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ISSN 2236-3254

CONEXÕES: ENTREVISTA COM JORGE DUBATTI
MENDONÇA, Renato 1

Este vínculo é dado pela materialidade do corpo. trechos da entrevista realizada com o autor dos livros El convivio teatral (2003) e El teatro sabe (2005) durante sua estada na capital gaúcha. o teatro iria na via inversa. o indivíduo não pode se desterritorializar. convívio e tecnovívio". da TV. Convívio é a soma de interações que envolvem duas ou mais pessoas quando elas compartilham territorialmente um vínculo. levando a uma vivência mediada por meios virtuais. Nesse sentido. Por exemplo. o senhor falou da oposição entre tecnovívio e convívio. pelos condicionamentos contextuais e pela historicidade. já que está incluído em uma zona comum de experiências dada pela cores. está inserido na estrutura mítica do ser humano. esse vínculo remete a uma memória ancestral do Homem.cena 10 ISSN 2236-3254 CONEXÕES: ENTREVISTA COM JORGE DUBATTI MENDONÇA. porque o convívio nasce quando se juntam duas ou mais pessoas. Cena – Durante sua palestra na VI Reunião Científica da ABRACE. O pesquisador argentino proferiu a palestra "Teatro. mas também ao mito de Adão e Eva. Jorge Dubatti foi um dos convidados da VI Reunião Científica da ABRACE. Além disso. do cinema. A seguir. e impõe uma quantidade de condições. O convívio pode ainda . privilegiando o convivial. quando discutiu implicações e alternativas que as Artes Cênicas enfrentam face às novas tecnologias e às novas formas de interação humana que caracterizam o mundo contemporâneo. historicamente. realizada entre 5 e 7 de setembro. privilegiando o contato imediato das pessoas. O tecnovívio seria um fenômeno característico dos dias de hoje. E. no primeiro dia do evento. porque o convívio é algo que acontece desde que o Homem nem era Homem. remete a uma estrutura ancestral que chamo de convívio. Renato 2 Um dos principais nomes da historiografia e da crítica teatrais da América Latina. pelos sons. que se daria principalmente através das redes sociais. podemos ligar o convívio ao conceito de manada. Jorge Dubatti – O Teatro. em Porto Alegre.

No tecnovívio. Dessa forma. em sua fórmula básica. esta experiência não pode ser guardada. Segundo elemento: capacidades na percepção que não sejam as naturais em um corpo. por exemplo. não há nada do outro lado. “enlatada”. Terceiro elemento: supressão do vinculo dialógico com o outro. Ao contrário. Renato 3 nos remeter à relação do bebê no corpo da mãe. Por exemplo. essa subjetividade organiza também uma política muito vinculada ao poder e ao mercado. em um mundo em que os cegos conseguirão enxergar e os paralíticos lograrão caminhar. Ou até fazem o Homem acreditar que a experiência tecnovivial vá substituir a convivial. o desenvolvimento tecnológico ou certa ilusão futurista fazem com que o Homem acredite que são experiências iguais. como o tecnovívio distribui a informação. mas não consigo perceber a totalidade da zona de experiência em que estou inserido. Falo de potências porque o corpo tem uma capacidade imensa de possibilidades. No cinema. Muitas vezes. Primeiro elemento: desterritorialização. do rádio. porque o outro pode ou não estar do outro lado da intermediação tecnológica. O Teatro. eu percebo com minha visão algumas coisas. A experiência tecnovivial e a experiência convivial são muito diferentes. A grande diferença entre convívio e tecnovívio é justamente tudo aquilo que implica a sustação do corpo. É o que acontece com o cinema. Além disso. Além de ordenadora. surge uma subjetividade ordenadora do campo das experiências. mas não há diálogo com o ator. não admite a supressão do corpo. da web. das redes óticas e da televisão. há imagens projetadas. o mercado. quando se está em uma situação de convívio. tudo a partir de ferramentas de digitalização e de virtualização tecnovivial. porque não admite a supressão do . a des-historialização da zona de experiência.cena 10 ISSN 2236-3254 CONEXÕES: ENTREVISTA COM JORGE DUBATTI MENDONÇA. a desauratização. o vínculo tecnovivial. A convivência é sempre aurática. Avanços tecnoviviais fabulosos fazem crer em um Homem superpoderoso. mas também tem limitações perceptivas. com minha audição noto outras. determinada pelas potências e pelas limitações do corpo. ele já se distingue do cinema. O Teatro não permite a desterritorialização. E esta zona de experiências não me aparece de forma organizada. essa informação pode ser guardada.

ou seja. se transformou ao longo dos anos. Só não podemos subtrair o corpo do ator. porque quem observa pensa “Isso que estou vendo aconteceu exatamente igual há milhões de anos”. seria uma relação vinculada aos objetos. construo desejos em lugares diferentes.cena 10 ISSN 2236-3254 CONEXÕES: ENTREVISTA COM JORGE DUBATTI MENDONÇA. Mesmo a linguagem das telenovelas e do cinema é realista. O Teatro deve se distanciar dessa tendência de tentar reproduzir a realidade? Dubatti – Estaríamos entrando em outro tema. mas sempre a história do Homem é atrelada ao vínculo convivial. além de exigir o convívio. porque então se passa a outro paradigma tecnovivial. que seria o de que o Teatro. que podemos chamar de regionalização. É por isso que a visão de uma mulher grávida provoca tanta reação. mas está presente. por um lado. Já não há modelos supraestruturais. No melhor dos casos. existe agora uma cartografia de desejos. Cena – No Brasil. exige a criação de poiesis corporal. Quem . A relação é de multiplicidade. fragmentado ou transformado pela tecnologia. ou a certas tecnologias como o livro ou a escrita. Se o corpo do ator está alterado. ao passo que nossa relação tecnovivial é muito mais recente. a maneira de nascer. Renato 4 corpo. a programação da TV tem uma presença expressiva de reality shows. Por exemplo. o convívio se estabelece. em uma reprodução exaustiva do que seria o real. no corpo a corpo. documentários. O que é sumamente interessante no Teatro é que. mudam as cartografias de desejo. de curar-se. o modelo que existe é o do micropoético. no encontro com o outro. de cuidar-se. Por outro lado. Temos uma história convivial de milhões de anos. imagens e vídeos feitos por pessoas comuns. No melhor das hipóteses. Onde antes havia grandes discursos de autoridade. a obra que decido fazer este ano pode ser muito distinta da que fiz no ano passado. É possível haver tecnologização nesta relação — podemos usar televisores ou outros equipamentos. sua base está no convívio. Seria um fenômeno poiético do tipo “cada louco com sua mania”. A pergunta que se coloca seria a de como deveria ser esta poiesis. O que ocorreu nos últimos 40 anos é que não existem o que chamaríamos de grandes modelos supraestruturais. Uma espécie de proliferação de mundos e de poéticas distintas.

É muito interessante o conceito de Jacques Rancière quando ele fala do espectador emancipado. Por sua vez. ou de Ibsen. O interessante é que. à dramaturgia de ficção e a adaptações de textos de outros autores ao modo de um palimpsesto. e em Londres há uma tendência ao teatro de autor. Uma tendência não prevalece sobre a outra. especialmente nos últimos 40 anos. há uma enorme diversidade. se pretendes ser dramaturgo. a buscar conexão com as obras de teatro. vemos a tendência a um teatro de direção. uma molecularização dos grandes modelos a partir de uma cartografia infinita de micropoéticas vinculadas às estruturas de desejo. Renato 5 teria hoje o lugar que foi de Bertolt Brecht. te aconselharia a refletir sobre tua própria história. E o papel do público nesta discussão? Dubatti – Creio que o que dissemos sobre as poéticas . em Berlim. artes plásticas e músicas que te agradem. E o vínculo não se dá por hierarquia.“Cada louco com sua mania” . enquanto nos Estados Unidos prevalece o teatro musical. Passamos de um modelo de autoridade para um modelo relacional. O que se vê no campo do Teatro. à margem dessas tendências territorializadas. ao lado de metáforas ultracondensadas e de espetáculos em que a metáfora praticamente desaparece. porque todos tínhamos de ser brechtianos. Por exemplo. Por exemplo. Dessa forma. o que existem são modelos relacionais. Já não há referências de autoridade. Antes.cena 10 ISSN 2236-3254 CONEXÕES: ENTREVISTA COM JORGE DUBATTI MENDONÇA. ou de Beckett. hoje em dia. os campos teatrais encerram tendências diversas. se pretendias ser dramaturgo. nos palcos de Buenos Aires. é possível estabelecer vínculos relacionais muito mais complexos que seguindo o modelo de autoridade. mas por reticulado.pode ser dito também a respeito do público. enquanto que na Argentina vemos uma tendência ao teatro de diretores e de grupos. há horizontalidade. eu te diria para ler toda obra de Brecht. Hoje. A famosa estrutura rizomática da qual falavam Deleuze e Guattari. de dramaturgo. Segundo . Cena – Existe um grande debate teórico sobre o Teatro que se faz ou se deve fazer hoje em dia. é uma explosão de poéticas. ou de Jean-Paul Sartre. posso assistir à dramaturgia do real. ou de Pirandello.

Da mesma forma. As palavras companhia e companheiro vêm do Latim e significam compartilhar o pão. Por outro lado. Tudo tem a ver com uma nova lógica do espectador. que pudesse fazer o que quisesse com este pão. o espectador trabalha com sua própria cartografia de desejos. É uma estrutura que orienta o espectador. Usando uma imagem bem simples. porque ele sempre cria orientado pelo que a poética lhe propõe. mas não posso escrever Ulisses. tudo o que eu porventura pense vai estar articulado e orientado pelo que li. Se vou assistir a Hamlet. e. Se eu . o espectador não cria os espetáculos. mas que também entre em contato com aquilo que o artista lhe está propondo. de Joyce. vou me defrontar com a história de um homem que deve vingar a morte do pai punindo seu tio. Portanto. em que se defendem posições claras contra a Direita. Dirigindo a Escola de Espectadores. Ou seja. constatei um fenômeno interessante: há espetáculos que falam contra a Direita. mas que reconhecesse que o artista lhe está oferecendo pão com sabor de queijo. A criação do artista não é da mesma natureza que a criação do espectador. entre outras coisas para que possam reconhecer esse status objetivo das poéticas. em Buenos Aires. imaginemos que o criador está propondo um pão com sabor de queijo: seria bom que o espectador saboreasse este pão. Renato 6 ele. Agrada-me a imagem da companhia. Ao contrário. o espectador emancipado é alguém que se coloca em uma relação desejante com o espetáculo. Acredito na necessidade de formar os espectadores. Assim como o criador trabalha com uma cartografia de desejos. deduz-se que o espectador receba essa poética e possa criar emancipadamente a partir dessa poética. é o espectador que apropria do que está em cena e com isso atinge os lugares mais inesperados. não acredito que exista um espectador absolutamente emancipado. há espectadores que leem estes espetáculos como favoráveis à Direita. em um status objetivo. Penso que favorecer o diálogo com o outro significa colocar-se em uma posição amistosa. ele vai dialogar com o que o espetáculo lhe oferece. mesmo assim. de disponibilidade. O espetáculo não determina a direção que ele seguirá.cena 10 ISSN 2236-3254 CONEXÕES: ENTREVISTA COM JORGE DUBATTI MENDONÇA. posso ler Ulisses. Se o artista está oferecendo determinada poética. quando leio Ulisses.

de grandes públicos. é uma arte de minoria. Nunca essa medida poderá ser comparada com os milhões de espectadores que tem o cinema e a televisão. Gosto muito de um conceito de Sartre. posso. e de um telescópio para acessar o que está muito longe. Nossas capacidades vitais são limitadas. chamado Os Limites da Interpretação. sobretudo quando surgem as escalas de público do cinema e da televisão. o Teatro sempre foi uma arte de minorias. O maravilhoso de assumir essa limitação. construir as associações e os vínculos mais estranhos. mas não posso agir como se estivesse assistindo a um [Eduardo] Sanguinetti por exemplo. algo objetivo. usavam máscaras para amplificar as vozes dos artistas. é certo que é uma tragédia. posso fazer com isso o que eu quiser. dentro dos marcos da tragédia. na condição de espectador. essa precariedade. e é certo também que é de Sófocles. E não poderia ser de outro modo. E o Teatro assume como talento essa limitação. Necessitamos do microscópio para observar o que é muito pequeno. Mas há algo escrito no acontecimento. é que assim podemos estabelecer uma . Isso me encanta. além de projetar os anfiteatros de forma a facilitar a visão do público. até por exigir uma participação ativa do espectador. os gregos usavam sapatos de salto alto para que se pudesse enxergar os atores. Renato 7 for assistir a uma tragédia de Sófocles. por seu convívio. Se alguém me propõe uma tragédia. Cena – O Teatro já foi uma arte de massas. porque o corpo e a territorialidade marcam uma limitação.cena 10 ISSN 2236-3254 CONEXÕES: ENTREVISTA COM JORGE DUBATTI MENDONÇA. Já nos seus primórdios. por sua corporalidade. Depois. Atualmente. Vou trabalhar criativamente como espectador. porque sabemos que o homem é limitado por natureza. mas orientado pelo companheiro de diálogo que é o artista. Quanto público podia receber um teatro grego? Suponhamos que 5 mil pessoas. o de criação orientada. por sua territorialidade. Há um livro muito interessante de Umberto Eco sobre esse tema. a que devo ser receptivo. porque são postos em cena elementos característicos da tragédia. O Teatro. o Teatro estaria fadado a ser uma arte de minoria? Dubatti – Na verdade. Quanta gente pode entrar no Maracanã? 80 mil espectadores.

nem com a televisão. Quando esta rede se inicia. O Teatro mais inteligente é aquele que dá aquilo que só ele pode dar. e é indispensável estar no teatro às 21h. — aí é que está a diferença. tem de se estar na cidade. Um tipo de experiência que só se obtém por meio do Teatro. repito. que não compete nem com o cinema. Por outro lado. escreveste que havia espetáculos que ganhavam capas de jornal. montagens sem exposição na mídia às vezes permaneciam meses em cartaz. para poder ir ao teatro. é indispensável uma rede de oralidade a favor. por exemplo. esses meios vencem com facilidade.cena 10 ISSN 2236-3254 CONEXÕES: ENTREVISTA COM JORGE DUBATTI MENDONÇA. outro está em Nova York. Renato 8 identidade própria. E afirmavas que a comunicação boca a boca era a mais importante na definição de quanto público um espetáculo pode reunir. Mas há quem tenha de cuidar do filho. as carências e as limitações constitutivas do Teatro. A força de extensão que tem o Facebook ou o Twitter. o termo é “bocaoreja”. Há um limite para tudo. mas fracassavam nas bilheterias. Dubatti – Para mim. potencializam este movimento horizontal do público? Dubatti – Colabora em parte. E a rede social está desterritorializada. Quando o Teatro tenta competir. Por exemplo: digamos que temos 500 ingressos gratuitos para um espetáculo hoje à noite. Não adianta um jornalista fazer propaganda na TV — se o espetáculo não agrada ao público. nem com as redes óticas. não vá” que neutraliza aquela ação de mídia. E isso provoca sucesso nas montagens mais inesperadas. Cena – A internet. o que mantém viva a experiência do Teatro em Buenos Aires é uma rede de oralidade que nós [argentinos] chamamo s de “boca em boca”. muitas vezes não funciona tão bem com a territorialidade. não há nada que a detenha. As redes . No México. Para que haja um movimento importante de público. forma-se uma rede de “não vá. outro tem de sair com a noiva. especificamente as redes sociais. porque. é preciso dispor de tempo livre. assumindo. Cena – Em um texto sobre a Escola de Espectadores. Mas tenho a impressão de que a massividade atribuída às redes sociais é ilusória.

seguirá inalterada. por mais que nos modernizemos. mas segue existindo uma zona onde o Homem é falível. Mas. as celebrações onde os convivas comem juntos. Um professor que trabalha com Astronáutica em Buenos Aires comentou comigo que se havia tentado que um casal de astronautas se reproduzisse no espaço. Vamos construir máquinas e máquinas e máquinas. os casamentos.cena 10 ISSN 2236-3254 CONEXÕES: ENTREVISTA COM JORGE DUBATTI MENDONÇA. o que determina um tipo de prática. A percepção dos limites do ser humano me fascina. Isso expõe uma escala humana que. Por exemplo. Quanto mais cultura tecnovivial exista. veio por um campo de oralidade que é cada vez mais necessário. e depois se tem lotação esgotada. em suas funções básicas. É simples: existe um estatuto no homem que vigora há milhões de anos. no teatro em Buenos Aires. Ou seja. maior a necessidade de estabelecer vínculos conviviais. . o homem está muito ligado à territorialidade. De onde veio toda essa gente? Não veio pelo Facebook. e há certas coisas que não se pode fazer senão convivialmente. tudo muda. Sem gravidade. Uma das explicações foi a de que a sexualidade opera com a gravidade terrestre sobre os corpos. Renato 9 podem ser úteis para convocar para um acontecimento que vá ocorrer no futuro. acontece de quatro ou cinco confirmarem a vinda por e-mail. as relações sexuais. e as tentativas falharam.