You are on page 1of 8

ENSAIOS DE PHILOSOPHIA DO DIREITO

POR JOSÉ MENDES SÃO PAULO DUPRAT & C. 1903
Advertências: 1. Texto original de Domínio Público. Excertos extraídos e adaptados para a disciplina História do Direito, por Hélcio Maciel França Madeira.
2. Este texto foi originalmente redigido sob a ótica do método positivista e evolucionista, freqüente entre os juristas pátrios no início do século passado. O aluno deverá procurar identificar estas características no texto, para depurá-lo à luz de uma leitura crítica.

I. ESCOLA DE ARISTÓTELES
a) Caráter dominante da escola de Aristóteles Um dos traços característicos da filosofia grega é ser uma ciência universal, compreensiva da física, da metafísica, da moral, da política, da fisiologia, da psicologia. Esta a ciência de tudo o quanto existe. O filósofo estudava o homem, a natureza e Deus conjuntamente, sem distinção de ciências particulares. Platão encarava este tríplice objeto da filosofia (homem, natureza e Deus), sob o ponto de vista subjetivista, e baseava a ciência nos conceitos ideais, inatos no espírito humano, constitutivos de sua essência e substância. Partia do universal para o particular. Declarou não haver ciência do que passa. Para ele, só ha ciência do absoluto, do necessário, do imutável. Aristóteles, seu discípulo, separou-se do mestre, e seguiu caminho oposto. Baseou a ciência na observação dos fatos. Partiu do particular para o geral. Partiu dos fatos, dos fenômenos da natureza, do homem e da sociedade, para conhecer as leis e os princípios que os regem. Para Platão só as idéias é que são reais, porque só elas existem por si mesmas. Mas Aristóteles sustenta que só o individual é que existe substancialmente. Sustenta que o conhecimento das coisas não pode ser adquirido fora do mundo sensível, no domínio exclusivo dos conceitos racionais. “Não se deve partir dos conceitos para os fatos, mas dos fatos para o conceito", porque a verdade está nos fatos que observamos, que se passam diante de nós. Devemos inferir o inteligível do sensível, e não o sensível do inteligível. Nihil est in intellectu quod non prius fuerit in sensu (isto é, "algo não estaria no intelecto se antes não tivesse passado pelo sentido", ou, "para que um conceito chegue ao intelecto é preciso, antes, que ele seja percebido pelos sentidos"). Platão menosprezou a observação e a experiência, Aristóteles fez desta a base fundamental de seu método. Os dois gênios universais traçaram para sempre os caminhos seguidos pelas duas tendências opostas do pensamento, pelos dois pólos, entre os quais se realiza constantemente o ritmo do movimento intelectual: o idealismo e o naturalismo. A filosofia do incomparável discípulo e adversário de Platão dominou toda a Idade Média. Famosa é a divisa por ele estabelecida, quando se separou de seu mestre Platão: Amicus Plato, magis amica veritas ("Platão é amigo; mas a verdade é mais amiga"). b) Método da escola de Aristóteles 1

é a virtude inteira. a justiça é mais uma vontade. uma disposição permanente de fazer o que é justo. pode ocorrer situações específicas em que a aplicação da lei não traga o bem. embora deva ser respeitada. pois que se refere ao bem e a vantagem dos outros homens. Para Platão. é uma parte da virtude inteira. Para Aristóteles era um virtude eminentemente social. porque este parte da experiência. e uma justiça particular ou justiça stricto sensu. Sua observância é exigida por lei porque é indispensável à manutenção da ordem social. do seu modo. Decidir por equidade é decidir por meio do equilíbrio próprio de quem tem a virtude. Todos os povos têm seu direito. etc. Platão e Aristóteles chegaram ao mesmo conceito de justiça. É universal e imutável. Ser justo. o direito é um produto das necessidades do organismo social. é um modelo a que o homem e a sociedade se adaptaram. portanto. 2 . Por caminhos diversos. ou o justo com o honesto. às vezes deve ser corrigida pela equidade. não depende da opinião dos indivíduos. Como virtude. mas o direito nasce da sociedade. nela incluindo tudo quanto concorre para a prosperidade da vida social. é seguir as leis da pólis. É admirável a análise que faz Aristóteles da justiça. como princípio coordenador. Neste caso o justo legal pode ser corrigido pela equidade. A segunda. Com suas profundas observações. A primeira é uma virtude que resume. A justiça natural é aquela fundada na natureza e que. Mas esta justiça legal (ou positiva). que abrange todas as outras virtudes. esta justiça era uma virtude interior do indivíduo e do Estado. estabelece. e o seu conceito resulta da observação e generalização. nem dos atos legislativos. pela comparação e generalização. Para Platão. ao conhecimento das leis que os regem. e chega. Enquanto para Platão o conceito da justiça deduzia-se da idéia suprema do Bem. como acreditava Platão. só é possível compreender a justiça pelo exercício. Como virtude. respectivamente. Como as leis dos povos são gerais. justiça escrita e justiça não escrita. Como os demais filósofos gregos. em primeiro lugar. o direito é anterior à sociedade. Distinguia primeiro uma justiça universal ou justiça lato sensu. é conforme ao bem comum que cada povo. Estas divisões até hoje são adotadas pelo direito. confunde a moral com o direito. É um conceito inato no espírito. preexiste a esta. justiça positiva e justiça natural. princípio de proporção e princípio de medida.O método do Aristóteles é indutivo por excelência. para Aristóteles o conceito de justiça deve ser retirado da observação dos fatos. Sua doutrina considerava a justiça como um aspecto da virtude. no homem e na sociedade. muitas delas até hoje aceitas pelo direito. Ser justo é respeitar a lei. pelo hábito da justiça. que dela depende necessariamente. ao contrário. que se operam na natureza. de quem tem a prática habitual de fazer o bem. O direito não existe fora da sociedade. Para Aristóteles. justiça comum e justiça singular. como uma necessidade orgânica desta. era o bem social. da observação dos fenômenos. A justiça particular foi dividida por Aristóteles em várias espécies: justiça comutativa e justiça distributiva. conseguiu ele perceber e formular diversas divisões de justiça. porque o que é conforme à lei. deve ser deduzido dos fenômenos da vida real da sociedade. a justiça particular. c) Concepção jurídica da escola de Aristóteles Aristóteles foi o filósofo grego que mais se aproximou da noção moderna da justiça ou do direito. Há também a justiça legal. que foi por ele estudada em suas várias manifestações no seio da sociedade.

Ao general deve ser dado mais do que ao soldado. há duas formas de justiça. nestes casos. Bens iguais somente devem ser dados a iguais. Nas relações de direito público (e. O rico e o pobre não podem ser vistos em proporção aritmética ao serem cobrados de imposto. A equidade é que supre a insuficiência da lei positiva. enfim. isto é. com proporcionalidade. Justiça comutativa x justiça distributiva. Cada povo. mas tão somente o valor das coisas trocadas ou negociadas. define seus valores sociais e estabelecem uma justiça social (ou distributiva) própria. A justiça distributiva consiste na igualdade proporcional ao mérito das pessoas. É. A justiça pode ser comutativa (corretiva) ou distributiva (justiça social). A justiça é um aspecto das virtudes: só se adquire a justiça pelo hábito. O direito é um produto das necessidades de cada sociedade: seu conceito resulta da observação e da generalização. logo deve pagar mais imposto. isto é. tributos. mas a justiça distributiva (ou social) consiste no "dar a cada um o que é seu na medida do seu merecimento". Um particular. dos sentidos. sempre é igual a outro particular. Não importa se um criminoso é rico ou pobre: deve ser punido com igualdade se pratica um mesmo crime. de atribuir a cada um o seu. assim. em que não se deve levar em conta a qualidade das pessoas. uma justiça que preserva a proporção aritmética. Em ambos os casos fazer justiça é "dar a cada um o que é seu". não da razão. têm maior peso na eleição. Seguir a lei é ser justo. e. Também por aplicação de um conceito de justiça distributiva. A justiça comutativa consiste na igualdade pura e simples. contratuais). Deve prevalecer nas relações entre particulares (por exemplo. Fazer justiça distributiva. Conforme a situação das pessoas envolvidas. se são diferentes. Nas relações entre particulares (direito privado) as partes devem ser tratadas sempre como iguais (ainda que não sejam). salários). dos bens entre aqueles que participam do sistema político. é tratar os iguais como iguais e os diferentes com proporcionalidade. nas compras e vendas e nos contratos em geral. Ela deve estar presente nas trocas. os que têm mais bens. alguns povos adotam a timocracia. o particular (o geral decorre da generalização). direitos políticos. d) Quadro-resumo: • • • • • • Só existe o indivíduo. o maior valor é a liberdade. Em uma oligarquia a distribuição dos bens valoriza os mais ricos e os mais nobres. Mas como saber quem tem mais mérito? Esta decisão depende de cada povo. que devem ser julgadas sem a apreciação de suas qualidades ou méritos.Para Aristóteles a equidade consiste em invocar o direito natural contra os rigores e as injustiças da lei positiva.g. Importa verificar o mérito de cada um. as partes devem ser tratadas como iguais se realmente são iguais. Finalidade do direito: dar a cada um o que é seu. Não importa se comprador é rei e se o vendedor é pobre: ambos devem ser tratados como iguais. recebe mais serviços da pólis. É a justiça da distribuição das honras. O rico tem mais. Em uma democracia. pois o trabalho e a responsabilidade social de um são maiores do que a do outro. a proporção geométrica. portanto. Pois a lei positiva (justiça legal) é elaborada genericamente e não considera as particularidades de cada caso concreto. como nos contratos. A justiça comutativa consiste no tratamento igualitário das partes. ou no direito penal. porque contribuem mais para a pólis (com impostos e com soldados).entre os homens. apesar de serem diferentes. e que preserva. enfim. O conhecimento vem da experiência. a justiça deve ser proporcional ao mérito de cada um. pelo costume. os outros não). seus votos valem proporcionalmente mais do que os votos de quem tem menos fortuna. mas todos os livres têm o mesmo mérito e são tratados como iguais (isonomia). Por isso os livres têm mais méritos do que os escravos (os primeiros votam. Em uma aristocracia recebem mais bens os mais virtuosos. pois a lei espelha o bem comum desejado pela pólis • 3 . É por esse conceito de justiça que quem tem mais paga mais imposto e quem tem menos paga menos. Método indutivo: da observação dos casos particulares se chega às regras gerais..

para empregar o termo de Epicuro. começou a decadência. Um só conceito domina e dá cunho às três partes de sua doutrina: é o princípio da coesão. A filosofia torna-se. que busca em si mesmo forças que o tornem superior aos acontecimentos que o infelicitam. eminentemente prática: subordina a ciência à vida. ensina Epicuro. na canônica. a felicidade fora definida por vários modos. à inteligência.• Mas a lei é sempre genérica e corre o risco de. A tendência agora toma outra diretriz e é no sentido de fortalecer a vontade e dar-lhe alento para que ela possa suportar os golpes da adversidade. isto é. A lógica e a física servem de introdução à moral.C. E. Também domina na física. Pelos antigos. II. Esta nova tendência é representada por Epicuro e Zenon. estava no desenvolvimento ponderado das faculdades humanas. depois Roma. na moral. a filosofia helênica tomou então uma orientação diversa da precedente. É na sanidade do corpo e do espírito que está a felicidade. A moral. Epicuro e Zenon são os dois nomes mais notáveis da filosofia helênica posterior.) reproduz em seus ensinamentos teorias já anteriormente expostas por Demócrito e outros pensadores gregos. Mas não se lhe pode negar o mérito de ter-lhes dado mais coerência e clareza. finalmente. Para Aristóteles. haviam-na dominado e aniquilado suas instituições civis. que se realiza a aproximação recíproca dos indivíduos. física e moral. Depois deles. do belo. de especulativa que era. Sua moral é um hedonismo . Primeiro a Macedônia. desempenhando esta última parte o papel proeminente entre as três. consistia na imitação de Deus. consiste em não sofrer. ao ser aplicada. A Grécia passará por esse tempo em uma fase de provações. como as doutrinas sempre se adaptam às condições sociais e às necessidades da existência referentes ao tempo e lugar. no intuito de uma vida mais agradável. Para Platão. É graças ao princípio da coesão. ou. nas relações mais úteis estabelecidas entre o homem e o meio em que ele vive. Nihil novi sub sole (“nada de novo sob o sol”). 4 . cedeu o lugar ao ideal do homem sábio. fazendo que a reunião e combinação dos homens formem o corpo de normas reguladoras da conduta humana. e consentânea com o novo estado social: o ideal do justo. fazendo que a reunião e combinação dos átomos formem o universo. para Epicuro. da cidade ou do Estado. Epicuro (nascido em 341 e morto em 270 a. Seu sistema contém três partes: lógica. a felicidade consiste na ausência da dor. e a eles prendem-se os dois mais importantes sistemas filosóficos que se seguiram: o epicurismo e o estoicismo. Para Epicuro. com a qual se achava ainda confundido o direito. de preferência. ferir o justo natural. A parte que mais nos interessa é a moral. ESCOLA DE EPICURO a) Caráter dominante da escola de Epicuro Com Platão e Aristóteles a filosofia grega atingiu seu apogeu. Este princípio domina na lógica. A tendência da especulação filosófica até então era satisfazer. de par com o cunho apropriado às novas condições e necessidades da vida social helênica. fazendo que a reunião e combinação das sensações formem o conhecimento. a qual tem por escopo aumentar-lhes o prazer e diminuir-lhes a dor. Domina. O julgamento por equidade é o meio mais adequado para corrigir os rigores da lei positiva. é a procura da felicidade.

E busca-a em si próprio. na indiferença. honesta e justamente. c) Concepção jurídica da escola de Epicuro A concepção jurídica desta escola filosófica é acorde com os seus ensinamentos em geral. O amor ao prazer e a conseqüente aversão à dor. Epicuro recomendava os prazeres desta última categoria. conseguintemente. experimental. "não lesar a outrem"). É sua a seguinte máxima: "Não se pode viver com prazer. a razão de ser da coesão. o qual traz serenidade ao espírito. na apatia. os prazeres materiais. todavia. Funda-se na utilidade individual e social. a um produto da opinião e do arbítrio dos homens. isto é: negação da dor). Seu método. todas as normas jurídicas. eis o prazer da moral epicuréia. Convém notar.uma moral que faz do prazer o princípio e o fim de uma vida feliz. fazendo assim do hedonismo um ascetismo . o princípio de toda a ciência é a sensação. que veda a ofensa pelo temor da ofensa. os homens aproximam-se reciprocamente e formam um pacto ou compromisso de não ofenderem nem serem ofendidos. É escudado na prudência que o sábio de Epicuro busca a sua felicidade. não há direito. Este. O homem não lesa outrem para não ser por outrem lesado. isto é. Porque do prazer é que nascem as virtudes. Epicuro distinguia os prazeres em prazeres em movimento e prazeres de repouso. portanto. refugiando-se e concentrando-se na tranqüilidade inalterável de seu espírito. Donde o neminem laedere (o mesmo que alterum non laedere. Os prazeres de movimento são os prazeres do corpo. todas as normas que são ou devem ser coativamente asseguradas pelo poder público resumem-se neste princípio: "Não ofender para não ser ofendido". b) Método da escola de Epicuro Para Epicuro. sem o prazer. segundo o direito romano. Por isso. Destarte. eis a força. O respeito a esse pacto é o que se chama o direito. Os segundos são os do espírito. honesta e justamente. um dos três preceitos fundamentais do direito. é indutivo. isto é. que ela contém uma parte da verdade. expresso na máxima de Juvenal: Mens sana in corpore sano . ele considerava como a primeira das virtudes a prudência. Por amor ao prazer e aversão à dor. isto é. que congrega os homens. assenta na observação dos fenômenos do mundo físico. o medo das represálias conta-se entre os fatores que concorreram para formação da idéia 5 . há um ponto de contato entre esta teoria e a dos sofistas. emana da convenção dos indivíduos. este filósofo tem sido mal compreendido por alguns escritores. segundo as idéias deste filósofo com relação à justiça. de fato. Como se vê. em busca de aumento para o prazer e diminuição para a dor. na indolência (in + dolentia. da qual procedem todas as outras. ter o corpo são e o espírito tranqüilo. porquanto. porque garante a sua sanidade e a do corpo. não pode o homem viver feliz. Na sofística e no epicurismo hauriu Jean Jacques Russeau a sua célebre teoria sobre o "Contrato Social". Todas as idéias vêm do mundo externo. e a vida de prazeres é inseparável destas". Sem observar este princípio. Mas. Nem se pode viver prudente. Ter o corpo são e o espírito tranqüilo. desse compromisso tendente a conseguir o bem-estar comum dos pactuantes. A teoria jurídica de Epicuro reduz o direito à mera convenção. Fora desse pacto de utilidade. que os aproxima reciprocamente. do mundo orgânico e do mundo superorgânico. prazeres intelectuais e morais. se não se vive prudente. posto sua moral seja a moral do prazer.

A reunião e combinação dos homens formam as normas (morais. a lógica. e a moral a alma. que rege tudo e que está em toda a parte. Valores epicuristas: hedonismo. na lógica. A felicidade é a ausência de dor. ESCOLA DE ZENON a) Caráter dominante da escola de Zenon Zenon (n.o estoicismo procedeu de modo análogo. E.A reunião e combinação das sensações formam o conhecimento. um todo único. Os homens devem estabelecer pactos para o aumento do prazer e a diminuição da dor. um grande ser. objeto principal dos ensinamentos estóicos. Mente sadia em corpo são. tranqüilidade do espírito Finalidade do direito: a utilidade (não lesar a outrem. fazendo Platão derivar o conhecimento dos conceitos ideais da razão. para a prática. e deu ensejo que ele se entregasse ao estudo da filosofia. princípio e força organizadora e diretora do todo. para conciliar aqueles dois filósofos. o Deus-Natureza dos estóicos. . é a virtude. o estoicismo conciliaos sustentando que o critério da verdade é a evidência com que uma imagem ou uma representação impõem-se ao espírito. os sectários da escola estóica procuram realizar a conciliação desses dois filósofos. em 362. vem a ser viver segundo a razão. apatia. isto é. cujas partes. O princípio fundamental da moral estóica é o seguinte: Viver segundo a natureza (Naturam sequi). inclusive o homem. Forma um organismo. Mas.honeste vivere. A moral é superior à lógica e à física. a honestidade . a filosofia constitui um todo. viver de modo que a razão domine tudo.A reunião e combinação dos átomos formam a física. a física os músculos. Este acidente domina toda a sua doutrina. 6 . a física e a moral. A princípio ele dedicara-se ao comércio de exportação de púrpura. m. e cuja alma é Deus. Para Zenon e seus adeptos. segue-se que. em tudo. isto é. ao lado do alterum non laedere e do suum cuique tribuere. a única coisa durável. Um naufrágio reduziu-o a miséria. para esta escola. Esta evidência. da qual depende o bom andamento da vida social. Nele descança toda essa rígida e famosa moral. para moral. Assim. Este princípio é o seu ponto de partida. indolência. Na física. pelos romanos. A filosofia volta-se para o indivíduo. o idealismo ou conceitualismo e o naturalismo. viver segundo a natureza. e onde está sua maior glória pois foi pela moral que essa escola imortalizou-se . os estóicos resumem toda a moral na prática da virtude. par a não ser lesado). que obriga o espírito a reconhecer uma coisa como verdadeira. que é Deus. • • • • • III. como a razão ensina que a coisa mais preciosa. d) Quadro-resumo: • Surge no período de decadência da filosofia. e Aristóteles da observação da natureza. e da Natureza de Aristóteles. no viver honestamente . em 264 a.correta de justiça. O estoicismo procurou conciliar Platão e Aristóteles. está impregnada de uma alma ou razão universal. . depois. quando a Grécia é dominada pelos macedônios e. que também participa dessa mesma razão universal. jurídicas). como a Natureza. são estreitamente ligadas entre si. cujo corpo é o Universo. Princípio da coesão: . formando o Bem ou Deus de Platão. revela o acordo existente entre a impressão sensível (naturalismo) e a reta razão (racionalismo). Na moral. do qual a lógica é os ossos e os nervos.C.) é o fundador do estoicismo ou escola estóica. de que o direito romano fez um princípio fundamental do direito.

sed per ipsam virtutem (o prêmio da virtude é a própria virtude. repetiu Cícero. Para os estóicos. O ideal da felicidade é a impassibilidade. Marco Aurélio . A filosofia é o estudo da virtude. civitas omnium maxima " (a cidade máxima. a supressão das paixões. Os estóicos são os precursores mais puros e diretos do cristianismo. resignando-se auxiliado pela fortaleza de seu próprio espírito. recolhendo-se em si mesmo. e não deste ou daquele Estado particular: é cosmopolita. mas o honeste vivere. um ecletismo. como para os epicuristas. d) Quadro-resumo: • A verdade é uma evidência que resulta do acordo entre a impressão sensível (naturalismo) e a razão (racionalismo) Moral: parte mais importante da filosofia Princípio: viver segundo a natureza. nem bem o indutivo. da razão divina. ser justo é viver segundo a natureza: vivere convenienter naturae (viver convenientemente à natureza). O direito para eles é uma manifestação da razão universal. Eu sou cidadão de todo o mundo"). mas a honestidade. dizia o grande imperador estóico. não é bem o dedutivo. resistência às necessidades. vindo a ser. a ataraxia. o desdém pelas convenções sociais. Weber considera o estoicismo como uma apoteose da vontade. preexiste à sociedade e ã lei positiva. Ubi non est iustitia. Philosophia studium virtutis est. O mundo substitui a cidade. honeste vivere. a condenação do desejo e do próprio gozo intelectual. ataraxia. como diz Cícero. Zenon chegou a conceber a idéia de uma república universal. portanto. a imperturbabilidade do sábio que atingiu a virtude perfeita e para quem a dor e a morte não são males. mas por meio da prática da própria virtude"). para eles. pela primeira vez. de todos"). a resistência às necessidades. tranqüilidade. o racionalismo e o naturalismo. desdém pelas convenções sociais. ibi non potest esse ius ("Onde não há a justiça.No estoicismo está o gérmen do panteísmo. • • • • • • 7 . que é. Consequentemente o princípio fundamental do direito. O estóico sofre a tirania. isto é. é de concluir-se que seu método participa da natureza dos métodos de um e de outro desses dois filósofos. supressão das paixões. aí não pode haver o direito"). sendo uma manifestação da razão universal . resignação. O Sábio do estoicismo tem como atributos o desprendimento. Impassibilidade. que tudo governa.. de que emana. um pálido e defeituoso reflexo dele. Universus civitas est communis. usou da palavra consciência. o estóico considera-se membro da humanidade. não é o neminem laedere. a resignação. isto é. De acordo com os princípios que adota. cidadão do mundo inteiro. Para o estóico. Foi o estoicismo que. isto é a tranqüilidade. conforme a razão A virtude (a honestidade) é o bem mais precioso Panteísmo. Civis sum totius mundi ("O universo é uma cidade comum. c) Concepção jurídica da escola de Zenon A concepção jurídica dos estóicos está de acordo com a sua doutrina filosófica. b) Método da escola de Zenon Como a escola estóica preocupa-se em conciliar Platão com Aristóteles. E convém notar que o estóico ama a virtude pela virtude: virtutis praemium est ipsa virtutis. E. Cosmopolitismo Valores estóicos: desprendimento. o fim supremo do direito não é a utilidade .

Este preceito é que indica a função própria da justiça. o segundo (neminem laedere) no epicurismo. República Universal. consubstancia a moral estóica. Finalidade do direito: a honestidade (honeste vivere) IV. que considera a honestidade como o bem supremo e único. pois. O segundo preceito. alterum non laedere. dar a cada um o que é seu". não lesar a outrem . didática. que os três preceitos fundamentais do direito romano têm suas raízes na Grécia: o primeiro (honeste vivere) no estoicismo. honeste vivere. Para o estoicismo. principalmente. que Ulpiano caracteriza como a constans ac perpetua voluntas ius suum cuique tribuendi (vontade constante e perpétua de atribuir a cada um o seu direito). e o terceiro (suum cuique tribuere) nos ensinamentos de Pitágoras. Tradução:"Os preceitos do direito são estes: viver honestamente. os quais são calcados sobre concepções filosóficas dos helenos acerca da justiça. OS TRÊS PRECEITOS FUNDAMENTAIS DO DIREITO ROMANO Quer o leitor uma prova concreta da influência exercida pela filosofia grega sobre a jurisprudência romana? Tem-na nos três preceitos fundamentais assinalados ao direito pelo jurisconsulto Ulpiano. apenas para indicar o elemento negativo da justiça (neminem laedere) e o elemento moral (honeste vivere). Do exposto.10. Platão e Aristóteles. servindo os outros dois preceitos. O terceiro preceito. A cultura do período denominado "helenismo" é absorvida rapidamente pelos romanos. especialmente nos ramos da retórica. infere-se. que ficam em segundo plano. a virtude está acima de tudo e é imposta por todo o Universo. 1. Aristóteles.• • Universalismo. incluindo muitos juristas do período clássico.1 (Ulpiano): "Iuris praecepta sunt haec: honeste vivere. o suum cuique tribuere: Digesto. consubstancia a filosofia epicuréia. consubstancia as idéias de Pitágoras. Quais são estes preceitos? O honeste vivere.C. O primeiro destes preceitos. 8 . acerca do justo e do injusto. levado a efeito pelos homens.153 a. O aluno deve recordar-se de que somente em meados da República é que Roma conquista a Grécia (ca. que considera o direito como o produto ou o resultado de um pacto ou compromisso de utilidade. Sócrates. suum cuique tribuere". Sócrates. filosofia. o alterum non laedere. por muitos séculos dominaram a alta cultura romana. no intuito de não se ofenderem uns aos outros. suum cuique tribuere. Entre as filosofias helenistas as que mais se destacaram foram o epicurismo e o estoicismo que.). oratória e literatura. neminem laedere. Platão e.1.