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Uma das primeiras coisas que eu notei quando entrei pela primeira vez na UFMG foi uma inscrição

pichada num muro: “O Papa caga”! Uma frase anarquista? Talvez sim, talvez não! Eu não sei o que se passava na cabeça daquele destruidor do patrimônio público quando resolveu pichar o velho muro da universidade. Ao primeiro momento me pareceu uma frase apenas reacionária, afinal de contas o Brasil ainda era uma ditadura e o velho polonês, Cardeal Karol Józef Wojtyła, há pouco havia se tornado Papa e o mundo dizia que ele era santo, mas morava cercado de luxos! Mais tarde a banda Engenheiros do Hawaii cantou “O Papa é Pop” em alusão a enorme popularidade de João Paulo II teve depois que recebeu tiros na Praça de São Pedro...

Se olharmos bem a história recente dos papas, pouca coisa mudou; estes homens são eleitos como há séculos, viram reis e são rotulados como representantes de Deus na Terra. Representam primeiramente a bondade e humildade de Jesus Cristo, mas estão cercados de palácios luxuosos, com rios de ouro em adornos pessoais; e não foi diferente com o Mega Hiper Super Pop Star João Paulo II, que, aliás, eu tive sempre muita admiração, mesmo jamais tendo sido cristão. Karol Józef Wojtyła chegou para quebrar paradigmas e após a entronização em 1978, escolheu seu Brasão de Armas e adotou a frase “Totus tuus”, ou todo seu!

Nos 27 anos que ocupou o Trono de Pedro ganhou adeptos e críticos; e mesmo que a maioria daqueles que se importavam com ele fossem seus admiradores, era inegável que JPII não abdicou dos luxos e mazelas criadas pela sânie do Clero. Morava bem e fazia uso desde torneiras de ouro a tapetes persas, entrelaçado pela mais fina seda da China, como manda o figurino e ritos internos...

João Paulo II morreu e deixou um legado, não seguido por Ratzinger, que virou Bento XVI, que renunciou e passou a bola coruscante para ele, o argentino Jorge Mario Bergoglio, que virou Francisco, o 266º Papa; e logo nos primeiros dias de seu pontificado os assédios de muitos puxasacos, como a Presidente Cristina Kirchner, foi por água abaixo. Francisco tratou de pôr ordem onde antes só tinha desordem; e mostrou ao mundo que um Papa não é santo, mas sim, homem comum que tem, dentre outras coisas, SENTIMENTOS!

Criou um brasão de armas simples; e ordenou que sua frase fosse “Miserando atque eligendo”, que ao pé da letra, traduzindo do latim, significa: “Olhou-o com misericórdia e o escolheu”. Segundo fontes do Vaticano, Francisco afirmou que está Papa por mera inspiração naquilo que ele acredita; e assim sendo, como bom jesuíta, fará a promoção de sua igreja para o povo que

mais precisa dela, como, aliás, dizem que era o grande sonho de Jesus: ter suas palavras disseminadas para auxílio dos mais pobres!

Mas como se pode promover uma igreja tão grande e poderosa para a maioria dos mais necessitados, se a própria igreja prega internamente o luxo? Simples! Promovendo mudanças e quebrando, aos poucos, paradigmas milenares. Começou tratando de temas perigosos, como a homossexualidade interna e a pedofilia! Em seguida, dentre outras mudanças, mandou auditar o Banco do Vaticano para expulsar os vigaristas de dentro da instituição; e isso culminou na prisão do Monsenhor Nunzio Scarano, bispo de Salerno, no sul da Itália, que foi detido junto com um agente do serviço secreto italiano; acusados de desvio e lavagem de dinheiro. E agora, as vésperas de chegar ao Brasil, em sua primeira viagem internacional após o papado, Francisco mais uma vez exigiu mudanças.

Há décadas que a empresa Alitalia cede sua melhor aeronave para as viagens papais; e dentro dela, uma verdadeira fortaleza voadora, há os aposentos privativos do Santo Padre. Nestes aposentos há, dentre outros luxos, cama confortável, sanitário com chuveiro e sala privativa para reuniões. Atualmente a melhor aeronave da Alitalia é o moderníssimo Boeing 777, mas Francisco determinou: - Não quero nada disso! O voo regular entre a Europa e a América do Sul é feito por um razoável Airbus A380; e é neste que eu vou! A respeito do quarto, sala privativa e sanitário com chuveiro, Francisco disse que já é um privilégio viajar de Primeira Classe!

Mas se o Papa vai viajar num avião comum, de carreira, este precisa fazer uma escala no aeroporto Ciampino, porque a vida inteira os Papas embarcavam no Aeroporto Fulmicino, uma espécie de aeroporto especial. Mais uma vez ele surpreendeu e afirmou que embarcaria no mesmo lugar de sempre: no aeroporto internacional!

No Brasil não haverá Papa Móvel blindado e sua segurança pessoal foi reduzida dramaticamente. O Governo do Brasil destinou 20 mil homens para executar a segurança do pontífice; e num raro comentário feito por Francisco sobre este assunto, ele disse: - é um exagero!

Francisco está realizando em seu pontificado, justamente aquilo que sempre praticou junto a Diocese de Buenos Aires. Segundo alguns amigos argentinos, Bergoglio virou papa e não quis virar celebridade, pelo menos promovida por ele mesmo! Ao que consta, ele deseja promover mudanças tão profundas na igreja que seus fiéis seguidores voltem a acreditar numa instituição análoga aos ensinamentos de sua inspiração, Jesus Cristo; que foi um sujeito que jamais teve acesso ao luxo e as mordomias.

É mais do que óbvio que ninguém, nem ele próprio, acredita que os vícios papais e as mordomias do Clero serão extintas, pelo menos pelos próximos 1200 anos; mas se aproveitando dos ventos de mudança, se Francisco fizer entender que a sua escolha foi para esta finalidade, é bem

provável que haja um processo de renovação dentro dos pilares do Clero, começando com a reorganização fundamentalista da Cúria. Um Papa não é nada sem a Cúria e a Cúria não é nada sem um Papa; portanto, um precisa do outro e pela primeira vez na história moderna, ao que se enxerga, um não comunga da cartilha do outro!

Poucos conhecem a história verdadeira de Jorge Bertoglio; e é sempre bom lembrar de uma passagem especial da sua vida: quando foi nomeado cardeal no Consistório Ordinário Público de 2001, presidido pelo Papa João Paulo II, Bergoglio recebeu o título de cardeal-presbítero de São Roberto Belarmino; e há época, após muito furor dos fieis argentinos para vê-lo assumindo um cargo de muita importância em Roma, Jorge Mario Bergoglio convenceu centenas de argentinos a não viajarem para Roma. Em vez de irem ao Vaticano celebrar a nomeação, pediu que dessem o dinheiro da viagem aos pobres...!

Também é sempre bom lembrar que o último Papa não europeu foi Gregório III que morreu há 1200 anos e havia nascido na Síria. Um homem que travou guerras por ideais de fé e criou uma das fontes de renda do Vaticano, o Óbolo de São Pedro; nome emblemático para as esmolas!

Agora este Papa americano, chega para criar sua própria história; e tenta ser, não o Pop Star que muitos esperam, mas uma voz renovadora dentro do Clero tão sigiloso e tão desacreditado pelos intelectuais. Jorge Mario Bergoglio, finalmente dá ênfase aquela frase pichada no muro da UFMG, que tira o mito do homem e mostra ao povo que um Papa também caga! Heresia? Não! Realidade! Francisco só quer mostrar que ele deseja administrar os rumos da igreja, mas que não quer ser Deus; e prova maior disso é que ele, no primeiro ato público, não rezou pelos seus, mas pediu que os seus rezassem por ele!

Bergoglio vai precisa muito mais do que orações...!

Carlos Henrique Mascarenhas Pires