G.K.

CHESTERTON

O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA

Biblioteca São Miguel Arcanjo http://saomiguel.webng.com/

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Fora obra de um construtor especulativo. mas perfeito. Aquele cavalheiro científico. mas era irrefutavelmente um poema. devia fornecer motivos à filosofia alheia. embora nunca houvesse produzido razoavelmente qualquer gênero de arte. sob a visível impressão de que as duas soberanas eram uma só. no mínimo. Com alguma justiça. mas. Não descobrira novidades . suas pretensões a recanto aprazível eram realmente incontestáveis. um pândego venerável. mirão em assuntos de arte. não fazia jus aos ares de cientista que alardeava. de uma ave.CAPITULO I OS DOIS POETAS DE SAFFRON PARK Para as bandas do poente de Londres refulgia. E quando encontrasse tais pessoas não ficaria desapontado. de barba branca e enxovalhada e de chapéu também branco e enxovalhado. Aquele cavalheiro idoso. Mas. desde que não fosse tido em conta de miragem. de pescoço pelado como o. ostentava uma fantástica linha de telhados e uma extravagante linha de calçadas. Saffron Park passava por colônia de artistas. seria levado a cogitar desde logo na singularidade que devia marcar o feitio mental das pessoas que as habitavam. Ainda que os habitantes nada tivessem de "artistas". O visitante. o subúrbio de Saffron Park. que identificava sua arquitetura algumas vezes com o estilo Rainha Elizabeth e outras vezes com o estilo Rainha Ana. se suas pretensões a núcleo intelectual eram um tanto descabidas. como o vermelho esfarrapado de uma nuvem ao entardecer. não havia de ser obrigatoriamente um filósofo. calvo como um ôvo. que pela primeira vez contemplasse aquelas esdrúxulas casas vermelhas. mas de sonho. Totalmente edificado com ladrilho brilhante. tudo ali era artístico. Aquele rapaz de cabelos compridos e vermelhos e de feições impudentes não havia de ser necessariamente um poeta. O local era não só aprazível.

especialmente. Nesses momentos. Pertenciam quase todas à categoria das vagamente chamadas mulheres emancipadas e proclamavam ali seus protestos contra a supremacia masculina. e o queixo despontava com aspecto desdenhoso e zombeteiro. o lugar merecia estudos pertinentes e demorados. posto que consumada. enormes lanternas chinesas pendiam de árvores minúsculas como frutos monstruosos e sinistros. tinha de ser examinado menos como uma oficina de artista do que como uma delicada. Entoava a velha cantiga da anarquia da arte e da arte da anarquia com petulante frescor. Entretanto. como a de uma virgem de um quadro pré-rafaelista. os que passavam em frente ao seu jardim podiam ouvir-lhe a voz sonora e didática promulgando leis para os homens e. a cativante singularidade de sua aparência. obra de arte. E Mr. dividida ao meio. O estranho que chegasse a participar de sua atmosfera social teria a sensação de estar participando da representação de uma comédia. quase piedosa. K. ter descoberto um espécime biológico mais raro do que sua pessoa? Por isso. da qual êle procurava tirar o maior efeito. E a impressão foi excepcionalmente forte naquela noite. Entretanto. nos recessos dos pequeninos jardins iluminados. por acaso. avançava uma cara insuspeitadamente grosseira e brutal. Lucian Gregory. quando sobre os fantásticos telhados incidiam as últimas reverberações da luz. A cabeleira vermelho-escuro. estas mulheres modernas consentiam em regalar um homem com a inusitada cortesia jamais recebida por êle de uma mulher comum: a de escutá-lo enquanto êle está falando. mas poderia. todo aquele bairro insano parecia projetar-se no espaço como uma nuvem flutuante. e somente por isso. o poeta dos cabelos vermelhos. Nessas ocasiões. CHESTERTON em biologia. Não se pense que aquela foi a única noite em que êle figurou como herói. Essa mistura ao mesmo tempo deleitava e abalava os . pois. Em muitas outras. do interior dessa moldura oval. até certo ponto. era literalmente igual à de uma mulher: suavemente encaracolada. para as mulheres. Sua atraente irrealidade avultava de modo especial no crepúsculo. era um homem digno de ser escutado. mesmo que devesse a gente rir-se dele no fim.10 G. Ajudava-o. a atitude das mulheres constituía mesmo um dos paradoxos do lugar. o que provocava momentâneo prazer. Esta impressão era ainda mais fortemente verídica nas muitas noites de festa local. da qual ainda se guardam vagas recordações e na qual o poeta dos cabelos de fogo foi o herói.

dir-se-ia que as penas que adejavam no ar viriam tocar os rostos das pessoas. As últimas plumas escarlates escondiam o sol como se este fosse uma coisa boa demais para ser vista.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 11 nervos de uma população neurótica. Outras há. alastrou-se. há várias pessoas que só relembrarão aquela noite em virtude do céu opressivo. de nuvens e cores cruéis. Com efeito. transparente. exclamou em seu tom subitamente lírico. Mas. porém. para os lados do oeste tudo era indescritível. Repito. apaixonante. Lucian Gregory. na verdade. entre os moradores de Saffron Park. em pouco tempo. a suspeita de haver êle despencado daquele céu inverossímil. o poeta da anarquia. na memória dos habitantes do lugar em razão do extraordinário crepúsculo que a precedeu. O próprio céu parecia pequeno. Por muito tempo. Você afirma que é um poeta da lei e eu afirmo que você é uma contradição em termos. tomando os mais raros matizes de violeta e malva e tons absurdos de rosa ou verde pálido. um poeta da ordem. era um sujeito calmo e cortês. Exprimia aquela esplêndida pequenez que é a alma do patriotismo local. Aquela noite. . Mr. admito que só numa noite assim. que podem relembrá-la por ter assinalado a aparição do segundo poeta de Saffron Park. na noite que se seguiu àquele crepúsculo assustador. como o é. poderia ocorrer na terra um tão grandioso portento. em tudo quanto dizia respeito à natureza da poesia. Mas. sua solidão teve fim inopinadamente. se não merece ser lembrada por outro motivo qualquer. farejou um nexo entre os dois acontecimentos. uma fusão do anjo e do macaco. um poeta respeitável. bem cuidada e cabelos amarelados. Por isso. o poeta estabelecido. permanecerá. de barbicha pontuda. ia mais além ainda: dizia-se um poeta da respeitabilidade. O empíreo mesmo parecia um segredo. que disse chamar-se Gabriel Syme. O céu se cobrira de plumagem vivida e palpável. adivinhava-se que êle era menos manso do que aparentava. Tudo ali se aproximava excessivamente da terra. — Admito. contudo. O novo poeta. Dizia-se um poeta da lei. Espanta-me somente que não tenha havido cometas e terremotos quando você surgiu neste jardim. como se quisesse contar uma assustadora confidencia. Particularizou sua chegada por diferir de Gregory. Parecia o fim do mundo. o revolucionário dos cabelos vermelhos reinou sem rival. No alto da abóbada as penas acinzentavam-se. Mas. Era uma blasfêmia ambulante.

Não é também épico quando o homem com uma locomotiva selvagem atinge uma estação distante? O caos é estúpido. O maravilhoso. Gregory recomeçou num tom de alta bonomia oratória. confirmou Mr. sentenciou. o raro está em chegar à meta. CHESTERTON O homem dos brandos olhos azuis e da barbicha pálida e pontuda suportou essas rajadas com certa solenidade submissa. É porque sabem que o trem está na rota certa. o enlevo paradisíaco de suas almas. Se tudo quanto você diz dos empregados é verdadeiro só tenho a lamentar que eles sejam tão prosaicos como a sua poesia. a coisa mais poética do mundo seria a estrada de ferro subterrânea. o brilho astral de seus olhos. — E é mesmo. porque prefere um grande momento a tudo o mais. nenhuma outra senão Vitória. irmã de Gregory — que tinha deste os cabelos ondulados e vermelhos. — Um artista é o mesmo que um anarquista. O vulgar. Esse homem percebe que valem muito mais o súbito clarão de uma flama viva e o estampido de uma detonação perfeita do que os simples corpos desarticulados de alguns esbirros. O homem que atira bombas é um artista. No caos o trem podia ir a qualquer parte. como habitualmente fazia diante do oráculo familiar. embora possuísse um rosto muito mais afável — riu com espanto e reprovação. — Absurdo! disse Gregory. Mas eu adivinho o formidável êxtase. Syme. Rosamond. se lhe aprouver. Um anarquista é um artista. Porque sabem que depois de Sloane Square a estação seguinte deve ser Vitória. Por que é que todos os empregados e operários que tomam os trens parecem tão tristes e cansados. omite todas as convenções. Sentimos um frêmito épico quando o homem com sua seta selvagem atinge um pássaro distante. tão completamente tristes e cansados? Eu respondo. que se vendia por muito razoável quando outra pessoa tentava o paradoxo. Não fosse assim. Um artista afronta todos os governos. replicou o poeta Syme. Você pode inverter a ordem das palavras. O poeta só está à vontade na desordem. está em não atingi-la. Mas o homem é um mágico e toda a sua magia con- . Ê porque sabem que terão de chegar ao lugar para o qual compraram os bilhetes. O terceiro membro do grupo. a Baker Street ou a Bagdad. o insípido. se a estação seguinte pudesse ser Baker Street! — Ê você que é antipoético. K.12 G.

. — Ê a boa marcha das coisas que é poética! Exclamou. mais poética do que as flores. E eu digo que podem acontecer milhares de coisas em vez desta e que sempre que efetivamente chego a Vitória. — Eu lhe digo. digo-lhe eu! — Vai viajar? perguntou Gregory sarcàsticamente. disse êle. O que há de poético nessa contínua revolta? Você podia dizer também que é poético padecer enjôo no mar. desde que se mantenha sagrada e silenciosamente normal. a doença e a revolta. entretanto. Gregory. Você diz com desprezo que quando alguém deixa Sloane Square. Para nós. A mim deixe-me ler.. que comemora as derrotas do Homem. Para mim. por favor! Tome todos os seus livros de poesia e de prosa. eis o fundamento de toda a poesia. E. Dê-me Bradshaw. enforquem-me.. Ambas. Para mim. meneou a cabeça vermelha e pesada. agora que nós a alcançamos?" Para você. Sim. é. não me parece ouvir um vocábulo desprovido de sentido. quando ouço o guarda gritar: "Vitória". podem ser coisas salutares em certas ocasiões desesperadas. — De novo! disse Syme irritado. é o grito do arauto anunciando a conquista. — Mesmo assim. que cada vez que o trem entra numa estação sinto que êle venceu as baterias dos opressores. chega infalivelmente a Vitória. . . Nova Jerusalém não será melhor nem pior do que Vitória. tenho a sensação de ter escapado por um triz. Tome seu Byron. em abstrato. Nossa digestão.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 13 siste precisamente nisso: êle diz Vitória e — zás — é Vitória mesmo. os poetas. continuou Syme com veemência. e que o homem ganhou uma batalha contra o caos. Ê um estado de revolta. é realmente "Vitória". com lágrimas de orgulho. Vitória é como a Nova Jerusalém. perguntamos incessantemente: "E o que é Vitória. se posso ver em que são elas poéticas! A revolta. a coisa mais poética do mundo é não estar doente. nós. Dê-me Bradshaw. Ora. É mero vômito! A moça estremeceu ao ouvir o vocábulo desagradável. mesmo andando nas ruas do céu. Mas. o poeta será um eterno inconformado. com sorriso lento e amargo. O poeta está sempre em revolta. Ê a vitória de Adão. mas Syme estava demasiadamente inflamado para reparar nela. uma tabela do horário dos trens. que comemora as vitórias. Sim. revoltante. mais poética do que as estrelas. a coisa mais poética.

Não fosse assim. se a estação seguinte pudesse ser Baker Street! — Ê você que é antipoético. tão completamente tristes e cansados? Eu respondo. O vulgar. Gregory recomeçou num tom de alta bonomia oratória. Porque sabem que depois de Sloane Square a estação seguinte deve ser Vitória. Se tudo quanto você diz dos empregados é verdadeiro só tenho a lamentar que eles sejam tão prosaicos como a sua poesia. como habitualmente fazia diante do oráculo familiar. Ê porque sabem que terão de chegar ao lugar para o qual compraram os bilhetes. CHESTERTON O homem dos brandos olhos azuis e da barbicha pálida e pontuda suportou essas rajadas com certa solenidade submissa. — Um artista é o mesmo que um anarquista. está em não atingi-la. omite todas as convenções. o brilho astral de seus olhos. Mas o homem é um mágico e toda a sua magia con- . Rosamond. confirmou Mr. se lhe aprouver. É porque sabem que o trem está na rota certa. Esse homem percebe que valem muito mais o súbito clarão de uma flama viva e o estampido de uma detonação perfeita do que os simples corpos desarticulados de alguns esbirros. Um anarquista é um artista. o raro está em chegar à meta. O poeta só está à vontade na desordem.12 G. O homem que atira bombas é um artista. Não é também épico quando o homem com uma locomotiva selvagem atinge uma estação distante? O caos é estúpido. nenhuma outra senão Vitória. o insípido. replicou o poeta Syme. porque prefere um grande momento a tudo o mais. Mas eu adivinho o formidável êxtase. Sentimos um frêmito épico quando o homem com sua seta selvagem atinge um pássaro distante. Por que é que todos os empregados e operários que tomam os trens parecem tão tristes e cansados. Você pode inverter a ordem das palavras. K. a coisa mais poética do mundo seria a estrada de ferro subterrânea. que se vendia por muito razoável quando outra pessoa tentava o paradoxo. a Baker Street ou a Bagdad. Syme. O terceiro membro do grupo. Um artista afronta todos os governos. embora possuísse um rosto muito mais afável — riu com espanto e reprovação. O maravilhoso. — E é mesmo. — Absurdo! disse Gregory. No caos o trem podia ir a qualquer parte. o enlevo paradisíaco de suas almas. irmã de Gregory — que tinha deste os cabelos ondulados e vermelhos. sentenciou.

Sim. podem ser coisas salutares em certas ocasiões desesperadas. é realmente "Vitória". Para mim. em abstrato. agora que nós a alcançamos?" Para você. mesmo andando nas ruas do céu. é o grito do arauto anunciando a conquista. desde que se mantenha sagrada e silenciosamente normal. por favor! Tome todos os seus livros de poesia e de prosa. meneou a cabeça vermelha e pesada. . A mim deixe-me ler. E eu digo que podem acontecer milhares de coisas em vez desta e que sempre que efetivamente chego a Vitória. . E.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 13 siste precisamente nisso: êle diz Vitória e — zás — é Vitória mesmo. Tome seu Byron. quando ouço o guarda gritar: "Vitória". chega infalivelmente a Vitória. se posso ver em que são elas poéticas! A revolta. mais' poética do que as flores. Para mim. enforquem-me. Ambas. mas Syme estava demasiadamente inflamado para reparar nela.. Ê a vitória de Adão. que comemora as vitórias. disse êle. Ê um estado de revolta. e que o homem ganhou uma batalha contra o caos. uma tabela do horário dos trens. Você diz com desprezo que quando alguém deixa Sloane Square. — Mesmo assim. é . que cada vez que o trem entra numa estação sinto que êle venceu as baterias dos opressores. digo-lhe eu! — Vai viajar? perguntou Gregory sarcàsticamente. entretanto. Dê-me Bradshaw. Dê-me Bradshaw. que comemora as derrotas do Homem. a doença e a revolta. Mas. O poeta está sempre em revolta. mais poética do que as estrelas. a coisa mais poética. . Ora. perguntamos incessantemente: "E o que é Vitória. Para nós. — Eu lhe digo. o poeta será um eterno inconformado. os poetas. nós. Vitória é como a Nova Jerusalém. com sorriso lento e amargo. Sim. Nova Jerusalém não será melhor nem pior do que Vitória. Gregory. É mero vômito! A moça estremeceu ao ouvir o vocábulo desagradável. Nossa digestão. — De novo! disse Syme irritado. não me parece ouvir um vocábulo desprovido de sentido. revoltante. continuou Syme com veemência. O que há de poético nessa contínua revolta? Você podia dizer também que é poético padecer enjôo no mar. a coisa mais poética do mundo é não estar doente. — Ê a boa marcha das coisas que é poética! Exclamou. com lágrimas de orgulho. tenho a sensação de ter escapado por um triz. eis o fundamento de toda a poesia..

K. disse com grande dificuldade. disse Gregory com arrogância. não espero. mesclada de curiosidade e prazer. — Mr. um quarto ou um décimo da verdade. começou ela. não importa. há muitas espécies de sinceridade e de insinceridade. — Ora. que eu inicie a revolução da sociedade aqui neste jardim?! Syme cravou os olhos nos olhos do outro e sorriu com doçura. às vezes acontece que um homem quando fala diz. . por favor? — Que não levo a sério o meu anarquismo? rugiu Gregory com os punhos fechados. Está dizendo a pura verdade. Os enormes olhos taurinos de Gregory relampejaram como os de um leão enfurecido. pessoas como o senhor e meu irmão. respondeu Syme.. realmente. Com surpresa. Mas creio que se você fosse um anarquista de verdade era exatamente isso o que faria. meu caro! Não se aflija! respondeu Syme e afastou-se. — Quer dizer que você não espera. e quase se podia imaginar que sua juba vermelha se encrespara. Quando diz que o mundo é redondo. êle diz mais do que quer dizer. mas não se dá conta disso. — Então você acha. quando falam.. Pela primeira vez um indício de rubor marcou a testa de Gregory. — Oh! Perdoe-me. CHESTERTON Realmente. disse Syme com brandura na voz. Ora. tal é o ímpeto com que pensa naquilo que está dizendo.. Ao falar. agradece ao vizinho de mesa que acaba de lhe passar o saleiro. — Cara Miss Gregory. Syme. inflexível. Ê o caso de seu irmão. repara no que diz? Não. Quando você. disse êle. — Não. Pode dizer uma meia-verdade. estão sempre atentos para o que dizem? O senhor reparou no que disse? Syme sorriu e perguntou: — E a senhorita? Repara no que diz? — Que quer dizer o senhor? indagou a moça severamente.14 G. . descobriu que Rosamond Gregory havia acompanhado seus passos. Esqueciame que tínhamos abolido todas as convenções. repara no que diz? Não. aquilo que pensa. os exemplos que você escolhe. por exemplo. que não levo a sério o meu anarquismo? — Como? Quer repetir.

sentado. Defendia a respeitabilidade com ardor e exagero. pôs-se de pé.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 15 Rosamond fixou-o demoradamente. Era um homem sincero e. comprazia-se em contemplar os cabelos vermelhos e o rosto cândido da moça. Embaraçado. Essas coisas têm de ser feitas anonimamente. Rosamond passou alguns momentos matutando. Apaixonava-se no louvor à cordura e à decência. mas não precisava temer pela segurança dele. começou a subir até êle. se quiser. Os lábios de Rosamond descerraram-se num sorriso. aspirava a fragrancia dos lilazes espalhados pelo jardim. daquele desvelo maternal que é tão velho quanto o mundo. Ela pensava em Gregory. — Então há razões para julgar Gregory um anarquista? — Apenas aquelas razões que dei há pouco. Em seu rosto grave e franco pairava a sombra daquela insensata responsabilidade que habita o íntimo da mulher mais frívola. fundamentalmente humilde. Nos extraordinários acontecimentos que viriam depois. Parecia-lhe que suas heróicas palavras engolfavam-se numa delicada melodia emanada talvez de regiões subterrâneas ou extraterrenas. por Deus! exclamou. Supondo terem decorrido alguns minutos. a música de um realejo. o orgulhoso mede as palavras com muita cautela. Ao passo que falava. Lenta e quase imperceptivelmente. E é sempre o humilde que fala demais. a testa franzida. mas pasmou-se ao ver o jardim completamente vazio. vinda de uma rua distante. Entretanto. Ali. em ocasiões como aquela. Sabia-o inconseqüente. ou. os pares não deviam isolar-se por muito tempo. advertiu que. pediu desculpas à moça e tratou de partir o mais depressa que pôde. Há muito tinha saído o último conviva. a moça não teria nenhuma participação. Syme afastou-se com ela para um banco no canto do jardim e continuou a expor suas opiniões. não irá êle atirar bombas ou tomar parte em atentados? Syme rebentou numa gargalhada que parecia grande demais para seu tipo frágil e levemente ajanotado. Com este pensamento. aquelas sem-razões. Em sua cabeça — e êle não sabia como justificar essas sensações — boiavam uns como eflúvios de champanha. E êle não voltou a vêla senão quando tudo acabou. por entre as temerá- . — Não. de repente. a despeito de suas graças e finezas superficiais. disse: — Em todo caso.

Tinha a cabeça coberta por um chapéu alto e negro e o corpo envolto numa comprida sobrecasaca negra. desaparecer e surgir de novo. Não demorou a descobrir um misterioso silêncio que era antes um silêncio vivo que morto. De que se trata? inquiriu Syme um pouco espantado. K. inexplicavelmente. Gregory bateu com a bengala no poste e na árvore. Porquanto. Poderíamos conversar uns dois minutos? — Pois não. quase tão rígido e imóvel como o próprio poste. uma lâmpada acesa dourava as folhas da árvore. o que se seguiu foi tão inacreditável que bem podia ter sido um sonho. a imagem dela havia de surgir. — Disto e disto. Gregory fêz um gesto semelhante a uma saudação e teve da parte de Syme uma réplica algo mais solene. Fêz uma curta pausa e prosseguiu: mas posso perguntar-lhe se você ficou aqui todo esse tempo no escuro. como o tema de um movimento musical. só para reabrir agora nossa discussão? — Não! explodiu Gregory numa voz que ressoou em toda a rua. como um fio vermelho. fecunda. mas para acabar com ela de uma vez. espreitam a vinda do opositor. — Apesar de tudo. Da ordem e da anarquia. disse Gregory. alguém se mantinha de pé. No alto do poste. . sob a luz da árvore. feia e estéril. munidos de espadas. opulenta. neste momento você só pode ver a árvore sob a luz da lâmpada.16 G. e o esplendor de sua maravilhosa cabeleira havia de atravessar. a meada de cabelos avermelhados. viva. Não fiquei aqui para recomeçar a discussão. as tramas desvairadas e tenebrosas das tapeçarias da noite. Aí tem você sua preciosa ordem nessa mesquinha lâmpada de ferro. A um passo do poste. o rosto era igualmente negro. cujos galhos debruçavam-se sobre o muro. ao mesmo tempo em que começou a falar. escapos à zona das trevas. E aqui está a anarquia. Todavia. na sombra. — Estava esperando que você chegasse. Não me consta que em tempo algum você possa ver a lâmpada. Quando Syme chegou à rua. situado defronte da porta. achou-a deserta sob o céu estrelado. Imitava os bravateiros embuçados que. CHESTERTON rias aventuras que o aguardavam. Eis a anarquia nesta árvore esplêndida nas cores do ouro e da esmeralda. respondeu pacientemente Syme. e a agressividade da postura publicavam' no vulto negro o poeta Gregory.

Nunca pus em dúvida a sua sinceridade em certas coisas. — Há graus de seriedade. se bem me recordo. se a memória não me falha. nunca duvidei de que você fosse cabalmente sincero. Neste sentido. perguntou. — Mas eu temo que a minha ira e o insulto que você me fêz ultrapassem os limites do tolerável e não possam ser apagados com uma simples desculpa. — Lamento muito. Nenhum duelo poderá apagá-lo. — Em tudo quanto eu disse? — Sim. instintivamente pressentiu a gravidade do momento. ainda que não pescasse o verdadeiro sentido das palavras do outro. o caso não estaria encerrado. aparece aqui um sujeito. acredita que um paradoxo pode despertar a humanidade para uma verdade desprestigiada.. em Southend.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 17 Caiu novamente o silêncio. Mas eu não darei um vintém por êle se no mais fundo do ser não conduzir uma . provar que você está enganado em tudo quanto disse. — Realmente? — Aliás. você não crê que sou sério. Se eu o matasse. A verdade é que você me irritou. você crê na minha seriedade? Você me toma por um flâneur que deixa cair por onde passa uma ou outra verdade ocasional. outra pessoa também conseguiu fazer a mesma coisa. e Syme. disse Gregory pensativamente. . disse Gregory muito calmo. Foi o comandante de um vaporzinho vagabundo. Você fêz comigo o que nenhum homem nascido de mulher jamais conseguiu fazer antes. Está bem. mais intenso. — E num outro sentido. Syme. Por exemplo: você só diz aquilo que lhe parece digno de ser dito. diz um montão de tolices e talvez também algumas coisas sensatas. Gregory encarava-o firme mas penosamente. Syme bateu violentamente com a bengala na calçada e bradou: — Sério! Santo Deus! É seria esta rua? São sérias estas malditas lanternas chinesas? É séria toda essa mixórdia? Olhe. replicou Syme. esta noite você fêz uma coisa realmente notável. Gregory voltou a falar com voz macia e sorriso desconcertante. respondeu gravemente Syme. com o possível sacrifício de minha vida e de minha honra. Num sentido mais profundo. Você disse que eu não levo a sério o meu anarquismo. Só existe um meio de fazer desaparecer o insulto e esse meio eu já o escolhi. Vou. — Mr.

. Pela portinhola. — Você me promete em troca!?! insistiu Syme quando o outro se interrompeu.. em nome de Colney Hatch. Você vai conhecer uma coisa mais séria do que a bebida ou a religião. de que se trata? — Acho. que não contarei nada. eu lhe prometo em troca. realmente. Somos todos católicos agora. seja o que fôr. Deu dois longos assobios. à polícia. Você diz que um poeta é sempre um anarquista. disse Gregory com o rosto sombrio. estes dois fantásticos sujeitos deixaram seu não menos fantástico subúrbio. aqui e agora. . dentro dele. com um sorriso radiante. Gregory deu o endereço de uma obscura taberna situada em Chiswick.. jurar como cristão e prometer como bom camarada e companheiro de ofício. disse Gregory com plácida dissimulação. à margem do rio. K. e um fiacre veio ressoando pela rua. que tanto pode ser a religião quanto a bebida. Entraram em silêncio. Syme ficou aguardando delicadamente até que Gregory retomou a palavra. Permita-me. — Você acaba de falar em religião. — Então posso pedir-lhe que jure por todos os deuses e santos da sua religião que não revelará a nenhum filho de Adão e especialmente à polícia o que vou contar? Jura? Se assume tão terrível compromisso. — Eu lhe prometo uma noite muito divertida. se consente em sobrecarregar sua alma com um juramento que nunca pensou em fazer e com um conhecimento de coisas com que jamais sonhou..18 G. que você tem uma? — Claro! exclamou Syme. — Muito bem. uma coisa mais séria. CHESTERTON coisa mais séria do que essa tagarelice. Syme tirou o chapéu e disse: — Seu oferecimento é tão insensato que não merece recusa. O fiacre foi posto de novo em movimento e. É verdade. Discordo. que devemos chamar um fiacre. Mas espero que êle seja pelo menos um cavalheiro. E agora.

com a presença da lagosta. Suas tentativas. disse o imóvel Syme. respondeu com propositada indiferença: — Ora. disse sorrindo a Gregory. Syme recebeu impassível a observação. — Que quer beber? acrescentou Gregory. me traga maionese de lagosta. até então frustradas.. Para sua indescritível estupefação.. O pâté de foie gras daqui não é bom. o criado disse apenas "Pois não. imaginando tratarse de uma pilhéria. mas posso recomendar a lebre. com o mesmo ar descuidado mas polido. espécie de locutório. onde se sentaram à roda de uma sórdida mesa de pé de galo. No champanha se pode confiar. — Muito obrigado. O quarto era tão pequeno e escuro que do serviçal chamado nada mais se divisava além da vaga e negra sombra de um vulto corpulento e barbado. Nem sempre tenho a sorte de ter . como por um raio. senhor!" e foi buscá-la. Deixe-me servir-lhe ao menos meia garrafa de Pommery. o fiacre parou. — Quer cear? perguntou Gregory polidamente. Você é muito amável. de manter a conversação. achou-a bastante apetitosa e logo começou a comer com grande avidez. foram enfim cortadas. Syme degustou-a.CAPITULO II O SEGREDO DE GABRIEL SYME Chegado em frente a uma cervejaria particularmente imunda e lúgubre. Disposto a seguir o filão de humor. sombrio e abafado. Como já jantei. Apearam-se e Gregory conduziu imediatamente o companheiro para um cubículo interior. toda de madeira. — Perdoe-me se manifesto tão claramente minha satisfação. vou tomar somente um creme de menthe.

disse Gregory. Posso fumar? — À vontade. Syme aceitou o charuto e. Somos os homens mais modestos que jamais viveram sobre a terra. olhe aí seu champanha! Admito que haja uma leve desproporção. Vocês se arranjam bem nas bebidas! — Sim. a fumaça do charuto. — Não está dormindo. como se a terra os tivesse tragado. em quem você não acredita. K. disse Gregory. Ao contrário. — Oh! exclamou Syme. esvaziando o copo de champanha. cortando-lhe a ponta com um corta-charutos que tirou do bolso do colete. digamos. disse Gregory. Como é simples! Um minuto depois. pois. Uma espécie de rosca. garanto-lhe. se não estou bêbado. Creditese a seu favor a calma com que efetuou todo este ritual. — Não faça caso. — Muito simples. Mas nisso reside toda a nossa modéstia. e de supetão chegaram ao fundo com . a princípio vagarosamente e depois cèleremente como numa sessão espírita. Ah. você está à beira do momento mais real e excitante de sua existência. subiu a prumo como por uma chaminé de fábrica. mais a mesa e as cadeiras. CHESTERTON um sonho como este. somos sérios em tudo. — E quem são nós? perguntou Syme. desapareceram através do assoalho. respondeu Gregory. Comumente sucede o inverso. a mesa tinha começado a girar. Foram caindo estrepitosamente por dentro de uma espécie de chaminé rugidora. entre o arranjo interior deste excelente hotel e seu exterior simples e despretensioso. Não quero que você cometa uma injustiça. pouco antes de iniciá-lo. levou-o à boca. replicou Syme com absoluta calma. não meta isso na conta das suas incursões no champanha. É uma novidade para mim que um pesadelo conduza a uma lagosta. Experimente um dos meus. acendeu-o vagarosamente e soltou imensa baforada. Mas confio em que possa comportar-me como um cavalheiro em qualquer circunstância. e os dois. Ê uma espécie de rosca. — Bem. '•— Exato! disse Syme plàcidamente. estou louco. tão rapidamente como um ascensor desgovernado. respondeu Gregory. Depois de uma pausa acrescentou: — Se dentro de alguns instantes esta mesa começar a girar um pouco. apresentando-lhe uma charuteira.20 G. que até então ondulava pelo quarto em serpeantes volteios. Nós somos os anarquistas sérios.

Num segundo relance. ou ovos de pássaros de ferro. Gregory guiou-o através de um corredor baixo. Evidentemente. falemos claramente. — Não se desculpe. Gregory deu uma resposta mais ou menos inesperada: "Mr. uma perna cruzada sobre a outra. Na porta havia um tipo de escotilha ou vigia. que levam a gente a pular de um rochedo ou a apaixonar-se. Nele não havia espingardas nem pistolas. com suas fileiras de bancos. e um único fio de seus cabelos amarelos não se tinha desarranjado. meu caro Mr.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 21 um baque surdo. mas sugerindo. Temos que ser muito rigorosos aqui. — E agora. abobadado. quase tão grande como uma lareira. Uma voz forte. Interiormente. Limito-me a dizer . Eram bombas. Syme continuava a fumar tranqüilamente. quase esférico. Mas nenhuma palavra da linguagem dos homens poderá lhe dar a menor idéia do motivo que me impeliu a trazê-lo até aqui. de onde provinha a luz vermelha. estava uma enorme lanterna escarlate. por fim. Foi uma daquelas emoções puramente arbitrárias. Conheço sua paixão pela lei e pela ordem. — Devo pedir-lhe perdão por todas essas formalidades. o aspecto de um anfiteatro científico. e o quarto mesmo assemelhava-se ao interior de uma bomba. coisas que lembravam bulbos de plantas de ferro. Syme bateu na parede para derrubar a cinza do charuto e entrou. Mas quando Gregory escancarou as duas folhas de uma porta e surgiu uma subterrânea luz vermelha. E entrou no corredor guarnecido pelas armas de aço. Joseph Chamberlain". mas estavam suspensas nas paredes formas mais ambíguas e terríveis. estreitamente entrelaçadas ou amontoadas. era na verdade uma figura singularmente frágil e fantástica a caminhar naquela rutilante avenida da morte. Atravessaram vários corredores idênticos e chegaram. disse Gregory. Moveram-se os pesados gonzos. agora que estamos à vontade. a um esquisito quarto de aço e de paredes curvas. tratava-se de uma senha. presa a uma pequena e pesada porta de ferro. perguntou quem era. disse Gregory sentandose expansivamente no banco situado debaixo da bomba maior. na qual Gregory deu cinco pancadas. Lá no fundo. Syme. disse Syme. com sotaque estrangeiro. o corredor cintilava como se estivesse revestido de uma rede de aço. Com seus compridos cabelos louros e sua ridícula sobrecasaca. Syme percebeu que a fulgurante parede estava realmente forrada de várias fileiras de espingardas e pistolas.

assentiu Syme. debaixo de uma taberna. Cercam-se de apetrechos de aço que tornam o lugar. Os ingênuos sentimentais da Revolução Francesa pregavam os Direitos do Homem! Nós odiámos Direitos e Injustiças. — E a direita e a esquerda? perguntou Syme com simplicidade. é por mera curiosidade que faço tais perguntas. mais sinistro do que acolhedor. vocês tentam cobrir-se de mistério. Este lugar não lhe parece sério? — Realmente parece encobrir uma moral debaixo de toda sua gaiatice. a honra e a traição. Posso agora perguntar-lhe por que. K. por assim dizer. disse Syme reatando o fio da conversa. Você deve estar lembrado de que muito habilmente extorquiu de mim a promessa de nada contar à polícia. — Com muito prazer. que ainda constituem o fundamento da rebeldia dos simplórios. — Você falou de uma segunda pergunta. Não pretendemos somente perturbar alguns despotismos e regulamentos policiais. estabelecidas entre o vício e a virtude. Possuem uma pesada porta de ferro e não podem passar por ela sem se submeter à humilhação de chamar-se Mr. dis- . Bem. Mas posso fazer-lhe duas perguntas? Não precisa ter medo de me dar informações. de preferência. CHESTERTON que você foi e. Nós cavamos mais fundo e vamos fazê-los voar mais alto. mas não passa de um ramo dos não-conformistas. Portanto. Chamberlain. depois de vencer todos esses obstáculos para entrincheirarse nas entranhas da terra. promessa que em verdade cumprirei.. Em primeiro lugar. Para mim são muito mais enfadonhas. Espero que vocês as eliminem também. você alardeia os seus segredos. Já abolimos os dois. interrompeu Gregory. que é que tudo isso significa? O que é que vocês pretendem? Querem abolir o governo? — Queremos abolir Deus! disse Gregory abrindo os olhos de fanático. Eu quebraria vinte juramentos de sigilo só pelo simples prazer de espezinhá-lo. Visamos a negação de todas as arbitrárias distinções. ainda continua sendo um camarada indizivelmente irritante. Tenho uma tia que morava em cima de uma loja.. mas esta é a primeira vez que encontro gente que vive. Esse tipo de anarquismo existe.22 G. Você dizia que estava perfeitamente convicto de que eu não era um anarquista sério. em todos os atos e circunstâncias presentes. Esse seu modo de acender o charuto obrigaria um padre a revelar o segredo da confissão. Noto que. para fazer-lhe justiça.

Já lhe disse que sou um anarquista sério. Constantemente desembainhava e brandia a espada e. desesperado. com botas episcopais. César e Napoleão empenharam todo o seu gênio para se tornarem conhecidos e tiveram êxito. que é o homem mais notável da Europa. respondeu Gregory. mas defendia o capital com tanta inteligência que qualquer imbecil podia ver logo que eu era muito pobre. Transformei-me. O Vampiro da Superstição e Padres de Rapina. É a lei". Nosso Presidente põe todo o seu gênio em conseguir que não se fale dele. como um homem que pede Vinho. Fui apanhado novamente. mas creio possuir bastante largueza intelectual para compreender a posição daqueles que. Logo que me fiz membro dos Novos Anarquistas experimentei todos os gêneros de disfarces respeitáveis. como Nietzsche. fui ter com o Presidente do Conselho Central Anarquista. Gregory continuou: — A história que lhe vou contar poderá diverti-lo. Depois banquei o milionário. Então. Mas você não pode ficar cinco minutos na mesma sala em que êle estiver sem sentir que na mão dele César e Napoleão teriam sido dois meninotes. feroz da natureza e tudo o mais que você conhece. Nem ninguém acredita. Estava enganado. sem nenhum propósito. -— Como se chama? perguntou Syme. Pessoalmente. Cuidei de ler tudo o que se relacionava com os bispos em nossos opúsculos anarquistas. Vesti-me de bispo. que eu nada tinha de bispo e me apanharam imediatamente. num major.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 23 correndo sobre anarquismo diante de todas as donas desocupadas de Saffron Park? Gregory sorriu: — A resposta é simples. Repeti muitas vezes: "Pereçam os fracos. Syme fumava pensativamente e fitava-o com interesse. não sei como. Aprendi neles que os bispos são uns anciãos terríveis e estranhos que ocultam da humanidade um segredo cruel. Afinal. presunçosa razão humana" — descobriram. então. Enquanto não os trouxer a esta sala infernal não acreditarão. E nisso está a grandeza dele. A primeira vez que. humilha-te. . gritava: "Sangue!". — Você não pode nem imaginar. procurei passar por major. botei os pés num salão e trovejei — "Humilha-te. mas você não acreditou. e o conseguiu. sou um humanitário. Parece que não é assim que procedem os majores. a guerra altiva. admiram a violência.

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Empalideceu e passou uns momentos em silêncio. Depois prosseguiu: — Qualquer que seja o conselho que êle dê é sempre uma coisa tão surpreendente como um epigrama e ao mesmo tempo tão prática como o Banco da Inglaterra. Perguntei-lhe: "Que disfarce esconder-me-á das vistas do mundo? Que posso eu descobrir de mais respeitável que bispos e majores?" Êle me olhou com sua cara enorme e indecifrável. "Você quer um disfarce que o ponha a salvo de tudo, não é? Você quer um traje que lhe permita passar por inofensivo; um traje de que ninguém possa suspeitar que leva uma bomba escondida?" Assenti com a cabeça. E êle prosseguiu, alteando a voz de leão: "Pois, então, vista-se como um anarquista, seu idiota!", rugiu com tanta força que abalou a sala. "E não haverá ninguém que o julgue um tipo perigoso". E virou-se, dando-me suas largas costas, sem me dizer outra palavra. Tomei o conselho e até aqui não me arrependi. Dia e noite preguei sangue e destruição àquelas mulheres e — por Deus! — elas me deixariam guiar o carrinho em que levam os filhos a passeio. Os grandes olhos azuis de Syme fitavam o companheiro respeitosamente. — Você me ludibriou, disse êle. É realmente um embuste primoroso. Fêz uma pausa e acrescentou: — Que nome tem esse medonho Presidente? — Nós todos o chamamos Domingo, respondeu Gregory com simplicidade. O Conselho Central Anarquista se compõe de sete membros que receberam os nomes dos dias da semana. O Presidente é o Domingo. Alguns de seus admiradores chamamno Domingo, o Sanguinário. É curioso que você tenha tocado neste ponto, porque nesta mesma noite em que você caiu do céu (desculpe-me a expressão) nossa seção londrina deve reunir-se aqui nesta sala para eleger um representante que vai preencher a vaga no Conselho. O cavalheiro que desempenhou por algum tempo, com perícia e aplausos gerais, as árduas funções de Quinta-feira, acaba de morrer. Por isso, convocamos esta noite uma reunião para escolhermos o seu sucessor. Levantou-se e começou a passear pela sala, sorrindo com certo embaraço. — Syme, de certo modo, eu o sinto agora como se você fosse minha mãe. Sinto que posso confiar-lhe qualquer coisa, desde que você prometeu não contar nada a ninguém. De fato,

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vou contar-lhe uma coisa que não teria coragem de contar aos anarquistas que estarão aqui dentro de dez minutos. Naturalmente iremos proceder a uma forma de eleição. Não me acanho de dizer-lhe que estou certo do resultado. E baixando modestamente os olhos, disse: Está quase estabelecido que eu serei o Quinta-feira. — Bravo, amigo! exclamou Syme calorosamente. Congratulo-me com você. Bela carreira! Gregory sorriu com modéstia e, enquanto atravessava a sala, falava apressadamente. — A verdade é que tudo está pronto para mim nesta mesa, e a cerimônia provavelmente será a mais curta possível. Por sua vez, Syme foi até à mesa e viu uma bengala que um exame mais apurado revelou ser uma bengala de estoque. Lá estavam também um grande revólver Colt, um embrulho de sanduíches e uma formidável garrafa de conhaque. Numa cadeira, ao lado da mesa, fora atirado um capote. — Resta-nos somente esperar que se cumpram as formalidades da eleição, prosseguiu Gregory com desenvoltura. Uma vez concluídas, agarro a capa e a bengala, meto as outras coisas no bolso e abandono esta caverna, saindo por uma porta que dá para o rio. Lá me espera uma lancha a vapor. Então.. . Depois . . . Oh! A alegria selvagem de ser o Quinta-feira! E entrelaçou os dedos nervosamente. Syme, que se sentara uma vez mais com seu habitual langor insolente, levantou-se com um desusado ar de hesitação. — Por que é, perguntou de maneira um tanto vaga, que eu acho que você é um sujeito honesto? Por que é que eu simpatizo francamente com você? Parou um instante e depois ajuntou, como se o fizesse por pura curiosidade: Será porque você é um verdadeiro asno? Ficou meditando em silêncio durante alguns momentos e por fim exclamou: — Ora, dane-se tudo! Nunca em minha vida me vi numa situação mais engraçada do que esta, mas vou comportar-me à altura. Gregory, antes de entrar aqui eu lhe fiz uma promessa. E hei de cumpri-la, mesmo torturado por tenazes incandescentes. Você está disposto a fazer, para minha segurança, uma pequena promessa da mesma espécie? — Uma promessa? perguntou Gregory espantado. — Sim, uma promessa respondeu Syme muito sério. Perante Deus eu jurei que não contaria seu segredo à polícia.

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Poderá você jurar pela humanidade, ou por qualquer outra asneira da sua crença, que não revelará meu segredo aos anarquistas? — Seu segredo? perguntou Gregory estupefato. Você tem um segredo? — Tenho, disse Syme. Eu tenho um segredo. Depois de uma pausa, insistiu: Jura? Antes de falar, Gregory considerou gravemente o outro por alguns instantes. — Você deve ter-me enfeitiçado, mas sinto uma furiosa curiosidade a seu respeito. Juro. Juro que não contarei aos anarquistas nada do que você me disser. Mas avie-se. Em dois minutos eles estarão aqui. Syme levantou-se e enfiou as mãos brancas e compridas nos bolsos das calças cinzentas. Quase ao mesmo tempo soaram cinco pancadas na escotilha, anunciando a chegada dos primeiros conspiradores. — Bem, disse Syme, e continuou a-falar com lentidão. Não sei como contar-lhe a verdade em poucas palavras, senão dizendo que o seu expediente de disfarçar-se como um poeta desorientado não é privilégio seu nem do seu Presidente. Algumas vezes também temos lançado mão do mesmo embuste na Scotland Yard. Gregory tentou levantar-se de um pulo, mas por três vezes fraquejou. — Que é que você está dizendo? perguntou aterrado. — Isso mesmo, disse Syme simplesmente. Sou detetive. Trabalho para a polícia. Mas. .. creio que seus amigos estão chegando. Do corredor vinha um murmúrio de "Mr. Joseph Chamberlain", repetido duas vezes, três, trinta vezes, casado ao trotar daquela multidão de Joseph Chamberlains — o que parecia a personificação mesma da solenidade.

como se este fosse um monstro marinho. sem vacilar. Vamos. ainda com os olhos presos em Syme. — Não seja idiota. Não posso atraiçoá-lo. meu pobre amigo.CAPITULO III O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA Antes que assomasse à porta o primeiro recém-chegado. ciente do que eu sou. Em suma. é um anarquista privado da ajuda daquela lei e daquela organização tão essenciais à anarquia. — Não vê que nos pusemos em xeque um ao outro? gritou Syme. . De um salto pôs-se ao lado da mesa. ergueu a mão pálida e delicada. trata-se de um solitário duelo intelectual: minha cabeça contra a sua. mas poderia eu mesmo atraiçoar-me. homem! Espere para ver como me atraiçôo. disse com a dignidade efeminada de um cura. Eu sou um polícia privado da ajuda da polícia. Eu não posso dizer à polícia que você é anarquista. apenas podia considerar em silêncio a situação. Vou fazê-lo primorosamente. Posso apenas vigiá-lo. Você não está rodeado de polícias inquiridores. apanhou o revólver e apontou-o para Syme. mas também não podia disparar a arma. E você. Gregory baixou vagarosamente o revólver. Rugindo feito uma fera. Gregory se tinha recuperado da surpresa e do aturdimento. Este. Você não pode dizer aos anarquistas que eu sou da polícia. A única diferença que existe é a seu favor. Não vê que não é necessário? Não vê que embarcamos no mesmo bote e que ambos estamos mareados? Gregory não podia falar. eu estou rodeado de anarquistas inquiridores. você pode apenas vigiar-me. ciente do que você é.

a passo duro e fatigado. Enviaram-me especialmente para que vocês observem aqui o devido acatamento ao Domingo. O homenzinho deixou cair um de seus papéis. disse o homenzinho dos papéis. o terrível Presidente. é que eu sou sabatista. com inesperada salvação para seu rival. — Bem. cujo nome era Domingo. você quebrar sua palavra. acho que agiríamos corretamente dando-lhe um lugar em nossa reunião. Por esse lado não havia o que . Mas se. nem você quebrará a sua. — Não quebrarei minha palavra. disse Syme com severa benevolência. respondeu: — Alegra-me ver que a sua porta é tão bem guardada que é dificílimo para alguém que não seja delegado entrar aqui.28 G. agitando numa das mãos um maço de papéis. Entretanto. contraiu a testa. disse êle. — Camarada Gregory. Seus amigos já estão aqui. — Se você me pede um conselho de amigo. com sua inspirada desfaçatez. costumava enviar esses embaixadores intempestivos às assembléias secionais. levantou-se imediatamente e começou a caminhar pela sala. Afligia-o. Acho melhor dizer que represento a raiz. disse Syme severamente. Syme venceria todas as situações difíceis. o homenzinho da barba negra. e um bruxuleio de medo perpassou em todas as fisionomias do grupo. disse Syme serenamente. disse Syme rindo. — Qual dos nossos ramos você representa? perguntou maliciosamente. — Que quer dizer com isso? — A verdade. Gregory baixou os olhos e gaguejou o nome de Syme. Era óbvio que. acho que é isso que devem fazer. Quando Gregory notou que o perigoso diálogo terminara. suponho que esse homem é um delegado. não? Surpreendido. visivelmente suspeitoso. Um homenzinho de barba negra e de óculos — um sujeito mais ou menos do tipo de Mr. A massa de anarquistas entrou pesadamente na sala. Deus fabricará um inferno só para você gemer lá dentro eternamente. depois de tudo isso. disse por fim. — Eu não diria que represento um ramo. mergulhado em penosos pensamentos. quase petulante. uma angústia diplomática. Tim Healy — destacou-se do grupo. CHESTERTON — Não creio na imortalidade. camarada. mas Syme. Evidentemente. deveras. K.

ainda mais difícil substituí-las. indignava-o. E a crueldade. desde sempre. sob circunstâncias mais favoráveis. Esta seção tem. Se nenhum nome fôr indicado serei forçado a admitir que aquele querido dinamitador. o Syme que escapasse seria um Syme desonerado de todos os compromissos de sigilo. levou aos abismos insondáveis o último segredo da virtude e da inocência. beberagem que considerava própria de bárbaros pela crueldade que inflige à vaca. Difícil é glorificar o mérito de suas qualidades. entre os presentes. naquela noite. ou qualquer coisa que lembrasse a crueldade. êle prestou consideráveis serviços à nossa causa. é. que se mencionassem os planos de ação. tido a honra de eleger Quintas-feiras para o Conselho Central Europeu. Elegemos muitos e valorosos Quintas-feiras. Teria o cuidado de evitar o mais possível. O homenzinho dos papéis enfiou-se na poltrona presidencial. Proponho que o camarada Buttons assuma a presidência. Todos lamentamos o triste desaparecimento do heróico trabalhador que ocupou o posto até a semana passada. Nossa reunião desta noite é importante. compete. Sabeis também que êle foi tão desprendido em sua morte como o tinha sido em vida. todos aprovaram a proposta. teria matado todos quantos se encontravam no cais. em parte por questão de honra. Organizou aquela grande explosão de dinamite em Brighton. em substituição ao leite. A lancha está esperando no rio. porém. não podia atraiçoar Syme. e sim para uma tarefa mais árdua. o homem que deverá ser Quinta-feira. escolher. Gregory. nesta noite. A vós. — Camaradas! começou êle com voz incisiva como disparo de pistola. um Syme que simplesmente correria a denunciá-lo na Delegacia mais próxima. Êle mesmo. camaradas.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 29 temer. se êle o atraiçoasse e por um motivo qualquer fracassasse em destruí-lo. tratava-se de uma única reunião noturna e de um único detetive que a assistia. . e disse: — Penso que é tempo de começarmos. mas em parte também porque. Mas não é para louvar suas virtudes que estamos reunidos. Depois Syme ia embora e o caso estava encerrado. que nos deixou para sempre. que. mas convém que seja breve. Como sabeis. A passos largos avançou por entre os anarquistas que começavam a distribuir-se nos bancos. No fim de contas. Espero que um de vós indique um nome para ser submetido à votação. pois morreu no culto à fé que depositava numa higiênica mistura de água e giz. Erguendo as mãos.

instruem-se no Ally Sloper's HalfHoliday e no Sporting Times. muito suave. Nossa crença tem sido caluniada. por contraste. de resto. um ancião corpulento. vestido com um casaco de veludo. — Há alguém que secunde esta proposta? perguntou o Presidente. Os ociosos que falam da anarquia e da ameaça que ela representa. barbado. talvez o único trabalhador real que ali se encontrava. E voltou a sentar-se com a mesma dificuldade. Estava decidido a fazer um discurso ameno e ambíguo a fim de gravar na mente do detetive a impressão de que a fraternidade anarquista era. Já uma vez Syme presumira que os anarquistas cobriam com suas arruaças as mais refinadas tolices. apoiou a resposta. Não é mister dar-vos conta da minha política. Não podia agora. deformada. Acreditava no próprio talento literário e na sua capacidade de sugerir belos matizes e usar palavras inconfundíveis. diante de si. pois ela também é a vossa. CHESTERTON Houve um movimento de aplauso quase inaudível. acumulam sobre nossas cabeças. plano e reto como uma estrada branca. Sobre os anarquistas instruem-se nas novelas baratas. que pareciam quase escarlates. totalmente obscurecida e vilipendiada. instruem-se nos jornais da bolsa comercial. Um tipo pequeno. levantou-se com dificuldade e falou: — Proponho para Quinta-feira o camarada Gregory. num momento de perigo. Mas sorria e estava inteiramente à vontade. Tinha o espírito preparado e. convido o camarada Gregory a fazer sua profissão de fé. as origens. disse o Presidente. de um extremo a outro da Europa. mas persiste incorruptível. acolá. K. mas não nos buscam. catam informações ali.30 G. via o programa que traçara. por toda a parte. A palidez mortal de seu rosto acentuava. — Antes de submeter a matéria à votação. com cautela e a despeito das pessoas que o rodeavam. Gregory ergueu-se no meio de ruidosos aplausos. Nunca se instruem sobre os anarquistas nas próprias fontes anarquistas. Em seguida. o esquisito vermelho de seus cabelos. reforçar a antiga presunção de Syme? — Camaradas! começou em voz baixa mas penetrante. com uma comprida e venerável barba branca. tal como o que se ouve às vezes na igreja. Julgava que. Não temos ensejo de desagravar as montanhas de ultrajes que. O homem que . podia dar da instituição uma idéia sutil e delicadamente falsa. não buscam as nascentes.

. Somos clementes. Os aplausos que tinham saudado as primeiras frases de Gregory foram esfriando gradualmente e ante as últimas palavras sumiram-se de vez. Cortou o repentino silêncio a voz forte e áspera do homem do casaco de veludo. como eles eram modestos: contemplai-me. Suponde que nós parecemos tão escandalosos como os cristãos porque somos realmente tão inofensivos como eram os cristãos. Mas somente o olho de uma estima tão profunda e dedicada como a minha pode perceber as camadas de sólida mansidão que lhe forram o âmago do ser. Porque é nas profundezas do coração da terra que os perseguidos têm permissão para reunir-se... como os cristãos se reuniam nas catacumbas. Ah. tornou Gregory. embora a paixão me mande romper o teto com minhas palavras.. diz que não é manso. o do casaco de veludo. É certo que ainda não vai ouvi-la nesta noite. camadas tão inescrutáveis que êle mesmo é incapaz de divisá-las. estivesse aqui neste momento um homem que durante toda a sua vida alimentou imensos preconceitos a nosso respeito. — Vergonha! bradou Witherspoon.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 31 sempre ouviu dizer que somos pragas vivas nunca ouviu nossa resposta. Somos simples como eles eram simples: contemplai o camarada Witherspoon. — Eu não sou manso! — O camarada Witherspoon. Nós não comemos carne humana. se por um desses incríveis acasos. suponde que nós estamos apenas revivendo aquele misterioso paradoxo da História. Repito: Somos os verdadeiros cristãos primitivos. farlhe-ia esta pergunta: "Que espécie de reputação moral desfrutavam nas ruas de Roma os cristãos que se congregavam nas catacumbas? Quantas histórias de atrocidades cristãs não contavam os romanos cultos? Suponde (eu pediria a esse homem). Mas. como êle conhece tão mal a si mesmo! Não podeis negar que êle usa de expressões extravagantes e que sua aparência é feroz e mesmo (para o gosto vulgar) pouco sedutora. Suponde que parecemos tão loucos como os cristãos porque somos realmente tão mansos como eles". Gregory repetiu furioso: — Somos clementes como os primitivos cristãos eram clementes. só que chegamos muito tarde. — Não! Isso não! É demais! protestou Mr. Somos modestos.. Witherspoon. Por que não? .. o que não impediu que eles fossem acusados de comer carne humana.

não haverá dificuldade em atingir o objetivo que visamos como uma corporação. fêz com que as seguintes retumbassem e estalassem na abóbada. está ansioso de saber por que motivo ninguém o come. por mera rotina. Fêz-se um silêncio constrangedor. A cavaleiro das calúnias que nos representam como assassinos e inimigos da sociedade humana. Gregory volveu a seu banco e passou a mão pela testa. . O fator decisivo na oratória é uma súbita mudança de voz. Todavia. que o estima sinceramente. que está fundada no amor. Revestimos de armas estas paredes e barramos a porta com a morte para impedir que outros venham aqui ouvir o camarada Gregory dizer-nos: "Sede bons e sereis felizes". . Tendo pronunciado estas primeiras palavras formais num tom moderado.. ou que eu visaria se fosse eleito representante dessa corporação. abaixo o amor! — . disse Gregory com febril jovialidade. os perenes ideais de fraternidade e simplicidade. eu me oponho. K. repetiu Gregory rangendo os dentes. Não houve em todo o discurso do camarada Gregory uma única . demandaremos. no seio de nossa sociedade. (Risos) De qualquer modo. O camarada Witherspoon mexia-se intranqüilo em seu banco e resmungava dentro da espessa barba. Mas quando o Presidente ia abrir a boca para declará-la aprovada. Gabriel Syme evidentemente entendia de oratória. — Não! não! disse Witherspoon. mas o Presidente ergueu-se como um autômato e falou com voz incolor: — Há alguém que se oponha à eleição do camarada Gregory? A assembléia dava a impressão de estar vaga e subconscientemente desapontada. — Camaradas! gritou com uma voz que fêz estremecer os ouvintes. como se uma das armas houvesse disparado. breve e simples. E Mr. Presidente. Foi para isto que viemos até aqui? Para ouvirmos frases como essas é que vivemos soterrados como ratos? Bobagens desta ordem podemos escutar nos banquetes das escolas dominicais. a proposta teria sido aprovada. CHESTERTON — O camarada Witherspoon. "A honestidade é o melhor princípio" e "A virtude traz em si mesma a recompensa"? Respondam-me por favor. com coragem moral e tranqüilo impulso intelectual.. Syme levantou-se rapidamente e disse com voz sumida e quieta: — Sr. que está fundada no amor.32 G.

apesar de todas as suas amáveis qualidades. (Renovados aplausos) O sujeito talhado para ser um bom cura não foi talhado para ser um enérgico. Aquelas caras. O anarquista que se dedicou à anarquia esqueceu a modéstia e esqueceu também o orgulho. (Aplausos) Não sou apenas um homem. (Aplausos) Desde que Syme se levantara. mais uma vez indulgente. Sou uma causa. seus lábios côr de barro despregaram-se e êle exclamou com automática e inanimada clareza: — Maldito hipócrita! Syme cravou seu olhar azul-pálido nos olhos furiosos de Gregory e disse com dignidade: — O camarada Gregory acusa-me de hipocrisia. e menos ainda de cerimoniosa modéstia. que nós não somos os inimigos da sociedade. Aliás. ofereço-me como candidato. com o rosto idiotizado de assombro. Não simulo. Gregory permanecia fitando-o. resoluto e eficiente Quinta-feira. Não queremos o Supremo Conselho da Anarquia infetado de pieguismo sentimental. Concordo. Somos carrascos. Esta frase afogou-se numa ensurdecedora cachoeira de aplausos.. que não somos assassinos. (Apoiado. apoiado) Mas eu não sou um cura (Ruidosos aplausos) e não o escutei com prazer. apoiado) Não é tempo de polidez cerimoniosa. êle está incapacitado de ser Quinta-feira em razão de suas amáveis qualidades.. apoiado) O camarada Gregory nos disse. Não somos assassinos. e tanto pior para a sociedade. Mas eu digo que nós somos os inimigos da sociedade. Falo sem rebuços. Digo que o camarada Gregory é incompetente para o cargo de Quinta-feira. num tom demasiadamente indulgente. Nós somos os inimigos da sociedade. Oponho-me ao camarada Gregory como me oporia a todos os governos da Europa. apoiado) O camarada Gregory nos disse. tão bem como eu. que iam ficando mais ferozes à medida que aprovavam as palavras cada vez mais intransigentes .O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 33 palavra que um cura não pudesse ouvir com prazer. (Apoiado. E digo mais: em lugar de ter Gregory e seus métodos açucarados no Supremo Conselho. (Apoiado. sua mais antiga e impiedosa inimiga. Êle sabe. (Apoiado. (Aplausos renovados) Oponhome ao camarada Gregory tão impessoalmente e tão serenamente como se tivesse de escolher entre um revólver e outro numa daquelas prateleiras. Na pausa que se fêz. pois a sociedade é inimiga da humanidade. que estou mantendo meus compromissos e que não faço outra coisa senão o meu dever.

K. estavam agora retorcidas em esgares de expectação ou fendidas em gritos de regozijo. e sua voz parecia tão pesada como uma pedra. Entretanto. Gregory. . ao contrário. ergueu-se de um salto e berrou para conter a gritaria. O pesado clamor paulatinamente decrescia. Êle é .. .. lentamente. Parai. cuja boca espumava. Gregory. falou: — Proponho..34 G.. . o cabelo e a barba eriçados. ao gordo parlamentar que afirma que estes homens são inimigos da ordem e da moralidade públicas. ? ! repetiu Syme completamente imóvel. Que é que êle é? Duas vezes Gregory abriu a boca mas não pôde articular uma só palavra. arrebatado. rebentou incontrolável bramido de excitação e assentimento. Tudo isso é uma. Vim para destruirvos e cumprir vossas profecias". — Vou dar cabo de tudo isso! disse. tentava levantar-se. imprimiu à voz uma nova modulação. que o camarada Syme seja indicado para o posto. — Parai! Pairai! gritou Gregory frenético. Num dos últimos bancos. o sangue começou a insinuar-se em seu rosto inerte. acima dos brados de Gregory e acima do alarido geral. como emenda. ao juiz que afirma que estes homens são inimigos da lei. Este homem não pode ser eleito. a todos eles responderei: "Sois falsos reis. ouvia-se a voz de Syme trovejando impiedosamente: — Não vou para o Conselho com o fim de rebater a calúnia dos que nos chamam assassinos... de olhos melancólicos e de cavanhaque à americana. CHESTERTON de Syme. — Parai! Loucos. — Há alguém que esteja de acordo com a emenda? perguntou. No momento em que êle se anunciou como candidato ao posto de Quinta-feira. — É . um homem alto. . parai! gritou com uma voz aguda que lhe rasgava a garganta. que estivera a esganiçar-se até então. . mais espantosa do que qualquer ganido. mas antes que cessasse Witherspoon. (Aplausos estrepitosos e prolongados) Ao pároco que afirma que estes homens são inimigos da religião. cansado. mas sois verdadeiros profetas. A voz do Presidente cortou-lhe a palavra com frieza. lutarei por merecê-la. Depois.

disse Mr. mas ouvi-me! Matai-me. a emenda. reiterou Gregory com tão inesperada sinceridade que por uns instantes a sala ficou em silêncio. um esquálido destroço de homem. numa voz semelhante à de um mártir que. Buttons. que por um momento a vitória louca e frágil de Syme oscilou como um caniço ao vento. Resta saber se o camarada Syme. naqueles lances. Este se contentou com dizer: — O camarada Gregory ordena. — Camaradas! bramiu.. é tão terrível. pois não posso darvos nenhuma razão para o seguirdes. Witherspoon.. Não sou nenhum louco. — Camarada Gregory. E outro acrescentou em tom mais rude: — Nem é o Quinta-feira. gritou Gregory. houve alguns segundos de silêncio real. Protestai.. aceitai minha degradação. Podeis chamá-la uma ordem louca. disse o Presidente ao fim de uma pausa de consternação. imploro-vos: não elejais este homem. o homem comprido e magro.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 35 — Êle é inexperiente em nosso trabalho. Nada significa para mim que vós me odieis como tirano ou que me detesteis como escravo. Direi que é uma ordem. Gregory estava novamente de pé. Chamai-me louco. Gregory. . Mas nada se podia adivinhar nos olhos frios e azuis de Syme.. Nesse ínterim. do cavanhaque americano. Um dos anarquistas logo interpelou Gregory: — Quem é você? Você não é o Domingo. Não. o Presidente. com mecânica rapidez. Camaradas. no êxtase da dor. mesmo agrilhoada. concluiu e sentou-se imediatamente. supera a própria dor. Pela primeira vez. mas executai-a. mas obedecei-me! Não elejais este homem! A verdade. deverá ser apreciada. não. Na verdade. Não direi que é um conselho. Ajoelho-me diante de vós. conseguira levantar-se e estava repetindo com monótono sotaque americano: — Peço licença para apoiar a candidatura do camarada Syme. atiro-me a vossos pés. Foi o suficiente para desfazer o feitiço. em primeiro lugar. oh! interrompeu Mr. Se não quereis acatar minha ordem. Dou-vos um conselho. — Como é de praxe. — Oh. se quiserdes. isso não é muito dignificante. ofegante e arrebatado. — Não sou nenhum louco.

CHESTERTON deixou-se cair em seu banco. No fim do corredor havia uma porta que foi aberta engenhosamente por Buttons. Gabriel Syme. — Foi você que me arrastou a esta cilada. do Serviço Secreto da Polícia. Buttons alvoroçando-se. semelhante a um cenário de teatro. retrucou Syme. Seguia-lhes febrilmente os passos o torturado Gregory. Mas.. possuímos noções tão danadamente contrárias que entre nós não pode haver nenhuma conciliação. que parecia um filhote de dragão. como um relógio que tivesse acabado de receber corda. Quem. com um olho vermelho. Syme viu-se cara a cara com Gregory. Ao dizer isso ajustou o enorme capote sobre os ombros e apanhou a garrafa de cima da mesa.. Tenha a bondade de acompanhar-me.36 G. redarguiu Syme gravemente. O alarido cresceu como o mar. Buttons desceu com Syme por um corredor estreito. senão você. estava eleito para o posto de Quinta-feira no Conselho Geral dos Anarquistas da Europa. Não temos nada de comum. repetiu: — Resta saber se o camarada Syme deve ser eleito para o posto de Quinta-feira no Conselho Geral. Passaram muitos minutos fitando-se mutuamente em silêncio. todos se puseram de pé e os fogosos grupos movimentaram-se e confundiram-se na sala. Foi você que. Mr. Com um gesto que revelava o recepcionista de loja. e o Presidente. quanto ao que nos parece justo. começou Gregory. — E você é um cavalheiro. que o contemplava com ódio e espanto. — Você é um demônio. — Não diga tolices. Inesperadamente. reforçado com arcos de ferro. — O barco está pronto. as mãos ergueram-se como floresta. Mr. A poucos passos achava-se uma escura e minúscula lancha a vapor. trêmulo da cabeça aos pés. Talvez estejamos fazendo o que ambos julgamos ser justo. e três minutos depois. disse Mr. me trouxe a este demoníaco parlamento? Você me fêz jurar antes que eu o fizesse a você. K. exceto a honra e a morte. Todos os que estavam na sala pareciam pensar na lancha que esperava no rio. No instante em que a eleição se concluiu e foi declarada irrevogável e Syme recebeu suas credenciais. disse Gregory por fim. desvendando um quadro azul-prateado do rio ao luar. na bengala de estoque e no revólver que esperavam em cima da mesa. .

— De que é que você está falando? bradou o caótico Gregory. e fêz um cumprimento militar com a bengala de estoque. disse cortêsmente. — Você cumpriu sua palavra.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 37 No momento em que ia passar para bordo. com o rosto na sombra. É um homem de bem. Muito obrigado. Gabriel Syme voltou-se para o ofegante Gregory. enquanto a lancha começava a deslizar. . Que foi que eu lhe prometi? — Uma noite muito divertida. disse Syme. Cumpriu a palavra até nos pormenores mais insignificantes. Houve uma coisa especial que você me prometeu no começo desses sucessos e que realmente me proporcionou.

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Sua mãe dedicava-se à simplicidade e ao asseio. Syme era um daqueles homens a quem desde cedo a rematada loucura da maioria dos revolucionários compele a adotar diante da vida uma atitude demasiadamente conservadora. Seu pai cultivava as artes e o aperfeiçoamento de si mesmo. mais seu pai se expandia numa incontinência mais do que paga. Gabriel teve de revoltar-se em nome de alguma coisa. Seu ódio à anarquia não era hipócrita. em cujo seio as pessoas mais velhas empolgavam idéias mais novas. Um de seus tios tinha o hábito de sair à rua sem chapéu. Assediado desde a infância por todos os tipos concebíveis de revolta. Mas dentro dele corria boa parcela do sangue destes fanáticos. era realmente um poeta que se transformara em detetive. Quanto mais sua mãe pregava uma abstinência mais do que puritana. Sua respeitabilidade era espontânea e imprevisível.CAPITULO IV A HISTÓRIA DE UM DETETIVE Gabriel Syme não era simplesmente um detetive que pretendesse ser poeta. o que fazia com que seus protestos de fidelidade ao senso comum parecessem um pouco ferozes demais para serem sensatos. Por isso o menino. e no momento em que ela chegou a propagar o vegetarianismo. e outro fizera gorada tentativa de sair de chapéu e mais nada. durante os seus mais verdes anos. Aconteceu que êle passava por uma rua quan- . Descendia de uma família de excêntricos. Sua aversão à desordem moderna foi coroada por um acidente. ignorou totalmente qualquer bebida entre os extremos do absinto e do licor de cacau. pelos quais revelava saudável repugnância. Assim. êle já estava a pique de defender o canibalismo. uma rebelião contra a rebelião. Não atingira esse ponto por via de nenhuma tradição doméstica. revoltou-se em nome da única coisa que restava: o bom senso.

não havia anarquista. muito depois. como. Toda a sua pessoa representava um perfeito exemplar daqueles anarquistas contra quem havia declarado uma guerra santa. posto entre a espada e a parede. Por alguns momentos ficou cego e surdo e. ainda mais antiquado. Usava uma antiquada cartola preta e envolvia-se num capote preto e roto. Depois disto. versos e violentos panfletos acautelando as gentes contra esse dilúvio de bárbara negação. Quando vagueava pelo aterro do Tâmisa. como um punhado de sujeitos mórbidos que combinam ignorância com intelectualismo. — parecia ter avançado menos ainda na direção da própria subsistência. Os dentes cerrados mordiam um mata-rato preto. pitando amargamente um charuto barato e matutando nos progressos da anarquia. do mesmo modo que a maioria considera. Nessa época Syme tinha um aspecto andrajoso. O rio vermelho refletia o céu também vermelho e ambos refletiam sua cólera. Era quixotesco demais para ver as coisas com naturalidade. Não considerava os anarquistas. comprido e fino. K. continuou como de costume: quieto. mas havia em sua mente um ponto que não estava são. Considerava-os como um perigo imenso e terrível. comprado em Soho. tão selvagem ou tão solitário como êle. pôde ver as janelas quebradas e os rostos ensangüentados. de fato. Tal combinação tornava-o semelhante aos antigos vilões de Dickens e Bulwer Lytton. nos jardins de Saffron Park. CHESTERTON do se deu um atentado a dinamite. Mas parecia ter avançado muito pouco na direção do inimigo. Syme passeava pelo aterro.40 G. Era literalmente um caudal de fogo correndo sinuoso através das amplas cavernas de um mundo subterrâneo. uma invasão chinesa. quando a fumaça desapareceu. dos de bomba no bolso. É provável que tenha sido este o motivo que levou o guarda do aterro a caminhar em sua direção e saudá-lo: — Boa noite! . — e isto era muito pior. estava tão carregado e o rio emitia um clarão tão acobreado que a água parecia deitar chamas mais violentas que as do crepúsculo. aparados e penteados. O céu. sob um crepúsculo vermelho-escuro. Inundava continuamente os jornais e as cestas de papéis usados das redações com uma torrente de contos. gentil. Inquietava-o permanentemente o desamparo e o desespero do governo. Certa vez. A barba e o cabelo amarelados também estavam mais desgrenhados e leoninos do que quando surgiram. cortês.

você continuaria aqui perpètuamente impassível. — O soldado deve ter calma no aceso da batalha. para muitas pessoas as coisas mais verdadeiras do mundo. espalhado e cintilante. — Ah é? disse Syme admirado. sangrentos! Garanto que se isso fosse rigorosamente sangue humano. Temo que a minha educação tenha sido muito rudimentar e obsoleta. — Tem razão. — Mas por que você ingressou na polícia? interrogou Syme com rude curiosidade. — As simpatias de classe. em plena crise de mórbido temor pela sorte da humanidade. E Syme sentiu-as explodirem dentro de si antes que pudesse refreá-las. — Onde você estudou? inquiriu Syme curioso. — Oh. Não gozei nunca desses privilégios. são. disse solenemente. Veja este céu. ali ao crepúsculo. sentiu-se espicaçado com a simples e mecânica cortesia do funcionário. a inspecionar pobres transeuntes inofensivos e a ordenar-lhes que se dispersassem. — Exatamente pelo mesmo motivo que você tem de insultar a polícia. — Valha-me Deus! As Escolas Públicas! É essa a educação não-sectária? — Não. — Se temos calma. — Será mesmo uma boa noite? disse mordazmente. Eu sei que não sou digno. Vocês são capazes de achar boa a noite do fim do mundo. por mais falsas que sejam. mas eu poderia perdoar a crueldade de vocês não fosse esta calma que vocês afetam. continuou o guarda. veja este rio: vermelhos. é a calma da resistência organizada. não passava de uma indistinta figura azulada. cujos temores pela sorte da humanidade dizem respeito antes às aberrações do intelecto cien- . não obstante. replicou o guarda. respondeu o guarda. O guarda suspirou e meneou a cabeça.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 41 Syme. — Mas homem. disse o guarda com tristeza. Descobri que havia no serviço uma oportunidade especial para aqueles. A disciplina de um exército é a cólera de uma nação. em Harrow. Vocês da polícia são cruéis com os pobres. por Deus! Você não devia ser da polícia. Não sou do tempo das Escolas Públicas. que.

Eu sou democrata e creio no valor do homem comum em questões de intrepidez e virtudes comuns. através de um livro de sonetos. Como é que um homem como você bota um elmo azul e vem filosofar aqui no aterro? — Evidentemente você nada sabe dos últimos desenvolvimentos do nosso sistema policial. tivemos de correr bastante para chegarmos a tempo de impedir um assassínio em Hartlepool. retorquiu o guarda. isso não me surpreende. o emprego do polícia mediano numa investigação que é. detetive dos mais célebres de toda a Europa. Espero que tenha sido claro. — Explicarei tudo. detetives que são também filósofos. — Alistar-me em quê? perguntou Syme. obviamente.. distúrbios da vontade humana. — A missão do polícia-filósofo. uma caça à heresia. ao mesmo tempo. Através das páginas de um razão ou de um diário os detetives comuns descobrem que se cometeu um crime. disse o guarda calmamente. acho que as exprimiu claramente. êle ideou uma especial corporação de detetives. Penso que você podia alistar-se. Mas parece que o seu espírito já está predisposto. Está convicto de que os mundos artísticos e científicos se unem secretamente numa cruzada contra a Família e o Estado. — Se você se refere a suas opiniões. Há pouco. a coberto das classes cultas.42 G.. Os olhos de Syme brilhavam de curiosidade e simpatia. nós nos dirigimos ao serões artísticos para descobrir pessimistas. por fim. não só no sentido meramente criminal. mas no terreno da controvérsia. Temos que seguir desde a origem a pista daqueles pensamentos terríveis que conduzem os homens ao fanatismo intelectual e. — O que é que fazem então? perguntou. Mas quanto a ter-se explicado está longe ainda. O detetive comum vai às cervejarias capturar ladrões. C H E S T E R T O N tífico que aos normais e desculpáveis. A função deles é investigar as origens dessa conspirata e combatê-la. Por esta razão. ainda que excessivos. disse Syme. respondeu o homem de azul. vem desde muito tempo suspeitando de uma conspiração puramente intelectual que em breve ameaçará a própria existência da civilização. A situação é esta: o chefe de um dos nossos departamentos. Nós os mantemos em segredo. Aliás. Nós. ao crime intelectual. K. porque são estas que abrigam a maior parcela de nossos inimigos. Mas não seria aconselhável. descobrimos que um crime está para ser cometido. O nosso êxito se deveu exclusi- . é mais arriscada e mais sutil do que a do simples detetive.

Mas os filósofos odeiam a vida mesma. está pronto para aceitar o universo e louvar a Deus. mas é. inquiriu Syme. . que atinara com o sentido exato de umas oitavas que havia lido.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 43 vãmente à argúcia do jovem Mr. Aceitam o ideal essencial do homem. Os ladrões respeitam a propriedade. Mas este nosso novo movimento é uma empresa muito diferente. algumas vezes. Afirmamos que o criminoso temível é o criminoso culto. querem destruir a simples idéia da posse pessoal. — Isso é verdadeiro! bradou. Tenho pensado assim desde a infância. Desde que um determinado obstáculo — um tio rico. quer aniquilá-las. Os assassinos respeitam a vida humana. Lembramo-nos dos imperadores romanos. mas nunca pude estabelecer a antítese verbal. só que o procuram erroneamente. não é anarquista. É reformador. mas tinha razão há pouco quando disse que o tratamento que dispensamos usualmente aos criminosos pobres é um tanto brutal. em todo caso. condicionalmente bom. — Quer dizer. a deles e a dos outros. Wilks. só que desejam que a propriedade se torne propriedade deles para que possam respeitá-la mais e melhor. Garanto-lhe que abomino meu ofício quando. nosso companheiro. meu coração me leva para o lado deles. sinto que êle consiste apenas numa guerra aos ignorantes e desesperados. dos príncipes da Renascença. Procuramos dar um desmentido ao pretensioso axioma inglês que diz que os incultos são os criminosos temíveis. ou então não levariam a cabo a formalidade altamente cerimoniosa e ritualística da bigamia. replicou o guarda. Os bígamos respeitam o matrimônio. grandes envenenadores. Mas o filósofo pernicioso não tenta alterar as coisas. Afirmamos que o criminoso mais temível destes tempos é o filósofo moderno inteiramente bárbaro. com o sacrifício daquelas que lhes parecem vidas menores. que há realmente tal conexão entre o crime e a inteligência moderna? — Você não é suficientemente democrata. arrombadores e bígamos são homens de moralidade perfeita. Syme pôs-se a bater palmas. apenas desejam obter para si mesmos uma abundância maior de vida humana. Comparados com êle. Mas os filósofos condenam a propriedade enquanto propriedade. O criminoso vulgar é um mau sujeito. Pretende limpar o edifício e não destruí-lo. por exemplo — seja removido. Mas os filósofos desprezam o casamento como casamento.

K. Abandonou a obra mais digna: a punição dos poderosos traidores do Estado e dos poderosos heresiarcas da Igreja. Para eles. que o mundo moderno está cheio de homenzinhos sem lei e de pequenos movimentos absurdos. Pode dizerse mesmo que o círculo externo é o dos leigos e que o interno é o do sacerdócio. . Crêem que o castigo gerou o crime. Minha única dúvida reside em saber se temos o direito de punir alguém mais. o homem que seduziu sete mulheres deveria naturalmente passar impune como as flores da primavera. tanto quanto qualquer outro. Crêem que todos os funestos efeitos do crime são conseqüências normais do sistema que lhe deu o nome de crime. selvagens como eles são. Os modernistas dizem que não devemos punir os heréticos. se bem que desorientados. Prefiro dizer que o círculo externo é do setor inocente e que o interno é o setor supremamente culpado. mas sei que está desperdiçando sua vida. que são efetivamente as explosões de homens oprimidos. alistar-se em nosso exército especial para lutar contra a anarquia. como saquear os pobres e perseguir os infortunados. CHESTERTON Sim. Falo de um vasto movimento filosófico. Sei. Não crêem que o crime gera o castigo. isto é. redargüiu o guarda. têm geralmente o mérito de discordarem uns dos outros. são simples anarquistas. Estes eu filio ao setor dos inocentes. Mas. homens que acreditam que as normas e as fórmulas destruíram a felicidade humana. Você deve. Os exércitos de nossos inimigos estão em nossas fronteiras. Apertam o cerco. esfregando as mãos numa excitação inusitada em pessoas da sua categoria e dos seus hábitos.44 G. Um momento mais e você poderá ser excluído da glória de trabalhar conosco e talvez da glória de morrer com os últimos heróis do mundo. o mundo moderno conservou todas aquelas facetas realmente opressivas e ignominiosas da função policial. com essas fortuitas explosões de dinamite na Rússia e na Irlanda. Para eles o punguista é naturalmente um sujeito de sentimentos delicadamente generosos. Mas é inexplicável! Não sei o que você fêz. — Mas isto é absurdo! exclamou o guarda. Os do círculo externo. com urgência. Como é que você pode dizer que chefiam um exército ou organizam uma investida? Que espécie de anarquia é esta? — Não a confunda. composto de dois círculos: um externo e outro interno. que formam a copiosa massa dos sectários. anuiu Syme. — Realmente é uma oportunidade que não se deve desperdiçar. Mas ainda não entendi tudo.

portanto. têm em mente que a humanidade há de suicidar-se. em suas bocas essas frases ditosas têm uma significação aterradora. em que as formas pouco a pouco se esboçam. Syme deixou-se levar até uma porta lateral na longa fila de edifícios da Scotland Yard. Nada tinha da escuridão normal. disse o guarda. do qual lhe falei. — É natural. respondeu calmamente o guarda. Você deveria vir vê-lo. Venha comigo. — Não. Assim também falam os do círculo interno. Aliás. Mas em suas bocas (e aqui o guarda baixou a voz). que estas pessoas falem no advento de uma era de felicidade. já que tenho a honra de merecer um pouco da confiança do chefe. Diz que assim seus pensamentos ficam mais claros. Eles não têm ilusões. não direi que você vai vê-lo. — Como posso unir-me a vocês? perguntou Syme numa espécie de arrebatamento. Também falam para as multidões aclamadoras da felicidade futura e da humanidade que um dia será livre. passou pelas mãos de cerca de quatro oficiais intermediários e encontrou-se de um momento para outro num quarto cuja escuridão inesperada feriu-o como uma centelha. numa humanidade liberta da servidão do vício e da servidão da virtude. Suas palavras querem dizer morte. pois que ninguém nunca o viu. — Sei de certeza que no momento há uma vaga. Quando asseveram que a humanidade há de ser livre algum dia. e de coisas semelhantes. . no paraíso do futuro. têm em mente o túmulo. Êle tem o capricho de viver sempre num quarto escuro como breu. — Pelo telefone? inquiriu Syme com interesse.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 45 — Oh! murmurou Syme. Quando falam de um paraíso fora do bem e do mal. mas o alto sacerdócio regozija-se por saber que matou alguém. se quiser. era antes a escuridão da cegueira instantânea. mas poderá falar com êle. são demasiadamente intelectuais para crer que neste mundo o homem possa libertar-se uma vez sequer do pecado original e do combate. — É o novo recruta? perguntou uma voz dura. os do sacerdócio sagrado. A tropa dos inocentes fica desapontada ao ver que a bomba não matou o rei. Um pouco confuso e muito animado. É este o motivo por que lançam bombas em vez de disparar pistolas. Antes de dar pelo que fazia. Visam apenas dois objetivos: destruir primeiro a humanidade e depois destruírem-se a si mesmos.

onde se lia um número e as palavras "A Ultima Cruzada". vestiu um irrepreensível terno de verão azul-cinza. é que não sei de nenhum ofício em que a simples boa vontade seja prova de aptidão. Passe bem. Foi assim que ao reaparecer com sua deplorável cartola preta e seu anárquico e deplorável capote na claridade carmesim do crepúsculo. disse o desconhecido. Syme. não só na paisagem de uma nova terra. — Você quer e isso basta. ponderou Syme.. — Mas. solenemente eleito Quinta-feira do Conselho Central Anarquista. Guardou-o cuidadosamente no bolso do colete. em suma. Seguindo os conselhos do guarda seu amigo (que era profissionalmente inclinado ao asseio) aparou o cabelo e a barba. Já vimos para onde sua aventura o guiou finalmente. que parecia estar a par de tudo. Gabriel Syme vinha feito membro da nova corporação de detetives. — Também não sei se sou capaz.. não tenho experiência. visto que nenhum contorno se podia adivinhar naquela escuridão. Eu o estou condenando à morte. que o homem estava de costas para êle. disse o outro. C H E S T E R T O N E estranhamente. — Mas eu. a verdade. signo de sua autoridade oficial. êle se encontrava subindo o silencioso Tâmisa. procurou timidamente lutar contra esta sentença irrevogável. mas na paisagem . enfiou uma flor amarela na lapela e. armado de bengala de estoque e revólver.46 G.. Quando Syme tomou a lancha. converteu-se naquele sujeito elegante e quase intolerável que Gregory veio a conhecer no jardinzinho de Saffron Park. Mais ou menos à uma e meia da madrugada de um dia de fevereiro. — Ninguém tem nenhuma experiência da batalha do Armagedon. experimentou a esquisita sensação de estar vivendo num ambiente completamente novo. assombrado. seu amigo entregou-lhe um cartãozinho azul. comprou um chapéu novo. na verdade. O dos mártires. fundada para dar combate à grande conspiração. — É o novo recruta? repetiu o chefe invisível. disse o outro. Antes que êle deixasse os quartéis da polícia.. que a voz procedia de um homem de estatura descomunal e a segunda. Está bem. acendeu um cigarro e dali partiu para caçar e acometer o inimigo em todos os salões elegantes de Londres. K. Está admitido. trêmulo. Syme compreendeu duas coisas: a primeira. — Eu sei.

de alguns símbolos mais antigos e mais simples. como naquele crepúsculo que. A lancha era manejada por dois homens. mas a de um mortiço dia de sol. Contudo. opunha a esta ofuscante desolação na terra luarenta a sua cavalheiresca loucura. Mas a própria lua só é poética porque há o homem da lua. em grande parte. um pouco também. que chamejava na noite como uma imensa fogueira. Para o espírito exaltado de Syme. para se firmar. Dava. Assim. provoca o sol em eclipse. que (por paradoxo que deve ter sido notado inúmeras vezes) parecia um sol mais fraco. o conhaque e o revólver carregado — revestiam-se daquela poesia concreta e material que toca o menino que leva uma espingarda num passeio ou que vai para a cama com um pedaço de bolo. mu- . as mais desumanizadas fantasias modernas necessitam. Ao chegarem diante da portentosa frontaria de Westminster o dia começava a raiar. Raiava como enormes barras de chumbo que se racham deixando entrever barras de prata. e com muito esforço avançava com lentidão. O dragão sem São Jorge não seria sequer grotesco. Em verdade. aquela paisagem só era fantástica pela presença de um ente realmente humano. mas o aventureiro deve ser são. à completa mudança havida no tempo e no céu. Ê isso veio reafirmar em Syme a convicção de que se achava num outro planeta mais vazio. no dizer de Milton. Sobre toda a paisagem derramava-se um irreal e luminoso palor. que girava em volta de uma estrela mais triste. A bengala de estoque e a garrafa de conhaque. tornavam-se as expressões de um romance mais saudável. embora fossem os utensílios de mórbidos conspiradores. Syme via na bengala de estoque a espada do paladino e no conhaque o vinho do trago de despedida. as casas e os terraços reluzentes e frios das margens do Tâmisa pareciam tão ermos como as montanhas da lua. desde que entrara na lôbrega taberna duas horas antes. Mesmo as coisas comuns que trazia consigo — a comida. A lua estava tão redonda. Todos os sinais da apaixonada plumagem daquele anuviado crepúsculo haviam-se desvanecido. Agora a nudez da lua pairava na nudez do céu. à impensada porém firme resolução daquela noite e. tão cheia. e estas esplendiam como fogo alvacento quando a lancha. Isto se devia. A aventura pode ser louca. não a impressão de uma resplandecente noite de lua. A lua transparente que alumiara Chiswick desaparecera no momento em que eles passavam por Battersea.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 47 de um novo planeta.

CHESTERTON dando de rumo. Não tinham pronunciado uma única palavra. ia galgá-las para atacar os sólidos tronos de terríveis reis pagãos. K. imóvel. a impressão não era despropositada. Eram negras e descomunais na infinita alvura da aurora. derivou para os lados de uma ampla escada de desembarque localizada um pouco além de Charing Cross. Êle. . Pulou da lancha sobre um degrau escorregadio e ficou. Realmente. em espírito. rumando contra a corrente. Contemplando-as. As grandes pedras do aterro revelavam-se aos olhos de Syme escuras e gigantescas. forma escura e delgada no meio da fabulosa pedraria.48 G. um instante. Syme sentia-se como se fosse desembarcar nas colossais escadarias de um palácio egípcio. Os dois tripulantes se afastaram na lancha.

E.CAPITULO V A FESTA DO MEDO À primeira vista. pôde acercar-se o suficiente para notarlhe. nobre. Syme ia-se aproximando lentamente do desconhecido. vendo que não recebia nenhum sinal. Estava tão imóvel como um boneco de cera e. tinha fortes razões para convencer-se de que este homem era um dos comparsas de sua doida aventura. Syme insistia em encarar o rosto pálido. grave e delicado. Esta moita de pêlos parecia obra de mera negligência e destoava do rosto barbeado com esmero — rosto aberto. o rosto comprido. sob a luz desmaiada e fosca da manhã. mas. antes de atingir o topo. com uma flor vermelha na lapela. o instinto levou Syme a crer que tinha diante de si o homem com quem devia encontrar-se. Agora. debruçado no parapeito. Depois. O . o desconhecido não se mexeu. a seu modo. parecia não ter nervos. pálido e inteligente. como tal. contemplativo e. cuidou que se enganara. porém. Quanto à aparência. a ampla escadaria de pedra pareceu a Syme tão deserta quanto uma pirâmide. A princípio. Entretanto. Usava um chapéu alto de seda e envergava um sobretudo do tipo de moda mais formalista. rematado com um tufo triangular de barba negra na ponta do queixo. Galgando os degraus um a um. tirou do bolso o documento que Buttons lhe dera para comprovar a eleição. êle era totalmente convencional. Então. descobrira que um homem. Syme abeirou-se ainda mais. mas o rosto não se desprendia da contemplação do rio. como este nem ao menos pestanejava. Reparando em tudo isso. e exibiu-o aos olhos daquele rosto triste e belo. Êle se mantinha mais calmo do que seria de esperar de alguém submetido a tão indiscreta inspeção. que não condizia com o todo caprichosamente escanhoado. esquadrinhava o rio.

a fosca madrugada. disse.50 G. Pois não é que agora nos pavoneamos nas barbas do público? Tomamos o café da manhã numa varanda — numa varanda. tal como vocês. o desconhecido pôs-se a falar como quem conversa com velho colega. A bem dizer. Bem. Mas para Syme. êle é um homem sem igual na terra. Diz êle que se nós não parecemos estar escondidos ninguém pensará em perseguir-nos. em muitas pessoas. é bom saber desde já que êle está pondo em prática um novo plano de esconder-se. vai se tornando um pouco maluco. a sombria missão que lhe fora cometida e a solidão na majestosa pedraria orvalhada acabavam por tornar aquele sorriso enervante. Você dormiu? — Não. mas chego a pensar às vezes que seu cérebro imenso. os episódios vividos. O espasmo de sorriso foi momentâneo e o rosto logo readquiriu sua harmoniosa melancolia. Havia o rio silencioso e o homem silencioso. Fêz uma pausa e continuou: — Naturalmente o secretário de sua seção contou-lhe tudo que sabia. Vou ver se consigo dormir depois do café. mas a voz extremamente morta contradizia o fanatismo do rosto. Racionalmente falando. de feições clássicas. que repuxava a face direita para cima e a esquerda para baixo. Domingo insiste sempre conosco para que tomemos café bem cedinho. nós nos reuníamos numa cela subterrânea. o sorriso do homem precipitava o toque extremo de pesadelo. No começo. — Nem eu. todas as palavras afáveis eram para êle convenções defuntas e sua vida era o ódio mesmo. — Se formos diretamente a Leicester Square. Consiste precisamente em não nos escondermos de jeito nenhum. isso é até atraente. disse Syme. evidentemente. — E o que diz o povo? perguntou Syme. Muita gente tem o hábito nervoso de entortar o sorriso e. à medida que os anos passam. Depois Domingo ordenou que reservássemos um quarto num restaurante. caso você não saiba. Suas idéias vicejam como as florestas tropicais. De repente. continuou o outro familiarmente. . nada havia nisto de assombroso. chegaremos a tempo de tomar café. CHESTERTON homem sorriu e seu sorriso foi um choque: rasgava-se numa linha oblíqua. Sem dar nem pedir explicações. Assim. K. veja bem — que dá para Leicester Square. Fala com inopinada urbanidade. Mas uma coisa que ninguém nunca pôde saber é qual terá sido a última idéia do Presidente.

ser ouvidas no outro lado da praça. a folhagem ensolarada. E assim foram ter ao fim de uma rua estreita e depararam com Leicester Square banhada pela luz do sol matinal. respondeu-lhe o guia.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 51 — O que o povo diz é muito simples. A um canto da praça sobressaía o oitão de um hotel próspero mas sossegado. suficientemente espaçosa para conter uma mesa grande. tão perturbadora e discrepante como o sorriso torto. de todos os modos. mais propriamente. . esteve a ponto de jurar que entrara numa desconhecida Place disso ou daquilo de alguma cidade estrangeira. O largo espaçoso. uma mesa de café. De fato. disse Syme. — Tenho para mim que é um plano verdadeiramente astucioso. em torno da qual se abancavam. isto é. em pleno sol e visíveis a toda a rua. erguia-se uma varanda apoiada num formidável contraforte. com coletes brancos e lapelas floridas. você vir o Domingo. O fato é que êle tinha comprado. quando dobrou a esquina e avistou as árvores e as cúpulas mouriscas. muitos maus charutos em Leicester Square. Contudo. Naquela manhã este exotismo aparecia singularmente nítido. Quando. por uma fraçãozinha de segundo apenas. Suponho que nunca se saberá por que esta praça parece tão exótica e. cuja fachada dava para outra rua. homens barulhentos e palradores. — Astucioso! Diabo leve esse seu descaramento! Astucioso! bradou o outro. tinha invadido Syme no decurso de toda a aventura. Ao ver o grave Secretário exibir seu sorriso absurdo. Nunca se saberá se é o seu aspecto estrangeiro que seduz os estrangeiros ou se são os estrangeiros que lhe dão semelhante aspecto. de certa maneira. tão continental. Algumas de suas pilhérias podiam. Diz que somos um bando de senhores galhofeiros que se dão ares de anarquistas. Na parede via-se uma larga porta-janela que era provavelmente a entrada de um imenso restaurante. a estátua e os contornos sarracenos do Alhambra formavam uma réplica de uma praça pública francesa ou espanhola. todos vestidos na insolência da moda. ou. continha uma mesa de jantar. E isto vinha confirmar a sensação que. a sensação sobrenatural de ter-se extraviado num mundo novo. Na parte de fora dessa janela. desde os tempos de garoto. deixará de chamá-lo astucioso. praticamente suspensa sobre a praça. numa súbita voz aguda e estridente.

Os dois homens subiram a escada em silêncio. mas agora assemelhavam-se a cinco garotos entretidos durante o chá pelo homem gigantesco. Estão conversando e rindo a valer. e este senso das dimensões era tão desvairado que quando Syme olhava para aquele homem tinha a impressão de que os outros personagens subitamente minguavam e ananicavam-se. como continuasse a contemplá-los. Syme jamais pensara em perguntar se o homem monstruoso que quase abarrotava e desmoronava a varanda era o grande Presidente de quem os outros tinham medo. Assim que o viu. Sua vastidão não consistia somente no fato de que êle era excepcionalmente alto e inacreditavelmente gordo. elevava-se o dorso montanhoso de um homem descomunal.52 G. Lá estavam eles sentados como antes. o primeiro pensamento de Syme foi que o peso do homem podia ocasionar o desmoronamento da varanda de pedra. obstruindo boa parte da perspectiva. do mesmo modo que uma estátua é deliberadamente cinzelada como um colosso. Soube que era êle mesmo com inexplicável mas instantânea certeza. divertido com a singular frivolidade dos cavalheiros do andar superior. No ponto mais próximo da varanda. Vista de trás. Todo êle fora terrivelmente ampliado na escala. um criado veio atendê-los com um sorriso em que se lhe viam todos os dentes. Já por duas vezes naquela noite pequeninas coisas insignificantes haviam-lhe exacerbado o espírito. Syme era realmente um desses homens abertos às mais extravagantes influências psicológicas. a cabeça coroada de cabelos brancos parecia mais volumosa do que uma cabeça devia ser. — Os cavalheiros estão lá em cima. era exageradamente sensível ao cheiro dos danos espirituais. Quando Syme e o guia se aproximaram da porta lateral do hotel. Depois. K. E o criado afastou-se apressadamente com um guardanapo no braço. Totalmente livre do medo aos perigos físicos. As orelhas que se destacavam dela eram maiores do que as orelhas humanas. Syme viu uma coisa que não tinha visto antes. Dizem que vão lançar bombas no rei. com suas flores e sobrecasacas. num grau um pouco perigoso para a saúde mental. dando-lhe a sensação . Desde as proporções originais tal homem devera ter sido planejado como um gigante. Sem dúvida não a vira porque ela era excessivamente grande para ser vista. disse. CHESTERTON Syme compreendeu que esta turbulenta assembléia matutina era o conclave secreto dos Dinamiteiros Europeus.

por ser ela uma cara e por ser tão grande. Depois. No entanto. encaminhou-se para o assento vazio a um canto da mesa e sentou-se. não poderia conter um grito. pousou o olhar novamente em Domingo: o rosto dele era enorme. A verdade é que. mesmo assim. Acalmou-se um pouco ao reparar em seus casacos convencionais e no sólido e brilhante bule de café. num breve relance. o rosto se tornaria desmesurado e êle. não ousava olhar para a máscara de Memnon no Museu Britânico. vestidos com festiva respeitabilidade. Essa fisionomia não provocava o mesmo terrível efeito que a do Presidente. no momento em que Syme entrou. nada chamava a atenção. o Presidente. e não podia forçar-se a representar o próspero e frívolo papel que dele exigia o Presidente Domingo. que quase encobriam uns olhos de Skye terrier. Trajava o uniforme da ocasião: alto colarinho branco e gravata de cetim. Com efeito. Recordou que. Era polonês e. com intratável mata de cabelos e barba castanhos. Os presentes saudaram-no com uma chacota jovial. recebera o nome de Terçafeira. Possuía alma e verbo incuràvelmente trágicos. pareceu-lhe que o rosto imenso de Domingo se dilatava. era concebível num ente humano. O homem parece que se chamava Gogol. exceto o fato de se acharem todos. E esta sensação se tornava opressiva à medida que êle se aproximava do grande Presidente. os olhos varavam o emaranhado e se mostravam como os olhos tristes do servo russo. Se da gravata e do colarinho rijo pulasse inesperadamente a cabeça de um gato ou de um cão não causaria um contraste mais absurdo. Com um esforço mais heróico do que o de saltar sobre um rochedo. Mas desse colarinho surgia uma cabeça indomável e inconfundível. quando estivesse muito próximo.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 53 de que se achava a poucos passos dos quartéis-generais do inferno. e Syme se deixou dominar pelo temor 3e que. como se o conhecessem desde muito tempo. então. Na presença do Presidente a confraria inteira parecia mais do que insípida. só um homem se distinguia. À primeira vista. Ela o esmagava sob a forma de uma pueril mas odiosa fantasia. por um capricho do Presidente. Devia ser o dinamiteiro típico. neste círculo de dias da semana. quando era menino. mas possuía todo o sortilégio que pode provir do grotesco absoluto. com aquela atrevida des- . o que dava à refeição um aspecto de banquete nupcial. Ao atravessar uma sala interior para chegar à varanda.

antes. pode atrair a atenção. bem. que era sua política. respondeu contrariado Gogol. E é isso o que faz o Irmão Gogol..54 G. enrubéscendo. Enquanto a conversação prosseguia neste tom. Syme passou a examinar mais acuradamente os homens que o rodeavam. Pensara. pouco a pouco. dizia o Presidente numa voz profunda mas cheia de quietude e volume. veja bem. meu velho... convenhamos. Você se esconde como os outros. que todos ali tinham a estatura da média das pessoas e vestiam os trajes comuns. Contudo. Quando você foi encontrado debaixo da cama do Almirante Biffin. — Mas você está. ao observar os demais. — Meu forte não é andar esgondido. e a causa também está envergonhada de você. se um cavalheiro de cartola e sobrecasaca passeia em Londres ninguém vai pensar que êle é um anarquista. estava caçoando da inabilidade de Gogol para adotar modos convencionais. foi outra vez dominado por aquele sentimento de algo espiritualmente raro. começou a ver em cada um deles exatamente aquilo que vira no homem à margem do rio: um pormenor demoníaco. com pesado sotaque estrangeiro.. Está sim. Você não é forte em coisa nenhuma. Não estou envergonhado da gausa. não sabe fazê-lo porque é um asno consumado! Você procura combinar dois métodos incompatíveis. exato! exclamou o Presidente com grave cordialidade. Aquele . — Nosso amigo Terça-feira. — Também não sou forte em trapazas. mas desconfio que é uma alma grande demais para comportar-se como tal. que êle jamais esquecerá esse fato. meu caro. Ora. Veste-se como um cavalheiro. C H E S T E R T O N consideração pela suspeita pública. mas. com a evidente exceção do cabeludo Gogol. meu caro Terça-feira. Insiste nos métodos do conspirador teatral. Sai a passear de quatro pés com tão inesgotável diplomacia que agora está se vendo em grande dificuldade para caminhar ereto. Mas se um cavalheiro bota cartola e sobrecasaca e depois sai a passear de quatro pés. Quando um chefe de família dá com um homem debaixo da cama é provável que se detenha para averiguar o caso. — Exato. continuou o Presidente bonacheirão. Mas se êle descobre debaixo da cama um homem de cartola. K. nosso amigo Terça-feira parece não entender bem a idéia. E. disse lügubremente Terça-feira.

Seu rosto formoso era tão macilento que Syme julgou-o consumido por alguma doença. Era Secretário do Conselho e nada. O cicerone de Syme recebera o título de Segunda-feira. desfigurava o belo semblante do homem que lhe servira de guia. percebeu que o homem levava consigo uma rica atmosfera — rica e sufocante — que lembrava. um certo Marquês de St. um homem mais obviamente louco. sua boca vermelho-escuro mostrava-se insolente e sensual. podia ser um judeu. Seus olhos ardiam em tortura intelectual. O que quer que êle fosse não era um francês. Usava uma barba negra quadrada. como se fosse composto de côr mais profunda. à inglesa. Mas agora que Syme dispunha de mais espaço e luz para observá-lo. personagem suficientemente característico. na caliginosa espessura da barba. só percebida talvez na décima ou vigésima olhadela. Junto dele sentava-se Terça-feira. Não era enfermidade física que o afligia. a própria ansiedade dos olhos escuros desmentia esta suposição. sensível a essas coisas. A uma rápida inspeção. onde todos partilhavam de alguma aberração sutil e distinta. Cada um carregava com alguma coisa. acrescido de uma distorção conseguida num espelho curvo imperfeito. salvo o fato de ser o único conviva que vestia as roupas elegantes como se elas realmente lhe pertencessem. Somente os exemplos individuais darão a conhecer esta semi-oculta excentricidade. êle nada revelava de insólito. espalhava maior temor do que seu sorriso oblíquo. A isso calhava o seu modo de vestir-se. que todos eles tinham o aspecto de pessoas elegantes e sociáveis. que. mas de tecidos mais leves. como se o pensamento mesmo fosse dor. e que sua barba negra só era negra por ser azul intenso. podia ser . os narcotizantes odores e as lâmpadas mortiças dos mais sombrios poemas de Byron e Poe. Eustache. exceto o riso assustador e feliz do Presidente. Êle era o paradigma da tribo. era típico de todos esses tipos. que não era normal e que era difícil de ser humanamente concebida. desarrazoadamerite. para si mesmo. o cabeludo Gogol.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 55 sorriso torto. Mas Syme. Dir-se-ia que seu casaco negro só era negro por ser púrpura muito viva. seu negro parecia mais opulento e mais cálido que as sombras negras que o cercavam. e uma sobrecasaca negra ainda mais quadrada. atentava noutras peculiaridades. Syme dizia. Em seguida estava Quarta-feira. de certo modo. de um momento para outro. não de cores mais suaves. E. à francesa. mas.

não estariam mal empregados. Na extremidade da mesa achava-se o homem chamado Sábado. Denunciava não apenas decrepitude. o Professor de Worms. que ocupava o posto de Sexta-feira. CHESTERTON algo ainda mais impenetrável no obscuro coração do Oriente. essas azuladas barbas negras. que reproduzem os déspotas em caçadas. o lustre nupcial do traje exprimia um contraste mais doloroso. recordava-lhe sinistras histórias meio esquecidas. histórias de moedas que se colocavam nos olhos dos mortos. nem mesmo no de Gogol. O efeito era repugnante.56 G. Depois vinha Syme e a seu lado um ancião. o que fazia depois de muito esforço e risco. Usava as roupas festivas antes com arrogância do que com tranqüilidade e trazia um sorriso estampado na cara. por falecimento do ocupante. vêem-se esses olhos amendoados. uma perna ou um braço daquele homem podia soltar-se do corpo. Seu rosto era tão cinzento como sua comprida barba cinzenta e sua testa alteava-se até fixar-se numa ruga de moderado desespero. Mas nos olhos do homem mais moço e mais corpulento eles nada mais eram que . atarracado. cuja vacância. dizia-se médico e Buli era seu nome. mas para Syme aqueles discos negros eram terrificantes. insinuando que. Usados pelo moribundo Professor ou mesmo pelo pálido Secretário. denunciava algo pior do que simples fraqueza. Quando se erguia ou se sentava. Em nenhum outro caso. K. como se uns bêbedos almofadinhas tivessem com suas roupas vestido um cadáver. Por isso o olhar de Syme não se apartava dos vidros negros nem do esgar cego. algo indefinivelmente aliado ao horror de toda a cena. quadrada e barbeada. No deslumbrante colorido dos mosaicos e quadros persas. o que é mais ou menos encontradiço nos jovens médicos. A flor vermelha na lapela ressaltava diante de um rosto inteiramente descolorido como chumbo. Não se lhe descobria outra singularidade além dum par de óculos escuros. cara escura. ao menor movimento. era aguardada de uma hora para outra. A inteligência era a única coisa que se salvava desse estágio final de decadência senil. Surpreendia-se nele aquela combinação de savoir-faire com uma espécie de solícita rudeza. Outra odiosa fantasia cruzou a mente vibrátil de Syme. justamente o mais simples e enganoso de todos. Baixo. esses lábios carmesins e cruéis. quase opacos. mas corrupção. Podia ter sido apenas um crescendo de fantasia nervosa.

E chegou até a admitir que os olhos de Buli tinham sido encobertos porque eram medonhos de ver. . Não se podia dizer o que significavam seu sorriso e sua gravidade. Roubavam a chave do rosto. na qual os outros eram deficientes. Um pouco por isto e um pouco por ser êle*dono de grosseira virilidade. Syme presumiu que o médico era o mais perverso de todos aqueles homens perversos.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 57 um enigma.

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Sob todos os aspectos. como numa velha fábula. violentos e enigmáticos. o que se verificava entre o tom fluente e despreocupado da palestra e seu terrível conteúdo. talvez. aqueles sujeitos pareciam colocar-se nos últimos limites das coisas. . uma árvore possuída por um espírito. Na presença deles Syme esforçava-se continuamente para manter o senso comum. até ao fim do mundo. Dali a apenas três dias. que se um homem caminhasse em direção ao ocidente. assim como as teorias por eles sustentadas se colocavam nos últimos limites do pensamento. por assim dizer. As extremidades da terra se tocavam. Mas logo avassalava-o novamente o sentimento de um simbolismo sobrenatural. o ponto final de alguma abstrusa via do raciocínio. Assim. sobre um último horizonte. encontraria alguma outra coisa que não era rigorosamente igual a si mesma — uma torre. Não podia deixar de imaginar. Compreendia que cada um deles atingira. outro nervoso. naquela desooncertante matinada. outro míope. Entregavam-se à discussão de uma conspirata real e muito próxima. que se achava diante de homens normais. até o fim do mundo. Às vezes. digamos — que era mais ou menos igual a uma árvore. via que suas suposições eram subjetivas. dos quais um era velho. esses homens pareciam elevar-se. e que se êle caminhasse em direção ao oriente. A conversa não foi perturbada com a entrada de Syme. encontraria alguma coisa — uma árvore.CAPITULO VI A DESCOBERTA Tais eram os seis homens que haviam jurado destruir o mundo. como se fossem visões da fronteira. cuja simples forma era adulterada. e não era o menor dos contrastes. Lá em baixo o criado dera uma informação exatíssima ao dizer que eles estavam falando de bombas e de reis.

sentia-se como se fosse feito de vidro. Mas uma coisa havia. mais ativo e pungente do que a repulsa moral ou a responsabilidade social.60 G. com os rostos chegados e quase uniformemente graves. Reconhecia. exceto quando por um instante o sorriso se rasgava oblíquo na cara do Secretário. que Domingo. Alongando o olhar do parapeito da varanda. Usualmente. que o fitava fixamente com desmedido mas ambíguo interesse. tão persistente. enquanto comiam toucinho com ovos na varanda soalheira. e aqui. como o denticulado relâmpago se rasga oblíquo no firmamento. que principiou por perturbar Syme e terminou por aterrá-lo. Era o Presidente. tinha descoberto que êle era espião. quase esquecera a frágil e excêntrica pessoa do poeta Gregory. Quando tinha sobre si os olhos do Presidente. como se tivessem brincado juntos na infância. Muito simplesmente não se amedrontava com o que pudesse suceder ao Presidente francês ou ao Czar. Foi então que o assaltou a grande tentação que havia de atormentá-lo por muitos dias. CHESTERTON o Czar ia encontrar-se em Paris com o Presidente da República da França. Chegava a pensar nele agora com velha simpatia. aqueles homens pouca atenção lhe davam e discutiam entre si. e coubera ao barbinegro Marquês ser o portador da bomba. viu lá em baixo um polícia a contemplar distraído os luzentes gradis e as árvores cheias de sol. que eram os príncipes da anarquia. Mas lembrou-se de que estava ainda vinculado a Gregory por um solene compromisso. Êle não teria pensado em outra coisa que na necessidade de ir em socorro de dois corpos humanos ameaçados de despedaçamento pela ação do ferro e do gás rugiente. esses jubilosos senhores haviam decidido como dar cabo dos dois potentados. Diante desses homens poderosos e repulsivos. K. sossegada e misteriosamente. O agigantado homem estava muito quieto. Mas a verdade era que agora começava a dominá-lo um terceiro tipo de medo. Prometera não fazer jamais aquela coisa . Bastante loquazes. sem a menor sombra de dúvida. porém seus olhos azuis saíam fora das órbitas e enfiavam-se em Syme. simples esteta do anarquismo. a imediação de um crime positivo e objetivo como esse bastaria para despertar e curar Syme de todas as suas inquietações puramente místicas. Até o instrumento já fora escolhido. Syme estava na iminência de pôr-se em pé e saltar da varanda. começava a amedrontar-se com o que podia suceder a êle próprio.

no meio de corsários armados. da ordem comum. Todas as vezes que dirigia a vista para a praça.. E se tal criatura é concebível. Se chamasse prontamente a polícia e ela os prendesse. feito a uma súcia de velhacos. sem dúvida era Domingo quem melhor a corporificava. Se desafiasse aquele homem era provável que não sobrevivesse: ou morreria ali mesmo na cadeira em que estava sentado ou algum tempo depois. Muitos modernistas. caso êle persistisse na idéia de enfrentá-los sozinho.. cuja inteligência era uma câmara de tortura. Prometera não transpor de um salto aquela varanda para ir falar com o polícia. Syme não se sentia mais seguro do que se estivesse num barco. porém. lá achava o tranqüilo polícia. calejados numa impotente adoração da inteligência e da força. não se sabe como nem onde. contemplando um mar deserto. o projeto podia parecer impossível. podiam ter afrouxado sua lealdade. no meio de cavalheiros aparentemente ocupados em contemplar uma praça cheia de sol e de gente. O segundo pensamento que nunca lhe ocorreu foi o de ser espiritualmente conquistado pelo inimigo. era impossível. Retirou a mão fria do frio parapeito de pedra. para que sua vida pudesse ser tão aberta e banhada de sol como a praça fronteira. que nunca lhe passaram pela cabeça.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 61 que estava a ponto de fazer agora. Em toda a torrente de seus pensamentos. triturado pelo poderio desse soberbo inimigo do gênero humano. sob a tirania de uma personalidade vigorosa. seu alçapão de ferro. tinha somente que preservar sua antiquada honradez para ser. como ao fim de uma doença inocente. um monumento do senso comum. com seu alheamento . Mas naquela varanda. Com veneno anônimo ou com acidente de rua. De outro lado. palmo a palmo. Primeiro: nunca lhe ocorreu duvidar de que o Presidente e o resto do Conselho pudessem esmagá-lo. Todas as vezes que se voltava para a mesa do café topava o Presidente estudando-o plàcidamente com seus olhos enormes e intoleráveis. De um lado. dois houve. De outro modo. provavelmente escaparia. Podiam ter chamado Domingo super-homem. Mas Domingo não era um homem que se arriscasse assim comodamente sem ter antes deixado aberto. O lugar podia ser público. com hipnotismo ou com o fogo do inferno. não tinha mais que partir o fio de um voto imprudente. Sua alma oscilou ao sabor de uma vertigem de indecisão moral. Domingo podia certamente eliminá-lo. se contasse tudo e mobilizasse contra eles toda a força da Inglaterra.

Dr. Ainda aqui o Presidente exercia seu curioso e maciço predomínio. despreocupadamente e com naturalidade. Expande-se. de estátua ambulante. . falava fervorosamente do projetado assassínio. CHESTERTON sísmico. provavam das melhores iguarias da mesa: faisão frio e pastel de Estrasburgo. com assombrosa voracidade. continuava com a imensa cabeça inclinada e os olhos fixos em Syme. Para nós é um símbolo tão perfeito como o incenso para as orações dos cristãos. Comia por vinte homens. disse o Marquês dando uma boa mordida numa fatia de pão com geléia. se não seria melhor para mim fazer uço do punhal. era vegetariano e. Podia merecer qualquer nome sobre-humano. mas não era tão covarde que a admirasse. Muitas vezes me ponho a pensar. ainda que arrebente todo o universo.modo que era o mesmo que pôr-se a gente a contemplar o trabalho de uma fábrica de salsicha. E seria uma nova emoção enfiar um punhal num Presidente da França e depois revolvê-lo por dentro. entre meio tomate cru e três quartos de um copo de água morna. Entretanto. Assim também é o pensamento: só destrói porque se expande. porém. Buli e o Marquês. depois de devorar uma dúzia de bolos e sorver meia canada de café. e até nisso eles eram típicos. e por sua caraça.62 G. A dinamite não é apenas nosso melhor instrumento. Mas essa era uma espécie de baixeza moderna com que Syme não podia pactuar. Os homens comiam e conversavam. é o nosso melhor símbolo. só destrói porque se expande. Muitas coisas formidáveis têm sido feitas com êle. que era demasiadamente franca para ser decifrada. O punhal era simplesmente a expressão da velha pendência pessoal com um tirano pessoal. O Secretário. Precisa explodir! Precisa explodir! O cérebro do homem deve explodir. comia incrivelmente. Meu cérebro sente-se como uma bomba. por sua corpulência. O velho Professor consumia as papas adequadas à sua asquerosa segunda infância. O cérebro do homem é uma bomba. K. êle era bastante covarde para temer a brutalidade. de. bradou abandonando-se subitamente à sua estranha paixão e golpeando o crânio com violência. que era demasiadamente óbvia para ser descoberta. noite e dia. mesmo em extrema depressão. Como qualquer um. — Você se engana. respondeu o Secretário franzindo as negras sobrancelhas.

atalhou Dr. apesar de luminosa. A questão está em saber como Quarta-feira há de dar o golpe. do píncaro estelar do lugar-comum.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 63 — Não me agradaria que o universo arrebentasse justamente agora. passemos para dentro. não vale a pena fazê-la. Via-se como embaixador de todo esse povo humilde e bom das ruas. E esta exaltada ufania de ser humano elevava-o inexplicavelmente a uma altitude incomensurável. Já que o fim único de todas as coisas é o nada. não pensava em si mesmo como representante da corporação de cavalheiros que. Podia ouvir o policial ociosamente agitar-se e bater com os pés na calçada. Houve um silêncio singular. Sentiu-se dono de uma coragem sobrenatural. O Presidente Domingo se erguera e parecia tapar o céu que os cobria. da vulgaridade e da intrepidez dos pobres. que se distraía a olhar o teto. Syme se entesou como se estivesse ouvindo um toque de cometa antes da batalha. em todas aquelas ruas imundas. a pistola apontava para sua cabeça. . Buli com seu esfíngico sorriso. por capricho. olhou sobrarfceiro. O velho Professor. . Quanto aos outros preparativos. eu sugeriria que amanhã de manhã êle fosse antes de tudo a . A frase foi cortada pelo súbito aparecimento de uma sombra vastíssima. — Antes de discutirmos qualquer desses pontos. Aquela melodia vibrante parecia-lhe cheia da vivacidade. que êle não sabia de onde vinha. Por um instante. que. Tenho a dizer-lhes uma coisa muito particular. era fria. disse numa voz calma e quieta. Acho que todos estamos de acordo na idéia original da bomba. A traves sura juvenil de entrar na polícia tinha desaparecido de sua mente. Syme levantou-se antes dos outros. Depois o Secretário falou: — Mas nós nos afastamos do assunto. nem no velho excêntrico que habitava o quarto escuro. — Não importa. Ontem na cama pensei numa. que diariamente marchava para a batalha ao som do realejo. disse: — No íntimo toda a gente sabe que não vale a pena fazer coisa nenhuma. ao menos. O instante decisivo tinha enfim chegado. se apegavam aos pudores e às esmolas da cristandade. frisou o Marquês. infinitamente acima dos sujeitos monstruosos que o cercavam. Na rua um realejo iniciou de repente uma toada jovial. Pretendo cometer uma porção de barbaridades antes de morrer. Em pé. . pois a manhã. se fizeram milicianos.

O Presidente levou-os por uma sinuosa escada lateral (que devia ser utilizada pelos criados) e introduziu-os num quarto escuro. mas nesse momento isso não lhe interessava mais do que o fato de não possuir os músculos do tigre ou um chifre no nariz como o rinoceronte. frio e desabitado. O primeiro a falar foi Gogol. Dizem que se deixam ver. ao qual a mesa e os bancos imprimiam um aspecto de refeitório abandonado. Os conspiradores. no antigo francês nasalado. Vozes dizem que não se esgondem. Liberto o espírito da carga de fraqueza que o oprimia. em fila. e sob os clarins que entoam a altivez da vida Syme ouvia os profundos rufos cadenciados dos tambores que compassam a altivez da morte. exteriormente calmo. CHESTERTON para todas aquelas cambaleantes excentricidades. o irreconciliável. O realejo parecia tocar uma marcha com a energia e a multiplicidade de sons de uma orquestra. Se a gente simples do realejo podia desempenhar seus milenários deveres. mas seu cérebro e seu corpo latejavam num ritmo apaixonado. K. Seu último triunfo sobre aqueles lunáticos resumia-se em acompanhá-los ao quarto escuro e morrer por alguma coisa que eles não podiam sequer entender. tornando o pesado sotaque polonês quase impenetrável. — Zim! Zim! grunhiu com obscura excitação. que parecia estourar de furores inarticulados. em último lugar. também êle poderia-desempenhar os seus. Depois que estavam todos lá dentro o Presidente fechou a porta a chave. adotou a firme decisão de enfrentar a morte. Diante deles sentia toda a inconsciente e elementar superioridade que sente o bravo diante de feras poderosas ou o sábio diante de erros poderosos. Syme seguia-os. O próprio orgulho de cumprir a palavra consistia em ter de cumpri-la para os ímpios. traduz o tumulto e o fragor das armas em choque. Tudo foi tragado pela convicção inabalável de que o Presidente estava errado e o realejo estava certo. começavam a passar para os cômodos internos. Quando têm um azunto importante correm a discuti-lo numa caixa esgura. . É jalzo. Ressoou em sua cabeça aquele incontestável e terrível truísmo da canção de Rolando: Pcüens ont tort et Chrétiens oni droit.64 G. Sabia que não tinha a força intelectual nem a força física do Presidente Domingo. que.

O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 65 O Presidente dava a impressão de aceitar a crítica incoerente do estrangeiro com total benevolência. pondo-se em pé com rapidez. a qualquer preço. — Você. Mato zeus oprezores! Mas não gosto dessas bringadeiras de esgonder. Correto! Agora quero pedir-lhe que modere seus inestimáveis sentimentos e que tome seu lugar à mesa junto aos outros. Pela primeira vez nesta manhã uma coisa aproveitável vai ser dita. Primeiro você morre pela humanidade. antes de mais nada. todos contemplavam o Presidente. ninguém parecia ter a mínima idéia do golpe que estava prestes a ser dado. Com a inquieta diligência que vinha mostrando desde as primeiras ordens. Até aí. disse em tom paternal. sim. Com exceção de Syme. . — Nem mais uma palavra sobre planos e lugares! Nem um ínfimo pormenor sobre o que vamos fazer deve ser comentado nesta reunião. Syme foi o primeiro a sentar-se. um bom discurso. que até os criados lá de cima (acostumados a nossas inconseqüências) poderiam descobrir uma esquisita seriedade em minha voz. Buli. resmungando dentro das barbas castanhas sobre gombr omissos. — Ah. Ouvindo-nos dizer bobagens naquela varanda ninguém procurará saber para onde vamos depois. embora não fossem proferidas em voz alta. Camaradas. sentia-se como um homem que sobe a um cadafalso com a intenção de fazer. estivemos discutindo planos e citando lugares. Dr. ainda não pode compreender. começou o Presidente. — Camaradas. Já fomos longe demais com esta farsa. Quero matar o tirano na praza públiga. percebo! disse o Presidente aprovando bondosamente. . porque as palavras que se seguiram. Proponho. que esses planos e lugares não sejam aprovados nesta sessão e que fiquem inteiramente sob a direção de um membro digno de confiança. Gogol sentou-se por último. mas depois estremeceram em seus assentos. Se tivéssemos vindo primeiro para cá teríamos toda a criadagem no buraco da fechadura. depois ressurge e mata os que a oprimem. possuíam vivida e sensacional ênfase. enquanto se sentava à cabeceira da longa mesa.. — Morro por ela! exclamou o polonês numa agitação estúpida. Domingo deu um murro na mesa. Reuni-os aqui para dizer-lhes uma coisa tão simples mas tão surpreendente. Gogol. Você parece não conhecer a humanidade. Quanto a êle. Sugiro o camarada Sábado.

CHESTERTON Domingo passara a vida atordoando os sequazes. mas parecia que êle nunca os tinha realmente atordoado senão agora. disse o Presidente. Há um traidor nesta mesa. Não importa que os estranhos nos ouçam. Domingo continuou polidamente: — Sem dúvida vocês compreenderão que só um motivo pode proibir a livre manifestação do pensamento neste festival da liberdade. — Sim. numa apatia de intenso alívio. Enfim ia saber se o Presidente era mortal. com o dedo firme no gatilho. com a mão no bolso empunhando o revólver carregado. Eles pensam que estamos pilheriando. . — Não pode ser! exclamou erguendo-se num pulo. que está a par dos nossos graves desígnios. como uma mulher. enorme e gorda como a barbatana de um peixe colossal. . disse vagarosamente.66 G. mas que não os compartilha. Mas Syme pouco assistiu da cena. Seu nome é . há um espião neste quarto. .. K. Gogol deu um pulo do banco. que. — Seu nome é Gogol. Não vou gastar mais palavras. É esse cabeludo impostor que passa por polonês. e afundou trêmulo no banco. Não é possível! O Presidente bateu na mesa com a palma da mão. Syme começou a levantar-se. segurando um revólver em cada mão. que estava duro no seu canto. Todos agitaram-se febrilmente. cegado por benéfica escuridão. Mas o que tem importância capital é que entre nós existe alguém que não é dos nossos.. Até o Professor fêz um esforço para se pôr em pé. O Secretário interrompeu-o com um grito agudo. Quando viesse o ataque venderia muito cara a vida. Com a mesma presteza voaram-lhe três homens ao pescoço. exceto Syme.

quer fazer-me o favor de colocar a mão no bolso superior do colete e mostrar-me o que traz dentro dele? O suposto Gogol. trágico filho da Polônia. dois dedos dentro do bolso e de lá retirou um cartão azul. continuou o Presidente. vamos dizer. de trop? — Oh. Era irracional. diante desse cartão. meu prezado senhor. disse com energia o Presidente. como se um chinês subitamente entrasse a falar com sotaque escocês. — Bem. e este equívoco personagem voltou a seu lugar. de modo algum! exclamou o ex-Gogol. Syme despertou de novo para o mundo exterior e. observou Domingo. — Concluo que você não desconhece a posição em que está. está preparado para negar. dirigindo-se a Gogol como alguém se dirige a um desconhecido. notou a alarmante semelhança com o cartão azul que trazia no bolso e que tinha recebido quando se alistou na milícia antianarquista. meteu. Ao ver o cartão. — Patético eslavo. que nesta sociedade você é. Todo mundo se sobressaltou ao ouvir uma voz clara. uma voz que obrigava os homens a depor as espadas desembainhadas. comercial e algo familiar surgir daquela floresta de cabelos estrangeiros. com aparente frieza. Os três que se tinham levantado afastaram-se de Gogol. embora nada pudesse ler da inscrição. um tanto pálido sob o emaranhado de cabelos negros. . pois o cartão estava na outra extremidade da mesa.CAPITULO VII A INEXPLICÁVEL CONDUTA DO PROFESSOR DE WORMS — Sentem-se! ordenou Domingo com uma voz só empregada em ocasiões excepcionais.

Entretanto. que. Vou andando. Por isso. — Concordo. O detetive de cabelos vermelhos que personificara Gogol ergueu-se sem proferir uma palavra e saiu do quarto com um ar de total indiferença. como tudo. Tudo quanto tenho a dizer é que não creio que um polonês pudesse imitar meu sotaque como eu imitei o dele. Fazia muito calor. respondeu Gogol. — Não seria melhor. Vou ocupar a presidência de uma reunião humanitarista. Eu gosto de você. retrucou o Presidente no meio de um bocejo que era um discreto terremoto. Um leve tropeço do lado de fora da porta indicou que o despedido detetive não pensara na escada. parecia maior do que devia ser. É claro . contra esta irregularidade. K. disse o polonês. C H E S T E R T O N — Acertou. Preste atenção: se você algum dia contar à polícia ou a quem quer que seja as nossas atividades. E vejo que é um bocado incômoda. acho que não. eu terei esses dois e meio minutos de desconforto. — O tempo voa. e com um dedo arrancou toda a hirsuta cabeleira. alvitrou um tanto severamente. Sábado que cuide de tudo. Todavia. O Secretário voltou-se para êle com semblante carrancudo. a turbulência das últimas cenas havia lacerado os nervos quase nus do Secretário. — Cumpre-me protestar. No próximo domingo. Preciso ir embora imediatamente. quanto lhe pertencia. — Farei a justiça de confessar. disse expansivamente o Presidente depois de lançar um olhar para seu relógio. Deixemo-lo como está. Passe bem. o aturdido Syme pôde verificar que essa tranqüilidade fora adquirida de chôfre. disse Domingo não sem uma espécie de brutal admiração. discutir os pormenores do plano agora que o espião nos deixou? — Não. à hora do café. Agora escute aqui. Vê algum inconveniente em deixar aqui a barba e o cartão? — Nenhum. Êle era um desses homens que são conscienciosos até no crime. que você parece ter-se conservado inteiramente frio aí debaixo. Eu mesmo tentei praticá-lo no banho.68 G. acrescentou. Presidente. ficaria desgostoso por uns dois minutos e meio se viesse a saber que você morreu de suplícios. Do seu desconforto não quero falar. expondo uns fios vermelhos e ralos e um rosto pálido e petulante. aqui. Cuidado com a escada. Admito que seu sotaque é inimitável. Temos como princípio fundamental de nossa sociedade a discussão de todos os projetos em plenário.

na lancha talvez ou na varanda. Syme permaneceu muito tempo sentado. entrando em Leicester Square. Nunca chega a compreender nada. Os outros levantaram-se resmungando e correram dali à procura de almoço. mas bem que pode prestar. disse o Presidente balançando a cabeça várias vezes. Ergueu-se por fim e abandonou o hotel. o que bastou para gelar-lhe os ossos. Elas significavam que. começou profundamente ofendido. mas ainda estava embaixo de üma nuvem. tomado de fúria eqüina. Não dou certeza. é isso. não é assim? Como sabe que não está sendo ouvido agora? E com estas palavras abalou do quarto. cuja vitrina exibia unicamente uma melancólica dama de cera vestida com traje de cerimônia. Ora.. você não queria ser ouvido por um espião. mas esquecera o capote nalguma parte.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 69 que aplaudo irrestritamente as suas precauções na presença real de um traidor. Confiado em que a nevada era passageira. — Secretário. Quatro dos homens ficaram boquiabertos. Porque a visão da dama de cera concorresse para deprimir seu espírito. Syme dirigiu o olhar para a rua branca e deserta. E não foi pequeno seu . entretanto. — É isso. Trazia consigo a bengala de estoque e o resto da bagagem portátil de Gregory. A neve. O Secretário recuou. dando de ombros com indecifrável desdém. bramiu pondo-se de pé. recrudescia. Se as últimas palavras do Presidente tinham alguma significação era mais do que claro que êle. conquanto Domingo não pudesse denunciá-lo como fêz com Gogol. Quando Syme chegou na rua foi surpreendido por alguns flocos de neve. retrocedeu um pouco e abrigou-se no limiar de uma pequena e nauseante loja de cabeleireiros. Depois que todos se foram.. Por último. não podia também confiar nele como confiava nos demais. refletindo em sua esquisita situação. redargüíu rudemente o Presidente. saiu o Professor.. se você botar a cabeça para ferver com um nabo ela pode prestar para alguma coisa. pois já passava de meio-dia. afinal não estava isento de suspeita. lenta e miseravelmente. É aí que você fracassa redondamente. Syme. Escapara do raio. — Realmente não chego a compreender.. Somente Syme teve tal noção. sem qualquer noção aparente dos propósitos de Domingo. asnática criatura. O dia luminoso e frio tinha-se tornado muito mais frio.

Recordou que. de toda aquela envenenada atmosfera. E teve um arrepio ao pensar na dura realidade. Pois Syme desejava ardentemente libertar-se. traçar sua política e decidir finalmente se devia ou não devia manter a promessa feita a Gregory. Estava livre na livre Londres. as fisionomias de homens normais e palradores levavam-no a quase imaginar que o Conselho dos Sete Dias não passara de um pesadelo. Só assim. percorreu outras duas ou três e entrou num modesto restaurante de Soho para almoçar. o ambiente conhecido. sempre imerso em suas meditações. . Admitia que a doença do homem (qualquer que ela fosse) se manifestava em acessos momentâneos de rigidez ou arrebatamento. enveredou por duas ou três ruas. Serviu-se de uns quatro pratos leves. Não se inclinava. remota. ao menos por uma hora. O chapéu do estranho estava empapado de neve como o chapéu do Papai Noel. folgava com os espasmos e os passos tardos e coxeantes do Professor. a embasbacar para uma loja como aquela era motivo de grande espanto para Syme. Mas o arrepio veio misturado à deliciosa emoção da fuga. CHESTERTON assombro ao deparar com um homem imóvel defronte da loja. poderia concatenar os pensamentos. era. Altos edifícios e ruas populosas punham-se entre êle e sua última visão dos sete renegados. Abriu caminho por entre o bailado da neve. O vinho. mas esse espanto gratuito mudou-se de imediato em comoção pessoal. o alimento habitual.70 G. O local é que não parecia adequado a pessoa idosa e enferma. tomara esses inofensivos e amáveis estrangeiros por anarquistas. mas não podia crer que o Professor se enamorara justamente daquele manequim. os quais lhe permitiriam fugir e deixá-lo a milhas de distância. e os alvos flocos cobriam-lhe as botas e os tornozelos. Escolhera uma mesa no primeiro andar repleto do tinido de talheres e do vozeio dos estrangeiros. em outros tempos. porém. ao menos. Syme estava pronto a crer que todas as perversões tinham curso na degenerada confraria. em tal ocasião. parecia que nada haveria de arrancá-lo à contemplação do enfermiço manequim de traje cerimonioso e sórdido. ao constatar que o estranho não era outro senão o paralítico ancião Professor de Worms. Contudo. Que um ser humano se pusesse. de olhos fitos na vitrina. Ao contrário. a sentir a menor compaixão. K. bebeu meia garrafa de vinho tinto e finalizou a refeição com café e charuto. E embora o Conselho fosse a toda prova uma realidade objetiva.

meio enlouquecido com aquela contradição na mais . diante de um copo de leite. Não estarei fantasiando? Êle estava me seguindo mesmo? Acho que Domingo não seria tão tolo que mandasse um coxo perseguir-me! Pôs-se a caminho com passos rápidos. claudicante. cegando e desnorteando. estava tão boquiaberto como um matuto diante de um passe de mágica. atingia a entrada de Fleet Street. Invadindo-lhe os olhos e a barba. fechando-a com violência atrás de si. não ouvira barulho de rodas na rua. Quando entrou no salão parou bruscamente e fincou-se no lugar. Como justificativa pediu uma xícara de café forte. que era normalmente um sujeito frio. Mas o Professor não se abalou. apanhou o chapéu e a bengala e desceu vagarosamente a escada.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 71 bebendo vinho no meio dos livres. o Professor de Worms entrou coxeando pesadamente. — Será possível que esse velho cadáver esteja me seguindo? inquiriu-se mordendo o bigode amarelo. Mas o ancião só podia andar feito um caracol. e no momento em que êle. Só assim esses pés de chumbo puderam apanhar-me. Mal tinha acabado de fazer a encomenda. segundo todas as aparências o homem tinha vindo a pé. A minha felicidade é que me basta andar um pouco mais depressa para deixar esse sujeito tão longe de mim como daqui a Tombuctu. Syme. passou roçando pelo Professor. abriu precipitadamente a porta e. perdeu a paciência: entrou numa casa de chá domingueira para abrigar-se. com um movimento atabalhoado. Depois. A bengala de Syme caiu no chão. Um pouco mais tranqüilizado. Devo ter demorado demais lá em cima. Por um instante. Ao cruzar o grande mercado a neve caía de rijo. torcendo e rodopiando a bengala e tomou a direção de Covent Garden. enquanto a tarde começava a escurecer. revelador do aço oculto. Levantou-se com presteza e agarrou a bengala. Syme ficou tão rígido como a bengala em que se apoiava. produzindo forte ruído metálico. Os flocos atormentavam-no como um enxame de abelhas prateadas. parou do lado de fora sob o rigor da neve. e Syme tinha andado feito o vento. A uma mesinha próxima da janela e da rua coberta de neve sentava-se o velho anarquista Professor de Worms. acrescentavam um incessante aborrecimento a seu nervos já irritados. Não vira nenhum fiacre segui-lo. sentou-se com dificuldade e pediu um copo de leite. com o rosto lívido e as pálpebras abaixadas.

mas conseguiu num pulo guindarse ao pára-lama e. Todavia. Teve o vago pressentimento de que naquele labirinto de vielas em breve haveria de despistar o velho e misterioso bonifrate que vinha em seu encalço. a cada instante. Syme pôs-se de pé no carro trepidante e. e. Mas quando. era incontestável que êle tinha corrido para tomar o ônibus. o Professor meteu-se num banco e enrolou-se até o queixo na manta de lã. K. se tornava mais negro. Todos os movimentos da figura vacilante e das mãos trêmulas do ancião. precipitou-se num dos bequinhos laterais de Fleet Street como um coelho se precipita num buraco. encharcado de neve gotejante. deixando o café intato. todos os gestos incertos e todas as pausas pânicas pareciam pôr fora de dúvida que êle estava irremediavelmente perdido na degenerescência final do corpo. disparou pela escada. viu elevar-se pouco a pouco nos degraus do ônibus um chapéu alto. depois de breve pausa para tomar fôlego. CHESTERTON simples aritmética. Não havia nenhum e na verdade não poderia haver. quando sentiu nas costas um sopro cansado e asmático. Com o desvelo que lhe era peculiar. a cara míope e os ombros débeis do Professor de Worms. pois as ruelas estavam atapetadas de neve silente. Um ônibus que ia para o aterro passou ruidoso numa rapidez inusitada. que tinham mais de furnas que de vias públicas. Fazia cerca de meio minuto que estava sentando. Entrava e saía pelos becos tortuosos. um pouco atrás de Red Lion Court deu com um lugar onde algum enérgico cidadão tinha afastado a neve pelo espaço de umas -vinte jardas. cem jardas adiante. parou para escutar qualquer rumor de perseguição. Movia-se por polegadas. subiu para o tejadilho. à sombra da aba.72 G. e no momento em que havia completado cerca de vinte ângulos alternados e descrito um polígono inconcebível. Syme teve que correr umas cem jardas para alcançá-lo. e arrojou-se por entre as portas de vaivém. depois de lançar um olhar angustiado ao céu invernoso que. Entretanto. Havia repelido o impulso elementar de atirar-se do alto do ônibus. sentava-se com pequenas agonias de precaução. Não deu muita atenção a isso e internou-se em mais outro braço do labirinto. . a menos que as entidades filosóficas chamadas tempo e espaço não tivessem vestígio sequer de existência real. Perplexo demais para poder raciocinar. deixando à mostra as úmidas e cintilantes pedras do calçamento. Volvendo-se imediatamente.

porque daquele trecho de pedras nuas chegavam o tinido da muleta e os passos difíceis do coxo infernal. Os demônios podiam ter capturado o céu. No primeiro momento admirou-se de encontrar essas largas avenidas tão vazias como se a peste houvesse assolado a cidade. Caíra ali por acaso. Lá em cima o céu. e à entrada do pátio que leva a Ludgate Circus. Sentiu novo impulso para fugir desse cortiço de casas e ganhar outra vez uma rua ampla e iluminada. envolvia Londres num negror e numa opressão prematuros para aquela hora da tarde. para enfrentar o inimigo.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 73 parou novamente para escutar. E quando a encontrou. De cada lado de Syme as paredes da viela estendiam-se lisas e indistintas. Acima destas cores funestas elevava-se o vulto negro da catedral. de cujo cimo pendia enorme placa de neve. Diante deste espetáculo Syme empertigou-se e com a bengala de estoque fêz involuntária continência. de modo a quase revestir a cúpula de alto a baixo e destacar em prata pura o orbe majestoso e a cruz. mas não tinham ainda capturado a cruz. E ao pensar na palavra "domingo" mordeu o lábio. mas não se preocupou. como de um pico alpino. ora veloz ora lenta. Parecia um símbolo da fé e da intrepidez do homem que este ponto eminente da terra estivesse iluminado enquanto os céus se escureciam. Achou-se na deserta vastidão de Ludgate Circus e avistou a Catedral de São Paulo assentada no céu. viu que tinha saído muito mais longe do que imaginara. porém. como se fosse sua sombra. . e segundo. voltou-se. saltão e paralítico. Teve vontade de arrancar o segredo desse perseguidor dançante. Sabia que aquela figura maligna o rastreava. primeiro. carregado de nuvens de neve. não havia janela nem qualquer tipo de fresta. toda a atmosfera da cidade adquirira um fantástico matiz esverdeado como de homens sob o mar. para salientar a sólida alvura da neve. de bengala em punho. porque era domingo. Mas teve de vaguear e dar muitas voltas por longo tempo antes de acertar com a artéria principal. vermelho agonizante e bronze evanescente — bastante vivas. para êle tal palavra passou a ser desde então uma coisa assim como um trocadilho obsceno. O soturno crepúsculo escondido por trás da cúpula de São Paulo tinha cores esfumaçadas e sinistras — verde mórbido. Debaixo do esbranquiçado nevoeiro suspenso no céu. Depois admitiu que certo vazio era natural. porque a nevasca era mesmo perigosamente violenta. seu coração parou também.

Syme foi galvanizado por uma energia que se situava entre o azedume e uma explosão de zombaria infantil. lembrava obrigatoriamente um fabuloso tipo das canções de ninar: "o homem torto que andou uma milha torta". pôs-se a correr pelo branco e amplo Ludgate Circus. gritando algo como "Manja!". Seu porte inverossímil. como uma cabeça de pregador num corpo de arlequim. K.74 G. Sentou-se cuidadosamente e pediu um copo de leite. povoada de marujos estrangeiros. com a luz da lâmpada a refletir-se nos óculos e no rosto resignado. lançou-se para dentro dela e pediu cerveja. o Professor de Worms entrou no recinto. Realmente era como se êle tivesse sido retorcido pelas ruas tortuosas que tinha palmilhado. olhando por cima do ombro divisou a negra figura do provecto cavalheiro a segui-lo com grandes e gigantescas pernadas. Com gesto estouvado. Esta irrisória caçada desenrolou-se através de Ludgate Circus e Ludgate Hill. . enquanto Syme relembrava todos os pesadelos de sua vida. Houve algo nesta silenciosa e inesperada inocência que deixou Syme numa fúria mortal. como quem ganha uma corrida de uma milha. Agora era impossível esconder-se. sem um pestanejo de suas funéreas pálpebras. Mas a cabeça encaixada naquele corpo bambo continuava pálida. CHESTERTON O Professor de Worms dobrava ronceiramente a esquina da ruazinha irregular. Por fim Syme enveredou para os lados do rio e foi parar perto das docas. A cara descolorida e a atitude do homem pareciam assegurar que toda a perseguição tinha sido mera casualidade. entrevisto sob uma solitária lâmpada de gás. Ao ver as vidraças amarelas de uma taberna iluminada. em torno da Catedral de São Paulo e ao longo de Cheapside. Segundos depois. mas passou como um verdadeiro desconhecido. Era uma tasca imunda. E o velho Professor veio em sua direção. fêz que ia derrubar o chapéu do velho e. como um homem espera uma explicação final ou a morte. Vinha-se aproximando pouco a pouco. grave e profissional. onde se podia fumar ópio e puxar facas. Syme esperava-o como São Jorge esperou o dragão.

o velho anarquista já se tinha dirigido a êle à queima-roupa: — É detetive? Por mais prevenido que estivesse. Era bem possível que essa correria não significasse necessariamente que êle estava sob suspeita. o contraste podia torná-lo mais sedutor mas não o tornava mais inofensivo. Talvez fosse um ritual. Syme percebeu que teria irrisória compensação caso não alcançasse desmascarar o Professor e fosse por êle desmascarado. Talvez essa corrida desordenada não passasse de um sinal amistoso que êle devia ter subentendido. Esvaziou um canecão de cerveja antes que o Professor tocasse no copo de leite. Syme jamais podia terse prevenido contra uma coisa tão real e contundente como esta. . Estava elaborando um ligeiro questionário quando foi interrompido pelo Professor. Talvez se tratasse de uma formalidade regulamentar. voltaram-lhe todos os temores. Talvez cada novo Quinta-feira tivesse de ser caçado ao longo de Cheapside do mesmo modo que é de praxe ir por ali escoltado cada novo Prefeito. Antes que Syme pudesse fazer a primeira de suas diplomáticas perguntas.CAPITULO VIII O PROFESSOR EXPLICA Quando Gabriel Syme se achou definitivamente acomodado numa cadeira e teve em sua frente também definitivamente acomodadas as sobrancelhas erguidas e as pálpebras pesadas do Professor. Entretanto. Sua grande presença de espírito apenas lhe permitiu responder com um ar de embaraçada jovialidade. uma simples conjetura dava ao seu desamparo um toque de esperança. Se êle possuía um caráter como paralítico e outro como perseguidor. Não havia dúvida de que esse sujeito incompreensível o tinha seguido desde a reunião do arrogante Conselho.

. mas Syme prosseguiu na sua febricitante ironia. espichando sua cara morta que parecia asquerosamente viva. como alguém que está à mercê do carrasco.76 G. deixe-me ser um carteiro. — Sua insinuação é ridícula.. respondeu calmamente o Professor. então. O macaco é apenas o polícia que podia ser. Porque cargas d'água. K. Só que achei você parecido com um polícia. um dinamiteiro? Não é detetive? De modo algum? Não faz parte da polícia britânica? Esticou o cotovelo sobre a mesa e levou a mão grande e frouxa até à orelha. trazido de lá do restaurante algum casquete policial? perguntou Syme. mas o rosto não se alterou. — Minha pergunta foi clara. O velho Professor meneou a cabeça com severa gravidade. — Trabalha na polícia? perguntou o ancião. um anarquista. — Talvez me tenham escapado as sutilezas de sua filosofia germânica. Não me importo de ser qualquer coisa no pensamento alemão. CHESTERTON — Detetive? Eu? disse rindo vagamente. O velho quase quebrou a raquítica mesa com um violento murro de sua mão paralítica. Não me importo de ser o polícia que podia ter sido. Jura? Jura? Sabe que se jurar em falso será condenado? Sabe que o diabo dançará em seus funerais? E que o pesadelo vai se sentar em seu túmulo? Não haverá realmente nenhum equívoco? É. a transformação do macaco em polícia é tão lenta que é possível não tenha eu captado as cambiantes. Talvez uma solteirona de Clapham Common seja somente o polícia que podia ter sido. ignorando todo o improvisado e desesperado motejo de Syme. Você é ou não é detetive? — Não! respondeu Syme.. sorrindo frouxamente. O que o levou a pensar que sou detetive? — Nada de especial. — Jura? disse o velho. Talvez polícia seja um termo relativo. É detetive? O coração de Syme petrificou-se. Trago por acaso um número? Terão minhas botas aquele terrível aspecto investigante? Por que você me toma por um polícia? Tenha paciência. por engano. Num sentido evolucionista. E ainda continuo achando. começou. Não a entendeu. espião miserável? guinchou um tanto tresloucado. — Terei.

Por um segundo. Retirando do bolso do colete seu próprio cartão azul. Você é o quê? — Sou um polícia. até que sua barbicha . símbolo de seu poder policial. do outro lado da mesa. o banco em que estava sentado. nada tenho a ver com você. O Professor de Worms recostou-se em sua cadeira com uma curiosa expressão de brando desespero. formou-se nele a convicção oposta. Sou da força policial britânica. Mas como você acha que polícia é um termo puramente relativo. respondeu o Professor com seu primeiro riso franco e os olhos brilhando através dos óculos. — É pena. O egoísmo de Syme apegou-se à primeira por alguns segundos. em segundo. retrucou Syme com calma insana. Esse demônio de quem êle tinha estado a fugir durante todo o dia não era mais que um irmão mais velho que agora. Compreendeu — pois que qualquer vitória sobre a morbidez vem sempre acompanhada de saudável humildade — que era ao mesmo tempo um idiota e um homem livre. ria zombeteiramente. uma perpetração de orgulho satânico. mas logo adotou a terceira. Em tais condições chega-se a um ponto em que somente três coisas são possíveis: em primeiro lugar. com estrondo. apenas a sombra de um amigo esforçando-se por alcançá-lo. porque eu faço. pouco a pouco. A verdade é que nas últimas vinte e quatro horas o cosmos estivera realmente pelo avesso e só agora é que o subvertido universo voltava ao normal. as lágrimas. empurrando para trás. atirou-o na mesa e. E com estas palavras deixou cair na mesa um perfeito fac-simile do cartão azul que Syme guardava no bolso do colete. Syme teve a sensação de que o cosmos se tinha transformado. e finalmente o riso. Syme pôs-se em pé de um salto. Mas. disse êle.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 77 — Não faço parte da polícia britânica. sacudindo a cabeça para trás. — Faz parte de quê? perguntou dificultosamente. bastava-lhe saborear o fato simples e auspicioso de ser esta sombra. de que todas as árvores cresciam para baixo e todas as estrelas se estendiam sob seus pés. Não procurou inteirar-se logo dos pormenores. que o perseguira com a intolerável opressão do perigo. e desde que você afirma que não é da força policial britânica resta-me apenas dizer que o encontrei num clube de dinamiteiros e que nada me cabe fazer senão prendê-lo.

porque ela é. Completei trinta e oito anos em meu último aniversário. que aquele Gogol era um dos nossos? — Não. Quanto a saber se sou um velho. e. Tome mais cerveja. E você. — Sim. o júbilo algo homerico de Syme despertou. disse Syme impacientemente. ficará histérico. que produziu ao cair um ruído de vidro quebrado e uma poça de líquido prateado. num tom de cru e insondável desprezo. mas o que quero dizer é que você não padece de nenhum incômodo. acrescentou: embora não muito perfeitos. — Sim. — Componha-se. respondeu Syme. não sabia? . — De que é que está rindo tanto. sou sujeito a resfriados. disse Syme. latas de conserva. bradou. a atenção de muitos sujeitos semibêbedos. rebentou numa selvagem gargalhada. Syme fitava-o com encantada curiosidade. respondeu Syme surpreendido. Beberei com você. pratos. — Agora compreendo. — Não posso arrancar minha cara aqui mesmo. O falso Professor bebeu a cerveja e limpou a falsa barba. está certo. — De mim mesmo. — Meu leite! escarneceu o outro. Do contrário. excelência? perguntou admirado um trabalhador das docas. K. sem dúvida. Riu à idéia de ser o paralítico Professor um jovem ator caracterizado para a ribalta. Mesmo naquele antro abafado. ordenou o Professor. berros. Mas sentiu que teria rido do mesmo modo se o pimenteiro tivesse emborcado sobre a mesa. retorquiu o Professor de Worms. Meu leite! Você pensa que eu ligo para essa droga infame quando estou fora do alcance dos sanguinários anarquistas? Somos todos cristãos nesta sala. não me cabe dizer. Tenho então que acabar meu leite? Com todos os diabos! Já lhe darei o fim merecido! E arremessou da mesa o copo.78 G. O riso de Syme teve nesse ponto uma queda de alívio. e recaiu na agonia de sua frenética reação. continuamente cheio do barulho de facas. disse o outro calmamente. C H E S T E R T O N amarela quase apontava para o teto. uma caracterização especial. — Sabia. inquiriu. lançando um olhar para a turba de ébrios. Naturalmente você não é um velho. lutas e correrias súbitas. — Ainda não bebeu seu leite. Nem suspeitava.

Passei todo o tempo com a mão no revólver. a de Domingo parecia tornar-se mais real com a ausência. — E eu pensei que era comigo. disse o Professor ainda assustado. Mas. A simples menção deste nome pôs Syme frio e sério. azuis. E Gogol também. trezentos que fôssemos nada poderíamos ter feito. se soubéssemos que éramos três! O rosto do Professor de Worms entristeceu e êle baixou a vista. ergueu-se. Ah. disse mansamente. Syme emudeceu. troçando um pouco arrebatadamente. disse com serenidade o Professor. por mais ferozes ou sinistras que fossem. aos poucos desbotavam-se na memória como outras tantas fisionomias humanas. repetiu êle. de uma honestidade quase etérea. . empertigando-se como um homem insultado. continuando a rir descuidadamente. — Professor. Syme pôs-se a falar com ímpeto igual ao da primeira espumarada de champanha. Enquanto as carantonhas destes últimos. — Tenho. O riso morreu em seu coração antes de morrer em seus lábios. como se o retrato de um homem se transformasse com o passar do tempo num ser vivo. bem abertos. isso é intolerável! Você tem medo desse homem? O Professor ergueu as pesadas pálpebras e fixou em Syme os olhos grandes. evidentemente. e nesse instante Syme se deu conta da diferença que havia entre Domingo e todos os seus satélites. A cara do inesquecível Presidente apareceu-lhe tão nítida como uma fotografia colorida. sim. E você também tem. — Éramos três. Ao cabo de alguns momentos de silêncio.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 79 — Como é que podia saber? replicou o homem que se chamava de Worms. — Nem assim. — Nem se fôssemos trezentos contra quatro? perguntou Syme. e afastou de si a cadeira. Nem se fôssemos trezentos contra Domingo. Pensei que o Presidente estava falando comigo e logo me deu uma bruta tremedeira. Depois. Syme deu uma palmada na mesa e soltou uma exclamação. — Mas éramos três! E três é um número razoável para dar combate a quatro. — Eu também. disse Syme.

K. Vou impedir que lancem a bomba em Paris. disse Syme. mas Syme continuou numa voz baixa. tem razão. — Domingo é uma estrela fixa. de que quando suspendemos apressadamente a sessão todos os preparativos para a chacina tinham sido confiados ao Marquês e ao Dr. Mas creio que nem mesmo o Presidente sabe para onde êle irá e o que fará. — Sabe por acaso para onde vai? perguntou. mas vou lhe dar um conselho para toda a vida: polegar na lâmina e ferir para cima". — Logo verá nele uma estrela cadente. recomeçou o soi-disant de Worms. tocada de indizível exaltação: — Quem haveria de contentar-se com destruir as pequeninas coisas que não o atemorizam? Quem haveria de rebaixar-se ao humilde papel de valentão. Eu tenho medo dele. . disse com voz indescritível. juro que haveria de liquidá-lo. Buli. como uma árvore? Combate-se aquilo que se teme. — Você se lembra. O mesmo lhe digo eu: ferir para cima se se quer ferir as estrelas.80 G. cocando a barba e olhando pela janela. CHESTERTON — Sim. Se o céu fosse seu trono e a terra seu escabêlo. Ninguém deve deixar no universo uma coisa de que tenha medo. — Como? inquiriu o espantado Professor. disse Syme sem se perturbar. redargüiu Syme e pôs o chapéu na cabeça. O gesto resoluto de Syme fêz o Professor inconscientemente levantar-se. num dos sestros de seu disfarce. disse êle. E por isso mesmo juro por Deus que procurarei até achar esse homem a quem temo e hei de matá-lo. Lembra-se da velha história do clérigo inglês que deu os últimos sacramentos ao salteador siciliano? Lembra-se do que disse o salteador em seu leito de morte? "Não lhe posso dar dinheiro. com uma espécie de benévola desorientação. replicou Syme lacônico. O único que está a par de tudo é o Dr. De Worms pestanejou estupefato. — Sei. Buli. A esta hora é provável que o Marquês esteja cruzando o Canal. Esforçou-se para falar. E por quê? — Porque tenho medo dele. naturalmente. como qualquer lutador de feira? Quem ousaria declarar-se isento de medo. O outro olhava para o teto. — Já sabe como deve agir? — Não.

mas vou tentar. Eu sei onde êle está. Eu sei que é impossível. na outra margem do rio. saíram juntos para as ruas escuras das docas. As ruazinhas estavam enlameadas e cheias de poças que refletiam as lâmpadas acesas. e tirou o chapéu do cabide. mas desse ponto podemos saber se êle já foi para a cama. mas aqui e ali cintilava na obscuridade um ou outro grumo mais cinzento que branco. Contornando a esquina enquanto falava e contemplando o rio escuro salpicado de chamas. É higiênico e deita-se cedo. Syme ficou a olhá-lo com uma espécie de estática excitação. disse o outro. — Para onde vai? perguntou Syme. por . Quase toda a neve se derretera ou se convertera em lama pisada. — Poderá dizer-me? perguntou Syme. ver se o Dr. divirto-me a observar que você me toma por um covarde. disse o Professor alegremente. êle mora um pouco longe daqui. sobranceiro ao Tâmisa. respondeu o amigo. e abrindo a porta da taberna. Buli já foi para a cama. apontou com a bengala para a outra margem. com os olhos acesos. Vai comigo? Correrá esse risco? — Jovem. aparecia um maciço agrupamento de enormes edifícios pontilhados de janelas iluminadas e elevados como chaminés de fábrica a uma altitude quase alucinada. Syme sentia-se quase completamente ofuscado ao atravessar esta progressiva confusão de luzes e sombras. — Vou até à esquina. disse o Professor. — Sim. E não sabemos onde êle se encontra. — Que quer dizer? perguntou desabridamente. Êle mora na esquina? — Não. No lado fronteiro. Sobre isso lhe digo só uma palavra. e essa mesma em absoluta conformidade com a sua retórica filosófica. onde uma ou duas polegadas do rio iluminado davam a idéia de uma barra de fogo. que foi invadida por uma rajada de ar frio. Você pensa que é possível derrotar o Presidente. — Vou levá-lo lá. em Surrey. como fragmentos de um mundo esmigalhado. irregularmente e ao acaso.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 81 — Diabos o levem! praguejou Syme. com seu curioso alheamento. respondeu o Professor. — Dr. Na realidade. mas seu companheiro caminhava com regular desembaraço para um ponto no fim da rua. Um desses blocos. Buli! exclamou Syme.

disse êle. juro que haveria de liquidá-lo. Eu tenho medo dele. K. — Logo verá nele uma estrela cadente. naturalmente. replicou Syme lacônico. tocada de indizível exaltação: — Quem haveria de contentar-se com destruir as pequeninas coisas que não o atemorizam? Quem haveria de rebaixar-se ao humilde papel de valentão. disse com voz indescritível. Ninguém deve deixar no universo uma coisa de que tenha medo. C H E S T E R T O N — Sim. — Sei. O mesmo lhe digo eu: ferir para cima se se quer ferir as estrelas. O gesto resoluto de Syme fêz o Professor inconscientemente levantar-se. E por quê? — Porque tenho medo dele. recomeçou o soi-disant de Worms. mas Syme continuou numa voz baixa. Buli. num dos sestros de seu disfarce. O único que está a par de tudo é o Dr. tem razão. Se o céu fosse seu trono e a terra seu escabêlo. mas vou lhe dar um conselho para toda a vida: polegar na lâmina e ferir para cima". Mas creio que nem mesmo o Presidente sabe para onde êle irá e o que fará. A esta hora é provável que o Marquês esteja cruzando o Canal. — Como? inquiriu o espantado Professor. — Já sabe como deve agir? — Não. Buli. . E por isso mesmo juro por Deus que procurarei até achar esse homem a quem temo e hei de matá-lo. disse Syme sem se perturbar.80 G. disse Syme. com uma espécie de benévola desorientação. cocando a barba e olhando pela janela. Esforçou-se para falar. Vou impedir que lancem a bomba em Paris. De Worms pestanejou estupefato. Lembra-se da velha história do clérigo inglês que deu os últimos sacramentos ao salteador siciliano? Lembra-se do que disse o salteador em seu leito de morte? "Não lhe posso dar dinheiro. como uma árvore? Combate-se aquilo que se teme. — Domingo é uma estrela fixa. O outro olhava para o teto. de que quando suspendemos apressadamente a sessão todos os preparativos para a chacina tinham sido confiados ao Marquês e ao Dr. como qualquer lutador de feira? Quem ousaria declarar-se isento de medo. redargüiu Syme e pôs o chapéu na cabeça. — Sabe por acaso para onde vai? perguntou. — Você se lembra.

Na realidade. com seu curioso alheamento. saíram juntos para as ruas escuras das docas. apontou com a bengala para a outra margem. Syme sentia-se quase completamente ofuscado ao atravessar esta progressiva confusão de luzes e sombras. com os olhos acesos. que foi invadida por uma rajada de ar frio. e abrindo a porta da taberna. na outra margem do rio. Vai comigo? Correrá esse risco? — Jovem. Êle mora na esquina? — Não. Buli! exclamou Syme. irregularmente e ao acaso. mas desse ponto podemos saber se êle já foi para a cama. em Surrey. e essa mesma em absoluta conformidade com a sua retórica filosófica. As ruazinhas estavam enlameadas e cheias de poças que refletiam as lâmpadas acesas. — Vou levá-lo lá. — Dr. E não sabemos onde êle se encontra. mas seu companheiro caminhava com regular desembaraço para um ponto no fim da rua. êle mora um pouco longe daqui. — Vou até à esquina. disse o Professor alegremente. como fragmentos de um mundo esmigalhado. disse o outro. Contornando a esquina enquanto falava e contemplando o rio escuro salpicado de chamas. — Que quer dizer? perguntou desabridamente. Eu sei que é impossível. Você pensa que é possível derrotar o Presidente. respondeu o Professor. Eu sei onde êle está. — Sim. por .O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 81 — Diabos o levem! praguejou Syme. divirto-me a observar que você me toma por um covarde. É higiênico e deita-se cedo. onde uma ou duas polegadas do rio iluminado davam a idéia de uma barra de fogo. Syme ficou a olhá-lo com uma espécie de estática excitação. — Para onde vai? perguntou Syme. Um desses blocos. disse o Professor. — Poderá dizer-me? perguntou Syme. mas aqui e ali cintilava na obscuridade um ou outro grumo mais cinzento que branco. sobranceiro ao Tâmisa. Sobre isso lhe digo só uma palavra. ver se o Dr. aparecia um maciço agrupamento de enormes edifício» pontilhados de janelas iluminadas e elevados como chaminés ds fábrica a uma altitude quase alucinada. mas vou tentar. e tirou o chapéu do cabide. Buli já foi para a cama. respondeu o amigo. Quase toda a neve se derretera ou se convertera em lama pisada. No lado fronteiro.

que esta é a correspondente dela aqui no East End. anuiu reverente o Professor e entrou. a despeito de uma centena de inconvenientes. No albergue jantaram e passaram a noite. Em todas as provações desses últimos dias apenas a solidão o horrorizara. um velho e mísero albergue pintado de branco. elas estão em toda parte. Mas dois não. K. dirigiu-se para um local onde a longa fileira de lojas iluminadas era abruptamente interceptada por uma quieta escuridão. disse Syme sorrindo. tomou a dianteira. disse êle. Não é mesmo? — É. CHESTERTON suas especiais condições. — Como? Quer dizer. — Suponho. que dava mostras de conhecer toda a circunvizinhança. que êle mora lá em cima? — Sim. Exatamente detrás daquela janela que você já não pode ver. então. confirmou de Worms. foram para Syme o coroamento da camaradagem e do bem-estar.82 G.é igual a duas vezes um. Enquanto se embevecia nessa contemplação. explicou o Professor. que nunca vira nenhum dos arranhacéus da América. O Professor de Worms girou sobre os calcanhares e bateu com a bengala numa das botas. . a mais alta luz daquela torre de luzes incontáveis repentinamente se extinguiu. seguindo por vários atalhos. assemelhava-se a uma Torre de Babel com cem olhos. dois é igual a duas mil vezes um. — A gente sempre pode encontrar boas estalagens inglesas. Podemos concordar com os matemáticos em que quatro é igual a duas vezes dois. e não há palavras que exprimam o abismo entre a solidão e a companhia de um aliado. não pode senão pensar que estava sonhando. saído de suas adegas. o mundo escolherá sempre a monogamia. Sem mais conversa. como fósseis. Outro dia dei com uma excelente no West End. — Chegamos muito tarde. Syme. dormindo profundamente. Voltemos e vamos jantar. O higiênico doutor já foi para a cama. recuado uns vinte passos da avenida. Amanhã bem cedinho viremos fazer uma visita a êle. O Professor. sim. como se o negro Argos tivesse piscado para êle com um dos seus incontáveis olhos. O feijão com toucinho que essa gente extraordinária tão bem cozinhava e a surpreendente aparição do Borgonha. Por isso é que. até que ambos desembocaram em pleno fulgor e bulício de East índia Dock Road. Havia ali.

Era coxo. retrucou o eminente filósofo estrangeiro. por isso insistia tanto na necessidade de uma energia furiosa e incessante que despedaçasse todas as coisas. Sou um retrato. míope e parcialmente paralítico. num monólogo exuberante. — Explique-se. que vive. se não lhe enfada ouvir minha história. retratista é uma expressão inadequada. Mas não sabe êle que você o está arremedando? — Sabe demais. o homem que personificava o Professor de Worms não estava menos expansivo. O que me interessou nele foi a aparência. por que não o denuncia? — Porque eu já o denunciei. Sou ator profissional e me chamo Wilks. por favor. Logo passei a estudá-la cuidadosamente. iniciada no momento em que Gregory o levou à pequena taberna ribeirinha. Gogol era um idealista. sugeriu Syme. como quem conversa com velhos amigos. A história dele era quase tão inacreditável como a de Syme. respondeu o Professor. Se eu fosse dese- . — E êle. E fê-lo exaustivamente. e tanto êle me desagradou que resolvi imitá-lo. êle me pareceu excessivamente cabeludo. ponderou o Professor pensativamente.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 83 Pela primeira vez Syme sentiu disposição para desabafar toda a sua opressiva história. creio eu. pediu Syme. — A sua caracterização é formidável. um retratista. — Quer dizer então que você é uma cópia desse homem. vim a compreender que êle havia provado que Deus era o princípio destruidor do universo. e uma vez ou outra ia ter com os exilados políticos. disse Syme. Freqüentava a malandragem dos hipódromos e o rebotalho das artes. Quando trabalhava no palco costumava farrear com todas as categorias de boêmios e patifes. repetiu o Professor. replicou alegremente o outro. Por seu turno. Depois. Quando o conheci estava num dos meus momentos de irreverência. — É uma questão de teoria artística. Estava em todas as partes. Desde o momento em que o vi. — Sou um retrato. que era odiosíssima. em Nápoles. — Com muito prazer. Queria representar o anarquista segundo o ideal abstrato ou platônico. Eu sou um realista. — Não estou entendendo. Foi num desses antros de sonhadores refugiados que conheci o grande filósofo niilista alemão Professor de Worms. Um retrato do célebre Professor de Worms. Aliás. Dizia êle que a Energia era o Todo. disse Syme esvaziando um copo de Mâncon. Muito mais perfeita que a do velho Gogol.

Como eu era apenas um ator. E eu venci. Inquiri deles a natureza do insulto. não podia ser tão jocosamente paralítico como eu. de murmúrios de admiração. operando dentro desta definida limitação. Eles julgavam que eu era realmente o grande professor niilista. seguido. dois ou três desses admiradores. Mas antes que pudesse recobrar-me. Eu tinha bebido mais champanha do que me era aconselhável. logo que comecei a falar. Não posso descrever a surpresa que senti quando minha entrada foi acolhida com respeitoso silêncio. Parecia que um camarada impertinente se apresentara feito uma despropositada paródia de mim mesmo. disse êle. Por isso tentou derrotar minha prosápia intelectualmente. Veja você: êle era na verdade um paralítico e. Respondi com o maior desdém: "Você leu tudo isso em Pinckwerts. quando muito. desde que isso implica na introdução de lacunas que formam constitutivos de diferenciação".84 G. e num acesso de loucura decidi enfrentar a situação. eu replicava com outra coisa que nem eu mesmo era capaz de entender. A maldição do artista perfeito tinha caído sobre minha cabeça. esperava ser recebido com estrondosas gargalhadas ou. as minhas sobrancelhas erguidas e os meus olhos gelados que o Professor entrou na sala. "Não me parece". K. verídico demais. vieram correndo comunicar-me que um insulto público me tinha sido dirigido na sala contígua. fosse tão impressionantemente débil como um jovem ator em pleno vigor da mocidade. Naquele tempo eu era um rapazola ingênuo e confesso que o fato me abalou profundamente. Eu fora sutil demais. Não é preciso dizer que houve uma colisão. E me transformei no que se poderia denominar um extravagante exagero da velha e enxovalhada personalidade do velho Professor. irradiando indignação. Cada vez que êle dizia alguma coisa que ninguém senão êle mesmo era capaz de entender. Não se podia esperar que um velho. "que você possa ter chegado ao princípio de que a evolução é somente negação. Todos os pessimistas que me rodeavam olhavam ansiosamente de um Professor a outro Professor para ver qual dos dois era efetivamente o mais débil. pobre de saúde como o meu rival. C H E S T E R T O N nhista teria feito uma caricatura. Ao entrar na sala onde se reuniam seus correligionários. podia apenas fazer o papel de uma caricatura. a noção de que a involução funcionava eugênicamente foi exposta há muito tem- . Desconfio de que não foi senão para ver de perto os olhares furiosos da turba. Livrei-me com alguma astúcia. com estrondosos protestos contra o insulto.

pelos oprimidos do mundo inteiro. posso compreender que você tenha posto essas barbas sujas e velhas para o gracejo de uma noite. saí manquejando pela rua escura. que me disse que eu estava sendo procurado. "Noto". disse êle. Mas ri com satisfação e respondi ao acaso: "Como as botas do panteísta". Eu o prendo sob a acusação de não ser o célebre anarquista Professor de Worms". É ocioso dizer que nunca existiram tais pessoas como Pinckwerts e Glumpe. É preciso dizer que não há porco-espinho em Montaigne? "Seus estratagemas estão por terra". Como você pode imaginar. Vendo o Professor que o método erudito e misterioso deixava-o à mercê de um inimigo ligeiramente deficiente em escrúpulos. assim que dobrei a esquina fui surpreendido por um toque no ombro e. debaixo de reverentes aplausos. Não tive resposta inteligente para essas palavras. recorreu a um nível mais popular de argumentação. Entretanto. davam sinais de conhecê-los perfeitamente. "Não senhor". redargüi sorridente. — Bem. "e o mesmo vai acontecer com sua barba". Mas os que nos rodeavam. disse êle escarninho.. mas sem violência. disse o ator. se se pode chamar isso de acusação criminal. disse Syme. E me deixei levar. que eram inteiramente verdadeiras e um pouco mordazes. — Eis o resto da história. O guarda impassivelmente consultou um papel que trazia consigo. "que você se distingue como o falso porco de Esopo". "não é por isso. todas as suas manifestações de gravidade e cólera fazem-no mais divertido ainda. "como o porco-espinho de Montaigne".. ao voltar-me. era indubitavelmente a mais suave das duas. Assumi uma atitude paralítica e bradei com forte sotaque alemão: "Sim. Atravessei certo número de salas e cheguei finalmente . Você está me prendendo sob a acusação de ser eu o grande anarquista Professor de Worms". sou procurado. esperando afastar-me em breve o suficiente para poder caminhar como um ser humano. Quando deixei o conventículo. desconfiado mas não grandemente consternado. Tal acusação. ainda que um dos homens tenha tentado muito pacientemente arrancar-lhe o nariz. O verdadeiro Professor foi levado para fora. disse com polidez. para minha surpresa.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 85 po por Glumpe". achei-me à sombra de um enorme guarda. não é exatamente por isso. E sem demora dei meia volta com todas as honras da vitória. ao menos. "E você se obscurece". mas não entendo porque você não se desfez delas depois disso. Creio que agora êle é recebido em toda a Europa como um delicioso impostor.

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G.

K.

CHESTERTON

à presença de um oficial. Este explicou-me que uma severa campanha estava sendo iniciada contra os centros anarquistas e que a minha bem sucedida representação podia ser de considerável utilidade para a segurança pública. Ofereceu-me bom salário e me deu este cartãozinho azul. Embora nossa conversa tenha sido breve, êle me deixou a impressão de ser um homem de sensatez e humor sólidos; mas não posso dizer muita coisa sobre a pessoa dele, porque... Syme abandonou no prato a faca e o garfo. — Já sei, disse. Porque você falou com êle num quarto escuro. O Professor fêz que sim com a cabeça e esgotou seu copo.

CAPITULO IX

O HOMEM DOS ÓCULOS
— O Borgonha é maravilhoso, disse pensativamente o Professor, enquanto punha o copo na mesa. — Não parece que você o aprecia tanto assim, observou Syme. Toma-o como se fosse remédio. — Não repare nos meus hábitos, disse o Professor melancòlicamente. Minha situação é um tanto curiosa. Por dentro estou rebentando de alegria infantil, mas de tal modo me integrei no papel do paralítico Professor que já não posso largá-lo. Mesmo quando estou entre amigos e não tenho nenhuma necessidade de disfarçar-me, não posso deixar de falar baixo e franzir a testa. .. como se fosse realmente minha testa. Posso sentir-me inteiramente feliz, mas só de m o d o . . . paralítico, compreende? As mais vibrantes exclamações pulsam em meu coração, mas de minha boca elas saem irreconhecíveis. Você deveria ouvir-me dizer: "Anima-te, rapaz!" Isso traria lágrimas a seus olhos. — Não há dúvida, disse Syme, mas creio que, fora de tudo isso, você está um bocado inquieto. O Professor teve um leve sobressalto e encarou Syme firmemente. — Sujeito muito arguto, você, disse êle. É um prazer trabalhar com você. Sim, é verdade, tenho uma nuvem pesada em minha cabeça. Há um grande problema a enfrentar, e enterrou a testa nua nas mãos. Depois perguntou em voz baixa: — Sabe tocar piano? — Sei, sim, disse Syme surpreendido. Dizem que não toco muito mal. Como o outro não falasse, ajuntou:

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G.

K.

CHESTERTON

— Espero que a pesada nuvem se tenha dissipado. Após um demorado silêncio, o Professor falou de dentro da sombria caverna de suas mãos: — Teria servido da mesma forma se você soubesse datilografia. — Muito obrigado, disse Syme. É bondade sua. — Escute aqui, continuou o outro. Lembre-se do homem que temos de ir ver amanhã. O negócio que você e eu vamos tentar amanhã é muito mais perigoso do que roubar da Torre as Jóias da Coroa. Vamos tentar arrancar um segredo a um sujeito muito sagaz, muito forte e extremamente cruel. Acredito que nenhum deles, exceto naturalmente o Presidente, seja tão medonho e pavoroso como esse fulano dos óculos e dos dentes arreganhados. Talvez não tenha o pungente entusiasmo pela morte, pelo martírio, que distingue o Secretário. Aliás, o próprio fatalismo do Secretário revela um patos humano e é quase um toque de redenção. Mas o doutorzinho, não. Desfruta um bom senso compacto, mais repelente que a loucura do Secretário. Não notou ainda a sua virilidade, a sua vitalidade detestável? Êle anda aos saltos como uma bola de borracha. Fique certo de que Domingo não estava dormindo (eu me pergunto se êle já dormiu alguma vez) quando fechou todos os planos do atentado na cabeça redonda e negra do Dr. Buli. — E você pensa, disse Syme, que esse monstro sem par vai ficar bem mansinho quando eu tocar piano para êle? — Não me venha com asneiras, respondeu-lhe o mentor. Mencionei o piano porque êle nos proporciona dedos ágeis e independentes. Syme, se temos de levar a cabo essa entrevista e sair dela sãos e salvos, precisamos combinar entre nós um código de sinais que não possa ser descoberto por essa alimária. Elaborei um tosco alfabeto cifrado, correspondente aos cinco dedos. É assim, veja (e começou a tamborilar os dedos sobre a mesa de madeira): M A U , mau, uma palavra que poderemos utilizar com freqüência. Syme bebeu outro copo de vinho e começou a estudar o método. Possuindo miolo e mãos anormalmente hábeis em quebra-cabeças e prestidigitações, não demorou a enviar breves mensagens sob a forma de tapinhas descuidados na mesa ou no joelho. E como o vinho e a companhia sempre tivessem o efeito de aguçar-lhe a comicidade, dentro em pouco viu-se o Professor a braços com a desadorada energia do novo idioma, incandescido agora pelo cérebro ardente de Syme.

como você sabe. Sonhei com seu alfabeto. Não poderíamos. estendê-la dos dedos das mãos para os dos pés? Isso." — Não compreende que isto é uma tragédia? inquiriu o outro. . e que estava exposto a um perigo iminente. enquanto vestia as calças. Minha palavra favorita é "coevo". disse Syme com seriedade. Sentou-se pestanejando. Buli. Podemos dizerlhe: "Dr. e avistou as barbas grisalhas de seu aliado. Você levou muito tempo para criá-lo? . considerou Syme. em verdade. também. queixou-se o Professor. Precisamos da palavra "viçoso". movendo a cabeça sagazmente. — Syme. redargüiu Syme. — Acha então. Buli? — Há muitas maneiras de tocar no assunto e introduzir a palavra com naturalidade. Não imagina como isto é sério. como revolucionário você não ignora que um tirano já nos aconselhou a comer capim: e. entretanto. Acordou na manhã seguinte. Que diabo é que se pode fazer? Meu desejo é que essa sua linguagem tenha um mais amplo objetivo. Pareceu-lhe que toda a segurança e toda a sociabilidade da noite anterior haviam-se apartado dele com as roupas da cama. contemplando o suculento e viçoso capim primaveril. que. parecia um fantasma. — Viva! exclamou Syme. nos obrigaria a descalçar os sapatos e as meias. que se aplica ao capim. que vamos falar de capim ao Dr. quando o nascente estava ainda abismado na escuridão.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 89 — Precisamos contar com diversos sinais para palavras. palavras que provavelmente serão muito úteis. vá dormir! ordenou-lhe o amigo com áspera simplicidade. atirou fora os cobertores e pôs-se de pé. sem dúvida. Ainda depositava inteira confiança em seu companheiro. talvez. mas era a confiança que existe entre dois homens que marcham para a forca. — Perfeitamente. muitos de nós. Nunca se esqueça de ser cômico numa tragédia. realizado com discrição. sentou-se na cama e passou algum tempo estudando o novo código. Qual é a sua? — Pare de bancar o engraçado. afetando alegria. o que. de pé à beira da cama. palavras carregadas de matizes. continuou Syme. Syme. bradou furiosamente o Professor. entretanto.. voltou a si lentamente.. — "Viçoso"..

e depois atravessaram o rio. — Diabos o levem! Não pode responder? gritou Syme numa raiva súbita. exceto que êle tinha partilhado do festim anarquista e que lhe tinha contado uma história ridícula? Como era improvável existir lá outro amigo além de Gogol! Seria o silêncio deste homem uma maneira espetacular de declarar guerra? Seria. CHESTERTON O Professor não deu resposta.90 G. depois. Eu que me julgava bamba nessas coisas passei uma boa hora estudando. Tamborilou a resposta com impaciente desabafo: — Ótimo. Syme repetiu a pergunta. — Estou lhe perguntando se levou muito tempo para inventar tudo isso. Demoraram-se alguns momentos no botequim. Mas. K. este adamantino olhar o espantável escárneo de um tríplice traidor. com olhos da côr de um mar invernoso. no corredor. Precisamos habituar-nos. Syme acompanhou os velozes movimentos da verbosa mão e leu claramente a mensagem: — Só falarei" deste jeito. e em silêncio começaram a subir os nus e inumeráveis degraus de . apenas para beber café e comer reforçados sanduíches. Syme encarou o rosto rijo como pergaminho e os olhos azuis e vazios. então. que ocultava um certo temor. Você dominou isso tudo de uma só vez? O Professor continuava silencioso. — Quanto tempo? O Professor não se moveu. rebentou numa gargalhada. que sob o clarão cinzento do amanhecer parecia tão desolado como o Aqueronte. os passos abafados e solertes dos dinamiteiros vindo capturá-lo. Vamos sair para tomar café. Embora o Professor se mantivesse tão calado como uma estátua. que se bandeava pela última vez? Aguçou os ouvidos no cruel silêncio. o que sabia desta criatura singular que inconsideradamente aceitara por amigo? O que -sabia deste homem. Chegou a imaginar que ouvia lá fora. mas ao tocar na bengala de estoque Syme teve um sobressalto. a verdade é que o Professor não o fêz. Alcançaram a base do imenso bloco de edifícios que tinham visto da outra margem. ao baixar a vista. Seu primeiro pensamento foi que o Professor tinha enlouquecido. Agarraram os chapéus e as bengalas em silêncio. Fitava-o absorto. mas o segundo foi mais terrível. No fim de contas. Se podia ou não responder. seus cinco mudos dedos dançavam vividamente sobre a mesa morta. com os olhos bem abertos e um sorriso fixo mas quase imperceptível.

Tal infinidade era antes o vazio infinito da aritmética. Buli. Buli sentado a uma mesa a escrever. coisa mais odiosa que o próprio absurdo. por exemplo. uma coisa impensável mas necessária ao pensamento. entremeada de montículos da côr de um vermelho áspero. Progressivamente. Syme foi invadido por umas recordações mais ou menos históricas. mais próprio do vermelho do barro do que do vermelho de nuvem. Syme ia-se convencendo de que sua nova aventura tinha de certo modo um cunho de calculada sensatez. os incontáveis telhados de ardósia assemelhavam-se aos plúmbeos vagalhões do mar cinzento e encapelado depois da chuva. Êle ficaria bem como um Marat ou como um Robespierre mais desleixado. sua cabeça escura e raspada podia perfeitamente ter saído de um chino. a última janela descobriu-lhes uma aurora amarga. Dr. o sòtãozinho pobre do Dr. Entretanto. Era de esperar que contra esse amanhecer alvacento e opressivamente vermelho se destacasse o negro perfil da guilhotina. Buli estava de camisa branca e calções pretos. Em consonância com esses quartos vazios e com esse austero alvorecer. de uma fantasia ou de uma alucinação. E ao entrarem. parando de vez em quando para trocar curtas mensagens no corrimão da balaustrada. Quando chegaram ao patamar do Dr.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 91 pedra. Syme supunha estar subindo para a morada da razão. A cada novo lanço de escada correspondia uma janela e cada janela revelava-lhes uma pálida e trágica alvorada assomando morosamente sobre Londres. E agora que subia esta enfadonha e interminável escadaria estava assustado e perplexo com a série quase infinita de degraus. Na noite anterior. branca. muito mais intolerável do que as insensatas aventuras já vividas. os enormes edifícios apareceram-lhe como uma torre num sonho. Mas isto não era o quente horror de um sonho. Ou era como os estonteantes cálculos da astronomia sobre a distância entre as estrelas fixas. Logo que viu o sótão e o Dr. fazia-o mais pálido e mais anguloso do que na reunião da varanda. Buli estava cheio de luz. As duas negras lunetas que tapavam seus olhos podiam efeti- . Vistos das janelas. entrando de través e adelgaçando as sombras. e o que caracterizava esse homem era um materialismo homicida. atinou com o sentido das suas recordações: a Revolução Francesa. Sua postura lhe conferia uma nova aparência. Os jacobinos eram idealistas. bastava vê-lo de perto para desfazer-se a fantasia francesa. A intensa e branca luz da manhã.

fazendo uma pausa antes de cada uma de suas enfadonhas palavras: — Por favor não me julgue excessivamente precipitado. que. Dr. se alguma vez a Morte se sentou a uma mesa de madeira para escrever não teve outro aspecto senão esse. na esperança de que o doutorzinho. mesmo com o risco de perder tempo. sorriu com visível alegria e ergueu-se com a elástica rapidez de que o Professor tinha falado. com efeito. mas continuou a fitá-los em silêncio. readquirindo cautelosamente os gestos lentos de de Worms. Quando os dois homens entraram. o doutorzinho não fazia senão encará-lo e sorrir. meia hora atrás. indo até a um cabide atrás da porta. ou. então. enlouquecido. Foi com momentânea dificuldade que o Professor quebrou o silêncio e começou: — Peço-lhe desculpas por vir perturbá-lo tão cedo. O sorriso e o silêncio do Dr. o que transformava o monólogo num trabalho espinhoso. embora eu seja de opinião que temos de agir de conformidade com ela. A quieta jovialidade de seus modos deixou seus dois oponentes desarmados.92 G. Providenciou cadeiras para os recém-chegados e. levaria mais tempo do que este de que dispomos. recomeçou. Entretanto. K. mas aconselho-o a alterar esses planos. Syme já começava a sentir náusea e a desesperar-se. Buli sorriu outra vez. o atraso de um minuto poderá ser fatal. tornando-as intoleràvelmente longas e pausadas. O Professor arrastava suas frases. Sem dúvida você executou todos os preparativos para o negócio de Paris. Dr. E. abotoou-se cuidadosamente e voltou a sentar-se à sua mesa. havia surpreendido no Professor. camarada. a seguir seu agente com toda a proteção que puder conseguir para êle. disse êle. se fosse contada. se realmente lhe parece ser o relato essencial para a compreensão do problema que vamos discutir. não é mesmo? E acrescentou com infinita vagareza: Segundo as informações que recebemos. Buli não eram como o olhar cataléptico e o silêncio arrepiante que. pôs-se a vestir um casaco e um colete de lã escuro e desbotado. como se êle não passasse de uma caveira. Nas momices e visagens do Pro- . explodisse de impaciência e pusesse as cartas na mesa. O Professor. CHESTERTON vãmente ser tomadas como negras cavidades em seu crânio. O camarada Syme e eu tivemos uma experiência. Por isso. Buli levantou os olhos. se é muito tarde para isso. poderei relatar o ocorrido em todos os pormenores.

espadaúdo. Êle parecia escandir suas palavras como se elas fossem as palavras de uma antífona. — É verdade.. que dentro de um ou dois dias esperam prender o Marquês na França. trajado com simplicidade. a menos que você ou eu decida seguir a pista. Por isso. Buli era ainda mais afetuoso. e cortês a inclinação de sua cabeça. Desejando firmar minha boa reputação. . o Professor fêz ver a Syme que iria retomar a explanação. tinha à sua frente um homem robusto. De fato. mas como sucedeu ao camarada Syme antes de mim. viu que seus longos dedos tamborilavam àgilmente na borda da mesa rachada.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 93 fessor havia sempre algo puramente grotesco. o incidente que nos ocorreu e nos levou a tomar informações sobre o Marquês é daquele tipo que precisa de ser narrado. Buli e o padrão de suas roupas adquiriam excessivo realce. mas seus olhos anteparados continuavam indevassáveis. . e que. tornou o Professor. daí a instantes começou com a mesma deliberada calma: — Logo que Syme chegou com esta informação resolvemos trazê-la ao seu conhecimento para que você tomasse a de- . Através de sinais. como num boneco de engonço. que estava atento. as cores da tez do Dr. que graças ao meu chapéu me tomou por uma pessoa respeitável. como um homem fatigado de andar na areia frouxa e pesada. e leu a mensagem: — É preciso que você continue. Sob a crescente luz do sol. Este diabo esgotou as minhas forças. encarava-os com um sorriso fixo e mudo. mas Syme. — Como estava dizendo. sem sobrecenhos ou arreganhos. singularizando-se apenas no uso de uns óculos deformadores. Foi aí que êle se tornou expansivo e me contou. Tive a sorte de conversar com um detetive. a coisa aconteceu comigo. Tudo ali tinha um sentido de insuportável realidade. O sorriso do Dr. . atabalhoadamente. como nas novelas realistas. Syme lançou-se na brecha com aquela fanfarronada de improvisação que sempre o acometia quando estava alarmado. a única coisa inquietante era seu silêncio. Syme recordava os angustiosos temores do dia anterior como quem se recorda de ter tido medo de duendes na meninice. levei-o para o Savoy e lá embriaguei-o completamente. Mas seu sorriso era levíssimo. Mas agora estava em pleno dia. disse apressadamente.

Durante todo esse tempo Syme estivera a contemplar Dr. falou com uma voz que não podia ser desprezada: — Dr. — Ou ainda. CHESTERTON cisão que lhe parecesse mais conveniente. — Ainda diria. Buli. Na realidade. mas em meio a ela Syme decidiu-se a agir.. tivera um pressentimento e este se tinha elevado à categoria de delirante certeza. O Professor desfiava sua oração. O outro retorquiu: — Um poeta morto. Tem aquela força súbita que às vezes sentimos quando chega a primavera. Curvando-se sobre a mesa. Syme curvou-se. Buli tão fixamente como Dr. de repente. Buli! . que êle se parece com aquele inopinado cheiro de mar que podemos descobrir no coração dos bosques viçosos. Voltando a suas pancadinhas simbólicas.94 G. Buli contemplava o Professor. O outro respondeu: — Ou uma tolice espetacular? Syme disse: — Sou um poeta. K. rufou Syme. Os nervos de ambos os irmãos de armas estavam a ponto de estalar debaixo daquela tensão de imóvel amabilidade. . e seus olhos ardiam febrilmente. dirigido ao Dr. Syme telegrafou: — É uma idéia espetacular. é real como o intenso cabelo vermelho de uma bela mulher. não tenho nenhuma dúvida de que é urgente. O Professor. quando. mal fêz pausa em seu monólogo. explicou para o amigo: — Você não imagina como o meu pressentimento é poético. tamborilou Syme. mas sem o sorriso. Seu companheiro não se dignou responder. Syme estava vermelho até à raiz de seus cabelos amarelos. Entretanto. e seus dedos dançaram displicentemente sobre a extremidade da mesa. Enviou a seu aliado esta mensagem: — Tenho uma idéia. tamborilou: — Então diga. Depois leu esta resposta nos dedos do amigo: — Vá para o inferno! O Professor prosseguiu em seu monólogo palavroso e ôco.

Buli ergueu-se vagarosamente. Diante dos dois detetives sentava-se agora um moço de aparência infantil. disse hesitante o Professor. — Não há dúvida que a diferença é extraordinária. . O médico não fêz nenhum movimento. Dr. Eu sabia que meu pressentimento era tão infalível como o Papa. assemelhando-se a um homem que lançou à mesa a vida e a fortuna. vai? . Buli. Depois. Os olhos do outro brilhavam como estrelas. esperava com o rosto afogueado. como um professor de química ante uma explosão bem sucedida.. Buli. Olhe para êle! Veja a cara dele. poderia fazer-me um pequeno favor? Quer ter a bondade de tirar os óculos? O Professor agitou-se na cadeira em que estava sentado e olhou para Syme com uma espécie de gelada e enfurecida surpresa. Syme. Os óculos é que fizeram tudo! Tudo estava nos óculos! Com esses terríveis olhos negros. esquecido de sua suposta paralisia. o colarinho. Por alguns segundos houve um silêncio em que se podia escutar a queda de um alfinete e que foi cortado apenas uma vez pelo silvo de uma lancha distante. — Dane-se o plano! rugiu Syme fora de si. Arrimou-se depois no espaldar da cadeira e encarou dubitativamente o Dr. com olhos da côr de avelã. e tirou os óculos. e por um instante Syme ficou a apontá-los sem pronunciar uma palavra. mas eles juravam que por baixo dos óculos negros seus olhos dardejaram Syme. francos e felizes. Mas quanto ao plano do Dr. Conservava seu sorriso. trajado como um simples empregado e de natural sem dúvida bondoso e até mesmo comum. as abençoadas botas! Você não vai pensar que isso aí é um anarquista. ali diante de seus olhos. sem perder o sorriso. Syme deu um pulo para trás. Buli. era um demônio vivo no meio dos demônios mortos. — Dr. — Eu sabia que era poeta! exclamou Syme como se estivesse em êxtase. O Professor também deu um pulo.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 95 A cara mansa e risonha do médico não se mexeu. disse Syme num tom peculiarmente preciso e cortês. Efetivamente tratava-se de uma portentosa cena de transformação. com esses ares divertidos. no Tâmisa. como se o médico se houvesse convertido num sapo. com essa robustez. que bem podia ter sido o primeiro sorriso de um recém-nascido. fisionomia alegre.

Foi quando o terceiro homem soltou uma gargalhada. Dr. e pela primeira vez os outros dois lhe ouviram a voz. Tirou seu próprio cartão oficial e colocou-o junto ao do amigo. — Por Deus! bradou Syme. e sua voz veio de lá de baixo. disse êle com a petulância de um colegial. O Professor ainda temia que tudo estivesse perdido. ao deixar o quarto. mas. Os outros desceram as escadas em silêncio. e acenou-lhes de leve com um cartão azul. — Nada como encontrar uns bons colegas. naquele amaldiçoado Conselho havia mais desses amaldiçoados detetives do que dos amaldiçoados dinamiteiros. dizia êle. — Podíamos ter lutado com vantagem. — Não. poderemos partir juntos para a França. provocou um tinido ao bater com a bengala nas pedras do corredor. Correrei o risco. O jovem chamado Buli. como para cumprir uma formalidade. quando chegaram à rua. Também sou da polícia. o que teria sido um gesto imprudente. Já me sentia meio morto de medo de estar só. — Deus Todo Poderoso! exclamou Syme. sua robusta rapidez afirmou-se inconscientemente e êle tomou a dianteira. estou contentíssimo com a vinda de vocês. Por pouco não dei um abraço em Gogol. andando velozmente em direção ao gabinete de informações da estrada de ferro e conversando com os outros por cima do ombro.96 G. Syme ia um pouco distraído e. Não éramos quatro contra três. . com a inocente cortesia que lhe era característica. sou um detetive. CHESTERTON — Syme! gritou o outro. K. Não tínhamos tanta sorte. disse Buli. porque. disse a voz. Espero que vocês não caçoem do diabo dessa minha fraqueza. o médico caminhou para a porta com tal rapidez que os outros o seguiram instintivamente. — Velhinhos. e atirou o cartão azul sobre a mesa. Eis aqui meu cartão. Enfiando na cabeça um chapéu claro e repondo suas demoníacas lunetas. era leal. insistiu em ir por último. Buli. Éramos quatro contra três. apesar disso. O Professor descia as escadas. assim. Éramos quatro contra Um. agoniado de medo. Se meus olhos não me enganam.

O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 97 — Todos os diabos de todos os infernos também se juntaram para minha fraqueza! disse Syme. mas não foi minha. me levaram à presença de um figurão que era o chefe de tudo aquilo e possuía naturalmente uma cabeça respeitável. Mas para este fim eles só queriam gente que pudesse passar por dinamiteiro. otimista demais. Deus meu. que tão habilmente me decifrou e compreendeu que os óculos negros se ajustariam com meu físico. E assim foi. Puseram-me toda sorte de apelidos na Scotland Yard. e êle perguntou: . especialmente no serviço de repressão aos dinamiteiros. mas a parte realmente miraculosa não foi essa ainda. como os milagres. benévolo demais. — fêz de mim um perfeito diabo. Um perguntou se uma barba cerrada esconderia meu sorriso. enfim. respondeu o homem dos óculos. perdia a mais remota oportunidade de ajudá-los passando por criminoso. por São Jorge! Uma vez cobertos os olhos. Eu queria alistar-me na polícia. Esse manda chuva da polícia. Ainda hoje quebro a cabeça para entendê-la. — O que foi? perguntou Syme. ombros largos. Houve uma coisa estupenda nisso tudo. visto de costas. Afirmavam que até meu andar era respeitável e que. Diziam que eu era saudável demais. . todo o resto — sorrisos. eu me parecia com a própria Constituição britânica.. nem sequer me viu! Os olhos de Syme relampejaram. foi muito simples. Vejam bem. e todos apostaram que eu jamais ficaria com cara de dinamiteiro. E lá todos eles confessaram-se desalentados. mas como eu tinha a infelicidade de ser um homem honesto. Mas o pior diabo era você com os seus antolhos infernais. cabelo curto. Ponham-lhe um par de óculos esfumaçados e verão que por onde êle passar os meninos gritarão aterrorizados". Mas. Diziam que se eu fosse um criminoso poderia ter enriquecido por me parecer exageradamente com um homem honesto. parece um angélico moço de escritório. Depois de feito. etc. desde os cabelos até às botas. . . — Vou contar. outro asseverou que se enegrecessem minha cara eu me transformaria num sombrio anarquista. não saiu da minha cabeça. digno demais. "Olhem para êle agora. esse camarada. O jovem riu lisonjeado e respondeu: — Não é um primor? É uma idéia muito simples. Mas o tal chefão saiu-se com uma observação curiosíssima: "Um par de óculos esfumaçados!" disse categoricamente.

CHESTERTON — Como foi isso? Eu pensei que você tinha falado com êle. prometi a um pobre sujeito. Todas as vezes que eu tentava escapulir topava com o Presidente. e vocês verão que ela é simplesmente asfixiante. Na estação. o semblante do Dr. deveríamos chamar a polícia. Agora estou encantado por ter quem almoce comigo. Podem dizer o que quiserem. Calculei tudinho. Pouco entendo de casuística. Buli. Buli. pela primeira vez. entalou os companheiros num fiacre e. Como é que se pode estar em seis lugares ao mesmo tempo? — De modo que você teve de despachar o Marquês. Sob minha . — Mas quando o alcançarmos em Calais. com a rapidez do homem de negócios. falei. com bomba e tudo. alojou-os e alojou-se também num vagão. o que é que vamos fazer? indagou o Professor. murmurou o Professor. Só quando viajavam no barco para Calais a conversa voltou a animar-se. Teoricamente eu prefiro afogar-me a chamar a polícia. confirmou Syme gravemente. retrucou o novo guia. explicou Dr. O novo aliado era um furacão no capítulo das coisas práticas. — É um caso inédito. — Que falei. que é um autêntico pessimista moderno. Êle refletiu um instante e disse: — Suponho que. mas não posso faltar com minha palavra a um pes- . antes que eles tivessem tomado fôlego na arrancada. que sorria para mim da sacada de um clube ou me cumprimentava do tejadilho de um ônibus. não é isso? inquiriu o Professor. inteirou-se dos trens que saíam para Dover. teoricamente. -— Suponho que não. Falei com êle num quarto escuro como breu. Faz muito tempo? Poderemos alcançá-lo? — Sim. mas tenho para mim que aquele sujeito se vendeu ao diabo. objetou Syme. K. nunca contar nada à polícia. Esta pergunta anuviou. Êle ainda estará em Calais quando desembarcarmos. igual a uma carvoaria. esclareceu Buli. Deus é testemunha! Um dia eu lhes contarei toda a história. Você não faz idéia! — Não posso nem imaginar. — Já tinha resolvido ir almoçar na França. porque o Presidente não me perdia de vista. Em seguida. Vejam: fui obrigado a despachar aquela besta do Marquês.palavra de honra.98 G.

Voltou logo depois. Já pensei em falar com a polícia mas não pude. — Porque um dos outros três homens não é um homem. segundo. Assim. confessou o Dr. Mas a nossa posição é mais insustentável. Dr. disse o Professor. disse Syme. era uma espécie de pau para toda obra.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 99 simista moderno. tem toda razão. — Não creio que você esteja louco. Talvez tenha sido esmagado como um inseto pelo Presidente. por causa de um juramento idiota que eu fiz. — Sim?! interrogou Dr. sabe Deus para onde. No Conselho somos três contra três. Gogol foi embora. Digam que estou louco.. aquele é o homem mais infeliz que o gênero humano já produziu.. e. Pode ser sua digestão. não sei. pisando com força e descuidadamente.. Um silêncio amigável estabeleceu-se entre os três homens. é esta: nós três estamos sós neste planeta. disse Syme com seriedade. pois estou vendo o cabo Gris-Nez apontar lá na França. primeiro. Meus amigos. disse o Professor. — Tem razão. Enquanto fui ator. porque. façamos o possível para enfrentar as conseqüências. É a mesma coisa que faltar com a palavra a uma criança. Só sei que êle está condenado. Dei minha palavra ao Secretário. . ou sua consciência. parece que adotamos todos o mesmo tipo de moralidade ou imoralidade. Buli. Só não me prestei ao perjúrio nem à traição. ou seus nervos. ou sua filosofia do universo. — A primeira conseqüência. porque eles podem apelar para a organização deles e nós não podemos apelar para a nossa. que está no inferno! Não posso trair um homem desses e atormentá-lo. Vocês sabem quem é: o homem que tem o sorriso de cabeça para baixo. desde aquele momento em que. — Também passei por tudo isso. — É o meu caso. e apressemo-nos. Sabia que você assumiria essa atitude. Buli sorriu e foi espairecer pela coberta. Buli. — Em que você tirou seus óculos.. — Bem. como os romanos que guardavam a ponte. assentiu o Professor.. Se eu tivesse cometido esse crime não teria mais noção do bem e do mal. contemplando o mar batido pelo sol. disse Syme.. Seria o mesmo que açoitar um leproso. mas é o que sinto.

disse. na primeira oportunidade. realmente. Saltaram em terra debaixo de um solão que os deslumbrava. proponho-me a. guardou silêncio. respondeu Syme. A casa de St. Vou aproveitar-me do fato de ter êle tantos amigos e freqüentar a alta sociedade. E a fim de pôr fora de dúvida a questão da minha posição social. Eustache também é muito antiga. A única coisa viável. mas. Não podemos pensar em desviá-lo para outros negócios anarquistas. disse o médico espantado. que agora os conduzia como Buli os tinha conduzido em Londres. Vou aproveitar-me do fato de ser êle um nobre altamente respeitado. K. sem se apoquentar. porque teríamos que ser vistos. é tirar proveito dos próprios fatores que estão do lado do Marquês. segundo certa tradição. O moto é variável. menos a idéia de ficar em Calais enquanto o Czar passeia livremente em Paris. Não podemos levá-lo à cadeia por qualquer acusação trivial. feita só de amigos. Estamos de acordo em que não podemos denunciá-lo como dinamiteiro. Possui uma completa guarda pessoal. Depois disse: — Tenho uma idéia. arrancar-lhe o chapéu da cabeça. — Os Symes vêm mencionados pela primeiras vez no século quatorze. é forte e bravo. Devemos fazer alguma coisa para conservar o Marquês em Calais até meio-dia de amanhã. afirmou Syme. continuou Syme calmamente. CHESTERTON Syme anuiu com um movimento da cabeça e. um deles foi a Bannockburn na comitiva de Bruce. O Marquês não negará que é um fidalgo. — Que diabo é que você está dizendo aí? perguntou o Professor. Podíamos tentar raptá-lo e trancafiá-lo nós mesmos. — Já vamos desembarcar. êle nos conhece e ficaria com a pulga atrás da orelha. Mas já estamos no porto. está assim descrito: "em campo argentado um chaveirão goles lavrado com três cruzes recruzadas". levou-os por uma avenida ao longo da . êle podia engolir tudo. Syme. nem pode negar que eu também sou um fidalgo. e o resultado é duvidoso. Você está mareado ou quer fazer graça? — Minha explanação é quase dolorosamente prática. por um ou dois segundos. O Professor abecou rudemente Syme pelo colete.100 G. — Nosso brasão de armas. Passaram pela minha cabeça mais de vinte esquemas. A partir de 1350 a linhagem está bem determinada. — Esse aí perdeu o juízo. mas êle é muito conhecido aqui.

mas deteve-se repentinamente. sombreada por um chapéu de palhinha amarelo. Como ia na frente dos outros. caminhava com alguma arrogância e floreava a bengala como se ela fosse uma espada.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 101 praia. destacando-se contra o mar violáceo. abrigada embaixo de florida ramagem. . até chegar a uns cafés escondidos na folhagem densa de um caramanchão e fronteiros ao mar. com os dentes cintilando por entre a espessa barba negra. Com um gesto rápido impôs silêncio e apontou com um dedo enluvado para uma mesa. Eustache. Dirigia-se para o ponto extremo da fileira de cafés. onde se sentava o Marquês de St. e a cara ousada e trigueira.

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redargüiu Syme patético. Declarou estar fazendo um rascunho do diálogo que iria travar com o fatal Marquês. Antes de tirar o chapéu dele. Buli. . Seus olhos azuis resplandeciam como o mar que se estirava lá embaixo. Aprume-se e jogue fora esse papel. Digo-lhe: "O Marquês de Saint Eustache. Agrada-me ser justo com meu inimigo. de modo que.CAPITULO X O DUELO Syme sentou-se com seus companheiros a uma das mesas do café. meia hora depois. tiro o meu.. — Mas para que serve tudo isso? perguntou já exasperado Dr. Que é que você vai fazer realmente? — Mas é um esplêndido catecismo. suponho". ia subindo à medida que o Saumur baixava na garrafa. — Para levar-me a meu desafio. compreende? disse Syme radiante. E acrescenta com finura e requinte: "Como passa?" E eu lhe respondo também com finura e requinte: "Oh! Passo e fico!" — Ora. que diz. Tem apenas quarenta e três perguntas e respostas. que já estava num ponto anormalmente alto. Êle me diz: "O célebre Mr. Syme. e rabiscava-o às pressas com um lápis. Sua animação. cujas perguntas e respostas eram declamadas com extraordinária rapidez. Dava-lhe a forma de um catecismo. Com alegre impaciência pediu uma garrafa de Saumur. Deixem-me lê-lo.. e algumas respostas do Marquês são maravilhosamente engenhosas. — Aproximo-me. cale-se! disse o homem dos óculos. creio eu". Quando o Marquês tiver dado a trigésima nona resposta. sua conversa era uma torrente de incoerências. Tinha suas razões para encontrar-se num estado de curiosa hilaridade.

mas se parecia com o Marquês. . suponho que a única coisa que tal parte tem a fazer é pôr-se a representar todo o diálogo até onde lhe fôr possível. Em verdade. tendes uma inteligência incomum. Era assim. CHESTERTON — Por acaso ainda não se lembrou. Alcançareis a fama. Syme deu uma palmada na mesa. — Vai pedir a palavra? perguntou impaciente o Professor. podia-se dizer que êle era o rei. de modo algum. vendo que Syme continuava de pé e não se movia. Seus cabelos amarelos flutuavam na brisa suave que vinha do mar. perguntou o Professor com grave simplicidade. antes. de sólida posição social. Ao lado dessas vestes negras e cilíndricas. o Marquês. Uma vez que a direção de um diálogo não pode ser preestabelecida somente por uma das partes (como o haveis notado com tão recôndita agudeza). Na cabeça esbraseada de Syme o estridor das fanfarras lembrava a desafinaçãodaquele realejo de Leicester Square. e uma mulher acabava de cantar. Nunca pensei nisso. parecia boêmio e mesmo bárbaro. entendo que os epigramas que você traz engatilhados contra êle poderão parecer mais do que forçados. pensou Syme que a cara bronzeada de um tirano surgia entre os olivais verdes e umbrosos e o azul candente. meio grego. era. continuou Syme impassível. O homem tinha agora dois companheiros: dois solenes franceses de sobretudo e cartola. meio asiático. — Oh. Dirigiu o olhar para a mesinha onde estava o Marquês. sob cuja melodia êle se preparara para morrer. Mas não era um rei cristão. um déspota trigueiro. — Cabe-me apenas. adotar outro método de quebrar o gelo (se me permitis a expressão) entre mim e o homem que desejo matar. K. Senhor. Num café chantant escondido entre as árvores. — Você está bêbedo como um gambá. E é o que vou fazer. disse o médico."um dos quais ostentava a roseta vermelha da Legião de Honra — pessoas. que nos dias em que a escravidão era coisa natural contemplava no Mediterrâneo suas galés cheias de escravos lamuriantes. seus olhares escarninhos e sua cabeça erguida contra o purpúreo mar. tocava uma banda. por São Jorge! E ergueu-se incontinenti. de que o Marquês pode deixar de dar as quarenta e três respostas que você lhe atribui? Nesse caso. é verdade! exclamou. com seu chapéu de palhinha e suas leves roupas primaveris. fascinado. evidentemente.104 G. com sua elegância animal.

disse êle. pelo menos insultou minha tia. suponho. Syme inclinou-se. o Marquês arqueou surpreso suas negras sobrancelhas assírias. Tudo o que eu disse é que gostava de um Wagner bem executado. redargüiu o Marquês. salvo qualquer coisa aí sobre a banda. disse Syme com firmeza. — Eu não disse nada. De minha parte. — Foi uma alusão à minha família. Syme. Vou falar naquela reunião. Quando? — Agora mesmo. ? insinuou misteriosamente Syme. ainda que incerto. E saiu num passo rápido. que toda a conversa de vocês estava simplesmente enredada de sinistras alusões à fraqueza de minha tia. à guisa de explicação. — Asseguro-lhes. olhando apreensivamente para o Marquês. Ela me desagrada. — E o senhor é o Marquês de Saint Eustache. — O senhor é Mr. — Bom. Permita-me que lhe puxe o nariz. mas sorriu polidamente. — Mas como pode o Marquês ter insultado agora mesmo sua tia? perguntou o segundo cavalheiro com legítimo espanto. derrubando a cadeira. a única coisa que eu disse . durante meia hora. Qualquer comentário era desagradável. — Isso não tem sentido! exclamou o segundo cavalheiro. — Insultou-o? gritou o cavalheiro da roseta vermelha. Curvou-se para executá-lo... Ao vê-lo. disse Syme com atrevimento. Sempre fomos insultados por isso. aí é que está! E o que êle disse. se êle esteve sentado aqui todo o tempo? — Ah. Minha tia tocava Wagner pessimamente. — Isto é absurdo! Extraordinário! bradou o cavalheiro decore. Insultou minha mãe! — Insultou sua mãe! exclamou incrédulo o cavalheiro. disse Syme com energia. — Este homem me insultou! disse Syme. enquanto os dois homens de cartola agarravam Syme pelos ombros. mas o Marquês pulou para trás. Vou puxar o deformado nariz de mogno daquela reunião.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 105 Syme sorveu o último copo de vinho espumoso e respondeu apontando para o Marquês e seus colegas: — Vou. Como. disse Syme reconsiderando. disse Syme cortêsmente.

Dê-me licença de consultar. — Por São Jorge! disse Syme. Talvez depois êle me mate. Entenderam? Muito bem. sua atitude é digna de sua fama e de seu sangue. Estes senhores poderão ser meus padrinhos. aliás. Mas. um pouco pálido. Como você é inteligente! Os olhos do Marquês chamejaram como os de um tigre. apresentou-lhes seus amigos sob uns nomes aristocráticos que eles nunca tinham ouvido antes.106 G. Com três largas passadas reuniu-se a seus companheiros. É bom espadachim e confia em que me matará a tempo de pegar o trem. Se perde a hora do trem. CHESTERTON foi que gostava da maneira de cantar daquela moça de cabelos negros. em que o duelo se realize amanhã depois das sete. aqueles senhores em cujas mãos eu me colocarei. observou o outro. Tais acessos eram (como êle de- . com apaixonado bom senso. Syme fêz uma esquisita zumbaia e falou: — Marquês. maravilharam-se de seu semblante. — Parece-me. e insistam com todas as forças. Procura briga comigo! Deus do céu! Nunca houve ninguém que precisasse procurar tanto. Mas eu também entendo de esgrima e acho que posso distraí-lo até que o trem tenha passado. Só assim poderei impedir que êle tome às sete e quarenta e cinco o trem de Paris. perto da estação. Batamo-nos esta tarde. Êle não pode deixar de concordar com vocês num ponto insignificante como esse de hora e local. Minha tia tinha cabelos vermelhos. — Acabei. e estes. por um momento. E. que lhe tinham visto o cínico ataque e escutado as absurdas explicações. não era de sua índole. Ainda faltam quatro horas para o anoitecer. perde a hora do crime. Não há tempo para muita conversa. Pois. avançando rapidamente para os padrinhos do Marquês. quando voltou. sem dúvida. o que. para consolo de suas mágoas. — Insultar-me? gritou. Syme era sujeito a acessos de singular senso comum. Mas olhem aqui e ouçam bem. voltando-se e encarando-o. Vou lutar com a bêstafera. — Lá vêm vocês de novo! disse Syme indignado. Precisam insistir. Vocês são meus padrinhos e têm que aprontar tudo. escolherá um recanto à beira da estrada. Syme estava lúcido. disse com voz rouca. K. que você está simplesmente procurando um pretexto para insultar o Marquês. Agora quero apresentá-los a uns encantadores amigos meus. e falava baixinho.

com o acréscimo de suas funestas lunetas. Quem o visse chegar tão despreocupado ao campo de honra não adivinharia que êle tinha pressa de viajar. todos usavam roupas sombrias e solenes e chapéus semelhantes a negras tampas de chaminés. Não escapou a Syme o cômico contraste entre á fúnebre procissão e o prado vivo e reluzente. mais longe. compreendeu que se erguia inesperadamente um obstáculo para seus explosivos afazeres na capital. À sua frente. especialmente o doutorzinho. a curva alongada da estrada de ferro. se sublimavam em profecias. mas ainda dois criados com uma maleta e uma cesta de comida. Não podendo confessar a seus amigos os motivos de sua oposição. e Syme ficou vagamente surpreso de ver tantas flores primaveris esparzindo ouro e prata pelo capinzal em que toda a comitiva estava mergulhada até aos joelhos. uma pequena amendoeira em flor. Agora havia calculado corretamente a política de seu antagonista. por assim dizer. aproximou-se com grande polidez do Professor e do Dr. . defendia do Marquês. não somente os padrinhos com a caixa das espadas. acima do sinistro grupo de seus adversários. como uma nuvem colorida. destacava-se. o sol impregnava de calor todas as coisas. de fato.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 107 nominou seu pressentimento no caso dos óculos) intuições poéticas que. Viu à direita um bosquezinhò e. às vezes. para quem ela era. Buli. Mas atiçaria a curiosidade de um estranho a particularidade de aparecerem em seu séquito. o chapéu de palhinha deitado para trás e a cara simpática a queimar-se ao sol. Mas. Com exceção do Marquês. cujo nome parece que era Coronel Ducroix. esse cômico contraste entre a floração amarela e ós chapéus negros era apenas um símbolo do trágico contraste entre a floração amarela e o negro encargo. Quando o Marquês foi informado por seus padrinhos que Syme só poderia combater na manhã seguinte. marchetado de flores silvestres. trazia as mãos nos bolsos. que êle. e sugeriu que o duelo terminasse pelo primeiro sangue. meta e fuga. e se encomendou à fatalidade do primeiro assalto. aceitou o plano que Syme arquitetara. parecia um agente funerário numa comédia. Embora fosse ainda muito cedo. contra a indefinível linha do mar. O membro da Legião de Honra. Induziu os padrinhos a escolherem uma campina perto da estrada de ferro. à esquerda. ao mesmo tempo.

razões cuja delicadeza me proíbe de ser explícito. Eustache. mas de cuja probidade e retidão eu posso. este era o medo moderno. K. mais desesperançado. e o medo ao Dr. disse solenemente o Professor. Ambos os combatentes haviam despido seus casacos e coletes e empunhado as espadas. meticulosamente industriado por Syme na política a ser adotada. que a recebeu. pela continuação até o ponto em que um dos combatentes fosse inutilizado. Mas viu que esses medos . Mas não havia fumaça no horizonte. Em seguida.. de bravura e destreza notórias. CHESTERTON Entretanto. cujo rosto enegrecera de repente. Buli. deve ser indiferente o método que se abrace. Os contendores cumprimentaram-se. Aquele era o medo tradicional de que um milagre acontecesse. Buli fora o medo ao vazio irrespirável da ciência. O Coronel Ducroix ajoelhou-se e abriu a caixa. como simples traições dos nervos: o medo ao Professor fora o medo aos caprichos tirânicos de um pesadelo. . o Coronel sacou outro par e. ao sol. Quando o repenique das lâminas entrechocadas repercutiu em seu braço. — Para um homem como Monsieur de St. todos os fantásticos temores que têm sido o assunto desta história abandonaram Syme como os sonhos abandonam o homem que desperta. procedeu à colocação dos homens. ao menos pelo espaço de vinte minutos. os padrinhos ladearam o campo da luta e desembainharam suas espadas. Ofereceu uma ao Marquês. com subida dignidade e num péssimo francês. Buli. Syme compreendeu-lhe a rude impaciência. que a agarrou sem cerimônia.108 O. Paremos de falar e comecemos. e com uma cutilada decapitou uma flor. — Peste! bradou por trás deles o Marquês. Em vinte minutos o trem de Paris teria ido embora. Rememorou-os claramente e por ordem. de onde sacou um par de espadas que. e as duas espadas tocaram-se e tiniram. mas conservaram seus sombrios e escuros agasalhos. Syme estava decidido a não inutilizar o Marquês e impedir o Marquês de inutilizá-lo. tomando uma para si e dando outra ao Dr. Dr. Por seu turno. transmudaram-se em duas listras de alva chama. dobrou e sopesou tão detidamente quanto lhe permitiu a dignidade. de que nenhum milagre pudesse jamais acontecer. O Coronel disse calmamente: — "Em guarda!". insistiu. e nosso afilhado tem fortes razões para exigir o mais disputado encontro. e outra a Syme. e instintivamente olhou por cima do ombro para-saber se o trem vinha chegando.

Sentiu o amor pela vida em todas as coisas. e sentira as duas línguas de aço se tocarem e vibrarem como dois seres vivos. mas como não havia sangue na folha nem na camisa presumiu que se equivocara. do céu e de todo o universo. Sentiu que tudo quanto havia sobre a terra. e uma ou duas vezes supôs até que tocara o antagonista. enquanto êle ali se achava. Espaço em espaço êle ripostava. tinha um estranho e intenso valor. Disse consigo que. chegou até a pensar que. davam com a amendoeira na linha do horizonte. fixos e hipnóticos do Marquês. A descomedida loucura batalhante do Marqujls não tinha outro impulso que a avizinhação do trem de Paris. da qual êle não se julgava capaz. Com risco de perder tudo. mas isso não lhe era necessário. Syme não teve ocasião de olhar para a via férrea. Logo depois o combate foi suspenso e houve troca de posições. enquanto uma parte de seu espírito se embevecia na contemplação da terra. O assalto sobreveio tão rápido e furioso que aquela espada resplendente pareceu uma chuvarada de setas flamejantes. volveu para Syme um rosto endemoninhado e começou a combater como se possuísse vinte espadas.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 109 eram puras fantasias. compreendeu que seu antagonista era um terrível contendor e que provavelmente o último instante de sua vida tinha chegado. . o Marquês. com seu grosseiro e impiedoso senso comum. Sentiu-se como um homem que passa uma noite inteira sonhando que vai cair num precipício e acorda na manhã em que vai ser enforcado. mas isso ou não foi notado ou foi tàcitamente ignorado. a outra parte. sem desejar nada mais do mundo. se por um milagre escapasse. parava as estocadas do inimigo com uma precisão cronométrica. E toda a vez que seus olhos se desviavam. esgueirou um olhar para a via férrea. Depois. estaria pronto a sentar-se para sempre diante daquela amendoeira. Uma dessas estocadas lhe arranhou o pulso. dos olhos frios. à sua direita. que nem sequer pestanejava. por um segundo. porque se achava em presença do fato irremediável do medo à morte. novas flores estavam nascendo e desabrochando — flores encarnadas e amarelas e azuis que rematavam a magnificência da primavera. deixando um tênue filete de sangue. transparente como vidro. mesmo a grama debaixo de seus pés. Mas. que tinha a beleza viva de uma coisa perdida. Pois tão depressa vira um raio de sol escorregar na goteira da lâmina escorçada do adversário. Chegou até a imaginar que escutava o crescimento da erva.

a espada se lhe dobrou ao peso do corpo do atingido Marquês. como o admitira Syme desde o princípio. O Professor não passara de um duende. Syme se batia denodada mas cautelosamente. com o cabeça em fogo. acertou nova estocada. na terceira. a moça dos cabelos vermelhos no jardim. o Marquês saltou para trás sem desaprumar. como se tivesse mais medo do trem que do aço pontiagudo. findo o qual Syme caiu sobre o outro enfurecidamente. Talvez tivesse sido eleito paladino de todas essas coisas simples e generosas para terçar espadas com o inimigo de toda a criação. Mas a lâmina saiu limpa. onde não descobriu a menor gota de sangue. de uma coisa estava certo: três vezes uma espada terrena o tinha ferido e não o marcara. os leais companheiros que estavam ali a seu lado. ripostou tão àgilmente que. O Marquês era. e Syme. Por um instante o céu de Syme voltou a escurecer-se com terrores sobrenaturais. K. Quase fora de si. Houve um instante de rígido silêncio. Um minuto e meio mais tarde sentiu a ponta de sua espada penetrar no pescoço do homem. fitou a ponta de sua espada. deveras. cheio de ardente curiosidade. ávido por decifrar o enigma da inexistência de sangue em sua própria espada. Com este propósito visava mais a gorja e a cabeça do que mesmo o corpo do Marquês. Em verdade. mas agora mostrava-se perturbado e perdia terreno. Por seu turno. Mas não houve talho. Em duas paradas Syme tirou da liça a ponta de seu contendor e. Recordou todas as coisas terrenas de sua aventura: as lanternas chinesas de Saffron Park. Com este pensamento Syme se reanimou. melhor espadachim. "No fim de contas". os honestos marujos encharcados de cerveja à beira do cais. Desatento e um tanto lerdo. não teve dúvida de que o tinha tocado. . Nada obstante. debaixo da mandíbula. que deveria produzir um talho sangrento na face do Marquês. Este novo temor espiritual era bem mais terrível que a simples barafunda espiritual simbolizada na perseguição que lhe movera o paralítico. Syme estava tão certo de haver enfiado sua lâmina no inimigo como o está o jardineiro que enfia no chão sua pá.110 G. o Marquês olhava de contínuo para a via férrea. desta feita. disse para si mesmo. "sou mais do que um demônio. enquanto que este homem era um demônio — talvez fosse o Demônio! Em todo caso. idiotizado. e tudo quanto nele havia de bom cantou no ar como o vento canta nas árvores. Sem dúvida o homem tinha o corpo fechado. CHESTERTON Mas a endiabrada energia do Marquês era ilimitada.

À medida que o trem se aproximava. Inopinadamente. Ao que me consta. se transformaria no rugido do trem de Paris. virando-se para seu oponente. — Por favor. Buli indignado. Por favor. êle ouviu um assobio longínquo e abafado que. Mr. O trem estacou. deixem-me falar. cujas portas êle estava protegendo contra o Inferno. o Marquês. disse. disse um tanto pálido o Dr. Posso fazer uma coisa que o próprio Satã não pode: posso morrer". Syme! O senhor não queria fazê-lo? Pois faça-o! O senhor nem imagina como isso . — De fato isso vai de encontro à praxe. olhando severamente para o Marquês. Entregou-se outra vez à luta com a sobrenatural ligeireza de um maometano que anela o Paraíso. anuiu o Coronel Ducroix. a pedido de um dos combatentes. — O Marquês ergueu a mão. Syme o atingira em cheio na coxa. Quero dizer uma coisa. num salto para trás. se bem me lembro. e êle continua ileso. em breve. associava-se à vibração e à glória da grande República. estamos lutando porque o senhor exprimiu o desejo (que reputei irracional) de puxar-me o nariz. Pode agora fazer-me o obséquio de puxar meu nariz o mais depressa possível? Preciso pegar o trem. segundos antes. Buli. — De que se trata? perguntou pasmado o Coronel Ducroix. — Pára! bradou o Marquês. O salto foi prodigioso. num curioso gesto de reprimida impaciência. Nosso afilhado feriu o Marquês pelo menos umas quatro vezes. e sua voz exigia instantânea obediência. que terminou orgulhosamente por um silvo prolongado e penetrante. êle julgava estar vendo o povo erigir arcos florais em Paris.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 111 sou um homem. E seus pensamentos se engrandeciam ao elevar-se o rugido do trem. Syme. Mr. É muito importante. continuou. — Protesto! Isso é inteiramente irregular! exclamou o Dr. Houve irregularidade? — Não deixou de haver. escapou do poder do adversário e lançou ao chão a espada. e quando estas palavras cruzaram sua mente. — O senhor quer ou não quer puxar meu nariz? perguntou exasperado o Marquês. registra-se apenas um caso (Capitão Bellegarde e Barão Zumpt) em que as armas foram trocadas no meio da justa. principalmente porque. para espanto dos presentes. Mas não se pode dizer que um nariz seja uma arma.

e gravemente arrancou uma de suas castanhas sobrancelhas assírias. contemplando-a. O Marquês rompeu chistosamente o silêncio. O misterioso Marquês levantou os braços num gesto de desespero. Por alguns segundos ficou solenemente atarantado. êle era um disparatado estafermo. Você está muito enganado. deu dois passos para a frente e puxou o nariz romano de seu renomado fidalgo. de raiva. Movendo-se num mundo incompreensível. Uma vez mais Syme foi invadido por uma sensação a que já se habituara no decurso destas aventuras: a sensação de que um sublime e tenebroso vagalhão se elevara até ao céu e acabava de despencar-se. e o nariz veio em sua mão. disse o Marquês. mas não posso dar explicações agora. — Se alguém se interessa por minha sobrancelha esquerda.. que. mas vai sair. Coronel Ducroix. e inclinou-se de leve para a frente com um sorriso fascinante. rangia numa estaçãozinha situada atrás de um outeiro próximo. Ali. — Querem levar-me à loucura? perguntou.. enquanto o sol e as nuvens e as colinas arborizadas assistiam a este ridículo espetáculo. e cortêsmente ofereceu-a ao Coronel.112 G. É o tipo da coisa que poderá ser-lhe útil um dia. .. C H E S T E R T O N é importante para mim. sei. empunhando a espada. O trem. K. E sai sem você. Entrou. balbuciou o Coronel. O trem de Paris. que estava assistindo um poltrão que se enchumaça para lutar. Buli. em pleno sol. aqui está ela.. — Se eu tivesse sabido. queira aceitar minha sobrancelha esquerda. — Sei. arfando e silvando. disse ameaçadoramente Dr. Sabemos muito bem que obra diabólica. atirando estouvadamente para um e outro lado do campo vários pedaços de si mesmo. . de pé. — Você não irá nesse trem. com uma metade da cara descomposta e a outra metade reluzente e arreganhada. Puxou-o com força. disse Syme com firmeza. O trem entrou na estação! — Entrou. não seja tão egoísta! Suplico-lhe que puxe meu nariz imediatamente. A estrambótica figura virou-se para Syme e pareceu reunir suas forças antes de falar. ruborizou-se e perdeu a fala. . destapando assim cerca de metade de sua testa morena. segurando entre os dedos aquela venta de papelão. Vamos.

respondeu desabridamente o Professor. Estarão vocês todos amofinados que não possam descobrir o que sou?. Deus do céu! êle já me apanhou. pulha. disse enfastiado. seu porcalhão. Agora nós estamos à mercê de Domingo. naturalmente! exclamou o Marquês. O Professor fêz um gesto de enfado. imbecil! esbravejou sem tomar fôlego. disse com uma pressa que raiava na aspereza. Você vai a Paris para lançar uma bomba! — E por que não a Jerico? rugiu o outro arrancando a cabeleira que se despegou facilmente. Meu nome é muito conhecido na polícia. cabeça típica do policial inglês. — Lamento dizer-lhe.. A lucidez mental se realiza de muitas maneiras. Que quer dizer esse "nós"? — A polícia. Desse seu nós já temos um naipe quase completo. mas o rosto era incrivelmente pálido. disse Syme dominando-se. — Oh! Não precisa mostrar-nos. e vejo perfeitamente que vocês pertencem a ela. suas intenções ficassem mais evidentes. — Chamas infernais! bramiu o outro. — Não irá nesse trem. excomungado. — O que eu quero? O que eu não quero é apanhar esse trem. . estúpido. — Sou o Inspetor Ratcliffe. velhaco. covarde. trapalhão. e começou a tirar do bolso um cartão azul. de cabelos lisos e bem penteados. que sua lábia não me impressiona. — Nós? repetiu estupefato o Professor. Porque deveria eu ir nesse trem? — Sabemos porque. idiota. e o fim de tudo.. A cabeça que surgiu era loura. podiam sair vinte trens de Paris! Danem-se os trens de Paris! — Então o que é que você quer? inquiriu o Professor. mas estou vendo que agora. Mentecapto. disse o outro. e arrancou o couro da cabeça e metade da cara. mas pressinto que isso deve significar alguma coisa. Mas por via das dúvidas trago comigo um cartão. repetiu Syme.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 113 — Você. se você removesse os restos de sua antiga testa e os poucos vestígios de seu queixo. Talvez. — Significa tudo. palhaço! Você.Pensavam realmente que eu queria apanhar esse trem? Por mim. o que eu queria era que o trem não me apanhasse. pelintra. Que vem a ser essa história do trem? Por que você disse que êle o apanhou? Pode ser pura invenção literária de minha parte.

como esses de que lhes peço desculpas. O Coronel Ducroix virou-se mecanicamente. Coronel Ducroix. K. mas. inclinou-se polidamente e disse: — Aceito de bom grado as desculpas. Dr. mas asseguro-lhes que não foram vítimas. como se estivesse num comício. convido-o a voltar comigo para a cidade. como essas que os senhores aturaram. mas de uma igreja rica. Podem inferir a sanha com que eles nos perseguem do fato de sermos obrigados a tais disfarces. como estão imaginando. ajudaram a salvar o mundo. se o senhor está de acordo em que nossa presente situação é um tanto anômala. levados pela miséria ou por alguma filosofia alemã. por São Jorge! Se esses senhores estão efetivamente embrulhados com uma caterva de assassinos. que se fragmenta ao ar livre. Já combati pela França. O mais jovem padrinho do Marquês. Não perderam o tempo. Não somos truões mas homens desesperados. seria um pusilânime se não combatesse pela civilização. depois de cofiar um momento o bigode branco. mas. é inusitado e. dando brados aclamatórios. Uma sociedade secreta de anarquistas caça-nos como se fôssemos lebres. Buli tirou o chapéu e agitou-o no ar. e a tais travessuras. . eu irei com eles até o fim. No meio dessa duvidosa cena de transformação. que tem por dogma destruir a humanidade como um inseto. acima de tudo. saiuse com uns inesperados expedientes de bom gosto. como dizem que estão. Sem dúvida foi quem salvou a situação. poderosa e fanática. suficiente para um só dia. mas os senhores hão de permitir que eu decline de acompanhá-los mais adiante em suas dificuldades e me despeça aqui mesmo. um sujeitinho baixo de bigodes pretos. como outros homens que parecem não ir além de uma vivacidade puramente vulgar. — Senhores. não desejo interferir nos seus atos. O espetáculo proporcionado por um distinto concidadão de nossas relações. nem de nada indigno de um homem honrado. nós lhes devemos uma explicação satisfatória. de uma brincadeira de mau gosto. em guerra com uma vasta conspiração.114 G. revidou: — Não. uma igreja de pessimismo oriental. êle adiantou-se com toda a gravidade e responsabilidade de um padrinho e dirigiu-se aos dois padrinhos do Marquês. CHESTERTON O homenzinho chamado Buli. Não se trata desses infelizes loucos que atiram aqui e ali uma bomba.

Domingo sabia que o Professor perseguiria Syme através de Londres e que Syme se bateria comigo na França. de fato. e todas as nossas idiotices faziam parte de seus planos. Havia. e o velho Demônio colocou-as no Supremo Conselho para que elas perdessem o tempo vigiando-se mutuamente. só lhe resta capturar este campo e os imbecis que aqui estão. Todo mundo ali era detetive.O HOMEM QUE FQL QUINTA-FEIRA 115 — Não faça tanto barulho.. toda a cambada do Conselho Anarquista estava contra a Anarquia. apoderou-se de todas as linhas de estrada de ferro. respondeu o Inspetor. E enquanto êle estava juntando grandes somas de dinheiro e se apoderava das grandes linhas telegráficas. Todos os movimentos caíram sob seu controle. Que é que isso significa? ""^ Que significa? repetiu o novo policial com incrível violência. recomendou-lhe o Inspetor Ratcliffe. — E agora? perguntou Syme um tanto impassível. agora êle nos encontrou brincando de cabra-cega num campo de grande beleza rústica e de absoluta solidão. Você não conhece Domingo? Não sabe que seus gracejos são sempre tão graves e simples que ninguém os pode prever? Você pode imaginar uma coisa mais característica de Domingo que esta sutileza de colocar seus mais ferrenhos adversários no Supremo Conselho e depois providenciar para que esse Conselho não seja supremo? Asseguro-lhes que êle comprou todos os monopólios. Já que vocês querem realmente saber qual era . — Domingo. . nós. exceto o Presidente e seu secretário particular. e meio mundo estava disposto a lutar por êle. Significa que estamos perdidos. — Agora. perseguíamo-nos uns aos outros. — Domingo! exclamou Buli. sim. Mas. — Os que desceram do trem. Domingo pode ouvi-lo. — O que você diz parece extremamente desconcertante. Êle pode estar com os outros. Por Deus! Se isso é verdadeiro. — Que outros? perguntou Syme. . os cinco idiotas. somente. como um bando de meninos brincando de cabra-cega. Porque. cinco ípassoas que ofereceriam resistência. capturou todos os telégrafos. Deus meu! gritou de chôfre como quem vê uma explosão distante. especialmente desta linha! e apontou um dedo trêmulo para o lado da estação. às tontas.. exclamou Ratcliffe. Provavelmente capturou o mundo. deixando cair o chapéu. redargüiu o outro com súbita serenidade. Não somos mais que uns idiotas. começou Syme.

Entregou o binóculo a Dr. Buli. perguntou Buli. Era inegável que uma grande multidão parecia dirigir-se para o sítio em que eles estavam. de homens de aparência normal. Ou o Presidente ou o Secretário vem em nosso encalço no meio daquela turba. K. CHESTERTON minha cisma com a chegada desse trem. onde não podemos cair na tentação de quebrar nossos juramentos chamando a polícia. mas é possível que se trate de simples turistas. que imediatamente tirou suas lunetas e colocou o aparelho nos olhos. Este disfarce é perfeito. como todos conversavam e sorriam. — Mas simples turistas. — Era um hábito do extinto Marquês de St. Fomos agarrados num recanto aprazível e quieto. com o binóculo nos olhos. A avançadora multidão compunha-se. Syme admitiu a impossibilidade de identificar os loquazes possuidores daquelas mandíbulas escanhoadas. Buli. Mas era evidente também que dois ou três dos que vinham à frente usavam meias máscaras negras quase até à boca. Minha cisma era que Domingo ou o Secretário desembarcasse agora mesmo. mas. pôde notar o sorriso torto de um deles. um pouco abalado. eu direi. usam máscaras negras? Syme arrancou violentamente o binóculo da mão do médico e se pôs a observar. Mas vinha ainda muito distante e estava mal definida. Dr. Eustache. suspeito que você enxergará muito melhor através dos meus que através desses seus óculos sumamente decorativos. em sua maioria. Syme proferiu um brado involuntário. . e todos volveram os olhos para a estação. — Não há de ser terrível como você diz. aventou o Professor.116 G.úvida que vem muita gente. . especialmente à distância. disse o novo polícia exibindo um estôjo de couro. Não resta d. andar sempre com um binóculo.

o novato chamado Ratcliffe disse com lúgubre propósito: — Com certeza o Presidente não está entre eles. examinando dubitativamente o prado distante nas cercanias da estação. — De qualquer modo o Presidente não está entre eles. ainda não refeito das apressadas embora polidas explicações de Buli. disse desdenhosamente o novo detetive. não somos numerosos no uni- . mas êle não pode ter capturado o mundo com tamanha rapidez. acrescentou. Mas permita que eu fale com franqueza: ela foi calculada matematicamente. meu caro. Algo pode ter acontecido em nossa ausência. com alívio quase sombrio. Acha que é possível reconhecer o seu Presidente no meio de todo aquele povo? — Não poderia eu reconhecer um elefante branco no meio de todo aquele povo!?! respondeu Syme com uma ponta de irritação. tendo em vista a nossa importância.CAPITULO XI OS CRIMINOSOS ACOSSAM A POLICIA Syme afastou dos olhos o binóculo. Na verdade é como você diz: estão muito longe.. — Isso é absurdo! exclamou Syme. E prouvera aos Gêmeos que estivesse! É muito mais provável estar desfilando triunfalmente em Paris. — Oh. de sobrolho franzido. não. Mas se êle viesse caminhando com eles. e nós. não é uma força muito temível. ou sentado sobre as ruínas da Catedral de São Paulo. Deus do céu! creio que este chão sofreria abalos. Após uma pequena pausa. é inegável que uma multidão parece vir ao nosso encontro.. — Mas o certo é que estão muito longe. mas ela não é esse exército que você imagina. afirmou enquanto enxugava a testa. £ indiscutível. disse pestanejando o desnorteado Coronel.

e a sombra negra da aba dividia-lhe o rosto em duas metades tão perfeitas que êle parecia trazer uma das negras meias máscaras dos seus perseguidores. Estaria de máscara o Marquês? Haveria mesmo alguém de máscara? Existiria mesmo alguém? Este bosque enfeitiçado. mesmo a olho nu. No interior. um mundo em que os homens largavam as barbas. os borrões pretos que marcavam as máscaras usadas pelas caras da frente. deu-lhes as amplas costas e. O ex-Marquês puxara o velho chapéu de palhinha para cima dos olhos. Deram meia volta e seguiram o chefe. aconselho-o fervorosamente a tomar meu exemplo. no instante seguinte surgiam alvas mãos. Num instante uma cabeça se iluminava à maneira de Rembrandt. voltou-se para os outros e disse com certa austeridade: — Há muito que dizer em louvor da morte. acompanhadas de uma cabeça de negro. O sol. concluiu o Inspetor. encaminhou-se a passos largos para o bosque. Syme mal podia distinguir as sólidas figuras que andavam a seu lado sob os dançantes feixes de luz e sombra. fortes e vibráteis. notaram que a escura nuvem humana se apartara da estação e se deslocava com misteriosa disciplina através da planície. K. Já divisavam. numa silenciosa determinação. onde seus corpos. o qual já se internara no bosque e desaparecera entre as árvores farfalhantes. sentiram o contato refrescante da sombra. Agora que êle se apoderou de todos os cabos submarinos e de todos os telégrafos. era seco e quente. É tarefa para seu secretário particular. Com estas palavras. este simples caos do claro-escuro (depois da límpida manhã campesina) afigurou-se-lhe um símbolo perfeito do mundo em que vivia há três dias. o extermínio do Conselho Supremo lhe parece uma trivialidade. Assim. cuspindo na relva. mas se alguém tem qualquer preferência pela outra alternativa. evocativo da trepidação do cinematógrafo. Os outros. o bosque se povoava de réstias despedaçadas e sombras inquietas. os óculos e os narizes e tomavam ou- . como botar um cartão no correio. A fantasia coloriu o opressivo pasmo de Syme. no relvado. obliterando o resto do corpo. Em seguida. como mergulhadores que se lançam numa piscina sombreada. CHESTERTON verso de Domingo. que formavam uma espécie de trêmulo véu.118 G. sumiam na noite informe. ao se lançarem no bosque. uma vez intumescidos na claridade. onde os semblantes dos homens se tornavam alternadamente pretos e brancos. a uma simples olhadela.

Eles não podem ter conquistado todo o mundo dessa forma. — Temos que alcançar o mar. Decerto. Depois de todas essas perplexidades. Não poderia do mesmo modo arrancar a cabeça e transformar-se num espectro? Tudo não se assemelhava. de resto. — A que vem tudo isso? berrou Syme. nunca! . — Posso perguntar-lhe para que fim-de-mundo nos dirigimos? Tão autênticos tinham sido os temores de sua alma que êle se rejubilou ao ouvir a entonação tranqüila e humana de seu companheiro. o homem a quem devia chamar de Ratcliffe. havia desaparecido estranhamente.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 119 tras aparências. nem todos os trabalhadores são anarquistas. incapaz de justificar o universo. Syme lutava por desvencilhar-se desta última e mais execrável de todas as suas fantasias. e mesmo que fossem. que é outro nome para o cepticismo definitivo. Está contaminado por uma idéia eterna e idiota: se a anarquia vier. Aquela trágica confiança em si mesmo. virá dos pobres. Porque Gabriel Syme havia encontrado no coração deste bosque sarapintado de sol o que muitos pintores modernos aí haviam encontrado. Por quê? Os pobres foram rebeldes. se esforça por gritar e despertar. agora que êle sabia que o Marquês era um amigo. Encontrara aquilo que os modernos chamam Impressionismo. Você fala de multidões e classes operárias como se elas fossem o nó da questão. o resplendor sempre imprevisto e sempre esquecido. que sentira quando acreditara que o Marquês era um demônio. Como aquele que. A meu ver é pouco provável que esta região esteja do lado deles. estava quase inclinado a perguntar o que era um amigo e o que era um inimigo. rompeu o insondável silêncio e puxou conversa. passando pela cidade de Lancy. Haveria alguma coisa que subsistisse fora das aparências? O Marquês arrancara o nariz e se transformara num detetive. Numa voz exageradamente alta e galhofeira. a esta dança de treva e luz? Tudo não passava de um fugaz resplendor. a este bosque de logros. mas anarquistas. simples multidões não poderiam vencer os modernos exércitos e a polícia! — Simples multidões! repetiu seu novo amigo com um bufo de desprezo. no meio de um pesadelo. Com duas impacientes pernadas alcançou o homem que usava o chapéu de palhinha do Marquês.

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Mais do que os outros, têm interesse em que haja um governo decente. O pobre realmente se enraíza em sua terra. O rico, não; pode embarcar num iate para Nova Guiné. Algumas vezes os pobres se opuseram aos maus governos; os ricos sempre se opuseram a qualquer governo. Os aristocratas foram sempre anarquistas. Basta recordar as guerras dos barões. — Como preleção sobre história inglesa para meninos, está excelente, disse Syme, mas ainda não encontrei sua aplicação. — Já vai encontrá-la, retorquiu o preletor. Quase todos os braços-direitos de Domingo são milionários americanos e sulafricanos. Por isso é que êle se apossou de todas as comunicações, e é por isso que os quatro campeões restantes da força policial antianarquista estão fugindo através de um bosque como se fossem coelhos. — O que você diz dos milionários eu compreendo, disse Syme pensativo. São loucos quase todos. Mas subjugar uns poucos velhos maníacos e depravados é uma coisa; subjugar grandes nações cristãs é outra. Sou capaz de apostar meu nariz (perdoe a alusão) que Domingo ficaria completamente desamparado ante a tarefa de converter qualquer pessoa normal por aí a fora. — Bem, isso depende da pessoa, disse o outro. — Por exemplo, jamais chegaríamos a converter essa daí, disse Syme apontando para a sua frente. Entraram num espaço descoberto e ensolarado, que aos olhos de Syme representava o retorno do bom senso. E no meio da clareira havia um homem que bem poderia, com absoluta propriedade, encarnar o senso comum. Queimado de sol e sujo de suor, e grave, imbuído daquela profunda gravidade inerente aos singelos trabalhos cotidianos, um rude aldeão francês cortava lenha com uma machadinha. Algumas jardas adiante jazia sua carroça, quase cheia de toros; e o cavalo que comia o capim era, como o dono, valoroso sem ser violento e, como o dono, altaneiro ainda que quase triste. O homem era normando, mais alto do que a média dos franceses e muito anguloso. Sua figura morena recortava-se na quadra ensolarada como uma alegoria do trabalho pintada a fresco sobre um fundo de ouro. — Mr. Syme está dizendo, gritou Ratcliffe para o Coronel francês, que esse homem, pelo menos, nunca será um anarquista.

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— Mr. Syme tem toda razão, respondeu o Coronel Ducroix. Quando nada, pelo simples motivo de ter êle uma boa propriedade a defender. Mas esqueci que na pátria de vocês camponeses não costumam ser ricos. — Esse parece pobre, advertiu Dr. Buli suspeitoso. — Isso mesmo, disse o Coronel. E por isso é que êle é rico. — Tenho um idéia, bradou Dr. Buli de chôfre. Quanto êle cobraria para arranjar-nos um lugar em sua carroça? Aqueles cães vêm a pé, e logo os deixaríamos para trás. — Ofereça-lhe o que quiser! disse pressuroso Syme. Tenho dinheiro à bessa. — Não é assim que se faz, explicou o Coronel. Êle nunca lhe terá nenhum respeito se você não quiser justar. — Mas se êle regatear? começou Buli impaciente. — Regateia porque é um homem livre, redargüiu o outro. Vocês não entendem. Êle não perceberia o sentido da generosidade. Não é de receber gorjetas. E mesmo quando supunham escutar atrás de si as passadas surdas de seus desconhecidos perseguidores, tiveram que demorar-se, mortos de sofreguidão, enquanto o Coronel francês e o lenhador francês falavam com toda a pachorra e esperteza de um dia de feira. Ao fim de quatro minutos, porém, viram que o Coronel tinha razão, pois o lenhador acatara a proposta, não com o vago servilismo do biscateiro bem pago, mas com a seriedade de um procurador que recebeu os honorários justos. Disse-lhes que a melhor coisa a fazer era tomarem o rumo de uma pousada situada nas colinas de Lancy, onde o hospedeiro, antigo soldado convertido em dévot na velhice, decerto simpatizaria com eles e talvez assumisse o risco de ajudá-los. Toda a comitiva então apinhou-se em cima das pilhas de lenha e, ao balanço da rude carroça, dirigiu-se para a outra banda mais alcantilada do bosque. Embora pesado e desconchavado, o veículo ganhara bastante velocidade, e pouco depois tiveram a confortadora impressão do afastamento daqueles, quem quer que fossem, que os perseguiam. Porque, no fim de contas, descobrir onde os anarquistas haviam arregimentado tantos sequazes era um enigma ainda indecifrado. A presença de um único homem era suficiente; eles tinham abalado à vista do sorriso deformado do Secretário. De quando em quando Syme olhava de esguelha para o exército que vinha em suas pegadas.

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À medida que o bosque se rarefazia e estreitava com a distância, Syme descortinava as encostas resplendentes, por onde a quadrada e negra matilha marchava feito um monstruoso escaravelho. Na vivíssima claridade e com seus vivíssimos olhos, quase telescópicos, divisava perfeitamente esses vultos longínquos. Via-os como figuras humanas individualizadas; mas reparava, com surpresa cada vez maior, que eles se moviam como um só homem. Pareciam usar roupas escuras e chapéus comuns, como quaisquer pessoas da rua; mas não se espalhavam, nem se chocavam, nem se distribuíam em vários sentidos, como seria natural numa multidão ordinária. Moviam-se com a assustadora e maligna rigidez de um pau, como um horripilante exército de autômatos. Syme apontou-o a Ratcliffe. — É, sim, respondeu o detetive, isso é disciplina. É puro Domingo. Êle está talvez a quinhentas milhas daqui, mas infunde-lhes tanto temor quanto o dedo de Deus. Marcham uniformemente, e pode apostar suas botas que eles estão falando uniformemente e pensando uniformemente. Mas o que é importante para nós é que eles estão desaparecendo com a mesma uniformidade. Syme concordou. Era verdade que a negra mascarada que os perseguia, pouco a pouco definhava, à proporção que o camponês chicoteava o cavalo. O nível da paisagem clara, ainda que quase todo plano, descambava nos confins do bosque em ondas de lento declive que se perdiam no mar, à semelhança dos mais baixos declives das dunas de Sussex. A única diferença era que em Sussex o caminho deveria ser fragmentado e tortuoso como um regato, enquanto aqui a branca estrada francesa despencava-se diante deles como uma catarata. No fim da primeira rampa, a carroça estalou ao fazer uma curva fechada, e em alguns minutos, com a estrada ainda mais escarpada, contemplaram a seus pés o minúsculo porto de Lancy e o magnífico arco azul do mar. A nuvem viageira de seus inimigos desaparecera totalmente do horizonte. Cavalo e carroça impetuosamente rodearam um grupo de olmos, e o cavalo quase deu de focinho no rosto de um velho que estava sentado num dos bancos da calçada do café "Le Soleil d'Or". O aldeão grunhiu uma desculpa e apeou-se. Os outros também desmontaram e um a um saudaram o velho com

é que é sempre prudente ver um ou dois homens honestos quando se está praticamente às portas da morte. pois suas maneiras expansivas evidenciavam que êle era o proprietário da tasca. num raio de vinte milhas. mas é muito mais comum na Alemanha católica. com cara de maçã. suas flores e sua colmeia — sugeria uma paz ancestral. Tudo quanto o cercava — seu cachimbo. seu caneco de cerveja. Tenho para mim que o amigo que apadrinhei em circunstâncias um tanto equívocas exagera demais as possibilidades de um levante geral. que tragam nos bolsos bicicletas e automóveis. por que viemos para cá? O Coronel Ducroix sorriu por trás da cerdosa bigodeira branca. — E você nos aconselha a seguir para onde? inquiriu Syme com alguma descrença. replicou o outro. sedentário e simplório. Viemos para cá porque este é o único lugar. redargüiu o Coronel. . Depois perguntou de chôfre: — E sua outra razão de vir para cá? — Minha outra razão de vir para cá. Syme aprovou gravemente com a cabeça. levantaram a vista depararam com a espada pendurada na parede. meu prezado senhor. em que podemos alugar cavalos. não a mais importante mas a mais vantajosa. primeiro. — Fora de dúvida. corpulento. recobrando o ânimo. Darei. que cumprimentou o estalajadeiro como um velho amigo. A decisão de seu ato interessou Syme. sentou-se e encomendou um refrigerante. disse êle. que se sentou a seu lado e aproveitou o momento em que o velho estalajadeiro se ausentou. Era um sujeito encanecido. disse seriamente Ducroix. — Pode explicar. o melhor que vocês têm a fazer é correr logo para a delegacia de polícia da cidade. O Coronel. para satisfazer a própria curiosidade. — Cavalos! repetiu Syme. perguntou em voz baixa. olhos sonolentos e bigode pardo. — Sim. um tipo que se pode com freqüência encontrar na França.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 123 meias frases de cortesia. somente quando seus hóspedes. Coronel. — Por duas razões. entrou apressadamente. dentro da sala de visitas. naturalmente. Se vocês querem realmente distanciar-se de seus inimigos só têm uma saída: cavalos! A menos. mas suponho que nem mesmo êle negaria que entre os gendarmes vocês estão em segurança.

e acrescentou quase em seguida: Alguém foi providenciar os cavalos? — Foi. os cinco outros se muniram de pequenas rações de comida e vinho e. que carregaram a bagagem do Marquês quando êle era marquês. Continuava ainda atento para aquele vulto minguante. Vocês não podem perder um minuto. Através de seus raios.124 G. Syme entrevia o velho estalajadeiro. ficaram bebendo no café. mero borrão pardacento na vasta muralha verde da encosta. Syme sentia-se presa de uma fantasia persistente e supersticiosa. parecendo um exército bem adestrado. Aqueles inimigos de vocês não davam a impressão de ter pressa. cuja robusta figura ia diminuindo aos poucos. conservando suas espadas duelares como únicas armas disponíveis. K. Nunca pensei que os anarquistas tivessem tanta disciplina.. nessa hora do dia. quando. — Tem razão. sim. o que. C H E S T E R T O N Syme olhou para o alto da parede e descobriu um quadro religioso. depositada em seu espírito pelo dito ocasional do Coronel: a de que esse era talvez o último homem honesto que contemplava na terra. os dois criados. afastaram-se ruidosamente pela estrada branca e alcantilada. Por unânime consentimento. A conselho de Ducroix. não contrariava os secretos desejos de ambos. começava a declinar para o ocidente. por trás do estalajadeiro. embora continuasse em pé a segui-los mudamente com o olhar. enfim.. respondeu Ducroix. Nem bem acabara de falar quando o velho estalajadeiro dos olhos azuis e cabelos brancos ingressou cautelosamente na sala e anunciou que havia seis cavalos selados lá fora. O sol. enquanto o sol lhe banhava os cabelos prateados. viu surgir em marcha um exército de homens vestidos de preto. Em boa hora foram selados os cavalos! . Parecia pairar sobre o bom homem e sua casa como uma negra nuvem de gafanhotos. de cores cruas e patéticas. Fique certo de que dei ordens no momento em que entrei. mas na realidade se deslocavam com incrível rapidez. disse. no alto.

— Êle está do lado de vocês. porque eles vêm a pé. — Nossa desgraça. — Mas não devemos contar com isso. insistiu o Coronel. de passagem. tentassem.CAPITULO XII A TERRA EM ANARQUIA Incitando os cavalos ao galope e indiferentes ao áspero declive da estrada. está a menos de dois minutos. . — A casa do Dr. são trapaceiros vulgares. — Mas pode não estar em casa. — Temo. antes de se dirigirem de vez para a delegacia de polícia. do nosso ponto de vista. fora um longo percurso. dos cinco ricaços deste burgo. Suponho que a proporção é razoavelmente igual à do resto do mundo. disse Buli. é que possui um automóvel. Quando chegaram à cidade. — Êle tem automóvel. temo que não disponhamos de tempo para visitas vespertinas. disse êle. O Coronel sugeriu que. O quinto é um amigo meu. já o ocidente se inflamava das cores e da exuberância do crepúsculo. Renard está apenas a uns três minutos daqui. espreitando a estrada branca por onde a negra e rastejante mascarada podia surgir de um momento parp outro. até que a massa dos primeiros edifícios de Lancy interceptou a visão dos seus perseguidores. Sem embargo. em pouco tempo os cavaleiros retomaram a dianteira. disse Syme. — Quatro. objetou Dr. disse o Professor com jovialidade. teimou o Coronel. atrair as simpatias de mais um indivíduo que podia ser-lhes útil. Buli. Sujeito excelente! E o mais importante. — Se cavalgarmos a toda brida. poderemos deixá-los para trás.

porém. galhofou do pânico do exMarquês. onde é possível conseguir cavalos. não é. incólume. tiveram dificuldade em seguir a cauda voadora de seu cavalo. um bom representante dessa silenciosa mas ativa. C H E S T E R T O N — Silêncio. Quando foi inteirado do assunto. Quando. K. Renard era um homem alegre. Que barulho é Por um segundo todos ficaram tão imóveis como estátuas eqüestres. enxergaram. com o sólido ceticismo francês. que não . Dr. Não creio que êle o fizesse. disse com brandura o Coronel. Asseverou. Renard habitava uma confortável mansão no alto de uma ladeira. a sólida crista verde da colina que se alteava acima de todos os telhados da cidade. Depois. ordenou Syme subitamente. à sua porta. de barbas castanhas. escutaram pela estrada aquela indescritível vibração que só significa uma coisa: cavalos! O rosto do Coronel transformou-se instantaneamente. que tem automóvel. eles apearam dos cavalos. varada pela estrada branca. e por um segundo — por dois ou três ou quatro segundos — o céu e a terra pareceram igualmente imóveis. O Coronel guardou silêncio por um instante. Preparar para receber carga de cavalaria! — Onde é que terão conseguido os cavalos? perguntou Syme enquanto mecanicamente instigava o corcel a um meio galope. — Pegaram-nos. Ao constatar que a estrada ainda estava deserta respiraram aliviados e tocaram a campainha. todos os seus ouvidos. disse com breve ironia militar. Ao pronunciar estas palavras. Não é possível. nessas vinte milhas. Depois falou constrangido: — Fui estritamente exato quando disse que o "Soleil d'Or" é o único lugar. galopou para a esquina e enfiou pela rua com tão fulminante velocidade que os outros. Essa é mais uma boa razão para procurarmos o meu amigo Renard.classe profissional que a França soube preservar melhor que a Inglaterra. agoniados de atenção. — Não! bradou Syme violentamente. com todos aqueles cabelos brancos! — Talvez tenha sido coagido. como se um raio o tivesse tocado. deixando-o.126 esse? G. Dr. Eles devem ser pelo menos uma força de cem homens. que já corriam à desfilada.

parando-o diante da casa do Dr. sorrindo afàvelmente. e concluiu. disse Dr. Um cavalo. — Agora ou nunca. mas à frente da coluna voava um ginete. Ou eles se tinham demorado mais do que imaginavam. Vamos até à garagem. cuja casa era como o Museu de Cluny. Na verdade. ou algum inusitado dossel de nuvens se armara sobre a cidade. apontando por cima do ombro do outro. disse o Coronel. Mas Deus permita que a loucura nunca perturbe a amizade. em essência. Buli. a tropa se mantinha coesa. Fora da escura garagem espantaram-se ao ver que o crepúsculo já havia descido com a presteza da noite nos trópicos. agora. o grosso da cavalaria formava um único bloco. Observaram que apesar de cavalgar velozmente. O negro quadrado era. Havia. A despeito da distância. — Não. Com dificuldade trouxeram-no para a rua. Ouço cavalos. Isso é infantilidade? Todos volveram o olhar e avistaram um arco de negra cavalaria transpondo o cimo da encosta com todo o ímpeto de Átila. tendo os gostos simples da classe média francesa. Possuía três automóveis. e que as negras máscaras da primeira fila avançavam com a mesma regularidade de uma linha de uniformes. Dr. mas você pode emprestar-me seu automóvel agora mesmo? — Estou desconfiado que vocês estão todos loucos. Baixando a vista pelas ruas ladeirosas pareceu-lhes que uma aligeirada neblina subia do mar. parecia usá-los muito raramente. encolhendo os ombros: — Anarquia é infantilidade! — Et ça. — Lamento interromper uma discussão erudita. mas. embora avançasse com rapidez cada vez maior. disse Dr. porém. Quando seus impacientes amigos foram examiná-los. ressaía em sua figura algo tão fantástico e tão inconfundível que prontamente identificava o Secretário. uma diferença nitidamente visível na rampa da encosta como num mapa inclinado. bradou de repente o Coronel. Renard. perderam uma porção de tempo para certificar-se de que um dos três poderia funcionar. . emendou o Professor. o mesmo de antes. Renard era um homem bonachão e monstruosamente rico.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 127 havia probabilidade imaginável de um levante geral anarquista. cujos movimentos frenéticos de mãos e calcanhares fustigando o cavalo talvez induzissem a pensar que êle não era o perseguidor e sim o perseguido. Renard.

Syme debruçava-se tenazmente sobre a roda do volante. mas o de um ginete que disparara à frente dos demais: o insano Secretário. semi-religioso. — Temos. CHESTERTON E enquanto escutavam. Obviamente era uma antigüidade e parecia que seu uso original fora. K. Era o Secretário. não era o de uma cavalgada. fazendo uma esplêndida curva. possuíra outrora um carro. dentro do qual a turma se amontoara. dentro da qual havia uma lâmpada. e o carro partiu. Com meu melhor amigo. — Arranjei-a onde arranjei o carro. aventou Dr. de certo modo. O carro arrastou-o violentamente umas vinte jardas e deixou-o estendido na estrada. Quando o carro dobrou a esquina. surgiu na esquina com a velocidade e a rigidez de uma seta. Não havia ruído nenhum além do rumor dos outros perseguidores que invadiam a cidade. e do fundo do cano suspendeu uma pesada lanterna de ferro. No mesmo instante um homem retesado. Aplicou toda a sua força numa alavanca e depois disse tranqüilamente: — Receio que êle não ande. Saltou imediatamente para o assento do chofer e. parou na frente e colocou a mão no motor. e sua boca se retificara na solenidade do triunfo. montado num cavalo veloz. É pena que não tenhamos uma lâmpada neste carro para iluminar o caminho. como a maioria daquelas que findam na pobreza. Trazia um sorriso que alongava o queixo como se este se tivesse deslocado. tornou-se-lhes evidente que aquele ruído. respondeu o Coronel. com o rosto afogueado. e Syme sabia tudo acerca de automóveis. Súbito rebentou um estridor de ferros entrechocados. disse por fim o Professor em voz baixa.128 G. afirmou o Coronel. esculpida e fora de uso. avizinhando-se cèleremente nas pedras retumbantes. sim. A família de Syme. — Onde você a arranjou? perguntou o Professor. viram os outros anarquistas aglomerando-se na rua e erguendo o chefe caído. tentou pôr em movimento o desusado maquinismo. rindo por entre os dentes. Enquanto . — Penso que vai haver tempestade. O Secretário foi arrancado da sela como uma faca lançada para fora da bainha. pois num de seus lados figurava um rude ornato em forma de cruz. Buli. diante do cavalo espavorido. Passou raspando pelo carro estacionado. — Não compreendo porque está tão escuro.

Deus queira que cheguemos lá em dez minutos. disse eu. — Somente certas luzes me deixam mais alegre. Havia uma certa alegoria da situação deles no contraste entre o moderno automóvel e a estranha lâmpada eclesiástica. Buli voltou-se para o novo detetive e permitiu-se um de seus sorrisos naturais e amigáveis. — Não. Enquanto conversavam* o Professor inclinou-se para a frente com repentina inquietação. "Acho". Do teto. pendia esta lanterna. Sem perda de tempo. as janelas das casas começavam uma a uma a iluminar-se. Entregou-me então a lanterna e eu coloquei-a no carro. Agora. uma das cem preciosidades de sua preciosa casa. encontrando no máximo um ou dois pedestres que não lhes podiam dar idéia da paz ou da hostilidade do lugar. Dr. Pensei que os tínhamos vencido. Haveremos de ver. arrancou a lâmpada do lugar. Toda a cidade combateria do lado deles. replicou o outro com a mesma simplicidade. Então todo o efervescente bom senso e otimismo de Buli explodiu: — Mas isso é um alucinado disparate! exclamou. e pendurou a pesada lanterna na frente do carro. Até aqui tinham passado pela parte mais quieta da cidade. Êle ergueu os olhos. então você está mais louco do que um verdadeiro anarquista. Se resolvêssemos enfrentar aqueles sujeitos toda a cidade combateria do nosso lado. creio eu. Não tinha eu razão de dizer que o Dr. subi ligeiro a escadaria e falei com Renard. presa por magníficas cadeias de ferro. — Que barulho é esse? perguntou. como vocês se lembram. piscando amàvelmente para a primorosa abóbada do vestíbulo. que. disse êle. pois não! confirmou Syme seriamente. — Os cavalos atrás de nós. O Inspetor Ratcliffe franziu a testa. "que não há tempo para conseguir uma lâmpada". Se você supõe que essa gente simples é anarquista. Renard merecia ser conhecido? — Tinha. produzindo uma sensação maior de acolhimento e humanidade. disse o Coronel. estava de pé no átrio. e são aquelas luzes da delegacia de polícia que estou vendo no outro lado da cidade. — Essas luzes deixam a gente mais alegre.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 129 aqui o nosso Syme lutava com o volante. . entretanto. rachando os painéis e derrubando dois vasos azuis com sua violência.

Em pouco tempo chegaremos lá. disse. — Logo todos vocês acreditarão. superextraordinário! — Uma pessoa rabugenta. no fim da rua. Nunca chegaremos lá. — Pode ter sido coagido. retome as suas considerações. Se não estou enganado. quando. Mal concluíra o Professor. não posso acreditar. Não são cavalos. sugeriu Ratcliffe calmamente. que o Coronel rompeu bruscamente: — Não. O Professor ergueu-se empalidecido e jurou que eram os outros dois automóveis da garagem do Dr. . deixando atrás de si uma flutuante nuvem de alva fumaça. Mas me parece que aquelas luzes acolá. — É extraordinário. Coronel. Renard. Syme ouviu sibilar uma bala.. à frente deles. repetiu com os olhos esgazeados. — Não é necessário interromper a conversa. perscrutando a rua. Foi interrompido por um estampido e um lampejo bem perto de seus olhos. Circunvagava os olhos. — Deus meu! bradou o Coronel. passaram num abrir e fechar de olhos dois objetos brilhantes e rumorosos. você falava do singelo povo de uma pacata cidade francesa.130 G. retorquiu o outro numa desesperada serenidade. disse o sombrio Ratcliffe. Sumiram num segundo. — O que é que você quer dizer? inquiriu Buli incisivo. Quando o carro partiu cèleremente. Estavam cheios de mascarados! — Absurdo! vociferou o Coronel. no fim desta rua. Toda a cidade está do lado deles. Por favor. O estupefato Coronel não estava mais para motejos. — Você ainda acredita nisso? perguntou incrédulo o Coronel. O singelo povo de uma pacata cidade francesa. Renard nunca lhes daria seus carros. Isso é puro despropósito. — Não. disse o Inspetor Ratcliffe. Voltou a sentar-se e alisou a estirada cabeleira com um gesto de fadiga. Dr. K. Alguém nos alvejou. — Eram os dele. poderia achar desagradável.. são da delegacia. Por alguns instantes estabeleceu-se uma pausa embaraçosa. disse Syme. C H E S T E R T O N — Cavalos? Nunca! redargüiu o Professor. mas todos viram que eram automóveis. Tinha-se levantado para devassar a distância. nem estão atrás de nós.

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— O que eu quero dizer é que nunca chegaremos lá, respondeu plàcidamente o pessimista. Eles já atravancaram a estrada com dois pelotões armados. Vejo-os daqui. A cidade está em pé de guerra, como eu predisse. Resta-me somente aninhar-me no conforto sutil de minha própria certeza. E Ratcliffe, acomodando-se confortàvelmente, acendeu um cigarro, enquanto os outros se punham excitadamente de pé e examinavam a estrada. Syme diminuíra a marcha do carro ao sentir que seus planos se tornavam inexeqüíveis e, por fim, parou-o na esquina de uma rua que descia a pique para o mar. Quase toda a cidade estava recoberta de sombras, mas o sol ainda não se tinha posto; por onde se derramava seu fulgor esfatiado, todas as coisas se coloriam de ouro flamante. Sobre o alto dessa rua transversal o derradeiro clarão do ocaso incidia tão agudo e estreito como um raio de luz artificial no teatro. Batia no carro dos cinco amigos, transformando-o numa carruagem fulgurante. Mas o resto da rua, especialmente nas duas extremidades, imergia no mais profundo crepúsculo. Por alguns segundos nada puderam ver. Depois, Syme, cujos olhos eram os mais penetrantes, rompeu num curto e amargo assobio, e a juntou: — É verdade. Uma multidão, ou um exército, ou seja lá o que fôr, está reunido no fim daquela rua. — Bem, se é assim, disse Buli impaciente, deve haver um outro motivo: um combate simulado, o aniversário do prefeito, ou coisa semelhante. Não posso e não quero crer que a gente simples e alegre de um lugar como este ande com os bolsos cheios de dinamite. Avancemos um pouquinho, Syme, e olhemos isso de perto. O carro havia percorrido lentamente umas cem jardas quando todos se surpreenderam com uma gargalhada do Dr. Buli. — Vejam, seus bestalhões! berrou. O que foi que eu disse? Essa multidão é tão obediente à lei como uma vaca. E se não é, está do nosso lado. — Como é que você sabe? perguntou espantado o Professor. — Você é cego como um morcego, berrou Buli outra vez. Não vê quem os comanda? Espreitaram de novo, e então o Coronel, com um tremor na voz, gritou: — Ora, é Renard!

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G.

K.

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De fato, não se podiam distinguir claramente os vultos pardacentos que se agitavam na estrada; entretanto, mais adiante, num ponto iluminado, via-se, passeando acima e abaixo, o inconfundível Dr. Renard, de chapéu branco. Sua mão direita afagava as compridas barbas e a esquerda segurava um revólver. — Que louco eu fui! exclamou o Coronel. Naturalmente o meu velho amigo veio ajudar-nos. Dr. Buli, borbulhando gargalhadas, brandia levianamente a espada, como se ela fosse uma bengala. Saltou do carro e saiu a correr, gritando: — Dr. Renard! Dr. Renard! Um segundo depois, Syme julgou que seus próprios olhos enlouqueciam dentro de sua cabeça. Pois o filantrópico Dr. Renard acintosamente apontara o revólver contra Buli e fizera dois disparos que atroaram a estrada. Quase no mesmo instante em que a espiral de branco fumo se desprendeu dessa lastimável detonação, uma longa espiral de branco fumo também se desprendeu do cigarro do cínico Ratcliffe. Este empalidecera como os outros, mas sorria. Dr. Buli, a quem as balas tinham sido dirigidas e que por üm triz não foi escalpado, parou tranqüilamente no meio da estrada, sem dar sinal de medo. Depois virou-se lentamente, caminhou para o carro e subiu, trazendo dois buracos no chapéu. — Bem, disse sossegadamente o fumante, que é que você pensa agora? — Penso, respondeu Dr. Buli sem titubear, que estou dormindo em Peabody Buildings 217 e que daqui a pouco acordo e dou um pulo da cama; ou então, penso que estou sentado num cubículo almofadado de Hanwell e que o médico nada mais pode fazer no meu caso. Mas se você quer saber o que eu não penso, vou lhe dizer. Não penso o mesmo que você pensa. Não penso e não pensarei nunca que a massa de homens comuns seja um amontoado de ignóbeis pensadores modernos. Não, meu caro, sou um democrata e ainda não creio que Domingo possa converter um escavador ou um caixeiro. Não! Posso estar louco, mas a humanidade não está. Syme dirigiu para Buli seus claros olhos azuis, com uma seriedade que comumente não manifestava: — Você é um sujeito excelente. Acredita que a sensatez não é um privilégio exclusivamente seu. E tem toda (razão no que toca à humanidade, aos camponeses e a pessoas como aquele velho e simpático estalajadeiro. Mas não tem razão no

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que toca a Renard. Suspeitei dele desde que o vi. Ê racionalista e, o que é pior, rico. Se o dever e a religião têm que ser destruídos, hão de ser destruídos pelos ricos. — E agora já estão realmente destruídos, disse o homem do cigarro, erguendo-se com as mãos nos bolsos. Os diabos se aproximam. Os ocupantes do automóvel seguiram ansiosamente a direção do olhar cismarento de Ratcliffe e viram que todo o regimento investia sobre eles desde a ponta da rua. Dr. Renard, furioso, marchava na frente, a barba voando na brisa. O Coronel pulou para fora do carro, soltando uma exclamação de impaciência. — Senhores, vozeou, isso é incrível! Deve ser brincadeira. Se conhecessem Renard como eu conheço... É como chamar a Rainha Vitória de dinamiteira. Se vocês guardassem na mente o caráter desse homem... — Dr. Buli, atalhou Syme sardônico, guarda-o pelo menos no chapéu. — Digo-lhes que isso não é possível! berrou o Coronel, pateando que nem um louco. Renard explicará tudo. Êle vai explicar-me, sim. E a passos largos foi para diante. — Não tenha tanta pressa, disse preguiçosamente o fumante. Em breve êle nos explicará tudo. Mas o sôfrego Coronel já não o ouvia e caminhava para o inimigo avançador. O exaltado Dr. Renard outra vez apontou a arma, mas, reconhecendo o adversário, hesitou. O Coronel avizinhou-se dele, fazendo uns gestos frenéticos de admoestação. — É inútil, disse Syme. Nada conseguirá daquele velho idolatra. Proponho que a gente meta o carro no meio deles, de surpresa, como as balas que vararam o chapéu de Buli. É possível que nos matem, mas nós também mataremos um bom número deles. — Não topo isso, não, disse Dr. Buli, tornando-se mais vulgar na sinceridade da sua virtude. Esses pobres camaradas podem estar enganados. Demos uma oportunidade ao Coronel. — Devemos voltar, então? perguntou o Professor. — Não, respondeu friamente Ratcliffe. A outra ponta da rua também está guarnecida. Parece-me até que vejo lá outro amigo seu, Syme.

sorrindo pàlidamente. K. com catastrófico rangido. No instante seguinte quatro homens abriam caminho por entre os destroços metálicos. o brilho prateado de uma espada e. Um segundo depois o automóvel esbarrou. Enquanto conversavam. — Você está se tornando anarquista. alguma coisa destruímos. fêz outra volta e. Viu. — Todo mundo já o é. doido estou eu. o brilho prateado dos cabelos de um ancião. Syme apanhou uma espada e agarrou-a nos dentes. CHESTERTON Syme habilmente fêz a volta e deu uma olhada para o caminho percorrido. . respondeu Syme. o cavaleiro encanecido e seus sequazes avizinhavam-se tonitruantes.134 G. enquanto. como um homem que só desejasse morrer. Avistou. corado pela ardente inocência do rubor crepuscular. — O mundo está doido! exclamou . — Não.o Professor e enterrou o rosto nas mãos. agarrando-lhe o braço. num objeto de ferro. um troço irregular de cavalaria. O que não deixa de ser um consolo. disse Ratcliffe. pouco depois. — Bem. — Neste momento. galopando ao seu encontro na escuridão. — Que diabo é isso? bradou o Professor. e quase simultaneamente uma escura multidão corria gritando ao longo da avenida. sobre a sela da frente. disse Syme. que antes se erguia desempenado à margem da avenida litorânea. impelido por seu instinto de elegância. lançou precipitadamente o carro na ladeira que ia dar no mar. — Caiu a estrela da manhã. sacudia o pó da roupa. Num instante. — Que vamos fazer? perguntou o Professor. vamos despedaçar-nos de encontro a um poste de luz. comentou o Professor. prendeu duas outras debaixo dos sovacos. segurou uma quarta na mão esquerda e com a lanterna na mão direita pulou para a praia. quedava-se agora curvado e retorcido como o galho de uma árvore abatida. mas quando relancearam os olhos para o alto viram a cavalaria inimiga dobrando a esquina e descendo a ladeira. enquanto o carro se despencava pela escuridão como uma estrela cadente. Buli com adamantina humildade. Os outros não lhe entenderam as palavras. disse Dr. com tremenda violência. disse Syme com científico desprendimento. na vanguarda cavalgava o honesto estalajadeiro. e um poste comprido e fino.

e toda a massa negra começou a escorrer e pingar da calçada como negro melaço. naquele quebra-mar. — Tolice! exclamou Buli desesperado. Tomaram por um extenso e raso molhe que se lançava num braço do mar negro e encapelado. Em toda a extensão da avenida atropelava-se uma turva e estrepitosa corrente de seres humanos. — Temos mais uma oportunidade.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 135 Os outros pularam depois dele. Entre os primeiros tipos da praia Syme reconheceu o aldeão que os transportara na carroça. poderemos resistir tanto quanto Horácio na sua ponte. Mas ali. após um ou dois segundos. Os outros seguiram-lhe os passos na rangente areia e. acho que a delegacia de polícia nos ajudará. disse Syme tirando a espada da boca. era só alvoroço. não os seixos da maré. deixando para trás os escombros e a turba reunida. A cidade se transfigurara. Na cidade deve ter ficado muita gente que é humana. mas lajes grandes e chatas. mas não sabiam por quê. eles pressentiam. Eles não se levantam desde a Idade Média. A comprida e escura fileira estava ponteada de archotes e lanternas. com os braços agitados e os rostos ferozes. — Ainda que a polícia chegue agora. que pareciam pequenos e negros como macacos. pularam da calçada e caíram na praia. no perfil mais longínquo e no gesto mais indefinido. Como eles já haviam feito. Voltaram-se e contemplaram a cidade. suas botas pisavam. — O camponês! berrou Syme. nada pode fazer com essa multidão. e quando chegaram ao fim do paredão sentiram que haviam chegado ao fim de suas aventuras. Seja qual fôr o sentido de todo este pandemônio. tentaram estabanadamente ganhar o mar. Não podemos alcançá-la porque eles guardam o caminho. dois ou três sujeitos. em solidário acatamento à decisão. Gritando horrivelmente e sulcando a areia frouxa. montado num possante cavalo de tiro. O exemplo foi seguido. . brandindo um machado. disse melancòlicamente o Professor. Chafurdava na ressaca. Evidentemente eram malditos entre todos os homens. Temos de resistir até que venha a polícia. mas mesmo onde nenhuma chama alumiava uma cara enfurecida. a encará-los ameaçadoramente. Sigam-me. um ódio organizado. e ameaçava-os.

dançando de alegria. — Pode ser. O ser humano em breve se extinguira. — Apontaram as carabinas. disse o desencantado Inspetor. — Sim. Em meio a suas palavras soou um demorado crepitar de fuzilaria e. — Não. — Estão carregando sobre a multidão! gritou Buli entre extasiado e alarmado. porém. oh Caos devorador! Morre a Luz sob teu verbo assolador. não é mesmo? Mr. disse Buli convictamente. Que baixes a cortina. — Estou mesmo no cubículo. Houve um longo silêncio. bradou Buli. disse Syme. as balas saltitaram nas pedras como saraivas. falou: — Que importa saber quem está louco ou quem está lúcido? Daqui a pouco estaremos todos mortos. disse Ratcliffe. Somos os últimos espécimes da humanidade.136 G. divina ou maculada. Nenhuma luz. De fato. Ratcliffe. disse o Professor distraidamente. estão formados na avenida. e vão dispará-las contra nós. Então. grande Anarca. diante deles. Syme voltou-se para êle e perguntou: — Você está completamente desesperado. Fulge em teu Reino. riscando e ofuscando as janelas iluminadas. Os gendarmes vêm aí. Ratcliffe guardou um mutismo pétreo. na delegacia de polícia cruzavam-se vultos diligentes. ao fim de alguns instantes. pública ou privada. K. — Os gendarmes uniram-se a eles! exclamou o Professor e deu uma palmada na testa. Surja a treva total. e do centro da escuridão vinha o ruído seco e metálico de uma disciplinada cavalaria. CHESTERTON — Não. que o mundo abarca! — Silêncio! gritou Buli de repente. respondeu calmamente: . olhando para o encrespado mar purpúreo-acinzentado. Depois acrescentou com sua voz sonhadora: O que é que está escrito no fim da Inepcíada de Pope? Nenhuma chama.

— Ouvi o que você disse. — Não podemos abandoná-lo no meio dessas feras. — Não. O clarão de uma lanterna iluminou casualmente os rostos dos dois primeiros. disse o Professor. É verdade. Muitos dos perseguidores. Todos os. disse Syme em voz baixa. Morramos como cavalheiros s e . .. volveu-se para os outros e gritou como se despertasse: — Onde está o Coronel? Pensei que estava conosco! — O Coronel! repetiu Buli. haviam entrado na água. Contudo. . — Compreendo. disse Ratcliffe com um pálido sorriso de desdém. que estava como que enlevado em visões introspectivas. O homem do quarto escuro. dois ou três alcançaram o início da passagem de pedra e pareciam adiantar-se cautelosamente. De repente. . falou o Professor. mas eu não estou completamente desesperado. foi o único homem que Domingo achou duro de morrer. não. respondeu o outro. — Em que ou em quem se baseia sua esperança? perguntou Syme curioso. não! bradou Syme impaciente. de costas. sob a qual a boca se contorcia com tal demência nervosa que a moita preta da barba se enrodilhava continuamente. Syme. — Não tenha pena do Coronel. — Num homem que nunca vi. Ê muito estranho. bradou Syme. fitando o plúmbeo mar. nesse caso. — Talvez. Mas a esta hora já deve ter sido assassinado por Domingo. como se fosse um ser vivo e inquieto. Êle está bem acomodado. O Coronel também? não! Não acredito! — Acredita em seus próprios olhos? perguntou o outro e apontou para a praia. e me espanta que sobreviva esta tola esperança. Mas. disse o outro com firmeza. sacudindo os punhos. Ambos se consultavam gravemente. Também estou agarrado a uma coisa que nunca vi. Um desses rostos trazia uma meia máscara preta. Está. O outro era o rosto vermelho e o bigode branco do Coronel Ducroix.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 137 — Não. Resta ainda uma vaga e louca esperança que não me sai da cabeça. que é feito do Coronel? — Tinha ido falar com Renard.. podêres deste planeta estão contra nós. mas o mar bravio impedia-os de chegar ao molhe.

Porque esta velha lanterna cristã você não destruirá. onde ela fulgurou como um foguete e afundou. e suspendeu a lanterna com um gesto tão rígido e tão arrasador que o outro gelou por um momento e foi forçado a escutar. êle também. Sinto que minha mão pode erguer-se e bater-me. É chegada nossa hora de morrer. disse o Professor e sentou-se numa pedra. Está vendo a cruz gravada fora e a lâmpada queimando por dentro? Não foi gravada por você. saiu pelo molhe ao encontro do Coronel. Em seguida virou-se para o Secretário cuja boca medonha estava quase espumando. que desde o . Homens melhores do que você. modelaram as entranhas do ferro e preservaram a legenda do fogo. A espada de Syme estava partida. Ela irá para onde o seu império de macacos jamais saberá encontrá-la. fazendo-o cambalear. Carreguemos sobre esses cães. destruirá o mundo. K. partindo-a rente à guarda. voltando o rosto inflamado para seus amigos. O tiro não atingiu Syme. Os três companheiros seguiram-no de espada em punho. Como se quisesse dissipar a derradeira esperança ou a derradeira dúvida. Não há uma rua por onde você anda. — Está vendo esta lanterna? bramiu Syme numa voz terrível. ao divisá-lo. disse Syme. mas contente-se com isso.138 G. doido! Não posso confiar no maquinismo de meu corpo. o Coronel. CHESTERTON — Sim. será para bater em outro. Tudo doido. E bateu uma vez com a lanterna no Secretário. — Quando minha mão se erguer. Destruirá a humanidade. não há um fio das roupas que você veste. arrancou-lhe um cacete das mãos. Você não sabe fazer nada. Syme arremessou-se e deu com a lanterna de ferro na cabeça do Coronel. — Judas perante Herodes! gritou e derrubou o Coronel nas pedras. Num momento eles se teriam arrojado para a multidão e perecido. apontou e disparou o revólver. E eu. Você só sabe destruir. lançando por terra um pescador. homens que podiam crer e obedecer. para negar sua filosofia de estéreo e ratazanas. depois. rodopiando-a duas vezes em volta da cabeça. que não tenha sido feito como esta lanterna. mas êle. E segurando numa das mãos a espada e na outra a lanterna. sacudiu-a no mar. e sim a espada. O Secretário. — Espadas! bradou Syme. mas foram sustados por uma alteração. Não foi acesa por você.

Éramos todos um magote de policiais idiotas vigiando-nos uns aos outros. disse o Secretário. membros do Supremo Conselho Anarquista. — Deve haver algum engano. — Da lei.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 139 discurso de Syme jazia como desacordado. Sei disso. apoiando na mão a cabeça ferida. Disfarçado como um de vocês. arrancou subitamente sua máscara preta. sim. . vocês são. — Vocês. dirigindo um olhar radiante para a enorme turba que se espalhava ao longo da praia. . revelava menos raiva que estupefação. — Nunca houve nenhum Supremo Conselho Anarquista. Dr. O pálido rosto. eu que sou uma pessoa comum. Bem. bradou. disse êle. Eu sabia que não podia estar enganado com as multidões. O Secretário levantou a mão com impaciente autoridade. Mr. como é do meu conhecimento. agora vou para a terra. — Da lei? disse Syme deixando cair o cacete. — E o que é que você pensa que nós somos? inquiriu o Professor lançando os braços para o alto. Sou detetive da Scotland Yard. E todo esse povo excelente que tem estado a azucrinar-nos com seus tiros pensava que éramos os dinamite iros. e u . As pessoas comuns nunca são loucas. Buli atirou sua espada ao mar. Pago um trago para todos. e tirou do bolso um cartãozinho azul. parece-me que você não se compenetra de sua situação. Syme. Está preso em nome da lei. assim desnudado e exposto à claridade das lâmpadas. disse firmemente o Secretário. . acrescentou Buli.

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que diabo era que êle tinha feito? Sobre isso o Inspetor Ratcliffe se conservava pessimista.CAPITULO XIII A PERSEGUIÇÃO DO PRESIDENTE Ao amanhecer. Mas acima de todas essas questões. Mas há uma coisa: Domingo pode ser o que quiser. elevava-se a montanha central da questão que eles não sabiam explicar. Os cinco reconciliados detetives tinham uma centena de ponnenores a esclarecer entre si. Diabos o levem! Vocês se lembram da cara dele? — Confesso. disse o Secretário. . pois amanhã é dia de nossa reunião. O pobre Coronel podia ter alguma razão para queixar-se. que nunca pude esquecê-la. Acho que muito breve desvendaremos tudo. Para mim. diss» êle. confortado pela evidência de que as duas partes nada tinham a ver com dinamite. despediu-se deles no molhe com muita afabilidade. esse joguinho de Domingo não tem pé nem cabeça. O Secretário contou a Syme que foram obrigados a usar máscaras a fim de se aproximarem do pretenso inimigo como companheiros de conspiração. de minúcias facilmente explicáveis. Que significava tudo isso? Se eles eram inofensivos detetives. primeiro por ter sido levado a combater por duas facções que não existiam e depois por ter sido derreado por uma lanterna. mas era um cavalheiro magnânimo e. cinco sujeitos desconcertados mas risonhos tomaram o barco para Dover. Syme expôs o motivo que os instigou a fugir tão desabaladamente através de um país civilizado. — Estou na mesma situação de vocês. respondeu Syme. o que era Domingo? E se Domingo não capturara o mundo. menos um cidadão inocente. — Está bem.

Buli. — Creio que você tem razão. Expulsaram-me como espião. Entretanto. Buli logo se aboletou e pôs-se a cantar. em cuja boléia Dr. E puxou por um relutante cotovelo o mesmo jovem que cinco dias antes saíra do Conselho com seus ralos cabelos vermelhos e um rosto pálido. — Oj>cabeludo. CHESTERTON Desculpem-me. que a princípio tentara silenciá-lo. — Vamos tomar um trago. Tenho medo de que êle me diga quem é. . Acabaram a jornada num hotel de Piccadilly Circus. viuse por fim obrigado a escutá-lo com renovada atenção. disse Dr. de estar tão compenetrado dos meus deveres de Secretário. atroando o vestíbulo com seus berros. de maneira a estarem perto de Leicester Square quando amanhecesse. retrucou o Professor. — Quem? perguntou Syme de pronto. Gogol! Ei-lo aqui. — Trouxe para cá? Mas quem? tornou Syme impaciente. fêz o possível para persuadir os outros a tomarem em Vitória o mesmo fiacre. Buli. Buli. mas instintivamente tratavam de permanecer juntos. Dr. não. refletiu o Professor. que fora sempre o otimista do grupo. ao fim de uma pausa. — Todos somos espiões! sussurrou Syme. não ando tão azarado assim. saíra do hotel por volta das onze horas a fim de ver e admirar algumas das belezas de Londres. — Por que vocês me importunam? bradou o recém-chegado. homem. descontente com a determinação geral de ir para a cama.142 G. convidou Dr. Tem medo de bombas? — Não. Não ando tão azarado. Não foi o Presidente!?! — Não. Buli com pesada ênfase. mas confesso que recearia perguntar a Domingo quem êle é. mas eles rejeitaram a proposta e partiram num côche. K. as aventuras do dia ainda não estavam encerradas. Durante toda a viagem. Suponho que êle mesmo desvendará tudo para nós. Buli com uma risadinha desnecessária. de barco e de trem. Eu o trouxe para cá. — Eu o vi! Garanto-lhe que o vi! exclamou Dr. — Por quê? inquiriu o Secretário. Syme. vinte minutos depois estava de volta. acrescentou com um sorriso pavoroso. Dr. eles se mostraram imensamente sociáveis. Contudo. O sujeito que bancava o homem cabeludo. respondeu o outro lücidamente. o primeiro de todos os falsos anarquistas a ser descoberto.

Em silêncio eles entraram na praça e. Mas todos os seus conselheiros. ou deviam levá-lo a deflagrar a pólvora de uma vez? Por influência de Syme e Buli prevaleceu o último alvitre. subiram silenciosos a escada escura até que se acharam ao mesmo tempo sob a ampla claridade do sol da manhã e sob a ampla claridade do sorriso de Domingo. os olhos pregados num jornal. o Secretário quis saber porque os dois pretendiam atacar Domingo tão temeràriamente. Não lhe trago notícias de espetáculos tão desagradáveis. — Parece-me que é mais esquisito que divertido. sentado. — Isso é muito divertido. Buli? O Secretário ficou um momento embaraçado e o Presidente prosseguiu num tom de leve censura: . — Meus motivos são muito simples. com a cabeça inclinada. Seis homens vão perguntar a um homem o que êle é. Que dia maravilhoso! E o Czar? Morto? O Secretário. comentou Dr. cruzaram a praça como se do céu centenas de olhos os observassem. senhor. respondeu severamente. — Encantado! disse este. Que são espetáculos desagradáveis? Os óculos de Dr. que se adiantara. viram num relance a minúscula varanda e um vulto que parecia grande demais para ela. Venha tomai um trago. Estava só.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 143 — Todos somos espiões! gritou Dr. De manhã. — Espetáculos desagradáveis? repetiu o Presidente. Parece-me que seis homens vão perguntar a um homem o que eles são. Buli. Buli. o batalhão dos seis aliados rumou impassível para o hotel de Leicester Square. empertigou-se para exprobrá-lo com dignidade. que vinham com o propósito de destituí-lo. com um sorriso radiante e inquiridor. Não houve carnificina. embora o hotel estivesse localizado no canto oposto. explicou Syme. — Não. Sem embargo. Seguindo os passos de Syme. disse Syme. Haviam disputado demoradamente sobre a política que iriam seguir: deviam deixar de fora o desmascarado Gogol e começar diplomaticamente. Tenho muito prazer em vê-los. Pretendo atacá-lo temeràriamente porque tenho medo dele.

Pois eu lhes digo que é mais fácil descobrir a verdade oculta na última árvore e na nuvem mais altaneira do que descobrir o que eu sou. Se desejam saber o que são. você que é um poeta. K. e eu permanecerei um enigma. como um enorme vagalhão a pique de arquear-se e rebentar sobre eles. saberão o que são as estrelas. De fato. e pouco a pouco elevou-se a uma altura inacreditável. . — A meu ver é o tipo da cara que pode florescer numa pessoa. — Dos candidatos. Syme. o que é esta mesa. murmurou Domingo.. Você o que é? — Eu? Que sou eu? rugiu o Presidente. disse êle. vocês querem que eu lhes diga o que sou e o que são vocês. Viemos saber o que significa tudo isso. mas eu não sou. Olhe para minha cara. atreverme-ei a rasgar o véu de um destes mistérios. cave em torno das raízes dessas árvores e descubra a verdade que elas escondem. Entenderão o mar. Pois bem. o que é este Conselho e o que é este mundo. esbravejou selvagemente o Secretário. avançando. legisladores. Tanto quanto pude entender. Buli atirou os óculos na mesa. Quem sabe? — Não temos tempo para frioleiras. CHESTERTON — Naturalmente todos temos direito a nossas opiniões e até a nossos olhos. disse o Presidente.144 G. você. poetas. direi que são um bando de asnos moços e sumamente bem intencionados. contemple e interrogue essas nuvens matutinas. mas não saberão o que eu sou.. — E você? perguntou Syme. — Meus óculos são indecentes. e os céus se despenharão no dia em que me vir em apuros. ou um esperto que se faz de tolo? Responda-me. quebrando-os. Quem é você? O que é você? Por que nos ajuntou aqui? Sabe quem somos e o que somos? É você um excêntrico que se faz de conspirador. E quem sou eu para altercar com os frutos silvestres sobre a Árvore da Vida? Pode ser que um dia ela floresça em mim. mas na realidade considerá-los desagradáveis diante daquela pessoa que. todas as igrejas e todos os filósofos. Dr. Desde o começo do mundo todos os homens têm-me caçado como se caça um lobo: reis e sábios. exige-se apenas que respondam oito dos dezessete quesitos do questionário. que é um homem de ciência. De todos tenho escapado e a todos tenho confundido. floresce em você. Querem saber o que eu sou? Querem? Buli. enfim. Nunca me agarraram. E agora farei a mesma coisa.

Tudo isso teve influência sobre o cocheiro do Presidente. saltando tão desastradamente que quase quebrava as pernas. Mas Syme. fêz um sinal para um fiacre e pinotou para dentro. pondo-se êle mesmo de pé na boléia. se dependurara na balaustrada da varanda. até que as multidões acorreram e os guardas começaram a deter as pessoas e a interrogá-las. Os três outros fiacres perseguiam-no (se a comparação é válida para fiacres) como galgos arquejantes. encalçava o voante Presidente. deu de açoitar o cavalo e bramir com todas as forças. justamente a tempo de encalçarem o voante Syme. incitava o cavalo a uma velocidade perigosa. Sou o homem do quarto escuro. enquanto o Secretário e o ex-Gogol treparam num terceiro. Os seis detetives quedaram fulminados e lívidos ao lampejo de sua última afirmação. e chamou outro fiacre. Domingo inclinou-se para a frente. gritando "Pega ladrão!". porém. de modo que passavam pelas ruas como um furacão. o senso prático de Syme espertou. segurou o chicote e arrancou-o brutalmente da mão do homem. para os lados do noroeste. fincando o queixo volumoso na balaustrada. jogou-se da varanda em baixo. Êle e Buli tomaram o mesmo fiacre. porém. Imediatamente Syme transpôs a balaustrada. por seu turno. o homem colossal. que. . Domingo levava-os. o homem que os fêz detetives. disse solenemente: — Há. o Professor e o Inspetor entraram noutro. Lojas e ruas sucediam-se como setas zunidoras. Em seguida. que não estava para contemporizações. que logo ficou apreensivo e meteu o cavalo de trote. Através de ruas e praças rodava esse disparatado veículo. pôsse de pé. Abriu a portinhola para falar ponderadamente com seu passageiro e largou o comprido chicote na boléia.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 145 Antes que qualquer dos presentes pudesse mexer-se. Mas quando o Presidente desapareceu no fiacre. nessa caçada selvagem. no qual o passageiro fustigava o cavalo e o cocheiro tentava furiosamente sofreá-lo. suspendeu-se como se praticasse numa barra horizontal e. e seu cocheiro. dando pulos elásticos no calçamento como uma desmesurada bola de borracha e aos saltos ganhou o oitão do Alhambra. como um imenso orangotango. Antes de cair. uma coisa que vou dizer-lhes acerca de minha identidade. evidentemente sob o influxo de induzimentos excepcionais. Dito isto.

pulou para o carro. . consideravelmente maior do que a mensagem. Espero que as coisas não cheguem a este ponto. Um trazia seu nome e o outro o de Dr. Todo o tráfego derivava para a direita ou para a esquerda. O sobrescrito de Dr. CHESTERTON No auge da corrida. Um carro de bombeiros não engana ninguém. pois que esta se reduzia às palavras: Que é feito de Martin Tupper agora? — Que quer dizer esse velho maníaco? perguntou Buli. Domingo saltou do fiacre. E aqui ocorreu uma interrupção que os aliados julgaram providencial. Syme? A mensagem de Syme era. especialmente depois do que disse o tio. no fim de contas. Syme apanhou-a e descobriu que ela consistia em dois papeluchos amarrotados. Não pode sumir-se agora. ou estacionava. falando ao atônito bombeiro com gestos explicativos. porque do extremo da rua vinha o ruído inconfundível do carro de bombeiros. erguendo àgilmente a mão direita. como um ouriço-cacheiro colossal. Ao seu nome juntava-se uma extensa e de certo modo irônica enfiada de letras.146 G. Conquanto instintivamente desconfiado. Então. com os dentes arreganhados. dirigiu a seus perseguidores uma tremenda careta. — Depressa! A êle! uivou Syme. Apesar de toda a velocidade. atirou uma bola de papel no rosto de Syme e recolheu-se ao fiacre. pela última vez. O cocheiro do Presidente parecia estar readquirindo certo domínio sobre seu cavalo. muito mais prolixa e rezava o seguinte: Ninguém mais do que eu lamentaria qualquer interferência do Arquidiácono. que em poucos segundos passou em disparada como um raio de bronze. sem dúvida. Que diz o seu. onde estão suas galochas? A coisa está preta. e os perseguidores estavam mais próximos quando enveredaram por Edgware Road. subiu. Buli era. aprumou-se e foi visto. encarando o papel. Domingo voltou-se no guarda-lama em que se encontrava e mostrando a cara imensa. os cabelos brancos esvoaçando no vento. Mas. Buli. ao desaparecer na estrepitosa distância. K.

elegantemente dobrado. Mas não sabiam se deviam atribuir tal ato ao capricho presidencial ou aos reiterados protestos dos seus hospedeiros. espirrando e assoando os diabólicos narizes! — Naturalmente são seus cães que estão ladrando. não é isso. inclinou-se inúmeras vezes. Será a casa desse velho diabo? Ouvi dizer que êle tem uma casa no norte de Londres. enfurecido. rumo a uma região que eles não identificavam. vindo para a traseira do carro. desmontou e lançou-se também à escalada. que se tinham aturdido por um instante. O Presidente deu por essa proximidade e. — Tanto melhor. Quando tinha uma perna sobre o muro. êle. — Que lugar será este? perguntou-lhes. — Não. mandou parar seu fiacre. atirou um bilhete. leu estas palavras: Foge imediatamente. volveu para seus amigos um rosto que na sombra pareceu extremamente pálido. tornou Syme. que o Presidente saltava do veículo. como diabos rindo. antes que os três fiacres o alcançassem. Syme.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 147 Os três cocheiros. Já se sabe da verdade sobre teus suspensórios. os seis amigos viram com surpresa. Quando este cavalheiro o desenrolou. beijou as mãos e. — Um amigo. mas também com satisfação. franzindo as sobrancelhas. colocando um pé no estribo. O carro de bombeiros seguia para o norte. Contudo. não sem impaciência. Ouço os ruídos mais horríveis. — Por que não diz que são escaravelhos negros que estão ladrando?! respondeu Syme furiosamente. no peito do Inspetor Ratcliffe. alvitrou o Secretário. chicotearam seus cavalos e em breve diminuíram o espaço que os separava de sua caça fugitiva. disse sombriamente o Secretário. Ou caracóis ladrando?! Gerânios ladrando?! Você já ouviu um cão ladrar desse jeito? . Nós o encontraremos em casa. ao fim dessas mesuras. como um imenso gato pardo já havia galgado o paredão e se esvaecera na treva da folhagem. E quando passava ao longo de uma fileira de altos paredões sombreados pelas árvores.

Caíram num emaranhado de plantas e arbustos e foram sair numa vereda. — Um velho bem alto e bem gordo. disse êle.148 G. — Os cães de Domingo não devem ser cães comuns. de terno cinza. explicou o outro estranho. seus burros! Isso aqui é o Jardim Zoológico! Enquanto eles ansiosamente procuravam qualquer indício de sua caça fugidia. Os outros seguiram-no. — Escutem. disse Gogol e estremeceu. se esse velho é mesmo desse tipo. começou Syme. Buli bradou: — Ora. Isso pode ser um cão? Quem é que tem um cão dessa espécie? Rebentara um rouco alarido. Foi êle que fugiu com o elefante. — O elefante! gritou o guarda. mas subitamente Dr. Um elefante que enlouqueceu e fugiu! — Fugiu carregando um senhor idoso. E se é o inferno. acompanhado de outro homem à paisana. — Quem? inquiriu Syme. K. — Bem. Depois. se você está absolutamente certo de que se trata de um velho bem gordo e bem alto. mas ainda escutava com impaciência. arfando. CHESTERTON Levantou a mão e imediatamente subiu da mata um demorado grunhido que parecia meter-se debaixo da pele e gelar a carne — um grunhido abafado e horripilante que provocava uma palpitação no ar. O elefante que pudesse levá-lo sem que êle consentisse em fugir ainda não foi feito por Deus. lá está êle! . — A casa dele deve ser o inferno! exclamou o Secretário. Um pobre velho dos cabelos brancos. Nada lhes chamou a atenção. imitante às súplicas e clamores de seres condenados. eu vou entrar! e quase de um pulo atravessou o paredão. — Êle passou por aqui? perguntou o guarda ofegante. de terno cinza claro. pode ter a certeza de que o elefante não fugiu com êle. um som igual ao de um clarim roufenho. informou sôfregamente o guarda. longínquo como um eco. Syme já estava do outro lado. — Qual era o tipo desse velho? interrogou Syme com incontida curiosidade. ouviram. Raios o partam. um guarda uniformizado surgiu correndo no caminho.

trombeteando como a trombeta da condenação. uma multidão ululante debalde acossava um enorme elefante pardo. Cerca de duzentas jardas adiante. Êle já saiu pelo portão! E. Domingo lhes dissera que eles o entenderiam quando tivessem entendido as estrelas. de tromba empinada e rija como um gurupés. Perguntou a si mesmo porque o pelicano era o símbolo da caridade. se não queremos perder de vista o Presidente. — Façam-no parar! gritava a turba. quando era necessária muita caridade para admirar um pelicano. que era simplesmente um vastíssimo bico amarelo carregando atrás de si um minúsculo pássaro. Voltemos aos fiacres. Syme perguntava a si mesmo se os próprios arcanjos poderiam entender o bucero. pelo relvado. mas oferecia-lhes a sólida extensão de suas costas cegas. Quando corriam para o portão por onde o elefante tinha desaparecido. Os seis inditosos detetives meteram-se nos fiacres e foram no encalço do elefante. repoltreava-se o Presidente Domingo com toda a placidez de um sultão. cujo vigor não sabia explicar. de papos absurdos. com algum objeto afiado. como o menino que . Mais tarde. Syme sentiu-se deslumbrado com o panorama dos estranhos animais entrevistos nas jaulas. compartilhando do terror que êle espalhava pelas ruas. achou esquisito que os tivesse visto tão claramente. que os enlouqueciam mais do que suas anteriores chacotas. Nunca vi um elefante tão veloz.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 149 Não havia dúvida. Nesse momento. pouco antes de alcançarem Baker Street. mas. pendentes. Todavia. de passagem. Recordou-se especialmente dos pelicanos. — Deus Onipotente! bradou Buli. viramno atirar qualquer coisa para o alto. aguilhoava a fera. instigando-a a uma carreira desenfreada. — Como se pode parar um desmoronamento? disse o guarda. Êle vai sair pelo portão. Domingo não se voltava para fitá-los. Tudo isso lhe proporcionou a sensação. no momento mesmo em que falava. Lembrou-se também do bucero. de que a Natureza entregava-se de contínuo a divertimentos misteriosos. No dorso desse animal oscilante e bramador. que corria com passadas terrivelmente largas. um derradeiro estrondo e um urro de terror anunciaram que o enorme elefante pardo havia derrubado o portão do Jardim Zoológico e desembestava por Albany Street como novo e rápido tipo de ônibus.

Quando se acharam em frente a um dos portões da Exposição de EarPs Court viramse bloqueados por uma grande multidão. embaraçado. que atraía multidões às janelas e separava o tráfego para a direita e para a esquerda. movido ou pela débil esperança de encontrar uma pista ou por algum impulso incompreensível. E acrescentou com um ar ofendido: É . A roda pouco a pouco foi-se tornado maior. para onde foi? inquiriu Syme. mandou parar o fiacre para ir apanhá-la. E atrás dele. Depois de rasgada a última capa. encurtavam incrivelmente as distâncias. O homem que antes se chamava Gogol não disse nada. Não tardou que fossem tomados por participantes de um desfile ou mesmo de um anúncio de circo. desorientados pelas inúmeras esquinas. — E o homem. escorregando para o chão. tudo se reduziu a uma tirinha de papel. eram percorridos pelo prodigioso elefante voador. A fera derrotou os fiacres. O elefante avançou mais ágil e livremente através das ruas vazias e aristocráticas de South Kensington e por fim endireitou para aquela parte do horizonte onde a enorme roda de Earl's Court se elevava no Armamento. Eles perderam-na de vista.150 G. e Syme viu o Albert Hall em Kensington quando se julgava ainda em Paddington. colaborando nesta insana publicidade. — Embarafustou pela Exposição a dentro! respondeu o guarda. bem perto do fiacre em que viajava Gogol. Na pressa em que iam. Mas o Presidente havia desaparecido. como costumam fazer essas criaturas disformes. ela veio cair muito atrás. a êle dirigida. CHESTERTON lança uma bola ao ar e se prepara para recebê-la de volta. na qual estava escrito: Parece que a palavra deve ser: rosa. e este. corriam desapoderadamente os três fiacres. bairros e mais bairros. Ao examiná-la. até que encheu todo o céu como a roda das estrelas. K. Ruas e mais ruas. porém. Era uma volumosa bola de papel. mas os movimentos de suas mãos e de seus pés foram os de quem esporeia um cavalo. Mas na velocidade em que iam. notou que todo o seu volume consistia em trinta e três pedaços de papel velho enrolados uns sobre os outros. reunida em torno de um enorme elefante que resfolegava e se sacudia.

O MOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 151 um cavalheiro engraçado. Êle se meteu ali dentro! e fechou os punhos contra o céu. — O baião cativo! disse Syme. e me entregou isso. O balão. dirigido Ao Secretário do Conselho Central Anarquista. Deus me proteja! Parece que senti alguma coisa cair na copa do meu chapéu. só que esse não é cativo. abriu-o e leu o que estava escrito: Quando o arenque vai na corrente. enraivecido. Um segundo depois. — Por que eu devo olhar para um balão cativo? bradou o Secretário. . O Secretário bate a bota. — Com seiscentos mil diabos! guinchou o Secretário. Sobre a Exposição. veio colocar-se precisamente em cima deles. E estendeu. Olhem aquilo ali! — Olhar o quê? volveu o Secretário afobadíssimo. Todos ergueram os olhos. apontando frenèticamente. e o balão. amarrado a um cordel. Provérbio Rústico. disse Syme. com repugnância. um pedaço de papel dobrado. O Secretário. — Ora bolas! começou o Secretário. — Deus me proteja! disse o Professor com a inflexão senil que nunca pôde desligar de sua barba esbranquiçada e de seu rosto apergaminhado. solto. O que é que há de extraordinário num balão cativo? — Nada. Quando o arenque voa e pinota. pôs-se a flutuar. Por que você deixou que êle entrasse? É comum visitarem sua exposição pessoas montadas em elefantes malucos? É? — Vejam! gritou Syme. que os espreitava com um olhar benévolo. O Secretário ri contente. como um balão de brinquedo. erradio como uma bôlhã de sabão. o cordel se partiu. e foi-lhes fácil enxergar a enorme cabeça branca do Presidente. carregado talvez por alguma brisa passageira. o balão pairava enfunado. Pediu que eu lhe segurasse o cavalo. justamente debaixo da cesta.

152 G. Houve um curto silêncio. Sigamo-lo! . Abriu-o negligentemente. — Narciso. apenas para deparar com o desenho de um nó cego e as palavras: Tua beleza não me deixou indiferente. e depois Syme falou. CHESTERTON Levantou uma trêmula mão e da aba do chapéu tirou um papelzinho amarfanhado. mordendo o beiço: — Ainda não estou vencido. K. Esse maldito balão tem que cair em alguma parte.

comentou Syme. rasgara-se nos ombros. os seis poeirentos detetives afastaram-se cerca de cinco milhas de Londres. mas êle fazia avançar a barbicha amarela com taciturna e furiosa obstinação. Que arrebente! Não ficaria tão arrebentado como no dia em que eu pudesse abecá-lo. graças a espinhos agressivos. Eu quero é ver explodir essa estúpida bola de gás.CAPITULO XIV OS SEIS FILÓSOFOS Cruzando campinas verdejantes e transpondo sebes vivas. O chapéu de seda. — A despeito de tudo. As verdes colinas de Surrey testemunharam o trágico desfecho do admirável terno cinzaclaro com que Syme havia saído de Saffron Park. atalhou Dr. até que cada um se transmudou numa figura tão desalinhada que podia ser confundida com a de um vagabundo. Eu não quero não. por todo o sul da Inglaterra. descera ao nariz. e o barro inglês enlameara seu colarinho. Mas logo convenceu-se da persistente recusa do balão a seguir as estradas e da muito mais persistente recusa dos cocheiros a seguir o balão. não deixa de ser muito bonito! — Muito! De uma beleza estranha e singular! disse o Professor. os incansáveis posto que exasperados viajantes atravessaram bosques escuros e palmilharam terrenos cultivados. que na vermelhidão do ocaso parecia enfeitada como uma nuvem crepuscular. nos fiaores. amassado por um ramo travesso. o otimista do grupo sugerira que seguissem o balão. sem tirar os olhos daquela flutuante bola de gás. — Que arrebente! redargüiu o vingativo Professor. Narciso! . Buli. Conseqüentemente. Isso podia arrebentar o velhote. a sobrecasaca. — Não. No começo da caminhada.

continuou Dr. Mas confesso que sempre tive minhas simpatias pelo velho Domingo. Não quero que se dê uma explosão no balão do velho Domingo porque. — Ah. — Não sei se acredito ou não acredito. malvado como é. disse Dr. Exatamente como um balão.. já sei porque era! exclamou Buli. disse Dr. disse Syme levantando os olhos. — E por isso. É como se êle fosse um garoto gorducho e levado da breca. Agora sei o que quero dizer. Isso faz lembrar as velhas especulações: que aconteceria se um elefante pudesse adejar no espaço como um gafanhoto? — Nosso elefante. Como posso explicar esta minha esquisita simpatia? O certo é que ela não me impediria de combatê-lo até no inferno! Será que me torno mais claro dizendo que gostava dele porque êle era tão gordo? — Não. enquanto a força suprema está na leveza. disse o Secretário. — Bem. como se êle trouxesse algumas boas novas. mas aquela passagem. Não. um dia de primavera prova que suas brincadeiras são de muito bom gosto. K. Nunca sentiram isso num dia de primavera? É verdade que a natureza gosta de fazer das suas. Buli. — O quê? bradou amargamente o Secretário. CHESTERTON — Apesar de tudo. mas êle eu acho que poderia dançar ao lado de uma sílfide. de que os outros tanto se riem. Eu mesmo nunca li a Bíblia. A gente acha sempre que as pessoas gordas são pesadas.. Buli. seja como fôr. Não entendo patavina desse negócio de ser êle o mesmo homem que nos deu os cartões azuis. Há nisso uma espécie de alegria. não é uma admiração pela força. porque êle mesmo é tão engraçado como um balão. não quero vê-lo arrebentado. é que não posso deixar de admirar o velho Domingo. Parece-me que isso torna tudo absurdo. — Por quê? indagou Syme impaciente. ou qualquer tolice dessa ordem. atrapalhado. isso não esclarece coisa nenhuma. É porque êle era tão gordo e tão leve. mas. adeja no espaço como um gafanhoto. Mas não é a isso que me refiro. é uma verdade integral: "Por que saltais . concluiu Buli.154 G. A força moderada se manifesta pela violência. Você acredita mesmo naquela história de êle ser também o homem do quarto escuro? Domingo seria capaz de inventar que era qualquer coisa. Buli.

um lugar infinitamente mais aviltante do que a divertida escuridão em que vive nosso chefe. vestido com um casaco de xadrez cinzento. Estava sentado num banco. porque meu sorriso é torto. Desde pequeno eu sou elemento deletério e meio doentio. Talvez seja por que você é melhor do que eu e não conhece o inferno. após longo silêncio. mas de algo grosseiro e triste. O homem que vive na escuridão e que nos escolheu a todos. inerente à natureza das coisas. — Por certo vocês estão exagerando demais. Porque admiro Domingo?. Seu . as colinas saltam mesmo. altas colinas?" Sim. porque meus olhos têm um brilho turvo. Então. Quando vi Domingo pela primeira vez. Êle me recebeu num gabinete comum. e eu julguei-a movida por uma enfermidade secreta. Ouviu minhas palavras sem falar nem se mover. No instante lembrei-me de tudo que tinha lido a respeito desses corpúsculos repugnantes que constituem a origem da vida: seres marinhos e protoplasmas.. a mais extravagante. mas viva. não tive dele essa impressão de aérea vitalidade. torturado: — Você não sabe quem é Domingo.. Parecia tomar a forma final de toda matéria... Mas vou dizer-lhe o que é que chama um pouco a atenção em Domingo. Houve uma longa pausa. O Presidente Domingo é um troço terrível para a inteligência. a mais vergonhosa.. bom. E você ainda vem pedir-me para perdoá-lo!?! Não é pouco sermos ridicularizados por alguma coisa que é ao mesmo tempo inferior e mais forte do que nós. e depois o Secretário tomou a palavra e falou com um tom de voz estranhamente. ao menos tentam. com as janelas cerradas. escuro e amorfo. interrompeu a voz clara do Inspetor Ratcliffe. Diante de seus estremecimentos. escolheu-me porque eu tenho o ar desvairado de um conspirador. Encontrei-o fumando num cômodo lôbrego. Mas também deve haver em mim algo que corresponda ao sistema nervoso de todos esses anarquistas. mesmo quando estou alegre. Porque êle é tal qual um Saltimbanco.. Lancei os apelos mais veementes e fiz as mais eloqüentes perguntas.. Foi quando me dei conta de que aquela montanha bestial estava se sacudindo de riso solitário. mas fisicamente não é essa curiosidade Barnum que vocês apregoam. Falou-me de maneira simples. em pleno dia. disse de mim para mim que era já alguma coisa que tal monstro pudesse sentir-se miserável. a Coisa começou a mover-se. e era de mim que ela ria.. um monte de carne.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 155 assim. Movia-se como uma gelatina asquerosa. Como poderei dizer-lhes?.

ao dar pela nossa presença. disse Syme pensativo.156 G. E você. ao dar pela nossa presença. É um homem que. Durante horas êle esquece que você está presente. não penso em Domingo. arrastando a bengala. que já não era olho. disse Gogol singelamente. e não deu resposta. tudo parece em ordem. — Acorde. que pensa de Domingo? perguntou Syme. essa combinação de alheamento e crueldade. como todo o mundo acha. Reparem que a distração é perigosa num sujeito mau. suas roupas são asseadas. Gogol. nem posso pensá-lo claramente. Professor? O Professor caminhava de cabeça baixa. Professor! disse Syme alegremente. e prosseguiu: . Diga-nos o que pensa de Domingo. A cara era tão grande que ninguém poderia enfocá-la ou vê-la como uma cara. os homens experimentaram essa sensação. CHESTERTON quarto é asseado. Algumas vezes. Às vezes seus grandes olhos fugurantes ficam completamente cegos. arrastando sempre a bengala. Tudo isso é muito difícil de explicar. Quem seria capaz de passar dez horas mortais numa sala em companhia de um tigre distraído? — E você. — Está bem. Para nós o malvado é um homem que está sempre atento ao que se passa à sua roda. Mas como imaginar um homem distraído que. que tanto podiam ignorá-los como matá-los. A boca era tão individualizada que se poderia tomá-la por uma coisa à parte. pois sabiam-se cercados de animais inocentes e impiedosos. porque não podemos imaginar um malvado sozinho consigo mesmo. isso é um ponto de vista. nos mata? É isso que irrita os nervos. nos pede desculpas. atravessando florestas virgens. K. mas ele é distraído. acheia-a. Como vocês sabem. Ou melhor. muito ampla mas também bastante desarrumada. Pois bem. quando vi a cara de Domingo. — O que eu penso não sei exprimir claramente. O Professor pôs-se. em minha juventude levei uma vida muito ampla e muito desarrumada. a falar com muita lentidão. Um homem distraído é um homem afável. enfim. do mesmo modo que não encaro o sol ao meio-dia. que diz. — Em princípio. Parou um pouco. Não podemos imaginar um malvado que seja honesta e sinceramente um devaneador. Mas é mais ou menos o seguinte. O olho estava tão afastado do nariz.

o rosto dele forçou-me. as dúvidas do materialista não passam de tolices! Domingo me ensinou as piores dúvidas. correu para a direita e para a esquerda. Cada um de vocês vê Domingo de uma maneira bem diferente.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 157 — Mas vamos assim mesmo. é uma dúvida. mas é ainda mais estranho que eu também faça do Presidente Uma idéia original. Seu pescoço e seus ombros eram brutais. divisei uma lâmpada. Da mesma maneira me escapou o rosto de Domingo. Não sei se o seu rosto. Os olhos de Syme continuavam fixos no orbe errante. Syme. — Ande um pouco mais depressa. Parecia mais o . entretanto cada um só achou uma coisa com que compará-lo: o próprio uni verso. — Quando vi Domingo pela primeira vez. as mais dolorosas. Não se importe com o balão. Para Buli êle é como a terra na primavera. de certo modo. verifiquei que não havia rosto. e o budismo não é um credo. Sua cabeça tinha um toitiço difícil de imaginar num homem. a duvidar da existência de qualquer rosto. as dúvidas de um espiritualista. Buli. para Gogol é o sol ao meio-dia. continuou Syme lentamente. Sou um budista. Entretanto. O Professor diz que Domingo é como uma paisagem mutável. suponho. avermelhado pelos reflexos do pôr do sol. e o Inspetor a solidão das florestas virgens. Ah. que. Não tenho bastante fé para crer na matéria. E assim. é um rosto ou uma combinação de perspectivas. O Secretário recordou o protoplasma informe. e que também compare Domingo com o universo. que a lâmpada estava a dez centenas de jardas e que a nuvem estava muito além do mundo. que a janela estava a dez jardas de distância. É estranho. parecia um mundo mais róseo e mais inocente. só via as costas. não creio que você possua realmente um rosto. quando dei mais alguns passos. Uma noite em que eu caminhava por uma estrada. como fazem essas miragens fortuitas. que juntas formavam um rosto inteiro e inconfundível. disse Buli. pressentia que êle era o sujeito pior do mundo. Talvez um disco negro daqueles seus óculos brutais estivesse bem pertinho e o outro cinqüenta milhas além. uma janela iluminada e uma nuvem. como os de um deus simiesco. — Vocês observaram uma particularidade interessante em todos os seus depoimentos? perguntou Syme. E vendo-as. Meu pobre Buli. Se alguém no céu tiver um rosto como esse eu o reconhecerei.

sem olhos. mas não porque fosse brutal. Lá estavam os mesmos cabelos brancos. vi seu rosto em plena claridade.158 G. — Tempo suficiente. era realmente seu rosto. E admiti que aquela figura que corria à minha frente era realmente uma figura que corria de costas. Eu vira suas costas. ficando diante dele. Mas. os mesmos ombros enormes. Ao contrário. distribuindo justiça depois de guerras heróicas. que eu contemplara da rua. K. para um pensamento sinistro. Seu rosto me assustou. o bem é tão bom que somos levados a crer que o mal poderia ser explicado. Buli. — E você ainda teve flmpo para pensar? perguntou Ratcliffe. fico a pensar que as costas são uma simples zombaria. assustou-me porque era belo. — Horrível! exclamou Dr. não porque fosse mau. — Foi então que aconteceu o inesperado. vestidos de cinzento. Depois entrei no hotel e. Havia riso nos seus olhos. logo me passou pela cabeça a revoltante fantasia de que ele não era um homem. — Syme! exclamou o Secretário. Mas se lhe vejo o rosto. replicou Syme. mesmo de relance. — Vamos! disse Dr. como assustou todo o mundo. porque era bom. que me fitava. quando persegui Domingo no fiacre e me coloquei atrás dele todo o percurso. da rua. liso. convenci-me de que êle era um animal. . — Pan. continuou Syme como se falasse consigo mesmo. De fato. C H E S T E R T O N toitiço de um boi. O mal é tão mau que só podemos julgar o bem um acidente. Quando olho para suas costas horrorosas tenho a impressão de que seu rosto nobre é apenas uma máscara. Buli sobressaltado. dançando enquanto corria. De repente apoderou-se de mim a idéia de que aquele toitiço cego. e é também o mistério do mundo. mas uma fera vestida com as roupas dos homens. — Desde então. e em sua boca honra e tristeza. era um deus e um animal. quando êle estava sentado na varanda. esse tem sido para mim o mistério de Domingo. ao vê-lo da rua. um rosto terrível. Mas tudo isso atingiu o auge ontem. Você está se sentindo bem? — Era como o rosto de um antigo arcanjo. observou sonhadoramente o Professor. e quando me vi diante dele compreendi que êle era um deus.

disse o Professor. observou o Secretário. Foi exatamente o pior instante da minha vida. O balão vem caindo! Não havia necessidade de gritar por Syme. Aquilo não é uma nuvem. E dez minutos depois. que estivera absorto. para se divertir. falou com naturalidade: — Caiu ali adiante! Vamos para lá! . Vou dizer-lhes qual é o segredo do mundo. — Mas escutem! gritou Syme com extraordinária ênfase. — Êle morreu! exclamou. e vivia no quarto escuro! — Morreu!? roncou o Secretário. que quase não falara durante essas estafantes jornadas. sentenciou o Secretário baixando a vista. O homem chamado Gogol. e Pan também fazia. quando botou a cabeça fora do fiacre e fêz uma careta parecida com uma gárgula.. de que êle também significa Pânico. É que do mundo só conhecemos as costas. mas as costas de uma nuvem.. Você parece pensar que Pan é tudo. — Essa brincadeira está indo longe demais. Se foi jogado para fora da cesta. mas as costas de uma árvore. Em grego. Não vêem que tudo está voltado de costas e esconde o rosto? Se pudéssemos dar a volta e ficar de frente. E agora eu sei que êle era meu amigo. como um sol que se põe. percebi que êle se portava como um pai brincando de esconder com seus filhos. disse o Professor. — Pan outra vez? disse irrittio Dr. Buli. e franziu a testa ao contemplar suas botas estragadas. atirou de repente as mãos para o alto. Syme. — Vejam! berrou Buli esganiçadamente. Viu o grande globo luminoso vacilar no céu. — E é mesmo. feito uma alma penada. e por isso parece brutal. sem ouvir nenhuma dessas frases. porque êle não tinha tirado os olhos do balão. endireitar-se e depois mergulhar vagarosamente atrás das árvores. Isso não é uma árvore. Vocês não o verão morto assim tão facilmente. Tudo é visto por trás.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 159 — Horrível não é o termo. Pan quer dizer: tudo. disse Syme. nós o encontraremos espojando-se no chão como um potro e escoiceando o vento. — Não se esqueça. Os protros fazem assim. — E castanholando os cascos.

que se vê em certos recantos da mata. As sebes eram sebes comuns. — Informaram-me que os senhores sabiam o nome dele. um homem alto. Marchava tranqüilamente. uma carruagem de meu patrão os espera aqui perto. disse Syme lacônicamente. em direção a eles. Examinou o misterioso embaixador dos pés à cabeça. Pelo relvado caminhava. mas usava bragas. quedando-se imóvel. Com renovada energia encaminhou-se para as árvores distantes. tinha-se a impressão de que seu cabelo grisalho fora empoado. Quando os seis extraviados chegaram a essa passagem. A côr do traje era aquele matiz tirante a azul. respondeu o homem respeitosamente. — Mostre-nos o lugar. as árvores pareciam árvores comuns.160 G. — Cavalheiros. — Quem é seu patrão? perguntou Syme. à moda antiga. com um gesto de desconsolo: — Agora se ele nos enganou e morreu. disse o estranho. Meu patrão acaba de entrar em casa. Depois de uma pausa. escuro e dourado. que de súbito revelou a branca luminosidade de uma estrada. entretanto. mas apenas descobriu que o casaco do homem era da mesma côr das sombras purpúreas e que o rosto era da mesma côr do céu rubro. C H E S T E R T O N E acrescentou. violeta e cinza. disse êle. E sem uma palavra o homem do casaco violeta deu as costas e se dirigiu para uma abertura da sebe. êle se sentia como alguém que tivesse caido prisioneiro no país das fadas. K. hem? Seria mais uma de suas pilhérias. Syme esquadrinhou o recesso do bosque virente em que se encontrava. se não fosse a neve prateada de sua cabeça. falou o Secretário: — Onde está essa carruagem? — Ela os aguarda desde alguns momentos. curvado sobre um báculo comprido e estranho como um cetro. na estrada. Seus trapos e retalhos esvoaçavam ao vento. Os outros seguiram-no a passo mais vagaroso e num ar de dúvida. êle poderia ser tido com uma das sombras do bosque. viram a branca estrada obstruída pelo que lhes pareceu ser uma . Quase simultaneamente os seis descobriram que não estavam sós naquele sítio. Vestia-se com apuro. À primeira vista e levando-se em conta suas bragas.

Muito lenta e vagamente deu tento das estradas suntuosas por onde a carruagem o transportava. era um pouco mais ordenada que uma floresta. mas nenhuma os impressionara tão fortemente como esta última aventura do conforto. embora arborizada de ambos os lados. semelhantes àquelas que se vêem nas proximidades das casas de Park Lane. como de um homem que lentamente desperta de um sono reparador. Também não podiam supor quem era o ancião que os havia conduzido.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 161 longa fileira de carruagens. É uma brincadeira de bom gosto. É outra das brincadeiras de Domingo? — Sei lá? respondeu Syme enquanto afundava extenuado nas almofadas de sua carruagem. Então começou a tomar conta dele. Viu os altivos olmos que se elevavam atrás das sebes e . Os seis aventureiros tinham passado por muitas aventuras. cada um que entrasse na carruagem. e carruagens com almofadas. em total abandono. é uma daquelas brincadeiras de que você fala. Todos trajavam uniforme azul-cinza e todos revelavam uma certa categoria de altivez e liberdade que habitualmente não se distingue nos lacaios de um fidalgo e sim nos oficiais e embaixadores dum grande monarca. Viu que atravessavam os portões de pedra do que podia ser um parque. era-lhes suficiente saber que eram carruagens. e logo que o encargo lhe fosse tirado das mãos êle se derreasse nas almofadas. com um breve resplendor de aço. que uma sebe é como um exército humano. Todos eles estavam afeitos a asperezas. uma para cada componente do bando andrajoso e miserável. Todos os servos (como acontece nas cortes) traziam espadas à cinta e as desembainhavam para saudar. — Que significa tudo isso? perguntou Buli a Syme quando se separavam. vencido por um verdadeiro colapso. mas bastava-lhes a certeza de que fora êle quem os conduzira para as carruagens. esta repentina suavidade os perturbava. Nada menos de seis carruagens estavam à espera. Era próprio dele que enquanto ti vesse de abrir caminho com sua barbicha êle o fizesse com fúria e determinação. disciplinado mas vivo. Sentiu que as sebes eram o que as sebes devem ser: muros vivos. uma sensação de prazer integral. Syme deixava-se levar. Não podiam sequer imaginar o que eram as carruagens. através da movediça escuridão do arvoredo. Ao lado das carruagens perfilavam-se magníficos lacaios. e gradualmente subiam uma colina que. Mas se fôr.

— Meu patrão me incumbiu de avisar ao senhor. Quando as carruagens rodaram para um portão largo. e entrou numa série de cômodos que pareciam estar reservados especialmente para êle. ainda sob a influência daquele sono mesmeriano de estupefação. o certo é qúe cada um afirmaria que podia recordar este lugar antes de poder recordar-se de sua mãe. . abeirou-se de um espelho grande para endireitar a gravata ou alisar os cabelos. que haverá um baile a fantasia esta noite. Como faltam ainda algumas horas para a ceia. disse o camareiro. Syme. CHESTERTON vagamente pensou nos meninos felizes que trepavam neles. — Roupa! exclamou Syme sardônico. senhor. algo que se assemelhava a uma extensa e baixa nuvem crepuscular e que era uma casa extensa e baixa. as roupas estavam desfeitas em compridos e ondulantes farrapos. atrás do respeitoso criado. baixo e cavernoso. segurando duas longas tiras da sobrecasaca de fascinantes festões. Este impressionante personagem dirigiu-se ao boquiaberto Syme: — Refrigerantes o esperam em seu quarto. e êle avistou. que nascia sob a forma de uma simples pergunta: como êle conseguira chegar ali e como conseguiria safar-se? Nesse mesmo instante. Mais tarde os seis amigos cotejariam suas impressões e disputariam entre si. envergando o mesmo uniforme. ou era um trecho deste pomar ou o feitio de uma janela. mas conviriam misteriosamente em que este lugar lhes lembrava a infância. onde o ramo o ferira. e. os cabelos eriçavam-se como talos amarelos de erva espessa.162 G. que fora designado para seu camareiro. Depois a carruagem tomou por um atalho. disse com toda a solenidade: — Sua roupa está pronta. foi então que deu pela figura sinistra em que se transformara: o sangue escorria-lhe da face. um outro homem. Ou era a copa deste olmo ou aquela vereda tortuosa. Imediatamente viu-se diante de um enigma. mas sossegadamente. É desejo dele que o senhor vista o traje que eu preparei. senhor. de súbi to. um homem de azul. fêz que ia imitar o rodopio de uma bailarina. De roupa só tenho esta do corpo. suavizada pelos macios reflexos do crepúsculo. mas usando uma estrela de prata no peitilho cinzento do casaco. subiu as vastas escadarias de carvalho. êle espera que o senhor não recuse uma garrafa de Borgonha e um pouco de faisão frio. saiu a recebê-los. Com o instinto habitual de sua classe. K.

toda pintalgada de sóis e de luas? Esses astros. disse Syme. não entendo coisa nenhuma. Aqui. entretanto. Temos aqui uma Bíblia à sua disposição. Não me parece uma roupa quente. sentiu uma liberdade e uma naturalidade raras em seus movimentos quando o traje azul e ouro o cingiu. —. — Bem. e Borgonha é uma coisa supinamente boa.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 163 — Faisão frio é uma coisa boa. respondeu o criado gravemente. e com um dedo rígido e respeitoso apontou uma passagem do primeiro capítulo do Gênesis. Mas o fato é que eles não me apetecem tanto quanto me apetece saber que diabo significa tudo isso e que traje é esse que você preparou para mim. Syme leu-a maravilhado. disse Syme pensativo. — Mas é quente. pois esses disfarces antes revelavam que disfarçavam. do mesmo feitio de um dominó. brilham também nos outros dias. Devo ajudá-lo a vestir-se? — Oh. roupas verdes e Bíblias? Providencia tudo? — Tudo. disse Syme suspirando. disse o outro solícito. e ao descobrir que tinha de levar uma espada reviveu um sonho infantil. Vai até ao queixo. se não estou enganado. explicou o camareiro afàvelmente. Mas permita-me que eu pergunte por que é que estarei vestido especialmente de Quinta-feira se envergar uma vestimenta esverdeada. Quem é essa gente que providencia faisão frio e Borgonha. formando um ângulo. Lembro-me bem de ter visto a lua numa terça-feira. Ao sair do quarto atirou o manto por cima dos ombros. sim. esmaltado na frente por um vasto sol de ouro e salpicado aqui e ali de crescentes e estrelas cintilantes. . — Vestir-me de Quinta-feira! repetiu Syme meditativo. contavamse os dias da semana a partir de um domingo cristão. Estou tão acostumado a aventuras desconfortáveis que as aventuras confortáveis me abatem. -— O senhor vai vestir-se de Quinta-feira. venha de lá esse timão! disse Syme impaciente. A roupa do Quinta-feira é extremamente quente.Isso está indo de mal a pior. Êle tinha toda a galhardia de um trovador. senhor. enquanto se sentava numa cadeira. Onde é que êle está? O criado ergueu de cima de uma espécie de otomana uma longa túnica azul-pavão. A espada destacava-se. Era aquela que associa o quarto dia da semana à criação do sol e da lua. Embora afetasse desprezo pela fantasia. — O senhor me permite? disse o camareiro.

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CAPITULO XV O ACUSADOR Quando Syme. a passos largos. no meio de toda a comodidade e hospitalidade do novo ambiente. Syme era o tipo do poeta que aspira sempre a modelar a luz em contornos específicos. Para êle o grande momento não é a criação da luz. e Syme sentiu também quão fielmente este modelo de alvura e negror puríssimos exprimia a alma do pálido e austero Secretário. Se Syme pudesse ver a si mesmo teria compreendido que êle também. Nem o cheiro da cerceja nem a fragrância dos pomares podia impedir o Secretário de formular uma pergunta racional. O homem jamais parecera tão nobre. patenteando toda aquela inumana veracidade e todo aquele álgido furor que tão facilmente o levavam a guerrear os anarquistas e tão facilmente lhe permitiam misturar-se com eles. o poeta ama sempre o finito. A própria veste sozinha teria sugerido o símbolo. Pois se o Secretário representava o filósofo que ama a Luz primeira e informe. os olhos deste homem continuavam encarniçados. parecia ser êle mesmo e ninguém mais. O filósofo pode às vezes amar o infinito. Syme quase não se surpreendeu ao notar que. viu o Secretário de pé no alto de um majestoso lanço de escadaria. a fracioná-la em sol e estrela. pela primeira vez. Envolvia-o um manto comprido de intenso negror. . O conjunto lembrava uma vestimenta eclesiástica muito severa. em cujo centro incidia uma faixa ou listão de puríssima alvura. atravessava o corredor. Não havia necessidade de Syme explorar a memória ou a Bíblia parar recordar que o primeiro dia da criação assinalava o aparecimento da luz no seio da treva. mas a criação do sol e da lua. como um único raio de luz.

um outro vestido de elefante. no repouso da maturidade. vestia uma roupagem violácea. animado pelos dançarinos. semelhante aos terraços dos jardins de outrora. um dançarino vestido como um imenso bucero. desde o momento em que êle corria desenfreado pelo caminho do Jardim Zoológico. Através de outra passagem ampla e baixa foram conduzidos para dentro de um antigo e espaçoso jardim inglês. Êle corporificava aquele terceiro dia em que foram criadas a terra e as coisas verdejantes. uma macieira. cinzenta e prateada. uma macieira dançante. cujo dia era aquele em que os pássaros e os peixes — as formas mais rudimentares de vida — foram criados. com estranha emoção. a dançar uma eterna jiga.166 G. havia uma espécie de barranco verde. Syme não podia contemplar um desses objetos — um poste de luz. estava bem simbolizada por uma veste que reproduzia a divisão das águas. Havia um homem vestido de moinho de vento com velas enormes. Num canto do relvado. Gogol e Dr. Ao longo desse terraço. K. repleto de archotes e fogueiras tremeluzentes. ou um moinho de vento — sem pensar que era um folião desgarrado dessa folia de mascarados. entretanto. Dir-se-ia que a indômita melodia de algum músico louco pusera todas as coisas comuns. A simplicidade de Gogol ou Terça-feira. viam-se sete poltronas: os tronos dos sete dias. na qual se estendiam peixes de olhos esbugalhados e extra- . os dois últimos pareciam conservar o fio de suas grotescas aventuras. Syme viu ainda. dispostas em forma de crescente. com seu amistoso cinismo. como um lençol de água. O Professor. O desenho de seu traje figurava um exuberante emaranhamento de árvores. exibindo as roupagens mais variadas. mil outras fantasias do mesmo quilate. Havia. cujo bico era duas vezes tão grande como êle mesmo — o esquisito pássaro que se fixara em seu espírito como uma interrogação viva. Buli já tinham ocupado seus lugares e o Professor ia ocupar o dele. onde uma vasta multidão. que se vestia de verde primaveril. Syme julgou ver em cada uma daquelas alucinadas fantasias uma imitação das formas da natureza. outro vestido de balão. uma veste que se abria em sua fronte e caia aos seus pés. Havia um poste dançante. um barco dançante. dos campos e das ruas. bailava como num carnaval. A isso se acomodava admiràvelmente o rosto quadrado e sensível. E muito tempo depois. CHESTERTON Quando desciam juntos a larga escadaria deram com Ratcliffe.

O Secretário. ou uma camponesa Rançando com a lua. Mas a cadeira do centro estava desocupada. Quando cada um se sentava. Vestia-se simplesmente. Cada par era um romance isolado. Rescostava-se na cadeira com um largo sorriso — o quadro de um otimista em seu elemento. No instante mesmo em que Syme ouviu estas palavras notou no oceano de fisionomias humanas que se exaltavam diante dele um murmúrio de espanto e admiração. agitavam-se os archotes e chapéus emplumados eram lançados para o ar. disse. Retiniam as taças. O clarão desse lume doméstico alcançava a face de vastas florestas pardas ou escuras e parecia mesmo encher de calor o vazio . olhando para Syme por cima do trono vazio. ou se transportavam para aquele recanto do edifício onde fumegavam. Dr. a turba espessa foi rareando. como se o céu se tivesse rompido em cima de sua cabeça.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 167 vagantes pássaros tropicais. em possantes caldeirões. Por fim. e um capacete onde se via um homem rampante. tão absurdo como Alice no País das Maravilhas e tão grave e delicado como uma história de amor. cálidas e aromáticas misturas de cerveja velha ou vinho. tal como aquela com que as multidões recebem os reis. Durante muito tempo — parece que durante horas — a imensa mascarada saracoteou e sapateou ao ritmo de uma marcha alegre e arrebatadora. comprimindo os lábios: — Não sabemos ainda se êle terá morrido no campo. rugia numa cesta de ferro uma gigantesca fogueira que iluminava muitas milhas em derredor. Era Domingo. o último dia da criação. usava um casaco coberto de animais heráldicos. vinha da mascarada uma aclamação entusiástica. Os homens para quem esses tronos foram reservados eram homens coroados com extraordinários lauréis. de certo modo. Pares enveredavam pelos passeios do jardim. Buli. podia ser uma fada bailando com um marco postal. de branco imaculado e terrível. Um por um os viandantes galgaram o barranco e foram colocar-se em suas estranhas cadeiras. mistura de imaginação ilimitada e de dúvida. mas cada caso era. Passou silenciosamente como uma sombra e veio sentar-se na cadeira do centro. Syme sentava-se à esquerda dela e o Secretário à direita. em vermelho e ouro. e seus cabelos eram como uma chama prateada em sua fronte. sobre uma armação negra do telhado. Acima desses vasos.

Nenhum deles pronunciara uma palavra. Apenas ouviam em silêncio o zumbido dos insetos e o canto longínquo de um pássaro. Ouviram minha voz no escuro. Não sei se foi recentemente (porque o tempo nada é). apenas quatro. onde não existe coisa criada. nós que nos temos amado uns aos outros tão amargamente e nos temos combatido tanto tempo. cruzou espadas com o Rei Satã. os grupos negros agregavam-se cada vez mais em volta dos grandes caldeirões. toda a sabedoria humana negava-a. Syme agitava-se vivamente em sua cadeira. a terra e o céu negavam-na. havia somente dez ociosos no jardim. Quinta-feira. Os sete estranhos personagens ficaram sós. e vocês sempre como irmãos d'armas. Sei que você. e o impenetrável prosseguiu: — Mas vocês foram homens. o último desgarrado folião entrou em casa gritando pelos companheiros. pouco depois. e perguntou com áspera inflexão: — Quem e o que é você? . Sei que vocês estiveram às portas do inferno. mas tudo o mais continuava em silêncio. e então o Secretário de negras sobrancelhas. Então Domingo pôs-se a falar. CHESTERTON da abóbada noturna. invocou meu nome na hora do desespero. transformado em máquina de tortura. disse. ou no princípio do mundo. ou entravam rindo em algazarra nos corredores daquela mansão centenária. embora todo o cosmos. Parecia que eles não tinham pressa de falar. juntos. que os enviei para a guerra. como sete estátuas de pedra assentadas em cadeiras de pedra. eu mesmo neguei-a. — Comeremos e beberemos mais tarde. volveu-se em sua cadeira para contemplar Domingo. K. no céu. Fiquemos um momento aqui. ilíada sobre ilíada. Houve completo silêncio no jardim iluminado pelas estrelas. negava-a. e não a ouviram de novo. Em breve. A fogueira apagou. Finalmente. Suponho recordar os séculos da guerra heróica em que vocês foram sempre heróis: epopéia sobre epopéia. O sol. Eu estava sentado na treva. Todavia. Não esqueceram intimamente a noção de honra. mas tão suavemente que se podia pensar que eles antes continuavam que iniciavam uma conversação. e fui para vocês apenas uma voz que exigia coragem e virtude sobrenatural. e que você. Quartafeira.168 G. e lentas e fortes as estrelas brilharam no céu. E quando os encontrei em plena luz do dia. em pouco tempo.-implacável. a fogueira também arrefeceu. tentasse extirpá-la de seus corações.

bradou. eu posso perdoar a Deus Sua ira. vou dormir. como se o interrogasse.. O fogo moribundo na grande trempe emitiu um derradeiro e alongado clarão. cuja voz clara se ouviu: — Parece-me tão estúpido que você tenha estado dos dois lado e tenha combatido a si mesmo! Buli disse apenas: — Não entendo nada. apenas voltou para Syme seu rosto pétreo. Domingo olhou Ratcliffe. otimismo. disse Syme. não estou reconciliado. porque era também Domingo. Domingo continuava mudo e imóvel. disse o Professor com a cabeça entre as mãos. Na verdade. então. Por fim rompeu o silêncio: — Ouvi suas queixas uma a uma. e devemos ouvi-lo também. — Não. Contudo. Gogol falou. reconciliação final. Penso que vem aí outro para lamentar-se. o ferro penetrou em nossas almas. e é isso precisamente que não lhe posso perdoar. feito uma barra de ouro ardente. Eu gostaria de conhecer. O Secretário ergueu-se de um pulo e com as mãos começou a amarrotar o suntuoso manto. Se você era o homem do quarto escuro. Pois bem. Minha alma e meu coração sentem-se tão felizes e quietos aqui como este velho jardim. uma ofensa para a luz do sol? Se desde o começo você era nosso pai e nosso amigo. porque não compreendo. Sobre esta meia-lua infla- . Sou a paz de Deus. — Não sou feliz.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 169 — Sou o Sabat. Você permitiu que eu me perdesse a poucos passos do inferno. disse o outro imóvel. não estou tão enfurecido. mas também pelas belas correrias e pelos combates leais. com toda a simplicidade de um menino: — Gostaria de saber porque fui tão maltratado. eu gostaria de conhecer. Domingo ficou calado. não só pelo vinho e pela hospitalidade. — Sei o que você é. mas minha razão ainda clama. porque era também nosso maior inimigo? Nós nos lamentávamos e fugíamos aterrorizados. Fincava o queixo poderoso numa das mãos e fitava a distância. ou que outro nome se dê a isso. mas sou feliz. Manifesto-lhe minha gratidão.. e você é a paz de Deus! Oh. embora ela destrua as nações. mas não posso perdoar a Deus Sua paz. que se espalhou por todo o escuro relvado. Sei que você é contentamento.

sou o verdadeiro anarquista. — Tem razão. os homens gordos. — Gregory! arquejou Syme quase de pé. Mas haverá uma alma viva e livre que não deseje derrotá-los. Só que seu traje não era azul. — Você! gritou êle. vindo das profundezas da terra. olhando em volta. que o rosto era o rosto largo. — Oh homem infelicíssimo! exclamou. Ah. veio também Satanás entre eles". do mesmo modo que os criados da mansão. murmurou Buli. — Eu nunca o odiei. trazia uma espada à cinta.170 G. — "E vindo um dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor. disse Gregory. Tudo isso é loucura! O único crime do Govêr- . mas estou vendo que não odeio tudo tanto quanto o odeio. os revoltados. do primeiro ao último. ao menos porque vocês nunca foram derrotados? Nós. Sei o que são todos vocês. disse Gregory. K. Um sentimento de compaixão. Sou um destruidor. CHESTERTON mada projetavam-se totalmente negras as pernas avançadoras de um vulto de preto. que Syme viu. dos uniformes azuis cheios de botões! Vocês são a Lei. que parecia realmente ter caído no sono. sorridentes. Você nunca odiou porque nunca viveu. — Meus cabelos vermelhos. Tente ser feliz. Destruiria o mundo se pudesse. mas autêntico sable. Pensei que odiava tudo mais do que os homens geralmente odeiam qualquer coisa. com um grande e ameaçador constrangimento. sem dúvida dizemos toda a espécie de disparates acerca deste ou daquele crime do Governo. eis o verdadeiro anarquista! — Sim. com fulminante nitidez. Você tem os cabelos vermelhos de sua irmã. os últimos trovões dessa criatura ininteligível ribombaram. Vocês são os poderosos! Vocês são a polícia. como as chamas vermelhas. Em seguida. respondeu Gregory. Como os criados. disse Syme melancòlicamente. e nunca foram derrotados. incendiarão o mundo. com os mesmos exuberantes cabelos vermelhos e o mesmo sorriso insultuoso. excitou Syme e levou-o a falar aos borbotões e sem seqüência. Foi somente quando êle chegou muito perto dos sete homens colocados no crescente e ergueu o rosto para contemplá-los. quase simiesco de seu velho amigo Gregory. Parecia usar um belo traje com bragas.

sim. Não é verdade que nunca descemos destes tronos. eu pudesse sentir que vocês sofreram uma hora de agonia real. bradou. não temos sido felizes. tudo enegreceu. Oh. Repilo a calúnia. e nunca provaram das vicissitudes. O pecado imperdoável do poder supremo é ser supremo. tal como a que eu. — E você. . E antes que a escuridão anulasse completa- . Não os amaldiçôo por serem vocês cruéis. Fomos. tornando-se maior do que a máscara colossal de Memnon que o fizera gritar de medo quando menino. cada vez maior. você terá sofrido alguma vez? Enquanto observava. Não os amaldiçôo (embora eu pudesse) por serem bondosos. cada um que combate pela ordem pode ser tão bravo e bom como o dinamiteiro. Descemos até aos infernos. a vocês que governam toda a humanidade. que se abria num estranho sorriso. Pelo menos. Vocês se sentaram em suas cadeiras de pedra e nunca desceram delas. bradou Syme com voz terrível.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 171 no é governar. podemos conquistar o direito de dizer a este homem: "Mentes!" Todas as agonias não dão para comprar o direito de dizer a este acusador: "Nós também temos sofrido!" Não é verdade que nós nunca fomos derrotados. . O rosto. Assim. Assim. pelo menos. tudo quanto existe. — Compreendo tudo. a mentira de Satã pode ser lançada à face deste blasfemo e assim. tremendo da cabeça aos pés. O que amaldiçôo é a sua segurança. se uma vez. Syme levantou-se com um salto. Assim. ia enchendo todo o Armamento. . Depois. pelas lágrimas e pela tortura. cada coisa que obedece à lei pode partilhar da glória e do isolamento do anarquista. . fomos esmagados. o enorme rosto adquiria uma espantosa proporção. Vocês são os sete anjos do céu. eu lhes poderia perdoar tudo. E volveu os olhos a fim de observar o enorme rosto de Domingo. Posso responder por cada um dos grandes defensores da Lei que êle acusou. Por que todas as coisas desta terra vivem em guerra umas com as outras? Por que cada ínfimo ser deste mundo tem de lutar contra o próprio mundo? Por que deve a mosca combater todo o universo? Por que deve um dente-de-leão combater todo o universo? Pela mesma razão que eu tinha para estar só no terrível Conselho dos Dias. Estávamos a lamentar nossas inesquecíveis misérias no momento mesmo em que este homem entrou insolentemente para acusar-nos de felicidade.

mas uma adorá vel trivialidade.172 G. era Gregory. Syme maravilhou-se um pouco de ver em ambos os lados do caminho os vermelhos e irregulares edifícios de Saffron Park. psicologicamente. se estão numa cadeira. com a gravidade inconsciente e magnífica das moças. o poeta dos cabelos vermelhos. Não sabia que andava tão perto de Londres. Esse companheiro fora parte de seu drama recente. como se a natureza fizesse uma primeira tentativa em amarelo e uma primeira tentativa em rosa. encontram-se geralmente em algum lugar em que podiam ter adormecido. Syme julgou ouvir uma voz distante recitar um lugar-comum ouvido antes nalguma parte: "Podes beber na mesma taça em que eu bebo?" * * * Quando. C H E S T E R T O N mente seu cérebro. e achou-se defronte do gradil de um jardim. os homens despertam de uma visão. Soprava uma brisa tão límpida e suave que se podia até imaginar que ela não provinha do céu. a moça dos cabelos vermelhos e dourados. Só podia lembrar-se de que pouco a pouco e com toda a naturalidade tivera consciência de estar passeando por uma azinhaga ao lado de um companheiro agradável e palrador. onde os pássaros madrugadores gorjeavam saltitantes. nos livros. Rompia a aurora. não podia lembrar-se do instante em que voltara a si. A experiência de Syme foi. algo de irreal nas coisas que lhe tinham acontecido. revestindo tudo de cores claras e tímidas. Ali viu a irmã de Gregory. conquanto mais tarde lhe fosse sempre possível recordar que desfalecera ante o rosto de Domingo. visto que houve realmente. Sentia que estava na posse de uma inefável boa nova e que ela fazia de tudo uma trivialidade. Pois. Caminhavam juntos como velhos amigos e estavam entretidos com alguma banalidade. muito mais estranha. Mas Syme sentia no corpo uma vivacidade sobrenatural e no espírito uma simplicidade cristalina que pareciam superiores a tudo que dizia ou fazia. colhendo lilases antes do café. se estão deitados no campo. K. Instintivamente tomou por uma estrada branca. bocejam. no sentido físico. . ou se levantam com os membros doídos. mas filtrava-se através de uma frincha rasgada no céu.

Biblioteca São Miguel Arcanjo http://saomiguel.webng.com/ .

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