G.K.

CHESTERTON

O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA

Biblioteca São Miguel Arcanjo http://saomiguel.webng.com/

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suas pretensões a recanto aprazível eram realmente incontestáveis. mas era irrefutavelmente um poema. devia fornecer motivos à filosofia alheia. não havia de ser obrigatoriamente um filósofo. embora nunca houvesse produzido razoavelmente qualquer gênero de arte. O visitante. desde que não fosse tido em conta de miragem. de uma ave. tudo ali era artístico. O local era não só aprazível. Não descobrira novidades . o subúrbio de Saffron Park. Mas. mas de sonho. de pescoço pelado como o. ostentava uma fantástica linha de telhados e uma extravagante linha de calçadas. não fazia jus aos ares de cientista que alardeava. Com alguma justiça.CAPITULO I OS DOIS POETAS DE SAFFRON PARK Para as bandas do poente de Londres refulgia. Totalmente edificado com ladrilho brilhante. calvo como um ôvo. Ainda que os habitantes nada tivessem de "artistas". que identificava sua arquitetura algumas vezes com o estilo Rainha Elizabeth e outras vezes com o estilo Rainha Ana. Aquele rapaz de cabelos compridos e vermelhos e de feições impudentes não havia de ser necessariamente um poeta. se suas pretensões a núcleo intelectual eram um tanto descabidas. Saffron Park passava por colônia de artistas. Aquele cavalheiro idoso. que pela primeira vez contemplasse aquelas esdrúxulas casas vermelhas. seria levado a cogitar desde logo na singularidade que devia marcar o feitio mental das pessoas que as habitavam. mirão em assuntos de arte. mas. mas perfeito. Aquele cavalheiro científico. de barba branca e enxovalhada e de chapéu também branco e enxovalhado. um pândego venerável. no mínimo. como o vermelho esfarrapado de uma nuvem ao entardecer. E quando encontrasse tais pessoas não ficaria desapontado. sob a visível impressão de que as duas soberanas eram uma só. Fora obra de um construtor especulativo.

10 G. Ajudava-o. O estranho que chegasse a participar de sua atmosfera social teria a sensação de estar participando da representação de uma comédia. até certo ponto. Entretanto. ter descoberto um espécime biológico mais raro do que sua pessoa? Por isso. por acaso. todo aquele bairro insano parecia projetar-se no espaço como uma nuvem flutuante. A cabeleira vermelho-escuro. E Mr. Não se pense que aquela foi a única noite em que êle figurou como herói. Nessas ocasiões. Pertenciam quase todas à categoria das vagamente chamadas mulheres emancipadas e proclamavam ali seus protestos contra a supremacia masculina. do interior dessa moldura oval. o que provocava momentâneo prazer. enormes lanternas chinesas pendiam de árvores minúsculas como frutos monstruosos e sinistros. Entretanto. mesmo que devesse a gente rir-se dele no fim. Em muitas outras. nos recessos dos pequeninos jardins iluminados. K. quase piedosa. obra de arte. posto que consumada. Entoava a velha cantiga da anarquia da arte e da arte da anarquia com petulante frescor. Essa mistura ao mesmo tempo deleitava e abalava os . a atitude das mulheres constituía mesmo um dos paradoxos do lugar. CHESTERTON em biologia. estas mulheres modernas consentiam em regalar um homem com a inusitada cortesia jamais recebida por êle de uma mulher comum: a de escutá-lo enquanto êle está falando. os que passavam em frente ao seu jardim podiam ouvir-lhe a voz sonora e didática promulgando leis para os homens e. era um homem digno de ser escutado. tinha de ser examinado menos como uma oficina de artista do que como uma delicada. Nesses momentos. quando sobre os fantásticos telhados incidiam as últimas reverberações da luz. para as mulheres. a cativante singularidade de sua aparência. como a de uma virgem de um quadro pré-rafaelista. era literalmente igual à de uma mulher: suavemente encaracolada. E a impressão foi excepcionalmente forte naquela noite. Esta impressão era ainda mais fortemente verídica nas muitas noites de festa local. pois. avançava uma cara insuspeitadamente grosseira e brutal. o poeta dos cabelos vermelhos. mas poderia. da qual ainda se guardam vagas recordações e na qual o poeta dos cabelos de fogo foi o herói. Sua atraente irrealidade avultava de modo especial no crepúsculo. e somente por isso. Lucian Gregory. da qual êle procurava tirar o maior efeito. dividida ao meio. o lugar merecia estudos pertinentes e demorados. e o queixo despontava com aspecto desdenhoso e zombeteiro. especialmente.

Aquela noite. como se quisesse contar uma assustadora confidencia. Mas. o revolucionário dos cabelos vermelhos reinou sem rival. exclamou em seu tom subitamente lírico. No alto da abóbada as penas acinzentavam-se. um poeta respeitável. de barbicha pontuda. Mas. Dizia-se um poeta da lei. para os lados do oeste tudo era indescritível. apaixonante. Mr. O empíreo mesmo parecia um segredo. Era uma blasfêmia ambulante. Tudo ali se aproximava excessivamente da terra. Espanta-me somente que não tenha havido cometas e terremotos quando você surgiu neste jardim. que disse chamar-se Gabriel Syme. como o é. se não merece ser lembrada por outro motivo qualquer. permanecerá. Repito. contudo. O novo poeta. sua solidão teve fim inopinadamente. de nuvens e cores cruéis. farejou um nexo entre os dois acontecimentos. transparente. em tudo quanto dizia respeito à natureza da poesia. Com efeito. Outras há. Lucian Gregory. o poeta da anarquia. — Admito. um poeta da ordem. na memória dos habitantes do lugar em razão do extraordinário crepúsculo que a precedeu. tomando os mais raros matizes de violeta e malva e tons absurdos de rosa ou verde pálido. O céu se cobrira de plumagem vivida e palpável. a suspeita de haver êle despencado daquele céu inverossímil. Exprimia aquela esplêndida pequenez que é a alma do patriotismo local. Mas. que podem relembrá-la por ter assinalado a aparição do segundo poeta de Saffron Park. na noite que se seguiu àquele crepúsculo assustador. Por muito tempo. bem cuidada e cabelos amarelados. porém. era um sujeito calmo e cortês. alastrou-se.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 11 nervos de uma população neurótica. entre os moradores de Saffron Park. adivinhava-se que êle era menos manso do que aparentava. ia mais além ainda: dizia-se um poeta da respeitabilidade. poderia ocorrer na terra um tão grandioso portento. O próprio céu parecia pequeno. dir-se-ia que as penas que adejavam no ar viriam tocar os rostos das pessoas. Por isso. Você afirma que é um poeta da lei e eu afirmo que você é uma contradição em termos. há várias pessoas que só relembrarão aquela noite em virtude do céu opressivo. o poeta estabelecido. As últimas plumas escarlates escondiam o sol como se este fosse uma coisa boa demais para ser vista. Parecia o fim do mundo. na verdade. uma fusão do anjo e do macaco. admito que só numa noite assim. em pouco tempo. Particularizou sua chegada por diferir de Gregory. .

O vulgar. O poeta só está à vontade na desordem. embora possuísse um rosto muito mais afável — riu com espanto e reprovação. Porque sabem que depois de Sloane Square a estação seguinte deve ser Vitória.12 G. Um artista afronta todos os governos. Rosamond. Se tudo quanto você diz dos empregados é verdadeiro só tenho a lamentar que eles sejam tão prosaicos como a sua poesia. a coisa mais poética do mundo seria a estrada de ferro subterrânea. está em não atingi-la. o insípido. sentenciou. No caos o trem podia ir a qualquer parte. tão completamente tristes e cansados? Eu respondo. se lhe aprouver. Esse homem percebe que valem muito mais o súbito clarão de uma flama viva e o estampido de uma detonação perfeita do que os simples corpos desarticulados de alguns esbirros. CHESTERTON O homem dos brandos olhos azuis e da barbicha pálida e pontuda suportou essas rajadas com certa solenidade submissa. Por que é que todos os empregados e operários que tomam os trens parecem tão tristes e cansados. como habitualmente fazia diante do oráculo familiar. nenhuma outra senão Vitória. Um anarquista é um artista. que se vendia por muito razoável quando outra pessoa tentava o paradoxo. porque prefere um grande momento a tudo o mais. o enlevo paradisíaco de suas almas. — Absurdo! disse Gregory. a Baker Street ou a Bagdad. Não é também épico quando o homem com uma locomotiva selvagem atinge uma estação distante? O caos é estúpido. Mas o homem é um mágico e toda a sua magia con- . Não fosse assim. Syme. Mas eu adivinho o formidável êxtase. O homem que atira bombas é um artista. se a estação seguinte pudesse ser Baker Street! — Ê você que é antipoético. confirmou Mr. O maravilhoso. O terceiro membro do grupo. K. É porque sabem que o trem está na rota certa. — E é mesmo. o brilho astral de seus olhos. — Um artista é o mesmo que um anarquista. Sentimos um frêmito épico quando o homem com sua seta selvagem atinge um pássaro distante. irmã de Gregory — que tinha deste os cabelos ondulados e vermelhos. Gregory recomeçou num tom de alta bonomia oratória. Ê porque sabem que terão de chegar ao lugar para o qual compraram os bilhetes. replicou o poeta Syme. Você pode inverter a ordem das palavras. o raro está em chegar à meta. omite todas as convenções.

agora que nós a alcançamos?" Para você. Gregory. — Ê a boa marcha das coisas que é poética! Exclamou. Dê-me Bradshaw. com sorriso lento e amargo. a coisa mais poética do mundo é não estar doente. que comemora as vitórias. os poetas. . e que o homem ganhou uma batalha contra o caos. Ambas. Dê-me Bradshaw. Para nós. Sim. a coisa mais poética. — Eu lhe digo. enforquem-me. quando ouço o guarda gritar: "Vitória". mas Syme estava demasiadamente inflamado para reparar nela.. é realmente "Vitória". Nossa digestão. mais poética do que as estrelas. desde que se mantenha sagrada e silenciosamente normal. meneou a cabeça vermelha e pesada. é. Para mim. — De novo! disse Syme irritado. O que há de poético nessa contínua revolta? Você podia dizer também que é poético padecer enjôo no mar. Ora. tenho a sensação de ter escapado por um triz. perguntamos incessantemente: "E o que é Vitória. uma tabela do horário dos trens. continuou Syme com veemência. A mim deixe-me ler. em abstrato. o poeta será um eterno inconformado. Vitória é como a Nova Jerusalém. podem ser coisas salutares em certas ocasiões desesperadas. É mero vômito! A moça estremeceu ao ouvir o vocábulo desagradável. Ê a vitória de Adão. é o grito do arauto anunciando a conquista. nós. a doença e a revolta. que comemora as derrotas do Homem. mais poética do que as flores. Nova Jerusalém não será melhor nem pior do que Vitória.. eis o fundamento de toda a poesia. Ê um estado de revolta. entretanto.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 13 siste precisamente nisso: êle diz Vitória e — zás — é Vitória mesmo. — Mesmo assim. disse êle. E. chega infalivelmente a Vitória. com lágrimas de orgulho. E eu digo que podem acontecer milhares de coisas em vez desta e que sempre que efetivamente chego a Vitória. Mas. digo-lhe eu! — Vai viajar? perguntou Gregory sarcàsticamente. se posso ver em que são elas poéticas! A revolta. O poeta está sempre em revolta. Tome seu Byron. que cada vez que o trem entra numa estação sinto que êle venceu as baterias dos opressores.. revoltante. Para mim. mesmo andando nas ruas do céu. não me parece ouvir um vocábulo desprovido de sentido. por favor! Tome todos os seus livros de poesia e de prosa. Sim. . Você diz com desprezo que quando alguém deixa Sloane Square.

o raro está em chegar à meta. Gregory recomeçou num tom de alta bonomia oratória. — Absurdo! disse Gregory. Não é também épico quando o homem com uma locomotiva selvagem atinge uma estação distante? O caos é estúpido. tão completamente tristes e cansados? Eu respondo. É porque sabem que o trem está na rota certa. que se vendia por muito razoável quando outra pessoa tentava o paradoxo. a coisa mais poética do mundo seria a estrada de ferro subterrânea. Esse homem percebe que valem muito mais o súbito clarão de uma flama viva e o estampido de uma detonação perfeita do que os simples corpos desarticulados de alguns esbirros. Um artista afronta todos os governos. Mas o homem é um mágico e toda a sua magia con- . No caos o trem podia ir a qualquer parte. O poeta só está à vontade na desordem. embora possuísse um rosto muito mais afável — riu com espanto e reprovação. Não fosse assim. o enlevo paradisíaco de suas almas. confirmou Mr. Ê porque sabem que terão de chegar ao lugar para o qual compraram os bilhetes. O homem que atira bombas é um artista. — Um artista é o mesmo que um anarquista. Syme. Um anarquista é um artista. Sentimos um frêmito épico quando o homem com sua seta selvagem atinge um pássaro distante. O maravilhoso. porque prefere um grande momento a tudo o mais. nenhuma outra senão Vitória. como habitualmente fazia diante do oráculo familiar. se lhe aprouver. Por que é que todos os empregados e operários que tomam os trens parecem tão tristes e cansados. O terceiro membro do grupo. K. o insípido. replicou o poeta Syme. está em não atingi-la. Rosamond. sentenciou. o brilho astral de seus olhos.12 G. Você pode inverter a ordem das palavras. a Baker Street ou a Bagdad. O vulgar. CHESTERTON O homem dos brandos olhos azuis e da barbicha pálida e pontuda suportou essas rajadas com certa solenidade submissa. Mas eu adivinho o formidável êxtase. Porque sabem que depois de Sloane Square a estação seguinte deve ser Vitória. irmã de Gregory — que tinha deste os cabelos ondulados e vermelhos. omite todas as convenções. Se tudo quanto você diz dos empregados é verdadeiro só tenho a lamentar que eles sejam tão prosaicos como a sua poesia. — E é mesmo. se a estação seguinte pudesse ser Baker Street! — Ê você que é antipoético.

. Nova Jerusalém não será melhor nem pior do que Vitória. com sorriso lento e amargo. Você diz com desprezo que quando alguém deixa Sloane Square. a coisa mais poética do mundo é não estar doente. É mero vômito! A moça estremeceu ao ouvir o vocábulo desagradável. — Eu lhe digo. o poeta será um eterno inconformado. que comemora as vitórias. mas Syme estava demasiadamente inflamado para reparar nela.. eis o fundamento de toda a poesia. perguntamos incessantemente: "E o que é Vitória. Para mim. nós. digo-lhe eu! — Vai viajar? perguntou Gregory sarcàsticamente. Vitória é como a Nova Jerusalém. Nossa digestão. a coisa mais poética. Sim. uma tabela do horário dos trens. é o grito do arauto anunciando a conquista. O poeta está sempre em revolta. disse êle. Ê a vitória de Adão. E eu digo que podem acontecer milhares de coisas em vez desta e que sempre que efetivamente chego a Vitória. e que o homem ganhou uma batalha contra o caos. tenho a sensação de ter escapado por um triz. se posso ver em que são elas poéticas! A revolta. agora que nós a alcançamos?" Para você. meneou a cabeça vermelha e pesada. revoltante. em abstrato. Ê um estado de revolta. Para mim.. Para nós. Sim. A mim deixe-me ler. O que há de poético nessa contínua revolta? Você podia dizer também que é poético padecer enjôo no mar. que comemora as derrotas do Homem. mais' poética do que as flores. mais poética do que as estrelas. enforquem-me. por favor! Tome todos os seus livros de poesia e de prosa. os poetas. — De novo! disse Syme irritado. entretanto. . . podem ser coisas salutares em certas ocasiões desesperadas. quando ouço o guarda gritar: "Vitória". Gregory. mesmo andando nas ruas do céu. chega infalivelmente a Vitória. é . é realmente "Vitória". desde que se mantenha sagrada e silenciosamente normal. Dê-me Bradshaw. com lágrimas de orgulho.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 13 siste precisamente nisso: êle diz Vitória e — zás — é Vitória mesmo. que cada vez que o trem entra numa estação sinto que êle venceu as baterias dos opressores. Ora. a doença e a revolta. E. Mas. Tome seu Byron. — Mesmo assim. Dê-me Bradshaw. Ambas. continuou Syme com veemência. — Ê a boa marcha das coisas que é poética! Exclamou. não me parece ouvir um vocábulo desprovido de sentido.

Syme. repara no que diz? Não. há muitas espécies de sinceridade e de insinceridade. Ora. disse Syme com brandura na voz. Quando você.. começou ela.. Ê o caso de seu irmão. meu caro! Não se aflija! respondeu Syme e afastou-se. mas não se dá conta disso. Quando diz que o mundo é redondo. disse com grande dificuldade. . Com surpresa. — Então você acha. inflexível. agradece ao vizinho de mesa que acaba de lhe passar o saleiro. disse Gregory com arrogância. Esqueciame que tínhamos abolido todas as convenções. êle diz mais do que quer dizer. um quarto ou um décimo da verdade. repara no que diz? Não. . — Quer dizer que você não espera. realmente. mesclada de curiosidade e prazer. Mas creio que se você fosse um anarquista de verdade era exatamente isso o que faria. não importa. — Ora. — Mr. — Não. K. Está dizendo a pura verdade. pessoas como o senhor e meu irmão. estão sempre atentos para o que dizem? O senhor reparou no que disse? Syme sorriu e perguntou: — E a senhorita? Repara no que diz? — Que quer dizer o senhor? indagou a moça severamente. tal é o ímpeto com que pensa naquilo que está dizendo. que eu inicie a revolução da sociedade aqui neste jardim?! Syme cravou os olhos nos olhos do outro e sorriu com doçura.. Os enormes olhos taurinos de Gregory relampejaram como os de um leão enfurecido. que não levo a sério o meu anarquismo? — Como? Quer repetir. respondeu Syme. — Cara Miss Gregory. Ao falar. e quase se podia imaginar que sua juba vermelha se encrespara. quando falam. descobriu que Rosamond Gregory havia acompanhado seus passos. por favor? — Que não levo a sério o meu anarquismo? rugiu Gregory com os punhos fechados. os exemplos que você escolhe. às vezes acontece que um homem quando fala diz. por exemplo. Pode dizer uma meia-verdade. Pela primeira vez um indício de rubor marcou a testa de Gregory. CHESTERTON Realmente. não espero. — Oh! Perdoe-me. disse êle.14 G. aquilo que pensa.

a moça não teria nenhuma participação. pediu desculpas à moça e tratou de partir o mais depressa que pôde. Sabia-o inconseqüente. Ao passo que falava. comprazia-se em contemplar os cabelos vermelhos e o rosto cândido da moça. Rosamond passou alguns momentos matutando. a música de um realejo. daquele desvelo maternal que é tão velho quanto o mundo. os pares não deviam isolar-se por muito tempo. Apaixonava-se no louvor à cordura e à decência. advertiu que. Lenta e quase imperceptivelmente. aspirava a fragrancia dos lilazes espalhados pelo jardim. Defendia a respeitabilidade com ardor e exagero. — Então há razões para julgar Gregory um anarquista? — Apenas aquelas razões que dei há pouco. em ocasiões como aquela. Syme afastou-se com ela para um banco no canto do jardim e continuou a expor suas opiniões. não irá êle atirar bombas ou tomar parte em atentados? Syme rebentou numa gargalhada que parecia grande demais para seu tipo frágil e levemente ajanotado. por entre as temerá- . Ali. de repente. mas não precisava temer pela segurança dele.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 15 Rosamond fixou-o demoradamente. — Não. Parecia-lhe que suas heróicas palavras engolfavam-se numa delicada melodia emanada talvez de regiões subterrâneas ou extraterrenas. Embaraçado. aquelas sem-razões. Entretanto. mas pasmou-se ao ver o jardim completamente vazio. vinda de uma rua distante. Ela pensava em Gregory. Supondo terem decorrido alguns minutos. o orgulhoso mede as palavras com muita cautela. Era um homem sincero e. começou a subir até êle. Há muito tinha saído o último conviva. disse: — Em todo caso. Os lábios de Rosamond descerraram-se num sorriso. por Deus! exclamou. sentado. Com este pensamento. Essas coisas têm de ser feitas anonimamente. ou. Nos extraordinários acontecimentos que viriam depois. pôs-se de pé. E êle não voltou a vêla senão quando tudo acabou. a despeito de suas graças e finezas superficiais. a testa franzida. fundamentalmente humilde. Em seu rosto grave e franco pairava a sombra daquela insensata responsabilidade que habita o íntimo da mulher mais frívola. E é sempre o humilde que fala demais. Em sua cabeça — e êle não sabia como justificar essas sensações — boiavam uns como eflúvios de champanha. se quiser.

ao mesmo tempo em que começou a falar. CHESTERTON rias aventuras que o aguardavam. uma lâmpada acesa dourava as folhas da árvore. Todavia. desaparecer e surgir de novo. escapos à zona das trevas. . como o tema de um movimento musical. como um fio vermelho. feia e estéril. A um passo do poste. E aqui está a anarquia. De que se trata? inquiriu Syme um pouco espantado. mas para acabar com ela de uma vez. Gregory bateu com a bengala no poste e na árvore. neste momento você só pode ver a árvore sob a luz da lâmpada. opulenta. situado defronte da porta. Não demorou a descobrir um misterioso silêncio que era antes um silêncio vivo que morto. Gregory fêz um gesto semelhante a uma saudação e teve da parte de Syme uma réplica algo mais solene. na sombra. Eis a anarquia nesta árvore esplêndida nas cores do ouro e da esmeralda. Não me consta que em tempo algum você possa ver a lâmpada.16 G. respondeu pacientemente Syme. Da ordem e da anarquia. K. as tramas desvairadas e tenebrosas das tapeçarias da noite. Tinha a cabeça coberta por um chapéu alto e negro e o corpo envolto numa comprida sobrecasaca negra. Porquanto. Aí tem você sua preciosa ordem nessa mesquinha lâmpada de ferro. Não fiquei aqui para recomeçar a discussão. fecunda. alguém se mantinha de pé. disse Gregory. e a agressividade da postura publicavam' no vulto negro o poeta Gregory. — Apesar de tudo. quase tão rígido e imóvel como o próprio poste. sob a luz da árvore. achou-a deserta sob o céu estrelado. — Estava esperando que você chegasse. e o esplendor de sua maravilhosa cabeleira havia de atravessar. só para reabrir agora nossa discussão? — Não! explodiu Gregory numa voz que ressoou em toda a rua. a meada de cabelos avermelhados. cujos galhos debruçavam-se sobre o muro. Imitava os bravateiros embuçados que. viva. espreitam a vinda do opositor. o rosto era igualmente negro. inexplicavelmente. munidos de espadas. — Disto e disto. Poderíamos conversar uns dois minutos? — Pois não. No alto do poste. Quando Syme chegou à rua. a imagem dela havia de surgir. o que se seguiu foi tão inacreditável que bem podia ter sido um sonho. Fêz uma curta pausa e prosseguiu: mas posso perguntar-lhe se você ficou aqui todo esse tempo no escuro.

esta noite você fêz uma coisa realmente notável. — Mas eu temo que a minha ira e o insulto que você me fêz ultrapassem os limites do tolerável e não possam ser apagados com uma simples desculpa. diz um montão de tolices e talvez também algumas coisas sensatas. perguntou. Gregory voltou a falar com voz macia e sorriso desconcertante. Você fêz comigo o que nenhum homem nascido de mulher jamais conseguiu fazer antes. Você disse que eu não levo a sério o meu anarquismo. em Southend. nunca duvidei de que você fosse cabalmente sincero.. e Syme. replicou Syme. — Lamento muito. Por exemplo: você só diz aquilo que lhe parece digno de ser dito. Vou. instintivamente pressentiu a gravidade do momento. — Em tudo quanto eu disse? — Sim. se bem me recordo. Syme. — Realmente? — Aliás. outra pessoa também conseguiu fazer a mesma coisa. mais intenso. Foi o comandante de um vaporzinho vagabundo. Num sentido mais profundo. — Mr. Neste sentido. Syme bateu violentamente com a bengala na calçada e bradou: — Sério! Santo Deus! É seria esta rua? São sérias estas malditas lanternas chinesas? É séria toda essa mixórdia? Olhe. Mas eu não darei um vintém por êle se no mais fundo do ser não conduzir uma . Gregory encarava-o firme mas penosamente. — Há graus de seriedade.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 17 Caiu novamente o silêncio. provar que você está enganado em tudo quanto disse. você não crê que sou sério. disse Gregory pensativamente. A verdade é que você me irritou. ainda que não pescasse o verdadeiro sentido das palavras do outro. Só existe um meio de fazer desaparecer o insulto e esse meio eu já o escolhi. Se eu o matasse. você crê na minha seriedade? Você me toma por um flâneur que deixa cair por onde passa uma ou outra verdade ocasional. o caso não estaria encerrado. Nunca pus em dúvida a sua sinceridade em certas coisas. — E num outro sentido. acredita que um paradoxo pode despertar a humanidade para uma verdade desprestigiada. disse Gregory muito calmo. Está bem. aparece aqui um sujeito. respondeu gravemente Syme. se a memória não me falha. Nenhum duelo poderá apagá-lo. com o possível sacrifício de minha vida e de minha honra. .

estes dois fantásticos sujeitos deixaram seu não menos fantástico subúrbio. Gregory deu o endereço de uma obscura taberna situada em Chiswick.. Entraram em silêncio. aqui e agora. que você tem uma? — Claro! exclamou Syme. Você vai conhecer uma coisa mais séria do que a bebida ou a religião. Pela portinhola. — Muito bem. que não contarei nada. realmente. . seja o que fôr. — Você me promete em troca!?! insistiu Syme quando o outro se interrompeu. disse Gregory com o rosto sombrio. É verdade. se consente em sobrecarregar sua alma com um juramento que nunca pensou em fazer e com um conhecimento de coisas com que jamais sonhou. de que se trata? — Acho. com um sorriso radiante. que devemos chamar um fiacre. e um fiacre veio ressoando pela rua.. — Você acaba de falar em religião.. Permita-me. disse Gregory com plácida dissimulação.. uma coisa mais séria. Você diz que um poeta é sempre um anarquista. CHESTERTON coisa mais séria do que essa tagarelice. eu lhe prometo em troca. Discordo. Deu dois longos assobios. K. à polícia. O fiacre foi posto de novo em movimento e.18 G. Somos todos católicos agora. Syme ficou aguardando delicadamente até que Gregory retomou a palavra. E agora. — Eu lhe prometo uma noite muito divertida. em nome de Colney Hatch. dentro dele. que tanto pode ser a religião quanto a bebida. Mas espero que êle seja pelo menos um cavalheiro. à margem do rio. Syme tirou o chapéu e disse: — Seu oferecimento é tão insensato que não merece recusa. — Então posso pedir-lhe que jure por todos os deuses e santos da sua religião que não revelará a nenhum filho de Adão e especialmente à polícia o que vou contar? Jura? Se assume tão terrível compromisso. jurar como cristão e prometer como bom camarada e companheiro de ofício.

achou-a bastante apetitosa e logo começou a comer com grande avidez. o criado disse apenas "Pois não. Nem sempre tenho a sorte de ter . — Que quer beber? acrescentou Gregory. disse o imóvel Syme. imaginando tratarse de uma pilhéria. de manter a conversação. vou tomar somente um creme de menthe. até então frustradas. como por um raio. com o mesmo ar descuidado mas polido. espécie de locutório. o fiacre parou. senhor!" e foi buscá-la. toda de madeira.. onde se sentaram à roda de uma sórdida mesa de pé de galo. respondeu com propositada indiferença: — Ora. com a presença da lagosta. Deixe-me servir-lhe ao menos meia garrafa de Pommery. Apearam-se e Gregory conduziu imediatamente o companheiro para um cubículo interior. Disposto a seguir o filão de humor. disse sorrindo a Gregory. Você é muito amável. me traga maionese de lagosta. sombrio e abafado. Como já jantei.. O quarto era tão pequeno e escuro que do serviçal chamado nada mais se divisava além da vaga e negra sombra de um vulto corpulento e barbado. — Muito obrigado. — Quer cear? perguntou Gregory polidamente. O pâté de foie gras daqui não é bom. Syme recebeu impassível a observação. Suas tentativas.CAPITULO II O SEGREDO DE GABRIEL SYME Chegado em frente a uma cervejaria particularmente imunda e lúgubre. mas posso recomendar a lebre. Para sua indescritível estupefação. — Perdoe-me se manifesto tão claramente minha satisfação. No champanha se pode confiar. Syme degustou-a. foram enfim cortadas.

respondeu Gregory. a mesa tinha começado a girar. apresentando-lhe uma charuteira. a princípio vagarosamente e depois cèleremente como numa sessão espírita. disse Gregory. Ao contrário. desapareceram através do assoalho. '•— Exato! disse Syme plàcidamente. Somos os homens mais modestos que jamais viveram sobre a terra. somos sérios em tudo. que até então ondulava pelo quarto em serpeantes volteios. Creditese a seu favor a calma com que efetuou todo este ritual. como se a terra os tivesse tragado. Syme aceitou o charuto e. esvaziando o copo de champanha. Ê uma espécie de rosca. cortando-lhe a ponta com um corta-charutos que tirou do bolso do colete. Mas confio em que possa comportar-me como um cavalheiro em qualquer circunstância. e os dois. e de supetão chegaram ao fundo com . — Muito simples. pois. Nós somos os anarquistas sérios. Comumente sucede o inverso. subiu a prumo como por uma chaminé de fábrica. Como é simples! Um minuto depois. Ah. tão rapidamente como um ascensor desgovernado. acendeu-o vagarosamente e soltou imensa baforada. CHESTERTON um sonho como este. replicou Syme com absoluta calma. a fumaça do charuto. — E quem são nós? perguntou Syme. É uma novidade para mim que um pesadelo conduza a uma lagosta. disse Gregory. olhe aí seu champanha! Admito que haja uma leve desproporção. Foram caindo estrepitosamente por dentro de uma espécie de chaminé rugidora. Vocês se arranjam bem nas bebidas! — Sim. pouco antes de iniciá-lo. Mas nisso reside toda a nossa modéstia. mais a mesa e as cadeiras. você está à beira do momento mais real e excitante de sua existência. estou louco.20 G. entre o arranjo interior deste excelente hotel e seu exterior simples e despretensioso. — Bem. — Não faça caso. levou-o à boca. garanto-lhe. Não quero que você cometa uma injustiça. Experimente um dos meus. em quem você não acredita. digamos. Posso fumar? — À vontade. — Oh! exclamou Syme. Depois de uma pausa acrescentou: — Se dentro de alguns instantes esta mesa começar a girar um pouco. se não estou bêbado. disse Gregory. — Não está dormindo. respondeu Gregory. não meta isso na conta das suas incursões no champanha. Uma espécie de rosca. K.

tratava-se de uma senha. disse Gregory sentandose expansivamente no banco situado debaixo da bomba maior. E entrou no corredor guarnecido pelas armas de aço.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 21 um baque surdo. Eram bombas. o corredor cintilava como se estivesse revestido de uma rede de aço. Atravessaram vários corredores idênticos e chegaram. presa a uma pequena e pesada porta de ferro. na qual Gregory deu cinco pancadas. com sotaque estrangeiro. — E agora. por fim. uma perna cruzada sobre a outra. Gregory deu uma resposta mais ou menos inesperada: "Mr. Uma voz forte. quase tão grande como uma lareira. disse Syme. Lá no fundo. abobadado. Limito-me a dizer . Gregory guiou-o através de um corredor baixo. Syme. a um esquisito quarto de aço e de paredes curvas. — Devo pedir-lhe perdão por todas essas formalidades. ou ovos de pássaros de ferro. Syme bateu na parede para derrubar a cinza do charuto e entrou. estreitamente entrelaçadas ou amontoadas. meu caro Mr. quase esférico. Mas quando Gregory escancarou as duas folhas de uma porta e surgiu uma subterrânea luz vermelha. coisas que lembravam bulbos de plantas de ferro. com suas fileiras de bancos. Joseph Chamberlain". Na porta havia um tipo de escotilha ou vigia. Foi uma daquelas emoções puramente arbitrárias. mas sugerindo. agora que estamos à vontade. Nele não havia espingardas nem pistolas. — Não se desculpe. que levam a gente a pular de um rochedo ou a apaixonar-se. mas estavam suspensas nas paredes formas mais ambíguas e terríveis. e um único fio de seus cabelos amarelos não se tinha desarranjado. e o quarto mesmo assemelhava-se ao interior de uma bomba. de onde provinha a luz vermelha. Syme continuava a fumar tranqüilamente. Conheço sua paixão pela lei e pela ordem. Moveram-se os pesados gonzos. estava uma enorme lanterna escarlate. era na verdade uma figura singularmente frágil e fantástica a caminhar naquela rutilante avenida da morte. Num segundo relance. Syme percebeu que a fulgurante parede estava realmente forrada de várias fileiras de espingardas e pistolas. o aspecto de um anfiteatro científico. disse Gregory. Evidentemente. Mas nenhuma palavra da linguagem dos homens poderá lhe dar a menor idéia do motivo que me impeliu a trazê-lo até aqui. Interiormente. Com seus compridos cabelos louros e sua ridícula sobrecasaca. Temos que ser muito rigorosos aqui. perguntou quem era. falemos claramente.

promessa que em verdade cumprirei. interrompeu Gregory. K. — E a direita e a esquerda? perguntou Syme com simplicidade. Esse tipo de anarquismo existe. de preferência. Nós cavamos mais fundo e vamos fazê-los voar mais alto. disse Syme reatando o fio da conversa. depois de vencer todos esses obstáculos para entrincheirarse nas entranhas da terra. que ainda constituem o fundamento da rebeldia dos simplórios. Você deve estar lembrado de que muito habilmente extorquiu de mim a promessa de nada contar à polícia. dis- . Esse seu modo de acender o charuto obrigaria um padre a revelar o segredo da confissão.. é por mera curiosidade que faço tais perguntas. Noto que. Posso agora perguntar-lhe por que. Bem. por assim dizer. Cercam-se de apetrechos de aço que tornam o lugar. a honra e a traição. Em primeiro lugar. Espero que vocês as eliminem também. Mas posso fazer-lhe duas perguntas? Não precisa ter medo de me dar informações. Visamos a negação de todas as arbitrárias distinções. que é que tudo isso significa? O que é que vocês pretendem? Querem abolir o governo? — Queremos abolir Deus! disse Gregory abrindo os olhos de fanático. para fazer-lhe justiça. estabelecidas entre o vício e a virtude. Tenho uma tia que morava em cima de uma loja. você alardeia os seus segredos. ainda continua sendo um camarada indizivelmente irritante. CHESTERTON que você foi e. mas esta é a primeira vez que encontro gente que vive. em todos os atos e circunstâncias presentes. Já abolimos os dois. debaixo de uma taberna. Chamberlain. vocês tentam cobrir-se de mistério. Os ingênuos sentimentais da Revolução Francesa pregavam os Direitos do Homem! Nós odiámos Direitos e Injustiças. assentiu Syme. — Com muito prazer. mais sinistro do que acolhedor. Este lugar não lhe parece sério? — Realmente parece encobrir uma moral debaixo de toda sua gaiatice. Para mim são muito mais enfadonhas. mas não passa de um ramo dos não-conformistas.. Você dizia que estava perfeitamente convicto de que eu não era um anarquista sério. Não pretendemos somente perturbar alguns despotismos e regulamentos policiais. Possuem uma pesada porta de ferro e não podem passar por ela sem se submeter à humilhação de chamar-se Mr. — Você falou de uma segunda pergunta. Portanto. Eu quebraria vinte juramentos de sigilo só pelo simples prazer de espezinhá-lo.22 G.

botei os pés num salão e trovejei — "Humilha-te. César e Napoleão empenharam todo o seu gênio para se tornarem conhecidos e tiveram êxito. mas defendia o capital com tanta inteligência que qualquer imbecil podia ver logo que eu era muito pobre. Constantemente desembainhava e brandia a espada e. com botas episcopais. — Você não pode nem imaginar. Então. Fui apanhado novamente. Mas você não pode ficar cinco minutos na mesma sala em que êle estiver sem sentir que na mão dele César e Napoleão teriam sido dois meninotes. Cuidei de ler tudo o que se relacionava com os bispos em nossos opúsculos anarquistas. fui ter com o Presidente do Conselho Central Anarquista. Estava enganado. Enquanto não os trouxer a esta sala infernal não acreditarão. a guerra altiva. Afinal. Transformei-me. mas creio possuir bastante largueza intelectual para compreender a posição daqueles que. desesperado.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 23 correndo sobre anarquismo diante de todas as donas desocupadas de Saffron Park? Gregory sorriu: — A resposta é simples. Syme fumava pensativamente e fitava-o com interesse. procurei passar por major. mas você não acreditou. e o conseguiu. E nisso está a grandeza dele. sem nenhum propósito. como um homem que pede Vinho. Vesti-me de bispo. O Vampiro da Superstição e Padres de Rapina. Repeti muitas vezes: "Pereçam os fracos. num major. admiram a violência. gritava: "Sangue!". . que é o homem mais notável da Europa. Nem ninguém acredita. -— Como se chama? perguntou Syme. como Nietzsche. Depois banquei o milionário. Pessoalmente. Parece que não é assim que procedem os majores. humilha-te. presunçosa razão humana" — descobriram. Logo que me fiz membro dos Novos Anarquistas experimentei todos os gêneros de disfarces respeitáveis. A primeira vez que. É a lei". Gregory continuou: — A história que lhe vou contar poderá diverti-lo. não sei como. Nosso Presidente põe todo o seu gênio em conseguir que não se fale dele. respondeu Gregory. Já lhe disse que sou um anarquista sério. Aprendi neles que os bispos são uns anciãos terríveis e estranhos que ocultam da humanidade um segredo cruel. que eu nada tinha de bispo e me apanharam imediatamente. então. sou um humanitário. feroz da natureza e tudo o mais que você conhece.

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K.

CHESTERTON

Empalideceu e passou uns momentos em silêncio. Depois prosseguiu: — Qualquer que seja o conselho que êle dê é sempre uma coisa tão surpreendente como um epigrama e ao mesmo tempo tão prática como o Banco da Inglaterra. Perguntei-lhe: "Que disfarce esconder-me-á das vistas do mundo? Que posso eu descobrir de mais respeitável que bispos e majores?" Êle me olhou com sua cara enorme e indecifrável. "Você quer um disfarce que o ponha a salvo de tudo, não é? Você quer um traje que lhe permita passar por inofensivo; um traje de que ninguém possa suspeitar que leva uma bomba escondida?" Assenti com a cabeça. E êle prosseguiu, alteando a voz de leão: "Pois, então, vista-se como um anarquista, seu idiota!", rugiu com tanta força que abalou a sala. "E não haverá ninguém que o julgue um tipo perigoso". E virou-se, dando-me suas largas costas, sem me dizer outra palavra. Tomei o conselho e até aqui não me arrependi. Dia e noite preguei sangue e destruição àquelas mulheres e — por Deus! — elas me deixariam guiar o carrinho em que levam os filhos a passeio. Os grandes olhos azuis de Syme fitavam o companheiro respeitosamente. — Você me ludibriou, disse êle. É realmente um embuste primoroso. Fêz uma pausa e acrescentou: — Que nome tem esse medonho Presidente? — Nós todos o chamamos Domingo, respondeu Gregory com simplicidade. O Conselho Central Anarquista se compõe de sete membros que receberam os nomes dos dias da semana. O Presidente é o Domingo. Alguns de seus admiradores chamamno Domingo, o Sanguinário. É curioso que você tenha tocado neste ponto, porque nesta mesma noite em que você caiu do céu (desculpe-me a expressão) nossa seção londrina deve reunir-se aqui nesta sala para eleger um representante que vai preencher a vaga no Conselho. O cavalheiro que desempenhou por algum tempo, com perícia e aplausos gerais, as árduas funções de Quinta-feira, acaba de morrer. Por isso, convocamos esta noite uma reunião para escolhermos o seu sucessor. Levantou-se e começou a passear pela sala, sorrindo com certo embaraço. — Syme, de certo modo, eu o sinto agora como se você fosse minha mãe. Sinto que posso confiar-lhe qualquer coisa, desde que você prometeu não contar nada a ninguém. De fato,

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vou contar-lhe uma coisa que não teria coragem de contar aos anarquistas que estarão aqui dentro de dez minutos. Naturalmente iremos proceder a uma forma de eleição. Não me acanho de dizer-lhe que estou certo do resultado. E baixando modestamente os olhos, disse: Está quase estabelecido que eu serei o Quinta-feira. — Bravo, amigo! exclamou Syme calorosamente. Congratulo-me com você. Bela carreira! Gregory sorriu com modéstia e, enquanto atravessava a sala, falava apressadamente. — A verdade é que tudo está pronto para mim nesta mesa, e a cerimônia provavelmente será a mais curta possível. Por sua vez, Syme foi até à mesa e viu uma bengala que um exame mais apurado revelou ser uma bengala de estoque. Lá estavam também um grande revólver Colt, um embrulho de sanduíches e uma formidável garrafa de conhaque. Numa cadeira, ao lado da mesa, fora atirado um capote. — Resta-nos somente esperar que se cumpram as formalidades da eleição, prosseguiu Gregory com desenvoltura. Uma vez concluídas, agarro a capa e a bengala, meto as outras coisas no bolso e abandono esta caverna, saindo por uma porta que dá para o rio. Lá me espera uma lancha a vapor. Então.. . Depois . . . Oh! A alegria selvagem de ser o Quinta-feira! E entrelaçou os dedos nervosamente. Syme, que se sentara uma vez mais com seu habitual langor insolente, levantou-se com um desusado ar de hesitação. — Por que é, perguntou de maneira um tanto vaga, que eu acho que você é um sujeito honesto? Por que é que eu simpatizo francamente com você? Parou um instante e depois ajuntou, como se o fizesse por pura curiosidade: Será porque você é um verdadeiro asno? Ficou meditando em silêncio durante alguns momentos e por fim exclamou: — Ora, dane-se tudo! Nunca em minha vida me vi numa situação mais engraçada do que esta, mas vou comportar-me à altura. Gregory, antes de entrar aqui eu lhe fiz uma promessa. E hei de cumpri-la, mesmo torturado por tenazes incandescentes. Você está disposto a fazer, para minha segurança, uma pequena promessa da mesma espécie? — Uma promessa? perguntou Gregory espantado. — Sim, uma promessa respondeu Syme muito sério. Perante Deus eu jurei que não contaria seu segredo à polícia.

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K.

CHESTERTON

Poderá você jurar pela humanidade, ou por qualquer outra asneira da sua crença, que não revelará meu segredo aos anarquistas? — Seu segredo? perguntou Gregory estupefato. Você tem um segredo? — Tenho, disse Syme. Eu tenho um segredo. Depois de uma pausa, insistiu: Jura? Antes de falar, Gregory considerou gravemente o outro por alguns instantes. — Você deve ter-me enfeitiçado, mas sinto uma furiosa curiosidade a seu respeito. Juro. Juro que não contarei aos anarquistas nada do que você me disser. Mas avie-se. Em dois minutos eles estarão aqui. Syme levantou-se e enfiou as mãos brancas e compridas nos bolsos das calças cinzentas. Quase ao mesmo tempo soaram cinco pancadas na escotilha, anunciando a chegada dos primeiros conspiradores. — Bem, disse Syme, e continuou a-falar com lentidão. Não sei como contar-lhe a verdade em poucas palavras, senão dizendo que o seu expediente de disfarçar-se como um poeta desorientado não é privilégio seu nem do seu Presidente. Algumas vezes também temos lançado mão do mesmo embuste na Scotland Yard. Gregory tentou levantar-se de um pulo, mas por três vezes fraquejou. — Que é que você está dizendo? perguntou aterrado. — Isso mesmo, disse Syme simplesmente. Sou detetive. Trabalho para a polícia. Mas. .. creio que seus amigos estão chegando. Do corredor vinha um murmúrio de "Mr. Joseph Chamberlain", repetido duas vezes, três, trinta vezes, casado ao trotar daquela multidão de Joseph Chamberlains — o que parecia a personificação mesma da solenidade.

— Não vê que nos pusemos em xeque um ao outro? gritou Syme. Eu sou um polícia privado da ajuda da polícia. Gregory baixou vagarosamente o revólver. ainda com os olhos presos em Syme. como se este fosse um monstro marinho. Este. Não vê que não é necessário? Não vê que embarcamos no mesmo bote e que ambos estamos mareados? Gregory não podia falar. disse com a dignidade efeminada de um cura. Você não pode dizer aos anarquistas que eu sou da polícia. Rugindo feito uma fera. Vamos. ciente do que eu sou. E você. homem! Espere para ver como me atraiçôo. eu estou rodeado de anarquistas inquiridores. De um salto pôs-se ao lado da mesa. apanhou o revólver e apontou-o para Syme. — Não seja idiota. você pode apenas vigiar-me.CAPITULO III O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA Antes que assomasse à porta o primeiro recém-chegado. . ergueu a mão pálida e delicada. Vou fazê-lo primorosamente. é um anarquista privado da ajuda daquela lei e daquela organização tão essenciais à anarquia. mas também não podia disparar a arma. Não posso atraiçoá-lo. sem vacilar. A única diferença que existe é a seu favor. apenas podia considerar em silêncio a situação. Eu não posso dizer à polícia que você é anarquista. trata-se de um solitário duelo intelectual: minha cabeça contra a sua. meu pobre amigo. Gregory se tinha recuperado da surpresa e do aturdimento. ciente do que você é. mas poderia eu mesmo atraiçoar-me. Você não está rodeado de polícias inquiridores. Em suma. Posso apenas vigiá-lo.

costumava enviar esses embaixadores intempestivos às assembléias secionais. acho que é isso que devem fazer. o terrível Presidente. deveras. Um homenzinho de barba negra e de óculos — um sujeito mais ou menos do tipo de Mr. o homenzinho da barba negra. — Não quebrarei minha palavra. — Que quer dizer com isso? — A verdade. com sua inspirada desfaçatez. com inesperada salvação para seu rival. você quebrar sua palavra. é que eu sou sabatista. — Bem. Syme venceria todas as situações difíceis. Deus fabricará um inferno só para você gemer lá dentro eternamente. disse o homenzinho dos papéis. Tim Healy — destacou-se do grupo. e um bruxuleio de medo perpassou em todas as fisionomias do grupo. Seus amigos já estão aqui. K. nem você quebrará a sua. Acho melhor dizer que represento a raiz. não? Surpreendido. — Se você me pede um conselho de amigo. disse Syme com severa benevolência. Mas se. camarada. respondeu: — Alegra-me ver que a sua porta é tão bem guardada que é dificílimo para alguém que não seja delegado entrar aqui. a passo duro e fatigado. Era óbvio que. acho que agiríamos corretamente dando-lhe um lugar em nossa reunião. disse por fim. disse Syme serenamente. — Eu não diria que represento um ramo. visivelmente suspeitoso. Enviaram-me especialmente para que vocês observem aqui o devido acatamento ao Domingo. disse Syme severamente. levantou-se imediatamente e começou a caminhar pela sala. O homenzinho deixou cair um de seus papéis. Gregory baixou os olhos e gaguejou o nome de Syme. Quando Gregory notou que o perigoso diálogo terminara. disse êle. disse Syme rindo. depois de tudo isso. Evidentemente. mas Syme. — Camarada Gregory. quase petulante. Por esse lado não havia o que . mergulhado em penosos pensamentos. CHESTERTON — Não creio na imortalidade. Afligia-o. — Qual dos nossos ramos você representa? perguntou maliciosamente. Entretanto. cujo nome era Domingo. agitando numa das mãos um maço de papéis. A massa de anarquistas entrou pesadamente na sala. uma angústia diplomática. contraiu a testa. suponho que esse homem é um delegado.28 G.

— Camaradas! começou êle com voz incisiva como disparo de pistola. tido a honra de eleger Quintas-feiras para o Conselho Central Europeu. Mas não é para louvar suas virtudes que estamos reunidos. Sabeis também que êle foi tão desprendido em sua morte como o tinha sido em vida. E a crueldade. o Syme que escapasse seria um Syme desonerado de todos os compromissos de sigilo. O homenzinho dos papéis enfiou-se na poltrona presidencial. porém. em parte por questão de honra. teria matado todos quantos se encontravam no cais. ou qualquer coisa que lembrasse a crueldade. em substituição ao leite. camaradas. Esta seção tem. todos aprovaram a proposta. A vós. compete. que. Difícil é glorificar o mérito de suas qualidades. e disse: — Penso que é tempo de começarmos. desde sempre. mas em parte também porque. Depois Syme ia embora e o caso estava encerrado. Nossa reunião desta noite é importante. que nos deixou para sempre. indignava-o. escolher. ainda mais difícil substituí-las. Todos lamentamos o triste desaparecimento do heróico trabalhador que ocupou o posto até a semana passada. . pois morreu no culto à fé que depositava numa higiênica mistura de água e giz. mas convém que seja breve. Elegemos muitos e valorosos Quintas-feiras. beberagem que considerava própria de bárbaros pela crueldade que inflige à vaca. um Syme que simplesmente correria a denunciá-lo na Delegacia mais próxima. No fim de contas. naquela noite. é. Como sabeis. Proponho que o camarada Buttons assuma a presidência. entre os presentes. se êle o atraiçoasse e por um motivo qualquer fracassasse em destruí-lo. e sim para uma tarefa mais árdua. sob circunstâncias mais favoráveis. Erguendo as mãos. êle prestou consideráveis serviços à nossa causa. nesta noite. Gregory. o homem que deverá ser Quinta-feira.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 29 temer. Teria o cuidado de evitar o mais possível. A lancha está esperando no rio. Espero que um de vós indique um nome para ser submetido à votação. que se mencionassem os planos de ação. Organizou aquela grande explosão de dinamite em Brighton. tratava-se de uma única reunião noturna e de um único detetive que a assistia. Se nenhum nome fôr indicado serei forçado a admitir que aquele querido dinamitador. Êle mesmo. A passos largos avançou por entre os anarquistas que começavam a distribuir-se nos bancos. levou aos abismos insondáveis o último segredo da virtude e da inocência. não podia atraiçoar Syme.

mas persiste incorruptível. talvez o único trabalhador real que ali se encontrava. Em seguida. E voltou a sentar-se com a mesma dificuldade. por contraste. Um tipo pequeno. levantou-se com dificuldade e falou: — Proponho para Quinta-feira o camarada Gregory. Não é mister dar-vos conta da minha política. Nunca se instruem sobre os anarquistas nas próprias fontes anarquistas. reforçar a antiga presunção de Syme? — Camaradas! começou em voz baixa mas penetrante. podia dar da instituição uma idéia sutil e delicadamente falsa. diante de si. acolá. CHESTERTON Houve um movimento de aplauso quase inaudível. instruem-se no Ally Sloper's HalfHoliday e no Sporting Times. Sobre os anarquistas instruem-se nas novelas baratas. muito suave. um ancião corpulento. disse o Presidente. tal como o que se ouve às vezes na igreja. deformada. Gregory ergueu-se no meio de ruidosos aplausos. Estava decidido a fazer um discurso ameno e ambíguo a fim de gravar na mente do detetive a impressão de que a fraternidade anarquista era. — Há alguém que secunde esta proposta? perguntou o Presidente. Tinha o espírito preparado e. de um extremo a outro da Europa. A palidez mortal de seu rosto acentuava. Os ociosos que falam da anarquia e da ameaça que ela representa. o esquisito vermelho de seus cabelos. Acreditava no próprio talento literário e na sua capacidade de sugerir belos matizes e usar palavras inconfundíveis. K. apoiou a resposta.30 G. as origens. de resto. catam informações ali. acumulam sobre nossas cabeças. não buscam as nascentes. Não podia agora. Já uma vez Syme presumira que os anarquistas cobriam com suas arruaças as mais refinadas tolices. pois ela também é a vossa. Não temos ensejo de desagravar as montanhas de ultrajes que. Mas sorria e estava inteiramente à vontade. barbado. num momento de perigo. plano e reto como uma estrada branca. convido o camarada Gregory a fazer sua profissão de fé. vestido com um casaco de veludo. via o programa que traçara. com uma comprida e venerável barba branca. com cautela e a despeito das pessoas que o rodeavam. que pareciam quase escarlates. totalmente obscurecida e vilipendiada. — Antes de submeter a matéria à votação. mas não nos buscam. O homem que . Julgava que. Nossa crença tem sido caluniada. instruem-se nos jornais da bolsa comercial. por toda a parte.

. Nós não comemos carne humana. Gregory repetiu furioso: — Somos clementes como os primitivos cristãos eram clementes. Somos clementes. Ah. tornou Gregory.. suponde que nós estamos apenas revivendo aquele misterioso paradoxo da História. Somos simples como eles eram simples: contemplai o camarada Witherspoon. como os cristãos se reuniam nas catacumbas. como êle conhece tão mal a si mesmo! Não podeis negar que êle usa de expressões extravagantes e que sua aparência é feroz e mesmo (para o gosto vulgar) pouco sedutora. se por um desses incríveis acasos. Suponde que nós parecemos tão escandalosos como os cristãos porque somos realmente tão inofensivos como eram os cristãos. embora a paixão me mande romper o teto com minhas palavras. — Não! Isso não! É demais! protestou Mr.. Cortou o repentino silêncio a voz forte e áspera do homem do casaco de veludo.. estivesse aqui neste momento um homem que durante toda a sua vida alimentou imensos preconceitos a nosso respeito. Mas somente o olho de uma estima tão profunda e dedicada como a minha pode perceber as camadas de sólida mansidão que lhe forram o âmago do ser. Mas. Os aplausos que tinham saudado as primeiras frases de Gregory foram esfriando gradualmente e ante as últimas palavras sumiram-se de vez. só que chegamos muito tarde. o do casaco de veludo. Por que não? . Repito: Somos os verdadeiros cristãos primitivos..O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 31 sempre ouviu dizer que somos pragas vivas nunca ouviu nossa resposta. o que não impediu que eles fossem acusados de comer carne humana. diz que não é manso. Suponde que parecemos tão loucos como os cristãos porque somos realmente tão mansos como eles".. Witherspoon. — Eu não sou manso! — O camarada Witherspoon. É certo que ainda não vai ouvi-la nesta noite. camadas tão inescrutáveis que êle mesmo é incapaz de divisá-las. farlhe-ia esta pergunta: "Que espécie de reputação moral desfrutavam nas ruas de Roma os cristãos que se congregavam nas catacumbas? Quantas histórias de atrocidades cristãs não contavam os romanos cultos? Suponde (eu pediria a esse homem). como eles eram modestos: contemplai-me. Porque é nas profundezas do coração da terra que os perseguidos têm permissão para reunir-se. Somos modestos. — Vergonha! bradou Witherspoon.

no seio de nossa sociedade. (Risos) De qualquer modo. E Mr. Tendo pronunciado estas primeiras palavras formais num tom moderado. a proposta teria sido aprovada. que está fundada no amor. A cavaleiro das calúnias que nos representam como assassinos e inimigos da sociedade humana. por mera rotina.. repetiu Gregory rangendo os dentes. Não houve em todo o discurso do camarada Gregory uma única . Todavia. com coragem moral e tranqüilo impulso intelectual. Gabriel Syme evidentemente entendia de oratória. eu me oponho. fêz com que as seguintes retumbassem e estalassem na abóbada. K. os perenes ideais de fraternidade e simplicidade. — Camaradas! gritou com uma voz que fêz estremecer os ouvintes. Syme levantou-se rapidamente e disse com voz sumida e quieta: — Sr. Revestimos de armas estas paredes e barramos a porta com a morte para impedir que outros venham aqui ouvir o camarada Gregory dizer-nos: "Sede bons e sereis felizes". "A honestidade é o melhor princípio" e "A virtude traz em si mesma a recompensa"? Respondam-me por favor. Foi para isto que viemos até aqui? Para ouvirmos frases como essas é que vivemos soterrados como ratos? Bobagens desta ordem podemos escutar nos banquetes das escolas dominicais.32 G. está ansioso de saber por que motivo ninguém o come. ou que eu visaria se fosse eleito representante dessa corporação. como se uma das armas houvesse disparado. disse Gregory com febril jovialidade. Fêz-se um silêncio constrangedor. CHESTERTON — O camarada Witherspoon. O fator decisivo na oratória é uma súbita mudança de voz. . Gregory volveu a seu banco e passou a mão pela testa. abaixo o amor! — . Presidente. demandaremos. Mas quando o Presidente ia abrir a boca para declará-la aprovada. mas o Presidente ergueu-se como um autômato e falou com voz incolor: — Há alguém que se oponha à eleição do camarada Gregory? A assembléia dava a impressão de estar vaga e subconscientemente desapontada. não haverá dificuldade em atingir o objetivo que visamos como uma corporação. que o estima sinceramente. breve e simples. . — Não! não! disse Witherspoon. que está fundada no amor.. O camarada Witherspoon mexia-se intranqüilo em seu banco e resmungava dentro da espessa barba.

ofereço-me como candidato. e tanto pior para a sociedade. (Aplausos renovados) Oponhome ao camarada Gregory tão impessoalmente e tão serenamente como se tivesse de escolher entre um revólver e outro numa daquelas prateleiras. Gregory permanecia fitando-o. sua mais antiga e impiedosa inimiga. (Apoiado. Digo que o camarada Gregory é incompetente para o cargo de Quinta-feira. Aliás.. pois a sociedade é inimiga da humanidade. apoiado) O camarada Gregory nos disse. Falo sem rebuços. apesar de todas as suas amáveis qualidades. Êle sabe. com o rosto idiotizado de assombro. (Aplausos) Desde que Syme se levantara. Oponho-me ao camarada Gregory como me oporia a todos os governos da Europa. Somos carrascos. êle está incapacitado de ser Quinta-feira em razão de suas amáveis qualidades. Na pausa que se fêz. que não somos assassinos. resoluto e eficiente Quinta-feira. que nós não somos os inimigos da sociedade. (Apoiado. apoiado) Não é tempo de polidez cerimoniosa.. (Apoiado. mais uma vez indulgente.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 33 palavra que um cura não pudesse ouvir com prazer. que iam ficando mais ferozes à medida que aprovavam as palavras cada vez mais intransigentes . E digo mais: em lugar de ter Gregory e seus métodos açucarados no Supremo Conselho. Não simulo. apoiado) O camarada Gregory nos disse. Não somos assassinos. num tom demasiadamente indulgente. Aquelas caras. seus lábios côr de barro despregaram-se e êle exclamou com automática e inanimada clareza: — Maldito hipócrita! Syme cravou seu olhar azul-pálido nos olhos furiosos de Gregory e disse com dignidade: — O camarada Gregory acusa-me de hipocrisia. que estou mantendo meus compromissos e que não faço outra coisa senão o meu dever. Concordo. tão bem como eu. Esta frase afogou-se numa ensurdecedora cachoeira de aplausos. (Apoiado. (Aplausos) Não sou apenas um homem. Mas eu digo que nós somos os inimigos da sociedade. e menos ainda de cerimoniosa modéstia. apoiado) Mas eu não sou um cura (Ruidosos aplausos) e não o escutei com prazer. Não queremos o Supremo Conselho da Anarquia infetado de pieguismo sentimental. Sou uma causa. (Renovados aplausos) O sujeito talhado para ser um bom cura não foi talhado para ser um enérgico. Nós somos os inimigos da sociedade. O anarquista que se dedicou à anarquia esqueceu a modéstia e esqueceu também o orgulho.

como emenda. ao gordo parlamentar que afirma que estes homens são inimigos da ordem e da moralidade públicas. ao juiz que afirma que estes homens são inimigos da lei. — Há alguém que esteja de acordo com a emenda? perguntou. parai! gritou com uma voz aguda que lhe rasgava a garganta. falou: — Proponho.. ergueu-se de um salto e berrou para conter a gritaria. .. Este homem não pode ser eleito. lutarei por merecê-la. um homem alto. mas antes que cessasse Witherspoon. que o camarada Syme seja indicado para o posto. imprimiu à voz uma nova modulação. estavam agora retorcidas em esgares de expectação ou fendidas em gritos de regozijo. Parai. arrebatado. — Parai! Pairai! gritou Gregory frenético. Entretanto. Que é que êle é? Duas vezes Gregory abriu a boca mas não pôde articular uma só palavra. ? ! repetiu Syme completamente imóvel.. lentamente. . Num dos últimos bancos. (Aplausos estrepitosos e prolongados) Ao pároco que afirma que estes homens são inimigos da religião. Vim para destruirvos e cumprir vossas profecias". CHESTERTON de Syme. a todos eles responderei: "Sois falsos reis.. cansado. que estivera a esganiçar-se até então. — Vou dar cabo de tudo isso! disse. O pesado clamor paulatinamente decrescia. — Parai! Loucos. acima dos brados de Gregory e acima do alarido geral. . K. de olhos melancólicos e de cavanhaque à americana. Tudo isso é uma. — É . . rebentou incontrolável bramido de excitação e assentimento. Gregory. o cabelo e a barba eriçados. ao contrário. Gregory. o sangue começou a insinuar-se em seu rosto inerte. . ouvia-se a voz de Syme trovejando impiedosamente: — Não vou para o Conselho com o fim de rebater a calúnia dos que nos chamam assassinos. Depois. mais espantosa do que qualquer ganido. tentava levantar-se.34 G. Êle é . A voz do Presidente cortou-lhe a palavra com frieza.. mas sois verdadeiros profetas.. No momento em que êle se anunciou como candidato ao posto de Quinta-feira. cuja boca espumava. e sua voz parecia tão pesada como uma pedra.

imploro-vos: não elejais este homem. Direi que é uma ordem. mas executai-a. oh! interrompeu Mr. gritou Gregory. Ajoelho-me diante de vós. . Um dos anarquistas logo interpelou Gregory: — Quem é você? Você não é o Domingo. naqueles lances. no êxtase da dor. disse Mr. houve alguns segundos de silêncio real. — Camaradas! bramiu. Na verdade. Witherspoon. Buttons. é tão terrível. Se não quereis acatar minha ordem. um esquálido destroço de homem. com mecânica rapidez. Não direi que é um conselho. mas ouvi-me! Matai-me. em primeiro lugar.. conseguira levantar-se e estava repetindo com monótono sotaque americano: — Peço licença para apoiar a candidatura do camarada Syme. — Oh. Camaradas. — Não sou nenhum louco. Nada significa para mim que vós me odieis como tirano ou que me detesteis como escravo. Nesse ínterim.. ofegante e arrebatado. o Presidente. Este se contentou com dizer: — O camarada Gregory ordena. Podeis chamá-la uma ordem louca. do cavanhaque americano. Não sou nenhum louco. Gregory estava novamente de pé. se quiserdes. atiro-me a vossos pés. mas obedecei-me! Não elejais este homem! A verdade. reiterou Gregory com tão inesperada sinceridade que por uns instantes a sala ficou em silêncio. numa voz semelhante à de um mártir que. E outro acrescentou em tom mais rude: — Nem é o Quinta-feira. supera a própria dor. Não. a emenda... pois não posso darvos nenhuma razão para o seguirdes. concluiu e sentou-se imediatamente. Foi o suficiente para desfazer o feitiço. Gregory. Pela primeira vez. disse o Presidente ao fim de uma pausa de consternação. Dou-vos um conselho.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 35 — Êle é inexperiente em nosso trabalho. o homem comprido e magro. Chamai-me louco. — Como é de praxe. Resta saber se o camarada Syme. — Camarada Gregory. deverá ser apreciada. não. isso não é muito dignificante. aceitai minha degradação. mesmo agrilhoada. que por um momento a vitória louca e frágil de Syme oscilou como um caniço ao vento. Mas nada se podia adivinhar nos olhos frios e azuis de Syme. Protestai.

. reforçado com arcos de ferro. — Você é um demônio. Passaram muitos minutos fitando-se mutuamente em silêncio. Quem. como um relógio que tivesse acabado de receber corda. Foi você que. quanto ao que nos parece justo. — Não diga tolices.. que o contemplava com ódio e espanto. Inesperadamente. redarguiu Syme gravemente. A poucos passos achava-se uma escura e minúscula lancha a vapor. O alarido cresceu como o mar. que parecia um filhote de dragão. — E você é um cavalheiro. Mr. do Serviço Secreto da Polícia. No instante em que a eleição se concluiu e foi declarada irrevogável e Syme recebeu suas credenciais. na bengala de estoque e no revólver que esperavam em cima da mesa. Tenha a bondade de acompanhar-me. Ao dizer isso ajustou o enorme capote sobre os ombros e apanhou a garrafa de cima da mesa. estava eleito para o posto de Quinta-feira no Conselho Geral dos Anarquistas da Europa. . Mas. Syme viu-se cara a cara com Gregory. começou Gregory. Seguia-lhes febrilmente os passos o torturado Gregory. desvendando um quadro azul-prateado do rio ao luar. exceto a honra e a morte. Com um gesto que revelava o recepcionista de loja. semelhante a um cenário de teatro. disse Mr. Buttons alvoroçando-se. todos se puseram de pé e os fogosos grupos movimentaram-se e confundiram-se na sala. e o Presidente. me trouxe a este demoníaco parlamento? Você me fêz jurar antes que eu o fizesse a você. CHESTERTON deixou-se cair em seu banco. Talvez estejamos fazendo o que ambos julgamos ser justo. Gabriel Syme. — Foi você que me arrastou a esta cilada. Não temos nada de comum. No fim do corredor havia uma porta que foi aberta engenhosamente por Buttons. K. retrucou Syme.36 G. possuímos noções tão danadamente contrárias que entre nós não pode haver nenhuma conciliação. Mr. Todos os que estavam na sala pareciam pensar na lancha que esperava no rio. com um olho vermelho. as mãos ergueram-se como floresta. disse Gregory por fim. senão você. e três minutos depois. Buttons desceu com Syme por um corredor estreito. trêmulo da cabeça aos pés. — O barco está pronto. repetiu: — Resta saber se o camarada Syme deve ser eleito para o posto de Quinta-feira no Conselho Geral.

Houve uma coisa especial que você me prometeu no começo desses sucessos e que realmente me proporcionou. disse cortêsmente. e fêz um cumprimento militar com a bengala de estoque. Cumpriu a palavra até nos pormenores mais insignificantes. enquanto a lancha começava a deslizar. É um homem de bem. — De que é que você está falando? bradou o caótico Gregory. Gabriel Syme voltou-se para o ofegante Gregory. Que foi que eu lhe prometi? — Uma noite muito divertida. Muito obrigado. — Você cumpriu sua palavra. .O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 37 No momento em que ia passar para bordo. disse Syme. com o rosto na sombra.

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Sua respeitabilidade era espontânea e imprevisível. Seu pai cultivava as artes e o aperfeiçoamento de si mesmo. ignorou totalmente qualquer bebida entre os extremos do absinto e do licor de cacau. Assediado desde a infância por todos os tipos concebíveis de revolta. Quanto mais sua mãe pregava uma abstinência mais do que puritana. Assim. uma rebelião contra a rebelião. e outro fizera gorada tentativa de sair de chapéu e mais nada.CAPITULO IV A HISTÓRIA DE UM DETETIVE Gabriel Syme não era simplesmente um detetive que pretendesse ser poeta. Syme era um daqueles homens a quem desde cedo a rematada loucura da maioria dos revolucionários compele a adotar diante da vida uma atitude demasiadamente conservadora. Sua mãe dedicava-se à simplicidade e ao asseio. e no momento em que ela chegou a propagar o vegetarianismo. mais seu pai se expandia numa incontinência mais do que paga. era realmente um poeta que se transformara em detetive. em cujo seio as pessoas mais velhas empolgavam idéias mais novas. Por isso o menino. Um de seus tios tinha o hábito de sair à rua sem chapéu. Gabriel teve de revoltar-se em nome de alguma coisa. Mas dentro dele corria boa parcela do sangue destes fanáticos. Seu ódio à anarquia não era hipócrita. êle já estava a pique de defender o canibalismo. Não atingira esse ponto por via de nenhuma tradição doméstica. Aconteceu que êle passava por uma rua quan- . Descendia de uma família de excêntricos. revoltou-se em nome da única coisa que restava: o bom senso. o que fazia com que seus protestos de fidelidade ao senso comum parecessem um pouco ferozes demais para serem sensatos. pelos quais revelava saudável repugnância. durante os seus mais verdes anos. Sua aversão à desordem moderna foi coroada por um acidente.

A barba e o cabelo amarelados também estavam mais desgrenhados e leoninos do que quando surgiram. — parecia ter avançado menos ainda na direção da própria subsistência. ainda mais antiquado. aparados e penteados. gentil. — e isto era muito pior. Não considerava os anarquistas. Toda a sua pessoa representava um perfeito exemplar daqueles anarquistas contra quem havia declarado uma guerra santa. do mesmo modo que a maioria considera. comprido e fino. Nessa época Syme tinha um aspecto andrajoso. Inundava continuamente os jornais e as cestas de papéis usados das redações com uma torrente de contos. nos jardins de Saffron Park. K. versos e violentos panfletos acautelando as gentes contra esse dilúvio de bárbara negação. Por alguns momentos ficou cego e surdo e. de fato. Certa vez. Tal combinação tornava-o semelhante aos antigos vilões de Dickens e Bulwer Lytton.40 G. mas havia em sua mente um ponto que não estava são. como. Usava uma antiquada cartola preta e envolvia-se num capote preto e roto. Considerava-os como um perigo imenso e terrível. pôde ver as janelas quebradas e os rostos ensangüentados. CHESTERTON do se deu um atentado a dinamite. É provável que tenha sido este o motivo que levou o guarda do aterro a caminhar em sua direção e saudá-lo: — Boa noite! . Mas parecia ter avançado muito pouco na direção do inimigo. Era quixotesco demais para ver as coisas com naturalidade. tão selvagem ou tão solitário como êle. pitando amargamente um charuto barato e matutando nos progressos da anarquia. O céu. posto entre a espada e a parede. dos de bomba no bolso. Os dentes cerrados mordiam um mata-rato preto. muito depois. continuou como de costume: quieto. Inquietava-o permanentemente o desamparo e o desespero do governo. estava tão carregado e o rio emitia um clarão tão acobreado que a água parecia deitar chamas mais violentas que as do crepúsculo. Syme passeava pelo aterro. O rio vermelho refletia o céu também vermelho e ambos refletiam sua cólera. como um punhado de sujeitos mórbidos que combinam ignorância com intelectualismo. Depois disto. comprado em Soho. cortês. Quando vagueava pelo aterro do Tâmisa. uma invasão chinesa. sob um crepúsculo vermelho-escuro. não havia anarquista. Era literalmente um caudal de fogo correndo sinuoso através das amplas cavernas de um mundo subterrâneo. quando a fumaça desapareceu.

cujos temores pela sorte da humanidade dizem respeito antes às aberrações do intelecto cien- . Não sou do tempo das Escolas Públicas. Veja este céu. — Será mesmo uma boa noite? disse mordazmente. Eu sei que não sou digno. disse o guarda com tristeza. — Onde você estudou? inquiriu Syme curioso. sangrentos! Garanto que se isso fosse rigorosamente sangue humano. para muitas pessoas as coisas mais verdadeiras do mundo. O guarda suspirou e meneou a cabeça. — O soldado deve ter calma no aceso da batalha. você continuaria aqui perpètuamente impassível. Vocês são capazes de achar boa a noite do fim do mundo. — Ah é? disse Syme admirado. — Mas homem. Não gozei nunca desses privilégios. — Mas por que você ingressou na polícia? interrogou Syme com rude curiosidade. disse solenemente. por mais falsas que sejam. sentiu-se espicaçado com a simples e mecânica cortesia do funcionário. continuou o guarda. replicou o guarda. veja este rio: vermelhos. são. A disciplina de um exército é a cólera de uma nação. não passava de uma indistinta figura azulada. ali ao crepúsculo. em plena crise de mórbido temor pela sorte da humanidade. Vocês da polícia são cruéis com os pobres. E Syme sentiu-as explodirem dentro de si antes que pudesse refreá-las. — Valha-me Deus! As Escolas Públicas! É essa a educação não-sectária? — Não.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 41 Syme. — Se temos calma. Descobri que havia no serviço uma oportunidade especial para aqueles. espalhado e cintilante. a inspecionar pobres transeuntes inofensivos e a ordenar-lhes que se dispersassem. em Harrow. — Exatamente pelo mesmo motivo que você tem de insultar a polícia. respondeu o guarda. — Oh. — As simpatias de classe. não obstante. Temo que a minha educação tenha sido muito rudimentar e obsoleta. é a calma da resistência organizada. por Deus! Você não devia ser da polícia. mas eu poderia perdoar a crueldade de vocês não fosse esta calma que vocês afetam. que. — Tem razão.

vem desde muito tempo suspeitando de uma conspiração puramente intelectual que em breve ameaçará a própria existência da civilização. descobrimos que um crime está para ser cometido. Através das páginas de um razão ou de um diário os detetives comuns descobrem que se cometeu um crime. disse Syme. êle ideou uma especial corporação de detetives. mas no terreno da controvérsia. O nosso êxito se deveu exclusi- . não só no sentido meramente criminal. Nós. através de um livro de sonetos. retorquiu o guarda. por fim. Mas parece que o seu espírito já está predisposto. — Alistar-me em quê? perguntou Syme. K. uma caça à heresia. C H E S T E R T O N tífico que aos normais e desculpáveis. ao mesmo tempo. Os olhos de Syme brilhavam de curiosidade e simpatia.. tivemos de correr bastante para chegarmos a tempo de impedir um assassínio em Hartlepool. distúrbios da vontade humana. A função deles é investigar as origens dessa conspirata e combatê-la. — A missão do polícia-filósofo. Espero que tenha sido claro. Mas quanto a ter-se explicado está longe ainda. Há pouco. Penso que você podia alistar-se. Como é que um homem como você bota um elmo azul e vem filosofar aqui no aterro? — Evidentemente você nada sabe dos últimos desenvolvimentos do nosso sistema policial. respondeu o homem de azul. detetive dos mais célebres de toda a Europa. é mais arriscada e mais sutil do que a do simples detetive. nós nos dirigimos ao serões artísticos para descobrir pessimistas. obviamente.42 G. Mas não seria aconselhável. Temos que seguir desde a origem a pista daqueles pensamentos terríveis que conduzem os homens ao fanatismo intelectual e. Por esta razão. ainda que excessivos. isso não me surpreende. — Se você se refere a suas opiniões. A situação é esta: o chefe de um dos nossos departamentos. a coberto das classes cultas. — Explicarei tudo. porque são estas que abrigam a maior parcela de nossos inimigos.. disse o guarda calmamente. Nós os mantemos em segredo. acho que as exprimiu claramente. Está convicto de que os mundos artísticos e científicos se unem secretamente numa cruzada contra a Família e o Estado. — O que é que fazem então? perguntou. Eu sou democrata e creio no valor do homem comum em questões de intrepidez e virtudes comuns. ao crime intelectual. detetives que são também filósofos. Aliás. o emprego do polícia mediano numa investigação que é. O detetive comum vai às cervejarias capturar ladrões.

Syme pôs-se a bater palmas. dos príncipes da Renascença. com o sacrifício daquelas que lhes parecem vidas menores. querem destruir a simples idéia da posse pessoal. Comparados com êle. apenas desejam obter para si mesmos uma abundância maior de vida humana. só que o procuram erroneamente. Procuramos dar um desmentido ao pretensioso axioma inglês que diz que os incultos são os criminosos temíveis. grandes envenenadores. mas nunca pude estabelecer a antítese verbal. O criminoso vulgar é um mau sujeito. nosso companheiro. . Os bígamos respeitam o matrimônio. É reformador. Mas o filósofo pernicioso não tenta alterar as coisas. está pronto para aceitar o universo e louvar a Deus. ou então não levariam a cabo a formalidade altamente cerimoniosa e ritualística da bigamia. Afirmamos que o criminoso temível é o criminoso culto. algumas vezes. condicionalmente bom. por exemplo — seja removido. Os assassinos respeitam a vida humana. Mas este nosso novo movimento é uma empresa muito diferente. mas tinha razão há pouco quando disse que o tratamento que dispensamos usualmente aos criminosos pobres é um tanto brutal. Desde que um determinado obstáculo — um tio rico. Mas os filósofos desprezam o casamento como casamento. só que desejam que a propriedade se torne propriedade deles para que possam respeitá-la mais e melhor. a deles e a dos outros. inquiriu Syme. — Isso é verdadeiro! bradou. Mas os filósofos odeiam a vida mesma. Aceitam o ideal essencial do homem. Lembramo-nos dos imperadores romanos. sinto que êle consiste apenas numa guerra aos ignorantes e desesperados. Os ladrões respeitam a propriedade. replicou o guarda. não é anarquista. Garanto-lhe que abomino meu ofício quando. arrombadores e bígamos são homens de moralidade perfeita. Afirmamos que o criminoso mais temível destes tempos é o filósofo moderno inteiramente bárbaro. que há realmente tal conexão entre o crime e a inteligência moderna? — Você não é suficientemente democrata. Tenho pensado assim desde a infância. meu coração me leva para o lado deles. em todo caso. Mas os filósofos condenam a propriedade enquanto propriedade. mas é. Wilks. que atinara com o sentido exato de umas oitavas que havia lido. quer aniquilá-las.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 43 vãmente à argúcia do jovem Mr. — Quer dizer. Pretende limpar o edifício e não destruí-lo.

Os exércitos de nossos inimigos estão em nossas fronteiras. têm geralmente o mérito de discordarem uns dos outros. com urgência. esfregando as mãos numa excitação inusitada em pessoas da sua categoria e dos seus hábitos. que formam a copiosa massa dos sectários. Crêem que o castigo gerou o crime. Um momento mais e você poderá ser excluído da glória de trabalhar conosco e talvez da glória de morrer com os últimos heróis do mundo. Minha única dúvida reside em saber se temos o direito de punir alguém mais. — Mas isto é absurdo! exclamou o guarda. o mundo moderno conservou todas aquelas facetas realmente opressivas e ignominiosas da função policial. o homem que seduziu sete mulheres deveria naturalmente passar impune como as flores da primavera. selvagens como eles são. como saquear os pobres e perseguir os infortunados. Mas. se bem que desorientados. Pode dizerse mesmo que o círculo externo é o dos leigos e que o interno é o do sacerdócio. homens que acreditam que as normas e as fórmulas destruíram a felicidade humana. Estes eu filio ao setor dos inocentes. Os do círculo externo. que o mundo moderno está cheio de homenzinhos sem lei e de pequenos movimentos absurdos. isto é. — Realmente é uma oportunidade que não se deve desperdiçar. K. anuiu Syme. Não crêem que o crime gera o castigo. Você deve. mas sei que está desperdiçando sua vida. composto de dois círculos: um externo e outro interno. redargüiu o guarda. Crêem que todos os funestos efeitos do crime são conseqüências normais do sistema que lhe deu o nome de crime. Apertam o cerco. Os modernistas dizem que não devemos punir os heréticos. Prefiro dizer que o círculo externo é do setor inocente e que o interno é o setor supremamente culpado. CHESTERTON Sim. Mas é inexplicável! Não sei o que você fêz. tanto quanto qualquer outro.44 G. Para eles. Como é que você pode dizer que chefiam um exército ou organizam uma investida? Que espécie de anarquia é esta? — Não a confunda. que são efetivamente as explosões de homens oprimidos. com essas fortuitas explosões de dinamite na Rússia e na Irlanda. Para eles o punguista é naturalmente um sujeito de sentimentos delicadamente generosos. alistar-se em nosso exército especial para lutar contra a anarquia. Falo de um vasto movimento filosófico. são simples anarquistas. Sei. Abandonou a obra mais digna: a punição dos poderosos traidores do Estado e dos poderosos heresiarcas da Igreja. Mas ainda não entendi tudo. .

Nada tinha da escuridão normal. portanto. passou pelas mãos de cerca de quatro oficiais intermediários e encontrou-se de um momento para outro num quarto cuja escuridão inesperada feriu-o como uma centelha. disse o guarda. os do sacerdócio sagrado. . se quiser. É este o motivo por que lançam bombas em vez de disparar pistolas. Aliás. não direi que você vai vê-lo. e de coisas semelhantes. que estas pessoas falem no advento de uma era de felicidade. Quando falam de um paraíso fora do bem e do mal. — Pelo telefone? inquiriu Syme com interesse. Você deveria vir vê-lo. pois que ninguém nunca o viu. Antes de dar pelo que fazia. Êle tem o capricho de viver sempre num quarto escuro como breu. — Como posso unir-me a vocês? perguntou Syme numa espécie de arrebatamento. Syme deixou-se levar até uma porta lateral na longa fila de edifícios da Scotland Yard. Diz que assim seus pensamentos ficam mais claros. já que tenho a honra de merecer um pouco da confiança do chefe. são demasiadamente intelectuais para crer que neste mundo o homem possa libertar-se uma vez sequer do pecado original e do combate. Visam apenas dois objetivos: destruir primeiro a humanidade e depois destruírem-se a si mesmos. Quando asseveram que a humanidade há de ser livre algum dia. mas o alto sacerdócio regozija-se por saber que matou alguém. numa humanidade liberta da servidão do vício e da servidão da virtude. respondeu calmamente o guarda.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 45 — Oh! murmurou Syme. A tropa dos inocentes fica desapontada ao ver que a bomba não matou o rei. — É natural. têm em mente o túmulo. Eles não têm ilusões. — Sei de certeza que no momento há uma vaga. no paraíso do futuro. Venha comigo. mas poderá falar com êle. Assim também falam os do círculo interno. do qual lhe falei. Mas em suas bocas (e aqui o guarda baixou a voz). — É o novo recruta? perguntou uma voz dura. Suas palavras querem dizer morte. era antes a escuridão da cegueira instantânea. Também falam para as multidões aclamadoras da felicidade futura e da humanidade que um dia será livre. — Não. em que as formas pouco a pouco se esboçam. em suas bocas essas frases ditosas têm uma significação aterradora. têm em mente que a humanidade há de suicidar-se. Um pouco confuso e muito animado.

Eu o estou condenando à morte. não só na paisagem de uma nova terra. converteu-se naquele sujeito elegante e quase intolerável que Gregory veio a conhecer no jardinzinho de Saffron Park. que parecia estar a par de tudo. não tenho experiência.. Syme compreendeu duas coisas: a primeira. visto que nenhum contorno se podia adivinhar naquela escuridão. assombrado. O dos mártires. onde se lia um número e as palavras "A Ultima Cruzada". fundada para dar combate à grande conspiração. — Você quer e isso basta. Passe bem. comprou um chapéu novo. Gabriel Syme vinha feito membro da nova corporação de detetives. disse o outro. ponderou Syme. seu amigo entregou-lhe um cartãozinho azul. Está bem. Está admitido. armado de bengala de estoque e revólver. — Eu sei. que o homem estava de costas para êle. Já vimos para onde sua aventura o guiou finalmente. Mais ou menos à uma e meia da madrugada de um dia de fevereiro. acendeu um cigarro e dali partiu para caçar e acometer o inimigo em todos os salões elegantes de Londres. — É o novo recruta? repetiu o chefe invisível. signo de sua autoridade oficial. que a voz procedia de um homem de estatura descomunal e a segunda. a verdade. disse o outro. — Ninguém tem nenhuma experiência da batalha do Armagedon. Quando Syme tomou a lancha. K. Antes que êle deixasse os quartéis da polícia. Guardou-o cuidadosamente no bolso do colete. é que não sei de nenhum ofício em que a simples boa vontade seja prova de aptidão. na verdade. — Mas eu.46 G. solenemente eleito Quinta-feira do Conselho Central Anarquista... vestiu um irrepreensível terno de verão azul-cinza. enfiou uma flor amarela na lapela e. disse o desconhecido. trêmulo. Syme. em suma. Seguindo os conselhos do guarda seu amigo (que era profissionalmente inclinado ao asseio) aparou o cabelo e a barba. Foi assim que ao reaparecer com sua deplorável cartola preta e seu anárquico e deplorável capote na claridade carmesim do crepúsculo.. êle se encontrava subindo o silencioso Tâmisa. C H E S T E R T O N E estranhamente. procurou timidamente lutar contra esta sentença irrevogável. — Mas. mas na paisagem . — Também não sei se sou capaz. experimentou a esquisita sensação de estar vivendo num ambiente completamente novo.

Contudo. Syme via na bengala de estoque a espada do paladino e no conhaque o vinho do trago de despedida. Dava. que (por paradoxo que deve ter sido notado inúmeras vezes) parecia um sol mais fraco. as casas e os terraços reluzentes e frios das margens do Tâmisa pareciam tão ermos como as montanhas da lua. o conhaque e o revólver carregado — revestiam-se daquela poesia concreta e material que toca o menino que leva uma espingarda num passeio ou que vai para a cama com um pedaço de bolo. provoca o sol em eclipse. para se firmar. em grande parte. mas o aventureiro deve ser são. e estas esplendiam como fogo alvacento quando a lancha. desde que entrara na lôbrega taberna duas horas antes. como naquele crepúsculo que. no dizer de Milton. Ao chegarem diante da portentosa frontaria de Westminster o dia começava a raiar. tão cheia. mu- .O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 47 de um novo planeta. Mesmo as coisas comuns que trazia consigo — a comida. à impensada porém firme resolução daquela noite e. A lancha era manejada por dois homens. opunha a esta ofuscante desolação na terra luarenta a sua cavalheiresca loucura. O dragão sem São Jorge não seria sequer grotesco. Raiava como enormes barras de chumbo que se racham deixando entrever barras de prata. que chamejava na noite como uma imensa fogueira. Para o espírito exaltado de Syme. Agora a nudez da lua pairava na nudez do céu. e com muito esforço avançava com lentidão. à completa mudança havida no tempo e no céu. Assim. aquela paisagem só era fantástica pela presença de um ente realmente humano. Todos os sinais da apaixonada plumagem daquele anuviado crepúsculo haviam-se desvanecido. tornavam-se as expressões de um romance mais saudável. Em verdade. Sobre toda a paisagem derramava-se um irreal e luminoso palor. Ê isso veio reafirmar em Syme a convicção de que se achava num outro planeta mais vazio. não a impressão de uma resplandecente noite de lua. embora fossem os utensílios de mórbidos conspiradores. Isto se devia. que girava em volta de uma estrela mais triste. Mas a própria lua só é poética porque há o homem da lua. as mais desumanizadas fantasias modernas necessitam. A lua estava tão redonda. mas a de um mortiço dia de sol. A aventura pode ser louca. de alguns símbolos mais antigos e mais simples. A lua transparente que alumiara Chiswick desaparecera no momento em que eles passavam por Battersea. A bengala de estoque e a garrafa de conhaque. um pouco também.

Êle. rumando contra a corrente. Eram negras e descomunais na infinita alvura da aurora. As grandes pedras do aterro revelavam-se aos olhos de Syme escuras e gigantescas. Não tinham pronunciado uma única palavra. Os dois tripulantes se afastaram na lancha. Syme sentia-se como se fosse desembarcar nas colossais escadarias de um palácio egípcio. Contemplando-as. Realmente. ia galgá-las para atacar os sólidos tronos de terríveis reis pagãos. Pulou da lancha sobre um degrau escorregadio e ficou. derivou para os lados de uma ampla escada de desembarque localizada um pouco além de Charing Cross. imóvel. em espírito. a impressão não era despropositada. forma escura e delgada no meio da fabulosa pedraria.48 G. . K. um instante. CHESTERTON dando de rumo.

o rosto comprido. sob a luz desmaiada e fosca da manhã. como tal. grave e delicado. Entretanto.CAPITULO V A FESTA DO MEDO À primeira vista. Galgando os degraus um a um. cuidou que se enganara. a seu modo. pálido e inteligente. o desconhecido não se mexeu. E. Quanto à aparência. porém. como este nem ao menos pestanejava. mas o rosto não se desprendia da contemplação do rio. a ampla escadaria de pedra pareceu a Syme tão deserta quanto uma pirâmide. com uma flor vermelha na lapela. Syme abeirou-se ainda mais. Syme ia-se aproximando lentamente do desconhecido. contemplativo e. tirou do bolso o documento que Buttons lhe dera para comprovar a eleição. nobre. que não condizia com o todo caprichosamente escanhoado. Reparando em tudo isso. Usava um chapéu alto de seda e envergava um sobretudo do tipo de moda mais formalista. Então. Syme insistia em encarar o rosto pálido. Estava tão imóvel como um boneco de cera e. Agora. pôde acercar-se o suficiente para notarlhe. O . descobrira que um homem. Êle se mantinha mais calmo do que seria de esperar de alguém submetido a tão indiscreta inspeção. e exibiu-o aos olhos daquele rosto triste e belo. antes de atingir o topo. parecia não ter nervos. debruçado no parapeito. A princípio. Esta moita de pêlos parecia obra de mera negligência e destoava do rosto barbeado com esmero — rosto aberto. o instinto levou Syme a crer que tinha diante de si o homem com quem devia encontrar-se. rematado com um tufo triangular de barba negra na ponta do queixo. mas. vendo que não recebia nenhum sinal. Depois. esquadrinhava o rio. tinha fortes razões para convencer-se de que este homem era um dos comparsas de sua doida aventura. êle era totalmente convencional.

— Nem eu. Fêz uma pausa e continuou: — Naturalmente o secretário de sua seção contou-lhe tudo que sabia. Consiste precisamente em não nos escondermos de jeito nenhum. à medida que os anos passam. Vou ver se consigo dormir depois do café. Assim. vai se tornando um pouco maluco. mas a voz extremamente morta contradizia o fanatismo do rosto. Você dormiu? — Não. mas chego a pensar às vezes que seu cérebro imenso. CHESTERTON homem sorriu e seu sorriso foi um choque: rasgava-se numa linha oblíqua. Mas para Syme. Bem. De repente. disse. isso é até atraente. caso você não saiba. é bom saber desde já que êle está pondo em prática um novo plano de esconder-se. nada havia nisto de assombroso. que repuxava a face direita para cima e a esquerda para baixo. Fala com inopinada urbanidade. K. todas as palavras afáveis eram para êle convenções defuntas e sua vida era o ódio mesmo. Sem dar nem pedir explicações. . Domingo insiste sempre conosco para que tomemos café bem cedinho. disse Syme.50 G. veja bem — que dá para Leicester Square. a fosca madrugada. A bem dizer. Havia o rio silencioso e o homem silencioso. Pois não é que agora nos pavoneamos nas barbas do público? Tomamos o café da manhã numa varanda — numa varanda. o sorriso do homem precipitava o toque extremo de pesadelo. Mas uma coisa que ninguém nunca pôde saber é qual terá sido a última idéia do Presidente. tal como vocês. chegaremos a tempo de tomar café. Suas idéias vicejam como as florestas tropicais. a sombria missão que lhe fora cometida e a solidão na majestosa pedraria orvalhada acabavam por tornar aquele sorriso enervante. continuou o outro familiarmente. — E o que diz o povo? perguntou Syme. de feições clássicas. o desconhecido pôs-se a falar como quem conversa com velho colega. Muita gente tem o hábito nervoso de entortar o sorriso e. êle é um homem sem igual na terra. O espasmo de sorriso foi momentâneo e o rosto logo readquiriu sua harmoniosa melancolia. os episódios vividos. nós nos reuníamos numa cela subterrânea. Depois Domingo ordenou que reservássemos um quarto num restaurante. No começo. evidentemente. — Se formos diretamente a Leicester Square. Diz êle que se nós não parecemos estar escondidos ninguém pensará em perseguir-nos. em muitas pessoas. Racionalmente falando.

de certa maneira. Contudo. deixará de chamá-lo astucioso. tão perturbadora e discrepante como o sorriso torto. a estátua e os contornos sarracenos do Alhambra formavam uma réplica de uma praça pública francesa ou espanhola. você vir o Domingo. a folhagem ensolarada. erguia-se uma varanda apoiada num formidável contraforte. por uma fraçãozinha de segundo apenas. Nunca se saberá se é o seu aspecto estrangeiro que seduz os estrangeiros ou se são os estrangeiros que lhe dão semelhante aspecto. Quando. E isto vinha confirmar a sensação que. disse Syme. Ao ver o grave Secretário exibir seu sorriso absurdo. . esteve a ponto de jurar que entrara numa desconhecida Place disso ou daquilo de alguma cidade estrangeira. cuja fachada dava para outra rua. E assim foram ter ao fim de uma rua estreita e depararam com Leicester Square banhada pela luz do sol matinal.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 51 — O que o povo diz é muito simples. — Tenho para mim que é um plano verdadeiramente astucioso. respondeu-lhe o guia. Diz que somos um bando de senhores galhofeiros que se dão ares de anarquistas. uma mesa de café. homens barulhentos e palradores. numa súbita voz aguda e estridente. em pleno sol e visíveis a toda a rua. isto é. Suponho que nunca se saberá por que esta praça parece tão exótica e. Algumas de suas pilhérias podiam. ou. O largo espaçoso. muitos maus charutos em Leicester Square. Na parte de fora dessa janela. a sensação sobrenatural de ter-se extraviado num mundo novo. todos vestidos na insolência da moda. tinha invadido Syme no decurso de toda a aventura. desde os tempos de garoto. — Astucioso! Diabo leve esse seu descaramento! Astucioso! bradou o outro. Na parede via-se uma larga porta-janela que era provavelmente a entrada de um imenso restaurante. em torno da qual se abancavam. A um canto da praça sobressaía o oitão de um hotel próspero mas sossegado. ser ouvidas no outro lado da praça. quando dobrou a esquina e avistou as árvores e as cúpulas mouriscas. continha uma mesa de jantar. De fato. mais propriamente. com coletes brancos e lapelas floridas. suficientemente espaçosa para conter uma mesa grande. tão continental. Naquela manhã este exotismo aparecia singularmente nítido. O fato é que êle tinha comprado. de todos os modos. praticamente suspensa sobre a praça.

As orelhas que se destacavam dela eram maiores do que as orelhas humanas. o primeiro pensamento de Syme foi que o peso do homem podia ocasionar o desmoronamento da varanda de pedra. Totalmente livre do medo aos perigos físicos. Soube que era êle mesmo com inexplicável mas instantânea certeza. Syme era realmente um desses homens abertos às mais extravagantes influências psicológicas. mas agora assemelhavam-se a cinco garotos entretidos durante o chá pelo homem gigantesco. Já por duas vezes naquela noite pequeninas coisas insignificantes haviam-lhe exacerbado o espírito. a cabeça coroada de cabelos brancos parecia mais volumosa do que uma cabeça devia ser. Dizem que vão lançar bombas no rei. elevava-se o dorso montanhoso de um homem descomunal. dando-lhe a sensação . como continuasse a contemplá-los. Sua vastidão não consistia somente no fato de que êle era excepcionalmente alto e inacreditavelmente gordo. Quando Syme e o guia se aproximaram da porta lateral do hotel. Desde as proporções originais tal homem devera ter sido planejado como um gigante. e este senso das dimensões era tão desvairado que quando Syme olhava para aquele homem tinha a impressão de que os outros personagens subitamente minguavam e ananicavam-se. Vista de trás. obstruindo boa parte da perspectiva. Estão conversando e rindo a valer. disse. um criado veio atendê-los com um sorriso em que se lhe viam todos os dentes. K. do mesmo modo que uma estátua é deliberadamente cinzelada como um colosso. divertido com a singular frivolidade dos cavalheiros do andar superior. era exageradamente sensível ao cheiro dos danos espirituais.52 G. E o criado afastou-se apressadamente com um guardanapo no braço. Os dois homens subiram a escada em silêncio. Assim que o viu. No ponto mais próximo da varanda. Sem dúvida não a vira porque ela era excessivamente grande para ser vista. — Os cavalheiros estão lá em cima. Syme viu uma coisa que não tinha visto antes. com suas flores e sobrecasacas. Lá estavam eles sentados como antes. Depois. num grau um pouco perigoso para a saúde mental. CHESTERTON Syme compreendeu que esta turbulenta assembléia matutina era o conclave secreto dos Dinamiteiros Europeus. Syme jamais pensara em perguntar se o homem monstruoso que quase abarrotava e desmoronava a varanda era o grande Presidente de quem os outros tinham medo. Todo êle fora terrivelmente ampliado na escala.

por um capricho do Presidente. Depois. neste círculo de dias da semana. o que dava à refeição um aspecto de banquete nupcial.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 53 de que se achava a poucos passos dos quartéis-generais do inferno. era concebível num ente humano. No entanto. Devia ser o dinamiteiro típico. encaminhou-se para o assento vazio a um canto da mesa e sentou-se. o Presidente. Na presença do Presidente a confraria inteira parecia mais do que insípida. Os presentes saudaram-no com uma chacota jovial. vestidos com festiva respeitabilidade. pousou o olhar novamente em Domingo: o rosto dele era enorme. mas possuía todo o sortilégio que pode provir do grotesco absoluto. e Syme se deixou dominar pelo temor 3e que. como se o conhecessem desde muito tempo. quando estivesse muito próximo. Ela o esmagava sob a forma de uma pueril mas odiosa fantasia. E esta sensação se tornava opressiva à medida que êle se aproximava do grande Presidente. Trajava o uniforme da ocasião: alto colarinho branco e gravata de cetim. não ousava olhar para a máscara de Memnon no Museu Britânico. recebera o nome de Terçafeira. Acalmou-se um pouco ao reparar em seus casacos convencionais e no sólido e brilhante bule de café. com aquela atrevida des- . O homem parece que se chamava Gogol. À primeira vista. Essa fisionomia não provocava o mesmo terrível efeito que a do Presidente. e não podia forçar-se a representar o próspero e frívolo papel que dele exigia o Presidente Domingo. só um homem se distinguia. Ao atravessar uma sala interior para chegar à varanda. num breve relance. Com efeito. Se da gravata e do colarinho rijo pulasse inesperadamente a cabeça de um gato ou de um cão não causaria um contraste mais absurdo. nada chamava a atenção. por ser ela uma cara e por ser tão grande. com intratável mata de cabelos e barba castanhos. A verdade é que. Recordou que. os olhos varavam o emaranhado e se mostravam como os olhos tristes do servo russo. Com um esforço mais heróico do que o de saltar sobre um rochedo. exceto o fato de se acharem todos. que quase encobriam uns olhos de Skye terrier. quando era menino. mesmo assim. no momento em que Syme entrou. o rosto se tornaria desmesurado e êle. Mas desse colarinho surgia uma cabeça indomável e inconfundível. Possuía alma e verbo incuràvelmente trágicos. então. Era polonês e. não poderia conter um grito. pareceu-lhe que o rosto imenso de Domingo se dilatava.

que era sua política. enrubéscendo. não sabe fazê-lo porque é um asno consumado! Você procura combinar dois métodos incompatíveis. Mas se êle descobre debaixo da cama um homem de cartola. — Mas você está. Está sim. Você não é forte em coisa nenhuma. veja bem. E.54 G. com pesado sotaque estrangeiro. Syme passou a examinar mais acuradamente os homens que o rodeavam. Enquanto a conversação prosseguia neste tom. Veste-se como um cavalheiro. convenhamos. Insiste nos métodos do conspirador teatral. estava caçoando da inabilidade de Gogol para adotar modos convencionais. K. Aquele . mas. — Nosso amigo Terça-feira. meu caro Terça-feira. Contudo. meu velho. Pensara. respondeu contrariado Gogol. Você se esconde como os outros. antes. que todos ali tinham a estatura da média das pessoas e vestiam os trajes comuns.. continuou o Presidente bonacheirão.. C H E S T E R T O N consideração pela suspeita pública. ao observar os demais. que êle jamais esquecerá esse fato. Ora. exato! exclamou o Presidente com grave cordialidade. pouco a pouco. Quando um chefe de família dá com um homem debaixo da cama é provável que se detenha para averiguar o caso. meu caro.. Não estou envergonhado da gausa. — Meu forte não é andar esgondido. mas desconfio que é uma alma grande demais para comportar-se como tal. dizia o Presidente numa voz profunda mas cheia de quietude e volume. bem. e a causa também está envergonhada de você. disse lügubremente Terça-feira. nosso amigo Terça-feira parece não entender bem a idéia. começou a ver em cada um deles exatamente aquilo que vira no homem à margem do rio: um pormenor demoníaco. com a evidente exceção do cabeludo Gogol. — Exato. Sai a passear de quatro pés com tão inesgotável diplomacia que agora está se vendo em grande dificuldade para caminhar ereto. pode atrair a atenção.. E é isso o que faz o Irmão Gogol. Mas se um cavalheiro bota cartola e sobrecasaca e depois sai a passear de quatro pés. — Também não sou forte em trapazas. foi outra vez dominado por aquele sentimento de algo espiritualmente raro. se um cavalheiro de cartola e sobrecasaca passeia em Londres ninguém vai pensar que êle é um anarquista. Quando você foi encontrado debaixo da cama do Almirante Biffin.

Eustache. mas. onde todos partilhavam de alguma aberração sutil e distinta. A isso calhava o seu modo de vestir-se. acrescido de uma distorção conseguida num espelho curvo imperfeito. podia ser um judeu. O cicerone de Syme recebera o título de Segunda-feira. um certo Marquês de St.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 55 sorriso torto. na caliginosa espessura da barba. Somente os exemplos individuais darão a conhecer esta semi-oculta excentricidade. salvo o fato de ser o único conviva que vestia as roupas elegantes como se elas realmente lhe pertencessem. para si mesmo. Junto dele sentava-se Terça-feira. êle nada revelava de insólito. um homem mais obviamente louco. os narcotizantes odores e as lâmpadas mortiças dos mais sombrios poemas de Byron e Poe. personagem suficientemente característico. Cada um carregava com alguma coisa. que. como se o pensamento mesmo fosse dor. E. e que sua barba negra só era negra por ser azul intenso. Seus olhos ardiam em tortura intelectual. mas de tecidos mais leves. a própria ansiedade dos olhos escuros desmentia esta suposição. à francesa. exceto o riso assustador e feliz do Presidente. Mas agora que Syme dispunha de mais espaço e luz para observá-lo. que todos eles tinham o aspecto de pessoas elegantes e sociáveis. espalhava maior temor do que seu sorriso oblíquo. atentava noutras peculiaridades. sensível a essas coisas. sua boca vermelho-escuro mostrava-se insolente e sensual. o cabeludo Gogol. Não era enfermidade física que o afligia. de um momento para outro. à inglesa. seu negro parecia mais opulento e mais cálido que as sombras negras que o cercavam. só percebida talvez na décima ou vigésima olhadela. Em seguida estava Quarta-feira. não de cores mais suaves. O que quer que êle fosse não era um francês. e uma sobrecasaca negra ainda mais quadrada. que não era normal e que era difícil de ser humanamente concebida. Usava uma barba negra quadrada. Mas Syme. como se fosse composto de côr mais profunda. percebeu que o homem levava consigo uma rica atmosfera — rica e sufocante — que lembrava. Êle era o paradigma da tribo. Syme dizia. de certo modo. podia ser . era típico de todos esses tipos. A uma rápida inspeção. Era Secretário do Conselho e nada. Seu rosto formoso era tão macilento que Syme julgou-o consumido por alguma doença. desfigurava o belo semblante do homem que lhe servira de guia. Dir-se-ia que seu casaco negro só era negro por ser púrpura muito viva. desarrazoadamerite.

o lustre nupcial do traje exprimia um contraste mais doloroso. recordava-lhe sinistras histórias meio esquecidas. Por isso o olhar de Syme não se apartava dos vidros negros nem do esgar cego. Outra odiosa fantasia cruzou a mente vibrátil de Syme. Baixo.56 G. Não se lhe descobria outra singularidade além dum par de óculos escuros. algo indefinivelmente aliado ao horror de toda a cena. O efeito era repugnante. esses lábios carmesins e cruéis. o que fazia depois de muito esforço e risco. No deslumbrante colorido dos mosaicos e quadros persas. uma perna ou um braço daquele homem podia soltar-se do corpo. Usava as roupas festivas antes com arrogância do que com tranqüilidade e trazia um sorriso estampado na cara. denunciava algo pior do que simples fraqueza. Usados pelo moribundo Professor ou mesmo pelo pálido Secretário. K. atarracado. vêem-se esses olhos amendoados. Podia ter sido apenas um crescendo de fantasia nervosa. histórias de moedas que se colocavam nos olhos dos mortos. insinuando que. ao menor movimento. essas azuladas barbas negras. Depois vinha Syme e a seu lado um ancião. Quando se erguia ou se sentava. mas corrupção. justamente o mais simples e enganoso de todos. A inteligência era a única coisa que se salvava desse estágio final de decadência senil. não estariam mal empregados. Na extremidade da mesa achava-se o homem chamado Sábado. por falecimento do ocupante. A flor vermelha na lapela ressaltava diante de um rosto inteiramente descolorido como chumbo. Seu rosto era tão cinzento como sua comprida barba cinzenta e sua testa alteava-se até fixar-se numa ruga de moderado desespero. que reproduzem os déspotas em caçadas. cara escura. quadrada e barbeada. Surpreendia-se nele aquela combinação de savoir-faire com uma espécie de solícita rudeza. o que é mais ou menos encontradiço nos jovens médicos. como se uns bêbedos almofadinhas tivessem com suas roupas vestido um cadáver. Mas nos olhos do homem mais moço e mais corpulento eles nada mais eram que . mas para Syme aqueles discos negros eram terrificantes. que ocupava o posto de Sexta-feira. quase opacos. cuja vacância. o Professor de Worms. dizia-se médico e Buli era seu nome. era aguardada de uma hora para outra. nem mesmo no de Gogol. CHESTERTON algo ainda mais impenetrável no obscuro coração do Oriente. Denunciava não apenas decrepitude. Em nenhum outro caso.

Syme presumiu que o médico era o mais perverso de todos aqueles homens perversos.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 57 um enigma. Roubavam a chave do rosto. Não se podia dizer o que significavam seu sorriso e sua gravidade. Um pouco por isto e um pouco por ser êle*dono de grosseira virilidade. . E chegou até a admitir que os olhos de Buli tinham sido encobertos porque eram medonhos de ver. na qual os outros eram deficientes.

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violentos e enigmáticos. como se fossem visões da fronteira. por assim dizer. Dali a apenas três dias. como numa velha fábula. cuja simples forma era adulterada. que se achava diante de homens normais. Compreendia que cada um deles atingira. A conversa não foi perturbada com a entrada de Syme. e que se êle caminhasse em direção ao oriente. Sob todos os aspectos. que se um homem caminhasse em direção ao ocidente. As extremidades da terra se tocavam. sobre um último horizonte. Mas logo avassalava-o novamente o sentimento de um simbolismo sobrenatural. Entregavam-se à discussão de uma conspirata real e muito próxima. encontraria alguma coisa — uma árvore.CAPITULO VI A DESCOBERTA Tais eram os seis homens que haviam jurado destruir o mundo. Na presença deles Syme esforçava-se continuamente para manter o senso comum. outro nervoso. talvez. . o que se verificava entre o tom fluente e despreocupado da palestra e seu terrível conteúdo. dos quais um era velho. e não era o menor dos contrastes. aqueles sujeitos pareciam colocar-se nos últimos limites das coisas. assim como as teorias por eles sustentadas se colocavam nos últimos limites do pensamento. Às vezes. uma árvore possuída por um espírito. até ao fim do mundo. Assim. encontraria alguma outra coisa que não era rigorosamente igual a si mesma — uma torre. Lá em baixo o criado dera uma informação exatíssima ao dizer que eles estavam falando de bombas e de reis. Não podia deixar de imaginar. o ponto final de alguma abstrusa via do raciocínio. digamos — que era mais ou menos igual a uma árvore. outro míope. até o fim do mundo. esses homens pareciam elevar-se. via que suas suposições eram subjetivas. naquela desooncertante matinada.

quase esquecera a frágil e excêntrica pessoa do poeta Gregory. e coubera ao barbinegro Marquês ser o portador da bomba. Até o instrumento já fora escolhido. Mas a verdade era que agora começava a dominá-lo um terceiro tipo de medo. K. Diante desses homens poderosos e repulsivos. Prometera não fazer jamais aquela coisa . sossegada e misteriosamente. Êle não teria pensado em outra coisa que na necessidade de ir em socorro de dois corpos humanos ameaçados de despedaçamento pela ação do ferro e do gás rugiente. esses jubilosos senhores haviam decidido como dar cabo dos dois potentados. aqueles homens pouca atenção lhe davam e discutiam entre si. Mas lembrou-se de que estava ainda vinculado a Gregory por um solene compromisso. como o denticulado relâmpago se rasga oblíquo no firmamento. porém seus olhos azuis saíam fora das órbitas e enfiavam-se em Syme.60 G. que principiou por perturbar Syme e terminou por aterrá-lo. CHESTERTON o Czar ia encontrar-se em Paris com o Presidente da República da França. e aqui. Chegava a pensar nele agora com velha simpatia. enquanto comiam toucinho com ovos na varanda soalheira. que Domingo. Syme estava na iminência de pôr-se em pé e saltar da varanda. começava a amedrontar-se com o que podia suceder a êle próprio. Bastante loquazes. simples esteta do anarquismo. O agigantado homem estava muito quieto. a imediação de um crime positivo e objetivo como esse bastaria para despertar e curar Syme de todas as suas inquietações puramente místicas. Alongando o olhar do parapeito da varanda. Era o Presidente. sentia-se como se fosse feito de vidro. que o fitava fixamente com desmedido mas ambíguo interesse. tão persistente. Usualmente. Mas uma coisa havia. Foi então que o assaltou a grande tentação que havia de atormentá-lo por muitos dias. como se tivessem brincado juntos na infância. mais ativo e pungente do que a repulsa moral ou a responsabilidade social. viu lá em baixo um polícia a contemplar distraído os luzentes gradis e as árvores cheias de sol. que eram os príncipes da anarquia. tinha descoberto que êle era espião. Quando tinha sobre si os olhos do Presidente. sem a menor sombra de dúvida. com os rostos chegados e quase uniformemente graves. Muito simplesmente não se amedrontava com o que pudesse suceder ao Presidente francês ou ao Czar. exceto quando por um instante o sorriso se rasgava oblíquo na cara do Secretário. Reconhecia.

Todas as vezes que se voltava para a mesa do café topava o Presidente estudando-o plàcidamente com seus olhos enormes e intoleráveis. sem dúvida era Domingo quem melhor a corporificava. da ordem comum. De um lado. com seu alheamento . feito a uma súcia de velhacos. sob a tirania de uma personalidade vigorosa. Retirou a mão fria do frio parapeito de pedra. no meio de cavalheiros aparentemente ocupados em contemplar uma praça cheia de sol e de gente.. palmo a palmo. Todas as vezes que dirigia a vista para a praça. Primeiro: nunca lhe ocorreu duvidar de que o Presidente e o resto do Conselho pudessem esmagá-lo.. podiam ter afrouxado sua lealdade. Mas naquela varanda. Sua alma oscilou ao sabor de uma vertigem de indecisão moral. o projeto podia parecer impossível. Podiam ter chamado Domingo super-homem. Se chamasse prontamente a polícia e ela os prendesse.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 61 que estava a ponto de fazer agora. para que sua vida pudesse ser tão aberta e banhada de sol como a praça fronteira. De outro lado. no meio de corsários armados. calejados numa impotente adoração da inteligência e da força. porém. que nunca lhe passaram pela cabeça. Muitos modernistas. era impossível. O segundo pensamento que nunca lhe ocorreu foi o de ser espiritualmente conquistado pelo inimigo. Com veneno anônimo ou com acidente de rua. provavelmente escaparia. cuja inteligência era uma câmara de tortura. contemplando um mar deserto. De outro modo. não tinha mais que partir o fio de um voto imprudente. Prometera não transpor de um salto aquela varanda para ir falar com o polícia. O lugar podia ser público. Domingo podia certamente eliminá-lo. triturado pelo poderio desse soberbo inimigo do gênero humano. como ao fim de uma doença inocente. Se desafiasse aquele homem era provável que não sobrevivesse: ou morreria ali mesmo na cadeira em que estava sentado ou algum tempo depois. Syme não se sentia mais seguro do que se estivesse num barco. dois houve. um monumento do senso comum. E se tal criatura é concebível. Em toda a torrente de seus pensamentos. se contasse tudo e mobilizasse contra eles toda a força da Inglaterra. caso êle persistisse na idéia de enfrentá-los sozinho. Mas Domingo não era um homem que se arriscasse assim comodamente sem ter antes deixado aberto. não se sabe como nem onde. seu alçapão de ferro. com hipnotismo ou com o fogo do inferno. tinha somente que preservar sua antiquada honradez para ser. lá achava o tranqüilo polícia.

porém. Os homens comiam e conversavam. Muitas vezes me ponho a pensar. por sua corpulência. CHESTERTON sísmico. A dinamite não é apenas nosso melhor instrumento. O velho Professor consumia as papas adequadas à sua asquerosa segunda infância. Como qualquer um. falava fervorosamente do projetado assassínio. provavam das melhores iguarias da mesa: faisão frio e pastel de Estrasburgo. Comia por vinte homens. Dr. bradou abandonando-se subitamente à sua estranha paixão e golpeando o crânio com violência. continuava com a imensa cabeça inclinada e os olhos fixos em Syme. Assim também é o pensamento: só destrói porque se expande. O Secretário. com assombrosa voracidade. só destrói porque se expande. — Você se engana. se não seria melhor para mim fazer uço do punhal. despreocupadamente e com naturalidade. Muitas coisas formidáveis têm sido feitas com êle. de estátua ambulante. disse o Marquês dando uma boa mordida numa fatia de pão com geléia. era vegetariano e. comia incrivelmente. E seria uma nova emoção enfiar um punhal num Presidente da França e depois revolvê-lo por dentro. Precisa explodir! Precisa explodir! O cérebro do homem deve explodir. Mas essa era uma espécie de baixeza moderna com que Syme não podia pactuar. Ainda aqui o Presidente exercia seu curioso e maciço predomínio. O cérebro do homem é uma bomba. Meu cérebro sente-se como uma bomba.modo que era o mesmo que pôr-se a gente a contemplar o trabalho de uma fábrica de salsicha. entre meio tomate cru e três quartos de um copo de água morna. Para nós é um símbolo tão perfeito como o incenso para as orações dos cristãos. êle era bastante covarde para temer a brutalidade. ainda que arrebente todo o universo. . é o nosso melhor símbolo. mesmo em extrema depressão.62 G. que era demasiadamente óbvia para ser descoberta. Expande-se. Podia merecer qualquer nome sobre-humano. noite e dia. K. que era demasiadamente franca para ser decifrada. de. O punhal era simplesmente a expressão da velha pendência pessoal com um tirano pessoal. Buli e o Marquês. Entretanto. respondeu o Secretário franzindo as negras sobrancelhas. e até nisso eles eram típicos. depois de devorar uma dúzia de bolos e sorver meia canada de café. mas não era tão covarde que a admirasse. e por sua caraça.

Houve um silêncio singular. infinitamente acima dos sujeitos monstruosos que o cercavam. Buli com seu esfíngico sorriso. . olhou sobrarfceiro. Tenho a dizer-lhes uma coisa muito particular. não pensava em si mesmo como representante da corporação de cavalheiros que. disse numa voz calma e quieta.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 63 — Não me agradaria que o universo arrebentasse justamente agora. Já que o fim único de todas as coisas é o nada. frisou o Marquês. Pretendo cometer uma porção de barbaridades antes de morrer. — Não importa. . passemos para dentro. atalhou Dr. Depois o Secretário falou: — Mas nós nos afastamos do assunto. A frase foi cortada pelo súbito aparecimento de uma sombra vastíssima. O velho Professor. Por um instante. O Presidente Domingo se erguera e parecia tapar o céu que os cobria. disse: — No íntimo toda a gente sabe que não vale a pena fazer coisa nenhuma. se apegavam aos pudores e às esmolas da cristandade. Quanto aos outros preparativos. por capricho. A traves sura juvenil de entrar na polícia tinha desaparecido de sua mente. Via-se como embaixador de todo esse povo humilde e bom das ruas. não vale a pena fazê-la. da vulgaridade e da intrepidez dos pobres. Ontem na cama pensei numa. A questão está em saber como Quarta-feira há de dar o golpe. Podia ouvir o policial ociosamente agitar-se e bater com os pés na calçada. que. — Antes de discutirmos qualquer desses pontos. ao menos. Na rua um realejo iniciou de repente uma toada jovial. que diariamente marchava para a batalha ao som do realejo. Syme se entesou como se estivesse ouvindo um toque de cometa antes da batalha. que se distraía a olhar o teto. Syme levantou-se antes dos outros. era fria. nem no velho excêntrico que habitava o quarto escuro. pois a manhã. eu sugeriria que amanhã de manhã êle fosse antes de tudo a . do píncaro estelar do lugar-comum. Em pé. em todas aquelas ruas imundas. que êle não sabia de onde vinha. apesar de luminosa. Acho que todos estamos de acordo na idéia original da bomba. Sentiu-se dono de uma coragem sobrenatural. se fizeram milicianos. Aquela melodia vibrante parecia-lhe cheia da vivacidade. . O instante decisivo tinha enfim chegado. E esta exaltada ufania de ser humano elevava-o inexplicavelmente a uma altitude incomensurável. a pistola apontava para sua cabeça.

ao qual a mesa e os bancos imprimiam um aspecto de refeitório abandonado. que parecia estourar de furores inarticulados. Quando têm um azunto importante correm a discuti-lo numa caixa esgura. Depois que estavam todos lá dentro o Presidente fechou a porta a chave. frio e desabitado. e sob os clarins que entoam a altivez da vida Syme ouvia os profundos rufos cadenciados dos tambores que compassam a altivez da morte. Dizem que se deixam ver. em último lugar. — Zim! Zim! grunhiu com obscura excitação. tornando o pesado sotaque polonês quase impenetrável. Vozes dizem que não se esgondem. adotou a firme decisão de enfrentar a morte. Liberto o espírito da carga de fraqueza que o oprimia. O realejo parecia tocar uma marcha com a energia e a multiplicidade de sons de uma orquestra. Syme seguia-os. exteriormente calmo. É jalzo. que. mas seu cérebro e seu corpo latejavam num ritmo apaixonado. Ressoou em sua cabeça aquele incontestável e terrível truísmo da canção de Rolando: Pcüens ont tort et Chrétiens oni droit. O Presidente levou-os por uma sinuosa escada lateral (que devia ser utilizada pelos criados) e introduziu-os num quarto escuro. O próprio orgulho de cumprir a palavra consistia em ter de cumpri-la para os ímpios. traduz o tumulto e o fragor das armas em choque. mas nesse momento isso não lhe interessava mais do que o fato de não possuir os músculos do tigre ou um chifre no nariz como o rinoceronte. O primeiro a falar foi Gogol. o irreconciliável.64 G. K. Se a gente simples do realejo podia desempenhar seus milenários deveres. Diante deles sentia toda a inconsciente e elementar superioridade que sente o bravo diante de feras poderosas ou o sábio diante de erros poderosos. Os conspiradores. Sabia que não tinha a força intelectual nem a força física do Presidente Domingo. começavam a passar para os cômodos internos. . em fila. Seu último triunfo sobre aqueles lunáticos resumia-se em acompanhá-los ao quarto escuro e morrer por alguma coisa que eles não podiam sequer entender. CHESTERTON para todas aquelas cambaleantes excentricidades. Tudo foi tragado pela convicção inabalável de que o Presidente estava errado e o realejo estava certo. no antigo francês nasalado. também êle poderia-desempenhar os seus.

— Nem mais uma palavra sobre planos e lugares! Nem um ínfimo pormenor sobre o que vamos fazer deve ser comentado nesta reunião. embora não fossem proferidas em voz alta. Primeiro você morre pela humanidade. Se tivéssemos vindo primeiro para cá teríamos toda a criadagem no buraco da fechadura. Quero matar o tirano na praza públiga. ainda não pode compreender.. Domingo deu um murro na mesa. Até aí. um bom discurso. possuíam vivida e sensacional ênfase. Buli. Ouvindo-nos dizer bobagens naquela varanda ninguém procurará saber para onde vamos depois. porque as palavras que se seguiram. Com a inquieta diligência que vinha mostrando desde as primeiras ordens. — Você. Correto! Agora quero pedir-lhe que modere seus inestimáveis sentimentos e que tome seu lugar à mesa junto aos outros. sentia-se como um homem que sobe a um cadafalso com a intenção de fazer. Quanto a êle. Camaradas. sim. Reuni-os aqui para dizer-lhes uma coisa tão simples mas tão surpreendente. a qualquer preço. Gogol. — Ah. todos contemplavam o Presidente. que até os criados lá de cima (acostumados a nossas inconseqüências) poderiam descobrir uma esquisita seriedade em minha voz. disse em tom paternal. Já fomos longe demais com esta farsa. Proponho. . Sugiro o camarada Sábado. antes de mais nada. — Morro por ela! exclamou o polonês numa agitação estúpida. — Camaradas. Mato zeus oprezores! Mas não gosto dessas bringadeiras de esgonder. Gogol sentou-se por último. Pela primeira vez nesta manhã uma coisa aproveitável vai ser dita. Você parece não conhecer a humanidade. Com exceção de Syme. começou o Presidente. ninguém parecia ter a mínima idéia do golpe que estava prestes a ser dado. resmungando dentro das barbas castanhas sobre gombr omissos. mas depois estremeceram em seus assentos. que esses planos e lugares não sejam aprovados nesta sessão e que fiquem inteiramente sob a direção de um membro digno de confiança. estivemos discutindo planos e citando lugares. Syme foi o primeiro a sentar-se.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 65 O Presidente dava a impressão de aceitar a crítica incoerente do estrangeiro com total benevolência. enquanto se sentava à cabeceira da longa mesa. depois ressurge e mata os que a oprimem. percebo! disse o Presidente aprovando bondosamente. Dr. . pondo-se em pé com rapidez.

Enfim ia saber se o Presidente era mortal. Não é possível! O Presidente bateu na mesa com a palma da mão. disse o Presidente. Quando viesse o ataque venderia muito cara a vida. Seu nome é . . — Sim. como uma mulher. Não importa que os estranhos nos ouçam. . Todos agitaram-se febrilmente. — Seu nome é Gogol.. disse vagarosamente. K. Eles pensam que estamos pilheriando. CHESTERTON Domingo passara a vida atordoando os sequazes. numa apatia de intenso alívio. com o dedo firme no gatilho.66 G. Mas o que tem importância capital é que entre nós existe alguém que não é dos nossos. Mas Syme pouco assistiu da cena. . Com a mesma presteza voaram-lhe três homens ao pescoço. que estava duro no seu canto. Não vou gastar mais palavras. que está a par dos nossos graves desígnios. segurando um revólver em cada mão. Domingo continuou polidamente: — Sem dúvida vocês compreenderão que só um motivo pode proibir a livre manifestação do pensamento neste festival da liberdade. Syme começou a levantar-se. que. mas que não os compartilha. há um espião neste quarto. exceto Syme. mas parecia que êle nunca os tinha realmente atordoado senão agora. cegado por benéfica escuridão. Até o Professor fêz um esforço para se pôr em pé. Há um traidor nesta mesa. com a mão no bolso empunhando o revólver carregado. e afundou trêmulo no banco. — Não pode ser! exclamou erguendo-se num pulo. O Secretário interrompeu-o com um grito agudo. enorme e gorda como a barbatana de um peixe colossal. Gogol deu um pulo do banco.. É esse cabeludo impostor que passa por polonês.

pois o cartão estava na outra extremidade da mesa. — Concluo que você não desconhece a posição em que está. embora nada pudesse ler da inscrição. Ao ver o cartão. dirigindo-se a Gogol como alguém se dirige a um desconhecido. quer fazer-me o favor de colocar a mão no bolso superior do colete e mostrar-me o que traz dentro dele? O suposto Gogol. Era irracional. uma voz que obrigava os homens a depor as espadas desembainhadas. com aparente frieza. comercial e algo familiar surgir daquela floresta de cabelos estrangeiros. Syme despertou de novo para o mundo exterior e. que nesta sociedade você é. . dois dedos dentro do bolso e de lá retirou um cartão azul. trágico filho da Polônia. Todo mundo se sobressaltou ao ouvir uma voz clara. meu prezado senhor. está preparado para negar. de trop? — Oh. — Patético eslavo. de modo algum! exclamou o ex-Gogol. notou a alarmante semelhança com o cartão azul que trazia no bolso e que tinha recebido quando se alistou na milícia antianarquista. um tanto pálido sob o emaranhado de cabelos negros.CAPITULO VII A INEXPLICÁVEL CONDUTA DO PROFESSOR DE WORMS — Sentem-se! ordenou Domingo com uma voz só empregada em ocasiões excepcionais. e este equívoco personagem voltou a seu lugar. disse com energia o Presidente. — Bem. continuou o Presidente. vamos dizer. meteu. diante desse cartão. como se um chinês subitamente entrasse a falar com sotaque escocês. observou Domingo. Os três que se tinham levantado afastaram-se de Gogol.

O detetive de cabelos vermelhos que personificara Gogol ergueu-se sem proferir uma palavra e saiu do quarto com um ar de total indiferença. No próximo domingo. Deixemo-lo como está. Presidente. Do seu desconforto não quero falar. quanto lhe pertencia. discutir os pormenores do plano agora que o espião nos deixou? — Não. o aturdido Syme pôde verificar que essa tranqüilidade fora adquirida de chôfre. Passe bem. Admito que seu sotaque é inimitável. Cuidado com a escada.68 G. que você parece ter-se conservado inteiramente frio aí debaixo. Tudo quanto tenho a dizer é que não creio que um polonês pudesse imitar meu sotaque como eu imitei o dele. a turbulência das últimas cenas havia lacerado os nervos quase nus do Secretário. acrescentou. Vou andando. Eu mesmo tentei praticá-lo no banho. e com um dedo arrancou toda a hirsuta cabeleira. Preste atenção: se você algum dia contar à polícia ou a quem quer que seja as nossas atividades. Agora escute aqui. — Farei a justiça de confessar. — O tempo voa. disse Domingo não sem uma espécie de brutal admiração. parecia maior do que devia ser. disse o polonês. Um leve tropeço do lado de fora da porta indicou que o despedido detetive não pensara na escada. ficaria desgostoso por uns dois minutos e meio se viesse a saber que você morreu de suplícios. expondo uns fios vermelhos e ralos e um rosto pálido e petulante. Eu gosto de você. — Cumpre-me protestar. Temos como princípio fundamental de nossa sociedade a discussão de todos os projetos em plenário. Sábado que cuide de tudo. alvitrou um tanto severamente. — Concordo. Entretanto. Fazia muito calor. acho que não. Todavia. à hora do café. Êle era um desses homens que são conscienciosos até no crime. Vê algum inconveniente em deixar aqui a barba e o cartão? — Nenhum. É claro . aqui. que. Preciso ir embora imediatamente. E vejo que é um bocado incômoda. Por isso. — Não seria melhor. Vou ocupar a presidência de uma reunião humanitarista. eu terei esses dois e meio minutos de desconforto. C H E S T E R T O N — Acertou. respondeu Gogol. contra esta irregularidade. retrucou o Presidente no meio de um bocejo que era um discreto terremoto. disse expansivamente o Presidente depois de lançar um olhar para seu relógio. como tudo. K. O Secretário voltou-se para êle com semblante carrancudo.

Elas significavam que.. asnática criatura. Escapara do raio. se você botar a cabeça para ferver com um nabo ela pode prestar para alguma coisa.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 69 que aplaudo irrestritamente as suas precauções na presença real de um traidor. disse o Presidente balançando a cabeça várias vezes. pois já passava de meio-dia. mas bem que pode prestar. Nunca chega a compreender nada. Por último. sem qualquer noção aparente dos propósitos de Domingo. dando de ombros com indecifrável desdém. lenta e miseravelmente. Porque a visão da dama de cera concorresse para deprimir seu espírito. Os outros levantaram-se resmungando e correram dali à procura de almoço. redargüíu rudemente o Presidente. Ora. É aí que você fracassa redondamente. Depois que todos se foram. mas ainda estava embaixo de üma nuvem. O Secretário recuou. refletindo em sua esquisita situação. bramiu pondo-se de pé. mas esquecera o capote nalguma parte. conquanto Domingo não pudesse denunciá-lo como fêz com Gogol. Quando Syme chegou na rua foi surpreendido por alguns flocos de neve. começou profundamente ofendido. cuja vitrina exibia unicamente uma melancólica dama de cera vestida com traje de cerimônia.. — Secretário. você não queria ser ouvido por um espião. recrudescia. entretanto. O dia luminoso e frio tinha-se tornado muito mais frio. tomado de fúria eqüina. entrando em Leicester Square. retrocedeu um pouco e abrigou-se no limiar de uma pequena e nauseante loja de cabeleireiros. Quatro dos homens ficaram boquiabertos. é isso. — É isso. não é assim? Como sabe que não está sendo ouvido agora? E com estas palavras abalou do quarto. Somente Syme teve tal noção. Ergueu-se por fim e abandonou o hotel. — Realmente não chego a compreender. não podia também confiar nele como confiava nos demais. A neve. Syme dirigiu o olhar para a rua branca e deserta.. afinal não estava isento de suspeita.. Syme permaneceu muito tempo sentado. o que bastou para gelar-lhe os ossos. Se as últimas palavras do Presidente tinham alguma significação era mais do que claro que êle. Trazia consigo a bengala de estoque e o resto da bagagem portátil de Gregory. E não foi pequeno seu . saiu o Professor. Syme. Não dou certeza. na lancha talvez ou na varanda. Confiado em que a nevada era passageira.

Que um ser humano se pusesse. ao menos por uma hora. remota. Altos edifícios e ruas populosas punham-se entre êle e sua última visão dos sete renegados. ao menos. Recordou que. o alimento habitual. CHESTERTON assombro ao deparar com um homem imóvel defronte da loja. E embora o Conselho fosse a toda prova uma realidade objetiva. e os alvos flocos cobriam-lhe as botas e os tornozelos. mas esse espanto gratuito mudou-se de imediato em comoção pessoal. Pois Syme desejava ardentemente libertar-se. Contudo. Mas o arrepio veio misturado à deliciosa emoção da fuga. bebeu meia garrafa de vinho tinto e finalizou a refeição com café e charuto. K. a embasbacar para uma loja como aquela era motivo de grande espanto para Syme. de toda aquela envenenada atmosfera. os quais lhe permitiriam fugir e deixá-lo a milhas de distância. O vinho. tomara esses inofensivos e amáveis estrangeiros por anarquistas. era. parecia que nada haveria de arrancá-lo à contemplação do enfermiço manequim de traje cerimonioso e sórdido. ao constatar que o estranho não era outro senão o paralítico ancião Professor de Worms.70 G. O local é que não parecia adequado a pessoa idosa e enferma. enveredou por duas ou três ruas. Não se inclinava. Escolhera uma mesa no primeiro andar repleto do tinido de talheres e do vozeio dos estrangeiros. Serviu-se de uns quatro pratos leves. Só assim. Ao contrário. poderia concatenar os pensamentos. . de olhos fitos na vitrina. sempre imerso em suas meditações. percorreu outras duas ou três e entrou num modesto restaurante de Soho para almoçar. folgava com os espasmos e os passos tardos e coxeantes do Professor. Admitia que a doença do homem (qualquer que ela fosse) se manifestava em acessos momentâneos de rigidez ou arrebatamento. em tal ocasião. Syme estava pronto a crer que todas as perversões tinham curso na degenerada confraria. porém. as fisionomias de homens normais e palradores levavam-no a quase imaginar que o Conselho dos Sete Dias não passara de um pesadelo. O chapéu do estranho estava empapado de neve como o chapéu do Papai Noel. em outros tempos. o ambiente conhecido. a sentir a menor compaixão. Abriu caminho por entre o bailado da neve. Estava livre na livre Londres. mas não podia crer que o Professor se enamorara justamente daquele manequim. E teve um arrepio ao pensar na dura realidade. traçar sua política e decidir finalmente se devia ou não devia manter a promessa feita a Gregory.

com um movimento atabalhoado. fechando-a com violência atrás de si. produzindo forte ruído metálico. Mas o Professor não se abalou. Não vira nenhum fiacre segui-lo. A bengala de Syme caiu no chão. Invadindo-lhe os olhos e a barba. que era normalmente um sujeito frio. Como justificativa pediu uma xícara de café forte. e no momento em que êle. estava tão boquiaberto como um matuto diante de um passe de mágica. Mas o ancião só podia andar feito um caracol. cegando e desnorteando. enquanto a tarde começava a escurecer. abriu precipitadamente a porta e. revelador do aço oculto. Levantou-se com presteza e agarrou a bengala. A minha felicidade é que me basta andar um pouco mais depressa para deixar esse sujeito tão longe de mim como daqui a Tombuctu. segundo todas as aparências o homem tinha vindo a pé. perdeu a paciência: entrou numa casa de chá domingueira para abrigar-se. Mal tinha acabado de fazer a encomenda. com o rosto lívido e as pálpebras abaixadas. acrescentavam um incessante aborrecimento a seu nervos já irritados. Um pouco mais tranqüilizado. meio enlouquecido com aquela contradição na mais .O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 71 bebendo vinho no meio dos livres. Devo ter demorado demais lá em cima. parou do lado de fora sob o rigor da neve. passou roçando pelo Professor. não ouvira barulho de rodas na rua. Não estarei fantasiando? Êle estava me seguindo mesmo? Acho que Domingo não seria tão tolo que mandasse um coxo perseguir-me! Pôs-se a caminho com passos rápidos. — Será possível que esse velho cadáver esteja me seguindo? inquiriu-se mordendo o bigode amarelo. diante de um copo de leite. Os flocos atormentavam-no como um enxame de abelhas prateadas. Ao cruzar o grande mercado a neve caía de rijo. sentou-se com dificuldade e pediu um copo de leite. atingia a entrada de Fleet Street. Quando entrou no salão parou bruscamente e fincou-se no lugar. Syme ficou tão rígido como a bengala em que se apoiava. apanhou o chapéu e a bengala e desceu vagarosamente a escada. e Syme tinha andado feito o vento. torcendo e rodopiando a bengala e tomou a direção de Covent Garden. Só assim esses pés de chumbo puderam apanhar-me. o Professor de Worms entrou coxeando pesadamente. Syme. A uma mesinha próxima da janela e da rua coberta de neve sentava-se o velho anarquista Professor de Worms. claudicante. Por um instante. Depois.

e no momento em que havia completado cerca de vinte ângulos alternados e descrito um polígono inconcebível. Todavia. à sombra da aba. a cara míope e os ombros débeis do Professor de Worms. que tinham mais de furnas que de vias públicas. Syme teve que correr umas cem jardas para alcançá-lo. encharcado de neve gotejante. depois de breve pausa para tomar fôlego. pois as ruelas estavam atapetadas de neve silente. Havia repelido o impulso elementar de atirar-se do alto do ônibus. Todos os movimentos da figura vacilante e das mãos trêmulas do ancião. o Professor meteu-se num banco e enrolou-se até o queixo na manta de lã. Volvendo-se imediatamente. viu elevar-se pouco a pouco nos degraus do ônibus um chapéu alto. deixando o café intato. Não deu muita atenção a isso e internou-se em mais outro braço do labirinto. a cada instante. Movia-se por polegadas. quando sentiu nas costas um sopro cansado e asmático. cem jardas adiante. parou para escutar qualquer rumor de perseguição. Perplexo demais para poder raciocinar. era incontestável que êle tinha corrido para tomar o ônibus. deixando à mostra as úmidas e cintilantes pedras do calçamento. Com o desvelo que lhe era peculiar. Um ônibus que ia para o aterro passou ruidoso numa rapidez inusitada. Entrava e saía pelos becos tortuosos. Teve o vago pressentimento de que naquele labirinto de vielas em breve haveria de despistar o velho e misterioso bonifrate que vinha em seu encalço. Fazia cerca de meio minuto que estava sentando. .72 G. depois de lançar um olhar angustiado ao céu invernoso que. Entretanto. sentava-se com pequenas agonias de precaução. disparou pela escada. CHESTERTON simples aritmética. se tornava mais negro. Syme pôs-se de pé no carro trepidante e. precipitou-se num dos bequinhos laterais de Fleet Street como um coelho se precipita num buraco. Mas quando. K. mas conseguiu num pulo guindarse ao pára-lama e. e arrojou-se por entre as portas de vaivém. e. Não havia nenhum e na verdade não poderia haver. subiu para o tejadilho. a menos que as entidades filosóficas chamadas tempo e espaço não tivessem vestígio sequer de existência real. todos os gestos incertos e todas as pausas pânicas pareciam pôr fora de dúvida que êle estava irremediavelmente perdido na degenerescência final do corpo. um pouco atrás de Red Lion Court deu com um lugar onde algum enérgico cidadão tinha afastado a neve pelo espaço de umas -vinte jardas.

não havia janela nem qualquer tipo de fresta. saltão e paralítico. e à entrada do pátio que leva a Ludgate Circus. . e segundo. para salientar a sólida alvura da neve. porque daquele trecho de pedras nuas chegavam o tinido da muleta e os passos difíceis do coxo infernal. viu que tinha saído muito mais longe do que imaginara. porque a nevasca era mesmo perigosamente violenta. Diante deste espetáculo Syme empertigou-se e com a bengala de estoque fêz involuntária continência. vermelho agonizante e bronze evanescente — bastante vivas. seu coração parou também. mas não tinham ainda capturado a cruz. envolvia Londres num negror e numa opressão prematuros para aquela hora da tarde. de cujo cimo pendia enorme placa de neve.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 73 parou novamente para escutar. ora veloz ora lenta. E quando a encontrou. Acima destas cores funestas elevava-se o vulto negro da catedral. Os demônios podiam ter capturado o céu. como se fosse sua sombra. porém. Achou-se na deserta vastidão de Ludgate Circus e avistou a Catedral de São Paulo assentada no céu. toda a atmosfera da cidade adquirira um fantástico matiz esverdeado como de homens sob o mar. voltou-se. Mas teve de vaguear e dar muitas voltas por longo tempo antes de acertar com a artéria principal. como de um pico alpino. O soturno crepúsculo escondido por trás da cúpula de São Paulo tinha cores esfumaçadas e sinistras — verde mórbido. Caíra ali por acaso. para êle tal palavra passou a ser desde então uma coisa assim como um trocadilho obsceno. Debaixo do esbranquiçado nevoeiro suspenso no céu. Parecia um símbolo da fé e da intrepidez do homem que este ponto eminente da terra estivesse iluminado enquanto os céus se escureciam. E ao pensar na palavra "domingo" mordeu o lábio. Sentiu novo impulso para fugir desse cortiço de casas e ganhar outra vez uma rua ampla e iluminada. de bengala em punho. No primeiro momento admirou-se de encontrar essas largas avenidas tão vazias como se a peste houvesse assolado a cidade. Lá em cima o céu. Sabia que aquela figura maligna o rastreava. porque era domingo. De cada lado de Syme as paredes da viela estendiam-se lisas e indistintas. mas não se preocupou. de modo a quase revestir a cúpula de alto a baixo e destacar em prata pura o orbe majestoso e a cruz. para enfrentar o inimigo. Depois admitiu que certo vazio era natural. carregado de nuvens de neve. primeiro. Teve vontade de arrancar o segredo desse perseguidor dançante.

Segundos depois. grave e profissional. como quem ganha uma corrida de uma milha. sem um pestanejo de suas funéreas pálpebras. lembrava obrigatoriamente um fabuloso tipo das canções de ninar: "o homem torto que andou uma milha torta". enquanto Syme relembrava todos os pesadelos de sua vida. Mas a cabeça encaixada naquele corpo bambo continuava pálida. Seu porte inverossímil. entrevisto sob uma solitária lâmpada de gás. Houve algo nesta silenciosa e inesperada inocência que deixou Syme numa fúria mortal. como uma cabeça de pregador num corpo de arlequim. E o velho Professor veio em sua direção. Era uma tasca imunda. K. onde se podia fumar ópio e puxar facas. o Professor de Worms entrou no recinto. gritando algo como "Manja!". Esta irrisória caçada desenrolou-se através de Ludgate Circus e Ludgate Hill. Com gesto estouvado. CHESTERTON O Professor de Worms dobrava ronceiramente a esquina da ruazinha irregular. em torno da Catedral de São Paulo e ao longo de Cheapside. como um homem espera uma explicação final ou a morte. povoada de marujos estrangeiros. Por fim Syme enveredou para os lados do rio e foi parar perto das docas. mas passou como um verdadeiro desconhecido. Sentou-se cuidadosamente e pediu um copo de leite. lançou-se para dentro dela e pediu cerveja. Realmente era como se êle tivesse sido retorcido pelas ruas tortuosas que tinha palmilhado.74 G. com a luz da lâmpada a refletir-se nos óculos e no rosto resignado. Agora era impossível esconder-se. Syme esperava-o como São Jorge esperou o dragão. Syme foi galvanizado por uma energia que se situava entre o azedume e uma explosão de zombaria infantil. olhando por cima do ombro divisou a negra figura do provecto cavalheiro a segui-lo com grandes e gigantescas pernadas. . fêz que ia derrubar o chapéu do velho e. Ao ver as vidraças amarelas de uma taberna iluminada. pôs-se a correr pelo branco e amplo Ludgate Circus. Vinha-se aproximando pouco a pouco. A cara descolorida e a atitude do homem pareciam assegurar que toda a perseguição tinha sido mera casualidade.

Entretanto. Era bem possível que essa correria não significasse necessariamente que êle estava sob suspeita. Estava elaborando um ligeiro questionário quando foi interrompido pelo Professor. Talvez essa corrida desordenada não passasse de um sinal amistoso que êle devia ter subentendido. o contraste podia torná-lo mais sedutor mas não o tornava mais inofensivo. voltaram-lhe todos os temores. . Se êle possuía um caráter como paralítico e outro como perseguidor. Talvez cada novo Quinta-feira tivesse de ser caçado ao longo de Cheapside do mesmo modo que é de praxe ir por ali escoltado cada novo Prefeito. Talvez se tratasse de uma formalidade regulamentar. Sua grande presença de espírito apenas lhe permitiu responder com um ar de embaraçada jovialidade. Antes que Syme pudesse fazer a primeira de suas diplomáticas perguntas.CAPITULO VIII O PROFESSOR EXPLICA Quando Gabriel Syme se achou definitivamente acomodado numa cadeira e teve em sua frente também definitivamente acomodadas as sobrancelhas erguidas e as pálpebras pesadas do Professor. Não havia dúvida de que esse sujeito incompreensível o tinha seguido desde a reunião do arrogante Conselho. Syme jamais podia terse prevenido contra uma coisa tão real e contundente como esta. Talvez fosse um ritual. o velho anarquista já se tinha dirigido a êle à queima-roupa: — É detetive? Por mais prevenido que estivesse. uma simples conjetura dava ao seu desamparo um toque de esperança. Esvaziou um canecão de cerveja antes que o Professor tocasse no copo de leite. Syme percebeu que teria irrisória compensação caso não alcançasse desmascarar o Professor e fosse por êle desmascarado.

espião miserável? guinchou um tanto tresloucado. Não me importo de ser o polícia que podia ter sido. . — Minha pergunta foi clara. — Trabalha na polícia? perguntou o ancião. Talvez polícia seja um termo relativo.. mas Syme prosseguiu na sua febricitante ironia. por engano. Não a entendeu. mas o rosto não se alterou. E ainda continuo achando. um anarquista. Jura? Jura? Sabe que se jurar em falso será condenado? Sabe que o diabo dançará em seus funerais? E que o pesadelo vai se sentar em seu túmulo? Não haverá realmente nenhum equívoco? É. Não me importo de ser qualquer coisa no pensamento alemão. como alguém que está à mercê do carrasco. É detetive? O coração de Syme petrificou-se. Trago por acaso um número? Terão minhas botas aquele terrível aspecto investigante? Por que você me toma por um polícia? Tenha paciência.. — Terei. Talvez uma solteirona de Clapham Common seja somente o polícia que podia ter sido. O macaco é apenas o polícia que podia ser. — Jura? disse o velho. O velho quase quebrou a raquítica mesa com um violento murro de sua mão paralítica. — Talvez me tenham escapado as sutilezas de sua filosofia germânica. respondeu calmamente o Professor. — Sua insinuação é ridícula. sorrindo frouxamente. deixe-me ser um carteiro. trazido de lá do restaurante algum casquete policial? perguntou Syme. Porque cargas d'água. CHESTERTON — Detetive? Eu? disse rindo vagamente. O velho Professor meneou a cabeça com severa gravidade. a transformação do macaco em polícia é tão lenta que é possível não tenha eu captado as cambiantes. ignorando todo o improvisado e desesperado motejo de Syme. começou. um dinamiteiro? Não é detetive? De modo algum? Não faz parte da polícia britânica? Esticou o cotovelo sobre a mesa e levou a mão grande e frouxa até à orelha.76 G. Só que achei você parecido com um polícia. K. Num sentido evolucionista. espichando sua cara morta que parecia asquerosamente viva. então. O que o levou a pensar que sou detetive? — Nada de especial. Você é ou não é detetive? — Não! respondeu Syme.

Syme teve a sensação de que o cosmos se tinha transformado. Por um segundo. atirou-o na mesa e. símbolo de seu poder policial. as lágrimas. pouco a pouco. ria zombeteiramente. nada tenho a ver com você. bastava-lhe saborear o fato simples e auspicioso de ser esta sombra. O egoísmo de Syme apegou-se à primeira por alguns segundos. Mas. e finalmente o riso.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 77 — Não faço parte da polícia britânica. do outro lado da mesa. disse êle. até que sua barbicha . Sou da força policial britânica. Em tais condições chega-se a um ponto em que somente três coisas são possíveis: em primeiro lugar. e desde que você afirma que não é da força policial britânica resta-me apenas dizer que o encontrei num clube de dinamiteiros e que nada me cabe fazer senão prendê-lo. A verdade é que nas últimas vinte e quatro horas o cosmos estivera realmente pelo avesso e só agora é que o subvertido universo voltava ao normal. o banco em que estava sentado. Esse demônio de quem êle tinha estado a fugir durante todo o dia não era mais que um irmão mais velho que agora. Você é o quê? — Sou um polícia. O Professor de Worms recostou-se em sua cadeira com uma curiosa expressão de brando desespero. de que todas as árvores cresciam para baixo e todas as estrelas se estendiam sob seus pés. Compreendeu — pois que qualquer vitória sobre a morbidez vem sempre acompanhada de saudável humildade — que era ao mesmo tempo um idiota e um homem livre. em segundo. retrucou Syme com calma insana. Não procurou inteirar-se logo dos pormenores. com estrondo. — É pena. respondeu o Professor com seu primeiro riso franco e os olhos brilhando através dos óculos. uma perpetração de orgulho satânico. — Faz parte de quê? perguntou dificultosamente. Syme pôs-se em pé de um salto. sacudindo a cabeça para trás. Retirando do bolso do colete seu próprio cartão azul. porque eu faço. Mas como você acha que polícia é um termo puramente relativo. formou-se nele a convicção oposta. que o perseguira com a intolerável opressão do perigo. E com estas palavras deixou cair na mesa um perfeito fac-simile do cartão azul que Syme guardava no bolso do colete. mas logo adotou a terceira. empurrando para trás. apenas a sombra de um amigo esforçando-se por alcançá-lo.

Do contrário. disse o outro calmamente. — Agora compreendo. E você. pratos. — Componha-se. Tome mais cerveja. ordenou o Professor. uma caracterização especial. e. porque ela é. não sabia? . mas o que quero dizer é que você não padece de nenhum incômodo. — Não posso arrancar minha cara aqui mesmo. Riu à idéia de ser o paralítico Professor um jovem ator caracterizado para a ribalta. Mas sentiu que teria rido do mesmo modo se o pimenteiro tivesse emborcado sobre a mesa. Mesmo naquele antro abafado. — De que é que está rindo tanto. — Sim. excelência? perguntou admirado um trabalhador das docas. Quanto a saber se sou um velho. Completei trinta e oito anos em meu último aniversário. sou sujeito a resfriados. O riso de Syme teve nesse ponto uma queda de alívio. respondeu Syme. que produziu ao cair um ruído de vidro quebrado e uma poça de líquido prateado. bradou. Syme fitava-o com encantada curiosidade. — Sim. respondeu Syme surpreendido. e recaiu na agonia de sua frenética reação. lançando um olhar para a turba de ébrios. retorquiu o Professor de Worms. rebentou numa selvagem gargalhada. disse Syme impacientemente. disse Syme. Nem suspeitava. — Sabia. a atenção de muitos sujeitos semibêbedos.78 G. Tenho então que acabar meu leite? Com todos os diabos! Já lhe darei o fim merecido! E arremessou da mesa o copo. num tom de cru e insondável desprezo. acrescentou: embora não muito perfeitos. Beberei com você. O falso Professor bebeu a cerveja e limpou a falsa barba. — Meu leite! escarneceu o outro. lutas e correrias súbitas. sem dúvida. — Ainda não bebeu seu leite. continuamente cheio do barulho de facas. K. latas de conserva. — De mim mesmo. o júbilo algo homerico de Syme despertou. C H E S T E R T O N amarela quase apontava para o teto. está certo. Naturalmente você não é um velho. Meu leite! Você pensa que eu ligo para essa droga infame quando estou fora do alcance dos sanguinários anarquistas? Somos todos cristãos nesta sala. que aquele Gogol era um dos nossos? — Não. ficará histérico. berros. inquiriu. não me cabe dizer.

ergueu-se. continuando a rir descuidadamente. . azuis. disse Syme. Mas. e afastou de si a cadeira. troçando um pouco arrebatadamente. a de Domingo parecia tornar-se mais real com a ausência. trezentos que fôssemos nada poderíamos ter feito. se soubéssemos que éramos três! O rosto do Professor de Worms entristeceu e êle baixou a vista. Enquanto as carantonhas destes últimos. Syme emudeceu. — Tenho. A cara do inesquecível Presidente apareceu-lhe tão nítida como uma fotografia colorida. Ah. como se o retrato de um homem se transformasse com o passar do tempo num ser vivo. Syme deu uma palmada na mesa e soltou uma exclamação. O riso morreu em seu coração antes de morrer em seus lábios. de uma honestidade quase etérea. repetiu êle. evidentemente. Depois.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 79 — Como é que podia saber? replicou o homem que se chamava de Worms. por mais ferozes ou sinistras que fossem. Syme pôs-se a falar com ímpeto igual ao da primeira espumarada de champanha. aos poucos desbotavam-se na memória como outras tantas fisionomias humanas. — Eu também. sim. — E eu pensei que era comigo. Pensei que o Presidente estava falando comigo e logo me deu uma bruta tremedeira. — Nem assim. Passei todo o tempo com a mão no revólver. E você também tem. empertigando-se como um homem insultado. e nesse instante Syme se deu conta da diferença que havia entre Domingo e todos os seus satélites. — Éramos três. — Nem se fôssemos trezentos contra quatro? perguntou Syme. disse o Professor ainda assustado. disse com serenidade o Professor. — Professor. Ao cabo de alguns momentos de silêncio. Nem se fôssemos trezentos contra Domingo. bem abertos. disse mansamente. — Mas éramos três! E três é um número razoável para dar combate a quatro. A simples menção deste nome pôs Syme frio e sério. isso é intolerável! Você tem medo desse homem? O Professor ergueu as pesadas pálpebras e fixou em Syme os olhos grandes. E Gogol também.

Ninguém deve deixar no universo uma coisa de que tenha medo. De Worms pestanejou estupefato. tocada de indizível exaltação: — Quem haveria de contentar-se com destruir as pequeninas coisas que não o atemorizam? Quem haveria de rebaixar-se ao humilde papel de valentão. — Você se lembra. Eu tenho medo dele. — Sabe por acaso para onde vai? perguntou. disse Syme. O mesmo lhe digo eu: ferir para cima se se quer ferir as estrelas. CHESTERTON — Sim. como qualquer lutador de feira? Quem ousaria declarar-se isento de medo. Vou impedir que lancem a bomba em Paris. cocando a barba e olhando pela janela. O único que está a par de tudo é o Dr. Mas creio que nem mesmo o Presidente sabe para onde êle irá e o que fará. A esta hora é provável que o Marquês esteja cruzando o Canal. disse Syme sem se perturbar. de que quando suspendemos apressadamente a sessão todos os preparativos para a chacina tinham sido confiados ao Marquês e ao Dr. disse com voz indescritível. O outro olhava para o teto. — Domingo é uma estrela fixa. — Como? inquiriu o espantado Professor. tem razão. recomeçou o soi-disant de Worms. naturalmente.80 G. replicou Syme lacônico. redargüiu Syme e pôs o chapéu na cabeça. Lembra-se da velha história do clérigo inglês que deu os últimos sacramentos ao salteador siciliano? Lembra-se do que disse o salteador em seu leito de morte? "Não lhe posso dar dinheiro. num dos sestros de seu disfarce. E por quê? — Porque tenho medo dele. Se o céu fosse seu trono e a terra seu escabêlo. juro que haveria de liquidá-lo. Esforçou-se para falar. E por isso mesmo juro por Deus que procurarei até achar esse homem a quem temo e hei de matá-lo. K. Buli. mas Syme continuou numa voz baixa. mas vou lhe dar um conselho para toda a vida: polegar na lâmina e ferir para cima". Buli. O gesto resoluto de Syme fêz o Professor inconscientemente levantar-se. — Já sabe como deve agir? — Não. disse êle. como uma árvore? Combate-se aquilo que se teme. — Logo verá nele uma estrela cadente. — Sei. . com uma espécie de benévola desorientação.

respondeu o Professor. onde uma ou duas polegadas do rio iluminado davam a idéia de uma barra de fogo. com seu curioso alheamento. mas seu companheiro caminhava com regular desembaraço para um ponto no fim da rua. e essa mesma em absoluta conformidade com a sua retórica filosófica. Syme sentia-se quase completamente ofuscado ao atravessar esta progressiva confusão de luzes e sombras. divirto-me a observar que você me toma por um covarde. É higiênico e deita-se cedo.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 81 — Diabos o levem! praguejou Syme. Syme ficou a olhá-lo com uma espécie de estática excitação. em Surrey. disse o Professor. E não sabemos onde êle se encontra. irregularmente e ao acaso. Sobre isso lhe digo só uma palavra. ver se o Dr. — Vou até à esquina. respondeu o amigo. como fragmentos de um mundo esmigalhado. Eu sei onde êle está. Contornando a esquina enquanto falava e contemplando o rio escuro salpicado de chamas. disse o outro. na outra margem do rio. e tirou o chapéu do cabide. No lado fronteiro. êle mora um pouco longe daqui. aparecia um maciço agrupamento de enormes edifícios pontilhados de janelas iluminadas e elevados como chaminés de fábrica a uma altitude quase alucinada. — Vou levá-lo lá. mas vou tentar. Um desses blocos. Eu sei que é impossível. que foi invadida por uma rajada de ar frio. saíram juntos para as ruas escuras das docas. — Sim. — Dr. mas aqui e ali cintilava na obscuridade um ou outro grumo mais cinzento que branco. — Poderá dizer-me? perguntou Syme. As ruazinhas estavam enlameadas e cheias de poças que refletiam as lâmpadas acesas. Vai comigo? Correrá esse risco? — Jovem. — Para onde vai? perguntou Syme. Na realidade. sobranceiro ao Tâmisa. disse o Professor alegremente. com os olhos acesos. Você pensa que é possível derrotar o Presidente. Êle mora na esquina? — Não. por . apontou com a bengala para a outra margem. Buli! exclamou Syme. Buli já foi para a cama. mas desse ponto podemos saber se êle já foi para a cama. Quase toda a neve se derretera ou se convertera em lama pisada. e abrindo a porta da taberna. — Que quer dizer? perguntou desabridamente.

com uma espécie de benévola desorientação. — Sabe por acaso para onde vai? perguntou. E por isso mesmo juro por Deus que procurarei até achar esse homem a quem temo e hei de matá-lo. tem razão. Lembra-se da velha história do clérigo inglês que deu os últimos sacramentos ao salteador siciliano? Lembra-se do que disse o salteador em seu leito de morte? "Não lhe posso dar dinheiro. como qualquer lutador de feira? Quem ousaria declarar-se isento de medo. O gesto resoluto de Syme fêz o Professor inconscientemente levantar-se. naturalmente. — Já sabe como deve agir? — Não. .80 G. de que quando suspendemos apressadamente a sessão todos os preparativos para a chacina tinham sido confiados ao Marquês e ao Dr. A esta hora é provável que o Marquês esteja cruzando o Canal. O único que está a par de tudo é o Dr. Mas creio que nem mesmo o Presidente sabe para onde êle irá e o que fará. disse Syme. Vou impedir que lancem a bomba em Paris. disse com voz indescritível. replicou Syme lacônico. Se o céu fosse seu trono e a terra seu escabêlo. mas Syme continuou numa voz baixa. disse êle. De Worms pestanejou estupefato. Buli. C H E S T E R T O N — Sim. — Sei. — Como? inquiriu o espantado Professor. — Logo verá nele uma estrela cadente. Esforçou-se para falar. como uma árvore? Combate-se aquilo que se teme. E por quê? — Porque tenho medo dele. mas vou lhe dar um conselho para toda a vida: polegar na lâmina e ferir para cima". juro que haveria de liquidá-lo. O outro olhava para o teto. Eu tenho medo dele. — Você se lembra. Ninguém deve deixar no universo uma coisa de que tenha medo. num dos sestros de seu disfarce. — Domingo é uma estrela fixa. tocada de indizível exaltação: — Quem haveria de contentar-se com destruir as pequeninas coisas que não o atemorizam? Quem haveria de rebaixar-se ao humilde papel de valentão. K. recomeçou o soi-disant de Worms. O mesmo lhe digo eu: ferir para cima se se quer ferir as estrelas. disse Syme sem se perturbar. Buli. cocando a barba e olhando pela janela. redargüiu Syme e pôs o chapéu na cabeça.

Êle mora na esquina? — Não. mas aqui e ali cintilava na obscuridade um ou outro grumo mais cinzento que branco. mas seu companheiro caminhava com regular desembaraço para um ponto no fim da rua. em Surrey. aparecia um maciço agrupamento de enormes edifício» pontilhados de janelas iluminadas e elevados como chaminés ds fábrica a uma altitude quase alucinada. como fragmentos de um mundo esmigalhado. — Sim. respondeu o Professor. que foi invadida por uma rajada de ar frio. É higiênico e deita-se cedo. No lado fronteiro. Um desses blocos. e tirou o chapéu do cabide. Quase toda a neve se derretera ou se convertera em lama pisada.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 81 — Diabos o levem! praguejou Syme. — Para onde vai? perguntou Syme. irregularmente e ao acaso. Buli já foi para a cama. — Poderá dizer-me? perguntou Syme. na outra margem do rio. disse o Professor alegremente. — Vou levá-lo lá. — Vou até à esquina. E não sabemos onde êle se encontra. por . saíram juntos para as ruas escuras das docas. — Que quer dizer? perguntou desabridamente. disse o Professor. Você pensa que é possível derrotar o Presidente. Sobre isso lhe digo só uma palavra. Na realidade. êle mora um pouco longe daqui. Eu sei que é impossível. e abrindo a porta da taberna. Contornando a esquina enquanto falava e contemplando o rio escuro salpicado de chamas. Syme ficou a olhá-lo com uma espécie de estática excitação. respondeu o amigo. com os olhos acesos. onde uma ou duas polegadas do rio iluminado davam a idéia de uma barra de fogo. — Dr. As ruazinhas estavam enlameadas e cheias de poças que refletiam as lâmpadas acesas. Vai comigo? Correrá esse risco? — Jovem. mas desse ponto podemos saber se êle já foi para a cama. Buli! exclamou Syme. apontou com a bengala para a outra margem. e essa mesma em absoluta conformidade com a sua retórica filosófica. sobranceiro ao Tâmisa. com seu curioso alheamento. divirto-me a observar que você me toma por um covarde. Eu sei onde êle está. ver se o Dr. mas vou tentar. Syme sentia-se quase completamente ofuscado ao atravessar esta progressiva confusão de luzes e sombras. disse o outro.

Não é mesmo? — É. assemelhava-se a uma Torre de Babel com cem olhos. CHESTERTON suas especiais condições.é igual a duas vezes um. sim. Havia ali. como fósseis. saído de suas adegas. dois é igual a duas mil vezes um. até que ambos desembocaram em pleno fulgor e bulício de East índia Dock Road. seguindo por vários atalhos. elas estão em toda parte. explicou o Professor. — A gente sempre pode encontrar boas estalagens inglesas. Amanhã bem cedinho viremos fazer uma visita a êle.82 G. — Suponho. Exatamente detrás daquela janela que você já não pode ver. Por isso é que. a despeito de uma centena de inconvenientes. o mundo escolherá sempre a monogamia. Outro dia dei com uma excelente no West End. dirigiu-se para um local onde a longa fileira de lojas iluminadas era abruptamente interceptada por uma quieta escuridão. dormindo profundamente. Enquanto se embevecia nessa contemplação. — Chegamos muito tarde. foram para Syme o coroamento da camaradagem e do bem-estar. não pode senão pensar que estava sonhando. confirmou de Worms. Podemos concordar com os matemáticos em que quatro é igual a duas vezes dois. e não há palavras que exprimam o abismo entre a solidão e a companhia de um aliado. disse êle. O feijão com toucinho que essa gente extraordinária tão bem cozinhava e a surpreendente aparição do Borgonha. que esta é a correspondente dela aqui no East End. K. Sem mais conversa. a mais alta luz daquela torre de luzes incontáveis repentinamente se extinguiu. então. um velho e mísero albergue pintado de branco. como se o negro Argos tivesse piscado para êle com um dos seus incontáveis olhos. que dava mostras de conhecer toda a circunvizinhança. recuado uns vinte passos da avenida. O Professor de Worms girou sobre os calcanhares e bateu com a bengala numa das botas. Em todas as provações desses últimos dias apenas a solidão o horrorizara. No albergue jantaram e passaram a noite. . tomou a dianteira. O Professor. O higiênico doutor já foi para a cama. que nunca vira nenhum dos arranhacéus da América. que êle mora lá em cima? — Sim. Voltemos e vamos jantar. disse Syme sorrindo. Mas dois não. — Como? Quer dizer. Syme. anuiu reverente o Professor e entrou.

— E êle. êle me pareceu excessivamente cabeludo. — Explique-se. Quando trabalhava no palco costumava farrear com todas as categorias de boêmios e patifes. como quem conversa com velhos amigos. replicou alegremente o outro. que vive. Dizia êle que a Energia era o Todo. se não lhe enfada ouvir minha história. E fê-lo exaustivamente. sugeriu Syme. Mas não sabe êle que você o está arremedando? — Sabe demais. ponderou o Professor pensativamente. Se eu fosse dese- . repetiu o Professor. disse Syme. vim a compreender que êle havia provado que Deus era o princípio destruidor do universo. Sou um retrato. creio eu. que era odiosíssima. Eu sou um realista. disse Syme esvaziando um copo de Mâncon. Freqüentava a malandragem dos hipódromos e o rebotalho das artes. Sou ator profissional e me chamo Wilks. Um retrato do célebre Professor de Worms. Quando o conheci estava num dos meus momentos de irreverência. em Nápoles. por favor. respondeu o Professor. por isso insistia tanto na necessidade de uma energia furiosa e incessante que despedaçasse todas as coisas. Muito mais perfeita que a do velho Gogol. retratista é uma expressão inadequada. — Sou um retrato. — A sua caracterização é formidável. Por seu turno. Estava em todas as partes.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 83 Pela primeira vez Syme sentiu disposição para desabafar toda a sua opressiva história. o homem que personificava o Professor de Worms não estava menos expansivo. por que não o denuncia? — Porque eu já o denunciei. e uma vez ou outra ia ter com os exilados políticos. Logo passei a estudá-la cuidadosamente. e tanto êle me desagradou que resolvi imitá-lo. Desde o momento em que o vi. Aliás. O que me interessou nele foi a aparência. míope e parcialmente paralítico. num monólogo exuberante. — Não estou entendendo. Gogol era um idealista. — Com muito prazer. — É uma questão de teoria artística. retrucou o eminente filósofo estrangeiro. Foi num desses antros de sonhadores refugiados que conheci o grande filósofo niilista alemão Professor de Worms. Queria representar o anarquista segundo o ideal abstrato ou platônico. Era coxo. iniciada no momento em que Gregory o levou à pequena taberna ribeirinha. A história dele era quase tão inacreditável como a de Syme. — Quer dizer então que você é uma cópia desse homem. pediu Syme. um retratista. Depois.

Não se podia esperar que um velho. Veja você: êle era na verdade um paralítico e. Parecia que um camarada impertinente se apresentara feito uma despropositada paródia de mim mesmo. pobre de saúde como o meu rival. Cada vez que êle dizia alguma coisa que ninguém senão êle mesmo era capaz de entender. eu replicava com outra coisa que nem eu mesmo era capaz de entender. Não posso descrever a surpresa que senti quando minha entrada foi acolhida com respeitoso silêncio. Eu tinha bebido mais champanha do que me era aconselhável. e num acesso de loucura decidi enfrentar a situação. K. Desconfio de que não foi senão para ver de perto os olhares furiosos da turba. as minhas sobrancelhas erguidas e os meus olhos gelados que o Professor entrou na sala. logo que comecei a falar. Não é preciso dizer que houve uma colisão. E me transformei no que se poderia denominar um extravagante exagero da velha e enxovalhada personalidade do velho Professor. Eles julgavam que eu era realmente o grande professor niilista. Como eu era apenas um ator. Todos os pessimistas que me rodeavam olhavam ansiosamente de um Professor a outro Professor para ver qual dos dois era efetivamente o mais débil. não podia ser tão jocosamente paralítico como eu. A maldição do artista perfeito tinha caído sobre minha cabeça.84 G. "que você possa ter chegado ao princípio de que a evolução é somente negação. Naquele tempo eu era um rapazola ingênuo e confesso que o fato me abalou profundamente. vieram correndo comunicar-me que um insulto público me tinha sido dirigido na sala contígua. Respondi com o maior desdém: "Você leu tudo isso em Pinckwerts. "Não me parece". fosse tão impressionantemente débil como um jovem ator em pleno vigor da mocidade. Por isso tentou derrotar minha prosápia intelectualmente. E eu venci. operando dentro desta definida limitação. seguido. quando muito. Mas antes que pudesse recobrar-me. irradiando indignação. esperava ser recebido com estrondosas gargalhadas ou. Ao entrar na sala onde se reuniam seus correligionários. Livrei-me com alguma astúcia. Inquiri deles a natureza do insulto. disse êle. com estrondosos protestos contra o insulto. a noção de que a involução funcionava eugênicamente foi exposta há muito tem- . verídico demais. podia apenas fazer o papel de uma caricatura. C H E S T E R T O N nhista teria feito uma caricatura. Eu fora sutil demais. dois ou três desses admiradores. desde que isso implica na introdução de lacunas que formam constitutivos de diferenciação". de murmúrios de admiração.

Mas ri com satisfação e respondi ao acaso: "Como as botas do panteísta". disse êle escarninho. para minha surpresa. É ocioso dizer que nunca existiram tais pessoas como Pinckwerts e Glumpe. mas não entendo porque você não se desfez delas depois disso. todas as suas manifestações de gravidade e cólera fazem-no mais divertido ainda. davam sinais de conhecê-los perfeitamente. posso compreender que você tenha posto essas barbas sujas e velhas para o gracejo de uma noite. ao menos. sou procurado. "Noto". se se pode chamar isso de acusação criminal. E me deixei levar. assim que dobrei a esquina fui surpreendido por um toque no ombro e. Você está me prendendo sob a acusação de ser eu o grande anarquista Professor de Worms". "não é por isso. que eram inteiramente verdadeiras e um pouco mordazes. recorreu a um nível mais popular de argumentação. Vendo o Professor que o método erudito e misterioso deixava-o à mercê de um inimigo ligeiramente deficiente em escrúpulos..O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 85 po por Glumpe". disse com polidez. O guarda impassivelmente consultou um papel que trazia consigo. "Não senhor". esperando afastar-me em breve o suficiente para poder caminhar como um ser humano.. achei-me à sombra de um enorme guarda. Quando deixei o conventículo. Eu o prendo sob a acusação de não ser o célebre anarquista Professor de Worms". — Eis o resto da história. Tal acusação. Assumi uma atitude paralítica e bradei com forte sotaque alemão: "Sim. redargüi sorridente. "que você se distingue como o falso porco de Esopo". mas sem violência. "E você se obscurece". disse o ator. disse êle. "como o porco-espinho de Montaigne". E sem demora dei meia volta com todas as honras da vitória. Como você pode imaginar. Atravessei certo número de salas e cheguei finalmente . Creio que agora êle é recebido em toda a Europa como um delicioso impostor. Mas os que nos rodeavam. disse Syme. pelos oprimidos do mundo inteiro. Entretanto. saí manquejando pela rua escura. O verdadeiro Professor foi levado para fora. desconfiado mas não grandemente consternado. que me disse que eu estava sendo procurado. debaixo de reverentes aplausos. ainda que um dos homens tenha tentado muito pacientemente arrancar-lhe o nariz. Não tive resposta inteligente para essas palavras. ao voltar-me. não é exatamente por isso. — Bem. "e o mesmo vai acontecer com sua barba". É preciso dizer que não há porco-espinho em Montaigne? "Seus estratagemas estão por terra". era indubitavelmente a mais suave das duas.

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G.

K.

CHESTERTON

à presença de um oficial. Este explicou-me que uma severa campanha estava sendo iniciada contra os centros anarquistas e que a minha bem sucedida representação podia ser de considerável utilidade para a segurança pública. Ofereceu-me bom salário e me deu este cartãozinho azul. Embora nossa conversa tenha sido breve, êle me deixou a impressão de ser um homem de sensatez e humor sólidos; mas não posso dizer muita coisa sobre a pessoa dele, porque... Syme abandonou no prato a faca e o garfo. — Já sei, disse. Porque você falou com êle num quarto escuro. O Professor fêz que sim com a cabeça e esgotou seu copo.

CAPITULO IX

O HOMEM DOS ÓCULOS
— O Borgonha é maravilhoso, disse pensativamente o Professor, enquanto punha o copo na mesa. — Não parece que você o aprecia tanto assim, observou Syme. Toma-o como se fosse remédio. — Não repare nos meus hábitos, disse o Professor melancòlicamente. Minha situação é um tanto curiosa. Por dentro estou rebentando de alegria infantil, mas de tal modo me integrei no papel do paralítico Professor que já não posso largá-lo. Mesmo quando estou entre amigos e não tenho nenhuma necessidade de disfarçar-me, não posso deixar de falar baixo e franzir a testa. .. como se fosse realmente minha testa. Posso sentir-me inteiramente feliz, mas só de m o d o . . . paralítico, compreende? As mais vibrantes exclamações pulsam em meu coração, mas de minha boca elas saem irreconhecíveis. Você deveria ouvir-me dizer: "Anima-te, rapaz!" Isso traria lágrimas a seus olhos. — Não há dúvida, disse Syme, mas creio que, fora de tudo isso, você está um bocado inquieto. O Professor teve um leve sobressalto e encarou Syme firmemente. — Sujeito muito arguto, você, disse êle. É um prazer trabalhar com você. Sim, é verdade, tenho uma nuvem pesada em minha cabeça. Há um grande problema a enfrentar, e enterrou a testa nua nas mãos. Depois perguntou em voz baixa: — Sabe tocar piano? — Sei, sim, disse Syme surpreendido. Dizem que não toco muito mal. Como o outro não falasse, ajuntou:

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G.

K.

CHESTERTON

— Espero que a pesada nuvem se tenha dissipado. Após um demorado silêncio, o Professor falou de dentro da sombria caverna de suas mãos: — Teria servido da mesma forma se você soubesse datilografia. — Muito obrigado, disse Syme. É bondade sua. — Escute aqui, continuou o outro. Lembre-se do homem que temos de ir ver amanhã. O negócio que você e eu vamos tentar amanhã é muito mais perigoso do que roubar da Torre as Jóias da Coroa. Vamos tentar arrancar um segredo a um sujeito muito sagaz, muito forte e extremamente cruel. Acredito que nenhum deles, exceto naturalmente o Presidente, seja tão medonho e pavoroso como esse fulano dos óculos e dos dentes arreganhados. Talvez não tenha o pungente entusiasmo pela morte, pelo martírio, que distingue o Secretário. Aliás, o próprio fatalismo do Secretário revela um patos humano e é quase um toque de redenção. Mas o doutorzinho, não. Desfruta um bom senso compacto, mais repelente que a loucura do Secretário. Não notou ainda a sua virilidade, a sua vitalidade detestável? Êle anda aos saltos como uma bola de borracha. Fique certo de que Domingo não estava dormindo (eu me pergunto se êle já dormiu alguma vez) quando fechou todos os planos do atentado na cabeça redonda e negra do Dr. Buli. — E você pensa, disse Syme, que esse monstro sem par vai ficar bem mansinho quando eu tocar piano para êle? — Não me venha com asneiras, respondeu-lhe o mentor. Mencionei o piano porque êle nos proporciona dedos ágeis e independentes. Syme, se temos de levar a cabo essa entrevista e sair dela sãos e salvos, precisamos combinar entre nós um código de sinais que não possa ser descoberto por essa alimária. Elaborei um tosco alfabeto cifrado, correspondente aos cinco dedos. É assim, veja (e começou a tamborilar os dedos sobre a mesa de madeira): M A U , mau, uma palavra que poderemos utilizar com freqüência. Syme bebeu outro copo de vinho e começou a estudar o método. Possuindo miolo e mãos anormalmente hábeis em quebra-cabeças e prestidigitações, não demorou a enviar breves mensagens sob a forma de tapinhas descuidados na mesa ou no joelho. E como o vinho e a companhia sempre tivessem o efeito de aguçar-lhe a comicidade, dentro em pouco viu-se o Professor a braços com a desadorada energia do novo idioma, incandescido agora pelo cérebro ardente de Syme.

Syme. voltou a si lentamente. Buli? — Há muitas maneiras de tocar no assunto e introduzir a palavra com naturalidade. mas era a confiança que existe entre dois homens que marcham para a forca. Sentou-se pestanejando. Você levou muito tempo para criá-lo? . de pé à beira da cama. sem dúvida. enquanto vestia as calças. realizado com discrição. Sonhei com seu alfabeto. estendê-la dos dedos das mãos para os dos pés? Isso. muitos de nós. vá dormir! ordenou-lhe o amigo com áspera simplicidade. entretanto. em verdade. Podemos dizerlhe: "Dr. redargüiu Syme. talvez. que vamos falar de capim ao Dr. — Acha então. que. entretanto. — Syme." — Não compreende que isto é uma tragédia? inquiriu o outro. movendo a cabeça sagazmente. — "Viçoso". Não imagina como isto é sério. afetando alegria. Precisamos da palavra "viçoso". considerou Syme. continuou Syme. nos obrigaria a descalçar os sapatos e as meias. Minha palavra favorita é "coevo". atirou fora os cobertores e pôs-se de pé.. como revolucionário você não ignora que um tirano já nos aconselhou a comer capim: e. . sentou-se na cama e passou algum tempo estudando o novo código.. Pareceu-lhe que toda a segurança e toda a sociabilidade da noite anterior haviam-se apartado dele com as roupas da cama. o que. parecia um fantasma. e avistou as barbas grisalhas de seu aliado.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 89 — Precisamos contar com diversos sinais para palavras.. Nunca se esqueça de ser cômico numa tragédia. também. Acordou na manhã seguinte. — Viva! exclamou Syme. palavras que provavelmente serão muito úteis. como você sabe. disse Syme com seriedade. queixou-se o Professor. Buli. quando o nascente estava ainda abismado na escuridão. bradou furiosamente o Professor. e que estava exposto a um perigo iminente. que se aplica ao capim. Qual é a sua? — Pare de bancar o engraçado. Não poderíamos. Ainda depositava inteira confiança em seu companheiro. — Perfeitamente. palavras carregadas de matizes. Que diabo é que se pode fazer? Meu desejo é que essa sua linguagem tenha um mais amplo objetivo. contemplando o suculento e viçoso capim primaveril.

Alcançaram a base do imenso bloco de edifícios que tinham visto da outra margem. Vamos sair para tomar café. seus cinco mudos dedos dançavam vividamente sobre a mesa morta. — Diabos o levem! Não pode responder? gritou Syme numa raiva súbita. apenas para beber café e comer reforçados sanduíches. Precisamos habituar-nos. No fim de contas. ao baixar a vista. exceto que êle tinha partilhado do festim anarquista e que lhe tinha contado uma história ridícula? Como era improvável existir lá outro amigo além de Gogol! Seria o silêncio deste homem uma maneira espetacular de declarar guerra? Seria. K. Seu primeiro pensamento foi que o Professor tinha enlouquecido. que se bandeava pela última vez? Aguçou os ouvidos no cruel silêncio. com os olhos bem abertos e um sorriso fixo mas quase imperceptível. Você dominou isso tudo de uma só vez? O Professor continuava silencioso. CHESTERTON O Professor não deu resposta. mas o segundo foi mais terrível. Syme repetiu a pergunta. os passos abafados e solertes dos dinamiteiros vindo capturá-lo. Mas. então. Embora o Professor se mantivesse tão calado como uma estátua. no corredor. Fitava-o absorto. rebentou numa gargalhada. o que sabia desta criatura singular que inconsideradamente aceitara por amigo? O que -sabia deste homem. e depois atravessaram o rio. Eu que me julgava bamba nessas coisas passei uma boa hora estudando. Tamborilou a resposta com impaciente desabafo: — Ótimo. que sob o clarão cinzento do amanhecer parecia tão desolado como o Aqueronte. Agarraram os chapéus e as bengalas em silêncio. Se podia ou não responder. e em silêncio começaram a subir os nus e inumeráveis degraus de . Syme acompanhou os velozes movimentos da verbosa mão e leu claramente a mensagem: — Só falarei" deste jeito. a verdade é que o Professor não o fêz. Chegou a imaginar que ouvia lá fora. — Quanto tempo? O Professor não se moveu. que ocultava um certo temor. Demoraram-se alguns momentos no botequim. Syme encarou o rosto rijo como pergaminho e os olhos azuis e vazios. — Estou lhe perguntando se levou muito tempo para inventar tudo isso.90 G. mas ao tocar na bengala de estoque Syme teve um sobressalto. este adamantino olhar o espantável escárneo de um tríplice traidor. depois. com olhos da côr de um mar invernoso.

bastava vê-lo de perto para desfazer-se a fantasia francesa. Vistos das janelas. Progressivamente.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 91 pedra. E agora que subia esta enfadonha e interminável escadaria estava assustado e perplexo com a série quase infinita de degraus. os enormes edifícios apareceram-lhe como uma torre num sonho. Tal infinidade era antes o vazio infinito da aritmética. de uma fantasia ou de uma alucinação. E ao entrarem. Sua postura lhe conferia uma nova aparência. Êle ficaria bem como um Marat ou como um Robespierre mais desleixado. Os jacobinos eram idealistas. mais próprio do vermelho do barro do que do vermelho de nuvem. sua cabeça escura e raspada podia perfeitamente ter saído de um chino. entrando de través e adelgaçando as sombras. Ou era como os estonteantes cálculos da astronomia sobre a distância entre as estrelas fixas. Entretanto. os incontáveis telhados de ardósia assemelhavam-se aos plúmbeos vagalhões do mar cinzento e encapelado depois da chuva. Buli. Mas isto não era o quente horror de um sonho. Syme supunha estar subindo para a morada da razão. Buli sentado a uma mesa a escrever. Syme ia-se convencendo de que sua nova aventura tinha de certo modo um cunho de calculada sensatez. Dr. A intensa e branca luz da manhã. fazia-o mais pálido e mais anguloso do que na reunião da varanda. Buli estava de camisa branca e calções pretos. a última janela descobriu-lhes uma aurora amarga. entremeada de montículos da côr de um vermelho áspero. Quando chegaram ao patamar do Dr. parando de vez em quando para trocar curtas mensagens no corrimão da balaustrada. Em consonância com esses quartos vazios e com esse austero alvorecer. Logo que viu o sótão e o Dr. por exemplo. muito mais intolerável do que as insensatas aventuras já vividas. o sòtãozinho pobre do Dr. A cada novo lanço de escada correspondia uma janela e cada janela revelava-lhes uma pálida e trágica alvorada assomando morosamente sobre Londres. coisa mais odiosa que o próprio absurdo. e o que caracterizava esse homem era um materialismo homicida. atinou com o sentido das suas recordações: a Revolução Francesa. uma coisa impensável mas necessária ao pensamento. As duas negras lunetas que tapavam seus olhos podiam efeti- . Na noite anterior. Buli estava cheio de luz. Era de esperar que contra esse amanhecer alvacento e opressivamente vermelho se destacasse o negro perfil da guilhotina. branca. Syme foi invadido por umas recordações mais ou menos históricas.

Dr. Foi com momentânea dificuldade que o Professor quebrou o silêncio e começou: — Peço-lhe desculpas por vir perturbá-lo tão cedo. embora eu seja de opinião que temos de agir de conformidade com ela. que. Nas momices e visagens do Pro- . recomeçou. Dr. explodisse de impaciência e pusesse as cartas na mesa. mas continuou a fitá-los em silêncio. não é mesmo? E acrescentou com infinita vagareza: Segundo as informações que recebemos.92 G. a seguir seu agente com toda a proteção que puder conseguir para êle. Quando os dois homens entraram. o atraso de um minuto poderá ser fatal. se alguma vez a Morte se sentou a uma mesa de madeira para escrever não teve outro aspecto senão esse. meia hora atrás. Buli levantou os olhos. Por isso. Entretanto. poderei relatar o ocorrido em todos os pormenores. Syme já começava a sentir náusea e a desesperar-se. K. Buli não eram como o olhar cataléptico e o silêncio arrepiante que. Buli sorriu outra vez. E. se fosse contada. havia surpreendido no Professor. levaria mais tempo do que este de que dispomos. mesmo com o risco de perder tempo. fazendo uma pausa antes de cada uma de suas enfadonhas palavras: — Por favor não me julgue excessivamente precipitado. O sorriso e o silêncio do Dr. com efeito. se realmente lhe parece ser o relato essencial para a compreensão do problema que vamos discutir. abotoou-se cuidadosamente e voltou a sentar-se à sua mesa. Sem dúvida você executou todos os preparativos para o negócio de Paris. camarada. readquirindo cautelosamente os gestos lentos de de Worms. A quieta jovialidade de seus modos deixou seus dois oponentes desarmados. na esperança de que o doutorzinho. o que transformava o monólogo num trabalho espinhoso. então. enlouquecido. o doutorzinho não fazia senão encará-lo e sorrir. como se êle não passasse de uma caveira. ou. disse êle. tornando-as intoleràvelmente longas e pausadas. O Professor. pôs-se a vestir um casaco e um colete de lã escuro e desbotado. CHESTERTON vãmente ser tomadas como negras cavidades em seu crânio. se é muito tarde para isso. mas aconselho-o a alterar esses planos. O Professor arrastava suas frases. O camarada Syme e eu tivemos uma experiência. Providenciou cadeiras para os recém-chegados e. sorriu com visível alegria e ergueu-se com a elástica rapidez de que o Professor tinha falado. indo até a um cabide atrás da porta.

De fato. o incidente que nos ocorreu e nos levou a tomar informações sobre o Marquês é daquele tipo que precisa de ser narrado. Buli e o padrão de suas roupas adquiriam excessivo realce. como um homem fatigado de andar na areia frouxa e pesada. tornou o Professor. a menos que você ou eu decida seguir a pista. Êle parecia escandir suas palavras como se elas fossem as palavras de uma antífona. tinha à sua frente um homem robusto. as cores da tez do Dr. . atabalhoadamente. Buli era ainda mais afetuoso. trajado com simplicidade. Sob a crescente luz do sol. viu que seus longos dedos tamborilavam àgilmente na borda da mesa rachada. . Este diabo esgotou as minhas forças. Por isso. a única coisa inquietante era seu silêncio. e cortês a inclinação de sua cabeça. mas como sucedeu ao camarada Syme antes de mim. singularizando-se apenas no uso de uns óculos deformadores. mas seus olhos anteparados continuavam indevassáveis. levei-o para o Savoy e lá embriaguei-o completamente. Desejando firmar minha boa reputação. . o Professor fêz ver a Syme que iria retomar a explanação. que graças ao meu chapéu me tomou por uma pessoa respeitável. sem sobrecenhos ou arreganhos. mas Syme. disse apressadamente.. Tudo ali tinha um sentido de insuportável realidade. que dentro de um ou dois dias esperam prender o Marquês na França. — É verdade. Syme recordava os angustiosos temores do dia anterior como quem se recorda de ter tido medo de duendes na meninice. como num boneco de engonço. Tive a sorte de conversar com um detetive. — Como estava dizendo. e que. Foi aí que êle se tornou expansivo e me contou. encarava-os com um sorriso fixo e mudo. Mas agora estava em pleno dia. Através de sinais. como nas novelas realistas. daí a instantes começou com a mesma deliberada calma: — Logo que Syme chegou com esta informação resolvemos trazê-la ao seu conhecimento para que você tomasse a de- . e leu a mensagem: — É preciso que você continue. Syme lançou-se na brecha com aquela fanfarronada de improvisação que sempre o acometia quando estava alarmado.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 93 fessor havia sempre algo puramente grotesco. que estava atento. Mas seu sorriso era levíssimo. O sorriso do Dr. a coisa aconteceu comigo. espadaúdo.

— Ou ainda. O Professor. mal fêz pausa em seu monólogo.. O Professor desfiava sua oração. Syme telegrafou: — É uma idéia espetacular. mas em meio a ela Syme decidiu-se a agir. . de repente. tivera um pressentimento e este se tinha elevado à categoria de delirante certeza. não tenho nenhuma dúvida de que é urgente. tamborilou Syme. Buli. rufou Syme.94 G. Na realidade. tamborilou: — Então diga. Enviou a seu aliado esta mensagem: — Tenho uma idéia. Entretanto. Os nervos de ambos os irmãos de armas estavam a ponto de estalar debaixo daquela tensão de imóvel amabilidade. Curvando-se sobre a mesa. Syme curvou-se. Syme estava vermelho até à raiz de seus cabelos amarelos. quando. Tem aquela força súbita que às vezes sentimos quando chega a primavera. Depois leu esta resposta nos dedos do amigo: — Vá para o inferno! O Professor prosseguiu em seu monólogo palavroso e ôco. CHESTERTON cisão que lhe parecesse mais conveniente. explicou para o amigo: — Você não imagina como o meu pressentimento é poético. — Ainda diria. O outro respondeu: — Ou uma tolice espetacular? Syme disse: — Sou um poeta. que êle se parece com aquele inopinado cheiro de mar que podemos descobrir no coração dos bosques viçosos. Durante todo esse tempo Syme estivera a contemplar Dr. e seus dedos dançaram displicentemente sobre a extremidade da mesa. dirigido ao Dr. Buli tão fixamente como Dr. Voltando a suas pancadinhas simbólicas. O outro retorquiu: — Um poeta morto. Buli! . K. Seu companheiro não se dignou responder. e seus olhos ardiam febrilmente. falou com uma voz que não podia ser desprezada: — Dr. é real como o intenso cabelo vermelho de uma bela mulher. Buli contemplava o Professor. mas sem o sorriso.

no Tâmisa. com essa robustez. poderia fazer-me um pequeno favor? Quer ter a bondade de tirar os óculos? O Professor agitou-se na cadeira em que estava sentado e olhou para Syme com uma espécie de gelada e enfurecida surpresa. — Dane-se o plano! rugiu Syme fora de si. e tirou os óculos. Efetivamente tratava-se de uma portentosa cena de transformação. como se o médico se houvesse convertido num sapo. Os óculos é que fizeram tudo! Tudo estava nos óculos! Com esses terríveis olhos negros. Buli ergueu-se vagarosamente.. Depois. Por alguns segundos houve um silêncio em que se podia escutar a queda de um alfinete e que foi cortado apenas uma vez pelo silvo de uma lancha distante. francos e felizes. trajado como um simples empregado e de natural sem dúvida bondoso e até mesmo comum. esquecido de sua suposta paralisia. Os olhos do outro brilhavam como estrelas. fisionomia alegre. Buli. era um demônio vivo no meio dos demônios mortos. O Professor também deu um pulo. que bem podia ter sido o primeiro sorriso de um recém-nascido. Syme. as abençoadas botas! Você não vai pensar que isso aí é um anarquista. Buli. Dr.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 95 A cara mansa e risonha do médico não se mexeu. sem perder o sorriso. Conservava seu sorriso. O médico não fêz nenhum movimento. esperava com o rosto afogueado. vai? . . disse Syme num tom peculiarmente preciso e cortês. — Dr. ali diante de seus olhos. Syme deu um pulo para trás. Mas quanto ao plano do Dr. o colarinho. Eu sabia que meu pressentimento era tão infalível como o Papa. com esses ares divertidos. Arrimou-se depois no espaldar da cadeira e encarou dubitativamente o Dr. como um professor de química ante uma explosão bem sucedida. disse hesitante o Professor. assemelhando-se a um homem que lançou à mesa a vida e a fortuna. — Eu sabia que era poeta! exclamou Syme como se estivesse em êxtase. mas eles juravam que por baixo dos óculos negros seus olhos dardejaram Syme. Olhe para êle! Veja a cara dele. Diante dos dois detetives sentava-se agora um moço de aparência infantil. — Não há dúvida que a diferença é extraordinária. com olhos da côr de avelã. Buli. e por um instante Syme ficou a apontá-los sem pronunciar uma palavra.

Espero que vocês não caçoem do diabo dessa minha fraqueza. Não tínhamos tanta sorte. estou contentíssimo com a vinda de vocês. Buli. como para cumprir uma formalidade. mas. agoniado de medo. CHESTERTON — Syme! gritou o outro. sou um detetive. O jovem chamado Buli. — Não. Éramos quatro contra três. — Velhinhos. Já me sentia meio morto de medo de estar só. Eis aqui meu cartão. era leal. Dr. disse êle com a petulância de um colegial. insistiu em ir por último. porque. Se meus olhos não me enganam. e atirou o cartão azul sobre a mesa. sua robusta rapidez afirmou-se inconscientemente e êle tomou a dianteira. ao deixar o quarto. quando chegaram à rua. o que teria sido um gesto imprudente. — Deus Todo Poderoso! exclamou Syme. dizia êle. com a inocente cortesia que lhe era característica. Os outros desceram as escadas em silêncio. Foi quando o terceiro homem soltou uma gargalhada. naquele amaldiçoado Conselho havia mais desses amaldiçoados detetives do que dos amaldiçoados dinamiteiros. andando velozmente em direção ao gabinete de informações da estrada de ferro e conversando com os outros por cima do ombro. O Professor descia as escadas. Enfiando na cabeça um chapéu claro e repondo suas demoníacas lunetas. disse Buli. apesar disso. Por pouco não dei um abraço em Gogol. disse a voz. e sua voz veio de lá de baixo. provocou um tinido ao bater com a bengala nas pedras do corredor. Tirou seu próprio cartão oficial e colocou-o junto ao do amigo. — Podíamos ter lutado com vantagem. Não éramos quatro contra três. e acenou-lhes de leve com um cartão azul. Syme ia um pouco distraído e. . Também sou da polícia. poderemos partir juntos para a França. Éramos quatro contra Um. K. e pela primeira vez os outros dois lhe ouviram a voz. O Professor ainda temia que tudo estivesse perdido.96 G. assim. Correrei o risco. o médico caminhou para a porta com tal rapidez que os outros o seguiram instintivamente. — Nada como encontrar uns bons colegas. — Por Deus! bradou Syme.

nem sequer me viu! Os olhos de Syme relampejaram. por São Jorge! Uma vez cobertos os olhos. Puseram-me toda sorte de apelidos na Scotland Yard.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 97 — Todos os diabos de todos os infernos também se juntaram para minha fraqueza! disse Syme. Esse manda chuva da polícia. mas como eu tinha a infelicidade de ser um homem honesto. digno demais. Houve uma coisa estupenda nisso tudo. otimista demais. — Vou contar. e todos apostaram que eu jamais ficaria com cara de dinamiteiro. outro asseverou que se enegrecessem minha cara eu me transformaria num sombrio anarquista. todo o resto — sorrisos. Um perguntou se uma barba cerrada esconderia meu sorriso. E lá todos eles confessaram-se desalentados. Mas para este fim eles só queriam gente que pudesse passar por dinamiteiro. mas não foi minha. parece um angélico moço de escritório. enfim. Diziam que se eu fosse um criminoso poderia ter enriquecido por me parecer exageradamente com um homem honesto. . Ponham-lhe um par de óculos esfumaçados e verão que por onde êle passar os meninos gritarão aterrorizados". ombros largos. não saiu da minha cabeça. benévolo demais. Ainda hoje quebro a cabeça para entendê-la. etc. Vejam bem. especialmente no serviço de repressão aos dinamiteiros. O jovem riu lisonjeado e respondeu: — Não é um primor? É uma idéia muito simples. desde os cabelos até às botas. Deus meu. Mas. cabelo curto. que tão habilmente me decifrou e compreendeu que os óculos negros se ajustariam com meu físico.. E assim foi. Depois de feito. perdia a mais remota oportunidade de ajudá-los passando por criminoso. como os milagres. e êle perguntou: . foi muito simples. "Olhem para êle agora. esse camarada. Afirmavam que até meu andar era respeitável e que. visto de costas. . mas a parte realmente miraculosa não foi essa ainda. . me levaram à presença de um figurão que era o chefe de tudo aquilo e possuía naturalmente uma cabeça respeitável. eu me parecia com a própria Constituição britânica. Mas o pior diabo era você com os seus antolhos infernais. Diziam que eu era saudável demais. Mas o tal chefão saiu-se com uma observação curiosíssima: "Um par de óculos esfumaçados!" disse categoricamente. Eu queria alistar-me na polícia. — fêz de mim um perfeito diabo. respondeu o homem dos óculos. — O que foi? perguntou Syme.

Êle ainda estará em Calais quando desembarcarmos. e vocês verão que ela é simplesmente asfixiante. explicou Dr.palavra de honra. pela primeira vez. prometi a um pobre sujeito. deveríamos chamar a polícia. Só quando viajavam no barco para Calais a conversa voltou a animar-se. Esta pergunta anuviou. objetou Syme. com a rapidez do homem de negócios. — Mas quando o alcançarmos em Calais. alojou-os e alojou-se também num vagão. retrucou o novo guia. porque o Presidente não me perdia de vista. nunca contar nada à polícia. antes que eles tivessem tomado fôlego na arrancada. Êle refletiu um instante e disse: — Suponho que. com bomba e tudo. Teoricamente eu prefiro afogar-me a chamar a polícia. Buli. Calculei tudinho. Buli. Podem dizer o que quiserem. murmurou o Professor. — Já tinha resolvido ir almoçar na França. Vejam: fui obrigado a despachar aquela besta do Marquês. não é isso? inquiriu o Professor. que é um autêntico pessimista moderno. Agora estou encantado por ter quem almoce comigo. igual a uma carvoaria. o que é que vamos fazer? indagou o Professor. esclareceu Buli. mas não posso faltar com minha palavra a um pes- . teoricamente. Deus é testemunha! Um dia eu lhes contarei toda a história. Como é que se pode estar em seis lugares ao mesmo tempo? — De modo que você teve de despachar o Marquês.98 G. Na estação. CHESTERTON — Como foi isso? Eu pensei que você tinha falado com êle. Em seguida. entalou os companheiros num fiacre e. O novo aliado era um furacão no capítulo das coisas práticas. Você não faz idéia! — Não posso nem imaginar. falei. Sob minha . que sorria para mim da sacada de um clube ou me cumprimentava do tejadilho de um ônibus. K. confirmou Syme gravemente. o semblante do Dr. — É um caso inédito. inteirou-se dos trens que saíam para Dover. Faz muito tempo? Poderemos alcançá-lo? — Sim. Pouco entendo de casuística. Falei com êle num quarto escuro como breu. Todas as vezes que eu tentava escapulir topava com o Presidente. — Que falei. -— Suponho que não. mas tenho para mim que aquele sujeito se vendeu ao diabo.

porque eles podem apelar para a organização deles e nós não podemos apelar para a nossa. — Bem. disse Syme. desde aquele momento em que. Meus amigos. e. disse Syme.. porque. sabe Deus para onde. assentiu o Professor. disse o Professor. Buli. Um silêncio amigável estabeleceu-se entre os três homens. confessou o Dr. era uma espécie de pau para toda obra. Vocês sabem quem é: o homem que tem o sorriso de cabeça para baixo. Sabia que você assumiria essa atitude. segundo. ou seus nervos. Digam que estou louco. Dei minha palavra ao Secretário. Dr. Pode ser sua digestão. — A primeira conseqüência. Só sei que êle está condenado. — Tem razão. No Conselho somos três contra três. Talvez tenha sido esmagado como um inseto pelo Presidente. — É o meu caso. pisando com força e descuidadamente. Se eu tivesse cometido esse crime não teria mais noção do bem e do mal. ou sua consciência. — Sim?! interrogou Dr. que está no inferno! Não posso trair um homem desses e atormentá-lo. — Porque um dos outros três homens não é um homem. e apressemo-nos. ou sua filosofia do universo. Gogol foi embora.. — Não creio que você esteja louco. por causa de um juramento idiota que eu fiz. Seria o mesmo que açoitar um leproso. Só não me prestei ao perjúrio nem à traição. façamos o possível para enfrentar as conseqüências. disse Syme com seriedade. disse o Professor. aquele é o homem mais infeliz que o gênero humano já produziu. pois estou vendo o cabo Gris-Nez apontar lá na França.. como os romanos que guardavam a ponte. contemplando o mar batido pelo sol. — Também passei por tudo isso.. parece que adotamos todos o mesmo tipo de moralidade ou imoralidade. é esta: nós três estamos sós neste planeta.. . — Em que você tirou seus óculos. Mas a nossa posição é mais insustentável. Voltou logo depois. mas é o que sinto. Assim. não sei. Buli sorriu e foi espairecer pela coberta. tem toda razão. Buli. Já pensei em falar com a polícia mas não pude. primeiro. É a mesma coisa que faltar com a palavra a uma criança. Enquanto fui ator.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 99 simista moderno..

Mas já estamos no porto. — Que diabo é que você está dizendo aí? perguntou o Professor. Vou aproveitar-me do fato de ter êle tantos amigos e freqüentar a alta sociedade. Depois disse: — Tenho uma idéia. porque teríamos que ser vistos. O Marquês não negará que é um fidalgo. Passaram pela minha cabeça mais de vinte esquemas. feita só de amigos. Você está mareado ou quer fazer graça? — Minha explanação é quase dolorosamente prática. é tirar proveito dos próprios fatores que estão do lado do Marquês. sem se apoquentar. é forte e bravo. por um ou dois segundos. — Nosso brasão de armas. K. mas. um deles foi a Bannockburn na comitiva de Bruce. Vou aproveitar-me do fato de ser êle um nobre altamente respeitado. A única coisa viável. respondeu Syme. afirmou Syme. — Já vamos desembarcar. e o resultado é duvidoso. Devemos fazer alguma coisa para conservar o Marquês em Calais até meio-dia de amanhã. realmente. êle podia engolir tudo. Não podemos levá-lo à cadeia por qualquer acusação trivial. guardou silêncio. — Esse aí perdeu o juízo. A partir de 1350 a linhagem está bem determinada. — Os Symes vêm mencionados pela primeiras vez no século quatorze. Syme. proponho-me a. Podíamos tentar raptá-lo e trancafiá-lo nós mesmos. disse o médico espantado. CHESTERTON Syme anuiu com um movimento da cabeça e. arrancar-lhe o chapéu da cabeça. A casa de St. O moto é variável. mas êle é muito conhecido aqui. continuou Syme calmamente. O Professor abecou rudemente Syme pelo colete. Estamos de acordo em que não podemos denunciá-lo como dinamiteiro. na primeira oportunidade. segundo certa tradição. Não podemos pensar em desviá-lo para outros negócios anarquistas.100 G. nem pode negar que eu também sou um fidalgo. levou-os por uma avenida ao longo da . disse. Possui uma completa guarda pessoal. que agora os conduzia como Buli os tinha conduzido em Londres. E a fim de pôr fora de dúvida a questão da minha posição social. Saltaram em terra debaixo de um solão que os deslumbrava. Eustache também é muito antiga. êle nos conhece e ficaria com a pulga atrás da orelha. está assim descrito: "em campo argentado um chaveirão goles lavrado com três cruzes recruzadas". menos a idéia de ficar em Calais enquanto o Czar passeia livremente em Paris.

e a cara ousada e trigueira. Dirigia-se para o ponto extremo da fileira de cafés. Com um gesto rápido impôs silêncio e apontou com um dedo enluvado para uma mesa. Eustache. . caminhava com alguma arrogância e floreava a bengala como se ela fosse uma espada. mas deteve-se repentinamente. destacando-se contra o mar violáceo. sombreada por um chapéu de palhinha amarelo. com os dentes cintilando por entre a espessa barba negra. abrigada embaixo de florida ramagem. Como ia na frente dos outros. até chegar a uns cafés escondidos na folhagem densa de um caramanchão e fronteiros ao mar. onde se sentava o Marquês de St.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 101 praia.

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suponho".CAPITULO X O DUELO Syme sentou-se com seus companheiros a uma das mesas do café. Que é que você vai fazer realmente? — Mas é um esplêndido catecismo. Digo-lhe: "O Marquês de Saint Eustache. compreende? disse Syme radiante. que diz. Buli. E acrescenta com finura e requinte: "Como passa?" E eu lhe respondo também com finura e requinte: "Oh! Passo e fico!" — Ora. Agrada-me ser justo com meu inimigo. cale-se! disse o homem dos óculos. Êle me diz: "O célebre Mr. — Mas para que serve tudo isso? perguntou já exasperado Dr. Seus olhos azuis resplandeciam como o mar que se estirava lá embaixo. Deixem-me lê-lo. Syme. e rabiscava-o às pressas com um lápis. de modo que. Sua animação. cujas perguntas e respostas eram declamadas com extraordinária rapidez. Dava-lhe a forma de um catecismo. Quando o Marquês tiver dado a trigésima nona resposta. e algumas respostas do Marquês são maravilhosamente engenhosas. Com alegre impaciência pediu uma garrafa de Saumur. Tem apenas quarenta e três perguntas e respostas. . Antes de tirar o chapéu dele. — Aproximo-me.. meia hora depois. Tinha suas razões para encontrar-se num estado de curiosa hilaridade. sua conversa era uma torrente de incoerências. Aprume-se e jogue fora esse papel. creio eu". tiro o meu. Declarou estar fazendo um rascunho do diálogo que iria travar com o fatal Marquês. ia subindo à medida que o Saumur baixava na garrafa.. — Para levar-me a meu desafio. que já estava num ponto anormalmente alto. redargüiu Syme patético.

Nunca pensei nisso. por São Jorge! E ergueu-se incontinenti. .104 G. CHESTERTON — Por acaso ainda não se lembrou. K. pensou Syme que a cara bronzeada de um tirano surgia entre os olivais verdes e umbrosos e o azul candente. O homem tinha agora dois companheiros: dois solenes franceses de sobretudo e cartola. Dirigiu o olhar para a mesinha onde estava o Marquês. fascinado. sob cuja melodia êle se preparara para morrer. Mas não era um rei cristão. que nos dias em que a escravidão era coisa natural contemplava no Mediterrâneo suas galés cheias de escravos lamuriantes. Era assim. Seus cabelos amarelos flutuavam na brisa suave que vinha do mar. — Vai pedir a palavra? perguntou impaciente o Professor. — Cabe-me apenas. Senhor. era. suponho que a única coisa que tal parte tem a fazer é pôr-se a representar todo o diálogo até onde lhe fôr possível. continuou Syme impassível. evidentemente. adotar outro método de quebrar o gelo (se me permitis a expressão) entre mim e o homem que desejo matar. o Marquês. Ao lado dessas vestes negras e cilíndricas. Syme deu uma palmada na mesa. Em verdade. antes. Uma vez que a direção de um diálogo não pode ser preestabelecida somente por uma das partes (como o haveis notado com tão recôndita agudeza). com sua elegância animal. podia-se dizer que êle era o rei. com seu chapéu de palhinha e suas leves roupas primaveris. tendes uma inteligência incomum. é verdade! exclamou. meio asiático. de que o Marquês pode deixar de dar as quarenta e três respostas que você lhe atribui? Nesse caso. — Oh. e uma mulher acabava de cantar. tocava uma banda. Num café chantant escondido entre as árvores. parecia boêmio e mesmo bárbaro. — Você está bêbedo como um gambá. de sólida posição social. um déspota trigueiro."um dos quais ostentava a roseta vermelha da Legião de Honra — pessoas. mas se parecia com o Marquês. Na cabeça esbraseada de Syme o estridor das fanfarras lembrava a desafinaçãodaquele realejo de Leicester Square. Alcançareis a fama. perguntou o Professor com grave simplicidade. de modo algum. entendo que os epigramas que você traz engatilhados contra êle poderão parecer mais do que forçados. vendo que Syme continuava de pé e não se movia. disse o médico. E é o que vou fazer. seus olhares escarninhos e sua cabeça erguida contra o purpúreo mar. meio grego.

olhando apreensivamente para o Marquês. Vou puxar o deformado nariz de mogno daquela reunião. Ao vê-lo. à guisa de explicação. — E o senhor é o Marquês de Saint Eustache. disse êle. Vou falar naquela reunião. mas o Marquês pulou para trás. — Eu não disse nada. De minha parte. — Foi uma alusão à minha família. ainda que incerto. — Insultou-o? gritou o cavalheiro da roseta vermelha. que toda a conversa de vocês estava simplesmente enredada de sinistras alusões à fraqueza de minha tia. Syme. aí é que está! E o que êle disse. — Asseguro-lhes. salvo qualquer coisa aí sobre a banda. derrubando a cadeira. — Mas como pode o Marquês ter insultado agora mesmo sua tia? perguntou o segundo cavalheiro com legítimo espanto.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 105 Syme sorveu o último copo de vinho espumoso e respondeu apontando para o Marquês e seus colegas: — Vou. — Isto é absurdo! Extraordinário! bradou o cavalheiro decore. — Bom. disse Syme com firmeza. E saiu num passo rápido. Ela me desagrada. Insultou minha mãe! — Insultou sua mãe! exclamou incrédulo o cavalheiro. Syme inclinou-se. Minha tia tocava Wagner pessimamente. disse Syme reconsiderando. o Marquês arqueou surpreso suas negras sobrancelhas assírias. — Isso não tem sentido! exclamou o segundo cavalheiro. Curvou-se para executá-lo. pelo menos insultou minha tia. Qualquer comentário era desagradável. Permita-me que lhe puxe o nariz. a única coisa que eu disse . Como.. disse Syme com atrevimento. enquanto os dois homens de cartola agarravam Syme pelos ombros. Quando? — Agora mesmo. redargüiu o Marquês. — O senhor é Mr. ? insinuou misteriosamente Syme. — Este homem me insultou! disse Syme. mas sorriu polidamente. disse Syme cortêsmente. suponho.. disse Syme com energia. durante meia hora. se êle esteve sentado aqui todo o tempo? — Ah. Sempre fomos insultados por isso. Tudo o que eu disse é que gostava de um Wagner bem executado.

Não há tempo para muita conversa. Talvez depois êle me mate. perto da estação. Tais acessos eram (como êle de- . um pouco pálido. K. não era de sua índole. CHESTERTON foi que gostava da maneira de cantar daquela moça de cabelos negros. escolherá um recanto à beira da estrada. sem dúvida. Estes senhores poderão ser meus padrinhos. aliás. maravilharam-se de seu semblante. Syme era sujeito a acessos de singular senso comum. Dê-me licença de consultar. que lhe tinham visto o cínico ataque e escutado as absurdas explicações. aqueles senhores em cujas mãos eu me colocarei. Ainda faltam quatro horas para o anoitecer. com apaixonado bom senso. quando voltou. o que. — Por São Jorge! disse Syme. em que o duelo se realize amanhã depois das sete. perde a hora do crime. Agora quero apresentá-los a uns encantadores amigos meus. por um momento. — Acabei. avançando rapidamente para os padrinhos do Marquês. sua atitude é digna de sua fama e de seu sangue. disse com voz rouca. apresentou-lhes seus amigos sob uns nomes aristocráticos que eles nunca tinham ouvido antes. e insistam com todas as forças. Só assim poderei impedir que êle tome às sete e quarenta e cinco o trem de Paris. Procura briga comigo! Deus do céu! Nunca houve ninguém que precisasse procurar tanto. Mas. E. Êle não pode deixar de concordar com vocês num ponto insignificante como esse de hora e local. Vocês são meus padrinhos e têm que aprontar tudo. — Lá vêm vocês de novo! disse Syme indignado. que você está simplesmente procurando um pretexto para insultar o Marquês. Se perde a hora do trem. para consolo de suas mágoas. Pois. Entenderam? Muito bem. Mas olhem aqui e ouçam bem. e estes. Syme estava lúcido. e falava baixinho. Precisam insistir. — Parece-me. Como você é inteligente! Os olhos do Marquês chamejaram como os de um tigre. Com três largas passadas reuniu-se a seus companheiros. voltando-se e encarando-o. — Insultar-me? gritou.106 G. É bom espadachim e confia em que me matará a tempo de pegar o trem. observou o outro. Batamo-nos esta tarde. Vou lutar com a bêstafera. Mas eu também entendo de esgrima e acho que posso distraí-lo até que o trem tenha passado. Syme fêz uma esquisita zumbaia e falou: — Marquês. Minha tia tinha cabelos vermelhos.

Induziu os padrinhos a escolherem uma campina perto da estrada de ferro. e sugeriu que o duelo terminasse pelo primeiro sangue. uma pequena amendoeira em flor. para quem ela era. esse cômico contraste entre a floração amarela e ós chapéus negros era apenas um símbolo do trágico contraste entre a floração amarela e o negro encargo. cujo nome parece que era Coronel Ducroix. não somente os padrinhos com a caixa das espadas. Mas. o chapéu de palhinha deitado para trás e a cara simpática a queimar-se ao sol. Agora havia calculado corretamente a política de seu antagonista. e Syme ficou vagamente surpreso de ver tantas flores primaveris esparzindo ouro e prata pelo capinzal em que toda a comitiva estava mergulhada até aos joelhos. Quem o visse chegar tão despreocupado ao campo de honra não adivinharia que êle tinha pressa de viajar. e se encomendou à fatalidade do primeiro assalto. aproximou-se com grande polidez do Professor e do Dr.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 107 nominou seu pressentimento no caso dos óculos) intuições poéticas que. destacava-se. se sublimavam em profecias. às vezes. meta e fuga. defendia do Marquês. como uma nuvem colorida. Não podendo confessar a seus amigos os motivos de sua oposição. marchetado de flores silvestres. acima do sinistro grupo de seus adversários. de fato. O membro da Legião de Honra. Não escapou a Syme o cômico contraste entre á fúnebre procissão e o prado vivo e reluzente. . À sua frente. ao mesmo tempo. compreendeu que se erguia inesperadamente um obstáculo para seus explosivos afazeres na capital. Embora fosse ainda muito cedo. por assim dizer. Com exceção do Marquês. à esquerda. Quando o Marquês foi informado por seus padrinhos que Syme só poderia combater na manhã seguinte. mais longe. a curva alongada da estrada de ferro. todos usavam roupas sombrias e solenes e chapéus semelhantes a negras tampas de chaminés. contra a indefinível linha do mar. trazia as mãos nos bolsos. o sol impregnava de calor todas as coisas. parecia um agente funerário numa comédia. que êle. Buli. especialmente o doutorzinho. com o acréscimo de suas funestas lunetas. mas ainda dois criados com uma maleta e uma cesta de comida. aceitou o plano que Syme arquitetara. Viu à direita um bosquezinhò e. Mas atiçaria a curiosidade de um estranho a particularidade de aparecerem em seu séquito.

pela continuação até o ponto em que um dos combatentes fosse inutilizado. . Rememorou-os claramente e por ordem. que a agarrou sem cerimônia. K. Ofereceu uma ao Marquês. dobrou e sopesou tão detidamente quanto lhe permitiu a dignidade. Mas viu que esses medos . Ambos os combatentes haviam despido seus casacos e coletes e empunhado as espadas. cujo rosto enegrecera de repente. — Para um homem como Monsieur de St. e nosso afilhado tem fortes razões para exigir o mais disputado encontro. Os contendores cumprimentaram-se. deve ser indiferente o método que se abrace. Syme compreendeu-lhe a rude impaciência. e com uma cutilada decapitou uma flor. tomando uma para si e dando outra ao Dr. disse solenemente o Professor. Aquele era o medo tradicional de que um milagre acontecesse. Paremos de falar e comecemos. como simples traições dos nervos: o medo ao Professor fora o medo aos caprichos tirânicos de um pesadelo. O Coronel disse calmamente: — "Em guarda!". transmudaram-se em duas listras de alva chama. este era o medo moderno. insistiu. mas conservaram seus sombrios e escuros agasalhos. de bravura e destreza notórias. o Coronel sacou outro par e. CHESTERTON Entretanto. de que nenhum milagre pudesse jamais acontecer. razões cuja delicadeza me proíbe de ser explícito. e instintivamente olhou por cima do ombro para-saber se o trem vinha chegando. de onde sacou um par de espadas que. mas de cuja probidade e retidão eu posso. Syme estava decidido a não inutilizar o Marquês e impedir o Marquês de inutilizá-lo. e outra a Syme. todos os fantásticos temores que têm sido o assunto desta história abandonaram Syme como os sonhos abandonam o homem que desperta. procedeu à colocação dos homens. Por seu turno. — Peste! bradou por trás deles o Marquês. os padrinhos ladearam o campo da luta e desembainharam suas espadas. Buli. Mas não havia fumaça no horizonte. mais desesperançado. ao sol. Em seguida. com subida dignidade e num péssimo francês. Dr. ao menos pelo espaço de vinte minutos. Quando o repenique das lâminas entrechocadas repercutiu em seu braço. O Coronel Ducroix ajoelhou-se e abriu a caixa. Buli fora o medo ao vazio irrespirável da ciência. Eustache. que a recebeu. e as duas espadas tocaram-se e tiniram. Buli..108 O. meticulosamente industriado por Syme na política a ser adotada. e o medo ao Dr. Em vinte minutos o trem de Paris teria ido embora.

e uma ou duas vezes supôs até que tocara o antagonista. esgueirou um olhar para a via férrea. compreendeu que seu antagonista era um terrível contendor e que provavelmente o último instante de sua vida tinha chegado. Sentiu que tudo quanto havia sobre a terra. que nem sequer pestanejava. com seu grosseiro e impiedoso senso comum. davam com a amendoeira na linha do horizonte. Mas. do céu e de todo o universo. e sentira as duas línguas de aço se tocarem e vibrarem como dois seres vivos. Sentiu-se como um homem que passa uma noite inteira sonhando que vai cair num precipício e acorda na manhã em que vai ser enforcado. Pois tão depressa vira um raio de sol escorregar na goteira da lâmina escorçada do adversário. enquanto uma parte de seu espírito se embevecia na contemplação da terra. sem desejar nada mais do mundo. Syme não teve ocasião de olhar para a via férrea. mesmo a grama debaixo de seus pés. deixando um tênue filete de sangue. E toda a vez que seus olhos se desviavam.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 109 eram puras fantasias. a outra parte. . que tinha a beleza viva de uma coisa perdida. A descomedida loucura batalhante do Marqujls não tinha outro impulso que a avizinhação do trem de Paris. novas flores estavam nascendo e desabrochando — flores encarnadas e amarelas e azuis que rematavam a magnificência da primavera. mas isso ou não foi notado ou foi tàcitamente ignorado. Sentiu o amor pela vida em todas as coisas. Uma dessas estocadas lhe arranhou o pulso. fixos e hipnóticos do Marquês. volveu para Syme um rosto endemoninhado e começou a combater como se possuísse vinte espadas. da qual êle não se julgava capaz. o Marquês. Depois. mas como não havia sangue na folha nem na camisa presumiu que se equivocara. Disse consigo que. estaria pronto a sentar-se para sempre diante daquela amendoeira. transparente como vidro. por um segundo. Com risco de perder tudo. porque se achava em presença do fato irremediável do medo à morte. Chegou até a imaginar que escutava o crescimento da erva. mas isso não lhe era necessário. Logo depois o combate foi suspenso e houve troca de posições. O assalto sobreveio tão rápido e furioso que aquela espada resplendente pareceu uma chuvarada de setas flamejantes. chegou até a pensar que. se por um milagre escapasse. parava as estocadas do inimigo com uma precisão cronométrica. tinha um estranho e intenso valor. dos olhos frios. enquanto êle ali se achava. Espaço em espaço êle ripostava. à sua direita.

Em duas paradas Syme tirou da liça a ponta de seu contendor e. os honestos marujos encharcados de cerveja à beira do cais. com o cabeça em fogo. o Marquês olhava de contínuo para a via férrea. a moça dos cabelos vermelhos no jardim. O Professor não passara de um duende. Houve um instante de rígido silêncio. mas agora mostrava-se perturbado e perdia terreno. Mas não houve talho. Um minuto e meio mais tarde sentiu a ponta de sua espada penetrar no pescoço do homem. K. como se tivesse mais medo do trem que do aço pontiagudo. deveras.110 G. cheio de ardente curiosidade. como o admitira Syme desde o princípio. Com este propósito visava mais a gorja e a cabeça do que mesmo o corpo do Marquês. . o Marquês saltou para trás sem desaprumar. Syme se batia denodada mas cautelosamente. Sem dúvida o homem tinha o corpo fechado. disse para si mesmo. O Marquês era. Quase fora de si. Mas a lâmina saiu limpa. não teve dúvida de que o tinha tocado. Com este pensamento Syme se reanimou. Recordou todas as coisas terrenas de sua aventura: as lanternas chinesas de Saffron Park. que deveria produzir um talho sangrento na face do Marquês. e Syme. Por um instante o céu de Syme voltou a escurecer-se com terrores sobrenaturais. Em verdade. Syme estava tão certo de haver enfiado sua lâmina no inimigo como o está o jardineiro que enfia no chão sua pá. ripostou tão àgilmente que. Por seu turno. enquanto que este homem era um demônio — talvez fosse o Demônio! Em todo caso. fitou a ponta de sua espada. "No fim de contas". onde não descobriu a menor gota de sangue. acertou nova estocada. findo o qual Syme caiu sobre o outro enfurecidamente. de uma coisa estava certo: três vezes uma espada terrena o tinha ferido e não o marcara. na terceira. "sou mais do que um demônio. desta feita. Este novo temor espiritual era bem mais terrível que a simples barafunda espiritual simbolizada na perseguição que lhe movera o paralítico. ávido por decifrar o enigma da inexistência de sangue em sua própria espada. CHESTERTON Mas a endiabrada energia do Marquês era ilimitada. e tudo quanto nele havia de bom cantou no ar como o vento canta nas árvores. Desatento e um tanto lerdo. os leais companheiros que estavam ali a seu lado. debaixo da mandíbula. a espada se lhe dobrou ao peso do corpo do atingido Marquês. idiotizado. Nada obstante. melhor espadachim. Talvez tivesse sido eleito paladino de todas essas coisas simples e generosas para terçar espadas com o inimigo de toda a criação.

Houve irregularidade? — Não deixou de haver. associava-se à vibração e à glória da grande República. Inopinadamente. Posso fazer uma coisa que o próprio Satã não pode: posso morrer". estamos lutando porque o senhor exprimiu o desejo (que reputei irracional) de puxar-me o nariz. Ao que me consta. — De que se trata? perguntou pasmado o Coronel Ducroix. Mr. É muito importante. Por favor. Quero dizer uma coisa. Buli indignado. Nosso afilhado feriu o Marquês pelo menos umas quatro vezes. — O Marquês ergueu a mão. num salto para trás. em breve. virando-se para seu oponente. segundos antes. E seus pensamentos se engrandeciam ao elevar-se o rugido do trem. — De fato isso vai de encontro à praxe. registra-se apenas um caso (Capitão Bellegarde e Barão Zumpt) em que as armas foram trocadas no meio da justa. Mr. — O senhor quer ou não quer puxar meu nariz? perguntou exasperado o Marquês. Pode agora fazer-me o obséquio de puxar meu nariz o mais depressa possível? Preciso pegar o trem. principalmente porque. êle ouviu um assobio longínquo e abafado que. deixem-me falar. êle julgava estar vendo o povo erigir arcos florais em Paris. disse um tanto pálido o Dr. cujas portas êle estava protegendo contra o Inferno. — Protesto! Isso é inteiramente irregular! exclamou o Dr. e quando estas palavras cruzaram sua mente.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 111 sou um homem. continuou. Syme o atingira em cheio na coxa. Syme. a pedido de um dos combatentes. Entregou-se outra vez à luta com a sobrenatural ligeireza de um maometano que anela o Paraíso. se transformaria no rugido do trem de Paris. se bem me lembro. disse. Buli. O salto foi prodigioso. o Marquês. para espanto dos presentes. O trem estacou. e êle continua ileso. e sua voz exigia instantânea obediência. À medida que o trem se aproximava. escapou do poder do adversário e lançou ao chão a espada. anuiu o Coronel Ducroix. Syme! O senhor não queria fazê-lo? Pois faça-o! O senhor nem imagina como isso . Mas não se pode dizer que um nariz seja uma arma. que terminou orgulhosamente por um silvo prolongado e penetrante. — Pára! bradou o Marquês. olhando severamente para o Marquês. — Por favor. num curioso gesto de reprimida impaciência.

não seja tão egoísta! Suplico-lhe que puxe meu nariz imediatamente. Buli. O misterioso Marquês levantou os braços num gesto de desespero. aqui está ela. Ali. O trem. sei. Coronel Ducroix. O Marquês rompeu chistosamente o silêncio.. O trem de Paris. deu dois passos para a frente e puxou o nariz romano de seu renomado fidalgo. com uma metade da cara descomposta e a outra metade reluzente e arreganhada. Por alguns segundos ficou solenemente atarantado. disse Syme com firmeza. Puxou-o com força. rangia numa estaçãozinha situada atrás de um outeiro próximo. que. disse ameaçadoramente Dr. mas vai sair. . balbuciou o Coronel. Vamos. disse o Marquês. K. que estava assistindo um poltrão que se enchumaça para lutar. e cortêsmente ofereceu-a ao Coronel.112 G. queira aceitar minha sobrancelha esquerda. — Se alguém se interessa por minha sobrancelha esquerda. E sai sem você. e inclinou-se de leve para a frente com um sorriso fascinante. Movendo-se num mundo incompreensível. destapando assim cerca de metade de sua testa morena. É o tipo da coisa que poderá ser-lhe útil um dia. enquanto o sol e as nuvens e as colinas arborizadas assistiam a este ridículo espetáculo. — Sei. Entrou. e gravemente arrancou uma de suas castanhas sobrancelhas assírias. O trem entrou na estação! — Entrou. atirando estouvadamente para um e outro lado do campo vários pedaços de si mesmo. em pleno sol. e o nariz veio em sua mão. Sabemos muito bem que obra diabólica. . — Você não irá nesse trem. Você está muito enganado. segurando entre os dedos aquela venta de papelão. A estrambótica figura virou-se para Syme e pareceu reunir suas forças antes de falar. C H E S T E R T O N é importante para mim. mas não posso dar explicações agora.. empunhando a espada. arfando e silvando. de pé.. de raiva. contemplando-a. . — Querem levar-me à loucura? perguntou. êle era um disparatado estafermo. ruborizou-se e perdeu a fala.. Uma vez mais Syme foi invadido por uma sensação a que já se habituara no decurso destas aventuras: a sensação de que um sublime e tenebroso vagalhão se elevara até ao céu e acabava de despencar-se. — Se eu tivesse sabido.

disse com uma pressa que raiava na aspereza. mas o rosto era incrivelmente pálido. Deus do céu! êle já me apanhou.Pensavam realmente que eu queria apanhar esse trem? Por mim. respondeu desabridamente o Professor. mas estou vendo que agora. — Chamas infernais! bramiu o outro. — Não irá nesse trem. Agora nós estamos à mercê de Domingo. imbecil! esbravejou sem tomar fôlego. cabeça típica do policial inglês. pelintra. — Lamento dizer-lhe. Meu nome é muito conhecido na polícia. velhaco. idiota. excomungado. e o fim de tudo. Que quer dizer esse "nós"? — A polícia. e arrancou o couro da cabeça e metade da cara.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 113 — Você. Porque deveria eu ir nesse trem? — Sabemos porque. seu porcalhão. — Nós? repetiu estupefato o Professor. disse Syme dominando-se.. suas intenções ficassem mais evidentes. mas pressinto que isso deve significar alguma coisa. se você removesse os restos de sua antiga testa e os poucos vestígios de seu queixo. disse o outro.. Mas por via das dúvidas trago comigo um cartão. Estarão vocês todos amofinados que não possam descobrir o que sou?. Que vem a ser essa história do trem? Por que você disse que êle o apanhou? Pode ser pura invenção literária de minha parte. repetiu Syme. e vejo perfeitamente que vocês pertencem a ela. O Professor fêz um gesto de enfado. e começou a tirar do bolso um cartão azul. covarde. pulha. naturalmente! exclamou o Marquês. Desse seu nós já temos um naipe quase completo. Talvez. disse enfastiado. trapalhão. podiam sair vinte trens de Paris! Danem-se os trens de Paris! — Então o que é que você quer? inquiriu o Professor. . estúpido. que sua lábia não me impressiona. A lucidez mental se realiza de muitas maneiras. de cabelos lisos e bem penteados. — Sou o Inspetor Ratcliffe. — O que eu quero? O que eu não quero é apanhar esse trem. Você vai a Paris para lançar uma bomba! — E por que não a Jerico? rugiu o outro arrancando a cabeleira que se despegou facilmente. Mentecapto. — Significa tudo. — Oh! Não precisa mostrar-nos. A cabeça que surgiu era loura. o que eu queria era que o trem não me apanhasse. palhaço! Você.

eu irei com eles até o fim. CHESTERTON O homenzinho chamado Buli. O espetáculo proporcionado por um distinto concidadão de nossas relações. de uma brincadeira de mau gosto. êle adiantou-se com toda a gravidade e responsabilidade de um padrinho e dirigiu-se aos dois padrinhos do Marquês. em guerra com uma vasta conspiração. como dizem que estão. uma igreja de pessimismo oriental. ajudaram a salvar o mundo. Sem dúvida foi quem salvou a situação. como outros homens que parecem não ir além de uma vivacidade puramente vulgar. levados pela miséria ou por alguma filosofia alemã. O mais jovem padrinho do Marquês. Podem inferir a sanha com que eles nos perseguem do fato de sermos obrigados a tais disfarces. como essas que os senhores aturaram. seria um pusilânime se não combatesse pela civilização. que se fragmenta ao ar livre. Buli tirou o chapéu e agitou-o no ar. que tem por dogma destruir a humanidade como um inseto. poderosa e fanática. inclinou-se polidamente e disse: — Aceito de bom grado as desculpas. como se estivesse num comício. não desejo interferir nos seus atos. um sujeitinho baixo de bigodes pretos. K.114 G. Uma sociedade secreta de anarquistas caça-nos como se fôssemos lebres. e a tais travessuras. Dr. O Coronel Ducroix virou-se mecanicamente. por São Jorge! Se esses senhores estão efetivamente embrulhados com uma caterva de assassinos. nós lhes devemos uma explicação satisfatória. dando brados aclamatórios. suficiente para um só dia. Não somos truões mas homens desesperados. Já combati pela França. Coronel Ducroix. . mas asseguro-lhes que não foram vítimas. — Senhores. No meio dessa duvidosa cena de transformação. convido-o a voltar comigo para a cidade. como esses de que lhes peço desculpas. é inusitado e. Não perderam o tempo. mas os senhores hão de permitir que eu decline de acompanhá-los mais adiante em suas dificuldades e me despeça aqui mesmo. revidou: — Não. como estão imaginando. se o senhor está de acordo em que nossa presente situação é um tanto anômala. saiuse com uns inesperados expedientes de bom gosto. depois de cofiar um momento o bigode branco. nem de nada indigno de um homem honrado. acima de tudo. Não se trata desses infelizes loucos que atiram aqui e ali uma bomba. mas de uma igreja rica. mas. mas.

. perseguíamo-nos uns aos outros. sim. de fato. Porque. — Agora. capturou todos os telégrafos. como um bando de meninos brincando de cabra-cega.. Por Deus! Se isso é verdadeiro.O HOMEM QUE FQL QUINTA-FEIRA 115 — Não faça tanto barulho. respondeu o Inspetor. os cinco idiotas. e todas as nossas idiotices faziam parte de seus planos. Domingo pode ouvi-lo. — Que outros? perguntou Syme. somente. Mas. só lhe resta capturar este campo e os imbecis que aqui estão. Havia. toda a cambada do Conselho Anarquista estava contra a Anarquia. nós. Todo mundo ali era detetive. Significa que estamos perdidos. Provavelmente capturou o mundo. Que é que isso significa? ""^ Que significa? repetiu o novo policial com incrível violência. — Os que desceram do trem. agora êle nos encontrou brincando de cabra-cega num campo de grande beleza rústica e de absoluta solidão. Não somos mais que uns idiotas. — Domingo. Deus meu! gritou de chôfre como quem vê uma explosão distante. às tontas. Domingo sabia que o Professor perseguiria Syme através de Londres e que Syme se bateria comigo na França. e meio mundo estava disposto a lutar por êle. . — Domingo! exclamou Buli. redargüiu o outro com súbita serenidade. especialmente desta linha! e apontou um dedo trêmulo para o lado da estação. Você não conhece Domingo? Não sabe que seus gracejos são sempre tão graves e simples que ninguém os pode prever? Você pode imaginar uma coisa mais característica de Domingo que esta sutileza de colocar seus mais ferrenhos adversários no Supremo Conselho e depois providenciar para que esse Conselho não seja supremo? Asseguro-lhes que êle comprou todos os monopólios.. exceto o Presidente e seu secretário particular. E enquanto êle estava juntando grandes somas de dinheiro e se apoderava das grandes linhas telegráficas. — O que você diz parece extremamente desconcertante. — E agora? perguntou Syme um tanto impassível. Todos os movimentos caíram sob seu controle. recomendou-lhe o Inspetor Ratcliffe. apoderou-se de todas as linhas de estrada de ferro. deixando cair o chapéu. cinco ípassoas que ofereceriam resistência. Êle pode estar com os outros. começou Syme. Já que vocês querem realmente saber qual era . exclamou Ratcliffe. e o velho Demônio colocou-as no Supremo Conselho para que elas perdessem o tempo vigiando-se mutuamente.

CHESTERTON minha cisma com a chegada desse trem. Ou o Presidente ou o Secretário vem em nosso encalço no meio daquela turba. onde não podemos cair na tentação de quebrar nossos juramentos chamando a polícia. A avançadora multidão compunha-se. perguntou Buli. — Não há de ser terrível como você diz. Syme admitiu a impossibilidade de identificar os loquazes possuidores daquelas mandíbulas escanhoadas. suspeito que você enxergará muito melhor através dos meus que através desses seus óculos sumamente decorativos. aventou o Professor. em sua maioria. Mas vinha ainda muito distante e estava mal definida. pôde notar o sorriso torto de um deles. Entregou o binóculo a Dr. . mas é possível que se trate de simples turistas. Este disfarce é perfeito. usam máscaras negras? Syme arrancou violentamente o binóculo da mão do médico e se pôs a observar. Mas era evidente também que dois ou três dos que vinham à frente usavam meias máscaras negras quase até à boca. mas. Fomos agarrados num recanto aprazível e quieto. especialmente à distância. eu direi. como todos conversavam e sorriam. K. . — Mas simples turistas. — Era um hábito do extinto Marquês de St. Dr. Minha cisma era que Domingo ou o Secretário desembarcasse agora mesmo.116 G. de homens de aparência normal. um pouco abalado. Não resta d. Syme proferiu um brado involuntário. disse o novo polícia exibindo um estôjo de couro. e todos volveram os olhos para a estação. que imediatamente tirou suas lunetas e colocou o aparelho nos olhos. Buli. Eustache. andar sempre com um binóculo. Buli.úvida que vem muita gente. com o binóculo nos olhos. Era inegável que uma grande multidão parecia dirigir-se para o sítio em que eles estavam.

CAPITULO XI OS CRIMINOSOS ACOSSAM A POLICIA Syme afastou dos olhos o binóculo. — Mas o certo é que estão muito longe.. Deus do céu! creio que este chão sofreria abalos. — De qualquer modo o Presidente não está entre eles. afirmou enquanto enxugava a testa. E prouvera aos Gêmeos que estivesse! É muito mais provável estar desfilando triunfalmente em Paris. disse desdenhosamente o novo detetive.. Na verdade é como você diz: estão muito longe. examinando dubitativamente o prado distante nas cercanias da estação. meu caro. é inegável que uma multidão parece vir ao nosso encontro. não é uma força muito temível. £ indiscutível. tendo em vista a nossa importância. Após uma pequena pausa. disse pestanejando o desnorteado Coronel. o novato chamado Ratcliffe disse com lúgubre propósito: — Com certeza o Presidente não está entre eles. não. — Oh. não somos numerosos no uni- . e nós. Mas permita que eu fale com franqueza: ela foi calculada matematicamente. Acha que é possível reconhecer o seu Presidente no meio de todo aquele povo? — Não poderia eu reconhecer um elefante branco no meio de todo aquele povo!?! respondeu Syme com uma ponta de irritação. ainda não refeito das apressadas embora polidas explicações de Buli. mas êle não pode ter capturado o mundo com tamanha rapidez. — Isso é absurdo! exclamou Syme. ou sentado sobre as ruínas da Catedral de São Paulo. mas ela não é esse exército que você imagina. acrescentou. de sobrolho franzido. com alívio quase sombrio. Mas se êle viesse caminhando com eles. Algo pode ter acontecido em nossa ausência.

Agora que êle se apoderou de todos os cabos submarinos e de todos os telégrafos. deu-lhes as amplas costas e. aconselho-o fervorosamente a tomar meu exemplo. mesmo a olho nu. o bosque se povoava de réstias despedaçadas e sombras inquietas. encaminhou-se a passos largos para o bosque. obliterando o resto do corpo. Syme mal podia distinguir as sólidas figuras que andavam a seu lado sob os dançantes feixes de luz e sombra. O ex-Marquês puxara o velho chapéu de palhinha para cima dos olhos. era seco e quente. o qual já se internara no bosque e desaparecera entre as árvores farfalhantes. a uma simples olhadela. acompanhadas de uma cabeça de negro. A fantasia coloriu o opressivo pasmo de Syme. como botar um cartão no correio. uma vez intumescidos na claridade. no relvado. onde os semblantes dos homens se tornavam alternadamente pretos e brancos. Estaria de máscara o Marquês? Haveria mesmo alguém de máscara? Existiria mesmo alguém? Este bosque enfeitiçado. os óculos e os narizes e tomavam ou- . numa silenciosa determinação. que formavam uma espécie de trêmulo véu. mas se alguém tem qualquer preferência pela outra alternativa. o extermínio do Conselho Supremo lhe parece uma trivialidade.118 G. Num instante uma cabeça se iluminava à maneira de Rembrandt. Com estas palavras. e a sombra negra da aba dividia-lhe o rosto em duas metades tão perfeitas que êle parecia trazer uma das negras meias máscaras dos seus perseguidores. CHESTERTON verso de Domingo. evocativo da trepidação do cinematógrafo. um mundo em que os homens largavam as barbas. voltou-se para os outros e disse com certa austeridade: — Há muito que dizer em louvor da morte. Assim. Em seguida. ao se lançarem no bosque. os borrões pretos que marcavam as máscaras usadas pelas caras da frente. fortes e vibráteis. Já divisavam. K. como mergulhadores que se lançam numa piscina sombreada. cuspindo na relva. notaram que a escura nuvem humana se apartara da estação e se deslocava com misteriosa disciplina através da planície. Deram meia volta e seguiram o chefe. concluiu o Inspetor. É tarefa para seu secretário particular. onde seus corpos. no instante seguinte surgiam alvas mãos. O sol. Os outros. No interior. este simples caos do claro-escuro (depois da límpida manhã campesina) afigurou-se-lhe um símbolo perfeito do mundo em que vivia há três dias. sentiram o contato refrescante da sombra. sumiam na noite informe.

estava quase inclinado a perguntar o que era um amigo e o que era um inimigo. nem todos os trabalhadores são anarquistas. mas anarquistas. — A que vem tudo isso? berrou Syme. Por quê? Os pobres foram rebeldes. Está contaminado por uma idéia eterna e idiota: se a anarquia vier. se esforça por gritar e despertar. que é outro nome para o cepticismo definitivo. Numa voz exageradamente alta e galhofeira. que sentira quando acreditara que o Marquês era um demônio. Porque Gabriel Syme havia encontrado no coração deste bosque sarapintado de sol o que muitos pintores modernos aí haviam encontrado. — Posso perguntar-lhe para que fim-de-mundo nos dirigimos? Tão autênticos tinham sido os temores de sua alma que êle se rejubilou ao ouvir a entonação tranqüila e humana de seu companheiro. Depois de todas essas perplexidades. o homem a quem devia chamar de Ratcliffe.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 119 tras aparências. simples multidões não poderiam vencer os modernos exércitos e a polícia! — Simples multidões! repetiu seu novo amigo com um bufo de desprezo. rompeu o insondável silêncio e puxou conversa. Como aquele que. virá dos pobres. Não poderia do mesmo modo arrancar a cabeça e transformar-se num espectro? Tudo não se assemelhava. Você fala de multidões e classes operárias como se elas fossem o nó da questão. agora que êle sabia que o Marquês era um amigo. incapaz de justificar o universo. A meu ver é pouco provável que esta região esteja do lado deles. a esta dança de treva e luz? Tudo não passava de um fugaz resplendor. o resplendor sempre imprevisto e sempre esquecido. Decerto. Haveria alguma coisa que subsistisse fora das aparências? O Marquês arrancara o nariz e se transformara num detetive. passando pela cidade de Lancy. Aquela trágica confiança em si mesmo. no meio de um pesadelo. a este bosque de logros. havia desaparecido estranhamente. Eles não podem ter conquistado todo o mundo dessa forma. de resto. Encontrara aquilo que os modernos chamam Impressionismo. nunca! . e mesmo que fossem. Com duas impacientes pernadas alcançou o homem que usava o chapéu de palhinha do Marquês. — Temos que alcançar o mar. Syme lutava por desvencilhar-se desta última e mais execrável de todas as suas fantasias.

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Mais do que os outros, têm interesse em que haja um governo decente. O pobre realmente se enraíza em sua terra. O rico, não; pode embarcar num iate para Nova Guiné. Algumas vezes os pobres se opuseram aos maus governos; os ricos sempre se opuseram a qualquer governo. Os aristocratas foram sempre anarquistas. Basta recordar as guerras dos barões. — Como preleção sobre história inglesa para meninos, está excelente, disse Syme, mas ainda não encontrei sua aplicação. — Já vai encontrá-la, retorquiu o preletor. Quase todos os braços-direitos de Domingo são milionários americanos e sulafricanos. Por isso é que êle se apossou de todas as comunicações, e é por isso que os quatro campeões restantes da força policial antianarquista estão fugindo através de um bosque como se fossem coelhos. — O que você diz dos milionários eu compreendo, disse Syme pensativo. São loucos quase todos. Mas subjugar uns poucos velhos maníacos e depravados é uma coisa; subjugar grandes nações cristãs é outra. Sou capaz de apostar meu nariz (perdoe a alusão) que Domingo ficaria completamente desamparado ante a tarefa de converter qualquer pessoa normal por aí a fora. — Bem, isso depende da pessoa, disse o outro. — Por exemplo, jamais chegaríamos a converter essa daí, disse Syme apontando para a sua frente. Entraram num espaço descoberto e ensolarado, que aos olhos de Syme representava o retorno do bom senso. E no meio da clareira havia um homem que bem poderia, com absoluta propriedade, encarnar o senso comum. Queimado de sol e sujo de suor, e grave, imbuído daquela profunda gravidade inerente aos singelos trabalhos cotidianos, um rude aldeão francês cortava lenha com uma machadinha. Algumas jardas adiante jazia sua carroça, quase cheia de toros; e o cavalo que comia o capim era, como o dono, valoroso sem ser violento e, como o dono, altaneiro ainda que quase triste. O homem era normando, mais alto do que a média dos franceses e muito anguloso. Sua figura morena recortava-se na quadra ensolarada como uma alegoria do trabalho pintada a fresco sobre um fundo de ouro. — Mr. Syme está dizendo, gritou Ratcliffe para o Coronel francês, que esse homem, pelo menos, nunca será um anarquista.

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— Mr. Syme tem toda razão, respondeu o Coronel Ducroix. Quando nada, pelo simples motivo de ter êle uma boa propriedade a defender. Mas esqueci que na pátria de vocês camponeses não costumam ser ricos. — Esse parece pobre, advertiu Dr. Buli suspeitoso. — Isso mesmo, disse o Coronel. E por isso é que êle é rico. — Tenho um idéia, bradou Dr. Buli de chôfre. Quanto êle cobraria para arranjar-nos um lugar em sua carroça? Aqueles cães vêm a pé, e logo os deixaríamos para trás. — Ofereça-lhe o que quiser! disse pressuroso Syme. Tenho dinheiro à bessa. — Não é assim que se faz, explicou o Coronel. Êle nunca lhe terá nenhum respeito se você não quiser justar. — Mas se êle regatear? começou Buli impaciente. — Regateia porque é um homem livre, redargüiu o outro. Vocês não entendem. Êle não perceberia o sentido da generosidade. Não é de receber gorjetas. E mesmo quando supunham escutar atrás de si as passadas surdas de seus desconhecidos perseguidores, tiveram que demorar-se, mortos de sofreguidão, enquanto o Coronel francês e o lenhador francês falavam com toda a pachorra e esperteza de um dia de feira. Ao fim de quatro minutos, porém, viram que o Coronel tinha razão, pois o lenhador acatara a proposta, não com o vago servilismo do biscateiro bem pago, mas com a seriedade de um procurador que recebeu os honorários justos. Disse-lhes que a melhor coisa a fazer era tomarem o rumo de uma pousada situada nas colinas de Lancy, onde o hospedeiro, antigo soldado convertido em dévot na velhice, decerto simpatizaria com eles e talvez assumisse o risco de ajudá-los. Toda a comitiva então apinhou-se em cima das pilhas de lenha e, ao balanço da rude carroça, dirigiu-se para a outra banda mais alcantilada do bosque. Embora pesado e desconchavado, o veículo ganhara bastante velocidade, e pouco depois tiveram a confortadora impressão do afastamento daqueles, quem quer que fossem, que os perseguiam. Porque, no fim de contas, descobrir onde os anarquistas haviam arregimentado tantos sequazes era um enigma ainda indecifrado. A presença de um único homem era suficiente; eles tinham abalado à vista do sorriso deformado do Secretário. De quando em quando Syme olhava de esguelha para o exército que vinha em suas pegadas.

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À medida que o bosque se rarefazia e estreitava com a distância, Syme descortinava as encostas resplendentes, por onde a quadrada e negra matilha marchava feito um monstruoso escaravelho. Na vivíssima claridade e com seus vivíssimos olhos, quase telescópicos, divisava perfeitamente esses vultos longínquos. Via-os como figuras humanas individualizadas; mas reparava, com surpresa cada vez maior, que eles se moviam como um só homem. Pareciam usar roupas escuras e chapéus comuns, como quaisquer pessoas da rua; mas não se espalhavam, nem se chocavam, nem se distribuíam em vários sentidos, como seria natural numa multidão ordinária. Moviam-se com a assustadora e maligna rigidez de um pau, como um horripilante exército de autômatos. Syme apontou-o a Ratcliffe. — É, sim, respondeu o detetive, isso é disciplina. É puro Domingo. Êle está talvez a quinhentas milhas daqui, mas infunde-lhes tanto temor quanto o dedo de Deus. Marcham uniformemente, e pode apostar suas botas que eles estão falando uniformemente e pensando uniformemente. Mas o que é importante para nós é que eles estão desaparecendo com a mesma uniformidade. Syme concordou. Era verdade que a negra mascarada que os perseguia, pouco a pouco definhava, à proporção que o camponês chicoteava o cavalo. O nível da paisagem clara, ainda que quase todo plano, descambava nos confins do bosque em ondas de lento declive que se perdiam no mar, à semelhança dos mais baixos declives das dunas de Sussex. A única diferença era que em Sussex o caminho deveria ser fragmentado e tortuoso como um regato, enquanto aqui a branca estrada francesa despencava-se diante deles como uma catarata. No fim da primeira rampa, a carroça estalou ao fazer uma curva fechada, e em alguns minutos, com a estrada ainda mais escarpada, contemplaram a seus pés o minúsculo porto de Lancy e o magnífico arco azul do mar. A nuvem viageira de seus inimigos desaparecera totalmente do horizonte. Cavalo e carroça impetuosamente rodearam um grupo de olmos, e o cavalo quase deu de focinho no rosto de um velho que estava sentado num dos bancos da calçada do café "Le Soleil d'Or". O aldeão grunhiu uma desculpa e apeou-se. Os outros também desmontaram e um a um saudaram o velho com

O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 123 meias frases de cortesia. Coronel. mas é muito mais comum na Alemanha católica. em que podemos alugar cavalos. Se vocês querem realmente distanciar-se de seus inimigos só têm uma saída: cavalos! A menos. disse seriamente Ducroix. A decisão de seu ato interessou Syme. naturalmente. — Pode explicar. que se sentou a seu lado e aproveitou o momento em que o velho estalajadeiro se ausentou. Depois perguntou de chôfre: — E sua outra razão de vir para cá? — Minha outra razão de vir para cá. Era um sujeito encanecido. Tudo quanto o cercava — seu cachimbo. por que viemos para cá? O Coronel Ducroix sorriu por trás da cerdosa bigodeira branca. — Cavalos! repetiu Syme. — Sim. o melhor que vocês têm a fazer é correr logo para a delegacia de polícia da cidade. Tenho para mim que o amigo que apadrinhei em circunstâncias um tanto equívocas exagera demais as possibilidades de um levante geral. não a mais importante mas a mais vantajosa. meu prezado senhor. . para satisfazer a própria curiosidade. disse êle. — Por duas razões. mas suponho que nem mesmo êle negaria que entre os gendarmes vocês estão em segurança. Viemos para cá porque este é o único lugar. com cara de maçã. O Coronel. Darei. seu caneco de cerveja. redargüiu o Coronel. num raio de vinte milhas. sentou-se e encomendou um refrigerante. Syme aprovou gravemente com a cabeça. perguntou em voz baixa. corpulento. é que é sempre prudente ver um ou dois homens honestos quando se está praticamente às portas da morte. — Fora de dúvida. que tragam nos bolsos bicicletas e automóveis. recobrando o ânimo. um tipo que se pode com freqüência encontrar na França. dentro da sala de visitas. que cumprimentou o estalajadeiro como um velho amigo. suas flores e sua colmeia — sugeria uma paz ancestral. — E você nos aconselha a seguir para onde? inquiriu Syme com alguma descrença. levantaram a vista depararam com a espada pendurada na parede. entrou apressadamente. somente quando seus hóspedes. sedentário e simplório. primeiro. olhos sonolentos e bigode pardo. replicou o outro. pois suas maneiras expansivas evidenciavam que êle era o proprietário da tasca.

respondeu Ducroix. enquanto o sol lhe banhava os cabelos prateados. cuja robusta figura ia diminuindo aos poucos. e acrescentou quase em seguida: Alguém foi providenciar os cavalos? — Foi. começava a declinar para o ocidente. K. C H E S T E R T O N Syme olhou para o alto da parede e descobriu um quadro religioso. ficaram bebendo no café. Através de seus raios. no alto.124 G. não contrariava os secretos desejos de ambos. os dois criados. Por unânime consentimento. Nunca pensei que os anarquistas tivessem tanta disciplina. os cinco outros se muniram de pequenas rações de comida e vinho e. O sol. nessa hora do dia.. mas na realidade se deslocavam com incrível rapidez. depositada em seu espírito pelo dito ocasional do Coronel: a de que esse era talvez o último homem honesto que contemplava na terra. mero borrão pardacento na vasta muralha verde da encosta. Vocês não podem perder um minuto. Syme entrevia o velho estalajadeiro. Fique certo de que dei ordens no momento em que entrei. o que. Syme sentia-se presa de uma fantasia persistente e supersticiosa. Nem bem acabara de falar quando o velho estalajadeiro dos olhos azuis e cabelos brancos ingressou cautelosamente na sala e anunciou que havia seis cavalos selados lá fora. — Tem razão. conservando suas espadas duelares como únicas armas disponíveis. que carregaram a bagagem do Marquês quando êle era marquês. Aqueles inimigos de vocês não davam a impressão de ter pressa. viu surgir em marcha um exército de homens vestidos de preto. A conselho de Ducroix. Continuava ainda atento para aquele vulto minguante. enfim. quando. embora continuasse em pé a segui-los mudamente com o olhar. parecendo um exército bem adestrado. Parecia pairar sobre o bom homem e sua casa como uma negra nuvem de gafanhotos. por trás do estalajadeiro. Em boa hora foram selados os cavalos! . de cores cruas e patéticas. afastaram-se ruidosamente pela estrada branca e alcantilada. disse. sim..

são trapaceiros vulgares. disse êle. porque eles vêm a pé. Renard está apenas a uns três minutos daqui. — Se cavalgarmos a toda brida. disse Syme. até que a massa dos primeiros edifícios de Lancy interceptou a visão dos seus perseguidores. em pouco tempo os cavaleiros retomaram a dianteira. Sujeito excelente! E o mais importante. disse o Professor com jovialidade. — Êle tem automóvel. Suponho que a proporção é razoavelmente igual à do resto do mundo. Quando chegaram à cidade. temo que não disponhamos de tempo para visitas vespertinas. antes de se dirigirem de vez para a delegacia de polícia. tentassem. disse Buli. poderemos deixá-los para trás. insistiu o Coronel. já o ocidente se inflamava das cores e da exuberância do crepúsculo. de passagem. do nosso ponto de vista. atrair as simpatias de mais um indivíduo que podia ser-lhes útil. — Êle está do lado de vocês.CAPITULO XII A TERRA EM ANARQUIA Incitando os cavalos ao galope e indiferentes ao áspero declive da estrada. — Mas pode não estar em casa. objetou Dr. espreitando a estrada branca por onde a negra e rastejante mascarada podia surgir de um momento parp outro. está a menos de dois minutos. O quinto é um amigo meu. . — Quatro. dos cinco ricaços deste burgo. — Mas não devemos contar com isso. — Temo. — A casa do Dr. fora um longo percurso. teimou o Coronel. Buli. Sem embargo. — Nossa desgraça. O Coronel sugeriu que. é que possui um automóvel.

não é. galopou para a esquina e enfiou pela rua com tão fulminante velocidade que os outros. Não é possível. onde é possível conseguir cavalos. todos os seus ouvidos. agoniados de atenção. incólume. como se um raio o tivesse tocado.classe profissional que a França soube preservar melhor que a Inglaterra. — Pegaram-nos. Depois falou constrangido: — Fui estritamente exato quando disse que o "Soleil d'Or" é o único lugar. com o sólido ceticismo francês. um bom representante dessa silenciosa mas ativa. disse com brandura o Coronel. enxergaram. — Não! bradou Syme violentamente. à sua porta. tiveram dificuldade em seguir a cauda voadora de seu cavalo. que já corriam à desfilada. Ao pronunciar estas palavras. que tem automóvel. com todos aqueles cabelos brancos! — Talvez tenha sido coagido. Não creio que êle o fizesse. Que barulho é Por um segundo todos ficaram tão imóveis como estátuas eqüestres. Quando foi inteirado do assunto. C H E S T E R T O N — Silêncio. Ao constatar que a estrada ainda estava deserta respiraram aliviados e tocaram a campainha. Renard habitava uma confortável mansão no alto de uma ladeira. a sólida crista verde da colina que se alteava acima de todos os telhados da cidade. de barbas castanhas. escutaram pela estrada aquela indescritível vibração que só significa uma coisa: cavalos! O rosto do Coronel transformou-se instantaneamente.126 esse? G. e por um segundo — por dois ou três ou quatro segundos — o céu e a terra pareceram igualmente imóveis. porém. ordenou Syme subitamente. Renard era um homem alegre. que não . nessas vinte milhas. Preparar para receber carga de cavalaria! — Onde é que terão conseguido os cavalos? perguntou Syme enquanto mecanicamente instigava o corcel a um meio galope. eles apearam dos cavalos. disse com breve ironia militar. Asseverou. Eles devem ser pelo menos uma força de cem homens. Depois. deixando-o. Quando. O Coronel guardou silêncio por um instante. galhofou do pânico do exMarquês. Dr. Dr. Essa é mais uma boa razão para procurarmos o meu amigo Renard. varada pela estrada branca. K.

embora avançasse com rapidez cada vez maior. sorrindo afàvelmente. ressaía em sua figura algo tão fantástico e tão inconfundível que prontamente identificava o Secretário. Ou eles se tinham demorado mais do que imaginavam. Renard era um homem bonachão e monstruosamente rico. Quando seus impacientes amigos foram examiná-los. Mas Deus permita que a loucura nunca perturbe a amizade. mas. disse Dr. a tropa se mantinha coesa. Ouço cavalos. mas você pode emprestar-me seu automóvel agora mesmo? — Estou desconfiado que vocês estão todos loucos.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 127 havia probabilidade imaginável de um levante geral anarquista. parecia usá-los muito raramente. em essência. Isso é infantilidade? Todos volveram o olhar e avistaram um arco de negra cavalaria transpondo o cimo da encosta com todo o ímpeto de Átila. Buli. e concluiu. A despeito da distância. — Não. Havia. Com dificuldade trouxeram-no para a rua. e que as negras máscaras da primeira fila avançavam com a mesma regularidade de uma linha de uniformes. Fora da escura garagem espantaram-se ao ver que o crepúsculo já havia descido com a presteza da noite nos trópicos. cujos movimentos frenéticos de mãos e calcanhares fustigando o cavalo talvez induzissem a pensar que êle não era o perseguidor e sim o perseguido. emendou o Professor. mas à frente da coluna voava um ginete. cuja casa era como o Museu de Cluny. Observaram que apesar de cavalgar velozmente. ou algum inusitado dossel de nuvens se armara sobre a cidade. Na verdade. Dr. Renard. disse o Coronel. Vamos até à garagem. tendo os gostos simples da classe média francesa. o mesmo de antes. parando-o diante da casa do Dr. . Renard. Possuía três automóveis. — Agora ou nunca. porém. perderam uma porção de tempo para certificar-se de que um dos três poderia funcionar. uma diferença nitidamente visível na rampa da encosta como num mapa inclinado. o grosso da cavalaria formava um único bloco. Baixando a vista pelas ruas ladeirosas pareceu-lhes que uma aligeirada neblina subia do mar. disse Dr. agora. — Lamento interromper uma discussão erudita. O negro quadrado era. bradou de repente o Coronel. Um cavalo. encolhendo os ombros: — Anarquia é infantilidade! — Et ça. apontando por cima do ombro do outro.

pois num de seus lados figurava um rude ornato em forma de cruz. surgiu na esquina com a velocidade e a rigidez de uma seta. dentro da qual havia uma lâmpada. respondeu o Coronel. — Não compreendo porque está tão escuro. e o carro partiu. com o rosto afogueado. esculpida e fora de uso. semi-religioso. Enquanto .128 G. avizinhando-se cèleremente nas pedras retumbantes. mas o de um ginete que disparara à frente dos demais: o insano Secretário. possuíra outrora um carro. de certo modo. É pena que não tenhamos uma lâmpada neste carro para iluminar o caminho. Com meu melhor amigo. afirmou o Coronel. Trazia um sorriso que alongava o queixo como se este se tivesse deslocado. Aplicou toda a sua força numa alavanca e depois disse tranqüilamente: — Receio que êle não ande. — Penso que vai haver tempestade. Não havia ruído nenhum além do rumor dos outros perseguidores que invadiam a cidade. e sua boca se retificara na solenidade do triunfo. Era o Secretário. Syme debruçava-se tenazmente sobre a roda do volante. A família de Syme. sim. diante do cavalo espavorido. Súbito rebentou um estridor de ferros entrechocados. e Syme sabia tudo acerca de automóveis. tornou-se-lhes evidente que aquele ruído. e do fundo do cano suspendeu uma pesada lanterna de ferro. não era o de uma cavalgada. disse por fim o Professor em voz baixa. O Secretário foi arrancado da sela como uma faca lançada para fora da bainha. — Onde você a arranjou? perguntou o Professor. como a maioria daquelas que findam na pobreza. K. Buli. Passou raspando pelo carro estacionado. Quando o carro dobrou a esquina. fazendo uma esplêndida curva. viram os outros anarquistas aglomerando-se na rua e erguendo o chefe caído. CHESTERTON E enquanto escutavam. Obviamente era uma antigüidade e parecia que seu uso original fora. montado num cavalo veloz. — Arranjei-a onde arranjei o carro. — Temos. parou na frente e colocou a mão no motor. Saltou imediatamente para o assento do chofer e. rindo por entre os dentes. aventou Dr. tentou pôr em movimento o desusado maquinismo. dentro do qual a turma se amontoara. O carro arrastou-o violentamente umas vinte jardas e deixou-o estendido na estrada. No mesmo instante um homem retesado.

Buli voltou-se para o novo detetive e permitiu-se um de seus sorrisos naturais e amigáveis. Do teto. Então todo o efervescente bom senso e otimismo de Buli explodiu: — Mas isso é um alucinado disparate! exclamou. — Não. pois não! confirmou Syme seriamente. Até aqui tinham passado pela parte mais quieta da cidade. e são aquelas luzes da delegacia de polícia que estou vendo no outro lado da cidade. "Acho". encontrando no máximo um ou dois pedestres que não lhes podiam dar idéia da paz ou da hostilidade do lugar. Êle ergueu os olhos. que. produzindo uma sensação maior de acolhimento e humanidade. pendia esta lanterna. e pendurou a pesada lanterna na frente do carro. Renard merecia ser conhecido? — Tinha. então você está mais louco do que um verdadeiro anarquista. piscando amàvelmente para a primorosa abóbada do vestíbulo. estava de pé no átrio. entretanto. presa por magníficas cadeias de ferro. rachando os painéis e derrubando dois vasos azuis com sua violência. — Que barulho é esse? perguntou. Não tinha eu razão de dizer que o Dr. Pensei que os tínhamos vencido. — Essas luzes deixam a gente mais alegre. . creio eu. uma das cem preciosidades de sua preciosa casa. Entregou-me então a lanterna e eu coloquei-a no carro. subi ligeiro a escadaria e falei com Renard. O Inspetor Ratcliffe franziu a testa. Deus queira que cheguemos lá em dez minutos. "que não há tempo para conseguir uma lâmpada". Se resolvêssemos enfrentar aqueles sujeitos toda a cidade combateria do nosso lado. Havia uma certa alegoria da situação deles no contraste entre o moderno automóvel e a estranha lâmpada eclesiástica. replicou o outro com a mesma simplicidade. Agora. as janelas das casas começavam uma a uma a iluminar-se. disse eu. Se você supõe que essa gente simples é anarquista.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 129 aqui o nosso Syme lutava com o volante. disse o Coronel. Haveremos de ver. Sem perda de tempo. — Os cavalos atrás de nós. Toda a cidade combateria do lado deles. Dr. disse êle. como vocês se lembram. arrancou a lâmpada do lugar. — Somente certas luzes me deixam mais alegre. Enquanto conversavam* o Professor inclinou-se para a frente com repentina inquietação.

você falava do singelo povo de uma pacata cidade francesa. Quando o carro partiu cèleremente. deixando atrás de si uma flutuante nuvem de alva fumaça. Voltou a sentar-se e alisou a estirada cabeleira com um gesto de fadiga. Foi interrompido por um estampido e um lampejo bem perto de seus olhos. Sumiram num segundo. — O que é que você quer dizer? inquiriu Buli incisivo.. passaram num abrir e fechar de olhos dois objetos brilhantes e rumorosos. no fim da rua. Alguém nos alvejou. Não são cavalos. C H E S T E R T O N — Cavalos? Nunca! redargüiu o Professor. — Logo todos vocês acreditarão. — Você ainda acredita nisso? perguntou incrédulo o Coronel. disse Syme. Renard nunca lhes daria seus carros. — É extraordinário. superextraordinário! — Uma pessoa rabugenta. — Eram os dele. retorquiu o outro numa desesperada serenidade. O singelo povo de uma pacata cidade francesa. disse. O estupefato Coronel não estava mais para motejos. no fim desta rua. perscrutando a rua. Nunca chegaremos lá. sugeriu Ratcliffe calmamente. quando. poderia achar desagradável. Coronel. repetiu com os olhos esgazeados.. Tinha-se levantado para devassar a distância. Estavam cheios de mascarados! — Absurdo! vociferou o Coronel. Renard. nem estão atrás de nós. retome as suas considerações. Por alguns instantes estabeleceu-se uma pausa embaraçosa. — Não é necessário interromper a conversa. Mas me parece que aquelas luzes acolá. Toda a cidade está do lado deles. Dr. . Se não estou enganado. à frente deles. disse o sombrio Ratcliffe. — Deus meu! bradou o Coronel. que o Coronel rompeu bruscamente: — Não.130 G. Em pouco tempo chegaremos lá. O Professor ergueu-se empalidecido e jurou que eram os outros dois automóveis da garagem do Dr. disse o Inspetor Ratcliffe. mas todos viram que eram automóveis. Circunvagava os olhos. Por favor. Syme ouviu sibilar uma bala. — Não. K. — Pode ter sido coagido. são da delegacia. Mal concluíra o Professor. não posso acreditar. Isso é puro despropósito.

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— O que eu quero dizer é que nunca chegaremos lá, respondeu plàcidamente o pessimista. Eles já atravancaram a estrada com dois pelotões armados. Vejo-os daqui. A cidade está em pé de guerra, como eu predisse. Resta-me somente aninhar-me no conforto sutil de minha própria certeza. E Ratcliffe, acomodando-se confortàvelmente, acendeu um cigarro, enquanto os outros se punham excitadamente de pé e examinavam a estrada. Syme diminuíra a marcha do carro ao sentir que seus planos se tornavam inexeqüíveis e, por fim, parou-o na esquina de uma rua que descia a pique para o mar. Quase toda a cidade estava recoberta de sombras, mas o sol ainda não se tinha posto; por onde se derramava seu fulgor esfatiado, todas as coisas se coloriam de ouro flamante. Sobre o alto dessa rua transversal o derradeiro clarão do ocaso incidia tão agudo e estreito como um raio de luz artificial no teatro. Batia no carro dos cinco amigos, transformando-o numa carruagem fulgurante. Mas o resto da rua, especialmente nas duas extremidades, imergia no mais profundo crepúsculo. Por alguns segundos nada puderam ver. Depois, Syme, cujos olhos eram os mais penetrantes, rompeu num curto e amargo assobio, e a juntou: — É verdade. Uma multidão, ou um exército, ou seja lá o que fôr, está reunido no fim daquela rua. — Bem, se é assim, disse Buli impaciente, deve haver um outro motivo: um combate simulado, o aniversário do prefeito, ou coisa semelhante. Não posso e não quero crer que a gente simples e alegre de um lugar como este ande com os bolsos cheios de dinamite. Avancemos um pouquinho, Syme, e olhemos isso de perto. O carro havia percorrido lentamente umas cem jardas quando todos se surpreenderam com uma gargalhada do Dr. Buli. — Vejam, seus bestalhões! berrou. O que foi que eu disse? Essa multidão é tão obediente à lei como uma vaca. E se não é, está do nosso lado. — Como é que você sabe? perguntou espantado o Professor. — Você é cego como um morcego, berrou Buli outra vez. Não vê quem os comanda? Espreitaram de novo, e então o Coronel, com um tremor na voz, gritou: — Ora, é Renard!

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G.

K.

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De fato, não se podiam distinguir claramente os vultos pardacentos que se agitavam na estrada; entretanto, mais adiante, num ponto iluminado, via-se, passeando acima e abaixo, o inconfundível Dr. Renard, de chapéu branco. Sua mão direita afagava as compridas barbas e a esquerda segurava um revólver. — Que louco eu fui! exclamou o Coronel. Naturalmente o meu velho amigo veio ajudar-nos. Dr. Buli, borbulhando gargalhadas, brandia levianamente a espada, como se ela fosse uma bengala. Saltou do carro e saiu a correr, gritando: — Dr. Renard! Dr. Renard! Um segundo depois, Syme julgou que seus próprios olhos enlouqueciam dentro de sua cabeça. Pois o filantrópico Dr. Renard acintosamente apontara o revólver contra Buli e fizera dois disparos que atroaram a estrada. Quase no mesmo instante em que a espiral de branco fumo se desprendeu dessa lastimável detonação, uma longa espiral de branco fumo também se desprendeu do cigarro do cínico Ratcliffe. Este empalidecera como os outros, mas sorria. Dr. Buli, a quem as balas tinham sido dirigidas e que por üm triz não foi escalpado, parou tranqüilamente no meio da estrada, sem dar sinal de medo. Depois virou-se lentamente, caminhou para o carro e subiu, trazendo dois buracos no chapéu. — Bem, disse sossegadamente o fumante, que é que você pensa agora? — Penso, respondeu Dr. Buli sem titubear, que estou dormindo em Peabody Buildings 217 e que daqui a pouco acordo e dou um pulo da cama; ou então, penso que estou sentado num cubículo almofadado de Hanwell e que o médico nada mais pode fazer no meu caso. Mas se você quer saber o que eu não penso, vou lhe dizer. Não penso o mesmo que você pensa. Não penso e não pensarei nunca que a massa de homens comuns seja um amontoado de ignóbeis pensadores modernos. Não, meu caro, sou um democrata e ainda não creio que Domingo possa converter um escavador ou um caixeiro. Não! Posso estar louco, mas a humanidade não está. Syme dirigiu para Buli seus claros olhos azuis, com uma seriedade que comumente não manifestava: — Você é um sujeito excelente. Acredita que a sensatez não é um privilégio exclusivamente seu. E tem toda (razão no que toca à humanidade, aos camponeses e a pessoas como aquele velho e simpático estalajadeiro. Mas não tem razão no

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que toca a Renard. Suspeitei dele desde que o vi. Ê racionalista e, o que é pior, rico. Se o dever e a religião têm que ser destruídos, hão de ser destruídos pelos ricos. — E agora já estão realmente destruídos, disse o homem do cigarro, erguendo-se com as mãos nos bolsos. Os diabos se aproximam. Os ocupantes do automóvel seguiram ansiosamente a direção do olhar cismarento de Ratcliffe e viram que todo o regimento investia sobre eles desde a ponta da rua. Dr. Renard, furioso, marchava na frente, a barba voando na brisa. O Coronel pulou para fora do carro, soltando uma exclamação de impaciência. — Senhores, vozeou, isso é incrível! Deve ser brincadeira. Se conhecessem Renard como eu conheço... É como chamar a Rainha Vitória de dinamiteira. Se vocês guardassem na mente o caráter desse homem... — Dr. Buli, atalhou Syme sardônico, guarda-o pelo menos no chapéu. — Digo-lhes que isso não é possível! berrou o Coronel, pateando que nem um louco. Renard explicará tudo. Êle vai explicar-me, sim. E a passos largos foi para diante. — Não tenha tanta pressa, disse preguiçosamente o fumante. Em breve êle nos explicará tudo. Mas o sôfrego Coronel já não o ouvia e caminhava para o inimigo avançador. O exaltado Dr. Renard outra vez apontou a arma, mas, reconhecendo o adversário, hesitou. O Coronel avizinhou-se dele, fazendo uns gestos frenéticos de admoestação. — É inútil, disse Syme. Nada conseguirá daquele velho idolatra. Proponho que a gente meta o carro no meio deles, de surpresa, como as balas que vararam o chapéu de Buli. É possível que nos matem, mas nós também mataremos um bom número deles. — Não topo isso, não, disse Dr. Buli, tornando-se mais vulgar na sinceridade da sua virtude. Esses pobres camaradas podem estar enganados. Demos uma oportunidade ao Coronel. — Devemos voltar, então? perguntou o Professor. — Não, respondeu friamente Ratcliffe. A outra ponta da rua também está guarnecida. Parece-me até que vejo lá outro amigo seu, Syme.

134 G. enquanto. mas quando relancearam os olhos para o alto viram a cavalaria inimiga dobrando a esquina e descendo a ladeira. Os outros não lhe entenderam as palavras. Enquanto conversavam. sorrindo pàlidamente. — Todo mundo já o é. que antes se erguia desempenado à margem da avenida litorânea. Avistou. — Você está se tornando anarquista. alguma coisa destruímos. comentou o Professor. com tremenda violência. Viu. um troço irregular de cavalaria. doido estou eu. segurou uma quarta na mão esquerda e com a lanterna na mão direita pulou para a praia. — Que vamos fazer? perguntou o Professor. Um segundo depois o automóvel esbarrou. disse Syme. e quase simultaneamente uma escura multidão corria gritando ao longo da avenida. pouco depois. enquanto o carro se despencava pela escuridão como uma estrela cadente. — O mundo está doido! exclamou . — Que diabo é isso? bradou o Professor. disse Ratcliffe. — Neste momento. o brilho prateado de uma espada e. — Não. CHESTERTON Syme habilmente fêz a volta e deu uma olhada para o caminho percorrido. galopando ao seu encontro na escuridão. K. . e um poste comprido e fino. Buli com adamantina humildade. disse Dr. com catastrófico rangido. No instante seguinte quatro homens abriam caminho por entre os destroços metálicos. — Caiu a estrela da manhã. sobre a sela da frente. na vanguarda cavalgava o honesto estalajadeiro. como um homem que só desejasse morrer. — Bem. o brilho prateado dos cabelos de um ancião. impelido por seu instinto de elegância. corado pela ardente inocência do rubor crepuscular. Syme apanhou uma espada e agarrou-a nos dentes. o cavaleiro encanecido e seus sequazes avizinhavam-se tonitruantes. agarrando-lhe o braço. prendeu duas outras debaixo dos sovacos. sacudia o pó da roupa. lançou precipitadamente o carro na ladeira que ia dar no mar. fêz outra volta e. num objeto de ferro.o Professor e enterrou o rosto nas mãos. O que não deixa de ser um consolo. Num instante. quedava-se agora curvado e retorcido como o galho de uma árvore abatida. disse Syme com científico desprendimento. vamos despedaçar-nos de encontro a um poste de luz. respondeu Syme.

— Ainda que a polícia chegue agora. no perfil mais longínquo e no gesto mais indefinido. eles pressentiam. montado num possante cavalo de tiro. Evidentemente eram malditos entre todos os homens. e quando chegaram ao fim do paredão sentiram que haviam chegado ao fim de suas aventuras. — O camponês! berrou Syme. Voltaram-se e contemplaram a cidade. O exemplo foi seguido. Como eles já haviam feito. após um ou dois segundos. poderemos resistir tanto quanto Horácio na sua ponte. tentaram estabanadamente ganhar o mar. Na cidade deve ter ficado muita gente que é humana. mas mesmo onde nenhuma chama alumiava uma cara enfurecida. mas lajes grandes e chatas. nada pode fazer com essa multidão. e ameaçava-os. acho que a delegacia de polícia nos ajudará. naquele quebra-mar. deixando para trás os escombros e a turba reunida. Tomaram por um extenso e raso molhe que se lançava num braço do mar negro e encapelado. não os seixos da maré. Em toda a extensão da avenida atropelava-se uma turva e estrepitosa corrente de seres humanos. Mas ali. que pareciam pequenos e negros como macacos. Não podemos alcançá-la porque eles guardam o caminho. Chafurdava na ressaca. e toda a massa negra começou a escorrer e pingar da calçada como negro melaço. pularam da calçada e caíram na praia. dois ou três sujeitos. Sigam-me.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 135 Os outros pularam depois dele. disse Syme tirando a espada da boca. Temos de resistir até que venha a polícia. Eles não se levantam desde a Idade Média. — Temos mais uma oportunidade. A cidade se transfigurara. — Tolice! exclamou Buli desesperado. Gritando horrivelmente e sulcando a areia frouxa. com os braços agitados e os rostos ferozes. a encará-los ameaçadoramente. Seja qual fôr o sentido de todo este pandemônio. mas não sabiam por quê. Entre os primeiros tipos da praia Syme reconheceu o aldeão que os transportara na carroça. era só alvoroço. Os outros seguiram-lhe os passos na rangente areia e. brandindo um machado. suas botas pisavam. . A comprida e escura fileira estava ponteada de archotes e lanternas. disse melancòlicamente o Professor. um ódio organizado. em solidário acatamento à decisão.

136 G. e do centro da escuridão vinha o ruído seco e metálico de uma disciplinada cavalaria. Somos os últimos espécimes da humanidade. — Estão carregando sobre a multidão! gritou Buli entre extasiado e alarmado. CHESTERTON — Não. disse o desencantado Inspetor. — Os gendarmes uniram-se a eles! exclamou o Professor e deu uma palmada na testa. grande Anarca. disse o Professor distraidamente. pública ou privada. que o mundo abarca! — Silêncio! gritou Buli de repente. De fato. dançando de alegria. — Não. oh Caos devorador! Morre a Luz sob teu verbo assolador. na delegacia de polícia cruzavam-se vultos diligentes. — Estou mesmo no cubículo. Os gendarmes vêm aí. disse Syme. Ratcliffe guardou um mutismo pétreo. Ratcliffe. K. Surja a treva total. olhando para o encrespado mar purpúreo-acinzentado. disse Ratcliffe. bradou Buli. ao fim de alguns instantes. e vão dispará-las contra nós. Fulge em teu Reino. falou: — Que importa saber quem está louco ou quem está lúcido? Daqui a pouco estaremos todos mortos. — Sim. — Apontaram as carabinas. não é mesmo? Mr. porém. Que baixes a cortina. Então. as balas saltitaram nas pedras como saraivas. — Pode ser. Syme voltou-se para êle e perguntou: — Você está completamente desesperado. O ser humano em breve se extinguira. disse Buli convictamente. riscando e ofuscando as janelas iluminadas. Em meio a suas palavras soou um demorado crepitar de fuzilaria e. estão formados na avenida. respondeu calmamente: . Depois acrescentou com sua voz sonhadora: O que é que está escrito no fim da Inepcíada de Pope? Nenhuma chama. Houve um longo silêncio. diante deles. divina ou maculada. Nenhuma luz.

. Muitos dos perseguidores.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 137 — Não. Um desses rostos trazia uma meia máscara preta. Ê muito estranho. O outro era o rosto vermelho e o bigode branco do Coronel Ducroix. haviam entrado na água. como se fosse um ser vivo e inquieto. Mas. — Não. e me espanta que sobreviva esta tola esperança. Está. Mas a esta hora já deve ter sido assassinado por Domingo.. De repente. nesse caso. — Num homem que nunca vi. . mas o mar bravio impedia-os de chegar ao molhe. mas eu não estou completamente desesperado. . sob a qual a boca se contorcia com tal demência nervosa que a moita preta da barba se enrodilhava continuamente. sacudindo os punhos. disse Syme em voz baixa. respondeu o outro. O homem do quarto escuro. O Coronel também? não! Não acredito! — Acredita em seus próprios olhos? perguntou o outro e apontou para a praia. Morramos como cavalheiros s e . volveu-se para os outros e gritou como se despertasse: — Onde está o Coronel? Pensei que estava conosco! — O Coronel! repetiu Buli. — Compreendo. falou o Professor. que é feito do Coronel? — Tinha ido falar com Renard. — Não tenha pena do Coronel. É verdade. Resta ainda uma vaga e louca esperança que não me sai da cabeça. . — Não podemos abandoná-lo no meio dessas feras. disse Ratcliffe com um pálido sorriso de desdém. bradou Syme. Também estou agarrado a uma coisa que nunca vi. não! bradou Syme impaciente. que estava como que enlevado em visões introspectivas. — Talvez. não. Êle está bem acomodado. Todos os. O clarão de uma lanterna iluminou casualmente os rostos dos dois primeiros. — Ouvi o que você disse. de costas. Ambos se consultavam gravemente. dois ou três alcançaram o início da passagem de pedra e pareciam adiantar-se cautelosamente. disse o outro com firmeza. — Em que ou em quem se baseia sua esperança? perguntou Syme curioso. Contudo. fitando o plúmbeo mar. podêres deste planeta estão contra nós. foi o único homem que Domingo achou duro de morrer. Syme. disse o Professor.

Ela irá para onde o seu império de macacos jamais saberá encontrá-la. mas foram sustados por uma alteração. E eu. o Coronel. modelaram as entranhas do ferro e preservaram a legenda do fogo. Sinto que minha mão pode erguer-se e bater-me. Porque esta velha lanterna cristã você não destruirá. depois. e sim a espada. É chegada nossa hora de morrer. Carreguemos sobre esses cães. destruirá o mundo. partindo-a rente à guarda. ao divisá-lo. — Espadas! bradou Syme. onde ela fulgurou como um foguete e afundou. Não foi acesa por você.138 G. E segurando numa das mãos a espada e na outra a lanterna. disse Syme. A espada de Syme estava partida. Você não sabe fazer nada. O tiro não atingiu Syme. Num momento eles se teriam arrojado para a multidão e perecido. E bateu uma vez com a lanterna no Secretário. Destruirá a humanidade. Você só sabe destruir. Syme arremessou-se e deu com a lanterna de ferro na cabeça do Coronel. — Judas perante Herodes! gritou e derrubou o Coronel nas pedras. fazendo-o cambalear. homens que podiam crer e obedecer. lançando por terra um pescador. Está vendo a cruz gravada fora e a lâmpada queimando por dentro? Não foi gravada por você. não há um fio das roupas que você veste. disse o Professor e sentou-se numa pedra. êle também. Como se quisesse dissipar a derradeira esperança ou a derradeira dúvida. será para bater em outro. mas êle. voltando o rosto inflamado para seus amigos. Homens melhores do que você. K. — Está vendo esta lanterna? bramiu Syme numa voz terrível. apontou e disparou o revólver. Não há uma rua por onde você anda. rodopiando-a duas vezes em volta da cabeça. saiu pelo molhe ao encontro do Coronel. doido! Não posso confiar no maquinismo de meu corpo. CHESTERTON — Sim. Em seguida virou-se para o Secretário cuja boca medonha estava quase espumando. e suspendeu a lanterna com um gesto tão rígido e tão arrasador que o outro gelou por um momento e foi forçado a escutar. arrancou-lhe um cacete das mãos. que desde o . — Quando minha mão se erguer. mas contente-se com isso. para negar sua filosofia de estéreo e ratazanas. O Secretário. Tudo doido. que não tenha sido feito como esta lanterna. Os três companheiros seguiram-no de espada em punho. sacudiu-a no mar.

Sei disso. e tirou do bolso um cartãozinho azul. parece-me que você não se compenetra de sua situação. Pago um trago para todos. — Deve haver algum engano. Sou detetive da Scotland Yard. Mr. dirigindo um olhar radiante para a enorme turba que se espalhava ao longo da praia. . assim desnudado e exposto à claridade das lâmpadas. — E o que é que você pensa que nós somos? inquiriu o Professor lançando os braços para o alto. O pálido rosto. apoiando na mão a cabeça ferida.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 139 discurso de Syme jazia como desacordado. como é do meu conhecimento. O Secretário levantou a mão com impaciente autoridade. Buli atirou sua espada ao mar. Disfarçado como um de vocês. — Nunca houve nenhum Supremo Conselho Anarquista. sim. Bem. arrancou subitamente sua máscara preta. E todo esse povo excelente que tem estado a azucrinar-nos com seus tiros pensava que éramos os dinamite iros. . Éramos todos um magote de policiais idiotas vigiando-nos uns aos outros. Dr. acrescentou Buli. As pessoas comuns nunca são loucas. Syme. — Da lei? disse Syme deixando cair o cacete. membros do Supremo Conselho Anarquista. disse o Secretário. eu que sou uma pessoa comum. agora vou para a terra. bradou. disse êle. disse firmemente o Secretário. vocês são. revelava menos raiva que estupefação. — Da lei. . e u . Eu sabia que não podia estar enganado com as multidões. — Vocês. Está preso em nome da lei.

.

elevava-se a montanha central da questão que eles não sabiam explicar. — Estou na mesma situação de vocês. . Mas há uma coisa: Domingo pode ser o que quiser. mas era um cavalheiro magnânimo e. Syme expôs o motivo que os instigou a fugir tão desabaladamente através de um país civilizado. Para mim. O pobre Coronel podia ter alguma razão para queixar-se. o que era Domingo? E se Domingo não capturara o mundo. respondeu Syme. — Está bem. pois amanhã é dia de nossa reunião. Que significava tudo isso? Se eles eram inofensivos detetives. esse joguinho de Domingo não tem pé nem cabeça. Os cinco reconciliados detetives tinham uma centena de ponnenores a esclarecer entre si. primeiro por ter sido levado a combater por duas facções que não existiam e depois por ter sido derreado por uma lanterna. de minúcias facilmente explicáveis. que diabo era que êle tinha feito? Sobre isso o Inspetor Ratcliffe se conservava pessimista. menos um cidadão inocente. diss» êle. O Secretário contou a Syme que foram obrigados a usar máscaras a fim de se aproximarem do pretenso inimigo como companheiros de conspiração. Acho que muito breve desvendaremos tudo. despediu-se deles no molhe com muita afabilidade. Diabos o levem! Vocês se lembram da cara dele? — Confesso. Mas acima de todas essas questões. disse o Secretário. que nunca pude esquecê-la. cinco sujeitos desconcertados mas risonhos tomaram o barco para Dover.CAPITULO XIII A PERSEGUIÇÃO DO PRESIDENTE Ao amanhecer. confortado pela evidência de que as duas partes nada tinham a ver com dinamite.

K. eles se mostraram imensamente sociáveis. — Todos somos espiões! sussurrou Syme. as aventuras do dia ainda não estavam encerradas. mas eles rejeitaram a proposta e partiram num côche. convidou Dr. refletiu o Professor. Buli. O sujeito que bancava o homem cabeludo. — Creio que você tem razão. Dr. Não foi o Presidente!?! — Não. mas instintivamente tratavam de permanecer juntos. — Trouxe para cá? Mas quem? tornou Syme impaciente. E puxou por um relutante cotovelo o mesmo jovem que cinco dias antes saíra do Conselho com seus ralos cabelos vermelhos e um rosto pálido. Tem medo de bombas? — Não. Buli com pesada ênfase. em cuja boléia Dr. Dr. de barco e de trem. não. acrescentou com um sorriso pavoroso. de estar tão compenetrado dos meus deveres de Secretário. Syme. Buli. . descontente com a determinação geral de ir para a cama. respondeu o outro lücidamente. Não ando tão azarado.142 G. homem. — Oj>cabeludo. retrucou o Professor. Entretanto. Gogol! Ei-lo aqui. atroando o vestíbulo com seus berros. — Por que vocês me importunam? bradou o recém-chegado. mas confesso que recearia perguntar a Domingo quem êle é. fêz o possível para persuadir os outros a tomarem em Vitória o mesmo fiacre. Suponho que êle mesmo desvendará tudo para nós. Buli com uma risadinha desnecessária. o primeiro de todos os falsos anarquistas a ser descoberto. Contudo. que a princípio tentara silenciá-lo. — Quem? perguntou Syme de pronto. — Por quê? inquiriu o Secretário. ao fim de uma pausa. Expulsaram-me como espião. Durante toda a viagem. de maneira a estarem perto de Leicester Square quando amanhecesse. Buli logo se aboletou e pôs-se a cantar. — Vamos tomar um trago. vinte minutos depois estava de volta. disse Dr. — Eu o vi! Garanto-lhe que o vi! exclamou Dr. CHESTERTON Desculpem-me. Tenho medo de que êle me diga quem é. que fora sempre o otimista do grupo. saíra do hotel por volta das onze horas a fim de ver e admirar algumas das belezas de Londres. não ando tão azarado assim. Eu o trouxe para cá. Buli. Acabaram a jornada num hotel de Piccadilly Circus. viuse por fim obrigado a escutá-lo com renovada atenção.

Seguindo os passos de Syme. com a cabeça inclinada. Venha tomai um trago. Buli. sentado. respondeu severamente. o batalhão dos seis aliados rumou impassível para o hotel de Leicester Square. embora o hotel estivesse localizado no canto oposto. empertigou-se para exprobrá-lo com dignidade. Buli? O Secretário ficou um momento embaraçado e o Presidente prosseguiu num tom de leve censura: . comentou Dr. com um sorriso radiante e inquiridor. disse Syme. — Meus motivos são muito simples.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 143 — Todos somos espiões! gritou Dr. que vinham com o propósito de destituí-lo. Pretendo atacá-lo temeràriamente porque tenho medo dele. Mas todos os seus conselheiros. Que são espetáculos desagradáveis? Os óculos de Dr. Tenho muito prazer em vê-los. Estava só. Não houve carnificina. Em silêncio eles entraram na praça e. Haviam disputado demoradamente sobre a política que iriam seguir: deviam deixar de fora o desmascarado Gogol e começar diplomaticamente. os olhos pregados num jornal. — Espetáculos desagradáveis? repetiu o Presidente. viram num relance a minúscula varanda e um vulto que parecia grande demais para ela. o Secretário quis saber porque os dois pretendiam atacar Domingo tão temeràriamente. Seis homens vão perguntar a um homem o que êle é. — Encantado! disse este. senhor. explicou Syme. — Não. Buli. que se adiantara. — Parece-me que é mais esquisito que divertido. cruzaram a praça como se do céu centenas de olhos os observassem. subiram silenciosos a escada escura até que se acharam ao mesmo tempo sob a ampla claridade do sol da manhã e sob a ampla claridade do sorriso de Domingo. Que dia maravilhoso! E o Czar? Morto? O Secretário. ou deviam levá-lo a deflagrar a pólvora de uma vez? Por influência de Syme e Buli prevaleceu o último alvitre. Não lhe trago notícias de espetáculos tão desagradáveis. Parece-me que seis homens vão perguntar a um homem o que eles são. — Isso é muito divertido. De manhã. Sem embargo.

Pois eu lhes digo que é mais fácil descobrir a verdade oculta na última árvore e na nuvem mais altaneira do que descobrir o que eu sou. mas na realidade considerá-los desagradáveis diante daquela pessoa que. o que é esta mesa. Olhe para minha cara. o que é este Conselho e o que é este mundo.. Tanto quanto pude entender. e os céus se despenharão no dia em que me vir em apuros. — A meu ver é o tipo da cara que pode florescer numa pessoa. K. poetas. Desde o começo do mundo todos os homens têm-me caçado como se caça um lobo: reis e sábios. — Dos candidatos. — E você? perguntou Syme. cave em torno das raízes dessas árvores e descubra a verdade que elas escondem. que é um homem de ciência. esbravejou selvagemente o Secretário. disse êle. Nunca me agarraram. Entenderão o mar.. vocês querem que eu lhes diga o que sou e o que são vocês. você. você que é um poeta. De fato. Dr. exige-se apenas que respondam oito dos dezessete quesitos do questionário. avançando. saberão o que são as estrelas. e eu permanecerei um enigma. ou um esperto que se faz de tolo? Responda-me. como um enorme vagalhão a pique de arquear-se e rebentar sobre eles. contemple e interrogue essas nuvens matutinas. De todos tenho escapado e a todos tenho confundido. CHESTERTON — Naturalmente todos temos direito a nossas opiniões e até a nossos olhos. Você o que é? — Eu? Que sou eu? rugiu o Presidente. disse o Presidente. — Meus óculos são indecentes. todas as igrejas e todos os filósofos. Quem sabe? — Não temos tempo para frioleiras. e pouco a pouco elevou-se a uma altura inacreditável. direi que são um bando de asnos moços e sumamente bem intencionados. E quem sou eu para altercar com os frutos silvestres sobre a Árvore da Vida? Pode ser que um dia ela floresça em mim. Syme. quebrando-os. murmurou Domingo. legisladores. mas eu não sou.144 G. enfim. . Se desejam saber o que são. Pois bem. Querem saber o que eu sou? Querem? Buli. Quem é você? O que é você? Por que nos ajuntou aqui? Sabe quem somos e o que somos? É você um excêntrico que se faz de conspirador. floresce em você. Buli atirou os óculos na mesa. E agora farei a mesma coisa. atreverme-ei a rasgar o véu de um destes mistérios. Viemos saber o que significa tudo isso. mas não saberão o que eu sou.

no qual o passageiro fustigava o cavalo e o cocheiro tentava furiosamente sofreá-lo. e chamou outro fiacre. se dependurara na balaustrada da varanda. Êle e Buli tomaram o mesmo fiacre. Imediatamente Syme transpôs a balaustrada. de modo que passavam pelas ruas como um furacão. que não estava para contemporizações. até que as multidões acorreram e os guardas começaram a deter as pessoas e a interrogá-las. incitava o cavalo a uma velocidade perigosa. porém. deu de açoitar o cavalo e bramir com todas as forças. o homem que os fêz detetives. Através de ruas e praças rodava esse disparatado veículo. porém. justamente a tempo de encalçarem o voante Syme. e seu cocheiro. para os lados do noroeste. Os seis detetives quedaram fulminados e lívidos ao lampejo de sua última afirmação. uma coisa que vou dizer-lhes acerca de minha identidade. Em seguida. como um imenso orangotango. Tudo isso teve influência sobre o cocheiro do Presidente. Lojas e ruas sucediam-se como setas zunidoras. encalçava o voante Presidente. Abriu a portinhola para falar ponderadamente com seu passageiro e largou o comprido chicote na boléia. Antes de cair. Mas Syme. saltando tão desastradamente que quase quebrava as pernas. Domingo inclinou-se para a frente. segurou o chicote e arrancou-o brutalmente da mão do homem. gritando "Pega ladrão!". Sou o homem do quarto escuro. suspendeu-se como se praticasse numa barra horizontal e. jogou-se da varanda em baixo. Os três outros fiacres perseguiam-no (se a comparação é válida para fiacres) como galgos arquejantes. Mas quando o Presidente desapareceu no fiacre. fincando o queixo volumoso na balaustrada. o Professor e o Inspetor entraram noutro. dando pulos elásticos no calçamento como uma desmesurada bola de borracha e aos saltos ganhou o oitão do Alhambra. pôsse de pé. . que logo ficou apreensivo e meteu o cavalo de trote. evidentemente sob o influxo de induzimentos excepcionais. disse solenemente: — Há. fêz um sinal para um fiacre e pinotou para dentro. o senso prático de Syme espertou.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 145 Antes que qualquer dos presentes pudesse mexer-se. que. enquanto o Secretário e o ex-Gogol treparam num terceiro. Domingo levava-os. nessa caçada selvagem. o homem colossal. Dito isto. por seu turno. pondo-se êle mesmo de pé na boléia.

os cabelos brancos esvoaçando no vento. Um carro de bombeiros não engana ninguém. Buli. aprumou-se e foi visto. Todo o tráfego derivava para a direita ou para a esquerda. K. pois que esta se reduzia às palavras: Que é feito de Martin Tupper agora? — Que quer dizer esse velho maníaco? perguntou Buli.146 G. Que diz o seu. que em poucos segundos passou em disparada como um raio de bronze. Espero que as coisas não cheguem a este ponto. atirou uma bola de papel no rosto de Syme e recolheu-se ao fiacre. encarando o papel. dirigiu a seus perseguidores uma tremenda careta. Então. Domingo saltou do fiacre. Apesar de toda a velocidade. E aqui ocorreu uma interrupção que os aliados julgaram providencial. Mas. falando ao atônito bombeiro com gestos explicativos. — Depressa! A êle! uivou Syme. erguendo àgilmente a mão direita. Ao seu nome juntava-se uma extensa e de certo modo irônica enfiada de letras. porque do extremo da rua vinha o ruído inconfundível do carro de bombeiros. subiu. onde estão suas galochas? A coisa está preta. no fim de contas. sem dúvida. ao desaparecer na estrepitosa distância. muito mais prolixa e rezava o seguinte: Ninguém mais do que eu lamentaria qualquer interferência do Arquidiácono. O cocheiro do Presidente parecia estar readquirindo certo domínio sobre seu cavalo. consideravelmente maior do que a mensagem. CHESTERTON No auge da corrida. com os dentes arreganhados. O sobrescrito de Dr. pulou para o carro. e os perseguidores estavam mais próximos quando enveredaram por Edgware Road. Conquanto instintivamente desconfiado. Um trazia seu nome e o outro o de Dr. Syme apanhou-a e descobriu que ela consistia em dois papeluchos amarrotados. . Syme? A mensagem de Syme era. pela última vez. Buli era. como um ouriço-cacheiro colossal. Domingo voltou-se no guarda-lama em que se encontrava e mostrando a cara imensa. especialmente depois do que disse o tio. ou estacionava. Não pode sumir-se agora.

enfurecido. Já se sabe da verdade sobre teus suspensórios. os seis amigos viram com surpresa. espirrando e assoando os diabólicos narizes! — Naturalmente são seus cães que estão ladrando. colocando um pé no estribo. E quando passava ao longo de uma fileira de altos paredões sombreados pelas árvores. — Que lugar será este? perguntou-lhes. Ouço os ruídos mais horríveis. que se tinham aturdido por um instante. O carro de bombeiros seguia para o norte. atirou um bilhete. Ou caracóis ladrando?! Gerânios ladrando?! Você já ouviu um cão ladrar desse jeito? . mandou parar seu fiacre. volveu para seus amigos um rosto que na sombra pareceu extremamente pálido. como um imenso gato pardo já havia galgado o paredão e se esvaecera na treva da folhagem. Quando tinha uma perna sobre o muro. êle. desmontou e lançou-se também à escalada. — Não. Syme. Contudo. não sem impaciência. como diabos rindo. inclinou-se inúmeras vezes. Nós o encontraremos em casa. disse sombriamente o Secretário. tornou Syme. O Presidente deu por essa proximidade e. elegantemente dobrado. que o Presidente saltava do veículo. leu estas palavras: Foge imediatamente. Quando este cavalheiro o desenrolou. mas também com satisfação. franzindo as sobrancelhas. — Tanto melhor. beijou as mãos e. Mas não sabiam se deviam atribuir tal ato ao capricho presidencial ou aos reiterados protestos dos seus hospedeiros. alvitrou o Secretário. — Um amigo. rumo a uma região que eles não identificavam. — Por que não diz que são escaravelhos negros que estão ladrando?! respondeu Syme furiosamente. não é isso.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 147 Os três cocheiros. ao fim dessas mesuras. chicotearam seus cavalos e em breve diminuíram o espaço que os separava de sua caça fugitiva. no peito do Inspetor Ratcliffe. antes que os três fiacres o alcançassem. Será a casa desse velho diabo? Ouvi dizer que êle tem uma casa no norte de Londres. vindo para a traseira do carro.

— Um velho bem alto e bem gordo. Syme já estava do outro lado. mas ainda escutava com impaciência. longínquo como um eco. — Êle passou por aqui? perguntou o guarda ofegante. — Escutem. Buli bradou: — Ora. mas subitamente Dr. disse Gogol e estremeceu. arfando. um guarda uniformizado surgiu correndo no caminho. imitante às súplicas e clamores de seres condenados. Raios o partam. — O elefante! gritou o guarda. de terno cinza claro. K. O elefante que pudesse levá-lo sem que êle consentisse em fugir ainda não foi feito por Deus. Um elefante que enlouqueceu e fugiu! — Fugiu carregando um senhor idoso. — Bem. ouviram. se você está absolutamente certo de que se trata de um velho bem gordo e bem alto. começou Syme. explicou o outro estranho. pode ter a certeza de que o elefante não fugiu com êle. acompanhado de outro homem à paisana. Um pobre velho dos cabelos brancos. — A casa dele deve ser o inferno! exclamou o Secretário. Depois. CHESTERTON Levantou a mão e imediatamente subiu da mata um demorado grunhido que parecia meter-se debaixo da pele e gelar a carne — um grunhido abafado e horripilante que provocava uma palpitação no ar. um som igual ao de um clarim roufenho. disse êle. se esse velho é mesmo desse tipo. Os outros seguiram-no. — Quem? inquiriu Syme. de terno cinza. lá está êle! . — Os cães de Domingo não devem ser cães comuns. Isso pode ser um cão? Quem é que tem um cão dessa espécie? Rebentara um rouco alarido. informou sôfregamente o guarda. seus burros! Isso aqui é o Jardim Zoológico! Enquanto eles ansiosamente procuravam qualquer indício de sua caça fugidia. E se é o inferno. eu vou entrar! e quase de um pulo atravessou o paredão. — Qual era o tipo desse velho? interrogou Syme com incontida curiosidade. Nada lhes chamou a atenção.148 G. Foi êle que fugiu com o elefante. Caíram num emaranhado de plantas e arbustos e foram sair numa vereda.

mas. Syme sentiu-se deslumbrado com o panorama dos estranhos animais entrevistos nas jaulas. instigando-a a uma carreira desenfreada. achou esquisito que os tivesse visto tão claramente. Recordou-se especialmente dos pelicanos. Syme perguntava a si mesmo se os próprios arcanjos poderiam entender o bucero. Quando corriam para o portão por onde o elefante tinha desaparecido. quando era necessária muita caridade para admirar um pelicano. cujo vigor não sabia explicar. como o menino que . um derradeiro estrondo e um urro de terror anunciaram que o enorme elefante pardo havia derrubado o portão do Jardim Zoológico e desembestava por Albany Street como novo e rápido tipo de ônibus. Perguntou a si mesmo porque o pelicano era o símbolo da caridade. Nesse momento. uma multidão ululante debalde acossava um enorme elefante pardo. viramno atirar qualquer coisa para o alto. — Como se pode parar um desmoronamento? disse o guarda. se não queremos perder de vista o Presidente. Voltemos aos fiacres. Êle já saiu pelo portão! E. que corria com passadas terrivelmente largas. trombeteando como a trombeta da condenação. Êle vai sair pelo portão. Mais tarde. No dorso desse animal oscilante e bramador. de que a Natureza entregava-se de contínuo a divertimentos misteriosos. de tromba empinada e rija como um gurupés. de passagem. pelo relvado. que os enlouqueciam mais do que suas anteriores chacotas. de papos absurdos. repoltreava-se o Presidente Domingo com toda a placidez de um sultão. Lembrou-se também do bucero. com algum objeto afiado. Os seis inditosos detetives meteram-se nos fiacres e foram no encalço do elefante. — Deus Onipotente! bradou Buli. Todavia. — Façam-no parar! gritava a turba. Nunca vi um elefante tão veloz. aguilhoava a fera. Tudo isso lhe proporcionou a sensação. Cerca de duzentas jardas adiante.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 149 Não havia dúvida. compartilhando do terror que êle espalhava pelas ruas. pouco antes de alcançarem Baker Street. mas oferecia-lhes a sólida extensão de suas costas cegas. que era simplesmente um vastíssimo bico amarelo carregando atrás de si um minúsculo pássaro. Domingo lhes dissera que eles o entenderiam quando tivessem entendido as estrelas. no momento mesmo em que falava. pendentes. Domingo não se voltava para fitá-los.

encurtavam incrivelmente as distâncias. Depois de rasgada a última capa. eram percorridos pelo prodigioso elefante voador. O elefante avançou mais ágil e livremente através das ruas vazias e aristocráticas de South Kensington e por fim endireitou para aquela parte do horizonte onde a enorme roda de Earl's Court se elevava no Armamento. A roda pouco a pouco foi-se tornado maior. até que encheu todo o céu como a roda das estrelas. Ao examiná-la. A fera derrotou os fiacres. tudo se reduziu a uma tirinha de papel. Quando se acharam em frente a um dos portões da Exposição de EarPs Court viramse bloqueados por uma grande multidão. — Embarafustou pela Exposição a dentro! respondeu o guarda. Ruas e mais ruas. O homem que antes se chamava Gogol não disse nada. ela veio cair muito atrás. desorientados pelas inúmeras esquinas. para onde foi? inquiriu Syme. K. na qual estava escrito: Parece que a palavra deve ser: rosa. escorregando para o chão. Mas o Presidente havia desaparecido. porém. CHESTERTON lança uma bola ao ar e se prepara para recebê-la de volta. — E o homem. e Syme viu o Albert Hall em Kensington quando se julgava ainda em Paddington. E atrás dele. que atraía multidões às janelas e separava o tráfego para a direita e para a esquerda. bem perto do fiacre em que viajava Gogol. embaraçado. colaborando nesta insana publicidade. Na pressa em que iam. notou que todo o seu volume consistia em trinta e três pedaços de papel velho enrolados uns sobre os outros. como costumam fazer essas criaturas disformes. mas os movimentos de suas mãos e de seus pés foram os de quem esporeia um cavalo. mandou parar o fiacre para ir apanhá-la. Não tardou que fossem tomados por participantes de um desfile ou mesmo de um anúncio de circo. Mas na velocidade em que iam. movido ou pela débil esperança de encontrar uma pista ou por algum impulso incompreensível. bairros e mais bairros. Era uma volumosa bola de papel. e este. E acrescentou com um ar ofendido: É . reunida em torno de um enorme elefante que resfolegava e se sacudia. a êle dirigida.150 G. corriam desapoderadamente os três fiacres. Eles perderam-na de vista.

abriu-o e leu o que estava escrito: Quando o arenque vai na corrente. e o balão. como um balão de brinquedo. enraivecido. erradio como uma bôlhã de sabão. Sobre a Exposição. O balão. justamente debaixo da cesta. — Por que eu devo olhar para um balão cativo? bradou o Secretário. Provérbio Rústico. o cordel se partiu. solto. — Com seiscentos mil diabos! guinchou o Secretário. e foi-lhes fácil enxergar a enorme cabeça branca do Presidente. dirigido Ao Secretário do Conselho Central Anarquista. Todos ergueram os olhos. Por que você deixou que êle entrasse? É comum visitarem sua exposição pessoas montadas em elefantes malucos? É? — Vejam! gritou Syme. — Deus me proteja! disse o Professor com a inflexão senil que nunca pôde desligar de sua barba esbranquiçada e de seu rosto apergaminhado. apontando frenèticamente. Deus me proteja! Parece que senti alguma coisa cair na copa do meu chapéu. Olhem aquilo ali! — Olhar o quê? volveu o Secretário afobadíssimo. que os espreitava com um olhar benévolo. O Secretário ri contente. Êle se meteu ali dentro! e fechou os punhos contra o céu. veio colocar-se precisamente em cima deles. e me entregou isso. Pediu que eu lhe segurasse o cavalo. O que é que há de extraordinário num balão cativo? — Nada. . Um segundo depois. carregado talvez por alguma brisa passageira.O MOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 151 um cavalheiro engraçado. O Secretário. — Ora bolas! começou o Secretário. E estendeu. o balão pairava enfunado. só que esse não é cativo. um pedaço de papel dobrado. disse Syme. Quando o arenque voa e pinota. com repugnância. amarrado a um cordel. O Secretário bate a bota. pôs-se a flutuar. — O baião cativo! disse Syme.

152 G. K. Esse maldito balão tem que cair em alguma parte. apenas para deparar com o desenho de um nó cego e as palavras: Tua beleza não me deixou indiferente. — Narciso. e depois Syme falou. mordendo o beiço: — Ainda não estou vencido. Houve um curto silêncio. CHESTERTON Levantou uma trêmula mão e da aba do chapéu tirou um papelzinho amarfanhado. Sigamo-lo! . Abriu-o negligentemente.

nos fiaores. Que arrebente! Não ficaria tão arrebentado como no dia em que eu pudesse abecá-lo. Eu não quero não. atalhou Dr. Isso podia arrebentar o velhote. Narciso! . não deixa de ser muito bonito! — Muito! De uma beleza estranha e singular! disse o Professor. — A despeito de tudo. — Que arrebente! redargüiu o vingativo Professor. amassado por um ramo travesso. graças a espinhos agressivos. a sobrecasaca. e o barro inglês enlameara seu colarinho. No começo da caminhada. comentou Syme. por todo o sul da Inglaterra.CAPITULO XIV OS SEIS FILÓSOFOS Cruzando campinas verdejantes e transpondo sebes vivas. até que cada um se transmudou numa figura tão desalinhada que podia ser confundida com a de um vagabundo. O chapéu de seda. Conseqüentemente. Mas logo convenceu-se da persistente recusa do balão a seguir as estradas e da muito mais persistente recusa dos cocheiros a seguir o balão. o otimista do grupo sugerira que seguissem o balão. Eu quero é ver explodir essa estúpida bola de gás. os incansáveis posto que exasperados viajantes atravessaram bosques escuros e palmilharam terrenos cultivados. que na vermelhidão do ocaso parecia enfeitada como uma nuvem crepuscular. As verdes colinas de Surrey testemunharam o trágico desfecho do admirável terno cinzaclaro com que Syme havia saído de Saffron Park. mas êle fazia avançar a barbicha amarela com taciturna e furiosa obstinação. descera ao nariz. rasgara-se nos ombros. os seis poeirentos detetives afastaram-se cerca de cinco milhas de Londres. — Não. sem tirar os olhos daquela flutuante bola de gás. Buli.

É porque êle era tão gordo e tão leve. — Por quê? indagou Syme impaciente. — E por isso. Há nisso uma espécie de alegria. disse Dr. Não quero que se dê uma explosão no balão do velho Domingo porque. disse o Secretário. concluiu Buli. adeja no espaço como um gafanhoto. não quero vê-lo arrebentado. seja como fôr.. Não. é uma verdade integral: "Por que saltais . enquanto a força suprema está na leveza. um dia de primavera prova que suas brincadeiras são de muito bom gosto. continuou Dr. Não entendo patavina desse negócio de ser êle o mesmo homem que nos deu os cartões azuis. Mas confesso que sempre tive minhas simpatias pelo velho Domingo. disse Dr. malvado como é. Buli. Exatamente como um balão. Agora sei o que quero dizer. ou qualquer tolice dessa ordem. não é uma admiração pela força. Mas não é a isso que me refiro. — Bem. — Ah. Parece-me que isso torna tudo absurdo. de que os outros tanto se riem. Nunca sentiram isso num dia de primavera? É verdade que a natureza gosta de fazer das suas. Como posso explicar esta minha esquisita simpatia? O certo é que ela não me impediria de combatê-lo até no inferno! Será que me torno mais claro dizendo que gostava dele porque êle era tão gordo? — Não. é que não posso deixar de admirar o velho Domingo. — Não sei se acredito ou não acredito. mas êle eu acho que poderia dançar ao lado de uma sílfide. Você acredita mesmo naquela história de êle ser também o homem do quarto escuro? Domingo seria capaz de inventar que era qualquer coisa. porque êle mesmo é tão engraçado como um balão. É como se êle fosse um garoto gorducho e levado da breca. K. A gente acha sempre que as pessoas gordas são pesadas. Buli. CHESTERTON — Apesar de tudo. Eu mesmo nunca li a Bíblia. Buli.. A força moderada se manifesta pela violência. disse Syme levantando os olhos. Isso faz lembrar as velhas especulações: que aconteceria se um elefante pudesse adejar no espaço como um gafanhoto? — Nosso elefante. isso não esclarece coisa nenhuma. já sei porque era! exclamou Buli. atrapalhado.154 G. mas aquela passagem. mas. como se êle trouxesse algumas boas novas. — O quê? bradou amargamente o Secretário.

Lancei os apelos mais veementes e fiz as mais eloqüentes perguntas. um lugar infinitamente mais aviltante do que a divertida escuridão em que vive nosso chefe. E você ainda vem pedir-me para perdoá-lo!?! Não é pouco sermos ridicularizados por alguma coisa que é ao mesmo tempo inferior e mais forte do que nós. — Por certo vocês estão exagerando demais. Encontrei-o fumando num cômodo lôbrego. Foi quando me dei conta de que aquela montanha bestial estava se sacudindo de riso solitário. e eu julguei-a movida por uma enfermidade secreta. escolheu-me porque eu tenho o ar desvairado de um conspirador. a Coisa começou a mover-se.. após longo silêncio. disse de mim para mim que era já alguma coisa que tal monstro pudesse sentir-se miserável. Quando vi Domingo pela primeira vez. escuro e amorfo. interrompeu a voz clara do Inspetor Ratcliffe. Porque admiro Domingo?. porque meus olhos têm um brilho turvo. Desde pequeno eu sou elemento deletério e meio doentio. Talvez seja por que você é melhor do que eu e não conhece o inferno. altas colinas?" Sim.. a mais vergonhosa. Então.. Mas também deve haver em mim algo que corresponda ao sistema nervoso de todos esses anarquistas. com as janelas cerradas. Estava sentado num banco. No instante lembrei-me de tudo que tinha lido a respeito desses corpúsculos repugnantes que constituem a origem da vida: seres marinhos e protoplasmas. Diante de seus estremecimentos. mesmo quando estou alegre. O Presidente Domingo é um troço terrível para a inteligência. mas fisicamente não é essa curiosidade Barnum que vocês apregoam. as colinas saltam mesmo. porque meu sorriso é torto. O homem que vive na escuridão e que nos escolheu a todos. vestido com um casaco de xadrez cinzento.. torturado: — Você não sabe quem é Domingo.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 155 assim. a mais extravagante. não tive dele essa impressão de aérea vitalidade. inerente à natureza das coisas. Falou-me de maneira simples. Êle me recebeu num gabinete comum. Como poderei dizer-lhes?. Ouviu minhas palavras sem falar nem se mover.. Parecia tomar a forma final de toda matéria.. ao menos tentam. mas viva. bom. e depois o Secretário tomou a palavra e falou com um tom de voz estranhamente. Mas vou dizer-lhe o que é que chama um pouco a atenção em Domingo.. em pleno dia. Seu . Movia-se como uma gelatina asquerosa.. mas de algo grosseiro e triste. Houve uma longa pausa. um monte de carne. Porque êle é tal qual um Saltimbanco. e era de mim que ela ria.

e prosseguiu: . mas ele é distraído. essa combinação de alheamento e crueldade. Ou melhor. Às vezes seus grandes olhos fugurantes ficam completamente cegos. porque não podemos imaginar um malvado sozinho consigo mesmo. e não deu resposta.156 G. É um homem que. Tudo isso é muito difícil de explicar. Reparem que a distração é perigosa num sujeito mau. quando vi a cara de Domingo. nos pede desculpas. disse Gogol singelamente. os homens experimentaram essa sensação. Mas como imaginar um homem distraído que. E você. do mesmo modo que não encaro o sol ao meio-dia. Algumas vezes. nem posso pensá-lo claramente. Quem seria capaz de passar dez horas mortais numa sala em companhia de um tigre distraído? — E você. ao dar pela nossa presença. Professor? O Professor caminhava de cabeça baixa. arrastando sempre a bengala. a falar com muita lentidão. em minha juventude levei uma vida muito ampla e muito desarrumada. tudo parece em ordem. — O que eu penso não sei exprimir claramente. Durante horas êle esquece que você está presente. nos mata? É isso que irrita os nervos. que tanto podiam ignorá-los como matá-los. — Está bem. — Acorde. Não podemos imaginar um malvado que seja honesta e sinceramente um devaneador. Parou um pouco. acheia-a. enfim. pois sabiam-se cercados de animais inocentes e impiedosos. ao dar pela nossa presença. Pois bem. Para nós o malvado é um homem que está sempre atento ao que se passa à sua roda. A cara era tão grande que ninguém poderia enfocá-la ou vê-la como uma cara. isso é um ponto de vista. Professor! disse Syme alegremente. que já não era olho. Um homem distraído é um homem afável. O olho estava tão afastado do nariz. Gogol. disse Syme pensativo. atravessando florestas virgens. K. A boca era tão individualizada que se poderia tomá-la por uma coisa à parte. O Professor pôs-se. arrastando a bengala. que pensa de Domingo? perguntou Syme. como todo o mundo acha. CHESTERTON quarto é asseado. Mas é mais ou menos o seguinte. Diga-nos o que pensa de Domingo. suas roupas são asseadas. — Em princípio. muito ampla mas também bastante desarrumada. que diz. Como vocês sabem. não penso em Domingo.

e o budismo não é um credo. Se alguém no céu tiver um rosto como esse eu o reconhecerei. disse Buli. as dúvidas do materialista não passam de tolices! Domingo me ensinou as piores dúvidas.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 157 — Mas vamos assim mesmo. Cada um de vocês vê Domingo de uma maneira bem diferente. que a janela estava a dez jardas de distância. correu para a direita e para a esquerda. a duvidar da existência de qualquer rosto. Talvez um disco negro daqueles seus óculos brutais estivesse bem pertinho e o outro cinqüenta milhas além. as mais dolorosas. Sua cabeça tinha um toitiço difícil de imaginar num homem. para Gogol é o sol ao meio-dia. Entretanto. Sou um budista. Seu pescoço e seus ombros eram brutais. que juntas formavam um rosto inteiro e inconfundível. é um rosto ou uma combinação de perspectivas. de certo modo. continuou Syme lentamente. não creio que você possua realmente um rosto. Syme. — Quando vi Domingo pela primeira vez. como fazem essas miragens fortuitas. — Vocês observaram uma particularidade interessante em todos os seus depoimentos? perguntou Syme. Meu pobre Buli. só via as costas. que. — Ande um pouco mais depressa. Não se importe com o balão. Para Buli êle é como a terra na primavera. Buli. quando dei mais alguns passos. Não tenho bastante fé para crer na matéria. O Professor diz que Domingo é como uma paisagem mutável. que a lâmpada estava a dez centenas de jardas e que a nuvem estava muito além do mundo. mas é ainda mais estranho que eu também faça do Presidente Uma idéia original. Os olhos de Syme continuavam fixos no orbe errante. suponho. uma janela iluminada e uma nuvem. e o Inspetor a solidão das florestas virgens. pressentia que êle era o sujeito pior do mundo. Não sei se o seu rosto. Parecia mais o . como os de um deus simiesco. o rosto dele forçou-me. é uma dúvida. divisei uma lâmpada. entretanto cada um só achou uma coisa com que compará-lo: o próprio uni verso. avermelhado pelos reflexos do pôr do sol. E assim. parecia um mundo mais róseo e mais inocente. Uma noite em que eu caminhava por uma estrada. É estranho. E vendo-as. verifiquei que não havia rosto. Da mesma maneira me escapou o rosto de Domingo. O Secretário recordou o protoplasma informe. e que também compare Domingo com o universo. as dúvidas de um espiritualista. Ah.

Você está se sentindo bem? — Era como o rosto de um antigo arcanjo. E admiti que aquela figura que corria à minha frente era realmente uma figura que corria de costas. convenci-me de que êle era um animal. dançando enquanto corria. não porque fosse mau. Eu vira suas costas. observou sonhadoramente o Professor. — Vamos! disse Dr. mesmo de relance. fico a pensar que as costas são uma simples zombaria.158 G. Buli sobressaltado. Mas se lhe vejo o rosto. — Pan. — E você ainda teve flmpo para pensar? perguntou Ratcliffe. assustou-me porque era belo. — Desde então. era um deus e um animal. . O mal é tão mau que só podemos julgar o bem um acidente. ficando diante dele. continuou Syme como se falasse consigo mesmo. Lá estavam os mesmos cabelos brancos. — Syme! exclamou o Secretário. distribuindo justiça depois de guerras heróicas. ao vê-lo da rua. De repente apoderou-se de mim a idéia de que aquele toitiço cego. Havia riso nos seus olhos. Quando olho para suas costas horrorosas tenho a impressão de que seu rosto nobre é apenas uma máscara. para um pensamento sinistro. — Horrível! exclamou Dr. e quando me vi diante dele compreendi que êle era um deus. porque era bom. — Foi então que aconteceu o inesperado. Mas tudo isso atingiu o auge ontem. e é também o mistério do mundo. mas uma fera vestida com as roupas dos homens. Buli. que eu contemplara da rua. quando êle estava sentado na varanda. Seu rosto me assustou. um rosto terrível. sem olhos. que me fitava. Ao contrário. logo me passou pela cabeça a revoltante fantasia de que ele não era um homem. — Tempo suficiente. replicou Syme. era realmente seu rosto. mas não porque fosse brutal. De fato. liso. e em sua boca honra e tristeza. os mesmos ombros enormes. o bem é tão bom que somos levados a crer que o mal poderia ser explicado. vi seu rosto em plena claridade. Depois entrei no hotel e. da rua. como assustou todo o mundo. K. Mas. quando persegui Domingo no fiacre e me coloquei atrás dele todo o percurso. esse tem sido para mim o mistério de Domingo. C H E S T E R T O N toitiço de um boi. vestidos de cinzento.

É que do mundo só conhecemos as costas. para se divertir. sentenciou o Secretário baixando a vista. E agora eu sei que êle era meu amigo. Vou dizer-lhes qual é o segredo do mundo. O homem chamado Gogol. quando botou a cabeça fora do fiacre e fêz uma careta parecida com uma gárgula. mas as costas de uma nuvem. — Vejam! berrou Buli esganiçadamente. percebi que êle se portava como um pai brincando de esconder com seus filhos. como um sol que se põe.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 159 — Horrível não é o termo. Não vêem que tudo está voltado de costas e esconde o rosto? Se pudéssemos dar a volta e ficar de frente. — Não se esqueça. Syme. feito uma alma penada. Aquilo não é uma nuvem. Se foi jogado para fora da cesta. Os protros fazem assim. Vocês não o verão morto assim tão facilmente. observou o Secretário. endireitar-se e depois mergulhar vagarosamente atrás das árvores. falou com naturalidade: — Caiu ali adiante! Vamos para lá! . Você parece pensar que Pan é tudo.. Em grego. — Pan outra vez? disse irrittio Dr. que estivera absorto. Tudo é visto por trás. e franziu a testa ao contemplar suas botas estragadas. — Êle morreu! exclamou. Isso não é uma árvore. — Essa brincadeira está indo longe demais. — Mas escutem! gritou Syme com extraordinária ênfase. Foi exatamente o pior instante da minha vida. e Pan também fazia. disse o Professor. de que êle também significa Pânico. e por isso parece brutal. e vivia no quarto escuro! — Morreu!? roncou o Secretário. sem ouvir nenhuma dessas frases. porque êle não tinha tirado os olhos do balão. atirou de repente as mãos para o alto. Pan quer dizer: tudo. — E castanholando os cascos. nós o encontraremos espojando-se no chão como um potro e escoiceando o vento. E dez minutos depois. Viu o grande globo luminoso vacilar no céu. Buli. — E é mesmo. disse Syme.. O balão vem caindo! Não havia necessidade de gritar por Syme. mas as costas de uma árvore. disse o Professor. que quase não falara durante essas estafantes jornadas.

Marchava tranqüilamente. que de súbito revelou a branca luminosidade de uma estrada. mas usava bragas. na estrada. entretanto. viram a branca estrada obstruída pelo que lhes pareceu ser uma . Syme esquadrinhou o recesso do bosque virente em que se encontrava. Depois de uma pausa. as árvores pareciam árvores comuns. quedando-se imóvel. Os outros seguiram-no a passo mais vagaroso e num ar de dúvida. C H E S T E R T O N E acrescentou. Pelo relvado caminhava. A côr do traje era aquele matiz tirante a azul. K. escuro e dourado. Vestia-se com apuro. Examinou o misterioso embaixador dos pés à cabeça. mas apenas descobriu que o casaco do homem era da mesma côr das sombras purpúreas e que o rosto era da mesma côr do céu rubro. As sebes eram sebes comuns. — Cavalheiros. curvado sobre um báculo comprido e estranho como um cetro. disse o estranho. uma carruagem de meu patrão os espera aqui perto. Meu patrão acaba de entrar em casa. — Quem é seu patrão? perguntou Syme. em direção a eles.160 G. Com renovada energia encaminhou-se para as árvores distantes. à moda antiga. tinha-se a impressão de que seu cabelo grisalho fora empoado. — Mostre-nos o lugar. se não fosse a neve prateada de sua cabeça. um homem alto. respondeu o homem respeitosamente. disse êle. êle se sentia como alguém que tivesse caido prisioneiro no país das fadas. Quando os seis extraviados chegaram a essa passagem. Seus trapos e retalhos esvoaçavam ao vento. hem? Seria mais uma de suas pilhérias. que se vê em certos recantos da mata. E sem uma palavra o homem do casaco violeta deu as costas e se dirigiu para uma abertura da sebe. Quase simultaneamente os seis descobriram que não estavam sós naquele sítio. êle poderia ser tido com uma das sombras do bosque. falou o Secretário: — Onde está essa carruagem? — Ela os aguarda desde alguns momentos. violeta e cinza. À primeira vista e levando-se em conta suas bragas. disse Syme lacônicamente. — Informaram-me que os senhores sabiam o nome dele. com um gesto de desconsolo: — Agora se ele nos enganou e morreu.

uma para cada componente do bando andrajoso e miserável. através da movediça escuridão do arvoredo. com um breve resplendor de aço. uma sensação de prazer integral. Os seis aventureiros tinham passado por muitas aventuras. — Que significa tudo isso? perguntou Buli a Syme quando se separavam.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 161 longa fileira de carruagens. É outra das brincadeiras de Domingo? — Sei lá? respondeu Syme enquanto afundava extenuado nas almofadas de sua carruagem. Todos trajavam uniforme azul-cinza e todos revelavam uma certa categoria de altivez e liberdade que habitualmente não se distingue nos lacaios de um fidalgo e sim nos oficiais e embaixadores dum grande monarca. Mas se fôr. Então começou a tomar conta dele. que uma sebe é como um exército humano. mas nenhuma os impressionara tão fortemente como esta última aventura do conforto. e logo que o encargo lhe fosse tirado das mãos êle se derreasse nas almofadas. em total abandono. Nada menos de seis carruagens estavam à espera. semelhantes àquelas que se vêem nas proximidades das casas de Park Lane. disciplinado mas vivo. Também não podiam supor quem era o ancião que os havia conduzido. mas bastava-lhes a certeza de que fora êle quem os conduzira para as carruagens. Era próprio dele que enquanto ti vesse de abrir caminho com sua barbicha êle o fizesse com fúria e determinação. Muito lenta e vagamente deu tento das estradas suntuosas por onde a carruagem o transportava. É uma brincadeira de bom gosto. cada um que entrasse na carruagem. Sentiu que as sebes eram o que as sebes devem ser: muros vivos. esta repentina suavidade os perturbava. e gradualmente subiam uma colina que. Viu que atravessavam os portões de pedra do que podia ser um parque. Não podiam sequer imaginar o que eram as carruagens. Todos eles estavam afeitos a asperezas. Syme deixava-se levar. era-lhes suficiente saber que eram carruagens. Viu os altivos olmos que se elevavam atrás das sebes e . Todos os servos (como acontece nas cortes) traziam espadas à cinta e as desembainhavam para saudar. e carruagens com almofadas. vencido por um verdadeiro colapso. era um pouco mais ordenada que uma floresta. é uma daquelas brincadeiras de que você fala. embora arborizada de ambos os lados. como de um homem que lentamente desperta de um sono reparador. Ao lado das carruagens perfilavam-se magníficos lacaios.

disse o camareiro. Quando as carruagens rodaram para um portão largo. que fora designado para seu camareiro. foi então que deu pela figura sinistra em que se transformara: o sangue escorria-lhe da face. senhor. algo que se assemelhava a uma extensa e baixa nuvem crepuscular e que era uma casa extensa e baixa. as roupas estavam desfeitas em compridos e ondulantes farrapos. suavizada pelos macios reflexos do crepúsculo. atrás do respeitoso criado. É desejo dele que o senhor vista o traje que eu preparei. Como faltam ainda algumas horas para a ceia. — Meu patrão me incumbiu de avisar ao senhor. senhor. saiu a recebê-los. mas usando uma estrela de prata no peitilho cinzento do casaco. baixo e cavernoso. . abeirou-se de um espelho grande para endireitar a gravata ou alisar os cabelos. De roupa só tenho esta do corpo. Ou era a copa deste olmo ou aquela vereda tortuosa. Este impressionante personagem dirigiu-se ao boquiaberto Syme: — Refrigerantes o esperam em seu quarto. segurando duas longas tiras da sobrecasaca de fascinantes festões. Imediatamente viu-se diante de um enigma. onde o ramo o ferira. — Roupa! exclamou Syme sardônico. êle espera que o senhor não recuse uma garrafa de Borgonha e um pouco de faisão frio. K. um outro homem. e. um homem de azul.162 G. fêz que ia imitar o rodopio de uma bailarina. Com o instinto habitual de sua classe. o certo é qúe cada um afirmaria que podia recordar este lugar antes de poder recordar-se de sua mãe. disse com toda a solenidade: — Sua roupa está pronta. que nascia sob a forma de uma simples pergunta: como êle conseguira chegar ali e como conseguiria safar-se? Nesse mesmo instante. e êle avistou. de súbi to. ou era um trecho deste pomar ou o feitio de uma janela. os cabelos eriçavam-se como talos amarelos de erva espessa. que haverá um baile a fantasia esta noite. envergando o mesmo uniforme. mas sossegadamente. Depois a carruagem tomou por um atalho. subiu as vastas escadarias de carvalho. e entrou numa série de cômodos que pareciam estar reservados especialmente para êle. CHESTERTON vagamente pensou nos meninos felizes que trepavam neles. Mais tarde os seis amigos cotejariam suas impressões e disputariam entre si. mas conviriam misteriosamente em que este lugar lhes lembrava a infância. Syme. ainda sob a influência daquele sono mesmeriano de estupefação.

Temos aqui uma Bíblia à sua disposição. disse o outro solícito. Era aquela que associa o quarto dia da semana à criação do sol e da lua. —.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 163 — Faisão frio é uma coisa boa. disse Syme. Onde é que êle está? O criado ergueu de cima de uma espécie de otomana uma longa túnica azul-pavão. sim. brilham também nos outros dias. não entendo coisa nenhuma. — O senhor me permite? disse o camareiro. Vai até ao queixo. e Borgonha é uma coisa supinamente boa. . Êle tinha toda a galhardia de um trovador. -— O senhor vai vestir-se de Quinta-feira. Embora afetasse desprezo pela fantasia. Mas permita-me que eu pergunte por que é que estarei vestido especialmente de Quinta-feira se envergar uma vestimenta esverdeada. disse Syme pensativo. do mesmo feitio de um dominó. Syme leu-a maravilhado. disse Syme suspirando. — Mas é quente. Quem é essa gente que providencia faisão frio e Borgonha. Lembro-me bem de ter visto a lua numa terça-feira. contavamse os dias da semana a partir de um domingo cristão. senhor. explicou o camareiro afàvelmente.Isso está indo de mal a pior. formando um ângulo. entretanto. roupas verdes e Bíblias? Providencia tudo? — Tudo. e com um dedo rígido e respeitoso apontou uma passagem do primeiro capítulo do Gênesis. Aqui. respondeu o criado gravemente. Estou tão acostumado a aventuras desconfortáveis que as aventuras confortáveis me abatem. Ao sair do quarto atirou o manto por cima dos ombros. Devo ajudá-lo a vestir-se? — Oh. venha de lá esse timão! disse Syme impaciente. — Bem. se não estou enganado. enquanto se sentava numa cadeira. Mas o fato é que eles não me apetecem tanto quanto me apetece saber que diabo significa tudo isso e que traje é esse que você preparou para mim. — Vestir-me de Quinta-feira! repetiu Syme meditativo. Não me parece uma roupa quente. e ao descobrir que tinha de levar uma espada reviveu um sonho infantil. esmaltado na frente por um vasto sol de ouro e salpicado aqui e ali de crescentes e estrelas cintilantes. toda pintalgada de sóis e de luas? Esses astros. A roupa do Quinta-feira é extremamente quente. A espada destacava-se. pois esses disfarces antes revelavam que disfarçavam. sentiu uma liberdade e uma naturalidade raras em seus movimentos quando o traje azul e ouro o cingiu.

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Se Syme pudesse ver a si mesmo teria compreendido que êle também. em cujo centro incidia uma faixa ou listão de puríssima alvura. O filósofo pode às vezes amar o infinito. Pois se o Secretário representava o filósofo que ama a Luz primeira e informe. . e Syme sentiu também quão fielmente este modelo de alvura e negror puríssimos exprimia a alma do pálido e austero Secretário. parecia ser êle mesmo e ninguém mais. O homem jamais parecera tão nobre. mas a criação do sol e da lua. no meio de toda a comodidade e hospitalidade do novo ambiente. Syme era o tipo do poeta que aspira sempre a modelar a luz em contornos específicos. Não havia necessidade de Syme explorar a memória ou a Bíblia parar recordar que o primeiro dia da criação assinalava o aparecimento da luz no seio da treva. pela primeira vez. os olhos deste homem continuavam encarniçados. Syme quase não se surpreendeu ao notar que. atravessava o corredor. O conjunto lembrava uma vestimenta eclesiástica muito severa.CAPITULO XV O ACUSADOR Quando Syme. a passos largos. Nem o cheiro da cerceja nem a fragrância dos pomares podia impedir o Secretário de formular uma pergunta racional. Envolvia-o um manto comprido de intenso negror. a fracioná-la em sol e estrela. Para êle o grande momento não é a criação da luz. como um único raio de luz. o poeta ama sempre o finito. patenteando toda aquela inumana veracidade e todo aquele álgido furor que tão facilmente o levavam a guerrear os anarquistas e tão facilmente lhe permitiam misturar-se com eles. A própria veste sozinha teria sugerido o símbolo. viu o Secretário de pé no alto de um majestoso lanço de escadaria.

uma macieira. na qual se estendiam peixes de olhos esbugalhados e extra- . a dançar uma eterna jiga. uma macieira dançante. entretanto. vestia uma roupagem violácea. bailava como num carnaval. Havia um poste dançante. Syme não podia contemplar um desses objetos — um poste de luz. exibindo as roupagens mais variadas. que se vestia de verde primaveril. viam-se sete poltronas: os tronos dos sete dias. ou um moinho de vento — sem pensar que era um folião desgarrado dessa folia de mascarados. Dir-se-ia que a indômita melodia de algum músico louco pusera todas as coisas comuns. A simplicidade de Gogol ou Terça-feira. uma veste que se abria em sua fronte e caia aos seus pés. com estranha emoção. um outro vestido de elefante. havia uma espécie de barranco verde. desde o momento em que êle corria desenfreado pelo caminho do Jardim Zoológico. semelhante aos terraços dos jardins de outrora. E muito tempo depois. Syme julgou ver em cada uma daquelas alucinadas fantasias uma imitação das formas da natureza. mil outras fantasias do mesmo quilate. dispostas em forma de crescente. K. O Professor. dos campos e das ruas. os dois últimos pareciam conservar o fio de suas grotescas aventuras. repleto de archotes e fogueiras tremeluzentes. O desenho de seu traje figurava um exuberante emaranhamento de árvores. no repouso da maturidade. cujo dia era aquele em que os pássaros e os peixes — as formas mais rudimentares de vida — foram criados. cujo bico era duas vezes tão grande como êle mesmo — o esquisito pássaro que se fixara em seu espírito como uma interrogação viva. Êle corporificava aquele terceiro dia em que foram criadas a terra e as coisas verdejantes. Num canto do relvado. animado pelos dançarinos. Havia um homem vestido de moinho de vento com velas enormes. Através de outra passagem ampla e baixa foram conduzidos para dentro de um antigo e espaçoso jardim inglês. Gogol e Dr. CHESTERTON Quando desciam juntos a larga escadaria deram com Ratcliffe. A isso se acomodava admiràvelmente o rosto quadrado e sensível. onde uma vasta multidão. outro vestido de balão. Ao longo desse terraço. um dançarino vestido como um imenso bucero. cinzenta e prateada. Syme viu ainda. estava bem simbolizada por uma veste que reproduzia a divisão das águas. Havia. como um lençol de água.166 G. Buli já tinham ocupado seus lugares e o Professor ia ocupar o dele. um barco dançante. com seu amistoso cinismo.

como se o céu se tivesse rompido em cima de sua cabeça. Um por um os viandantes galgaram o barranco e foram colocar-se em suas estranhas cadeiras. Os homens para quem esses tronos foram reservados eram homens coroados com extraordinários lauréis. ou se transportavam para aquele recanto do edifício onde fumegavam. cálidas e aromáticas misturas de cerveja velha ou vinho. em possantes caldeirões. Rescostava-se na cadeira com um largo sorriso — o quadro de um otimista em seu elemento. Syme sentava-se à esquerda dela e o Secretário à direita. Passou silenciosamente como uma sombra e veio sentar-se na cadeira do centro. Por fim. de branco imaculado e terrível. podia ser uma fada bailando com um marco postal. vinha da mascarada uma aclamação entusiástica. de certo modo. Quando cada um se sentava. Retiniam as taças. Durante muito tempo — parece que durante horas — a imensa mascarada saracoteou e sapateou ao ritmo de uma marcha alegre e arrebatadora. O Secretário. mas cada caso era. agitavam-se os archotes e chapéus emplumados eram lançados para o ar. a turba espessa foi rareando. Buli. Dr. olhando para Syme por cima do trono vazio. em vermelho e ouro. rugia numa cesta de ferro uma gigantesca fogueira que iluminava muitas milhas em derredor. No instante mesmo em que Syme ouviu estas palavras notou no oceano de fisionomias humanas que se exaltavam diante dele um murmúrio de espanto e admiração. Mas a cadeira do centro estava desocupada. o último dia da criação. O clarão desse lume doméstico alcançava a face de vastas florestas pardas ou escuras e parecia mesmo encher de calor o vazio . Cada par era um romance isolado. sobre uma armação negra do telhado. e um capacete onde se via um homem rampante. usava um casaco coberto de animais heráldicos. tal como aquela com que as multidões recebem os reis. Vestia-se simplesmente.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 167 vagantes pássaros tropicais. e seus cabelos eram como uma chama prateada em sua fronte. mistura de imaginação ilimitada e de dúvida. Era Domingo. ou uma camponesa Rançando com a lua. tão absurdo como Alice no País das Maravilhas e tão grave e delicado como uma história de amor. comprimindo os lábios: — Não sabemos ainda se êle terá morrido no campo. disse. Acima desses vasos. Pares enveredavam pelos passeios do jardim.

e o impenetrável prosseguiu: — Mas vocês foram homens.-implacável. e fui para vocês apenas uma voz que exigia coragem e virtude sobrenatural. disse. ou no princípio do mundo. e que você. ilíada sobre ilíada. Nenhum deles pronunciara uma palavra. e não a ouviram de novo. Houve completo silêncio no jardim iluminado pelas estrelas. Eu estava sentado na treva. embora todo o cosmos. Em breve. ou entravam rindo em algazarra nos corredores daquela mansão centenária. juntos. no céu. Suponho recordar os séculos da guerra heróica em que vocês foram sempre heróis: epopéia sobre epopéia. nós que nos temos amado uns aos outros tão amargamente e nos temos combatido tanto tempo. negava-a. e vocês sempre como irmãos d'armas. que os enviei para a guerra. invocou meu nome na hora do desespero. Não esqueceram intimamente a noção de honra. Finalmente. cruzou espadas com o Rei Satã. e então o Secretário de negras sobrancelhas. volveu-se em sua cadeira para contemplar Domingo. em pouco tempo. — Comeremos e beberemos mais tarde. eu mesmo neguei-a. transformado em máquina de tortura. o último desgarrado folião entrou em casa gritando pelos companheiros. Fiquemos um momento aqui.168 G. A fogueira apagou. Syme agitava-se vivamente em sua cadeira. Sei que vocês estiveram às portas do inferno. onde não existe coisa criada. mas tudo o mais continuava em silêncio. CHESTERTON da abóbada noturna. Quinta-feira. Ouviram minha voz no escuro. e perguntou com áspera inflexão: — Quem e o que é você? . Sei que você. Então Domingo pôs-se a falar. Não sei se foi recentemente (porque o tempo nada é). a terra e o céu negavam-na. Apenas ouviam em silêncio o zumbido dos insetos e o canto longínquo de um pássaro. os grupos negros agregavam-se cada vez mais em volta dos grandes caldeirões. K. Os sete estranhos personagens ficaram sós. tentasse extirpá-la de seus corações. como sete estátuas de pedra assentadas em cadeiras de pedra. a fogueira também arrefeceu. toda a sabedoria humana negava-a. pouco depois. E quando os encontrei em plena luz do dia. e lentas e fortes as estrelas brilharam no céu. apenas quatro. mas tão suavemente que se podia pensar que eles antes continuavam que iniciavam uma conversação. O sol. Quartafeira. havia somente dez ociosos no jardim. Parecia que eles não tinham pressa de falar. Todavia.

cuja voz clara se ouviu: — Parece-me tão estúpido que você tenha estado dos dois lado e tenha combatido a si mesmo! Buli disse apenas: — Não entendo nada. Sobre esta meia-lua infla- .. eu posso perdoar a Deus Sua ira. — Não. como se o interrogasse. mas sou feliz. eu gostaria de conhecer. mas também pelas belas correrias e pelos combates leais. porque era também nosso maior inimigo? Nós nos lamentávamos e fugíamos aterrorizados. Contudo. O fogo moribundo na grande trempe emitiu um derradeiro e alongado clarão. Fincava o queixo poderoso numa das mãos e fitava a distância.. e devemos ouvi-lo também. Você permitiu que eu me perdesse a poucos passos do inferno. mas não posso perdoar a Deus Sua paz. Gogol falou. Pois bem. porque era também Domingo. então. Sei que você é contentamento. reconciliação final. Por fim rompeu o silêncio: — Ouvi suas queixas uma a uma. vou dormir. Minha alma e meu coração sentem-se tão felizes e quietos aqui como este velho jardim. e você é a paz de Deus! Oh. feito uma barra de ouro ardente. disse o Professor com a cabeça entre as mãos. O Secretário ergueu-se de um pulo e com as mãos começou a amarrotar o suntuoso manto. disse o outro imóvel. ou que outro nome se dê a isso. o ferro penetrou em nossas almas. Sou a paz de Deus. Manifesto-lhe minha gratidão. não só pelo vinho e pela hospitalidade. com toda a simplicidade de um menino: — Gostaria de saber porque fui tão maltratado. que se espalhou por todo o escuro relvado. mas minha razão ainda clama. Eu gostaria de conhecer. otimismo. bradou.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 169 — Sou o Sabat. uma ofensa para a luz do sol? Se desde o começo você era nosso pai e nosso amigo. Domingo continuava mudo e imóvel. apenas voltou para Syme seu rosto pétreo. Penso que vem aí outro para lamentar-se. porque não compreendo. e é isso precisamente que não lhe posso perdoar. Se você era o homem do quarto escuro. — Sei o que você é. disse Syme. Domingo olhou Ratcliffe. não estou reconciliado. — Não sou feliz. Na verdade. Domingo ficou calado. não estou tão enfurecido. embora ela destrua as nações.

— Meus cabelos vermelhos. Mas haverá uma alma viva e livre que não deseje derrotá-los. Sei o que são todos vocês. Em seguida. — Oh homem infelicíssimo! exclamou. Sou um destruidor. Um sentimento de compaixão. incendiarão o mundo. disse Gregory. CHESTERTON mada projetavam-se totalmente negras as pernas avançadoras de um vulto de preto. respondeu Gregory. Só que seu traje não era azul. sorridentes. Tente ser feliz. que parecia realmente ter caído no sono. mas autêntico sable. Destruiria o mundo se pudesse. como as chamas vermelhas. Vocês são os poderosos! Vocês são a polícia. Como os criados. os revoltados. sou o verdadeiro anarquista. Parecia usar um belo traje com bragas. disse Syme melancòlicamente. Pensei que odiava tudo mais do que os homens geralmente odeiam qualquer coisa. quase simiesco de seu velho amigo Gregory. Você nunca odiou porque nunca viveu. Foi somente quando êle chegou muito perto dos sete homens colocados no crescente e ergueu o rosto para contemplá-los. mas estou vendo que não odeio tudo tanto quanto o odeio. os homens gordos.170 G. Tudo isso é loucura! O único crime do Govêr- . que Syme viu. eis o verdadeiro anarquista! — Sim. — Eu nunca o odiei. do mesmo modo que os criados da mansão. — Gregory! arquejou Syme quase de pé. dos uniformes azuis cheios de botões! Vocês são a Lei. K. os últimos trovões dessa criatura ininteligível ribombaram. com fulminante nitidez. sem dúvida dizemos toda a espécie de disparates acerca deste ou daquele crime do Governo. vindo das profundezas da terra. excitou Syme e levou-o a falar aos borbotões e sem seqüência. murmurou Buli. — "E vindo um dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor. veio também Satanás entre eles". trazia uma espada à cinta. do primeiro ao último. com os mesmos exuberantes cabelos vermelhos e o mesmo sorriso insultuoso. Ah. e nunca foram derrotados. disse Gregory. Você tem os cabelos vermelhos de sua irmã. ao menos porque vocês nunca foram derrotados? Nós. olhando em volta. — Você! gritou êle. com um grande e ameaçador constrangimento. — Tem razão. que o rosto era o rosto largo.

tremendo da cabeça aos pés. cada um que combate pela ordem pode ser tão bravo e bom como o dinamiteiro. Vocês são os sete anjos do céu. Fomos. Syme levantou-se com um salto. tornando-se maior do que a máscara colossal de Memnon que o fizera gritar de medo quando menino. O que amaldiçôo é a sua segurança. tudo enegreceu. a vocês que governam toda a humanidade. Repilo a calúnia. . cada vez maior. .O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 171 no é governar. pelo menos. Posso responder por cada um dos grandes defensores da Lei que êle acusou. eu lhes poderia perdoar tudo. O pecado imperdoável do poder supremo é ser supremo. ia enchendo todo o Armamento. Depois. — E você. . Estávamos a lamentar nossas inesquecíveis misérias no momento mesmo em que este homem entrou insolentemente para acusar-nos de felicidade. Assim. tal como a que eu. Assim. e nunca provaram das vicissitudes. sim. tudo quanto existe. você terá sofrido alguma vez? Enquanto observava. Pelo menos. eu pudesse sentir que vocês sofreram uma hora de agonia real. . Não os amaldiçôo (embora eu pudesse) por serem bondosos. Assim. não temos sido felizes. E volveu os olhos a fim de observar o enorme rosto de Domingo. Descemos até aos infernos. — Compreendo tudo. Oh. fomos esmagados. Por que todas as coisas desta terra vivem em guerra umas com as outras? Por que cada ínfimo ser deste mundo tem de lutar contra o próprio mundo? Por que deve a mosca combater todo o universo? Por que deve um dente-de-leão combater todo o universo? Pela mesma razão que eu tinha para estar só no terrível Conselho dos Dias. podemos conquistar o direito de dizer a este homem: "Mentes!" Todas as agonias não dão para comprar o direito de dizer a este acusador: "Nós também temos sofrido!" Não é verdade que nós nunca fomos derrotados. que se abria num estranho sorriso. se uma vez. o enorme rosto adquiria uma espantosa proporção. bradou Syme com voz terrível. pelas lágrimas e pela tortura. Não os amaldiçôo por serem vocês cruéis. E antes que a escuridão anulasse completa- . O rosto. Não é verdade que nunca descemos destes tronos. a mentira de Satã pode ser lançada à face deste blasfemo e assim. bradou. Vocês se sentaram em suas cadeiras de pedra e nunca desceram delas. cada coisa que obedece à lei pode partilhar da glória e do isolamento do anarquista.

Só podia lembrar-se de que pouco a pouco e com toda a naturalidade tivera consciência de estar passeando por uma azinhaga ao lado de um companheiro agradável e palrador. conquanto mais tarde lhe fosse sempre possível recordar que desfalecera ante o rosto de Domingo. A experiência de Syme foi. ou se levantam com os membros doídos. Esse companheiro fora parte de seu drama recente. Caminhavam juntos como velhos amigos e estavam entretidos com alguma banalidade. bocejam. Soprava uma brisa tão límpida e suave que se podia até imaginar que ela não provinha do céu. psicologicamente. muito mais estranha. era Gregory. a moça dos cabelos vermelhos e dourados. Sentia que estava na posse de uma inefável boa nova e que ela fazia de tudo uma trivialidade. C H E S T E R T O N mente seu cérebro. não podia lembrar-se do instante em que voltara a si. revestindo tudo de cores claras e tímidas. mas filtrava-se através de uma frincha rasgada no céu.172 G. Instintivamente tomou por uma estrada branca. se estão numa cadeira. Pois. Syme julgou ouvir uma voz distante recitar um lugar-comum ouvido antes nalguma parte: "Podes beber na mesma taça em que eu bebo?" * * * Quando. colhendo lilases antes do café. o poeta dos cabelos vermelhos. Syme maravilhou-se um pouco de ver em ambos os lados do caminho os vermelhos e irregulares edifícios de Saffron Park. Ali viu a irmã de Gregory. mas uma adorá vel trivialidade. os homens despertam de uma visão. e achou-se defronte do gradil de um jardim. K. no sentido físico. se estão deitados no campo. com a gravidade inconsciente e magnífica das moças. . visto que houve realmente. Mas Syme sentia no corpo uma vivacidade sobrenatural e no espírito uma simplicidade cristalina que pareciam superiores a tudo que dizia ou fazia. como se a natureza fizesse uma primeira tentativa em amarelo e uma primeira tentativa em rosa. nos livros. Rompia a aurora. encontram-se geralmente em algum lugar em que podiam ter adormecido. algo de irreal nas coisas que lhe tinham acontecido. Não sabia que andava tão perto de Londres. onde os pássaros madrugadores gorjeavam saltitantes.

Biblioteca São Miguel Arcanjo http://saomiguel.webng.com/ .

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