G.K.

CHESTERTON

O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA

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no mínimo. como o vermelho esfarrapado de uma nuvem ao entardecer. suas pretensões a recanto aprazível eram realmente incontestáveis. Não descobrira novidades . Fora obra de um construtor especulativo. de uma ave. Totalmente edificado com ladrilho brilhante. de barba branca e enxovalhada e de chapéu também branco e enxovalhado. não havia de ser obrigatoriamente um filósofo.CAPITULO I OS DOIS POETAS DE SAFFRON PARK Para as bandas do poente de Londres refulgia. seria levado a cogitar desde logo na singularidade que devia marcar o feitio mental das pessoas que as habitavam. Aquele rapaz de cabelos compridos e vermelhos e de feições impudentes não havia de ser necessariamente um poeta. de pescoço pelado como o. mas. O local era não só aprazível. Com alguma justiça. embora nunca houvesse produzido razoavelmente qualquer gênero de arte. Saffron Park passava por colônia de artistas. Aquele cavalheiro idoso. Aquele cavalheiro científico. tudo ali era artístico. calvo como um ôvo. que pela primeira vez contemplasse aquelas esdrúxulas casas vermelhas. devia fornecer motivos à filosofia alheia. O visitante. que identificava sua arquitetura algumas vezes com o estilo Rainha Elizabeth e outras vezes com o estilo Rainha Ana. E quando encontrasse tais pessoas não ficaria desapontado. mas era irrefutavelmente um poema. Mas. não fazia jus aos ares de cientista que alardeava. o subúrbio de Saffron Park. desde que não fosse tido em conta de miragem. sob a visível impressão de que as duas soberanas eram uma só. se suas pretensões a núcleo intelectual eram um tanto descabidas. ostentava uma fantástica linha de telhados e uma extravagante linha de calçadas. mirão em assuntos de arte. Ainda que os habitantes nada tivessem de "artistas". mas perfeito. um pândego venerável. mas de sonho.

Essa mistura ao mesmo tempo deleitava e abalava os . todo aquele bairro insano parecia projetar-se no espaço como uma nuvem flutuante. O estranho que chegasse a participar de sua atmosfera social teria a sensação de estar participando da representação de uma comédia. os que passavam em frente ao seu jardim podiam ouvir-lhe a voz sonora e didática promulgando leis para os homens e. era literalmente igual à de uma mulher: suavemente encaracolada. Sua atraente irrealidade avultava de modo especial no crepúsculo. o lugar merecia estudos pertinentes e demorados. Nessas ocasiões. enormes lanternas chinesas pendiam de árvores minúsculas como frutos monstruosos e sinistros. Entretanto. Pertenciam quase todas à categoria das vagamente chamadas mulheres emancipadas e proclamavam ali seus protestos contra a supremacia masculina. Nesses momentos. dividida ao meio. tinha de ser examinado menos como uma oficina de artista do que como uma delicada. da qual ainda se guardam vagas recordações e na qual o poeta dos cabelos de fogo foi o herói. Entretanto. E a impressão foi excepcionalmente forte naquela noite. era um homem digno de ser escutado. E Mr.10 G. e o queixo despontava com aspecto desdenhoso e zombeteiro. posto que consumada. mesmo que devesse a gente rir-se dele no fim. quase piedosa. o poeta dos cabelos vermelhos. pois. especialmente. obra de arte. estas mulheres modernas consentiam em regalar um homem com a inusitada cortesia jamais recebida por êle de uma mulher comum: a de escutá-lo enquanto êle está falando. para as mulheres. Lucian Gregory. do interior dessa moldura oval. K. como a de uma virgem de um quadro pré-rafaelista. Esta impressão era ainda mais fortemente verídica nas muitas noites de festa local. A cabeleira vermelho-escuro. da qual êle procurava tirar o maior efeito. a cativante singularidade de sua aparência. por acaso. Não se pense que aquela foi a única noite em que êle figurou como herói. Ajudava-o. quando sobre os fantásticos telhados incidiam as últimas reverberações da luz. a atitude das mulheres constituía mesmo um dos paradoxos do lugar. ter descoberto um espécime biológico mais raro do que sua pessoa? Por isso. avançava uma cara insuspeitadamente grosseira e brutal. CHESTERTON em biologia. Entoava a velha cantiga da anarquia da arte e da arte da anarquia com petulante frescor. e somente por isso. mas poderia. até certo ponto. nos recessos dos pequeninos jardins iluminados. o que provocava momentâneo prazer. Em muitas outras.

em pouco tempo. o poeta da anarquia. a suspeita de haver êle despencado daquele céu inverossímil. permanecerá. O próprio céu parecia pequeno. Por isso. exclamou em seu tom subitamente lírico. na verdade. transparente. Exprimia aquela esplêndida pequenez que é a alma do patriotismo local. Dizia-se um poeta da lei. que disse chamar-se Gabriel Syme. adivinhava-se que êle era menos manso do que aparentava. Mas. Particularizou sua chegada por diferir de Gregory. Parecia o fim do mundo.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 11 nervos de uma população neurótica. o poeta estabelecido. Tudo ali se aproximava excessivamente da terra. Mr. dir-se-ia que as penas que adejavam no ar viriam tocar os rostos das pessoas. poderia ocorrer na terra um tão grandioso portento. ia mais além ainda: dizia-se um poeta da respeitabilidade. O céu se cobrira de plumagem vivida e palpável. As últimas plumas escarlates escondiam o sol como se este fosse uma coisa boa demais para ser vista. um poeta da ordem. na noite que se seguiu àquele crepúsculo assustador. Espanta-me somente que não tenha havido cometas e terremotos quando você surgiu neste jardim. Mas. há várias pessoas que só relembrarão aquela noite em virtude do céu opressivo. Era uma blasfêmia ambulante. na memória dos habitantes do lugar em razão do extraordinário crepúsculo que a precedeu. O empíreo mesmo parecia um segredo. Outras há. Aquela noite. como se quisesse contar uma assustadora confidencia. . bem cuidada e cabelos amarelados. Mas. se não merece ser lembrada por outro motivo qualquer. Com efeito. entre os moradores de Saffron Park. para os lados do oeste tudo era indescritível. farejou um nexo entre os dois acontecimentos. um poeta respeitável. sua solidão teve fim inopinadamente. Por muito tempo. em tudo quanto dizia respeito à natureza da poesia. de nuvens e cores cruéis. apaixonante. Repito. admito que só numa noite assim. — Admito. O novo poeta. era um sujeito calmo e cortês. alastrou-se. No alto da abóbada as penas acinzentavam-se. uma fusão do anjo e do macaco. o revolucionário dos cabelos vermelhos reinou sem rival. contudo. de barbicha pontuda. Lucian Gregory. que podem relembrá-la por ter assinalado a aparição do segundo poeta de Saffron Park. como o é. Você afirma que é um poeta da lei e eu afirmo que você é uma contradição em termos. porém. tomando os mais raros matizes de violeta e malva e tons absurdos de rosa ou verde pálido.

omite todas as convenções. — Um artista é o mesmo que um anarquista. O vulgar. O homem que atira bombas é um artista. O poeta só está à vontade na desordem. Esse homem percebe que valem muito mais o súbito clarão de uma flama viva e o estampido de uma detonação perfeita do que os simples corpos desarticulados de alguns esbirros. tão completamente tristes e cansados? Eu respondo. — Absurdo! disse Gregory. se lhe aprouver. Você pode inverter a ordem das palavras. CHESTERTON O homem dos brandos olhos azuis e da barbicha pálida e pontuda suportou essas rajadas com certa solenidade submissa. Não fosse assim. se a estação seguinte pudesse ser Baker Street! — Ê você que é antipoético. Rosamond. Syme. o brilho astral de seus olhos. Ê porque sabem que terão de chegar ao lugar para o qual compraram os bilhetes. Porque sabem que depois de Sloane Square a estação seguinte deve ser Vitória.12 G. Se tudo quanto você diz dos empregados é verdadeiro só tenho a lamentar que eles sejam tão prosaicos como a sua poesia. Por que é que todos os empregados e operários que tomam os trens parecem tão tristes e cansados. o raro está em chegar à meta. como habitualmente fazia diante do oráculo familiar. É porque sabem que o trem está na rota certa. embora possuísse um rosto muito mais afável — riu com espanto e reprovação. Mas o homem é um mágico e toda a sua magia con- . O maravilhoso. K. Um artista afronta todos os governos. Não é também épico quando o homem com uma locomotiva selvagem atinge uma estação distante? O caos é estúpido. irmã de Gregory — que tinha deste os cabelos ondulados e vermelhos. O terceiro membro do grupo. nenhuma outra senão Vitória. Mas eu adivinho o formidável êxtase. está em não atingi-la. confirmou Mr. sentenciou. No caos o trem podia ir a qualquer parte. que se vendia por muito razoável quando outra pessoa tentava o paradoxo. o enlevo paradisíaco de suas almas. a Baker Street ou a Bagdad. a coisa mais poética do mundo seria a estrada de ferro subterrânea. Sentimos um frêmito épico quando o homem com sua seta selvagem atinge um pássaro distante. Gregory recomeçou num tom de alta bonomia oratória. Um anarquista é um artista. porque prefere um grande momento a tudo o mais. o insípido. — E é mesmo. replicou o poeta Syme.

perguntamos incessantemente: "E o que é Vitória. .. por favor! Tome todos os seus livros de poesia e de prosa. nós. Mas. — Eu lhe digo. a doença e a revolta. E. com lágrimas de orgulho. — De novo! disse Syme irritado. com sorriso lento e amargo. mesmo andando nas ruas do céu. — Ê a boa marcha das coisas que é poética! Exclamou. A mim deixe-me ler. mas Syme estava demasiadamente inflamado para reparar nela. o poeta será um eterno inconformado. — Mesmo assim. Sim. que cada vez que o trem entra numa estação sinto que êle venceu as baterias dos opressores. os poetas. podem ser coisas salutares em certas ocasiões desesperadas. digo-lhe eu! — Vai viajar? perguntou Gregory sarcàsticamente. entretanto. enforquem-me. Ambas. Para nós. Ê a vitória de Adão. é o grito do arauto anunciando a conquista. uma tabela do horário dos trens. Você diz com desprezo que quando alguém deixa Sloane Square. Ora. mais poética do que as estrelas. mais poética do que as flores. Para mim. Dê-me Bradshaw. E eu digo que podem acontecer milhares de coisas em vez desta e que sempre que efetivamente chego a Vitória. revoltante. se posso ver em que são elas poéticas! A revolta. agora que nós a alcançamos?" Para você. desde que se mantenha sagrada e silenciosamente normal. Ê um estado de revolta. Tome seu Byron. Nossa digestão. .. É mero vômito! A moça estremeceu ao ouvir o vocábulo desagradável. O poeta está sempre em revolta. não me parece ouvir um vocábulo desprovido de sentido. meneou a cabeça vermelha e pesada. a coisa mais poética do mundo é não estar doente. em abstrato. e que o homem ganhou uma batalha contra o caos. que comemora as vitórias.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 13 siste precisamente nisso: êle diz Vitória e — zás — é Vitória mesmo. continuou Syme com veemência. Gregory. Sim. O que há de poético nessa contínua revolta? Você podia dizer também que é poético padecer enjôo no mar. a coisa mais poética. disse êle. é. chega infalivelmente a Vitória. quando ouço o guarda gritar: "Vitória".. Nova Jerusalém não será melhor nem pior do que Vitória. eis o fundamento de toda a poesia. Vitória é como a Nova Jerusalém. Para mim. tenho a sensação de ter escapado por um triz. que comemora as derrotas do Homem. é realmente "Vitória". Dê-me Bradshaw.

É porque sabem que o trem está na rota certa. Não fosse assim. O poeta só está à vontade na desordem. o raro está em chegar à meta. que se vendia por muito razoável quando outra pessoa tentava o paradoxo. Por que é que todos os empregados e operários que tomam os trens parecem tão tristes e cansados. o brilho astral de seus olhos. o insípido. No caos o trem podia ir a qualquer parte. CHESTERTON O homem dos brandos olhos azuis e da barbicha pálida e pontuda suportou essas rajadas com certa solenidade submissa. Não é também épico quando o homem com uma locomotiva selvagem atinge uma estação distante? O caos é estúpido. está em não atingi-la. O homem que atira bombas é um artista. — Absurdo! disse Gregory. embora possuísse um rosto muito mais afável — riu com espanto e reprovação. Ê porque sabem que terão de chegar ao lugar para o qual compraram os bilhetes. Syme. Mas o homem é um mágico e toda a sua magia con- . a coisa mais poética do mundo seria a estrada de ferro subterrânea. o enlevo paradisíaco de suas almas. irmã de Gregory — que tinha deste os cabelos ondulados e vermelhos. nenhuma outra senão Vitória. O terceiro membro do grupo.12 G. Esse homem percebe que valem muito mais o súbito clarão de uma flama viva e o estampido de uma detonação perfeita do que os simples corpos desarticulados de alguns esbirros. O maravilhoso. Um anarquista é um artista. se lhe aprouver. Um artista afronta todos os governos. Você pode inverter a ordem das palavras. a Baker Street ou a Bagdad. replicou o poeta Syme. tão completamente tristes e cansados? Eu respondo. omite todas as convenções. — Um artista é o mesmo que um anarquista. Rosamond. Se tudo quanto você diz dos empregados é verdadeiro só tenho a lamentar que eles sejam tão prosaicos como a sua poesia. Porque sabem que depois de Sloane Square a estação seguinte deve ser Vitória. K. — E é mesmo. porque prefere um grande momento a tudo o mais. confirmou Mr. se a estação seguinte pudesse ser Baker Street! — Ê você que é antipoético. Sentimos um frêmito épico quando o homem com sua seta selvagem atinge um pássaro distante. Mas eu adivinho o formidável êxtase. Gregory recomeçou num tom de alta bonomia oratória. como habitualmente fazia diante do oráculo familiar. O vulgar. sentenciou.

que comemora as vitórias. mais poética do que as estrelas. é o grito do arauto anunciando a conquista. Nossa digestão. Gregory.. em abstrato. nós. O que há de poético nessa contínua revolta? Você podia dizer também que é poético padecer enjôo no mar. Ambas. se posso ver em que são elas poéticas! A revolta. mas Syme estava demasiadamente inflamado para reparar nela.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 13 siste precisamente nisso: êle diz Vitória e — zás — é Vitória mesmo. Você diz com desprezo que quando alguém deixa Sloane Square. Tome seu Byron. Sim. Para mim. tenho a sensação de ter escapado por um triz. — Ê a boa marcha das coisas que é poética! Exclamou. e que o homem ganhou uma batalha contra o caos. O poeta está sempre em revolta. eis o fundamento de toda a poesia. . Para mim. mesmo andando nas ruas do céu. agora que nós a alcançamos?" Para você. perguntamos incessantemente: "E o que é Vitória. mais' poética do que as flores. quando ouço o guarda gritar: "Vitória". Mas. os poetas. é . Ora. Nova Jerusalém não será melhor nem pior do que Vitória. podem ser coisas salutares em certas ocasiões desesperadas. Dê-me Bradshaw. digo-lhe eu! — Vai viajar? perguntou Gregory sarcàsticamente. enforquem-me. E. que comemora as derrotas do Homem. a doença e a revolta. o poeta será um eterno inconformado. revoltante. chega infalivelmente a Vitória. Para nós. a coisa mais poética do mundo é não estar doente. continuou Syme com veemência.. é realmente "Vitória". que cada vez que o trem entra numa estação sinto que êle venceu as baterias dos opressores. uma tabela do horário dos trens. meneou a cabeça vermelha e pesada. . a coisa mais poética. Ê a vitória de Adão. com lágrimas de orgulho. por favor! Tome todos os seus livros de poesia e de prosa. entretanto. Dê-me Bradshaw. É mero vômito! A moça estremeceu ao ouvir o vocábulo desagradável. . E eu digo que podem acontecer milhares de coisas em vez desta e que sempre que efetivamente chego a Vitória. com sorriso lento e amargo. — Eu lhe digo. A mim deixe-me ler. desde que se mantenha sagrada e silenciosamente normal. Sim. Ê um estado de revolta. Vitória é como a Nova Jerusalém. não me parece ouvir um vocábulo desprovido de sentido. — Mesmo assim. — De novo! disse Syme irritado. disse êle.

disse com grande dificuldade. tal é o ímpeto com que pensa naquilo que está dizendo. por favor? — Que não levo a sério o meu anarquismo? rugiu Gregory com os punhos fechados. Ê o caso de seu irmão. CHESTERTON Realmente. — Então você acha. Os enormes olhos taurinos de Gregory relampejaram como os de um leão enfurecido. pessoas como o senhor e meu irmão. K. mesclada de curiosidade e prazer. aquilo que pensa. estão sempre atentos para o que dizem? O senhor reparou no que disse? Syme sorriu e perguntou: — E a senhorita? Repara no que diz? — Que quer dizer o senhor? indagou a moça severamente. Syme. que eu inicie a revolução da sociedade aqui neste jardim?! Syme cravou os olhos nos olhos do outro e sorriu com doçura. os exemplos que você escolhe. há muitas espécies de sinceridade e de insinceridade. realmente. não espero. Com surpresa. agradece ao vizinho de mesa que acaba de lhe passar o saleiro. começou ela.14 G. Quando diz que o mundo é redondo. um quarto ou um décimo da verdade. inflexível.. repara no que diz? Não. Pela primeira vez um indício de rubor marcou a testa de Gregory. Esqueciame que tínhamos abolido todas as convenções.. mas não se dá conta disso.. — Quer dizer que você não espera. às vezes acontece que um homem quando fala diz. disse Syme com brandura na voz. por exemplo. Ao falar. disse Gregory com arrogância. disse êle. não importa. — Oh! Perdoe-me. Quando você. Pode dizer uma meia-verdade. respondeu Syme. — Não. — Ora. e quase se podia imaginar que sua juba vermelha se encrespara. . Mas creio que se você fosse um anarquista de verdade era exatamente isso o que faria. êle diz mais do que quer dizer. meu caro! Não se aflija! respondeu Syme e afastou-se. — Mr. que não levo a sério o meu anarquismo? — Como? Quer repetir. repara no que diz? Não. quando falam. Ora. Está dizendo a pura verdade. descobriu que Rosamond Gregory havia acompanhado seus passos. — Cara Miss Gregory. .

pôs-se de pé. vinda de uma rua distante. — Então há razões para julgar Gregory um anarquista? — Apenas aquelas razões que dei há pouco. Parecia-lhe que suas heróicas palavras engolfavam-se numa delicada melodia emanada talvez de regiões subterrâneas ou extraterrenas. Sabia-o inconseqüente. Ao passo que falava. advertiu que. Defendia a respeitabilidade com ardor e exagero. o orgulhoso mede as palavras com muita cautela. em ocasiões como aquela. Em sua cabeça — e êle não sabia como justificar essas sensações — boiavam uns como eflúvios de champanha. Os lábios de Rosamond descerraram-se num sorriso. Rosamond passou alguns momentos matutando. a música de um realejo. mas não precisava temer pela segurança dele. Ela pensava em Gregory. ou. aquelas sem-razões. Syme afastou-se com ela para um banco no canto do jardim e continuou a expor suas opiniões. não irá êle atirar bombas ou tomar parte em atentados? Syme rebentou numa gargalhada que parecia grande demais para seu tipo frágil e levemente ajanotado. Embaraçado. Há muito tinha saído o último conviva. Entretanto. os pares não deviam isolar-se por muito tempo. comprazia-se em contemplar os cabelos vermelhos e o rosto cândido da moça. Apaixonava-se no louvor à cordura e à decência. começou a subir até êle. pediu desculpas à moça e tratou de partir o mais depressa que pôde. a moça não teria nenhuma participação. E êle não voltou a vêla senão quando tudo acabou. fundamentalmente humilde. Essas coisas têm de ser feitas anonimamente. disse: — Em todo caso. Ali. Supondo terem decorrido alguns minutos. — Não. Lenta e quase imperceptivelmente. Nos extraordinários acontecimentos que viriam depois. sentado. Em seu rosto grave e franco pairava a sombra daquela insensata responsabilidade que habita o íntimo da mulher mais frívola. de repente. daquele desvelo maternal que é tão velho quanto o mundo. mas pasmou-se ao ver o jardim completamente vazio. E é sempre o humilde que fala demais. Era um homem sincero e. a testa franzida. se quiser.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 15 Rosamond fixou-o demoradamente. aspirava a fragrancia dos lilazes espalhados pelo jardim. por Deus! exclamou. por entre as temerá- . Com este pensamento. a despeito de suas graças e finezas superficiais.

respondeu pacientemente Syme. Gregory fêz um gesto semelhante a uma saudação e teve da parte de Syme uma réplica algo mais solene. Da ordem e da anarquia. Porquanto. fecunda. como o tema de um movimento musical. Não me consta que em tempo algum você possa ver a lâmpada. Gregory bateu com a bengala no poste e na árvore. Imitava os bravateiros embuçados que. E aqui está a anarquia. as tramas desvairadas e tenebrosas das tapeçarias da noite. Não fiquei aqui para recomeçar a discussão. achou-a deserta sob o céu estrelado. Todavia. viva. cujos galhos debruçavam-se sobre o muro. No alto do poste. CHESTERTON rias aventuras que o aguardavam. uma lâmpada acesa dourava as folhas da árvore. espreitam a vinda do opositor. o que se seguiu foi tão inacreditável que bem podia ter sido um sonho. quase tão rígido e imóvel como o próprio poste. inexplicavelmente. disse Gregory. alguém se mantinha de pé. munidos de espadas. . escapos à zona das trevas. — Apesar de tudo. — Disto e disto. Fêz uma curta pausa e prosseguiu: mas posso perguntar-lhe se você ficou aqui todo esse tempo no escuro. neste momento você só pode ver a árvore sob a luz da lâmpada. desaparecer e surgir de novo. Não demorou a descobrir um misterioso silêncio que era antes um silêncio vivo que morto. Poderíamos conversar uns dois minutos? — Pois não. o rosto era igualmente negro.16 G. A um passo do poste. Eis a anarquia nesta árvore esplêndida nas cores do ouro e da esmeralda. a imagem dela havia de surgir. K. situado defronte da porta. sob a luz da árvore. mas para acabar com ela de uma vez. só para reabrir agora nossa discussão? — Não! explodiu Gregory numa voz que ressoou em toda a rua. De que se trata? inquiriu Syme um pouco espantado. feia e estéril. na sombra. ao mesmo tempo em que começou a falar. opulenta. — Estava esperando que você chegasse. Aí tem você sua preciosa ordem nessa mesquinha lâmpada de ferro. como um fio vermelho. Quando Syme chegou à rua. a meada de cabelos avermelhados. e o esplendor de sua maravilhosa cabeleira havia de atravessar. e a agressividade da postura publicavam' no vulto negro o poeta Gregory. Tinha a cabeça coberta por um chapéu alto e negro e o corpo envolto numa comprida sobrecasaca negra.

disse Gregory pensativamente. se bem me recordo. — Realmente? — Aliás. e Syme. Neste sentido.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 17 Caiu novamente o silêncio. ainda que não pescasse o verdadeiro sentido das palavras do outro. outra pessoa também conseguiu fazer a mesma coisa. você não crê que sou sério. com o possível sacrifício de minha vida e de minha honra. respondeu gravemente Syme. esta noite você fêz uma coisa realmente notável. Nunca pus em dúvida a sua sinceridade em certas coisas. disse Gregory muito calmo. Está bem. instintivamente pressentiu a gravidade do momento. nunca duvidei de que você fosse cabalmente sincero. mais intenso. replicou Syme. Vou. você crê na minha seriedade? Você me toma por um flâneur que deixa cair por onde passa uma ou outra verdade ocasional. — Mr. Num sentido mais profundo. Gregory encarava-o firme mas penosamente. Syme bateu violentamente com a bengala na calçada e bradou: — Sério! Santo Deus! É seria esta rua? São sérias estas malditas lanternas chinesas? É séria toda essa mixórdia? Olhe. Syme. Você fêz comigo o que nenhum homem nascido de mulher jamais conseguiu fazer antes. Só existe um meio de fazer desaparecer o insulto e esse meio eu já o escolhi. Se eu o matasse. — Há graus de seriedade. o caso não estaria encerrado. A verdade é que você me irritou. provar que você está enganado em tudo quanto disse. em Southend. diz um montão de tolices e talvez também algumas coisas sensatas. Foi o comandante de um vaporzinho vagabundo. — E num outro sentido. Por exemplo: você só diz aquilo que lhe parece digno de ser dito. acredita que um paradoxo pode despertar a humanidade para uma verdade desprestigiada. aparece aqui um sujeito. Mas eu não darei um vintém por êle se no mais fundo do ser não conduzir uma .. — Mas eu temo que a minha ira e o insulto que você me fêz ultrapassem os limites do tolerável e não possam ser apagados com uma simples desculpa. Você disse que eu não levo a sério o meu anarquismo. Gregory voltou a falar com voz macia e sorriso desconcertante. — Lamento muito. . — Em tudo quanto eu disse? — Sim. Nenhum duelo poderá apagá-lo. se a memória não me falha. perguntou.

. — Muito bem. Syme tirou o chapéu e disse: — Seu oferecimento é tão insensato que não merece recusa. à polícia. Você vai conhecer uma coisa mais séria do que a bebida ou a religião. Pela portinhola.18 G. Somos todos católicos agora. K. E agora. e um fiacre veio ressoando pela rua. se consente em sobrecarregar sua alma com um juramento que nunca pensou em fazer e com um conhecimento de coisas com que jamais sonhou. jurar como cristão e prometer como bom camarada e companheiro de ofício.. em nome de Colney Hatch. uma coisa mais séria. disse Gregory com o rosto sombrio. — Eu lhe prometo uma noite muito divertida.. realmente. disse Gregory com plácida dissimulação. que não contarei nada. Deu dois longos assobios... Discordo. — Então posso pedir-lhe que jure por todos os deuses e santos da sua religião que não revelará a nenhum filho de Adão e especialmente à polícia o que vou contar? Jura? Se assume tão terrível compromisso. seja o que fôr. Syme ficou aguardando delicadamente até que Gregory retomou a palavra. que tanto pode ser a religião quanto a bebida. à margem do rio. estes dois fantásticos sujeitos deixaram seu não menos fantástico subúrbio. dentro dele. Entraram em silêncio. aqui e agora. Gregory deu o endereço de uma obscura taberna situada em Chiswick. O fiacre foi posto de novo em movimento e. que devemos chamar um fiacre. com um sorriso radiante. É verdade. — Você me promete em troca!?! insistiu Syme quando o outro se interrompeu. de que se trata? — Acho. Você diz que um poeta é sempre um anarquista. Permita-me. eu lhe prometo em troca. Mas espero que êle seja pelo menos um cavalheiro. — Você acaba de falar em religião. que você tem uma? — Claro! exclamou Syme. CHESTERTON coisa mais séria do que essa tagarelice.

Deixe-me servir-lhe ao menos meia garrafa de Pommery. foram enfim cortadas. toda de madeira. o criado disse apenas "Pois não. No champanha se pode confiar.. o fiacre parou. senhor!" e foi buscá-la. onde se sentaram à roda de uma sórdida mesa de pé de galo. como por um raio. me traga maionese de lagosta. Disposto a seguir o filão de humor. achou-a bastante apetitosa e logo começou a comer com grande avidez. Para sua indescritível estupefação. Syme degustou-a. — Perdoe-me se manifesto tão claramente minha satisfação. — Muito obrigado. mas posso recomendar a lebre.CAPITULO II O SEGREDO DE GABRIEL SYME Chegado em frente a uma cervejaria particularmente imunda e lúgubre. sombrio e abafado. O quarto era tão pequeno e escuro que do serviçal chamado nada mais se divisava além da vaga e negra sombra de um vulto corpulento e barbado. com o mesmo ar descuidado mas polido.. disse o imóvel Syme. — Que quer beber? acrescentou Gregory. O pâté de foie gras daqui não é bom. com a presença da lagosta. até então frustradas. Você é muito amável. respondeu com propositada indiferença: — Ora. vou tomar somente um creme de menthe. espécie de locutório. Syme recebeu impassível a observação. Suas tentativas. disse sorrindo a Gregory. imaginando tratarse de uma pilhéria. de manter a conversação. Nem sempre tenho a sorte de ter . — Quer cear? perguntou Gregory polidamente. Como já jantei. Apearam-se e Gregory conduziu imediatamente o companheiro para um cubículo interior.

Mas confio em que possa comportar-me como um cavalheiro em qualquer circunstância. levou-o à boca. entre o arranjo interior deste excelente hotel e seu exterior simples e despretensioso. somos sérios em tudo. a princípio vagarosamente e depois cèleremente como numa sessão espírita. pois. que até então ondulava pelo quarto em serpeantes volteios. cortando-lhe a ponta com um corta-charutos que tirou do bolso do colete. K. como se a terra os tivesse tragado. em quem você não acredita. Nós somos os anarquistas sérios. Ao contrário. olhe aí seu champanha! Admito que haja uma leve desproporção. CHESTERTON um sonho como este. disse Gregory. Vocês se arranjam bem nas bebidas! — Sim. '•— Exato! disse Syme plàcidamente. Mas nisso reside toda a nossa modéstia. e os dois. — Oh! exclamou Syme. não meta isso na conta das suas incursões no champanha. Uma espécie de rosca. É uma novidade para mim que um pesadelo conduza a uma lagosta. disse Gregory. a fumaça do charuto. — Não faça caso. se não estou bêbado. e de supetão chegaram ao fundo com . Experimente um dos meus. a mesa tinha começado a girar. Ah. digamos. Posso fumar? — À vontade. Foram caindo estrepitosamente por dentro de uma espécie de chaminé rugidora. tão rapidamente como um ascensor desgovernado. esvaziando o copo de champanha. Somos os homens mais modestos que jamais viveram sobre a terra. replicou Syme com absoluta calma. Depois de uma pausa acrescentou: — Se dentro de alguns instantes esta mesa começar a girar um pouco. Comumente sucede o inverso. Não quero que você cometa uma injustiça. — Não está dormindo. garanto-lhe. apresentando-lhe uma charuteira.20 G. desapareceram através do assoalho. respondeu Gregory. subiu a prumo como por uma chaminé de fábrica. — Bem. estou louco. — Muito simples. Creditese a seu favor a calma com que efetuou todo este ritual. Syme aceitou o charuto e. — E quem são nós? perguntou Syme. mais a mesa e as cadeiras. disse Gregory. acendeu-o vagarosamente e soltou imensa baforada. pouco antes de iniciá-lo. respondeu Gregory. Ê uma espécie de rosca. você está à beira do momento mais real e excitante de sua existência. Como é simples! Um minuto depois.

quase esférico. agora que estamos à vontade. Evidentemente. falemos claramente. o aspecto de um anfiteatro científico. — E agora. Moveram-se os pesados gonzos. Limito-me a dizer . ou ovos de pássaros de ferro. quase tão grande como uma lareira. o corredor cintilava como se estivesse revestido de uma rede de aço. Joseph Chamberlain". uma perna cruzada sobre a outra. e um único fio de seus cabelos amarelos não se tinha desarranjado. meu caro Mr. disse Syme. abobadado. era na verdade uma figura singularmente frágil e fantástica a caminhar naquela rutilante avenida da morte. Num segundo relance. Syme bateu na parede para derrubar a cinza do charuto e entrou. Syme. Syme percebeu que a fulgurante parede estava realmente forrada de várias fileiras de espingardas e pistolas. Na porta havia um tipo de escotilha ou vigia. por fim. — Devo pedir-lhe perdão por todas essas formalidades. a um esquisito quarto de aço e de paredes curvas. Mas quando Gregory escancarou as duas folhas de uma porta e surgiu uma subterrânea luz vermelha. disse Gregory.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 21 um baque surdo. com sotaque estrangeiro. na qual Gregory deu cinco pancadas. Conheço sua paixão pela lei e pela ordem. estreitamente entrelaçadas ou amontoadas. E entrou no corredor guarnecido pelas armas de aço. perguntou quem era. Interiormente. que levam a gente a pular de um rochedo ou a apaixonar-se. Foi uma daquelas emoções puramente arbitrárias. coisas que lembravam bulbos de plantas de ferro. disse Gregory sentandose expansivamente no banco situado debaixo da bomba maior. estava uma enorme lanterna escarlate. Temos que ser muito rigorosos aqui. Atravessaram vários corredores idênticos e chegaram. mas sugerindo. Mas nenhuma palavra da linguagem dos homens poderá lhe dar a menor idéia do motivo que me impeliu a trazê-lo até aqui. Uma voz forte. de onde provinha a luz vermelha. tratava-se de uma senha. mas estavam suspensas nas paredes formas mais ambíguas e terríveis. Nele não havia espingardas nem pistolas. presa a uma pequena e pesada porta de ferro. Syme continuava a fumar tranqüilamente. Com seus compridos cabelos louros e sua ridícula sobrecasaca. Gregory guiou-o através de um corredor baixo. — Não se desculpe. Eram bombas. e o quarto mesmo assemelhava-se ao interior de uma bomba. Lá no fundo. Gregory deu uma resposta mais ou menos inesperada: "Mr. com suas fileiras de bancos.

Tenho uma tia que morava em cima de uma loja. Em primeiro lugar. mais sinistro do que acolhedor. Noto que. de preferência. interrompeu Gregory. Eu quebraria vinte juramentos de sigilo só pelo simples prazer de espezinhá-lo. a honra e a traição. Os ingênuos sentimentais da Revolução Francesa pregavam os Direitos do Homem! Nós odiámos Direitos e Injustiças. é por mera curiosidade que faço tais perguntas. Para mim são muito mais enfadonhas. debaixo de uma taberna. para fazer-lhe justiça. Bem. em todos os atos e circunstâncias presentes.22 G. — E a direita e a esquerda? perguntou Syme com simplicidade.. Chamberlain. Nós cavamos mais fundo e vamos fazê-los voar mais alto. Portanto. mas esta é a primeira vez que encontro gente que vive. você alardeia os seus segredos. Visamos a negação de todas as arbitrárias distinções. Esse seu modo de acender o charuto obrigaria um padre a revelar o segredo da confissão. que ainda constituem o fundamento da rebeldia dos simplórios. — Com muito prazer. Você deve estar lembrado de que muito habilmente extorquiu de mim a promessa de nada contar à polícia. assentiu Syme. dis- . estabelecidas entre o vício e a virtude. Já abolimos os dois. depois de vencer todos esses obstáculos para entrincheirarse nas entranhas da terra. Este lugar não lhe parece sério? — Realmente parece encobrir uma moral debaixo de toda sua gaiatice. CHESTERTON que você foi e. Espero que vocês as eliminem também. mas não passa de um ramo dos não-conformistas. Você dizia que estava perfeitamente convicto de que eu não era um anarquista sério. K. vocês tentam cobrir-se de mistério. — Você falou de uma segunda pergunta. que é que tudo isso significa? O que é que vocês pretendem? Querem abolir o governo? — Queremos abolir Deus! disse Gregory abrindo os olhos de fanático. Possuem uma pesada porta de ferro e não podem passar por ela sem se submeter à humilhação de chamar-se Mr. Posso agora perguntar-lhe por que.. promessa que em verdade cumprirei. por assim dizer. Não pretendemos somente perturbar alguns despotismos e regulamentos policiais. ainda continua sendo um camarada indizivelmente irritante. Mas posso fazer-lhe duas perguntas? Não precisa ter medo de me dar informações. disse Syme reatando o fio da conversa. Esse tipo de anarquismo existe. Cercam-se de apetrechos de aço que tornam o lugar.

. sem nenhum propósito.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 23 correndo sobre anarquismo diante de todas as donas desocupadas de Saffron Park? Gregory sorriu: — A resposta é simples. E nisso está a grandeza dele. Logo que me fiz membro dos Novos Anarquistas experimentei todos os gêneros de disfarces respeitáveis. mas creio possuir bastante largueza intelectual para compreender a posição daqueles que. Vesti-me de bispo. botei os pés num salão e trovejei — "Humilha-te. Fui apanhado novamente. desesperado. Mas você não pode ficar cinco minutos na mesma sala em que êle estiver sem sentir que na mão dele César e Napoleão teriam sido dois meninotes. Parece que não é assim que procedem os majores. Nosso Presidente põe todo o seu gênio em conseguir que não se fale dele. e o conseguiu. que eu nada tinha de bispo e me apanharam imediatamente. gritava: "Sangue!". Enquanto não os trouxer a esta sala infernal não acreditarão. Repeti muitas vezes: "Pereçam os fracos. não sei como. Então. a guerra altiva. Estava enganado. como um homem que pede Vinho. A primeira vez que. feroz da natureza e tudo o mais que você conhece. — Você não pode nem imaginar. admiram a violência. Nem ninguém acredita. procurei passar por major. Transformei-me. num major. Aprendi neles que os bispos são uns anciãos terríveis e estranhos que ocultam da humanidade um segredo cruel. que é o homem mais notável da Europa. Cuidei de ler tudo o que se relacionava com os bispos em nossos opúsculos anarquistas. Constantemente desembainhava e brandia a espada e. Já lhe disse que sou um anarquista sério. -— Como se chama? perguntou Syme. humilha-te. presunçosa razão humana" — descobriram. O Vampiro da Superstição e Padres de Rapina. Pessoalmente. sou um humanitário. É a lei". Afinal. fui ter com o Presidente do Conselho Central Anarquista. como Nietzsche. Depois banquei o milionário. com botas episcopais. então. mas defendia o capital com tanta inteligência que qualquer imbecil podia ver logo que eu era muito pobre. César e Napoleão empenharam todo o seu gênio para se tornarem conhecidos e tiveram êxito. mas você não acreditou. Syme fumava pensativamente e fitava-o com interesse. respondeu Gregory. Gregory continuou: — A história que lhe vou contar poderá diverti-lo.

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G.

K.

CHESTERTON

Empalideceu e passou uns momentos em silêncio. Depois prosseguiu: — Qualquer que seja o conselho que êle dê é sempre uma coisa tão surpreendente como um epigrama e ao mesmo tempo tão prática como o Banco da Inglaterra. Perguntei-lhe: "Que disfarce esconder-me-á das vistas do mundo? Que posso eu descobrir de mais respeitável que bispos e majores?" Êle me olhou com sua cara enorme e indecifrável. "Você quer um disfarce que o ponha a salvo de tudo, não é? Você quer um traje que lhe permita passar por inofensivo; um traje de que ninguém possa suspeitar que leva uma bomba escondida?" Assenti com a cabeça. E êle prosseguiu, alteando a voz de leão: "Pois, então, vista-se como um anarquista, seu idiota!", rugiu com tanta força que abalou a sala. "E não haverá ninguém que o julgue um tipo perigoso". E virou-se, dando-me suas largas costas, sem me dizer outra palavra. Tomei o conselho e até aqui não me arrependi. Dia e noite preguei sangue e destruição àquelas mulheres e — por Deus! — elas me deixariam guiar o carrinho em que levam os filhos a passeio. Os grandes olhos azuis de Syme fitavam o companheiro respeitosamente. — Você me ludibriou, disse êle. É realmente um embuste primoroso. Fêz uma pausa e acrescentou: — Que nome tem esse medonho Presidente? — Nós todos o chamamos Domingo, respondeu Gregory com simplicidade. O Conselho Central Anarquista se compõe de sete membros que receberam os nomes dos dias da semana. O Presidente é o Domingo. Alguns de seus admiradores chamamno Domingo, o Sanguinário. É curioso que você tenha tocado neste ponto, porque nesta mesma noite em que você caiu do céu (desculpe-me a expressão) nossa seção londrina deve reunir-se aqui nesta sala para eleger um representante que vai preencher a vaga no Conselho. O cavalheiro que desempenhou por algum tempo, com perícia e aplausos gerais, as árduas funções de Quinta-feira, acaba de morrer. Por isso, convocamos esta noite uma reunião para escolhermos o seu sucessor. Levantou-se e começou a passear pela sala, sorrindo com certo embaraço. — Syme, de certo modo, eu o sinto agora como se você fosse minha mãe. Sinto que posso confiar-lhe qualquer coisa, desde que você prometeu não contar nada a ninguém. De fato,

O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA

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vou contar-lhe uma coisa que não teria coragem de contar aos anarquistas que estarão aqui dentro de dez minutos. Naturalmente iremos proceder a uma forma de eleição. Não me acanho de dizer-lhe que estou certo do resultado. E baixando modestamente os olhos, disse: Está quase estabelecido que eu serei o Quinta-feira. — Bravo, amigo! exclamou Syme calorosamente. Congratulo-me com você. Bela carreira! Gregory sorriu com modéstia e, enquanto atravessava a sala, falava apressadamente. — A verdade é que tudo está pronto para mim nesta mesa, e a cerimônia provavelmente será a mais curta possível. Por sua vez, Syme foi até à mesa e viu uma bengala que um exame mais apurado revelou ser uma bengala de estoque. Lá estavam também um grande revólver Colt, um embrulho de sanduíches e uma formidável garrafa de conhaque. Numa cadeira, ao lado da mesa, fora atirado um capote. — Resta-nos somente esperar que se cumpram as formalidades da eleição, prosseguiu Gregory com desenvoltura. Uma vez concluídas, agarro a capa e a bengala, meto as outras coisas no bolso e abandono esta caverna, saindo por uma porta que dá para o rio. Lá me espera uma lancha a vapor. Então.. . Depois . . . Oh! A alegria selvagem de ser o Quinta-feira! E entrelaçou os dedos nervosamente. Syme, que se sentara uma vez mais com seu habitual langor insolente, levantou-se com um desusado ar de hesitação. — Por que é, perguntou de maneira um tanto vaga, que eu acho que você é um sujeito honesto? Por que é que eu simpatizo francamente com você? Parou um instante e depois ajuntou, como se o fizesse por pura curiosidade: Será porque você é um verdadeiro asno? Ficou meditando em silêncio durante alguns momentos e por fim exclamou: — Ora, dane-se tudo! Nunca em minha vida me vi numa situação mais engraçada do que esta, mas vou comportar-me à altura. Gregory, antes de entrar aqui eu lhe fiz uma promessa. E hei de cumpri-la, mesmo torturado por tenazes incandescentes. Você está disposto a fazer, para minha segurança, uma pequena promessa da mesma espécie? — Uma promessa? perguntou Gregory espantado. — Sim, uma promessa respondeu Syme muito sério. Perante Deus eu jurei que não contaria seu segredo à polícia.

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G.

K.

CHESTERTON

Poderá você jurar pela humanidade, ou por qualquer outra asneira da sua crença, que não revelará meu segredo aos anarquistas? — Seu segredo? perguntou Gregory estupefato. Você tem um segredo? — Tenho, disse Syme. Eu tenho um segredo. Depois de uma pausa, insistiu: Jura? Antes de falar, Gregory considerou gravemente o outro por alguns instantes. — Você deve ter-me enfeitiçado, mas sinto uma furiosa curiosidade a seu respeito. Juro. Juro que não contarei aos anarquistas nada do que você me disser. Mas avie-se. Em dois minutos eles estarão aqui. Syme levantou-se e enfiou as mãos brancas e compridas nos bolsos das calças cinzentas. Quase ao mesmo tempo soaram cinco pancadas na escotilha, anunciando a chegada dos primeiros conspiradores. — Bem, disse Syme, e continuou a-falar com lentidão. Não sei como contar-lhe a verdade em poucas palavras, senão dizendo que o seu expediente de disfarçar-se como um poeta desorientado não é privilégio seu nem do seu Presidente. Algumas vezes também temos lançado mão do mesmo embuste na Scotland Yard. Gregory tentou levantar-se de um pulo, mas por três vezes fraquejou. — Que é que você está dizendo? perguntou aterrado. — Isso mesmo, disse Syme simplesmente. Sou detetive. Trabalho para a polícia. Mas. .. creio que seus amigos estão chegando. Do corredor vinha um murmúrio de "Mr. Joseph Chamberlain", repetido duas vezes, três, trinta vezes, casado ao trotar daquela multidão de Joseph Chamberlains — o que parecia a personificação mesma da solenidade.

apanhou o revólver e apontou-o para Syme. mas poderia eu mesmo atraiçoar-me. Vamos. Não vê que não é necessário? Não vê que embarcamos no mesmo bote e que ambos estamos mareados? Gregory não podia falar. — Não seja idiota. Vou fazê-lo primorosamente. E você. ergueu a mão pálida e delicada. homem! Espere para ver como me atraiçôo. Não posso atraiçoá-lo. De um salto pôs-se ao lado da mesa. Em suma. é um anarquista privado da ajuda daquela lei e daquela organização tão essenciais à anarquia. Gregory se tinha recuperado da surpresa e do aturdimento. sem vacilar. A única diferença que existe é a seu favor. trata-se de um solitário duelo intelectual: minha cabeça contra a sua. como se este fosse um monstro marinho. Gregory baixou vagarosamente o revólver.CAPITULO III O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA Antes que assomasse à porta o primeiro recém-chegado. você pode apenas vigiar-me. apenas podia considerar em silêncio a situação. ciente do que você é. Eu sou um polícia privado da ajuda da polícia. meu pobre amigo. disse com a dignidade efeminada de um cura. Rugindo feito uma fera. Eu não posso dizer à polícia que você é anarquista. Você não pode dizer aos anarquistas que eu sou da polícia. — Não vê que nos pusemos em xeque um ao outro? gritou Syme. mas também não podia disparar a arma. eu estou rodeado de anarquistas inquiridores. Este. . ciente do que eu sou. Posso apenas vigiá-lo. ainda com os olhos presos em Syme. Você não está rodeado de polícias inquiridores.

— Camarada Gregory. disse êle. disse Syme com severa benevolência. — Bem. camarada. — Se você me pede um conselho de amigo. não? Surpreendido. disse por fim. Evidentemente. uma angústia diplomática. Era óbvio que. acho que é isso que devem fazer. você quebrar sua palavra. disse Syme rindo. K. Um homenzinho de barba negra e de óculos — um sujeito mais ou menos do tipo de Mr. — Não quebrarei minha palavra. Gregory baixou os olhos e gaguejou o nome de Syme. Enviaram-me especialmente para que vocês observem aqui o devido acatamento ao Domingo. deveras. acho que agiríamos corretamente dando-lhe um lugar em nossa reunião. disse Syme serenamente. com sua inspirada desfaçatez. Mas se. depois de tudo isso. disse o homenzinho dos papéis. — Eu não diria que represento um ramo. CHESTERTON — Não creio na imortalidade. agitando numa das mãos um maço de papéis. mergulhado em penosos pensamentos. costumava enviar esses embaixadores intempestivos às assembléias secionais. quase petulante. e um bruxuleio de medo perpassou em todas as fisionomias do grupo. com inesperada salvação para seu rival.28 G. A massa de anarquistas entrou pesadamente na sala. Seus amigos já estão aqui. Entretanto. Quando Gregory notou que o perigoso diálogo terminara. — Que quer dizer com isso? — A verdade. a passo duro e fatigado. Afligia-o. suponho que esse homem é um delegado. Tim Healy — destacou-se do grupo. Acho melhor dizer que represento a raiz. é que eu sou sabatista. visivelmente suspeitoso. contraiu a testa. disse Syme severamente. o homenzinho da barba negra. nem você quebrará a sua. Syme venceria todas as situações difíceis. respondeu: — Alegra-me ver que a sua porta é tão bem guardada que é dificílimo para alguém que não seja delegado entrar aqui. mas Syme. levantou-se imediatamente e começou a caminhar pela sala. o terrível Presidente. Por esse lado não havia o que . Deus fabricará um inferno só para você gemer lá dentro eternamente. — Qual dos nossos ramos você representa? perguntou maliciosamente. cujo nome era Domingo. O homenzinho deixou cair um de seus papéis.

e sim para uma tarefa mais árdua. ou qualquer coisa que lembrasse a crueldade. Êle mesmo. nesta noite. escolher. Nossa reunião desta noite é importante. se êle o atraiçoasse e por um motivo qualquer fracassasse em destruí-lo.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 29 temer. mas em parte também porque. teria matado todos quantos se encontravam no cais. em parte por questão de honra. ainda mais difícil substituí-las. que. E a crueldade. tido a honra de eleger Quintas-feiras para o Conselho Central Europeu. sob circunstâncias mais favoráveis. Organizou aquela grande explosão de dinamite em Brighton. camaradas. Esta seção tem. porém. não podia atraiçoar Syme. naquela noite. Gregory. — Camaradas! começou êle com voz incisiva como disparo de pistola. Depois Syme ia embora e o caso estava encerrado. e disse: — Penso que é tempo de começarmos. A lancha está esperando no rio. Difícil é glorificar o mérito de suas qualidades. Proponho que o camarada Buttons assuma a presidência. que se mencionassem os planos de ação. Sabeis também que êle foi tão desprendido em sua morte como o tinha sido em vida. Elegemos muitos e valorosos Quintas-feiras. levou aos abismos insondáveis o último segredo da virtude e da inocência. . o Syme que escapasse seria um Syme desonerado de todos os compromissos de sigilo. compete. êle prestou consideráveis serviços à nossa causa. Mas não é para louvar suas virtudes que estamos reunidos. mas convém que seja breve. Se nenhum nome fôr indicado serei forçado a admitir que aquele querido dinamitador. Teria o cuidado de evitar o mais possível. indignava-o. beberagem que considerava própria de bárbaros pela crueldade que inflige à vaca. O homenzinho dos papéis enfiou-se na poltrona presidencial. desde sempre. o homem que deverá ser Quinta-feira. Erguendo as mãos. Como sabeis. Espero que um de vós indique um nome para ser submetido à votação. um Syme que simplesmente correria a denunciá-lo na Delegacia mais próxima. entre os presentes. pois morreu no culto à fé que depositava numa higiênica mistura de água e giz. que nos deixou para sempre. No fim de contas. todos aprovaram a proposta. é. em substituição ao leite. Todos lamentamos o triste desaparecimento do heróico trabalhador que ocupou o posto até a semana passada. A vós. A passos largos avançou por entre os anarquistas que começavam a distribuir-se nos bancos. tratava-se de uma única reunião noturna e de um único detetive que a assistia.

Estava decidido a fazer um discurso ameno e ambíguo a fim de gravar na mente do detetive a impressão de que a fraternidade anarquista era. Acreditava no próprio talento literário e na sua capacidade de sugerir belos matizes e usar palavras inconfundíveis. não buscam as nascentes. instruem-se no Ally Sloper's HalfHoliday e no Sporting Times. instruem-se nos jornais da bolsa comercial. num momento de perigo. diante de si. Tinha o espírito preparado e. Um tipo pequeno. Em seguida. levantou-se com dificuldade e falou: — Proponho para Quinta-feira o camarada Gregory. podia dar da instituição uma idéia sutil e delicadamente falsa. — Há alguém que secunde esta proposta? perguntou o Presidente. K.30 G. Mas sorria e estava inteiramente à vontade. as origens. via o programa que traçara. que pareciam quase escarlates. o esquisito vermelho de seus cabelos. mas não nos buscam. CHESTERTON Houve um movimento de aplauso quase inaudível. acumulam sobre nossas cabeças. por toda a parte. A palidez mortal de seu rosto acentuava. Nunca se instruem sobre os anarquistas nas próprias fontes anarquistas. por contraste. com uma comprida e venerável barba branca. plano e reto como uma estrada branca. Nossa crença tem sido caluniada. pois ela também é a vossa. mas persiste incorruptível. muito suave. deformada. Sobre os anarquistas instruem-se nas novelas baratas. vestido com um casaco de veludo. Não é mister dar-vos conta da minha política. com cautela e a despeito das pessoas que o rodeavam. totalmente obscurecida e vilipendiada. talvez o único trabalhador real que ali se encontrava. de um extremo a outro da Europa. de resto. Não podia agora. barbado. reforçar a antiga presunção de Syme? — Camaradas! começou em voz baixa mas penetrante. E voltou a sentar-se com a mesma dificuldade. O homem que . — Antes de submeter a matéria à votação. tal como o que se ouve às vezes na igreja. disse o Presidente. um ancião corpulento. catam informações ali. Não temos ensejo de desagravar as montanhas de ultrajes que. Julgava que. convido o camarada Gregory a fazer sua profissão de fé. Os ociosos que falam da anarquia e da ameaça que ela representa. apoiou a resposta. Gregory ergueu-se no meio de ruidosos aplausos. Já uma vez Syme presumira que os anarquistas cobriam com suas arruaças as mais refinadas tolices. acolá.

O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 31 sempre ouviu dizer que somos pragas vivas nunca ouviu nossa resposta. Mas somente o olho de uma estima tão profunda e dedicada como a minha pode perceber as camadas de sólida mansidão que lhe forram o âmago do ser. Somos modestos. o que não impediu que eles fossem acusados de comer carne humana... só que chegamos muito tarde. Ah. o do casaco de veludo. Suponde que nós parecemos tão escandalosos como os cristãos porque somos realmente tão inofensivos como eram os cristãos. — Eu não sou manso! — O camarada Witherspoon. Mas.. Cortou o repentino silêncio a voz forte e áspera do homem do casaco de veludo. Suponde que parecemos tão loucos como os cristãos porque somos realmente tão mansos como eles". camadas tão inescrutáveis que êle mesmo é incapaz de divisá-las. Porque é nas profundezas do coração da terra que os perseguidos têm permissão para reunir-se. farlhe-ia esta pergunta: "Que espécie de reputação moral desfrutavam nas ruas de Roma os cristãos que se congregavam nas catacumbas? Quantas histórias de atrocidades cristãs não contavam os romanos cultos? Suponde (eu pediria a esse homem). Witherspoon. estivesse aqui neste momento um homem que durante toda a sua vida alimentou imensos preconceitos a nosso respeito. — Não! Isso não! É demais! protestou Mr. Repito: Somos os verdadeiros cristãos primitivos.. Gregory repetiu furioso: — Somos clementes como os primitivos cristãos eram clementes. como os cristãos se reuniam nas catacumbas. — Vergonha! bradou Witherspoon. se por um desses incríveis acasos.. Os aplausos que tinham saudado as primeiras frases de Gregory foram esfriando gradualmente e ante as últimas palavras sumiram-se de vez. Nós não comemos carne humana. como eles eram modestos: contemplai-me. como êle conhece tão mal a si mesmo! Não podeis negar que êle usa de expressões extravagantes e que sua aparência é feroz e mesmo (para o gosto vulgar) pouco sedutora. diz que não é manso. Somos simples como eles eram simples: contemplai o camarada Witherspoon. Somos clementes. tornou Gregory. É certo que ainda não vai ouvi-la nesta noite. Por que não? . embora a paixão me mande romper o teto com minhas palavras. suponde que nós estamos apenas revivendo aquele misterioso paradoxo da História..

— Camaradas! gritou com uma voz que fêz estremecer os ouvintes. . "A honestidade é o melhor princípio" e "A virtude traz em si mesma a recompensa"? Respondam-me por favor. com coragem moral e tranqüilo impulso intelectual. Presidente. A cavaleiro das calúnias que nos representam como assassinos e inimigos da sociedade humana. Gregory volveu a seu banco e passou a mão pela testa. por mera rotina. está ansioso de saber por que motivo ninguém o come. disse Gregory com febril jovialidade. mas o Presidente ergueu-se como um autômato e falou com voz incolor: — Há alguém que se oponha à eleição do camarada Gregory? A assembléia dava a impressão de estar vaga e subconscientemente desapontada. que o estima sinceramente. abaixo o amor! — .. os perenes ideais de fraternidade e simplicidade. ou que eu visaria se fosse eleito representante dessa corporação. E Mr. Mas quando o Presidente ia abrir a boca para declará-la aprovada. Gabriel Syme evidentemente entendia de oratória. no seio de nossa sociedade. Não houve em todo o discurso do camarada Gregory uma única . não haverá dificuldade em atingir o objetivo que visamos como uma corporação. Todavia. a proposta teria sido aprovada. (Risos) De qualquer modo. repetiu Gregory rangendo os dentes. Fêz-se um silêncio constrangedor. Syme levantou-se rapidamente e disse com voz sumida e quieta: — Sr.32 G. — Não! não! disse Witherspoon. . O fator decisivo na oratória é uma súbita mudança de voz. Tendo pronunciado estas primeiras palavras formais num tom moderado. breve e simples. fêz com que as seguintes retumbassem e estalassem na abóbada. O camarada Witherspoon mexia-se intranqüilo em seu banco e resmungava dentro da espessa barba. como se uma das armas houvesse disparado. eu me oponho. Revestimos de armas estas paredes e barramos a porta com a morte para impedir que outros venham aqui ouvir o camarada Gregory dizer-nos: "Sede bons e sereis felizes".. CHESTERTON — O camarada Witherspoon. demandaremos. Foi para isto que viemos até aqui? Para ouvirmos frases como essas é que vivemos soterrados como ratos? Bobagens desta ordem podemos escutar nos banquetes das escolas dominicais. que está fundada no amor. que está fundada no amor. K.

Digo que o camarada Gregory é incompetente para o cargo de Quinta-feira. Somos carrascos. Sou uma causa. que nós não somos os inimigos da sociedade. apesar de todas as suas amáveis qualidades. pois a sociedade é inimiga da humanidade. que iam ficando mais ferozes à medida que aprovavam as palavras cada vez mais intransigentes . que estou mantendo meus compromissos e que não faço outra coisa senão o meu dever. sua mais antiga e impiedosa inimiga. Concordo. (Renovados aplausos) O sujeito talhado para ser um bom cura não foi talhado para ser um enérgico.. (Aplausos) Não sou apenas um homem. seus lábios côr de barro despregaram-se e êle exclamou com automática e inanimada clareza: — Maldito hipócrita! Syme cravou seu olhar azul-pálido nos olhos furiosos de Gregory e disse com dignidade: — O camarada Gregory acusa-me de hipocrisia. (Apoiado. êle está incapacitado de ser Quinta-feira em razão de suas amáveis qualidades.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 33 palavra que um cura não pudesse ouvir com prazer. Êle sabe. e tanto pior para a sociedade. apoiado) O camarada Gregory nos disse. mais uma vez indulgente. apoiado) Não é tempo de polidez cerimoniosa. Aquelas caras. e menos ainda de cerimoniosa modéstia. Falo sem rebuços. Oponho-me ao camarada Gregory como me oporia a todos os governos da Europa. resoluto e eficiente Quinta-feira. num tom demasiadamente indulgente. Gregory permanecia fitando-o. que não somos assassinos. (Apoiado. Nós somos os inimigos da sociedade. (Aplausos renovados) Oponhome ao camarada Gregory tão impessoalmente e tão serenamente como se tivesse de escolher entre um revólver e outro numa daquelas prateleiras. apoiado) O camarada Gregory nos disse. com o rosto idiotizado de assombro. tão bem como eu. apoiado) Mas eu não sou um cura (Ruidosos aplausos) e não o escutei com prazer. (Apoiado. (Aplausos) Desde que Syme se levantara. Não simulo. (Apoiado. Aliás. Esta frase afogou-se numa ensurdecedora cachoeira de aplausos. Não queremos o Supremo Conselho da Anarquia infetado de pieguismo sentimental. E digo mais: em lugar de ter Gregory e seus métodos açucarados no Supremo Conselho. O anarquista que se dedicou à anarquia esqueceu a modéstia e esqueceu também o orgulho.. ofereço-me como candidato. Não somos assassinos. Mas eu digo que nós somos os inimigos da sociedade. Na pausa que se fêz.

lentamente. Vim para destruirvos e cumprir vossas profecias". ouvia-se a voz de Syme trovejando impiedosamente: — Não vou para o Conselho com o fim de rebater a calúnia dos que nos chamam assassinos.. Este homem não pode ser eleito. — É . No momento em que êle se anunciou como candidato ao posto de Quinta-feira. ao contrário. ... lutarei por merecê-la. arrebatado. como emenda.. mais espantosa do que qualquer ganido. CHESTERTON de Syme. a todos eles responderei: "Sois falsos reis. o sangue começou a insinuar-se em seu rosto inerte. mas antes que cessasse Witherspoon. — Parai! Pairai! gritou Gregory frenético. acima dos brados de Gregory e acima do alarido geral. — Vou dar cabo de tudo isso! disse. Que é que êle é? Duas vezes Gregory abriu a boca mas não pôde articular uma só palavra. . K. .. — Há alguém que esteja de acordo com a emenda? perguntou. ergueu-se de um salto e berrou para conter a gritaria. Entretanto. um homem alto. (Aplausos estrepitosos e prolongados) Ao pároco que afirma que estes homens são inimigos da religião. parai! gritou com uma voz aguda que lhe rasgava a garganta. . tentava levantar-se. o cabelo e a barba eriçados. rebentou incontrolável bramido de excitação e assentimento. imprimiu à voz uma nova modulação. Tudo isso é uma. Parai. . cansado. estavam agora retorcidas em esgares de expectação ou fendidas em gritos de regozijo. Êle é . mas sois verdadeiros profetas. Gregory. que estivera a esganiçar-se até então. Depois. de olhos melancólicos e de cavanhaque à americana. Num dos últimos bancos. ao juiz que afirma que estes homens são inimigos da lei. — Parai! Loucos.34 G. ? ! repetiu Syme completamente imóvel. ao gordo parlamentar que afirma que estes homens são inimigos da ordem e da moralidade públicas. falou: — Proponho. Gregory. cuja boca espumava. A voz do Presidente cortou-lhe a palavra com frieza. que o camarada Syme seja indicado para o posto.. O pesado clamor paulatinamente decrescia. e sua voz parecia tão pesada como uma pedra.

Chamai-me louco. a emenda. — Camaradas! bramiu. naqueles lances. Não direi que é um conselho. Podeis chamá-la uma ordem louca. o homem comprido e magro. Se não quereis acatar minha ordem. oh! interrompeu Mr. Witherspoon. Este se contentou com dizer: — O camarada Gregory ordena.. mas executai-a. pois não posso darvos nenhuma razão para o seguirdes. no êxtase da dor. não. aceitai minha degradação. disse Mr.. reiterou Gregory com tão inesperada sinceridade que por uns instantes a sala ficou em silêncio. ofegante e arrebatado. mesmo agrilhoada. Camaradas. Gregory estava novamente de pé. Pela primeira vez. Ajoelho-me diante de vós. Buttons. com mecânica rapidez. isso não é muito dignificante.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 35 — Êle é inexperiente em nosso trabalho. que por um momento a vitória louca e frágil de Syme oscilou como um caniço ao vento. conseguira levantar-se e estava repetindo com monótono sotaque americano: — Peço licença para apoiar a candidatura do camarada Syme.. Um dos anarquistas logo interpelou Gregory: — Quem é você? Você não é o Domingo. mas ouvi-me! Matai-me. se quiserdes. deverá ser apreciada. — Oh. atiro-me a vossos pés. um esquálido destroço de homem. é tão terrível. em primeiro lugar. Na verdade. Não. do cavanhaque americano. concluiu e sentou-se imediatamente. Não sou nenhum louco. . disse o Presidente ao fim de uma pausa de consternação. Protestai. Dou-vos um conselho. E outro acrescentou em tom mais rude: — Nem é o Quinta-feira. — Como é de praxe. mas obedecei-me! Não elejais este homem! A verdade. Foi o suficiente para desfazer o feitiço. Nesse ínterim. numa voz semelhante à de um mártir que. imploro-vos: não elejais este homem. — Não sou nenhum louco. o Presidente. Nada significa para mim que vós me odieis como tirano ou que me detesteis como escravo. houve alguns segundos de silêncio real.. gritou Gregory. Mas nada se podia adivinhar nos olhos frios e azuis de Syme. Gregory. — Camarada Gregory. supera a própria dor. Resta saber se o camarada Syme. Direi que é uma ordem.

O alarido cresceu como o mar. No instante em que a eleição se concluiu e foi declarada irrevogável e Syme recebeu suas credenciais. Todos os que estavam na sala pareciam pensar na lancha que esperava no rio. redarguiu Syme gravemente. Buttons desceu com Syme por um corredor estreito. repetiu: — Resta saber se o camarada Syme deve ser eleito para o posto de Quinta-feira no Conselho Geral. . — Não diga tolices. Com um gesto que revelava o recepcionista de loja. — E você é um cavalheiro. na bengala de estoque e no revólver que esperavam em cima da mesa. Inesperadamente. Gabriel Syme. trêmulo da cabeça aos pés. retrucou Syme. desvendando um quadro azul-prateado do rio ao luar. possuímos noções tão danadamente contrárias que entre nós não pode haver nenhuma conciliação. do Serviço Secreto da Polícia. Buttons alvoroçando-se. Mr. Tenha a bondade de acompanhar-me. semelhante a um cenário de teatro. No fim do corredor havia uma porta que foi aberta engenhosamente por Buttons. senão você.36 G. como um relógio que tivesse acabado de receber corda. — Você é um demônio. disse Mr. as mãos ergueram-se como floresta. estava eleito para o posto de Quinta-feira no Conselho Geral dos Anarquistas da Europa. disse Gregory por fim. todos se puseram de pé e os fogosos grupos movimentaram-se e confundiram-se na sala. com um olho vermelho.. que o contemplava com ódio e espanto.. Mas. Passaram muitos minutos fitando-se mutuamente em silêncio. e três minutos depois. Syme viu-se cara a cara com Gregory. — Foi você que me arrastou a esta cilada. que parecia um filhote de dragão. K. A poucos passos achava-se uma escura e minúscula lancha a vapor. Seguia-lhes febrilmente os passos o torturado Gregory. Foi você que. começou Gregory. me trouxe a este demoníaco parlamento? Você me fêz jurar antes que eu o fizesse a você. CHESTERTON deixou-se cair em seu banco. Ao dizer isso ajustou o enorme capote sobre os ombros e apanhou a garrafa de cima da mesa. quanto ao que nos parece justo. Mr. Talvez estejamos fazendo o que ambos julgamos ser justo. — O barco está pronto. reforçado com arcos de ferro. Não temos nada de comum. e o Presidente. exceto a honra e a morte. Quem.

disse cortêsmente. Muito obrigado. . É um homem de bem. Houve uma coisa especial que você me prometeu no começo desses sucessos e que realmente me proporcionou. — Você cumpriu sua palavra. enquanto a lancha começava a deslizar. — De que é que você está falando? bradou o caótico Gregory. e fêz um cumprimento militar com a bengala de estoque. disse Syme. Gabriel Syme voltou-se para o ofegante Gregory. Cumpriu a palavra até nos pormenores mais insignificantes. com o rosto na sombra. Que foi que eu lhe prometi? — Uma noite muito divertida.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 37 No momento em que ia passar para bordo.

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Gabriel teve de revoltar-se em nome de alguma coisa. Seu ódio à anarquia não era hipócrita. e outro fizera gorada tentativa de sair de chapéu e mais nada. Sua aversão à desordem moderna foi coroada por um acidente. revoltou-se em nome da única coisa que restava: o bom senso. Sua mãe dedicava-se à simplicidade e ao asseio. êle já estava a pique de defender o canibalismo. Assim. Assediado desde a infância por todos os tipos concebíveis de revolta. Sua respeitabilidade era espontânea e imprevisível. Seu pai cultivava as artes e o aperfeiçoamento de si mesmo. Um de seus tios tinha o hábito de sair à rua sem chapéu.CAPITULO IV A HISTÓRIA DE UM DETETIVE Gabriel Syme não era simplesmente um detetive que pretendesse ser poeta. era realmente um poeta que se transformara em detetive. Não atingira esse ponto por via de nenhuma tradição doméstica. uma rebelião contra a rebelião. o que fazia com que seus protestos de fidelidade ao senso comum parecessem um pouco ferozes demais para serem sensatos. e no momento em que ela chegou a propagar o vegetarianismo. pelos quais revelava saudável repugnância. Aconteceu que êle passava por uma rua quan- . Mas dentro dele corria boa parcela do sangue destes fanáticos. Descendia de uma família de excêntricos. durante os seus mais verdes anos. Syme era um daqueles homens a quem desde cedo a rematada loucura da maioria dos revolucionários compele a adotar diante da vida uma atitude demasiadamente conservadora. Quanto mais sua mãe pregava uma abstinência mais do que puritana. mais seu pai se expandia numa incontinência mais do que paga. Por isso o menino. em cujo seio as pessoas mais velhas empolgavam idéias mais novas. ignorou totalmente qualquer bebida entre os extremos do absinto e do licor de cacau.

É provável que tenha sido este o motivo que levou o guarda do aterro a caminhar em sua direção e saudá-lo: — Boa noite! . uma invasão chinesa. muito depois. posto entre a espada e a parede. Os dentes cerrados mordiam um mata-rato preto. ainda mais antiquado. estava tão carregado e o rio emitia um clarão tão acobreado que a água parecia deitar chamas mais violentas que as do crepúsculo. Considerava-os como um perigo imenso e terrível. gentil. Quando vagueava pelo aterro do Tâmisa. Usava uma antiquada cartola preta e envolvia-se num capote preto e roto. Certa vez. Inquietava-o permanentemente o desamparo e o desespero do governo. comprido e fino. pitando amargamente um charuto barato e matutando nos progressos da anarquia. mas havia em sua mente um ponto que não estava são. O céu. tão selvagem ou tão solitário como êle.40 G. Toda a sua pessoa representava um perfeito exemplar daqueles anarquistas contra quem havia declarado uma guerra santa. Era quixotesco demais para ver as coisas com naturalidade. não havia anarquista. Inundava continuamente os jornais e as cestas de papéis usados das redações com uma torrente de contos. Syme passeava pelo aterro. Mas parecia ter avançado muito pouco na direção do inimigo. sob um crepúsculo vermelho-escuro. como um punhado de sujeitos mórbidos que combinam ignorância com intelectualismo. dos de bomba no bolso. de fato. cortês. Depois disto. pôde ver as janelas quebradas e os rostos ensangüentados. continuou como de costume: quieto. comprado em Soho. A barba e o cabelo amarelados também estavam mais desgrenhados e leoninos do que quando surgiram. K. aparados e penteados. Tal combinação tornava-o semelhante aos antigos vilões de Dickens e Bulwer Lytton. quando a fumaça desapareceu. Não considerava os anarquistas. versos e violentos panfletos acautelando as gentes contra esse dilúvio de bárbara negação. — e isto era muito pior. — parecia ter avançado menos ainda na direção da própria subsistência. nos jardins de Saffron Park. do mesmo modo que a maioria considera. Por alguns momentos ficou cego e surdo e. CHESTERTON do se deu um atentado a dinamite. como. O rio vermelho refletia o céu também vermelho e ambos refletiam sua cólera. Era literalmente um caudal de fogo correndo sinuoso através das amplas cavernas de um mundo subterrâneo. Nessa época Syme tinha um aspecto andrajoso.

Não gozei nunca desses privilégios. por mais falsas que sejam. ali ao crepúsculo. — Será mesmo uma boa noite? disse mordazmente. O guarda suspirou e meneou a cabeça. disse solenemente. — Tem razão. Veja este céu. Eu sei que não sou digno. você continuaria aqui perpètuamente impassível. não passava de uma indistinta figura azulada. — Mas homem.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 41 Syme. em plena crise de mórbido temor pela sorte da humanidade. veja este rio: vermelhos. A disciplina de um exército é a cólera de uma nação. Vocês são capazes de achar boa a noite do fim do mundo. E Syme sentiu-as explodirem dentro de si antes que pudesse refreá-las. é a calma da resistência organizada. Temo que a minha educação tenha sido muito rudimentar e obsoleta. — Mas por que você ingressou na polícia? interrogou Syme com rude curiosidade. mas eu poderia perdoar a crueldade de vocês não fosse esta calma que vocês afetam. — Ah é? disse Syme admirado. sentiu-se espicaçado com a simples e mecânica cortesia do funcionário. cujos temores pela sorte da humanidade dizem respeito antes às aberrações do intelecto cien- . — Se temos calma. — Oh. continuou o guarda. que. Descobri que havia no serviço uma oportunidade especial para aqueles. Vocês da polícia são cruéis com os pobres. — O soldado deve ter calma no aceso da batalha. para muitas pessoas as coisas mais verdadeiras do mundo. são. por Deus! Você não devia ser da polícia. — Onde você estudou? inquiriu Syme curioso. disse o guarda com tristeza. sangrentos! Garanto que se isso fosse rigorosamente sangue humano. — Valha-me Deus! As Escolas Públicas! É essa a educação não-sectária? — Não. não obstante. Não sou do tempo das Escolas Públicas. a inspecionar pobres transeuntes inofensivos e a ordenar-lhes que se dispersassem. — Exatamente pelo mesmo motivo que você tem de insultar a polícia. replicou o guarda. espalhado e cintilante. respondeu o guarda. em Harrow. — As simpatias de classe.

através de um livro de sonetos. mas no terreno da controvérsia. O detetive comum vai às cervejarias capturar ladrões. é mais arriscada e mais sutil do que a do simples detetive.42 G. disse o guarda calmamente. Espero que tenha sido claro. tivemos de correr bastante para chegarmos a tempo de impedir um assassínio em Hartlepool. Por esta razão. A situação é esta: o chefe de um dos nossos departamentos. detetive dos mais célebres de toda a Europa. Está convicto de que os mundos artísticos e científicos se unem secretamente numa cruzada contra a Família e o Estado. Como é que um homem como você bota um elmo azul e vem filosofar aqui no aterro? — Evidentemente você nada sabe dos últimos desenvolvimentos do nosso sistema policial. Os olhos de Syme brilhavam de curiosidade e simpatia. descobrimos que um crime está para ser cometido. distúrbios da vontade humana. respondeu o homem de azul. K. O nosso êxito se deveu exclusi- . não só no sentido meramente criminal. detetives que são também filósofos. uma caça à heresia. — A missão do polícia-filósofo. Nós. a coberto das classes cultas. ao crime intelectual. Mas quanto a ter-se explicado está longe ainda. disse Syme. o emprego do polícia mediano numa investigação que é. acho que as exprimiu claramente. nós nos dirigimos ao serões artísticos para descobrir pessimistas. — Se você se refere a suas opiniões. por fim. isso não me surpreende. porque são estas que abrigam a maior parcela de nossos inimigos.. — O que é que fazem então? perguntou. A função deles é investigar as origens dessa conspirata e combatê-la. Há pouco. ao mesmo tempo. vem desde muito tempo suspeitando de uma conspiração puramente intelectual que em breve ameaçará a própria existência da civilização. retorquiu o guarda. Penso que você podia alistar-se. Através das páginas de um razão ou de um diário os detetives comuns descobrem que se cometeu um crime. Mas não seria aconselhável. Eu sou democrata e creio no valor do homem comum em questões de intrepidez e virtudes comuns. Aliás. C H E S T E R T O N tífico que aos normais e desculpáveis.. ainda que excessivos. Nós os mantemos em segredo. — Explicarei tudo. Temos que seguir desde a origem a pista daqueles pensamentos terríveis que conduzem os homens ao fanatismo intelectual e. Mas parece que o seu espírito já está predisposto. obviamente. — Alistar-me em quê? perguntou Syme. êle ideou uma especial corporação de detetives.

com o sacrifício daquelas que lhes parecem vidas menores. Comparados com êle. meu coração me leva para o lado deles. apenas desejam obter para si mesmos uma abundância maior de vida humana. dos príncipes da Renascença. que há realmente tal conexão entre o crime e a inteligência moderna? — Você não é suficientemente democrata. Mas o filósofo pernicioso não tenta alterar as coisas. a deles e a dos outros. Mas este nosso novo movimento é uma empresa muito diferente. Syme pôs-se a bater palmas. só que o procuram erroneamente. mas tinha razão há pouco quando disse que o tratamento que dispensamos usualmente aos criminosos pobres é um tanto brutal. sinto que êle consiste apenas numa guerra aos ignorantes e desesperados. Mas os filósofos condenam a propriedade enquanto propriedade. só que desejam que a propriedade se torne propriedade deles para que possam respeitá-la mais e melhor. Wilks. Afirmamos que o criminoso mais temível destes tempos é o filósofo moderno inteiramente bárbaro. Pretende limpar o edifício e não destruí-lo. Desde que um determinado obstáculo — um tio rico. replicou o guarda. Tenho pensado assim desde a infância. Afirmamos que o criminoso temível é o criminoso culto. Lembramo-nos dos imperadores romanos. arrombadores e bígamos são homens de moralidade perfeita. Garanto-lhe que abomino meu ofício quando. O criminoso vulgar é um mau sujeito. — Isso é verdadeiro! bradou.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 43 vãmente à argúcia do jovem Mr. quer aniquilá-las. que atinara com o sentido exato de umas oitavas que havia lido. inquiriu Syme. Os bígamos respeitam o matrimônio. em todo caso. mas nunca pude estabelecer a antítese verbal. — Quer dizer. querem destruir a simples idéia da posse pessoal. Aceitam o ideal essencial do homem. Mas os filósofos odeiam a vida mesma. não é anarquista. mas é. Procuramos dar um desmentido ao pretensioso axioma inglês que diz que os incultos são os criminosos temíveis. nosso companheiro. É reformador. Os ladrões respeitam a propriedade. condicionalmente bom. por exemplo — seja removido. está pronto para aceitar o universo e louvar a Deus. Os assassinos respeitam a vida humana. Mas os filósofos desprezam o casamento como casamento. . algumas vezes. ou então não levariam a cabo a formalidade altamente cerimoniosa e ritualística da bigamia. grandes envenenadores.

com urgência. tanto quanto qualquer outro. Pode dizerse mesmo que o círculo externo é o dos leigos e que o interno é o do sacerdócio. Minha única dúvida reside em saber se temos o direito de punir alguém mais. que o mundo moderno está cheio de homenzinhos sem lei e de pequenos movimentos absurdos. que formam a copiosa massa dos sectários. têm geralmente o mérito de discordarem uns dos outros. composto de dois círculos: um externo e outro interno. Sei. K. Apertam o cerco. Falo de um vasto movimento filosófico. Prefiro dizer que o círculo externo é do setor inocente e que o interno é o setor supremamente culpado. selvagens como eles são. isto é. redargüiu o guarda. alistar-se em nosso exército especial para lutar contra a anarquia. com essas fortuitas explosões de dinamite na Rússia e na Irlanda. CHESTERTON Sim. como saquear os pobres e perseguir os infortunados. anuiu Syme. homens que acreditam que as normas e as fórmulas destruíram a felicidade humana. Como é que você pode dizer que chefiam um exército ou organizam uma investida? Que espécie de anarquia é esta? — Não a confunda. mas sei que está desperdiçando sua vida. se bem que desorientados. Mas ainda não entendi tudo. . esfregando as mãos numa excitação inusitada em pessoas da sua categoria e dos seus hábitos. Para eles. Os exércitos de nossos inimigos estão em nossas fronteiras. Os do círculo externo. Não crêem que o crime gera o castigo. Mas é inexplicável! Não sei o que você fêz. o homem que seduziu sete mulheres deveria naturalmente passar impune como as flores da primavera. Crêem que o castigo gerou o crime. Estes eu filio ao setor dos inocentes. são simples anarquistas. Abandonou a obra mais digna: a punição dos poderosos traidores do Estado e dos poderosos heresiarcas da Igreja. Você deve. Crêem que todos os funestos efeitos do crime são conseqüências normais do sistema que lhe deu o nome de crime. — Realmente é uma oportunidade que não se deve desperdiçar. Os modernistas dizem que não devemos punir os heréticos. — Mas isto é absurdo! exclamou o guarda. Para eles o punguista é naturalmente um sujeito de sentimentos delicadamente generosos. Mas.44 G. Um momento mais e você poderá ser excluído da glória de trabalhar conosco e talvez da glória de morrer com os últimos heróis do mundo. que são efetivamente as explosões de homens oprimidos. o mundo moderno conservou todas aquelas facetas realmente opressivas e ignominiosas da função policial.

Êle tem o capricho de viver sempre num quarto escuro como breu. pois que ninguém nunca o viu. Quando falam de um paraíso fora do bem e do mal. do qual lhe falei. se quiser. — Sei de certeza que no momento há uma vaga. mas o alto sacerdócio regozija-se por saber que matou alguém. Um pouco confuso e muito animado. É este o motivo por que lançam bombas em vez de disparar pistolas. — É o novo recruta? perguntou uma voz dura. já que tenho a honra de merecer um pouco da confiança do chefe. Visam apenas dois objetivos: destruir primeiro a humanidade e depois destruírem-se a si mesmos. — É natural. Assim também falam os do círculo interno. Nada tinha da escuridão normal. era antes a escuridão da cegueira instantânea. Antes de dar pelo que fazia. respondeu calmamente o guarda. .O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 45 — Oh! murmurou Syme. Também falam para as multidões aclamadoras da felicidade futura e da humanidade que um dia será livre. têm em mente o túmulo. Você deveria vir vê-lo. não direi que você vai vê-lo. portanto. Mas em suas bocas (e aqui o guarda baixou a voz). mas poderá falar com êle. Aliás. e de coisas semelhantes. disse o guarda. Diz que assim seus pensamentos ficam mais claros. — Como posso unir-me a vocês? perguntou Syme numa espécie de arrebatamento. numa humanidade liberta da servidão do vício e da servidão da virtude. Venha comigo. — Não. em suas bocas essas frases ditosas têm uma significação aterradora. os do sacerdócio sagrado. Suas palavras querem dizer morte. têm em mente que a humanidade há de suicidar-se. Syme deixou-se levar até uma porta lateral na longa fila de edifícios da Scotland Yard. A tropa dos inocentes fica desapontada ao ver que a bomba não matou o rei. no paraíso do futuro. Quando asseveram que a humanidade há de ser livre algum dia. são demasiadamente intelectuais para crer que neste mundo o homem possa libertar-se uma vez sequer do pecado original e do combate. que estas pessoas falem no advento de uma era de felicidade. em que as formas pouco a pouco se esboçam. Eles não têm ilusões. passou pelas mãos de cerca de quatro oficiais intermediários e encontrou-se de um momento para outro num quarto cuja escuridão inesperada feriu-o como uma centelha. — Pelo telefone? inquiriu Syme com interesse.

Está bem. K. enfiou uma flor amarela na lapela e. em suma. Antes que êle deixasse os quartéis da polícia. visto que nenhum contorno se podia adivinhar naquela escuridão. que o homem estava de costas para êle. ponderou Syme. é que não sei de nenhum ofício em que a simples boa vontade seja prova de aptidão. solenemente eleito Quinta-feira do Conselho Central Anarquista.46 G. Já vimos para onde sua aventura o guiou finalmente. Está admitido.. Foi assim que ao reaparecer com sua deplorável cartola preta e seu anárquico e deplorável capote na claridade carmesim do crepúsculo. que parecia estar a par de tudo. onde se lia um número e as palavras "A Ultima Cruzada". Eu o estou condenando à morte. experimentou a esquisita sensação de estar vivendo num ambiente completamente novo. disse o outro. — Ninguém tem nenhuma experiência da batalha do Armagedon. comprou um chapéu novo. vestiu um irrepreensível terno de verão azul-cinza. assombrado. Guardou-o cuidadosamente no bolso do colete. trêmulo. Syme compreendeu duas coisas: a primeira. — Também não sei se sou capaz. a verdade. procurou timidamente lutar contra esta sentença irrevogável.. Quando Syme tomou a lancha. — Eu sei. — Você quer e isso basta. Gabriel Syme vinha feito membro da nova corporação de detetives. mas na paisagem . disse o desconhecido. — É o novo recruta? repetiu o chefe invisível. fundada para dar combate à grande conspiração. armado de bengala de estoque e revólver. converteu-se naquele sujeito elegante e quase intolerável que Gregory veio a conhecer no jardinzinho de Saffron Park. seu amigo entregou-lhe um cartãozinho azul. — Mas. C H E S T E R T O N E estranhamente. não só na paisagem de uma nova terra. disse o outro. não tenho experiência. Seguindo os conselhos do guarda seu amigo (que era profissionalmente inclinado ao asseio) aparou o cabelo e a barba. O dos mártires. signo de sua autoridade oficial. Syme.. Passe bem. acendeu um cigarro e dali partiu para caçar e acometer o inimigo em todos os salões elegantes de Londres. na verdade. — Mas eu.. que a voz procedia de um homem de estatura descomunal e a segunda. êle se encontrava subindo o silencioso Tâmisa. Mais ou menos à uma e meia da madrugada de um dia de fevereiro.

Contudo. o conhaque e o revólver carregado — revestiam-se daquela poesia concreta e material que toca o menino que leva uma espingarda num passeio ou que vai para a cama com um pedaço de bolo. mu- . as casas e os terraços reluzentes e frios das margens do Tâmisa pareciam tão ermos como as montanhas da lua.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 47 de um novo planeta. Assim. A lua estava tão redonda. de alguns símbolos mais antigos e mais simples. embora fossem os utensílios de mórbidos conspiradores. como naquele crepúsculo que. tão cheia. que (por paradoxo que deve ter sido notado inúmeras vezes) parecia um sol mais fraco. Todos os sinais da apaixonada plumagem daquele anuviado crepúsculo haviam-se desvanecido. Syme via na bengala de estoque a espada do paladino e no conhaque o vinho do trago de despedida. Ê isso veio reafirmar em Syme a convicção de que se achava num outro planeta mais vazio. e estas esplendiam como fogo alvacento quando a lancha. que chamejava na noite como uma imensa fogueira. provoca o sol em eclipse. opunha a esta ofuscante desolação na terra luarenta a sua cavalheiresca loucura. e com muito esforço avançava com lentidão. Dava. Raiava como enormes barras de chumbo que se racham deixando entrever barras de prata. à completa mudança havida no tempo e no céu. as mais desumanizadas fantasias modernas necessitam. para se firmar. Isto se devia. um pouco também. tornavam-se as expressões de um romance mais saudável. Sobre toda a paisagem derramava-se um irreal e luminoso palor. A aventura pode ser louca. mas a de um mortiço dia de sol. no dizer de Milton. Para o espírito exaltado de Syme. aquela paisagem só era fantástica pela presença de um ente realmente humano. A bengala de estoque e a garrafa de conhaque. mas o aventureiro deve ser são. Ao chegarem diante da portentosa frontaria de Westminster o dia começava a raiar. Mas a própria lua só é poética porque há o homem da lua. O dragão sem São Jorge não seria sequer grotesco. que girava em volta de uma estrela mais triste. A lua transparente que alumiara Chiswick desaparecera no momento em que eles passavam por Battersea. em grande parte. não a impressão de uma resplandecente noite de lua. Agora a nudez da lua pairava na nudez do céu. A lancha era manejada por dois homens. à impensada porém firme resolução daquela noite e. desde que entrara na lôbrega taberna duas horas antes. Em verdade. Mesmo as coisas comuns que trazia consigo — a comida.

Êle. K. CHESTERTON dando de rumo. As grandes pedras do aterro revelavam-se aos olhos de Syme escuras e gigantescas. Contemplando-as. . forma escura e delgada no meio da fabulosa pedraria. Não tinham pronunciado uma única palavra. imóvel. Syme sentia-se como se fosse desembarcar nas colossais escadarias de um palácio egípcio. Pulou da lancha sobre um degrau escorregadio e ficou.48 G. Eram negras e descomunais na infinita alvura da aurora. ia galgá-las para atacar os sólidos tronos de terríveis reis pagãos. rumando contra a corrente. Realmente. derivou para os lados de uma ampla escada de desembarque localizada um pouco além de Charing Cross. Os dois tripulantes se afastaram na lancha. um instante. em espírito. a impressão não era despropositada.

tirou do bolso o documento que Buttons lhe dera para comprovar a eleição. Entretanto. debruçado no parapeito. como este nem ao menos pestanejava. pálido e inteligente. Depois. mas. mas o rosto não se desprendia da contemplação do rio. E. Syme ia-se aproximando lentamente do desconhecido. Êle se mantinha mais calmo do que seria de esperar de alguém submetido a tão indiscreta inspeção. e exibiu-o aos olhos daquele rosto triste e belo. Então. contemplativo e. Usava um chapéu alto de seda e envergava um sobretudo do tipo de moda mais formalista. Quanto à aparência. parecia não ter nervos. sob a luz desmaiada e fosca da manhã. antes de atingir o topo. Syme insistia em encarar o rosto pálido. Reparando em tudo isso. o rosto comprido. Agora. a ampla escadaria de pedra pareceu a Syme tão deserta quanto uma pirâmide. cuidou que se enganara. o desconhecido não se mexeu. grave e delicado. esquadrinhava o rio. a seu modo. pôde acercar-se o suficiente para notarlhe. Syme abeirou-se ainda mais. Galgando os degraus um a um. êle era totalmente convencional. como tal.CAPITULO V A FESTA DO MEDO À primeira vista. com uma flor vermelha na lapela. vendo que não recebia nenhum sinal. rematado com um tufo triangular de barba negra na ponta do queixo. tinha fortes razões para convencer-se de que este homem era um dos comparsas de sua doida aventura. A princípio. Esta moita de pêlos parecia obra de mera negligência e destoava do rosto barbeado com esmero — rosto aberto. Estava tão imóvel como um boneco de cera e. que não condizia com o todo caprichosamente escanhoado. nobre. O . descobrira que um homem. porém. o instinto levou Syme a crer que tinha diante de si o homem com quem devia encontrar-se.

mas a voz extremamente morta contradizia o fanatismo do rosto. veja bem — que dá para Leicester Square. Assim. De repente. Depois Domingo ordenou que reservássemos um quarto num restaurante. a sombria missão que lhe fora cometida e a solidão na majestosa pedraria orvalhada acabavam por tornar aquele sorriso enervante. mas chego a pensar às vezes que seu cérebro imenso. continuou o outro familiarmente. disse. Sem dar nem pedir explicações. os episódios vividos. a fosca madrugada. que repuxava a face direita para cima e a esquerda para baixo. nós nos reuníamos numa cela subterrânea. Havia o rio silencioso e o homem silencioso. Consiste precisamente em não nos escondermos de jeito nenhum. CHESTERTON homem sorriu e seu sorriso foi um choque: rasgava-se numa linha oblíqua. — Se formos diretamente a Leicester Square. K.50 G. . todas as palavras afáveis eram para êle convenções defuntas e sua vida era o ódio mesmo. o desconhecido pôs-se a falar como quem conversa com velho colega. Vou ver se consigo dormir depois do café. nada havia nisto de assombroso. vai se tornando um pouco maluco. Pois não é que agora nos pavoneamos nas barbas do público? Tomamos o café da manhã numa varanda — numa varanda. em muitas pessoas. Domingo insiste sempre conosco para que tomemos café bem cedinho. caso você não saiba. Bem. Você dormiu? — Não. Racionalmente falando. tal como vocês. Muita gente tem o hábito nervoso de entortar o sorriso e. êle é um homem sem igual na terra. evidentemente. à medida que os anos passam. Diz êle que se nós não parecemos estar escondidos ninguém pensará em perseguir-nos. — Nem eu. A bem dizer. chegaremos a tempo de tomar café. Suas idéias vicejam como as florestas tropicais. O espasmo de sorriso foi momentâneo e o rosto logo readquiriu sua harmoniosa melancolia. é bom saber desde já que êle está pondo em prática um novo plano de esconder-se. Fala com inopinada urbanidade. disse Syme. No começo. — E o que diz o povo? perguntou Syme. Mas para Syme. o sorriso do homem precipitava o toque extremo de pesadelo. isso é até atraente. Mas uma coisa que ninguém nunca pôde saber é qual terá sido a última idéia do Presidente. de feições clássicas. Fêz uma pausa e continuou: — Naturalmente o secretário de sua seção contou-lhe tudo que sabia.

numa súbita voz aguda e estridente. deixará de chamá-lo astucioso. tão perturbadora e discrepante como o sorriso torto. praticamente suspensa sobre a praça. isto é. Na parte de fora dessa janela. a estátua e os contornos sarracenos do Alhambra formavam uma réplica de uma praça pública francesa ou espanhola. ser ouvidas no outro lado da praça. com coletes brancos e lapelas floridas. O largo espaçoso. esteve a ponto de jurar que entrara numa desconhecida Place disso ou daquilo de alguma cidade estrangeira. — Astucioso! Diabo leve esse seu descaramento! Astucioso! bradou o outro. em pleno sol e visíveis a toda a rua. continha uma mesa de jantar. De fato. quando dobrou a esquina e avistou as árvores e as cúpulas mouriscas. disse Syme. Suponho que nunca se saberá por que esta praça parece tão exótica e. de certa maneira. mais propriamente. você vir o Domingo. todos vestidos na insolência da moda. tão continental. erguia-se uma varanda apoiada num formidável contraforte. E assim foram ter ao fim de uma rua estreita e depararam com Leicester Square banhada pela luz do sol matinal. E isto vinha confirmar a sensação que. uma mesa de café. Na parede via-se uma larga porta-janela que era provavelmente a entrada de um imenso restaurante. Diz que somos um bando de senhores galhofeiros que se dão ares de anarquistas. muitos maus charutos em Leicester Square. suficientemente espaçosa para conter uma mesa grande. Naquela manhã este exotismo aparecia singularmente nítido. em torno da qual se abancavam. A um canto da praça sobressaía o oitão de um hotel próspero mas sossegado. cuja fachada dava para outra rua. a sensação sobrenatural de ter-se extraviado num mundo novo.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 51 — O que o povo diz é muito simples. homens barulhentos e palradores. . desde os tempos de garoto. — Tenho para mim que é um plano verdadeiramente astucioso. tinha invadido Syme no decurso de toda a aventura. Quando. O fato é que êle tinha comprado. de todos os modos. por uma fraçãozinha de segundo apenas. ou. Algumas de suas pilhérias podiam. a folhagem ensolarada. Ao ver o grave Secretário exibir seu sorriso absurdo. respondeu-lhe o guia. Contudo. Nunca se saberá se é o seu aspecto estrangeiro que seduz os estrangeiros ou se são os estrangeiros que lhe dão semelhante aspecto.

CHESTERTON Syme compreendeu que esta turbulenta assembléia matutina era o conclave secreto dos Dinamiteiros Europeus. Assim que o viu. Syme viu uma coisa que não tinha visto antes.52 G. a cabeça coroada de cabelos brancos parecia mais volumosa do que uma cabeça devia ser. Os dois homens subiram a escada em silêncio. No ponto mais próximo da varanda. Totalmente livre do medo aos perigos físicos. com suas flores e sobrecasacas. o primeiro pensamento de Syme foi que o peso do homem podia ocasionar o desmoronamento da varanda de pedra. Todo êle fora terrivelmente ampliado na escala. As orelhas que se destacavam dela eram maiores do que as orelhas humanas. Syme era realmente um desses homens abertos às mais extravagantes influências psicológicas. um criado veio atendê-los com um sorriso em que se lhe viam todos os dentes. disse. dando-lhe a sensação . Syme jamais pensara em perguntar se o homem monstruoso que quase abarrotava e desmoronava a varanda era o grande Presidente de quem os outros tinham medo. Depois. e este senso das dimensões era tão desvairado que quando Syme olhava para aquele homem tinha a impressão de que os outros personagens subitamente minguavam e ananicavam-se. Soube que era êle mesmo com inexplicável mas instantânea certeza. K. Dizem que vão lançar bombas no rei. Quando Syme e o guia se aproximaram da porta lateral do hotel. Sua vastidão não consistia somente no fato de que êle era excepcionalmente alto e inacreditavelmente gordo. mas agora assemelhavam-se a cinco garotos entretidos durante o chá pelo homem gigantesco. Desde as proporções originais tal homem devera ter sido planejado como um gigante. Já por duas vezes naquela noite pequeninas coisas insignificantes haviam-lhe exacerbado o espírito. como continuasse a contemplá-los. num grau um pouco perigoso para a saúde mental. E o criado afastou-se apressadamente com um guardanapo no braço. obstruindo boa parte da perspectiva. era exageradamente sensível ao cheiro dos danos espirituais. Estão conversando e rindo a valer. divertido com a singular frivolidade dos cavalheiros do andar superior. do mesmo modo que uma estátua é deliberadamente cinzelada como um colosso. — Os cavalheiros estão lá em cima. Sem dúvida não a vira porque ela era excessivamente grande para ser vista. elevava-se o dorso montanhoso de um homem descomunal. Lá estavam eles sentados como antes. Vista de trás.

mesmo assim. Ela o esmagava sob a forma de uma pueril mas odiosa fantasia. como se o conhecessem desde muito tempo. nada chamava a atenção. o que dava à refeição um aspecto de banquete nupcial. encaminhou-se para o assento vazio a um canto da mesa e sentou-se. o rosto se tornaria desmesurado e êle. Com efeito. não ousava olhar para a máscara de Memnon no Museu Britânico. Se da gravata e do colarinho rijo pulasse inesperadamente a cabeça de um gato ou de um cão não causaria um contraste mais absurdo. era concebível num ente humano. À primeira vista. Trajava o uniforme da ocasião: alto colarinho branco e gravata de cetim. Depois. Recordou que. os olhos varavam o emaranhado e se mostravam como os olhos tristes do servo russo. o Presidente. Na presença do Presidente a confraria inteira parecia mais do que insípida. Mas desse colarinho surgia uma cabeça indomável e inconfundível. pousou o olhar novamente em Domingo: o rosto dele era enorme. vestidos com festiva respeitabilidade. No entanto. quando estivesse muito próximo. com aquela atrevida des- . Acalmou-se um pouco ao reparar em seus casacos convencionais e no sólido e brilhante bule de café. Devia ser o dinamiteiro típico. pareceu-lhe que o rosto imenso de Domingo se dilatava. e não podia forçar-se a representar o próspero e frívolo papel que dele exigia o Presidente Domingo. quando era menino. Era polonês e. e Syme se deixou dominar pelo temor 3e que. que quase encobriam uns olhos de Skye terrier. Possuía alma e verbo incuràvelmente trágicos. exceto o fato de se acharem todos. só um homem se distinguia. Essa fisionomia não provocava o mesmo terrível efeito que a do Presidente. E esta sensação se tornava opressiva à medida que êle se aproximava do grande Presidente. Os presentes saudaram-no com uma chacota jovial. Ao atravessar uma sala interior para chegar à varanda. então. O homem parece que se chamava Gogol. Com um esforço mais heróico do que o de saltar sobre um rochedo. num breve relance. mas possuía todo o sortilégio que pode provir do grotesco absoluto. não poderia conter um grito. por um capricho do Presidente. no momento em que Syme entrou. com intratável mata de cabelos e barba castanhos. neste círculo de dias da semana. por ser ela uma cara e por ser tão grande. A verdade é que.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 53 de que se achava a poucos passos dos quartéis-generais do inferno. recebera o nome de Terçafeira.

meu velho. mas.. Aquele . disse lügubremente Terça-feira. mas desconfio que é uma alma grande demais para comportar-se como tal. Mas se um cavalheiro bota cartola e sobrecasaca e depois sai a passear de quatro pés. convenhamos. — Meu forte não é andar esgondido. E. enrubéscendo. bem.. que êle jamais esquecerá esse fato. C H E S T E R T O N consideração pela suspeita pública. Enquanto a conversação prosseguia neste tom. — Mas você está. — Também não sou forte em trapazas. veja bem.54 G. continuou o Presidente bonacheirão. meu caro. Sai a passear de quatro pés com tão inesgotável diplomacia que agora está se vendo em grande dificuldade para caminhar ereto. e a causa também está envergonhada de você. E é isso o que faz o Irmão Gogol. Insiste nos métodos do conspirador teatral. começou a ver em cada um deles exatamente aquilo que vira no homem à margem do rio: um pormenor demoníaco. pouco a pouco. Você se esconde como os outros.. Pensara. Não estou envergonhado da gausa. ao observar os demais. Veste-se como um cavalheiro. Quando você foi encontrado debaixo da cama do Almirante Biffin.. Você não é forte em coisa nenhuma. Syme passou a examinar mais acuradamente os homens que o rodeavam. com pesado sotaque estrangeiro. não sabe fazê-lo porque é um asno consumado! Você procura combinar dois métodos incompatíveis. dizia o Presidente numa voz profunda mas cheia de quietude e volume. que todos ali tinham a estatura da média das pessoas e vestiam os trajes comuns. exato! exclamou o Presidente com grave cordialidade. Ora. meu caro Terça-feira. com a evidente exceção do cabeludo Gogol. pode atrair a atenção. Contudo. antes. que era sua política. foi outra vez dominado por aquele sentimento de algo espiritualmente raro. Mas se êle descobre debaixo da cama um homem de cartola. nosso amigo Terça-feira parece não entender bem a idéia. — Nosso amigo Terça-feira. K. estava caçoando da inabilidade de Gogol para adotar modos convencionais. Quando um chefe de família dá com um homem debaixo da cama é provável que se detenha para averiguar o caso. — Exato. Está sim. se um cavalheiro de cartola e sobrecasaca passeia em Londres ninguém vai pensar que êle é um anarquista. respondeu contrariado Gogol.

Syme dizia. salvo o fato de ser o único conviva que vestia as roupas elegantes como se elas realmente lhe pertencessem. para si mesmo. Dir-se-ia que seu casaco negro só era negro por ser púrpura muito viva. na caliginosa espessura da barba. atentava noutras peculiaridades. sua boca vermelho-escuro mostrava-se insolente e sensual. à inglesa. de certo modo. Mas Syme. só percebida talvez na décima ou vigésima olhadela. que. Mas agora que Syme dispunha de mais espaço e luz para observá-lo. A uma rápida inspeção. que todos eles tinham o aspecto de pessoas elegantes e sociáveis. O cicerone de Syme recebera o título de Segunda-feira. Cada um carregava com alguma coisa. E. que não era normal e que era difícil de ser humanamente concebida. espalhava maior temor do que seu sorriso oblíquo.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 55 sorriso torto. Seu rosto formoso era tão macilento que Syme julgou-o consumido por alguma doença. percebeu que o homem levava consigo uma rica atmosfera — rica e sufocante — que lembrava. seu negro parecia mais opulento e mais cálido que as sombras negras que o cercavam. mas. Somente os exemplos individuais darão a conhecer esta semi-oculta excentricidade. era típico de todos esses tipos. exceto o riso assustador e feliz do Presidente. Junto dele sentava-se Terça-feira. um homem mais obviamente louco. podia ser . à francesa. O que quer que êle fosse não era um francês. Usava uma barba negra quadrada. não de cores mais suaves. Seus olhos ardiam em tortura intelectual. podia ser um judeu. de um momento para outro. um certo Marquês de St. Em seguida estava Quarta-feira. Eustache. desfigurava o belo semblante do homem que lhe servira de guia. e que sua barba negra só era negra por ser azul intenso. os narcotizantes odores e as lâmpadas mortiças dos mais sombrios poemas de Byron e Poe. Êle era o paradigma da tribo. o cabeludo Gogol. como se fosse composto de côr mais profunda. êle nada revelava de insólito. mas de tecidos mais leves. Era Secretário do Conselho e nada. desarrazoadamerite. A isso calhava o seu modo de vestir-se. e uma sobrecasaca negra ainda mais quadrada. acrescido de uma distorção conseguida num espelho curvo imperfeito. a própria ansiedade dos olhos escuros desmentia esta suposição. sensível a essas coisas. personagem suficientemente característico. onde todos partilhavam de alguma aberração sutil e distinta. como se o pensamento mesmo fosse dor. Não era enfermidade física que o afligia.

K. não estariam mal empregados. recordava-lhe sinistras histórias meio esquecidas. quase opacos. ao menor movimento. Na extremidade da mesa achava-se o homem chamado Sábado. Outra odiosa fantasia cruzou a mente vibrátil de Syme. o que é mais ou menos encontradiço nos jovens médicos. denunciava algo pior do que simples fraqueza. era aguardada de uma hora para outra. cara escura. que ocupava o posto de Sexta-feira. Surpreendia-se nele aquela combinação de savoir-faire com uma espécie de solícita rudeza. Depois vinha Syme e a seu lado um ancião. quadrada e barbeada. o Professor de Worms. Denunciava não apenas decrepitude. vêem-se esses olhos amendoados. esses lábios carmesins e cruéis. cuja vacância. Por isso o olhar de Syme não se apartava dos vidros negros nem do esgar cego. Baixo. o lustre nupcial do traje exprimia um contraste mais doloroso. Não se lhe descobria outra singularidade além dum par de óculos escuros. Usados pelo moribundo Professor ou mesmo pelo pálido Secretário. A flor vermelha na lapela ressaltava diante de um rosto inteiramente descolorido como chumbo. o que fazia depois de muito esforço e risco. justamente o mais simples e enganoso de todos. No deslumbrante colorido dos mosaicos e quadros persas. como se uns bêbedos almofadinhas tivessem com suas roupas vestido um cadáver. CHESTERTON algo ainda mais impenetrável no obscuro coração do Oriente. Podia ter sido apenas um crescendo de fantasia nervosa. essas azuladas barbas negras. Em nenhum outro caso. Mas nos olhos do homem mais moço e mais corpulento eles nada mais eram que . mas corrupção. histórias de moedas que se colocavam nos olhos dos mortos. algo indefinivelmente aliado ao horror de toda a cena. O efeito era repugnante. por falecimento do ocupante. insinuando que. Quando se erguia ou se sentava. mas para Syme aqueles discos negros eram terrificantes. atarracado. dizia-se médico e Buli era seu nome. A inteligência era a única coisa que se salvava desse estágio final de decadência senil. Usava as roupas festivas antes com arrogância do que com tranqüilidade e trazia um sorriso estampado na cara.56 G. que reproduzem os déspotas em caçadas. uma perna ou um braço daquele homem podia soltar-se do corpo. Seu rosto era tão cinzento como sua comprida barba cinzenta e sua testa alteava-se até fixar-se numa ruga de moderado desespero. nem mesmo no de Gogol.

na qual os outros eram deficientes. Roubavam a chave do rosto. Não se podia dizer o que significavam seu sorriso e sua gravidade. Um pouco por isto e um pouco por ser êle*dono de grosseira virilidade. Syme presumiu que o médico era o mais perverso de todos aqueles homens perversos. .O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 57 um enigma. E chegou até a admitir que os olhos de Buli tinham sido encobertos porque eram medonhos de ver.

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violentos e enigmáticos. dos quais um era velho. naquela desooncertante matinada. cuja simples forma era adulterada. por assim dizer. e que se êle caminhasse em direção ao oriente. . e não era o menor dos contrastes. outro míope. uma árvore possuída por um espírito. talvez. que se um homem caminhasse em direção ao ocidente. sobre um último horizonte. o ponto final de alguma abstrusa via do raciocínio. via que suas suposições eram subjetivas. digamos — que era mais ou menos igual a uma árvore. A conversa não foi perturbada com a entrada de Syme. encontraria alguma outra coisa que não era rigorosamente igual a si mesma — uma torre.CAPITULO VI A DESCOBERTA Tais eram os seis homens que haviam jurado destruir o mundo. como numa velha fábula. Não podia deixar de imaginar. até o fim do mundo. Sob todos os aspectos. Na presença deles Syme esforçava-se continuamente para manter o senso comum. encontraria alguma coisa — uma árvore. aqueles sujeitos pareciam colocar-se nos últimos limites das coisas. esses homens pareciam elevar-se. Mas logo avassalava-o novamente o sentimento de um simbolismo sobrenatural. Compreendia que cada um deles atingira. outro nervoso. Dali a apenas três dias. até ao fim do mundo. que se achava diante de homens normais. Às vezes. Assim. assim como as teorias por eles sustentadas se colocavam nos últimos limites do pensamento. Lá em baixo o criado dera uma informação exatíssima ao dizer que eles estavam falando de bombas e de reis. As extremidades da terra se tocavam. como se fossem visões da fronteira. o que se verificava entre o tom fluente e despreocupado da palestra e seu terrível conteúdo. Entregavam-se à discussão de uma conspirata real e muito próxima.

Mas uma coisa havia. que principiou por perturbar Syme e terminou por aterrá-lo. O agigantado homem estava muito quieto. esses jubilosos senhores haviam decidido como dar cabo dos dois potentados. que Domingo. com os rostos chegados e quase uniformemente graves. Quando tinha sobre si os olhos do Presidente. Muito simplesmente não se amedrontava com o que pudesse suceder ao Presidente francês ou ao Czar. viu lá em baixo um polícia a contemplar distraído os luzentes gradis e as árvores cheias de sol. começava a amedrontar-se com o que podia suceder a êle próprio. Bastante loquazes. que eram os príncipes da anarquia. Era o Presidente. Reconhecia. mais ativo e pungente do que a repulsa moral ou a responsabilidade social. aqueles homens pouca atenção lhe davam e discutiam entre si. exceto quando por um instante o sorriso se rasgava oblíquo na cara do Secretário. tão persistente. porém seus olhos azuis saíam fora das órbitas e enfiavam-se em Syme. K. sem a menor sombra de dúvida. Até o instrumento já fora escolhido. Syme estava na iminência de pôr-se em pé e saltar da varanda. Mas lembrou-se de que estava ainda vinculado a Gregory por um solene compromisso. Chegava a pensar nele agora com velha simpatia. como se tivessem brincado juntos na infância. Alongando o olhar do parapeito da varanda. Usualmente. Foi então que o assaltou a grande tentação que havia de atormentá-lo por muitos dias. Diante desses homens poderosos e repulsivos. sentia-se como se fosse feito de vidro. como o denticulado relâmpago se rasga oblíquo no firmamento. e aqui.60 G. Mas a verdade era que agora começava a dominá-lo um terceiro tipo de medo. sossegada e misteriosamente. que o fitava fixamente com desmedido mas ambíguo interesse. enquanto comiam toucinho com ovos na varanda soalheira. a imediação de um crime positivo e objetivo como esse bastaria para despertar e curar Syme de todas as suas inquietações puramente místicas. quase esquecera a frágil e excêntrica pessoa do poeta Gregory. e coubera ao barbinegro Marquês ser o portador da bomba. simples esteta do anarquismo. Prometera não fazer jamais aquela coisa . tinha descoberto que êle era espião. CHESTERTON o Czar ia encontrar-se em Paris com o Presidente da República da França. Êle não teria pensado em outra coisa que na necessidade de ir em socorro de dois corpos humanos ameaçados de despedaçamento pela ação do ferro e do gás rugiente.

com seu alheamento . De um lado. De outro lado. dois houve. tinha somente que preservar sua antiquada honradez para ser. no meio de corsários armados. que nunca lhe passaram pela cabeça. triturado pelo poderio desse soberbo inimigo do gênero humano. contemplando um mar deserto. caso êle persistisse na idéia de enfrentá-los sozinho. Sua alma oscilou ao sabor de uma vertigem de indecisão moral. sem dúvida era Domingo quem melhor a corporificava. não se sabe como nem onde. O segundo pensamento que nunca lhe ocorreu foi o de ser espiritualmente conquistado pelo inimigo. Todas as vezes que dirigia a vista para a praça. o projeto podia parecer impossível. Prometera não transpor de um salto aquela varanda para ir falar com o polícia. da ordem comum. porém. palmo a palmo. um monumento do senso comum. O lugar podia ser público.. como ao fim de uma doença inocente. se contasse tudo e mobilizasse contra eles toda a força da Inglaterra. Primeiro: nunca lhe ocorreu duvidar de que o Presidente e o resto do Conselho pudessem esmagá-lo. Todas as vezes que se voltava para a mesa do café topava o Presidente estudando-o plàcidamente com seus olhos enormes e intoleráveis. Se desafiasse aquele homem era provável que não sobrevivesse: ou morreria ali mesmo na cadeira em que estava sentado ou algum tempo depois. lá achava o tranqüilo polícia. Muitos modernistas. Com veneno anônimo ou com acidente de rua. Syme não se sentia mais seguro do que se estivesse num barco. Domingo podia certamente eliminá-lo. Mas naquela varanda. seu alçapão de ferro. podiam ter afrouxado sua lealdade. para que sua vida pudesse ser tão aberta e banhada de sol como a praça fronteira. Em toda a torrente de seus pensamentos. cuja inteligência era uma câmara de tortura.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 61 que estava a ponto de fazer agora. Mas Domingo não era um homem que se arriscasse assim comodamente sem ter antes deixado aberto. era impossível. não tinha mais que partir o fio de um voto imprudente. Se chamasse prontamente a polícia e ela os prendesse. Retirou a mão fria do frio parapeito de pedra. no meio de cavalheiros aparentemente ocupados em contemplar uma praça cheia de sol e de gente. sob a tirania de uma personalidade vigorosa. provavelmente escaparia. Podiam ter chamado Domingo super-homem.. De outro modo. feito a uma súcia de velhacos. com hipnotismo ou com o fogo do inferno. E se tal criatura é concebível. calejados numa impotente adoração da inteligência e da força.

com assombrosa voracidade. Meu cérebro sente-se como uma bomba. Mas essa era uma espécie de baixeza moderna com que Syme não podia pactuar. O velho Professor consumia as papas adequadas à sua asquerosa segunda infância. Podia merecer qualquer nome sobre-humano. Precisa explodir! Precisa explodir! O cérebro do homem deve explodir. êle era bastante covarde para temer a brutalidade. Os homens comiam e conversavam. disse o Marquês dando uma boa mordida numa fatia de pão com geléia. era vegetariano e. Expande-se. K. que era demasiadamente franca para ser decifrada. ainda que arrebente todo o universo. Comia por vinte homens. comia incrivelmente. depois de devorar uma dúzia de bolos e sorver meia canada de café. Muitas vezes me ponho a pensar. O punhal era simplesmente a expressão da velha pendência pessoal com um tirano pessoal. bradou abandonando-se subitamente à sua estranha paixão e golpeando o crânio com violência. é o nosso melhor símbolo. A dinamite não é apenas nosso melhor instrumento. mas não era tão covarde que a admirasse. . — Você se engana. despreocupadamente e com naturalidade. e até nisso eles eram típicos. O Secretário. noite e dia.62 G. se não seria melhor para mim fazer uço do punhal. CHESTERTON sísmico. de estátua ambulante. porém. respondeu o Secretário franzindo as negras sobrancelhas. por sua corpulência. Assim também é o pensamento: só destrói porque se expande. O cérebro do homem é uma bomba. continuava com a imensa cabeça inclinada e os olhos fixos em Syme. E seria uma nova emoção enfiar um punhal num Presidente da França e depois revolvê-lo por dentro. Para nós é um símbolo tão perfeito como o incenso para as orações dos cristãos. que era demasiadamente óbvia para ser descoberta.modo que era o mesmo que pôr-se a gente a contemplar o trabalho de uma fábrica de salsicha. Ainda aqui o Presidente exercia seu curioso e maciço predomínio. falava fervorosamente do projetado assassínio. entre meio tomate cru e três quartos de um copo de água morna. Como qualquer um. provavam das melhores iguarias da mesa: faisão frio e pastel de Estrasburgo. só destrói porque se expande. e por sua caraça. Buli e o Marquês. Dr. de. mesmo em extrema depressão. Muitas coisas formidáveis têm sido feitas com êle. Entretanto.

. Syme se entesou como se estivesse ouvindo um toque de cometa antes da batalha. que. frisou o Marquês. O instante decisivo tinha enfim chegado. Depois o Secretário falou: — Mas nós nos afastamos do assunto. Houve um silêncio singular. Quanto aos outros preparativos. Syme levantou-se antes dos outros. não pensava em si mesmo como representante da corporação de cavalheiros que. que se distraía a olhar o teto. Pretendo cometer uma porção de barbaridades antes de morrer. pois a manhã. Acho que todos estamos de acordo na idéia original da bomba. disse: — No íntimo toda a gente sabe que não vale a pena fazer coisa nenhuma. Tenho a dizer-lhes uma coisa muito particular. que êle não sabia de onde vinha. que diariamente marchava para a batalha ao som do realejo. a pistola apontava para sua cabeça.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 63 — Não me agradaria que o universo arrebentasse justamente agora. A questão está em saber como Quarta-feira há de dar o golpe. Via-se como embaixador de todo esse povo humilde e bom das ruas. olhou sobrarfceiro. da vulgaridade e da intrepidez dos pobres. passemos para dentro. E esta exaltada ufania de ser humano elevava-o inexplicavelmente a uma altitude incomensurável. por capricho. A frase foi cortada pelo súbito aparecimento de uma sombra vastíssima. se fizeram milicianos. O Presidente Domingo se erguera e parecia tapar o céu que os cobria. eu sugeriria que amanhã de manhã êle fosse antes de tudo a . ao menos. — Não importa. Buli com seu esfíngico sorriso. Na rua um realejo iniciou de repente uma toada jovial. A traves sura juvenil de entrar na polícia tinha desaparecido de sua mente. era fria. Podia ouvir o policial ociosamente agitar-se e bater com os pés na calçada. Em pé. Já que o fim único de todas as coisas é o nada. apesar de luminosa. . Por um instante. Sentiu-se dono de uma coragem sobrenatural. do píncaro estelar do lugar-comum. Ontem na cama pensei numa. atalhou Dr. O velho Professor. infinitamente acima dos sujeitos monstruosos que o cercavam. disse numa voz calma e quieta. nem no velho excêntrico que habitava o quarto escuro. Aquela melodia vibrante parecia-lhe cheia da vivacidade. — Antes de discutirmos qualquer desses pontos. não vale a pena fazê-la. . se apegavam aos pudores e às esmolas da cristandade. em todas aquelas ruas imundas.

mas nesse momento isso não lhe interessava mais do que o fato de não possuir os músculos do tigre ou um chifre no nariz como o rinoceronte. traduz o tumulto e o fragor das armas em choque. ao qual a mesa e os bancos imprimiam um aspecto de refeitório abandonado. CHESTERTON para todas aquelas cambaleantes excentricidades. também êle poderia-desempenhar os seus. tornando o pesado sotaque polonês quase impenetrável. começavam a passar para os cômodos internos. Diante deles sentia toda a inconsciente e elementar superioridade que sente o bravo diante de feras poderosas ou o sábio diante de erros poderosos. mas seu cérebro e seu corpo latejavam num ritmo apaixonado. Dizem que se deixam ver. que. O realejo parecia tocar uma marcha com a energia e a multiplicidade de sons de uma orquestra. adotou a firme decisão de enfrentar a morte. O Presidente levou-os por uma sinuosa escada lateral (que devia ser utilizada pelos criados) e introduziu-os num quarto escuro. Depois que estavam todos lá dentro o Presidente fechou a porta a chave. Seu último triunfo sobre aqueles lunáticos resumia-se em acompanhá-los ao quarto escuro e morrer por alguma coisa que eles não podiam sequer entender. o irreconciliável. Quando têm um azunto importante correm a discuti-lo numa caixa esgura. em fila. Ressoou em sua cabeça aquele incontestável e terrível truísmo da canção de Rolando: Pcüens ont tort et Chrétiens oni droit. É jalzo. Sabia que não tinha a força intelectual nem a força física do Presidente Domingo. Os conspiradores. Tudo foi tragado pela convicção inabalável de que o Presidente estava errado e o realejo estava certo. — Zim! Zim! grunhiu com obscura excitação. e sob os clarins que entoam a altivez da vida Syme ouvia os profundos rufos cadenciados dos tambores que compassam a altivez da morte. . O primeiro a falar foi Gogol. Syme seguia-os. no antigo francês nasalado. Vozes dizem que não se esgondem. Se a gente simples do realejo podia desempenhar seus milenários deveres.64 G. que parecia estourar de furores inarticulados. K. Liberto o espírito da carga de fraqueza que o oprimia. frio e desabitado. em último lugar. exteriormente calmo. O próprio orgulho de cumprir a palavra consistia em ter de cumpri-la para os ímpios.

Dr. ainda não pode compreender. Se tivéssemos vindo primeiro para cá teríamos toda a criadagem no buraco da fechadura. . Buli. percebo! disse o Presidente aprovando bondosamente. enquanto se sentava à cabeceira da longa mesa. Até aí. — Morro por ela! exclamou o polonês numa agitação estúpida. Quanto a êle. — Você. Gogol sentou-se por último. — Nem mais uma palavra sobre planos e lugares! Nem um ínfimo pormenor sobre o que vamos fazer deve ser comentado nesta reunião. Com a inquieta diligência que vinha mostrando desde as primeiras ordens. antes de mais nada. Sugiro o camarada Sábado. estivemos discutindo planos e citando lugares. pondo-se em pé com rapidez. um bom discurso. Proponho.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 65 O Presidente dava a impressão de aceitar a crítica incoerente do estrangeiro com total benevolência. ninguém parecia ter a mínima idéia do golpe que estava prestes a ser dado. Com exceção de Syme. Reuni-os aqui para dizer-lhes uma coisa tão simples mas tão surpreendente. Correto! Agora quero pedir-lhe que modere seus inestimáveis sentimentos e que tome seu lugar à mesa junto aos outros. Ouvindo-nos dizer bobagens naquela varanda ninguém procurará saber para onde vamos depois. todos contemplavam o Presidente. Gogol. Camaradas. Já fomos longe demais com esta farsa. que esses planos e lugares não sejam aprovados nesta sessão e que fiquem inteiramente sob a direção de um membro digno de confiança. porque as palavras que se seguiram. que até os criados lá de cima (acostumados a nossas inconseqüências) poderiam descobrir uma esquisita seriedade em minha voz. depois ressurge e mata os que a oprimem. . Primeiro você morre pela humanidade. resmungando dentro das barbas castanhas sobre gombr omissos. Syme foi o primeiro a sentar-se. começou o Presidente. sim. Pela primeira vez nesta manhã uma coisa aproveitável vai ser dita. mas depois estremeceram em seus assentos. — Camaradas. disse em tom paternal. Você parece não conhecer a humanidade. sentia-se como um homem que sobe a um cadafalso com a intenção de fazer. — Ah. a qualquer preço. Domingo deu um murro na mesa.. embora não fossem proferidas em voz alta. Quero matar o tirano na praza públiga. Mato zeus oprezores! Mas não gosto dessas bringadeiras de esgonder. possuíam vivida e sensacional ênfase.

numa apatia de intenso alívio.. com a mão no bolso empunhando o revólver carregado. . K. mas que não os compartilha. Não é possível! O Presidente bateu na mesa com a palma da mão. . Domingo continuou polidamente: — Sem dúvida vocês compreenderão que só um motivo pode proibir a livre manifestação do pensamento neste festival da liberdade. Seu nome é . com o dedo firme no gatilho. segurando um revólver em cada mão. Mas o que tem importância capital é que entre nós existe alguém que não é dos nossos. como uma mulher. CHESTERTON Domingo passara a vida atordoando os sequazes. enorme e gorda como a barbatana de um peixe colossal. Eles pensam que estamos pilheriando.66 G. que estava duro no seu canto. — Não pode ser! exclamou erguendo-se num pulo. cegado por benéfica escuridão. Quando viesse o ataque venderia muito cara a vida. — Sim. Syme começou a levantar-se. disse vagarosamente. Até o Professor fêz um esforço para se pôr em pé. É esse cabeludo impostor que passa por polonês. — Seu nome é Gogol. Gogol deu um pulo do banco. Há um traidor nesta mesa. que está a par dos nossos graves desígnios. Enfim ia saber se o Presidente era mortal. . Não importa que os estranhos nos ouçam. mas parecia que êle nunca os tinha realmente atordoado senão agora. disse o Presidente. Mas Syme pouco assistiu da cena. Todos agitaram-se febrilmente. exceto Syme. Com a mesma presteza voaram-lhe três homens ao pescoço.. que. e afundou trêmulo no banco. O Secretário interrompeu-o com um grito agudo. há um espião neste quarto. Não vou gastar mais palavras.

Syme despertou de novo para o mundo exterior e. — Bem. de trop? — Oh. notou a alarmante semelhança com o cartão azul que trazia no bolso e que tinha recebido quando se alistou na milícia antianarquista. pois o cartão estava na outra extremidade da mesa. quer fazer-me o favor de colocar a mão no bolso superior do colete e mostrar-me o que traz dentro dele? O suposto Gogol. está preparado para negar. Era irracional. — Concluo que você não desconhece a posição em que está. Todo mundo se sobressaltou ao ouvir uma voz clara. como se um chinês subitamente entrasse a falar com sotaque escocês. — Patético eslavo. um tanto pálido sob o emaranhado de cabelos negros. vamos dizer. Os três que se tinham levantado afastaram-se de Gogol. trágico filho da Polônia. meteu. dois dedos dentro do bolso e de lá retirou um cartão azul. de modo algum! exclamou o ex-Gogol. diante desse cartão. e este equívoco personagem voltou a seu lugar. Ao ver o cartão. comercial e algo familiar surgir daquela floresta de cabelos estrangeiros. . embora nada pudesse ler da inscrição. disse com energia o Presidente.CAPITULO VII A INEXPLICÁVEL CONDUTA DO PROFESSOR DE WORMS — Sentem-se! ordenou Domingo com uma voz só empregada em ocasiões excepcionais. continuou o Presidente. meu prezado senhor. com aparente frieza. dirigindo-se a Gogol como alguém se dirige a um desconhecido. observou Domingo. uma voz que obrigava os homens a depor as espadas desembainhadas. que nesta sociedade você é.

Do seu desconforto não quero falar. Preciso ir embora imediatamente. — Farei a justiça de confessar. O Secretário voltou-se para êle com semblante carrancudo. Admito que seu sotaque é inimitável. como tudo. Tudo quanto tenho a dizer é que não creio que um polonês pudesse imitar meu sotaque como eu imitei o dele. — O tempo voa. Preste atenção: se você algum dia contar à polícia ou a quem quer que seja as nossas atividades. retrucou o Presidente no meio de um bocejo que era um discreto terremoto. eu terei esses dois e meio minutos de desconforto. e com um dedo arrancou toda a hirsuta cabeleira. É claro . Sábado que cuide de tudo. Eu gosto de você. que você parece ter-se conservado inteiramente frio aí debaixo. Passe bem. Deixemo-lo como está. acho que não. aqui. Entretanto. C H E S T E R T O N — Acertou. E vejo que é um bocado incômoda. Agora escute aqui. Eu mesmo tentei praticá-lo no banho. Vou ocupar a presidência de uma reunião humanitarista. contra esta irregularidade. expondo uns fios vermelhos e ralos e um rosto pálido e petulante. respondeu Gogol. Êle era um desses homens que são conscienciosos até no crime. — Cumpre-me protestar. Presidente. discutir os pormenores do plano agora que o espião nos deixou? — Não. disse expansivamente o Presidente depois de lançar um olhar para seu relógio. alvitrou um tanto severamente. disse Domingo não sem uma espécie de brutal admiração. Vou andando. Todavia. ficaria desgostoso por uns dois minutos e meio se viesse a saber que você morreu de suplícios. parecia maior do que devia ser. Fazia muito calor. — Concordo. que. disse o polonês. O detetive de cabelos vermelhos que personificara Gogol ergueu-se sem proferir uma palavra e saiu do quarto com um ar de total indiferença. No próximo domingo. à hora do café. Um leve tropeço do lado de fora da porta indicou que o despedido detetive não pensara na escada. o aturdido Syme pôde verificar que essa tranqüilidade fora adquirida de chôfre. Por isso. Temos como princípio fundamental de nossa sociedade a discussão de todos os projetos em plenário. a turbulência das últimas cenas havia lacerado os nervos quase nus do Secretário. quanto lhe pertencia. — Não seria melhor. K.68 G. Cuidado com a escada. Vê algum inconveniente em deixar aqui a barba e o cartão? — Nenhum. acrescentou.

Se as últimas palavras do Presidente tinham alguma significação era mais do que claro que êle. entrando em Leicester Square. sem qualquer noção aparente dos propósitos de Domingo. Syme. é isso. asnática criatura. não é assim? Como sabe que não está sendo ouvido agora? E com estas palavras abalou do quarto. se você botar a cabeça para ferver com um nabo ela pode prestar para alguma coisa. Ergueu-se por fim e abandonou o hotel. redargüíu rudemente o Presidente. Elas significavam que. conquanto Domingo não pudesse denunciá-lo como fêz com Gogol. o que bastou para gelar-lhe os ossos.. Por último. É aí que você fracassa redondamente. cuja vitrina exibia unicamente uma melancólica dama de cera vestida com traje de cerimônia. Ora. — Secretário. afinal não estava isento de suspeita. tomado de fúria eqüina. O dia luminoso e frio tinha-se tornado muito mais frio. Trazia consigo a bengala de estoque e o resto da bagagem portátil de Gregory. Syme dirigiu o olhar para a rua branca e deserta. saiu o Professor. começou profundamente ofendido. na lancha talvez ou na varanda.. Confiado em que a nevada era passageira.. mas bem que pode prestar. não podia também confiar nele como confiava nos demais. mas ainda estava embaixo de üma nuvem. A neve. você não queria ser ouvido por um espião. Depois que todos se foram. Syme permaneceu muito tempo sentado. Nunca chega a compreender nada. retrocedeu um pouco e abrigou-se no limiar de uma pequena e nauseante loja de cabeleireiros.. refletindo em sua esquisita situação. Escapara do raio. disse o Presidente balançando a cabeça várias vezes. recrudescia. Porque a visão da dama de cera concorresse para deprimir seu espírito. Quando Syme chegou na rua foi surpreendido por alguns flocos de neve. entretanto. Quatro dos homens ficaram boquiabertos. — É isso. Somente Syme teve tal noção. pois já passava de meio-dia. Não dou certeza. lenta e miseravelmente. — Realmente não chego a compreender. dando de ombros com indecifrável desdém. mas esquecera o capote nalguma parte. E não foi pequeno seu . bramiu pondo-se de pé.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 69 que aplaudo irrestritamente as suas precauções na presença real de um traidor. Os outros levantaram-se resmungando e correram dali à procura de almoço. O Secretário recuou.

porém.70 G. Estava livre na livre Londres. folgava com os espasmos e os passos tardos e coxeantes do Professor. Abriu caminho por entre o bailado da neve. Que um ser humano se pusesse. Syme estava pronto a crer que todas as perversões tinham curso na degenerada confraria. Admitia que a doença do homem (qualquer que ela fosse) se manifestava em acessos momentâneos de rigidez ou arrebatamento. ao constatar que o estranho não era outro senão o paralítico ancião Professor de Worms. O vinho. K. traçar sua política e decidir finalmente se devia ou não devia manter a promessa feita a Gregory. Não se inclinava. mas esse espanto gratuito mudou-se de imediato em comoção pessoal. remota. Pois Syme desejava ardentemente libertar-se. Só assim. sempre imerso em suas meditações. O chapéu do estranho estava empapado de neve como o chapéu do Papai Noel. parecia que nada haveria de arrancá-lo à contemplação do enfermiço manequim de traje cerimonioso e sórdido. tomara esses inofensivos e amáveis estrangeiros por anarquistas. Ao contrário. . em outros tempos. e os alvos flocos cobriam-lhe as botas e os tornozelos. Serviu-se de uns quatro pratos leves. mas não podia crer que o Professor se enamorara justamente daquele manequim. enveredou por duas ou três ruas. o ambiente conhecido. os quais lhe permitiriam fugir e deixá-lo a milhas de distância. de olhos fitos na vitrina. O local é que não parecia adequado a pessoa idosa e enferma. bebeu meia garrafa de vinho tinto e finalizou a refeição com café e charuto. Contudo. a sentir a menor compaixão. Mas o arrepio veio misturado à deliciosa emoção da fuga. E teve um arrepio ao pensar na dura realidade. percorreu outras duas ou três e entrou num modesto restaurante de Soho para almoçar. Altos edifícios e ruas populosas punham-se entre êle e sua última visão dos sete renegados. CHESTERTON assombro ao deparar com um homem imóvel defronte da loja. a embasbacar para uma loja como aquela era motivo de grande espanto para Syme. em tal ocasião. de toda aquela envenenada atmosfera. o alimento habitual. era. as fisionomias de homens normais e palradores levavam-no a quase imaginar que o Conselho dos Sete Dias não passara de um pesadelo. E embora o Conselho fosse a toda prova uma realidade objetiva. Recordou que. poderia concatenar os pensamentos. Escolhera uma mesa no primeiro andar repleto do tinido de talheres e do vozeio dos estrangeiros. ao menos por uma hora. ao menos.

Não vira nenhum fiacre segui-lo. enquanto a tarde começava a escurecer. Não estarei fantasiando? Êle estava me seguindo mesmo? Acho que Domingo não seria tão tolo que mandasse um coxo perseguir-me! Pôs-se a caminho com passos rápidos. Por um instante. acrescentavam um incessante aborrecimento a seu nervos já irritados. Levantou-se com presteza e agarrou a bengala. sentou-se com dificuldade e pediu um copo de leite. perdeu a paciência: entrou numa casa de chá domingueira para abrigar-se. Devo ter demorado demais lá em cima. Mas o Professor não se abalou. Invadindo-lhe os olhos e a barba. revelador do aço oculto. estava tão boquiaberto como um matuto diante de um passe de mágica. com um movimento atabalhoado. passou roçando pelo Professor. Mal tinha acabado de fazer a encomenda. meio enlouquecido com aquela contradição na mais . Só assim esses pés de chumbo puderam apanhar-me.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 71 bebendo vinho no meio dos livres. abriu precipitadamente a porta e. A minha felicidade é que me basta andar um pouco mais depressa para deixar esse sujeito tão longe de mim como daqui a Tombuctu. claudicante. atingia a entrada de Fleet Street. A uma mesinha próxima da janela e da rua coberta de neve sentava-se o velho anarquista Professor de Worms. cegando e desnorteando. e no momento em que êle. o Professor de Worms entrou coxeando pesadamente. Depois. apanhou o chapéu e a bengala e desceu vagarosamente a escada. que era normalmente um sujeito frio. Como justificativa pediu uma xícara de café forte. torcendo e rodopiando a bengala e tomou a direção de Covent Garden. Um pouco mais tranqüilizado. Syme ficou tão rígido como a bengala em que se apoiava. Mas o ancião só podia andar feito um caracol. Ao cruzar o grande mercado a neve caía de rijo. produzindo forte ruído metálico. parou do lado de fora sob o rigor da neve. fechando-a com violência atrás de si. segundo todas as aparências o homem tinha vindo a pé. Quando entrou no salão parou bruscamente e fincou-se no lugar. com o rosto lívido e as pálpebras abaixadas. diante de um copo de leite. A bengala de Syme caiu no chão. Syme. — Será possível que esse velho cadáver esteja me seguindo? inquiriu-se mordendo o bigode amarelo. Os flocos atormentavam-no como um enxame de abelhas prateadas. não ouvira barulho de rodas na rua. e Syme tinha andado feito o vento.

pois as ruelas estavam atapetadas de neve silente. Perplexo demais para poder raciocinar. precipitou-se num dos bequinhos laterais de Fleet Street como um coelho se precipita num buraco. Não deu muita atenção a isso e internou-se em mais outro braço do labirinto. sentava-se com pequenas agonias de precaução. subiu para o tejadilho. parou para escutar qualquer rumor de perseguição. disparou pela escada. Movia-se por polegadas. K. Todavia. cem jardas adiante. deixando o café intato. viu elevar-se pouco a pouco nos degraus do ônibus um chapéu alto. e arrojou-se por entre as portas de vaivém. se tornava mais negro. era incontestável que êle tinha corrido para tomar o ônibus. Entretanto.72 G. encharcado de neve gotejante. Todos os movimentos da figura vacilante e das mãos trêmulas do ancião. um pouco atrás de Red Lion Court deu com um lugar onde algum enérgico cidadão tinha afastado a neve pelo espaço de umas -vinte jardas. CHESTERTON simples aritmética. . todos os gestos incertos e todas as pausas pânicas pareciam pôr fora de dúvida que êle estava irremediavelmente perdido na degenerescência final do corpo. Entrava e saía pelos becos tortuosos. Com o desvelo que lhe era peculiar. mas conseguiu num pulo guindarse ao pára-lama e. a menos que as entidades filosóficas chamadas tempo e espaço não tivessem vestígio sequer de existência real. a cada instante. depois de lançar um olhar angustiado ao céu invernoso que. depois de breve pausa para tomar fôlego. o Professor meteu-se num banco e enrolou-se até o queixo na manta de lã. que tinham mais de furnas que de vias públicas. Havia repelido o impulso elementar de atirar-se do alto do ônibus. e. Um ônibus que ia para o aterro passou ruidoso numa rapidez inusitada. Fazia cerca de meio minuto que estava sentando. Teve o vago pressentimento de que naquele labirinto de vielas em breve haveria de despistar o velho e misterioso bonifrate que vinha em seu encalço. Volvendo-se imediatamente. Não havia nenhum e na verdade não poderia haver. deixando à mostra as úmidas e cintilantes pedras do calçamento. Syme pôs-se de pé no carro trepidante e. quando sentiu nas costas um sopro cansado e asmático. à sombra da aba. Syme teve que correr umas cem jardas para alcançá-lo. Mas quando. a cara míope e os ombros débeis do Professor de Worms. e no momento em que havia completado cerca de vinte ângulos alternados e descrito um polígono inconcebível.

Achou-se na deserta vastidão de Ludgate Circus e avistou a Catedral de São Paulo assentada no céu. Sabia que aquela figura maligna o rastreava. porque era domingo. envolvia Londres num negror e numa opressão prematuros para aquela hora da tarde. mas não tinham ainda capturado a cruz. Os demônios podiam ter capturado o céu. No primeiro momento admirou-se de encontrar essas largas avenidas tão vazias como se a peste houvesse assolado a cidade. seu coração parou também. e segundo. porque a nevasca era mesmo perigosamente violenta. não havia janela nem qualquer tipo de fresta. Diante deste espetáculo Syme empertigou-se e com a bengala de estoque fêz involuntária continência. viu que tinha saído muito mais longe do que imaginara. como se fosse sua sombra. E quando a encontrou. E ao pensar na palavra "domingo" mordeu o lábio. para êle tal palavra passou a ser desde então uma coisa assim como um trocadilho obsceno. carregado de nuvens de neve. toda a atmosfera da cidade adquirira um fantástico matiz esverdeado como de homens sob o mar. primeiro. vermelho agonizante e bronze evanescente — bastante vivas. voltou-se. Mas teve de vaguear e dar muitas voltas por longo tempo antes de acertar com a artéria principal. Acima destas cores funestas elevava-se o vulto negro da catedral. saltão e paralítico. para enfrentar o inimigo. como de um pico alpino. para salientar a sólida alvura da neve. porque daquele trecho de pedras nuas chegavam o tinido da muleta e os passos difíceis do coxo infernal. . Caíra ali por acaso. Sentiu novo impulso para fugir desse cortiço de casas e ganhar outra vez uma rua ampla e iluminada. de bengala em punho. Teve vontade de arrancar o segredo desse perseguidor dançante. ora veloz ora lenta. e à entrada do pátio que leva a Ludgate Circus. O soturno crepúsculo escondido por trás da cúpula de São Paulo tinha cores esfumaçadas e sinistras — verde mórbido. mas não se preocupou.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 73 parou novamente para escutar. De cada lado de Syme as paredes da viela estendiam-se lisas e indistintas. de modo a quase revestir a cúpula de alto a baixo e destacar em prata pura o orbe majestoso e a cruz. de cujo cimo pendia enorme placa de neve. Lá em cima o céu. Debaixo do esbranquiçado nevoeiro suspenso no céu. porém. Depois admitiu que certo vazio era natural. Parecia um símbolo da fé e da intrepidez do homem que este ponto eminente da terra estivesse iluminado enquanto os céus se escureciam.

Segundos depois. o Professor de Worms entrou no recinto.74 G. Por fim Syme enveredou para os lados do rio e foi parar perto das docas. Era uma tasca imunda. Houve algo nesta silenciosa e inesperada inocência que deixou Syme numa fúria mortal. Syme foi galvanizado por uma energia que se situava entre o azedume e uma explosão de zombaria infantil. K. Vinha-se aproximando pouco a pouco. E o velho Professor veio em sua direção. sem um pestanejo de suas funéreas pálpebras. pôs-se a correr pelo branco e amplo Ludgate Circus. grave e profissional. Ao ver as vidraças amarelas de uma taberna iluminada. onde se podia fumar ópio e puxar facas. fêz que ia derrubar o chapéu do velho e. Com gesto estouvado. como um homem espera uma explicação final ou a morte. A cara descolorida e a atitude do homem pareciam assegurar que toda a perseguição tinha sido mera casualidade. como uma cabeça de pregador num corpo de arlequim. Agora era impossível esconder-se. lançou-se para dentro dela e pediu cerveja. olhando por cima do ombro divisou a negra figura do provecto cavalheiro a segui-lo com grandes e gigantescas pernadas. mas passou como um verdadeiro desconhecido. como quem ganha uma corrida de uma milha. povoada de marujos estrangeiros. gritando algo como "Manja!". entrevisto sob uma solitária lâmpada de gás. Seu porte inverossímil. em torno da Catedral de São Paulo e ao longo de Cheapside. Syme esperava-o como São Jorge esperou o dragão. lembrava obrigatoriamente um fabuloso tipo das canções de ninar: "o homem torto que andou uma milha torta". Mas a cabeça encaixada naquele corpo bambo continuava pálida. com a luz da lâmpada a refletir-se nos óculos e no rosto resignado. Sentou-se cuidadosamente e pediu um copo de leite. enquanto Syme relembrava todos os pesadelos de sua vida. . CHESTERTON O Professor de Worms dobrava ronceiramente a esquina da ruazinha irregular. Esta irrisória caçada desenrolou-se através de Ludgate Circus e Ludgate Hill. Realmente era como se êle tivesse sido retorcido pelas ruas tortuosas que tinha palmilhado.

Talvez se tratasse de uma formalidade regulamentar. Se êle possuía um caráter como paralítico e outro como perseguidor. Entretanto. Esvaziou um canecão de cerveja antes que o Professor tocasse no copo de leite. voltaram-lhe todos os temores. Syme percebeu que teria irrisória compensação caso não alcançasse desmascarar o Professor e fosse por êle desmascarado. Estava elaborando um ligeiro questionário quando foi interrompido pelo Professor. Talvez cada novo Quinta-feira tivesse de ser caçado ao longo de Cheapside do mesmo modo que é de praxe ir por ali escoltado cada novo Prefeito. Talvez fosse um ritual. Era bem possível que essa correria não significasse necessariamente que êle estava sob suspeita. Não havia dúvida de que esse sujeito incompreensível o tinha seguido desde a reunião do arrogante Conselho. Talvez essa corrida desordenada não passasse de um sinal amistoso que êle devia ter subentendido. . Antes que Syme pudesse fazer a primeira de suas diplomáticas perguntas. Syme jamais podia terse prevenido contra uma coisa tão real e contundente como esta. o velho anarquista já se tinha dirigido a êle à queima-roupa: — É detetive? Por mais prevenido que estivesse. uma simples conjetura dava ao seu desamparo um toque de esperança.CAPITULO VIII O PROFESSOR EXPLICA Quando Gabriel Syme se achou definitivamente acomodado numa cadeira e teve em sua frente também definitivamente acomodadas as sobrancelhas erguidas e as pálpebras pesadas do Professor. Sua grande presença de espírito apenas lhe permitiu responder com um ar de embaraçada jovialidade. o contraste podia torná-lo mais sedutor mas não o tornava mais inofensivo.

como alguém que está à mercê do carrasco.. Não a entendeu. Não me importo de ser o polícia que podia ter sido. O que o levou a pensar que sou detetive? — Nada de especial. CHESTERTON — Detetive? Eu? disse rindo vagamente. Porque cargas d'água. começou. trazido de lá do restaurante algum casquete policial? perguntou Syme. — Jura? disse o velho. Você é ou não é detetive? — Não! respondeu Syme. a transformação do macaco em polícia é tão lenta que é possível não tenha eu captado as cambiantes. Trago por acaso um número? Terão minhas botas aquele terrível aspecto investigante? Por que você me toma por um polícia? Tenha paciência. por engano. — Talvez me tenham escapado as sutilezas de sua filosofia germânica. respondeu calmamente o Professor. O velho Professor meneou a cabeça com severa gravidade. mas o rosto não se alterou. então. E ainda continuo achando. um anarquista. . sorrindo frouxamente. — Trabalha na polícia? perguntou o ancião. deixe-me ser um carteiro. mas Syme prosseguiu na sua febricitante ironia. espião miserável? guinchou um tanto tresloucado. — Sua insinuação é ridícula.. espichando sua cara morta que parecia asquerosamente viva. O velho quase quebrou a raquítica mesa com um violento murro de sua mão paralítica. Jura? Jura? Sabe que se jurar em falso será condenado? Sabe que o diabo dançará em seus funerais? E que o pesadelo vai se sentar em seu túmulo? Não haverá realmente nenhum equívoco? É. O macaco é apenas o polícia que podia ser. — Minha pergunta foi clara. — Terei. É detetive? O coração de Syme petrificou-se. ignorando todo o improvisado e desesperado motejo de Syme. um dinamiteiro? Não é detetive? De modo algum? Não faz parte da polícia britânica? Esticou o cotovelo sobre a mesa e levou a mão grande e frouxa até à orelha. Não me importo de ser qualquer coisa no pensamento alemão. Num sentido evolucionista. Talvez uma solteirona de Clapham Common seja somente o polícia que podia ter sido. Só que achei você parecido com um polícia. Talvez polícia seja um termo relativo.76 G. K.

— É pena. em segundo. o banco em que estava sentado. Retirando do bolso do colete seu próprio cartão azul. O Professor de Worms recostou-se em sua cadeira com uma curiosa expressão de brando desespero. as lágrimas. pouco a pouco. retrucou Syme com calma insana. nada tenho a ver com você. até que sua barbicha . respondeu o Professor com seu primeiro riso franco e os olhos brilhando através dos óculos. do outro lado da mesa. Compreendeu — pois que qualquer vitória sobre a morbidez vem sempre acompanhada de saudável humildade — que era ao mesmo tempo um idiota e um homem livre.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 77 — Não faço parte da polícia britânica. Syme teve a sensação de que o cosmos se tinha transformado. ria zombeteiramente. Sou da força policial britânica. sacudindo a cabeça para trás. formou-se nele a convicção oposta. empurrando para trás. de que todas as árvores cresciam para baixo e todas as estrelas se estendiam sob seus pés. Por um segundo. símbolo de seu poder policial. que o perseguira com a intolerável opressão do perigo. Syme pôs-se em pé de um salto. disse êle. A verdade é que nas últimas vinte e quatro horas o cosmos estivera realmente pelo avesso e só agora é que o subvertido universo voltava ao normal. apenas a sombra de um amigo esforçando-se por alcançá-lo. porque eu faço. — Faz parte de quê? perguntou dificultosamente. mas logo adotou a terceira. e desde que você afirma que não é da força policial britânica resta-me apenas dizer que o encontrei num clube de dinamiteiros e que nada me cabe fazer senão prendê-lo. Você é o quê? — Sou um polícia. Esse demônio de quem êle tinha estado a fugir durante todo o dia não era mais que um irmão mais velho que agora. uma perpetração de orgulho satânico. O egoísmo de Syme apegou-se à primeira por alguns segundos. E com estas palavras deixou cair na mesa um perfeito fac-simile do cartão azul que Syme guardava no bolso do colete. Mas como você acha que polícia é um termo puramente relativo. Mas. e finalmente o riso. atirou-o na mesa e. Não procurou inteirar-se logo dos pormenores. com estrondo. bastava-lhe saborear o fato simples e auspicioso de ser esta sombra. Em tais condições chega-se a um ponto em que somente três coisas são possíveis: em primeiro lugar.

porque ela é. — De que é que está rindo tanto. não sabia? . Quanto a saber se sou um velho. Mas sentiu que teria rido do mesmo modo se o pimenteiro tivesse emborcado sobre a mesa. O riso de Syme teve nesse ponto uma queda de alívio. excelência? perguntou admirado um trabalhador das docas. ordenou o Professor. respondeu Syme. o júbilo algo homerico de Syme despertou. ficará histérico. — Sim. lançando um olhar para a turba de ébrios. disse Syme impacientemente. mas o que quero dizer é que você não padece de nenhum incômodo. Syme fitava-o com encantada curiosidade. Completei trinta e oito anos em meu último aniversário. Mesmo naquele antro abafado.78 G. pratos. sem dúvida. está certo. Naturalmente você não é um velho. Beberei com você. — Meu leite! escarneceu o outro. respondeu Syme surpreendido. Meu leite! Você pensa que eu ligo para essa droga infame quando estou fora do alcance dos sanguinários anarquistas? Somos todos cristãos nesta sala. bradou. disse Syme. que produziu ao cair um ruído de vidro quebrado e uma poça de líquido prateado. uma caracterização especial. berros. — Agora compreendo. — Sabia. que aquele Gogol era um dos nossos? — Não. inquiriu. Tome mais cerveja. Tenho então que acabar meu leite? Com todos os diabos! Já lhe darei o fim merecido! E arremessou da mesa o copo. continuamente cheio do barulho de facas. E você. num tom de cru e insondável desprezo. — Sim. C H E S T E R T O N amarela quase apontava para o teto. Nem suspeitava. — Componha-se. acrescentou: embora não muito perfeitos. a atenção de muitos sujeitos semibêbedos. lutas e correrias súbitas. retorquiu o Professor de Worms. sou sujeito a resfriados. Riu à idéia de ser o paralítico Professor um jovem ator caracterizado para a ribalta. latas de conserva. — De mim mesmo. e. — Ainda não bebeu seu leite. O falso Professor bebeu a cerveja e limpou a falsa barba. Do contrário. K. disse o outro calmamente. rebentou numa selvagem gargalhada. e recaiu na agonia de sua frenética reação. não me cabe dizer. — Não posso arrancar minha cara aqui mesmo.

Syme pôs-se a falar com ímpeto igual ao da primeira espumarada de champanha. Depois. Mas. se soubéssemos que éramos três! O rosto do Professor de Worms entristeceu e êle baixou a vista. por mais ferozes ou sinistras que fossem. repetiu êle. disse o Professor ainda assustado.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 79 — Como é que podia saber? replicou o homem que se chamava de Worms. Nem se fôssemos trezentos contra Domingo. isso é intolerável! Você tem medo desse homem? O Professor ergueu as pesadas pálpebras e fixou em Syme os olhos grandes. — Éramos três. disse Syme. Passei todo o tempo com a mão no revólver. Enquanto as carantonhas destes últimos. troçando um pouco arrebatadamente. como se o retrato de um homem se transformasse com o passar do tempo num ser vivo. — Tenho. disse mansamente. Syme deu uma palmada na mesa e soltou uma exclamação. sim. Syme emudeceu. E você também tem. — Nem se fôssemos trezentos contra quatro? perguntou Syme. E Gogol também. azuis. . Ao cabo de alguns momentos de silêncio. A simples menção deste nome pôs Syme frio e sério. empertigando-se como um homem insultado. evidentemente. O riso morreu em seu coração antes de morrer em seus lábios. — Mas éramos três! E três é um número razoável para dar combate a quatro. bem abertos. aos poucos desbotavam-se na memória como outras tantas fisionomias humanas. ergueu-se. — Eu também. e afastou de si a cadeira. — E eu pensei que era comigo. e nesse instante Syme se deu conta da diferença que havia entre Domingo e todos os seus satélites. disse com serenidade o Professor. trezentos que fôssemos nada poderíamos ter feito. — Nem assim. a de Domingo parecia tornar-se mais real com a ausência. A cara do inesquecível Presidente apareceu-lhe tão nítida como uma fotografia colorida. de uma honestidade quase etérea. Ah. — Professor. Pensei que o Presidente estava falando comigo e logo me deu uma bruta tremedeira. continuando a rir descuidadamente.

mas Syme continuou numa voz baixa. naturalmente. tocada de indizível exaltação: — Quem haveria de contentar-se com destruir as pequeninas coisas que não o atemorizam? Quem haveria de rebaixar-se ao humilde papel de valentão. O outro olhava para o teto. Ninguém deve deixar no universo uma coisa de que tenha medo. como qualquer lutador de feira? Quem ousaria declarar-se isento de medo. disse Syme sem se perturbar. — Domingo é uma estrela fixa. disse Syme. replicou Syme lacônico. redargüiu Syme e pôs o chapéu na cabeça. O único que está a par de tudo é o Dr. mas vou lhe dar um conselho para toda a vida: polegar na lâmina e ferir para cima". Esforçou-se para falar. . Lembra-se da velha história do clérigo inglês que deu os últimos sacramentos ao salteador siciliano? Lembra-se do que disse o salteador em seu leito de morte? "Não lhe posso dar dinheiro. juro que haveria de liquidá-lo. num dos sestros de seu disfarce. — Você se lembra. CHESTERTON — Sim. De Worms pestanejou estupefato. — Sabe por acaso para onde vai? perguntou. A esta hora é provável que o Marquês esteja cruzando o Canal. — Como? inquiriu o espantado Professor. com uma espécie de benévola desorientação. de que quando suspendemos apressadamente a sessão todos os preparativos para a chacina tinham sido confiados ao Marquês e ao Dr. — Já sabe como deve agir? — Não. Buli. O mesmo lhe digo eu: ferir para cima se se quer ferir as estrelas. recomeçou o soi-disant de Worms. cocando a barba e olhando pela janela.80 G. Se o céu fosse seu trono e a terra seu escabêlo. disse com voz indescritível. Eu tenho medo dele. disse êle. — Sei. O gesto resoluto de Syme fêz o Professor inconscientemente levantar-se. como uma árvore? Combate-se aquilo que se teme. — Logo verá nele uma estrela cadente. Vou impedir que lancem a bomba em Paris. tem razão. E por quê? — Porque tenho medo dele. K. Mas creio que nem mesmo o Presidente sabe para onde êle irá e o que fará. Buli. E por isso mesmo juro por Deus que procurarei até achar esse homem a quem temo e hei de matá-lo.

— Dr. Êle mora na esquina? — Não. Você pensa que é possível derrotar o Presidente. êle mora um pouco longe daqui. sobranceiro ao Tâmisa. em Surrey. mas seu companheiro caminhava com regular desembaraço para um ponto no fim da rua. e essa mesma em absoluta conformidade com a sua retórica filosófica. ver se o Dr. E não sabemos onde êle se encontra. apontou com a bengala para a outra margem. Eu sei que é impossível. como fragmentos de um mundo esmigalhado. disse o Professor alegremente. divirto-me a observar que você me toma por um covarde. Eu sei onde êle está. Quase toda a neve se derretera ou se convertera em lama pisada. na outra margem do rio. mas vou tentar. irregularmente e ao acaso. Buli! exclamou Syme. É higiênico e deita-se cedo. aparecia um maciço agrupamento de enormes edifícios pontilhados de janelas iluminadas e elevados como chaminés de fábrica a uma altitude quase alucinada. Buli já foi para a cama. — Para onde vai? perguntou Syme. que foi invadida por uma rajada de ar frio. mas aqui e ali cintilava na obscuridade um ou outro grumo mais cinzento que branco. Vai comigo? Correrá esse risco? — Jovem. Um desses blocos. e abrindo a porta da taberna. — Sim. — Vou levá-lo lá. Na realidade. No lado fronteiro. onde uma ou duas polegadas do rio iluminado davam a idéia de uma barra de fogo.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 81 — Diabos o levem! praguejou Syme. disse o Professor. e tirou o chapéu do cabide. disse o outro. saíram juntos para as ruas escuras das docas. respondeu o Professor. — Que quer dizer? perguntou desabridamente. com seu curioso alheamento. mas desse ponto podemos saber se êle já foi para a cama. Syme ficou a olhá-lo com uma espécie de estática excitação. por . — Vou até à esquina. respondeu o amigo. com os olhos acesos. Sobre isso lhe digo só uma palavra. Contornando a esquina enquanto falava e contemplando o rio escuro salpicado de chamas. — Poderá dizer-me? perguntou Syme. Syme sentia-se quase completamente ofuscado ao atravessar esta progressiva confusão de luzes e sombras. As ruazinhas estavam enlameadas e cheias de poças que refletiam as lâmpadas acesas.

redargüiu Syme e pôs o chapéu na cabeça. O único que está a par de tudo é o Dr. E por quê? — Porque tenho medo dele. de que quando suspendemos apressadamente a sessão todos os preparativos para a chacina tinham sido confiados ao Marquês e ao Dr. mas vou lhe dar um conselho para toda a vida: polegar na lâmina e ferir para cima". Eu tenho medo dele. — Logo verá nele uma estrela cadente. disse Syme. Buli. cocando a barba e olhando pela janela. — Domingo é uma estrela fixa. com uma espécie de benévola desorientação. Mas creio que nem mesmo o Presidente sabe para onde êle irá e o que fará. A esta hora é provável que o Marquês esteja cruzando o Canal. disse com voz indescritível. — Como? inquiriu o espantado Professor. . como uma árvore? Combate-se aquilo que se teme. Ninguém deve deixar no universo uma coisa de que tenha medo. Lembra-se da velha história do clérigo inglês que deu os últimos sacramentos ao salteador siciliano? Lembra-se do que disse o salteador em seu leito de morte? "Não lhe posso dar dinheiro. — Sei. O outro olhava para o teto. — Já sabe como deve agir? — Não. Buli. recomeçou o soi-disant de Worms. O mesmo lhe digo eu: ferir para cima se se quer ferir as estrelas. — Você se lembra. K. juro que haveria de liquidá-lo. tocada de indizível exaltação: — Quem haveria de contentar-se com destruir as pequeninas coisas que não o atemorizam? Quem haveria de rebaixar-se ao humilde papel de valentão.80 G. replicou Syme lacônico. E por isso mesmo juro por Deus que procurarei até achar esse homem a quem temo e hei de matá-lo. num dos sestros de seu disfarce. disse Syme sem se perturbar. mas Syme continuou numa voz baixa. O gesto resoluto de Syme fêz o Professor inconscientemente levantar-se. — Sabe por acaso para onde vai? perguntou. C H E S T E R T O N — Sim. disse êle. tem razão. Se o céu fosse seu trono e a terra seu escabêlo. De Worms pestanejou estupefato. como qualquer lutador de feira? Quem ousaria declarar-se isento de medo. Vou impedir que lancem a bomba em Paris. naturalmente. Esforçou-se para falar.

respondeu o Professor. e essa mesma em absoluta conformidade com a sua retórica filosófica. e tirou o chapéu do cabide. — Sim. Vai comigo? Correrá esse risco? — Jovem. As ruazinhas estavam enlameadas e cheias de poças que refletiam as lâmpadas acesas. mas seu companheiro caminhava com regular desembaraço para um ponto no fim da rua. respondeu o amigo. e abrindo a porta da taberna. — Que quer dizer? perguntou desabridamente. Eu sei que é impossível. Quase toda a neve se derretera ou se convertera em lama pisada. apontou com a bengala para a outra margem. — Para onde vai? perguntou Syme. com seu curioso alheamento. aparecia um maciço agrupamento de enormes edifício» pontilhados de janelas iluminadas e elevados como chaminés ds fábrica a uma altitude quase alucinada. ver se o Dr. em Surrey. disse o outro. — Dr. Um desses blocos. disse o Professor. êle mora um pouco longe daqui. — Poderá dizer-me? perguntou Syme. — Vou até à esquina. que foi invadida por uma rajada de ar frio. por . Contornando a esquina enquanto falava e contemplando o rio escuro salpicado de chamas. mas desse ponto podemos saber se êle já foi para a cama. saíram juntos para as ruas escuras das docas. Buli! exclamou Syme. disse o Professor alegremente. como fragmentos de um mundo esmigalhado. Êle mora na esquina? — Não. Eu sei onde êle está. sobranceiro ao Tâmisa. irregularmente e ao acaso. Na realidade. Syme sentia-se quase completamente ofuscado ao atravessar esta progressiva confusão de luzes e sombras. No lado fronteiro. mas vou tentar. onde uma ou duas polegadas do rio iluminado davam a idéia de uma barra de fogo. na outra margem do rio. mas aqui e ali cintilava na obscuridade um ou outro grumo mais cinzento que branco. E não sabemos onde êle se encontra. Syme ficou a olhá-lo com uma espécie de estática excitação. divirto-me a observar que você me toma por um covarde. — Vou levá-lo lá. Você pensa que é possível derrotar o Presidente. É higiênico e deita-se cedo. com os olhos acesos. Buli já foi para a cama.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 81 — Diabos o levem! praguejou Syme. Sobre isso lhe digo só uma palavra.

dormindo profundamente. como fósseis. O Professor. Exatamente detrás daquela janela que você já não pode ver. que esta é a correspondente dela aqui no East End.é igual a duas vezes um. assemelhava-se a uma Torre de Babel com cem olhos. Syme. foram para Syme o coroamento da camaradagem e do bem-estar. disse êle. elas estão em toda parte. — Suponho. seguindo por vários atalhos. — Chegamos muito tarde. Podemos concordar com os matemáticos em que quatro é igual a duas vezes dois. Havia ali. não pode senão pensar que estava sonhando. . recuado uns vinte passos da avenida. Não é mesmo? — É. o mundo escolherá sempre a monogamia. como se o negro Argos tivesse piscado para êle com um dos seus incontáveis olhos. — A gente sempre pode encontrar boas estalagens inglesas. explicou o Professor. Em todas as provações desses últimos dias apenas a solidão o horrorizara. que nunca vira nenhum dos arranhacéus da América. CHESTERTON suas especiais condições. Por isso é que. até que ambos desembocaram em pleno fulgor e bulício de East índia Dock Road.82 G. e não há palavras que exprimam o abismo entre a solidão e a companhia de um aliado. dois é igual a duas mil vezes um. disse Syme sorrindo. dirigiu-se para um local onde a longa fileira de lojas iluminadas era abruptamente interceptada por uma quieta escuridão. então. um velho e mísero albergue pintado de branco. a mais alta luz daquela torre de luzes incontáveis repentinamente se extinguiu. que êle mora lá em cima? — Sim. Outro dia dei com uma excelente no West End. — Como? Quer dizer. a despeito de uma centena de inconvenientes. Sem mais conversa. tomou a dianteira. No albergue jantaram e passaram a noite. sim. Mas dois não. Amanhã bem cedinho viremos fazer uma visita a êle. O higiênico doutor já foi para a cama. O Professor de Worms girou sobre os calcanhares e bateu com a bengala numa das botas. K. confirmou de Worms. Voltemos e vamos jantar. que dava mostras de conhecer toda a circunvizinhança. O feijão com toucinho que essa gente extraordinária tão bem cozinhava e a surpreendente aparição do Borgonha. Enquanto se embevecia nessa contemplação. anuiu reverente o Professor e entrou. saído de suas adegas.

— Sou um retrato. Freqüentava a malandragem dos hipódromos e o rebotalho das artes. Mas não sabe êle que você o está arremedando? — Sabe demais. A história dele era quase tão inacreditável como a de Syme. num monólogo exuberante. Quando trabalhava no palco costumava farrear com todas as categorias de boêmios e patifes. — E êle. Foi num desses antros de sonhadores refugiados que conheci o grande filósofo niilista alemão Professor de Worms. retratista é uma expressão inadequada. Era coxo. replicou alegremente o outro. Gogol era um idealista. êle me pareceu excessivamente cabeludo. pediu Syme. — Explique-se. disse Syme. Desde o momento em que o vi. o homem que personificava o Professor de Worms não estava menos expansivo. míope e parcialmente paralítico. Por seu turno. ponderou o Professor pensativamente. e uma vez ou outra ia ter com os exilados políticos. um retratista. e tanto êle me desagradou que resolvi imitá-lo. Muito mais perfeita que a do velho Gogol. Aliás. — Com muito prazer. se não lhe enfada ouvir minha história. Sou um retrato. vim a compreender que êle havia provado que Deus era o princípio destruidor do universo. como quem conversa com velhos amigos. Se eu fosse dese- . — Quer dizer então que você é uma cópia desse homem. respondeu o Professor. iniciada no momento em que Gregory o levou à pequena taberna ribeirinha. em Nápoles. que era odiosíssima. E fê-lo exaustivamente. Depois. Queria representar o anarquista segundo o ideal abstrato ou platônico. — Não estou entendendo. Um retrato do célebre Professor de Worms. Estava em todas as partes. repetiu o Professor. sugeriu Syme. por favor.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 83 Pela primeira vez Syme sentiu disposição para desabafar toda a sua opressiva história. por isso insistia tanto na necessidade de uma energia furiosa e incessante que despedaçasse todas as coisas. que vive. O que me interessou nele foi a aparência. Eu sou um realista. Dizia êle que a Energia era o Todo. — A sua caracterização é formidável. retrucou o eminente filósofo estrangeiro. Quando o conheci estava num dos meus momentos de irreverência. por que não o denuncia? — Porque eu já o denunciei. disse Syme esvaziando um copo de Mâncon. Logo passei a estudá-la cuidadosamente. — É uma questão de teoria artística. Sou ator profissional e me chamo Wilks. creio eu.

não podia ser tão jocosamente paralítico como eu. Todos os pessimistas que me rodeavam olhavam ansiosamente de um Professor a outro Professor para ver qual dos dois era efetivamente o mais débil. E eu venci. com estrondosos protestos contra o insulto. A maldição do artista perfeito tinha caído sobre minha cabeça. fosse tão impressionantemente débil como um jovem ator em pleno vigor da mocidade. quando muito. Inquiri deles a natureza do insulto. eu replicava com outra coisa que nem eu mesmo era capaz de entender. K. E me transformei no que se poderia denominar um extravagante exagero da velha e enxovalhada personalidade do velho Professor. a noção de que a involução funcionava eugênicamente foi exposta há muito tem- . Ao entrar na sala onde se reuniam seus correligionários. "Não me parece". Como eu era apenas um ator. Cada vez que êle dizia alguma coisa que ninguém senão êle mesmo era capaz de entender. "que você possa ter chegado ao princípio de que a evolução é somente negação. Mas antes que pudesse recobrar-me. e num acesso de loucura decidi enfrentar a situação. operando dentro desta definida limitação.84 G. logo que comecei a falar. Naquele tempo eu era um rapazola ingênuo e confesso que o fato me abalou profundamente. disse êle. Respondi com o maior desdém: "Você leu tudo isso em Pinckwerts. as minhas sobrancelhas erguidas e os meus olhos gelados que o Professor entrou na sala. Livrei-me com alguma astúcia. podia apenas fazer o papel de uma caricatura. Não é preciso dizer que houve uma colisão. Não posso descrever a surpresa que senti quando minha entrada foi acolhida com respeitoso silêncio. pobre de saúde como o meu rival. dois ou três desses admiradores. Eu fora sutil demais. Veja você: êle era na verdade um paralítico e. vieram correndo comunicar-me que um insulto público me tinha sido dirigido na sala contígua. verídico demais. de murmúrios de admiração. C H E S T E R T O N nhista teria feito uma caricatura. esperava ser recebido com estrondosas gargalhadas ou. seguido. Por isso tentou derrotar minha prosápia intelectualmente. Não se podia esperar que um velho. Desconfio de que não foi senão para ver de perto os olhares furiosos da turba. desde que isso implica na introdução de lacunas que formam constitutivos de diferenciação". Eu tinha bebido mais champanha do que me era aconselhável. Parecia que um camarada impertinente se apresentara feito uma despropositada paródia de mim mesmo. irradiando indignação. Eles julgavam que eu era realmente o grande professor niilista.

É ocioso dizer que nunca existiram tais pessoas como Pinckwerts e Glumpe. "Noto". pelos oprimidos do mundo inteiro. É preciso dizer que não há porco-espinho em Montaigne? "Seus estratagemas estão por terra". "Não senhor". disse êle escarninho.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 85 po por Glumpe". esperando afastar-me em breve o suficiente para poder caminhar como um ser humano. ao voltar-me.. "e o mesmo vai acontecer com sua barba". E sem demora dei meia volta com todas as honras da vitória. recorreu a um nível mais popular de argumentação. posso compreender que você tenha posto essas barbas sujas e velhas para o gracejo de uma noite. era indubitavelmente a mais suave das duas. Tal acusação. Creio que agora êle é recebido em toda a Europa como um delicioso impostor. Não tive resposta inteligente para essas palavras. disse Syme. disse êle. Você está me prendendo sob a acusação de ser eu o grande anarquista Professor de Worms". davam sinais de conhecê-los perfeitamente.. Assumi uma atitude paralítica e bradei com forte sotaque alemão: "Sim. O verdadeiro Professor foi levado para fora. não é exatamente por isso. disse com polidez. "E você se obscurece". se se pode chamar isso de acusação criminal. O guarda impassivelmente consultou um papel que trazia consigo. "não é por isso. que me disse que eu estava sendo procurado. redargüi sorridente. Quando deixei o conventículo. que eram inteiramente verdadeiras e um pouco mordazes. ainda que um dos homens tenha tentado muito pacientemente arrancar-lhe o nariz. saí manquejando pela rua escura. Mas ri com satisfação e respondi ao acaso: "Como as botas do panteísta". para minha surpresa. todas as suas manifestações de gravidade e cólera fazem-no mais divertido ainda. disse o ator. Atravessei certo número de salas e cheguei finalmente . Eu o prendo sob a acusação de não ser o célebre anarquista Professor de Worms". sou procurado. Como você pode imaginar. Mas os que nos rodeavam. ao menos. desconfiado mas não grandemente consternado. Entretanto. — Bem. "que você se distingue como o falso porco de Esopo". "como o porco-espinho de Montaigne". achei-me à sombra de um enorme guarda. assim que dobrei a esquina fui surpreendido por um toque no ombro e. mas não entendo porque você não se desfez delas depois disso. Vendo o Professor que o método erudito e misterioso deixava-o à mercê de um inimigo ligeiramente deficiente em escrúpulos. — Eis o resto da história. E me deixei levar. debaixo de reverentes aplausos. mas sem violência.

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G.

K.

CHESTERTON

à presença de um oficial. Este explicou-me que uma severa campanha estava sendo iniciada contra os centros anarquistas e que a minha bem sucedida representação podia ser de considerável utilidade para a segurança pública. Ofereceu-me bom salário e me deu este cartãozinho azul. Embora nossa conversa tenha sido breve, êle me deixou a impressão de ser um homem de sensatez e humor sólidos; mas não posso dizer muita coisa sobre a pessoa dele, porque... Syme abandonou no prato a faca e o garfo. — Já sei, disse. Porque você falou com êle num quarto escuro. O Professor fêz que sim com a cabeça e esgotou seu copo.

CAPITULO IX

O HOMEM DOS ÓCULOS
— O Borgonha é maravilhoso, disse pensativamente o Professor, enquanto punha o copo na mesa. — Não parece que você o aprecia tanto assim, observou Syme. Toma-o como se fosse remédio. — Não repare nos meus hábitos, disse o Professor melancòlicamente. Minha situação é um tanto curiosa. Por dentro estou rebentando de alegria infantil, mas de tal modo me integrei no papel do paralítico Professor que já não posso largá-lo. Mesmo quando estou entre amigos e não tenho nenhuma necessidade de disfarçar-me, não posso deixar de falar baixo e franzir a testa. .. como se fosse realmente minha testa. Posso sentir-me inteiramente feliz, mas só de m o d o . . . paralítico, compreende? As mais vibrantes exclamações pulsam em meu coração, mas de minha boca elas saem irreconhecíveis. Você deveria ouvir-me dizer: "Anima-te, rapaz!" Isso traria lágrimas a seus olhos. — Não há dúvida, disse Syme, mas creio que, fora de tudo isso, você está um bocado inquieto. O Professor teve um leve sobressalto e encarou Syme firmemente. — Sujeito muito arguto, você, disse êle. É um prazer trabalhar com você. Sim, é verdade, tenho uma nuvem pesada em minha cabeça. Há um grande problema a enfrentar, e enterrou a testa nua nas mãos. Depois perguntou em voz baixa: — Sabe tocar piano? — Sei, sim, disse Syme surpreendido. Dizem que não toco muito mal. Como o outro não falasse, ajuntou:

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G.

K.

CHESTERTON

— Espero que a pesada nuvem se tenha dissipado. Após um demorado silêncio, o Professor falou de dentro da sombria caverna de suas mãos: — Teria servido da mesma forma se você soubesse datilografia. — Muito obrigado, disse Syme. É bondade sua. — Escute aqui, continuou o outro. Lembre-se do homem que temos de ir ver amanhã. O negócio que você e eu vamos tentar amanhã é muito mais perigoso do que roubar da Torre as Jóias da Coroa. Vamos tentar arrancar um segredo a um sujeito muito sagaz, muito forte e extremamente cruel. Acredito que nenhum deles, exceto naturalmente o Presidente, seja tão medonho e pavoroso como esse fulano dos óculos e dos dentes arreganhados. Talvez não tenha o pungente entusiasmo pela morte, pelo martírio, que distingue o Secretário. Aliás, o próprio fatalismo do Secretário revela um patos humano e é quase um toque de redenção. Mas o doutorzinho, não. Desfruta um bom senso compacto, mais repelente que a loucura do Secretário. Não notou ainda a sua virilidade, a sua vitalidade detestável? Êle anda aos saltos como uma bola de borracha. Fique certo de que Domingo não estava dormindo (eu me pergunto se êle já dormiu alguma vez) quando fechou todos os planos do atentado na cabeça redonda e negra do Dr. Buli. — E você pensa, disse Syme, que esse monstro sem par vai ficar bem mansinho quando eu tocar piano para êle? — Não me venha com asneiras, respondeu-lhe o mentor. Mencionei o piano porque êle nos proporciona dedos ágeis e independentes. Syme, se temos de levar a cabo essa entrevista e sair dela sãos e salvos, precisamos combinar entre nós um código de sinais que não possa ser descoberto por essa alimária. Elaborei um tosco alfabeto cifrado, correspondente aos cinco dedos. É assim, veja (e começou a tamborilar os dedos sobre a mesa de madeira): M A U , mau, uma palavra que poderemos utilizar com freqüência. Syme bebeu outro copo de vinho e começou a estudar o método. Possuindo miolo e mãos anormalmente hábeis em quebra-cabeças e prestidigitações, não demorou a enviar breves mensagens sob a forma de tapinhas descuidados na mesa ou no joelho. E como o vinho e a companhia sempre tivessem o efeito de aguçar-lhe a comicidade, dentro em pouco viu-se o Professor a braços com a desadorada energia do novo idioma, incandescido agora pelo cérebro ardente de Syme.

e avistou as barbas grisalhas de seu aliado. entretanto. Você levou muito tempo para criá-lo? . — Viva! exclamou Syme. Pareceu-lhe que toda a segurança e toda a sociabilidade da noite anterior haviam-se apartado dele com as roupas da cama. que. palavras que provavelmente serão muito úteis. sentou-se na cama e passou algum tempo estudando o novo código. movendo a cabeça sagazmente.. Qual é a sua? — Pare de bancar o engraçado. em verdade. redargüiu Syme. palavras carregadas de matizes. Podemos dizerlhe: "Dr. Sentou-se pestanejando. como você sabe. Precisamos da palavra "viçoso". contemplando o suculento e viçoso capim primaveril. Sonhei com seu alfabeto. . também. queixou-se o Professor. — Syme. mas era a confiança que existe entre dois homens que marcham para a forca. como revolucionário você não ignora que um tirano já nos aconselhou a comer capim: e.. — "Viçoso". quando o nascente estava ainda abismado na escuridão. estendê-la dos dedos das mãos para os dos pés? Isso. Nunca se esqueça de ser cômico numa tragédia. e que estava exposto a um perigo iminente. o que. afetando alegria. vá dormir! ordenou-lhe o amigo com áspera simplicidade. realizado com discrição. voltou a si lentamente. Que diabo é que se pode fazer? Meu desejo é que essa sua linguagem tenha um mais amplo objetivo. continuou Syme. Minha palavra favorita é "coevo". entretanto. Ainda depositava inteira confiança em seu companheiro. que vamos falar de capim ao Dr. — Acha então. enquanto vestia as calças. Acordou na manhã seguinte." — Não compreende que isto é uma tragédia? inquiriu o outro. Buli? — Há muitas maneiras de tocar no assunto e introduzir a palavra com naturalidade. Não poderíamos. bradou furiosamente o Professor.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 89 — Precisamos contar com diversos sinais para palavras. de pé à beira da cama. considerou Syme. atirou fora os cobertores e pôs-se de pé. Buli. nos obrigaria a descalçar os sapatos e as meias. disse Syme com seriedade. Não imagina como isto é sério. que se aplica ao capim. parecia um fantasma.. sem dúvida. — Perfeitamente. Syme. talvez. muitos de nós.

então. a verdade é que o Professor não o fêz. Tamborilou a resposta com impaciente desabafo: — Ótimo. K. no corredor. mas o segundo foi mais terrível. ao baixar a vista. seus cinco mudos dedos dançavam vividamente sobre a mesa morta. Alcançaram a base do imenso bloco de edifícios que tinham visto da outra margem. Vamos sair para tomar café. com olhos da côr de um mar invernoso.90 G. Syme encarou o rosto rijo como pergaminho e os olhos azuis e vazios. Fitava-o absorto. Syme acompanhou os velozes movimentos da verbosa mão e leu claramente a mensagem: — Só falarei" deste jeito. mas ao tocar na bengala de estoque Syme teve um sobressalto. — Estou lhe perguntando se levou muito tempo para inventar tudo isso. No fim de contas. o que sabia desta criatura singular que inconsideradamente aceitara por amigo? O que -sabia deste homem. — Quanto tempo? O Professor não se moveu. exceto que êle tinha partilhado do festim anarquista e que lhe tinha contado uma história ridícula? Como era improvável existir lá outro amigo além de Gogol! Seria o silêncio deste homem uma maneira espetacular de declarar guerra? Seria. que se bandeava pela última vez? Aguçou os ouvidos no cruel silêncio. Se podia ou não responder. Você dominou isso tudo de uma só vez? O Professor continuava silencioso. Agarraram os chapéus e as bengalas em silêncio. este adamantino olhar o espantável escárneo de um tríplice traidor. — Diabos o levem! Não pode responder? gritou Syme numa raiva súbita. Embora o Professor se mantivesse tão calado como uma estátua. e depois atravessaram o rio. que sob o clarão cinzento do amanhecer parecia tão desolado como o Aqueronte. Eu que me julgava bamba nessas coisas passei uma boa hora estudando. Mas. depois. Syme repetiu a pergunta. Precisamos habituar-nos. os passos abafados e solertes dos dinamiteiros vindo capturá-lo. rebentou numa gargalhada. apenas para beber café e comer reforçados sanduíches. que ocultava um certo temor. com os olhos bem abertos e um sorriso fixo mas quase imperceptível. Seu primeiro pensamento foi que o Professor tinha enlouquecido. CHESTERTON O Professor não deu resposta. Chegou a imaginar que ouvia lá fora. Demoraram-se alguns momentos no botequim. e em silêncio começaram a subir os nus e inumeráveis degraus de .

Buli estava cheio de luz. o sòtãozinho pobre do Dr. Syme foi invadido por umas recordações mais ou menos históricas. fazia-o mais pálido e mais anguloso do que na reunião da varanda. Sua postura lhe conferia uma nova aparência. a última janela descobriu-lhes uma aurora amarga. e o que caracterizava esse homem era um materialismo homicida. coisa mais odiosa que o próprio absurdo. Syme supunha estar subindo para a morada da razão. Era de esperar que contra esse amanhecer alvacento e opressivamente vermelho se destacasse o negro perfil da guilhotina. Em consonância com esses quartos vazios e com esse austero alvorecer. branca. parando de vez em quando para trocar curtas mensagens no corrimão da balaustrada. As duas negras lunetas que tapavam seus olhos podiam efeti- . Progressivamente. A intensa e branca luz da manhã. A cada novo lanço de escada correspondia uma janela e cada janela revelava-lhes uma pálida e trágica alvorada assomando morosamente sobre Londres. entrando de través e adelgaçando as sombras. atinou com o sentido das suas recordações: a Revolução Francesa. mais próprio do vermelho do barro do que do vermelho de nuvem. Buli sentado a uma mesa a escrever. Êle ficaria bem como um Marat ou como um Robespierre mais desleixado.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 91 pedra. os incontáveis telhados de ardósia assemelhavam-se aos plúmbeos vagalhões do mar cinzento e encapelado depois da chuva. Logo que viu o sótão e o Dr. Buli. os enormes edifícios apareceram-lhe como uma torre num sonho. Mas isto não era o quente horror de um sonho. E ao entrarem. muito mais intolerável do que as insensatas aventuras já vividas. bastava vê-lo de perto para desfazer-se a fantasia francesa. Buli estava de camisa branca e calções pretos. Os jacobinos eram idealistas. de uma fantasia ou de uma alucinação. por exemplo. Syme ia-se convencendo de que sua nova aventura tinha de certo modo um cunho de calculada sensatez. uma coisa impensável mas necessária ao pensamento. Quando chegaram ao patamar do Dr. Vistos das janelas. Ou era como os estonteantes cálculos da astronomia sobre a distância entre as estrelas fixas. entremeada de montículos da côr de um vermelho áspero. Entretanto. sua cabeça escura e raspada podia perfeitamente ter saído de um chino. Dr. E agora que subia esta enfadonha e interminável escadaria estava assustado e perplexo com a série quase infinita de degraus. Na noite anterior. Tal infinidade era antes o vazio infinito da aritmética.

Foi com momentânea dificuldade que o Professor quebrou o silêncio e começou: — Peço-lhe desculpas por vir perturbá-lo tão cedo. pôs-se a vestir um casaco e um colete de lã escuro e desbotado. readquirindo cautelosamente os gestos lentos de de Worms. camarada. o atraso de um minuto poderá ser fatal. embora eu seja de opinião que temos de agir de conformidade com ela. havia surpreendido no Professor. Dr. tornando-as intoleràvelmente longas e pausadas. K. mas aconselho-o a alterar esses planos. A quieta jovialidade de seus modos deixou seus dois oponentes desarmados. Buli não eram como o olhar cataléptico e o silêncio arrepiante que. O Professor. Entretanto. Buli sorriu outra vez. Dr. enlouquecido. Providenciou cadeiras para os recém-chegados e. CHESTERTON vãmente ser tomadas como negras cavidades em seu crânio. se é muito tarde para isso. como se êle não passasse de uma caveira. se alguma vez a Morte se sentou a uma mesa de madeira para escrever não teve outro aspecto senão esse. o doutorzinho não fazia senão encará-lo e sorrir. que. disse êle. o que transformava o monólogo num trabalho espinhoso. a seguir seu agente com toda a proteção que puder conseguir para êle. Sem dúvida você executou todos os preparativos para o negócio de Paris. Nas momices e visagens do Pro- . mesmo com o risco de perder tempo. se fosse contada.92 G. mas continuou a fitá-los em silêncio. não é mesmo? E acrescentou com infinita vagareza: Segundo as informações que recebemos. recomeçou. Buli levantou os olhos. abotoou-se cuidadosamente e voltou a sentar-se à sua mesa. Por isso. então. meia hora atrás. com efeito. O camarada Syme e eu tivemos uma experiência. na esperança de que o doutorzinho. explodisse de impaciência e pusesse as cartas na mesa. fazendo uma pausa antes de cada uma de suas enfadonhas palavras: — Por favor não me julgue excessivamente precipitado. O Professor arrastava suas frases. indo até a um cabide atrás da porta. sorriu com visível alegria e ergueu-se com a elástica rapidez de que o Professor tinha falado. Quando os dois homens entraram. levaria mais tempo do que este de que dispomos. se realmente lhe parece ser o relato essencial para a compreensão do problema que vamos discutir. Syme já começava a sentir náusea e a desesperar-se. poderei relatar o ocorrido em todos os pormenores. E. O sorriso e o silêncio do Dr. ou.

daí a instantes começou com a mesma deliberada calma: — Logo que Syme chegou com esta informação resolvemos trazê-la ao seu conhecimento para que você tomasse a de- . Mas agora estava em pleno dia. De fato. encarava-os com um sorriso fixo e mudo. e que. as cores da tez do Dr. Desejando firmar minha boa reputação. Foi aí que êle se tornou expansivo e me contou. que estava atento. Tudo ali tinha um sentido de insuportável realidade. e cortês a inclinação de sua cabeça. Por isso. Syme recordava os angustiosos temores do dia anterior como quem se recorda de ter tido medo de duendes na meninice. tornou o Professor. Sob a crescente luz do sol. — É verdade. Êle parecia escandir suas palavras como se elas fossem as palavras de uma antífona. . trajado com simplicidade. levei-o para o Savoy e lá embriaguei-o completamente. O sorriso do Dr. o Professor fêz ver a Syme que iria retomar a explanação. . tinha à sua frente um homem robusto. disse apressadamente. Tive a sorte de conversar com um detetive. e leu a mensagem: — É preciso que você continue. Mas seu sorriso era levíssimo. a coisa aconteceu comigo. como num boneco de engonço. o incidente que nos ocorreu e nos levou a tomar informações sobre o Marquês é daquele tipo que precisa de ser narrado. mas como sucedeu ao camarada Syme antes de mim. que dentro de um ou dois dias esperam prender o Marquês na França. Syme lançou-se na brecha com aquela fanfarronada de improvisação que sempre o acometia quando estava alarmado. a única coisa inquietante era seu silêncio. espadaúdo.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 93 fessor havia sempre algo puramente grotesco. mas Syme. a menos que você ou eu decida seguir a pista. mas seus olhos anteparados continuavam indevassáveis. Buli era ainda mais afetuoso. viu que seus longos dedos tamborilavam àgilmente na borda da mesa rachada. . Este diabo esgotou as minhas forças. sem sobrecenhos ou arreganhos.. como um homem fatigado de andar na areia frouxa e pesada. atabalhoadamente. singularizando-se apenas no uso de uns óculos deformadores. que graças ao meu chapéu me tomou por uma pessoa respeitável. — Como estava dizendo. Através de sinais. como nas novelas realistas. Buli e o padrão de suas roupas adquiriam excessivo realce.

O Professor desfiava sua oração. dirigido ao Dr. Depois leu esta resposta nos dedos do amigo: — Vá para o inferno! O Professor prosseguiu em seu monólogo palavroso e ôco. CHESTERTON cisão que lhe parecesse mais conveniente. explicou para o amigo: — Você não imagina como o meu pressentimento é poético. Syme estava vermelho até à raiz de seus cabelos amarelos. e seus dedos dançaram displicentemente sobre a extremidade da mesa. Buli! . quando. — Ou ainda. é real como o intenso cabelo vermelho de uma bela mulher. K. Entretanto. Voltando a suas pancadinhas simbólicas. O outro respondeu: — Ou uma tolice espetacular? Syme disse: — Sou um poeta. Curvando-se sobre a mesa. de repente. e seus olhos ardiam febrilmente.94 G. Tem aquela força súbita que às vezes sentimos quando chega a primavera. Buli contemplava o Professor. Seu companheiro não se dignou responder. tamborilou Syme. Syme telegrafou: — É uma idéia espetacular. — Ainda diria. falou com uma voz que não podia ser desprezada: — Dr. Os nervos de ambos os irmãos de armas estavam a ponto de estalar debaixo daquela tensão de imóvel amabilidade. Buli tão fixamente como Dr. mas sem o sorriso. Buli. O Professor. Enviou a seu aliado esta mensagem: — Tenho uma idéia. . não tenho nenhuma dúvida de que é urgente. Na realidade. tivera um pressentimento e este se tinha elevado à categoria de delirante certeza.. O outro retorquiu: — Um poeta morto. rufou Syme. mal fêz pausa em seu monólogo. que êle se parece com aquele inopinado cheiro de mar que podemos descobrir no coração dos bosques viçosos. Durante todo esse tempo Syme estivera a contemplar Dr. mas em meio a ela Syme decidiu-se a agir. Syme curvou-se. tamborilou: — Então diga.

trajado como um simples empregado e de natural sem dúvida bondoso e até mesmo comum. — Não há dúvida que a diferença é extraordinária. — Eu sabia que era poeta! exclamou Syme como se estivesse em êxtase. com esses ares divertidos. — Dr. Por alguns segundos houve um silêncio em que se podia escutar a queda de um alfinete e que foi cortado apenas uma vez pelo silvo de uma lancha distante. disse hesitante o Professor. Os olhos do outro brilhavam como estrelas. vai? . Mas quanto ao plano do Dr. as abençoadas botas! Você não vai pensar que isso aí é um anarquista. Buli. Dr. Buli. era um demônio vivo no meio dos demônios mortos. fisionomia alegre. Syme. com essa robustez.. Syme deu um pulo para trás. ali diante de seus olhos. poderia fazer-me um pequeno favor? Quer ter a bondade de tirar os óculos? O Professor agitou-se na cadeira em que estava sentado e olhou para Syme com uma espécie de gelada e enfurecida surpresa. sem perder o sorriso. como um professor de química ante uma explosão bem sucedida. — Dane-se o plano! rugiu Syme fora de si. Depois. Buli ergueu-se vagarosamente. Conservava seu sorriso. como se o médico se houvesse convertido num sapo. . Buli. e por um instante Syme ficou a apontá-los sem pronunciar uma palavra. Olhe para êle! Veja a cara dele. esquecido de sua suposta paralisia. mas eles juravam que por baixo dos óculos negros seus olhos dardejaram Syme. Efetivamente tratava-se de uma portentosa cena de transformação. disse Syme num tom peculiarmente preciso e cortês. O médico não fêz nenhum movimento. Eu sabia que meu pressentimento era tão infalível como o Papa. o colarinho. francos e felizes. que bem podia ter sido o primeiro sorriso de um recém-nascido. assemelhando-se a um homem que lançou à mesa a vida e a fortuna. Diante dos dois detetives sentava-se agora um moço de aparência infantil.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 95 A cara mansa e risonha do médico não se mexeu. esperava com o rosto afogueado. O Professor também deu um pulo. Arrimou-se depois no espaldar da cadeira e encarou dubitativamente o Dr. no Tâmisa. Os óculos é que fizeram tudo! Tudo estava nos óculos! Com esses terríveis olhos negros. e tirou os óculos. com olhos da côr de avelã.

CHESTERTON — Syme! gritou o outro. Os outros desceram as escadas em silêncio. K. com a inocente cortesia que lhe era característica. Syme ia um pouco distraído e. — Velhinhos. Foi quando o terceiro homem soltou uma gargalhada. naquele amaldiçoado Conselho havia mais desses amaldiçoados detetives do que dos amaldiçoados dinamiteiros. insistiu em ir por último. o médico caminhou para a porta com tal rapidez que os outros o seguiram instintivamente. Buli. disse êle com a petulância de um colegial. Se meus olhos não me enganam. porque. Enfiando na cabeça um chapéu claro e repondo suas demoníacas lunetas. andando velozmente em direção ao gabinete de informações da estrada de ferro e conversando com os outros por cima do ombro. apesar disso. O Professor ainda temia que tudo estivesse perdido. — Deus Todo Poderoso! exclamou Syme. ao deixar o quarto. O Professor descia as escadas. — Por Deus! bradou Syme. dizia êle. Já me sentia meio morto de medo de estar só. Dr. como para cumprir uma formalidade. mas. o que teria sido um gesto imprudente. era leal. O jovem chamado Buli. Correrei o risco. Éramos quatro contra três. assim. disse Buli. — Não. Não éramos quatro contra três. e pela primeira vez os outros dois lhe ouviram a voz. Por pouco não dei um abraço em Gogol. . Tirou seu próprio cartão oficial e colocou-o junto ao do amigo. e atirou o cartão azul sobre a mesa. disse a voz. — Podíamos ter lutado com vantagem. estou contentíssimo com a vinda de vocês. Eis aqui meu cartão. Também sou da polícia. provocou um tinido ao bater com a bengala nas pedras do corredor. agoniado de medo. sua robusta rapidez afirmou-se inconscientemente e êle tomou a dianteira. quando chegaram à rua. Espero que vocês não caçoem do diabo dessa minha fraqueza. Não tínhamos tanta sorte. poderemos partir juntos para a França. Éramos quatro contra Um. sou um detetive. e acenou-lhes de leve com um cartão azul.96 G. e sua voz veio de lá de baixo. — Nada como encontrar uns bons colegas.

visto de costas. e êle perguntou: . Ponham-lhe um par de óculos esfumaçados e verão que por onde êle passar os meninos gritarão aterrorizados". — fêz de mim um perfeito diabo. mas a parte realmente miraculosa não foi essa ainda. especialmente no serviço de repressão aos dinamiteiros. Um perguntou se uma barba cerrada esconderia meu sorriso. que tão habilmente me decifrou e compreendeu que os óculos negros se ajustariam com meu físico. . outro asseverou que se enegrecessem minha cara eu me transformaria num sombrio anarquista. Houve uma coisa estupenda nisso tudo. mas como eu tinha a infelicidade de ser um homem honesto. O jovem riu lisonjeado e respondeu: — Não é um primor? É uma idéia muito simples. Ainda hoje quebro a cabeça para entendê-la. mas não foi minha. Esse manda chuva da polícia. Diziam que eu era saudável demais. Eu queria alistar-me na polícia. cabelo curto. . por São Jorge! Uma vez cobertos os olhos. . me levaram à presença de um figurão que era o chefe de tudo aquilo e possuía naturalmente uma cabeça respeitável. — O que foi? perguntou Syme. — Vou contar. esse camarada. parece um angélico moço de escritório. Depois de feito. eu me parecia com a própria Constituição britânica. como os milagres. foi muito simples. todo o resto — sorrisos. E assim foi. respondeu o homem dos óculos. Diziam que se eu fosse um criminoso poderia ter enriquecido por me parecer exageradamente com um homem honesto. não saiu da minha cabeça. Mas. etc.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 97 — Todos os diabos de todos os infernos também se juntaram para minha fraqueza! disse Syme.. nem sequer me viu! Os olhos de Syme relampejaram. Vejam bem. enfim. Mas o pior diabo era você com os seus antolhos infernais. e todos apostaram que eu jamais ficaria com cara de dinamiteiro. Deus meu. desde os cabelos até às botas. Puseram-me toda sorte de apelidos na Scotland Yard. E lá todos eles confessaram-se desalentados. ombros largos. digno demais. Mas para este fim eles só queriam gente que pudesse passar por dinamiteiro. "Olhem para êle agora. Afirmavam que até meu andar era respeitável e que. benévolo demais. otimista demais. Mas o tal chefão saiu-se com uma observação curiosíssima: "Um par de óculos esfumaçados!" disse categoricamente. perdia a mais remota oportunidade de ajudá-los passando por criminoso.

Falei com êle num quarto escuro como breu. Você não faz idéia! — Não posso nem imaginar. entalou os companheiros num fiacre e. — Que falei. que é um autêntico pessimista moderno. Vejam: fui obrigado a despachar aquela besta do Marquês. o semblante do Dr. — Mas quando o alcançarmos em Calais. O novo aliado era um furacão no capítulo das coisas práticas. o que é que vamos fazer? indagou o Professor. -— Suponho que não. Só quando viajavam no barco para Calais a conversa voltou a animar-se. Esta pergunta anuviou. — É um caso inédito. Podem dizer o que quiserem. falei. com bomba e tudo. mas tenho para mim que aquele sujeito se vendeu ao diabo. não é isso? inquiriu o Professor. Como é que se pode estar em seis lugares ao mesmo tempo? — De modo que você teve de despachar o Marquês. objetou Syme. Buli. Na estação. Êle refletiu um instante e disse: — Suponho que. Êle ainda estará em Calais quando desembarcarmos. porque o Presidente não me perdia de vista. CHESTERTON — Como foi isso? Eu pensei que você tinha falado com êle. nunca contar nada à polícia. com a rapidez do homem de negócios. Agora estou encantado por ter quem almoce comigo. Em seguida. Faz muito tempo? Poderemos alcançá-lo? — Sim. Deus é testemunha! Um dia eu lhes contarei toda a história. retrucou o novo guia. teoricamente. alojou-os e alojou-se também num vagão. e vocês verão que ela é simplesmente asfixiante. mas não posso faltar com minha palavra a um pes- . deveríamos chamar a polícia. Buli. Teoricamente eu prefiro afogar-me a chamar a polícia. — Já tinha resolvido ir almoçar na França. Pouco entendo de casuística. antes que eles tivessem tomado fôlego na arrancada. prometi a um pobre sujeito. K. pela primeira vez. confirmou Syme gravemente.98 G. explicou Dr.palavra de honra. Calculei tudinho. Sob minha . que sorria para mim da sacada de um clube ou me cumprimentava do tejadilho de um ônibus. esclareceu Buli. igual a uma carvoaria. murmurou o Professor. inteirou-se dos trens que saíam para Dover. Todas as vezes que eu tentava escapulir topava com o Presidente.

— Sim?! interrogou Dr. Só sei que êle está condenado. Dr. — Bem. primeiro. tem toda razão. disse Syme. como os romanos que guardavam a ponte. era uma espécie de pau para toda obra. ou sua filosofia do universo. é esta: nós três estamos sós neste planeta. Se eu tivesse cometido esse crime não teria mais noção do bem e do mal. e. Sabia que você assumiria essa atitude.. Digam que estou louco. Buli sorriu e foi espairecer pela coberta. e apressemo-nos. Assim. porque. Enquanto fui ator. Um silêncio amigável estabeleceu-se entre os três homens. Já pensei em falar com a polícia mas não pude. Gogol foi embora. confessou o Dr. sabe Deus para onde. Voltou logo depois. Meus amigos.. ou seus nervos. É a mesma coisa que faltar com a palavra a uma criança. — Também passei por tudo isso. que está no inferno! Não posso trair um homem desses e atormentá-lo. disse Syme. Buli.. mas é o que sinto. desde aquele momento em que. pisando com força e descuidadamente. — Em que você tirou seus óculos. — É o meu caso. Buli. porque eles podem apelar para a organização deles e nós não podemos apelar para a nossa. Mas a nossa posição é mais insustentável.. No Conselho somos três contra três. disse Syme com seriedade. não sei. Vocês sabem quem é: o homem que tem o sorriso de cabeça para baixo. — Não creio que você esteja louco. — Tem razão. aquele é o homem mais infeliz que o gênero humano já produziu. disse o Professor.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 99 simista moderno. — Porque um dos outros três homens não é um homem. Talvez tenha sido esmagado como um inseto pelo Presidente. disse o Professor. Só não me prestei ao perjúrio nem à traição. Pode ser sua digestão. façamos o possível para enfrentar as conseqüências. parece que adotamos todos o mesmo tipo de moralidade ou imoralidade. . pois estou vendo o cabo Gris-Nez apontar lá na França.. por causa de um juramento idiota que eu fiz. Dei minha palavra ao Secretário. assentiu o Professor. Seria o mesmo que açoitar um leproso.. segundo. ou sua consciência. contemplando o mar batido pelo sol. — A primeira conseqüência.

disse. continuou Syme calmamente. arrancar-lhe o chapéu da cabeça. Passaram pela minha cabeça mais de vinte esquemas. — Já vamos desembarcar. — Que diabo é que você está dizendo aí? perguntou o Professor. O Marquês não negará que é um fidalgo. nem pode negar que eu também sou um fidalgo. porque teríamos que ser vistos. Depois disse: — Tenho uma idéia. guardou silêncio. Mas já estamos no porto. Possui uma completa guarda pessoal. na primeira oportunidade. O Professor abecou rudemente Syme pelo colete. mas êle é muito conhecido aqui. A casa de St. Estamos de acordo em que não podemos denunciá-lo como dinamiteiro. um deles foi a Bannockburn na comitiva de Bruce. menos a idéia de ficar em Calais enquanto o Czar passeia livremente em Paris. K. Syme. Podíamos tentar raptá-lo e trancafiá-lo nós mesmos. segundo certa tradição. proponho-me a. disse o médico espantado. feita só de amigos. A única coisa viável. que agora os conduzia como Buli os tinha conduzido em Londres. sem se apoquentar. Devemos fazer alguma coisa para conservar o Marquês em Calais até meio-dia de amanhã. E a fim de pôr fora de dúvida a questão da minha posição social. CHESTERTON Syme anuiu com um movimento da cabeça e. Não podemos pensar em desviá-lo para outros negócios anarquistas. A partir de 1350 a linhagem está bem determinada. está assim descrito: "em campo argentado um chaveirão goles lavrado com três cruzes recruzadas". O moto é variável. Eustache também é muito antiga. realmente. é tirar proveito dos próprios fatores que estão do lado do Marquês. é forte e bravo. e o resultado é duvidoso. Vou aproveitar-me do fato de ter êle tantos amigos e freqüentar a alta sociedade. levou-os por uma avenida ao longo da . mas. — Esse aí perdeu o juízo. Vou aproveitar-me do fato de ser êle um nobre altamente respeitado. Saltaram em terra debaixo de um solão que os deslumbrava. afirmou Syme. Você está mareado ou quer fazer graça? — Minha explanação é quase dolorosamente prática. — Nosso brasão de armas. êle nos conhece e ficaria com a pulga atrás da orelha. êle podia engolir tudo. Não podemos levá-lo à cadeia por qualquer acusação trivial.100 G. respondeu Syme. — Os Symes vêm mencionados pela primeiras vez no século quatorze. por um ou dois segundos.

caminhava com alguma arrogância e floreava a bengala como se ela fosse uma espada. mas deteve-se repentinamente. sombreada por um chapéu de palhinha amarelo. com os dentes cintilando por entre a espessa barba negra. Dirigia-se para o ponto extremo da fileira de cafés.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 101 praia. . Com um gesto rápido impôs silêncio e apontou com um dedo enluvado para uma mesa. onde se sentava o Marquês de St. abrigada embaixo de florida ramagem. Eustache. destacando-se contra o mar violáceo. até chegar a uns cafés escondidos na folhagem densa de um caramanchão e fronteiros ao mar. Como ia na frente dos outros. e a cara ousada e trigueira.

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— Para levar-me a meu desafio. compreende? disse Syme radiante. Êle me diz: "O célebre Mr. que já estava num ponto anormalmente alto. Tem apenas quarenta e três perguntas e respostas. creio eu". Syme. de modo que. Digo-lhe: "O Marquês de Saint Eustache.. Antes de tirar o chapéu dele. cujas perguntas e respostas eram declamadas com extraordinária rapidez. Seus olhos azuis resplandeciam como o mar que se estirava lá embaixo. Que é que você vai fazer realmente? — Mas é um esplêndido catecismo. Buli.CAPITULO X O DUELO Syme sentou-se com seus companheiros a uma das mesas do café. Aprume-se e jogue fora esse papel.. — Aproximo-me. e rabiscava-o às pressas com um lápis. Tinha suas razões para encontrar-se num estado de curiosa hilaridade. Com alegre impaciência pediu uma garrafa de Saumur. Agrada-me ser justo com meu inimigo. cale-se! disse o homem dos óculos. e algumas respostas do Marquês são maravilhosamente engenhosas. . Deixem-me lê-lo. Sua animação. suponho". meia hora depois. Dava-lhe a forma de um catecismo. sua conversa era uma torrente de incoerências. que diz. tiro o meu. ia subindo à medida que o Saumur baixava na garrafa. redargüiu Syme patético. E acrescenta com finura e requinte: "Como passa?" E eu lhe respondo também com finura e requinte: "Oh! Passo e fico!" — Ora. Quando o Marquês tiver dado a trigésima nona resposta. Declarou estar fazendo um rascunho do diálogo que iria travar com o fatal Marquês. — Mas para que serve tudo isso? perguntou já exasperado Dr.

é verdade! exclamou. Dirigiu o olhar para a mesinha onde estava o Marquês. Uma vez que a direção de um diálogo não pode ser preestabelecida somente por uma das partes (como o haveis notado com tão recôndita agudeza). Num café chantant escondido entre as árvores. Alcançareis a fama. parecia boêmio e mesmo bárbaro. E é o que vou fazer. tocava uma banda. com sua elegância animal."um dos quais ostentava a roseta vermelha da Legião de Honra — pessoas. — Oh. de que o Marquês pode deixar de dar as quarenta e três respostas que você lhe atribui? Nesse caso. por São Jorge! E ergueu-se incontinenti. — Cabe-me apenas. sob cuja melodia êle se preparara para morrer. vendo que Syme continuava de pé e não se movia. Na cabeça esbraseada de Syme o estridor das fanfarras lembrava a desafinaçãodaquele realejo de Leicester Square. e uma mulher acabava de cantar. mas se parecia com o Marquês. Era assim. Mas não era um rei cristão. o Marquês. um déspota trigueiro. evidentemente. Senhor. antes. O homem tinha agora dois companheiros: dois solenes franceses de sobretudo e cartola. perguntou o Professor com grave simplicidade. de modo algum. — Você está bêbedo como um gambá. adotar outro método de quebrar o gelo (se me permitis a expressão) entre mim e o homem que desejo matar. com seu chapéu de palhinha e suas leves roupas primaveris. tendes uma inteligência incomum. que nos dias em que a escravidão era coisa natural contemplava no Mediterrâneo suas galés cheias de escravos lamuriantes. disse o médico. Seus cabelos amarelos flutuavam na brisa suave que vinha do mar. era. K. Nunca pensei nisso. — Vai pedir a palavra? perguntou impaciente o Professor. continuou Syme impassível. meio asiático. de sólida posição social. fascinado. entendo que os epigramas que você traz engatilhados contra êle poderão parecer mais do que forçados. pensou Syme que a cara bronzeada de um tirano surgia entre os olivais verdes e umbrosos e o azul candente. suponho que a única coisa que tal parte tem a fazer é pôr-se a representar todo o diálogo até onde lhe fôr possível. seus olhares escarninhos e sua cabeça erguida contra o purpúreo mar. . Em verdade. podia-se dizer que êle era o rei. Ao lado dessas vestes negras e cilíndricas. meio grego.104 G. CHESTERTON — Por acaso ainda não se lembrou. Syme deu uma palmada na mesa.

Permita-me que lhe puxe o nariz. pelo menos insultou minha tia. mas o Marquês pulou para trás. disse Syme cortêsmente. E saiu num passo rápido. disse Syme com firmeza. mas sorriu polidamente. à guisa de explicação. disse Syme com atrevimento. a única coisa que eu disse . — Este homem me insultou! disse Syme. Qualquer comentário era desagradável. Sempre fomos insultados por isso. ainda que incerto. enquanto os dois homens de cartola agarravam Syme pelos ombros. Syme. durante meia hora.. — O senhor é Mr. Tudo o que eu disse é que gostava de um Wagner bem executado. Vou puxar o deformado nariz de mogno daquela reunião. Ao vê-lo. ? insinuou misteriosamente Syme. — Isso não tem sentido! exclamou o segundo cavalheiro. o Marquês arqueou surpreso suas negras sobrancelhas assírias. se êle esteve sentado aqui todo o tempo? — Ah. disse Syme com energia. que toda a conversa de vocês estava simplesmente enredada de sinistras alusões à fraqueza de minha tia. disse êle. — Insultou-o? gritou o cavalheiro da roseta vermelha. Ela me desagrada. Como. Vou falar naquela reunião. Curvou-se para executá-lo. disse Syme reconsiderando. olhando apreensivamente para o Marquês. De minha parte.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 105 Syme sorveu o último copo de vinho espumoso e respondeu apontando para o Marquês e seus colegas: — Vou. Syme inclinou-se. derrubando a cadeira. — Eu não disse nada. — E o senhor é o Marquês de Saint Eustache. — Mas como pode o Marquês ter insultado agora mesmo sua tia? perguntou o segundo cavalheiro com legítimo espanto. Insultou minha mãe! — Insultou sua mãe! exclamou incrédulo o cavalheiro. — Foi uma alusão à minha família. — Isto é absurdo! Extraordinário! bradou o cavalheiro decore. Quando? — Agora mesmo. salvo qualquer coisa aí sobre a banda. redargüiu o Marquês.. Minha tia tocava Wagner pessimamente. suponho. aí é que está! E o que êle disse. — Bom. — Asseguro-lhes.

— Lá vêm vocês de novo! disse Syme indignado. Se perde a hora do trem. apresentou-lhes seus amigos sob uns nomes aristocráticos que eles nunca tinham ouvido antes. aliás. — Insultar-me? gritou. Talvez depois êle me mate. para consolo de suas mágoas.106 G. É bom espadachim e confia em que me matará a tempo de pegar o trem. com apaixonado bom senso. CHESTERTON foi que gostava da maneira de cantar daquela moça de cabelos negros. Procura briga comigo! Deus do céu! Nunca houve ninguém que precisasse procurar tanto. Com três largas passadas reuniu-se a seus companheiros. Batamo-nos esta tarde. E. — Parece-me. Pois. escolherá um recanto à beira da estrada. Precisam insistir. Syme estava lúcido. aqueles senhores em cujas mãos eu me colocarei. sua atitude é digna de sua fama e de seu sangue. Entenderam? Muito bem. por um momento. Minha tia tinha cabelos vermelhos. observou o outro. Ainda faltam quatro horas para o anoitecer. o que. e estes. Mas olhem aqui e ouçam bem. um pouco pálido. que lhe tinham visto o cínico ataque e escutado as absurdas explicações. — Por São Jorge! disse Syme. Tais acessos eram (como êle de- . Estes senhores poderão ser meus padrinhos. em que o duelo se realize amanhã depois das sete. Agora quero apresentá-los a uns encantadores amigos meus. não era de sua índole. que você está simplesmente procurando um pretexto para insultar o Marquês. e insistam com todas as forças. Vocês são meus padrinhos e têm que aprontar tudo. Como você é inteligente! Os olhos do Marquês chamejaram como os de um tigre. Mas eu também entendo de esgrima e acho que posso distraí-lo até que o trem tenha passado. Mas. perto da estação. avançando rapidamente para os padrinhos do Marquês. e falava baixinho. disse com voz rouca. Êle não pode deixar de concordar com vocês num ponto insignificante como esse de hora e local. voltando-se e encarando-o. Vou lutar com a bêstafera. sem dúvida. Syme era sujeito a acessos de singular senso comum. Não há tempo para muita conversa. quando voltou. — Acabei. Dê-me licença de consultar. Syme fêz uma esquisita zumbaia e falou: — Marquês. maravilharam-se de seu semblante. K. Só assim poderei impedir que êle tome às sete e quarenta e cinco o trem de Paris. perde a hora do crime.

à esquerda. À sua frente. de fato. por assim dizer. ao mesmo tempo. Mas atiçaria a curiosidade de um estranho a particularidade de aparecerem em seu séquito. Quem o visse chegar tão despreocupado ao campo de honra não adivinharia que êle tinha pressa de viajar. às vezes. que êle. Viu à direita um bosquezinhò e. aproximou-se com grande polidez do Professor e do Dr. aceitou o plano que Syme arquitetara. parecia um agente funerário numa comédia. compreendeu que se erguia inesperadamente um obstáculo para seus explosivos afazeres na capital. todos usavam roupas sombrias e solenes e chapéus semelhantes a negras tampas de chaminés. uma pequena amendoeira em flor. o chapéu de palhinha deitado para trás e a cara simpática a queimar-se ao sol. mas ainda dois criados com uma maleta e uma cesta de comida. . trazia as mãos nos bolsos. e Syme ficou vagamente surpreso de ver tantas flores primaveris esparzindo ouro e prata pelo capinzal em que toda a comitiva estava mergulhada até aos joelhos. a curva alongada da estrada de ferro. mais longe. se sublimavam em profecias. esse cômico contraste entre a floração amarela e ós chapéus negros era apenas um símbolo do trágico contraste entre a floração amarela e o negro encargo. destacava-se. e se encomendou à fatalidade do primeiro assalto. Agora havia calculado corretamente a política de seu antagonista. e sugeriu que o duelo terminasse pelo primeiro sangue. cujo nome parece que era Coronel Ducroix. Embora fosse ainda muito cedo. Não podendo confessar a seus amigos os motivos de sua oposição. contra a indefinível linha do mar.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 107 nominou seu pressentimento no caso dos óculos) intuições poéticas que. defendia do Marquês. marchetado de flores silvestres. não somente os padrinhos com a caixa das espadas. Com exceção do Marquês. para quem ela era. Buli. O membro da Legião de Honra. como uma nuvem colorida. meta e fuga. Mas. especialmente o doutorzinho. acima do sinistro grupo de seus adversários. o sol impregnava de calor todas as coisas. Induziu os padrinhos a escolherem uma campina perto da estrada de ferro. Quando o Marquês foi informado por seus padrinhos que Syme só poderia combater na manhã seguinte. Não escapou a Syme o cômico contraste entre á fúnebre procissão e o prado vivo e reluzente. com o acréscimo de suas funestas lunetas.

Aquele era o medo tradicional de que um milagre acontecesse. K. Syme estava decidido a não inutilizar o Marquês e impedir o Marquês de inutilizá-lo. Buli fora o medo ao vazio irrespirável da ciência. e outra a Syme. Ofereceu uma ao Marquês. com subida dignidade e num péssimo francês. transmudaram-se em duas listras de alva chama. mas de cuja probidade e retidão eu posso. Paremos de falar e comecemos. e nosso afilhado tem fortes razões para exigir o mais disputado encontro. Eustache.. dobrou e sopesou tão detidamente quanto lhe permitiu a dignidade. — Peste! bradou por trás deles o Marquês. de que nenhum milagre pudesse jamais acontecer. Dr. Em seguida. Syme compreendeu-lhe a rude impaciência.108 O. cujo rosto enegrecera de repente. todos os fantásticos temores que têm sido o assunto desta história abandonaram Syme como os sonhos abandonam o homem que desperta. O Coronel disse calmamente: — "Em guarda!". insistiu. como simples traições dos nervos: o medo ao Professor fora o medo aos caprichos tirânicos de um pesadelo. — Para um homem como Monsieur de St. que a recebeu. procedeu à colocação dos homens. tomando uma para si e dando outra ao Dr. Mas viu que esses medos . e as duas espadas tocaram-se e tiniram. este era o medo moderno. mas conservaram seus sombrios e escuros agasalhos. . pela continuação até o ponto em que um dos combatentes fosse inutilizado. ao menos pelo espaço de vinte minutos. Rememorou-os claramente e por ordem. razões cuja delicadeza me proíbe de ser explícito. e com uma cutilada decapitou uma flor. Buli. de onde sacou um par de espadas que. disse solenemente o Professor. Em vinte minutos o trem de Paris teria ido embora. e o medo ao Dr. o Coronel sacou outro par e. CHESTERTON Entretanto. ao sol. os padrinhos ladearam o campo da luta e desembainharam suas espadas. mais desesperançado. de bravura e destreza notórias. Por seu turno. Mas não havia fumaça no horizonte. e instintivamente olhou por cima do ombro para-saber se o trem vinha chegando. Buli. O Coronel Ducroix ajoelhou-se e abriu a caixa. Quando o repenique das lâminas entrechocadas repercutiu em seu braço. Ambos os combatentes haviam despido seus casacos e coletes e empunhado as espadas. Os contendores cumprimentaram-se. deve ser indiferente o método que se abrace. que a agarrou sem cerimônia. meticulosamente industriado por Syme na política a ser adotada.

parava as estocadas do inimigo com uma precisão cronométrica. a outra parte. Syme não teve ocasião de olhar para a via férrea. Chegou até a imaginar que escutava o crescimento da erva. da qual êle não se julgava capaz. A descomedida loucura batalhante do Marqujls não tinha outro impulso que a avizinhação do trem de Paris. mas como não havia sangue na folha nem na camisa presumiu que se equivocara. o Marquês. à sua direita. transparente como vidro. Sentiu que tudo quanto havia sobre a terra. Com risco de perder tudo. compreendeu que seu antagonista era um terrível contendor e que provavelmente o último instante de sua vida tinha chegado. e uma ou duas vezes supôs até que tocara o antagonista. dos olhos frios. mas isso ou não foi notado ou foi tàcitamente ignorado. . fixos e hipnóticos do Marquês. se por um milagre escapasse. E toda a vez que seus olhos se desviavam. Espaço em espaço êle ripostava. com seu grosseiro e impiedoso senso comum. e sentira as duas línguas de aço se tocarem e vibrarem como dois seres vivos. Disse consigo que. O assalto sobreveio tão rápido e furioso que aquela espada resplendente pareceu uma chuvarada de setas flamejantes. Sentiu-se como um homem que passa uma noite inteira sonhando que vai cair num precipício e acorda na manhã em que vai ser enforcado. Logo depois o combate foi suspenso e houve troca de posições. davam com a amendoeira na linha do horizonte.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 109 eram puras fantasias. enquanto uma parte de seu espírito se embevecia na contemplação da terra. porque se achava em presença do fato irremediável do medo à morte. Pois tão depressa vira um raio de sol escorregar na goteira da lâmina escorçada do adversário. deixando um tênue filete de sangue. sem desejar nada mais do mundo. enquanto êle ali se achava. Uma dessas estocadas lhe arranhou o pulso. chegou até a pensar que. que nem sequer pestanejava. do céu e de todo o universo. novas flores estavam nascendo e desabrochando — flores encarnadas e amarelas e azuis que rematavam a magnificência da primavera. por um segundo. volveu para Syme um rosto endemoninhado e começou a combater como se possuísse vinte espadas. Depois. esgueirou um olhar para a via férrea. estaria pronto a sentar-se para sempre diante daquela amendoeira. tinha um estranho e intenso valor. mesmo a grama debaixo de seus pés. Sentiu o amor pela vida em todas as coisas. que tinha a beleza viva de uma coisa perdida. mas isso não lhe era necessário. Mas.

idiotizado. que deveria produzir um talho sangrento na face do Marquês. e Syme. Em duas paradas Syme tirou da liça a ponta de seu contendor e. como se tivesse mais medo do trem que do aço pontiagudo. Um minuto e meio mais tarde sentiu a ponta de sua espada penetrar no pescoço do homem. na terceira. . mas agora mostrava-se perturbado e perdia terreno. Nada obstante. Syme se batia denodada mas cautelosamente. enquanto que este homem era um demônio — talvez fosse o Demônio! Em todo caso. Mas a lâmina saiu limpa. Por seu turno. melhor espadachim. findo o qual Syme caiu sobre o outro enfurecidamente. Este novo temor espiritual era bem mais terrível que a simples barafunda espiritual simbolizada na perseguição que lhe movera o paralítico. a espada se lhe dobrou ao peso do corpo do atingido Marquês. ripostou tão àgilmente que. os leais companheiros que estavam ali a seu lado. Talvez tivesse sido eleito paladino de todas essas coisas simples e generosas para terçar espadas com o inimigo de toda a criação. Mas não houve talho. Syme estava tão certo de haver enfiado sua lâmina no inimigo como o está o jardineiro que enfia no chão sua pá. os honestos marujos encharcados de cerveja à beira do cais. Desatento e um tanto lerdo. "No fim de contas". Houve um instante de rígido silêncio. CHESTERTON Mas a endiabrada energia do Marquês era ilimitada. onde não descobriu a menor gota de sangue. ávido por decifrar o enigma da inexistência de sangue em sua própria espada. O Marquês era. de uma coisa estava certo: três vezes uma espada terrena o tinha ferido e não o marcara. debaixo da mandíbula. K. o Marquês saltou para trás sem desaprumar. e tudo quanto nele havia de bom cantou no ar como o vento canta nas árvores. a moça dos cabelos vermelhos no jardim. o Marquês olhava de contínuo para a via férrea. deveras. não teve dúvida de que o tinha tocado. acertou nova estocada. Quase fora de si. Com este propósito visava mais a gorja e a cabeça do que mesmo o corpo do Marquês. Por um instante o céu de Syme voltou a escurecer-se com terrores sobrenaturais. desta feita. O Professor não passara de um duende. "sou mais do que um demônio. fitou a ponta de sua espada. Recordou todas as coisas terrenas de sua aventura: as lanternas chinesas de Saffron Park. Com este pensamento Syme se reanimou. disse para si mesmo. com o cabeça em fogo.110 G. Sem dúvida o homem tinha o corpo fechado. cheio de ardente curiosidade. Em verdade. como o admitira Syme desde o princípio.

em breve. Inopinadamente. virando-se para seu oponente. Mr. Quero dizer uma coisa. escapou do poder do adversário e lançou ao chão a espada. À medida que o trem se aproximava. continuou. anuiu o Coronel Ducroix. — Protesto! Isso é inteiramente irregular! exclamou o Dr. — Por favor. Mas não se pode dizer que um nariz seja uma arma. se bem me lembro. se transformaria no rugido do trem de Paris. e quando estas palavras cruzaram sua mente.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 111 sou um homem. Por favor. estamos lutando porque o senhor exprimiu o desejo (que reputei irracional) de puxar-me o nariz. deixem-me falar. Nosso afilhado feriu o Marquês pelo menos umas quatro vezes. — De fato isso vai de encontro à praxe. Pode agora fazer-me o obséquio de puxar meu nariz o mais depressa possível? Preciso pegar o trem. O salto foi prodigioso. Syme o atingira em cheio na coxa. — De que se trata? perguntou pasmado o Coronel Ducroix. associava-se à vibração e à glória da grande República. — O senhor quer ou não quer puxar meu nariz? perguntou exasperado o Marquês. e êle continua ileso. O trem estacou. Buli indignado. disse um tanto pálido o Dr. e sua voz exigia instantânea obediência. para espanto dos presentes. Posso fazer uma coisa que o próprio Satã não pode: posso morrer". que terminou orgulhosamente por um silvo prolongado e penetrante. Syme. olhando severamente para o Marquês. E seus pensamentos se engrandeciam ao elevar-se o rugido do trem. principalmente porque. êle ouviu um assobio longínquo e abafado que. É muito importante. disse. segundos antes. — O Marquês ergueu a mão. Houve irregularidade? — Não deixou de haver. registra-se apenas um caso (Capitão Bellegarde e Barão Zumpt) em que as armas foram trocadas no meio da justa. Buli. a pedido de um dos combatentes. êle julgava estar vendo o povo erigir arcos florais em Paris. Syme! O senhor não queria fazê-lo? Pois faça-o! O senhor nem imagina como isso . — Pára! bradou o Marquês. num salto para trás. Ao que me consta. num curioso gesto de reprimida impaciência. Entregou-se outra vez à luta com a sobrenatural ligeireza de um maometano que anela o Paraíso. o Marquês. Mr. cujas portas êle estava protegendo contra o Inferno.

e o nariz veio em sua mão. Por alguns segundos ficou solenemente atarantado.. O trem entrou na estação! — Entrou. não seja tão egoísta! Suplico-lhe que puxe meu nariz imediatamente. Vamos. Sabemos muito bem que obra diabólica. e inclinou-se de leve para a frente com um sorriso fascinante. queira aceitar minha sobrancelha esquerda. . — Se eu tivesse sabido. sei. mas vai sair. rangia numa estaçãozinha situada atrás de um outeiro próximo. Buli.. que estava assistindo um poltrão que se enchumaça para lutar. mas não posso dar explicações agora. Entrou. Puxou-o com força. disse Syme com firmeza.. O trem. que. atirando estouvadamente para um e outro lado do campo vários pedaços de si mesmo. Uma vez mais Syme foi invadido por uma sensação a que já se habituara no decurso destas aventuras: a sensação de que um sublime e tenebroso vagalhão se elevara até ao céu e acabava de despencar-se. deu dois passos para a frente e puxou o nariz romano de seu renomado fidalgo. . — Se alguém se interessa por minha sobrancelha esquerda. A estrambótica figura virou-se para Syme e pareceu reunir suas forças antes de falar. Coronel Ducroix. — Você não irá nesse trem. E sai sem você. É o tipo da coisa que poderá ser-lhe útil um dia. ruborizou-se e perdeu a fala. — Sei. O misterioso Marquês levantou os braços num gesto de desespero. O trem de Paris. arfando e silvando. e cortêsmente ofereceu-a ao Coronel. e gravemente arrancou uma de suas castanhas sobrancelhas assírias. O Marquês rompeu chistosamente o silêncio. disse o Marquês. — Querem levar-me à loucura? perguntou. enquanto o sol e as nuvens e as colinas arborizadas assistiam a este ridículo espetáculo. de pé. balbuciou o Coronel. K. Movendo-se num mundo incompreensível.. com uma metade da cara descomposta e a outra metade reluzente e arreganhada. contemplando-a. segurando entre os dedos aquela venta de papelão. Ali. de raiva. em pleno sol. destapando assim cerca de metade de sua testa morena. C H E S T E R T O N é importante para mim.112 G. disse ameaçadoramente Dr. empunhando a espada. . êle era um disparatado estafermo. Você está muito enganado. aqui está ela.

covarde. Mentecapto. e arrancou o couro da cabeça e metade da cara. Meu nome é muito conhecido na polícia. A lucidez mental se realiza de muitas maneiras. Deus do céu! êle já me apanhou. disse o outro. Estarão vocês todos amofinados que não possam descobrir o que sou?. — Oh! Não precisa mostrar-nos. — Sou o Inspetor Ratcliffe. repetiu Syme. que sua lábia não me impressiona. Desse seu nós já temos um naipe quase completo. Que vem a ser essa história do trem? Por que você disse que êle o apanhou? Pode ser pura invenção literária de minha parte. e vejo perfeitamente que vocês pertencem a ela. Que quer dizer esse "nós"? — A polícia. trapalhão. pulha. A cabeça que surgiu era loura. palhaço! Você. se você removesse os restos de sua antiga testa e os poucos vestígios de seu queixo. Mas por via das dúvidas trago comigo um cartão. Agora nós estamos à mercê de Domingo. Você vai a Paris para lançar uma bomba! — E por que não a Jerico? rugiu o outro arrancando a cabeleira que se despegou facilmente. e começou a tirar do bolso um cartão azul. respondeu desabridamente o Professor. cabeça típica do policial inglês. disse enfastiado. disse com uma pressa que raiava na aspereza. Talvez. de cabelos lisos e bem penteados. o que eu queria era que o trem não me apanhasse. suas intenções ficassem mais evidentes. — Chamas infernais! bramiu o outro.Pensavam realmente que eu queria apanhar esse trem? Por mim. — Lamento dizer-lhe. idiota. — Não irá nesse trem. naturalmente! exclamou o Marquês. velhaco. — Nós? repetiu estupefato o Professor. — Significa tudo. mas o rosto era incrivelmente pálido. Porque deveria eu ir nesse trem? — Sabemos porque. disse Syme dominando-se. O Professor fêz um gesto de enfado.. seu porcalhão. . pelintra. mas pressinto que isso deve significar alguma coisa.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 113 — Você. estúpido. excomungado. mas estou vendo que agora.. e o fim de tudo. — O que eu quero? O que eu não quero é apanhar esse trem. imbecil! esbravejou sem tomar fôlego. podiam sair vinte trens de Paris! Danem-se os trens de Paris! — Então o que é que você quer? inquiriu o Professor.

O mais jovem padrinho do Marquês. ajudaram a salvar o mundo. Coronel Ducroix. convido-o a voltar comigo para a cidade. por São Jorge! Se esses senhores estão efetivamente embrulhados com uma caterva de assassinos. nós lhes devemos uma explicação satisfatória. O espetáculo proporcionado por um distinto concidadão de nossas relações. mas asseguro-lhes que não foram vítimas. êle adiantou-se com toda a gravidade e responsabilidade de um padrinho e dirigiu-se aos dois padrinhos do Marquês. é inusitado e. de uma brincadeira de mau gosto. Uma sociedade secreta de anarquistas caça-nos como se fôssemos lebres. e a tais travessuras. que tem por dogma destruir a humanidade como um inseto. como essas que os senhores aturaram. Sem dúvida foi quem salvou a situação. CHESTERTON O homenzinho chamado Buli. inclinou-se polidamente e disse: — Aceito de bom grado as desculpas. Dr. poderosa e fanática. como outros homens que parecem não ir além de uma vivacidade puramente vulgar. Não somos truões mas homens desesperados. eu irei com eles até o fim. mas. . K. Buli tirou o chapéu e agitou-o no ar. Não se trata desses infelizes loucos que atiram aqui e ali uma bomba. em guerra com uma vasta conspiração. como se estivesse num comício. mas de uma igreja rica. Já combati pela França. como esses de que lhes peço desculpas. nem de nada indigno de um homem honrado. depois de cofiar um momento o bigode branco. O Coronel Ducroix virou-se mecanicamente. que se fragmenta ao ar livre. seria um pusilânime se não combatesse pela civilização. um sujeitinho baixo de bigodes pretos. como dizem que estão. revidou: — Não. mas os senhores hão de permitir que eu decline de acompanhá-los mais adiante em suas dificuldades e me despeça aqui mesmo. — Senhores. Podem inferir a sanha com que eles nos perseguem do fato de sermos obrigados a tais disfarces. dando brados aclamatórios.114 G. levados pela miséria ou por alguma filosofia alemã. No meio dessa duvidosa cena de transformação. se o senhor está de acordo em que nossa presente situação é um tanto anômala. não desejo interferir nos seus atos. mas. como estão imaginando. acima de tudo. suficiente para um só dia. Não perderam o tempo. uma igreja de pessimismo oriental. saiuse com uns inesperados expedientes de bom gosto.

Mas. — Domingo! exclamou Buli. Deus meu! gritou de chôfre como quem vê uma explosão distante. . Havia. Significa que estamos perdidos. Todo mundo ali era detetive. e o velho Demônio colocou-as no Supremo Conselho para que elas perdessem o tempo vigiando-se mutuamente. — O que você diz parece extremamente desconcertante. Por Deus! Se isso é verdadeiro. somente. . cinco ípassoas que ofereceriam resistência. às tontas. exclamou Ratcliffe. — Que outros? perguntou Syme. Provavelmente capturou o mundo. sim. redargüiu o outro com súbita serenidade. E enquanto êle estava juntando grandes somas de dinheiro e se apoderava das grandes linhas telegráficas. respondeu o Inspetor. perseguíamo-nos uns aos outros. e todas as nossas idiotices faziam parte de seus planos. Porque. de fato. — Os que desceram do trem.. Não somos mais que uns idiotas. — Agora. agora êle nos encontrou brincando de cabra-cega num campo de grande beleza rústica e de absoluta solidão. — E agora? perguntou Syme um tanto impassível. capturou todos os telégrafos. toda a cambada do Conselho Anarquista estava contra a Anarquia. Todos os movimentos caíram sob seu controle. apoderou-se de todas as linhas de estrada de ferro. especialmente desta linha! e apontou um dedo trêmulo para o lado da estação. só lhe resta capturar este campo e os imbecis que aqui estão.O HOMEM QUE FQL QUINTA-FEIRA 115 — Não faça tanto barulho. os cinco idiotas. como um bando de meninos brincando de cabra-cega. e meio mundo estava disposto a lutar por êle. Que é que isso significa? ""^ Que significa? repetiu o novo policial com incrível violência. deixando cair o chapéu.. começou Syme. nós. Já que vocês querem realmente saber qual era . Domingo pode ouvi-lo. Domingo sabia que o Professor perseguiria Syme através de Londres e que Syme se bateria comigo na França. exceto o Presidente e seu secretário particular. recomendou-lhe o Inspetor Ratcliffe. — Domingo. Êle pode estar com os outros. Você não conhece Domingo? Não sabe que seus gracejos são sempre tão graves e simples que ninguém os pode prever? Você pode imaginar uma coisa mais característica de Domingo que esta sutileza de colocar seus mais ferrenhos adversários no Supremo Conselho e depois providenciar para que esse Conselho não seja supremo? Asseguro-lhes que êle comprou todos os monopólios.

Buli. que imediatamente tirou suas lunetas e colocou o aparelho nos olhos. A avançadora multidão compunha-se. Syme admitiu a impossibilidade de identificar os loquazes possuidores daquelas mandíbulas escanhoadas. em sua maioria. mas. andar sempre com um binóculo. — Era um hábito do extinto Marquês de St. usam máscaras negras? Syme arrancou violentamente o binóculo da mão do médico e se pôs a observar. como todos conversavam e sorriam. disse o novo polícia exibindo um estôjo de couro. Eustache. um pouco abalado. Não resta d. — Mas simples turistas. Mas era evidente também que dois ou três dos que vinham à frente usavam meias máscaras negras quase até à boca. com o binóculo nos olhos. Dr. de homens de aparência normal. pôde notar o sorriso torto de um deles. eu direi. e todos volveram os olhos para a estação. especialmente à distância.116 G. Era inegável que uma grande multidão parecia dirigir-se para o sítio em que eles estavam. perguntou Buli.úvida que vem muita gente. onde não podemos cair na tentação de quebrar nossos juramentos chamando a polícia. Minha cisma era que Domingo ou o Secretário desembarcasse agora mesmo. Buli. K. mas é possível que se trate de simples turistas. Mas vinha ainda muito distante e estava mal definida. aventou o Professor. Fomos agarrados num recanto aprazível e quieto. suspeito que você enxergará muito melhor através dos meus que através desses seus óculos sumamente decorativos. . Entregou o binóculo a Dr. Syme proferiu um brado involuntário. Ou o Presidente ou o Secretário vem em nosso encalço no meio daquela turba. — Não há de ser terrível como você diz. CHESTERTON minha cisma com a chegada desse trem. Este disfarce é perfeito. .

de sobrolho franzido. — De qualquer modo o Presidente não está entre eles. com alívio quase sombrio. Na verdade é como você diz: estão muito longe. E prouvera aos Gêmeos que estivesse! É muito mais provável estar desfilando triunfalmente em Paris. mas êle não pode ter capturado o mundo com tamanha rapidez. tendo em vista a nossa importância. ainda não refeito das apressadas embora polidas explicações de Buli. não é uma força muito temível. Mas se êle viesse caminhando com eles. ou sentado sobre as ruínas da Catedral de São Paulo. Após uma pequena pausa.CAPITULO XI OS CRIMINOSOS ACOSSAM A POLICIA Syme afastou dos olhos o binóculo. — Oh. — Isso é absurdo! exclamou Syme. é inegável que uma multidão parece vir ao nosso encontro. o novato chamado Ratcliffe disse com lúgubre propósito: — Com certeza o Presidente não está entre eles. e nós. examinando dubitativamente o prado distante nas cercanias da estação. disse pestanejando o desnorteado Coronel. acrescentou. não. Mas permita que eu fale com franqueza: ela foi calculada matematicamente.. mas ela não é esse exército que você imagina. meu caro. disse desdenhosamente o novo detetive. Acha que é possível reconhecer o seu Presidente no meio de todo aquele povo? — Não poderia eu reconhecer um elefante branco no meio de todo aquele povo!?! respondeu Syme com uma ponta de irritação.. afirmou enquanto enxugava a testa. não somos numerosos no uni- . — Mas o certo é que estão muito longe. Deus do céu! creio que este chão sofreria abalos. £ indiscutível. Algo pode ter acontecido em nossa ausência.

um mundo em que os homens largavam as barbas. a uma simples olhadela. deu-lhes as amplas costas e. O sol. voltou-se para os outros e disse com certa austeridade: — Há muito que dizer em louvor da morte. Num instante uma cabeça se iluminava à maneira de Rembrandt. os óculos e os narizes e tomavam ou- . cuspindo na relva. Já divisavam. obliterando o resto do corpo.118 G. no instante seguinte surgiam alvas mãos. o bosque se povoava de réstias despedaçadas e sombras inquietas. encaminhou-se a passos largos para o bosque. concluiu o Inspetor. Estaria de máscara o Marquês? Haveria mesmo alguém de máscara? Existiria mesmo alguém? Este bosque enfeitiçado. que formavam uma espécie de trêmulo véu. É tarefa para seu secretário particular. Agora que êle se apoderou de todos os cabos submarinos e de todos os telégrafos. Com estas palavras. no relvado. este simples caos do claro-escuro (depois da límpida manhã campesina) afigurou-se-lhe um símbolo perfeito do mundo em que vivia há três dias. Os outros. os borrões pretos que marcavam as máscaras usadas pelas caras da frente. CHESTERTON verso de Domingo. Syme mal podia distinguir as sólidas figuras que andavam a seu lado sob os dançantes feixes de luz e sombra. O ex-Marquês puxara o velho chapéu de palhinha para cima dos olhos. A fantasia coloriu o opressivo pasmo de Syme. o qual já se internara no bosque e desaparecera entre as árvores farfalhantes. e a sombra negra da aba dividia-lhe o rosto em duas metades tão perfeitas que êle parecia trazer uma das negras meias máscaras dos seus perseguidores. onde seus corpos. era seco e quente. Deram meia volta e seguiram o chefe. como botar um cartão no correio. como mergulhadores que se lançam numa piscina sombreada. notaram que a escura nuvem humana se apartara da estação e se deslocava com misteriosa disciplina através da planície. K. Assim. sentiram o contato refrescante da sombra. mas se alguém tem qualquer preferência pela outra alternativa. evocativo da trepidação do cinematógrafo. acompanhadas de uma cabeça de negro. mesmo a olho nu. o extermínio do Conselho Supremo lhe parece uma trivialidade. uma vez intumescidos na claridade. aconselho-o fervorosamente a tomar meu exemplo. Em seguida. numa silenciosa determinação. onde os semblantes dos homens se tornavam alternadamente pretos e brancos. ao se lançarem no bosque. fortes e vibráteis. sumiam na noite informe. No interior.

rompeu o insondável silêncio e puxou conversa. A meu ver é pouco provável que esta região esteja do lado deles. Decerto. Aquela trágica confiança em si mesmo. Você fala de multidões e classes operárias como se elas fossem o nó da questão. virá dos pobres. Numa voz exageradamente alta e galhofeira. incapaz de justificar o universo. Com duas impacientes pernadas alcançou o homem que usava o chapéu de palhinha do Marquês.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 119 tras aparências. havia desaparecido estranhamente. passando pela cidade de Lancy. Está contaminado por uma idéia eterna e idiota: se a anarquia vier. e mesmo que fossem. agora que êle sabia que o Marquês era um amigo. nunca! . Encontrara aquilo que os modernos chamam Impressionismo. Não poderia do mesmo modo arrancar a cabeça e transformar-se num espectro? Tudo não se assemelhava. nem todos os trabalhadores são anarquistas. — A que vem tudo isso? berrou Syme. Depois de todas essas perplexidades. Eles não podem ter conquistado todo o mundo dessa forma. que é outro nome para o cepticismo definitivo. se esforça por gritar e despertar. Syme lutava por desvencilhar-se desta última e mais execrável de todas as suas fantasias. Haveria alguma coisa que subsistisse fora das aparências? O Marquês arrancara o nariz e se transformara num detetive. Por quê? Os pobres foram rebeldes. que sentira quando acreditara que o Marquês era um demônio. — Temos que alcançar o mar. Como aquele que. o resplendor sempre imprevisto e sempre esquecido. mas anarquistas. a este bosque de logros. a esta dança de treva e luz? Tudo não passava de um fugaz resplendor. no meio de um pesadelo. estava quase inclinado a perguntar o que era um amigo e o que era um inimigo. de resto. simples multidões não poderiam vencer os modernos exércitos e a polícia! — Simples multidões! repetiu seu novo amigo com um bufo de desprezo. o homem a quem devia chamar de Ratcliffe. — Posso perguntar-lhe para que fim-de-mundo nos dirigimos? Tão autênticos tinham sido os temores de sua alma que êle se rejubilou ao ouvir a entonação tranqüila e humana de seu companheiro. Porque Gabriel Syme havia encontrado no coração deste bosque sarapintado de sol o que muitos pintores modernos aí haviam encontrado.

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Mais do que os outros, têm interesse em que haja um governo decente. O pobre realmente se enraíza em sua terra. O rico, não; pode embarcar num iate para Nova Guiné. Algumas vezes os pobres se opuseram aos maus governos; os ricos sempre se opuseram a qualquer governo. Os aristocratas foram sempre anarquistas. Basta recordar as guerras dos barões. — Como preleção sobre história inglesa para meninos, está excelente, disse Syme, mas ainda não encontrei sua aplicação. — Já vai encontrá-la, retorquiu o preletor. Quase todos os braços-direitos de Domingo são milionários americanos e sulafricanos. Por isso é que êle se apossou de todas as comunicações, e é por isso que os quatro campeões restantes da força policial antianarquista estão fugindo através de um bosque como se fossem coelhos. — O que você diz dos milionários eu compreendo, disse Syme pensativo. São loucos quase todos. Mas subjugar uns poucos velhos maníacos e depravados é uma coisa; subjugar grandes nações cristãs é outra. Sou capaz de apostar meu nariz (perdoe a alusão) que Domingo ficaria completamente desamparado ante a tarefa de converter qualquer pessoa normal por aí a fora. — Bem, isso depende da pessoa, disse o outro. — Por exemplo, jamais chegaríamos a converter essa daí, disse Syme apontando para a sua frente. Entraram num espaço descoberto e ensolarado, que aos olhos de Syme representava o retorno do bom senso. E no meio da clareira havia um homem que bem poderia, com absoluta propriedade, encarnar o senso comum. Queimado de sol e sujo de suor, e grave, imbuído daquela profunda gravidade inerente aos singelos trabalhos cotidianos, um rude aldeão francês cortava lenha com uma machadinha. Algumas jardas adiante jazia sua carroça, quase cheia de toros; e o cavalo que comia o capim era, como o dono, valoroso sem ser violento e, como o dono, altaneiro ainda que quase triste. O homem era normando, mais alto do que a média dos franceses e muito anguloso. Sua figura morena recortava-se na quadra ensolarada como uma alegoria do trabalho pintada a fresco sobre um fundo de ouro. — Mr. Syme está dizendo, gritou Ratcliffe para o Coronel francês, que esse homem, pelo menos, nunca será um anarquista.

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— Mr. Syme tem toda razão, respondeu o Coronel Ducroix. Quando nada, pelo simples motivo de ter êle uma boa propriedade a defender. Mas esqueci que na pátria de vocês camponeses não costumam ser ricos. — Esse parece pobre, advertiu Dr. Buli suspeitoso. — Isso mesmo, disse o Coronel. E por isso é que êle é rico. — Tenho um idéia, bradou Dr. Buli de chôfre. Quanto êle cobraria para arranjar-nos um lugar em sua carroça? Aqueles cães vêm a pé, e logo os deixaríamos para trás. — Ofereça-lhe o que quiser! disse pressuroso Syme. Tenho dinheiro à bessa. — Não é assim que se faz, explicou o Coronel. Êle nunca lhe terá nenhum respeito se você não quiser justar. — Mas se êle regatear? começou Buli impaciente. — Regateia porque é um homem livre, redargüiu o outro. Vocês não entendem. Êle não perceberia o sentido da generosidade. Não é de receber gorjetas. E mesmo quando supunham escutar atrás de si as passadas surdas de seus desconhecidos perseguidores, tiveram que demorar-se, mortos de sofreguidão, enquanto o Coronel francês e o lenhador francês falavam com toda a pachorra e esperteza de um dia de feira. Ao fim de quatro minutos, porém, viram que o Coronel tinha razão, pois o lenhador acatara a proposta, não com o vago servilismo do biscateiro bem pago, mas com a seriedade de um procurador que recebeu os honorários justos. Disse-lhes que a melhor coisa a fazer era tomarem o rumo de uma pousada situada nas colinas de Lancy, onde o hospedeiro, antigo soldado convertido em dévot na velhice, decerto simpatizaria com eles e talvez assumisse o risco de ajudá-los. Toda a comitiva então apinhou-se em cima das pilhas de lenha e, ao balanço da rude carroça, dirigiu-se para a outra banda mais alcantilada do bosque. Embora pesado e desconchavado, o veículo ganhara bastante velocidade, e pouco depois tiveram a confortadora impressão do afastamento daqueles, quem quer que fossem, que os perseguiam. Porque, no fim de contas, descobrir onde os anarquistas haviam arregimentado tantos sequazes era um enigma ainda indecifrado. A presença de um único homem era suficiente; eles tinham abalado à vista do sorriso deformado do Secretário. De quando em quando Syme olhava de esguelha para o exército que vinha em suas pegadas.

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À medida que o bosque se rarefazia e estreitava com a distância, Syme descortinava as encostas resplendentes, por onde a quadrada e negra matilha marchava feito um monstruoso escaravelho. Na vivíssima claridade e com seus vivíssimos olhos, quase telescópicos, divisava perfeitamente esses vultos longínquos. Via-os como figuras humanas individualizadas; mas reparava, com surpresa cada vez maior, que eles se moviam como um só homem. Pareciam usar roupas escuras e chapéus comuns, como quaisquer pessoas da rua; mas não se espalhavam, nem se chocavam, nem se distribuíam em vários sentidos, como seria natural numa multidão ordinária. Moviam-se com a assustadora e maligna rigidez de um pau, como um horripilante exército de autômatos. Syme apontou-o a Ratcliffe. — É, sim, respondeu o detetive, isso é disciplina. É puro Domingo. Êle está talvez a quinhentas milhas daqui, mas infunde-lhes tanto temor quanto o dedo de Deus. Marcham uniformemente, e pode apostar suas botas que eles estão falando uniformemente e pensando uniformemente. Mas o que é importante para nós é que eles estão desaparecendo com a mesma uniformidade. Syme concordou. Era verdade que a negra mascarada que os perseguia, pouco a pouco definhava, à proporção que o camponês chicoteava o cavalo. O nível da paisagem clara, ainda que quase todo plano, descambava nos confins do bosque em ondas de lento declive que se perdiam no mar, à semelhança dos mais baixos declives das dunas de Sussex. A única diferença era que em Sussex o caminho deveria ser fragmentado e tortuoso como um regato, enquanto aqui a branca estrada francesa despencava-se diante deles como uma catarata. No fim da primeira rampa, a carroça estalou ao fazer uma curva fechada, e em alguns minutos, com a estrada ainda mais escarpada, contemplaram a seus pés o minúsculo porto de Lancy e o magnífico arco azul do mar. A nuvem viageira de seus inimigos desaparecera totalmente do horizonte. Cavalo e carroça impetuosamente rodearam um grupo de olmos, e o cavalo quase deu de focinho no rosto de um velho que estava sentado num dos bancos da calçada do café "Le Soleil d'Or". O aldeão grunhiu uma desculpa e apeou-se. Os outros também desmontaram e um a um saudaram o velho com

olhos sonolentos e bigode pardo. em que podemos alugar cavalos. sentou-se e encomendou um refrigerante. . que se sentou a seu lado e aproveitou o momento em que o velho estalajadeiro se ausentou. é que é sempre prudente ver um ou dois homens honestos quando se está praticamente às portas da morte. suas flores e sua colmeia — sugeria uma paz ancestral.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 123 meias frases de cortesia. disse seriamente Ducroix. — Por duas razões. que cumprimentou o estalajadeiro como um velho amigo. O Coronel. o melhor que vocês têm a fazer é correr logo para a delegacia de polícia da cidade. Era um sujeito encanecido. por que viemos para cá? O Coronel Ducroix sorriu por trás da cerdosa bigodeira branca. levantaram a vista depararam com a espada pendurada na parede. dentro da sala de visitas. Viemos para cá porque este é o único lugar. um tipo que se pode com freqüência encontrar na França. para satisfazer a própria curiosidade. A decisão de seu ato interessou Syme. meu prezado senhor. disse êle. mas é muito mais comum na Alemanha católica. Coronel. primeiro. num raio de vinte milhas. naturalmente. sedentário e simplório. — Sim. — Fora de dúvida. — E você nos aconselha a seguir para onde? inquiriu Syme com alguma descrença. com cara de maçã. redargüiu o Coronel. Tenho para mim que o amigo que apadrinhei em circunstâncias um tanto equívocas exagera demais as possibilidades de um levante geral. — Pode explicar. entrou apressadamente. replicou o outro. Se vocês querem realmente distanciar-se de seus inimigos só têm uma saída: cavalos! A menos. Tudo quanto o cercava — seu cachimbo. que tragam nos bolsos bicicletas e automóveis. somente quando seus hóspedes. seu caneco de cerveja. recobrando o ânimo. Depois perguntou de chôfre: — E sua outra razão de vir para cá? — Minha outra razão de vir para cá. corpulento. pois suas maneiras expansivas evidenciavam que êle era o proprietário da tasca. não a mais importante mas a mais vantajosa. — Cavalos! repetiu Syme. mas suponho que nem mesmo êle negaria que entre os gendarmes vocês estão em segurança. Syme aprovou gravemente com a cabeça. Darei. perguntou em voz baixa.

os cinco outros se muniram de pequenas rações de comida e vinho e. parecendo um exército bem adestrado. Parecia pairar sobre o bom homem e sua casa como uma negra nuvem de gafanhotos. por trás do estalajadeiro. Em boa hora foram selados os cavalos! . começava a declinar para o ocidente. quando. Nem bem acabara de falar quando o velho estalajadeiro dos olhos azuis e cabelos brancos ingressou cautelosamente na sala e anunciou que havia seis cavalos selados lá fora. que carregaram a bagagem do Marquês quando êle era marquês. sim. O sol. ficaram bebendo no café. C H E S T E R T O N Syme olhou para o alto da parede e descobriu um quadro religioso. cuja robusta figura ia diminuindo aos poucos. Vocês não podem perder um minuto.124 G. K. A conselho de Ducroix. e acrescentou quase em seguida: Alguém foi providenciar os cavalos? — Foi. não contrariava os secretos desejos de ambos. afastaram-se ruidosamente pela estrada branca e alcantilada. enfim. — Tem razão. respondeu Ducroix. nessa hora do dia. Aqueles inimigos de vocês não davam a impressão de ter pressa. mas na realidade se deslocavam com incrível rapidez. Através de seus raios. de cores cruas e patéticas. enquanto o sol lhe banhava os cabelos prateados. no alto.. Continuava ainda atento para aquele vulto minguante. depositada em seu espírito pelo dito ocasional do Coronel: a de que esse era talvez o último homem honesto que contemplava na terra. viu surgir em marcha um exército de homens vestidos de preto. Nunca pensei que os anarquistas tivessem tanta disciplina.. Syme sentia-se presa de uma fantasia persistente e supersticiosa. o que. os dois criados. Syme entrevia o velho estalajadeiro. mero borrão pardacento na vasta muralha verde da encosta. disse. embora continuasse em pé a segui-los mudamente com o olhar. conservando suas espadas duelares como únicas armas disponíveis. Por unânime consentimento. Fique certo de que dei ordens no momento em que entrei.

disse Buli. — Temo. temo que não disponhamos de tempo para visitas vespertinas. — Êle está do lado de vocês. — Nossa desgraça. disse o Professor com jovialidade. Buli. Sujeito excelente! E o mais importante. — A casa do Dr. porque eles vêm a pé. está a menos de dois minutos. disse Syme. — Se cavalgarmos a toda brida. teimou o Coronel. Quando chegaram à cidade. — Mas pode não estar em casa. tentassem. é que possui um automóvel. — Quatro. dos cinco ricaços deste burgo. insistiu o Coronel. disse êle. de passagem. espreitando a estrada branca por onde a negra e rastejante mascarada podia surgir de um momento parp outro. . poderemos deixá-los para trás. — Êle tem automóvel.CAPITULO XII A TERRA EM ANARQUIA Incitando os cavalos ao galope e indiferentes ao áspero declive da estrada. atrair as simpatias de mais um indivíduo que podia ser-lhes útil. objetou Dr. fora um longo percurso. são trapaceiros vulgares. já o ocidente se inflamava das cores e da exuberância do crepúsculo. Suponho que a proporção é razoavelmente igual à do resto do mundo. Sem embargo. — Mas não devemos contar com isso. do nosso ponto de vista. O quinto é um amigo meu. até que a massa dos primeiros edifícios de Lancy interceptou a visão dos seus perseguidores. Renard está apenas a uns três minutos daqui. em pouco tempo os cavaleiros retomaram a dianteira. O Coronel sugeriu que. antes de se dirigirem de vez para a delegacia de polícia.

Eles devem ser pelo menos uma força de cem homens. Que barulho é Por um segundo todos ficaram tão imóveis como estátuas eqüestres.126 esse? G. Essa é mais uma boa razão para procurarmos o meu amigo Renard. Asseverou. disse com breve ironia militar. nessas vinte milhas. Depois. Dr. Quando. que tem automóvel. Preparar para receber carga de cavalaria! — Onde é que terão conseguido os cavalos? perguntou Syme enquanto mecanicamente instigava o corcel a um meio galope. — Não! bradou Syme violentamente. Não creio que êle o fizesse. à sua porta. agoniados de atenção. eles apearam dos cavalos. e por um segundo — por dois ou três ou quatro segundos — o céu e a terra pareceram igualmente imóveis. onde é possível conseguir cavalos. deixando-o. que não . K. escutaram pela estrada aquela indescritível vibração que só significa uma coisa: cavalos! O rosto do Coronel transformou-se instantaneamente. Renard era um homem alegre. varada pela estrada branca. como se um raio o tivesse tocado. Quando foi inteirado do assunto. galopou para a esquina e enfiou pela rua com tão fulminante velocidade que os outros. incólume. C H E S T E R T O N — Silêncio. disse com brandura o Coronel. que já corriam à desfilada. Dr. Renard habitava uma confortável mansão no alto de uma ladeira. a sólida crista verde da colina que se alteava acima de todos os telhados da cidade. ordenou Syme subitamente. com todos aqueles cabelos brancos! — Talvez tenha sido coagido. enxergaram. tiveram dificuldade em seguir a cauda voadora de seu cavalo. não é. de barbas castanhas. Depois falou constrangido: — Fui estritamente exato quando disse que o "Soleil d'Or" é o único lugar. Ao constatar que a estrada ainda estava deserta respiraram aliviados e tocaram a campainha. Ao pronunciar estas palavras. com o sólido ceticismo francês. todos os seus ouvidos. O Coronel guardou silêncio por um instante. Não é possível.classe profissional que a França soube preservar melhor que a Inglaterra. um bom representante dessa silenciosa mas ativa. porém. galhofou do pânico do exMarquês. — Pegaram-nos.

cuja casa era como o Museu de Cluny. parando-o diante da casa do Dr. — Lamento interromper uma discussão erudita. Renard. a tropa se mantinha coesa. Quando seus impacientes amigos foram examiná-los. Havia. A despeito da distância. o grosso da cavalaria formava um único bloco. em essência. perderam uma porção de tempo para certificar-se de que um dos três poderia funcionar. ressaía em sua figura algo tão fantástico e tão inconfundível que prontamente identificava o Secretário. Baixando a vista pelas ruas ladeirosas pareceu-lhes que uma aligeirada neblina subia do mar. o mesmo de antes. disse o Coronel.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 127 havia probabilidade imaginável de um levante geral anarquista. porém. emendou o Professor. Fora da escura garagem espantaram-se ao ver que o crepúsculo já havia descido com a presteza da noite nos trópicos. Na verdade. mas você pode emprestar-me seu automóvel agora mesmo? — Estou desconfiado que vocês estão todos loucos. Ou eles se tinham demorado mais do que imaginavam. Ouço cavalos. Observaram que apesar de cavalgar velozmente. Possuía três automóveis. sorrindo afàvelmente. e que as negras máscaras da primeira fila avançavam com a mesma regularidade de uma linha de uniformes. Dr. tendo os gostos simples da classe média francesa. disse Dr. Mas Deus permita que a loucura nunca perturbe a amizade. Buli. mas. Com dificuldade trouxeram-no para a rua. — Agora ou nunca. cujos movimentos frenéticos de mãos e calcanhares fustigando o cavalo talvez induzissem a pensar que êle não era o perseguidor e sim o perseguido. mas à frente da coluna voava um ginete. encolhendo os ombros: — Anarquia é infantilidade! — Et ça. . Renard. — Não. bradou de repente o Coronel. O negro quadrado era. apontando por cima do ombro do outro. agora. uma diferença nitidamente visível na rampa da encosta como num mapa inclinado. Um cavalo. e concluiu. Vamos até à garagem. parecia usá-los muito raramente. embora avançasse com rapidez cada vez maior. disse Dr. Renard era um homem bonachão e monstruosamente rico. Isso é infantilidade? Todos volveram o olhar e avistaram um arco de negra cavalaria transpondo o cimo da encosta com todo o ímpeto de Átila. ou algum inusitado dossel de nuvens se armara sobre a cidade.

respondeu o Coronel. e o carro partiu. montado num cavalo veloz. — Não compreendo porque está tão escuro. semi-religioso. — Temos. mas o de um ginete que disparara à frente dos demais: o insano Secretário. Aplicou toda a sua força numa alavanca e depois disse tranqüilamente: — Receio que êle não ande. tornou-se-lhes evidente que aquele ruído. esculpida e fora de uso. surgiu na esquina com a velocidade e a rigidez de uma seta. — Arranjei-a onde arranjei o carro. Obviamente era uma antigüidade e parecia que seu uso original fora. — Onde você a arranjou? perguntou o Professor. parou na frente e colocou a mão no motor. Trazia um sorriso que alongava o queixo como se este se tivesse deslocado. Enquanto . disse por fim o Professor em voz baixa. aventou Dr. possuíra outrora um carro. É pena que não tenhamos uma lâmpada neste carro para iluminar o caminho. e do fundo do cano suspendeu uma pesada lanterna de ferro. afirmou o Coronel. — Penso que vai haver tempestade. No mesmo instante um homem retesado. rindo por entre os dentes. dentro do qual a turma se amontoara. Quando o carro dobrou a esquina. não era o de uma cavalgada. de certo modo. Súbito rebentou um estridor de ferros entrechocados. e sua boca se retificara na solenidade do triunfo. dentro da qual havia uma lâmpada. K. O carro arrastou-o violentamente umas vinte jardas e deixou-o estendido na estrada. tentou pôr em movimento o desusado maquinismo. fazendo uma esplêndida curva. com o rosto afogueado. pois num de seus lados figurava um rude ornato em forma de cruz. Saltou imediatamente para o assento do chofer e. Passou raspando pelo carro estacionado.128 G. O Secretário foi arrancado da sela como uma faca lançada para fora da bainha. CHESTERTON E enquanto escutavam. Era o Secretário. Buli. como a maioria daquelas que findam na pobreza. A família de Syme. Não havia ruído nenhum além do rumor dos outros perseguidores que invadiam a cidade. viram os outros anarquistas aglomerando-se na rua e erguendo o chefe caído. Syme debruçava-se tenazmente sobre a roda do volante. avizinhando-se cèleremente nas pedras retumbantes. Com meu melhor amigo. diante do cavalo espavorido. e Syme sabia tudo acerca de automóveis. sim.

Pensei que os tínhamos vencido. disse eu. — Não. que. presa por magníficas cadeias de ferro. Se você supõe que essa gente simples é anarquista. pois não! confirmou Syme seriamente. Renard merecia ser conhecido? — Tinha. piscando amàvelmente para a primorosa abóbada do vestíbulo. Se resolvêssemos enfrentar aqueles sujeitos toda a cidade combateria do nosso lado. Não tinha eu razão de dizer que o Dr. Êle ergueu os olhos. Deus queira que cheguemos lá em dez minutos. subi ligeiro a escadaria e falei com Renard. Havia uma certa alegoria da situação deles no contraste entre o moderno automóvel e a estranha lâmpada eclesiástica. replicou o outro com a mesma simplicidade. rachando os painéis e derrubando dois vasos azuis com sua violência. . como vocês se lembram. creio eu. então você está mais louco do que um verdadeiro anarquista. Enquanto conversavam* o Professor inclinou-se para a frente com repentina inquietação. entretanto. disse o Coronel. — Que barulho é esse? perguntou. uma das cem preciosidades de sua preciosa casa. estava de pé no átrio. disse êle. Entregou-me então a lanterna e eu coloquei-a no carro. Sem perda de tempo. Do teto. Até aqui tinham passado pela parte mais quieta da cidade. O Inspetor Ratcliffe franziu a testa. produzindo uma sensação maior de acolhimento e humanidade. "que não há tempo para conseguir uma lâmpada". Haveremos de ver. as janelas das casas começavam uma a uma a iluminar-se. Dr. pendia esta lanterna. arrancou a lâmpada do lugar. Agora. "Acho". — Essas luzes deixam a gente mais alegre. encontrando no máximo um ou dois pedestres que não lhes podiam dar idéia da paz ou da hostilidade do lugar. e são aquelas luzes da delegacia de polícia que estou vendo no outro lado da cidade.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 129 aqui o nosso Syme lutava com o volante. Então todo o efervescente bom senso e otimismo de Buli explodiu: — Mas isso é um alucinado disparate! exclamou. Buli voltou-se para o novo detetive e permitiu-se um de seus sorrisos naturais e amigáveis. Toda a cidade combateria do lado deles. e pendurou a pesada lanterna na frente do carro. — Somente certas luzes me deixam mais alegre. — Os cavalos atrás de nós.

retome as suas considerações. Renard nunca lhes daria seus carros. K. Mas me parece que aquelas luzes acolá. quando. mas todos viram que eram automóveis. — O que é que você quer dizer? inquiriu Buli incisivo. Isso é puro despropósito. O estupefato Coronel não estava mais para motejos. Tinha-se levantado para devassar a distância. Se não estou enganado. Syme ouviu sibilar uma bala. não posso acreditar. — Deus meu! bradou o Coronel. à frente deles.. — É extraordinário. superextraordinário! — Uma pessoa rabugenta. no fim da rua. O Professor ergueu-se empalidecido e jurou que eram os outros dois automóveis da garagem do Dr. — Não. repetiu com os olhos esgazeados. Sumiram num segundo. disse Syme. O singelo povo de uma pacata cidade francesa. Não são cavalos. nem estão atrás de nós. Foi interrompido por um estampido e um lampejo bem perto de seus olhos. Em pouco tempo chegaremos lá. Nunca chegaremos lá. Alguém nos alvejou. deixando atrás de si uma flutuante nuvem de alva fumaça. Toda a cidade está do lado deles. Por favor. poderia achar desagradável. no fim desta rua. Mal concluíra o Professor. retorquiu o outro numa desesperada serenidade. C H E S T E R T O N — Cavalos? Nunca! redargüiu o Professor. . — Pode ter sido coagido. passaram num abrir e fechar de olhos dois objetos brilhantes e rumorosos. — Eram os dele. Por alguns instantes estabeleceu-se uma pausa embaraçosa. Dr. disse o Inspetor Ratcliffe. Estavam cheios de mascarados! — Absurdo! vociferou o Coronel. você falava do singelo povo de uma pacata cidade francesa. — Não é necessário interromper a conversa. Renard. sugeriu Ratcliffe calmamente. Voltou a sentar-se e alisou a estirada cabeleira com um gesto de fadiga. são da delegacia. — Logo todos vocês acreditarão.. Quando o carro partiu cèleremente. perscrutando a rua. Circunvagava os olhos.130 G. disse. Coronel. que o Coronel rompeu bruscamente: — Não. — Você ainda acredita nisso? perguntou incrédulo o Coronel. disse o sombrio Ratcliffe.

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— O que eu quero dizer é que nunca chegaremos lá, respondeu plàcidamente o pessimista. Eles já atravancaram a estrada com dois pelotões armados. Vejo-os daqui. A cidade está em pé de guerra, como eu predisse. Resta-me somente aninhar-me no conforto sutil de minha própria certeza. E Ratcliffe, acomodando-se confortàvelmente, acendeu um cigarro, enquanto os outros se punham excitadamente de pé e examinavam a estrada. Syme diminuíra a marcha do carro ao sentir que seus planos se tornavam inexeqüíveis e, por fim, parou-o na esquina de uma rua que descia a pique para o mar. Quase toda a cidade estava recoberta de sombras, mas o sol ainda não se tinha posto; por onde se derramava seu fulgor esfatiado, todas as coisas se coloriam de ouro flamante. Sobre o alto dessa rua transversal o derradeiro clarão do ocaso incidia tão agudo e estreito como um raio de luz artificial no teatro. Batia no carro dos cinco amigos, transformando-o numa carruagem fulgurante. Mas o resto da rua, especialmente nas duas extremidades, imergia no mais profundo crepúsculo. Por alguns segundos nada puderam ver. Depois, Syme, cujos olhos eram os mais penetrantes, rompeu num curto e amargo assobio, e a juntou: — É verdade. Uma multidão, ou um exército, ou seja lá o que fôr, está reunido no fim daquela rua. — Bem, se é assim, disse Buli impaciente, deve haver um outro motivo: um combate simulado, o aniversário do prefeito, ou coisa semelhante. Não posso e não quero crer que a gente simples e alegre de um lugar como este ande com os bolsos cheios de dinamite. Avancemos um pouquinho, Syme, e olhemos isso de perto. O carro havia percorrido lentamente umas cem jardas quando todos se surpreenderam com uma gargalhada do Dr. Buli. — Vejam, seus bestalhões! berrou. O que foi que eu disse? Essa multidão é tão obediente à lei como uma vaca. E se não é, está do nosso lado. — Como é que você sabe? perguntou espantado o Professor. — Você é cego como um morcego, berrou Buli outra vez. Não vê quem os comanda? Espreitaram de novo, e então o Coronel, com um tremor na voz, gritou: — Ora, é Renard!

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G.

K.

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De fato, não se podiam distinguir claramente os vultos pardacentos que se agitavam na estrada; entretanto, mais adiante, num ponto iluminado, via-se, passeando acima e abaixo, o inconfundível Dr. Renard, de chapéu branco. Sua mão direita afagava as compridas barbas e a esquerda segurava um revólver. — Que louco eu fui! exclamou o Coronel. Naturalmente o meu velho amigo veio ajudar-nos. Dr. Buli, borbulhando gargalhadas, brandia levianamente a espada, como se ela fosse uma bengala. Saltou do carro e saiu a correr, gritando: — Dr. Renard! Dr. Renard! Um segundo depois, Syme julgou que seus próprios olhos enlouqueciam dentro de sua cabeça. Pois o filantrópico Dr. Renard acintosamente apontara o revólver contra Buli e fizera dois disparos que atroaram a estrada. Quase no mesmo instante em que a espiral de branco fumo se desprendeu dessa lastimável detonação, uma longa espiral de branco fumo também se desprendeu do cigarro do cínico Ratcliffe. Este empalidecera como os outros, mas sorria. Dr. Buli, a quem as balas tinham sido dirigidas e que por üm triz não foi escalpado, parou tranqüilamente no meio da estrada, sem dar sinal de medo. Depois virou-se lentamente, caminhou para o carro e subiu, trazendo dois buracos no chapéu. — Bem, disse sossegadamente o fumante, que é que você pensa agora? — Penso, respondeu Dr. Buli sem titubear, que estou dormindo em Peabody Buildings 217 e que daqui a pouco acordo e dou um pulo da cama; ou então, penso que estou sentado num cubículo almofadado de Hanwell e que o médico nada mais pode fazer no meu caso. Mas se você quer saber o que eu não penso, vou lhe dizer. Não penso o mesmo que você pensa. Não penso e não pensarei nunca que a massa de homens comuns seja um amontoado de ignóbeis pensadores modernos. Não, meu caro, sou um democrata e ainda não creio que Domingo possa converter um escavador ou um caixeiro. Não! Posso estar louco, mas a humanidade não está. Syme dirigiu para Buli seus claros olhos azuis, com uma seriedade que comumente não manifestava: — Você é um sujeito excelente. Acredita que a sensatez não é um privilégio exclusivamente seu. E tem toda (razão no que toca à humanidade, aos camponeses e a pessoas como aquele velho e simpático estalajadeiro. Mas não tem razão no

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que toca a Renard. Suspeitei dele desde que o vi. Ê racionalista e, o que é pior, rico. Se o dever e a religião têm que ser destruídos, hão de ser destruídos pelos ricos. — E agora já estão realmente destruídos, disse o homem do cigarro, erguendo-se com as mãos nos bolsos. Os diabos se aproximam. Os ocupantes do automóvel seguiram ansiosamente a direção do olhar cismarento de Ratcliffe e viram que todo o regimento investia sobre eles desde a ponta da rua. Dr. Renard, furioso, marchava na frente, a barba voando na brisa. O Coronel pulou para fora do carro, soltando uma exclamação de impaciência. — Senhores, vozeou, isso é incrível! Deve ser brincadeira. Se conhecessem Renard como eu conheço... É como chamar a Rainha Vitória de dinamiteira. Se vocês guardassem na mente o caráter desse homem... — Dr. Buli, atalhou Syme sardônico, guarda-o pelo menos no chapéu. — Digo-lhes que isso não é possível! berrou o Coronel, pateando que nem um louco. Renard explicará tudo. Êle vai explicar-me, sim. E a passos largos foi para diante. — Não tenha tanta pressa, disse preguiçosamente o fumante. Em breve êle nos explicará tudo. Mas o sôfrego Coronel já não o ouvia e caminhava para o inimigo avançador. O exaltado Dr. Renard outra vez apontou a arma, mas, reconhecendo o adversário, hesitou. O Coronel avizinhou-se dele, fazendo uns gestos frenéticos de admoestação. — É inútil, disse Syme. Nada conseguirá daquele velho idolatra. Proponho que a gente meta o carro no meio deles, de surpresa, como as balas que vararam o chapéu de Buli. É possível que nos matem, mas nós também mataremos um bom número deles. — Não topo isso, não, disse Dr. Buli, tornando-se mais vulgar na sinceridade da sua virtude. Esses pobres camaradas podem estar enganados. Demos uma oportunidade ao Coronel. — Devemos voltar, então? perguntou o Professor. — Não, respondeu friamente Ratcliffe. A outra ponta da rua também está guarnecida. Parece-me até que vejo lá outro amigo seu, Syme.

enquanto. galopando ao seu encontro na escuridão. Enquanto conversavam. — Não. que antes se erguia desempenado à margem da avenida litorânea. e quase simultaneamente uma escura multidão corria gritando ao longo da avenida. impelido por seu instinto de elegância. respondeu Syme. K.o Professor e enterrou o rosto nas mãos. doido estou eu. Viu. enquanto o carro se despencava pela escuridão como uma estrela cadente. prendeu duas outras debaixo dos sovacos. o brilho prateado de uma espada e. com tremenda violência. Um segundo depois o automóvel esbarrou. — Que vamos fazer? perguntou o Professor. quedava-se agora curvado e retorcido como o galho de uma árvore abatida. disse Syme. agarrando-lhe o braço. CHESTERTON Syme habilmente fêz a volta e deu uma olhada para o caminho percorrido. com catastrófico rangido. pouco depois. disse Syme com científico desprendimento. Num instante.134 G. como um homem que só desejasse morrer. — Você está se tornando anarquista. sobre a sela da frente. O que não deixa de ser um consolo. lançou precipitadamente o carro na ladeira que ia dar no mar. Syme apanhou uma espada e agarrou-a nos dentes. segurou uma quarta na mão esquerda e com a lanterna na mão direita pulou para a praia. alguma coisa destruímos. sorrindo pàlidamente. o cavaleiro encanecido e seus sequazes avizinhavam-se tonitruantes. o brilho prateado dos cabelos de um ancião. . sacudia o pó da roupa. na vanguarda cavalgava o honesto estalajadeiro. fêz outra volta e. corado pela ardente inocência do rubor crepuscular. — Todo mundo já o é. No instante seguinte quatro homens abriam caminho por entre os destroços metálicos. disse Ratcliffe. — Caiu a estrela da manhã. — Que diabo é isso? bradou o Professor. comentou o Professor. mas quando relancearam os olhos para o alto viram a cavalaria inimiga dobrando a esquina e descendo a ladeira. num objeto de ferro. e um poste comprido e fino. — Neste momento. vamos despedaçar-nos de encontro a um poste de luz. Avistou. — Bem. — O mundo está doido! exclamou . disse Dr. Os outros não lhe entenderam as palavras. Buli com adamantina humildade. um troço irregular de cavalaria.

suas botas pisavam. A comprida e escura fileira estava ponteada de archotes e lanternas. Gritando horrivelmente e sulcando a areia frouxa. Sigam-me. Em toda a extensão da avenida atropelava-se uma turva e estrepitosa corrente de seres humanos. pularam da calçada e caíram na praia. mas não sabiam por quê. Na cidade deve ter ficado muita gente que é humana. Chafurdava na ressaca. após um ou dois segundos. nada pode fazer com essa multidão. O exemplo foi seguido. Evidentemente eram malditos entre todos os homens. deixando para trás os escombros e a turba reunida. Voltaram-se e contemplaram a cidade. disse Syme tirando a espada da boca. disse melancòlicamente o Professor. montado num possante cavalo de tiro. Não podemos alcançá-la porque eles guardam o caminho. e toda a massa negra começou a escorrer e pingar da calçada como negro melaço. Mas ali. um ódio organizado. no perfil mais longínquo e no gesto mais indefinido. mas lajes grandes e chatas. dois ou três sujeitos. A cidade se transfigurara. e ameaçava-os. naquele quebra-mar. eles pressentiam.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 135 Os outros pularam depois dele. Seja qual fôr o sentido de todo este pandemônio. Temos de resistir até que venha a polícia. — Tolice! exclamou Buli desesperado. a encará-los ameaçadoramente. Entre os primeiros tipos da praia Syme reconheceu o aldeão que os transportara na carroça. Como eles já haviam feito. era só alvoroço. tentaram estabanadamente ganhar o mar. — O camponês! berrou Syme. mas mesmo onde nenhuma chama alumiava uma cara enfurecida. que pareciam pequenos e negros como macacos. em solidário acatamento à decisão. Eles não se levantam desde a Idade Média. acho que a delegacia de polícia nos ajudará. Tomaram por um extenso e raso molhe que se lançava num braço do mar negro e encapelado. com os braços agitados e os rostos ferozes. Os outros seguiram-lhe os passos na rangente areia e. — Ainda que a polícia chegue agora. — Temos mais uma oportunidade. brandindo um machado. e quando chegaram ao fim do paredão sentiram que haviam chegado ao fim de suas aventuras. poderemos resistir tanto quanto Horácio na sua ponte. . não os seixos da maré.

De fato. Nenhuma luz. oh Caos devorador! Morre a Luz sob teu verbo assolador. pública ou privada. disse Ratcliffe.136 G. e do centro da escuridão vinha o ruído seco e metálico de uma disciplinada cavalaria. Houve um longo silêncio. olhando para o encrespado mar purpúreo-acinzentado. estão formados na avenida. diante deles. Ratcliffe. e vão dispará-las contra nós. — Estão carregando sobre a multidão! gritou Buli entre extasiado e alarmado. — Não. — Apontaram as carabinas. respondeu calmamente: . — Estou mesmo no cubículo. que o mundo abarca! — Silêncio! gritou Buli de repente. — Sim. riscando e ofuscando as janelas iluminadas. falou: — Que importa saber quem está louco ou quem está lúcido? Daqui a pouco estaremos todos mortos. K. na delegacia de polícia cruzavam-se vultos diligentes. ao fim de alguns instantes. Surja a treva total. disse o desencantado Inspetor. O ser humano em breve se extinguira. Somos os últimos espécimes da humanidade. disse o Professor distraidamente. não é mesmo? Mr. Fulge em teu Reino. Então. — Pode ser. bradou Buli. grande Anarca. Em meio a suas palavras soou um demorado crepitar de fuzilaria e. — Os gendarmes uniram-se a eles! exclamou o Professor e deu uma palmada na testa. Depois acrescentou com sua voz sonhadora: O que é que está escrito no fim da Inepcíada de Pope? Nenhuma chama. Ratcliffe guardou um mutismo pétreo. divina ou maculada. porém. disse Buli convictamente. disse Syme. as balas saltitaram nas pedras como saraivas. Syme voltou-se para êle e perguntou: — Você está completamente desesperado. dançando de alegria. Que baixes a cortina. Os gendarmes vêm aí. CHESTERTON — Não.

Muitos dos perseguidores. Mas. .. O Coronel também? não! Não acredito! — Acredita em seus próprios olhos? perguntou o outro e apontou para a praia. — Em que ou em quem se baseia sua esperança? perguntou Syme curioso. não! bradou Syme impaciente. Resta ainda uma vaga e louca esperança que não me sai da cabeça. que estava como que enlevado em visões introspectivas. Um desses rostos trazia uma meia máscara preta. sob a qual a boca se contorcia com tal demência nervosa que a moita preta da barba se enrodilhava continuamente. e me espanta que sobreviva esta tola esperança. O homem do quarto escuro. disse Syme em voz baixa. De repente. podêres deste planeta estão contra nós.. — Não podemos abandoná-lo no meio dessas feras. O clarão de uma lanterna iluminou casualmente os rostos dos dois primeiros. — Num homem que nunca vi. É verdade. Está. — Ouvi o que você disse. como se fosse um ser vivo e inquieto. respondeu o outro. Todos os. foi o único homem que Domingo achou duro de morrer. — Não tenha pena do Coronel. — Não. Ê muito estranho. haviam entrado na água. . não. Morramos como cavalheiros s e . Syme. sacudindo os punhos. — Talvez. bradou Syme. dois ou três alcançaram o início da passagem de pedra e pareciam adiantar-se cautelosamente. Também estou agarrado a uma coisa que nunca vi. de costas. fitando o plúmbeo mar. Êle está bem acomodado. disse Ratcliffe com um pálido sorriso de desdém. Mas a esta hora já deve ter sido assassinado por Domingo. que é feito do Coronel? — Tinha ido falar com Renard. falou o Professor.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 137 — Não. Ambos se consultavam gravemente. Contudo. disse o outro com firmeza. . — Compreendo. O outro era o rosto vermelho e o bigode branco do Coronel Ducroix. nesse caso. volveu-se para os outros e gritou como se despertasse: — Onde está o Coronel? Pensei que estava conosco! — O Coronel! repetiu Buli. mas eu não estou completamente desesperado. mas o mar bravio impedia-os de chegar ao molhe. disse o Professor.

E segurando numa das mãos a espada e na outra a lanterna. lançando por terra um pescador. depois. homens que podiam crer e obedecer. Tudo doido.138 G. Você só sabe destruir. destruirá o mundo. não há um fio das roupas que você veste. mas foram sustados por uma alteração. — Judas perante Herodes! gritou e derrubou o Coronel nas pedras. É chegada nossa hora de morrer. O tiro não atingiu Syme. mas contente-se com isso. O Secretário. Está vendo a cruz gravada fora e a lâmpada queimando por dentro? Não foi gravada por você. sacudiu-a no mar. saiu pelo molhe ao encontro do Coronel. disse Syme. partindo-a rente à guarda. Como se quisesse dissipar a derradeira esperança ou a derradeira dúvida. modelaram as entranhas do ferro e preservaram a legenda do fogo. CHESTERTON — Sim. doido! Não posso confiar no maquinismo de meu corpo. e sim a espada. rodopiando-a duas vezes em volta da cabeça. que desde o . apontou e disparou o revólver. A espada de Syme estava partida. Syme arremessou-se e deu com a lanterna de ferro na cabeça do Coronel. K. Você não sabe fazer nada. arrancou-lhe um cacete das mãos. Sinto que minha mão pode erguer-se e bater-me. E bateu uma vez com a lanterna no Secretário. Não há uma rua por onde você anda. fazendo-o cambalear. — Quando minha mão se erguer. Não foi acesa por você. Destruirá a humanidade. Ela irá para onde o seu império de macacos jamais saberá encontrá-la. — Está vendo esta lanterna? bramiu Syme numa voz terrível. Num momento eles se teriam arrojado para a multidão e perecido. Homens melhores do que você. E eu. Porque esta velha lanterna cristã você não destruirá. para negar sua filosofia de estéreo e ratazanas. o Coronel. ao divisá-lo. mas êle. — Espadas! bradou Syme. e suspendeu a lanterna com um gesto tão rígido e tão arrasador que o outro gelou por um momento e foi forçado a escutar. será para bater em outro. Os três companheiros seguiram-no de espada em punho. onde ela fulgurou como um foguete e afundou. êle também. voltando o rosto inflamado para seus amigos. disse o Professor e sentou-se numa pedra. que não tenha sido feito como esta lanterna. Em seguida virou-se para o Secretário cuja boca medonha estava quase espumando. Carreguemos sobre esses cães.

— Da lei. . e u . bradou. Sou detetive da Scotland Yard. arrancou subitamente sua máscara preta. e tirou do bolso um cartãozinho azul. — Deve haver algum engano. As pessoas comuns nunca são loucas. — E o que é que você pensa que nós somos? inquiriu o Professor lançando os braços para o alto. Sei disso. eu que sou uma pessoa comum.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 139 discurso de Syme jazia como desacordado. vocês são. — Vocês. . Está preso em nome da lei. dirigindo um olhar radiante para a enorme turba que se espalhava ao longo da praia. disse o Secretário. — Nunca houve nenhum Supremo Conselho Anarquista. Eu sabia que não podia estar enganado com as multidões. O Secretário levantou a mão com impaciente autoridade. — Da lei? disse Syme deixando cair o cacete. parece-me que você não se compenetra de sua situação. membros do Supremo Conselho Anarquista. Pago um trago para todos. acrescentou Buli. Dr. Disfarçado como um de vocês. . Mr. E todo esse povo excelente que tem estado a azucrinar-nos com seus tiros pensava que éramos os dinamite iros. Éramos todos um magote de policiais idiotas vigiando-nos uns aos outros. O pálido rosto. revelava menos raiva que estupefação. como é do meu conhecimento. Bem. disse firmemente o Secretário. agora vou para a terra. apoiando na mão a cabeça ferida. sim. Buli atirou sua espada ao mar. Syme. disse êle. assim desnudado e exposto à claridade das lâmpadas.

.

O Secretário contou a Syme que foram obrigados a usar máscaras a fim de se aproximarem do pretenso inimigo como companheiros de conspiração. pois amanhã é dia de nossa reunião. confortado pela evidência de que as duas partes nada tinham a ver com dinamite. Acho que muito breve desvendaremos tudo. o que era Domingo? E se Domingo não capturara o mundo. O pobre Coronel podia ter alguma razão para queixar-se. diss» êle. que nunca pude esquecê-la. Diabos o levem! Vocês se lembram da cara dele? — Confesso. — Estou na mesma situação de vocês.CAPITULO XIII A PERSEGUIÇÃO DO PRESIDENTE Ao amanhecer. esse joguinho de Domingo não tem pé nem cabeça. — Está bem. despediu-se deles no molhe com muita afabilidade. Os cinco reconciliados detetives tinham uma centena de ponnenores a esclarecer entre si. Que significava tudo isso? Se eles eram inofensivos detetives. Para mim. Mas há uma coisa: Domingo pode ser o que quiser. menos um cidadão inocente. primeiro por ter sido levado a combater por duas facções que não existiam e depois por ter sido derreado por uma lanterna. respondeu Syme. elevava-se a montanha central da questão que eles não sabiam explicar. . de minúcias facilmente explicáveis. Mas acima de todas essas questões. disse o Secretário. mas era um cavalheiro magnânimo e. cinco sujeitos desconcertados mas risonhos tomaram o barco para Dover. que diabo era que êle tinha feito? Sobre isso o Inspetor Ratcliffe se conservava pessimista. Syme expôs o motivo que os instigou a fugir tão desabaladamente através de um país civilizado.

acrescentou com um sorriso pavoroso. Acabaram a jornada num hotel de Piccadilly Circus. — Vamos tomar um trago. eles se mostraram imensamente sociáveis. O sujeito que bancava o homem cabeludo. K. não ando tão azarado assim. vinte minutos depois estava de volta. Tenho medo de que êle me diga quem é. Buli logo se aboletou e pôs-se a cantar. que a princípio tentara silenciá-lo. Contudo. Buli. Gogol! Ei-lo aqui. E puxou por um relutante cotovelo o mesmo jovem que cinco dias antes saíra do Conselho com seus ralos cabelos vermelhos e um rosto pálido. saíra do hotel por volta das onze horas a fim de ver e admirar algumas das belezas de Londres. respondeu o outro lücidamente. ao fim de uma pausa. Buli com pesada ênfase. Buli. descontente com a determinação geral de ir para a cama. Buli. Syme. Eu o trouxe para cá. Durante toda a viagem. — Todos somos espiões! sussurrou Syme. de estar tão compenetrado dos meus deveres de Secretário. Entretanto. viuse por fim obrigado a escutá-lo com renovada atenção. — Creio que você tem razão. que fora sempre o otimista do grupo. homem. de maneira a estarem perto de Leicester Square quando amanhecesse. Não foi o Presidente!?! — Não. mas instintivamente tratavam de permanecer juntos. Dr. Expulsaram-me como espião. refletiu o Professor. — Quem? perguntou Syme de pronto. mas eles rejeitaram a proposta e partiram num côche. — Por quê? inquiriu o Secretário. Dr. de barco e de trem. Buli com uma risadinha desnecessária. não. Suponho que êle mesmo desvendará tudo para nós. o primeiro de todos os falsos anarquistas a ser descoberto. em cuja boléia Dr. convidou Dr. Não ando tão azarado. disse Dr. retrucou o Professor. Tem medo de bombas? — Não. atroando o vestíbulo com seus berros. fêz o possível para persuadir os outros a tomarem em Vitória o mesmo fiacre. . — Trouxe para cá? Mas quem? tornou Syme impaciente. — Oj>cabeludo. — Eu o vi! Garanto-lhe que o vi! exclamou Dr. as aventuras do dia ainda não estavam encerradas. — Por que vocês me importunam? bradou o recém-chegado. CHESTERTON Desculpem-me.142 G. mas confesso que recearia perguntar a Domingo quem êle é.

Buli? O Secretário ficou um momento embaraçado e o Presidente prosseguiu num tom de leve censura: . — Espetáculos desagradáveis? repetiu o Presidente. Que dia maravilhoso! E o Czar? Morto? O Secretário.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 143 — Todos somos espiões! gritou Dr. Seis homens vão perguntar a um homem o que êle é. Tenho muito prazer em vê-los. respondeu severamente. que se adiantara. De manhã. Não houve carnificina. Sem embargo. Mas todos os seus conselheiros. Não lhe trago notícias de espetáculos tão desagradáveis. Venha tomai um trago. com um sorriso radiante e inquiridor. Seguindo os passos de Syme. explicou Syme. Buli. comentou Dr. Parece-me que seis homens vão perguntar a um homem o que eles são. — Não. embora o hotel estivesse localizado no canto oposto. o batalhão dos seis aliados rumou impassível para o hotel de Leicester Square. Em silêncio eles entraram na praça e. os olhos pregados num jornal. viram num relance a minúscula varanda e um vulto que parecia grande demais para ela. senhor. — Parece-me que é mais esquisito que divertido. — Isso é muito divertido. sentado. ou deviam levá-lo a deflagrar a pólvora de uma vez? Por influência de Syme e Buli prevaleceu o último alvitre. subiram silenciosos a escada escura até que se acharam ao mesmo tempo sob a ampla claridade do sol da manhã e sob a ampla claridade do sorriso de Domingo. disse Syme. empertigou-se para exprobrá-lo com dignidade. o Secretário quis saber porque os dois pretendiam atacar Domingo tão temeràriamente. com a cabeça inclinada. Pretendo atacá-lo temeràriamente porque tenho medo dele. — Meus motivos são muito simples. Estava só. cruzaram a praça como se do céu centenas de olhos os observassem. Buli. que vinham com o propósito de destituí-lo. — Encantado! disse este. Que são espetáculos desagradáveis? Os óculos de Dr. Haviam disputado demoradamente sobre a política que iriam seguir: deviam deixar de fora o desmascarado Gogol e começar diplomaticamente.

legisladores. Querem saber o que eu sou? Querem? Buli. Dr. o que é esta mesa. E quem sou eu para altercar com os frutos silvestres sobre a Árvore da Vida? Pode ser que um dia ela floresça em mim. De fato. poetas. o que é este Conselho e o que é este mundo. — Meus óculos são indecentes. você que é um poeta. Pois eu lhes digo que é mais fácil descobrir a verdade oculta na última árvore e na nuvem mais altaneira do que descobrir o que eu sou. disse o Presidente. CHESTERTON — Naturalmente todos temos direito a nossas opiniões e até a nossos olhos. mas eu não sou. atreverme-ei a rasgar o véu de um destes mistérios. — E você? perguntou Syme. e pouco a pouco elevou-se a uma altura inacreditável. cave em torno das raízes dessas árvores e descubra a verdade que elas escondem. como um enorme vagalhão a pique de arquear-se e rebentar sobre eles. Olhe para minha cara. direi que são um bando de asnos moços e sumamente bem intencionados. De todos tenho escapado e a todos tenho confundido. todas as igrejas e todos os filósofos.. e os céus se despenharão no dia em que me vir em apuros. Quem sabe? — Não temos tempo para frioleiras. K. ou um esperto que se faz de tolo? Responda-me. Nunca me agarraram. enfim. mas não saberão o que eu sou. E agora farei a mesma coisa. vocês querem que eu lhes diga o que sou e o que são vocês. Pois bem. Syme. quebrando-os. esbravejou selvagemente o Secretário.. murmurou Domingo. avançando. Buli atirou os óculos na mesa. — A meu ver é o tipo da cara que pode florescer numa pessoa. mas na realidade considerá-los desagradáveis diante daquela pessoa que. Quem é você? O que é você? Por que nos ajuntou aqui? Sabe quem somos e o que somos? É você um excêntrico que se faz de conspirador. você. . que é um homem de ciência.144 G. saberão o que são as estrelas. Desde o começo do mundo todos os homens têm-me caçado como se caça um lobo: reis e sábios. exige-se apenas que respondam oito dos dezessete quesitos do questionário. — Dos candidatos. Tanto quanto pude entender. Se desejam saber o que são. Viemos saber o que significa tudo isso. Você o que é? — Eu? Que sou eu? rugiu o Presidente. contemple e interrogue essas nuvens matutinas. Entenderão o mar. disse êle. e eu permanecerei um enigma. floresce em você.

fêz um sinal para um fiacre e pinotou para dentro. Os três outros fiacres perseguiam-no (se a comparação é válida para fiacres) como galgos arquejantes. porém. no qual o passageiro fustigava o cavalo e o cocheiro tentava furiosamente sofreá-lo. o homem que os fêz detetives. encalçava o voante Presidente. se dependurara na balaustrada da varanda. o senso prático de Syme espertou. pondo-se êle mesmo de pé na boléia. Em seguida. disse solenemente: — Há. Domingo inclinou-se para a frente. Imediatamente Syme transpôs a balaustrada. Dito isto. Lojas e ruas sucediam-se como setas zunidoras. de modo que passavam pelas ruas como um furacão. Tudo isso teve influência sobre o cocheiro do Presidente. incitava o cavalo a uma velocidade perigosa. segurou o chicote e arrancou-o brutalmente da mão do homem. Sou o homem do quarto escuro. justamente a tempo de encalçarem o voante Syme. até que as multidões acorreram e os guardas começaram a deter as pessoas e a interrogá-las. por seu turno. gritando "Pega ladrão!". Antes de cair. Mas quando o Presidente desapareceu no fiacre. e chamou outro fiacre. Domingo levava-os. Através de ruas e praças rodava esse disparatado veículo. que logo ficou apreensivo e meteu o cavalo de trote. e seu cocheiro.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 145 Antes que qualquer dos presentes pudesse mexer-se. saltando tão desastradamente que quase quebrava as pernas. deu de açoitar o cavalo e bramir com todas as forças. como um imenso orangotango. Êle e Buli tomaram o mesmo fiacre. enquanto o Secretário e o ex-Gogol treparam num terceiro. que. para os lados do noroeste. pôsse de pé. suspendeu-se como se praticasse numa barra horizontal e. nessa caçada selvagem. jogou-se da varanda em baixo. Os seis detetives quedaram fulminados e lívidos ao lampejo de sua última afirmação. que não estava para contemporizações. Mas Syme. . porém. dando pulos elásticos no calçamento como uma desmesurada bola de borracha e aos saltos ganhou o oitão do Alhambra. Abriu a portinhola para falar ponderadamente com seu passageiro e largou o comprido chicote na boléia. o Professor e o Inspetor entraram noutro. uma coisa que vou dizer-lhes acerca de minha identidade. fincando o queixo volumoso na balaustrada. evidentemente sob o influxo de induzimentos excepcionais. o homem colossal.

pela última vez. como um ouriço-cacheiro colossal. Domingo voltou-se no guarda-lama em que se encontrava e mostrando a cara imensa.146 G. Espero que as coisas não cheguem a este ponto. porque do extremo da rua vinha o ruído inconfundível do carro de bombeiros. Um trazia seu nome e o outro o de Dr. Não pode sumir-se agora. erguendo àgilmente a mão direita. falando ao atônito bombeiro com gestos explicativos. Buli. Apesar de toda a velocidade. Syme? A mensagem de Syme era. O sobrescrito de Dr. K. subiu. Buli era. com os dentes arreganhados. Domingo saltou do fiacre. Ao seu nome juntava-se uma extensa e de certo modo irônica enfiada de letras. — Depressa! A êle! uivou Syme. sem dúvida. pulou para o carro. atirou uma bola de papel no rosto de Syme e recolheu-se ao fiacre. aprumou-se e foi visto. O cocheiro do Presidente parecia estar readquirindo certo domínio sobre seu cavalo. que em poucos segundos passou em disparada como um raio de bronze. muito mais prolixa e rezava o seguinte: Ninguém mais do que eu lamentaria qualquer interferência do Arquidiácono. . e os perseguidores estavam mais próximos quando enveredaram por Edgware Road. Que diz o seu. dirigiu a seus perseguidores uma tremenda careta. Conquanto instintivamente desconfiado. Syme apanhou-a e descobriu que ela consistia em dois papeluchos amarrotados. CHESTERTON No auge da corrida. Mas. Todo o tráfego derivava para a direita ou para a esquerda. pois que esta se reduzia às palavras: Que é feito de Martin Tupper agora? — Que quer dizer esse velho maníaco? perguntou Buli. onde estão suas galochas? A coisa está preta. E aqui ocorreu uma interrupção que os aliados julgaram providencial. ao desaparecer na estrepitosa distância. encarando o papel. Um carro de bombeiros não engana ninguém. no fim de contas. especialmente depois do que disse o tio. os cabelos brancos esvoaçando no vento. ou estacionava. consideravelmente maior do que a mensagem. Então.

Ou caracóis ladrando?! Gerânios ladrando?! Você já ouviu um cão ladrar desse jeito? . Mas não sabiam se deviam atribuir tal ato ao capricho presidencial ou aos reiterados protestos dos seus hospedeiros. disse sombriamente o Secretário. O Presidente deu por essa proximidade e. Contudo. que se tinham aturdido por um instante. enfurecido. mandou parar seu fiacre. ao fim dessas mesuras. antes que os três fiacres o alcançassem. não sem impaciência. os seis amigos viram com surpresa. espirrando e assoando os diabólicos narizes! — Naturalmente são seus cães que estão ladrando. desmontou e lançou-se também à escalada.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 147 Os três cocheiros. como um imenso gato pardo já havia galgado o paredão e se esvaecera na treva da folhagem. O carro de bombeiros seguia para o norte. — Por que não diz que são escaravelhos negros que estão ladrando?! respondeu Syme furiosamente. — Não. Nós o encontraremos em casa. — Tanto melhor. Quando este cavalheiro o desenrolou. leu estas palavras: Foge imediatamente. que o Presidente saltava do veículo. Quando tinha uma perna sobre o muro. rumo a uma região que eles não identificavam. no peito do Inspetor Ratcliffe. colocando um pé no estribo. Syme. — Um amigo. — Que lugar será este? perguntou-lhes. E quando passava ao longo de uma fileira de altos paredões sombreados pelas árvores. Já se sabe da verdade sobre teus suspensórios. atirou um bilhete. elegantemente dobrado. como diabos rindo. alvitrou o Secretário. chicotearam seus cavalos e em breve diminuíram o espaço que os separava de sua caça fugitiva. mas também com satisfação. vindo para a traseira do carro. inclinou-se inúmeras vezes. franzindo as sobrancelhas. beijou as mãos e. Será a casa desse velho diabo? Ouvi dizer que êle tem uma casa no norte de Londres. não é isso. êle. tornou Syme. Ouço os ruídos mais horríveis. volveu para seus amigos um rosto que na sombra pareceu extremamente pálido.

— Escutem. seus burros! Isso aqui é o Jardim Zoológico! Enquanto eles ansiosamente procuravam qualquer indício de sua caça fugidia. acompanhado de outro homem à paisana. — Bem. Um pobre velho dos cabelos brancos. Os outros seguiram-no. informou sôfregamente o guarda. explicou o outro estranho. Um elefante que enlouqueceu e fugiu! — Fugiu carregando um senhor idoso. Syme já estava do outro lado. Depois. eu vou entrar! e quase de um pulo atravessou o paredão. Isso pode ser um cão? Quem é que tem um cão dessa espécie? Rebentara um rouco alarido. mas subitamente Dr. — Um velho bem alto e bem gordo. — Qual era o tipo desse velho? interrogou Syme com incontida curiosidade. mas ainda escutava com impaciência. de terno cinza claro. Raios o partam. Caíram num emaranhado de plantas e arbustos e foram sair numa vereda. disse Gogol e estremeceu. ouviram. um guarda uniformizado surgiu correndo no caminho. se esse velho é mesmo desse tipo.148 G. um som igual ao de um clarim roufenho. E se é o inferno. K. imitante às súplicas e clamores de seres condenados. começou Syme. Foi êle que fugiu com o elefante. Buli bradou: — Ora. disse êle. longínquo como um eco. CHESTERTON Levantou a mão e imediatamente subiu da mata um demorado grunhido que parecia meter-se debaixo da pele e gelar a carne — um grunhido abafado e horripilante que provocava uma palpitação no ar. pode ter a certeza de que o elefante não fugiu com êle. arfando. lá está êle! . — Quem? inquiriu Syme. O elefante que pudesse levá-lo sem que êle consentisse em fugir ainda não foi feito por Deus. — Êle passou por aqui? perguntou o guarda ofegante. Nada lhes chamou a atenção. — Os cães de Domingo não devem ser cães comuns. — A casa dele deve ser o inferno! exclamou o Secretário. de terno cinza. se você está absolutamente certo de que se trata de um velho bem gordo e bem alto. — O elefante! gritou o guarda.

Syme perguntava a si mesmo se os próprios arcanjos poderiam entender o bucero. Todavia. repoltreava-se o Presidente Domingo com toda a placidez de um sultão. quando era necessária muita caridade para admirar um pelicano. cujo vigor não sabia explicar. Os seis inditosos detetives meteram-se nos fiacres e foram no encalço do elefante. — Como se pode parar um desmoronamento? disse o guarda. Perguntou a si mesmo porque o pelicano era o símbolo da caridade. que os enlouqueciam mais do que suas anteriores chacotas. Tudo isso lhe proporcionou a sensação. Nesse momento. No dorso desse animal oscilante e bramador. Cerca de duzentas jardas adiante. compartilhando do terror que êle espalhava pelas ruas.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 149 Não havia dúvida. um derradeiro estrondo e um urro de terror anunciaram que o enorme elefante pardo havia derrubado o portão do Jardim Zoológico e desembestava por Albany Street como novo e rápido tipo de ônibus. viramno atirar qualquer coisa para o alto. uma multidão ululante debalde acossava um enorme elefante pardo. Mais tarde. Nunca vi um elefante tão veloz. aguilhoava a fera. instigando-a a uma carreira desenfreada. no momento mesmo em que falava. Voltemos aos fiacres. de que a Natureza entregava-se de contínuo a divertimentos misteriosos. Domingo lhes dissera que eles o entenderiam quando tivessem entendido as estrelas. como o menino que . se não queremos perder de vista o Presidente. Quando corriam para o portão por onde o elefante tinha desaparecido. achou esquisito que os tivesse visto tão claramente. Syme sentiu-se deslumbrado com o panorama dos estranhos animais entrevistos nas jaulas. mas. de papos absurdos. pendentes. Domingo não se voltava para fitá-los. que era simplesmente um vastíssimo bico amarelo carregando atrás de si um minúsculo pássaro. Êle vai sair pelo portão. Êle já saiu pelo portão! E. mas oferecia-lhes a sólida extensão de suas costas cegas. de tromba empinada e rija como um gurupés. pouco antes de alcançarem Baker Street. que corria com passadas terrivelmente largas. com algum objeto afiado. trombeteando como a trombeta da condenação. de passagem. Recordou-se especialmente dos pelicanos. Lembrou-se também do bucero. pelo relvado. — Deus Onipotente! bradou Buli. — Façam-no parar! gritava a turba.

bem perto do fiacre em que viajava Gogol. bairros e mais bairros. encurtavam incrivelmente as distâncias. reunida em torno de um enorme elefante que resfolegava e se sacudia. corriam desapoderadamente os três fiacres.150 G. Ao examiná-la. E acrescentou com um ar ofendido: É . mas os movimentos de suas mãos e de seus pés foram os de quem esporeia um cavalo. movido ou pela débil esperança de encontrar uma pista ou por algum impulso incompreensível. para onde foi? inquiriu Syme. Eles perderam-na de vista. colaborando nesta insana publicidade. O homem que antes se chamava Gogol não disse nada. eram percorridos pelo prodigioso elefante voador. A fera derrotou os fiacres. porém. Mas na velocidade em que iam. K. Quando se acharam em frente a um dos portões da Exposição de EarPs Court viramse bloqueados por uma grande multidão. Não tardou que fossem tomados por participantes de um desfile ou mesmo de um anúncio de circo. A roda pouco a pouco foi-se tornado maior. a êle dirigida. embaraçado. escorregando para o chão. e Syme viu o Albert Hall em Kensington quando se julgava ainda em Paddington. até que encheu todo o céu como a roda das estrelas. ela veio cair muito atrás. Depois de rasgada a última capa. tudo se reduziu a uma tirinha de papel. E atrás dele. como costumam fazer essas criaturas disformes. — Embarafustou pela Exposição a dentro! respondeu o guarda. na qual estava escrito: Parece que a palavra deve ser: rosa. Na pressa em que iam. notou que todo o seu volume consistia em trinta e três pedaços de papel velho enrolados uns sobre os outros. e este. desorientados pelas inúmeras esquinas. CHESTERTON lança uma bola ao ar e se prepara para recebê-la de volta. O elefante avançou mais ágil e livremente através das ruas vazias e aristocráticas de South Kensington e por fim endireitou para aquela parte do horizonte onde a enorme roda de Earl's Court se elevava no Armamento. mandou parar o fiacre para ir apanhá-la. Ruas e mais ruas. Era uma volumosa bola de papel. — E o homem. que atraía multidões às janelas e separava o tráfego para a direita e para a esquerda. Mas o Presidente havia desaparecido.

Todos ergueram os olhos. enraivecido. com repugnância. justamente debaixo da cesta. Quando o arenque voa e pinota. apontando frenèticamente. Deus me proteja! Parece que senti alguma coisa cair na copa do meu chapéu. — Ora bolas! começou o Secretário. Por que você deixou que êle entrasse? É comum visitarem sua exposição pessoas montadas em elefantes malucos? É? — Vejam! gritou Syme. O balão. disse Syme. um pedaço de papel dobrado.O MOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 151 um cavalheiro engraçado. dirigido Ao Secretário do Conselho Central Anarquista. o balão pairava enfunado. carregado talvez por alguma brisa passageira. O Secretário bate a bota. O Secretário. e o balão. como um balão de brinquedo. — Por que eu devo olhar para um balão cativo? bradou o Secretário. — Com seiscentos mil diabos! guinchou o Secretário. — Deus me proteja! disse o Professor com a inflexão senil que nunca pôde desligar de sua barba esbranquiçada e de seu rosto apergaminhado. Êle se meteu ali dentro! e fechou os punhos contra o céu. E estendeu. solto. erradio como uma bôlhã de sabão. Pediu que eu lhe segurasse o cavalo. Provérbio Rústico. que os espreitava com um olhar benévolo. e foi-lhes fácil enxergar a enorme cabeça branca do Presidente. abriu-o e leu o que estava escrito: Quando o arenque vai na corrente. Olhem aquilo ali! — Olhar o quê? volveu o Secretário afobadíssimo. e me entregou isso. o cordel se partiu. O que é que há de extraordinário num balão cativo? — Nada. Um segundo depois. . Sobre a Exposição. só que esse não é cativo. veio colocar-se precisamente em cima deles. pôs-se a flutuar. O Secretário ri contente. amarrado a um cordel. — O baião cativo! disse Syme.

Sigamo-lo! . — Narciso. e depois Syme falou. mordendo o beiço: — Ainda não estou vencido. CHESTERTON Levantou uma trêmula mão e da aba do chapéu tirou um papelzinho amarfanhado. K.152 G. apenas para deparar com o desenho de um nó cego e as palavras: Tua beleza não me deixou indiferente. Esse maldito balão tem que cair em alguma parte. Abriu-o negligentemente. Houve um curto silêncio.

que na vermelhidão do ocaso parecia enfeitada como uma nuvem crepuscular. Eu quero é ver explodir essa estúpida bola de gás. os seis poeirentos detetives afastaram-se cerca de cinco milhas de Londres. até que cada um se transmudou numa figura tão desalinhada que podia ser confundida com a de um vagabundo. a sobrecasaca. graças a espinhos agressivos. comentou Syme. sem tirar os olhos daquela flutuante bola de gás. nos fiaores. atalhou Dr. Buli. — A despeito de tudo. Eu não quero não. mas êle fazia avançar a barbicha amarela com taciturna e furiosa obstinação. e o barro inglês enlameara seu colarinho. Isso podia arrebentar o velhote. Mas logo convenceu-se da persistente recusa do balão a seguir as estradas e da muito mais persistente recusa dos cocheiros a seguir o balão. rasgara-se nos ombros. O chapéu de seda. Narciso! . Conseqüentemente. Que arrebente! Não ficaria tão arrebentado como no dia em que eu pudesse abecá-lo. As verdes colinas de Surrey testemunharam o trágico desfecho do admirável terno cinzaclaro com que Syme havia saído de Saffron Park.CAPITULO XIV OS SEIS FILÓSOFOS Cruzando campinas verdejantes e transpondo sebes vivas. No começo da caminhada. amassado por um ramo travesso. descera ao nariz. por todo o sul da Inglaterra. os incansáveis posto que exasperados viajantes atravessaram bosques escuros e palmilharam terrenos cultivados. — Não. não deixa de ser muito bonito! — Muito! De uma beleza estranha e singular! disse o Professor. — Que arrebente! redargüiu o vingativo Professor. o otimista do grupo sugerira que seguissem o balão.

É porque êle era tão gordo e tão leve. enquanto a força suprema está na leveza. disse Dr. já sei porque era! exclamou Buli. não é uma admiração pela força. Mas confesso que sempre tive minhas simpatias pelo velho Domingo. malvado como é. — O quê? bradou amargamente o Secretário. isso não esclarece coisa nenhuma. Agora sei o que quero dizer. — Ah. — Não sei se acredito ou não acredito. Exatamente como um balão. disse Syme levantando os olhos. CHESTERTON — Apesar de tudo. Buli. não quero vê-lo arrebentado. A força moderada se manifesta pela violência. — Bem. Isso faz lembrar as velhas especulações: que aconteceria se um elefante pudesse adejar no espaço como um gafanhoto? — Nosso elefante. Não entendo patavina desse negócio de ser êle o mesmo homem que nos deu os cartões azuis. disse o Secretário. Buli. Mas não é a isso que me refiro. de que os outros tanto se riem. Como posso explicar esta minha esquisita simpatia? O certo é que ela não me impediria de combatê-lo até no inferno! Será que me torno mais claro dizendo que gostava dele porque êle era tão gordo? — Não. Eu mesmo nunca li a Bíblia. — Por quê? indagou Syme impaciente. mas êle eu acho que poderia dançar ao lado de uma sílfide. Não quero que se dê uma explosão no balão do velho Domingo porque.. Buli. seja como fôr. Não. Parece-me que isso torna tudo absurdo. continuou Dr. É como se êle fosse um garoto gorducho e levado da breca. K. A gente acha sempre que as pessoas gordas são pesadas.. como se êle trouxesse algumas boas novas. concluiu Buli. mas. um dia de primavera prova que suas brincadeiras são de muito bom gosto. adeja no espaço como um gafanhoto. é que não posso deixar de admirar o velho Domingo.154 G. disse Dr. é uma verdade integral: "Por que saltais . Há nisso uma espécie de alegria. atrapalhado. mas aquela passagem. Nunca sentiram isso num dia de primavera? É verdade que a natureza gosta de fazer das suas. — E por isso. porque êle mesmo é tão engraçado como um balão. ou qualquer tolice dessa ordem. Você acredita mesmo naquela história de êle ser também o homem do quarto escuro? Domingo seria capaz de inventar que era qualquer coisa.

. ao menos tentam. Movia-se como uma gelatina asquerosa. mas fisicamente não é essa curiosidade Barnum que vocês apregoam. torturado: — Você não sabe quem é Domingo. Ouviu minhas palavras sem falar nem se mover. Quando vi Domingo pela primeira vez. as colinas saltam mesmo. Porque êle é tal qual um Saltimbanco. Porque admiro Domingo?.. mas viva. Talvez seja por que você é melhor do que eu e não conhece o inferno. Encontrei-o fumando num cômodo lôbrego. O homem que vive na escuridão e que nos escolheu a todos. um monte de carne. mesmo quando estou alegre. vestido com um casaco de xadrez cinzento. porque meus olhos têm um brilho turvo. mas de algo grosseiro e triste.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 155 assim. com as janelas cerradas. após longo silêncio. escolheu-me porque eu tenho o ar desvairado de um conspirador... Houve uma longa pausa.. — Por certo vocês estão exagerando demais. No instante lembrei-me de tudo que tinha lido a respeito desses corpúsculos repugnantes que constituem a origem da vida: seres marinhos e protoplasmas.. porque meu sorriso é torto. bom. a Coisa começou a mover-se.. Desde pequeno eu sou elemento deletério e meio doentio. Êle me recebeu num gabinete comum. a mais vergonhosa. Foi quando me dei conta de que aquela montanha bestial estava se sacudindo de riso solitário. altas colinas?" Sim. inerente à natureza das coisas. disse de mim para mim que era já alguma coisa que tal monstro pudesse sentir-se miserável. Falou-me de maneira simples. a mais extravagante. Lancei os apelos mais veementes e fiz as mais eloqüentes perguntas. e depois o Secretário tomou a palavra e falou com um tom de voz estranhamente. e era de mim que ela ria. não tive dele essa impressão de aérea vitalidade. Seu .. O Presidente Domingo é um troço terrível para a inteligência. em pleno dia. Mas também deve haver em mim algo que corresponda ao sistema nervoso de todos esses anarquistas. e eu julguei-a movida por uma enfermidade secreta. E você ainda vem pedir-me para perdoá-lo!?! Não é pouco sermos ridicularizados por alguma coisa que é ao mesmo tempo inferior e mais forte do que nós. Parecia tomar a forma final de toda matéria. Então. um lugar infinitamente mais aviltante do que a divertida escuridão em que vive nosso chefe. Diante de seus estremecimentos. Estava sentado num banco. escuro e amorfo. interrompeu a voz clara do Inspetor Ratcliffe. Mas vou dizer-lhe o que é que chama um pouco a atenção em Domingo. Como poderei dizer-lhes?.

Às vezes seus grandes olhos fugurantes ficam completamente cegos. E você. Para nós o malvado é um homem que está sempre atento ao que se passa à sua roda. Durante horas êle esquece que você está presente. Um homem distraído é um homem afável. Tudo isso é muito difícil de explicar. a falar com muita lentidão. Quem seria capaz de passar dez horas mortais numa sala em companhia de um tigre distraído? — E você. nem posso pensá-lo claramente. nos pede desculpas. Pois bem. que já não era olho. arrastando sempre a bengala. ao dar pela nossa presença. A cara era tão grande que ninguém poderia enfocá-la ou vê-la como uma cara. que diz. isso é um ponto de vista. — Está bem. A boca era tão individualizada que se poderia tomá-la por uma coisa à parte. disse Syme pensativo. muito ampla mas também bastante desarrumada. não penso em Domingo. os homens experimentaram essa sensação. que pensa de Domingo? perguntou Syme. Algumas vezes. — Acorde. nos mata? É isso que irrita os nervos. CHESTERTON quarto é asseado. suas roupas são asseadas. quando vi a cara de Domingo. enfim. — Em princípio. e não deu resposta. O Professor pôs-se. É um homem que. Mas como imaginar um homem distraído que. ao dar pela nossa presença. O olho estava tão afastado do nariz. K. Mas é mais ou menos o seguinte. Parou um pouco. e prosseguiu: . essa combinação de alheamento e crueldade. acheia-a. atravessando florestas virgens. mas ele é distraído. porque não podemos imaginar um malvado sozinho consigo mesmo. disse Gogol singelamente. — O que eu penso não sei exprimir claramente. Professor? O Professor caminhava de cabeça baixa. que tanto podiam ignorá-los como matá-los. tudo parece em ordem. do mesmo modo que não encaro o sol ao meio-dia. Não podemos imaginar um malvado que seja honesta e sinceramente um devaneador. Ou melhor. arrastando a bengala. Como vocês sabem. Diga-nos o que pensa de Domingo. pois sabiam-se cercados de animais inocentes e impiedosos. Professor! disse Syme alegremente. como todo o mundo acha. em minha juventude levei uma vida muito ampla e muito desarrumada. Reparem que a distração é perigosa num sujeito mau. Gogol.156 G.

O Secretário recordou o protoplasma informe. o rosto dele forçou-me. Para Buli êle é como a terra na primavera. divisei uma lâmpada.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 157 — Mas vamos assim mesmo. como os de um deus simiesco. que juntas formavam um rosto inteiro e inconfundível. Se alguém no céu tiver um rosto como esse eu o reconhecerei. de certo modo. Talvez um disco negro daqueles seus óculos brutais estivesse bem pertinho e o outro cinqüenta milhas além. que a janela estava a dez jardas de distância. Buli. como fazem essas miragens fortuitas. Não sei se o seu rosto. É estranho. O Professor diz que Domingo é como uma paisagem mutável. Entretanto. mas é ainda mais estranho que eu também faça do Presidente Uma idéia original. verifiquei que não havia rosto. avermelhado pelos reflexos do pôr do sol. Sou um budista. Não se importe com o balão. para Gogol é o sol ao meio-dia. as dúvidas de um espiritualista. E assim. suponho. Uma noite em que eu caminhava por uma estrada. não creio que você possua realmente um rosto. — Vocês observaram uma particularidade interessante em todos os seus depoimentos? perguntou Syme. Parecia mais o . e o Inspetor a solidão das florestas virgens. só via as costas. Os olhos de Syme continuavam fixos no orbe errante. e o budismo não é um credo. Sua cabeça tinha um toitiço difícil de imaginar num homem. uma janela iluminada e uma nuvem. Não tenho bastante fé para crer na matéria. E vendo-as. correu para a direita e para a esquerda. é uma dúvida. entretanto cada um só achou uma coisa com que compará-lo: o próprio uni verso. Meu pobre Buli. e que também compare Domingo com o universo. Ah. as dúvidas do materialista não passam de tolices! Domingo me ensinou as piores dúvidas. a duvidar da existência de qualquer rosto. Seu pescoço e seus ombros eram brutais. quando dei mais alguns passos. — Ande um pouco mais depressa. Da mesma maneira me escapou o rosto de Domingo. que. Cada um de vocês vê Domingo de uma maneira bem diferente. — Quando vi Domingo pela primeira vez. continuou Syme lentamente. parecia um mundo mais róseo e mais inocente. as mais dolorosas. pressentia que êle era o sujeito pior do mundo. é um rosto ou uma combinação de perspectivas. Syme. disse Buli. que a lâmpada estava a dez centenas de jardas e que a nuvem estava muito além do mundo.

— Horrível! exclamou Dr. Mas. — Vamos! disse Dr. continuou Syme como se falasse consigo mesmo. logo me passou pela cabeça a revoltante fantasia de que ele não era um homem. De repente apoderou-se de mim a idéia de que aquele toitiço cego. ao vê-lo da rua. ficando diante dele. um rosto terrível. dançando enquanto corria. vestidos de cinzento. quando persegui Domingo no fiacre e me coloquei atrás dele todo o percurso. Depois entrei no hotel e. e é também o mistério do mundo.158 G. liso. Seu rosto me assustou. os mesmos ombros enormes. sem olhos. Você está se sentindo bem? — Era como o rosto de um antigo arcanjo. convenci-me de que êle era um animal. Buli. não porque fosse mau. . quando êle estava sentado na varanda. Mas se lhe vejo o rosto. Ao contrário. fico a pensar que as costas são uma simples zombaria. porque era bom. Quando olho para suas costas horrorosas tenho a impressão de que seu rosto nobre é apenas uma máscara. que eu contemplara da rua. Eu vira suas costas. assustou-me porque era belo. K. era realmente seu rosto. que me fitava. da rua. distribuindo justiça depois de guerras heróicas. vi seu rosto em plena claridade. E admiti que aquela figura que corria à minha frente era realmente uma figura que corria de costas. era um deus e um animal. Mas tudo isso atingiu o auge ontem. — Tempo suficiente. O mal é tão mau que só podemos julgar o bem um acidente. — Foi então que aconteceu o inesperado. e quando me vi diante dele compreendi que êle era um deus. — Pan. — Syme! exclamou o Secretário. o bem é tão bom que somos levados a crer que o mal poderia ser explicado. replicou Syme. De fato. esse tem sido para mim o mistério de Domingo. para um pensamento sinistro. como assustou todo o mundo. observou sonhadoramente o Professor. mas uma fera vestida com as roupas dos homens. Lá estavam os mesmos cabelos brancos. Havia riso nos seus olhos. Buli sobressaltado. e em sua boca honra e tristeza. — E você ainda teve flmpo para pensar? perguntou Ratcliffe. mas não porque fosse brutal. mesmo de relance. C H E S T E R T O N toitiço de um boi. — Desde então.

Vocês não o verão morto assim tão facilmente. Buli. observou o Secretário. E dez minutos depois. disse o Professor. Vou dizer-lhes qual é o segredo do mundo. e por isso parece brutal. e Pan também fazia. — E é mesmo. Os protros fazem assim. sem ouvir nenhuma dessas frases. Você parece pensar que Pan é tudo. endireitar-se e depois mergulhar vagarosamente atrás das árvores. — Não se esqueça. — Essa brincadeira está indo longe demais. como um sol que se põe. Isso não é uma árvore. É que do mundo só conhecemos as costas. Aquilo não é uma nuvem. E agora eu sei que êle era meu amigo. Foi exatamente o pior instante da minha vida.. Em grego. quando botou a cabeça fora do fiacre e fêz uma careta parecida com uma gárgula. Tudo é visto por trás. feito uma alma penada. Se foi jogado para fora da cesta..O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 159 — Horrível não é o termo. — Mas escutem! gritou Syme com extraordinária ênfase. — Êle morreu! exclamou. O homem chamado Gogol. atirou de repente as mãos para o alto. disse o Professor. mas as costas de uma nuvem. percebi que êle se portava como um pai brincando de esconder com seus filhos. — E castanholando os cascos. sentenciou o Secretário baixando a vista. O balão vem caindo! Não havia necessidade de gritar por Syme. — Pan outra vez? disse irrittio Dr. Syme. que estivera absorto. Não vêem que tudo está voltado de costas e esconde o rosto? Se pudéssemos dar a volta e ficar de frente. e vivia no quarto escuro! — Morreu!? roncou o Secretário. Viu o grande globo luminoso vacilar no céu. para se divertir. nós o encontraremos espojando-se no chão como um potro e escoiceando o vento. de que êle também significa Pânico. porque êle não tinha tirado os olhos do balão. disse Syme. e franziu a testa ao contemplar suas botas estragadas. falou com naturalidade: — Caiu ali adiante! Vamos para lá! . — Vejam! berrou Buli esganiçadamente. mas as costas de uma árvore. Pan quer dizer: tudo. que quase não falara durante essas estafantes jornadas.

quedando-se imóvel. com um gesto de desconsolo: — Agora se ele nos enganou e morreu. êle poderia ser tido com uma das sombras do bosque. entretanto. — Cavalheiros. se não fosse a neve prateada de sua cabeça. A côr do traje era aquele matiz tirante a azul. que se vê em certos recantos da mata. Syme esquadrinhou o recesso do bosque virente em que se encontrava. C H E S T E R T O N E acrescentou. Meu patrão acaba de entrar em casa. violeta e cinza. falou o Secretário: — Onde está essa carruagem? — Ela os aguarda desde alguns momentos. êle se sentia como alguém que tivesse caido prisioneiro no país das fadas. escuro e dourado. E sem uma palavra o homem do casaco violeta deu as costas e se dirigiu para uma abertura da sebe. curvado sobre um báculo comprido e estranho como um cetro. na estrada. À primeira vista e levando-se em conta suas bragas. disse o estranho. Com renovada energia encaminhou-se para as árvores distantes. Marchava tranqüilamente.160 G. — Informaram-me que os senhores sabiam o nome dele. Quando os seis extraviados chegaram a essa passagem. viram a branca estrada obstruída pelo que lhes pareceu ser uma . que de súbito revelou a branca luminosidade de uma estrada. em direção a eles. Pelo relvado caminhava. Quase simultaneamente os seis descobriram que não estavam sós naquele sítio. à moda antiga. disse êle. as árvores pareciam árvores comuns. — Mostre-nos o lugar. Seus trapos e retalhos esvoaçavam ao vento. Depois de uma pausa. Vestia-se com apuro. mas usava bragas. hem? Seria mais uma de suas pilhérias. — Quem é seu patrão? perguntou Syme. mas apenas descobriu que o casaco do homem era da mesma côr das sombras purpúreas e que o rosto era da mesma côr do céu rubro. uma carruagem de meu patrão os espera aqui perto. respondeu o homem respeitosamente. Examinou o misterioso embaixador dos pés à cabeça. tinha-se a impressão de que seu cabelo grisalho fora empoado. As sebes eram sebes comuns. disse Syme lacônicamente. um homem alto. K. Os outros seguiram-no a passo mais vagaroso e num ar de dúvida.

Muito lenta e vagamente deu tento das estradas suntuosas por onde a carruagem o transportava. mas bastava-lhes a certeza de que fora êle quem os conduzira para as carruagens. que uma sebe é como um exército humano. Sentiu que as sebes eram o que as sebes devem ser: muros vivos. e logo que o encargo lhe fosse tirado das mãos êle se derreasse nas almofadas. e carruagens com almofadas. e gradualmente subiam uma colina que. como de um homem que lentamente desperta de um sono reparador. É uma brincadeira de bom gosto. vencido por um verdadeiro colapso. em total abandono. Não podiam sequer imaginar o que eram as carruagens. Todos trajavam uniforme azul-cinza e todos revelavam uma certa categoria de altivez e liberdade que habitualmente não se distingue nos lacaios de um fidalgo e sim nos oficiais e embaixadores dum grande monarca. Todos os servos (como acontece nas cortes) traziam espadas à cinta e as desembainhavam para saudar. esta repentina suavidade os perturbava. é uma daquelas brincadeiras de que você fala. Também não podiam supor quem era o ancião que os havia conduzido. Viu os altivos olmos que se elevavam atrás das sebes e . Então começou a tomar conta dele. Nada menos de seis carruagens estavam à espera. Todos eles estavam afeitos a asperezas. Ao lado das carruagens perfilavam-se magníficos lacaios. com um breve resplendor de aço. uma sensação de prazer integral. Os seis aventureiros tinham passado por muitas aventuras. era-lhes suficiente saber que eram carruagens. Syme deixava-se levar. semelhantes àquelas que se vêem nas proximidades das casas de Park Lane. Era próprio dele que enquanto ti vesse de abrir caminho com sua barbicha êle o fizesse com fúria e determinação. cada um que entrasse na carruagem.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 161 longa fileira de carruagens. Viu que atravessavam os portões de pedra do que podia ser um parque. embora arborizada de ambos os lados. É outra das brincadeiras de Domingo? — Sei lá? respondeu Syme enquanto afundava extenuado nas almofadas de sua carruagem. — Que significa tudo isso? perguntou Buli a Syme quando se separavam. mas nenhuma os impressionara tão fortemente como esta última aventura do conforto. era um pouco mais ordenada que uma floresta. através da movediça escuridão do arvoredo. disciplinado mas vivo. uma para cada componente do bando andrajoso e miserável. Mas se fôr.

. abeirou-se de um espelho grande para endireitar a gravata ou alisar os cabelos. É desejo dele que o senhor vista o traje que eu preparei. saiu a recebê-los. mas conviriam misteriosamente em que este lugar lhes lembrava a infância. baixo e cavernoso. Ou era a copa deste olmo ou aquela vereda tortuosa. — Meu patrão me incumbiu de avisar ao senhor. onde o ramo o ferira. um outro homem. mas sossegadamente. subiu as vastas escadarias de carvalho. CHESTERTON vagamente pensou nos meninos felizes que trepavam neles. — Roupa! exclamou Syme sardônico. algo que se assemelhava a uma extensa e baixa nuvem crepuscular e que era uma casa extensa e baixa. senhor. segurando duas longas tiras da sobrecasaca de fascinantes festões. Como faltam ainda algumas horas para a ceia. Imediatamente viu-se diante de um enigma. Quando as carruagens rodaram para um portão largo. fêz que ia imitar o rodopio de uma bailarina. que haverá um baile a fantasia esta noite. que fora designado para seu camareiro. um homem de azul. de súbi to. disse com toda a solenidade: — Sua roupa está pronta. ainda sob a influência daquele sono mesmeriano de estupefação. ou era um trecho deste pomar ou o feitio de uma janela. K. os cabelos eriçavam-se como talos amarelos de erva espessa. e entrou numa série de cômodos que pareciam estar reservados especialmente para êle. Com o instinto habitual de sua classe. o certo é qúe cada um afirmaria que podia recordar este lugar antes de poder recordar-se de sua mãe. De roupa só tenho esta do corpo. suavizada pelos macios reflexos do crepúsculo. e. Mais tarde os seis amigos cotejariam suas impressões e disputariam entre si. Depois a carruagem tomou por um atalho. e êle avistou. êle espera que o senhor não recuse uma garrafa de Borgonha e um pouco de faisão frio. Syme. mas usando uma estrela de prata no peitilho cinzento do casaco. envergando o mesmo uniforme. foi então que deu pela figura sinistra em que se transformara: o sangue escorria-lhe da face. disse o camareiro. as roupas estavam desfeitas em compridos e ondulantes farrapos. senhor.162 G. Este impressionante personagem dirigiu-se ao boquiaberto Syme: — Refrigerantes o esperam em seu quarto. que nascia sob a forma de uma simples pergunta: como êle conseguira chegar ali e como conseguiria safar-se? Nesse mesmo instante. atrás do respeitoso criado.

roupas verdes e Bíblias? Providencia tudo? — Tudo. Não me parece uma roupa quente. Mas o fato é que eles não me apetecem tanto quanto me apetece saber que diabo significa tudo isso e que traje é esse que você preparou para mim. — O senhor me permite? disse o camareiro. -— O senhor vai vestir-se de Quinta-feira. Vai até ao queixo. — Mas é quente. do mesmo feitio de um dominó. Mas permita-me que eu pergunte por que é que estarei vestido especialmente de Quinta-feira se envergar uma vestimenta esverdeada. Era aquela que associa o quarto dia da semana à criação do sol e da lua. —. Embora afetasse desprezo pela fantasia. — Vestir-me de Quinta-feira! repetiu Syme meditativo. Ao sair do quarto atirou o manto por cima dos ombros. Syme leu-a maravilhado. disse Syme. A espada destacava-se. toda pintalgada de sóis e de luas? Esses astros. . A roupa do Quinta-feira é extremamente quente. entretanto. Devo ajudá-lo a vestir-se? — Oh. senhor. e ao descobrir que tinha de levar uma espada reviveu um sonho infantil. explicou o camareiro afàvelmente. formando um ângulo. e com um dedo rígido e respeitoso apontou uma passagem do primeiro capítulo do Gênesis. disse Syme suspirando. esmaltado na frente por um vasto sol de ouro e salpicado aqui e ali de crescentes e estrelas cintilantes. venha de lá esse timão! disse Syme impaciente. brilham também nos outros dias. sentiu uma liberdade e uma naturalidade raras em seus movimentos quando o traje azul e ouro o cingiu. Aqui. Lembro-me bem de ter visto a lua numa terça-feira. sim. não entendo coisa nenhuma. se não estou enganado. Onde é que êle está? O criado ergueu de cima de uma espécie de otomana uma longa túnica azul-pavão. e Borgonha é uma coisa supinamente boa. — Bem. enquanto se sentava numa cadeira. disse o outro solícito. Êle tinha toda a galhardia de um trovador.Isso está indo de mal a pior. contavamse os dias da semana a partir de um domingo cristão. disse Syme pensativo. Quem é essa gente que providencia faisão frio e Borgonha.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 163 — Faisão frio é uma coisa boa. respondeu o criado gravemente. Temos aqui uma Bíblia à sua disposição. Estou tão acostumado a aventuras desconfortáveis que as aventuras confortáveis me abatem. pois esses disfarces antes revelavam que disfarçavam.

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. Pois se o Secretário representava o filósofo que ama a Luz primeira e informe. O homem jamais parecera tão nobre. Envolvia-o um manto comprido de intenso negror. a fracioná-la em sol e estrela. a passos largos. Syme quase não se surpreendeu ao notar que. O filósofo pode às vezes amar o infinito. o poeta ama sempre o finito. parecia ser êle mesmo e ninguém mais. Syme era o tipo do poeta que aspira sempre a modelar a luz em contornos específicos. patenteando toda aquela inumana veracidade e todo aquele álgido furor que tão facilmente o levavam a guerrear os anarquistas e tão facilmente lhe permitiam misturar-se com eles. mas a criação do sol e da lua. no meio de toda a comodidade e hospitalidade do novo ambiente. Nem o cheiro da cerceja nem a fragrância dos pomares podia impedir o Secretário de formular uma pergunta racional. O conjunto lembrava uma vestimenta eclesiástica muito severa. Não havia necessidade de Syme explorar a memória ou a Bíblia parar recordar que o primeiro dia da criação assinalava o aparecimento da luz no seio da treva. e Syme sentiu também quão fielmente este modelo de alvura e negror puríssimos exprimia a alma do pálido e austero Secretário. A própria veste sozinha teria sugerido o símbolo. os olhos deste homem continuavam encarniçados. em cujo centro incidia uma faixa ou listão de puríssima alvura. como um único raio de luz. Se Syme pudesse ver a si mesmo teria compreendido que êle também. Para êle o grande momento não é a criação da luz. pela primeira vez. viu o Secretário de pé no alto de um majestoso lanço de escadaria. atravessava o corredor.CAPITULO XV O ACUSADOR Quando Syme.

Dir-se-ia que a indômita melodia de algum músico louco pusera todas as coisas comuns. ou um moinho de vento — sem pensar que era um folião desgarrado dessa folia de mascarados. Syme não podia contemplar um desses objetos — um poste de luz. Ao longo desse terraço. Buli já tinham ocupado seus lugares e o Professor ia ocupar o dele. cujo dia era aquele em que os pássaros e os peixes — as formas mais rudimentares de vida — foram criados. Syme julgou ver em cada uma daquelas alucinadas fantasias uma imitação das formas da natureza. viam-se sete poltronas: os tronos dos sete dias. K. na qual se estendiam peixes de olhos esbugalhados e extra- . que se vestia de verde primaveril. havia uma espécie de barranco verde. estava bem simbolizada por uma veste que reproduzia a divisão das águas. Êle corporificava aquele terceiro dia em que foram criadas a terra e as coisas verdejantes. cinzenta e prateada. com estranha emoção. a dançar uma eterna jiga. cujo bico era duas vezes tão grande como êle mesmo — o esquisito pássaro que se fixara em seu espírito como uma interrogação viva. uma macieira dançante. bailava como num carnaval. onde uma vasta multidão. semelhante aos terraços dos jardins de outrora. Havia um poste dançante. Gogol e Dr. um dançarino vestido como um imenso bucero. dispostas em forma de crescente. A simplicidade de Gogol ou Terça-feira. CHESTERTON Quando desciam juntos a larga escadaria deram com Ratcliffe. um barco dançante. dos campos e das ruas. A isso se acomodava admiràvelmente o rosto quadrado e sensível.166 G. exibindo as roupagens mais variadas. vestia uma roupagem violácea. mil outras fantasias do mesmo quilate. os dois últimos pareciam conservar o fio de suas grotescas aventuras. um outro vestido de elefante. com seu amistoso cinismo. outro vestido de balão. E muito tempo depois. animado pelos dançarinos. como um lençol de água. O Professor. repleto de archotes e fogueiras tremeluzentes. Num canto do relvado. Através de outra passagem ampla e baixa foram conduzidos para dentro de um antigo e espaçoso jardim inglês. Havia um homem vestido de moinho de vento com velas enormes. uma macieira. no repouso da maturidade. entretanto. Syme viu ainda. uma veste que se abria em sua fronte e caia aos seus pés. desde o momento em que êle corria desenfreado pelo caminho do Jardim Zoológico. Havia. O desenho de seu traje figurava um exuberante emaranhamento de árvores.

Acima desses vasos. de branco imaculado e terrível. Buli. Os homens para quem esses tronos foram reservados eram homens coroados com extraordinários lauréis. mistura de imaginação ilimitada e de dúvida. Retiniam as taças. agitavam-se os archotes e chapéus emplumados eram lançados para o ar. comprimindo os lábios: — Não sabemos ainda se êle terá morrido no campo. Dr. Era Domingo. olhando para Syme por cima do trono vazio. em vermelho e ouro. o último dia da criação. rugia numa cesta de ferro uma gigantesca fogueira que iluminava muitas milhas em derredor. tão absurdo como Alice no País das Maravilhas e tão grave e delicado como uma história de amor. Rescostava-se na cadeira com um largo sorriso — o quadro de um otimista em seu elemento. em possantes caldeirões. podia ser uma fada bailando com um marco postal. Syme sentava-se à esquerda dela e o Secretário à direita. Cada par era um romance isolado. Pares enveredavam pelos passeios do jardim. disse. cálidas e aromáticas misturas de cerveja velha ou vinho. O clarão desse lume doméstico alcançava a face de vastas florestas pardas ou escuras e parecia mesmo encher de calor o vazio . vinha da mascarada uma aclamação entusiástica. como se o céu se tivesse rompido em cima de sua cabeça. e um capacete onde se via um homem rampante. a turba espessa foi rareando.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 167 vagantes pássaros tropicais. Um por um os viandantes galgaram o barranco e foram colocar-se em suas estranhas cadeiras. tal como aquela com que as multidões recebem os reis. Quando cada um se sentava. Vestia-se simplesmente. e seus cabelos eram como uma chama prateada em sua fronte. ou uma camponesa Rançando com a lua. O Secretário. Mas a cadeira do centro estava desocupada. de certo modo. Passou silenciosamente como uma sombra e veio sentar-se na cadeira do centro. sobre uma armação negra do telhado. ou se transportavam para aquele recanto do edifício onde fumegavam. No instante mesmo em que Syme ouviu estas palavras notou no oceano de fisionomias humanas que se exaltavam diante dele um murmúrio de espanto e admiração. Por fim. mas cada caso era. Durante muito tempo — parece que durante horas — a imensa mascarada saracoteou e sapateou ao ritmo de uma marcha alegre e arrebatadora. usava um casaco coberto de animais heráldicos.

nós que nos temos amado uns aos outros tão amargamente e nos temos combatido tanto tempo. toda a sabedoria humana negava-a. onde não existe coisa criada. em pouco tempo. Sei que você.-implacável. apenas quatro. volveu-se em sua cadeira para contemplar Domingo. Não sei se foi recentemente (porque o tempo nada é). Suponho recordar os séculos da guerra heróica em que vocês foram sempre heróis: epopéia sobre epopéia. ou entravam rindo em algazarra nos corredores daquela mansão centenária. e que você. O sol. invocou meu nome na hora do desespero. que os enviei para a guerra. Parecia que eles não tinham pressa de falar. mas tão suavemente que se podia pensar que eles antes continuavam que iniciavam uma conversação. juntos. tentasse extirpá-la de seus corações. — Comeremos e beberemos mais tarde. transformado em máquina de tortura. Syme agitava-se vivamente em sua cadeira. CHESTERTON da abóbada noturna. embora todo o cosmos. e perguntou com áspera inflexão: — Quem e o que é você? . a terra e o céu negavam-na. como sete estátuas de pedra assentadas em cadeiras de pedra. Eu estava sentado na treva. Fiquemos um momento aqui. Finalmente. e então o Secretário de negras sobrancelhas. A fogueira apagou. havia somente dez ociosos no jardim. e lentas e fortes as estrelas brilharam no céu. Nenhum deles pronunciara uma palavra. cruzou espadas com o Rei Satã. Apenas ouviam em silêncio o zumbido dos insetos e o canto longínquo de um pássaro. pouco depois. Sei que vocês estiveram às portas do inferno. Não esqueceram intimamente a noção de honra. e não a ouviram de novo. o último desgarrado folião entrou em casa gritando pelos companheiros. os grupos negros agregavam-se cada vez mais em volta dos grandes caldeirões. e vocês sempre como irmãos d'armas. K. Quinta-feira. mas tudo o mais continuava em silêncio. Então Domingo pôs-se a falar. Houve completo silêncio no jardim iluminado pelas estrelas. Todavia. no céu. a fogueira também arrefeceu. disse. Os sete estranhos personagens ficaram sós.168 G. Quartafeira. eu mesmo neguei-a. Ouviram minha voz no escuro. Em breve. e o impenetrável prosseguiu: — Mas vocês foram homens. e fui para vocês apenas uma voz que exigia coragem e virtude sobrenatural. ilíada sobre ilíada. negava-a. E quando os encontrei em plena luz do dia. ou no princípio do mundo.

e é isso precisamente que não lhe posso perdoar. e devemos ouvi-lo também. não só pelo vinho e pela hospitalidade. Manifesto-lhe minha gratidão. Gogol falou. então.. que se espalhou por todo o escuro relvado. porque era também nosso maior inimigo? Nós nos lamentávamos e fugíamos aterrorizados. eu posso perdoar a Deus Sua ira. Minha alma e meu coração sentem-se tão felizes e quietos aqui como este velho jardim. O Secretário ergueu-se de um pulo e com as mãos começou a amarrotar o suntuoso manto. eu gostaria de conhecer. porque era também Domingo. apenas voltou para Syme seu rosto pétreo. feito uma barra de ouro ardente. — Sei o que você é. mas sou feliz. Na verdade. embora ela destrua as nações. — Não. Fincava o queixo poderoso numa das mãos e fitava a distância. Domingo ficou calado.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 169 — Sou o Sabat. Contudo. Por fim rompeu o silêncio: — Ouvi suas queixas uma a uma. Sobre esta meia-lua infla- . Eu gostaria de conhecer. e você é a paz de Deus! Oh. uma ofensa para a luz do sol? Se desde o começo você era nosso pai e nosso amigo. otimismo. mas minha razão ainda clama. O fogo moribundo na grande trempe emitiu um derradeiro e alongado clarão. Você permitiu que eu me perdesse a poucos passos do inferno. não estou tão enfurecido. Pois bem. Domingo olhou Ratcliffe. com toda a simplicidade de um menino: — Gostaria de saber porque fui tão maltratado. disse Syme. Domingo continuava mudo e imóvel. mas não posso perdoar a Deus Sua paz. — Não sou feliz.. disse o Professor com a cabeça entre as mãos. Sei que você é contentamento. cuja voz clara se ouviu: — Parece-me tão estúpido que você tenha estado dos dois lado e tenha combatido a si mesmo! Buli disse apenas: — Não entendo nada. bradou. não estou reconciliado. porque não compreendo. Se você era o homem do quarto escuro. como se o interrogasse. vou dormir. reconciliação final. o ferro penetrou em nossas almas. Sou a paz de Deus. ou que outro nome se dê a isso. Penso que vem aí outro para lamentar-se. mas também pelas belas correrias e pelos combates leais. disse o outro imóvel.

quase simiesco de seu velho amigo Gregory. Um sentimento de compaixão. com fulminante nitidez. Tudo isso é loucura! O único crime do Govêr- .170 G. CHESTERTON mada projetavam-se totalmente negras as pernas avançadoras de um vulto de preto. eis o verdadeiro anarquista! — Sim. trazia uma espada à cinta. mas estou vendo que não odeio tudo tanto quanto o odeio. os revoltados. que o rosto era o rosto largo. olhando em volta. e nunca foram derrotados. — Eu nunca o odiei. que Syme viu. do mesmo modo que os criados da mansão. — Você! gritou êle. sorridentes. — Gregory! arquejou Syme quase de pé. Sou um destruidor. incendiarão o mundo. Ah. Sei o que são todos vocês. disse Gregory. excitou Syme e levou-o a falar aos borbotões e sem seqüência. ao menos porque vocês nunca foram derrotados? Nós. Destruiria o mundo se pudesse. os últimos trovões dessa criatura ininteligível ribombaram. Vocês são os poderosos! Vocês são a polícia. Pensei que odiava tudo mais do que os homens geralmente odeiam qualquer coisa. do primeiro ao último. — Oh homem infelicíssimo! exclamou. Tente ser feliz. K. com um grande e ameaçador constrangimento. sem dúvida dizemos toda a espécie de disparates acerca deste ou daquele crime do Governo. murmurou Buli. como as chamas vermelhas. Como os criados. que parecia realmente ter caído no sono. os homens gordos. mas autêntico sable. Você tem os cabelos vermelhos de sua irmã. Em seguida. veio também Satanás entre eles". sou o verdadeiro anarquista. Mas haverá uma alma viva e livre que não deseje derrotá-los. — "E vindo um dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor. Você nunca odiou porque nunca viveu. Parecia usar um belo traje com bragas. respondeu Gregory. disse Syme melancòlicamente. — Meus cabelos vermelhos. vindo das profundezas da terra. Foi somente quando êle chegou muito perto dos sete homens colocados no crescente e ergueu o rosto para contemplá-los. — Tem razão. disse Gregory. dos uniformes azuis cheios de botões! Vocês são a Lei. Só que seu traje não era azul. com os mesmos exuberantes cabelos vermelhos e o mesmo sorriso insultuoso.

Estávamos a lamentar nossas inesquecíveis misérias no momento mesmo em que este homem entrou insolentemente para acusar-nos de felicidade. Depois. não temos sido felizes. eu lhes poderia perdoar tudo. pelas lágrimas e pela tortura. podemos conquistar o direito de dizer a este homem: "Mentes!" Todas as agonias não dão para comprar o direito de dizer a este acusador: "Nós também temos sofrido!" Não é verdade que nós nunca fomos derrotados. Repilo a calúnia. Assim. — E você. O rosto. tal como a que eu.O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 171 no é governar. sim. cada coisa que obedece à lei pode partilhar da glória e do isolamento do anarquista. pelo menos. O que amaldiçôo é a sua segurança. Fomos. tudo enegreceu. Não é verdade que nunca descemos destes tronos. se uma vez. tudo quanto existe. . E volveu os olhos a fim de observar o enorme rosto de Domingo. a vocês que governam toda a humanidade. Por que todas as coisas desta terra vivem em guerra umas com as outras? Por que cada ínfimo ser deste mundo tem de lutar contra o próprio mundo? Por que deve a mosca combater todo o universo? Por que deve um dente-de-leão combater todo o universo? Pela mesma razão que eu tinha para estar só no terrível Conselho dos Dias. você terá sofrido alguma vez? Enquanto observava. Oh. eu pudesse sentir que vocês sofreram uma hora de agonia real. . Syme levantou-se com um salto. a mentira de Satã pode ser lançada à face deste blasfemo e assim. Pelo menos. Assim. Não os amaldiçôo por serem vocês cruéis. E antes que a escuridão anulasse completa- . Vocês são os sete anjos do céu. o enorme rosto adquiria uma espantosa proporção. . cada vez maior. fomos esmagados. Posso responder por cada um dos grandes defensores da Lei que êle acusou. ia enchendo todo o Armamento. Assim. . Vocês se sentaram em suas cadeiras de pedra e nunca desceram delas. Não os amaldiçôo (embora eu pudesse) por serem bondosos. tremendo da cabeça aos pés. tornando-se maior do que a máscara colossal de Memnon que o fizera gritar de medo quando menino. bradou Syme com voz terrível. Descemos até aos infernos. que se abria num estranho sorriso. O pecado imperdoável do poder supremo é ser supremo. — Compreendo tudo. e nunca provaram das vicissitudes. bradou. cada um que combate pela ordem pode ser tão bravo e bom como o dinamiteiro.

colhendo lilases antes do café. Soprava uma brisa tão límpida e suave que se podia até imaginar que ela não provinha do céu. Esse companheiro fora parte de seu drama recente. . Rompia a aurora. nos livros. Não sabia que andava tão perto de Londres. Syme julgou ouvir uma voz distante recitar um lugar-comum ouvido antes nalguma parte: "Podes beber na mesma taça em que eu bebo?" * * * Quando. Sentia que estava na posse de uma inefável boa nova e que ela fazia de tudo uma trivialidade.172 G. bocejam. se estão numa cadeira. e achou-se defronte do gradil de um jardim. mas filtrava-se através de uma frincha rasgada no céu. Caminhavam juntos como velhos amigos e estavam entretidos com alguma banalidade. Instintivamente tomou por uma estrada branca. com a gravidade inconsciente e magnífica das moças. a moça dos cabelos vermelhos e dourados. Syme maravilhou-se um pouco de ver em ambos os lados do caminho os vermelhos e irregulares edifícios de Saffron Park. Mas Syme sentia no corpo uma vivacidade sobrenatural e no espírito uma simplicidade cristalina que pareciam superiores a tudo que dizia ou fazia. era Gregory. se estão deitados no campo. como se a natureza fizesse uma primeira tentativa em amarelo e uma primeira tentativa em rosa. algo de irreal nas coisas que lhe tinham acontecido. revestindo tudo de cores claras e tímidas. A experiência de Syme foi. não podia lembrar-se do instante em que voltara a si. mas uma adorá vel trivialidade. visto que houve realmente. no sentido físico. onde os pássaros madrugadores gorjeavam saltitantes. Ali viu a irmã de Gregory. o poeta dos cabelos vermelhos. conquanto mais tarde lhe fosse sempre possível recordar que desfalecera ante o rosto de Domingo. encontram-se geralmente em algum lugar em que podiam ter adormecido. K. C H E S T E R T O N mente seu cérebro. ou se levantam com os membros doídos. muito mais estranha. os homens despertam de uma visão. Pois. Só podia lembrar-se de que pouco a pouco e com toda a naturalidade tivera consciência de estar passeando por uma azinhaga ao lado de um companheiro agradável e palrador. psicologicamente.

Biblioteca São Miguel Arcanjo http://saomiguel.webng.com/ .

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