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Cavaco pode formar governo?

Não é apenas uma questão académica. Num momento em que, na Europa, governos de "iniciativa presidencial" fizeram sucesso (Itália, Grécia), a revista "Direito & Política" resolveu questionar se a solução também era possível no país, até porque Portugal já teve essa experiência. Ao repto, responderam 16 destacados juristas e A crise obriga a múltiplas constitucionalistas. respostas. A mais comum foi: é possível sim, mas... há exceções. Destacamos algumas respostas.
LUÍSA MEIRELES

garantir

que uma situação de crise seja debelada, defendem Pedro Lomba e Miguel Nogueira de Brito, num texto conjunto. do Governo. Cabe-lhe, pois, garantir o regular funcionamento Em circunstâncias de emergência, porém, pode haver a neces-

de outro tipo de Executivo, mais amplo do que o que resultaria de novas eleições, que congregue todos, porque o que está em causa é a salvação da República. O árbitro não é o eleitorado mas o Presidente, dizem os autores, para quem a atual situação de crise é um bom exemplo: "um governo de salvação nacional será sempre de iniciativa presidencial". sidade

Paulo Otero A Assembleia é que mais ordena
'parlamentarizante'
presidencial é aquele que "formado por imsem prejuízo de ter de apresentar o político-presidencial, seu programa à Assembleia da República, não tem como primeiro-ministro alguém que os partidos políticos apresentaram ao

Jorge Miranda Presidente

Governo de iniciativa
pulso

A formação e subsistência de qualquer Governo é sempre um "ato de liberdade de impulso ou iniciativa e com liberdade de diz o catedrático, Mas um Governo tout courtde iniciativa presidencial não pode ser constituído à margem ou contra o Parlamento (seria um golpe de Estado). Hipóteses agora? Jorge Miranda cenariza: contestação ao PM no seu partido sem emergir substituto; resultados muito insatisfarecusa do Presidente",

como expressão de uma vontade proveniente do Parlamento, mas alguém que o PR apresenta aos partidos como expressão da sua vontade", é a definição de Paulo Otero. O professor enumera três cenários para esta solução: emergência política, económica
PR

tórios da política do Governo face à crise e agitação social; grande derrota da maioria nas eleições autárquicas; sua desagregadissolução do Parlamento, eleições e ção sem recomposição; não emergência de maioria. E seria fácil ou verosímil? Não, diz

ou moral com degradação extrema da vida parlamentar e partide preparação de eleições; guerra ou dária; período transitório

genuína necessidade de salvação nacional. Em qualquer caso, terá sempre de passar pelo Parlamento, que lhe dita o destino.

Miranda. "O atual PR tem um comportamento parlamentarizante". E o país precisa sobretudo "de mais do que um Governo
deste tipo, de mais atos de intervenção
do Presidente".

Manuel Monteiro

Demasiadas expectativas

Carlos Blanco de Morais Poderes de crise
atípicas de crise que podem justificar da assuma a iniciativa e protagonismo constituição do Executivo — um estado público de necessidade (estados de sítio ou de emergência) ou conjunturas de necessidade ou de urgência que exijam o funcionamento regular
São sempre situações que o chefe do Estado

volvida a sua prévia demissão, diz Blanco de Moexemplifica as situações que têm de verificar-se cumulativamente: inviabilidade de formação em tempo de novo governo; ausência de tempo útil para convocação de eleições antecipadas ou probabilidade de manterem o mesmo resultado; necessidade de tomada de medidas inadiáveis para o normal funcionamento das instituições, solvabilidade financeira do Estado ou garantia da paz pública. O constitucionalista distingue ainda entre governos de iniciativa em sentido impróprio (o PR ajuda a viabilizar um governo) e próprio (PR assume papel de formador da solução governativa).
do Governo,

rais.

E

O antigo político coloca a questão no âmbito mais geral do atual sistema, que permite a "ilusão" de que o Presidente da lhe República pode mais do que efetivamente a Constituição permite — donde a incompreensão popular quanto ao papel de um PR que "na aparência muito pode, mas na essência pouco faz". Para Manuel Monteiro, o Presidente não pode propor um Governo sem a concordância partidária e, se o fizer, "a sua ação estará condenada a soçobrar". Pelo que, no seu entender, um Governo de iniciativa presidencial só poderá ter acolhimento ou com prévio assentimento maioritário dos partidos no Parlamento ou num cenário de convocação de eleições gerais.

Luís Pereira Coutinho

O moderador

do Estado

Pedro Lomba "Governo
O Presidente
é

republicano"
pleno, com o dever especial de

O Presidente da República é um "moderador do Estado", destituído de papel ativo no jogo político corrente, para que seja preservada a sua legitimidade na garantia do funcionamento das instituições — esse é o seu "verdadeiro papel constitucional", defende este jurista. Neste sentido, descarta um papel "ativo ou ativista do PR na formação de governos", pois commesmo um desprometeria esse estatuto e consubstanciaria vio de poder: o motivo determinante seria "governar interpostamente e não preservar o Governo-com-G-maiúsculo".

um ator político