u r o u m e n o s de seis meses. No número 3. sunshine! do Alto da Lapa. geografia. para fazer o jornal Panorama. Santana. no ex-. Jornal dos Sports. Na nossa redação havia respeito e amizade e todos tínhamos valores. Inesquecível reunião no bar em frente. de noite. história. tira".e ficar c o m a l g u m porque não pintava grana. a imprensa noticiava como grande espetáculo celeste por acontecer. amizade. que cuidava da "tesouraria". t í t u l o com t a l l e t r a . n o s fins de semana. que eu havia cruzado e m coberturas de futebol. você sabe e l e n ã o se a b a l o u : diagramar?" S i m . mas " S a b e s i m . e se n ã o s a b e v a i a p r e n d e r hoje!" Foi a universidade que jamais freqüentei José Trajano O ex.043.chegou em 1974 a Londrina. Saía cedinho c o m uma Kombi cheia de jornais. A m a n h e c e n d o . Mas no ex. Jornalivro. vendo quanto tinham vendido. para depois fotografar e montar as páginas. Outro fato memorável é da gente traçando rotas das bancas dos bairros. Ficamos trancados dias e noites na sala da casa . O Turco era fantástico: A gente se amava Suzana Regazzini Trabalhar no ex. o orelhão em que apurávamos nossas matérias. Na Paulicéia nasceram m e u s três filhos. mas rica e m criatividade. Este clima fora dos padrões rígidos daquele período de ditadura é que havia me seduzido quando o grupo do Elvira Alegre ex. Recolhia o dinheiro. acima de tudo. Se hoje sou capaz de tocar o barco na profissão é porque venho de Lições para um aprendiz Sérgio Fujiwara Tirei a sorte grande ao participar do ex-. O Armindo. Narciso e Eduardo Barreto vão lançar nova publicação. C o m vários havia trabalhado n o Panorama. E me levam à casa do Sérgio. era ex. Mas o pouco que convivi foi o bastante para me tornar u m sujeito mais consciente. vivíamos de f o r m a intensa os c o m p o r t a m e n t o s mais avançados da época. levava pra redação e tudo era dividido igualmente entre todos. mais cético. pobre de recursos.foi uma grande escola. o som do motorista Luis Carlos despeja uma seleção c o m o melhor dos anos 60 e 70 do século 20: Paul Anka. A l g u é m acabou detido por fazer "propaganda subversiva". Foi então que conheci Hamilton " Ô . Fotos da coragem de uma época Elvira Alegre A experiência de fazer o ex. Narciso. não. Dali e m diante. e soltava a l g u m caso acertasse n o s cavalinhos do Jóquei. Nos últimos tempos uma presença constante era a do Geraldo Vandré. Todo feito a mão. Antes do assassinato do Vlado j á havia u m a grande tensão no ar. Havia começado no Jornal do Brasil em 1964. Eu j á estava casada c o m o HAF e m u i t o apaixonada t a m b é m pelo j o r n a l i s m o .República do Ceará. estética revolucionária e ética do ser independente. Paulinho Patarra e HAF. n o Paraná. o HAF.era o m a i o r orgulho de nossas vidas. o que nos obrigava a sempre ter fichas nos bolsos. na esquina c o m a Luís Barreto. Em São Paulo. Depois. mas com alegria.de dia. Sérgio de Souza. havia. A p a r e c e u o P a u l o C a r u s o e os dois f i z e r a m u m dueto. teatro. livro "a preço de banana" como disse o Serjão no editorial de lançamento. mais ético. para lá i m p r i m i r o ex. Muitas vezes chegava antes de todos nós na redação.era de u m a grandiosidade que ia além da realização jornalística. de norte a sul. que editava Grilo. Dácio Nitrini. não podia picar na faca. regados a vinho Sangue de Boi. Produzimos u m pôster c o m a i m a g e m e vendíamos nas portas de cinema. Palmério Dória. longe. podia trocar dois ou três tipos de letras diferentes. editado pelo Amancio Chiodi. A redação funcionava na garagem. Aprendi j o r n a l i s m o . Veio o episódio do cometa Kohoutek.14 e baratear custos. mas só convivi depois que o jornal foi fechado pelos "homi". n i n g u é m ligava mais. gastronomia. E. Jayme Leão saiu com o leiaute do logotipo pronto. só q u e eu era a s s i s t e n t e de a r t e . comendo omelete de salsa e queijo. o m e s m o trajeto. trocando as esferas. Fiquei alguns dias até fecharmos a primeira edição da publicação mais importante da imprensa alternativa. dividindo até a moradia. quem não tem. A notícia de sua m o r t e chegou de Ele me deu t e s o u r a . mas somos b e m vindos e j á tinha um monte de trabalho. D o t e m p o e m que o ex. semanal de HQ. Fico sabendo que não têm como pagar. mas de f o r m a indireta. E que aula! Mais incrível foi o ex. vivíamos no mais absoluto sistema cooperativista. nós nos amávamos. r é g u a . e toda a cambada. Não tínhamos grana alguma. o 5. u m bloquinho. C o m o eram maravilhosos os anos 60! C o m o eram maravilhosos os anos 70! Good morning. vestimos Nixon de presidiário. Amancio e Suzana me falam que Serjão. carioca renitente. sentado na sala de entrada do sobradinho da Santo Antonio. logo eu. E a salsa devia ser rasgada na mão. pagava o almoço n o Pássaro Preto. de fotos chocantes. Não queria mais me separar daquelas pessoas. Vivíamos n u m a casa da Vila Romana. era n e n h u m bobalhão. Mas foi c o m o se j a m a i s tivesse entrado n u m a redação. no Paraná. de madrugada. sim. Myltainho. Só fui aprender mais com outro mestre. Última Hora. j a p o n ê s .

E s t a d o de São Paulo © Instituto Vladimir Herzog. começa tudo de novo Vanira Codato Cheguei quando o pessoal estava aqui em Londrina fazendo o diário Panorama. revisões. atordoados de sono. E a forma de reação foi o jornalismo corajoso que era u m a marca da turma do ex-. Farkas. A enfrentou e e d i ç ã o f a c .500 exemplares. por Dácio Nitrini. Jornalismo . vinha cheio de riscos e emendas a lápis ou caneta. para foi realizado da m e m ó r i a a Imprensa concretizou de r e s i s t ê n c i a à ditadura por imprensa do m i l i t a r . e calcular a quantidade de caracteres. sem graça e elegância assuntos e muito deselegantes.presidido H e r z o g . 1853 conj. editada trata alguma Foram contém com graça no a n o d e 2010. Impressão e Acabamento Imprensa Oficial do Estado de São Paulo Esta p u b l i c a ç ã o . t e m p o s de 1. Sempre gostei das artes. cheirando a tinta fresca. corto a matéria pelo pé!" Depois. Era coisa de doido contar linhas madrugada à nossa casa. claro.com. [2010].81 Índices para catálogo sistemático: 1. e havia a vontade de fazer algo que nos afastasse daquela vidinha medíocre que nos mostravam como caminho da felicidade.610. a montagem das páginas. quando a gente tem vinte e alguns anos.994. 2 CEP 01452-001 São Paulo SP Imprensa Oficial do Estado de São Paulo Rua da Mooca 1921 Mooca CEP 03103-902 São Paulo SP Brasil sac 0800 0123 401 sac@imprensaoficial. Nunca é u m a tarefa fácil fotografar enterro e naquela situação era até m u i t o arriscado.1998) Foi feito o depósito legal na Biblioteca Nacional (lei n° 10. Jornalismo : Brasil : História 079. Edição fac-similar completa de novembro de 1973 a dezembro de 1975. E lá ia nossa resposta: "Se não couber.12.2004) Impresso no Brasil 2010 Instituto Vladimir Herzog A v . ex-sobreviventes.815 5 Proibida a reprodução total ou parcial sem a autorização prévia dos editores Direitos reservados e protegidos (lei n° 9. Cada En b u s c a d e a n ú n c i o s . para saber que tamanho de letra seria necessário para ocupar o espaço que cabia à matéria.br www. Brigadeiro Faria Lima. produzidos ocorridos escuridão. costuma ser muito atrevida.02. n a n i c o c o r a j o s o q u e ditadores Um e n c a r t e d e a b e r t u r a c o m o e r a m os b a s t i d o r e s Foi editado Severiano A direção e Amancio picardia. caixa completa e n t r e 1973 e 1 9 7 5 .Brasil . j á criticando o que tinha saído errado. Havia bastante medo.Brasil . Mas. então meu namorado. ISBN 978-85-7060-855-0 (Imprensa Oficial) 1. estava participando da edição gráfica do ex-. Contém encarte de abertura. Na ida para o velório e para o enterro foi o HAF que falou para eu fotografar tudo. Sem contar cortes e inserções de última hora. acompanhando o Luís Guerrero. mas fui fazendo m e u trabalho apesar do clima de tensão que é visível nas fotos.com.br livros@imprensaoficial. 2010 Biblioteca da Inprensa Oficial do Estado de São Paulo EX / [Editores Dácio Nitrini. mas também estava claro que era preciso reagir.(Máquina pequenino. que borrava as mãos e que a gente agarrava com alegria e. E. começaria tudo de novo. dávamos aquela passadinha pelo boteco e íamos para casa desmaiar porque amanhã. datilografado em m á q u i n a de escrever. com a cara e a coragem fazer algo que nunca tinha feito.História 2.e mostra Mylton redação.81 2.s i m i l a r da c o l e ç ã o usando criatividade conta da do e x . Fui.imprensaoficial. Então saía da boca da rotativa aquele jornal. o texto. de arte é de Kiko E s t ú d i o ) .Amanhã. de 19. Chiodi. Jornalismo panfletário 3. fui entrando na editoria gráfica.com. - . dias e noites na gráfica acompanhando a composição. aquela audácia até temerária permitiu fixar as imagens da coragem das pessoas frente ao terror da ditadura. montava e imprimia u m jornal.. T e m p o s sem computador. EX : Jornal panfletário : Brasil 079.Humor. sátira etc CDD 079. Acabei tirando as fotografias mais importantes da m i n h a carreira e que estão entre as imagens mais significativas da nossa história recente. quando a gente acordar. Quando vi. Jornalismo . E só Oficial esta publicação. novinho em folha. quando a gente acordasse. t e x t o p e d i n d o publicitários apoiarem o expara página era desenhada c o m lapiseira n u m diagrama. de 14.br . Mylton Severiano e Amancio Chiodi] . No final. Volumes acondicionados em caixa. l e i t o r do ex- desde Trata-se do p r i m e i r o resgate porque projeto abraçado da pelo Ivo Instituto Vladimir Herzog. E as eternas "brigas" c o m a editoria de texto sobre o que o pessoal chamava ditadura da arte. com o telefonema de u m amigo. Governo do Estado de São Paulo Governador Alberto Goldman Imprensa Oficial do Estado de São Paulo Diretor-presidente Hubert Alquéres Diretor Industrial Teiji Tomioka Diretor Financeiro Clodoaldo Pelissioni Diretora de Gestão de Negócios Lucia Maria Dal Medico Gerência de Produtos Editoriais e Institucionais Vera Lúcia Wey Coordenação Editorial Cecília Scharlach Assistência Bia Lopes Editorial Produção Gráfica Laís Cerullo Nanci Roberta da Silva Cheregatti Tratamento de Imagens Anderson Lima Ailton Giopatto Carlos Leandro Alves Branco Leonídio Gomes CTP. mas felizes da vida.[São Paulo] : [Imprensa Oficial do Estado de São Paulo: Instituto Vladimir Herzog]. Não tinha a mínima idéia de como se diagramava.