You are on page 1of 10

OS JUÍZOS DE VALOR EM NIETZSCHE E SEUS REFLEXOS SOBRE A EDUCAÇÃO Vânia Dutra de Azeredo∗ Resumo: A comunicação pretende mostrar que

há duas possibilidades em termos de concepção de educação desde sua relação aos valores e que a inclusão de Nietzsche nesse debate conduz a uma reviravolta com referência à própria colocação da questão. Por um lado, temos a concepção de que os valores são entidades absolutas que, pairando num céu inteligível, norteiam as avaliações realizadas no plano mundano. Com isso se quer dizer que os valores constituem um reino subsistente por si próprio, sendo, ao mesmo tempo, absolutos e imutáveis. Tal compreensão tem reflexos diretos nas concepções de educação, pois em termos de formação do homem parte-se do pressuposto de referir seus juízos a valores absolutos, orientado-o, não para a criação de valores, mas para a seleção e o culto dos existentes. Por outro lado, e aqui inserimos a perspectiva nietzschiana enquanto tema central de análise, os valores não se encontram prontos, não são entidades absolutas, mas produtos de avaliações e, portanto, com uma ascendência humana, demasiado humana. Os valores são criados pelo homem e têm, por isso, uma história que os remete às oscilações de poder que se manifestam no seu devir. Essa perspectiva também tem reflexos diretos sobre as concepções de educação, pois nesse caso o ponto de partida para a formação do homem é a compreensão de que ele é um criador de valores, não devendo, em vista disso, cultuar valores em curso. Em termos de educação, coloca-se uma questão fundamental a partir da filosofia dos valores de Nietzsche: que tipo de ser humano se quer formar: um crítico e criador ou um conformista reprodutor? É da competência da educação educar para a criação de valores, para a introdução de interpretações, para a imposição de perspectivas, resgatando, no plano pedagógico, as teses filosóficas de Nietzsche, mesmo que o autor de Assim falava Zaratustra não tenha pretendido melhorar a humanidade. Mas, somente assim pode-se equiparar o educar com a promoção do criar em termos da construção não só do conhecimento, mas do processo educativo como um todo. Palavras-chave: Educação. Valores. Criação. Pode-se dizer que há duas possibilidades em termos de concepção de educação desde sua relação aos valores e, nesse sentido, a inclusão de Nietzsche nesse debate conduz a

Doutora em Filosofia pela USP, professora do Departamento de Filosofia e Psicologia e do Mestrado em Educação nas Ciências da Unijuí, mail: vd.azeredo@uol.com.br

sendo. somente assim pode-se equiparar o educar com a promoção do criar em termos da construção não só do conhecimento. à disciplina. quando Nietzsche pergunta pelo valor dos valores morais. especialmente os da atualidade. e mais profundamente. devendo passar a questioná-lo. Mas. não são entidades absolutas. No limite. ao mesmo tempo. Trata-se da necessidade premente que se põe de reavaliar nossas crenças. mesmo que o autor de Assim falava Zaratustra não tenha pretendido melhorar a humanidade. mas do processo educativo como um todo. leva-nos a pôr em questão nosso modo de pensar e de agir. nosso conjunto de valores. uma história que os remete às oscilações de poder que se manifestam no seu devir. Sob outro aspecto. juntamente com o conjunto da filosofia de Nietzsche. demasiado humana. mas para a seleção e o culto dos existentes. portanto. A introdução da crítica à moral e aos valores de Nietzsche possibilita uma mudança de posição pedagógica.2 uma reviravolta com referência à própria colocação da questão. em vista disso. pois tanto o docente quanto o discente têm de abandonar a compreensão de uma aceitação incondicional do mundo moral. com certeza. com uma ascendência humana. no plano pedagógico. Essa perspectiva também tem reflexos diretos sobre as concepções de educação. e aqui inserimos a perspectiva nietzschiana. cultuar valores em curso. Por outro lado. princípios. resgatando. A pergunta fundamental que se coloca para os educadores. Por um lado. e que. Os valores são criados pelo homem e têm. norteiam as avaliações realizadas no plano mundano. subjaz ao currículo. norteia a educação. não para a criação de valores. mas produtos de avaliações e. Com isso se quer dizer que os valores constituem um reino subsistente por si próprio. nesse sentido. não devendo. pois nesse caso o ponto de partida para a formação do homem é a compreensão de que ele é um criador de valores. ele indaga sobre o conjunto de valores que. Tal compreensão tem reflexos diretos nas concepções de educação. à relação professor/aluno e à organização dos espaços na escola. as teses filosóficas de Nietzsche. absolutos e imutáveis. o questionamento acerca do valor dos valores. Dessa forma. perguntar pelo valor do valor e pelas condições de estabelecimento dos valores permite perguntar pelos reflexos disso no fazer pedagógico. pois em termos de formação do homem parte-se do pressuposto de referir seus juízos a valores absolutos. pairando num céu inteligível. temos a concepção de que os valores são entidades absolutas que. para a introdução de interpretações. para a imposição de perspectivas. . por isso. é que tipo de ser humano se quer formar: um crítico e criador ou um conformista reprodutor? É da competência da educação educar para a criação de valores. enfim. orientado-o. os valores não se encontram prontos.

Nietzsche procede a uma crítica à moral. isto é. tem-se aqui a atribuição do valor como proveniente de uma avaliação referida à coletividade e. Efetivamente. com isso. Não obstante a determinação do valor como algo válido para todos diferir daquilo que vale em si. A análise nietzschiana da moral mostra a existência de tendências morais distintas. igualmente a recusa da . a crítica com relação aos valores e à moral. enquanto entendimento de que o homem se faz humano pela criação e não pela mera recepção e reprodução do existente. É isto que faz do mundo. Daí a importância para a educação da filosofia dos valores de Nietzsche. ao invés de uma atitude passiva de recepção. Segundo ele. enquanto remetidos à sua ascendência material. No resgate do estimador referido ao homem como aquele que avalia. as relações de compra. propriamente. Os valores são expressão dessa condição. Todas as dimensões que dizem respeito ao humano são determinadas pela estimação humana. expressão de avaliações por meio das quais o homem vem a ser o que é. manifestamente à postulação de um elemento indiferente no que concerne aos valores. elaboração. à condição mesma de uma vida. Ora. trata-se da mudança de perspectiva que se manifesta na compreensão dos valores desde sua genealogia e da moral a partir de avaliações. tomadas como um signo. uma educação voltada para a afirmação e criação de valores deve se pautar por essas prerrogativas formativas que remontam necessariamente ao autor de Para além de bem e mal. a crença na validade em si da postulação – atribuição de um valor – requer de imediato a compreensão do valor como algo dado e sem possibilidade de questionamento acerca de seu próprio valor. A moral é apresentada como produto de interpretações e avaliações que. construção do mundo. assim como dos existentes. cujos valores estabelecidos expressam modos diferentes de ser e de viver. o filósofo alemão expressa a condição propriamente humana de dotar o mundo de valor. estimador. um sintoma. venda e intercâmbio. Eis aqui a possibilidade de uma nova postura do educador em termos de formação para a crítica. entre aquilo que valeria em si e aquilo que valeria para todos. Nietzsche relaciona valor e homem desde o sentido de homem como avaliador.3 Inaugura-se. se referem à constituição daquele que avalia. notadamente sua inversão crítica. De fato. Mas também a investigação sobre a proveniência dos supremos valores do ocidente. vem a ser homem desde a competência estimadora que o define como humano. no tratamento dos valores. Por isso. os estudiosos da moral que o antecederam sempre oscilaram. Antes de Nietzsche se avaliava desde uma determinada composição de valores. Depois de Nietzsche é o valor do valor que é avaliado e isso tem reflexos tanto no modo de ensinar acerca do valor quanto na assimilação do valor. Analisemos a noção de inversão crítica e a genealogia dos valores bom e mau (gut/böse)/bom e ruim (gut/schlecht). Há de educar-se o homem para ser um criador de valores.

a crítica. requer as condições de criação dos valores como algo que possibilite o próprio estabelecimento do valor deles. então a questão central seria: de onde procede esta avaliação? O recurso a esse tipo de questionamento. com isso. procedem de uma avaliação. pois se considerou o valor desses valores como inquestionável. ideal a ser destruído pelo “martelo”.4 questão do valor de tais avaliações. A introdução na filosofia dos conceitos de sentido e de valor promove uma inversão crítica. embora possa demonstrar a impertinência de tais análises e. aponta para o método genealógico enquanto caminho para uma análise nas profundezas. já que a crítica. perguntando. norteiam uma avaliação e. referida aos valores. porque não dizer. Daí a posição indiferente que se efetivaria na manutenção do dado ser objeto de crítica e. Os valores. ao elemento diferencial de onde derivam os valores. não se encontra ainda a formulação remetida ao valor. em Para a genealogia da moral. assim como os valores. A posição nietzschiana entende o elemento crítico como criador e. pelo valor desse valor. enquanto referida ao valor dos valores. mas qual a avaliação que determina o valor desse valor. por conseguinte. Tal questão. Nietzsche procede a um desmascaramento da moral. em Nietzsche. justamente por não tomar o valor como algo estabelecido. embora a problemática se lhe apresentasse anteriormente. por isso. Nessa época. de um lado. aniquila tanto aquilo que vale em si quanto aquilo que vale para todos. especialmente. A exclusão do questionamento acerca do valor conflita com a possibilidade da crítica e do distanciamento enquanto condicionantes para averiguar. Na perspectiva nietzschiana. destruidora de idéias e ideais. não se contentaria em perguntar qual o valor que está por trás dessa avaliação. Se a pergunta pelo valor dos valores remete às suas condições de criação e. dada. recusar a continuidade dessas avaliações. sentimentos ou conceitos. ou mesmo o para todos. A tematização do valor aparece a partir do texto Assim falava Zaratustra e. entretanto. A crítica. nem sequer foi cogitada. e não para corroborar. nunca houve um questionamento quanto ao valor dos valores morais. estabelecida. de outro. A moral. demasiado humano. ao propor . necessariamente. pois o elemento diferencial não pode referendar o em si. inclusive. Nada obstante encontrar-se a referência à moralidade em termos de preconceitos. a questão formulada referia-se à "procedência de nossos preconceitos morais". configura a “filosofia a marteladas”. Convém mencionar que a suspeita quanto às intenções e aos efeitos da moralidade já ocupava o filósofo alemão desde o escrito Humano. entretanto. sempre foi tomada como existente. Se o problema crítico é problema da criação. notadamente às suas condições de criação.

. em poucas palavras. não estavam prontos. o niilismo junto à compaixão. como tartufaria. não lhe foram dados. restando saber sob que condições. se são indícios de degeneração ou plenitude da vida. como doença. e isso supõe o conhecimento das condições e das circunstâncias do surgimento. foram criados pelo homem. O questionamento sobre o valor da moral da compaixão não se configura como algo à parte. sua confiança. uma vez que a relação que se estabelece entre a moral e a compaixão. 10). 'bom' e 'mau'? e que valor têm eles?” (Nietzsche. Com isso. mas remete a uma desconfiança com relação a toda moral e ao seu respectivo valor. Neste texto. ou seja. Os instintos de abnegação. de degeneração da vida? Ou. fez com que Nietzsche percebesse uma implicação existente entre a valoração negativa da vida e a negação do próprio homem. sacrifício e compaixão mascaram "a vontade que se volta contra a vida". quanto ter promovido o prosperar da humanidade. mas também como causa. notadamente no pensamento de Schopenhauer.. (.). Ibid. a necessidade da interpretação e da avaliação referidas ao próprio estabelecimento dos valores. A questão agora se refere a alguém que cria e que o faz sob determinadas condições e. entrave ou veneno). o niilismo. seu ânimo. Observe-se que o homem inventou. como sintoma. um conhecimento tal que jamais existiu até o presente e tal que nem . Nota-se que a expressão "sob que condições" sugere que existem diversas condições possíveis. do desenvolvimento e da modificação deles (entendendose moral como conseqüência. que valor tem os valores criados. Ora. 1987.5 uma análise de seus valores.) necessitamos de uma crítica dos valores morais. denuncia-se neles a plenitude. então é imprescindível que se proceda a uma crítica da moral. verificando se obstruem ou promovem o crescimento da humanidade. o filósofo reformula a questão perguntando: "sob que condições inventou-se o homem aqueles juízos de valor. mais profundamente ainda. a força. de empobrecimento. estimulante. é preciso começar por colocar em questão o valor mesmo desses valores. Em vista disso. remédio. surge a necessidade de uma crítica dos valores morais. a moral da compaixão oculta o nada. a vontade de vida. Qual o valor da invenção humana do bom e do mau? "Obstruíram ou favoreceram até agora o prosperar da humanidade? São um signo de estado de indigência. como máscara. seu futuro?” (Id. inversamente. como mal-entendido. se as análises da moralidade remetem a um modo de valorar coletivo ou a um modo de valorar absoluto em que o valor da vida é depreciado. A leitura minuciosa do texto nietzschiano permite inferir que o juízo de valor bom e mau pode tanto ter obstruído. p. A questão de Nietzsche é igualmente o valor da moral. para justamente poder determinar o seu valor. mas que especialmente sob algumas o homem inventou os juízos de valor bom e mau.

por fim. "Desse pathos da distância é que tomaram para si o direito de criar valores. perguntar pelo valor dos valores é. "como sendo o elemento diferencial dos valores do qual decorre o seu valor" (Deleuze. não são propriamente valores. modificação. 14) Constata-se aqui a inversão crítica proposta. desenvolvimento e modificação. máscara. o valor é estabelecido a partir de uma dada avaliação. portanto. a distância diante do outro. A questão da avaliação é o ponto principal para o estabelecimento de um valor como sendo ou não valor. p. A genealogia coloca os próprios valores em questão quando pergunta pelo valor deles. 1987. e isso requer justamente a identificação das suas condições de surgimento. Nietzsche utiliza a genealogia para o estudo e o conhecimento da criação e das condições de criação dos valores. se desenvolveu. como se originam. como aquilo nasceu. mas constituem o elemento diferencial do qual decorre o valor dos valores morais. etc. dar nova forma. avaliar e. 1987. um criador. como os valores se modificaram. segundo Deleuze. o que por si só já requereria uma análise das modificações dos valores com relação ao seu surgimento. O sentimento de superioridade. à compaixão. enquanto referido à promoção da vida. e. uma vez que a pergunta não incide sobre os valores existentes. se desenvolveram e se modificaram dentro de uma determinada moral. 1962. 22). Visando a interpretar o estabelecimento deste ou daquele valor como valor. Se os valores surgiram. A genealogia não é apenas um modo de interpretação. ainda. de cunhar nomes de valores: que lhes importava a utilidade?" (Nietzsche. metamorfosear. mas à superioridade do nobre e ao sentimento de distância que faz dele um soberano legislador e. à relação com outro ou outros. Por isso. e esses são os elementos que determinam a proveniência da avaliação. é que lhes permitia julgar. p. de onde provêm os valores. a possibilidade de a moral ser apresentada como sintoma. por outro.6 mesmo jamais se desejou (Nietzsche. Em vista disso. que se caracteriza.. perguntar pelo valor da moral. veneno. mas. criar. p. É a partir do pathos da distância que os nobres se denominaram criadores de valores. necessariamente. A análise dos valores apresenta dois aspectos: por um lado. Os valores decorrem do nobre e do vil. mal-entendido ou. A criação jamais está vinculada à utilidade. por expressarem o modo de ser daqueles que avaliam. desenvolvimento. anteriormente. 02). como causa. mas é também uma avaliação. medicamento. portanto. Formulando-se a pergunta 'Quem?' com . o valor é o ponto de partida para a avaliação. Observe-se a relação de palavras utilizadas por Nietzsche: surgimento. A palavra modificação pressupõe a possibilidade de tornar diferente do que era. sobre o valor desses valores.

A origem ou nascimento dos valores é referida ao nobre. Os termos distintivos do homem nobre designavam tanto a sua ascendência no poder. o nobre é. posteriormente passa a indicar “os verdadeiros enquanto os verazes”. e seu respectivo fazer. em seu princípio.7 relação aos valores nobres. no sentido de privilegiado quanto à alma. Nietzsche mostra que a proveniência do juízo bom está. O juízo ruim era estabelecido por esses mesmos homens para designar o homem baixo. transparece o matiz principal pelo qual os nobres se afirmavam como uma classe superior. No primeiro caso. justamente de homens distintos. ruim tem apenas a significação de simples. implica a sua própria realidade. e. o filósofo alemão procede a um estudo da origem desse juízo através da etimologia. utilizavam os termos “os poderosos. através do qual se chega a idéia bom. mais do que o seu fazer. os possuidores”. nesse momento. A designação do nobre como veraz. conseqüentemente. mas tão somente como algo postulado a partir de um si. Existem apenas elementos distintivos de castas. no segundo. Para mostrar a pertinência da hipótese relativa à designação do bom como proveniente dos bons. há uma estreita ligação entre o sentir-se bom e a correspondente avaliação daquilo que seria bom. em sua primeira postulação. Nesse sentido. que a palavra passa a distinguir a nobreza e. comum. ou seja. Encontra a palavra “nobre”. no sentido de ordem social. baixo como desenvolvendo-se até a idéia de ruim. em paralelo. associada ao nobre. cuja ocorrência era de certa forma generalizada. encontra as transformações das idéias de vulgar. como conceito-chave. Percebe-se a dualidade de significação que se expressa como constituição de tipos: . mas com o intuito de diferenciar o seu ser. vulgar. enquanto produção desses mesmos homens. que julgavam como boas suas ações sem pensar na utilidade das mesmas. de um ser e fazer baixo e vulgar. É nesse momento. Nesse momento. genealógico e crítico. o nobre frente ao homem comum. diferente do senhor. tem-se como resposta que são os próprios nobres. elemento diferencial dos valores. poderosos e superiores. quanto seu traço típico de caráter. O deslizamento do termo ruim para o homem vulgar não era mais do que decorrência da oposição ao seu modo de ser nobre e superior. segundo Nietzsche. Constata que em todas as línguas a palavra “bom” deriva de uma mesma transformação conceptual. Introduz a hipótese de que o bom proviria daqueles que se sentiam como bons. os senhores. plebeu. É mister assinalar que o juízo bom não é afirmado como algo que possa valer em si. cuja designação específica é “mendaz”. quer dizer. utilizavam “os verazes”. A Nietzsche importa observar que através das palavras e raízes que significavam “bom”. isto é.

que pela sua própria constituição são desprezados. à questão ‘quem?’. Enquanto o “pathos da distância” cunhou valores. Mediante as transformações de designações expressas pelas palavras. com isso. bom e ruim estabeleceram distinções quanto ao modo de ser e. o de valorar. houve uma transformação com relação à vigência desse modo de valorar. Ora. Ora. são desprezíveis pelo seu próprio modo de ser: são incapazes de sentir orgulho de si e de se perceberem como tendo uma alma elevada. há de se identificar. em oposição a uma exterioridade como movente. o móvel dessa transformação deve ser buscado numa valoração. distinto de um comum. segundo Nietzsche. conseqüentemente. de sua diferença com relação à massa. É essa disjunção veraz/mendaz. procuram mostrar que ela pertence à realidade. entendendo sempre a realidade como um campo de forças em relação de dominação e subjugação. Aliás. há o estabelecimento de uma distinção entre. A busca da significação na etimologia corrobora a distinção nobre-desprezível enquanto referida aos traços de caráter. pois. de significação. por isso mesmo. o bom é quem inspira medo e terror. ao invés de suprimirem a desigualdade e a diferença. entre os nobres. escravos. Todavia. Com isso. É a mudança de avaliação que promove uma mudança de designação e. nesse sentido. Já os tipos vis. de um lado. temidos e venerados e. O bom entre os nobres é distintivo de sua preeminência espiritual. O traço de caráter é o que particularmente interessa a Nietzsche. homem mendaz. aos que são distintos deles. de outro. a interioridade como produtora. se a palavra “bom” designa num dado momento histórico um significado que posteriormente é transformado. formulada do seguinte modo: o que quer aquele que cunhou este valor? O que quer quem transformou essa avaliação? A argumentação nietzschiana tem em vista a obtenção dos elementos disjuntivos que. já que lhe possibilita perceber a avaliação por trás da significação e. as relações de forças que num dado momento exercem domínio. com isso. O estudo etimológico permite compreender as organizações e as reorganizações nas relações de potências expressas nas transformações dos juízos de valor. por indicar o modo de ser daqueles que avaliam. é digno de ser temido. enfatizando. isso referenda a importância da etimologia para o genealogista. indivíduos fortes e. uma mudança no modo de valorar. Não que incluam no ruim conotações morais relacionadas com a preservação ou promoção do populacho. indivíduos fracos. A interioridade é compreendida como impulso movente das valorações e. sendo forte e se impondo aos demais. por decorrência. Não obstante o vil permanecer .8 um homem nobre. a um outro como denotador. também. a partir do qual o nobre cunha valores. nobre/desprezível que está na base da diferença produtora do “pathos da distância”. homem veraz. remetendo. Nem mesmo tal juízo faz referência ao medo que os ruins possam despertar. necessariamente.

Surgem propriamente os juízos de valor bom e mau. cujo sentido é preciso buscar na força que se expressa. Para os nobres. referida ao homem vil. A primeira designação é determinada pelo modo de valorar do senhor. o que. enquanto possibilidade de sua própria definição. respectivamente. enquanto impulso movente que determina a avaliação. em um segundo momento. mas justamente deslocando a avaliação do modo de ser para a ação. houve uma inversão. Há uma distinção entre bom e ruim e bom e mau. que promove uma inversão no modo de valorar nobre-aristocrático. Com isso. a referência nietzschiana quanto à aplicação das designações morais primeiro ao homem e só posteriormente às ações. e ruim se proveniente de um tipo de homem vulgar. conclui-se que o vil não avalia do mesmo modo que o senhor. Mas. outrora sinônimo . as oscilações no decurso da história em termos da proeminência nas relações de potência demonstram ser ele determinante das interpretações e avaliações em diversos momentos. O que é o bom quando a interpretação do senhor é determinante? O que é o bom quando a interpretação vil vige? Que constituição cada uma delas expressa? O que promoveu uma mudança? Essas questões já demonstram a especificidade da filosofia nietzschiana que toma os fenômenos como sintomas. não mais significando nobre e desprezível. Em um primeiro momento. O vil. Isso requer uma verificação das condições que tornaram esse fato possível. Pelo exposto.9 sendo desprezível. Contudo. A referência ao homem é o resgate da interioridade. enquanto referidos ao elemento diferencial determinante da avaliação: o nobre e o vil. Daí a necessidade da genealogia como método de verificação da gênese dos valores. bom e ruim. uma vez que o vil é tido como tal em função basicamente de não criar valores. que se estabeleceu quando o bom. por si mesmo. o estabelecimento de valores referese inclusive ao efeito surtido em sua espécie. já que a ação expressa essa avaliação. de dirimir as diferenças. Em vista disso. com certeza. mas restaria saber como eles se manifestam nele. expressa os impulsos como fonte de toda ação. essa era a maneira de atribuir valor a tais juízos. Na segunda. que entende nobre/desprezível como bom/ruim. Tem-se um indicativo da possibilidade de uma dupla valoração para os juízos bom e mau. o que o move? O que se encontra encoberto por trás de suas avaliações? Os juízos de valor bom e ruim sempre tiveram seu estabelecimento associado à nobreza ou à vilania segundo os impulsos que estavam por trás de determinado tipo de homem. Nietzsche faz alusão ao fato de haver uma outra origem para bom e mau. manifesta também os impulsos. o ato seria bom se proveniente de um tipo de homem nobre. impossibilitaria a sua ascendência como promotor de interpretações e avaliações que pudessem suplantar as de um homem nobre.

que houve duas perspectivas no que concerne aos juízos de valor bom/mau e bom/ruim não caberia uma revisão das próprias avaliações que subjazem às concepções de educação nesse sentido? A questão que se coloca é da possibilidade de uma mudança de perspectiva. A inversão dos juízos bom e ruim/bom e mau é um dado histórico que Nietzsche remete à ascensão dos judeus com relação aos romanos. de inversão da avaliação feita da fábula de Esopo em que o lobo é o mau e o cordeirinho o bom. a introdução de outros valores − bom e mau − criados para significar a interpretação moral das ações humanas. para o filósofo alemão. neles se manifesta a plenitude ou o declínio. enquanto ruim. o valor era proveniente da afirmação da diferença de um homem nobre. via de regra. se configura por um deslocamento da avaliação. de uma transformação dos valores educacionais e.10 de nobre. Poderíamos ter uma educação para a força e a criação? Deveríamos ter uma educação para a imposição de interpretações? Enfim. passa-se a valorar as ações humanas a partir de seu julgamento moral. Mas a problemática de sua possibilidade requer necessariamente a determinação dos critérios de atribuição desses juízos. Repensando a educação. atribui-se ao bom um valor superior ao mau desde a perspectiva da avaliação das ações humanas e não da constituição de cada um. passou a ser atribuído ao tipo vil. A inversão. A partir da inversão. Nesse momento. os valores apregoados pela educação são um signo de florescimento ou de definhamento. se Nietzsche mostra. Depois. outrora sinônimo de vil. passou a ser atribuído ao tipo nobre. o reflexo dessas ações sobre a manutenção da igualdade. em seguindo a perspectiva nietzschiana. mediante sua hipótese histórico interpretativa. houve. basicamente. nesses termos. Primeiramente. constata-se que. mau não significa mais ruim. O pensamento de Nietzsche não nos leva a necessidade de uma crítica dos valores educacionais e a pergunta: que valores quer a educação? . Contudo. de certo modo. segundo. e o mau.