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M ar i a Lu c ia Ab au rre G ner re

A FO R M A E A N AÇ Ã O : E ST I L O HI S TO RI O G R Á F I C O EM FO RM AÇ Ã O D O B R A S I L C O N T E M P O R Â N EO

Dissertação de Mestrado apresentada ao Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas sob a orientação do Prof. Dr. Edgar S. De Decca.

Este exemplar corresponde à redação final da dissertação defendida e aprovada pela Comissão Julgadora em 25/10/2001.

BANCA Prof. Dr. Edgar S. De Decca Profª Drª Iara Lis Franco S. C. Souza Prof. Dr. Rubem Murilo Leão Rêgo Prof. Dr. Italo Tronca – suplente

09/2001

FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECA DO IFCH - UNICAMP

Ab 18 f

Abaurre Gnerre, Maria Lucia A forma e a nação: estilo historiográfico em Formação do Brasil Contemporâneo / Maria Lucia Abaurre Gnerre. - - Campinas, SP : [s.n.], 2001. Orientador: Edgar Salvadori De Decca. Dissertação (mestrado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.

1. Historiografia – Brasil – Séc. XX. I. De Decca, Edgar Salvadori. II. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. III.Título.

ii

RESUMO
A Intertextualidade e o estilo historiográfico em Formação do Brasil Contemporâneo, importante obra de Caio Prado jr., representam o foco central desta pesquisa, que se divide em três partes. Na primeira delas, buscamos traçar o possível percurso de uma idéia central na obra, a formação. Para tanto, pesquisamos obras de três autores que provavelmente contribuíram para que Caio Prado Jr. formasse seu conceito central: Georg Luckács, Karl Marx, e Joaquim Nabuco. Os três lançaram obras importantes, anteriores logicamente a Formação do Brasil Contemporâneo, nas quais desdobra-se este conceito por interpretações diversas, mostrando -nos de início as possibilidades que tal conceito podia oferecer. Terminamos esta parte procurando estabelecer um elo conceitual entre a formação e “Sentido da Colonização”, outro aspecto central desta obra. Na segunda parte, dedicamo-nos ao trabalho de busca de marcas de outros textos no texto de Caio Prado, marcas que se traduzem em metáforas, estilos, métodos. Como resultado de nossa busca, encontramos ecos dos principais textos da historiografia brasileira, e ainda de textos literários ou sociológicos. Esta é uma parte que considero central na pesquisa. A terceira parte trabalha com as metáforas próprias desta obra, mostrando como elas se articulam entre si, numa fusão das partes anteriores: o aprendizado do reconhecimento das metáforas dentro dos textos históricos deu-se na segunda parte, enquanto que a conceitualização da formação, a grande metáfora que revisitamos no final, foi elaborada na primeira parte. Por fim, fazemos nossas considerações finais, que pouco concluem, e muito deixam em aberto para continuarmos nossa pesquisa.

iii

ABSTRACT The purpose of this dissertation is to analyze one of the most important historiographical works in Brazilian History. We compare the historic narrative of Formação do Brasil Contemporâneo with other important texts in search of similar themes. iv . imagery and metaphors.

que me permitiu realizar esta pesquisa. minha mãe. que muito me ajudou desde o início. conversas e valiosas sugestões acerca de leituras e que me estimulou a prosseguir por novos caminhos. algumas das quais remodelaram caminhos desta pesquisa.AGRADECIMENTOS À Capes. Aos professores Rubem Murilo e Iara Lis. e tudo o mais. v . através de cursos. Edgar Salvadori de Decca. pela bolsa concedida. pelas indicações valiosas. membros da banca de qualificação. me incentivou sempre. mesmo à distância.. ótima leitora. que tanto me ajudou no compasso do texto.. À Bernadete. colaborou com sugestões e com a leitura cuidadosa que fez de um dos capítulos desta dissertação. Ao professor Roberto Vecchi que. Ao meu orientador.

. muito legal. meu pai. À Lulu. Ao Baez... pelas muitas viagens.. que me ajudou sempre citando quase todas as passagens. vi .. e ficaram para ouvir a resposta.Ao Maurizio. pela ajuda providencial e pelo cuidado com que trabalhou na preparação do texto final. ao Nicolau e à Neguinha. e tudo o mais.. À Serra da Mantiqueira. Ao Floyd. A muitos amigos que perguntaram qual era o tema da tese. pela companhia e pelo amor incondicional. pela inspiração.

2 Karl Marx: as formen precedem a análise de classes 30 1.SUMÁRIO INTRODUÇÃO: UM LIVRO 01 Parte 1: Os sentidos de Formação do Brasil Contemporâneo 13 Capítulo 1 As formações de Caio Prado Jr.3 Joaquim Nabuco: a formação e a vida 40 Capítulo 2 O sentido da colonização e os desclassificados: a constituição de uma categoria 57 Parte 2: Mimese e Referência: As mil conexões de Formação do Brasil Contemporâneo 75 Capítulo 1 O Roteiro do Sentido: Passagens Relacionadas ao Roteiro do Maranhão 80 vii . 17 1.1 Georg Lukács: a forma e a perfeição 17 1.

Oliveira Vianna 119 Capítulo 5 Entre a cobiça e o impulso econômico: Referências a Paulo Prado 131 Capítulo 6 Sérgio Buarque de Holanda: o sentido da cordialidade 143 Capítulo 7 Gilberto Freyre e o debate direto com Casa Grande e Senzala 157 viii .J.Capítulo 2 No compasso das boiadas: Referências a Capistrano de Abreu 93 Capítulo 3 De Sertões a rios multífluos: Passagens relacionadas a Euclides da Cunha 103 Capítulo 4 Nebulosas e asteróides: Referências a F.

4.3. a metáfora que não representa o Brasil 177 Parte 3: Caio Prado por ele mesmo: estilo e metáforas próprias 181 Capítulo 1 A estética da formação e as dobras do sentido 183 CONSIDERAÇÕES FINAIS: NARRAR E TRANSFORMAR 201 ix .1. A brutalidade dos trópicos e a obra colonizadora 157 7. O debate direto: Casa grande.2. Engenho e escravidão 167 7.7. Mestiçagem e esquizofrenia em Formação do Brasil Contemporâneo 161 7.

demais do Urucaia. eles dizem. cada um o que x . arredado do arrocho de autoridade. sem topar com casa de morador. O Urucuia vem dos montões oestes. fim de rumo. Esses gerais são sem tamanho.. que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos. isto é o sertão. então. onde um pode torar dez. Enfim.) O gerais corre em volta. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os camposgerais a fora a dentro. quinze léguas. Toleima.. terras altas. e onde um criminoso vive seu cristo-jesus. (. o aqui não é dito sertão? Ah. Para os de Corinto e do Curvelo.O senhor tolere.

Caio Prado Jr. de. SP: Editora 34/Fapesp. Foi uma escolha que fiz. Achei o livro vivo. B. São estes os livros que podemos considerar chaves. No entanto. Como diz Bernardo Ricúpero na introdução de seu livro Nacionalização do Marxismo no Brasil. SP: Companhia das Letras. 1999. publicado quando estávamos no ginásio. publicado quando estávamos no curso complementar. Raízes do Brasil. dos muitos livros interessantes escritos por Caio Prado Jr. os que parecem exprimir a mentalidade ligada ao sopro de radicalismo intelectual e análise social que eclodiu depois da revolução de 1930 e não foi. e a nacionalização do marxismo no Brasil. Esses capítulos. quando aliados à teoria histórica de Caio Prado sobre a Colônia e sobre o Sentido da Colonização. “O significado de Raízes do Brasil”. 26a. in: Hollanda. Formação do Brasil Contemporâneo. formam um magnífico conjunto. instigante. edição. abafado pelo Estado Novo.1 Caio Prado Jr. é situado como o último autor da famosa tríade de historiadores intérpretes do Brasil a publicar sua obra: Os homens que estão hoje um pouco para cá ou um pouco para lá dos cinqüenta anos aprenderam a refletir e a se interessar pelo Brasil sobretudo em termos de passado e em função de três livros: Casa Grande e Senzala. 9.. que constituem um verdadeiro passeio geográfico. apenas. Quando terminei pela primeira vez de ler Formação do Brasil Contemporâneo. “O significado de Raízes do Brasil”. Caio Prado Jr. interessante e. Antonio Candido. S. de Gilberto Freyre. 1 . sobretudo. sociológico. Raízes do Brasil. de Sérgio Buarque de Holanda. 2 Pode-se dizer que a geração deste autor fechou um processo de “busca” da nacionalidade 1 2 Bernardo Ricúpero. apesar de tudo. publicado quando estávamos na escola superior. quando tive contato pela primeira vez com esse texto. de Caio Prado Jr. vi que a minha opinião destoava do senso comum.INTRODUÇÃO: UM LIVRO Esta pesquisa centra-se em um livro.. geológico. no famoso prefácio de Antonio Candido à edição de 1967 de Raízes do Brasil. tive vontade de viajar por muitos lugares do Brasil. 1995. ainda na graduação: estudar A Formação do Brasil Contemporâneo. em 1996. era visto – e apresentado aos alunos que ingressaram nos cursos de história durante a década de 90 – como autor de um texto maçante. Fascinaram-me sobretudo capítulos como “Povoamento” e “Meios de comunicação e transporte”. p.

respectivamente..iniciado no fim do século XIX pela chamada “geração de 1870”. data de lançamento de Casa Grande e Senzala e Evolução Política do Brasil. observar e estudar todas as regiões que compõem o país. 3 Entre 1889 e 1930. período desta intensa produção historiográfica e literária que engloba praticamente todos os textos de autores brasileiros que nesta pesquisa analisamos. 1976. marcada pela força das oligarquias regionais e pela fraqueza do poder centralizado. Euclides da Cunha e Capistrano de Abreu também têm em suas obras descrições extraordinárias (as de Euclides chegam a ser quase inimagináveis). ao estudar o roteiro das entradas e bandeiras. a Amazônia e sua economia extrativista. as vias de comunicação e transporte. vivia-se a chamada “primeira república ”. Uma data que pode ser tomada como marco para o surgimento de novos parâmetros interpretativos para o Brasil é justamente o ano de 1933. R. a esse respeito. Os autores que passam a surgir então não seguem mais o modo narrativo-factual de estudo da história brasileira. Preto no Branco: Raça e Nacionalidade no Pensamento. com a elaboração da constituição de Getúlio Vargas. mas várias vezes. a 3 Ver. Percorre o Brasil não apenas uma. Thomas Skidmore. Justamente por fundamentar-se do materialismo dialético.. dos seus movimentos no interior da colônia. 2 . levando-nos para um passeio pelos tantos rios do Brasil. e contribui definitivamente para a contestação das linhas vigentes de interpretação da realidade nacional e para a proposição de outras. em Capítulos de História Colonial.J. Caio Prado torna seu texto mais abrangente. Uma vez para tratar da população.: Paz e Terra. outra para descrever a agricultura de subsistência. de Gilberto Freyre e Caio Prado Jr. A economia. descrever. teve tamanha preocupação em dar conta de maneira ordenada. Uma vez para descrever os lugares onde se instalou a grande lavoura. O clima criado pelas agitações sociais do início da década 1930. Apenas três anos mais tarde Sérgio Buarque de Holanda lança Raízes do Brasil. outra vez ainda para descrever as minas. torna-se ainda mais propício para o questionamento da primeira república e de suas estruturas oligárquicas. ele também. A questão agora é a história interpretativa. Capistrano. acaba.. Nenhum autor desta extensa (no sentido temporal – de 1870 a 1942) geração que se preocupou com a compreensão da nacionalidade Brasileira até Caio Prado Jr.

pois são fotos do século XX. editor. E. aparecia levando um grande feixe de cana nas costas. locomovendo-se em jegues. tangidas pelas estradas e cobrindo no seu passo lerdo as distâncias imensas que separam o Brasil. o texto de Formação do Brasil Contemporâneo: colônia. achei incríveis as fotografias de viagens. ao ver uma exposição de fotos. de pessoas expressivas. Há séculos esta cena diuturna se mantém em todo país e neste longo decurso de tempo não se alterou. Em outra foto. na biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (comemorativa dos dez anos da morte de Caio Prado). o herdeiro da dinastia Prado. O texto que nos propomos estudar referese ao Brasil colonial. Caio Prado era um viajante que empurrava seu jipe atolado em palmos de lama. Caio Prado Jr. encontramos fotos de escritores como Sérgio Buarque de Holanda. Os retratos que compunham a exposição correspondem a diversas fases de sua vida. da pequenas cidades do Brasil. se formos historiadores rigorosos. Na verdade. poderiam ressurgir hoje a atravancarem as 3 . é a pecuária pelo menos a mais sugestiva para nossos olhos de hoje. nenhum desses retratos poderia corresponder ao contexto do Brasil colonial. mulatos. etc. feita por alguém que o acompanhava.sociedade. quase todas tiradas pelo autor. as mesmas boiadas que seu primeiro cronista (Antonil) descreve com tão vivas cores. Mas ao ver algumas partes deste documento fotográfico temos uma sensação equivalente à seguinte descrição que faz o autor sobre as boiadas que cruzam estradas: Mas se não a mais grandiosa e dramática [das atividades coloniais] . Mas. Mário de Andrade. a cultura de todas as partes do país aparecem descritas em FBC. Em Alagoas. após o seu estudo intensivo. Antonio Candido. sobretudo. e de outras nem tanto: quase sempre negros. e nem todas podem ser relacionadas diretamente ao objeto de nosso estudo. casebres caindo aos pedaços. escritor. realizando o que só o aeroplano conseguiu em nossos dias repetir: a proeza de ignorar o espaço. gostava muito de tirar fotos de pedras. os habitantes dos casebres. manifestações religiosas de diversas espécies. em meio a tudo isso. idêntica ao passado. feitos a mão pelo autor.. Junto às fotos de conjuntos de rochas na divisa do Paraná com Santa Catarina (década de 40) estão mapas detalhados. Recentemente. e de outros que costumavam reunir-se em sua casa. nestas boiadas que no presente como ontem palmilham o país. estradas. Porque ela ainda aí está. A lógica do materialismo histórico é assim posta em prática especialmente no contexto da sociedade Brasileira. festas populares. Tirava também fotos de procissões. compreendi melhor este lado descritivo de sua obra que já chamara a minha atenção..

SP: Ed. FBC .. feito tantos trabalhos de base ligados ao PCB. Sabemos que em 1942 ele já tinha viajado à URSS. mesmo de luxo. p. 11) Há também tantos outros aspectos de sua vida que certamente influenciaram a reflexão feita pelo autor na obra que nos propomos estudar. 5 Após a movimentação social de 1930. os casebres. e lançado. contidos na primeira parte de História e Ideal – Ensaios sobre Caio Prado Jr. em 1934. seus feitos. Unesp. em 1933. ingressando no Partido Comunista.estradas para maior desespero dos automobilistas: estes não notariam diferença. Caio Prado se volta para o comunismo. S. bem como os livros tomados como básicos para a pesquisa são citados no próprio corpo do texto. Muitos insights para sua obra o autor pode ter tido em suas viagens pelo Brasil colonial de 1940. as pessoas. e mesmo as cidades mortas dos retratos tirados pelo autor bem poderiam corresponder a cenas descritas por um viajante no início do séc. diminuindo–lhes o atraso e a miséria”. podendo levar uma vida de conforto. sua vida. 187)4 A visão de certas fotos permitiu-me visualizar certas descrições encontradas em Formação do Brasil Contemporâneo . lutar por objetivos que considera melhores para a vida do país e do seu povo.P.cit.. Evolução política do Brasil. (CPJ. através do qual. um acentuado cunho colonial. op. p. Em passagem anterior à citada acima. sido preso e solto. URSS. ingressado no partido comunista5. 24a reimpressão. em particular as de classe. também. as referências às d emais obras aparecem em notas de rodapé. 1996. Em 1942 já havia ele se formado em direito no Largo de São Francisco. SP: Brasiliense. lançado. (Caio Prado Jr. 1989. Salvo em alguns setores do país. não completamos ainda hoje a nossa evolução de economia colonial para nacional. torna-se vice presidente da ALN no estado d e São Paulo e. tradicional. um mundo novo. 4 Neste trabalho. ainda conservam nossas relações sociais. XIX. 6 Muito interessantes são os relatos sobre Caio Prado. Formação do Brasil Contemporâneo. para facilitar a leitura. à fronteira da França com a Espanha (atuação de solidariedade aos refugiados da guerra civil espanhola) e que já tinha viajado.. elevando-os em todos os sentidos. diz Caio Prado sobre as relações sociais do Brasil contemporâneo à sua época: Numa palavra. sabe-se lá para quais lugares perdidos do Brasil6. optamos por um sistema não usual de referências: a obra de Caio Prado. 4 . No terreno social a mesma coisa. em 1935. proporcionando–lhes melhores condições de progresso e de existência. Como as boiadas que permaneceram as mesmas descritas por Antonil. em 1947. Caio Preferiu sair a campo. Maria Ângela D’Incao. deputado estadual. Um exemplo:“ Membro que é de família abastada. após o trecho selecionado para citação. que leva Getúlio Vargas ao poder.

A idéia fundamental que justifica este conceito é a distinção entre o que teria sido o “real acontecido” – a passeidade – e o discurso – ou texto – elaborado pelo historiador sobre aquela passeidade. seu texto. p. por exemplo. Paulo T. produzida por historiadores (principalmente no séc. não pretendemos aqui. com relação a FBC . à forma como se entende. O que faremos é apenas uma escolha de ênfase. Nosso objetivo aqui é tratar o texto histórico em questão em diferentes níveis de abordagem. no entanto. A primeira consideração a fazer é que trabalharemos com o texto de Caio Prado enquanto uma narrativa histórica. op.p. Por outro lado. cit. colocálo entre tantas outras narrativas. o modo através do qual o texto his tórico é elaborado. Vega/Passagens. Esta é adotada principalmente por Hayden White. Lisboa. ao denominar o texto histórico de “narrativa”. porém. in Maria Angela D’Incao. 1992 . Este. De tal forma que não basta afirmar: deixemos o escritor. é a obra específica. principalmente nos intermeios entre história e literatura. como as narrativas literárias. Para tanto. XIX) preocupados em “narrar” fatos ou vidas de personagens famosos das histórias nacionais. Narrativa histórica remete. por si só. que é impossível excluir o autor do texto 7. contém já idéias. A este texto. ao estudar uma ano apenas (1945) de seus diários políticos – fazendo. é um autor marxista. portanto. 5 . inicialmente. Note-se: narrativa histórica não equivale em momento algum a história narrativa. preocupado com os porquês. referências intertextuais e metáforas – os três elementos que dentro do texto pretendo trabalha r – suficientes para nos ocuparmos por muito tempo. (Michel Foucault. um recorte. Caio Prado Jr. Nosso objetivo. 39) provavelmente tão problemáticas como a individualidade do autor. O que é um autor ? Ed. 32) 7 Michel Foucault tem uma interessante passagem sobre esta questão: Apercebemo-nos da crescente quantidade A palavra “obra” e a unidade que ela designa são de questões que se põem a propósito da noção de obra. Iumatti (1998).A proposta desta pesquisa volta-se. segundo o qual a função do historiador seria simplesmente criar uma (Heitor Ferreira Lima. com a interpretação da história do Brasil. É lógico. deixemos o autor e estudemos a obra em si mesma. para o texto de Formação do Brasil Contemporâneo. uma escolha por uma pesquisa voltada para a vida política de Caio Prado – obteve material suficiente para escrever um livro. Este termo surge de uma longa discussão que vem sendo feita no campo das ciências humanas. denomina-se narrativa histórica. sim. hoje. e jamais produziria uma história simplesmente factual. gostaríamos de expor algumas reflexões que consideramos pertinentes acerca da idéia de texto histórico.

etc. Todavia. existem sem dúvida diferenças metodológicas e de procedimento muito importantes entre estas duas modalidades. que opera como matéria prima para o historiador. uma essência por trás das coisas. p. e o texto que Caio Prado Jr. respectivamente. como a história preserva a sua ambição de construir um conhecimento científico. para chegar ao acontecimento. cit. Os sertões . uma reelaboração competente desta chamada passeidade. que não nos permitem igualá-las: O historiador parte do fato.Este pressuposto de certa forma atenua a clássica oposição entre documento/fato/ verdade e ficção/imaginário. RJ: Editora Estas reflexões em boa parte foram extraídas da apresentação do livro Discurso histórico e narrativa Literária - Paz e Terra. na literatura. dos métodos de pesquisa e dos critérios de cientificidade aplicados a estes. fotos. construir a sua versão. Ou seja. fonte. conjunto de relações e fatos interativos. que consiste nas operações específicas da disciplina histórica e acabam fetichizando o fato 8 In Georg Lukács. é dependente dos arquivos. esta não carrega consigo tão pesada herança. No caso da literatura. o qual visa. para compor o contexto. documento. in Introdução a uma estética marxista e realismo crítico hoje. Este enfoque permite-nos leituras cruzadas entre narrativas históricas e literárias. A rigor.. Além disso. Por outro lado. ou parte de uma tessitura contextual. A narração distingue e ordena. O que permite estas leituras cruzadas. sob a forma de representação já criada. pode have r objetivos comuns a estas ordens narrativas. 6 .versão plausível. Ou seja. por sua vez. que aqui estudamos. A descrição nivela todas as coisas. Um exemplo da possibilidade de comparação entre narrativas situadas nos campos literário e histórico. A narrativa permite a busca de um sentido. dado que o documento é sempre uma representação criada pela percepção de um ser humano acerca de determinada passeidade.8 Seja do ponto de vista literário ou histórico.) são também eles sempre representações “de algo que já foi”9. a narrativa abre a possibilidade de estabelecer uma transcendência com relação à simples descrição da vida. o “fato” preexiste à construção da narrativa histórica. 67 9 Jaques Leenhardt e Sandra Jatahy Pesavento (op.. e o que permitiria manter esta distinção? Para Georg Lukács. os dados que remetem aos fatos do passado.). tomado como acontecimento singular. quadros. envolve o texto de Euclides da Cunha. “Narrar e descrever”. com os quais trabalham os historiadores (documentos escritos. os “conteúdos” dos fatos que lhe dão coerência e significância são “inventados” ou “descobertos” pelo historiador.

etc. pela poesia. a criação do fato é o resultado da escritura. “um sentido” sobre um assunto do qual trata. que ao mesmo tempo em que existem textos literários que se baseiam em uma ampla pesquisa documental. Vejamos uma reflexão interessante de Roger Chartier sobre o tema: O livro sempre visou instaurar uma ordem. – quanto o conteúdo de seu texto geralmente visam instaurar uma ordem. 7 . Pesavento (orgs. no entanto. 1998. e sua relação com os traços da passeidade é mais liberada. essa liberdade sabe como se desviar e reformular as significações que a reduziram. imagens. Todavia. A narrativa literária. sempre e para todos. ou ainda a ordem desejada pela autoridade que o encomendou ou permitiu sua publicação. a ordem no interior da qual ele deve ser compreendido. um significado. MLAG]. Primeiro. não exige a “pesquisa documental” [à exceção da narrativa naturalista. a narrativa literária se permite trilhar outros caminhos referenciais que passam pela estética. mas não dispensa o conhecimento/leitura daquele conjunto de informações que lhe dará para a contextualização da narrativa.J.11 O trabalho que nos propomos fazer sobre Formação do Brasil Contemporâneo apropria-se desta liberdade de leitura de que nos fala Chartier. 11. pela ordem de seus capítulos. Leenhardt & S. Mas. mantendo-a porém sempre limitada aos indícios que 10 Jacques Leenhardt & Sandra Jatahy Pesavento. A esta altura da minha introdução. entre os limites transgredidos e as liberdades refreadas não é a mesma em toda parte. no caso. Essa dialética entre imposição e apropriação. vamos partir do texto em seu nível mais material – como conteúdo de um livro. essa ordem de múltiplas fisionomias não obteve a onipotência de anular a liberdade dos leitores. 10 Vale lembrar. existem narrativas históricas que não se valem de outra documentação que não textos literários. in J. Tanto o objeto livro – pela sua capa. talvez um pouco vago – que compõe um contexto de referência relativamente coerente. “Apresentação”. típica da atividade do historiador e que se encontra na base do seu trabalho. Mas a via que está pressuposta no texto não é aquela necessariamente seguida por seu leitor. como afirma Ricoeur. Campinas: Editora da Unicamp. gostaria de fazer algumas reflexões sobre as possibilidades de análise do texto histórico.Na narrativa literária. p.). a partir de exemplo de Émile Zola ao definir procedimentos a serem adotados na elaboração do romance experimental). Mesmo limitada pelas competências e convenções. Discurso histórico e narrativa literária. fosse a ordem. como algumas narrativas naturalistas (e veremos isso mais adiante. e o ponto de partida é um conjunto de informações – amplo.

Logo depois. não se tem notícia de no vas alterações. Procuramos também autores cujos textos precederam o seu e que apresentam em suas obras idéias. pertencente a Caio Prado Jr. XX – como veremos no segundo capítulo do presente trabalho –. Karl Marx. estilos muito semelhantes e provavelmente aproveitados por nosso autor em sua obra. Examinei também o exemplar de 1942. Brasília: Editora UNB. historiográficos e mesmo literários sobre a nacionalidade Brasileira. pela editora Martins Fontes. corresponde à 24a. p. O projeto original do autor teria sido a publicação de uma obra em quatro volumes. FBC é um livro privilegiado para a pesquisa que nos propomos fazer. Não discutiremos. certas passagens de Caio Prado podem ser cotejadas com obras desses autores (que esperamos estar dentro do leque de apropriações possíveis do texto de Caio Prado Jr. este – colonia – seria o primeiro. assim como Sérgio Buarque de Holanda. viagens. tais como Capítulos de História Colonial. 8. sai a segunda edição. De qualquer modo. etc. Contém referências e respostas para a maioria das questões colocadas por estas grandes obras. É um 11 Roger Chartier. Sabemos que o autor fez pequenas alterações em seu texto para a segunda edição. como registros de paróquias. reimpressão. Os Sertões. A de 1996. por uma nova editora que então surgia: A Brasiliense. não é citado na bibliografia de FBC . e o exemplar de 1945. 8 . por exemplo. indica apenas o número de reimpressões.nos oferece o texto de possibilidades a serem exploradas. mas Caio Prado levou adiante seu projeto de discutir as etapas posteriores da história do Brasil (logo em 1945 lançou História econômica do Brasil. que continua editando a obra. esta obra de Caio Prado encontra-se em posição temporal privilegiada. Casa Grande e Senzala. por exemplo. com a qual trabalhei a maior parte do tempo. apenas as referências diretas. Dialoga com quase todos os autores da primeira metade do séc. 1994.). dos quais. Como sabemos. Por ter sido ser lançado após a maioria destes textos ensaísticos. os autores efetivamente citados por Caio. que em março de 2001 figurou como parte da exposição sobre o autor localizada no saguão da biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. No entanto. A ordem dos livros. em 1945.) A Brasiliense. relatos de governadores enviados a Portugal. ao mesmo tempo que recorre também aos cronistas e a muitas fontes primárias sobre a história do Brasil. Depois. passagens. Formação do Brasil Contemporâneo: colônia foi editado pela primeira vez em 1942. Formação do Brasil Contemporâneo permaneceu como volume único.

que Freyre. o mesmo mergulho poderíamos dar para a frente. no sentido de que vem para edificar o texto de Caio Prado. Iniciei. sobre uma larga base. Não fui exaustiva no meu mapeamento de autores e textos. Por ambas as razões um grupo de autores influenciados por Prado ou com preocupações semelhantes – freqüentemente apelidado “a Escola Paulista de Sociologia” – procurou aprofundar sua análise do escravismo. havia a preocupação em condenar a exploração colonial e os males sociais originados na “dependência econômica”. 1999. assim. a Escola Paulista de Sociologia. na devassidão geral de todos os grupos sociais obedecia a uma estratégia política: contribuía à condenação do legado socioeconômico do sistema colonial português.. Um destes grupos. Slenes. sua teoria própria sobre o Brasil. Poderíamos. p. Na senzala uma flor . de teorias como O sentido da Colonização. Vejamos esta passagem do livro Na senzala. 30. uma pesquisa neste sentido. e defendendo. principalmente na década de 50 e 60. uma flor. quando e a quem esta obra serviu de referência. publicado em 1999. idéias e discursos no texto de Caio Prado. tentando mapear as muitas leituras que foram feitas de Formação do Brasil Contemporâneo. insistia em defender.livro monumental. e almejava uma maior autonomia dos centros hegemônicos. usando a terminologia de Jacques Le Goff. 9 . os autores que concordavam com Prado tinham mais motivos ainda para adotar essa estratégia. apesar das ambigüidades de sua análise. adota o ponto de vista sobre escravidão e exclusão da ordem escravista presente em FBC como referência para muitos de seus trabalhos. em seguida. Este agora elogiando em tons muito menos matizados “o mundo [de convivência racial harmoniosa] que o português criou”. preocupação essa que ganhou ainda mais fôlego. sua 12 Robert B. Do mesmo modo que mergulharemos nas influências de estilo. RJ: Nova Fronteira. Posso no entanto apontar aqui alguns dos principais textos e institutos de pesquisa que se valeram. foi o então sociólogo Fernando Henrique Cardoso: De fato. identificar como. Slenes. a política salazarista na África portuguesa. na última fase da minha pesquisa de iniciação científica. De outro. De um lado. inclusive. que centrava-se na questão da identidade nacional vista do ângulo marxista de Caio Prado Jr. enfatizando como ele a marginalização dos homens livres pobres e a vitimização do escravo por um sistema econômico nefasto. na medida em que o Brasil se industrializava. havia o crescente prestígio de Casa Grande e Senzala e de seu autor. que descreve bem a medida da importância da obra de Caio Prado para este grupo: A ênfase de Prado na dissolução moral do escravo e. ao lado de Florestan Fernandes.12 Um dos expoentes da Escola Paulista de Sociologia que se baseia nesta análise de Caio Prado. Nas décadas posteriores. uma breve história da leitura desta obra. de Robert W.

Sua obra. Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777 – 1808). um ser cuja essência está fora dele. Outro importante expoente deste grupo de autores que escrevem suas obras influenciados por Formação do Brasil Contemporâneo é Fernando A. Cresce a idéia de que. em seu artigo (1978) “O tempo das ilusões”. Maria Sylvia de Carvalho Franco. a autora explicita que tal idéia é a gênese da própria noção de subdesenvolvimento: A nação subdesenvolvida é. enquanto o sentido da nação estiver voltado para o exterior. por este meio. Novais. 10 . um ser social igualmente alienado.discussão dos homens livres pobres na sociedade escravista (.. 30. A essência brasileira estaria fora do Brasil e. Essa análise também devia muito à de Prado. o autor analisa o “conjunto das medidas que configuram a política colonial do fim do séc.Slenes. p. no caso as nações desenvolvidas que detêm o comando de sua economia e. cit. nossa essência não nos pertencerá. relativamente ao Brasil”. portanto. “ O tempo das ilusões”. é possuída por outros. Neste Livro. XIX em Portugal. XVIII e início do séc. in Ideologia e mobilização popular . dirigido por Celso Furtado. influenciaria diretamente muitos dos textos marxistas e nacionalistas durante as décadas de 50 e 60. p. como Caio Navarro e Álvaro Vieira Pinto.. para o comércio externo que suga toda a força produtiva do país. deveria ser antes de mais nada recuperada pela nação.B. apresenta uma série de idéias e termos comuns à obra de Caio Prado Jr. Ao falar de Álvaro Vieira Pinto. op. 1978. alguns pertencentes ao Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB). o de seu destino14 Esta interpretação de cunho nacionalista da obra de Caio Prado influencia diversas linhas de autores marxistas. indica que seu objetivo era o de fazer uma análise estrutural das relações sociais no escravismo. por sua vez. 13 O Sentido da Colonização. portanto. que fora orientado em sua pesquisa por Florestan Fernandes.. nos explicita uma relação importante: o Sentido da Colonização influencia enquanto teoria todo o discurso que se forma então sobre o subdesenvolvimento. Maria Sylvia de Carvalho Franco. produzidos por exemplo pelo ISEB e pelo CEPAL. Além de basear-se no mesmo recorte temporal proposto 13 14 R.). 174.

sobre o qual poder-se-ia desenvolver outra pesquisa. no entanto. Pretendo assim. 2a. Novais desenvolve a idéia de que o Brasil surge enquanto nação durante o processo de dissolução do antigo sistema colonial (expressão corrente em FBC). Por fim. Na segunda parte de minha pesquisa. por enquanto. realizar uma análise da intertextualidade com relação a Formação do Brasil Contemporâneo. o objetivo é mapear alguns dos principais autores que influenciam o texto.. Ed. Analisarei ainda. em FBC. SP: Ed. e de que a política que se desenvolvia com relação a colônia era uma resposta aos problemas efetivos que a manutenção e a exploração do ultramar representavam à metrópole15. E tais problemas decorriam de reajustes estruturais que ocorriam então no conjunto do sistema colonial. Buscarei entender o significado que o autor atribui a este termo e investigar quais podem ter sido seus referenciais textuais. Hucitec. trabalhar uma idéia central na teoria de Caio Prado Jr. e a maneira de lidar com a pesquisa historiográfica de Caio Prado Jr.por Caio Prado Jr. a idéia de Formação .. Este é sem dúvida um assunto interessante. 1983. Meu objetivo fica. é apenas citar algumas das principais leituras e interpretações de Formação do Brasil Contemporâneo. 15 Fernando A. Nosso intuito aqui. assim como muitos autores desta geração. nesta parte. a terceira parte é dedicada a uma busca do estilo no texto deste autor. Procuro em minha pesquisa desenvolver três aspectos com relação esta obra: primeiro. elabora metáfora próprias interessantes. 11 . e deixa ainda muitas marcas de seu estilo em comentários perdidos no meio de parágrafos e notas de rodapé. Novaes. a relação formação/essência a partir da emergência no interior da obra das muitas categorias de desclassificados sociais no sistema colonial. a teoria. A obra de Novais desenvolve muitos outros aspectos da questão. Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777 – 1808). restrito a FBC. Caio Prado.

12 .

Não que ele. sua explicação que tudo resolvesse. e como se desenvolve o Sentido da Colonização.Parte 1 Os sentidos de Formação do B rasil Contemporâneo O ponto c entral desta pesquisa não é uma análise exegética da obra de Caio Prado. mais tarde ouro e diamantes. começa a desdobrar-se socialmente em outros sentidos. também não buscasse sua verdade. (Caio Prado Jr. Buscou. por ser esta. Assim. alguns outros gêneros.. Por ora. 13 . e principalmente o que é. op. da monocausalidade explicativa que guia tantos autores preocupados em logo encontrar sua verdade unívoca. tabaco. Os desclassificados do ouro. p. começam a surgir setores sociais que não atuam exatamente de acordo com o que deveria ser a ordem interna da colônia. Caio Prado foi muito além. uma obra que à medida que foi sendo escrita superou os objetivos de seu escritor e cujas conclusões foram além das previsões apresentadas no seu capítulo inicial. podemos dizer resumidamente que é o Sentido da Colonização aquilo que guia todo o empreendimento colonial: Se vamos à essência da nossa formação veremos que na realidade nos constituímos para fornecer açúcar. expressão que o próprio autor traz à tona. Não é também uma análise restrita à forma como o historiador elabora seu texto. em sua obra.. sim. “O sentido da colonização”.cit. depois algodão e em seguida café para o comércio europeu. teve de render-se ao fato de que o Sentido da Colonização16. não interessam diretamente os processos de análise lexical e sintática a partir dos quais se costumam caracterizar as opções estilísticas de um autor. 31). no momento da história da colônia que ele se propõe estudar. enquanto autor. Nada mais que isto. ou melhor. sem dúvida. e as fazendas de gado não escravistas e prósperas do sul de Minas são os exemplos das contradições que 16 Ao longo deste trabalho. procuraremos explicar em detalhes a teoria caiopradiana. Mas como historiador que sobretudo foi.

marcando profundamente a formação do Brasil – se pensarmos na formação como algo contínuo. e indaguemos apenas daquelas “forças” a que me referi acima. Graças aos novos elementos que passam a fazer parte da formação social que se configura no Brasil ainda colonial do início do século XIX – eles mesmos resultantes também deste sentido – a direção interna da nossa formação deixa de obedecer apenas aos interesses da metrópole. que para sempre restarão impressas na “fisionomia nacional”. e que são o motor de uma transformação. mas no conjunto de caracteres e elementos econômicos. mas que trabalham contra o sistema colonial. No sistema colonial desdobra-se a tensão 17 É esta a impressão que termos ao ler a “Introdução” e o capítulo inicial. no interior da obra. não no sentido restrito do regime de colônia.358) O sistema colonial é um conceito importante na compreensão da noção de formação nesta obra. pensando-o a partir de uma provável genealogia – textos que possivelmente colaboraram com a formação do conceito de Formação utilizado pelo autor.se desdobram no interior do Sentido da Colonização. que desenvolve-se enquanto tradução social do Sentido da Colonização. e que irão também influenciar a formação. embora a maior parte da sociedade organizada ainda existisse simplesmente para servir aos interesses da metrópole. cujo sentido e direção não podemos ainda conhecer. Pretendemos também refletir sobre a articulação. Ele é a concretização do sentido em instituições sociais como a escravidão. pintada com cores tão vivas nos capítulos finais. que nascerão as forças que não atuam d iretamente voltadas para os interesses da metrópole. A formação se desenvolve a partir do sentido e seus des-sentidos17 e abriga a relação entre a desagregação da sociedade colonial. de certo modo. movem nossa formação: Abstraiamos portanto aqui. Note-se que emprego esta expressão.. são as tensões que. do que se passaria num futuro que por ora ignoramos. Mas é também deste sistema colonial. (CPJ. p. Ou seja. Ali. e inicialmente. “sistema colonial”.. vemos o 14 . entre a Formação e esta dialética que vemos emergir do Sentido da Colonização. op. sociais e políticos que constituem a obra aqui realizada pela colonização que deram no Brasil. O que pretendemos analisar inicialmente é o conceito de formação dentro da obra de Caio Prado. e o surgimento de novas forças sociais. cit. de subordinação política e administrativa à metrópole. Tal sistema pode-se traduzir como um intermeio entre o sentido e a formação. “Sentido da colonização”.

cit. Arantes caracteriza inicialmente a idéia de formação: um conjunto de linhas evolutivas autor falar de uma força constante. O início do séc. a formação vincula-se sempre ao sentido da colonização. no primeiro ensaio do livro Sentido da Formação. E. Apesar disto. Paulo Eduardo Arantes.todo intelectual brasileiro minimamente atento às singularidades de um quadro social que lhe tira o fôlego especulativo sabe o quanto pesa a ausência de linhas evolutivas mais ou menos contínuas a que se costuma dar o nome de formação. p. A formação aí colocada irá desdobrar-se em algo novo.. 11. que parece manter-se praticamente incólume até a contemporaneidade.. Arantes. 15 . e podiam normalmente desenvolver suas atividades. XIX seria uma síntese da história colonial. é notar como Paulo E. (CPJ.. Mas formaram -se outras categorias que não eram de escravos e não podiam ser de senhores. op. Lógico. expõe melhor aquilo que a constituiu daquele modo – O famoso Sentido da Colonização. no momento em que deixa de ser colonial.dialética entre o Sentido da Colonização e a formação. seus contingentes foram crescendo. 18 Paulo Eduardo Arantes & Otília B.. RJ: Paz e Terra.360) O momento histórico analisado por Caio Prado seria justamente esse. Sentido da Formação... pretendemos aos poucos configurar este conceito de formação da maneira como opera dentro da obra. tudo ia bem. intitulado “Providências de um Crítico Literário na Periferia de Capitalismo”. onde os elementos do sistema colonial que começam a entrar em crise convivem com novas categorias sociais. e resultava do mesmo sistema da colonização. o que temos que notar antes de mais nada é que no interior do texto de Caio Prado...18 Não entraremos aqui no mérito da continuidade ou não de tais linhas (nosso objeto de análise é um texto onde o autor nos aponta seja continuidades. p. em que deixam de existir apenas senhores e escravos. 1997. seja rupturas). crescimento que também era fatal. Para elas não havia lugar no sistema produtivo da colônia. Assim. O que achamos relevante. ao mesmo tempo em que continuam existindo senhores e escravos como principal setor produtivo da colônia. Todos os povoadores do território brasileiro tinham seu lugar próprio na estrutura social da colônia. F. desenvolve justamente uma especulação acerca daquela questão: . no ponto em que a formação do Brasil deixa de seguir apenas uma linha evolutiva: Enquanto houve apenas senhores e escravos.

dotar o meio gelatinoso de uma ossatura congênita que lhe permitisse a evolução. Mas. objetivaria a evolução social do Brasil.. Alguns exemplos: Formação da literatura brasileira. Ora. 20 Tal experiência intelectual seria justamente a de. pode ser entendida a formação de Caio Prado como algo que permitiria. ou à matriz de onde desdobram-se todas elas: a linha que determinaria exatamente o “sentido de tal formação”. e que lançam suas diversas teorias explicativas do Brasil por volta da década de 30 (no recorte de Arantes. 16 . Ao contrário. na obra de Caio Prado não é com a ossatura torta de um sistema que nos remete sempre ao exterior que teria se constituído nossa sociedade? O Sentido da Colonização. é a característica em torno da qual constitui-se a sociedade colonial. mas que teria de ser revertido. Para tanto. Formação Política do Brasil. pensando no caso de Formação do Brasil Contemporâneo.E. curiosamente todas as apontadas por P. faz parte. até a década de 60). títulos e subtítulos aparentados não se pode deixar de encarar como a cifra de uma experiência intelectual básica. não seria uma ossatura que permite a evolução social. Formação econômica do Brasil. enquanto linha evolutiva. E. ou melhor. Arantes tece sua justificativa para o uso. e a formação social que em torno deste sentido cresceu torna-se grande. podemos associar justamente o Sentido da Colonização. Neste sentido. Formações Econômicas Pré- 19 Fora obras como Casa Grande e Senzala e Raízes do Brasil que também participam intensamente da temática da formação. à principal destas linhas. de qualquer modo. em várias obras. através dos ensaios interpretativos do Brasil.. na explicação de Caio Prado. Arantes. e quem sabe pronta para superá-lo. posteriores a FBC. que utilizamos também como espécie de introdução ao tema. seria algo que guia nossa formação. Nossa busca na primeira parte desta pesquisa terá justamente o objetivo de mapear possíveis referenciais teóricos utilizados para o desenvolvimento específico da idéia de formação de Caio Prado no contexto de Formação do Brasil Contemporâneo. redirecionado enquanto linha evolutiva.19de tal conceito justamente na idéias de que Tamanha proliferação de expressões. O que o autor deste ensaio nos ressalta é a importância do conceito de formação para a geração de autores da qual Caio Prado Jr. temos uma série de obras que também levam a formação no título. selecionamos três textos que consideramos relevantes para o cotejo com a obra de Caio Prado: A Teoria do Romance de Georg Luckács.mais ou menos contínuas.

Capitalistas. 12 17 . 20 Paulo Eduardo Arantes. op. de Joaquim Nabuco.. p. cit. e Minha Formação. de Karl Marx (e o prefácio de Eric Hobsbawm ).

É claro que não se deve hipostasiar a forma. Os trechos entre aspas são passagens do referido autor: De fato. de Macedo escreve este posfácio à edição de 2000 em português de A Teoria do Romance O texto é uma versão modificada de sua dissertação de mestrado defendida em 1997 na USP. transformando-a em realidade única e imediata. por seu título – Formação do Brasil Contemporâneo –. no posfácio à Teoria do Romance de G. 31). em uma obra. mas não a via que a ele conduz. Não por acaso. Nossa proposta consiste. “capítulos”. Lukács. as flutuações. portanto. determina a cadência. sendo este livro.apenas o objetivo. pelo próprio título. pretende-se pensar a relação entre sua escolha por este conceito e a sua forma estilística textual e historiográfica.CA P ÍT U LO 1 AS FORMAÇÕES DE CAIO PRADO JR. Isso não seria mais que a imagem em negativo de uma riqueza de conteúdos adversa a 21 José Marcos M. uma homenagem do autor à forma (ou pelo menos uma evidência do valor atribuído por Caio Prado a este conceito). uma opção diferente de outras metáforas utilizadas por outros autores como “raízes”. Pretende-se assim. o porte denso ou delgado. Comecemos por essa reflexão importante de José Marcos Mariani Macedo21. etc. o ritmo. inicialmente.1 Georg Luckacs: A forma e a perfeição Gostaria de iniciar minha análise da obra de Caio Prado Jr. Pensar em termos de formação é uma escolha quase filosófica do autor. o autor intitula sua obra Formação do Brasil Contemporâneo: colônia. ordena num todo fechado a vida nela contida como matéria. “é a forma que . 18 . ao mesmo tempo. Iremos refletir sobre a escolha do autor pela idéia de formação como chave para compreensão do Brasil. 1. sedimentada em obras nas quais o ambiente mal arejado deixa entrever apenas os andaimes da estrutura armada com rigor . efetuar uma análise da idéia de formação em Caio Prado Jr. em t rabalhar a forma do texto juntamente com seu conteúdo. p. a dureza ou suavidade dessa vida” (ZThL. Esta é a primeira referência a uma idéia fortíssima que perpassa boa parte da filosofia e da história que se produz no final do século XIX e início do século XX.

cit. Por isso com exagerada freqüência ele conduz. Posteriormente à idéia de formação. Ed. Luckacs lança A Teoria do Romance originalmente como um artigo na revista Zeitschrift für Ästhetik und Allgemeine Kunstwissenschaft em 1916. Posfácio e Notas José Marcos Mariani de Macedo. não deixará de perceber que ele se forma de uma linha mestra e ininterrupta de acontecimentos que se sucedem em ordem rigorosa e dirigida sempre numa determinada orientação. determina a cadência em que esta vida traduzida em palavras deve desfilar. Trad. um “sentido”.) 22 23 José Marcos Mariani Macedo. De um lado. O texto é publicado em 1920 como livro. apresenta-se o sentido no capítulo central. 34. A Teoria do Romance. (Georg. No entanto. “O Sentido da Colonização”. como veremos a seguir. publicado junto com esta reedição brasileira. como um molde reconstituído depois do gesso já pronto. 2000. Num prefácio à edição de 1962. 19 – grifo meu. exploram a forma – podem ter servido de inspiração na elaboração do conceito de formação na obra que estudamos). (CPJ. op. Mas a relação inversa também pode ser notada. tal não constitui empecilho para que a forma seja apreendida destacada de seu conteúdo. a formação está no título. na essência das formas literárias (.. Quem observa aquele conjunto desbastando-o do cipoal de incidentes secundários que o acompanham sempre e o fazem muitas vezes confuso e incompreensível. mas no conjunto de fatos e acontecimentos essenciais que a constituem num largo período de tempo. A formação do título de Caio Prado é uma chave preciosa para o entendimento de seu modus operandi. Na passagem a seguir. precisamente em contextos de grande relevância. Ele buscava uma dialética universal dos gêneros fundada historicamente. Só uma década mais tarde me foi possível – já em solo marxista é claro – encontrar um caminho para a solução. Ao mesmo é a forma que dá o ritmo.. Serve justamente para dela se apreender uma cadência. o que vemos é uma relação mútua. são as formas que derivam deste sentido: Todo povo tem na sua evolução. (Lukács é um autor que possivelmente pode ter sido lido por Caio Prado Jr.. ou melhor. um certo “sentido”. por falta de recipiente apropriado. uma ordenação da vida nela transcrita.13) 19 . Lukács23 é. o autor critica sua própria obra: O autor da Teoria do Romance não vai tão longe. um ritmo. de FBC . e suas definições – ao lado de outros autores que. sendo identificada para o leitor como o objetivo central da obra.. p. SP: Livraria Duas Cidades. p. op.. no entanto permanece muitas vezes extremamente abstrato. Em FBC .todo tipo de limitação. 176. G. como já foi apontado. cit. quando o autor já havia ingressado no Partido Comunista da Hungria (1918). que sente a forma como embaraço e entorna seu material.) Seu método. Lukács. com relação à obra. Este se percebe não nos pormenores de sua história. a formação opera como a “forma” da citação acima. desvinculado das realidades histórico -sociais concretas. baseada na essência das categoria estética s. 22 A idéia de forma em G. a construções arbitrárias. p. vista à distância. Neste sentido.

onde a imagem torna-se desfocada quando nos aproximamos muito do objeto a ser retratado. um intuito de revelar. escolhiam um ângulo. acompanhando a missão artística francesa (1816) organizada por Joachim Lebreton. por outro lado.Primeiro Caio nos apresenta a idéia de que da visão à distância da evolução de um povo decorre a percepção de um sentido. impressiona a mulher do senhor de engenho com sua roupa de gola enorme que caía ombro abaixo. Rugendas. Debret. Era a “fotografia” pictórica. e Thomas Ender. O retrato. o recurso ao retrato enquanto arte pictórica teria. XIX para fixar imagens. Até nas cenas caseiras. XIX. Viagem Pitoresca através do Brasil. integrando. enquanto arte pictórica. arte tão apreciada pelo nosso autor. sua forma. as atitudes. 1827-1835. todo um clima peculiar daquela sociedade – que certamente impressionava o olhar destes europeus. esta característica 24 Johann Moritz Rugendas. presentes em Viagem pitoresca através do Brasil são exemplos dessa representação pictórica. os seus contornos tornam-se bem definidos quando escolhemos a distância certa para retratá-lo. Rugendas chega ao Brasil em 1821. no início do séc. desde a colônia. paralisavam cenas no auge de seu movimento. a ponto de muitas das cenas serem provavelmente exageradas – era captado por estes viajantes. Thomas Ender e inúmeros retratistas europeus. o objetivo de ver algo com algum distanciamento é poder perceber de maneira mais definida seus contornos. muitos deles alemães. foi o processo utilizado desde os viajantes europeus que trilhavam o Brasil do início do séc. impressionam as crianças nuas. Antes dele chegam Jean-Baptiste Debret. “carregadores de água” ou “caçada na mata virgem”. recortar cenas no emaranhado das ruas brasileiras ou mesmo no emaranhado da Mata Atlântica. fazendo longas viagens pictóricas. em 1817. futura imperatriz do Brasil. uma espécie de modo de ser particular que se desenvolvia no Brasil colonial. acompanhando expedições como a que o príncipe Maximiliano empreendera. Assim. Enfim. Vemos principalmente nas cenas da vida cotidiana das casas grandes e seus terreiros. e faziam seus riscos. O sincretismo e as danças das festas religiosas que se desenrolavam nas fazendas e nas cidades muito impressionara este viajantes. Ora. É como na fotografia. Ilustrações como “jogo de capoeira”. retratadas “em tão vivas cores” por Rugendas24. através da arte pictórica. Estiveram aqui. que desenhando escravas com corpos dignos de Michelangelo. 20 . a comitiva da arquiduquesa Leopoldina. um dos principais meios de se elaborar e explorar o real. o clima.

Vale também ressaltar a preocupação de Rugendas em captar o movimento dos elementos constitutivos desses espectros de formas. climas e tensões da sociedade colonial: Johann Moritz Rugendas. Cena rural. a multiplicidade de caracteres humanos vem intercalada à multiplicidade da Mata Atlântica e à multiplicidade das formas que vemos nas montanhas ao fundo. é justamente o que está sendo “fotografado” em Formação do Brasil Contemporâneo. na representação pictográfica que aqui reproduzimos. como fica evidente na representação seguinte: 21 . Este amplo e complexo espectro de formas que povoa o séc.de permitir ao autor captar e retratar no ângulo certo características sutis. Observe-se que. XIX e que tão nitidamente se mostra nas representações pictográficas da época. cenário do que poderia ser a baía de Guanabara.

XIX e selecionar afinal os elementos que deveriam aparecer em primeiro plano no seu retrato. Caio Prado. eram elaborados com base em uma seleção de imagens. e que na sua mente havia posicionado da melhor forma para passar a sensação que tivera). No caso então destes retratistas europeus.Johann Moritz Rugendas. estava numa posição privilegiada para retratar uma cena tão poderosa pela multiplicidade de detalhes – o ocaso da sociedade colonial. sua escolha enquanto observadores seria a do momento interessante para ser pintado (ainda que muitos momentos desenhados fossem talvez imaginados. Era justamente a distância histórica de um século que lhe permitiria ver a totalidade do que teria sido o Brasil do início do séc. A distância lhe permitia saber o que teria importantes desdobramentos futuros. e o que estava em vias de deixar de existir. por um instante paralisadas. a essência da colônia. 22 . Jogo de capoeira . E ele. que se baseia freqüentemente no olhar de viajantes do fim da colônia – basta percorrer a bibliografia de FBC – pode certamente ter percebido neste processo pictórico este intuito de seus autores de captar no movimento das cenas. enquanto autor. seu momento estava já escolhido. botânicos. que o retratista vira. elementos sociais. Fala-se aqui de um momento enquanto recorte no sentido temporal e espacial. No caso de Caio Prado.

vemos que é o conjunto de acontecimentos (aqueles que representamos como o objeto em foco) que decorrem do sentido. A questão é que. pois a formação não é algo estático. da visão da formação no momento escolhido pelo autor. consideramos a hipótese de que é da visão à distância que os contornos da grande cena escolhida pelo autor são apreensíveis. e de que tais contornos constituem a formação.A distância histórica serve portanto para que o autor o f calize bem a imagem. incompreendida mas conhecida. Vejamos esta passagem de G. Épico e Drama – entre os gregos. Ser 23 . pois a existência do sentido está vinculada a uma formação a ser modelada. mesmo sendo a essência o epicentro da forma. então toda a ação é somente um traje bem-talhado da alma. são as condições objetivas existentes nestas terras que permitem que a essência se desdobre em formação. como o pai diante do filho pequeno. A busca da configuração da forma nasce entre os gregos. o que afinal diferencia – pela maneira como são utilizados em FBC – estes conceitos fundamentais na obra de nosso autor ? Este paradoxo entre a forma e a essência é uma das grandes questões discutidas por Lukács em A Teoria do Romance. a cena a ser retratada. A forma pode ser relacionada em O mito da caverna. pelos seus contornos e desdobramentos. por seu encaminharse. a busca da forma é um dos objetivos da dialética enquanto método descrito em A República. A escolha do momento certo é fundamental. por que não é também a busca das formas? Anteriormente. quando a divindade que preside o mundo e distribui as dádivas desconhecidas e injustas do destino posta-se junto aos homens. à visão da luz das idéias. então. A forma aqui é posta em questão a partir dos gêneros poéticos – Lírico. A questão com que nos deparamos. ou melhor. Tem uma cadência comum que lhe dá o sentido de seus desdobramentos. Se o foco é a busca dos contornos bem definidos. É o encontro com as possibilidades desta terra que dá vida à idéia essencial da colonização. Lukács: Quando a alma ainda não conhece em si nenhum abismo que a possa atrair à queda ou a impelir às alturas ínveas. Não há como saber qual precede qual. e seus desdobramentos históricos enquanto formas narrativas. Ainda que a idéia de Caio seja exatamente a de que o Brasil forma-se da necessidade mercantil portuguesa (portanto a essência da forma viria antes da forma). Na parte grifada do parágrafo de Formação do Brasil Contemporâneo que selecionamos acima. da linha mestra e ininterrupta. passa a ser a seguinte: O sentido e a formação. E. apreende-se o sentido. Na filosofia de Platão. a essência e a forma. é a forma. para que escolha melhor seu ângulo. o elemento central para a captação da essência.

aliás. Cabem. Todos os aspectos da existência cabem neste verbo. nem todas. cit. e não pode oferecer campo para atividades remuneradoras e de nível elevado. muitas (incontáveis talvez) foram efetivadas. A delimitação do ser está justamente no fato de que. de estudar toda ação que se desenrola numa sociedade como “um traje bem talhado” de seu sentido (afinal. é o sentido um dever-ser. vem associada ao capital mercantil. aventura e perfeição.. o que é o capítulo “O Sentido da Colonização”?). É este o limite. de todas as possibilidades objetivas de existência. (G. assim podemos abordar aqui o segredo do helenismo. levao à perfeição. na efetivação destas e não daquelas possibilidades de existência. mas nenhum enigma. na formação. cit. Não oferece. p. o passado e o presente. mas nenhuma pergunta. porém. 1989 –p.P.. No caso da teoria de Caio Prado. o circulo delimitador da forma25. sua perfeição que nos parece impensável e a sua estranheza intransponível para nós: o grego conhece somente respostas. teria de conduzir à superficialidade. O que guia a formação. uma expressão bastante utilizada por Caio Prado em passagens importantes de sua obra. mas equivalentes. mas nenhum caos. Grifo meu) Em “Os enigmas do círculo vicioso”..) Se quisermos. A formação tem o mesmo poder de englobar tudo. Pois a pergunta da qual nasce a epopéia como resposta configuradora é: Como pode a vida tornar-se essencial ? ( . e associa-se ao estilo barroco: O que não é produção em larga escala de alguns gêneros de grande expressão comercial e destinados à exportação é fatalmente relegado a um segundo plano mesquinho e miserável. 25 O círculo que configura a forma é. op. importante prefácio de Florestan Fernandes (in: CPJ. com relação a uma nação. assim como o ser. que ao longo da evolução brasileira é localizado pelo autor em diversos momentos. Ser e Destino. Ele ainda traça o círculo configurador das formas aquém do paradoxo. Quando um autor vê a si próprio como capaz de trazer à tona a essência. deixar de ser paradoxal. (Caio Prado Jr. Vida e Essência são conceitos que correspondem à formação e ao sentido. op. E assim. 27) Aqui vemos a dicotomia entre a formação e a essência perder-se... e tudo o que. à partir da atualização do paradoxo.. em seu desdobramento. que confirmam uma certa vontade por parte do autor de configurar as imagens em termos morfológicos.e destino. a essência. p.7) a circularidade na obra de CPJ. História e desenvolvimento S. e são quase todos além do senhor e do seu escravo. O círculo é a forma perfeita. não encontra pela frente perspectiva alguma. exatamente como é o destino. somente formas. somente soluções (mesmo que enigmáticas). Lukács. 285. numa espécie de círculo vicioso. 24 . Formação e ser não são conceitos idênticos. que tem o verbo ser com relação à vida de um indivíduo. Brasiliense. da mesma forma. todo aquele que se conserva fora daquele estreito círculo traçado pela grande lavoura. é o que Lukács chama de essência. vida e essência são conceitos idênticos.

no capítulo central de sua obra. ao território palpável (diz-se) da história. Nada mais que isto. 31) No trecho seguinte. mais tarde ouro e diamantes. op. algodão. Caio Prado nos grita uma verdade imanente que é para a nação o seu devir. o sentido da colonização: Se vamos à essência da nossa formação veremos que na realidade nos constituímos para fornecer açúcar. cit. configurando a pergunta de como a essência pode tornar-se viva. de vidas humanas limitadas pela morte. vemos o sentido que Caio atribui à colonização direcionando nossa formação: 25 . é justamente este movimento que torna a vida essencial. A essência vista por todos perde seu caráter de essência. tabaco. cit. que dá continuidade à passagem acima.passa ele mesmo a conceber a si próprio como conceberam-se os autores gregos. p. e que até então todos seus componentes haviam sido incapazes de ver. E tornar a vida essencial significa o mesmo que tornar a essência viva. algo que antes pertencia ao inefável. para o comércio europeu. cai de seu patamar. e em seguida café. (CPJ. Para isso o autor nos traz à tona esta cruel essência. op.. que em suas tragédias colocava o coro que gritava aos personagens a essência que eles eram incapazes de ver. passa a ser parte da vida. gostaríamos de apresentar nossa hipótese. 32) Uma vez feitas estas considerações. De trazer à tona. É este o objetivo de Caio Prado Jr. depois.. Mas o que significa trazer à tona este sentido? Na visão de Lukács. é um modo de fazer com que esta formação – no caso a deste país – perca sua essência imanente. Como Sófocles. Somente quando a tragédia respondeu. (G. incorporar o sentido para sempre na formação que é composta de tantos aspectos materiais. alguns outros gêneros. ao apenas sensível. Lukács. p. Trazer a essência ao nível da vida. e ao mesmo tempo mortal: O mundo da epopéia responde à pergunta: como pode a vida tornar-se essencial? Mas a resposta só amadureceu como pergunta quando a substância já acenava de longa distância. tomou-se consciência de que a vida como ela é (e todo dever-ser suprime a vida) perdera a imanência da essência.

industrial. op. Note-se que o próprio Caio Prado nos diz. e que passo agora a analisar. 20. Com tais elementos. realizar um negócio. p. É na observação da formação que isto se torna possível. tema em torno do qual desenvolve-se todo Formação do Brasil Contemporâneo.. 31. O “Sentido” da evolução Brasileira que é o que estamos aqui indagando. XIX. articulados numa organização puramente produtora.. Mostrar a essência em seu caráter histórico. e começa sua história de “descobrimentos”. inverterá cabedais e recrutará a mão de obra que precisa.. Seria justamente neste ponto da história que nosso sentido materializa-se de maneira mais 26 27 CPJ. palpável. mas elas ainda mal se fazem notar. O sentido da evolução do Brasil. voltamos a dizer. no entanto. XIX – seria um elo entre o momento presente e o passado longínquo. unifica-se internamente. cujo caráter se manterá dominante através dos três séculos que vão até o momento em que ora abordamos a história brasileira. se gravará profunda e totalmente nas feições e na vida do país. cit. p. que Portugal torna-se o famoso país marítimo. 26 . cit. cit. se construirá a colônia brasileira. Mas. É no início do séc. etc. no início do capítulo “Sentido da Colonização”26. e assim buscar meios para destituí-la. tal caráter essencial surge da abertura de possibilidades do continente americano. O momento que escolhe o autor para estudar – o início do séc. 19. modos de vida. de-sessencializado. Um elo na cadeia histórica que se forma a partir de um mesmo sentido.. p. seria justamente o de possibilitar ao leitor a visualização desta essência. Grifos meus) Tudo o que surge até o Brasil contemporâneo são desdobramentos deste caráter essencial.. leis. XV que a história portuguesa muda de rumo. Tê-lo em vista é compreender o essencial deste quadro que se apresenta em princípios do século passado. CPJ. do início da colônia. que “o sentido da evolução de um povo pode variar”. ainda se afirma por aquele caráter inicial da colonização. op. op. Haverá resultantes secundárias que tendem para algo de mais elevado. desde o período colonial. dando como exemplo histórico o que seria o sentido da evolução do povo português. não teve. seu ponto de mutação – não sofremos nenhuma descontinuidade no correr da história da colônia 27. (CPJ. A estrutura bem como as atividades do país.Tudo se disporá naquele sentido. Estaríamos portanto ainda reféns daquele mesmo sentido voltado para o que não é interesse da nação. Este início. O objetivo do autor ao apresentar o quadro da sociedade brasileira em inícios do séc. Virá o branco europeu para especular. através de suas manifestações presentes em organizações de trabalho.

em quase todos os setores da vida nacional. apenas a sua ultima página. através do leitor que teria aí o contato com sua própria tragédia histórica.visível. E se escolhi um momento dela. representa. ao longo dos vários capítulos de Formação do Brasil Contemporâneo é o descortinar-se do sentido efetivado em muitos aspectos da vida. que também confirma o sentido. podemos pensar que há uma função histórica da obra que lh e é atribuída por seu autor – ele provavelmente a escreve pensando sob a ótica que Lukács atribui à epopéia 28: com o intuito de tornar a essência viva para. a aplicação concreta do Sentido da Colonização. E por um lado. cit. O momento de síntese que é aquele sobre o qual nosso autor trabalha é importante também por permitir que a partir dele se desenvolva uma dialética interna do texto. na ótica do autor. note-se. a corte vem para o Brasil e abrem-se os portos. 20). onde muito da colônia deixa de existir. quando forma-se um “organismo social distinto” cuja distinção em relação a outros organismos sociais. A época é de profunda transição histórica. Tornar o sinistro sentido da evolução histórica palpável é ao mesmo tempo confirmar o que seria sua existência e gerar uma inquietação no leitor. no qual o sentido fica mais aparente: Não sofremos nenhuma descontinuidade no correr da história da colônia. desessencializá-la. um momento de síntese. p.) aquele momento se apresenta como um termo final e a resultante de nossa evolução anterior.. aqui. Nesse ponto. assim como as tragédias gregas. de A Teoria do Romance. A inquietação que provoca ao ser lida seria a continuidade do trajeto desta obra. as minas e distritos mineradores. Este enxugamento 28 Cf. op. 27 . foi tão somente porque (. Nessa ótica Lukácsiana podemos associar um caráter epopéico à obra. quando. O que vemos. assim. FBC teria o intuito de desmistificar tal essência.. em 1808. Mostrar como a vida aqui desdobra-se em torno de algo essencial.. O fim do período Colonial. Este intuito de materializar a essência histórica de um povo num momento específico nos faz refletir sobre o intuito do autor ao escrever sua obra. (CPJ. Pretendemos desenvolver mais esta temática nas considerações finais de nosso trabalho. O momento histórico escolhido por Caio Prado é fundamental. é justamente seu caráter essencial – a grande exploração rural. Ela teria a função histórica de nos mostrar nossa essência. última citação feita. A sua síntese.

a grande referência comparativa de Caio e tantos outros autores que o precedem. a própria existência do trabalho escravo no seio de uma formação capitalista. ela sobrevive mesmo durante a crise do ouro. mas no solo fértil da colônia se expande até que os próprios brasileiros tornam-se os novos portadores de tal espírito. é lembrada por Bosi a partir de um citação de Marx: A produção de Capitalistas e trabalhadores assalariados é portanto. 2 . assim. O próprio Sistema Colonial. Biblioteca Carioca. A primeira delas. enquanto forma de organização social decorrente do Sentido da Colonização revela uma série de dualidades e contradições internas. ainda que flua no Sentido da Colonização. das colônias inglesas. Bosi em A Dialética da Colonização. “para o sentido da colonização”. Essa seria uma dialética que surge desta síntese histórica. O sul de Minas é a região escolhida pelo autor. ed. Um desdobramento do sentido que não se move na direção da metrópole. assim. depende de uma série de forças internas que tensionam em direções diferentes – na resultante destas tensões move-se a sociedade colonial. Novos corpos. Mas é justamente naquele momento – o fim da colônia – neste grande painel pintado com a técnica do pontilismo que é Formação do Brasil Contemporâneo. Não é uma força unívoca. 28 . enquanto nação. esta região volta-se para a produção de gado em pé e queijo para o abas tecimento interno. após a decadência das minas. Algumas dessas dualidades são muito bem levantadas por A.das características coloniais gera justamente a “resultante de nossa evolução colonial” que se confronta de agora em diante com novos elementos que surgem deste mesmo processo que fez com que outros desaparecessem. novas vidas. o que nos diferencia. uma economia não voltada diretamente para os interesses externos. um produto fundamental do processo pelo qual o capital 29 Ver Alcir Lenharo. vivendo alheios ao sentido externo. por exemplo. RJ: Ed. a mesma essência três séculos depois. como eram as colônias. O próprio fim colonial não representa de modo algum o fim do Sentido da Colonização. Por isso mesmo. que surge a contradição desta essência. XVIII. seja nas “tropas da moderação”29. o autor analisa a importância que os interesses regionais assumem na primeira metade do séc. Nessa obra. O nascimento à luz deste sentido é. Desde o séc. que fizeram do sul de Minas algo voltado para o abastecimento do comércio interno. à margem do sistema colonial. O sentido da colonização nasce enquanto mentalidade trazida pelo colonizador. Seu movimento geral. XIX. As Tropas da Moderação: O abastecimento da corte na formação política do Brasil – 1808a 1842. seja nos “desclassificados do ouro”. Forma-se.

Ela é a fôrma que nos permite chamar esta diversidade de unidade. tocados simultaneamente. como portador. (grifos meus) 29 . A formação é para nosso autor. são sempre as forças resultantes dessas tensões que movem a formação. Há uma série de forças coloniais em tensão que são resultantes do modo como a colônia é idealizada. p. 31 José Marcos M. A formação de Caio Prado Jr – assim como as formen de Karl Marx que 30 Alfredo Bosi. sobretudo. p. fazer emergir um todo de significado e validade universais? Como lançar uma ponte entre o que debita seu modo de ser à estagnação caótica e aquilo que se mantém imaculado da corrupção do tempo? Em suma. op. como condição necessária dos sentidos . Um mundo onde o contra-senso parece reconduzido a seu lugar correto. SP: Companhia das Letras. culturas. é o que permite a um livro sobre a colônia falar continuamente da contemporaneidade. Marcos M. É o que vemos no trecho seguinte. O exercício da cidadania que também se contrapõe tanto ao Estado como ao esquema interno de forças. quando analisa justamente a função da Forma no texto de Lukács: Ora. texto de Marx que analisaremos também nesta parte da pesquisa..se transforma em valores. de J. Lukács. cit. in: G. 30 Outras contradições internas que se efetivam na implementação do sistema colonial dizem respeito à estrutura política – de um lado as câmaras municipais. 23. e dão continuidade ainda ao Sentido da Colonização. “Doutrina das formas e poética dos gêneros”. A passagem de Marx aqui citada pelo autor refere-se Justamente à p. desenvolve-se a partir de forças resultantes de tais contradições. do emaranhado sem nexo. O clero que viveria prensado entre senhores de terra e a coroa. de seu Sentido. economias. Este conceito. Macedo. 179. dos acordes destoantes que. 1992. de Macedo. uma resolução possível para esta parte do mundo ainda sem nexo cultural e social. A formação envolve assim a possibilidade de contradição. de outro as ordenações e leis designadas pelo reino de Portugal. E assim por diante. 31 Ora. que geram tensões entre oligarquias locais e a centralização crescente do poder da coroa. acabam por gerar sons dissonantes. e a unidade é a característica fundamental de uma nação. como a forma para Lukács. populações que se apresentam ao longo dos capítulos de FBC. Por outro lado. 110 de Formações econômicas pré-capitalistas. A Dialética da Colonização . como é possível a partir da contingência sem rumo. nada mais destoante que este emaranhado de geografias. como aplacar a dissonância a partir dos próprios acordes destoantes ? “Toda forma é a resolução de uma dissonância fundamental da existência.

30 . (CPJ. Caio Prado Jr. vemos que é da visão dos contornos das formas coloniais que o autor parte em busca de correspondências contemporâneas: 32 Formação do Brasil Contemporâneo: colônia. dá continuidade a esta passagem dizendo justamente que este organismo que surge. Principalmente o mundo rural. como sabemos agora. cit. em torno da qual desdobram-se muitos argumentos do autor. Este algo de novo não é uma expressão abstrata. o início do séc. E o processo de transformação é muito lento. então. até etnicamente e habitando um determinado território. concretiza-se em todos os elementos que constituem u m organismo social completo e distinto: uma população bem diferenciada e caracterizada.analisaremos a seguir – é sobretudo um produto histórico. Esta dicotomia entre o que permanece e o que muda nesse momento sintetizador forma uma dialética interna do texto. com o célebre exemplo das boiadas de Saint-Hilaire que atrapalham os automobilistas. Há mesmo entre contemporaneidade e colônia. A idéia de Caio Prado foi justamente achar. mais precisamente uma “atitude” mental coletiva particular. também uma relação de mão dupla no interior do texto: em muitas partes da obra. XIX. p. como sendo a síntese da colonização entra em nova fase de sua evolução. é um processo histórico que se dilata até os “dias de hoje”. uma organização social definida por relações específicas. finalmente até uma consciência. mas continua sendo o mesmo. constituída na base de elementos próprios. em certos aspectos. a menos. op. Com alterações aqui e ali. quando escrevia o autor sua obra. transforma-se. uma manifestação da forma que até 1942 se pode ter dilatado. expandido ou. Mas continua sendo uma forma correspondente. É a forma que o autor visualiza num momento específico da história do Brasil. 10). transformado.. constituído pela mesma matéria. do próprio sentido que ainda estava por ser superado. Assim. no referido período. moroso. XIX) no plano das realizações humanas algo de novo. é claro. Há permanências coloniais que podem ser vistas até a contemporaneidade do autor. seria esta a primeira configuração desta formação que se desenvolveria a partir daí. Continua sendo um desenvolvimento do mesmo “organismo social distinto” que surgira então32 : Criou-se (no início do séc. fornece uma série de “permanências coloniais”. a mesma forma que nasce no fim da colônia ainda o cercava. foi escrito no intuito de ser o primeiro de uma série de quatro volumes que traçariam justamente o desenvolvimento desta form ação até o momento contemporâneo (1942). uma estrutura material particular.

seja o Brasil contemporâneo não apenas moldado por. e dados indispensáveis para interpretar e compreender o meio que o cerca na atualidade (CPJ. p. Macedo. Talvez. M. pelo momento em que veio à luz. e não das novas metrópoles que então surgiam. p. cit. uma e outra são crias do tempo. o estado novo instituído. Pode-se dizer que se estabelece uma relação entre a vida e a formação conforme concebida na obra. M. na caracterização da forma. M. muito embora Lukács rejeite o princípio ahistórico do universalmente humano como fundador da forma. mas constitutivo da forma. da ótica de Caio Prado Jr.. 33 J. pelas expectativas. e a segunda guerra mundial devastava a Europa. mas os recursos para convertê-la em algo que redirecionasse nossa formação de acordo com as necessidades internas do Brasil. Isto é. Sobretudo. A obra é impregnada. A colônia de Caio certamente vem impregnada pela necessidade do autor de dar respostas históricas à nação. M. op. 31 . 185. solo que por sua vez viu germinar. do início ao fim. a crônica jornalística. comenta Ference Fehér : “Os valores estéticos são atemporais e supra-históricos. talvez buscasse o autor. o autor parte das formas e contornos contemporâneos para compreender a colônia. Macedo em seu texto sobre Lukács: Claro que a relação entre a vida e as formas não tem mão única. Em outras passagens. e realidades dão ensejo a formas. 10).É por isso que para compreendermos o Brasil colonial precisamos ir tão longe. op. e tudo isso não é ‘refugo’ que se possa descartar a posteriori. digamos. 33 Caio Prado escreve seu FBC justamente num momento crítico da história brasileira. o qual fez dissipar o objeto de uma e pôs a outra na busca de sua forma. quando Getúlio Vargas estava no poder. mas também modelador deste Brasil colonial.. p. Sobre isso. 31). e subindo até lá o leitor não estará se ocupando com devaneios históricos. . A epopéia perdeu sua razão de ser no solo moderno. Como em quase tudo o mais. carências e limites que resultam desse momento. formas moldam realidades. mas colhendo dados. vale a pena considerar o que afirma J. A esse respeito. não só a essência deste Brasil colonial. trata-se aqui de ações recíprocas” (ZThL. cit.

Para Nelson Werneck Sodré. A obra de Marx que inspira o autor talvez tenha sido uma obra quase desconhecida em sua época. e a visão dessa tormentosa noite de servidão não deve fugir aos nossos olhos. partido que o elegera deputado Estadual em 194734. o texto referido acima) começam a ser editadas na URSS. (Nelson Werneck Sodré. o termo “servidão” é aplicável ao Brasil.2 Karl Marx: As formen precedem a análise de classes. por exemplo. o próprio E. além de sua viagem como membro do PCB à URSS em 1933. ) desenvolve uma análise detalhada. vai deixando de lado as diretrizes interpretativas determinadas pela terceira internacional para as ex-colônias e começa a fundar sua própria análise para a sociedade Brasileira35. Eram na verdade teses formuladas pela III internacional para todas as ex-colônias. pois é uma determinação da III internacional que as ex-colônias sejam avaliadas pelos seus teóricos como reminiscências da economia feudal. causando amplos debates entre os intelectuais dos partidos comunistas. portanto. É sabido também que muitos destes intelectuais interessados em ampliar o espectro do marxismo fizeram parte destes grupos de apoio aos refugiados da guerra civil espanhola. Bernardo Ricúpero (op. Formação da Sociedade Brasileira . (entre elas. aliás. p. ano em que as Grundrisse. Nesta passagem. É muito grande a probabilidade de Caio Prado ter tido contato com o referido texto – que faz parte dos manuscritos de Marx – pois o autor. 35 Sobre este aspecto. o autor diz não haver no Brasil) por Caio Prado é justamente uma certa autonomia quanto às teses do PC para o Brasil.1. principalmente a partir de FBC. A principal diz respeito ao caráter feudal do Brasil. ou melhor. entre eles. As chances. deste texto ter sido lido por Caio Prado Jr. antes de terminar de escrever 34 Caio Prado.o econômico entre eles. 32 . conforme percebemos na citação acima. cit. . 1944. ou mesmo campesinato (que. Muito se sabe sobre os desencontros historiográficos entre Caio Prado e o PCB. mas que certamente já circulava em seu meio a partir de 1930: Formações econômicas pré-capitalistas. esteve exilado na França. Caio. O que se evidencia no não uso de termos como servidão. após 1933 – ano em que lança Evolução Política do Brasil –. e passa a discordar dos historiadores do partido que as defendiam. Na escolha pelo conceito de formação vemos talvez uma escolha de Caio Prado dento do próprio marxismo. dentro da obra de Marx. Hobsbawm (que em 1957 escreve um célebre prefácio a Formações Econômicas Pré Capitalistas. vemos a importância atribuída por este autor aos nossos resquícios feudais:É necessário levar em conta que o Brasil ainda é colonial em muitos de seus aspectos. que discutiremos quase conjuntamente com a obra de Marx).J. 7). declara sua independência com relação a certas teses do PCB. atuando em solidariedade aos refugiados da guerra civil espanhola entre 1937 e 1939.

pág. (Caio Prado Jr. este texto das Grundrisse é a mais forte chave para a compreensão desta idéia. 1975. É com base neste texto de Marx que pretendo inicialmente desdobrar a idéia de formação na obra de Caio Prado. por um lado. antes de elaborar sua teoria de forma digerível para os leitores. também. dado que em FBC a palavra classe quase não aparece. Formações econômicas pré-capitalistas. A grande preocupação de Marx seria aqui extremamente abstrata: Estabelecer o mecanismo geral de todas as transformações sociais: isto é . Salvo em alguns setores do país. justamente na “Introdução” de seu livro. No terreno social a mesma coisa. muito longos 36. Dos muitos lugares onde identificamos a idéia de formação aplicada à história. Na referida introdução ao texto de Marx. op. por não pautar sua obra nas relações de classes. nos dá a pista de que vai operar com as mesmas categorias de que Marx se utiliza neste texto.. embora de certo modo. portanto.. tanto no campo estilístico (pois a opção pela busca da forma de uma sociedade traz consigo uma série de termos descritivos. 11) 33 . eram escritas visando apenas à compreensão pessoal do autor. não completamos ainda hoje a nossa evolução de economia colonial para nacional. entra na obra de Marx como algo que clareia para o próprio autor suas teses. ainda conservam nossas relações sociais. monografias que.FBC (1942) são altíssimas. Caio Prado. RJ: Paz e Terra. na medida em que as classes são apenas casos especiais das relações sociais de produção em períodos históricos específicos. um acentuado cunho colonial. Hobsbawm.) Assim a palavra classe nem sequer é mencionada no prefácio. ao mesmo tempo que exclui outros) quanto no conteúdo de sua teoria. sendo mencionada apenas uma vez37.. Ora. Quando comparamos a terminologia que Marx usa neste manuscrito. O termo formação.. o desenvolvimento periódico de conflitos entre as forças produtivas e as relações de produção se ajustam novamente às forças produtivas. E opta. Numa palavra. segundo Hobsbawm.a formação das relações sociais de produção que correspondem a um estágio definido de desenvolvimento das forças produtivas materiais. em particular as de classe. Hobsbawm nos fornece uma série de dados interessantes. algo que faz parte do entendimento quase sensorial que um filósofo precisa alcançar. p. vemos semelhanças quase inegáveis com a obra do autor brasileiro . “Introdução” a Karl Marx. que na verdade é indissociável de seu estilo. 15. As Grundrisse são manuscritos de um Marx maduro. (. São justamente a formação das relações sociais. J. e os momentos de 36 37 E.cit. da forma como ela é aplicada à sociedade Brasileira.

p. como o fizeram com tônicas diversas. na teoria do autor.. p. p. 34 . estender a toda engrenagem comercial vigente na Colônia. – Grifos meus). com uma condição doméstica tradicional.. cit. e Jacob Gorender. que interessam a nosso autor. Caio Prado explicita. O sistema colonial enquanto totalidade. nas transformações: Não é somente o regime de subordinação colonial em que nos achávamos que está em jogo: mas sim o conjunto das instituições. Caio Prado Jr. 26) 39 Alfredo Bosi. nau de mercadorias. é bem explorado no texto de Bosi que citamos anteriormente. No plano internacional determinou-se o ciclo de fluxo e refluxo da mercancia colonizada na linha das flutuações do mercado e sob o império da concorrência entre os Estados metropolitanos. dentro da teoria marxista – e da forma como ela era lida pela internacional socialista à época de Caio Prado – a opção do autor por estas categorias ao invés de outras indica justamente uma leitura vanguardista e extremamente sofisticada de sua parte. op. monopólio e monocultura. para citar apenas alguns de seus maiores estudiosos. Fernando Novais. Na formação do sistema exigiram -se reciprocamente trafico e senzala. em um ardido soneto barroco que dedicou à cidade da Bahia nos fins do séc. O sistema colonial. cit. Nelson Werneck Sodré. com suas dualidades internas. Celso Furtado. XVII. justamente das tensões entre forças que atuam neste sistema colonial. cit. falava em maquina mercante. 9.) Muito antes de se pensar em história quantitativa o poeta Gregório de Matos. Em suma. tem sido objeto de análises estruturais de fôlego. acima.. voltado para a máquina econômica européia. como realidade histórica de longa duração. à letra. Maria Sylvia Carvalho Franco. 39 38 Bosi assim define sistema colonial: Por sistema entendo uma totalidade articulada objetivamente. expressão que se poderia. a reprodução do sistema no Brasil e o seu nexo com as economias centrais cunharam a frente e o verso da mesma moeda. E. o sistema colonial na totalidade de seus caracteres econômicos e sociais que se apresenta prenhe de transformações profundas (CPJ.. op.. (Alfredo Bosi. que seu interesse está centrado nos conflitos entre forças produtivas. Sua análise tem como referencial justamente o conceito de sistema colonial como é desenvolvido nos textos de Caio Prado e posteriormente nos textos de Celso Furtado e Fernando Novais. por metonímia. quando não francamente arcaica nos seus mores e nas suas políticas. op. 26 (Grifo meu). Muitas destas transformações que se desenvolverão são decorrentes.. (. em passagens como a seguinte. como explica Hobsbawm. e outros38: O que pesa e importa quando se pesquisa a vida colonial brasileira como tecido de valores e significados é justamente essa complexa aliança de um sistema agro-mercantil.transformações destas.

(. As formen (traduz-se para o português como formações) não aparecem em nenhum momento como um conceito definido. embora longos. de resultantes. o processo de individualização do homem diante de sua condição inicial de 35 . p. O sistema colonial desenvolve-se justamente a partir destes conflitos entre as forças produtivas e as relações de produção de que fala Hobsbawm no prefácio à obra de Marx. germânica – nascem sem o conceito de propriedade. mas Marx o aplica em muitos momentos de seu texto: A forma asiática necessariamente sobrevive por mais tempo e com mais tenacidade. Há o dentro e o fora... É uma aplicação quase generalizada da dialética de Hegel. dentro do marxismo. Nada melhor que a fluidez das formações para se contrapor à rigidez das classes. desdobra-se sempre em duas direções. como classe. As classes. e todas parecem fluir de uma certa maneira na direção do surgimento deste. Todas elas – romana. seria uma evidência de que o autor representou no Brasil a vanguarda do marxismo à sua época. seriam apenas casos especiais das relações sociais de produção em períodos históricos específicos. em torno do qual se pautavam todas as análises da terceira internacional. e este conteúdo é o progresso. cit. pois da evolução para a propriedade privada desenvolve-se o fim da organização tradicional das comunidades. A totalidade forma-se de dualidades. As Formações Econômicas Pré-Capitalistastalvez tenham representado neste momento uma possibilidade nova. 79). por sua vez. E a sociedade brasileira estava ainda por ser desvendada dentro do campo marxista. cada característica interna tem seu contrapeso externo.. Nesse manuscrito.) Em todas estas formas o fundamento da evolução é a reprodução das relações entre o indivíduo e sua comunidade mais ou menos como dadas (Karl Marx. op.Capitalistas. usando um dos textos de Marx adotados justamente por aqueles intelectuais que p assam a questionar o marxismo engessante da era stalinista. de compreensão real de certas sociedades com toda sua complexidade histórica. o sistema colonial enquanto totalidade baseia-se sempre em dualidades. e que cita como sendo ponto fundamental para compreender sua teoria sobre as Formações Econômicas Pré. padronizadas para todas as sociedades do mundo por algumas leituras de Marx.Ou seja. As Formem tentam depurar o conteúdo da história na sua forma mais geral. A opção por não usar um termo central do marxismo. Marx trata da evolução social de várias sociedades pré-capitalistas.

É a observação da forma como um todo que permite a percepção histórica. cit. um certo “sentido”. E é justamente a possibilidade de percepção (note-se: Caio Prado fala claramente que o observador “não deixará de perceber”) desta “linha” ou força que age na história humana que impulsiona o conceito de formação em Marx. p. ao contrário das sociedades antigas e já depuradas estudadas por Marx.. 7 – Grifo meu). não deixará de perceber que ele se forma de uma linha mestra e ininterrupta de acontecimentos que se sucedem em ordem rigorosa. porém fixadas na tradição (Karl Marx. mais ou menos produto da história. O sentido da evolução. também tem como objetivo a forma. Este se percebe não nos pormenores de sua história. Marx usa uma terminologia profundamente morfológica. mas no conjunto de fatos e acontecimentos essenciais que a constituem num largo período de tempo. op. a linha de que nos fala Caio Prado. op. cit.. Em seu texto. Quem observa aquele conjunto desbastando-o do cipoal de incidentes secundários que o acompanham sempre e o fazem muitas vezes confuso e incompreensível. p.animal de rebanho. seja uma “forma disforme”: 40 O homem só é individualizado. como já dissemos. 78) . é justamente o processo do qual somos todos participantes: o progresso da humanidade rumo ao domínio da natureza que no passado a dominava. Vislumbrar as formas do passado é uma possibilidade de resgate de um estágio primordial da evolução.40 É justamente este conceito de história presente nas formen que Caio Prado traz ao capítulo central de sua obra quando escreve: Todo povo tem na sua evolução vista à distância. porém. Originalmente. mediante o processo histórico. e dirigida sempre numa determinada orientação (CPJ. ele se mostra como um 36 . algo como encontrar o fio da meada: Em todas estas formas o fundamento da evolução é a reprodução das relações entre indivíduo e sua comunidade aceitas como dadas – que podem ser mais ou menos primitivas. e que talvez represente a sedução de Caio Prado pela idéia de formação. Caio Prado. ainda que assuma que o Brasil.

O tema central de Marx nas Formen. são formas ainda com contornos incertos que constituem o alvo do historiador. um animal de rebanho. de sua relação primitiva (ou desenvolvida espontaneamente com a natureza)..J. segundo E.. Agora. segundo Hobsbawm. cit. E este estado de coisas gera. para compreender as formas a que se refere no texto. Esta relação vai assumir a forma de uma progressiva “separação entre o trabalho livre e as condições objetivas de sua realização”41. o que salta à vista é um organismo em franca e ativa transformação e que não sedimentou ainda em linhas definidas. e pelo fato de Caio Prado. em que o trabalho tinha uma ação direta sobre quem o executou. que ser genérico. traduz também a mutação. que não “tomou forma” (CPJ. Neste autor. p. Na acepção marxista. 90) 41 42 (E. seria justamente a maneira como são afetadas por este progresso as relações de produção. 3 – Grifo meu). caracteriza a escravidão no Brasil como uma espécie de aberração. J. a evolução tende para uma separação total entre o uso e a troca da acumulação. op. op. op. O progresso. cit. da maneira como é incorporada no texto. tem origem neste estado primordial de organização humana em que os homens dependem de seu trabalho direto sobre a terra para sobreviver. Marx. justamente.. No processo de produção. a sua negação. p. o movimento constante e ainda não sedimentado da sociedade jovem que é seu objeto de estudo. o primeiro autor. com a terra. cit. assim como Marx. p. acreditarem que a história tem um sentido – o progresso –. este processo de formação das relações produtivas seria também um processo de individualização humana. nasce a evolução. a idéia de formação. como alguns abolicionistas. Uma das primeiras etapas que evidenciariam a possibilidade de dissociação do homem de seu trabalho seria o surgimento da escravidão 42. estuda justamente as relações dos homens.Observando-se o Brasil de hoje. em diferentes sociedades antigas. Hobsbawm. 17) Justamente pelo fato de a escravidão pertencer a esta fase primordial da evolução das relações de produção. (Karl Marx. esta emancipação da humanidade com relação à natureza. um ser tribal. A relação entre trabalho/propriedade é progressivamente rompida na medida em que o homem se afasta. como já dissemos. Hobsbauwm. porém. Deste estado inicial. 37 . A mesma busca incansável pela forma se repete nos termos utilizados por Caio Prado.

que por outro lado desdobra-se internamente no sistema baseado em escravidão.. ele a encontra no sentido da colonização. p.determina transformações nas relações indivíduo/comunidade na forma como elas originalmente se teriam dado. 80) Ora. isto se baseará no fato de existirem como anomalias em um mercado mundial baseado no trabalho livre. é voltada. p. em seu capítulo central – “O Sentido da Colonização” – nos fala justamente de um processo análogo. objetivo exterior. cit. e se por outro lado a função deste sentido é abastecer os interesses já capitalistas de tal metrópole. 110) Ora. porém no qual não apenas indivíduos. op. internamente organiza-se o sentido da colonização enquanto sistema colonial principalmente em torno do trabalho escravo. se o Sentid o da Colonização constitui-se em um voltar-se exclusivamente para os interesses da metrópole. agora. E tais transformações acabam modificando. Nada mais que isto. dos proprietários de plantation na América como capitalistas. mais tarde ouro e diamantes. na qual a produção é o objetivo do homem. Caio Prado aponta esta 38 . criada. (Karl Marx. Caio Prado. nacional ou política que seja a apreciação) como objetivo da produção parece muito mais elevada que a do mundo moderno. com o objetivo da produção de riquezas: Se vamos à essência da nossa formação veremos que na realidade nos constituímos para fornecer açúcar. 31 – Grifos meus) Se há em Caio Prado o objetivo de encontrar uma formação social que nos constitui. e que eles sejam capitalistas. voltado para fora do país e sem atenção a considerações que não fossem o interesse daquele comércio. no caso do desenvolvimento do capitalismo. a chamada comunidade. op. o objetivo da produção. op. que neste livro Marx aponta como sendo uma anomalia histórica: Se falarmos. (CPJ. mas toda uma nação. O seguinte trecho evidencia a distorção gerada pelo capitalismo: A antiga concepção segundo a qual o homem sempre aparece (por mais estritamente religiosa. que se organizarão a sociedade e a economia Brasileiras. em algo hostil. opressor do próprio homem.. algodão. e que contraria um dos interesses básicos do capital que é formar mão de obra assalariada. uma organização pré-capitalista. depois. Nossa forma é nossa dobra voltada pra fora de nós mesmos. que surgiu um dia para possibilitar a sobrevivência humana. alguns outros gêneros. e em seguida café.. cit. tabaco. e a riqueza. para o comércio europeu. cit. É com tal objetivo. (Karl Marx. p.

Restaura apenas um instituição justamente quando ela já perdera inteiramente sua razão de ser. p. (CPJ.MLAG]. tendo em vista apenas o lucro fácil. determinam o uso do trabalho escravo (a aberração histórica) como a melhor maneira de explorar o meio.. trazidos para o trabalho escravo. p. primeiros habitantes da terra Brasilis. baseando-se na idéia do progresso como sentido da história. e da evolução dos povos nas suas relações produtivas como o rumo do progresso (o curioso é que ninguém garante que a “forma indígena” ou a “forma africana” evoluiriam para o desenvolvimento da noção da propriedade privada.) Três raças e culturas largamente díspares. fala justamente desta diferença de estágios de desenvolvimento dos povos que a qui se encontraram ao acaso. em meio à natureza dominante. voltada integralmente para uma produção que não lhes pertencia. cit. aqui.. Os negros.. semibárbaras em seu estágio nativo e cujas aptidões culturais originais ainda se sufocaram. Mas o que gostaria de salientar. 110 – Grifos meus) Os índios. fornecerão o contingente maior. mas que faz parte por sua vez da dialética do sistema colonial. E vem contrariar-lhe todos os padrões morais e materiais estabelecidos. ou para a dissociação 39 . Este tema é desenvolvido no capítulo “Organização Social”: Coisa muito diferente se passará com a escravidão moderna que é a nossa [o parâmetro aqui é a escravidão antiga e sua relação com a sociedade da época . que aqui instalam as forças produtivas. op. Mais adiante surgem outros componentes deste mosaico. de que duas. não se liga a passado ou a tradição alguma.. 353) Fala também de estágios de evolução justamente com esta conotação marxista. tiveram toda a propriedade de seu trabalho negada. cit. ao analisar estes elementos.contradição interna do Sentido da Colonização (talvez também inspirado pela ótica de Marx). (CPJ. sem outro objetivo que realizar aqui uma vasta empresa comercial (. tinham suas atividades (ou trabalho) diretamente voltadas para sua sobrevivência. é que Caio Prado. Ela nasce de chofre. op. unidos pela obra colonial: Observamos nos seus diferentes aspectos esse aglomerado heterogêneo de raças que a colonização reuniu aqui ao acaso. e fora substituída por outras formas de trabalho mais evoluídas. Os portugueses. Surge assim como um corpo estranho que se insinua na civilização ocidental que já não cabia. que analisaremos na parte seguinte.

40 . uma parcela não monetarizada da humanidade foi lançada por seres vindos da Europa moderna na lógica do capitalismo que lá levara séculos para se desenvolver. Os mais fortes laços que lhes mantêm a in tegridade social não serão senão os primários e mais rudimentares vínculos humanos. (Caio Prado Jr. o Sentido da Colonização. Aqui. o processo de evolução dos homens rumo ao capitalismo não teve as nuances analisadas por Marx em Formações econômicas pré-capitalistas. De todo trabalho executado aqui. o que o historiador nota é esta disparidade entre formas humanas de ser que aqui se encontram durante a colônia. com respeito à idéia de que o Brasil colônia representava um sistema feudal. cit . cit.90). pela colonização tosca e sem investimentos que fossem além dos que fornecessem lucro imediato. um animal de rebanho. op.. para seu implemento. p. porém. nada foi em prol da população que o executou. este era o signo compreensível da superioridade evolutiva). resulta numa individualidade desta parcela da humanidade totalmente subjugada a interesses externos. p. O homem só é individualizado. a “troca” e a “acumulação” que se desenvolve com o processo de produção ao longo de várias etapas chega já pronta aqui na colônia. etapa que corresponde à história antiga. Originalmente. op. Mas os portugueses tinham a pólvora (e no contato com os outros povos. os resultantes direta e imediatamente das relações de trabalho e produção: em particular.. um ser tribal. E justamente este texto que fala da evolução das formas.. a subordinação do escravo ou semi-escravo ao seu senhor. metropolitanos. vemos que este processo histórico de formação das relações produtivas é ao mesmo tempo o processo de individualização humana. do processo histórico de individualização da humanidade. das relações de produção que aqui se estabelecem. E justamente dessa escolha pela escravidão. e a critério deles ficou a escolha de como se deveriam moldar as relações de produção.entre trabalho e produção. ou mesmo que estas sociedades caminham no sentido de “dominar a natureza”). a formação do Brasil. Ainda que. De qualquer modo. forma-se a sociedade sem nexo moral algum entre seus participantes. ele se mostra como um ser genérico. O Brasil nunca foi o objetivo de sua própria produção. E esta é nossa individualidade enquanto nação. (Karl Marx. os portugueses lancem mão da escravidão. mediante o processo histórico. O objeto de estudo de Caio Prado. A lógica da separação entre o “uso”. Evolução política do Brasil. talvez tenha inspirado Caio Prado a mudar de idéia quanto a seu livro anterior. Aqui. 353) Se voltarmos ao texto de Marx.

como os judeus na sociedade medieval. e voltadas especificamente para o Brasil. nem mesmo no gênero histórico. são palavras da mesma família de Logos. além deste Lógos. A riqueza. surgiu somente entre uns poucos povos comerciantes – monopolizadores do comércio do transporte – que viveram nas franjas do mundo antigo. que geraria o máximo de riqueza...43 1. cit.. Na verdade é Caio Prado que inaugura este uso específico da idéia de Formação que.3 Joaquim Nabuco: A Formação e a vida Outra vertente possível a partir da qual podemos pensar a genealogia da idéia de formação em Caio Prado é o célebre Minha Formação. parece encaixar-se em um tipo de “formações” que o professor Bertold Zilly chama de freqüentes. A formação de Caio. Mas a questão – de Caio Prado. SP: Editora Brasiliense.A formação de cidadãos nunca foi uma questão proposta no Brasil. dialética. justamente por nos depararmos desde o início com esta ótica capitalista-mercantil já em seu estágio avançado. A riqueza não constituía o objetivo da produção. sendo assim algo bastante peculiar. que seria a mais produtiva. 1994).) Diálogo. (. 43 Segundo Marilena Chauí (Introdução à história da Filosofia. sempre. etc. lógica . era sobre qual o tipo de propriedade que geraria os melhores cidadãos. 41 . (. norma ou regra. diz Marx em seu texto: Entre os antigos não encontramos uma única investigação a propósito de qual a forma de propriedade. outros possíveis e necessários a uma nação. pensamento ou razão. entre outros – é que existem.. O Lógos dá a razão. o ser de alguma coisa. (pp.. de Joaquim Nabuco. o termo Lógos reúne numa só palavra quatro sentidos: linguagem. o sentido. quando associadas ao gênero historiográfico. op. Ênfase minha). num texto que não se inscreve particularmente em um gênero auto-biográfico. O livro de 1898 narra a formação de um indivíduo. o fundamento de alguma coisa. segundo Zilly. ser ou realidade íntima de alguma coisa. 80) Esta riqueza como um fim em si é a tradução perfeita de nossa lógica formadora. A este respeito. como um fim em si. (Karl Marx. pág..) A pesquisa. 352-3. a causa. ao contrário. O uso que faço. neste texto do termo em questão baseia-se justamente nessa definição de Lógos enquanto “sentido de uma nação”. o valor.

a uma realidade completa e superior. visando a um telos. a esta incompletude mencionada acima. Aspectos como este poderiam ter atraído o autor neste texto de Nabuco45 pois Minha Formação é também o retrato de uma vida por completar-se.parece indicar a idéia generalizada de que o Brasil como um todo assim como seus diversos segmentos e áreas ainda não alcançou sua maturidade.cit. 11) Como vimos anteriormente. dá-se através de sociedades já extintas. op. usa a formação como algo que oferece possibilidade de descrição de algo por completar-se. porém. a sua plenitude. que talvez tenha tido uma trajetória política com a qual Caio não concordaria em muitos pontos. texto da comunicação apresentada no simpósio “Leituras Cruzadas”. o que indica que Caio Prado era seu leitor. portanto nas quais tal processo já se teria esgotado. 45 O autor pernambucano é citado na bibliografia de Formação com o livro Um estadista no Império. o que salta à vista é um organismo em franca e ativa transformação e que não sedimentou ainda em linhas definidas. Mas há trechos profundamente poéticos em seu Minha Formação que exercem fascínio sobre qualquer leitor em busca de inspiração. que não “tomou forma”. 42 . É um prazer para mim vê-las voar. douradas. que provavelmente teria também influenciado nosso autor. no entanto. 44 Sem dúvida. Além dele. a sedução por este conceito na obra de nosso autor está bastante ligada a esta abertura. realizado em Poitiers. são citados outros textos de abolicionistas. de idéias sobre como lidar com os sentidos ao serem transpostos para o texto. Sabe-se que Nabuco era monarquista. Caio Prado. o desenvolvimento da noção de formen em Marx. que o país está se processando. p. se desenvolvendo rumo a uma forma mais essencial. (CPJ. “Minha Formação (1898) de Joaquim Nabuco: A Estilização do Brasileiro Ideal”. junho de 1996. azuis passam inúmeras contra o fundo de bambus e samambaias da montanha. Esta passagem trata disso: Esta manhã casais de borboletas brancas. 44 Bertold Zilly. não o seria. A célebre passagem (que talvez tornemos a citar algumas vezes ao longo deste trabalho) é indicativa disto: Observando-se o Brasil de hoje..

com sua revoada de borboletas. o interstício entre a descrição racional e a impressão sensorial. o frêmito de alegria da natureza quando elas cruzam o ar agitando as flores. Pois não se volta à descrição da carapaça. Fala de coisas como consciência.apanhá-las.. porém como uma poeira conservada junta pelas cores da vida (. como o “algo de novo” que deixa muito para ser ocupado pela compreensão do leitor. pois foi -nos indispensável seu uso nestes dois momentos.) Como as borboletas. ) O modo único para mim de guardar estas borboletas eternamente as mesmas. E. vemos este 46 Citamos pela segunda vez esta mesma passagem. ) Eu não quisera guardar delas senão a impressão viva. uma estrutura material particular. Nabuco. do que há de estável. é certo que eu as teria sempre diante da vista. nos diz bem sobre os objetivos de seu livro. mais precisamente uma certa “atitude”mental coletiva particular. op. assim com todos os outros d eslumbramentos da vida (. Este “algo de novo” não é uma expressão abstrata. que ela vem inserida no contexto de diferentes discussões. atitude mental coletiva particular. 26) Ora. que ele vê como o surgimento de uma consciência coletiva... ) de nada nos serve recolher o despojo.10) O autor narra aqui uma espécie de nascimento.. que a busca de afixar algo extremamente volátil em sua nota íntima equivalente. Justamente por isso serve tão bem ao que não tomou ainda contornos definidos. op. Caio busca com intensidade justamente resguardar em sua nota este momento particular. algo tão volátil quanto as borboletas de Nabuco. p. (CPJ p. até etnicamente e habitando um determinado território. até uma consciência.. XIX] no plano das realizações humanas algo de novo.. cit. algo que pertence ao campo da compreensão.. constituída na base de elementos próprios. (Nabuco. como posteriormente em Caio Prado – esta expressão de algo pulsante. Note-se. mas sim do que há de vivo. pregá-las em um quadro (. ativo e que ainda se movimenta. o que importa é só o raio interior que nos feriu. E nos termos utilizados. ele denomina Minha Formação.. 43 . o nosso contacto com eles. concretiza-se em todos os elementos que constituem um organismo social completo e distinto: uma população bem diferenciada e caracterizada. finalmente. seria afixar seu vôo instantâneo pela minha nota íntima equivalente (. cit. Esta passagem de Caio é representativa disto46: Criou-se [no séc.. mortas. uma organização social definida por relações específicas. a hora em que o organismo social toma vida própria. A idéia de formação traz – tanto em Nabuco. E a esta grande nota. porém. que no caso não são menores que este resguardo da sua impressão viva de si mesmo. A formação é a nota capaz de expressar o equivalente à vida.. Em uma coleção. p.

) Há em Caio Prado uma força estranha. sem dúvida.. Uma força de vida. provavelmente também deu alguns subsídios ao autor paulista para que ele operacionalizasse esta idéia de formação. na última frase desta citação. Uma parece evocar a outra. força vital de idéias que o fizeram um dos mais lúcidos intérpretes de nossa formação social. Caio Prado. De sua família. esposa.. o dinamismo e a fluidez das coisas na idéia de formação. Pois de sua vida. é um mosaico de uma vida. Pelo contrário. E se provavelmente Nabuco pode ter inspirado este conceito tão interessante de formação em Caio Prado (ao lado de Marx. Rubem Murilo Leão Rêgo. Mas a maneira a partir da qual os dois autores trabalham em sua obra a montagem de suas “formações” tem elementos semelhantes. em palavras demasiado definitivas. ou pelas que já viveram um dia nesta porção da terra denominada Brasil. Lógico.mesmo ímpeto da nota de Nabuco: traduzir a vida sem perder sua fluidez. praticamente inexistem. ao descrever em traços gerais a análise caiopradiana do Brasil. que o mantém vivo e presente. num campo mais interpretativo). um conjunto de cenas selecionadas pelo autor de acordo com critérios próprios que retratam principalmente momentos que influenciaram sua vida pública. chama atenção justamente para esta característica do autor: Percorrendo esse caminho. este autor também une. estamos falando de Caio Prado. a dimensão que mais impressiona na análise caiopradiana é a presença de uma espécie de sentimento dos problemas nucleares da experiência brasileira (. preserva a vida. nos apresenta algo como um mosaico de um país no início do século 47 Rubem Murilo Leão Rêgo. de Nabuco. Os textos. com objetivos diferentes. continuidades e mudanças no desenvolvimento 44 . Sentimento do Brasil: Caio Prado Jr. é este o “vôo” que pretende deixar anotado. pertencem a categorias diferentes.47 Curiosamente.. mas também de idéia. o célebre autor marxista. por sua vez. a idéia de força vital e a palavra formação. apenas seu pai ocupa certo espaço. Jamais empalhá-la. Mas é esta a escolha anunciada pelo autor. Este é um texto que em momento algum engessa a percepção do autor em teorias. Seus filhos. Minha Formação. Mas o uso do conceito de formação teve em sua obra também esta intenção de possib ilitar que a letra transcreva o sutil rastro deixado pelas coisas vivas.

Eduardo Arantes. Grifo meu. Um dos motivos desse girar em falso era a descontinuidade histórica da formação. 23. Tudo – empreitadas agrícolas. p. É claro. É uma impressionante seleção de temas que muitas vezes acabam retornando em capítulos posteriores. conquistada sua independência. Com relação à literatura. F Arantes. em torno do mesmo ponto sensível – era ramo de uma metrópole. op. Providências de crítico literário na periferia do capitalismo”. Campinas: Editora da Unicamp. E. autores e público –. A & Otília B. 45 . esquemas da sociedade brasileira. Caminho que nunca é seguido à risca em sua direção. cit. e descontada a dose habitual de mal-entendidos quanto à real dimensão das idiossincrasias nacionais.XIX. FBC é composto por diversos capítulos que se movem como visões de um mesmo aspecto. no qual se enxertaram outros elementos. e agora. buscava-se uma espécie de eixo por onde se guiara nossa formação: Na virada do século. desde o início do século. mas ao qual se retorna. ela sofre quase do mesmo mal. nossa Literatura girava em falso justamente por se manter ramo da portuguesa.. Eduardo Arantes que. A formação nos dois autores pressupõe algo como um eixo. da maneira como este se apresenta de norte a sul: a pecuária. Aliás. continuava-se agindo aqui em falso. se pensarmos na formação segundo Caio Prado. elas devem ser concebidas como tridimensionais. pode-se dizer que José Veríssimo batendo na mesma tecla [que Antônio Cândido] – não se poderá falar de literatura brasileira na ausência de um sistema vivo de obras. acabara entrevendo o ponto sensível no qual nossa formação girava em falso. trata-se de um mosaico tridimensional e por essa razão difícil de ser descrito. etc. mas se pensarmos os capítulos que compõem as partes como “Povoamento” e “Vida Material” como peças deste mosaico. mas agora ligados a novos assuntos. que de um ciclo econômico a outro perdia sempre seu nexo. Ora. Na verdade. 23) 48 Paulo. não são todas as visões possíveis. a agricultura de subsistência. Uma espécie de eixo que serve de base para os vários capítulos que compõem estes mosaicos. as correntes de povoamento.. Nossa nação formou-se girando também em falso. um caminho. 2000. aponta P. in: P. encontrar um princípio que movimenta a formação é uma exigência básica associada à idéia de formação. 48 Para Veríssimo. p. principalmente formação de características nacionais. Formação é movimento. de forma que se articulem umas às outras de diferentes modos.

Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado. ou quem sabe deformação. Petrópolis: Ed. Psicologia em transição . um dos motivos que podem levar a supor que SBH tenha sido influenciado por Jung é o primeiro título que deu ao seu trabalho. 27) E note-se: os alicerces da fundação das idéias de Nabuco se comunicam constantemente com os andares superiores de sua razão. op. imersos em alicerces da nação que se perpetuam em nossos dias. nos vários fatores que são como desdobramentos seus. Vozes. percebe-se este movimento da formação num corte horizontal da história do Brasil. bases e outras semelhantes para definir a alma humana. desde sua conferência de 1918. São camadas que se sobrepõem. de uma personalidade. A forma como opera esta metáfora do autor nos sugere uma outra que se torna. podendo também ter influenciado Sérgio Buarque de Holanda na sua construção da metáfora da planta com a ênfase das raízes. não são as raízes profundas que alimentam as folhinhas verdes recém-nascidas na planta? De certa forma. (Joaquim Nabuco. pois seu liberalismo se manteria ativo até o fim de sua biografia política. – se montava em função dos interesses mercantis. Ainda assim continuaria se desenvolvendo a formação. ainda que ali provavelmente. J. no início do século XX. 46 . No entanto. 49 A idéia de alicerces aparece em Raízes do Brasil. em 1934: Corpo e alma do Brasil: um ensaio de psicologia social. cit. O movimento de satélite que nos fora imposto pelo sentido da colonização ainda se perpetuaria. como nos descreve Nabuco. XIX. Para Caio. como já dissemos antes. É importante observar aqui que Nabuco antecede Jung em algumas décadas. provavelmente inspirada por C. para depois desmontar-se. tendo em vista outra atividade econômica. de SBH.49 Afinal. também corrente na historiografia brasileira: as raízes.. p. A diferença é que a formação de um homem. as raízes estão presentes na folha. Este parêntese no cotejo entre a formação de Caio Prado e a de Nabuco tem a função apenas de frisar esta busca por um movimento interno à formação que ocorre desde o séc. 1993.comerciais. Cf. recorrem sempre a elementos radiculares. tenha sido lançada no subsolo de minha razão a camada que lhe serviu de alicerce: o fundo hereditário de meu liberalismo. como analisaremos no item dedicado ao cotejo entre FBC e Raízes do Brasil. expressa nos estágios que se sucedem na formação. “Estrutura da psiquê”. utiliza-se de metáforas como alicerces. segue através de uma verticalidade temporal. etc. como o próprio Nabuco nos fala: Não preciso remontar ao colégio. sem um nexo próprio. com seu eixo girando em falso entre um ciclo e outro. Jung que.

Pode ser entendida como o conjunto de elementos. é algo cujos elementos constitutivos desabrocham. a maneira que o autor escolhe para nos evidenciar o Sentido é uma formação organizada a partir de um corte horizontal da história do Brasil. tornam-se evidentes neste corte transversal. como faz Nabuco. Outra importante característica a notar deste modus operandi relativo à noção de formação em ambos os autores é a necessidade do distanciamento temporal para se pronunciarem sobre ela. ele nos fornece. cit. na observação de vários elementos e da maneira como eles se comportam por volta do início do séc. No 50 Poderíamos pensar também naqueles livros de imagens em terceira dimensão. linhas e cores que compõem um quadro. eliminando do quadro. XIX tem este motivo: o autor tem algo bem específico a nos revelar. a escolha de CPJ pela formação centrada na horizontalidade. portanto. e de perto vemos apenas os contornos da figura que se delineia. a obra realizada por três séculos de colonização e nos apresenta o que nela se encontra de mais característico e fundamental. e chave preciosa e insubstituível para se acompanhar e interpretar o processo histórico posterior e a resultante dele é o Brasil de hoje.O que importa mais neste momento é chamar a atenção para esta organização em camadas da formação de Nabuco. p. op. (CPJ. ou pelo menos fazendo passar ao segundo plano. o painel é demasiado grande. E o início do século XIX parece ser uma lâmina privilegiada para um exame microscópico: O seu interesse [relativo ao séc. Em FBC . a partir de um corte horizontal é que podemos ver como operam seus mecanismos. Para este historiador. e n a epifania que nos causa o 47 . seus detalhes. Talvez por uma nação ser algo tão largo. e a verticalidade historiográfica não permitiria tal percepção. 9) A formação de Caio. a chave de entendimento não se encontra na temporalidade. na observação de camadas que se sobrepõem. E a figura que surge deste quadro fabuloso é o Sentido da Colonização50. a figura perde sua grandeza. Doutro lado. constitui uma chave. em balanço final. por outro lado. em contraposição à formação de Caio Prado. Há o ângulo certo para observá-la. XIX] decorre sobretudo de duas circunstâncias: de um lado. É uma síntese deles. o acidental e intercorrente daqueles trezentos anos de história. Se vamos longe demais. Assim. Mas a imagem só toma uma configuração nítida quando a avistamos de uma certa distância..

in: Stella Bresciani e Márcia Naxara (orgs. p. Uma vez terminado o trabalho de separação ou eliminação. p. “Conciliação e esquecimento: Nabuco e a Revolução”..). utiliza-se do mesmo método que. Lendo este trecho e comprando-o com o que citaremos a seguir. é este distanciamento temporal que. 2001. as repetições. op. Esse trabalho preparatório ocupou-me de 1893 a 1894. enquanto historiador. Campinas: Editora da Unicamp. porém sempre a mesma (Joaquim Nabuco. aos que se destinam a escrever.caso de Nabuco.. passagem interessante e inspiradora: Tenho diante de mim um caderno de 1869. O que se faz mais tarde na madureza é tomar somente o melhor do que se produz. segundo suas reflexões. dos vinte e um anos. a forma da frase ficará. Na seguinte passagem há uma importante reflexão sobre o tema. a sua medida..d. 51 Quatro anos antes de escrever a obra que aqui tomamos como referencial. tratei de reunir e dispor cronologicamente o material escolhido. em Um estadista no Império (livro do qual se extraiu a passagem a seguir) formar a biografia de José Tomás Nabuco de Araújo: O meu primeiro trabalho foi ler todas as peças e documentos e tirar deles o que pudesse figurar na vida que eu planejava. s. apontado por Izabel momento em que conseguimos captar a imagem que se forma entre tantos elementos multicoloridos. Nabuco já seguia o mesmo procedimento em outra biografia. ). método de educar o espírito. para “depurar” os fatos de sua vida que o levam à compreensão desta cadência.. 51 Esta passagem de Joaquim Nabuco encontra-se na obra de Carolina Nabuco A vida de Joaquim Nabuco. utilizara para. e tinha em vista um objetivo similar: depurar da vida.. RJ: Americ-Edit. no entanto. 48 . 31). ou da forma que a traduz. já de vida à obra toda. Com relação a Um estadista no Império . lhe permite também depurar de sua vida seu estilo. há um elo muito importante. tivesse autoridade. tudo o que desafina ou que sobra: a cadência do período. cit. de adquirir a forma do estilo que eu recomendaria. em que copiava as páginas que em minhas leituras mais me feriam a imaginação. Renan diria a sua eurritmia. cortar as porções fracas. foi que comecei a aprontar para imprensa os primeiros capítulos. Memória e (res)sentimento: indagações sobre uma questão sensível. Nós a citamos aqui a partir do artigo de Izabel Marson. a forma. principalmente durante os meses da revolta (. ninguém escreve nunca senão o seu período.179. desprezar o restante. porque é preciso fazer esta observação. notamos que em Minha Formação Nabuco. Depois de ter dado esta primeira forma. ligando-o peça por peça de modo a formar o arcabouço completo da obra.

Nabuco busca uma depuração de sua produção que lhe permita perceber seu estilo onde ele melhor se manifesta. fracas. É um procedimento semelhante que Caio Prado utiliza em sua análise da sociedade brasileira como apontamos na seção anterior. as sobras. a percepção de seu estilo. a saber a independência e o período da regência. segundo esta autora. podemos inferir que muitas das idéias que teve ao escrever a biografia do pai influenciaram Nabuco enquanto escrevia a sua própria biografia. Nabuco.Marson no artigo “Conciliação e esquecimento: Nabuco e a Revolução”. Talvez em sua própria biografia busque também o autor este nexo entre a vida e a nação. entre a vida de José Tomás Nabuco de Araújo (seu pai) e a própria formação do Império. O apelo ao imaginário orgânico possibilitou uma analogia entre a vida de Nabuco de Araújo e o percurso da monarquia. op. 49 . em outras palavras. 52 Izabel Marson. Neste livro. 52 Com base nestas considerações. A depuração do objeto em estudo. depurou ainda mais em sua obra esta concepção que nos dois textos anteriores é oferecida como base para a compreensão da história e de uma vida. cit. mas não de um modo tão direto. respectivamente. mas o que queremos concluir é que a forma como traça sua vida inspira. O nexo aí deve ficar subentendido para o leitor. e tendo em vista que Minha Formação fora escrito três ou quatro anos depois do texto que é comentado acima. de algo sutil que o orienta é uma possibilidade oferecida pelo conceito de formação nestes três autores. que possivelmente leu tanto Formações Econômicas Pré-Capitalistas quanto Minha Formação de J. Ao escrever sobre sua formação. eliminando as partes repetitivas. pressuposto que lhe permitiu projetar o testemunho do pai como experiência modelar na compreensão da trajetória e constituição do Império e da prática liberal no Brasil.. traçados formadores de escritas da nação. Joaquim Nabuco : Representou o Império como um ser vivo e construiu a história de sua vida conciliando o depoimento (e os documentos) de Nabuco de Araújo com informações de outras fontes. 180. tomando por base um cotejo com Karl Marx. E Caio Prado. p. a infância e adolescência do estadista coincidem com o nascimento e mocidade da nação. E talvez a influência não esteja apenas no método e na busca da cadência comum que acompanha tantas etapas de uma vida. Assim. de qualquer modo.

os elementos casuais. em seu ensaio “Narrar e descrever”. mas por outro lado. e dá vida à narrativa. in op. ser chamado de acidental dentro de uma narrativa: Eis-nos agora em face de um problema: o que é que se pode chamar de acidental na representação artística? Sem elementos acidentais. também tem seu papel nos percursos formadores. documentos que de certa maneira representam ações humanas – veremos que o procedimento destas duas narrativas tem muito em comum. A escravização dos índios talvez tivesse dado certo. Nenhum escritor pode representar algo vivo se evita completamente os elementos acidentais. apesar da fonte de Nabuco ser sobretudo sua memória pessoal e seus diários. talvez tivesse se tornado um republicano. Não só do cerne das principais ações humanas depura-se o sentido da história. Um exemplo disso na obra de Nabuco é a passagem em que ele diz que. Tolstoi narram uma corrida de cavalos – o que pode. E qual seria o destino da colônia caso não se descobrisse o ouro das minas ? Se pensarmos nestes dois textos como narrativas. questiona – nesta passagem que se refere aos modos como E. 53 53 Georg Lukács. elevando-a ao plano da necessidade. Nabuco teve oportunidade de conhecer pessoalmente George Sand. O acidental faz sobretudo parte da vida. um deles como uma narrativa históricobiográfica e o outro como uma narrativa histórica – não no sentido que atribui Hayden White a este termo. Zola (escritor mais descritivo) e L. “Narrar e descrever”.. por outro lado. ou de uma vida. A formação. não fosse o contato fortuito que teve durante uma viagem. Na obra de Caio Prado Jr. abarca também o casual. A formação atua enquanto conceito no modo como são formuladas estas n arrativas. contato que o deixou fascinado pela monarquia inglesa. do inesperado. tudo é abstrato e morto. Lukács. Renan e Taine. acidentais. não fosse sua “indolência”. torna-se uma espécie de procedimento. afinal. 50 . então. vemos vários exemplos das casualidades que também cumpriram seu papel na formação da sociedade brasileira.Mas. Podemos. com a Inglaterra vitoriana. parte de fontes.50. na formação destas narrativas que visam narrar formações. ao contrário da literária. avaliar pelo viés do estudo das características das narrativas o papel do casual. precisa superar na representação a casualidade nua e crua. colocando a história como uma narrativa entre outras. em que discorre sobre as distinções entre os dois termos. se o objetivo é a depuração. Durante sua estadia na Europa. nos dois contextos que aqui analisamos.. o imprevisto. mas sabendo que a narrativa histórica. p. cit.

E é justamente nesta visão em retrospectiva de que falávamos anteriormente. não mais de cinqüenta anos) que a utiliza apenas com relação ao passado. usa tal possibilidade de depuração para discorrer sobre sua vida. o vórtice da colônia. como exemplo de aplicação desta depuração histórica. E toda a formação do Brasil parece. de forma mais bem acabada. desbastando-se o cipoal de acontecimentos secundários que acompanham a nossa história. Pois é justamente o Sentido da Colonização que emerge.Aqui Lukács critica a descrição nua e crua do casual. e fala do ponto de vista de um ancião (embora. em analogia com o trecho de Nabuco citado acima. E o faz também com um objetivo voltado para a contemporaneidade. Caio Prado é o autor que dá. Mas por outro lado enxerga a importância do acidental nos textos que buscam o essencial e que ele chama de narrativos. que as casualidades podem ser elevadas ao plano das necessidades. Referi-me a este uso conceitual prático de Caio Prado. por sua vez. a busca da forma de civilizações que em sua maioria já estariam ou extintas ou muito modificadas com relação a sua configuração précapitalista. este sentido que a move até a contemporaneidade. no momento em que se torna mais latente. pode também ser entendido como a forma do estilo. Do estudo da formação do Brasil depura seu Sentido da Colonização que. Na idéia de formação de Caio. uso prático a esta possibilidade oferecida à formação enquanto conceito. Zilly o autor tivesse. para que possa ser revertido através de uma tomada de 51 . ter em elementos emergentes do povo o grande fator inesperado ao sentido dado pelo colonizador. um modo de ser nacional. na descrição de Caio Prado. pois Marx oferece-nos basicamente. É a visão em retrospecto da sociedade colonial que permite ao autor selecionar dentre o “cipoal da acontecimentos” a queles que. de certo modo. e a partir da qual elaboram-se os textos de Caio Prado e Nabuco. posto em evidência para o leitor – talvez por isso é apresentado no capítulo inicial de FBC –. Caio é o autor que encontra no âmago da história. Nabuco. valorizando a narrativa em vários aspectos. a Formação do Brasil Contemporâneo passa a ser muito influenciada pelos desclassificados do ouro (como investigaremos melhor na seção a seguir) que surgem nas minas. Muitas vezes. segundo B. os textos repletos de detalhes que ele nomeia como descritivos. em retrospectiva. O sinistro sentido da nossa colonização deve ser compreendido. mesmo secundários – os desclassificados não seriam propriamente uma casualidade – passam a ter uma estreita relação com a essência central da colonização. à época – 1898 –. Um deles: a narrativa parte da perspectiva de quem participa da ação.

O prefácio de Freyre. E talvez. nosso intuito inicial é discutir um interessante comentário do autor pernambucano acerca da relação entre a formação e o processo de individuação de Nabuco. MF. de adquirir qualquer contingente americano. com certeza este é um processo que vai muito além da juventude. precisava. A primeira idéia que merece ser ressaltada na passagem que citaremos é a de formação. Citaremos agora alguns comentários que faz Gilberto Freyre em seus prefácios à nona e à décima edição de Minha Formação. pelos Estados Unidos. na “ordem intelectual e moral. carregava consigo contradições das quais não se livraria ao longo de toda sua vida. neste caso de um indivíduo. quanto mais inteligente. 52 . FBC . por falar da formação individual. como diz Freyre em passagem anterior. no cotejo com a obra de Gilberto Freyre. principalmente por Caio Prado Jr. Mas são reflexões que permitem vislumbrar o desdobramento das possibilidades oferecidas pela idéia de formação e suas aplicações. Tais comentários certamente não foram lidos por Caio Prado antes da elaboração da obra sobre a qual nos voltamos. formação significa também deformação. “Introdução” a Joaquim Nabuco. que nenhuma “cultura superior”. Em um hemisfério está sua vida política: seus escritos. da arte. analisaremos as relações de Caio Prado com a obra específica deste autor. compreendendo a arte”. verificaria fazê-lo sob a “influência européia”. em 54 Gilberto Freyre. Até quando um indivíduo ainda pode ser considerado em formação? No sentido intelectual. Muitas vezes. dado que esta nona edição data de 1963. permite-nos fazer um breve comentário sobre a formação do autor de FBC . Mais adiante. como quase todo indivíduo ainda em formação. assim como boa parte de sua fotografias pessoais. Caio Prado publicou esta obra aos 35 anos. que ao viajar. É uma visão dialética de Freyre: Marcou-lhe de tal modo a Europa o sentido da vida. concluía. depois de conhecer vários países europeus.consciência nacional. como algo que abarca a contradição. da política. quanto mais curioso for o indivíduo em questão. mutação de várias características anteriores. Certamente era um indivíduo em formação. para ser “perfeita e completa”. E contraditório. Aqui. passando de um exagero a outro. 54 Esta é uma reflexão interessante. incrivelmente empenhado em transformá-lo. remetem ao homem encantado pelo Brasil. mais tal processo tende a se alongar.

O objeto da formação. uma contradição fundamental. no investimento intenso na formação pessoal. a Revolução Brasileira (1966) vem décadas depois de FBC. das infinitas contradições da “Casa Grande & Senzala”. a abertura da editora Brasiliense. Em tantas passagens. sua dedicação aos estudos. Se a formação é um conceito que abarca a contradição. Além disso. evidente no escritor literário e evidente na personalidade. Logicamente. por sinal. nem de carregar feixes de cana quando visitou comunidades alagoanas. Era herdeiro da mais fina aristocracia paulista. arregaçar as calças e empurrá-lo. e sobretudo nos títulos de suas obras. do “Sentido da Colonização” e dos “Desclassificados do Ouro”. Sabe-se que. sua obra. mesmo sendo comunista. de um estilo: estilo. Nabuco.o caso do 53 . sua vida: O que nos leva a considerar o impacto sobre o homem público ou o homem de ação. assim como o da narrativa. Fizemos este parêntese relativo a características da vida do autor. Freyre. para modernos psicólogos voltados para o estudo da personlidade . bem vestido. proveniente de família tradicional. devota-se numa escala crescente a idéias consideradas radicais. carregava uma biografia em alguns aspectos similar à de CPJ.reverter este sentido doloroso que guia a formação desta nação. Da mesma maneira. fuma seu cachimbo. Noutro hemisfério está sua herança: o escritor que. das relações entre brancos e negros. em sintonia com a idéia de narrativa em Lukács. Gilberto Freyre segue fazendo ainda considerações sobre o estilo em Nabuco. ao longo de sua vida. para mostrar uma provável experiência individual em que contradições entre lugares e situações foram vivenciadas. de sua vida. vê no processo formação individual a possibilidade de abarcar o contraditório. em outros aspectos. sentado em sua confortável casa. Afinal. que ganha força na obra de CPJ (como analisaremos no item a seguir). desta vez na introdução à décima edição de MF. O primeiro era também homem público. curiosamente. E não deixou de freqüentar certas rodas. e é justamente a fortuna que permite suas viagens. não deixou de atolar seu jipe. como abarca a narrativa o casual. A formação pode ser também chave forte de compreensão. vemo-la emergir. sem dúvida imbricada de forma não explícita em sua obra. enquanto Caio. Nabuco torna-se monarquista. Mas muitas destas reflexões de GF em seu prefácio servem também a nosso autor. torna-se mais adequado ainda para a análise do Brasil colonial. Esta é. muitas diferenças se configuram. identificam-se nas muitas viagens. é a depuração. católico. para nosso autor.

. instintivo. uma “individualizing quality”. artística – o estilo literário – como projeção de um estilo de personalidade ?55 A escolha pela idéia de formação é. entre outras coisas. falha sempre. Grifo meu. oscilante.a forma da expressão verbal . Seu triunfo. como veremos na passagem seguinte. mas em compensação. através da vida aspirei ao absoluto. como uma agulha que girasse por todo mostrador: para seguir suas indicações faltou-me a resolução. O estilo de sua personalidade. um sentido. fala-nos em capítulos como a “influência inglesa” que.. cit. a força de caráter. quanto no caso da formação nacional de Caio. 54 .cit. ). p. Como se fosse afinal seu estilo pessoal o elo entre tantos momentos díspares de sua formação.Professor Hubert Bonner em seu Psychology of Personality ( N. tanto no caso pessoal da individuação de Nabuco.. estética. refletido na forma estética de sua palavra. presente em cada fazenda colonial. ainda o é hoje. terá unido o Joaquim Nabuco mais dionisíaco que apolíneo dos dias de homem público (. ao absoluto. (Joaquim Nabuco. Há um “ímã estético” que perpassaria todos os momentos de sua vida. a coragem e o espírito de sacrifício preciso. Uma formação faz-se de vontades dirigidas mas também de muitos elementos do acaso. decorre de. algo que se mantém mas que nunca se revela explicitamente. encontrar uma estética de si mesmo: O meu juízo estético foi em todas as épocas. ou.. possuindo assim. de uma classe ou grupo de sujeitos. depois imperial.Y. posso dizer que. A escrita da sua formação por Nabuco faz parte da sua aspiração. Uma estética pessoal singular. p 18-9. É o que parece ter ocorrido com Joaquim Nabuco. no tempo 55 Gilberto Freyre.é aspecto importante de um estilo de personalidade. imperfeito. no entanto. naufragando sempre. E nesta busca. ). 1961) . nesta tentativa frustrada. pois ela independe apenas das determinações de um sujeito. op. E o estilo tem passe livre através das contradições entre o autor e sua vida. como já dissemos anteriormente. não fosse sua viagem à Inglaterra. ) não há nada que se pareça com um ancoradouro. O que guia seu crescimento é. 69) A grande questão do autor nestes parágrafos que iniciam o capítulo “Adido de Delegação” é justamente seu juízo estético. porque na vida da inteligência (. op..inclusive a literária . Ao mesmo t empo em que Nabuco fala de seu ímã estético. ao um tanto contraditoriamente apolíneo Joaquim Nabuco historiador (. estilística.. uma forma de agir e explorar a terra. e até mesmo republicana. no caso de um país.. Que elo terá sido esse senão a forma de expressão verbal ou especificamente literária.

56 Este trecho nos diz muito. Resta o eterno interstício entre as coisas. vemos todos estes elementos citados por Lukács como possibilidades de circundar o homem e de simultaneamente circundar o momento histórico por ele analisado. em sua idéia. e sua estética. e é uma versão interessante para quem estuda a idéia que dá título à obra. lembrando que é a busca da 56 G Lukács. teria sido ele um republicano. Dessa reflexão. A formação não agride a complexidade fluida das coisas.como aqui se passa com Balzac . E. por mais fluida que possa ser uma estética pessoal. Mas podem ser também meros cenários da atividade e do destino deles. 51. de G. mas o colonizador que inicia sua empresa o faz também impelido por força das circunstâncias históricas.. cit. perde-se o indivíduo e o mundo. fala por outro lado das muitas influências que recebeu como sendo fundamentais para determinar seu curso pessoal. Esta é uma categoria de análise que independe da busca de sujeitos que determinem os acontecimentos. através da qual avaliava as situações. Se num capítulo ele nos fala da sua estética como algo que permanece ao longo da vida. Nesta formação. como na belíssima passagem de Nabuco. e nos diversos níveis de inserção do mundo que o circunda neste processo. que independe. sobretudo se pensarmos na formação de um indivíduo. de ancoradouros. p. inseparáveis. No caso de Caio Prado. in op. os eventos da vida e seu estilo.ainda de indecisão. a obra colonizadora tem um sujeito histórico que dá o mote inicial. É como se.bordel. Na formação nacional narrada por Caio Prado. Lukács: Os objetos do mundo que circunda os homens não são sempre necessariamente tão ligados às experiências humanas como neste caso (o teatro . ainda que em seu conjunto as contenha. 55 . “Narrar e descrever”. gostaríamos de reiterar que a formação não depende apenas de atitudes humanas planejadas. Esta constatação nos remete a outra interessante passagem do texto “Narrar e descrever ”. da forma como aparece nos textos de Balzac e Zola) Podem ser instrumentos da atividade e do destino dos homens e podem ser . a formação se desenvolvesse nessa relação entre as forças do acaso. Mas foi a “influência inglesa” que o fez monarquista – ao menos esta é a sua versão. e depois sua decepção ao ver certos acontecimentos na sociedade norte americana.pontos cruciais de experiências vividas pelos homens em suas relações sociais decisivas.

suas viagens e o mundo de suas referências o formam. como gênero quase inédito (uma auto-biografia histórica) na “formação da literatura brasileira”. Lança sua bibliografia ainda jovem. ele se auto-forma. a ponto de ver a repercussão de seu livro entre a sociedade letrada da época. por sua característica biográfica. também forma opiniões em sua sociedade e participa do célebre “processo de formação da nação”. em partes de sua obra. sobretudo. Este é o nível em que podemos pensar uma aproximação entre a narrativa histórica que estudamos e o texto de Nabuco. Minha Formação entra também. esta individualidade deixa de significar apenas Sentido da Colonização. Dele emerge uma sociedade sem coesão. Como vemos na narrativa do autor abolicionista. moldada por circunstâncias e elementos de diferentes ordens. todas podendo ser vistas como conseqüências deste sentido voltado apenas para o lucro. também aparecem em suas páginas muitas lacunas de tal empreendimento. seria nossa individualidade. Foi um indivíduo que quis participar e ser também sujeito importante dentro da formação. E nosso autor. e deixa de se desdobrar apenas em senhores e escravos. Por outro lado. justamente aquele em que o sentido é acrescentado por uma série de elementos sociais e culturais. por sua vez. tanto os elementos humanos como os desumanos.individualidade de uma parcela da humanidade um dos objetos de Caio Prado. Caio. moldá-la conscientemente. assim como Sérgio Buarque de Holanda. deu sua contribuição enquanto político e. enquanto historiador. Esta forma que toma a sociedade aí. ainda que sabendo a dimensão do turbilhão de coisas que o cerca. assim como Nabuco. XIX. mesmo sabendo que também estava em meio a essa torta organização nacional que ele descreve. nos fala de um país que se forma pela obra colonizadora – o Sentido da Colonização. e ele. e dela surgem tantos fatores inesperados a participar de nossa formação. vendo talvez a possibilidade de inseri-lo nestas formações. em plena passagem para a república. como político influente em sua época. Caio Prado. tanto as atitudes que movem a história – os pontos cruciais de experiências vividas pelos homens em suas relações sociais decisivas – como aquelas que não movem (que se desdobram nos cenários da permanência) fazem parte do momento do surgimento da individualidade desta parcela da humanidade e são narradas na obra. o início do séc. É o momento. Aqui. fala. Desdobra-se numa formação social complexa. O autor escreveu seu texto provavelmente com este intuito. A formação depende sempre dos fatores casuais do mundo. de “raízes” – ainda que esta não seja uma de suas metáforas mais contundentes – Mas de raízes de que planta 56 .

que cabe como uma luva na idéia de formação. Esse é o indeterminado.estamos falando? Essa é a grande aposta da qual participam quase todos os historiadores de uma geração. 57 .

58 .

Os desclassificados têm sua lógica própria. a organização em classes definidas (senhores e escravos) ou pelo menos relativamente estável57 que ocorrera no início da colonização. Indivíduos que. No momento de síntese histórica estudado por Caio Prado Jr. XVII até 1822. a partir de um certo ponto de sua obra. neste período que vai do último quartel do séc. XIV. “Vida social”. enquanto estrutura 57 Dissemos que seria uma estrutura relativamente estável e definida de classes sociais. Levando a vida num passo lerdo. desde o início da colonização eram já em número relevante os degredados de Portugal para estas terras. Assim. pois. 59 . e também os escravos fugidos que vagavam pelo sertão. o autor começa a detectar vagando pelos mais diferentes pontos do interior do Brasil. onde a colonização praticamente não chega. Por exemplo. caboclos vivendo nos lugares mais isolados. Outros elementos.CA P ÍT U LO 2 O SENTIDO DA COLONIZAÇÃO E OS DESCLASSIFICADOS: A CONSTITUIÇÃO DE UMA CATEGORIA A partir da terceira parte de Formação do Brasil Contemporâneo.. são principalmente mulatos. que tudo visa direcionar. por sua vez. muitos elementos do sistema colonial não só permanecem como garantem aí sua perpetuação por mais tempo. Sua continuidade no poder colonial é em boa medida determinada pela vinda da corte em 1808. a estes não conseguiu. a desclassificação social. não adeptos do trabalho. lógica esta que se desenvolve em meio ao fluxo de desenvolvimento colonial determinado pelo próprio Sentido da Colonização. a família real portuguesa que continuará governando o Brasil. O sentido. começam a aparecer várias referências do autor aos indivíduos desclassificados no esquema social de produção do Sentido da Colonização. deixam de existir: o ouro como grande produto da colônia. a vadiagem e a marginalidade existiriam em larga escala na Europa desde o séc. A própria colônia. segundo Laura de Melo e Souza. Há também brancos que se desgarram do sistema colonial. negros libertos. assim como pelo sistema de produção baseado na grande propriedade monocultural escravista. em seu livro Os desclassificados do ouro .

E. 187. desdobramento este que colocará em xeque o próprio sistema que o gerou. nos é apresentada a formação como algo que se desenvolve em torno de um sentido de direção única: Todo povo tem na sua evolução. ou citação na “Introdução” deste nosso trabalho. este número de indivíduos desclassificados torna -se muito maior. analogamente ao gado. justamente no período estudado por Caio Prado. um dos mais sugestivos para a nossa pesquisa. FBC. mais ou menos de acordo com a ordem das aparições no texto. tira destes seu arcabouço para conceber a desclassificação social dentro da sociedade colonial. e passa realmente a preocupar os administradores da colônia pois passam a ser registradas muitas referências em documentos escritos. vista à distância. inicialmente (como discutimos anteriormente). na visão do autor. Para tanto citaremos. O que pretendo explorar agora é a evolução do Sentido da Colonização dentro da idéia de formação. e a evolução destes desclassificados dentro da obra de Caio Prado. 60 . Se não somos mais colônia. passagens que consideramos relevantes sobre o sentido da colonização e. Caio. neste período mais avançado da colonização em que o degredo já não é mais a principal causa geradora de “vadios”. na seqüência. Teixeira Coelho citado pela autora. em função dos ciclos econômicos mutantes.administrativa. numa relação dialética que pretendemos estudar aqui. sobre seus dissidentes. 58 Ver CPJ. que desenraízam parcelas da população colonial. um certo “sentido”. podemos considerá-la.Os desclassificados sociais representam um setor da sociedade que se desagrega da ordem colonial. certamente os desclassificados de Caio Prado continuam a perambular pelas ruas contemporâneas.J. e se desagregam principalmente. na própria descrição do nosso autor. Mas a questão é que. como o de J. um dos aspectos centrais de sua obra. mas no conjunto de fatos e acontecimentos essenciais que a constituem num largo período de tempo. Os desclassificados sociais são portanto um desdobramento interno do Sentido da Colonização. transforma-se com a chegada da corte ao Brasil. Este se percebe não nos pormenores de sua história. Quem observa aquele conjunto desbastando-o do cipoal de No entanto. A existência de tal categoria não nega de forma alguma o sentido da colonização. e em breve muda de estatuto. e mesmo textos de viajantes como Couty. pág. se esta massa social à margem da ordem colonial não representou. como os bois de Saint Hilaire que na visão do autor perambulavam pelas estradas já automobilizadas da década de 40 58. que estuda uma enorm e gama de documentos coloniais.

sociedade. cit... conceito muito importante que analisaremos a seguir. O sentido corresponde ainda à individualidade. p. (CPJ. A grande fazenda monocultora.) A individualidade do Brasil. ou seja. se o sentido corresponde a este “dobrar-se” da colônia em direção à Europa. internamente ele se traduz em toda uma organização da sociedade. o caráter peculiar da sociedade que aqui se constitui dá-se pela forma de organização da colônia através da “grande exploração rural”. (CPJ. Grifo meu. Grifo meu. Em outras palavras. a partir de uma linha mestra e ininterrupta. em A dialética da colonização. 19. O exemplo mais bem acabado deste desdobramento interior do sentido voltado para o exterior seria. p. são grandes exemplos internos do sistema colonial em ação. os resultantes da parte humana de uma nação. E tal organização nasce do objetivo estritamente mercantil com que se desenvolve a colonização. país. forma-se a partir de um sentido. op. cit. como lemos aqui. é do sentido da colonização traduzido em tantas ações que compõem o sistema colonial que nascerá a individualidade desta parcela da humanidade. baseada em trabalho escravo (cujo exemplo colonial máximo são os engenhos de cana). como possivelmente já dissemos. que seriam “a outra face da moeda. Porém.incidentes secundários que o acompanham sempre e o fazem muitas vezes confuso e incompreensível. segundo Caio Prado. da administração e da economia colonial. a exploração desmedida das minas de ouro e diamantes. à identidade deste conjunto que constitui a nação: Tal indagação é tanto mais importante e essencial que é por ela que se define. nação. não deixará de perceber que ele se forma de uma linha mestra e ininterrupta de acontecimentos que se sucedem em ordem rigorosa e dirigida sempre numa determinada orientação. tanto no tempo quanto no espaço. o sistema colonial. ou talvez. forma-se. uma série de desdobramentos exteriores.” O que queremos ressaltar aqui é que. op. 19. aos quais acrescenta Bosi. para utilizar o termo tão difundido nos últimos tempos. Certamente são os desclassificados parte desta resultante que se forma. seja qual for a designação apropriada no caso.) O conjunto de fatos e acontecimentos. É somente aí que ele encontrará aquela unidade que lhe permite destacar uma parcela humana para estudá-la a parte. a individualidade da parcela da humanidade que interessa ao pesquisador: povo. a gene de sua formação social: 61 .

A formação. Atual. p. ver: Lopes. como discutimos na parte anterior deste trabalho. Atingir a percepção de tal linha mestra é colocar quase tudo em seu eixo. participariam desde elementos alheios à existência de vida no planeta até os mais derivados da forma humana de ser. que demandam do leitor um nível alto de abstração para imaginá-las. e só então nos é dado alcançar o sentido daquela evolução.. é de certa maneira definida pelo sentido da colonização.) A formação e o sentido são idéias elaboradas com as quais o autor trabalha.Visto deste ângulo geral e amplo. onde tomamos a obra de Nabuco como parâmetro para discutir o conceito em BFC. (CPJ. O sentido de Caio Prado opera concomitantemente com a forma. a essência. Grifo meu. explicá-la. Mas o que torna a formação viva é a pulsão do sentido. (CPJ.. cit. 31.Da retórica à semiótica. explicação. tanto no econômico como no social. Ao usar estas duas noções interligadas. op. Ordenamento. 20. mas sempre com o mesmo caráter que ela. cit. Edwar: Metáfora . op. o historiador se apropria de elementos de significação poderosos para formar suas imagens. destinada a explorar os recursos naturais de um território virgem em proveito do comércio europeu. 1987 (CapítuloII) 62 . da essência: No seu conjunto. a evolução de um povo se torna explicável. mas não é definido pela formação. mais completa que a antiga feitoria. são as palavras que decorrem do sentido.59 Ao conjunto formação. mas não só. da formação e evolução históricas dos trópicos americanos. SP: Ed. p. e vista no plano mundial e internacional. notamos claramente que na argumentação de CPJ a “essência” mencionada na primeira oração é definida mais adiante no mesmo parágrafo em termos de um “objetivo exterior”: 59 A este respeito. Grifo meu. de que o Brasil é uma das resultantes. Na seguinte passagem. operando de forma extremamente habilidosa com o tema que se propõe explorar .) A história torna-se quase que totalmente compreensível quando vista através de seu sentido. É este o verdadeiro sentido da colonização tropical. Os pormenores e incidentes mais ou menos complexos que constituem a trama de sua história e que ameaçam por vezes nublar o que verdadeiramente forma a linha mestra que a define. compreendê-la. e ele explicará os elementos fundamentais. por sua vez. a colonização dos trópicos toma um aspecto de uma vasta empresa comercial. passam para o segundo plano.

algodão. é o sentido da colonização. É uma espécie de alma nacional – uma vez que. alguns outros gêneros. O sentido da colonização. desdobra-se o 60 Justamente por essa idealização do Brasil voltado para fora de si. objetivo exterior. situa-se a dobra da essência. para o comércio europeu. é a essência que se dobra 60 . (CPJ. Nada mais que isto. situam-se os alicerces deste segundo plano. Tudo se disporá naquele sentido: a estrutura. o título do ensaio de Sérgio Buarque de Holanda publicado em 1934. A sua materialização mais palpável encontra-se no seu desdobramento interno. mas o próprio ato de nascer e desenvolver-se desta sociedade representa um dobrar-se para dentro desta mesma essência. bem como as atividades do país. É com tal objetivo. No plano superior. enumere a natureza e decifre a alma. A formação pertence tanto ao passado quanto ao presente. depois. ao mesmo tempo. op. voltado para fora do país e sem atenção a considerações que não fossem o interesse daquele comércio.Se vamos à essência da nossa formação veremos que na realidade nos constituímos para fornecer açúcar. Num lado. Podemos fazer aí uma analogia com a casa barroca descrita em A dobra: Leibnitz e o Barroco. estilisticamente. cit. O sentido da colonização opera como a planta que da sacada escura dobra-se para receber o sol. que veja nas redobras da matéria e veja nas dobras da alma. “Corpo e alma do Brasil: um ensaio de psicologia social”) – que o autor percebe na análise da matéria. corres ponde à dobra barroca. p. A dobra: Leibnitz e o Barroco . ainda que no passado nem sequer existisse nação.) O objetivo exterior. e que a mesmo tempo dela depende. E a formação pode ser a nação com todos os significados que tal palavra pode adquirir (pois até as coisas mais alheias às nações estão de alguma maneira ligadas às nações). todas as ações humanas. a materialidade da qual resulta a essência. Segundo um texto interessante de Gilles Deleuze.. Papirus. Tudo no Brasil nasce e se desenvolve voltado para os interesses da metrópole. 31. Gilles Deleuze. no interior da colônia. aos filósofos de seu tempo: Há necessidade de uma criptografia que. 61 No início desta obra. 63 . a sua arquitetura. 1991. por sua vez. no plano inferior. como sabemos. dos indícios visíveis. Gilles Deleuze descreve a casa barroca por seus dois planos. tanto a necessidade de “decifrar a alma” quanto de perceber as dobras está vinculada ao barroco. tabaco. Grifos meus. É este objetivo exterior que guia. mais tarde ouro e diamantes. Campinas: Ed. 61 Ver a nota precedente. que se organizarão a sociedade e a economia brasileiras. e em seguida café. de acordo com esta rica coleção de metáforas nacionais deixada pela primeira metade deste século. podiam ser os países também portadores de alma (exemplo disso. a essência. podemos pensar no cerne da obra de Caio Prado como uma metáfora que.

É esta a dobra que. aparece boa parte das referências aos desclassificados do ouro. o início do séc. XIX. 32. se gravará profunda e totalmente nas feições e na vida do país. deixa de atuar internamente. Grifo meu. enquanto materialidade. inverterá seus cabedais e recrutará a mão-de-obra que precisa: indígenas ou negros importados. nesse sentido. p. Este início. Com tais elementos articulados numa organização puramente produtora. cicatrizada para sempre pelo regime de escravidão. é o fim do ciclo do ouro.. nos quadros de história. (CPJ. desdobra-se o Sentido da Colonização. como influência única.) Vemos o autor falar nas feições do país marcadas até a contemporaneidade com este modo de organização colonial. como esta descrição do quadro barroco: A expressividade amplificada. Virá o branco europeu para especular. O sistema colonial passa a atuar como sistema de exclusão . O capítulo “Organização social” de FBC é sintomático.sentido como a razão de ser da nação. industrial. realizar negócios. não por acaso. Neste capítulo. Mas afinal que seriam tais feições? Onde elas se tornam visíveis? Imaginamos que as feições de uma nação correspondem a sua organização social. direciona a formação. sua lógica de existência. traduzido principalmente na organização da produção colonial. op. que se forma de acordo com este modo de ser voltado para fora dos interesses nacionais. Mas. o término da colônia. tanto exterior quanto interior. e pela sua economia principalmente. ou seja. de ciclo em ciclo econômico. no momento em que Caio Prado o estuda. e assim permanece. continua de algum modo a influenciá-lo. Um momento que revela de forma visível o âmago dos acontecimentos. Este momento. se cons tituirá a colônia brasileira. O autor escolhe justamente o momento em que o lucro da metrópole começa a deixar de ser a essência única a direcionar a formação. como veremos a seguir. cit. e aí vemos a grande exploração rural e outras atividades que atuam como traduções internas do Sentido da Colonização deixarem de absorver e dirigir toda a organização social da colônia. se o sentido fica gravado nas feições do país. ao produzir ele mesmo as possibilidades para que os “desocupados” se reproduzam aos montes. tentará eliminar os inconvenientes da 64 . De outro lado. cujo caráter se manterá dominante através dos três séculos que vão até o momento em que abordamos a história brasileira. o voltar-se para o além-mar.

internamente conectando o espírito à obra colonizadora.) O mesmo corte transversal na história do povoamento – que é feito nos capítulos referentes à questão – também é feito com relação às “Raças”. é 62 Jean Starobinski. 65 . Assim. “Vida Social”. a colônia pode ser lida nas dobras das espirais de ouro das tantas igrejas de Ouro Preto. É uma visão parcial apenas. A própria busca da camada superior. O conceito de formação vem para preservar esta mobilidade: O que temos visto até agora é antes um corte transversal na história do povoamento do território Brasileiro. assim. Formação do Brasil Contemporâneo é um grande quadro. também em sintonia com as idéias barrocas pelo ímpeto de retratar um momento de algo que permanece em movimento – isso o autor faz questão de repetir. da representação do plano essencial das coisas e de seu movimento. pois o caráter de organização exclusivamente produtora ainda se mantém dominante. e naquele próprio momento se processavam grandes modificações. que traduz-se em dobras inferiores. O Sentido da Colonização reaparece. p. faz parte deste ideário. XVIII para o seguinte. (CPJ. porque não estamos diante de uma população estacionária. Este corte segue o objetivo barroco da pintura do quadro no momento exato da cena em que fica mais evidente o âmago dos acontecimentos. 1994. a sua distribuição num “momento dado” e que é a transição do séc. 19. p.imobilidade e expressar o âmago do acontecimento pelo movimento que se desenvolve entre um passado ainda legível e um futuro iminente. em diversos trechos difusos ao longo da obra de Caio Prado. Barroco também pelo próprio estilo da época que se propõe representar. cit. 71. às atividades econômicas narradas em “Vida Material” (a segunda parte da obra) e à sociedade na terceira parte. op. mas o futuro já está iminente no surgimento destas categorias de indivíduos que passam a viver à margem deste sistema. barroco.62 É justamente assim o ponto de nossa história que Caio Prado escolhe para estudar em sua obra: aquele momento em que o passado ainda está legível. SP: Editora da Unesp. A invenção da liberdade . no capítulo homônimo (pertencente à primeira parte da obra). pela forma essencial que nos atribui: o dobrar-se para fora de nós mesmos. Grifo meu. Geralmente. E finalmente.. como se quase tudo nesse momento evidenciasse sua existência através deste corte transversal.

Aqui. na modernidade. o autor retoma a argumentação que lemos na primeira citação relativa à página 31 de FBC. a “grande exploração rural”. mas. De resto. é isto que constitui a célula fundamental da economia agrária Brasileira.. como descreve Rubem Murilo Leão Rêgo: Os três elementos trazem subjacentes o sentido principal da produção: o interesse comercial. Grifo meu) Este é o exemplo máximo da organização do sistema colonial. 66 . a reunião numa mesma unidade produtora de grande número de indivíduos. op. quando dispõe de cabedais e aptidões para 63 Rubem Murilo Leão Rêgo. em que vemos o elenco dos três elementos que estruturam a economia colonial de acordo com o Sentido da Colonização: Completam -se assim os três elementos constitutivos da organização agrária do Brasil colonial: a grande propriedade. 122.. reativado por esta necessidade de exploração dos trópicos. cai como uma aberração (como discutimos anteriormente).. op. E estes três elementos que formam a estrutura do Brasil – grande propriedade. tornando-se um dos principais impasses à democratização da sociedade Brasileira63. quando pode ser um dirigente.. p. A escravidão. segundo Caio Prado é um sistema pertencente ao mundo antigo. ) A especificidade da sociedade Brasileira é que aqui se superpõe grande propriedade e grande exploração.nos parágrafos em que o autor efetua uma síntese do capítulo (procedimento bastante comum no interior da obra) que reaparece sua teoria central. cit. Estes três elementos se conjugam num sistema típico. isto é. (CPJ. Para as zonas tropicais o europeu só se dirige de livre e espontânea vontade. cit. Vejamos este trecho do capítulo “Economia”. A grande propriedade significa a produção em larga escala. p. da produção em prol do Sentido da Colonização. monocultura e trabalho escravo – são a base do funcionamento de tal empresa. a monocultura e o trabalho escravo. essa superposição nunca foi de fato superada. A própria reativação do sistema escravista adaptado à América portuguesa pode ser entendida como uma manifestação deste Sentido além da esfera estritamente econômica. A colonização aparece exclusivamente como vasta empresa comercial. O caráter monocultor representa o interesse especializador na produção para o comércio exterior. manifestando-se no plano das mentalidades. 40. Desses aspectos decorre a importante noção de “grande exploração rural” (.

quando surgem tantos indivíduos e atividades que já não correspondem ao sentido da colonização. não respeitando o solo nem edificando aqui qualquer coisa que não vise ao lucro imediato. p. 32. que ocorre a melhor luz para se 64 Rubem Murilo Leão Rêgo. 35. cit. Caio Prado. a terra que tinham descoberto. trabalhar para outrem no Brasil significa algo desonroso.) O surgimento na sociedade colonial de “arestas” que não obedecem diretamente a este intuito aqui descrito representa um movimento dialético dentro do Sentido da colonização. quando conta com outra gente que trabalhe para ele. e portanto defender. (CPJ. Mas por que teria o autor escolhido justamente a hora em que o sentido deixa de ser o único a direcionar a formação da colônia como o momento para estudar tal sentido? É como se Caio se utilizasse da idéia barroca de que é no ocaso. objetivo exterior. No texto de Bosi que citamos anteriormente. Tal mentalidade. 67 . Segundo Rubem Murilo Leão Rêgo: Cogitou-se desse modo a única forma de defesa: a colonização64. voltado para fora do país e sem atenção a considerações que não fossem o interesse daquele comércio. cit. Pois ela só opera com sua força máxima quando há um número fechado de elementos. Grifo meu. é quase decorrente dela. só se concretiza perfeitamente nos primórdios da colônia. todos com sua razão de ser bem definida por tal sentido. O sentido da colonização está também profundamente vinculado a esta concepção dos portugueses. p. A dualidade gerada entre os desclassificados que surgem e os bem classificados é neste momento histórico mais uma dualidade que poderíamos acrescentar ao elenco feito pelo autor. escolhe para perceber – e fazer-nos notar – tal sentido justamente o momento imediatamente posterior ao ápice do ciclo do ouro.isto.. na medida em que era a única forma concebível pelo povo português de ocupar. digno apenas dos negros.. (CPJ. Só então cabe a afirmação de Caio Prado: É com tal objetivo. Decorre do desinteresse total dos portugueses por tudo que não seja o comércio..cit. A dialética da colonização . no pôr-do-sol. vemos justamente este jogo de forças que a partir de um certo ponto se apresentam. o sentido da colonização. como notamos acima. p. op. Mas a questão que veremos de agora em diante surgir no texto de FBC é que esta mentalidade de tirar o máximo proveito possível. 29) Para o português. Sérgio Buarque de Holanda associa ao surgimento aqui do “Homem Cordial” como analisaremos detalhadamente no capítulo de cotejo com a obra desse autor. op. O ocaso desta era. que se organizarão a sociedade e a economia Brasileiras. op.

Ocorre nesta fase da colônia um movimento interno ao Sentido da Colonização que é detectado por Caio Prado Jr. No entanto. apenas sua última página. O surgimento de faiscadores. (CPJ. não se extrairia da empresa colonial o máximo possível. Mas. porém. a mentalidade do não trabalho. Ora. ao perder uma de suas principais características – o objetivo exterior. lançam-se rumo às minas. A sua síntese.) Justamente por ser este o momento do termo final da colônia. foi tão somente porque (. Desdobramento que se manifesta na existência dos tantos homens que.. ou pelo simples fato de se desenvolverem dentro de uma colônia que nasce e cresce em função de tal sentido. donos de terras e minas. certas mutações. que nunca sequer pisaram no reino. o lucro imediato. o comércio interno – principalmente em minas – e a busca microscópica dos faiscadores. movidos pela cobiça. e a resultante de nossa evolução anterior. mas o sentido tinha como objetivo apenas o lucro dos grandes mandantes.. da aventura. e não apenas os grandes homens. ou porque o desabastecimento e a exclusão social podem também ser concebidas como características da colônia voltada para os interesses externos. são atividades como a agricultura de subsistência. Caso contrário. E se escolhi um momento dela. por isso nem todas confirmam o Sentido da Colonização. à aventura das bandeiras. São brasileiros. É uma nova mentalidade a guiar a formação do Brasil: a possibilidade de não trabalho expande-se a elementos populares. Em alguns casos. Em função de tais características nascem as atividades econômicas que citamos acima. Agora. e que não estão voltados para fora do país. continuam sendo os valores vigentes. por exemplo. p. 20. quando o Sentido da Colonização – que continua existindo porém começa a sofrer fissuras – ocorrem certos desdobramentos de tal sentido. por exemplo. muitas vezes mestiços. op.. cit. que de um modo ou de outro decorrem do Sentido da Colonização. não são mais apenas os portugueses que agem assim. Grifos meus. Nem todas as atividades que se desenvolvem nesta etapa da colônia são agora voltadas aos interesses da metrópole. Na verdade. é um desdobramento do Sentido da Colonização.perceberem os detalhes de uma paisagem: Não sofremos nenhuma descontinuidade no correr da história do colônia. com a elaboração social cada vez maior do 68 .) aquele momento se apresenta como um termo final. portugueses. voltado para a metrópole – tal lógica deixa ser o Sentido da Colonização.

formando-se em função de algo externo. 1986. E o historiador. Caio Prado incorpora) seria responsáve l por essa complexidade crescente da estrutura social da colônia. não adaptados ao trabalho escravo (característica apontada por Oliveira Vianna que. p. Laura de Melo e Souza: No decorrer do processo de colonização. mas a estrutura da sociedade foi se tornando mais complexa devido ao aumento da “camada intermédia”. In: Desclassificados do Ouro: A pobreza mineira no século XVIII. 2 Ed. No entanto.) Nas partes em que o autor analisa a agricultura colonial. deveria ter-me ocupado da mineração logo depois da grande lavoura. segundo a autora. assumindo o caráter de desclassificados. de acordo com o estatuto imposto pelo colonizador. É que participa do mesmo caráter econômico desta última e pertence à mesma categoria. os extremos da escala social continuaram a ser claramente configurados. o Sentido da Colonização se encaixa como uma luva. Ambas se destinam à exploração de produtos que têm por objeto unicamente a exportação. ou mesmo decorrente do aumento de mulatos ditos bastardos. As atividades bem classificadas. fiel a suas fontes. p. são atividades que se desenvolvem à margem das necessidades próprias da sociedade brasileira. que analisaremos a seguir) e resumem-se basicamente a estas: Não fosse por consideração de simples ordem na exposição. não necessariamente em atividades que se desenvolvem à margem das necessidades próprias da sociedade brasileira. ou mesmo “Comércio” que o sentido ganha desdobramentos internos. é em capítulos não teóricos como “Agricultura de subsistência”. a mineração. op. O próprio aumento do número de desclassificados. 169. como veremos posteriormente. (CPJ.13) É interessante notar que esta complexidade crescente da sociedade colonial é. decorrente do aumento do número de desclassificados. cuja indefinição inicial foi. São atividades que se formam justamente para atender necessidades de uma sociedade nascente cada vez mais complexa. Graal. Vemos nestas partes diversos indícios e evidências de que a mesma colônia por vezes também se dobrava sobre si própria. É nestes aspectos que o Brasil colônia estaria realmente dobrado para fora. aos poucos. Grifo meu.. em função da qual se organiza e mantém a exploração.Brasil65. decorrente por exemplo dos movimentos em ciclo que desenraízam setores da sociedade. para aumentar a a 69 . de autor anônimo. (RJ: Ed. . 65 Diz a este respeito. também atua desclassificação. “Pecuária”. são poucas (e isso vemos perfeitamente em textos como Roteiro do Maranhão. RJ. cit. a tendência passa a ser o aumento do número de atividades à margem do sistema colonial da forma como fora concebido inicialmente. Por outro lado.

op. 162. em resumo. compreendemos melhor o significado da idéia de desclassificados. o desenvolvimento de certa forma apreciável de uma agricultura voltada inteiramente para a produção de gêneros de consumo local. que seria justamente esta agricultura voltada para o consumo local. e que pela sua inutilidade daria como inexistente. Aqueles dois grupos são os dos bem classificados na hierarquia e na estrutura social da colônia: os primeiros serão os dirigentes da colonização nos seus vários setores. cit. o processo central que procuramos discutir aqui. Do sentido voltado para fora. E são as minas que também gerariam algo que seria ainda mais destoante com relação a este suposto coro colonial que cantaria em uníssono sua devoção à metrópole: os desclassificados sociais. nasce algo que se dobra para dentro. É um termo tirado tanto de 70 . para os destituídos de recursos materiais. que fascinados pelo metal e pelas pedras que começavam a escassear. (CPJ.retratou nitidamente tais indícios em sua obra. os outros a massa trabalhadora. Pois bem. Um destes é o curioso mercado interno que se forma em Minas: Tal fato provocou em Minas Gerais. dos desclassificados. p.) O fato a que Caio Prado se refere no início deste parágrafo é e trabalho contínuo das minas que ocupava integralmente a vida daqueles que a ele se dedicavam. na expressão muito difundida pelo autor. e que é narrado principalmente no capítulo “Organização Social”. Desenvolvimento tão acentuado que chegou a causar alarmes na administração metropolitana e seus delegados. são na colônia escassos. mais densamente povoada que outros centros de extração do ouro. dos inúteis e inadaptados.. (CPJ. p. É este. 281. Por ele. Aquele contingente vultoso em que Couty mais tarde veria o “povo Brasileiro”. viam nesta atividade agrícola uma das causas do declínio da mineração e dos rendimentos do sacrossanto erário real. op. desta total e contínua absorção dos esforços no sentido da colonização é que teria nascido um dos primeiros focos que contrariam tal sentido. Abre-se assim um vácuo imenso entre os extremos da escala social: os senhores e os escravos. indivíduos de ocupações mais ou menos incertas e aleatórias ou sem ocupação alguma. cit. para as necessidades do Brasil. Em suma. Grifos meus. Entre estas duas categorias nitidamente definidas e entrosadas na obra da colonização comprime-se o número que vai avultando com o tempo. o que se verifica é que os meios de vida. a pequena minoria dos primeiros e a multidão dos últimos.) O uso do termo “inúteis” nesta passagem de Caio Prado é muito interessante. . resumindo a situação social do país com aquela sentença que ficaria famosa: “Le Brésil n’a pas de peuple”. Grifo meu.

Laura de Melo e Souza. no olhar do colonizador. o que dificulta enormemente uma definição objetiva desta categoria social. E desclassificados significam. Acha-se estreitamente associada. que Laura de Melo e Souza atribui ao seguinte: A idéia de inutilidade de que se reveste esta categoria social aparece. em toda sua 66 67 Laura de Melo e Souza. muito provavelmente. p. Mais do que na Europa pré capitalista. (Grifo meu. no período histórico ao qual refere-se o recorte de Formação do Brasil Contemporâneo. op. tirou nosso autor inspiração para o próprio desenvolvimento da noção de Sentido da Colonização. o vadio é aqui o indivíduo que não se insere nos padrões de trabalho ditados pela obtenção do lucro imediato. vão sendo caracterizados pelo autor como uma parcela muito expressiva da população colonial. pela maneira como são inicialmente apresentados em FBC . há indícios de uma consciência. de que a desclassificação contraria o estatuto colonial. a propósito da desclassificação. p.67 Estamos abrindo um parêntese em nosso processo de análise textual para. os desclassificados que pareciam ser uma exceção à regra. como característica da consciência coletiva de um momento histórico: o do surgimento do capitalismo. esta característica: A noção de trabalho vigente na colônia é importante para a compreensão de outra peculiaridade nossa: a extensão que entre nós assume a expressão vadiagem e a categoria vadio. Segundo a autora que citamos acima. creio podê-lo afirmar. cit. O vadio adquire assim. já que temos vestígios dados por textos da época. cit. Caio Prado. principalmente na colônia. op. 64.) 71 . . Isto pudemos confirmar no texto Roteiro do Maranhão (anônimo) de onde. a designação podendo abarcar uma enorme gama de indivíduos e atividades esporádicas. Uma parcela muito expressiva que não veio ao mundo apenas para servir aos interesses da metrópole. como deveriam ser todos os indivíduos sob o jugo do sentido da colonização. fazer considerações a nível “acontecimental”. como analisaremos na parte seguinte desta pesquisa.documentos coloniais. XV. quanto de textos produzidos na Europa do séc. 63. principalmente vadios. 66 Aos poucos. . assim. ao ônus que representa a reprodução desta gente.

este o calcula.) (CPJ. com a mão-de-obra destes. p. op. 282) Na verdade. mestiços de todos os matizes e categorias. a autora citada acima levanta uma questão importante: marginal seria antes o insólito. Seria menor talvez a proporção nos três milhões de princípio do século. op. . mas ainda assim compreenderia com certeza a grande. a que denomina também desclassificados (dando um cunho sobretudo racial à desclassificação). Castro (. até brancos. que. a desclassificação acaba também servindo à colônia. para mostrar como a presença destes indivíduos a partir de um certo ponto (principalmente com a decadência das minas) começa a preocupar a colônia: O número deste elemento indefinido socialmente é avantajado. cit. índios destacados de seu habitat nativo mas ainda mal ajustados na nova sociedade em que os englobaram. Vemos estas “utilidades” atribuídas a este corpo de inúteis tanto no texto de L. a imensa maioria da população livre da colônia. numa população de doze milhões.. 72 . as primeiras polícias. frentes para abertura e povoamento de áreas de fronteiras etc. cujos administradores aproveitam-se do largo espectro de indivíduos aptos a serem encaixados na categoria de “vadios” para. Souza. deliberadamente. cit. como já me referi anteriormente. que atribui todas estas funções principalmente aos mulatos..análise da desclassificação social. Majoritariamente. Caio Prado responde nas duas direções.. em nada menos que a metade. não sendo escravos e não podendo ser senhores. o exótico. como estes Meneses. brancos puros. Na seguinte passagem de sua introdução. Vianna. preocupa-se especialmente em citar relatos da época. até rebentos de troncos portugueses ilustres. 13. montar entradas para o sertão. cresce contínua e ininterruptamente porque as causas que provocam seu aparecimento são permanentes. seriam os 68 Laura de Melo e Souza. como no texto de O. se coloca à margem ou o que é colocado à margem ? Mais ainda: Porque não entender o marginal como o que está mal integrado à sociedade? Em outras palavras: o que está mal classificado ? 68 A esta questão. M. Compõe-se sobretudo de pretos e mulatos forros ou fugidos da escravidão. e entre eles. do que o elemento vomitado por um ordem incapaz de o conter? O marginal seria aquele que. contingentes de trabalho em obras públicas. p. No tempo de Couty. ou pelo preconceito ou pela falta de posições disponíveis. contingentes para guarda e manutenção dos presídios. se vêem repelidos de qualquer situação estável. Barreto.

alguns de longa permanência. nos chama a atenção para o fato de que existem também os indivíduos que fazem quase uma opção pela vida no sertão. por ciclos em que se alternam. o movimento do Sentido da Colonização. com sua vegetação desenraizada. (CPJ. no entanto. no tempo e no espaço. : Em capítulo anterior já assinalei esta evolução por arrancos. As repercussões sociais de uma tal história foram nefastas: em cada fase descendente. o afastamento de uma autoridade incômoda e pesada. desagrega-se a parte da sociedade atingida pela crise. Neste instigante trecho. que no Brasil colonial corresponde ao grande eixo da civilização. do mais capaz. muda de rumo. o autor fala de duas categorias de elementos à margem do sistema – os inadaptáveis e os inadaptados : O sertão oferece a liberdade. outros regionais – mas sempre dirigidos aos interesses econômicos externos – seriam uma grande causa desclassificatória. op. 286) Vemos. numa das primeiras referências de sua obra aos desclassificados sociais. como plantas desenraizadas num leito seco. Passará então a vegetar à margem da ordem social.desclassificados indivíduos colocados à margem do sistema colonial pelos ciclos econômicos que se esgotam. prosperidade e ruína. quando se abaixa o nível das águas. outros de curta. e segue desbarrancando e desenraizando outras partes de terra. agindo assim de forma a colocar indivíduos à margem do sistema. evolui em ciclos na ótica caiopradiana. a parte mais frágil do leito. Caio Prado. restam à margem. e por outros fatores decorrentes da economia voltada para as necessidades da metrópole. perde suas raízes e base vital de subsistência. O rio abandona este leito. Cada novo ciclo representa uma cheia de rio. como já assinalamos. cit.. Os indivíduos que se dedicaram a um ciclo como o do ouro. Aí é a lei do mais forte. Seria este desenraizamento conseqüência da força com que passa a torrente da civilização pela colônia. A idéia dos indivíduos que vegetam. desfaz -se um pedaço da estrutura colonial. alguns nacionais. descrito acima. esta metáfora tão intensa. e que resume a história econômica do Brasil-colônia. Um número mais ou menos avultado de indivíduos inutiliza-se. O antigo leito fica assim longe de onde agora corre a vida no Brasil. e não a de classes favorecidas. E este movimento. estas terras remoídas permanecem abandonadas em um novo pedaço do rio. nasce daí. Representa por isso uma válvula de escapamento para todos elementos inadaptáveis ou inadaptados que procuram fugir à vida 73 . p. que remexe as margens. Os ciclos econômicos.

p. além das minas.. os pontos em que vemos a formação tomar outros rumos. O problema é que. e que nas condições econômicas da colônia não podia ter senão este papel secundário e de nível extremamente baixo. (CPJ. ao lado dos engenhos do nordeste etc: A mediocridade desta mesquinha agricultura de subsistência que praticam. neste corte transversal da sociedade do início do séc. Agregam-se a eles ainda estes “brancos degenerados e decadentes” que aliás aparecem também nas minas. cit. na sociedade colonial o que sobra para estes indivíduos são sempre. Não encontramos aí senão um elemento humano. 114. no início do séc. eles já deixavam. feita por indivíduos inadaptáveis às leis do trabalho na colônia. inclusive nas províncias litorâneas de São Paulo. De qualquer modo. no entanto. op. XIX. Vimos acima o exemplo dos sertões. O mesmo ocorre também em outras regiões do país. são também resultantes do Sentido da Colonização. residual. numericamente.organizada dos grandes centros de povoamento da colônia. econômica e moral. Segundo Rubem Murilo Leão Rêgo: 74 . leva para elas por efeito de uma espontânea seleção social. Tais arestas. as categorias inferiores da colonização. que estão por todas as partes no quadro colonial. em que os desclassificados também já eram muitos nesta época. 161) Toda população indígena e seus descendentes culturais e raciais são logicamente desclassificados do sistema colonial. A existência de todas estas nuances de indivíduos representa. meras rebarbas. E é o sertão o refúgio perfeito. no pequeno comércio e em incontáveis setores à margem do Sentido da Colonização. o sinal da desagregação desta sociedade. Há também as citações de Caio Prado que referem-se à agricultura de subsistência onde vegetam mais indivíduos à margem do sentido da colonização. (CPJ. XIX. cit. onde a civilização não impõe tantas leis e o controle é muito menos rigoroso. Ou então brancos degenerados e decadentes. de ser apenas um rara exceção no sistema. sobretudo mestiços do índio que conservam dele a indolência e qualidade negativas para um teor de vida material e moral mais elevado. A idéia de marginalidade encaixa-se aqui perfeitamente a este contingente populacional. p. as arestas do Sentido da Colonização. Grifos meus. do ponto de vista econômico.. op.) Aí vemos a possibilidade de pensar a desclassificação como quase uma escolha.

por um lado. Essas características. uma esperança de permanência da ordem. acaba por conceber também algo ainda mais interessante. quando se muda o ritual – pois se passa a ser a sede do reino – E então. Podemos fazer um paralelo entre este momento histórico descrito em FBC. segundo o autor. Uma cena repleta de mudanças. dentro da teoria do autor. expressão histórica da obra da colonização. ao conceber seu Sentido da Colonização. e por isso uma data muito valorizada por Caio Prado. a pobreza e seus vínculos sociais. Foi este um momento importante. decisivo para uma perspectiva de manutenção do Sentido da Colonização. dentro do contexto da formação. talvez pouco mais da metade dos indivíduos que aqui habitavam. A perversa conseqüência disso foi a falta de nexo moral que d efine a vida brasileira em princípios do século passado. 74 75 . que podemos chamar de “o sentido da exclusão”. op. continuará dando o mote. cit. enquanto cena fundamental onde se define o próximo desdobramento da formação.A sociedade brasileira dos fins do século XVIII e início do XIX. pode representar. influenciar de diferentes formas os desclassificados. Caio Prado. mas a velha essência. e uma importante cena da 69 Rubem Murilo Leão Rêgo. podemos dizer que o Sentido da Colonização já não é a matriz de toda a sociedade em formação. A sua própria exclusão era a grande influência.. A chegada da corte ao Brasil. um sinal de envelhecimento de uma ordem social que em breve se transformará. 69 A desagregação social da colônia fica assim patente neste amplo processo de exclusão social produzido pelo próprio sistema colonial. p. Os desclassificados do ouro são os pioneiros da exclusão no Brasil. também transmutada. neste contexto de desagregação. teoricamente. era uma sociedade marcada por uma “organização estéril” no plano das realizações sociais e por um adiantado processo de desagregação social. O que não significa de modo algum que não pudesse. Essa unilateralidade produzia “a precariedade daquilo que sai do círculo estreito desta forma particular de atividade produtora” numa referência clara aos setores de produção que estavam à margem das atividades centradas na grande lavoura e na mineração. rege apenas os bem classificados. e ao mesmo tempo de permanências. passam as atividades coloniais a pertencer principalmente ao Brasil. Voltando à análise do texto de FBC . Sua presença significa. de alguma forma são resultantes do “caráter unilateral” que constitui o traço fundamental de uma estrutura de produção “voltada essencialmente para a produção de alguns gêneros exportáveis”.

Esse é o momento formador narrado por Caio Prado. cit.. Se hoje todos discutem a exclusão social. 76 . como o momento prestes a transformar-se. Por ser o primeiro autor a buscar um sistema que tudo ordenasse. referidas em diversas notas – e muitos contrastes que permanecem. desenvolve todas as tendências e todos os personagens principais de um grande drama histórico. 52. associada a festejos populares. (.. em cenas grotescas o envelhecimento sem esperança das relações feudais e a surda resistência da população contra a tentativa de renová-las. “Narrar e descrever”. bem no meio da ação. Ao explorar estes indivíduos ele cria uma classe social que se unifica no caos de sua existência. discutiriam esse tema? 70 G. A comemoração militar revela. 70 O envelhecimento sem esperança das relações coloniais. o historiador acaba deparando-se com esta classe de desclassificados. descrita por Lukács: No capítulo introdutório do seu romance Old Mortality. também se coloca bem no centro da ação. organizada na Escócia depois da restauração dos Stuart e da tentativa de renovar as instituições feudais.) A grande arte épica de Scott fixa neste cenário todos os contrastes que estão prestes a explodir numa luta sangrenta. e esta classe perdura até o Brasil da virada do milênio. com todos os detalhes que o compõem..narrativa épica de Walter Scott. p. como veremos a seguir no cotejo com a obra de Euclides da Cunha. quantos. Walter Scott descreve uma exibição militar. uma essência. Old Mortality. de modo quase épico. muitos contrastes prestes a explodir nas muitas revoltas do período regencial – revoltas.) Em suma: Walter Scott. . convidando o leitor a também participar da ação. narrando muitas passagens de sua obra no modo subjuntivo dos verbos. na década de 40. um cenário com várias tendências em jogo. Lukács. in: op. (. aliás. contando o que se passou nesta celebração militar e descrevendo o cenário em que ela se realizou.. Assim entendemos o conceito de formação em Caio Prado: algo que carrega consigo um desenvolvimento secular. E o autor. mas que se efetiva na sua plenitude no momento em que se manifestam as forças históricas de maneira intensa. tanto econômicas quanto sociais. e por fazê-lo através do viés marxista. de golpe. colocando-se.

77 .

Das Letras.CA P ÍT U LO 6 SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA: O SENTIDO DA CORDIALIDADE Passemos agora ao estudo das interconexões entre formas de percepção da história. foi sem dúvida lido por Caio Prado e pode-se pensar que influenciou em muitos momentos Formação do Brasil Contemporâneo. 26 . As raízes de RB. Raízes do Brasil. A obra começa com a afirmação de que somos nós ainda hoje uns desterrados em nossa terra1 As Raízes do Brasil. 31. 1995. XIX –. que está constantemente citada em notas de rodapé. numa teoria explicativa. Raízes do Brasil. A influência de Sérgio Buarque de Holanda sobre a obra de Caio Prado se dá sobretudo no nível conceitual e metafórico: Caio Prado incorpora de Sérgio Buarque de Holanda a necessidade de corporificar. buscando inicialmente o uso que Caio Prado faz deste termo 1 Sérgio Buarque de Holanda.. Procuraremos desenvolver esta questão. a 143 . não estão fincadas no Brasil. no entanto. lançado em 1936. a grande imagem que caracteriza o Brasil. para Sérgio Buarque de Holanda. foi certamente deste autor um dos usos mais bem acabados da metáfora das raízes aplicada à história. Vamos começar nosso cotejo entre essas duas obras por um termo comum que aparece em ambas e que é parte do título do livro de Sérgio Buarque de Holanda: as Raízes. estão fincadas em solo português. escolhas de estilos e formação de teorias nas obras de Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Jr. as analogias vegetais f oram bastante aplicadas na história e ciências sociais do final do séc. assim como Casa Grande & Senzala. Ainda que este autor não tenha inventado esta metáfora – como se sabe. SP: Cia. p. ed.

144 .

como uma espécie de mosaico de citações ou alusões que em alguns casos o autor pode fazer de maneira mais ou menos inconsciente. O conceito de intertextualidade baseia-se no pressuposto de que não existe nenhum texto completamente original. tanto referências diretas. em um texto. de outras vozes escondidas. termos e estilos historiográficos herdados de outros autores. de M. Nosso objetivo é analisar a intertextualidade a partir do processo de mimese. Martins Fontes. definem-se a intertextualidade explícita (citações. no primeiro capítulo desta parte do trabalho. como uma escrita que se constrói sobre outra ou outras escritas. um mapeamento das principais fontes primárias utilizadas pelo autor. O conceito ganha grande impulso conceitual a partir. A escrita de um autor pode ser considerada.Parte 2 Mimes e e referências: A s mil conexões de F ormação do Brasil Contemporâneo Buscamos aqui fazer um trabalho de mapeamento e identificação dos diálogos deste autor com outros autores: vamos procurar. de idéias. 75 . quanto indícios que nos levam a alguns textos da historiografia brasileira. Faremos também. A partir desse pressuposto. assim. Bakhtin. 1992. Jaques Derrida e Gerard Genette são alguns dos autores também considerados importantes nesta caracterização da intertextualidade. que no livro Estética da Palavra1 considera a intertextualidade como relacionada ao conceito de polifonia – a existência. paráfrases e outras referências diretas a outros autores e textos) e a intertextualidade implícita (os ecos de outros textos que se podem reconhecer em um texto sob análise). Estética da criação verbal. no texto de Caio Prado. e na discussão 1 Mikhail Bakhtin. SP: Ed. em FBC . epígrafes. por exemplo.

O surgimento da figura do autor que assina seu texto. Paradoxalmente. a narrativa não remete diretamente ao indivíduo que escreveu aquela obra. A unidade do texto. ou assinados com pseudônimos. Em outra obra de M. Aliada a esta discussão sobre intertextualidade. Neste trabalho. há uma outra também muito importante para o tipo de trabalho que aqui pretendemos fazer. quando se promulgam regras estritas sobre os direitos do autor. E isto vale ressaltar aqui pois. A Microfísica do poder. erigese sobre o corpo de outros textos. numa obra que acrescenta bastante a esta temática – O que é um autor?2 –. XVIII e início do séc. sem. numa sociedade como a nossa. necessitar da função 76 . Isto teria ocorrido no fim do séc. Segundo Michel Foucault. o autor explica possibilidades interessantes de “emergência de um discurso” num determinado contexto histórico. 1984). O palimpsesto seria um exemplo quase que literal da intertextualidade – a escrita de um texto sobre outro – que permite a elaboração da idéia hoje corrente de que qualquer texto. em uma certa medida. Assinar um texto foi historicamente um gesto carregado de riscos. uma certa quantidade de discursos são providos de autor. por exemplo. a prática medieval de escrever um texto sobre outro. estaria relacionado a um regime de propriedade para os textos. por este motivo acaba havendo uma pressão para a formação da figura do autor sempre relacionada ao texto. (RJ: Ed.de como se pode trabalhar com esta polifonia textual. passível de ser punido. teorizou sobre o conceito arcaico de palimpsesto. é tão questionável quanto a própria unidade do autor. cit. VIII e IX. sobre as relações autor-editor etc. entre outras coisas. que consideramos como narrativas históricas. antes ainda de ser compensado por um regime de propriedades. um texto cristão sobre. Foucault. ainda que sejam estes anônimos. vamos nos resumir a buscar no texto de Formação do Brasil Contemporâneo referências discursivas relacionáveis a autores. na opinião de Foucault. XIX. num processo de reaproveitamento material de papiros e pergaminhos comum nos séc. Graal. 2 3 Op. ao passo que outros simplesmente não possuem tal característica3. por exemplo um texto pagão. remonta a um outra questão que acompanha esta história: assinar um texto torna o autor vulnerável. A grande quantidade de textos coloniais que se encontram sem autor. O autor é uma função dentro do texto histórico. que vem relacionada com a idéia de uma unidade da obra. Gerard Genet. vamos trabalhar com um texto anônimo (Roteiro do Maranhão) Mesmo nos textos históricos.

reorganizá-las. Como no texto literário. Trabalharemos com algumas destas. Formação do Brasil Contemporâneo . e esta não se exerce de forma universal sobre todos os discursos. No nosso entender. Num texto literário. 77 ... se não é Caio Prado Jr. são aqueles que. dos seus livros. Aí entra também a questão do estilo. fica mais claro que o autor não corresponde diretamente ao escritor. Tendo em vista a formação desta função. seria tão falso procurar o autor no escritor real como no narrador fictício. dentro do apanhado de referências do mundo. a partir de discursos feitos anteriormente. o que não restitui à figura do autor sua correspondência com o escritor real. assim como outros autores com os quais compararemos sua obra. Reiterando o que dissemos anteriormente. encaixa-se nesta categoria. Mas pode fazer parte da figura do autor. Foucault. praticamente impossível de ser fechado. o estilo de narrar eventos. g. Vianna).Esta muito resumida contextualização histórica da função autor que aqui apresentamos com base no texto O que é um autor? serve apenas para deixar caracterizado que a função texto nasce antes da função autor. são os autores mais importantes. Caio Prado Jr. que são capazes de cumprir esta função. dentro da história do Brasil. os fundadores de discursividades: Estes autores têm isto de particular: não são apenas os autores das suas obras. Desta forma. o caso das metáforas da física no texto de Caio Prado que nos remete ao modo de elaboração m etafórico de O. Ou ainda concluir. Produziram alguma coisa a mais: a possibilidade e a regra de formação de outros textos. como a construção e o uso das metáforas (e. ou mesmo estilos interpretativos semelhantes frente à história. um inventor de um discurso – pois nosso objeto de analise aqui será justamente a busca dos muitos discurso que irão autor como elemento fundamental. coisas novas.4 Como exemplo de “fundadores de discursividades” trabalha Foucault principalmente com dois autores: Freud e Marx. recolocados em outros contextos. não existem textos absolutamente originais. segundo M. No texto histórico não há esta definição de um locutor fictício. A tais características corresponde um enorme elenco de coisas. Para Foucault (usamos sempre a função autor para tratar dos textos) o autor é uma espécie de “foco de expressão” que se mantém mais ou menos constante desde rascunhos até as obras. E estes autores. enquanto autor. poder-se-ia pensar que o autor histórico nasce desta cisão entre o escritor e narrador. Um autor torna-se reconhecível nas diversas versões de seu texto graças a características que a escrita resultante do exercício de sua função assume.

na formação de sua inovadora discursividade? Nesse ponto torna-se crucial o conceito de mimese. antes de Caio Prado. mas não a imitação entendida como simples absorção do conteúdo ou da forma de um texto por outro. op. Esta reapropriação implica muitas possibilidades. Vianna em Populações meridonais do Brasil. A desclassificação teria agora um sentido político. Sua relação com as fontes. foi. Existe também em sua obra a idéia dos desclassificados decaídos brancos. por parte de um autor. de algo que surgira inicialmente em outro texto. Assim. a imitação entendida como uma reapropriação diferenciada por parte de Caio Prado seria um conceito importante nesta busca da intertextualidade. a mimese não é a representação da semelhança. Como ele as processa. p. no texto de O.58 78 . Na obra de Caio Prado este termo ressurge. um termo que surge num contexto textual que desemboca numa conclusão. mas não da mesma maneira. mas o principal desclassificável da colônia seria mesmo o mestiço. ou no mesmo contexto em que surgiram anteriormente. a partir d e agora.compor o seu. Este conceito da imitação como diferença é desenvolvido no texto de Leopoldo M. Vianna. Porém. porém agora com forte conotação social – os desclassificados são aqueles que ficam à deriva quando se extingue a febre do ouro: os forros. indígenas aculturados etc. muito utilizado por O. É um processo de reapropriação. podemos dizer que este autor introduz na história uma transformação fecunda. Por mimese. decorrente da falta de oportunidades que fornecia o sistema colonial a todos que não fossem escravos ou senhores. com o qual pretendemos trabalhar. que analisamos anteriormente. Erasmo precavido no seu tempo já havia notado tal sutileza e empregou a palavra aemulatio para dar à mimese um significado mais justo e preciso. este termo surge somente associado a características somáticas: o principal fator de desclassificação seria o surgimento dos mestiços. agora como sendo chave para uma nova interpretação conclusiva. formando um discurso novo a partir das conhecidas fontes e de seu cruzamento com aspectos não tão conhecidas do marxismo. e que participaram de obras anteriores a sua –. Bernucci A imitação dos sentidos: Ao contrário do que geralmente ainda se pensa hoje em dia. pode ser utilizado em um novo texto.cit. Por vezes. 4 Michel Foucault. pode-se entender imitação. onde idéia ou forma herdadas podem voltar à tona no texto que analisamos. Um exemplo: o termo desclassificados. mas a representação da diferença.. é nosso tema. A mimese aqui refere-se a um processo elaborado.

XX e mesmo àqueles coloniais. enquanto historiador. metafóricas e outras que remetem às décadas de 20 e 30. pois permite que busquemos as referências discursivas. por suas publicações em geral. indo-se dos textos mais antigos aos mais recentes. mas desde que nesta se visse também a contribuição pessoal e enriquecedora daquele que se apropriava. Não só pelo ano de sua publicação é este livro ideal para uma busca intertextual. referências intertextuais e metáforas. pelo ano de sua publicação – 1942 – torna-se um texto privilegiado. Pensamos intertextualidade como o cruzamento de textos: nosso objeto de estudo aqui será o palimpsesto. assim como aos textos escritos na virada do séc. p. Euclides da Cunha. 5 A idéia de intertextualidade é central neste processo. finalizando esta parte. antecede em muito. SP: Edusp. apesar de ter sido publicado depois de Os Sertões. 97. e Sobrados e Mucambos . em suas páginas. Capítulos de História Colonial. idéias. 5 Leopoldo M Bernucci. O materialismo histórico confere ao autor uma busca profunda pela cientificidade histórica. Tomaremos sempre como base de busca as páginas de Formação do Brasil Contemporâneo que. 1995. 79 . Com base na data desta última obra. O critério para a exposição dos textos com os quais cotejaremos Formação do Brasil Contemporâneo foi o das datas de publicação. Já Gilberto Freyre tem duas obras cujos trechos cotejamos com Formação do Brasil Contemporâneo: Casa grande e senzala .Em outras palavras. pois Capistrano. e mais preocupado em analisar com clareza situações históricas. A initação dos sentidos. de 1933. O texto de Capistrano de Abreu. de 1936. o que torna seu texto menos ensaístico. é apresentado antes deste. o novo termo sugeria então a idéia da “imitação” ou “cópia”. Sua pesquisa enquanto historiador foi muito aprofundada e os resquícios dos autores lidos permanecem assim vivos. autores dentro do texto. apresentamos este autor posteriormente a Sérgio Buarque de Holanda. como eram muitos de sua geração.

vilas e distritos. assim. A maior parte destes textos nosso autor os encontrou publicados na Revista trimestral do IHGB que. vemos que a maior parte daquelas páginas é preenchida justamente por tais textos. vinha publicando um grande número de fontes primárias. para que se pudesse escrever a história nacional. principalmente na virada do século. esta seria a parte centrada no fim do período colonial. e acrescentam às páginas de Formação do Brasil Contemporâneo inúmeros detalhes da vida cotidiana do Brasil Colonial. ofícios. cartas. os escritos deixados por pessoas que viveram este período ganham uma importância acentuada. apontamentos. XIX. em sua maioria. escritos entre o fim do século XVIII e o início do séc. da melhor maneira possível. Outros documentos foram provavelmente encontrados em câmaras. e ficam como prova do esforço historiográfico feito pelo autor para elaborar. São relatos de viagens. fóruns etc. como já dissemos. É a leitura destes minuciosos relatos que permite a Caio Prado assumir o ponto de vista de “observador” do Brasil Colônia: Para este setor (o setor dos desclassificados do ouro) não se pode nem ao menos falar em 80 . Foram estes textos.. o seu retrato da colônia. Olhando a bibliografia da obra de Caio Prado. portanto.Vale lembrar que o subtítulo de Formação do Brasil Contemporâneo é “colônia”. parte integrante do texto de Caio Prado. Estes relatos de época são. São eles que permitem a nosso autor esta viagem por tantas freguesias. memórias etc.CA P ÍT U LO 1 O ROTEIRO DO SENTIDO: PASSAGENS RELACIONÁVEIS AO ROTEIRO DO MARANHÃO Iniciaremos nossos “trabalhos de busca” de referências textuais em Formação do Brasil Contemporâneo justamente por aqueles textos que são elementos primordiais para um historiador preocupado em montar sua perspectiva própria e bem acabada da sociedade colonial: os textos produzidos na colônia. Concebida para ser uma obra em quatro partes.

se definha e a nada se abalança. Todos estes escritos têm importância como narrativas de época que possibilitam ao autor formar sua “visão” da colônia. escarnado. tomo 62.8 Este texto. organização dos estados e planos de desenvolvimento para regiões ermas do Brasil. escrito por um autor anônimo no último quartel do século XVIII. surpreende pelos comentários econômicos e políticos sobre a relação colônia-metrópole. Os comerciantes do Rio de Janeiro. e o retrato de um pequeno bairro de Constantinopla é o que hoje oferece o Tejuco. 269 . por ter uma função muito mais visceral na obra de Caio Prado Jr. ou eles próprios. magro. ao mesmo tempo em que a retifica. ou os que lhes comprarem as fazendas. Vieira Couto7. o “mutirão”. Saint-Hilaire. . nos apresenta o resultado a que levara o sistema. em resumo que o observador encontrará de essencial na sociedade da colônia (CPJ. neste caso a exceção que confirma a regra ao “observador atento”.. o escasso povo que resta. mostrou a sua hedionda cara entre este povo. recusam até ouvir o nome de Serro Frio (37). indicada no trecho acima.) Se vamos à nota três. vemos que é com base num comentário de Saint-Hilaire que Caio Prado formula tal “observação”. o comércio se estanca. este texto 6 A referida nota é a seguinte: (3) Há exceções a assinalar. Mas são raras. o despotismo frio. enquanto mede com os olhos o lugar para onde se retire. requinte de tirania. Grifo meu. Saint-Hilaire teve ocasião de observar o mutirão numa região do hoje triângulo mineiro. como a mais interessante e conhecida delas. cit. no entanto. John Luccock são alguns dos muitos viajantes que têm seus relatos citados nas notas de rodapé de Formação do Brasil Contemporâneo. Martius. Saint-Hilaire fornece. 81 . se destaca dentre as fontes primárias. Parece contudo que se trata antes de uma sobrevivência indígena. Como procuraremos expor a seguir. como mostramos no exemplo acima. (CPJ. Um texto.. “A terra se despovoa. p. a povoação mais linda. em outro tempo. É ele o Roteiro do Maranhão a Goiaz pela Capitania do Piauhí. 7 Vieira Couto. p. 8 In: Revista IHGB. 183). op. pp. Parte I.(3) É isto.“estrutura” social porque é a instabilidade e a incoerência que a caracterizam tendendo em todos os casos para estas formas extremas de desagregação social tão salientes e características da vida Brasileira que notei em outro capítulo: a vadiagem e a caboclização. incumbido pelo governo em 1798 de estudar a mineração no Brasil. descontente e como estúpido.. que ainda subsiste em certas partes do Brasil. na obra do autor. de minas” (38). op. 1900..6 São viajantes como ele que fornecem pistas para a identificação da existência deste setor social que passa gradualmente a crescer e tomar força. exceções em que vemos se constituírem neste setor da vida colonial formas sociais mais aperfeiçoadas. que fiam as suas fazendas às mãos cheias para qualquer das outras comarcas. Voyage aux sources. II. cit. uns não se atrevem a fazer girar o seu cabedal porque não sabem a hora em que se verão perdidos. e verdadeira obra de insanos cegos pela cobiça. como vimos anteriormente. 334. e que consiste no trabalho em comum e auxílio mútuo na lavoura. 60 a 153. Enfim.

entre os rios Tocantins e Parnahiba. Analisa enfim a sociedade colonial como um todo. onde se lê o pacto colonial descrito minuciosamente pelas palavras de um observador da época. vendo que nós por toda a parte as cercavamos. Por estes motivos. enfim. § 3o. um homem inteligente que viajou pelos sertões remotos do Brasil no fim da época do ouro. as Nações. relativa ao esquema proposto para as povoações: Isto posto he facil de conhecer. Ele traça um plano de ocupação racional deste sertão. o que é sugerido por alguns termos que encontramos em seu texto. de organização dos estados. de economia. que ficassem ao Norte. sem as largas despezas. assim como sua relação com a metrópole. onde narra sua viajem (da cidade de São Luiz até Villa-boa. com huma linha de Povoações nossas. o autor utiliza em seus argumentos de todo seu conhecimento de política. nos tendo legado um relato impressionante. Vamos começar a análise do Roteiro do Maranhão por esta citação. Não seria uma colonização visando ao simples povoamento. A base deste plano civilizatório seria justamente a criação de gado como forma de povoamento racional. desde Os Sertões da Parnahiba até Tocantins. bem como provavelmente é uma forte inspiração para a noção de Sentido da Colonização. A grande preocupação deste autor – que por algum motivo não se identifica no texto – é basicamente a de persuadir a metrópole quanto às vantagens de seu projeto de estabelecer. não só virão com mais facilidade à nossa sugeição. para persuadir u m provável leitor de que seria algum encarregado da coroa. sempre da perspectiva dos interesses metropolitanos. Foi. escolhemos esta fonte primária para o exercício de um cotejo mais elaborado com o texto de FBC. Tal preocupação fica exposta nas notas que elabora como reflexões sobre a parte inicial de seu texto. mas. visando aos melhores frutos de tal ocupação para a metrópole e mostrando a utilidade que pode ter um lugar ermo dentro do esquema geral da colônia. (RM.influi em todo o modelo explicativo da economia colonial montado por Caio Prado. a proposta de nosso autor anônimo é a colonização do trecho que ele percorrera em sua viagem. p. que cortado todo este Paiz. 87) Logo adiante surge o gado como solução econômica para tais povoados: 82 . ou um dirigente estabelecido na metrópole. Como dissemos anteriormente. e funestas enfermidades.. Provavelmente foi ele um leitor de Hobbes. O interessante deste texto é que. três povoações para a criação de gado. passando pelos rios Parnahiba e Tocantins).

e inutil pela aversão que tem ao trabalho da Agricultura. bastam destes mestiços de índios. 192) A descrição das pessoas que ocupam Os Sertões. e não havendo escravos. Tem a este exercício huma tal inclinação.Nelle (na criação de gados) pouco se muda na superfície da terra tudo se conserva quasi no seu primeiro estado. ociosos em regra e avessos em princípio ao trabalho.. mas o espírito desta passagem permanecerá no texto de Caio Prado: Dez ou doze homens constituem o pessoal necessário. mulatos ou pretos que abundam nos Sertões. p. têm uma inclinação especial para a vida aventuresca e de esforço intermitente que exigem as atividades da fazenda (CPJ. § 4o.. (CPJ. É lógico que Caio Prado. que procura com emprenhos ser nelle occupada. São observações como a que citaremos a seguir que iremos rever no texto de Formação do Brasil Contemporâneo: Esta gente perversa. (RM.cit. da qualidade de Vaqueiro é um primeiro ponto importante de intersecção que detectamos entre as duas obras. O 83 . Mão-de-obra não falta. he muito differente empregada nas ditas fazendas de gados. com seu olhar de um homem que vive quase dois séculos depois do autor desconhecido. feitos huns curraes. § 5o. e não seu plano de povoamento. op. p. por uma légua de largura. absorve principalmente as informações e observações contidas neste escrito. op. Veja-se como a descrição das fazendas de gado em FBC é similar àquela feita acima: Uma fazenda de gado se constitui em geral com três léguas de terra. 191. e estabelecida huma fazenda. das fazendas que ocupam Os Sertões é largamente aproveitada por Caio Prado. (RM. e introduzidos os gados. possivelmente com referências que partem deste Roteiro.cit . 88) O termo “perversa” é banido. Levantada huma caza coberta pela maior parte de palha. p. constituindo toda a sua maior felicidade em merecer algum dia o nome de vaqueiro. e que. ociosa. das fazendas de gado. p.. sendo meia para cada margem. dispostas ao longo de um curso d’água. 88) Esta temática d o gado. estão povoadas tres legoas de terra.

114) Essa imagem do sertão como lugar em que os indivíduo torna-se rês desgarrada da sociedade reaparecerá com força não só em Formação do Brasil Contemporâneo. p. tornaremos ás mesmas Capitanias para mostrarmos as utilidades que se seguirão á metrópole destas Colônias. que manda aOs Sertões. tornam-se possivelmente arredios: Primeiro Prejuizo He o primeiro dos dittos prejuizos: Que o estado perde todo aquelle indivíduo. O autor do Roteiro do Maranhão segue sua argumentação a favor do estabelecimento de povoações para a criação de gado na referida região mostrando que não há abundância de gado para o abastecimento das minas e observando que. como também (e em data anterior) em Capítulos de História Colonial. em que efetuaremos o cotejo de FBC com os dois textos referidos acima. se nellas si estabelecesse. Não se sabe se ele assim argumenta para que a metrópole leve adiante seu projeto de povoamento ou se ele realmente pensa sempre na 84 . §19o . 96) A grande questão deste autor é o benefício da metrópole. e mostraremos depois como ainda estabelecida a abundancia de gados.. Por ora gostaríamos de ressaltar seu aparecimento desde os relatos coloniais. Os Sertões e em muitos outros textos históricos e literários escritos pela geração de autores de Caio Prado e antecessores. (RM. § 65o .MLAG). dos homens que uma vez levados à fazenda de gado. é na colônia uma zona além da fronteira da civilização. isso não seria problema para a metrópole: Assentando pois que não ha a pretendida abundancia de gados. e preocupa-se em indicar também os possíveis prejuízos que este pode causar à metrópole. mesmo que houvesse. O primeiro deles. não serviria de obstáculo a execução do referido Projecto. exploraremos mais esta idéia. (RM. relaciona-se justamente à natureza perversa que atribui à população do sertão. e disso decorre o prejuízo humano. Nos capítulos seguintes. O autor do Roteiro é prudente ao expor seu plano.Roteiro é citado pelo autor em nota de rodapé . O sertão. que deve prover o gado.

como he todo o genero de pão e legumes. XIX descritos por Caio Prado em capítulos como “Mineração” têm em comentários como este que lemos acima a sua explicação. então poderemos reconhecer. É Antonil. e não possão vir de fora. Justamente por isso. § 92o. É o senhor de engenho e cristão-novo Gabriel Soares de Sousa. (RM. que prima por qualidades argumentativas.) Em todos manifesta-se cândida e lisamente o propósito de explorar. ele pode ser enquadrado naquilo que Alfredo Bosi. oculto sob este anagrama. Pero Vaz de Caminha. chama de discurso colonial orgânico: A luta [entre poderes eclesiásticos e o estado civil na colônia] é material e cultural ao mesmo tempo: logo é política. que só se addmita a daquelles generos. organizar e mandar.. que absolutamente forem de primeira necessidade. para adotar a feliz distinção de Antônio Gramsci. e a si mesmo chamando-se discretamente Anônimo Toscano. pois os dirigentes provavelmente não dispunham da racionalidade deste autor.. seu raciocínio a respeito do gado completa-se com sua concepção acerca das minas: . proferido pelos seus próprios agentes. E o autor desconhecido. p.)... mas em sua conexão com os horizontes da vida de seus emissores. que em minas para maior interesse da metrópole nem se deve animar. vale-se desta lógica para balizar seu projeto. informante preciso e precioso (.melhor forma de beneficiar a metrópole. este texto é uma mostra importante deste ideário. nem promover a agricultura antes de tal maneira se deve regular. acabou contando indiscreto onde se achavam e quanto valiam nossos recursos em Cultura e opulência do Brasil. Mesmo que não tenha sido aplicado ao pé da letra. na escrita dos tempos coloniais. De qualquer modo. exemplo de mente pragmática e moderna a quem a roupeta de inaciano não impediu de entrar fundo nos meandros contábeis da produção colonial.. em A dialética da colonização.. Este texto. muitas vezes. que escreve com a mão na massa. sendo.124) A fome e o estado de destruição em que se encontravam os arraiais mineradores no início do séc. É o cronista minudente e empenhado dos Diálogos das grandezas do Brasil . Não interessava à metrópole promover ali nenhum tipo de agricultura.. revela-nos que havia no fim do período colonial um arcabouço consciente de idéias acerca da colonização. ciente disto. um discurso orgânico e um discurso eclesiástico ou tradicional. que. É o escrivão da armada que descobriu o Brasil. (. Se o que nos interessa é perseguir o movimento das idéias. não sendo 85 . O discurso orgânico se produz rente às ações da empresa colonizadora. não em si mesmas.

Sertões de S. página após página. destes propósitos tão bem enumerados por Bosi – explorar. em que vemos este ímpeto colonial escrito sem o menor pudor: Esta impossibilidade de subsistir qualquer indivíduo sem alheios socorros. (RM. e as Capitanias da Marinha. (RM. § 39o. § 49o. he huma reciproca e effectiva dessendencia. e creação de gados. organizar... 105) A relação. Manter esta ordem de dependência exige elaboração conceitual de um comércio como uma engrenagem em pleno funcionamento: Francisco.109) Comentários como este. 33-4.. e Capitania do Piauhi. Consistem em Minas de ouro. Jacobina. Paracatu. Esta disposição do texto sempre no sentido de f avorecer a metrópole é. como um todo. os mesmos generos dos mesmos escravos. op. 86 .critério pertinente para uma divisão de águas a condição de leigo ou de religioso de quem escreve. é impressionante ler passagens como esta. a troca d’ellas da mesma metropole as manufacturas necessárias. p.. Pitangui. uma inspiração imagética ao Sentido da Colonização. 105) 9 Alfredo Bosi. Serro do frio. para satisfazer aquella parte que respeita ao vestir. ou Lei universal. como de opinião principalmente as que respeitão ao vestir: para haverem os escravos de Àfrica necessarios para a cultura dos generos do Paiz. derivam de comentários muito mais elaborados sobre como deve ser o funcionamento interno das colônias. que nellas se introduzem da Metropole.preciosas. leitores de hoje. com que saptisfazem á sua nutrição. com que pagão as mesmas manufacturas. Fanado. Para nós.9 O Roteiro do Maranhão é um exemplo deste discurso orgânico colonial que serve ao mesmo tempo de inspiração e confirmação das teses fundamentais de Caio Prado Júnior. e para o trablho das Minas. e com que satisfazem ás suas necessidades tanto Reaes. tanto vaccum como cavallar. p. § 38o. pp. Rio das Contas. e mais generos. As Minas dependem das Capitanias da Marinha. que liga os homens entre sí tem a pollitica nas Collonias para maior utilidade. (RM. pedras As Capitanias. e nellas como temos ditto. que confirmam num plano geral a função das colônias na ordem mercantil. e dependencia em que devem estar da metropole. para receberem as manufacturas. p. e a ver. d’onde tirão o ouro. os habitantes só se devem occuppar em adquirir as matérias primeiras. cit. Goiaz. e Povoações do interior do Paiz são as Minas geraes. mandar – é o que vemos no Roteiro. A confirmação contínua. que há entre ellas.

234) O Roteiro do Maranhão vai tomando. portanto. ao longo de Formação do Brasil Contemporâneo. este texto explicita sempre a 87 . Esta fonte primária. Inútil especificar aqueles setores. Note-se que não apenas o conteúdo do texto do Roteiro é absorvido na citação abaixo de FBC. além de fornecer a Caio Prado indicações preciosas do esquema comercial entre capitanias e metrópole. podemos retratar em esquema as grandes correntes da sua circulação. importância cada vez maior. observador direto e capaz. o que já coube nos capítulos anteriores. Afinal. O autor chega a reproduzir este esquema numa forma gráfica. merecem ser consagradas. produtoras de gêneros agrícolas destinados a exportação e nas quais se localizam os grandes centros e portos do comércio exterior. finalmente as minas. influi também na própria nomenclatura e na concepção de categorias utilizada por Caio Prado Jr: Sumariando estes traços essenciais do comércio colonial. para que o leitor melhor o compreenda. cit.. Distingamos para este fim três setores: marinha. Note-se que esta classificação e designações são já do momento que nos ocupa. e aparecem tais quais no trabalho já tantas vezes lembrado deste grande economista que foi o autor anônimo do Roteiro do Maranhão. que são áreas de povoamento e atividades do litoral. Teríamos assim para a circulação comercial da colônia o seguinte quadro (CPJ. p. mas também a terminologia que designa os setores do comércio colonial – marinha. sertão etc.A descrição desta verdadeira engrenagem colonial – a “máquina mercante” – feita nestes dois parágrafos do roteiro do Maranhão serve de inspiração a um esquema central na obra de Caio Prado Jr. e com esta sanção de um contemporâneo. sertão. op. áreas interiores de criação. Não poderíamos achar melhor. sendo cada vez mais citado.

mas também seu corpo.. finalmente o povoamento e organização das colônias deve subordinar-se a tais objetivos. 88 .função da colônia. a mais lúcida economia Brasileira de fins daquele século (5). a África e a metrópole. 31. é que as colônias existem e são estabelecidas em benefício exclusivo da metrópole.. provavelmente em fins do séc. E esta é a sugestão mais preciosa legada por este autor anônimo em forma de documento escrito. cit. depois. não só para si própria. pp. Como circula o capital mercantil entre a colônia. O funcionamento da colônia em função da metrópole é o que lemos nas passagens acima. datado provavelmente do último quartel do séc. hade forçosamente 10 CPJ. op. mas para comerciar com o supérfluo no estrangeiro. possuímos a este respeito [o fato de o Brasil ser uma colônia visceralmente ligada à Europa três séculos depois do início da colonização] um escrito precioso. Nada mais que isto10 – pode ser lida como um desdobramento de trechos do Roteiro já por nós citados. Vemos neste Roteiro não só o embrião do Sentido da Colonização. para ela. cit. este benefício se realiza pela produção e exportação. e em seguida café. e de passagens como a que citaremos a seguir. não esconde a influência do texto colonial em sua obra: Entre outros. a meu ver. tanto nas do autor anônimo quanto nas de Caio Prado. por sua vez. deste autor anônimo que percorre o roteiro do Maranhão a Goiás passando pela capitania do Piauí. que. XVIII. (CPJ. Em razão desta função – servir a metrópole – o autor elabora todo seu esquema argumentativo. algodão. e não lhes compete se ocuparem em atividades que não interessem o comércio metropolitano. mais tarde ouro e diamantes. de gêneros de que necessita. e repiteremos sempre: que as Collonias são estabellecidas em benefício da Metropole: que o primeiro interesse da Metrópole. op. e que contém. XVIII: Fallando determinadamente: temos já dito. a produção de certos gêneros estritamente necessários à subsistência da população e que seria impraticável trazer de fora. 125-6) Assim. p. Admite no máximo mas como exceção apenas. para o comércio europeu. – Se vamos à essência da nossa formação veremos que na realidade nos constituímos para fornecer açúcar. a dura constatação feita por Caio Prado Jr. tabaco. O que o autor em suma procura expor e demonstrar. o conteúdo prático do Sentido da Colonização: como este se traduz em termos de economia e política colonial. alguns outros gêneros. Este.

. Logicamente. que possão facilitar a condução dos gêneros aos portos da Marinha para serem exportadas a Metrópole. op. através do desenvolvimento da compreensão e esclarecimento dos leitores deste eixo maléfico que direcionara nossa sociedade desde o início. e com esta sanção de um contemporâneo. § 79o. p. 89 . compreendemos melhor este tom elogioso. na época. no leitor. Não poderíamos achar melhor. o autor não poupa elogios a considerações econômicas feitas por este homem desconhecido. p. inverter seu sentido. observador direto e capaz. o segundo tirar dellas as possíveis utilidades. A Genealogia da Moral: primeira dissertação) com base em três abordagens complementares: histórica. interesses. das Minas pela situação no interior do Paiz sem rios navegáveis. O seguinte trecho de Formação do Brasil Contemporâneo é mostra disso: Sumariando estes traços essenciais do comércio colonial.ser conservallas na sua dominação.) Note-se que estas classificações e designações são já do momento que nos ocupa. tirar pela agricultura iguaes. Em algumas passagens. não pode esta... (CPJ. e aparecem tais quais no trabalho já tantas vezes lembrado deste grande economista que foi o autor anônimo do Roteiro do Maranhão. 119) Temos ponderado. (RM. Elogia um autor que por sua vez faz um verdadeiro tratado sobre o que deve ser a colônia bem gerida em função da metrópole. cit. Um autor que anuncia a dependência como característica fundamental desta relação. que devendo as Collonias ocuparem-se só na acquisição das matérias primeiras. O conceito de ressentimento é elaborado principalmente a partir da perspectiva nietzschiana (cf. Seu intuito é contribuir para um re-direcionamento de nosso sentido11.. confirmando a existência. de um ideário bem 11 Pode-se dizer que a estratégia de Caio Prado seria a de induzir. 120) A influência deste autor anônimo no texto de Caio Prado abarca a idéia central de sua obra – o Sentido da Colonização – e desdobra-se em muitas outras passagens mais pontuais de FBC. a experiência de um ressentimento histórico. 234) Após a leitura de passagens como esta. aos que recebem das Capitanias da Marinha. principalmente. a excepção do ouro. afirmando-o e. podemos retratar em esquemas as grandes correntes da sua circulação. p.. Caio Prado elabora o Sentido da Colonização com o objetivo de. § 80o. merecem ser consagradas. Evidencia a grande contribuição historiográfica que este roteiro dera a sua obra. O autor anônimo desenvolve a idéia de sentido da colonização justamente na direção oposta. (RM. (.

. sua mais perfeita confirmação: Este estado de verdadeira abaundancia. parte I). p. 2000. (RM. mais independente de paizes estranhos: huma collonia nunca se deve considerar em melhor estado a respeito da Metrópole. e que posteriormente ressoa em tantos outros escritos sobre o Brasil. Encontramo-las também na obra de Capistrano de Abreu. cit. 121) Referências tão elogiosas ao incógnito autor de Roteiro do Maranhão não são.. p. quase pouco tempo antes da publicação da obra de Capistrano e de Os Sertões. BH: Ed. o elogio feito por Caio Prado ao autor do Roteiro.elaborado sobre as colônias que indica este sentido. É um elogio mais historiográfico do que ideológico. de Euclides da Cunha. a que deve aspirar o Paiz dominante. informa o autor anônimo do admirável Roteiro do Maranhão a Goiás . Ceará. Pernambuco. únicas de Caio Prado. neste Roteiro do Maranhão. 154 90 . Capítulos de História Colonial. aliás. mais abundante. e riqueza. O Roteiro do Maranhão. mas que tiveram. justamente. e mais poderoso do que quando fosse para sua subsistencia. p. um elogio da clareza com que são descritas idéias das quais talvez nosso historiador já tivesse conhecimento a partir de seu olhar contemporâneo. Certamente tal escrito terá exercido alguma influência nesta imagem tão forte de Sertão que vemos emergir na obra destes autores. 234) citado acima. vemos transparecer que este elogio de Caio Prado ao autor provém do fato de. sem que esta contravenha aos fins para que foi estabelecida ? O paiz dominante nunca se poderia considerar em milhor estado. este trecho de Capítulos de História Colonial tem o mesmo tom elogioso com relação ao Roteiro que se percebe no trecho de CPJ (p. 154) ) Como se vê. do que quando della for mais dipendente. Capítulos de História Colonial. 12 (CPJ. que antecede em quatro décadas o texto de Caio: A gente dos Sertões da Bahia. Esta é uma idéia que pretendemos desenvolver na “Conclusão” desta dissertação 12 Capistrano de Abreu. Talvez decorra daí. aliás. Itatiaia/SP: Publifolha. consistindo toda a sua maior felicidade em merecer algum dia o nome de Vaqueiro. por psicológica e sócio-política. § 84o. op. tem pelo exercício nas fazendas de Gado tal inclinação que procura com empenho ser nela ocupada. Por vezes. poderá por ventura ser pretendido por huma collonia. ou por menções feitas em textos como o de Antonil. fora publicado pela RIHGB em 1900 (Tomo 62 . mais rico.

teria talvez sido a criação de porcos um pequeno elemento a contrariar os estatutos da agricultura colonial. cit. Não o suspeitamos de cristão novo. como interior e economico a respeito dos habitantes 2a Que nenhum agricultor poderá subsistir sem vender ou permutar parte dos effeitos da sua cultura. o porco foi um pequenino fator. tão claramente formulados pelo texto da época: 1a Que a agricultura nas collonias não pode ser só considerada como objecto de suabsistencia. desvia da mineração. que é o que mais interessa à metrópole. e de acordo com o espírito geral de seu admirável trabalho. do qual resultam metáforas no mínimo interessantes. § 46o. 39) Assim. p. deve de necessidade ser vista como objecto do commercio. que circulando no corpo político. 99 (CPJ. e ao commercio.. que dentro do seu critério. 202. p. e que apontaremos nós. modesto embora. Roteiro do Maranhão. acaba fornecendo em seu Roteiro insights importantes sobre elementos que afinal burlaram o Sentido da Colonizacão. Ele é também portador de um estilo bem elaborado. § 50o. p. tanto activo como passivo. exigindo uma atividade agrícola paralela para produção do milho que eles consomem. como esta: O ouro quem não sabe. porque ele traz um argumento econômico. 109) Há uma última qualidade que Caio Prado não aponta neste texto anônimo. (RM. e quintos ao soberano. de acordo como os interesses da metrópole.estar este tão preocupado em discernir o que está e o que não está. 108) 91 . faz dentro deste os mesmos effeitos. apesar desta ojeriza. É o que vemos em partes como esta do texto de FBC: O autor anônimo do Roteiro do maranhão insurge-se contra este grande consumo de carne de porco que desejaria ver substituída pela de vaca. nota de rodapé no. op. que o sangue no corpo phisico? Elle corre por todas as suas partes vivificando-as e dando callor a agricultura. no interior da colônia. . dando ouro ao comércio do Reino. Segundo ele. Como se vê. é plenamente procedente. a criação de porcos.. grande número de braços que estariam mais utilmente aplicados nesta última. para assim poder haver. na grande obra da independência da colônia. tanto exterior a respeito da Metrópole. Honra aliás sumamente a finura de suas qualidades de observador e economista. tanto interior como exterior. o que necessita para se vestir (RM.

Se Caio Prado não imita em seu texto – no sentido relacionado ao conceito de mimese – esta imagem do ouro fluindo nas veias da sociedade. Qual seria o vitalizador social máximo no entender caiopradiano? É uma metáfora que gostaríamos de ver desenvolvida por ele. relacionada à sociedade. 92 . ao menos a metáfora corpórea iremos rever em FBC .Vemos aí a idéia da sociedade como corpo. o ouro como seu sangue – o mais poderoso sinal de vitalidade.

Gilberto Freyre. Este livro. também recebe muitas citações. lançado em 1907 (portanto 35 anos antes de FBC ). Sua influência em Formação do Brasil Contemporâneo aparece em pontos muito importantes desta obra. e freqüentemente veremos Caio tomar quase ao pé da letra observações e perspectivas elaboradas por Capistrano em Capítulos de História Colonial. como veremos a seguir. Não é o caso de Capistrano.C A PÍ T UL O 2 NO COMPASSO DAS BOIADAS: REFERÊNCIAS A CAPISTRANO DE ABREU Capistrano de Abreu é o historiador mais citado por Caio Prado Jr. porém nem sempre Caio Prado tende a concordar com o autor pernambucano. levou mais de 30 anos para ser 93 .

Caio. que parece estar em busca de uma compreensão. re-olhar mil vezes certas formas de plantio (Caio Prado bate tantas vezes em teclas como a colonização dos açoreanos em Santa Catarina. mais do que empenhado na explicação para o leitor. porém valoriza menos os detalhes que deram origem às sensações. se vê como um “observador” do Brasil colonial. ainda que o uso posterior que faça destes seja um pouco diverso. p. mas que revelam uma reflexão vigorosa sobre assuntos como o vasto consumo de carne de porco. e assim por diante. Olhar. Em meio. portanto. o primeiro teria começado a conceber seu maior projeto aos vinte e um anos.. Ele deixa a Caio sobretudo uma forma de atitude historiográfica. Mas a publicação do livro já ocorre numa fase mais apurada da reflexão sobre o Brasil. mas estes têm em suas obras um estilo mais ensaístico que ainda se volta também – e muito – para a percepção dos autores. também influenciaram Caio. sabia o nome de tantos riachos por onde o 13 14 Ver Capistrano de Abreu. os regimes de mutirão para iniciar lavouras.). Tal procedimento lembra em tudo Capistrano. 94 . É um estilo semelhante de fazer história que notamos nestes dois autores. ou como o modo de vida dos desclassificados. era produto de venda). em 1874. são justamente estes aspectos da vida colonial herdados de descrições de cronistas que permitem aos historiadores o exercício da imaginação. as posições sociais das mulheres e dos homens. 3. não. Segundo uma carta de Capistrano a Paulo Prado13.. mas Capistrano o inaugura décadas antes. ao início das publicações da chamada geração de 1870. Paulo Prado e Sergio Buarque de Holanda14. apenas das vacas (pois o boi. como veremos a seguir. op. cit. sim.. vemos que há como ponto de partida para o cotejo das duas obras um investimento por parte de seus autores na compreensão de certos pontos da história. Gilberto Freyre tem interesse maior em suas obras por certos micro fatos. Capistrano. Ora. Numa observação geral. o abatimento para o consumo interno das fazendas. acompanhando Euclides no incansável estudo do Sertão e de sua importância na formação nacional. como notamos acima. para a qual certamente ele contribui muito. uma espécie de herança metodológica. assim como Caio aprendera posteriormente. a ponto de nelas se poder ver a razão dos homens que a executavam.Normas da quarta edição (1954)”. Tem um interesse desmedido por fatos secundários que ficam tantas vezes escritos em letras diminutas em extensas notas de rodapé. “Explicação . certas atitudes. certas coisas que parecem secundárias.plenamente elaborado por seu autor. Capistrano. e a experiência quase que de um sentimento das coisas que tanto os fascinaram.

95. que Capistrano talvez se visse como capaz de captar sensações. in: Capistrano de Abreu. 1984. p. os historiadores. seguiu da Bahia em direção ao Ceará. cit. p. (Jacques Le Goff. era o espírito da coisa. ela exige imaginação que penetre o motivo da ação. junto com outros. XVIII. de usar a percepção para imaginar. Acho apenas interessante notar. 5. assim como a de Caio. Acreditamos que a definição de Jacques Le Goff. tamanha a quantidade de informações sobre este roteiro.. Capistrano era sensível ao espírito do fato. circunstâncias ocorridas centenas de anos antes. no célebre artigo documento/monumento seja a mais quer pelas forças que operam no adequada a este tipo de questão relativa à história. é profundamente questionável o ponto de vista do autor acima que s e refere ao “fato” como objeto de estudo do historiador16. por exemplo. tem tanto entusiasmo contido em certos comentários. Einaudi. no séc. Lisboa: Ed. H. E por pensar-se assim. sobre a relação entre a descrição dos fatos e o que quer que tenha existido no passado. e àquilo a que ela se aplica: De facto. mas uma escolha efectuada desenvolvimento temporal do mundo e da humanidade. Rodrigues. que sinta emoção já sentida. quer pelos que se dedicam à ciência do passado e do tempo que passa. Documento/Monumento .. trabalharam e pensaram. como se lê na citação: O riacho do Terra Nova e do Brígida facilitaram a marcha para o Ceará. op. de perceber. op. e até meados do século XVIII teve comunicação exclusivamente com a Bahia. 151) Parece que o próprio autor. tem descrições de tão rara beleza como a 15 16 José Honório Rodrigues. cit. 15 Não pretendo entrar agora na discussão sobre verdade histórica. reuniu seu rebanho e. Pelo pontal e pela serra dos Dois Irmãos passaram os caminhos do Piauí. “Explicação”. in: Enciclopédia 1: Memória História. Ser desapaixonado é perder alguma verdade vital do fato.) 95 . como percebeu J. sua obra. o que sobrevive não é o conjunto daquilo que existiu no passado. Sob este ângulo. é impedir-se de reviver a emoção e o pensamento dos que lutaram. que escreve a “Explicação” à quarta edição de Capítulos de História Colonial: Como um verdadeiro historiador.viajante baiano podia buscar apoio no Sertão. É interessante a opinião de José Honório Rodrigues. Nem o Parnaíba teve poder para conter a onda invasora: Pastos Bons foi povoado por baianos. A história não é somente uma questão de fato. (Capistrano de Abreu. Não era a conquista da Colônia do Sacramento só o que interessava: não era só a coisa. p. que viva o orgulho ou humilhação já provados.

O Sertão. plantado no início do planalto e arredado da costa. que veremos a seguir. Fora isso. op. e seu estilo tornase mais interessante – herança óbvia do interesse e da não economia de palavras com que Capistrano e Euclides dedicaram-se ao tema. como veremos a seguir. encontramos apenas a marcha progressiva das fazendas de gado no sertão nordestino e a lenta e escassa penetração da bacia amazônica. Os Sertões de Dentro e de Fora. É na descrição do sertão que muitas vezes o autor acaba deixando sua escrita mais fluida. os homens-bois simplesmente não se integraram à produção em larga escala.) 96 . à parte o caso excepcional de São Paulo. é em FBC . um elemento emergente no interior da obra. O sertão acompanha os desclassificados. 39. Selecionei algumas para esta parte. Ao longo dos capítulos vemos citações se multiplicarem e vemos sobretudo Caio Prado conferir um lirismo enorme às suas passagens relativas ao povo do sertão. ora com passagens encontradas em CHC ora com trechos de OS.. aos incansáveis ciclos. Não como forma premeditada de resistência à metrópole. são elementos hoje tidos como importantes neste tão descrito processo de formação do Brasil. ou o uso de termos que remetem a um ou outro autor. Este trecho de Caio é sem dúvida inspirado por Capistrano: De ocupação efetiva do interior. Ambos os autores aparecem citados em Formação do Brasil Contemporâneo. E não é à toa que estas descrições seguem uma escala crescente de aparições. cit. e levaram suas vidas tocando boiadas para o abastecimento das cidades brasileiras. mas apenas como estratégia de sobrevivência. e tem também algumas pitadas de ironia. pode-se dizer. mas que foram principalmente pelas obras de Capistrano e Euclides elevados a esta condição. (CPJ. e outras para a parte a seguir. É o sertão que permite a formação destes indivíduos que contrariam a lógica primária a qual estamos fadados a seguir. São eles também ao mesmo tempo integrados ao e excluídos do Sentido da Colonização. p. Meu critério foi apenas a semelhança de trechos de FBC . Muitas destas passagens que analisaremos a seguir comparando-as com passagens de CHC poderiam (e podem !) perfeitamente ser cotejadas com trechos de Euclides. as formas de vida que surgiam no Brasil que dava as costas à metrópole. temos também as influências ainda mais palpáveis para analisarmos. juntamente com os desclassificados do ouro. e por fim o gado. A chamada ocupação do sertão.das boiadas. Grifos meus.

por exemplo. cit. toda cortada de rios caudalosos e desimpedidos. A Amazônia é vista por estes autores de forma muito mais inóspita com relação à civilização do que para Capistrano. a Amazônia é uma terra cortada por rios caudalosos e desimpedidos.Eis uma passagem de Capítulos de História Colonial que trata a mesma questão. porém. Grifo meu. Este autor continua. em sua obra. algo finalmente compatível com aquela região. Antes de discutir este tema. De qualquer forma. São rebanhos que trazem a povoação. gente que supostamente deu origem à guerra dos emboabas.) A visão do gado como principal elemento de ocupação do território nacional é o primeiro aspecto com relação ao qual notamos a influência de Capistrano no texto de Caio Prado. em vez de atirarem-se ao interior. é uma solução para a ocupação do sertão. (Capistrano de Abreu. A solução foi o gado vacum. ou seja. op. gostaria de ressaltar uma pequena mas interessante diferença entre as duas abordagens no que diz respeito ao ponto de vista de seus autores sobre a Amazônia. com p reciosos produtos vegetais. é interessante notar o mesmo recorte. com preciosos produtos extrativos. como veremos na parte a seguir. Fazê-lo seria fácil em São Paulo. esta célebre terra ignota: 17 Ainda que. E assim o gado aparece em ambas as obras. na Amazônia. O gado exerce para Caio uma marcha progressiva. reflete uma atividade humana que progride nesse mar de estagnação e interesses imediatos que é a colônia. Para Capistrano. na qual compara-se a obra de Caio e a de Euclides.151. p. onde a caçada humana e desumana atraía e ocupava a atividade geral. Nas outras zonas interiores o problema pedia solução diversa. sob os mesmos referenciais: Queixam-se os primeiros cronistas de andarem os contemporâneos arranhando a areia das costas como caranguejos. extraídos sem cultura. 97 . a visão de nosso autor aproxima -se muito da descrição euclidiana que aparece em À Margem da história . que desviam os bandeirantes de seu sanguinário caminho (muitos tornam-se fazendeiros17) e que sobretudo trazem o conhecimento sobre como é o interior do Brasil. Note-se que o que Caio ressalta é sua “lenta e escassa ocupação”. não percam seu desprezo pela gente originária dos Sertões. os mesmos elementos elencados nas duas passagens anteriores.. o texto acima com uma grande lista de qualidades do gado vacum. segundo Capistrano. Para Capistrano.

Desde 1618 o autor dos Diálogos das Grandezas do Brasil dizia que o problema da mineração não consistia em encontrar metais (. é para o sertão. A carne. Graças a ela foi possível descobrir minas . (Capistrano de Abreu. se comparada com a mineração. p.. o que se fez com grande rapidez. op. há uma estreita relação entre as minas e o sertão onde é criado o gado. p. Na obra de Capistrano. Sua obra. nesse aspecto.. bem ou mal. consumidores de carne que viria dos rebanhos que avançam por aquele sertão e o vão ocupando. nosso autor não demonstra simpatia alguma. atua no sertão do nordeste. Assinala-o como sendo um dos episódios da história em que fica mais patente a lógica colonial. Fora este caráter abastecedor. pela impunidade. para este fora nas minas que o Sentido da Colonização efetivou-se em sua maior crueza.. em conjunto. Grifo meu. Mas. a criação de gado teve um efeito que repercutiu longamente. Em CHC não é o sertão que decorre das minas. p. do qual se extraiu a grande maioria dos pontos de comparação entre ambos os autores. relação esta que em momento algum é citada por Caio. cit. foi fornecida pelo gado que vinha das fazendas estabelecidas ao longo do curso do médio São Francisco (Bahia). Em seu Capítulo “O Sertão”. no manuseio do gado. favoráveis nem à agricultura nem à pecuária. 158. (CPJ. pelo afastamento de autoridades eficazes. notamos uma outra abordagem. 37) O sertão vai sendo ocupado pelo gado. Para o abastecimento da população que nelas se adensou.) O problema na verdade consistia na dificuldade de alimentar os mineiros. mas sim o oposto: Além do sentimento de orgulho inspirado pela riqueza. op. Bahia e Pernambuco. nesta interlândia dos maiores centros agrícolas do litoral da colônia. algo que Caio Prado ressalta como sendo mais uma qualidade desta atividade. a mineração leva consigo um caráter positivo por ser responsável pelo conhecimento do sertão. 57) Já Capistrano vê uma relação diferente entre a ocupação do sertão pelos rebanhos e as minas. adquire 98 .. a natureza ingrata do solo se opunham a tais indústrias. cit. op.) Capistrano não tinha a mesma aversão que demonstrava CPJ com relação à atividade mineradora..Um outro fator. também local. cit. elemento essencial da alimentação da colônia. teve de se recorrer a princípio a territórios não muito próximos. que seguirão tantos dos faiscadores e desclassificados do ouro quando a febre termina e as minas se esgotam: As regiões mineradoras não eram. O relevo acidentado. (CPJ. Pelo ciclo do ouro.

São narradas as expedições de Bartolomeu Bueno. O povoado maior. atraiu todo o da margem meridional. cujo principal é a Bahia. até perde contato com as fontes de onde brotou. (CPJ. tendo como ponto de partida o médio São Francisco. a Bahia. 55) Os referenciais geográficos são unanimidade (a concordância. em FBC: 99 .. ausente em FBC (por uma opção ideológica e mesmo historiográfica de CPJ). ) Foi o gado acompanhando o curso do São Francisco. p. de Fernão Dias e seu filho. . curiosamente. Coisa muito diversa se passa com a penetração levada pelas fazendas de gado. vão se espairando paulatinamente para o interior. e tantos episódios vividos por clérigos e.. Mas. A sua expansão é por contigüidade. de tão brusca e violenta que é. Dos seus focos. atribui a eles características positivas de participação na exploração de São Paulo e do sertão.um caráter mais épico. que para lá ia por um caminho paralelo à praia. e com elas o povoamento. tinha em comum a aversão que Capistrano manifesta com relação aos bandeirantes. cit. op. por paulistas plenos de orgulho e cobiça. limitado pela linha dos vaus. as fazendas. Caio toma ao pé da letra conceitos como este. A Bahia. por sua vez. op. mostrando a importância deste autor em sua obra. a conquista de Sergipe estendeu-se à margem direita do São Francisco. parte sempre de Caio com relação a Capistrano). (Capistrano de Abreu. caçadores “desumanos de humanos”. e as populações fixadas no sertão conservam um contato íntimo e geograficamente contínuo com seu centro irradiador. logicamente. que não atribui em momento algum à atividade mineradora. Caio Prado. O que veremos a seguir representa um dos poucos diálogos diretos entre outros autores que vemos fora das notas de rodapé. Vejamos a seguinte passagem de Capistrano: A criação de gado primeiro se desenvolveu nas cercanias da cidade de Salvador. é o ponto irradiador de boiadas. a penosa vida em Cuiabá. na sua maioria. p. 151) CHC trata de dois movimentos de povoamento do Sertão ligados ao gado. cit.. Na outra margem veio dar menos forte e menos acelerado movimento idêntico partindo de Pernambuco (. o gosto que tinha o rei de Portugal pelos paulistas. Isto serve para ilustrar a forma que tomou a dispersão mineradora.

que corresponde à canjica de milho paulista. como esta a seguir. p. Porque ela ainda aí está. 187) 100 . Inclui-se a nota de rodapé) Na questão dos hábitos alimentares em diferentes regiões da colônia. E ligando o consumo habitual do milho ao monjolo que se usa na pilação. (CPJ. No ponto em que se acham os estudos históricos atuais. em oposição as demais populações da colônia. é a Capistrano também que nosso autor recorre. (CPJ. associa-o aos lugares de águas correntes que acionam aquele aparelho.. op. pp. o pernambucano. Nos Sertões do norte. considera o emprego deste cereal como traço cultural que indica a influência paulista do sul. mas é preciso considerar outros fatores que contribuem para a maior difusão relativa do milho e da mandioca. poderiam ressurgir hoje a atravancarem as estradas para maior desespero dos automobilistas: estes não notariam diferença. que se pode considerar sertão baiano porque é daí. idêntica ao passado. O que não padece dúvidas é o tipo característico do sertanejo em geral. cit.. 62-3.. (CPJ. tangidas pelas estradas e cobrindo no seu passo lerdo as distâncias imensas que separam o Brasil. constitui o que Capistrano denominou com muita propriedade o “Sertão interior”. Esta associação de Capistrano é sumamente interessante. que seria o “externo”(11) (nota 11) Capistrano sugere a hipótese muito interessante de diferenças da população sertaneja de um e outro sertão. que partem os povoadores e suas fazendas de gado. p. e se estabelecem as comunicações. cit. realizando o que só o aeroplano conseguiu em nossos dias repetir: a proeza de ignorar o espaço. como a passagem a seguir: Mas se não a mais grandiosa e dramática. Há séculos esta cena diuturna se mantém em todo país e neste longo decurso de tempo não se alterou. nada se pode afirmar a este respeito. em última instância. nestas boiadas que no presente como ontem palmilham o país. observando esta maior predominância do milho na alimentação meridional. de uma fluidez extraordinária. com escravos para a pilação (19). referências a costumes. op. é a pecuária pelo menos a mais sugestiva para nossos olhos de hoje. Capistrano. são herança direta de CHC . só se usava nas casas-grandes. O gado é responsável em ambas as obras pelo desenvolvimento de passagens poéticas. onde a água é escassa. para distingui-lo do outro. cit. o mungunzá.Tudo isto. 166) Mas é realmente o estudo das boiadas o maior legado de um autor ao outro. as mesmas boiadas que seu primeiro cronista (Antonil) descreve com tão vivas cores. op. Em tantas outras partes de FBC .

que a todos . por vezes.Lindíssima passagem. São boiadas que vão e vêm. um tom geral de inércia. dando voltas no país. pessoas e às vezes eqüinos adquire ritmo próprio. O conjunto de bois. formam-se ranchos de pouso. 152) A boiada com seu ritmo lerdo.. p. resquícios de civilização nestes meandros do Brasil. op. Em FBC vemos as boiadas com esta função auxiliar do Sentido da Colonização. o interior de uma colônia voltada para o exterior. A partir do sertão. à mercê da natureza. seriam as boiadas do sertão fundamentais para a manutenção dos setores da colônia que atuavam a serviço da empresa mercantil. novas passagens e novos caminhos iam sendo trilhados. É o “compasso do gado” de que nos fala Capistrano neste também belo trecho: Ao compasso do afastamento do gado. uno. e aqueles que se voltavam apenas para as funções lucrativas para a metrópole. com raras exceções. abriu-se um ramal importante em busca do Baixo Paraguassu. em conjunto. Alimentaram a sociedade monocultural das grandes propriedades escravistas. Segundo a descrição do autor do Roteiro do Maranhão. dar enormes voltas para desviar de trechos turbulentos de rios. para a colônia. “descansa”. tem o compasso que lembra muito este tom geral de vida frouxa que caracteriza o país descrita por tantos cronistas18. um vírus generalizado de preguiça. num movimento serpenteante. ao mesmo tempo em que o contrariavam. pelo qual pautou-se uma estrada de ferro. atinge. cit. esta é 18 De tudo isso resultará. p. cit. alimentaram as cidades. pausado. sendo obrigadas a. 349) 101 . op. pois eram os vaqueiro exemplos de trabalhadores pagos em meio a uma ordem escravista. os mineradores empenhados apenas na busca do ouro. As boiadas que ignoram o tempo são descritas por Caio Prado com uma poesia equivalente à de Euclides da Cunha.. barroco. e que portanto não produziam seu sustento. Sempre lentamente. Atrás destes. (Capistrano de Abreu. Paira na atmosfera em que a população colonial se move. As descrições que vemos nas duas obras nos deixam sempre a impressão de que boiadas guiam os homens rumo à ocupação do sertão. Basta citar o de Jacobinas e a passagem do Juazeiro. ou antes. exercendo uma atividade comercial interna em meio à colônia onde todo comércio deveria ser feito com sua metrópole. Com o crescimento de Cachoeira e o impulso do plantio de fumo. levando meses para atravessar paragens. A propósito de cronistas. (CPJ. de moleza.

de Antonil (pseudônimo utilizado pelo padre João Antônio Andreoni L. de um “gênio anônimo”. no dizer de Capistrano. 185. cento e cinqüenta. 257. Algumas vezes. como vemos no texto de ambos os autores. pondo uma armação de boi na cabeça e nadando. concebeu-se o engenhoso ardil empregado no Nordeste. (CPJ. p. como no caso do Roteiro do Maranhão. e que consistia em se cobrir um dos tocadores de uma cabeça postiça de boi e efetuar a travessia fazendo as vezes de madrinha. de cem. fruto. op.O livro Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas. Este processo não era conhecido no sul. 186 de Capítulos de História Colonial. p. a mesma passagem é selecionada por Caio para ilustrar seu texto. Na obra de Capistrano. no entanto. anagrama do benemérito jesuíta João Antônio Andreoni: “Constam as boiadas que ordinariamente vêm para a Bahia. nota 44) Nesta nota. mostra às reses o vau por onde hão de passar”.. (. vemos este mesmo trecho do homem que se disfarça de boi. 102 . . cit...) Nas passagens de alguns rios. Ser um vaqueiro. duzentas e trezentas cabeças de gado. Caio Prado herda de Capistrano não só a valorização da pecuária como forma de ocupação mas também todo este interesse pelo folclore e cultura popular. como vemos na última citação de Caio e também em várias partes da obra de Capistrano19. porém nos damos conta de que a descrição original deste hábito é na verdade a de Antonil: Sobre as [boiadas] que iam para a Bahia escreve o seguinte André João Antonil. op. cit. um dos que guiam a boiada. O nosso autor a cita como sendo um exemplo dado por Capistrano.sem dúvida uma das maiores influências que Capistrano lega ao nosso autor.. e Saint-Hilaire viu na travessia do Paraíba perderem-se muitos animais que se deixavam levar pela correnteza abaixo. 19 Ver pp.. uma das principais referências para estas muitas páginas que ambos os autores dedicam ao sertão. 155) Os homens vestem-se de bois.) é. Estes são trechos em que Capistrano dedica especial atenção à Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas. às minas. ao gado. 184. (Capistrano de Abreu. A seguinte passagem é ilustrativa: Para obrigar os bois na água a seguirem o rumo certo.

São mais um desdobramento do Sentido da Colonização que o contradiz. constitui. As boiadas. Mas para ser vaqueiro é preciso viver com os bois. ligada ao cerne de sua teoria. quando. op. é que ele. 191 .. assinalado por Caio Prado Jr. 103 . como já dissemos. muitas vezes mulato. op.passa a ser um denominação honorífica no Brasil20. por seu trabalho. 20 Ver Capistrano de Abreu.p. que lembra tanto o mugido. segundo a tradição popular. como os desclassificados do ouro. dormir tantas noites no pasto. p. a maioria dos bezerros costuma nascer. negro ou índio. 154 e CPJ. Mas o papel fundamental do vaqueiro. principalmente as de chuva e trovoada. dele nascem. uma das poucas parcelas de trabalhadores que recebe. ainda que “em espécie”. cit. ao mesmo tempo que. cit. chamando seu gado com o lento pronunciar de vogais.. hábito ainda hoje observado em fazendas do interior. tão ressaltadas por Capistrano. Os vaqueiros passam quase a falar como bois. adquirem em FBC uma nova importância. nota 13..

CA P ÍT U LO 3 DE SERTÕES A RIOS MULTÍFLUOS: PASSAGENS RELACIONÁVEIS A EUCLIDES DA CUNHA Antes de começar nosso trabalho prático. simplesmente porque. E ele. Parte de referências acontecimentais. sobretudo. argumentos. de comparação entre textos de Euclides da Cunha (Os Sertões e Terra sem História ) com passagens de Formação do Brasil Contemporâneo (que surpreendem por semelhanças argumentativas e descritivas). ou em descrições geográficas. como veremos no artigo “Terra sem História”. Diferem os objetivos e os elementos de onde partem as narrativas – a narrativa histórica necessariamente deve basear-se em elementos vinculados ao 104 . como veremos em algumas indícios presentes em FBC . e certamente remetem ao contexto literário. mesmo em questões que vão além do estilo – abrangendo conteúdo. desenvolve notadamente um trabalho no campo historiográfico. pertencente a outro campo. É lógico que o estilo de um autor pode perfeitamente migrar para outra obra. Seu estilo rebuscado. gostaríamos de fazer algumas considerações de cunho teórico. valia-se do materialismo dialético enquanto método de análise histórica. e suas descrições apocalípticas são inconfundíveis. A obra de Euclides. na obra que aqui analisamos. análises. As notas de rodapé. além disso. Já Caio Prado. a enorme bibliografia com vários relatos coloniais. o “estilo é o homem”. como já se afirmou. barroco. e o faz de maneira minuciosa. gostaríamos aqui de avaliar o que nos permite comparar uma narrativa considerada histórica com uma narrativa literária. Como já discutimos na introdução deste trabalho. etc. Mas. A partir destas estas constatações. E Caio Prado tem profunda simpatia pelo texto euclidiano. exaustiva. há outros motivos que nos permitem o cotejo entre estas obras. que por uma simpatia entre autores pode ser incorporado ao texto do autor/leitor. algo quase inconsciente. não deixam dúvidas sobre sua dedicação enquanto historiador. como sabemos. de narrativas sobre eventos e situações. ainda que seja fundamentada em cenas históricas. o método narrativo histórico e literário guarda muitas semelhanças. é considerada literária.

Zola – autor. aliás. Mas isso não basta. 105 . portanto. uma crítica a este modo narrativo.acontecimental. Ele parte dessa idéia geral sem dispor de um único fato. e tem como propósito. a vestígios. São. assim como este suposto romancista que escreve sobre teatro. etc. Sob este aspecto. em seu texto. pistas deixadas por eventos que tomaram vida a partir de ações humanas. visitará os lugares indicados. O romancista deve se limitar a ordenar os fatos de modo lógico (. 58. Há uma descrição de E. Lukács. As narrativas literárias podem partir de eventos fictícios. 21 22 G. cit. Vemos aí uma descrição metodológica que pode perfeitamente ter servido tanto a Euclides da Cunha. e passará um dia qualquer em um teatro para conhecê-lo em seus pormenores. anedotas. sobre como se monta uma narrativa literária. que escreve Os Sertões com base em seus diários de viajem22) como a Caio Prado que. os documentos escritos. colecionará frases. assistiu a determinada representação. Tal descrição serve como uma luva também para a compreensão dos procedimentos de escrita que caracterizam o texto histórico: Também Zola se exprime muito claramente sobre o modo como se aproxima de um objeto para atender a suas finalidades como escritor: “Um Romancista naturalista quer escrever um romance sobre o mundo do teatro. Permanecerá algumas noites no camarim de uma atriz e procurará identificar-se o mais possível com o ambiente. Lerá. quand o a documentação estiver completa o seu romance se fará por si mesmo. a relatos de situações. demasiadamente descritivo. também. No caso de Euclides. embora todas sejam narradas em sua obra com a eloqüência de um participante. este modo de montagem de uma obra naturalista corresponde bem à maneira como tanto nosso historiador quanto Euclides da Cunha organizaram suas respectivas obras. Sua primeira preocupação será a de tomar apontamentos sobre tudo que possa vir a saber acerca deste mundo que pretende descrever. Lukács cita esta passagem de Zola para contrapor o romance naturalista à narrativa que ele considera épica. flagrantes. principalmente estas semelhanças metodológicas presentes nas diferentes narrativas que nos permitem esta comparação. no entanto. Lukács “Narrar e descrever”. podemos pensar que Caio Prado segue melhor que Euclides as normas da narrativa realista. E. isto não ocorre. que notadamente exerce influência sobre a obra euclidiana – extraída do texto de G. (enquanto Leitor direto de Zola. p.. Afinal. op. Euclides.. sequer de uma figura. falará com os que dispuserem de maiores informações a respeito do assunto. Por fim. Depois.. Conheceu determinado ator. enquanto participante direto – correspondente do Estado de São Paulo – não esteve em todas as batalhas de Canudos.)”21 Na verdade. No entanto.

mas chamando seus leitores para um “vôo” panorâmico sobre nosso território ou. tanto Caio quanto Euclides valemse. valorizando a narrativa épica. paralela e muito próxima. Caio Prado mimetiza algumas características importantes da narrativa de Euclides da Cunha. da qual Tolstoi seria um exemplo moderno. de Os Sertões.. como gerúndios e particípios.. Os trechos selecionados abaixo são exemplos marcantes : Acompanhando a costa. como pretendemos discutir mais adiante. Lukács faz uma contraposição entre o que ele denomina escritores narrativos (épicos) e descritivos (que seriam os Naturalistas). 40. p. Tudo é descrito como se estivesse sendo visto pelo leitor.) Mas é sempre com base na documentação jornalística da época e de outras importantes fontes que este autor monta sua narrativa. ) (CPJ. sendo assim também bastante fiel ao esquema proposto por Zola. Como no capítulo “A Terra”. através destas semelhanças na articulação de seus textos. Além das fortes imagens relativas à natureza. pretendemos efetuar nosso cotejo. alinha-se uma cadeia de recifes (. se vemos por um lado a correspondência metodológica com o naturalismo de Zola. dentre outras escolhas. Por ora. Há um nexo estilístico e textual entre os dois autores. talvez. claramente perceptíveis nas passagens que serão expostas. o que pretendemos assinalar com estas considerações é esta semelhança na articulação do texto que une estes dois autores de áreas diferentes. enfim... projetando um filme em que se nota perfeitamente a lógica da geografia nacional. cit. Grifo meu. por outro. ou de formas impessoais que propiciam a inclusão do interlocutor e exortam-no a participar desta visão incrível. op..era um viajante do Brasil. seus objetivos enquanto escritores correspondem em boa medida à escrita épica. um autor que certamente se preocupou em montar sua documentação completa antes da empreitada de narrar a vida que se desdobrava em tão variados aspectos no Brasil do início do séc. de outras formas nominais.) na primeira pessoa do plural. um leitor assíduo de fontes primárias. Tanto na narrativa de Caio como na de Euclides. Como dissemos anteriormente. E. A primeira mimese que se faz presente neste capítulo (“Povoamento”) é esta espécie de descrição cenográfica/aérea da geografia brasileira. Caio Prado parece não estar apenas descrevendo a topografia do Brasil nas páginas de um livro. de formas imperativas dos verbos (acompanhemos. 106 . XIX.

(Euclides da Cunha. p. (. e agora o narrador os chama para “viajar” junto com ele pelo interior do Brasil. 43. ) Apresenta-se por isso este setor como um dos pontos ideais no difícil litoral Brasileiro.19) 107 . que ele se inicia. sotopondo-se a outras. neste imenso território interior que abrange dois terços do continente sul-americano. ) é ai na costa oriental do Rio Grande do Norte. p. Os Sertões . Onde elas faltam. decaem. 54) é uma das mais representativas desta opção estilística... Nogueira Galvão.. p... para a vida humana ( .. 1988. o Homem está ausente. p.) Alcançamos assim o primeiro dos grandes núcleos de povoamento da faixa costeira do Brasil. como se seus leitores efetivamente tivessem visto toda costa do Brasil. Caio Prado termina seu capítulo “Povoamento” com a expressão “visto assim”. Ática.. Grifo meu. as camadas anteriores que vimos superpostas às rochas graníticas. cit. ) afastemo-nos agora do mar para lançar vistas sobre o que se passa além da marinha.) Numa simples carta física. com o mesmo intuito de incluir seu leitor na visão do narrador: De fato. Gostaria de apontar. mais modernas. op. relevo propício. Edição crítica de Walnice. (. de espessos estratos de grés.. (. cit.. 41. 47. (CPJ. op.. apenas algumas passagens de Os Sertões em que Euclides da Cunha faz uso da segunda pessoa do plural e das mesmas formas verbais referidas acima em sua narrativa da geografia brasileira.) A última passagem citada acima (p.. por sua vez. neste momento. op. Grifo meu. op. Grifo meu. SP: Ed. Grifo meu. ) (CPJ. quis a natureza acrescer um território litorâneo avantajado – Solo fértil.) Visto assim todo litoral da colônia. cit. 54. cit. Acompanhemos este litoral.A estas circuns tâncias favoráveis. um observador mais atento poderia reproduzir com rigorosa fidelidade os pontos habitados do litoral Brasileiro. Saltemo-lo para chegar ao seu limite meridional (.. embora timidamente. Os trabalhos humanos nada tinham realizado para suprir o que a natureza negava: condições naturais favoráveis. onde tudo não é posto à disposição dele. saltando apenas aqueles trechos que já analisamos acima.. (CPJ. p.. quase sempre ingrato... ) Segue-se para o sul o recôncavo baiano. de norte a sul. (CPJ.

uma dupla e ativa participação. corresponde. Caio Prado incorpora em seu texto. por outro lado. op.) A natureza quis que o homem habitasse aquele pedaço do litoral nordestino descrito em Formação do Brasil Contemporâneo. dominante. na perspectiva de Lukács.) mas também seu leitor. quis a natureza acrescer um território litorâneo avantajado. que produz sua obra de caráter épico. O dilema entre narrar e descrever pode ser traduzido também na dicotomia participar/observar.. caracterizado pela participação do narrador na ação. ou quem sabe filmando-o. Uma segunda e forte marca que Caio Prado teria herdado de Euclides da Cunha no que toca à descrição da porção de terra que compõe este país.. op. assim.. e quem a alcança. (CPJ. cit. do fastígio das escarpas. p. Participa quem narra. provavelmente inspirado em Euclides – escritor conhecido entre outras coisas por seu tom exortativo – esta característica de incluir não só o olhar do narrador de seus litorais e planícies na cena que descreve (como se este estivesse voando sobre o Brasil. Como dissemos anteriormente.É a paragem formosíssima dos campos gerais. expandida em chapadões ondulantes – grandes tablados onde campeia a sociedade rude dos vaqueiros (. 41. é uma dessas características. são os textos que até aqui analisamos.. seu nexo com eventos do mundo etc.. e quem lê a narrativa também é convidado a dela participar. 21) Este tipo de texto.. E. ) Atravessemo-la (Euclides da Cunha. Os textos de Caio e de Euclides possibilitam. como notamos nestes vários recortes textuais que aqui citamos.. Grifo meu.. – quanto de características das ditas narrativas épicas. Este trecho da obra de Caio Prado guarda uma semelhança inconteste com passagens da obra de Euclides. por parte do narrador/leitor. ao escritor narrativo. como 108 . como esta: A terra sobranc eia o oceano. Esta. a participação na ação por parte do narrador. a contemplar as magníficas imagens do Brasil. cit. Esta frase é exemplar desta natureza anímica: A estas circunstâncias favoráveis. portadores tanto de características do naturalismo – dado seu empenho em formação documental. FBC e Os Sertões. seria a atribuição de vida e de vontade própria à natureza. pág.

jaziam à flor do solo. por exemplo. relaciona-se ainda. A passagem de Euclides da Cunha citada acima. e um grande trunfo desta nação. Onde a natureza permitiu ser ocupada... “Vias de Comunicação e transporte” são exemplos de partes da obra que derivam da natureza e que se desenvolvem a partir da sua descrição. como veremos a seguir) é refém da natureza. A natureza é decisiva também em vários outros capítulos de Formação do Brasil Contemporâneo. A terra era inexplorada e seus recursos. onde a natureza armou sua mais portentosa obra . topográfica e hidrográfica da terra. representa uma enorme força ainda indomada pelo homem. O homem do litoral (ao contrário do homem do interior em Caio Prado. a natureza brasileira exerce um papel decisivo sobre a civilização. . Grifo meu.) Ambas as citações dizem respeito ao poder ainda por domar da natureza brasileira. no caso brasileiro. p. como vemos na passagem retirada da página 43. Por isso. p. nada faz para modificá-la. “Produções Extrativas”. Este poder. este capítulo que se refere ao povoamento humano parte de uma descrição geográfica. onde a natureza armou sua mais portentosa obra.) Na obra dos dois autores. Nestas partes. (CPJ. op. ela o foi. Natureza e nacionalidade estariam amalgamadas. com a passagem seguinte de Formação do Brasil Contemporâneo: Só se enxergava uma perspectiva: a remuneração farta do capital que a Europa aqui empatara. o homem é “acrescentado” por Caio Prado como uma peça sobre este tabuleiro. É um agente histórico e por isso também algo que.. justifica todos os exageros descritivos (.quem vinga a rampa de um majestoso palco. em que o autor nos fala do Brasil como região privilegiada. op. se e quando finalmente formos capazes de utilizar a serviço da nação. acumulados durante séculos. na mesma ordem que Euclides dá a seus capítulos – primeiro “A terra” e depois “O Homem”. Grifo meu. A natureza de Caio Prado é tão ou mais anímica que a de Euclides da Cunha. E a descrição de tal natureza na obra do primeiro autor herda muitos traços estilísticos e narrativos do segundo. “Correntes de Povoamento”. 18. e a segunda tem na primeira seu grande trunfo. 273. cit. (Euclides da Cunha. cit.) que fazem deste país região privilegiada. nos poderá dar chance de mudar 109 . É importante ressaltar que é a natureza brasileira que aparece na obra dos dois autores como esse elemento prodigioso.

Na mata espessa e semi-aquática que borda a bacia do grande rio. nas palavras de De Decca. esforços da administração e dos colonos mais esclarecidos. com o volume enorme de águas que arrasta. cit. esta é a Amazônia.Vejamos a seguinte passagem de FBC: É certo que a agricultura se procurou estabelecer. em meandros instáveis. p. as descrições sobre a Amazônia. cujos istmos a 23 Edgar De Decca. Chegou sem ser esperado nem querido – Quando a natureza ainda estava arrumando o seu mais vasto e luxuoso salão. Grifo meu. op.. Presentes na obra de Euclides À margem da história (“Terra sem História”) e em Formação do Brasil Contemporâneo no capítulo sobre produções extrativas. com extrema hipocrisia. se anula. Naxara.) Há uma semelhança incrível no recorte. no enfoque que Caio dá à questão da Amazônia com a passagem que Euclides da Cunha escreve décadas antes. A luta requer esforços quase ilimitados. se quiser ir além da dócil submissão às contingências naturais. deslocando grandes tratos de solo que são arrancados à margem e arrastados pela correnteza. 167. dos dois autores. p. a barbárie nacional23 e explicitar o mau uso secular que este arremedo de civilização e barbárie tem feito de toda a riqueza contida neste pedaço do planeta. in: S. neste sentido. Esta remodelação fisiográfica ininterrupta de um território longe ainda de qualquer forma de equilíbrio.. nos termos.a rota trágica descrita nas duas obras em que o Brasil está posicionado. ali. realizar a tarefa de arrancar a máscara da civilidade por trás da qual se escondia. guardam incríveis semelhanças.. cit. op. se há uma região ainda mais indomável do Brasil que exerce um fascínio descritivo sobre os dois autores. Mas. parecem tatear uma situação de equilíbrio derivando. E encontrou uma opulenta desordem (. 110 . em terreno submetido a um regime fluvial cuja irregularidade. “Literatura em ruínas ou ruínas da literatura?”. e não faltaram. assume proporções catastróficas alagando áreas imensas. como se observa nos trechos abaixo: A impressão dominante que tive. que percebiam a necessidade de uma base mais sólida de riqueza que a precária indústria extrativa que praticavam. ) Os mesmos rios ainda não se firmaram nos leitos.Bresciani & M. os igapós. é esta: O Homem. Mas para isto não bastava a boa vontade. Há talvez em Caio Prado um ímpeto similar ao de Euclides de tornar-se o historiador capaz de. o Homem se amesquinha.. e talvez correspondente a uma verdade positiva. divagantes. contorcidos em sacados. 212. é ainda um intruso impertinente. (CPJ.

111 . Este enfoque.revezes se rompem e se soldam em desesperadora formação de ilhas e de lagos de seis meses. nos remansos da planícies inundadas. o complexo problema da assimilação de grandes massas indígenas que indiretamente provocam. vê como única possibilidade de relação entre a civilização e o rio uma luta de esforços ilimitados.) Até que num só assalto de enchente.. Como vimos24. Segue assim. até criando formas topográficas novas em que estes dois aspectos se confundem. a inadaptabilidade do rio à nação. se revelam aí em toda sua crueza e brutalidade. A evolução brasileira. próximo à perspectiva euclidiana. e cujo processo 24 Ver capítulo “O compasso das boiadas”. não era unanimidade entre os escritores que influenciaram Caio Prado. Desarraiga florestas inteiras. aprumando-se as barreiras altas.. p. cit. Baixam as águas e nota-se que o terreno cresceu. cit. Sua instabilidade alagadiça. fazem da colonização amazonense muito mais que uma aventura. que também colabora com a “formação” da obra em questão. o enorme volume de águas que nos dois autores culmina numa mesma conclusão: o homem é ali um intruso. E dessa inadaptabilidade do homem sedentário ao rio deriva. descrevendo a tentativa inócua de ocupação da região: Os resultados que apresenta são. in: op. no entanto. “Terra sem História”. tão difícil e dolorosa. seria um pedaço do interior do Brasil mais fácil de ser ocupado do que o agreste sertão. Os caracteres gerais da colonização bras ileira. Capistrano de Abreu. atulhando de troncos e esgalhos as depressões numerosas da várzea. é importante ressaltar. “Terra sem História”. fala da Amazônia como região toda cortada de rios caudalosos e desimpedidos . que a constituição de uma sociedade estável e organizada. numa colmatagem plenamente generalizada.2) O rio. como em outras partes da colônia. multífluo nas grandes enchentes. nas duas obras. dando formas sociais mais orgânicas e elevadas. esboçando-se os “firmes” ondeantes. de simples colônia tropical para nação. 8) O rio de Caio Prado é sem dúvida o mesmo de Euclides. vinga as ribanceiras e desafoga-se nos plainos desimpedidos. (Euclides da Cunha. A instabilidade e incerteza de vida que aquelas formas de atividade determinaram. Caio Prado. e alteia-se de cheia em cheia. esta empresa exploradora dos trópicos. p. Não viriam atenuá-los. Não há civilização coesa baseada no trabalho que se adapte a tamanha instabilidade natural. para logo invadidos da flora triunfal (. (Euclides da Cunha. decantam -se-lhe as águas carregadas de detritos. exsicando-se os pantanais e “igapós”. todo esse delta lateral se abata.. elementos paralelos e concorrentes que frutificariam com o tempo. no presente t rabalho. em conjunto parcos. in: op.

Grifos meus. Grifos meus. sente. A Amazônia ficou. Diante do homem errante. . encontra-se aí ainda mais retardado. Os cenários. Processo lento no restante do país. é esta região amesquinhadora do homem que dá vazão à manifestação mais crua do Sentido da Colonização.mesmo em nossos dias ainda não se completou. assaltando-o por vezes. A volubilidade do rio contagia o homem. . é o menos brasileiro dos rios. op. Daí. Esta instabilidade que contagia o homem. cit. surpreendendo-o. 112 . neste sentido. p. Essa atividade não traz consigo possibilidade alguma de atenuar o Sentido da Colonização através do implemento mínimo de qualquer organização social minimamente evoluída. e aos olhos do homem sedentário que planeie submetê-la à estabilidade das culturas. numa agitação tumultuária e estéril.) É enorme a semelhança descritiva entre o texto de Caio e passagens do texto de Euclides da Cunha. o observador imóvel que lhe estaciona às margens sobressalteia-se. A instabilidade do rio de Caio corresponde à volubilidade retratada por de Euclides. 12. in op. o rio que sobre todos desafia nosso lirismo patriótico. p. (EC. a impressão de circular no itinerário fechado. a natureza é estável. É um estranho adversário entregue dia e noite à faina de solapar a sua própria terra. quase sempre afugentando-o e espavorindo-o. em grande parte a paralisia completa das gentes que ali vagam. e daí deriva a visão da inadaptabilidade da Amazônia ao processo de formação nacional nos dois textos. há três séculos. (CPJ. cit. e as mesmas florestas e igapós estirando-se a perder de vista pelos horizontes vazios. muito atrás das demais regiões ocupadas e colonizadas do território brasileiro. onde se lhe deparam as mesmas praias ou barreiras. 215. Ao nomadismo corresponde o extrativismo como forma de sobrevivência. em geral. seria lá muito retardada. ou ilhas. invariáveis no espaço. Por isso mesmo. que age como um lento veneno sobre aqueles que lá visam estabelecer-se. ao cabo de centenares de milhas. aparece espantosamente revolta e volúvel. sucede isto: o observador errante que lhe percorre a bacia em busca de variados aspectos. No Amazonas. que o convida ao nomadismo como única forma de sobrevivência. intermitentemente diante de transfigurações inopinadas. Vejamos a seguinte passagem de “Terra sem História”: Neste ponto. transmudam-se no tempo. A adaptação exercita-se pelo nomadismo.) A Amazônia torna-se um entrave para o processo de evolução da colônia. A instabilidade é a grande característica ressaltada em ambos os textos. “Terra sem História” .

por exemplo. no pleno dos estios quentes. que Caio tenha efetivamente entrado em contato com o texto que cotejamos.. A questão amazônica gera nos dois textos interessantes metáforas. O aparato metafórico do qual o autor se vale para a descrição da Amazônia corresponde tal e qual a muitas das imagens que aparecem 25 Pois Caio Prado envolve -se durante toda sua vida com a política. “Amesquinhadora do homem. Mas. quando se diluem. 70) É importante refletirmos sobre a opinião de Caio. com relação ao maior rio do planeta. embora muito mais discretamente. com estoicismo raro ante a fatalidade incoercível. As existências derivam numa alternativa dolorosa de vazantes e enchentes dos grandes rios. notar. são alguns dos adjetivos e metáforas usados nestes textos. apesar de haver sérias possibilidades. face à de Euclides.Vemos no capítulo “Produções extrativas” muitas descrições que confirmam esta afirmativa. o homem aguarda então. manifestar este mesmo ponto de vista sobre a Amazônia: Ali. vemos Euclides. (Euclides da Cunha. o termômetro é substituído pelo igrômetro na definição do clima. 69) Tal regime acarreta o p arasitismo franco. vemos aí uma possível confirmação da herança de Caio Prado relativa ao texto de Euclides da Cunha. (Euclides da Cunha. que chegam a insultar a natureza desse magnífico pedaço do planeta (tais insultos derivam. Mas o insulto certamente não esconde um enorme fascínio descritivo. mortas nos ares parados as últimas lufadas de leste. p. é sempre o Euclides de OS que é citado.. O homem bebe o leite da vida sugando os vasos túmidos das sinfonias . O Amazonas refeito salta fora do leito. Não podemos garantir. mesmo em OS. da falta de respostas possíveis. e da preocupação – principalmente por parte de Caio 25 – quanto ao que esta terra misteriosa pode gerar para o país). o termo daquele inverno paradoxal de temperaturas altas. dolorosas vazantes ”. “Terra sem História”. vemos dois autores extremamente preocupados. A enchente é uma parada na vida. Aliás. Euclides opta por outra postura (mas talvez não ainda no momento em que escreve OS). levanta-se em poucos dias o nível das águas. a Euclides da Cunha. OS. Podemos. p. de dezessete metros. que ressalta a caudalosidade dos rios amazônicos. talvez. em meio a seu texto. no entanto. Preso nas malhas dos igarapés. de Capistrano de Abreu. OS . que nas citações diretas que Caio faz. ao contrário. volúvel. Estas alteiam-se sempre de um modo assombrador. 113 . Na primeira leitura que fazemos da questão amazônica nestes textos. na busca de saídas futuras para o país.

.. testemunha de um tempo em que a terra ainda não se organizou. Chegou sem ser esperado nem querido – Quando a natureza ainda estava arrumando o seu mais vasto e luxuoso salão. na sua narrativa. p. p 212 Euclides da Cunha. não entrou em equilíbrio: nesta remodelação fisiográfica ininterrupta de um território longe ainda de qualquer forma de equilíbrio. que se desenvolve de ciclo em ciclo. nocauteia num só assalto as terras que o circundam. CPJ.. in: op.. o homem se amesquinha. Este pedaço da terra é também. 2 114 . dando a ela um tom de total literalidade: A luta requer esforços quase ilimitados. algo que não pertence ao tempo em que os homens habitam o planeta. às margens de suas necessidades internas. na metáfora amazônica de Euclides também há um nexo com a civilização que se desenvolve no Brasil. aliás. o mesmo. uma terra em desordem natural: O Homem. vemos a metáfora da Amazônia como um mundo num estágio primordial de evolução. 8. op. dentro do texto “Terra se História”.26 A luta é também figura presente na obra de Euclides.) Até que num só assalto de enchente.cit. que luta também com suas próprias margens: O rio. corre tal e qual o desequilíbrio e a instabilidade de toda colônia. vinga as ribanceiras (.. multífluo nas grandes enchentes. cit. É um estranho adversário 27. No texto de Caio Prado. cit. Grifo meu. se quiser ir além da dócil submissão às contingências naturais. 212 Euclides da Cunha. E encontrou uma opulenta desordem. Certamente. É como se o Amazonas euclidiano desafiasse o homem a uma luta. ali. no texto de Euclides. cit. Terra sem História. p.12 Euclides da Cunha. como algo literal: o rio que sobre todos desafia nosso lirismo patriótico. p. op.nas passagens que aqui recortamos. é a luta a grande metáfora que o autor usa para descrever a ocupação da Amazônia. se anula 29 O desequilíbrio da Amazônia na obra de Caio Prado. Vejamos alguns exemplos: Na primeira citação do texto de Caio Prado sobre o tema. O motivo desta luta entre Amazônia e homem é. todo esse delta lateral se abata.30 Notamos 26 27 28 29 30 CPJ. como em uma luta de boxe. E é sem dúvida adversário superior. P. A Amazônia aparece como algo pré-humano. op. in: op. nos dois textos.. Vemos. é o menos brasileiro dos rios. em que certamente o homem não estaria preparado para surgir. 28 O rio se vinga da terra que procura tomar espaço em seu leito e. e também funciona. o mesmo motivo vigoroso para a luta em que se lança o Amazonas contra seus ocupantes. cit. Terra sem História. É algo que os precede. é ainda um intruso impertinente.

assim, em Euclides, a mesma imagem: a Amazônia como território pré-histórico, ou melhor, préhumano. Esta imagem está relacionada à metáfora da luta entre homem e rio, rio e margem. Ou melhor, dela decorre a derrota do homem – trata-se de um território que ainda não está preparado para recebêlo e que por isso o repele (daí que no texto de Caio Prado o homem se amesquinha e se anula, e no texto de Euclides ele é um intruso impertinente). Ora, esta caracterização tão parecida, através de imagens que são praticamente as mesmas, representa provavelmente uma incorporação, por parte de Caio, deste texto de Euclides – além de Os Sertões que, como veremos, é citado diretamente. Dando continuidade ao cotejo entre os textos, vejamos agora outro aspecto que merece atenção. O fascínio descritivo pelo Sertão e seus habitantes suplanta ainda nas duas obras o tema amazônico. Sua natureza é tão cheia de hecatombes quanto a Amazônia. Não a água mas, como se sabe, a falta dela é a peculiaridade periódica desse território geográfico e cultural chamado Sertão. Para o Sertão, no entanto, o homem muitas vezes “quase-branco” (ao menos lá ainda há na população traços de colonizadores; eles não desaparecem, como na Amazônia) conseguiu dar uma resposta civilizatória. Esta resposta, nas palavras de Capistrano, foi o gado (ainda que a civilização que emerge no agreste junto com a gado seja a mais tosca possível). E é na descrição da população sertaneja que vemos belos trechos de Caio, tão em sintonia com os adjetivos que Euclides antes lhe atribuíra.

Todas estas vias que se destinam sobretudo, como notei, à condução de gado, (... ) Mas além desta função, elas tiveram outra de grande relevo na história da formação brasileira. Elas articulam o sertão, e ligam intimamente as populações aí estabelecidas (...) As vias de comunicação descritas contribuem para caldear e fundir todos elementos díspares que entraram na composição da população sertaneja e que, provindos originalmente de pontos diversos e largamente afastados, se foram aos poucos comunicando e pondo-se em contato. As estradas que vimos marcam na carta as grandes linhas ao longo das quais se desenvolveu tal processo de caldeamento e fusão, do qual resultaria o tipo étnico que embora oriundo de raças tão distintas e variando consideravelmente de um para outro indivíduo, guarda contudo, no conjunto, uma unidade inconfundível que se marca dentro da própria população brasileira. (CPJ, op. cit., p. 243. Grifo meu.)

As páginas de Euclides, além de também falarem ao leitor sobre tantas coisas “vistas”, estão repletas de termos como “fusão” e “ elementos díspares” ao referir-se à população desta região. São uma fonte de inspiração para Caio, como vemos nas passagens de OS transcritas a seguir:

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Entretanto a observação cuidadosa do sertanejo do norte mostra atenuado esse antagonismo de tendências e uma quase fixidez nos caracteres fisiológicos do tipo emergente. (...) A verdade, porém, é que todo elemento étnico forte “tende a subordinar ao seu destino o elemento mais fraco ante o qual se acha”, encontra na mestiçagem um caso perturbador. (Euclides da Cunha, OS . , p. 95) É que neste caso a raça forte não destrói a fraca pelas armas, esmaga-a pela civilização. Ora nossos rudes patrícios dos Sertões do norte forraram-se a esta última. O abandono em que jazeram teve função benéfica. Libertou-os da adptação penosíssima a um estádio social superior, e simultaneamente evitou que descambassem para as aberrações e vícios dos meios adiantados. A fusão entre eles operou-se em circunstâncias mais compatíveis com os elementos inferiores. O fator étnico preeminente transmitindo-lhes as tendências civilizatórias não lhes impôs a civilização. (Euclides da Cunha, OS . , p. 96. Grifo meu.)

Euclides, como muitos homens de seu tempo, herda conceitos como o de hierarquia inter-raças. Mas por ora não pretendemos discutir este aspecto que se percebe na passagem acima. O que nos interessa profundamente é sobretudo a terminologia, a idéia do sertão como lugar que dá origem ao mais bem acabado processo de miscigenação, pois a fusão é o que dá homogeneidade aos elementos. O sertanejo é, segundo estes autores, um tipo característico, fruto do isolamento de três séculos de indivíduos das três raças. Caio nos fala dele como portador de uma unidade inconfundível dentre a população brasileira. Este processo de fusão, no entanto, é ainda mais característico pelo fato que vemos na passagem selecionada referente à p. 96 de OS. Dada a natureza áspera do sertão, são os elementos étnicos inferiores (entenda-se menos civilizados) que sobressaem. Euclides é um crítico da civilização. Escreve, à p. 96 de Os Sertões:
Estamos condenados à civilização. Ou progredimos ou desaparecemos.

Ora, para este autor a civilização não é travestida de adjetivos superiores, é uma condenação, um fardo. No sertão, porém, a adaptação ao meio faz do homem um tosco. Cria-se um outro tipo de civilização, baseada não na razão mas na força, e em outras características peculiares. É este um tema praticamente já delineado por Euclides, que Caio reproduz em passagens interessantes como a que
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segue:

O sertão cons tituiu sempre, de fato, refúgio para negros e mestiços provindos do litoral: escapos da justiça, que sobre eles pesava mais que sobre as outras categorias da população, ou recalcados pelo regime de vida desfavorável que lhes proporcionam os centros mais a tivos e policiados da costa. O sertão oferece a liberdade, o afastamento de uma autoridade incômoda e pesada. Aí a lei é a do mais forte, do mais capaz, e não a de classes favorecidas. Representa por isso uma válvula de escapamento para todos elementos inadaptáveis ou inadaptados que procuram fugir à vida organizada dos grandes centros de povoamento da colônia. (CPJ, op. cit., pp. 113-4)

No sertão podem dominar aqueles que em outras partes da colônia são dominados. A população que lá se encontrava no séc. XIX tinha suas próprias leis. A idéia de válvula de escape é interessante, e corresponde a certas idéias contidas neste trecho de Euclides, outra provável fonte de inspiração para FBC:

Ora, toda essa população perdida num recanto dos Sertões lá permaneceu até agora, reproduzindo-se livre de elementos estranhos, como que insulada, e realizando, por isso mesmo, a máxima intensidade de cruzamento uniforme capaz de justificar o aparecimento de um tipo mestiço bem definido, completo. Enquanto mil causas perturbadoras complicavam a mestiçagem no litoral revolvido pelas imigrações e pela guerra; e noutros pontos centrais outros empeços irrompiam no rastro das bandeiras – ali a população indígena, aliada aos raros mocambeiros foragidos . (Euclides da Cunha, OS , p. 90)

No interior do Brasil, o sertão representa, nos dois textos, um isolamento insular (uma redundância, aliás), oceânico. Parece mesmo menor a distância de um oceano – o atlântico – que separa a metrópole e o litoral mais civilizado da colônia, do que a distância que separa este trecho da colônia do Sertão. A população, portanto, que reproduz-se neste isolamento, afastada dos grandes pólos, torna-se como que uma categoria à parte dentro da colônia. Uma espécie endêmica, que evoluiu isoladamente, e que por isso tomou caracteres próprios. Os dois autores descrevem a população sertaneja como algo que se forma a partir de uma combinação de elementos próprios – alguns comuns ao restante da colônia, outros absolutamente singulares – e que ao longo dos séculos toma características especiais, decorrentes desta somatória de foragidos, índios, e a terra áspera. É uma

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na verdade. O exagero barroco nos adjetivos. são cores certamente euclidianas tingindo as páginas de FBC . mas deplorável no terreno prosaico da economia. O incivilizável interior da colônia é narrado sempre de maneira portentosa em Formação do Brasil Contemporâneo. nos dois livros. verdadeiras hecatombes periódicas são produzidas pelas secas prolongadas. é ele também integrado na ordem civilizatória. grande recurso de Euclides da Cunha para dar o tom grandioso à vida. dique prestes a rachar. nos traz à mente a imagem da sociedade brasileira (no caso a colonial) como panela de pressão. não se conhece aí este gado semi-selvagem do sertão. Tão rude quanto o homem é o gado do Sertão. e que lá empresta à pecuária este caráter épico. 199. p. uma dobra no interior na colônia dobrada para fora de si.. mais um elemento que nos permite pensar a obra caiopradina pela via de sua aspiração à narrativa épica da história da colônia.formação dentro do Brasil em formação. à natureza. podemos dizer que está num intermeio entre a influência de Euclides da Cunha e Capistrano de Abreu. Grifo meu. dramático. que notadamente empresta ao Sertão este caráter épico. Já a segunda. sobretudo para desclassificados sociais. a selvageria do gado. 62) Em conseqüência. Sobre a primeira passagem de Caio Prado que veremos a seguir. mas dotado de um instinto notável na procura do escasso alimento que encontra nos seus pastos. A necessidade da válvula de escape é sintoma da desagregação iminente. (CPJ. op. motor em explosão. representa um refúgio.. op. A aspereza do clima também não era favorável ao progresso dos rebanhos. repete-se nas descrições de Caio Prado que tocam nos mesmos temas. admirável nos seus efeitos dramáticos.) O caráter épico que Caio Prado Jr. contém uma referência direta ao autor de Os Sertões: Por seleção. 118 . cit. difícil de domar e conduzir. Este termo. E se o sertão. cit. o gado sertanejo foi apurando um tipo adaptado às dificuldades da região: não só muito rústico. (CPJ. As hecatombes da seca que mata o gado. assim como na “epopéia” da colonização amazônica. no texto de Caio Prado. à luta civilizatória no interior do Brasil. Tal caráter torna-se latente nas suas descrições do Sertão – como as que selecionamos acima –. a sua válvula de escape . também. p. atribui a Euclides da Cunha acaba sendo transposto para sua própria narrativa. O uso desses adjetivos é. tão bem pintados por Euclides da Cunha. o homem mesquinho que se anula diante da grandiosa natureza amazônica.

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chama-nos atenção em primeiro lugar o sincero deslumbramento. OLIVEIRA VIANNA Um dos textos que talvez mais tenha influenciado alguns aspectos analíticos e discursivos de Formação do Brasil Contemporâneo é a obra de Oliveira Vianna. por sua vez seria um “golpe” a esta tão nobre classe.. por sua vez. Ao ler a obra de Vianna. que não dispunham de mão de obra livre para tocar o grande empreendimento agrícola que é o engenho de cana. A abolição. vivendo no IV século da colonização próximos à corte aqui estabelecida.47 a 120 . A escravidão. tal como nos aparece no IV século. edição. O índio é caracterizado pela sua indolência e 31 32 33 Oliveira Vianna.32 . dotados de p oder e respeito pela temperança com que conseguem administrar centenas de vidas sob seu domínio. senhores cultos. Ele representa na história do Brasil uma classe superior: Essa aristocracia se constitue como veremos o centro da polarização dos elementos arianos da nacionalidade 33 . O.. os mineiros por seu tom democrático e os cariocas. 3 . Vianna. O senhor de engenho é um verdadeiro aristocrata. o tom elogioso com que o autor descreve os dirigentes dos domínios rurais do sudeste – os paulistas por sua aristocracia. Os senhores rurais do sudeste são descritos em Populações Meridionais do Brasil como portadores de altíssimas qualidades morais. op cit. letrados. cuja segunda edição data de 1922.51 O. SP: Companhia Editora Nacional. dono de uma mentalidade própria. Populações Meridionais do Brasil. op.CA P ÍT U LO 4 NEBULOSAS E ASTERÓIDES: REFERÊNCIAS A F. 1933. Vianna. é vista na ótica do autor como uma necessidade imposta aos primeiros corajosos sesmeiros. p. A família fazendeira. é preciso ressaltar que existem diferenças político-ideológicas e historiográficas muito grandes entre os dois autores.J. Antes de mais nada.cit. p. é realmente a mais bela escola de educação moral do nosso povo. Populações Meridionais do Brasil31.

cit. p. Vianna discorre em sua introdução sobre sua escolha consciente pelo recurso às ciências naturais como forma de compreensão da história: É preciso que varias ciencias. Assim. Certamente. ) Este recurso do autor às ciências chamadas naturais remonta em boa medida ao método sociológico de E. incorpora a seu texto. Editora Nacional. O culto do documento escripto. op. nesta obra.. Principalmente a Física e a Botânica fornecem elementos que servem aos dois textos como base de análise. Isso posto. Essas sugestões analíticas traduzem-se sobretudo na montagem de metáforas organicistas como forma eficiente de compreender a sociedade colonial. 1963. Vianna. (O Vianna.cit. completem com seus dados as insufficiencias ou obscuridades dos textos documentários. Muitas relações sociais são explicadas por O.83 Èmile Durkheim. Durkeim. Tais regras pautam-se na idéia de que as formas e funções dos itens que compõem a sociedade se comportam de uma maneira orgânica.indomesticabilidade34. propõe justamente um método de investigação sociológica com regras específicas. op. por exemplo. como as listadas acima. p. o fetichismo literalista é hoje corrigido nos seus inconvenientes e nas suas insufficiencias pela contribuição que a philosophia da história trazem as sciencias da natureza e as sciencias da sociedade. apresentado principalmente em As regras do Método Sociológico. sobretudo. para o povoamento do Brasil colonial. que deixam transparecer pontos de vista do autor com os quais Caio Prado certamente não concordaria. os agregados e pequenos produtores rurais. Existe ainda nesta obra uma série de comentários sobre os mestiços.35 Durkeim. gostaria de iniciar agora uma comparação entre a obra citada de O Vianna e Formação do Brasil Contemporâneo. auxiliares da exegese histórica. não são as opiniões do primeiro autor. O. sugestões do ponto de vista analítico – elementos de análise social muito bem desenvolvidos em Populações Meridionais do Brasil que vemos reaparecer quase idênticos em FBC . 121 . que Caio Prado Jr. “as leis poderosas” das ciências naturais passam a valer como instrumentos explicativos importantes de formações históricas constantes da obra dos dois autores que pretendemos comparar.IX. ou expliquem pelo mechanismo das suas leis poderosas aquilo que estes não podem fixar nas suas paginas mortas. São. Vianna simplesmente por características psicológicas ou supostamente decorrentes de elementos somáticos. as duas principais ciências a fornecer um 34 35 O. Como já dissemos. Grifo meu. As regras do método sociológico.. SP: Cia.

Em Minas Gerais. a gravidade. provocando migrações e deslocamentos bruscos da população. de O. XVIII -. numa palavra. foi provavelmente inspirada em passagens como esta. Vamos começar nossa análise dos textos a partir das interessantes metáforas físicas/ astronômicas. Cada qual constituirá. na mesma página.. (CPJ. que é a de seu aparecimento e entrada em cena da História. Goiás. atrahidos pela vida das cidades gravitavam. p. São a fonte de inspiração para imagens marcantes. cit. que. 56.arcabouço imagético para O. No primeiro o que vamos encontrar quando cessam a expansão mineradora.) Mais adiante. o centro de condensação (para empregar um termo emprestado à física e que a distribuição do povoamento que ora analisamos sugere tão vivamente) está localizado numa faixa que se estende de sul a norte. se sedimenta e estabiliza o povoamento . são adotados pelos dois autores em diversas partes de seus textos.. Vianna. de grande poder 122 . setor da mineração. Grifo meu.cit . a linguagem dos corpos. op. são A Física e a Biologia.. p. . p.17) Os elementos espaciais. Mato grosso. Vianna e Caio Prado Jr. eis que ressurge a nebulosa como forma perfeita de definição. op. Curiosamente. que vemos tão bem elaborada no texto de Caio Prado Jr. como asteróides em torno do pequeno núcleo fidalgo. e no sertão do nordeste. é principalmente nos capítulos dedicados ao povoamento (a principal temática de O. 56) Esta terminologia.Vianna: Os grandes senhores ruraes. as explorações e novas descobertas que se sucedem continuamente. (O. (CPJ. associada a outras expressões derivadas da Física: Aquela nebulosa de estabelecimentos mineradores se agrupa em três núcleos de maior densidade. da bacia do r io grande `as proximidades das nascentes do Jequitinhonha. administrativamente. no texto de Caio Prado Jr. o que vamos encontrar então é uma nebulosa de estabelecimentos mais ou menos separados e isolados uns dos outros. uma capitania: Minas Gerais. quando. Vianna) que surgem a maioria destas metáforas: Esta diferença determina uma estrutura de povoamento inteiramente diversa no Centro-Sul.e isto se verifica cerca de meados do séc. cit.. Analisemo-los nesta ordem. op.

. em direção sobretudo de Leste. Grifo meu. é instrumento para explicar o movimento populacional de minas no capítulo “Correntes de Povoamento”. p. p. cit.. Grifo meu. o seu “espantoso ondular” se torna perfeitamente compreensível (. A imagem dos senhores rurais que gravitavam como asteróides em torno de um núcleo talvez tenha inspirado a imagem da nebulosa de estabelecimentos mineradores que se agrupam em torno de três núcleos. do fim do II século em deante. Essa fascinação não bastaria porém para determinar tão admirável irradiação conquistadora ( O. cit. o movimento da bandeiras.. A seguinte passagem do texto de Caio Prado utiliza -se diretamente desta idéia orbital: Se apesar de tudo isto a bacia amazônica entrou na órbita da colonização luso-brasileira e fugiu à dominação espanhola (. 68. o movimento centrífugo da população mineira. 76.99-100. Sul e oeste. op. demonstrando o fascínio metafórico exercido por estas ciências no interior de seu texto: Depois da analyse da organização social vicentista. Vianna. cit. no texto de O. que vem atestar o fato de que nosso autor inspira-se em explicações semelhantes também referentes a movimentos populacionais. acha-se no momento que nos ocupa em franco processo. op. Grifos meus.) (CPJ.) Mas é sobretudo o uso metafórico de uma lei da física que no texto de Caio Prado Jr. (CPJ. 81.cit. Vianna. ) É verdade que a causa apparente e immediata desse movimento é a atracção magnética exercida pela legenda da Serra das Esmeraldas.) A visualização. um desfilar de termos da Física/Astrofísica. op..explicativo... de um movimento centrífugo populacional para traduzir ou 123 .. Grifo meu.) Em suma.. (CPJ. p. por Caio Prado Jr. op.. p. Vianna: Analisemos agora este movimento centrífugo da população mineira com mais pormenores.) E segue-se.. encontradas em O.

afinal. Grifos meus. op. 124 .Vianna op. p. Servem à criação de metáforas que fornecem ao leitor imagens impressionantes dos movimentos internos da colônia. a penetração dos Sertões em busca dos índios. Caio Prado certamente se deu conta do poder explicativo derivado destas metáforas organicistas. Tudo isso concorre poderosamente para deslocar e dispersar a população para fora da peripheria das cidades e das circunvizinhanças dos centros urbanos. que assistimos. que utilizamos aqui. e a nova tendencia americana de caracter visivelmente centrífugo: a primeira atrahindo as classes superiores da colônia para as cidades e os seus encantos.cit. a segunda impelindo essas mesmas classes para os campos e seu rude isolamento. de caracter visivelmente centrípeto. entre o espírito peninsular e o novo meio. própria ao meio americano. (O. entre a velha tendência européa. op. victória á tendencia centrífuga. Vianna do que no de Caio Prado.20) Essa dispersão da nobreza colonial pelo interior rural é vigorosamente intensificada pela collaboração de outros agentes possantes de centrifugismo urbano. durante todo o período colonial. É.Vianna. de bandeiras. A dicotomia entre centrífugo/centrípeto é justamente a base de sua caracterização da classe rural do sudeste 36: É este irremediavel antagonismo entre a vida urbana e a vida rural que acaba por dar. Vianna. É por fim a conquista das minas. pois aparece muito mais vezes no texto de O. primeiro. as incorpora ao texto de Formação do Brasil Contemporâneo. cit. que nos faz pensar numa hélice arremessando para longe das cidades a população colonial ou aglomerando-a com seu poder de sucção: D’ahi esse conflicto interessantissímo. ( O. (O.14-15.21) As forças físicas e os termos astronômicos servem nos dois textos à explicação de movimentos populacionais. mesmo não concordando com algumas de suas aplicações por parte de O. depois.Vianna justamente de movimentos populacionais na colônia. É. isto é.cit. p. Vianna.compreender a dispersão da população mineira remete a uma elaborada análise que faz O.) Estes movimentos da Física desdobram-se por todo o primeiro capítulo de O. tem em boa medida o aval do autor.Vianna. “Formação do typo rural”. de movimentos colonizatórios. a expansão pastoril nos planaltos. É uma imagem poderosa. por exemplo. e talvez. p. Uma segunda e importantíssima fonte de inspiração metafórica são os elementos derivados da 36 O termo classe.

este percurso que associa populações que vegetam à idéia de desclassificação não é único de Caio Prado. De simples unidade produtiva. inicialmente esta passagem: Constituído assim numa sólida base econômica. A questão central deste capítulo de FBC é justamente a compreensão do funcionamento da sociedade colonial no momento do início de sua desagregação. onde caracteres físicos e biológicos se fundem é ilustrativa da importância da metáfora biológica dentro deste capítulo que engendra quase toda a análise da estrutura social por Caio Prado Jr. Vejamos. no momento de ruptura social estudada por Caio Prado (o início do séc. 287. e dele depende para os demais atos e necessidades de sua existência. É a metáfora da célula (associada a metáfora vegetal) que vai dar conta desta estrutura. componente da parte final de FBC . o escravo também não será simples mão de obra explorada. 288. Vianna –.. E. note-se. vemos a metáfora botânica tomar enorme força. (CPJ. e centralizando a vida social da colônia. Mas. p. Da idéia de vegetal é que se chegará ao conceito de desclassificados sociais. Se pensarmos que a célula também tem um núcleo.Vianna na nota da p. na órbita do senhor e seu domínio.) Essa interessante passagem do texto de Caio prado Jr.Biologia.cit.. Grifo meu. Se trabalha para aquele. a ser invadida por um corpo estranho – a legião de desclassificados sociais. freqüentemente por gerações sucessivas. como veremos. A mesma terminologia da desclassificação social fora inaugurada por O. e muito. é Caio Prado que vai enriquecer. também conta com ele. A célula inicial constitutiva da sociedade colonial é formada pelos elementos bem classificados – senhores (o núcleo) e escravos. op. Acontece que esta célula inicial que assim se organizava nos primeiros séculos da colonização. toda ela se desenrola.) O senhor deixará de ser o simples proprietário que explora comercialmente suas terras e seu pessoa . começa. o grande domínio adquirirá aos poucos os demais caracteres que o definirão. Ele 125 . em particular da Botânica. No capítulo intitulado “Organização Social”37 – termo que também aparece no texto de O. XIX). do nascimento à morte. onde o autor diz que Vianna e Freyre teriam sido os primeiros a analisar as relações sociais dentro das casas de fazenda. Vianna encontra-se também uma passagem 37 Neste capítulo vemos também uma referência direta de Caio Prado a O.. Ele ocorre tal e qual em Populações Meridionais do Brasil. pequeno mundo fechado em função do qual se sofre e se goza. a idéia de órbita pode também ser atribuída a ela (em O. a metáfora botânica associada à sociedade brasileira. torna-se desde logo célula orgânica da sociedade colonial (. e até forçado pelo açoite do feitor ou pelo tronco da senzala. Vianna três décadas antes.

desagrega-se a parte da sociedade atingida pela crise. A ela podemos associar. ou mesmo de ciclos econômicos. o corpo coeso. passa a ser então invadida por corpos estranhos. determinando qual é o produto da vez para ser produzido em função do mercado externo: Em capítulo anterior já assinalei esta evolução por arrancos. Dos ciclos de que a colônia encontrava-se refém em função do próprio sentido da colonização. op... O vadio na sua expressão mais pura.relacionada ao domínio rural como algo nuclear”38). Vianna. circular. que no momento preciso em que abordamos a nossa história. todo aquele que se conserva fora daquele estreito círculo de traçado pela grande lavoura. perde suas raízes e base vital de sua subsistência. A célula é um corpo fechado. que são resultantes do próprio modo de funcionamento da colônia e das possibilidades restritas impostas por esta organização celular. e são quase todos além do senhor e seus escravos não encontra pela frente perspectiva alguma. prosperidade e ruína. Em nenhuma época e lugar isto se torna mais catastrófico e atinge mais profunda e extensamente a colônia. 38 O latifundio os concentra [os três elementos étnicos] e os dispõe na ordem mais favorável á sua mistura.285) A célula. Caio Prado. Vianna: O grande senhor rural faz da sua casa solarenga o seu mundo. na obra de Caio Prado. o círculo traçado pelos ciclos econômicos. Vianna. alternando o recurso à caridade com o crime. alterna justamente a idéia de célula orgânica referente ao grande domínio. op. sem ocupação normal. Dentro delle passa sua existência como dentro de um microcosmo ideal: e tudo é como se não existisse a sociedade. para quem não existe o dia de amanhã. fixa e decentemente remuneradora.. cita Populações Meridionais do Brasil. As repercussões sociais de uma tal história foram nefastas: em cada fase descendente desfaz -se um pedaço da estrutura colonial. A circularidade das grandes propriedades é refém de um outro círculo maior. (Caio Prado Jr. a idéia de círculo fechado. cit. neste mesmo capítulo. 50) 126 . p.Passará então a vegetar à margem da ordem social. Pondo em contacto imediato e local as tres raças elle se faz um esplêndido núcleo de elaboração do mestiço (O.. e nos distritos da mineração. ou desocupados inteiramente. por ciclos que se alternam no tempo e no espaço. op cit. Um número mais ou menos avultado de indivíduos desagrega-se. Vamos encontrar ai um número considerável destes indivíduos desamparados evidentemente deslocados. cit. 86) 39 A idéia do grande domínio como pequeno mundo fechado em função do qual se sofre e se goza pode também ter sido inspirada nesta passagem do texto de O. p. p. (O. e que resume a história do Brasil colônia. com a idéia da circularidade 39 : E assim.

cit. Aliás. a idéia de desclassificação social e a imagem dos indivíduos à margem. op. vegetar é o termo que exprime sua tosca sobrevivência. ao lado da capangagem dos mamelucos.285) Esta idéia do vadio como desenraizado é uma expressão da metáfora botânica muito bem utilizada dentro deste texto. e provavelmente do texto de Populações Meridionais do Brasil surge a inspiração imagética para esta parte tão importante de Formação do Brasil Contemporâneo: Os que não conseguem um grande domínio agrícola. Em torno destes. Claro que não com toda a força explicativa que adquirem associadas à compreensão econômica e social de Caio Prado. o largo uso do termo em FBC fora inspirado por passagens de Populações Meridionais do Brasil. que recorrerá nos parágrafos seguintes. fracassam. no texto de O. ficam á margem. p. Eles são abandonados como plantas desenraizadas pela cheia numa margem à qual não pertenciam antes.. nesse grupo indefinido da plebe. desbarrancando suas margens. ou carece de escravos”– confessa Frei Gaspar. Ocorre que todas estas expressões – a metáfora vegetal em suas diversas manifestações. Premidos pelos preconceitos sociaes e pela necessidade. Vianna. A sociedade dos ciclos econômicos passa como um rio na cheia. no tumulto das minas. destruindo seu próprio leito. obra na qual. é importante assinalar.(CPJr. cit. que é uma forma de vida que não se locomove. a referência aos desclassificados. – “Nesse Estado. Vianna. O indivíduo se desprende da sociedade com a chegada de um novo ciclo e é abandonado pelo círculo a que pertencia. p. Fazem -se clientes dos grandes latifundiarios. o autor refere-se aos primeiros séculos da colonização.. o autor recorre mais uma vez à planta. Vianna. entre a escravaria e a mestiçagem. esses desclassificados se abysmam nas zonas obscuras dessa sociedade ruralizada. entram a vegetar em silêncio. Provavelmente. e seus desclassificados são principalmente os chamados agregados das fazendas – categoria que ele analisa a fundo. Os 127 . vive com suma indigência quem não negocia.. op. encontramo-las exatamente iguais no texto de O. (O. 74) Nesta passagem vemos pela primeira vez. E para expressar este abandono em que passam a viver. com farta escravaria ou tendo-o conseguido. transfigurados. é justamente esta a expressão utilizada – à margem – para estes indivíduos desclassificados. até que a eclosão deslumbrante das “bandeiras” os arremesse. Mas elas estão lá.

(O Vianna. de uma idéia que no seu texto transforma-se.cit. por parte de Caio Prado. A desclassificação seria um fruto da sua decadência. op. a idéia de formação de uma massa social instável: Por ahi se vê que o mestiço é na sociedade colonial. toma um referencial ampliado. Vianna. Vianna e que se repete em FBC: a idéia de massa social. Por isso seu nomadismo de caçador se transforma facilmente no nomadismo de guerreiro sertanista. ou o garimpo: Toda essa massa de mestiços ociosos e inuteis. egresso dos engenhos. Muito diferente é a desclassificação do mestiço: O mestiço na sociedade colonial é um desclassificado permanente. 90. op. a sua instabilidade é evidente.cit. op. Grifo meu. Vejamos este trecho de Populações Meridionais do Brasil: O sesmeiro vicentista está collocado entre as pontas de um verdadeiro dilemma: . como um transbordo das senzalas. um nômade. um deslocado.desclassificados de Caio Prado referem-se principalmente aos “desclassificados do ouro”.cit. 89 128 . mal fixo a terra. Liberto do trabalho rural. É um desplantado. posteriormente. um infixo. ou a cultura em grande escala. mas a idéia de desclassificação é nos dois textos a mesma. ou incapacidade administrativa. p. na perspectiva dos senhores rurais. que vemos pullular. Della é que 40 O.tem que escolher entre a vida vegetativa dos decahidos... Ocorreria uma reapropriação. Há ainda outra imagem relacionada à desclassificação que vemos no texto de O. Este é o corpo coeso que invade o círculo colonial de Caio Prado.) As bandeiras serão uma ocupação provisória para os mestiços desclassificados. esse dilemma se transforma nesse outro: ou a desclassificação social ou a posse de uma grande massa operária. p. p.40 Ao desclassificado mestiço é que se associará de maneira definitiva a idéia de desplantado (tão similar os desenraizados de Caio Prado Jr) e. assim como a defesa das fazendas. (O Vianna. Dadas as condições especiaes daquella sociedade. 77) É interessante notar. nas terras dos latifundios tem agora á sua actividade uma aplicação superior. no texto de Vianna. a forma como a questão da desclassificação é apresentada.

Não resta a menor dúvida que as agitações anteriores e posteriores à Independência.) Todas essas passagens que citamos em seqüência do texto de O. (O Vianna. e ela servirá de aríete das reivindicações populares contra a estrutura maciça do Império. e onde identificamos também a presença da Física – seja na própria idéia de massa que se desloca. as do tormentoso período da minoridade do primeiro decênio do segundo império. cit. Ganham mais significados que em seu texto de origem e uma importância central na teoria de Caio Prado. no caso herdadas muito provavelmente de O.) Eliminae-o. e na realidade produto e vítima dela. adquirem importância fundamental no trabalho de Caio Prado em função do próprio recorte histórico que o autor opta por fazer: No torvelinho das paixões e reivindicações então desencadeadas. Estas associações repetem-se em Formação do Brasil Contemporâneo. 9192. p. onde o autor por duas vezes faz uso do termo massa para referir-se à população.cit. pelo rompimento do equilíbrio social e político que provoca a transição de colônia para Império livre aquela massa deslocada..a expressão não é exagerada -. (. se lançará na luta com toda a violência de instintos longamente refreados. indispensáveis á defesa do domínio. que vemos em passagens com a que citaremos a seguir. p. da metáfora vegetal das raízes. Vianna têm como objetivo caracterizar a maneira como nos é apresentada neste livro a idéia de massa de desclassificados. temos quase que uma síntese de influências metafóricas. 289) Neste notável trecho. e com muitas tintas da barbarie ainda tão próxima que lhe corria nas veias em grandes correntes. op. Para logo os engenhos e os curraes se submergiriam no tumulto da barbaria tropical. Uma síntese da 129 . todas elas ainda tão mal estudadas são fruto em grande parte daquela situação que acabamos de analisar.. são as massas de desclassificados que viverão à margem do Sentido da Colonização. fixar e dar uma base segura de vida à grande maioria da população livre da colônia. que apesar da força do empuxo. indefinida. As massas desenraizadas.. op.) Vimos as condições gerais em que se constitue aquela massa popular . Grifos meus. seja na força de empuxo –. Vianna. que vive mais ou menos à margem da ordem social: a carência de ocupações normais e estáveis capazes de absorver. (CPJ. associada à metáfora da planta e à barbárie. (. É naquele elemento desenraizado da população brasileira que se recrutará a maior parte da força para a luta das facções políticas que se formam. e desenvolvem-se de maneira notável nesse texto. resistirá aos seus golpes. mal enquadrada na ordem social.. como já discutimos no segundo capítulo da primeira parte deste trabalho.vão sahir os elementos combatentes..

importância dessas metáforas na obra de Caio Prado. na ótica de Caio Prado. que seu desenraizamento é fruto dos ciclos econômicos e da falta de opção gerada pelo sistema colonial. indo a favor e contra o sistema. também. que muitas vezes essa mesma massa teve utilidade para o fortalecimento desta ordem contra a qual ela se baterá com força de aríete. 130 . que formaram as expedições de ocupação de fronteiras repletas de índios. Vianna lembra bem. e com as quais ele forma sua idéia e vai além mesmo dos sentidos inicialmente atribuídos às imagens. É um trecho importante também do ponto de vista historiográfico. duas resultantes do mesmo Sentido. pois vemos descrita a transição da colônia para império. as primeiras guardas de cidades e fazendas etc. Há casos em que não há conceito sem a metáfora. período em que os desclassificados atuam claramente como elemento desagregador da ordem colonial. contra a ordem imperial. Vale lembrar. O caso dos desclassificados é um deles. Toda esta metaforização que vimos aqui tem uma importância que vai muito além do mero caráter “ilustrativo”. Podemos deduzir daí que a ordem imperial representa na ótica de Caio Prado um elemento de permanência do Sentido da Colonização. São imagens que O. assim como Caio. o que sobressai é a grande massa que permanece desocupada. os desclassificados. elemento desagregador de qualquer sociedade desorganizada. Vianna provavelmente fornece a Caio. enquanto a massa desenraizada é um elemento que atua contra este mesmo Sentido. Mas. e como força que se insurgirá. mais uma vez. os desenraizados. O. Este setor da sociedade teve um desdobramento duplo. sobretudo interessada em demonstrar as falhas da estrutura social que decorrem da formação colonial voltada sempre a interesses exteriores. Foram eles.

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alguns outros gêneros.” Sua obra. se fosse uma música.) 41 Paulo Prado.. algodão. Nada mais que isto.31. Grifo meu. com a qual a metrópole iria gerir a colônia. e em seguida café. cit. seria tocada em tom semelhante ao de Retrato do Brasil. coisa que já não se constata por exemplo com relação às notas muito mais melódicas e alegres (seria melhor dizer: menos tristes) com que Gilberto Freyre iria descrever a formação de nossa raça. Caio herda sobretudo a idéia de que “Numa terra radiosa vive um povo triste. uma forma de encarar o desenrolar da história do Brasil e o nascimento desta nação tropical. S P: Companhia das Letras. de certo modo. tabaco. se observarmos de uma perspectiva ampla. para o comércio europeu. 8 a ed.. de uma forma tão triste quanto o começo de Retrato do Brasil: Se vamos à essência da nossa formação veremos que na realidade nos constituímos para fornecer açúcar. 1997 132 . “Sentido da Colonização”. mais tarde ouro e diamantes. De Paulo Prado. . FBC.op. herda de Paulo Prado. p. E seu sentido da colonização é também o sentido dado por Paulo Prado à cobiça desenfreada.CA P ÍT U LO 5 ENTRE A COBIÇA E O IMPULSO ECONÔMICO: REFERÊNCIAS A PAULO PRADO Como ponto de partida para nosso cotejo entre Formação do Brasil Contemporâneo e o polêmico ensaio Retrato do Brasil41 podemos dizer que Caio Prado Jr. Caio Prado termina seu capítulo. Retrato do Brasil: Ensaio sobre a tristeza brasileira. depois. (Caio Prado Jr. é uma seqüência de narrativas e teorias que dizem respeito ao mau uso da tão portentosa terra Brasilis.

como “obsessão”. A psicanálise serve. para entender nestas obras formações históricas. porém invadira o Brasil inteiro. o surgimento de forças que as direcionam. (Paulo Prado. A cobiça como que determina. Tais forças dominantes. como vimos. porém verbalizada por Caio na terminologia não cristã do marxismo. gostaríamos de ressaltar inicialmente a expressão “formação da nacionalidade” diretamente vinculada a obsessão da mina. é no capítulo intitulado “A Cobiça” que Paulo Prado mais desenvolve este elo entre a sede do ouro e a nacionalidade: A fascinação da mina. Se CPJ já diz isso nas primeiras páginas de sua obra.Nada além da cobiça. p. superiores mesmo aos homens que as viviam. Vianna. é o que teria guiado todas as ações portuguesas nesta terra. pelo português. como algo do qual deve-se apenas tirar o máximo proveito possível. Há sobretudo um elo entre as obras de Paulo Prado e Caio Prado Jr. Esta ciência vinha sendo cada vez mais aproveitada entre análises históricas e de cunho mais sociológico. E Paulo Prado nos fala num tom quase apocalíptico das forças que governam a história do Brasil. Esse característico na formação da nacionalidade é quase único na história dos povos . A cobiça traduz-se no vocabulário deste autor em “espírito mercantil”. propõe-se entender a formação psicológica do “Typo Rural” do sudeste. como doenças sem cura. aquela que lhe distingue de outras histórias nacionais. A sexualidade desenfreada e sem nenhum parâmetro moral que aqui se instala é. com relação à história do Brasil. para Caio Prado. sua principal característica. em boa medida. espalhada por todas as classes como uma loucura coletiva. o pau Brasil fora o primeiro deles. Mas é sobretudo na cobiça que os dois autores encontram a pedra fundamental da sociedade brasileira. como o texto de Populações Meridionaes do Brasil. A obsessão foi contínua. estão presentes tanto em RB quanto em FBC . A própria idéia de povoar a colônia surge apenas com o objetivo de defender e manter as feitorias iniciais funcionando. no que diz respeito a uma interpretação destes impulsos desenfreados que dominariam a 133 . Vemos também o uso de termos que na época do lançamento desta obra (1928) pertenciam ainda mais marcadamente à psicanálise. cit. também conseqüência desta forma de encarar a colônia. texto no qual O.115) Nesta importante passagem de Retrato do Brasil . em passagens como a citada acima. op. organizando a produção dos gêneros exportáveis.

não formularia a questão na terminologia dos pecados capitais do cristianismo. p.. com sua formação marxista. Isto não vai aqui como afirmação de princípio. por exemplo. também na obra caiopradiana esta sexualidade é refém dos elementos determinantes do sistema colonial. (Paulo Prado. Foi o colonizador. tais forças como estando na base da organização da sociedade brasileira.op. vale notar. Mas vê. uma análise nos mesmos parâmetros que seu tio: Toda sociedade organizada se funda precipuamente na regulamentação.. Caio Prado certamente leu a obra do tio. corresponde a animalidade da mestiçagem governada pelo português.) Dominavam-no dois sentimentos tirânicos: sensualismo e paixão do ouro. 139. individualista e anárquico. op. ambos os autores concordam que. com base na análise de dados históricos.. Grifo meu. De qualquer modo. (. em toda a obra colonial que se organiza enquanto “máquina mercante”. ele sintetiza o assunto: Como da Europa do renascimento nos viera o colono primitivo.. não importa a complexidade posterior que dela resultará.) Já Caio. de dois instintos primários do homem: o econômico e o sexual. cit. E. A história do Brasil é o desenvolvimento desordenado dessas obsessões subjugando o espírito e o corpo de suas vítimas . (CPJ. Paulo Prado dedica dois capítulos de sua obra justamente ao desdobramento de tais forças. No texto de Caio Prado. Nesta passagem. o “impulso econômico” traduz-se nos desdobramentos internos do Sentido da Colonização. mas servirá unicamente de fio condutor da análise que vamos empreender das relações fundamentais que se estabelecem no seio da sociedade colonial. dos comportamentos humanos.346.) A luxúria e a cobiça. Foi o nosso antepassado europeu. ávido de gozo e vida livre – veio-nos em seguida o português da governança e da fradaria. Instinto econômico e sexual.colonização do Brasil. Grifo meu. E acaba empreendendo. Ao impulso sexual. Duas traduções possíveis de uma mesma vontade de compreensão da sociedade brasileira como desdobramento de duas pulsões. E neste capítulo final de sua obra vemos sua influência na forma de interpretação do mundo. de Raízes do Brasil. cit. p. ou Terra se História ). se tais sentimentos foram a base da 134 . n i cabível em nosso assunto. no capítulo final e conclusivo de sua obra.. dado que esta inclusive consta da bibliografia de Formação do Brasil Contemporâneo (ao c ontrário.

( CPJ. vemos reaparecer essa suposta característica animalesca da miscigenação: A outra função do escravo.. op. sur un instinct trés simples. está subordinada. cit.) A visão dos dois autores acerca da miscigenação. Grifo meu. por exemplo. teriam sido incapazes de nos legar sentimentos superiores. Grifo meu. a esta vida meramente instintiva. . colonizadores bárbaros. Ficaram no nível mais cru de suas possibilidades. ou pelo menos do início deste processo.op. esses trogloditas. paixões que não conhecem exceções no limitado viver instintivo do homem. É este milagre que o amor da senzala não realizou e não podia realizar no Brasil Colônia. 140-1).op cit. o índio sensual. ou antes da mulher escrava. na ausência de sentimentos de ordem superior. ou negras: O clima. mas aqui se desenvolveram de uma origem patogênica provocada sem dúvida pela ausência de sentimentos afetivos de ordem superior. p. il construct les édifices de sentiments les plus complexes et les plus delicats” (André Maurois). Nesta singela nota de rodapé referente à passagem da página 343 acima mencionada. le desir. como nos lembra Paulo Prado : A melancolia dos abusos venéreos e a melancolia dos que vivem na idéia fixa do enriquecimento – no absorto sem finalidade dessas paixões insaciáveis – são vincos fundos na nossa psique racial. c’est que. onde o homem decai ao seu estado mais bruto. Tanto Paulo quanto Caio descrevem a união interracial como acima de tudo uma prática animalesca entre brancos dominantes e mulheres índias. instrumento de satisfação das 135 .. (Paulo Prado. Caio lamenta a não existência do amor: “Le miracle de l’amour humain. encorajavam e multiplicavam as uniões por pura animalidade .sociedade colonial – aí mais uma especificidade da formação brasileira – . cit. p. guardando da civilização apenas seu lado mais vil.342. . 72. Os portugueses. o homem livre na solidão. O fato é que no Brasil tudo teria permanecido no nível mais tosco possível.) No texto de FBC. desdobramentos de tais instintos básicos como o amor. nesta sociedade eles não se desenvolveram como nas demais sociedades ditas civilizadas. (Paulo Prado. portanto.

bem novinhas e gentis. logo se transforma num desregramento total dos sentidos por parte dos portugueses. uma natureza hostil e amesquinhadora do homem. Em meio dos grupos pitorescos que apareciam nas praias. cit... de as nós muito bem olharmos não tínhamos nenhuma vergonha”.) No caso das índias. um convite ao desregramento absoluto dos portugueses. por exemplo. São os trópicos brutos e indevassos que se apresentam. particularmente no caso da índia.op. A chegada no continente verde. e tão limpas das cabeleiras que. p. (CPJ. “andavam entre eles três ou quatro moças. o espírito com que ela nasce e se desenvolve. Grifo meu. exuberante..343. e também a razão de seu provável fracasso civilizatório.. subentendido nas duas obras. 72) As índias são.necessidades sexuais de seus senhores e dominadores.op. e suas vergonhas tão altas e tão cerradinhas. p. Logo na chegada dos portugueses. ( CPJ.. com cabelos muito pretos e compridos pelas costas. é notória a facilidade com que se entregava. (Paulo Prado. E.343) Talvez a “notoriedade” de tal comportamento das índias se deva. descrito pelos dois autores. não se aproximando senão muito remotamente da esfera propriamente humana do amor. e a indiferença e passividade com que se submetia ao ato sexual. cit. op. incorpora a seu discurso 136 . citado por Paulo Prado na seguinte passagem: A própria carta de Caminha diz bem a surpresa que causou aos navegadores o aspecto inesperado das graciosas figuras que animavam a paisagem..42 Eis a genealogia da mestiçagem. A impetuosidade característica do português e a ausência total de freios morais completam o quadro: as uniões mistas se tornaram a regra. historiador crítico que fora. Não ultrapassará o nível primário também puramente animal do contato sexual. nestas descrições. deste contato inicial inter-raças. p. irá determinar-se toda a tragédia da miscigenação posterior. a opinião de Caio Prado também flui no mesmo sentido da de Paulo Prado. . a relatos como o presente na carta de Pero Vaz de Caminha. cit. diz Caio Prado. baseando-se apenas nos relatos dos portugueses para fazer deduções da seguinte ordem: Aliás. não tem um efeito menos elementar. acostumados a v iver em uma natureza amena e sob a égide da cristandade. É interessante notar como Caio Prado.

comanda apenas o arbítrio do bel-prazer. Sobre este autor. a ausência de padrões civilizados de contenção – aos poucos vai-se fixando na terra aberta uma nova população que aumenta por meio da mestiçagem em todos os cruzamentos. p. Livro Involuntário: Literatura. aliás. (. articulando-se este arcabouço de expressões correntes relativas. o ardor do clima. da forma como ocorreu. Para ele. CPJ aproxima-se muito mais do autor de Retratos do Brasil. deformando-a de vez . esmagadora. matéria e memória. Um exemplo clássico: o 42 43 CPJ. por exemplo. O macho é senhor absoluto.) A luxúria prepotente.. UFRJ. RJ:. Desregramento em que as facilidades monstruosas da senzala. os instintos desregram-se de vez . Em aspectos como este de sua obra e pelo caráter negativo que o autor atribui a esta mestiçagem. história. teria quase o mesmo caráter predatório que teve o Sentido da Colonização para o Brasil enquanto nação que se forma. vemos que algumas destas também aparecerão na obra de Sérgio Buarque de Holanda. 1993. de alto valor mercável – o escravo negro –.. o sensualismo dos temperamentos. a violência das relações entre adventícios e indígenas. 109 de FBC) referentes a observações como a que diz respeito à “notoriedade com que as índias entregavam-se ao português”..certas descrições da época (provavelmente o texto de Caminha. a liberação indisciplinada e caótica dos instintos. (. tentarei explicitar ainda mais esta visão cética do primeiro com relação à importância da mestiçagem para a sociedade e a cultura brasileiras. Ao branco todo poderoso.. Por este aspecto. 21 Alexandre Eulálio..43 Na parte em que faremos leituras cruzadas da obra de Caio Prado com a de Gilberto Freyre. assume a forma de um quase desespero coletivo. E talvez. cria-se uma relação intertextual com a obra de Paulo Prado. à caracterização do colonizador. a mestiçagem. Ed. por exemplo da caracterização que Freyre atribuiria posteriormente ao tema): A solidão. revisitado entre outros por Paulo Prado) de forma acrítica. op. cit. 77 137 . serralho ao alcance de todos.) Com a crescente complexidade social e a introdução maciça de um novo elemento decisivo. Alexandre Eulálio (1978) desenvolve bem seu conceito singular sobre a mestiçagem como estigma negativo influenciando a formação brasileira (muito diferente. Há muitas idéias e adjetivos comuns na obra destes autores. p. acabaria por penetrar a psicologia do brasileiro. que a terra ocupa e domina sem outro fim do que usufruir em regime de campo arrasado. “num fenômeno androcêntrico de origem portuguesa e indígena” – diz o autor – que perdurou dominadoramente na evolução étnico-social do país. chegando assim a conclusões como aquela que citamos acima (referente à p.

cit. fazer deste um “retrato”. cit. resultantes estes mais da dedução especulativa do que da seqüência concatenada dos fatos. Procurar deste modo. Grifo meu. tem caráter aventuroso em que – é a regre geral em casos desta natureza – o homem emigra só. este instinto do ouro.) A emigração para cá. a amoralidade dos costumes. teve em mente. Tal semelhança diz respeito ao plano mais conceitual. Longe de ser um plano civilizatório. a ausência do pudor civilizado – e toda a contínua tumescência da natureza virgem – eram um convite à vida solta e infrene em que tudo era permitido. Dando continuidade a este cotejo. o próprio autor explica: Este retrato foi feito como um quadro impressionista. chegar à essência das coisas. (. como vimos em trecho anterior de FBC.. este tom aventuroso à colonização. aliada a uma suposta característica natural do português. Como na expressão muito difundida “apelo sexual”. (CPJ. num esforço nunca antes atingido. a uma forma mesmo de se trabalhar com a história. Grifo Meu. cit. sendo assim também guiada pelo “instinto”. .. op. a representação mental dos acontecimentos. Note-se que. Para homens que vinham da Europa policiada. as emoções. na passagem de Caio Prado..) Desapareceram quase por completo as datas.português. descrito como “aventureiro”: À sedução da terra aliava-se no aventureiro a afoiteza da adolescência. p. p. Paulo Prado. gostaria de discutir uma última e importantíssima semelhança entre estas duas célebres obras. em que à paixão das idéias gerais não falte a solidez dos casos particulares. nosso autor inaugura o apelo econômico. o que se configura aqui enquanto chamado populacional ao colonizador é. 186) 138 . o ardor dos temperamentos. E acerca desta imagem.op. op. reproduzir uma imagem do que ele via como sendo o Brasil. Restam somente os aspectos..) A incivilidade da terra em seus primeiros anos dá. (Paulo Prado. a emigração para a colônia responde ao apelo das minas. guiando aventureiros em busca das m inas como animais selvagens em busca da caça. como nos indica o próprio nome de seu livro. ao escrevê-lo.108. na visão de ambos os autores. p. decorrente da economia como instinto primário que regula a vida. sobretudo na fase mais ativa dela em que responde ao apelo das minas. 73. (Paulo Prado.

Na passagem acima, vemos talvez uma herança implícita mas preciosa no campo quase filosófico da história (se é que há esta filosofia da história). Ora, tanto a idéia da busca da essência das coisas, como a idéia de que o historiador pode encontrá-la se observar a história de uma determinada maneira, ou de um determinado ângulo, são conceitos chaves que guiam Caio Prado, e que se fazem presentes em diversas passagens da obra que aqui analisamos. O autor explicita na sua introdução o lugar, na história do Brasil, em que esta essência torna-se mais perceptível: o início do século XIX, período que antecede a instauração do Império. Desta visão privilegiada que só ele tem deste momento da história do Brasil, ele nos mostra algo novo, algo que dá sentido a todo o movimento de nossa civilização. Exemplo disto é a passagem relativa à página 19 de FBC , já citada neste trabalho, que repetimos abaixo:

Todo povo tem na sua evolução, vista à distância, um certo “sentido”. Este se percebe não nos pormenores de sua história, mas no conjunto de fatos e acontecimentos essenciais que a constituem num largo período de tempo. Quem observa aquele conjunto desbastando-o do cipoal de incidentes secundários que o acompanham sempre e o fazem muitas vezes confuso e incompreensível , não deixará de perceber que ele se forma de uma linha mestra e ininterrupta de acontecimentos que se sucedem em ordem rigorosa e dirigida sempre numa determinada orientação. (CPJ.,op. cit. , p.19. Grifo meu.)

O sentido, a essência. O algo mais a ser percebido pelos olhos treinados, bem dotados, dos que estudam o período certo, que vêem pelo ângulo exato em que tal sentido torna-se perceptível. Eis o porquê da história para os dois historiadores. Nunca uma ciência descritivista, que se contenta num suposto fato em si. Eis uma concepção que estes historiadores se permitiram ter, e em torno da qual desenvolvem suas obras, ainda que o retrato de Paulo Prado seja um tanto impressionista demais, e que o sentido de Caio se perca em meio a sua legião de desclassificados do ouro que, gradativamente, vão surgindo em suas páginas. Ambos se pressupõem como humanos capazes de usar a sua percepção (mesmo Caio, cientificista, marxista, começa seu capítulo fundamental falando de algo que se percebe!) para a análise de fontes, documentos, relatos de época. E, mais do que isso, estes historiadores julgaram-se capazes de transformar esta sua percepção em palavras, em imagens, para que nós, leitores dotados de sentidos, pudéssemos também perceber algo que se esconde na história do Brasil. O final da passagem acima diz respeito justamente a isso.
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A idéia de quadro é corrente na obra caiopradiana. Um quadro pintado com muitas imagens que aconteciam simultaneamente, entrelaçadas não só pelo mesmo ambiente geográfico e temporal mas também por estas forças comuns que movem as coisas feitas pelos homens. Mesmo os capítulos menos teóricos e mais descritivos de Formação do Brasil Contemporâneo trazem referências a este concatenamento de figuras em que estão dispostos. É no capítulo “ Povoamento” que vemos o autor falar com grande precisão de sua obra:

O que temos visto até agora é antes um corte transversal na história do povoamento do território brasileiro, a sua distribuição num momento dado que é o da transição do séc. XVIII para o seguinte. (...) O povoamento estava ainda longe de sua estabilização, e o quadro que a sua estrutura apresenta em qualquer momento é mais que provisório, reflete antes tendências que resultados adquiridos. (CPJ.,op. cit., p.71. Grifo meu.)

Deste quadro emerge a individualidade da parcela da humanidade a que se denomina Brasil. O objetivo do seu pintor/escritor é, portanto, similar ao retrato de Paulo Prado; mais uma vez – e esta é uma semelhança que na verdade encontraremos entre tantos autores desta geração – é a questão da identidade, um traço comum entre estes dois autores:

Tal indagação é tanto mais importante e essencial que é por ela que se define, tanto no tempo quanto no espaço, a individualidade da parcela da humanidade que interessa ao pesquisador: povo, país, nação, sociedade, seja qual for a designação apropriada no caso. É somente aí que ele encontrará aquela unidade que lhe permite destacar uma parcela humana para estudá-la a parte. ( CPJ.,op. cit., p.19. Grifo meu.)

E podemos concluir assim que, além desta vontade comum de perceber a essência da nacionalidade, o modo de busca é semelhante entre Paulo e Caio Prado. Do retrato ao quadro, a mesma idéia de que destas “imagens” completas, cheias de elementos distintos, percebe-se a expressão comum da qual tudo decorre. Mas é preciso ressaltar que há uma diferença significativa entre FBC e Retrato do Brasil. No primeiro texto o autor faz questão de centrar sua análise, ou melhor, montar seu quadro, observando um ponto específico da história do Brasil, o início do séc. XIX, e com base em uma série de dados referentes a este período específico – relatos de viajantes, documentos de

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capitanias, e mesmo textos historiográficos. No segundo texto, o que vemos é um retrato que não se centra em um período, um retrato cujo objeto não cabe bem no foco. A questão é que o texto de Paulo Prado praticamente não é um texto histórico, ainda que fale sobre a história do Brasil. É sobretudo um texto ensaístico, e isto o próprio autor afirma ao dizer que fez justamente um retrato impressionista, baseado em suas próprias impressões. Caio Prado preocupa-se profundamente em dar embasamento a suas afirmações com dados geográficos, estatísticos, e cifras que tira provavelmente de documentos de câmara municipais. Um exemplo disto é o seguinte trecho, mais uma vez do capítulo Povoamento, a partir do qual nosso autor tirará outra conclusão que o aproxima de Paulo Prado:

Cerca de 60% da população colonial, ou sejam [sic] quase 2.000.000 de habitantes, concentram -se numa faixa litorânea que não ultrapassa para o interior, nos seus pontos de maior largura, algumas dezenas de quilômetros. (...) De ocupação efetiva para o interior, à parte o caso excepcional de São Paulo, plantado de início no planalto e arredado da costa, encontramos apenas a marcha progressiva das fazendas de gado no sertão nordestino e a lenta e escassa penetração da bacia amazônica. ( CPJ.,op. cit., p.39)

Pensando na ocupação populacional neste momento específico, com base na leitura de fontes coloniais, CPJ chega a um outro ponto de proximidade com a obra de Paulo Prado. A notável diferença entre São Paulo e o restante do país:

Geograficamente, trata-se de uma região de transição entre as altas serranias do centro (Minas Gerais), e os campos do Sul que acabamos de ver. Forma além disso um patamar entre aqueles altos territórios e o litoral; deste último até aquele Centro elevado, ascende-se por imensos degraus sucessivos: A serra do Mar e a Mantiqueira. Espremido entre as duas, está São Paulo. Foi por isso o caminho de penetração para ele escolhido. Ainda há mais: na altura do território paulista, os grandes rios invertem o seu curso e ao invés de afluírem para a vertente marítima, procuram o interior e a depressão central do continente Sul-americano formado pela bacia do sistema ParanáParaguai. Todas estas circunstâncias fazem de São Paulo o centro natural de vasta área, ponto de contato e articulação de regiões várias. (CPJ.,op. cit., p.66. Grifo meu)

São Paulo aparece curiosamente descrito como terra prometida devido a sua localização geográfica, na obra dos dois autores. Ao contrário, porém, do que vemos em Retrato do Brasil, onde,
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com relação a esta região, traça-se uma descrição épica, o texto de FBC atém-se aos elementos geográficos como justificativa desta peculiaridade paulista. O entusiasmo de Caio Prado Jr. com a terra natal de seus antepassados fica bastante contido, ainda que se possa sutilmente percebê-lo. Afinal, em FBC é esta capitania, depois província, a grande exceção ao ostracismo colonial. É em São Paulo que brotam as bandeiras, mas de seus líderes quase nada se fala na obra de Caio Prado. Ao contrário, em Retrato do Brasil, as bandeiras guiadas por figuras como João Ramalho ganham, justamente por seus líderes, este caráter épico44:

O terceiro tronco de grande linhagem mestiça, foi João Ramalho, patriarca dos campos de serra acima na capitania de São Vicente (...) Foi o antecedente por excelência dos mamalucos paulistas que viriam a exercer tão grande influência na história do Brasil; foi o antepassado típico, como o descreve o primeiro governador, do antigo Piratiningano, fisicamente forte, saudável, longevo, desabusado e independente, resumindo as qualidades com que dotou gerações e gerações de descendentes. (Paulo Prado, op. cit ., p. 70)

Os bandeirantes, as bandeiras, apesar das diferenças descritivas que vemos entre os dois textos, têm em comum o tom aventuroso, a coragem de adentrar rios desconhecidos; são assim um desdobramento da característica inicial do colonizador português que apresentamos anteriormente em descrições dos dois autores. Mesmo que Caio Prado não se preocupe em descrever seus antepassados, resta sempre em seu texto uma certa simpatia descritiva pelo planalto de Piratininga.

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A epopéia dos bandeirantes também nasce com cores vivas na obra de Euclides da Cunha: O paulista (...)

erigiu-se como um tipo autônomo, aventuroso, rebelde, libérrimo, com a feição perfeita de um dominador perfeito da terra, emancipando-se, insurreto, da tutela longínqua e afastando-se do mar e dos galeões da metrópole, investindo com Os Sertões desconhecidos, delineando a epopéia inédita das bandeiras. (Euclides da Cunha, op. cit. , p. 73)

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Parte 3

C aio Prado por ele m es mo: estilo e m etáforas próprias

Nesta parte conclusiva do nosso trabalho, pretendemos fazer algumas considerações sobre o estilo no texto de Caio Prado Jr. Nos capítulos anteriores, objetivamos traçar a formação deForma ção do Brasil Contemporâneo, inicialmente através de um mapeamento de textos que possivelmente ajudaram nosso autor a elaborar seu conceito central, em torno do qual erigiu-se sua obra – a formação. Em seguida, buscando referências intertextuais em torno das quais formaram-se os capítulos, as metáforas, os conceitos, as imagens que povoam esta obra. Para a caracterização do estilo de Caio Prado Jr. enquanto escritor, encontramos também elementos a partir do cotejo com Euclides da Cunha e mesmo com Joaquim Nabuco, autor para quem a formação adquire uma conotação estilística. Dessa maneira, nossa pesquisa constituiu-se, até aqui, em uma espécie de genealogia do texto de Caio Prado Jr., uma história de idéias e conceitos centrais em seu livro, que depois vieram a tornarse idéias e conceitos centrais na historiografia brasileira. Conceitos como o Sentido da Colonização, a desclassificação social, o sistema colonial e finalmente a formação, têm uma história que antecede o uso no texto caiopradiano, e que certamente permanece ainda cheia de lacunas. O sentido da colonização, por exemplo, nasce inspirado pelo Roteiro do Maranhão. Os desclassificados surgem primeiro no texto de Oliveira Vianna. E mesmo Gilberto Freyre, autor com quem Caio Prado dialoga diretamente numa resposta a Casa Grande e Senzala , tem sua colaboração na formação do conceito de sistema

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na primeira parte desta pesquisa. enquanto conceito central na compreensão do Brasil (depois de Caio Prado vieram as formações de Antonio Candido. no entanto. Há alguns elementos interessantes e particulares que merecem ser apontados. mas não com este caráter central. que se forma deste mar de referências por onde o escritor navegou. Vemos também esta reapropriação que modifica a idéia original com relação aos desclassificados. O termo aparece também em obras nacionais que o antecedem. que nasce inspirado por um texto colonial no qual o autor está preocupado em otimizar. ao serem reelaborados dentro do texto de FBC. Como vimos anteriormente.colonial. Em FBC a desclassificação adquire uma conotação vinculada aos ciclos econômicos. o uso da formação nesta obra pode ser considerado um exemplo dos mais bem acabados na historiografia. como vimos claramente com relação ao sentido. modificam-se com relação a sua inspiração inicial. regime que não deixa brechas para aqueles que não são senhores ou escravos. é um uso pioneiro. Vianna surgem principalmente com uma conotação racial: o aparecimento do desclassificado é para Vianna estreitamente relacionado à figura do mulato. A formação. ao próprio desenvolvimento da colônia em torno do Sentido da Colonização. É claro que todos estes conceitos. e ainda no seu aparato retórico que. Ao mesmo tempo. Oliveira Lima. que na obra de O. e revertê-lo seria uma tarefa histórica crucial para seu desenvolvimento em outras bases. Caio formula seu Sentido da Colonização a partir desta provável inspiração original. e Celso Furtado. 182 . e isto pretendemos fazer agora.. Há uma reapropriação das idéias por parte de nosso autor. da formação de conceitos importantes. porém pensando-o como algo extremamente maléfico para a nação que surge desta colônia. a formação de Nabuco tinha um referencial mais pessoal. Tais elementos encontram-se principalmente em metáforas que Caio Prado desenvolve. e mesmo do estilo dentro do texto do autor. racionalizar a empreitada colonial a favor do benefício metropolitano. pretendemos agora passar à análise do estilo próprio do texto de Caio Prado Jr. é o conceito que tomamos como cerne de nossa análise. vale-se entre outras coisas da ironia como forma de explicitar o absurdo de certas páginas tão valorizadas da história do Brasil.) Feito este mapeamento da intertextualidade em FBC. como veremos.

desvelar o funcionamento de algumas metáforas que consideramos originais no texto de Caio Prado. que na década de 20 surgira com uma série elementos – aspirações. partiremos então de sua grande matriz metafórica. na visão de Candido. é um deles. com a qual relaciona-se a maioria das metáforas na obra de Caio Prado. surgem as várias obras com títulos iniciados pelo termo formação. discute em seu artigo “Providências de um Crítico Literário na Periferia do Capitalismo” a enorme importância que teve este conceito para a geração de escritores da década de 30.CA P ÍT U LO 1 O ESTILO EM CAIO PRADO JR. Há uma dimensão deste mesmo conceito. que permanece em aberto. que ainda não foi desdobrada por este viés. A década de 30 representaria uma rotinização do gosto modernista. 183 . que explica a metáfora da formação com outra metáfora interessante – “linhas evolutivas mais ou menos contínuas” –. Como nosso intuito aqui é o de compreender. Caio Prado Jr.: ESTÉTICA DA FORMAÇÃO E DOBRAS DO SENTIDO Já discutimos anteriormente as “raízes” da idéia de formação. justamente deste momento que este autor considerada um momento formativo na cultura brasileira. um momento formativo.. que portanto escrevem ainda no torvelinho do movimento modernista. representaria. na busca de uma melhor compreensão de seus possíveis significados dentro deFormação do Brasil Contemporâneo. dimensão esta também central na obra. A formação é também uma metáfora. pressentimentos – em torno dos quais passou a girar a cultura brasileira. por converter num “estado de espírito coletivo” aquilo que até então se configurava como uma série de fenômenos avulsos ou manifestações aparentemente arbitrárias. no entanto. reconfiguradora da cultura brasileira. Não por acaso Caio escolhe a formação como mote central de sua obra. Paulo Eduardo Arantes. E. apesar de publicar FBC em 1942. inovações. Esta catálise.

mal delimitadas. o termo que melhor traduz uma idéia – e o significante como o conceito em si. parágrafos. então. em torno da qual ordenam-se capítulos. O uso da formação remete a um momento formativo. está “enraizada” no momento que vive a cultura brasileira pós-22. uma metáfora que veio para traduzir um estado presente de coisas na década de 30. desdobrando seu sugestivo título na descrição de um país fragmentado. Talvez existam dois tipos de metáforas. desenraizado. Existem metáforas que são significados: são formas. pois da mesma forma como isso ocorre com o conceito de formação. ou melhor. Trata-se de uma idéia que nasce de uma imagem. que emerge então como elemento da cultura orgânica nacional. Feita esta síntese. etc? No texto de Caio Prado. É a grande metáfora de um país onde notadamente não se achara até então estas linhas evolutivas contínuas. que desencadeia seu amplo uso. Não é uma imagem que expressa uma idéia prévia. podemos então pensar nas duas relações possíveis entre metáfora e idéia. voltado pra fora de si. é de que a metáfora da formação surge do próprio momento formativo que vivia uma geração de autores. Antes de mais nada. fragmentando continuamente a vida colonial. E Caio Prado escolhe pioneiramente esta metáfora com título de uma obra de análise da sociedade brasileira. A idéia de formação. ou dificilmente compreensíveis apenas na literalidade de seu 184 .A idéia. devemos pensar que metáforas. Emerge neste momento a idéia de formação como tradução da vida. a formação não atua de acordo com a conceituação clássica de metáfora – “o tropo da semelhança”. da perspectiva formadora. Este conceito não tem um conceito significante a que possa recorrer. fundamentalmente. ainda amorfas. ocorre também em outros no caso de outros conceitos. ao início de uma tradição escrita que finalmente terá continuidade. como tão bem sintetizara Joaquim Nabuco. vamos agora a uma pergunta que temos feito. um momento de aspirações comuns. mas sim colher respostas possíveis: Qual é o papel da metáfora numa narrativa histórica como FBC ? A que serve esta grande figura (a formação) de bordas abertas. têm uma história. É. de normalização das temáticas nacionais sugeridas pelo movimento modernista. imagens que melhor traduzem significantes. principalmente aquelas que se deslocam de um texto a outro como imagens peregrinas. Tentaremos explicar melhor. como os ciclos econômicos de Caio Prado. Se pensarmos o significado de um enunciado como a forma que este adquire – a figura que melhor lhe cabe. e para a qual não pensamos em obter uma resposta definitiva. onde tudo era sempre fragmentado. de uma possibilidade imagética: a busca morfológica dos contornos. que seriam idéias prévias.

existiriam aquelas metáforas que são ao mesmo tempo significante e significado. metáforas que foram usadas e que perderam as sua força sensível. 69. F. SP: Editora Moraes. Assim é a formação. Em um certo sentido. 1987. E Caio Prado. com um valor em si. A formação é a nação no discurso de Caio Prado. atuam como moedas que perdem seu valor metafórico – pois o dinheiro é uma das maiores metáforas com as quais lida-se diariamente – e passam a valer pelo metal. participa do estado em toda a materialidade que o configura. uma verdade comum: a formação significa formação. moedas nas quais se apagou a impressão e que desde agora não são mais consideradas como moedas de valor. 1 Há vários exemplos nos textos históricos que poderíamos apontar como metáforas desse tipo. A elas cabe muito bem a definição de “tropos da semelhança”. de metonímias. pressupõe que o leitor tenha dele justamente este entendimento prévio. ou melhor. Por isso mesmo. A esta categoria de metáforas que são simultaneamente significado e significante. de forma corriqueira. parecem a um povo firmes. Um conceito cuja origem metafórica está esquecida. o inconsciente humano. e que. como conceito de domínio comum. A metáfora é. A este respeito. Há uma simultaneidade aí entre idéia e imagem. regulares e constrangedoras: As verdades são ilusões cuja origem está es quecida. Em segundo lugar. que continuam sendo metáforas. mas como metal. talvez habitasse tal conceito o território sem palavra. pertence a formação. uma soma de relações humanas que foram poética e retoricamente elevadas. algo que não precisa de tanta explicação. neste caso. Antes da imagem que o significa. ornamentadas. após um longo uso. surgiram como metáforas. Muitas coisas hoje tomadas como literais. em síntese. A partir do momento em que foi pensado. O Livro do Filósofo. p. uma relação em que o significante não precede o significado. mas que pelo modo como são inseridas em meio aos textos.sentido. não há nenhuma 1 Friedrich Nietzsche. ao valer-se da formação como conceito inexplicado em sua obra. a idéia em si. 185 . e que nos é apresentado como algo palpável. filósofo que discute também a idéia de genealogia a que tanto nos referimos neste nosso trabalho. Nietzsche. faz considerações interessantes em seu Livro do Filósofo : O que é então a verdade? uma multiplicidade incessante de metáforas. este conceito já se efetivou em imagem. a língua se forma a partir de metáforas. d e antropomorfismos. um conceito que já nasce sob forma de metáfora. pois era já moeda corrente. transpostas.

possui sua linguagem própria ) no qual necessitou-se atribuir v alor para conceituar idéias ainda disformes. metáfora significante e significado. Basicamente. Para Jaques Derrida.d. 186 . Esta talvez seja a guinada na obra de Caio. como a moeda de Nietzsche. E assim talvez tenha emergido a formação enquanto imagem. já se torna a formação uma metáfora inserida na língua. surge a metáfora num momento na história dos discursos ou linguagens (a história. no Brasil. pelos leitores ou ouvintes. Rés. pois ao usar formação como título explicativo do Brasil. nasce e modela-se de maneira privilegiada este processo de metaforização da vida. Porto: Ed. in: Margens da Filosofia. “A mitologia branca”. XX). Ou seja. entre o final do séc. em seu artigo “A Mitologia Branca”2 a metáfora – assim como o nascimento de novas metáforas – tem justamente uma relação com aquelas ciências que necessitam atribuir valores a coisas. em um momento temporal em que um sentimento histórico necessitou. de uma tradução imagética (momento este que podemos situar no famoso ponto. 3 Ou seja. para o autor a questão da metáfora funciona como um sistema de equivalência entre coisas de ordens diferentes. literalizada pelo uso. A metáfora é o empréstimo de imagem a algo que pode ainda não pertencer ao campo da palavra. na ciência econômica. 2 Jacques Derrida. XIX e a década de 30 do séc. principalmente aquelas que. por exemplo. A analogia no interior de uma linguagem encontra-se representada por um analogia entre língua e outra coisa diferente. foi necessário que uma analogia mais geral organizasse as trocas entre as duas “regiões”. s. Esta valoração é algo historicizável. mas as metáforas. Diz J. Para Derrida. Rapidamente. a metáfora encontra sua metáfora justamente no conceito de usura. mostra que a formação já adquiriu seu valor de usura na história. surgem de um cruzamento de eixos da linguagem: um eixo temporal e um eixo vertical da língua que perpassa a história. já não são mais entendidas como metáforas. efetua ele a passagem direta. Derrida: Antes que a metáfora – efeito de linguagem – encontre a sua metáfora num efeito econômico. Vamos discorrer um pouco mais sobre as possibilidades que envolvem este processo. muitas definições para o Sentido da Colonização. conforme expusemos ao longo deste trabalho.argumentação interna na obra que a defina (como há. por exemplo.

289 187 . op. de um eixo horizontal que ela perpassa.. perde sua roupagem de palavra e cabe simplesmente no entendimento. a sua distribuição num momento dado que é o da transição do séc.) O povoamento estava ainda longe de sua estabilização. cit.) Hoje fala-se correntemente em “quadro social” e quase ninguém pensa isto como uma imagem. Hoje vemos a idéia de “quadro” correntemente associada à sociedade ou à economia. hoje. A língua captura características de um período específico. A própria conceituação que aqui usamos de “eixos”. como na seguinte passagem: O que temos visto até agora é antes um corte transversal na história do povoamento do território brasileiro.. Grifos meus. na percepção de leitores de uma certa época. 274 J. estas sim. e o quadro que a sua estrutura apresenta em qualquer momento é mais que provisório. estas palavras capturadas então desmetaforizam-se.. no inconsciente do leitor.71. Seu trajeto entorta-se. Com o passar do tempo. reflete antes tendências que resultados adquiridos. pois formam seu nexo imagético num campo da compreensão que está além da palavra. Segundo Derrida.pois se analisarmos o eixo vertical da linguagem veremos que a metáfora é produto de uma rede de tropos ou figuras contemporâneas ao momento em que o termo se fez necessário. um corte horizontal na verticalidade lingüística que acompanha o sentido do tempo. Este eixo de referências onde ganham força determinadas imagens é o eixo datado. podemos notar que no texto de 1942 ela aparece com um valor muito mais nitidamente metafórico.. p. No entanto. Derrida. seu efeito metafórico pode ser estudado no campo da consciência. figuras de linguagem. as metáforas ativas ecoam. (. torna-se um exemplo de metáfora inativa.cit. p... logicamente nunca segue uma língua um sentido único. Seu eco é ouvido no momento em que a palavra dá o salto. Seria assim em 1942? O quadro. Derrid. e leva por muitos séculos adiante palavras que um dia significaram. desdobra-se. como outras idéias de sentidos que evoluem em linhas temporais. Soam como algo perfeitamente compreensível para quem as lê. op. p. por exemplo nos textos jornalísticos. é já quase uma metáfora apagada. (CPJ. Tensionada por estas forças. vemos na obra de Caio Prado como uma metáfora. op.4 Se as metáforas inativas cabem no campo da consciência. A metáfora que cabe no campo 3 4 J.cit. XVIII para o seguinte.

188 . Há ainda outro ponto sobre o qual podemos discorrer a partir daí. na sua ânsia de redescobrir o Brasil. eixo no qual muitas metáforas tiveram origem nas palavras de vários autores. cujo salto da compreensão já está pressuposto. um resquício talvez de um período de formação cultural do Brasil. do quadro e de outros termos que na época da escrita da obra eram metáforas mais evidentes do que o são hoje. pois as formas são também relacionáveis a formas escritas. o período de profunda efervescência da cultura brasileira que no texto de Paulo Arantes é classificado como momento formativo de tradições literárias. historiográficas. a ciência das formas. Segundo Alfredo Bosi. redimiu o barroco mineiro do olhar desdenhoso com que o maltratara o critério neoclássico transplantado pela Missão Artística Francesa em 1816. Um dos elementos que mais parece contribuir ativamente para o surgimento de metáforas na época – ou em um período brevemente anterior – em que escreve Caio Prado é a morfologia. sendo assim uma característica estilística das descrições do autor. é o que podemos considerar o eixo horizontal de referências imagéticas deFormação do Brasil Contemporâneo. ajuda também a transformar metáforas em palavras ao valer-se da formação. por seu texto. momento em que se iniciam nexos. e aquelas que já existiam ganharam neste período efervescente da escrita da nacio nalidade brasileira seu uso corrente. A morfologização das imagens escritas incorpora-se ao texto de Caio Prado. no “eixo horizontal” que aí cruzava a língua. e mesmo literário. Um período que acompanha o movimento modernista ou mesmo o precede. Parâmetro artístico este. já foi dado anteriormente. aquelas que afinal seriam criadas para ocupar mesmo determinadas lacunas. 5 Ora. Caio Prado.da consciência seria aquela compreendida enquanto palavra em si. profundamente cindido entre o primordial e o novo. foi também o modernismo que deu novo valor ao barroco no Brasil: O pleno reconhecimento da arte colonial brasileira só se fez possível quando a crise do gosto acadêmico burguês começou a dar seus estertores no final da belle époque . era extremamente relacionado ao parâmetro das formas. como as formas da poesia. justamente este período de revalorização do barroco no Brasil. o universo de referências por onde se pautaram as metáforas mais importantes. O modernismo. onde certamente as formas foram um tema muito em voga. que vemos na expressão do quadro. em A dialética da Colonização. É um sinal de que.

é por que fora ela talvez vastamente utilizada no período que o antecede. a autêntica expressão dos sofrimentos e esperanças dos ancestrais. inaugurada pelo séc. XVII. agora desmetaforizada. e a espiral é uma das principais representações morfológicas do barroco. 1983. o tempo sombrio. como vimos. p. cit. Talvez tenham os modernistas tornado a formação uma metáfora corrente. Victor L. Victor L. A valorização da forma corresponde ao barroco. que traduzse na prática em movimentos cíclicos (e por que não dialéticos?). se seria ele apenas um estilo de arte ou uma nova fase da civilização. Este resgate do gosto barroco não ocorre apenas entre os modernistas brasileiros. e suas metáforas tem também nexo com esta valorização do barroco. Paul Klee. 58. Relacionáveis ao barroco são tanto a formação quanto o Sentido da Col onização. o corte histórico de onde sai sistema d e referencias compreensíveis sensorialmente numa época. 189 . O eixo horizontal. p. torna-se o grande termo da geração que se inaugura comFormação do Brasil Contemporâneo. Grifo meu. estabelece relação análoga entre as experiências do barroco e as do tempo atual. faz considerações muito importantes para as relações que aqui pretendemos estabelecer: É muito revelador que na Boêmia o sutil analista Arne Nóvak tenha consagrado à Praga Barroca (1915) um ensaio em que descobria na arte de uma época habitualmente condenada pelos historiadores do seu país sob o epíteto de Temno. Se Caio Prado incorpora em seu texto a formação como metáfora de certo modo já apagada. encontramos o termo formação mais de uma vez. das tradições nacionais. 8.. SP: Cultrix/Edusp. num livro já considerado um clássico sobre o estilo.É para os leitores formados neste contexto que escreve Caio Prado. e que portanto são rapidamente compreendidas. baseia-se justamente nas questões e imagens que naquele momento estão valorizadas.6 5 6 Alfredo Bosi. A própria dialética que move a formação do ciclo que se constitui e se destrói corresponde ao movimento espiral. Tapié. no interior do texto de Paulo Prado. “Il seicento” italiano ou de outras partes da Europa – vieram à tona principalmente na Europa pós guerra. um dos autores mais relacionados ao movimento modernista. no seu diário de 1915. op. Não por acaso. O barroco. Tapié. a formação. Questões em torno do barroco – por exemplo.

com o fim da primeira guerra. Tapié. como Benedetto Croce.A condenação ao estilo que se emaranha entre artes plásticas. o barroco retorna à cena. este entrecruzar-se de linhas. (CPJ. Bari. em contraposição à simetria classicista. de desproporções artísticas. E justamente estas desproporção.: Em suma. muitas delas.. Críticos importantes. no período que ora nos ocupa. em que. poesia. à harmonia e à estabilidade. O barroco. Considerava este autor que. Grifo meu. p. Vemos as correntes povoadoras se cruzarem e entrecruzarem. sobretudo. letteratura. principalmente após a chegada da missão artística francesa em 1816. 84) Fora as muitas metáforas ativas que. op. e que acabamos de ver. é a sua extrema complexidade. . o que se deve sobretudo reter desta análise dos movimentos demográficos no centro-sul da colônia. p. que 7 8 Benedetto Croce. e pertence a Eugênio d’Ors. o movimento se opõe ao equilíbrio.. da poesia. são características marcantes nas metáforas próprias de Caio Prado Jr. op.) as transformações demográficas que aí se operam. Vianna. 1925 Victor L. e em contraste com o que se observa no resto do país (. da vida moral de toda a época. XIX.. se animam nos efeitos de contraste. em uma obra da década de 20 7. são um dos aspectos desta mudança econômica que se estava realizando. em que os volumes. no período que encerra o recorte historiográfico de Caio Prado Jr. este movimento. é valorizada posteriormente como característica barroca. arquitetura. ou se rompem. Enquanto definição de barroco.. 190 . cit. ecos de outros autores na elaboração imagética de Caio Prado – as metáforas da física herdadas de O.) é a arte em que as linhas se entrecruzam. da literatura. uma das mais interessantes para pensarmos o estilo nas metáforas caiopradianas encontramos também no livro de Tapié. literatura (e segundo outros críticos citados na obra referida acima chega mesmo a vários alicerces da vida neste período pós-renascentista) ocorrera também no Brasil ao longo do séc. Aleijadinho e o barroco mineiro são então considerados exemplos de deformidades. cit. 10. a famosa metáfora da planta.8 Ora. ( . das raízes. inflados ou vazados.. se retorcem. vita morale. eram. poderia este estilo ser estendido ao mundo do pensamento. como vimos ao longo de nossa análise relativa à intertextualidade em FBC . Assim. no dizer do autor. principalmente na Europa. o discute. História della ettá barroca in Italia: pensiero. enquanto categoria.

através da qual o autor consegue nos passar o movimento que representa a permanência. A temática das formas é corrente no pensamento barroco. herança provável de Euclides da Cunha legada ao texto caiopradiano –. a transumância 9 dos rebanhos bovinos representa o eterno movimentar-se. aquelas através das quais o autor melhor desenvolve seu estilo textual próprio. cit. idêntica ao passado. para as planícies no inverno. Um movimento contínuo. como um conceito em si. as mesmas boiadas que seu primeiro cronista [Antonil] descreve com tão vivas cores. o movimento que se opõe à harmonia..perpassa a obra de Sérgio Buarque de Holanda. É uma imagem forte. Há séculos esta cena diuturna se mantém em todo país e neste longo decurso de tempo não se alterou. é a pecuária pelo menos a mais sugestiva para nossos olhos de hoje. O desfilar ininterrupto das boiadas representa. ao equilíbrio. Porque ela ainda aí está. para referir-se à migração periódica dos rebanhos. são as metáforas morfológicas. Voltemos ao exemplo dos bois: A amplitude do comércio da carne pode ser avaliada por este desfilar ininterrupto de boiadas que perambulam pela colônia e que os viajantes do século passado assinalam a cada passo em seus diários (. realizando o que só o aeroplano conseguiu em nossos dias repetir: a proeza de ignorar o espaço. 191 . na obra. Os bois que serpenteiam pela colônia representam o mesmo movimento dos bois que dão voltas no Brasil de 1942. e por isso um movimento circular. em Populações Meridionais do Brasil.. Vianna. exatamente como visualiza Caio Prado as correntes de povoamento colonial. a começar pela formação. pp. poderiam ressurgir hoje a atravancarem as estradas para maior desespero dos automobilistas: estes não notariam diferença. Se a formação é uma metáfora que no título do texto não vem com uma carga imagética peculiar. mas vem já como significante. estas sim com forte carga imagética. no interior da obra vemos este conceito desdobrar-se em várias metáforas também morfológicas. 186-7) Como as correntes de povoamento humano. op. das altas montanhas que habitam no verão. tangidas pelas estradas e cobrindo no seu passo lerdo as distâncias imensas que separam o Brasil. (CPJ. a metáfora do rio que desbarranca a nação.. um nexo presente com o passado colonial. assim como o movimento das linhas que se entrecruzam. E 9 O termo é utilizado por O. um movimento em círculos. que é alheio ao passar dos séculos. como se as mesmas boiadas estivessem ainda perambulando após três séculos.) Mas se não a mais grandiosa e dramática. nestas boiadas que no presente como ontem palmilham o país.

persiste todavia o mesmo fundo de pensamento. (. textos que discutem novamente esta questão. assim como nas correntes de povoamento que se cruzam e entrecruzam. verificar-se á que na verdade nunca ocorriam. segundo Derrida. mas nem por isso deixam de se manter no íntimo de suas concepções e assombrar o seu pensamento. o termo significante. A essência nunca é concebida nesta obra como algo isolado. e que se fazem presentes nas imagens que o autor nos repassa. Contemporaneamente ao pensamento de Caio Prado Jr. relação articulada entre coisas10. Voltando à questão da análise das me táforas. mas captar. há muitos modos de analisá-las e agrupá-las dentro de um texto. As essências não serão por eles referidas. ou figuras que remetem a imagens barrocas. O Sentido da Colonização é o movimento das boiadas. – o eixo horizontal de referências de onde brota Formação do Brasil Contemporâneo – encontraremos talvez uma rede de tropos.. a Realidade concreta não apresentava sempre. o movimento das correntes de povoamento. toma seu significado. A formação. O autor desenvolve. localizadas não se sabe em que mundo vago das Idéias que as religiões mais modernas e já estruturadas sobre bases filosóficas colocarão no pensamento da Divindade criadora. Agrupamo-las aqui segundo o método clássico – levando em conta o que elas exprimem.o estilo barroco se faz presente em cenas como esta. Este estilo barroco presente neste processo de criação de metáforas por Caio Prado recorre a imagens que ele concebe mentalmente e que estão no centro de discussões nesta época. e havia sempre algo que intercomunicava as essências e as confundia. O que buscamos com isto é não só precisar o sentido de certas imagens. em certas passagens. Caio P rado inicia uma argumentação muito interessante (com a qual infelizmente só tivemos contato já no final desta pesquisa) a partir da definição de essência em Platão. E as correntes são as formadoras da nação. muito pelo contrário. juntamente com os bois que as alimentam. e examinadas mesmo mais de perto as feições do Universo. exatamente como linhas barrocas. sua forma.) Em frente à variedade imensa que a Natureza desdobrava a seus olhos. ou não se colocam no seio de nenhum Espírito extra e super-humano. diálogos com uma metáfora dominante.. No caso de Caio Prado. os naturalistas se verão compelidos a preocupar - 192 . essas divisões absolutas e perfeitas. justamente no Sentido da Colonização. a metáfora que ele busca conscientemente corporificar é a dos Sentidos da colonização. assim como a formação 10 Sobre a questão das essências. E mesmo quando se põe de lado toda essa traquitana fideísta. Mas a natureza. em uma obra dez anos posterior à publicação de FBC – Dialética do Conhecimento – um conceito de essência justamente como transição. e baldos de esforços nas suas indagações metafísicas relativas à “essência das espécies”. que o autor tece de uma ponta a outra de sua obra. como fazem os materialistas mais conseqüentes. fazendo uma crítica às essências como correspondentes às formas perfeitamente delimitadas: As essências eram as formas perfeitas e eternas de Platão.

e esta é a principal metáfora morfológica que perpassa todo o texto deFormação do Brasil Contemporâneo e q ue se desdobra em várias metáforas. mas também pela sua aspiração enquanto teoria capaz de captar a essência de uma nação. tudo são temores de desvio de proveitos para fora da Metrópole. o qual analisa ao longo de seus vários capítulos. O sentido é um projeto de Caio Prado de transcendência do plano material... a seiva da colônia lhe devia pertencer. Mas o modo como ela se desdobra nas condições peculiares da colônia brasileira determina nossa formação. A metáfora formadora depende da idéia de transformação. 1960. aos seu espírito mercantil. seus desdobramentos cíclicos e pela imagem que o traduz. uma relação. essencial. que por sua vez era uma espécie de essência comum a todos os homens naquele momento. muitas vezes mais diretas. ) Fecham-se as portas do Brasil. Ora. para volta rem suas atenções de preferência e cada vez mais acentuadamente para o que verdadeiramente se achava na base daquelas “essências” – para a essência das essências. deixando portanto de lado a consideração das espécies em si. o Sentido é sempre este intermeio. op. como já discutimos anteriormente. Tomo II. fazem-se presentes os conceitos chaves desta obra. como preceituavam suas concepções filosóficas. O Sentido da Colonização.. (Caio Prado Jr. não apenas por sua forma. (. por sua vez. Afinal. Dialética do Conhecimento. enquanto imagem. ajuda-nos a entender sua concepção em 1942. da nação dobrada para fora de si (a dobra é por excelência uma imagem barroca).. Por isso. pp323-4. 87) se cada vez menos com tão misteriosa e indecifrável entidade. é o Sentido a essência que guia toda a empresa colonial. tem também. 325) A idéia de essência. a essência da colonização brasileira vem sempre intercalada à metrópole. Brasiliense. poderíamos dizer – e que eram as relações existentes entre as feições apresentadas pela Realidade concreta e que se estavam considerando e procurando relacionar numa sistemática conceptual. ela se tornará mesquinha. Assim. Até a última gota. o barroco é freqüentemente descrito justamente como a arte da transcendência. Nosso modo de ser formador é a dobra para fora de nós mesmos. No movimento e na relação entre coisas. textos históricos aos quais teve acesso. essência que o autor capta justamente a partir de elementos que seriam materiais.que se desenvolve a partir do sentido e sua relação com a natureza do Brasil nunca é uma forma estanque. cit. SP: Ed. É a essência de tudo o que aqui se desenvolve. 193 . para um plano espiritual. No capítulo “Mineração” vemos a temática vegetal servir para explicitar a dobra exterior formadora da colônia: A avidez que o metal desperta no reino marcará toda sua política daí por diante. um forte apelo barroco. animada unicamente por interesses fiscais. p. Pretendemos elaborar mais esta questão futuramente. desdobrada dez anos depois de FBC nesta obra. (CPJ.

A idéia de seiva da colônia, pelo modo como é desenvolvida aqui, guarda também a fluidez barroca. Todo fluir colonial, sua seiva circulante, deve fluir na direção da metrópole. Note-se, no entanto, que nesta passagem o autor ressalta justamente que são necessários cuidados para que este fluir não se desencaminhe. Tudo são temores de que a preciosa seiva se desvie. Isto porque, dentro da obra de Caio Prado, vimos também que para desenvolver a colônia voltada para fora de si, dobrada sobre o Atlântico, foi necessário desdobrá-la internamente numa estrutura social que cumprisse este papel. E este desdobramento interno traduz-se numa sociedade que cresce, principalmente com a descoberta do ouro, e que num movimento dialético desenvolve dentro de si canais que desviam este sentido único originário. É um movimento que ocorre dentro da dobra exterior, criando uma dobra interior, e que traz transformações dentro da formação. A forma se modifica, principalmente no momento de crise e transição que, como já assinalamos, é o recorte histórico de FBC . Vemos aqui uma bela metáfora que sintetiza este momento:

Todas estas transformações se fazem em contraste frisante com as regiões mineradoras, cujo declínio se torna cada vez mais acentuado. (...) É sensível nelas [nas discussões econômicas] o prestígio da agricultura e a crescente descrença na mineração. O balanço entre ambas, a alternativa e o grande assunto do momento, é quase unânime em favor da primeira. Somente dela se esperava resultados promissores. O país acordará finalmente do seu longo sonho de metais e pedras preciosas. (CPJ, op. cit., p. 132)

Um país que sonha é uma personalização de um país. É portanto uma atribuição de sonhos, pensamentos, enfim, de alma a um país. E alma significa essência, transcendência. O sonho da nação em formação fora até então um sonho de metais e pedras preciosas, nunca um sonho de trabalho coletivo; ao contrário, fora o sonho da riqueza fácil. Daí se deduz uma espécie de personalidade, reflexo de uma alma que Caio Prado traduz em sua metáfora. Atribui-se um caráter à nação, e seu caráter é o caráter idêntico ao que, com tão vivas cores, descrevem muitos historiadores brasileiros: o caráter do colonizador, ávido pela riqueza fácil, movido pela cobiça e principalmente pelo espírito mercantil (para usar a expressão do próprio autor). Mas este é o momento em que o país acorda, note-se. É justamente o momento em que, também segundo Caio Prado forma-se uma atitude mental coletiva

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particular. O momento em que nosso caráter deixa de ter exatamente o caráter determinado pela essência colonizadora. A essência transforma-se, mas continuará a nos influenciar. Afinal, terminado o século do ciclo do ouro, transforma-se a colônia em sede da metrópole, e depois em Império. Mas o movimento cíclico continua nos pés de café que começam a brotar. E na escravidão que continua ainda por décadas. A grande propriedade escravista, a estrutura que melhor traduz a essência, tem ainda muito fôlego. Assim, a metáfora central não é redonda, perfeita. Tem arestas, e estas arestas crescem. Mais uma vez, retomando temas que discutimos anteriormente, mas agora no sentido de organizar esta obra pelo viés de sua metáfora central, estas arestas são resultantes do próprio movimento cíclico da seiva que se volta sobre o solo da metrópole:

Em cada um dos casos que se organizou um ramo da produção brasileira, não se teve em vista outra coisa que a oportunidade momentânea que se apresentava. Para isto, imediatamente, se mobilizam os elementos necessários: povoa-se uma certa área do território mais conveniente com empresários e dirigentes brancos, e trabalhadores escravos – verdadeira turma de trabalho – desbrava-se o solo e instala-se nele o aparelhamento material necessário; e com isto organiza-se a produção. (... ) Depois abandona-se tudo em demanda de outras empresas, outras terras, novas perspectivas. O que fica atrás são restos, farrapos de uma pequena parcela da humanidade em decomposição. (CPJ, op. cit., p. 128)

Surge aí outra imagem importante. A da ruína, dos farrapos, dos humanos em decomposição. Os restos deixados pelos ciclos são restos humanos que, ainda vivos, entram em decomposição, numa contradição fisiológica. Esta metáfora tem um forte nexo imagético com a metáfora da margem, dos humanos desenraizados pelo forte movimento dos ciclos, que passam como rios em época de cheia desbarrancando sua própria margem. Mas, se nesta formulação vamos encontrá-la muito parecida em O. Vianna, a idéia de farrapos humanos em decomposição soa bastante peculiar ao texto caiopradiano. Uma tradução impressionante de um momento que se repete na história, pois é decorrente do movimento contínuo, circular. São imagens que compõem o texto, metáforas ativas, tomando para si significados históricos. Metáfora como esta certamente não tem, no texto de Caio Prado, uma função que se esgota no estabelecimento de analogias. Também não tem função meramente decorativa. A conceituação histórica destes humanos que várias vezes aparecem no texto de Caio Prado, aqueles que são abandonados pelo passar dos ciclos, simplesmente depende destas imagens cridas pelo autor ou

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por ele absorvidas. Neste caso, não há descrição possível que dê ao leitor o tom do que seriam este indivíduos, não fosse a metáfora utilizada. Ao autor, faz-se necessário recorrer à sensibilidade do leitor, para garantir sua compreensão. A imagem da ruína faz-se uma forte metáfora visual, associada, sempre, ao espírito mercantil:

Afinal quando a indústria mineradora da colônia já era uma ruína, e sob seus escombros gemia uma população empobrecida cuja miséria flagrante não podia mais iludir ninguém, nem a miopia da administração nem a inconsciência do ganancioso fisco, veio a reforma. (CPJ, op. cit., p. 177. Grifo meu.)

É a ruína da casa colonial que desmorona, e nesse sentido pode-se dizer que a ruína representa muito bem a desagregação colonial. A metáfora da ruína não é original de caio Prado, poderíamos tê-la associado também a Euclides da Cunha, quando fizemos o cotejo de FBC com a obra deste autor. Porém, é nesta parte de nosso trabalho que esta metáfora se torna mais importante, relacionada a uma metáfora maior – esta sim original – que Caio Prado forma em sua obra. As ruínas da sociedade colonial que se desagrega ciclicamente remetem ao Sentido da Colonização. Edgar S. De Decca analisa as ruínas na história e na literatura, bem como seu papel metafórico nas obras de Euclides da Cunha e José de Alencar. Um exemplo de ser humano em humano de ruínas, comparável aos desclassificados de Caio Prado (“os farrapos”), seria o sertanejo, em Os Sertões :

De acordo com a própria percepção euclidiana, o sertanejo está no ato de enunciação do Brasil sendo ele mesmo um oxímoro, rocha viva. Esta dimensão da natureza e do homem sujeitos à ação destruidora do tempo da história o autor nos sugere antes mesmo de sua obra maior, Os Sertões , ter sido escrita, abrindo horizontes para uma percepção de um Brasil constituído das ruínas do passado. Esta relação de ambivalência das ruínas com a modernidade já habitava a mente de Euclides. Até mesmo outros homens de sua época e outros autores, lidos pelo próprio Euclides, já haviam antecipado a fundação do Brasil assentada nas ruínas do passado. Para não nos estendermos demais no tratamento de outros autores, mencionamos pelo menos a obra literária fundadora d a nacionalidade, O guarani, de José de Alencar. Nela, as ruínas de um passado colonial de traços

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durante os sécs. um momento no qual aquilo que fora o grande empenho minerador. cit. De Decca. p. 202 197 . a montar e desmontar a parte sólida da formação. nas ruínas deixadas pelos ciclo do ouro e outros ciclos.ibéricos vão sendo deixadas para trás em nome de um outro tempo histórico. A ruína é uma temática corrente também nos quadros barrocos12. porém a sobrevivência mais certa é aquela anunciada pelo musgo e pelas loucas urzes. construindo cidades. no momento em que se desfazem os esforços humanos. Literatura em ruínas ou as ruínas na literatura?. . ) Os traços de um grande projeto sobrevivem. povoando localidades. É o tempo. Estabelece-se um equilíbrio em que os poderes antagonistas da natureza e da cultura se reconciliam atrás da nossa passagem.). produziram vários pp. 13 Jean Starobisnki.. cede às forças naturais. Sobrevivência em que se sobrevivência que é esquecimento. A selvageria recupera seu espaço perdido. camponeses e seus cães. O que está em decomposição em FBC? A industria mineradora. que são testemunho da grandeza de uma época.. E a descrição dos humanos que restam nestas 11 Edgar S. op.cit. XVI e XVII.. Pintores como Giovanni Paolo Pannini. Sua metáfora central.nessa obra involuntária o esforço vertical de uma arte de outrora harmoniza-se com as forças naturais de queda e inércia. a força de gravidade desconfigurando as obras humanas. 12 quadros em que se viam as ruínas do Império Romano incorporadas aos campos Italianos. As formas materiais. 11 A ruína em Caio Prado ajuda a formar um imaginário da época. Naxara (orgs. Bresciani & M. 152-3. a essência da colônia – o Sentido da Colonização – sobrevive. descrita da seguinte forma por Jean Starobinski: . São as parcelas da humanidade em decomposição que formarão a grande massa populacional que irá povoar as cidades.. in: S. fundador da nacionalidade. a natureza.. Como em Euclides. que se esvai junto de seu mais portentoso ciclo econômico. e Giovani N. 13 apaga o foi uma intenção humana: Essa descrição de ruína encontra-se em sintonia profunda com as descrições de Caio Prado das Minas gerais após o ciclo do ouro. Servadoni. abrindo trilhas. e em que a selvageria recupera o espaço perdido. op. e sobre as ruínas do Império sentavam -se nessas pinturas jovens donzelas com roupas também barrocas. ou mesmo a estrutura da colônia. não cedem completamente a desordem sem idade (. . A ruína se configura justamente neste jogo entre destruição e permanência. devido ao abandono. é nas ruínas desta colônia. que se edificará o Brasil contemporâneo..

e descrita em A dobra. Diz-se que um labirinto é múltiplo. como se o infinito tivesse dois andares: as redobras da matéria e as dobras na alma. As ruínas possuem a força transcendente da história. A casa barroca é vista por esse filósofo como tendo em um primeiro plano justamente a parte material. séculos depois. desenvolvida por Leibnitz. segundo dois infinitos. como as grandes casa de fazenda em ruínas. conservam ainda o calçamento de grandes pedras ali colocadas por escravos. sendo. a matéria é amontoada de acordo com um primeiro gênero de dobra. A metáfora da ruína cabe bem neste momento em que desmorona a casa material. mas que remete a um tempo que permanece ausente. não por acaso está na metáfora da casa barroca. livro no qual o filósofo Gilles Deleuze desenvolve o tema do barroco com base em referências de Leibnitz: O traço do barroco é dobra que vai ao infinito. em um segundo plano. O múltiplo é não só o que tem muitas partes. mas continuam sendo obras humanas. não só um ar de povo em ruínas.localidades abandonadas pelo ciclo – a população em decomposição – assume também. e. e a natureza forte. com o passar dos séculos. justamente como se descreve a casa barroca em A dobra . do destino. São um povo que se forma no intermeio destas forças: a civilização que por ali esteve de passagem. como as trilhas por onde escoava o ouro até o litoral. a parte espiritual. representam algo que sobreviveu. Em baixo. depois. organizada de acordo com um segundo gênero. uma vez que percorre suas próprias dobras sem chegar a desenvolvê-las inteiramente. Deleuze. porque tem muitas dobras. Uma expressão bem elaborada dessa transcendência. As ruínas. A transcendência da ruína talvez esteja aí. mas que. a alma canta a glória de Deus. A selvageria da população do sertão tem também um nexo com a ruína. uma vez que suas partes constituem órgãos “dobrados diferentemente e mais ou menos desenvolvidos”. Esta transcendência através do tempo está diretamente relacionada à temática da transcendência barroca. mas uma selvageria. As construções em ruínas são as formas materiais que a despeito de sua decadência conservam a grandeza de um época. tomadas pela mata. “pois elas vão ao infinito”. perpetuando-se porém seu plano espiritual. Continuando a refletir no espaço metafórico assim criado. mas o que é dobrado de muitas 198 . etimologicamente. adquirem um aspecto selvagem. pelo filósofo G. podemos pensar na obra de Caio Prado em dois níveis. No alto. Primeiramente ele diferencia as dobras segundo duas direções.

. contém um mundo.maneiras. Se o andar material está em ruínas. 199 . Logicamente. esponjosa ou cavernosa. na matéria em suas partes e o labirinto da liberdade na alma e em seus predicados. (. rodeado e penetrado por um fluido cada vez mais sutil assemelhando-se o conjunto do universo a “um tanque de matéria que contém diferentes flutuações e ondas”15 É o seguinte o modelo da casa barroca de Deleuze. 1991. como pensamos até aqui. a matéria comunica-se constantemente com a alma e o desmoronar 14 Gilles Deleuze.) 14 A matéria apresenta (. corresponde à estrutura da casa barroca.. seu espírito se perpetua. A dobra: Leibniz e o Barroco. Se o Brasil acorda precisamente deste sonho.. num país que sonha com metais e pedras preciosas. visto que está esburacado de passagens irregulares. sempre uma caverna na caverna: cada corpo. ao mesmo tempo que este sentido também se desenvolve num espírito coletivo.13-4. por menor que seja. pp. sem vazio. isto não quer dizer que seja revertido o espírito mercantil. É um desdobramento material do Sentido da Colonização em grande lavoura. Um labirinto corresponde precisamente a cada andar: o labirinto do contínuo.. em escravidão e organizações econômicas. Campinas: Papirus.) uma textura infinitamente porosa. evidenciando os dois planos: A organização da colônia.

permanecem e. primeiro colonial e em seguida imperial16 As linhas que determinaram a economia que aqui se instaura após a chegada da família real e que se perpetuam após a independência. Oferecerão para isto um triste espetáculo humano. o trabalho servil será mesmo a trave mestra de sua estrutura. na porosidade de suas paredes. da construção que ruíra. erigem-se as pilastras da nova sociedade. Podemos interpretar assim esta passagem de Florestan. op. no texto do prefácio que se refere a História e desenvolvimento. no entanto. mais uma vez.. p. o cimento com que se juntarão as peças que as constituem. como a que citaremos a seguir: Muito mais grave...8 200 . relembrando. sobre elas. a metáfora da construção é forte na obras de Caio Prado. e a encontramos também em outras passagens. o sentido da colonização está interligado ao espírito mercantil que se alastra por toda uma etapa do desenvolvimento da humanidade. E. alicerces que 15 16 Id. p. e o exemplo do Brasil. Essas determinações se objetivaram concretamente na natureza e nas funções do capital mercantil na economia escravista. suas fundações. p.16 Florestan Fernandes.cit. Aí vemos a mesma idéia da permanência que temos aqui discutido: As determinações fundantes da economia escravista procediam de dinamismos do antigo regime colonial e do indirect rule que se instaura depois da vinda da família real. continua o capital mercantil a circular pela nação. um exemplo da materialização estrutural do Sentido da Colonização. nas ruínas da mesma casa constrói-se a nova etapa histórica. cit. Elas se formam neste ambiente deletério que ela determina. A casa barroca da colônia é construída justamente sobre os alicerces da escravidão. em seus alicerces.271) Temos aí. Assim. da elevação do Brasil a sede do reinado e da proclamação da independência. A sociedade colonial ruiu.da casa abala o sentido. (CPJ. ibid. fundam -se nos dinamismos do antigo sistema colonial. e seu espírito permanece presente aí. se repete mais ou menos idêntico em todas elas. Mas. contudo. Até a contemporaneidade. foi a escravidão para as nascentes colônias americanas. e podemos concluir que aquilo é construído sobre as fundações de algo que ali pré-existia e que é delimitado pela forma. é importante pensar. que vamos retratar aqui. op. como lembra Florestan Fernandes.

podemos analisar esta obra – seu texto. como esclarecemos anteriormente. narrada. construção e reconstrução. para poder re-significar a seu modo a história do Brasil. Aí. O projeto do autor em seu texto passa. enquanto historiador. e pela atribuição de voz a outros elementos: o vaqueiro. CONSIDERAÇÕES FINAIS: NARRAR E TRANSFORMAR Todo nosso enfoque ao longo desta pesquisa foi a leitura de uma obra monumental. o “sertão” e o Rio de Janeiro. senhores e desclassificados. Uma narrativa que. suas imagens – por meio de categorias e conceitos também da teoria literária. na ótica de Caio Prado. Caio fez. pela desmistificação de cenas e elementos históricos correntemente glorificados pelos historiadores que o antecederam: os bandeirantes. dando de certo modo o tom em que deve ser lida esta obra. Um autor que muito favoreceu nossa reflexão neste sentido foi G. ironizada em passagens de seu texto. des-significar outros: a vinda da família real para o Brasil parece ter. assim como as narrativas literárias. o seu recorte das possibilidades oferecidas pelo arcabouço de coisas disponíveis para serem narradas.. Caio Prado sabe que antes dele a história nacional já começara a ser feita. ou melhor. E o tom dado entre a formação e o sentido fora certamente eficaz na tarefa de combinar acordes tão dissonantes que fizeram a chamada formação: a Amazônia e os campos do Paraná. Ao procurar desvelar suas camadas tivemos uma vaga noção do porte da empreitada – para continuar na terminologia da construção – que seu autor se propôs fazer. E. escravos recém chegados da África e índios. Mas não neste tom.. desenvolve-se com base na verossimilhança.. neste processo. mais importância que a independência. Tomamos o texto histórico como uma narrativa.. entre outras coisas.. seu estilo. Assim. podemos pensar em um nexo entre a formação de Caio Prado e esta eterna edificação. o tom em que deve ser lido aquilo que se considera “ a história”.permanecem mesmo após o desmoronar da casa. Enfim. os desclassificados. foram as metáforas e as imagens as suas grandes aliadas. Lukács 201 . Restituir significados a pontos apagados da história. o colonizador.

a partir das quais podemos pensar o intuito do autor ao escrever a obra que ora analisamos. fazer a seleção dos fatos importantes para a narrativa: Só a práxis humana pode indicar quais tenham sido... ou desenvolve a narração de uma série de acont ecimentos dotados de significação humana. no conjunto das disposições de um caráter humano. é lógico. Há muitas características que dizem respeito ao textos épicos. p.. Lukáks. 202 .17 17 G. temos aí elementos interessantes para. e o faz retrospectivamente.. Só o contacto com a práxis. que influíram de modo determinante sobre os destinos humanos. etc. deste ângulo. e que é a perspectiva pela qual este tipo de texto é narrado. em contraposição à descrição. onde os personagens são o elemento central que dá o desfecho à trama. op. na qual elementos são acrescentados. Retomando o texto Narrar e Descrever . surpreende o leitor. quer objetivamente. O escritor épico que narra uma experiência humana em um acontecimento. como os desclassificados. que corresponde à imprevisibilidade de um jogo em que as cartas não são logo dadas. segundo Luckács. uma vez que se trata de um crítico literário marxista e CPJ sempre se interessou por questões epistemológicas) e. com base em algumas reflexões suas. Há também outro elemento importante a isto associado que se denomina modo narrativo em Narrar e Descrever. e justamente por ter como foco um momento formador é uma narrativa cujo desfecho não está definido. analisar algumas de suas características gerais. 67. É sempre necessário um distanciamento temporal exato para. adotando a perspectiva alcançada no final deles. pretendemos iniciar nosso comentários finais. que como vimos surgem em um momento avançado da obra e assumem papel central no seu desdobramento. No entanto. cit. Características como esta. a partir do momento em que decidimos tomar o texto histórico deFormação do Brasil Contemporâneo enquanto narrativa. só a completa concatenação das paixões e das variadas ações dos homens pode mostrar quais tenham sido as coisas. as qualidades importantes e decisivas. compõem. Não se trata aqui. torna clara e compreensível para o leitor a seleção do essencial que já foi operada pela vida mesma.(que pode ter sido lido por nosso autor. (. as instituições. arte narrativa. quer subjetiva. de uma narrativa fictícia. trata-se de uma narrativa sobre um momento formador.) É a própria vida que tem realizado a seleção dos momentos essenciais do homem no mundo.

um meio de composição fundamental. XVIII. Há ainda outro ponto relativo a esta análise Lukacsiana que merece ser levantado com relação a FBC. vemos surgir surpresas. que seleciona acontecimentos. captar justamente o essencial. Ora.À narrativa épica. portanto. ou ao menos constatamos que muitas das imagens da obra são montadas em termos épicos. XIX. XX ainda era publicada na revista do IHGB. a história factual que no início do séc. Este gênero podemos comparar talvez à história desenvolvida por cronistas. a partir desta seleção de fatos fundamentais. ao longo de nosso trabalho. O caráter “passado” desta narrativa épica seria. em muitas descrições particulares efetiva-se sua predisposição para este gênero narrativo. vistos à distância certa. O recorte temporal – fim do séc. mesmo no interior da obra. sem uma hierarquização das coisas. Mas. neste espaço de tempo selecionado como decisivo. quando a chegada da família real ganha mais importância que a própria independência – é um exemplo de seleção do essencial feita pelo autor que “observa” uma série de acontecimentos e faz a sua escolha. pois o tempo se encarregaria de selecionar os fatos. Os já célebres desclassificados que de um momento ao outro tomam a narrativa de Caio Prado de assalto. em que os relatos são feitos no tempo dos acontecimentos.18 vemos um certo gosto de Caio Prado por esse gênero. Além disso. O distanciamento temporal de mais de um século tem por objetivo perceber. Esta obra é uma narrativa cujo desfecho não está dado de início. com base nas características estilísticas que analisamos principalmente no cotejo com o texto de Euclides da Cunha através de sintomáticas passagens nas quais o autor descreve a “epopéia” do gado. Lukács contrapõe a narrativa que denomina descritiva. ou ainda o ciclo do ouro e o sertanejo vagando atrás de seu gado selvagem. os elementos fundamentais. que ao contrário das narrativas fictícias não costuma mesmo ser definido quando acabamos de ler a obra. O objetivo desta narrativa não é outro senão. torna claro e compreensível ao leitor “o essencial”. Além das características gerais da obra que traçamos acima. Épica é a luta do homem contra o rio Amazonas. início do séc. procuramos em diversas partes demonstrar que é justamente este o procedimento caiopradiano emFormação do Brasil Contemporâneo. onde a essência – o Sentido da Colonização – se faz presente. são um 203 . não está decidido. Referimo -nos ao desfecho histórico. recorta. a “epopéia” dos viajantes pelas estradas coloniais.

O texto de FBC. para o nosso foco analítico. em que o desfecho futuro nos é dado nas primeiras linhas: Em outras palavras: não se narra como um homem chega a se adaptar gradualmente. nos muitos momentos em que se utilizam modos e formais em descrições nas quais até o leitor é exortado a participar. ao capitalismo “acabado” de vez que o personagem revela desde o início traços que só deveriam aparecer nele como um resultado de todo o processo. podemos ainda tirar deste texto uma conclusão importante. Como vemos na seguinte passagem de “Narrar e Descrever”. muitas vezes o narrador participa da ação. enfraquecido e abstratamente subjetivizado ao longo do romance.cit. In Caio Prado Jr. e vai além de uma posição fatalista com relação aos fatos narrados. a esta imprevisibilidade do desfecho da obra. elemento crucial que queremos agora analisar. em uma narrativa. Mas voltemos ao desfecho histórico. uma espécie de atitude.. para Lukács. (. entendam que o novo entusiasmo descritivo que então surgia era literariamente pobre.. O dilema entre narrar e descrever pode ser entendido também como um dilema entre participar e observar. podemos aí ter talvez uma resposta sobre porque aparecem eles só no final da obra – são um resultado de todo o processo. seja pela própria postura de seu escritor (pois afinal é impossível isolar o autor do texto. tem o claro objetivo de ligar a descrição a uma literatura burguesa. e o termo surge mais de uma vez. e o resultado. O dilema entre narrar e descrever que vemos no texto citado acima.) O fatalismo dos escritores e a capitulação deles – ainda que a contragosto – em face da inumanidade no capitalismo determinam a ausência de efetiva evolução nestes “romances evolutivos”19 Voltando ao caso dos desclassificados. – op. Por isso. e se autor e escritor não são a 18 Ver capítulo “Vias de comunicação e transporte”. A narrativa é muito mais viva. para que os autores contemporâneos a Lukács. no curso do romance. da maneira como é posto. é contraposta a escrita descritiva. onde aparecem diversas descrições epopéicas. Num texto épico. No entanto. principalmente os Russos. o sentimento vem diluído. característica da narrativa épica. seja por flagrantes posturas narrativas.elemento surpreendente pela importância que assumem e constituem algo inimaginável para o leitor que leu apenas o capítulo “O Sentido da Colonização”. como vemos no texto de Caio Prado. não vem antes dos elementos essenciais que o fizeram ser daquele modo. É este modo narrativo. 204 .

19 20 Georg Lukács. Até fim do XIV o séc. Não é só o tom da n arrativa que determina a participação do leitor na ação da obra. numa posição ainda mais aberta à participação. é justamente a trajetória de Portugal. . na segunda pessoa do plural. no entanto. Caio Prado acredita que “o sentido da evolução de um povo pode variar”: O sentido da história de um povo pode variar.cit. (. 19-20. No alvorecer do séc.20 (Note-se aí o que o autor. pela forma verbal que usa.. transformações internas profundas do seu equilíbrio ou estrutura. (. O sentido da evolução do Brasil. não tardará com suas empresas e conquistas no ultramar. Nós não estamos condenados ao Sentido da Colonização. op. e mesmo no final continua em aberto. desviando-o para outras vias até então ignoradas. não teve ainda. acontecimentos estranhos a ele. para se constituir contra a invasão árabe.cit. Portugal nos traz disto um exemplo frisante que para nós é quase doméstico. p. a história portuguesa se define pela formação de uma nova nação européia.) Portugal se vai transformar num país marítimo. desde a era colonial. op. como por exemplo a proposição de Euclides da Cunha: Estamos condenados à civilização . Seu intuito. é certo.. e desde a constituição da monarquia. desliga-se por assim dizer do ocidente. XV a história de Portugal teria mudado de rumo. no plano da luta que teve de sustentar.) aí ainda está. pp. Com a unificação territorial e a formação das fronteiras do Reino. Portugal torna-se um país marítimo e volta-se para uma nova fase de sua história. p.. Grifo meu.) No alvorecer do séc. mas presente em traços que não se deixam iludir. ao narrar o Sentido da Colonização. O exemplo máximo dado em FBC de que o sentido de um povo pode variar. . op. irreparável. (. e bem saliente. aquele passado colonial (.. ou de que a essência de sua evolução pode transformar-se. Isto a coloca. e volta-se para o Oceano que se abria para o outro lado. agora. (CPJ. a dos descobrimentos.. está colocado no campo da participação narrativa. XV a história portuguesa muda de rumo.. 88 CPJ.9 205 . em parte modificado..mesma coisa. também não são figuras insulares). seu ponto de mutação: O passado. em se tornar uma grande potência colonial. poderão intervir. cit. é também exortar a participação do Leitor. das obras cujo desfecho não está definido desde o início.. e articula-se na evolução geral da civilização do Ocidente de que faz parte.) Numa palavra não completamos ainda hoje a nossa evolução de economia colonial para nacional.) Por isso o sentido da colonização não é algo fatalista. ou mesmo ambas estas circunstâncias conjuntamente.

é neste ponto da história que “nosso sentido” materializa-se e. mas nenhuma pergunta. como vimos anteriormente em outro texto de Lukács: Ser e destino. justamente por isso. Ainda que primeiramente o autor tenha feito sua pesquisa e depois descoberto.. No entanto. teria de conduzir à superficialidade. a transição para o séc. ao longo dos vários capítulos deFormação do Brasil Contemporâneo. e nela inclui ainda seu leitor). Ao desdobrar. e mesmo seu procedimento de nos apresentar. mas nenhum enigma. depois seus porquês. A Teoria do romance. à partir da atualização do paradoxo. Logo no capítulo inicial vemos a famosa definição do Sentido da Colonização: Se vamos à essência da nossa formação veremos que na verdade nos constituímos 21 G. palpável do Sentido da Colonização para. Lukács. mas nenhum caos. 27 206 . cit.. primeiro nosso sentido. Pois a pergunta da qual nasce a epopéia como resposta configuradora é: Como pode a vida tornar-se essencial ? ( . XIX. afinal. aventura e perfeição. materializa-se a essência. assim podemos abordar aqui o segredo do helenismo. somente formas. ao escrever sua obra pode tre sido justamente este. sua perfeição que nos parece impensável e a sua estranheza intransponível para nós: o grego conhece somente respostas. na decadência da mina e na permanência da grande lavoura escravista. equivale a uma elaboração de sua obra com base em uma resposta. na ordem de sua obra.participa da ação. qual era nosso caráter essencial. é a partir da solução para sua pergunta que sua obra é elaborada. direta ou indiretamente frutos do espírito que guiara a colônia desde seus primeiros dias. e tudo o que. a partir da compreensão de seus desdobramentos. o objetivo do autor passa por mostrar o caráter vivo. seria justamente “um elo” da mesma cadeia que nos traz desde nosso passado remoto. mais vulneráveis.. Podemos dizer que o processo de traduzir a essência em formação é um processo epopéico. p. vida e essência são conceitos idênticos. Ou seja. O intuito de Caio Prado Jr. somente soluções (mesmo que enigmáticas). 21 Esse intuito de Caio Prado de tornar a essência viva. mostram-se seus desdobramentos vivos e.) Se quisermos. op. levao à perfeição. O momento escolhido para iniciar sua narrativa da formação. pode ser mostrado em seu caráter mais palpável. tantos elementos que ele considerava manifestações palpáveis do Sentido da Colonização.. destituí-lo da função de sentido. Ele ainda traça o círculo configurador das formas aquém do paradoxo.

onde estão os grandes personagens? Ou ao menos os personagens importantes? Reside aí uma diferença. p. mais tarde ouro e diamantes (. a incapacidade de organização nesta sociedade caótica que se instalara nas minas. tabaco. (Se vamos à essência. p. (CPJ. o tom que inclui também o leitor.. Está lançada a nossa epopéia. O próprio rei que para cá se muda com a corte praticamente não é citado. também.para fornecer açúcar. O autor está falando. davam -se a mão para completar o desastre.. Por isso. ele também pode ser o responsável pelo desfecho desta narrativa. É essa a razão pela qual. O seu intuito enquanto obra é justamente formador: formar personagens históricos. Trata-se de uma narrativa épica. 32 207 . se é esta uma narrativa épica. E 22 CPJ.. cit. que se desdobra ao longo das páginas que se seguem. A ignorância. assim como o Marquês de Pombal. ) são estratégicas. que por sua vez está incluído nesta trajetória que até então foi trágica. a rotina.) Nada mais que isto. para o leitor. diretamente a seu leitor.. que no caso somos nós. ele usa o verbo num tom capaz de incluir tanto o leitor quanto o narrador na ação. Justamente por isso. 22 Nesta explicação está traçada.cit. Viajantes como Koster e Vilhena recebem muito mais referências em meio ao texto. no compartilhar de um mesmo sentimento. na obra. na obra. é sempre uma coisa una. nesta passagem nosso autor usa o tom participativo. por sua vez. um mal-estar em seu leitor. op. Não por acaso. digna das principais passagens irônicas da obra. em todos estes trechos. alguns outros gêneros. O objetivo do autor pode ser justamente o de gerar uma certa inquietação. A epopéia de Caio Prado carece ainda de personagens.171) Porém. capazes de reverter a frase de Couty – Le Brésil n’a pas de peuple – e de reverter. A administração metropolitana. e nos restos satisfazer o apetite moderado de aventureiros. passagens como a que citamos anteriormente. op. o próprio Sentido da Colonização.. . e cuja constituição não fora condicionada por outro critério que dar quintos a um rei esbanjador e à sua corte de parasitas. Note-se que há nesta obra um certo vácuo com relação aos personagens clássicos deste período. uma importante resposta histórica. da trajetória de um povo. aí.

Roberto Vecchi. podem ser vistos como ferramentas deste entendimento da nacionalidade. “A insustentável leveza do passado que não passa: sentimento e ressentimento do tempo dentro e fora do cânone modernista”. no fundo. vem Caio Prado Jr. diz o seguinte O que importa. problemático da modernidade. p. p11 24 Roberto Vecchi. in: Stella Bresciani e Márcia Naxara (orgs. ainda que por um viés metafórico? 24 Ora.). fundados sobre a diferença ou uma pseudodiferença? E se assim for. 457 (Grifo meu. O que lançamos aqui é apenas uma hipótese interpretativa deFormação do Brasil Contemporâneo elaborada a partir deste viés. em que certamente já se formava uma classe cada vez maior de leitores no Brasil.. um ressentimento.Ele enfatiza a permanência de um nexo colonial que muitos investigadores consideram extintos. particularmente históricos. assim como o recorda e refunda Nietzsche em A Genealogia da Moral. aos seus contemporâneos: “somos todos uns colonizados”23.. Esta temática. sempre interligado à Formação. Estas metáforas funcionam emFormação do Brasil Contemporâneo de modo análogo ao funcionamento metafórico interno de Raízes do Brasil. cit.) 208 . ligada aos discursos do ressentimento na história. tem o claro intuito de tocar a sensibilidade destas pessoas.) a construção simbólica e ideológica da nacionalidade precisam do ressentimento para forjar um seu próprio repertório auto-representativo de signos e imagens. faz indagações justamente neste sentido a respeito da obra de Sérgio Buarque de Holanda: Enquanto sentimento. em artigo que faz parte do livro Memória e (res)sentimento. tem sido amplamente discutida. a metáfora central de Caio Prado.cit. lido num momento de profundas transformações sociais. o ressentimento talvez proporcione um questionamento original e originário sobre a própria modernidade. Em um momento em que o Brasil ainda sentia o gosto da efervescência modernista. justamente a respeito desta permanência de vínculos coloniais apontada pelo autor. pelo contrário. 23 Florestan Fernandes. visando reverter a condição que se encontra ali descrita. a metáfora de uma condição psicológica ou. Gera uma certa angústia.isto. op. e este é um sentimento que tem sido associado a mudanças em configurações históricas. num momento que vem depois do movimento modernista.. arrastando consigo inquietações profundas e em nada pacíficas que nos parecem até de algum modo aporias: será que o ressentimento como sentimento do dominado é próprio de uma determinada fase da condição colonial ou do processo de superação dessa condição? E de que modo (. o Sentido da Colonização. o ressentimento de que estamos falando é. neste caso é que Caio botou o dedo na ferida. possui o potencial de ferramenta crítica transdisciplinar. e diz. op. basicamente.. In: “Os enigmas do círculo vicioso”.

viu-se como escritor capaz de mostrar ao país suas feridas da alma.Lembrando-nos do que diz Vecchi em seu artigo. sobretudo. pode-se dizer que elas são instrumentos que permitem explicar o processo de colonização do Brasil desde as origens e os porquês de sua má formação até o momento presente. Talvez estes autores não tenham formulado para si a questão nestes termos. e que permitem. mostrar as marcas do nosso passado colonial. O ressentimento é assim uma arma. uma estratégia. mas certamente Caio Prado Jr. 209 .

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