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Ateus materialistas e coisas do demônio

Alceu A. Sperança

Os materialistas ateus tiveram um grande alívio na semana passada. Um grupo de astrônomos, inclusive brasileiros, anunciou a eliminação de uma inconsistência que ainda restava na Teoria do Big Bang. Arre! Os cientistas conseguem resolver um problema de bilhões e bilhões de anos, mas não descobrem algo tão fundamental quanto eliminar as doenças ou achar uma saída para a crise que deixa todo mundo maluco, exceto aquele 1% para quem a vida é uma eterna festa. Giordano Bruno, ao ver as materialistas chamas crepitando na fogueira sagrada na qual iria arder por pensar diferente dos ditadores religiosos da época, exclamou: “Que ingenuidade pedir a quem tem poder para mudar o poder!” Tão ingênuo é querer o fim das doenças. Isso causaria um colapso na economia mundial: o que fazer com todos esses médicos estrangeiros? Reciclá-los como engenheiros? A multidão de enfermeiros e demais empregados na medicina pública e privada, toda a parafernália de clínicas e suas equipes de manutenção, a poderosa indústria farmacêutica, o vastíssimo comércio mundial de remédios e a indústria de pragas e epidemias não podem ser eliminados como foram os carregadores de riquixás na China ou os condutores de cabriolés do Rio de Janeiro.

Riquixá

Cabriolé

Os economistas jamais vão achar uma saída para a crise enquanto mantê-la der tanto lucro aos menos de 1% de nababos que exploram os demais 99% da humanidade. “A infelicidade tem sido a melhor e mais perversa forma de controle social já desenvolvida pelos homens”, dizia Michel Foucault em O Uso dos Prazeres. Pelo menos astrônomos honrando a profissão já quebram algum galho. Compreender o universo em geral é também compreender um pouco melhor o ser humano. “Assim na Terra como no Céu”, o que tem a ver no cosmos tem a ver com nossa cabeça. O que são as explosões solares senão o equivalente à topada que damos com o dedão na pedra, seguida pelos palavrões italianos que Mamma nos ensinou? Tudo isso até se compreende. Só não se explica porque o transporte coletivo, serviço público de extrema necessidade, não tem a mesma gratuidade do SUS ou da escolinha da vila. Mais difícil que a Física Quântica é entender quanta raiva advém da equação tarifa cara = serviço ruim. A elite paulista, ou seja, o empresariado mercantil e ruralista da época, dizia que o fim da escravidão seria um desastre para o Brasil. Óbvio: diante de qualquer perspectiva de mudança, a reação conservadora é sempre a mesma –violenta rejeição. Por isso os cristãos foram entregues aos leões, os hereges à fogueira e os comunistas à tortura. Quando os primeiros ônibus começaram fazer o transporte coletivo no Rio Janeiro, em 1837, os magnatas que exploravam o aluguel de animais de montar e as seges (carroças-táxis) apedrejavam o novo veículo, considerado uma coisa do demônio.

Os donos de carruagens, cabriolés e tílburis pressionaram a Câmara do Rio a cobrar taxas pesadas para quebrar o transporte motorizado e manter os privilégios da elite associada aos políticos da época. Hoje, o povo sai às ruas pedindo um transporte de massas gratuito, pago por aqueles que lucram com a movimentação diária de trabalhadores, estudantes, donas de casa, desempregados, turistas, deficientes, servidores públicos, religiosos, voluntários em serviços comunitários e enfermos que não podem dirigir. Isso ainda é “coisa do demônio”, mas um dia os santarrões que usam o diabo para encobrir sua ânsia de explorar e lucrar serão vencidos.
alceusperanca@ig.com.br .... O autor é escritor